sábado, 21 de maio de 2011

Esquisita

Ilustração: Pakayla Biehn 

E se me achar esquisita, respeite também.
Até eu fui obrigada a me respeitar.

- Clarice Lispector

RT @delucca @emmanuel_neo ;-)

Os acrobatas


Subamos!
Subamos acima
Subamos além, subamos
Acima do além, subamos!
Com a posse física dos braços
Inelutavelmente galgaremos
O grande mar de estrelas
Através de milênios de luz.

Subamos!
Como dois atletas
O rosto petrificado
No pálido sorriso do esforço
Subamos acima
Com a posse física dos braços
E os músculos desmesurados
Na calma convulsa da ascensão.

Oh, acima
Mais longe que tudo
Além, mais longe que acima do além!
Como dois acrobatas
Subamos, lentíssimos
Lá onde o infinito
De tão infinito
Nem mais nome tem
Subamos!

Tensos
Pela corda luminosa
Que pende invisível
E cujos nós são astros
Queimando nas mãos
Subamos à tona
Do grande mar de estrelas
Onde dorme a noite
Subamos!

Tu e eu, herméticos
As nádegas duras
A carótida nodosa
Na fibra do pescoço
Os pés agudos em ponta.

Como no espasmo.

E quando
Lá, acima
Além, mais longe que acima do além
Adiante do véu de Betelgeuse
Depois do país de Altair
Sobre o cérebro de Deus

Num último impulso
Libertados do espírito
Despojados da carne
Nós nos possuiremos.

E morreremos
Morreremos alto, imensamente
IMENSAMENTE ALTO.

- Vinicius de Moraes

Crescimento e criatividade

Escultura: Jen Stark

Os evangelhos oferecem-nos diversas chaves para entender como as primeiras comunidades cristãs começaram o seu percurso histórico sem a presença de Jesus à frente dos Seus seguidores. Talvez não tenha sido tudo tão fácil como, às vezes, imaginamos. Como entenderam e viveram a sua relação com Ele, após seu desaparecimento da terra?

Mateus não diz uma palavra sobre a Sua ascensão ao céu. Termina o seu evangelho com uma cena de despedida numa montanha da Galileia na qual Jesus lhes faz esta solene promessa: «Sabei que Eu estou com vós todos os dias até ao fim do mundo». Os discípulos não têm de sentir a Sua ausência. Jesus estará sempre com eles. Mas como?

Lucas oferece uma visão diferente. É a cena final do seu evangelho, Jesus «separa-se deles subindo em direção ao céu». Os discípulos têm de aceitar com todo o realismo a separação: Jesus vive já no mistério de Deus. Mas, sobe ao Pai «abençoando» aos Seus. Os Seus seguidores iniciam o seu caminho protegidos por aquela bênção com a qual Jesus curava os doentes, perdoava os pecadores e acariciava os pequenos.

O evangelista João coloca na boca de Jesus umas palavras que propõe outra chave. Ao despedir-se dos seus, Jesus diz-lhes: «Vou para o Pai e vós estais tristes... No entanto, é conveniente que Eu parta para que recebais o Espírito Santo». A tristeza dos discípulos é explicável. Desejam a segurança que lhes dá ter a Jesus sempre junto a eles. É a tentação de viver de forma infantil sob a proteção do Mestre.

A resposta de Jesus mostra uma sábia pedagogia. A Sua ausência fará crescer a maturidade dos Seus seguidores. Deixa-lhe a marca do Seu Espírito. Será Ele quem, na Sua ausência, promoverá o crescimento responsável e adulto dos seus. É bom recordá-lo em tempos em que parece crescer entre nós o medo à criatividade, a tentação do imobilismo ou a nostalgia por um cristianismo pensado para outros tempos e outra cultura.

Nós, cristãos, já caímos mais de uma vez ao largo da história na tentação de viver o seguir a Jesus de forma infantil. A festa da Ascensão do Senhor recorda-nos que, terminada a presença histórica de Jesus, vivemos "o tempo do Espírito", tempo de criatividade e de crescimento responsável. O Espírito proporciona-nos aos seguidores de Jesus "receitas eternas". Dá-nos a luz e alento para ir procurando caminhos sempre novos para reproduzir hoje a Sua atuação. Assim conduz-nos para a verdade completa de Jesus.

- José Antonio Pagola, teólogo e biblista espanhol
Reproduzido via Adital, com grifos nossos
Tradução: Antonio Manuel Álvarez Pérez

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Da grandeza das coisas

Ilustração: Goro Fujita

"Não podemos fazer grandes coisas na terra.
Tudo o que podemos fazer são pequenas coisas com muito amor."

- Madre Teresa de Calcutá

"Nossos filhos são uma história completamente diferente"


Porque ninguém nasce homofóbico.

(Desconheço o propósito original do vídeo - foi postado no You Tube sem nenhuma descrição - mas creio que a mensagem se aplica, não? :-)))

O Google entra na campanha 'It Gets Better'


E, pouco tempo depois de sair o trailer da versão brasileira, mais um participante de peso entrou com tudo na campanha It gets better: o Google.

Se alguém souber de uma versão legendada desse vídeo, agradecemos. É sempre melhor quando dá pra entender direitinho. :-)

Padre coordena grupo que lançou consultoria online para público LGBT

Ilustração: Esther Aarts

Publicado há pouco no jornal O Globo:

RIO - Entre os religiosos que defendem o reconhecimento dos direitos dos homossexuais, o padre Luís Corrêa Lima, professor do Departamento de Teologia da PUC, ressalta que o Brasil não está longe da questão do batismo de crianças criadas por casal homoafetivo. E defende que convém considerar o que for melhor para a criança. Luís Corrêa Lima dirige o Grupo de Pesquisa Diversidade Sexual, Cidadania e Religião da PUC, formado por professores e alunos de teologia, psicologia e pedagogia.

NOVO OLHAR: Padre contraria CNBB e elogia decisão do Supremo de reconhecer união de casais homossexuais

O grupo acaba de lançar um serviço de consultoria online para público LGBT, no portal Amai-Vos. Ali a pessoa pode tirar dúvidas sobre como proceder em questões ligadas à violência, direitos humanos, religião e espiritualidade. Entre os colunistas do site estão Frei Betto, Leonardo Boff, Luiz Eduardo Soares e Luiz Paulo Horta.

Confira a entrevista com o padre Luís Correa Lima:

O GLOBO - O Grupo de Pesquisa Diversidade Sexual, Cidadania e Religião sofreu alguma resistência dentro da Igreja Católica do Brasil?

LCL - Felizmente, não. Nós estamos em uma universidade, onde a liberdade acadêmica é fundamental para a produção do conhecimento, que se realiza através de debates, pesquisas, eventos e publicações.

O GLOBO - Como o senhor recebeu a decisão do Supremo quanto à união civil homoafetiva?

LCL -Há coisas positivas nesta decisão. Ao contrário do senso comum, existem elementos de convergência entre a decisão do Supremo e a doutrina da Igreja. Um documento do Vaticano, de 2003, trata do reconhecimento civil da união entre pessoas do mesmo sexo. Ele se opõe à equiparação desta forma de união àquela entre homem e mulher, bem como a mudanças no direito familiar neste sentido. No entanto, o Vaticano afirma que se podem reconhecer direitos decorrentes da convivência homossexual.

Este passo é muito importante. Se não houver nenhum reconhecimento social ou proteção legal às uniões homoafetivas, a homofobia presente na sociedade vai pressionar os gays a contraírem uniões héteros, para fugirem de um preconceito que é muito forte. Isto já acontece há séculos, traz muito sofrimento e precisa parar. O sacramento do matrimônio nestas circunstâncias é inválido. É preciso que os fiéis saibam disto. O casamento tradicional não é, de modo algum, solução para a pessoa homossexual.

O GLOBO - A posição da CNBB, expresso em documento público, é consensual?

LCL - Tudo indica que sim, por ser da Presidência da entidade. Alguns bispos individualmente se manifestaram a favor de direitos dos conviventes homossexuais, mas frisando que não se deve considerar esta convivência como família.

O GLOBO - Como o senhor se posiciona sobre o casamento religioso entre pessoas do mesmo sexo?

LCL - O casamento religioso está fortemente enraizado na tradição judaico-cristã, que desde os tempos bíblicos é heterossexual. Em países escandinavos e em regiões onde as uniões homoafetivas são comuns, igrejas como a Anglicana e a Luterana realizam bênçãos para estes conviventes, embora distinguindo estas uniões do casamento. Mudanças na tradição não são impossíveis de acontecer, mas é difícil saber o que vai permanecer, o que vai mudar e quanto tempo vai levar.

O GLOBO - O senhor defende o batismo de crianças criadas por casais homoafetivos?

LCL - O número de crianças criadas por casais homoafetivos não é muito. Mas este número deve aumentar devido ao crescente reconhecimento destas uniões. Os bispos americanos se depararam com esta questão em 2006. Eles se posicionaram contra este tipo de paternidade, chamada homoparentalidade. Mas aceitam que estas crianças sejam batizadas desde que possam ser educadas na fé da Igreja. No Brasil, não estamos longe desta questão e convém considerar o que for melhor para a criança.

* * *

É também por sacerdotes sérios como este que insistimos em fazer parte da Igreja, apesar de toda a dificuldade. A estes o nosso obrigado, por serem exemplos de Bons Pastores nesta semana temática.

"Por que os casais hetero não querem e os gays querem?"

Silhueta de papel: Joe Bagley

Nosso amigo Teleny escreveu recentemente, em artigo que reproduzimos aqui, "sobre as primeiras (moderadas, mas de certo modo, positivas) reações de alguns bispos católicos, ao reconhecimento (pelo STF) da união homoafetiva como legítima. Mais tarde, veio a nota oficial da CNBB (comentada aqui) que, literalmente, detona aquelas primeiras reações dos bispos e acaba com a nossa ilusão de um clima diferente naquele meio.

Existem, entretanto, algumas vozes da Igreja que ressoam em tom diferente. No site da própria CNBB encontrei um pequeno artigo de Dom Aloísio Roque Oppermann, Arcebispo de Uberaba, MG. O tamanho do texto permite a sua transcrição no blog (com grifos nossos). Quem quiser conferir se é verdade, acesse o site da CNBB (aqui). Confesso que li a coisa várias vezes e, a conclusão a qual cheguei é que o Dom Aloísio Roque seria o primeiro bispo católico no Brasil, pronto para abençoar o casamento de pessoas do mesmo sexo. Sei que, no momento, isso não é possível, mas leiam, vocês mesmos, o que ele escreveu. Não é verdade que o bispo expressa sua admiração pelos gays?"

Parece-nos que a parte destacada, sobre receber a bênção de Deus, fica em aberto a respeito de casais héteros e homos. Talvez seja uma estratégia para evitar problemas maiores. Mas é inegável que ler uma posição, senão francamente simpática, pelo menos mais neutra, em pleno site da CNBB, já é um alento.

Nos tempos atuais, sobretudo no meio urbano, moços e moças, não fazem muita força para se casar “de papel passado”. A multidão dos que apenas “ajuntam os trapos”, e vão morar juntos, cresce de ano para ano. Basta percorrer um bairro novo. Parece que os jovens temem assumir compromissos definitivos. O computador que hoje é o último grito, amanhã vai para o aterro sanitário. Os parceiros, convidados para uma “união no Senhor”, parecem preferir a provisoriedade. Ademais, as leis civis embaralharam tanto o direito da família, que ninguém mais precisa casar perante a lei. A legislação não favorece a estabilidade familiar. Caso queiram um documento de união civil, basta dirigir-se ao poder público, que o atestado será fornecido em pouco tempo. E logo em seguida, caso o considerarem necessário, podem obter o “divórcio instantâneo”, sem problema. Por que ainda casar, se a nova geração não sente mais utilidade no reconhecimento público da sociedade? E vejam que ainda nem estou falando do casamento religioso.

Agora vejam a luta dos gays. Querem que suas uniões sejam equiparadas às de uma família tradicional. Querem que existam leis que garantam a herança para o parceiro; que cada qual possa ter acesso ao sistema de saúde; que possam adotar crianças... Eles sabem se mexer. Mas não é este seu objetivo principal. Onde querem chegar, é obter o reconhecimento público da sociedade. É exatamente o que “homem e mulher”, no casamento tradicional, julgam poder dispensar. A aprovação pública de casamentos heterossexuais não é apenas útil, mas uma garantia para a estabilidade da família. A legislação civil não se ocupa em facilitar a perenidade da família. Sua maior preocupação é criar leis que facilitem qualquer veleidade de separação. Agora digo uma coisa. Para quem tem fé cristã, e tem verdadeiro amor ao parceiro, receber a bênção de Deus se torna um imperativo categórico. Isso vem em primeiro lugar. Também casar perante a lei civil é de grande valor. Mas vem em segundo lugar.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Nenhum homem deve ser considerado profano ou impuro

Ilustração: Nikki Rosato

Um belo exemplo para a Igreja de hoje nas palavras e atitudes de Pedro, "o primeiro Papa":

"24. No outro dia chegaram a Cesaréia. Cornélio os estava esperando, tendo convidado os seus parentes e amigos mais íntimos.
25. Quando Pedro estava para entrar, Cornélio saiu a recebê-lo e prostrou-se aos seus pés para adorá-lo.
26. Pedro, porém, o ergueu, dizendo: Levanta-te! Também eu sou um homem!
27. E, falando com ele, entrou e achou ali muitas pessoas que se tinham reunido e disse:
28. Vós sabeis que é proibido a um judeu aproximar-se dum estrangeiro ou ir à sua casa. Todavia, Deus me mostrou que nenhum homem deve ser considerado profano ou impuro.
29. Por isso vim sem hesitar, logo que fui chamado. Pergunto, pois, por que motivo me chamastes."

At 10, 28

Uma revoltinha, pra chacoalhar o coração


Ilustração: J. Tenniel

Não tenho muita certeza, mas ando desconfiando que uma certa rabugisse jornalística toma conta de mim. Normalmente, quando vejo qualquer mídia se referindo ao comportamento gay, me sinto como o ET de Varginha assistindo o Arquivo X. Mas hoje, especificamente hoje, o Extra online me deu nos nervos com a seguinte manchete:

Crime no motel: Loura Fatal 
tinha namorada


Bom, não vamos entrar no mérito da questão do que a levou a matar alguém, porque isso, sinceramente, só ela que sabe. Também não está em discussão se ela é mais ou menos sã. O problema é ler, na chamada desse desastre jornalístico, que ela tinha namorada, como se isso fosse toda a explicação pra ela enforcar alguém num motel. Será o Benedito que nem depois de explorar o 17 de maio a torto e a direito, a imprensa continua achando e contribuindo para o estigma bolsonarizante de que toda lésbica é uma assassina violenta em potencial??? "Ah...tudo se explica, agora... Ela era sapatão!"

Passamos por um momento limite na sociedade exatamente por falta de limites. Não sou a favor de palmada em filho nem de censura de qualquer espécie à imprensa, mas precisa haver um cuidado editorial com esse tipo de chamada. Segundo o mesmo jornalista que escreveu a matéria, essa menina era conhecida pelos vizinhos e colegas pela falta de cuidado com que sua educação (no mais amplo sentido que o termo "educação" possa ter) era construída, vivia em uma família sem estrutura, na qual cada um tocava sua vida sem que o outro se metesse ou mesmo acompanhasse o que acontecia. Mais uma vez, vou puxar a reflexão para a família, que é nosso mote católico aqui: NÃO PODE SER ESSE TOTAL DESCASO, A BASE PARA O NOSSO FUTURO COMO SOCIEDADE. O conceito de família, antes de estar associado ao gênero dos cônjuges, precisa passar pelo amor e pelo cuidado. Precisa haver carinho e construção de cumplicidade e limites para que, dentro de um grupo familiar, um possa ser verdadeiramente o porto seguro do outro, para que haja confiança entre todos, para que todos se conheçam e os mais novos tenham base para construir um ambiente sadio para as próximas gerações que virão. O impressionante é que tudo isso independe completamente da orientação sexual de quem quer que seja; pais, mães, filhos ou mesmo pets!

Em vez de "Crime no motel: Loura fatal tinha namorada", o Extra poderia ter escrito "Crime no motel: Adolescente completamente perdida comete cagada ensaiada". Mas isso, provavelmente, atrairia menos publicidade para o jornal.

Com alguma indignação, mas ainda muito amor - porque até aqui nos ajudou (muito) o Senhor,
Zu.

Rio de Janeiro e Cidadania LGBT




Como todos estão acompanhando, o Rio vem fazendo jus ao titulo de principal destino LGBT do mundo (embora haja controvérsias) rs!

Mas é inegável que a CEDS (Coordenadoria Especial de Diversidade Sexual) da prefeitura do Rio vem fazendo um trabalho que é exemplo pra todo o país. Divulgue o site:

http://www.cedsrio.com.br/home.html

Hoje no Globo você pode conferir o apanhado de iniciativas da CEDS, clicando aqui.

Cientistas gays isolam gene cristão


Este vídeo é antigo, mas recebi ontem de um amigo, acompanhado de um comentário sobre a falta de diálogo. De fato.

A piada aqui (sim, é um programa humorístico, não um noticiário de verdade) é justamente com o discurso de buscar na genética a origem do "mal" da homossexualidade, com a perigosa implicação da possibilidade de uma eugenia - uma "limpeza étnica": vamos localizar o gene gay, isolá-lo, fazer testes nos fetos e, com isso, riscar do mapa a ameaça de termos filhos gays. É com esse tipo de discurso que o vídeo brinca, mostrando que somos gays, ou somos católicos, ou qualquer outra coisa que sejamos (ou estejamos sendo), por uma conjunção de fatores genéticos, biológicos, culturais, psicológicos, ambientais, sociológicos, antropológicos, e não dá pra reduzir a uma origem só, e muito menos aprisionar num rótulo qualquer, ou atar a uma determinada explicação ou justificativa, seja lá com o intuito que for.

Não adianta. A gente é mais livre que isso. ;-)

''Encontramos Deus em nossa própria humanidade''

Óleo sobre madeira: Mary Jane Ansell

"O Evangelho tem algo muito forte, muito duro, que não cabe em nossa cabeça. A partir do primeiro Natal que houve na história, Deus já não é encontrado no forte, mas sim no frágil. Desde o momento em que Jesus veio a este mundo, encontramos Deus em nossa própria humanidade."

A reflexão é do teólogo espanhol José María Castillo, em artigo publicado no sítio Religión Digital, 08-12-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o texto.

Não falo de males e de catástrofes, que já temos muitos. E muito falamos de nossas desgraças. Melhor seria se tivéssemos uma visão positiva e esperançosa da vida e das coisas. Por isso, hoje, proponho que pensemos no dano que a todos nos causa o medo que temos à nossa própria humanidade. Porque estou persuadido de que, nesse medo, está a explicação e a raiz de tantas torpezas e maldades que poderiam e que teriam que ser evitadas.

Desde a noite de Natal até o Dia dos Reis, os cristãos recordam uma série de episódios nos quais é fácil indicar o que há de lenda e o que há de verdade nesses relatos. Os estudiosos quebram a cabeça tentando decifrar cada detalhe e não conseguem se pôr de acordo. Mas, em todo o caso, o que há de certo (para um cristão) nos evangelhos da infância (Mt 1-2; Lc 1-2), é que "o divino" (Deus, em definitiva) se deu a conhecer, se fez presente e se manifestou no "humano". E precisamente no mais humano: uma criança, de condição humilde e em circunstâncias de despojo, desamparo e perseguição à morte.

Sem dúvida, como se sabe, a historicidade desses fatos é questionada por não poucos pontos de vista e em muitos de seus detalhes. Mas isso é o que menos importa neste momento. Não esqueçamos que os evangelhos não são primordialmente "livros de história", mas neles nos é oferecida uma "mensagem religiosa". E isso é o que interesse ao fiel. Ou é isso o que lhe deve interessar.

Pois bem, a "mensagem religiosa" dos evangelhos da infância é obstinadamente clara e provocativa. É a mensagem que nos diz isto: "o divino" se encontra no "humano". No mais humano, isto é, no frágil, no marginal, no excluído e até no perseguido. "O divino" não se fez presente no portentoso, no milagroso, no surpreendente, como aconteceu com Moisés na sarça ardente ou no monte Sinai. "O divino" se fez presente em uma criança, em um estábulo, entre sujeira e animais. E foi anunciado a pastores, uma das atividades marginais daquele tempo. E até o rei, informado pelos sacerdotes, decidiu matá-lo.

Foi assim que "o divino" teve que se fazer emigrante. Porque "o divino", que se faz presente no "humano", não tem "papéis". É verdade que o menino foi circuncidado (Lc 2, 21), como se fazia com todos os humanos daquela cultura. E o levaram ao templo (Lc 2, 22-23), como também se fazia então com todos os humanos. Mas fica de pé o fato de que, segundo os evangelhos da Natividade, "o divino" se faz presente, se comunica, se dá em algo tão humano, tão frágil, tão entranhável que é encontrado "um recém nascido envolto em faixas e deitado em uma manjedoura" (Lc 2, 12).

O Evangelho tem algo muito forte, muito duro, que não cabe em nossa cabeça. A partir do primeiro Natal que houve na história, Deus já não é encontrado no forte, mas sim no frágil. Não é encontrado no grande, mas sim no insignificante. Não é encontrado no grandioso e no notável, mas sim no que não tem valor para ninguém. Não se trata de que o Evangelho representa um projeto niilista, inumano. Trata-se exatamente de todo o contrário. O Evangelho é a afirmação mais sublime do humano. Porque é evidente que aqueles que conheceram Jesus, o que viram e apalparam nele foi um ser humano.

Então, por que, desde antes de nascer e em seu nascimento, os anjos e a força do Espírito intervieram? E tudo isso, além disso, envolto em sonhos, aparições, enigmas e manifestações do extraordinário e do celestial? Porque era preciso vencer nossa pertinaz resistência para aceitar que, desde o momento em que Jesus veio a este mundo, encontramos Deus em nossa própria humanidade.

Mas isso é o que não cabe em nossa cabeça, nós, humanos. Gostamos do grande, do importante, do notável, do solene, do que impressiona e chama a atenção, do que se impõe e se admira... Tudo isso e o que se parece a isso. Mas e o que não é nem mais nem menos do que o humano? O que é comum a todos os humanos? Pois isso, precisamente isso, que é o que tantas vezes menos valorizamos, isso é o que mais necessitamos. Porque é o que mais nos humaniza. E é o que mais humaniza a vida, a convivência, a sociedade. Todos somos "educados" para ser importantes, mas não para ser simplesmente humanos.

Daí a consequência mais perigosa e mais patética que todos arrastamos. Seduz-nos o poder. Seduz-nos a glória. Queremos, a todo custo, ser importantes, nos destacar, ser notáveis. Confesso publicamente que, para mim pelo menos, tudo isso me atrai, me agrada e é motivo de anseios inconfessáveis. Anseios e desejos que, quando sou sincero comigo mesmos, os maldigo mil vezes. Porque esses sentimentos me rompem por dentro e destroçam minha própria humanidade.

Essa "civilização"(?), essa "cultura"(?) em que vivemos fez conosco o pior que podia ser feito. Inoculou-nos o medo à nossa própria humanidade. Tem razão o velho mito do paraíso perdido: a tentação satânica, que a todos nos acossa, é o desejo de "ser como Deus" (Gn 3, 5). Estou cansado de ver "ateus" (e não digamos "crentes") que passam a vida aspirando a ser "como Deus". Não sei se conseguem. O que eu sei, sim, é que somos muitos os que, à força de tanto querer alcançar ser "divinos", deixamos de ser verdadeiramente "humanos". Tanta falsa apetência de "divindade" esfarrapou a nossa própria "humanidade".

E, além disso, se pensamos no que aconteceu no âmbito das crenças e no próprio terreno da teologia, o que aconteceu é que "o divino" se distanciou tanto do "humano" que chegou a entrar em conflito com as melhores manifestações da nossa própria humanidade. Basta pensar nos constantes enfrentamentos entre os supostos direitos do divino e os direitos humanos. Sem falar no destroço que essas ideias causaram no próprio estudo da cristologia. Dá pena pensar que não poucos hierarcas da Igreja gritam aos céus se ouvem dizer que Jesus foi não somente humano, mas também o modelo perfeito da plenitude humana. Ser representantes do poder divino, que lhes dá cargos e poder, lhes encanta. Ser exemplos de humanidade, isso é outra história.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O Bom Pastor

Ilustração: Goro Fujita

Nosso amigo Teleny publicou ontem em seu blog um belo comentário sobre o Bom Pastor, tema da liturgia católica durante toda esta semana. Como complementa à perfeição nosso post de domingo, Reproduzimos abaixo, com grifos nossos.


O último domingo (4° da Páscoa) foi celebrado como a Festa de Jesus Bom Pastor. Em algumas regiões do mundo, toda esta semana é dedicada, justamente, a esta característica de Cristo. Sugerem isso as próprias leituras litúrgicas. No texto de ontem (Jo 10, 22-30), temos uma revelação importante: a fé faz com que nos tornamos membros do rebanho do Senhor. Jesus disse aos seus adversários: "vós, porém, não acreditais, porque não sois das minhas ovelhas" (v. 26). Logo, se acreditamos, somos das ovelhas do Senhor. Mas, não é só isso. Ontem ouvimos mais uma coisa importante: "Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem" (Jo 10, 14). De onde nos vem este conhecimento? No domingo, Jesus disse: "Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas (...) as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome (...) e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz" (cf. Jo 10, 2-4). Não é tão fácil (mas, também, nem tão importante) definir o que acontece primeiro e o que depois: crer, ouvir ou conhecer. O Apóstolo Paulo escreveu que "a fé vem pela pregação e a pregação, pela palavra de Cristo". (Rm 10, 17) Por outro lado, o acolhimento da Palavra supõe a fé. Fala sobre isso o mesmo Apóstolo: "Agradecemos a Deus sem cessar, porque, ao receberdes a palavra de Deus que ouvistes de nós, vós a recebestes não como palavra humana, mas como o que ela de fato é: palavra de Deus, que age em vós que acreditais". (1Tes 2,13) O conhecimento de Jesus é o dom de Deus. Vale lembrar aqui aquela conversa de Jesus com os discípulos, na qual o Senhor perguntava sobre as opiniões a respeito de sua pessoa. Quando Pedro acertou a resposta, Jesus disse: "Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne e sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu" (Mt 16,17). Com outras palavras, tudo é dom de Deus (Santa Teresinha do Menino Jesus, no leito de morte, repetia: “tudo é graça”). Estes três fenômenos (fé, escuta e conhecimento) são dinâmicos e, necessariamente, interativos. O ser humano pode deixar de crer, parar de escutar e abandonar o conhecimento. Vem aqui, portanto, uma dica importantíssima para nós: escutemos a voz do Senhor. Além de ouvi-lo em nosso coração, devemos dedicar-nos à leitura da Sagrada Escritura. O Papa Bento XVI escreveu, na Exortação Apostólica Verbum Domini (aqui): "Exorto todos os fiéis a redescobrirem o encontro pessoal e comunitário com Cristo, Verbo da Vida que Se tornou visível, a fazerem-se seus anunciadores para que o dom da vida divina, a comunhão, se dilate cada vez mais pelo mundo inteiro. (...) Não existe prioridade maior do que esta: reabrir ao homem atual o acesso a Deus, a Deus que fala e nos comunica o seu amor para que tenhamos vida em abundância (cf. Jo 10, 10). [n° 2] Deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo para podermos amar cada vez mais a Palavra de Deus. [n° 5]"

E para nós, homossexuais, há mais uma coisa importante, também proveniente das leituras litúrgicas desta semana. No início do anúncio da Boa Nova, tinham sido batizados somente os judeus. Com o passar do tempo e, principalmente, com a dinâmica da própria Palavra de Deus, começaram a abraçar a fé, também os pagãos. Nem todos os irmãos de origem judaica gostavam disso. Vejamos a passagem dos Atos dos Apóstolos: "Naqueles dias, os apóstolos e os irmãos, que viviam na Judeia, souberam que também os pagãos haviam acolhido a Palavra de Deus. Quando Pedro subiu a Jerusalém, os fiéis de origem judaica começaram a discutir com ele, dizendo: 'Tu entraste na casa de pagãos e comeste com eles!' (...) [Pedro disse] Deus concedeu a eles o mesmo dom que deu a nós que acreditamos no Senhor Jesus Cristo. Quem seria eu para me opor à ação de Deus? Ao ouvirem isso, os fiéis de origem judaica se acalmaram e glorificaram a Deus, dizendo: 'Também aos pagãos Deus concedeu a conversão que leva para a vida!'” (At 11, 1-3. 17-18). Hoje em dia, não faltam aqueles que questionam a presença de homossexuais na Igreja. E como a reação dos "irmãos de origem heterossexual" é a mesma que a dos judeus convertidos ao cristianismo, a resposta não pode ser diferente: quem são vocês para se oporem à ação de Deus? (cf. At 11, 17).

O que fazer em casos de homofobia?



  • Ligue para o Disque Cidadania LGBT (0800 023 4567) para receber orientações sobre seus direitos, endereços de delegacias próximas e outras informações úteis;
  • Colha nomes e dados de pessoas que tenham presenciado a violência para servirem de testemunhas no inquérito policial;
  • Dirija-se à delegacia mais próxima do local do crime;
  • Solicite ao policial que insira no Registro de Ocorrência a HOMOFOBIA como motivo presumido de violência;
  • Com o Registro em mãos, entre novamente em contato com o Disque Cidadania LGBT para que possam fazer o acompanhamento do caso pelo Centro de Referência da Capital, que conta com suporte jurídico, social e psicológico.

Fonte: Blog Entre Nós

União homoafetiva: uma vitória, mas resta ainda um longo caminho a percorrer

Ilustração: Annie Terazzo

Foi por unanimidade que o Supremo Tribunal Federal aprovou a união civil homoafetiva. Ao mesmo tempo, acontecia uma conferência de bispos católicos brasileiros que criticaram o que chamam de “casamento gay”. Enquanto se comemorava a decisão, também se alertava para a violência crescente contra os homossexuais no Brasil. A votação é considerada uma vitória e o avanço no país. Porém, ainda há muito a ser feito e a ser discutido. Isso também é unanimidade entre os quatro entrevistados de hoje. Doutor em História e professor na PUC-Rio, Luis Corrêa Lima, padre jesuíta, afirma, na entrevista que concedeu por e-mail, que “existe ainda algo básico a ser feito: coibir a aversão a pessoas homossexuais, a homofobia. Ela desencadeia diversas formas de violência (física, verbal e simbólica) contra estas pessoas”.

O presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais e doutor em Educação, Toni Reis, que foi entrevistado por telefone, concorda com a ideia anterior e complementa: “É fundamental que os crimes que foram praticados contra a comunidade LGBT sejam investigados e as pessoas que cometeram esses crimes sejam punidas rigorosamente, porque infelizmente a impunidade é grande. Os policiais e profissionais de segurança precisam aprender a tratar a comunidade LGBT como cidadãos”.

Roque Junges, professor da Unisinos, doutor em Teologia, padre jesuíta, analisou a versão da Igreja sobre o tema: “No sentido jurídico específico de direitos, penso que a Igreja não seria contra essa igualdade de direitos quanto à questão de herança, de aposentadoria e outras questões. Sim, ela é contra na visão fundamentada da conjugalidade ao equiparar isso a um matrimônio”, disse.

O jornalista, doutor em Comunicação e professor da Unisinos Ronaldo Henn, que conversou com a IHU On-Line por e-mail, analisou a votação do STF do ponto de vista da comunicação. Ele aponta que “podíamos acompanhar a manifestação dos ministros ou pela TV ou por sítios que transmitiam online ao mesmo tempo em que as pessoas postavam comentários instantâneos no Twitter. Isso gera um contexto de repercussão e de construção de opiniões públicas extremamente veloz e intenso. Esse cenário faz toda a diferença e nos leva às dinâmicas do exercício da cidadania muito alvissareiros”.

Confira as entrevistas, reproduzida via IHU com grifos nossos.

O que significa para o Brasil a decisão do Supremo Tribunal Federal quanto à união homoafetiva?

Luis Correa Lima: Significa o reconhecimento da união homoafetiva como entidade familiar em todo o país, desde que atendidos os requisitos exigidos para a formação da união estável entre homem e mulher; e também que os mesmos direitos e deveres dos companheiros nas uniões estáveis estendem-se aos companheiros nas uniões entre pessoas do mesmo sexo. Para o direito brasileiro, de agora em diante, a união gay é família, ainda que não seja casamento. Esta decisão repercute na vida das pessoas e das instituições, motivando-as a visibilizar a homossexualidade.

Convém recordar que a família tem mudado bastante ao longo da história. Na Antiguidade Romana, ela era o conjunto das propriedades de alguém, incluindo escravos e parentes. Família vem de famulus, que significa escravo doméstico. Também no mundo bíblico, a mulher era propriedade do marido ou do pai, assim como a casa, o escravo e o jumento (Êxodo, 20). O casamento era um acordo entre chefes de família, prescindindo do consentimento dos cônjuges. O homem podia ter mais de uma esposa, e a função dela era gerar descendentes para a família do marido. Caso a esposa ficasse viúva e sem filhos, ela teria que se casar com o cunhado para cumprir esta função.

No século XII, a cristandade ocidental introduziu o consentimento conjugal como condição necessária para a validade do casamento. No Brasil Colonial, a idade mínima para o casamento era de 12 anos para as mulheres e de 14 anos para os homens. Isto hoje é inadmissível. O modelo patriarcal de família declinou em todo o mundo no século passado. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948, estabeleceu o livre consentimento dos cônjuges e também a igualdade de seus direitos no casamento. A Igreja Católica, no Concílio Vaticano II, louva as nações que promovem a igualdade de direitos do homem e da mulher na sociedade.

No longo prazo, portanto, é muito grande a mudança na configuração familiar e no papel de seus membros. Este processo continua. Agora, há uma ressignificação do conceito de família de modo a incluir as uniões homoafetivas.

Onde o Brasil ainda precisa avançar em relação a esse tema?

Luis Correa Lima: Falta a regulamentação para facilitar o cumprimento desta decisão do Supremo. Se um casal gay vai a um cartório solicitar o registro de sua união, o funcionário pode negá-lo, pois não há lei prevendo este registro. O casal pode recorrer à Justiça, sabendo que vai ganhar, ainda que na última instância, mas pode ser caro e desgastante.

Existe ainda algo básico a ser feito: coibir a aversão a pessoas homossexuais, isto é, a homofobia. Ela desencadeia diversas formas de violência (física, verbal e simbólica) contra estas pessoas. No Brasil são frequentes os homicídios, sobretudo de travestis. Há também o suicídio de muitos adolescentes que se descobrem gays, e mesmo de adultos. Eles chegam a esta atitude extrema por pressentirem a rejeição hostil da própria família e da sociedade. Há pais que dizem: “Prefiro um filho morto que um filho gay”. Esta hostilidade gera inúmeras formas de discriminação, seja na família, seja na escola, no trabalho ou em outros ambientes; e, mesmo que não leve à morte, traz frequentemente tristeza profunda ou depressão.

A visão da Igreja ainda é importante para a opinião pública?

Luis Correa Lima: Parte da opinião pública está ligada às igrejas. No caso da Igreja Católica, a alta hierarquia aceita, ainda que com reservas morais, direitos decorrentes da convivência homossexual. Mas não aceita a equiparação desta convivência ao matrimônio ou à família. Convém observar que há na doutrina católica uma ordem de conteúdos, que o Concílio Vaticano II chama "hierarquia de verdades". Alguns pontos são mais importantes, pois tocam diretamente o núcleo da fé, e outros são menos importantes. A evangelização não é a imposição do regime do tudo ou nada.

Há valores que são apreciados tanto pela Igreja quanto pela ampla maioria da opinião pública. São exemplos o amor ao próximo, o respeito à pessoa humana e a solidariedade para com os pobres e com os que sofrem. Sempre que o testemunho da Igreja faz resplandecer estes valores aos olhos da sociedade, há uma grande ressonância. Uma mostra deste testemunho são pessoas como D. Helder Câmara, Alceu de Amoroso Lima, Ir. Dulce e D. Luciano Mendes de Almeida.

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O que significa para o Brasil a decisão do Supremo Tribunal quanto à união homoafetiva?

Toni Reis: Significa a vitória da cidadania, todo mundo ganhou e ninguém perdeu. Venceram os princípios de igualdade de direitos, de dignidade humana, de liberdade e do livre arbítrio e também da segurança jurídica. O Brasil é maior com essa decisão; é contemporâneo. Realmente foi uma surpresa para nós, da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Nós achávamos que seriam seis votos a quatro, ou sete votos a três. Mas, de repente, conseguimos a unanimidade. Isso foi muito importante.

Onde o Brasil ainda precisa avançar em relação a esse tema?

Toni Reis: O Brasil precisa avançar em muitas questões. O combate à miséria, o incentivo à educação em todos os níveis. Na questão da comunidade LGBT é principalmente na educação que precisamos melhorar, discutir ética, discutir a respeito da diversidade humana... É preciso capacitar e qualificar os profissionais de educação para que saibam lidar com a diversidade, seja ela racial, de idade, de gênero, de estado físico, da pessoa ser obesa ou não, e também criminalizar a homofobia no Congresso Nacional.

É fundamental que os crimes que foram praticados contra a comunidade LGBT sejam investigados e as pessoas que os cometeram sejam punidas rigorosamente, porque infelizmente a impunidade é grande. Os policiais e profissionais de segurança precisam aprender a tratar a comunidade LGBT como cidadãos. Muitas vezes nós percebemos que, por parte do aparato policial, há ainda muita discriminação. E além, é claro, da questão da saúde. Nós conquistamos, hoje, já algumas questões neste sentido. Temos os médicos de prevenção à Aids, por exemplo. Mas ainda tem muito a ser feito. Isto precisa chegar a todos os recantos do nosso país.

Por que o preconceito ainda é muito forte contra os homossexuais no Brasil?

Toni Reis: A homossexualidade, infelizmente, era considerada na Idade Média um crime, um pecado mortal e muitas pessoas foram mortas na fogueira. Até 1824, a homossexualidade era crime em Portugal e no Brasil. Depois, até 1990, passou a ser tratada como uma doença. Nós precisamos resgatar valores e dizer que a Bíblia é uma questão de interpretação, não é crime ser homossexual, nem mesmo doença. O Conselho Federal de Psicologia já tem uma resolução que coloca que nenhum profissional da psicologia pode fazer qualquer tipo de tratamento de reversão da homossexualidade.

A visão da Igreja ainda é importante para a opinião pública?

Toni Reis: Infelizmente, nós temos alguns setores conservadores e homofóbicos que ainda são barulhentos neste sentido. Temos que vencer isso mostrando que estamos em um Estado laico onde a religião não pode se impor. Temos uma Constituição que diz que todos são iguais perante a lei e que não haverá discriminação de qualquer natureza. Várias religiões já respeitam a questão da orientação sexual e da identidade de gênero. Nós podemos conviver; não queremos fazer guerra santa com ninguém. O que queremos é ser tratados como cidadãos e cidadãs. Queremos ser respeitados como qualquer outra pessoa.

Alguns dias após a resolução, você celebrou a união que formalizou com seu companheiro. Pode nos contar como foi esse momento?

Toni Reis: Foi um momento de grande emoção. Estou com meu companheiro há 21 anos, estou muito feliz. Mas vivíamos uma felicidade que era de fato, mas não de direito, e desde segunda-feira, dia 9 de maio de 2011, nós passamos a ter uma união de direito. Hoje, temos um documento que indica que nós somos muito mais cidadãos. Estamos muito felizes.

O meu companheiro é britânico e nós estávamos brincando que falaram tanto do príncipe William e da princesa Kate, e eu encontrei o meu príncipe David faz 21 anos. Eu tive a oportunidade de morar quatro anos na Europa e quando o David veio para o Brasil ele ficou por um tempo irregular, e ele foi autuado pela Política Federal. Ele estava para ser expulso do país, pois para ficar no Brasil ele precisava pagar 300 mil dólares, casar com uma mulher ou ter um filho e David não se encaixava em nenhum desses casos. Minha mãe propôs na época que nós nos casássemos, deu toda uma polêmica, o caso não se consumou, e nós conseguimos um “jeitinho brasileiro” de ele ficar no Brasil. Hoje, porém, com este documento nós vamos resolver de forma tranquila e transparente esta situação.

A ideia de família muda agora para você?

Toni Reis: Tenho muito claro que família são aquelas pessoas que você tem laços de afeto, de amizade e de responsabilidade. Acho que agora se amplia o conceito de família. Os últimos dados do IBGE mostram que já há muitas famílias monoparentais, composta pela avó, pela neta, pelo tio e pela sobrinha. Não é mais aquele “casal margarina”, com o pai e a mãe e os dois filhos tomando café da manhã. No Brasil e no mundo todos os tipos de família devem ser respeitados, com toda a cidadania e com todas as garantias que o Estado pode dar.

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Qual a diferença entre casamento e união para a Igreja?

Roque Junges: Essa aprovação da união homoafetiva tem dois significados. O primeiro significado é jurídico, que significaria que as uniões homoafetivas têm os mesmos direitos que as uniões heterossexuais, é a questão da igualdade de direitos. O segundo significado, mais simbólico e amplo, é no sentido de que nenhuma discriminação que estivesse fundada em questões sexuais de orientação sexual podem ter lugar. Ela significa que nenhuma discriminação tem lugar dentro da sociedade atual, quando existem igualdade de religião, de tendências sexuais, de homem e mulher... No entanto, a decisão veio da mais alta autoridade brasileira, e eu pergunto: Por que essas questões sempre tem que ser decididos nesta instância? Por que sempre se precisa de uma juridicização de tudo? Creio que seria melhor que o Parlamento tivesse feito isso.

A Igreja, fundada numa visão de conjugalidade, não aceita isso, e acho que ela tem todo o direito de não aceitar. A questão é que quando nós vivemos em uma sociedade que já é pós-cristã, em um Estado laico, a Igreja não pode querer impor sua visão para toda a sociedade. Com dificuldade, a Igreja está entendendo que não pode impor a sua visão a uma sociedade que já é muito mais ampla, que já não é mais somente católica. Isso aconteceu também quando foi aprovado o divórcio, anos atrás. A Igreja também se definiu contra. Evidentemente, em sua concepção ela deve ser contra isso. Mas ela não pode impor esta visão a todo mundo. Eu não colocaria o acento naquilo que alguns da Igreja argumentaram na linha de que isso não é natural. É mais difícil fundamentar uma coisa em algo que seja natural. É muito melhor fundamentar a questão dentro do significado antropológico do que a Igreja entende por conjugalidade.

A Igreja é contra o casamento e contra a união?

Roque Junges: Sim. A equiparação disto é igual: sejam relações homoafetivas ou heterossexuais. Creio que a Igreja não seja contrária à união civil, que uma pessoa que esteja associada com alguém tenha os mesmos direitos. No sentido jurídico específico de direitos, penso que a Igreja não seria contra essa igualdade de direitos quanto à questão de herança, à de aposentadoria e a outras questões. Sim, ela é contra na visão fundamentada da conjugalidade ao equiparar isso a um matrimônio.

O conceito de família está se transformando muito rapidamente. Como a Igreja entende a família contemporânea?

Roque Junges: A Igreja ainda tem uma concepção de família burguesa; digamos, a família que nos tempos modernos foi se impondo. Eu não diria que ela tenha uma concepção de família patriarcal. É uma visão moderna de mãe, pai e filhos. O Ministério da Saúde desenvolveu um programa chamado Estratégia da Família. Aí, fica claro que é importante que os profissionais pensem o que é uma família. Se uma equipe encontrar um casal de homossexuais com filhos, os profissionais vão considerar como família ou não? Dentro da visão da estratégia, tem que se considerar família qualquer ajuntamento de pessoas: o grupo de pessoas que encontram abrigo e sustentáculo e vivem relações de proteção e afeto.

Em um estudo que fizemos dentro desse projeto, encontraram-se diferentes formas de família. Hoje, sabe-se muito bem que as famílias monoparentais são mais comuns; as famílias que dependem só da mãe, a família de cunho homossexual... Encontramos uma família em que havia um homem que vivia com três mulheres, que tinham filhos com elas. A equipe de saúde teve que considerar esse conjunto como uma família porque temos presente que, antropologicamente, uma família é onde um grupo encontra afeto, em que a pessoa é aceita.

Em que sentido essa decisão representa um avanço não apenas na igualdade de direitos, mas de respeito pela alteridade?

Roque Junges: O respeito pelos direitos compreende também uma outra coisa que é o respeito pelas diferenças. Eu sempre explico que ética, no sentido público do termo, na sociedade e na democracia significa você aprender a conviver com o diferente, mas também é respeitar este diferente e saber que pode aprender com ele, aprender que estas diferenças podem ser de muitos tipos. Hoje, isto faz parte da sociedade democrática, e de uma maneira ética de viver a sociedade. Estes diferentes não são somente de religião, de raça, de tendência sexual... Isso é ética em seu ser mais profundo.

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Como você analisa a votação do STF do ponto de vista da comunicação, uma vez que você acompanhou a sessão na TV Justiça e, também, as reações nas redes sociais?

Ronaldo Henn: Tivemos um avanço importante ainda nos anos 1990 quando a sociedade civil organizada, com a Federação Nacional dos Jornalistas à frente, conseguiu negociar uma legislação regulatória para a implementação da TV a cabo no Brasil. É no bojo deste processo que se criam canais de caráter público, como as TVs do Legislativo e da Justiça. Por conta disso, setores da sociedade mais atentos passaram a acompanhar acontecimentos importantes, como as CPIs, situação que gerou novos vínculos de comunicação e pressão. Com a expansão da internet e emergência das redes sociais, a interação da sociedade com os poderes constituídos ganha desdobramentos instigantes.

No caso da votação do Supremo na questão da união homoafetiva, podíamos acompanhar a manifestação dos ministros ou pela TV ou por sítios que transmitiam online ao mesmo tempo em que as pessoas postavam comentários instantâneos no Twitter. Isso gera um contexto de repercussão e de construção de opiniões públicas extremamente veloz e intenso. Esse cenário faz toda a diferença e nos leva às dinâmicas do exercício da cidadania muito alvissareiros. Nos dois dias de votação, a expressão união homoafetiva e os nomes dos ministros que faziam discursos para o anúncio do voto lideravam os trending topics do Twitter, por exemplo, que é um indicador da mobilização social em torno do acontecimento.

Entre os ministros, como o senhor avalia os diferentes discursos que sustentaram os votos? Algum teve um tom mais duro, preconceituoso? Algum discurso mais lúcido, compreendendo a realidade de todos os cidadãos brasileiros?

Ronaldo Henn: Os discursos variavam entre pelo menos três eixos: a ideia de que os dispositivos constitucionais são passíveis de interpretação, a necessária sintonia entre as leis e o mundo da vida e o reconhecimento institucional de cidadãos pertencentes a minorias e que são detentores de direitos. Boa parte dos discursos se pautou pela tecnicidade jurídica, que não poderia ser diferente em se tratando da nossa corte suprema. Mas houve momentos em que a compreensão social da importância do reconhecimento da questão em pauta ganhou relevância.

Destaco dois deles. O ministro Luiz Fux, por exemplo, chegou a dizer que mais do que direitos, o Supremo deveria oferecer felicidade aos cidadãos. Já a ministra Carmen Lúcia fez um pronunciamento muito lúcido, generoso, em que dimensões da tolerância e do afeto foram contemplados. Para ser digno, disse a ministra, "há que se ser livre e isso inclui escolhas e orientações em diversos níveis." O texto da ministra cria uma aproximação daquela corte com o mundo concreto e isso foi saudado ao longo de sua fala no Twitter. Deu para perceber, então, a posição de ministros mais alinhados afetivamente com a questão e outros que preferiam uma avaliação técnica, como a do Ricardo Lewandowski que fez uma digressão sobre a evolução do conceito de família nas constituições brasileiras.

A sociedade tem noção do significado do resultado dessa votação?

Ronaldo Henn: Penso que parte da sociedade sim, o que pode ser medido pelo acompanhamento da votação através das redes sociais. Como um todo, acho que aos poucos essa importância vai sendo processada. Lembro quando criança dos estigmas horríveis que imputavam às mulheres desquitadas. Não havia divórcio e o desquite era uma espécie de limbo em que mulheres sofriam todo o tipo de preconceito. Era como se elas, nesta condição, não existissem socialmente. Depois de 1977, quando o Congresso aprovou a lei e o casamento deixa de ser, do ponto de vista civil, indissolúvel, novos arranjos de família puderam se constituir juridicamente, o que significou um processo de transformação profundo que compunha um cenário de liberdades comportamentais que começavam a requerer reconhecimento. A presente decisão do Supremo tem uma importância da mesma magnitude. Só lamento que o Congresso não tivesse a coragem ainda de fazer o debate sobre esse tema, deixando estrategicamente na gaveta projetos como o da então deputada, agora senadora, Marta Suplicy (PT) e o mais recente, da deputada Manuela D’Ávila (PCdoB).

De que forma as redes sociais no Brasil contribuíram para o debate acerca da união homoafetiva?

Ronaldo Henn: Penso que não só neste caso, mas em outros, as redes sociais formam um ambiente de discussão, manifestação, denúncia e de mobilização diferenciados. Várias ONGs que tratam destas causas estão presentes nas redes, gerando debates e participações. Também começam haver manifestações homofóbicas, xenófobas, racistas e de outras ordens que passam a ser rapidamente condenadas. Tudo isso é muito novo, mas já aponta para duas coisas: a construção da opinião pública sai do controle da mídia convencional e os processos de mobilização social também se articulam por outras demandas midiáticas.

A mídia tradicional começa a correr atrás de acontecimentos que já se constituem hoje na própria rede. Minha atual pesquisa no PPGCCOM da Unisinos começa a examinar exatamente este fenômeno: a dos acontecimentos que já possuem a textura da internet e que se estabelecem à margem do jornalismo hegemônico, mesmo que depois sejam incorporados por ele. No caso do debate da união homoafetiva, parte deste acontecimento foi engendrado na web.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Um mantra para os gays



Deus é amor, arrisquemos viver por amor.
Deus é amor, Ele afasta o medo.


RT @EduAmazonia

Quem tem medo do Lobo Mau?

Num dia deliciosamente chuvoso, resolvi acolher o chamado dos meus irmãos-amigos nessa maratona gay-católica de vida e simplesmente refletir sobre o nosso famigerado 17 de maio, dia mundial de combate à homofobia. Bem, é uma data marcante porque, em algum 17 de maio desses por aí, alguém disse que eu não sou um ponto fora da curva da normalidade científica. A questão, agora, são as outras curvas nas quais eu e boa parte das pessoas que amo, ainda somos pontos perdidos looonge, longe.

Uma das curvas - e, pra mim, catolicona das antigas, a mais dolorosa - é a Igreja. Chega a me dar um embrulho falar "Igreja" em tempos de CNBB fazendo vexame publicamente (e eu sofro de vergonha alheia). Mas acabei de pensar uma coisa que considero um daqueles carinhos que Deus me faz ao longo do dia: A minha Igreja não é homofóbica. A MINHA Igreja (com I maiúsculo), a minha comunidade, os meus ensinamentos e doutrina estão anos luz fora da curva no gráfico dessa caça às bruxas homofóbica que vem acontecendo dentro e fora da religião. A minha Igreja, o coração dela, de onde emana a vida em abundância, é a coragem e a força dentro de cada um que se coloca, todo dia, contra a injustiça prática, não a teórica; parte de cada um que não aceita que o outro seja menosprezado por ser diferente, que não abaixa os olhos pra uma liderança deturpada que deforma o bem mais precioso da sociedade: a família. Família não é mais há muito tempo um núcleo de homem provedor, mulher submissa e filhos gordinhos e infelizes. A minha família hoje é um conjunto de jovens de alma viva que sorriem em paz quando se encontram porque são todos irmãos num Cristo que inclui.

Que o 17 de maio seja muito mais do que um dia para ações pontuais. Que ele seja um lembrete para que possamos propagar o combate à Homofobia da forma mais amorosa, como o próprio Pai nos ensinou, por onde quer que andemos, porque amor não pode causar medo em ninguém, dia nenhum do ano.

Com amor,
Zu

Um dia para refletir


Queridos amados irmãs e irmãos,

Hoje o mundo celebra o dia internacional de combate à homofobia. Foi nesta data que, em 1990, a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a homossexualidade (até então considerada um transtorno mental) da classificação internacional de doenças. A nova classificação entrou em vigor entre os países-membros das Nações Unidas em 1993 e tornou-se um marco na luta contra a homofobia.

Em vários paises, e o Brasil felizmente é um deles, será realizada uma série de eventos para marcar a data. Debates, conferências, exposições serão promovidos, geralmente por instituições civis e governamentais, mas não somente: grupos religiosos também o farão.

Como o Diversidade Católica no Brasil, há em vários países outros grupos leigos que resgatam a postura de Jesus, o Cristo Salvador, de acolhimento incondicional. E não é uma ação somente de leigos, mas apoiada por religiosos, religiosas e até dioceses. Esses grupos organizam ações para celebrar esse dia também. Ocorrerão numerosas vigílias. De fato, a Igreja não deixa de confirmar a força da oração e assim se reúne e clama a Deus pelo fim da homofobia (quiçá até dentro de si mesma).

Por tudo isso, apesar de não termos organizado uma ação conjunta, o Diversidade Católica convida cada um a fazer um gesto concreto em prol do combate à homofobia, nos unindo aos esforços mundiais e divinos pelo reconhecimento, validade e respeito à dignidade humana.

Nossa Senhora, rogai pelo fim da homofobia



Ave Maria, cheia de graça,
o Senhor é contigo
Bendita és tu entre as mulheres,
e bendito é o fruto do seu ventre Jesus.
Santa Maria, Mãe de Deus,
Rogai por nós pecadores
Agora, e na hora da nossa morte
Amém.

Pelos muitos filhos(as) que morreram [ou sofrem de algum modo] por terem uma orientação sexual diferente da "normativa". Peço Senhor, que envie o seu Espírito aos corações, para que o amor, o respeito, a compreensão possam vencer.

Amém.

- Edilmar Alcantara, vivendo um novo com Deus!

17 de maio, Dia Mundial de Combate à Homofobia

A Igreja de peito aberto para as minorias


Dia 13 de maio de 2011, o jornal O Globo publicou a entrevista com frei Gilvander Moreira sobre a decisão do STF que reconheceu juridicamente a União Civil Homoafetiva.

A entrevista enviada, via e-mail, para o jornal não foi publicada na íntegra. Vários cortes foram feitos.

Eis, abaixo, a íntegra da entrevista enviada por Frei Gilvander Moreira, reproduzida via IHU com grifos nossos.

Frei Gilvander Luís Moreira é padre da Ordem dos carmelitas, mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblica, de Roma, Itália; é professor de Teologia Bíblica; assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT -, assessor do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI -, assessor do Serviço de Animação Bíblica - SAB - e da Via Campesina em Minas Gerais.

Eis a entrevista.

Como o senhor recebeu a decisão do STF?

Com alegria, pois é uma vitória dos Movimentos e Grupos que historicamente vêm lutando pelo direito à liberdade sexual homossexual. Nesse caso, o STF posicionou-se com justiça e equidade. A sociedade está em constante transformação, e esse grupo em questão existe e está no dia a dia vivendo e construindo suas relações à margem da sociedade. Devido a isso o Direito não podia mais se esconder ou pôr uma venda e continuar negando esse direito para as relações homoafetivas. Nesse caso, o STF deu exemplo de coragem e cidadania. Tornou-se visível o invisível. Declara-se assim o início do fim da hegemonia da moral heterossexual. Abre caminho para a afirmação à luz do dia das mais de 60 mil uniões estáveis entre homossexuais no Brasil (Cf. último Censo do IBGE) que até aqui pagavam um altíssimo preço pela sua orientação sexual.

Dia 5 de maio de 2011, o Supremo Tribunal Federal, ao decidir por unanimidade reconhecer, juridicamente, a união civil homoafetiva, reconheceu como legítimas e constitucionais decisões que já acontecem em dez estados brasileiros em 1ª e 2ª instâncias e em mais de vinte países. Nessa decisão, o STF está de parabéns. Esperamos que assim prossigam as decisões do Supremo, pois em muitas outras decisões, o STF não tem seguido os princípios constitucionais do respeito à dignidade humana, do republicanismo, da função social da propriedade... deixando campear pelo Brasil uma série de injustiças estruturais, tais como a falta de reformas agrária e urbana.

Como o senhor vê hoje a situação dos homossexuais no Brasil?

Segundo o pesquisador Luiz Mott (prof. emérito da UFBA), o mais preocupante é que o registro de violência contra a população LGBT vem aumentando ao longo dos anos. “Nunca se matou tanto homossexual no Brasil quanto agora”, afirmou.

De janeiro a novembro de 2010, Luiz Mott contabilizou 205 assassinatos entre a população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) no País.

Mott, que faz o levantamento desse tipo de crime desde 1960, relatou que, entre 1960 e 1969, foram 30 ocorrências; na década seguinte, chegaram a 41. De 1980 a 1989, o número de registros chegou a 369; saltou para 1.256 nos anos 90 e atingiu 1.429 casos na primeira década deste século. Estima-se que o número de casos de discriminação da população LGBT atinge entre 10 mil e 12 mil por ano no País.

O senhor considera a sociedade brasileira preconceituosa e intolerante?

Infelizmente estamos sim numa sociedade preconceituosa, intolerante, hipócrita e cínica. Ainda há muito moralismo, fundamentalismos e sectarismos em segmentos conservadores de igrejas e da sociedade que ficaram irritados e questionam o acerto da decisão do STF. No último censo do IBGE foi declarado que há mais de 60 mil uniões estáveis homoafetivas no Brasil. O movimento que defende os direitos dos homossexuais está crescendo, o que é muito bom. Na decisão do STF - que reconheceu a união civil entre as pessoas do mesmo sexo - não se pode deixar de destacar e parabenizar a luta do Movimento pelos direitos dos homossexuais, que incansavelmente, no Brasil e no mundo, vem marchando pelas ruas, erguendo suas bandeiras, gritando de diferentes formas o direito que agora é reconhecido. Os ministros do STF não criaram uma novidade, mas em cada voto ecoaram os clamores das pessoas homossexuais que lutam pela afirmação de seus direitos há tanto tempo.

O senhor já ouviu confissões de pessoas que se declararam homossexuais? Que conselhos costuma dar para as que reclamam de preconceito?

Eu já ouvi sim confissões de pessoas homossexuais. Uma, por exemplo, chegou e me disse: “Gostei muito da sua homilia na missa de ontem. Por isso resolvi vir confessar. Frei Gilvander, ser homossexual é pecado?” Diante de uma pergunta tão direta assim ainda no início da confissão, percebi que tinha que conversar antes de responder sim ou não. A pessoa acabou me dizendo que após refletir muito tinha resolvido contar para a família que estava assumindo a orientação sexual homossexual. Disse que estava sofrendo muito, sendo discriminado pela família, por colegas na escola, nas ruas, por onde ia. Disse que resolveu me perguntar se era ou não pecado, porque tinha lido em um livro da Renovação Carismática onde se dizia que não era pecado ser homossexual, desde que não colocasse em prática o sentimento. Ele me disse que não tinha como não colocar em prática. Por isso queria saber se é ou não pecado, pois se for pecado, preferia suicidar a ter que viver sendo discriminado e humilhado.

Ouvi e conversei com essa pessoa mais de uma hora. Eu disse a ela que se o elo mais forte de uma corrente é o elo mais fraco, só poderá ser mais justo e aplaudido por Deus, um mistério de amor que nos envolve, o que for tratado a partir do elo enfraquecido e discriminado. Numa sociedade preconceituosa, intolerante, hipócrita e cínica, os homossexuais são um dos elos discriminados. Feliz do povo que houve os clamores dos que fazem outra opção sexual senão a hegemônica. Quanta dor! Quanta lágrima derramada! Quanta cruz carregada! Deus ouve os clamores de todas as pessoas que são oprimidas. Deus é amor e não discrimina ninguém e nem pune ninguém por opção ou orientação sexual. Deus não faz acepção de Deus. Deus acolhe a todos sem distinção.

Eu disse ainda que devemos respeitar todos, mas não podemos respeitar todos da mesma forma. Devemos respeitar as minorias - sem terra, mulheres, negros, deficientes, idosos, indígenas, homossexuais, sem casa etc – nos colocando na e da perspectiva deles para a partir deles nos posicionar sobre o que deve ser considerado justo e ético. E devemos respeitar os diferentes que estão na classe dominante – latifundiário, machistas, racistas, “normais”, fortes, brancos, heterossexuais, especuladores etc – fazendo de tudo para retirar das mãos deles as armas de opressão com as quais discriminam, muitas vezes, inconsciente e involuntariamente.

Sentindo-se compreendida e acolhida, a pessoa desistiu do suicídio. Ergueu a cabeça, levantou-se e foi embora.

A união civil entre pessoas do mesmo sexo ameaça a instituição familiar?

Penso que não por vários motivos. São minorias e há uma grande pluralidade de famílias hoje. Há familias tradicionais; famílias só com mãe e filhos (monoparental); 80 mil famílias sobrevivendo debaixo da lona preta em acampamentos clamando por reforma agrária; milhares de famílias que sobrevivem apertadas em um único quarto de cortiço; milhões de famílias arrochadas em barracos nas favelas; famílias só “marido e mulher” sem filhos etc. Por que não pode haver também famílias homossexuais? Por moralismo? Mais: concordo com Gerson Henrique, que, em monografia sobre Famílias Reconstituídas, pondera: “Sendo o Brasil um estado laico, que consagra o pluralismo, o respeito à diversidade e a autonomia da pessoa, não é coerente que a ordem infraconstitucional estabeleça modelos ideais de família, excluindo outros já existentes no cenário social. Uma vez reconhecida a autonomia da pessoa na formação da sua família e a natureza sócio-cultural desta, o ordenamento jurídico terá de reconhecer-lhes os efeitos apesar dos matizes com as quais se apresentar. Importa destacar o vínculo afetivo e o reconhecimento de pertença dos membros ao grupo por eles designado como família.” No Direito de Família contemporâneo existe uma crescente abertura às distintas modalidades de constituição familiar e a dimensão do afeto é muito considerada na hora de reconhecer direitos, o que considero pertinente eticamente.

Como o senhor entende as referências diretas ou indiretas da Bíblia sobre o tema? Ser homossexual é ser impuro, como sustentam os mais conservadores?

Na Bíblia, o primeiro relato da Criação (Gênesis 1,1-2,4a) mostra o ser humano profundamente ligado e interconectado a todas as criaturas do universo. De uma forma poética, o relato bíblico insiste na fraternidade de fundo que existe entre todos os seres vivos que são uma beleza. Nas ondas da evolução, Deus, ao criar, sempre se extasia diante de todas as criaturas e exclama: “Que beleza! Bom! Muito bom!” O livro de Atos dos Apóstolos resgata, nas primeiras comunidades cristãs, essa mística ao dizer que não há nada impuro. Tudo é puro, é sagrado. Deus não faz acepção de pessoas, não discrimina. O apóstolo Pedro ressalta a ordem divina de não chamar de profano ou de impuro nenhuma pessoa (Atos dos Apóstolos 10, 28). Pedro muda de atitude e passa a perceber que Deus não faz discriminação de pessoas. O importante é a prática da Justiça (Atos dos Apóstolos 10,34-35). O autor da Carta de Tiago nos alerta que Deus não faz distinção de pessoas, mas faz opção pelos pobres. Não é tolerável rico discriminar pobre. (cf. Carta de Tiago 2, 1-9). Numa sociedade hegemonicamente heterossexual, os homossexuais são pobres. Por isso, devem ser respeitados e compreendidos.

Como o senhor avalia o desempenho do movimento gay no Brasil?

Já evoluiu bastante, mas não pode ficar só nas reivindicações corporativistas, ou seja, defendendo só os direitos deles. É preciso se aliar aos outros movimentos populares que lutam pela construção de uma sociedade justa, solidária e sustentável ecologicamente. Fará um bem enorme ao povo quando os vários movimentos populares, que lutam pelos direitos das minorias - que numericamente são maiorias -, atuarem em unidade e solidariamente: os movimentos dos Sem Terra, dos negros, dos indígenas, dos sem casa, dos deficientes, dos homossexuais, dos desempregados etc, enfim, toda a classe trabalhadora unida e lutando pelos direitos de todos, defendendo toda a biodiversidade e construindo uma sociedade em que caibam todos.

A postura da Igreja em determinadas questões atrapalha a conversão de novos fiéis?

igrejas e não apenas igreja. Por exemplo, na Igreja católica há Igreja instituição - diáconos, padres, bispos e papa – e há a igreja que é povo de Deus. É óbvio que quando membros da Igreja instituição se posicionam de forma moralista, proselitista e autoritária afugentam muitas pessoas. Mas quando membros da igreja ouvem, dialogam e, inspirados no evangelho de Jesus Cristo, testemunham um projeto de vida que busca realizar o grande sonho do Deus da vida, que é vida e liberdade em abundância para todos e para toda a biodiversidade, aí, sim, cativam muitas pessoas para se engajarem em projetos humanizadores.

O que o senhor tem a dizer sobre o uso da camisinha?

É claro que devemos preservar a vida nossa, do próximo e de toda a biodiversidade. Para isso é necessário várias coisas. É necessário sim usar camisinha nas relações sexuais, por questão de saúde pública e por respeito à sacralidade de cada pessoa. Não podemos correr o risco de contrair HIV e/ou doenças sexuais transmissíveis que matarão o outro aos poucos. Isso não tem o apoio do Deus da vida. Mas camisinha não é panacéia para todos os males. Além do uso da camisinha, é necessário, para preservar a vida das pessoas, realizar reformas agrária, urbana e educacional. É preciso mudar o modelo de programação televisiva e dos meios de comunicação. Enquanto houver o sexismo, imoralidades e erotismo sendo trombeteados aos quatro ventos através de novelas e filmes, reduzindo a mulher a objeto, infelizmente só usar camisinha será um paliativo. É preciso educação de qualidade e elevar o nível cultural da sociedade. Estrangular o narcotráfico e mudar a política econômica destinando a maior fatia do orçamento do país, não para pagar dívida pública e investir em infraestrutura que viabilize crescimento das grandes empresas, a fina flor do capitalismo, mas investir pesadamente nas áreas sociais. Isso tudo junto com os uso da camisinha poderá nos levar a vida com mais dignidade.

Sua posição a respeito de tais temas é solitária na Igreja?

Não. Há muitos teólogos e teólogas, cristãos e cristãs, que partilham conosco essas posições. Todo o povo da igreja que participa da Teologia da Libertação. Comunidades Eclesiais de Base – CEBs -, pastorais sociais e muitos movimentos eclesiais. Na Igreja Instituição há membros que comungam conosco dessa visão mais compreensiva com os direitos das minorias e há também outros profissionais do sagrado que ficam indignados com essas posturas mais ecumênicas e proféticas.

O que ainda há a ser feito pelo direito das minorias no país?

A luta continua. Luta contra a homofobia, o preconceito e o conservadorismo que só excluem e negam a liberdade e a dignidade constitucionalmente garantidas e biblicamente amparadas. Faz-se imprescindível, como ensinou Paulo Freire, educar para a indignação. Indignação diante das injustiças sociais e das violações aos direitos humanos e planetários. Enfim, é ético seguir o seguinte princípio: No necessário, a unidade; no discutível, a liberdade; em tudo, o amor.

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Para quem quiser entrar em contato com Frei Gilvander:

E-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
Twitter: @gilvanderluis
Facebook: gilvander.moreira

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Eu sou gay

Do site do projeto #EuSouGay:



Porque a vida está aí para ser vivida. :-)

Boa semana para todos!

“Ele chama as ovelhas pelo nome” (Jo 10, 1-10)

Ilustração: I love Doodle

Consoante a linguagem bíblica tradicional, o evangelista representa a Igreja como um rebanho de ovelhas reunidas pelo Bom Pastor. Desta representação, emergem duas características fundamentais: o vínculo com Jesus e a liberdade do fiel na condição de membro do rebanho. Tal vínculo é tão acentuado que a figura não deixa entrever qualquer instituição estabelecida. Com efeito, não pode haver Igreja sem relação pessoal e constantemente renovada com Jesus Cristo e, por meio dele, com o próprio Deus. A fé é o único princípio de organização da Igreja. Certamente a instituição não é negada, mas não pode ser senão a vida de todos em comum com Cristo, como o revela claramente a alegoria da vinha e do agricultor (cf. Jo 15).

Dessa forma, a simbologia do Pastor e suas ovelhas nada tem a ver com gregarismo e alienação da autonomia e da liberdade individuais, mas transmite a relação diferenciada de Jesus com seus seguidores. O Senhor não é o guia de grupos de pessoas amorfas, abúlicas, sem espírito de iniciativa e sempre á espera de que outros tomem decisões por elas. Por isso, a figura do Pastor, nesse trecho, é reelaborada. À diferença dos pastores de ovelhas que, munidos de seu bastão pastoril, constringem seus rebanhos em determinada direção, Jesus, Bom Pastor, não trata Seus seguidores como manada, mas estabelece um vínculo pessoal com cada um, identificando-os pelo próprio nome.

Os seguidores de Jesus, portanto, formam com Ele uma comunidade de pessoas livres e autônomas, à frente da qual Ele caminha como exemplo e referência para que todos possam segui-Lo em liberdade e segurança. Ele não é o redil fechado, mas sim a porta aberta das ovelhas por onde elas entram e saem e encontram pastagem (cf. Jo 10, 9).

- Frei Aloísio de Oliveira, OFM Conv
Especialista em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma
Publicado originalmente na revista O Mensageiro de Santo Antonio, maio de 2011, pp. 21-22. Grifos nossos.

domingo, 15 de maio de 2011

Nada é mais forte


Nada é mais forte que uma ideia cujo tempo chegou.

- Victor Hugo

Fica a dica


Dica: o filme Strapped, do diretor Joseph Graham, de 2010. A ação toda se passa num único prédio que, na descrição de um dos personagens, é o edifício “mais gay da rua mais gay da cidade”. Talvez por isto o michê, papel principal do filme, não consiga deixar o prédio, encontrando sempre clientes pelos corredores. Na lista inumerável destes há o tímido, os porras-loucas, o idoso, o pseudo-hétero homofóbico.

A atmosfera é quase sempre lúgubre, no entanto, é visível o afeto que o diretor tem por aqueles personagens perdidos na noite satisfazendo seus desejos. Há na relação do michê com seus clientes uma espécie de carinho, de cuidado que empresta ao filme certa ternura.

Sem dúvida alguma o grande destaque é o ator que faz o michê, Ben Bonenfant (é também dele a foto no post anterior). Sabe aqueles atores cuja câmera adora? Parece ser o caso. Não há nenhuma cena explícita, o máximo que se revela de Ben é o cofrinho, mas quando ele tira a roupa dançando sensualmente, sorri ou te olha de um jeito entre o malandro e o perdido, dá vontade mesmo de levar pra casa e dar tudo, até a senha do banco se ele te pedir com jeitinho.

Só não gostei mesmo do final (No spoiler!). Mas eu ando mesmo muito chato pra coisinhas felizes.
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