sábado, 29 de outubro de 2011

Jesus convida à sua mesa os cristãos divididos

Projeto paisagístico: Visiondivision

A 'hospitalidade eucarística' é abordada por Paolo Ricca. teólogo italiano, em artigo publicado na revista semanal italiana Riforma, 16-09-2011. Riforma é o semanário das Igrejas Evangélicas Batistas, Metodistas e Valdenses da Itália. O teólogo responde à demanda feita pelo movimento ecumênico de Turim, denominado "Instrumentos da Paz", através de pergunta enviada pela leitora Eugenia Ferreri.

A tradução é de Benno Dischinger, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o artigo.

"Pertenço à Igreja valdense de Turim e há alguns anos me ocupo com o ecumenismo, sobre o qual, em âmbito valdense, as opiniões são diversas; há quem seja contrário, quem seja indiferente, quem seja cético, quem gostaria de interromper o diálogo considerado inútil, enquanto outros, afortunadamente compartilham objetivos e razões. No quadro do trabalho ecumênico que se desenvolve em Turim, eu gostaria de falar de uma iniciativa levada em frente pelo grupo ecumênico “Instrumentos de paz”, nascido em 1966 e composto por católicos, evangélicos batistas, valdenses, adventistas e esporadicamente por ortodoxos. A iniciativa consiste num caminho empreendido pelo compartilhamento da eucaristia ou ceia do Senhor.

Para fazer este objetivo chegar aos pastores das várias igrejas evangélicas, a alguns padres e correspondentes paróquias, bem como à comissão diocesana e à evangélica para o ecumenismo, foram enviadas cartas solicitando expressamente que com encontros mensais itinerantes, se possa compartilhar também em igrejas católicas a eucaristia, precisamente como já é possível compartilhar a ceia do Senhor nas igrejas evangélicas. A motivação dada é esta: “Gostaríamos, com este gesto, de responder ao mandamento do Senhor, ao seu convite, ao seu acolher todos. Quereríamos, em suma, ser mulheres e homens do dom e do compartilhamento”.

A iniciativa terá início em outubro. Agora está claro que permanecerão não resolvidas as questões relativas aos diversos significados que católicos e evangélicos dão à Ceia do Senhor. E então a pergunta é: é correto compartilhar um gesto tão importante na divisão das confissões de fé? O que se quer fazer é, por ora, um pequeno passo: o que poderemos ou deveremos fazer para que o pequeno passo possa levar a uma mudança bem mais importante? Como ninguém querer dar um passo para trás no referente à própria teologia, talvez fosse melhor realizar um gesto diferente, para manifestar a comunhão ecumênica já existente. Se sim, qual?"

(Eugenia Ferreri – Turim)

Não é por acaso que a iniciativa do Grupo ecumênico turinense “Instrumentos de paz” de promover, como cristãos de diversas confissões, uma ação comum para chegar a compartilhar a eucaristia (como costumeiramente a chamam os católicos) ou Santa Ceia ou Ceia do Senhor (como costumeiramente a chamam os evangélicos) em cultos públicos, celebrados em paróquias católicas e comunidades evangélicas da cidade – não é por acaso, dizia, que esta iniciativa nasceu neste ano de 2011.

Por que não por acaso? Porque o texto bíblico proposto neste ano às comunidades cristãs de todo o mundo por ocasião da Semana de oração pela unidade dos cristãos, realizada, como a cada ano, de 18 a 25 de janeiro passado, era Atos 2,42, onde se diz que os primeiros cristãos “eram perseverantes na escuta do ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações”.

Partir o pão juntos era, pois, um dos distintivos da primeiríssima comunidade cristã – a que nasceu em Jerusalém no dia de Pentecostes. Como sabemos, esta expressão indica duas coisas distintas, mas na origem estreitamente ligadas entre si.

A primeira é a refeição comum dos cristãos, consumida juntos e chamada ágape; a segunda é a ceia do Senhor, que habitualmente ocorre no quadro do ágape, como sua conclusão e coroamento. Compartilhando o pão e o vinho da ceia do Senhor, os primeiros cristãos manifestavam sua comum pertença a Cristo e sua recíproca fraternidade. Reconhecerem-se como cristãos implicava, entre outras coisas, partirem juntos o pão da Ceia.

Agora, em janeiro deste ano, tocamos com a mão a grande contradição na qual nos encontramos: mesmo pertencendo a igrejas diversas, nos reconhecemos todos como cristãos, mas, não obstante isso, não partimos juntos o pão da Ceia. Este verdadeiro e próprio “apartheid eucarístico” era compreensível quando não nos reconhecíamos como cristãos, mas cada um considerava o outro como herege. Hoje não é mais assim. A própria Igreja católica, que, como sabemos, a seu tempo excomungou a Reforma, os reformadores e seus seguidores, com o Concílio Vaticano II abandonou este juízo, declarando que protestantes e ortodoxos “justificados no batismo da fé, são incorporados a Cristo, e por isso são, com razão, assinalados com o nome de cristãos, e pelos filhos da igreja católica são justamente reconhecidos como irmãos no Senhor” (Concílio Vaticano II, Decreto sobre o ecumenismo, n. 3).

Ora, de duas uma: ou isto não é verdade, isto é, não é verdade que sejamos “irmãos”, embora “separados”, não obstante “assinalados com o nome de cristãos”, se isto, dizia, não é verdade e consequentemente não nos reconhecemos reciprocamente como cristãos, então, sim, é lógico que não partamos juntos o pão da Ceia. Se, ao invés, é verdade que somos “irmãos”, embora “separados”, reconhecendo-nos, pois, reciprocamente como cristãos, mesmo nas diversas pertenças confessionais, então não só podemos, mas devemos partir conjuntamente o pão, porque isto faziam os cristãos quando se encontravam para escutar juntos a Palavra de Deus, para praticar a comunhão fraterna e para orar. Quem faz conjuntamente estas coisas, pode e deve também partir conjuntamente o pão da Ceia.

É esta a proposta do Grupo ecumênico “Instrumentos de paz”. Nossa leitora nos comunica também a motivação: “Queremos com este gesto responder ao mandamento do Senhor, ao seu convite, ao seu acolher todos. Querer-se-ia, em suma, ser mulheres e homens do dom e do compartilhamento”. Esta motivação é mais que suficiente. Jesus celebrou a Ceia até mesmo com Judas, não excluiu nem sequer a ele. Quem tem a coragem e a autoridade de excluir quem quer que seja? O pão e o vinho da Ceia são o dom que Jesus nos concedeu, dando-se a si mesmo: quem tem a coragem e a autoridade de retirar este dom do senhor da mão de um irmão reconhecido como cristão? A proposta, portanto, é boa, evangélica, cristã; é um ato de obediência ao convite de Jesus e de coerência ecumênica, com o qual, por certo – não seria honesto silenciá-lo – se transgride uma lei eclesiástica, mas isto é inevitável caso se queria viver verdadeiramente, neste campo, a liberdade cristã. A lei jamais consegue conter a graça, que transborda de todo lado; por isso Jesus tantas vezes transgrediu a lei do sábado.

Vai por si que, como justamente observa nossa leitura, “permanecerão não resolvidas as questões relativas aos diversos significados que católicos e evangélicos dão à Ceia do Senhor”. Por exemplo, os evangélicos não compartilham a doutrina da transubstanciação, e os católicos (caso sigam a doutrina oficial de sua Igreja) pensam que somente um sacerdote ordenado por um bispo (católico ou ortodoxo) tenha a assim dita potestas consecrandi, isto é, o poder de “consagrar o pão e o vinho de modo a transformá-lo no corpo e sangue de Cristo. Mas, se as diferenças de doutrina entre católicos e evangélicos sobre a Ceia permanecem aquelas anteriores, que sentido tem que eles a celebrem juntos, dado que a compreendem de modo diverso? Celebram verdadeiramente a mesma Ceia, ou não celebram talvez duas Ceias diversas, embora chegando juntos à mesma mesa e compartilhando o mesmo pão e o mesmo vinho?

Mas, se devesse ser assim (duas Ceias diversas celebradas conjuntamente por católicos e evangélicos em torno à mesma mesa), a comunhão realizada em torno àquela mesa seria real ou somente aparente? São estes os interrogativos – muito sérios – que nossa leitora levanta e às quais respondo assim: o que conta na ceia do Senhor são suas palavras (“Tomai, este é o meu corpo”; “Este é o meu sangue, o sangue da aliança...” e os seus dons – o pão e o vinho: Marcos 14, 22-25). Nem o próprio Jesus, que por primeiro celebrou a Ceia, nem o apóstolo Paulo, que narra sua “instituição” (Coríntios 11, 23-25), sentiram a necessidade de explicar, isto é, de interpretar as palavras da Ceia.

Isto, no mínimo, significa duas coisas: a primeira é que a interpretação é livre, isto é, são possíveis diversas interpretações, nenhuma das quais pode, no entanto, pretender ser canônica, porque na Escritura, que é o cânone (isto é, a regra de nossa fé cristã), as palavras de Jesus são aduzidas, mas não interpretadas. A segunda é que, embora a interpretação seja necessária (no sentido que cada um deve saber o que está fazendo quando participa da Ceia), todavia, esta interpretação não é constitutiva da própria Ceia, a qual é a Ceia do Senhor, independentemente das interpretações que nós lhe damos. O que une aqueles que participam da Ceia do Senhor são o pão, o vinho, as palavras de Jesus e a ação invisível do Espírito, e não as nossas explicações das palavras de Jesus e as nossas interpretações dos seus dons.

Embora, quando celebramos a Ceia entre cristãos de diversas confissões, estivéssemos de acordo e déssemos a mesma explicação daquilo que na Ceia acontece (esta unanimidade, entre outros aspectos, não existe sequer quando a celebram cristãos da mesma Igreja; também ali, secretamente, as opiniões divergem!), não seria aquele acordo o vínculo real de nossa comunhão, e sim o seriam as palavras, o pão, o vinho de Jesus e o testemunho interior do Espírito Santo. Eis porque tem sentido que cristãos de diversas igrejas celebrem juntos a Ceia do Senhor, porque é aí que Jesus os convoca, e aí eles se reúnem, aceitando, com alegria e gratidão (“eucaristia” significa em grego “reconhecimento”, “agradecimento”), o seu convite para receberem juntos as suas palavras e os seus dons, independentemente das diversas interpretações que eles possam dar da Ceia. O que nos une a Jesus quando celebramos a Ceia não é esta ou aquela doutrina, mas a fé.

Na linguagem ecumênica, este tipo de celebração se chama “hospitalidade eucarística”: somos todos hóspedes (indignos) do Senhor em sua mesa, e ali, recebendo o pão e o vinho com sua palavra, celebramos conjuntamente a “comunhão com o corpo e o sangue de Cristo”, como diz a Escritura (1 Co 10, 16). Como ocorra esta comunhão a Escritura não o diz, e não temos necessidade de dizê-lo nós. A Escritura diz somente que ela acontece, entende-se na fé, e isto nos deve bastar.

As doutrinas entre si diversas permanecem, e podem continuar a confrontar-se, mas o convite de Jesus deve ter o primado. Nem se pode pensar em cerimônias substitutivas, às quais Jesus não nos convida: ele nos convida à sua mesa, que é única, e não a outras. A iniciativa de ”Instrumentos de paz”, como eu já disse, é boa precisamente porque afirma o primado do dom de Deus acima de nossas interpretações, e este dom é único e o mesmo para todos. Jesus não divide e sequer aceita as nossas divisões, pelo menos à sua mesa. A única condição é a fé nele e a clareza nas relações entre nós. As nossas diferenças na interpretação da Ceia não devem ser caladas ou espezinhadas – aqui se requer total transparência -, mas também não devem ser dogmatizadas a ponto de se tornarem mais importantes do que o convite de Jesus. O Senhor é Ele, e não nós.

Religiões: o diálogo passa pelo bem

"Lendo as entrelinhas": projeto arquitetônico Gijs Van Vaerenbergh

A peregrinação a Assis (entenda do que se trata aqui) não foi desejada para "rezar juntos", mas sim para "estar juntos para rezar". A única coisa que sempre é possível compartilhar com todos é um silêncio adorante vivido uns ao lado dos outros, na certeza de que Deus vê, une, acolhe o que sobe do coração humano como desejo de bondade e de salvação.

A afirmação é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, em sua lectio magistralis proferida nesta quarta-feira, 26, em Assis, na vigília de oração pela paz com o papa. A reflexão foi publicada no jornal La Stampa, 26-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o texto.


Na Jornada de Reflexão, Diálogo e Oração pela Paz e a Justiça no Mundo convocada pelo Papa Bento XVI, pode-se entrever, ao lado de uma substancial continuidade com a iniciativa de João Paulo II em 1986, alguns acentos de novidade. Para esta jornada, de fato, também foram convocadas personalidades do mundo da cultura que não se professam religiosas. Além disso, o encontro está intitulado "Peregrinos da verdade, peregrinos da paz", colocando em relevo, assim, como a busca da verdade é essencial para que possa haver uma busca da paz.

Aqueles que presumem conhecer Bento XVI e, muitas vezes, o apontam como "corretor" dos seus antecessores gritaram a traição, e alguns deles até se dirigiram a ele com cartas que o convidavam a cancelar essa iniciativa. Os tradicionalistas cismáticos expressam a sua condenação, e o mesmo fazem alguns católicos que temem o evento porque o julgam como um encorajamento ao sincretismo ou ao relativismo, segundo o qual todas as religiões se equivalem.

Assim, mais uma vez na nossa Igreja, cada vez mais dividida e conflitual, perfilam-se acusações e contraposições que marcam com desconfiança toda iniciativa e a tornam ocasião para uma negação de quem, longe de ter uma outra fé, simplesmente aparece com diversidade de estilo, de tons, de atitudes pastorais, de modos de se colocar na história e em meio aos homens.

Além das reações também descompostas, a vontade de Bento XVI de assumir o espírito de Assis confirma o caminho de diálogo desejado pelo Vaticano II e mostra como a Igreja Católica tem a consciência de uma missão verdadeiramente universal: isto é, uma missão que se refere a todos no respeito do caminho e das vias religiosas de cada um, na convicção de que todos os homens são irmãos porque são filhos de um único Pai e Criador, e que nenhum deles jamais poderá ser alheio ao mistério pascal de Jesus.

Também deve-se dizer que muitos temores repousam sobre um mal-entendido fundamental: presume-se que o diálogo requer deixar de lado a própria fé e esquecer a verdade. Na realidade, o diálogo implica uma autêntica reciprocidade, pede que se ouça o outro e a sua fé com respeito, mas, ao mesmo tempo, que se fale com parrésia sobre a própria fé. O diálogo inter-religioso exige que cada um dos dois parceiros conheça a sua própria tradição e permaneça fiel a ela, que seja um testemunho da sua própria fé sem a pretensão de impô-la ao outro. O diálogo, se bem compreendido, até faz parte da evangelização, porque só dialogando de modo autêntico é que se assume o estilo de Jesus, o estilo do Evangelho, o dos discípulos enviados entre os povos.

O caminho do diálogo é um percurso coerente com a grande tradição da Igreja. Desde os primeiros séculos, os Padres da Igreja, interrogando-se sobre as diversas tradições religiosas em meio às quais os cristãos eram uma realidade nova e minoritária, discerniam as semina Verbi, ou seja, a presença de "sementes da palavra de Deus", de traços do Espírito Santo, de raios de verdade.

Em todas as realidades, em toda a história, a palavra de Deus sempre trabalhou e, junto com ela, jamais dissociado dele, o Espírito de Deus. Com a Encarnação, depois, é o próprio Deus que se fez homem, carne, e habitou em meio a nós. A Palavra espalhou as suas sementes de vida nas culturas de todos os povos, sementes que inicialmente estão escondidas, mas que depois se desenvolvem e aparecem na história, nas diversas culturas.

Em outras palavras, Cristo é a única verdade, mas raios da sua luz se encontram em cada ser humano, criado por Deus à sua imagem e semelhança. Verdades, estas, jamais desmentidas, que levaram Paulo VI a constatar que "as religiões (...) ensinaram gerações inteiras a rezar", enquanto João Paulo II atestava: "Nós podemos considerar que toda oração autêntica é suscitada pelo Espírito Santo que está misteriosamente presente no coração de todos os homens".

Mas sob quais condições é possível convocar crentes de fé e religião diferentes para rezar pela paz? Quando foi organizado o encontro de 1986, em resposta às diversas contestações levantadas contra a iniciativa papal, afirmou-se insistentemente que a peregrinação a Assis não era desejada para "rezar juntos", mas sim para "estar juntos para rezar". Desse modo, insistiu-se sobre a impossibilidade de uma oração comum, porque está só é possível entre cristãos de diferentes confissões, que reconhecem o Deus trinitário e confessam Jesus Cristo como único salvador. Os cristãos não podem assumir as formulações de oração de outras religiões e, reciprocamente, os outros certamente não gostariam de adotar as orações cristãs.

A oração, eloquência da própria fé, nos pede que rezemos juntos como cristãos que confessam a fé expressa no Credo Apostólico. Pede-nos também que rezemos juntos entre judeus e cristãos (pelo menos através dos Salmos), filhos gêmeos do Antigo Testamento que confessam o mesmo Deus e esperam dele a plena redenção.

Porém, somos impedidos de fazer uma oração comum e pública com crentes de outras religiões: a única coisa que sempre é possível compartilhar com todos é um silêncio adorante vivido uns ao lado dos outros, na certeza de que Deus vê, une, acolhe o que sobe do coração humano como desejo de bondade e de salvação. Deus conhece quem busca o seu rosto: ele certamente vê e cria uma comunhão que nós não podemos nem medir nem reconhecer. No entanto, como lembrava João Paulo II no discurso à Cúria Romana em 1986, consciência e fé nos dizem que "há um só plano divino para todo ser humano que vem a este mundo, um único princípio e fim", porque "as diferenças são um elemento menos importante do que a unidade que, ao contrário, é radical e determinante".

Nós, cristãos, acreditamos que Jesus Cristo é o único salvador, o único mediador e o único Senhor dos homens, e é justamente essa fé nele que nos leva ao encontro dos homens do mundo, das diversas culturas e religiões, com grande simpatia, com o desejo de ouvir o que arde em seus corações, com o desejo de aprender com eles também, no diálogo e no debate franco, livre, capaz de acolhida recíproca.

Nós não somos ingênuos otimistas, mas, ao contrário, é com esforço que buscamos assumir os sentimentos, as atitudes e os pensamentos de Jesus, ele que quis se encontrar com todos: sãos e doentes, justos e pecadores, ricos e pobres, judeus e pertencentes aos povos, pessoas com a fé em Deus ou que não conheciam Deus. Jesus nunca julgou nem condenou ninguém. Até se sentou à mesa dos impuros, dos pecadores e dos malditos: e como poderíamos nós, seus discípulos, nos recusar a aceitar qualquer um dos nossos irmãos e irmãs em humanidade?

Sim, nós, homens e mulheres, somos todos cegos em busca de sermos curados, coxos que se esforçam para seguir em frente, gagos ao falar de Deus, muitas vezes surdos ao ouvi-lo. Somos peregrinos em busca da verdade, da justiça e da paz: todos invocamos e esperamos a salvação, aquela "salvação [que] não está nas religiões enquanto tais, mas está ligada a eles, na medida em que levam o homem ao Bem único, à busca de Deus, à verdade e ao amor".

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Por mais longe que se vá

Ilustração: Jayde Cardinalli

"Por mais que percorramos o mundo em busca da beleza, se não a levarmos conosco nada vamos encontrar."

- Ralph Waldo Emerson

Pegadinha no Cinema - Motoqueiros + Cerveja

Há quem goste de dizer que a publicidade é a nata do capitalismo selvagem, e sim o é, geralmente.
Porém, é preciso também, lançar um olhar crítico as marcas menos endemonizadas.

Porque no futuro, assim como as do passado um dia foram, elas revelarão aquilo que está pulsando forte numa dada época. Dúvida? É só pesquisar, e sem dificuldades, nas propagandas dos anos 70 a roupagem feminista que a publicidade vestiu.

Já as "do hoje" são um retrato do que se discute em nossa época.
O vídeo bem humorado abaixo ilustra bem o que eu falo,
vale como mensagem pra este fim de sexta. 




Bom fim de semana!


Rodolfo Viana

3x sexo

HQ: Laerte

Como um sinal inequívoco de que, apesar dos infelizes Bolsonaros, o mundo avança na obra, moderna por definição, de desmontar preconceitos, numa mesma semana tive encontros com três representações de questões fundamentais da sexualidade. Representações que nos ajudam a compreender melhor essa dimensão central d...o sujeito que é a sexualidade, contribuindo politicamente para livrá-la do obscurantismo e de suas consequências: neuroses intensas, vidas desperdiçadas, explosões de violência. A presente edição da revista Trip, o filme "Céu sobre os ombros" e a série televisiva "Oscar Freire 279" tematizam questões como homofobia, prostituição, travestismo e monogamia - sempre com desassombro e inteligência.

A excelente edição da Trip traz uma entrevista de Zé Celso (que se define, gloriosamente, num lance de anti-identidade, como homem sexual); uma matéria com pessoas que mantêm relações grupais amorosas e sexuais; e um retrato passado-presente da dupla Luhli e Lucina, que nos anos 70 viveu um casamento a três, um "trisal", como elas chamam. São formas de vida que não se deixaram intimidar pela monogamia compulsória, fonte de tantos sofrimentos. Sim, pois a monogamia ocupa um lugar simbólico análogo ao das drogas na nossa sociedade: uma mistura de tabu e hipocrisia. As drogas, quase todo mundo nega, mas muita gente usa; a monogamia, muita gente exige, mas quase todo mundo descumpre. Assim como acontece com a política fracassada das drogas, o obscurantismo na tematização da monogamia leva a uma política potencialmente fracassada das relações amorosas.

Um único exemplo dá a dimensão do tabu que envolve a monogamia hoje. Num episódio da série "House", uma mulher jovem e bonita, casada com um homem idem, adoece subitamente. Após diversas especulações, o dr. House chega a um diagnóstico: ela contraiu um vírus africano (sic), cuja transmissão é genital. Ou seja, ou ela ou seu marido fizeram sexo com outra pessoa. A mulher está em estado grave e não admite o que fez. Só à beira da morte, aos 45 do segundo tempo, ela confessa. O marido, por sua vez, abandona-a, alegando que "não se pode amar alguém assim". Eis aí um brado retumbante: monogamia ou morte! Entre nós não é diferente. A capa da revista "Veja" desta semana traz uma associação entre corrupção (uma questão pública) e adultério (uma questão privada), implicitamente conferindo um valor moral positivo à monogamia.

Não se trata de recusar ou defender a monogamia, a priori e universalmente, mas de compreender os problemas que ela envolve, de modo que as pessoas possam ter maior autonomia para criar formas de vida em maior concordância com as suas próprias e inalienáveis fantasias. Há aqui um princípio: é preciso, inicialmente, des-moralizar as questões, para depois fundar, sobre essa compreensão, uma moral (individual). É exatamente isso o que faz a Trip. Recomendo fortemente sua leitura.

Outro tema igualmente submetido em geral a um tratamento hipócrita ou moralista é o da prostituição. Gabeira teve que ter coragem (virtude que não lhe falta) para defender a legalização da profissão quando estava em campanha (proposta que conta com meu apoio). Se é certo que a literatura já tratou do tema com profundidade e complexidade, o mesmo não costuma acontecer em programas televisivos. Pois é o que acontece na série "Oscar Freire 279" (Multishow). Sua protagonista é uma jovem, de classe média, linda, que se torna garota de programa por razões afirmativas (o prazer, a riqueza, a aventura existencial mais interessante que o roteiro previsível do casamento-emprego-família etc.). A série não idealiza a prostituição e ilumina também suas dimensões de sofrimento físico e moral. O decisivo é que ela não adere à perspectiva moralista (adotada pelo pai da "moça de família" que passa a se prostituir): dispõe, sobre a mesa, as diversas variáveis da questão, as alegrias e as angústias - e deixa que o espectador julgue por si próprio (eis o princípio de des-moralização inicial que mencionei acima).

O preconceito é sempre o efeito de uma distância; a proximidade humaniza e desmonta os estereótipos em que ele se funda. Talvez não haja uma figura social tão submetida a preconceitos quanto as travestis (já que o português me obriga a escolher um artigo de gênero). A recusa ao lugar social das travestis é tão forte que quase nunca se as vê em lugares públicos, à luz do dia. É absolutamente inaceitável que uma decisão sobre o próprio corpo (passar do masculino ao ambivalente masculino/feminino) implique uma condenação a um estatuto de pária social, de existência reconhecida apenas como objeto sexual a ser comprado (e renegado, como demonstrou um conhecido episódio envolvendo um jogador de futebol). Daí a importância de representações que mostrem travestis desempenhando funções sociais normais, como a travesti-professora do delicado filme "Céu sobre os ombros", de Sérgio Borges (que vi na edição presente da Semana dos Realizadores). Como prova do preconceito brutal, é mais obscena a imagem em que a travesti cita, fluentemente, a teórica americana Judith Butler, do que a cena em que ela faz sexo oral com um cliente, no carro.

Um mundo em que homossexuais tomam porrada e travestis têm que viver sorrateiramente é um mundo que deve ser transformado. E já está sendo, cada vez mais, felizmente.

- Francisco Bosco
Publicado originalmente no Jornal O Globo, em 26-10-11
Reproduzido via Conteúdo Livre, com grifos nossos.

O mal existe, mas o bem é maior

Foto: Sarah

Um amigo querido do blog compartilhou conosco, em particular, seu desânimo diante de tanta violência, tanto preconceito e tanta exclusão. É verdade, quem acompanha os veículos LGBT cada vez mais é bombardeado por coisas muito feias e trágicas. Por um lado, isso é efeito direto da nossa maior visibilidade - que provoca uma reação violenta - e, ao mesmo tempo, da nossa maior organização - que faz com que denunciemos com mais vigor a violência. E, nesse contexto, é preciso lembrar duas coisas.

Primeiro, como disse nosso amigo Tony Goes recentemente, num post que reproduzimos aqui, "é super-válido reagirmos aos ataques de Bolsonazis, Malafaias e similares; não podemos deixar barato a mais leve ofensa. Mas é preciso termos um pouco de perspectiva histórica e percebermos que, a médio e longo prazo, os homofóbicos já perderam".

Segundo, acho (opinião inteiramente pessoal) que tem horas que é preciso desligar um pouco. Tem horas que a atrocidade vai tão alem dos limites que, se a gente não fechar os olhos e os ouvidos e se afastar um pouco, a gente surta. Porque é demais, mesmo. E ninguém precisa ser super-homem e ter que dar conta de absorver todas as informações o tempo todo. Senão, acaba acontecendo que a gente fica morando num mundo medonho, violento, hostil, brutal, bárbaro. E o mundo não é só isso. Se a gente esquece que tem também o sol, a praia, os amigos, o amor, o carinho, o prazer, as atrocidades ganham um tamanho muito maior do que já têm. A gente fica impotente diante delas. E não tem nada mais devastador do que a impotência diante do mal.

De vez em quando, é necessário alimentar a nossa fé, a nossa confiança na vida, a nossa certeza de que o mal existe mas o bem é maior. De que a violência acontece e é preciso combatê-la e preveni-la, mas a amizade, o amor, a solidariedade, o afeto, estão aí. Alguns dos maiores presentes que já ganhei vieram em momentos difíceis, sob a forma do apoio, do carinho e da partilha com pessoas que fizeram com que eu me sentisse amada e cuidada quando mais precisava. O amor que nos dão é expressão do amor de Deus por cada um de nós. Mas é preciso que a gente esteja de coração aberto para receber - e receber o amor dado é responsabilidade nossa. Só eu posso fazer isso por mim, mais ninguém.

Isso é mais importante que todo o mal do mundo. A gente não pode se esquecer disso nunca. Senão, se a gente deixa o medo e a dor se instalarem no nosso coração, o mal já ganhou.

Cuidem-se bem, queridos. Respirem um pouco, alimentem seus corações com beleza e amor. Peçam ajuda a quem ama vocês, e se deixem cuidar um pouco. A gente precisa de nutrição pra continuar andando. E, se tem uma coisa de que ninguém precisa agora, é de mártires caídos e almas imoladas.

Beijos e bom fim de semana.

Cris

Cristianismo como religião: a vocação messiânica


"A Igreja se decidirá a aproveitar a sua ocasião histórica e a retomar a sua vocação messiânica? Pois o risco é que ela mesma seja arrastada para a ruína que ameaça todos os governos e todas as instituições da terra".

Publicamos aqui o artigo de Giorgio Agamben, professor de filosofia teorética do Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza, publicado na revista Il Regno, nº. 22, 2009. O artigo é uma adaptação de um discurso do autor na catedral de Notre-Dame, em Paris, em março de 2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o texto.


O endereço de saudação de um dos textos mais antigos da Tradição eclesial, a Carta aos Coríntios de Clemente, começa com estas palavras: "A Igreja de Deus que se encontra em Roma à Igreja de Deus que se encontra em Corinto". A palavra grega "paroikousa" [traduzida no original francês como "en séjour", literalmente "em estada", e, na versão italiana corrente, como "che si trova", "que se encontra"] indica a estada do exílio, do colono ou do estrangeiro, em contraposição ao residir do cidadão, que se diz "katoikein" em grego. "Paroikein", viver em exílio, define tanto o habitar do cristão no mundo, quanto a sua experiência do tempo messiânico.

É um termo técnico, ou quase técnico, já que a Primeira Carta de Pedro (1,17), chama o tempo da Igreja de "ho chronos tes paroikias": o tempo da paróquia, se poderia traduzir, contanto que nos lembremos que paróquia aqui significa "estada do estrangeiro".

O termo "estada" não diz nada sobre a duração cronológica. A estada da Igreja sobre a terra pode durar – e de fato durou – séculos e milênios, sem que isso mude qualquer coisa da natureza especial da sua experiência messiânica do tempo. Devo destacar isso contra uma opinião muitas vezes retomada pelos teólogos acerca do suposto "atraso da parusia".

Segundo essa opinião, que sempre me pareceu quase blasfema, quando a comunidade cristã das origens, que esperava o retorno do Messias e o fim dos tempos considerando-os iminentes, se deu conta de que havia um atraso do qual não se via o fim, teria então mudado de orientação para se dar uma organização institucional e jurídica estável. Ou seja, teria deixado de ser "paroikein", de estar como estrangeira, e teria se disposto a "katoikein", a habitar como cidadão, como todas as outras instituições deste mundo.

A experiência do tempo messiânico

Se fosse verdade, isso implicaria que a Igreja teria perdido a experiência do tempo messiânico que lhe é consubstancial. O tempo do Messias, como veremos, não é um período cronológico, mas sobretudo uma transformação qualitativa do tempo vivido. E, nesse tempo, algo como um atraso cronológico – como se diz de um trem que está atrasado – não é nem mesmo concebível.

Exatamente como a experiência do tempo messiânico é tal que é impossível nela habitar, assim também algo como um atraso não pode se produzir. É isso que Paulo lembra ao tessalonicenses: "A respeito da época e do momento, não há necessidade, irmãos, de que vos escrevamos. Pois vós mesmos sabeis muito bem que o dia do Senhor vem como um ladrão de noite" (1Ts 5,1-2). "Vir (erchetai)" está no presente, justamente como o Messias é chamado nos Evangelhos o "ho erchomenos", aquele que vem, que não cessa de vir. Um filósofo do século XX, que tinha ouvido a lição de Paulo, repete do seu modo: "Cada instante é a porta estreita através da qual o Messias pode passar" (W. Benjamin).

É, portanto, da estrutura desse tempo, que é o tempo do Messias como Paulo o descreve, que eu gostaria de tratar. Um primeiro mal-entendido que é preciso evitar com relação a isso é o de confundir o tempo e a mensagem messiânicos com o tempo e a mensagem apocalípticos.

A apocalíptica se situa no último dia, o dia da cólera: vê o fim dos tempos e descreve aquilo que vê. O tempo que o Apóstolo vê, pelo contrário, não é o fim dos tempos. Se quiséssemos expressar com uma fórmula a diferença entre o messiânico e o apocalíptico, deveríamos dizer que o messiânico não é o fim dos tempos, mas o tempo do fim. Messiânico não é o fim dos tempos, mas a relação de cada instante, de cada kairós, com o fim dos tempos e com a eternidade. Assim, aquilo que interessa a Paulo não é o último dia, o instante no qual o tempo termina, mas sim o tempo que se contrai e que começa a acabar. Ou, se preferirmos, o tempo que resta entre o tempo e o seu fim.

Uma transformação radical da existência

A Tradição judaica conhecia a distinção entre dois tempos ou dois mundos: o "olam hazzeh", ou seja, o tempo que vai da criação do mundo até o seu fim, e o "olam habba", o tempo que vem depois do fim do mundo. Esses dois termos, na sua tradução grega, estão presentes no texto das epístolas: mas o tempo messiânico, o tempo que o Apóstolo viveu e o único que lhe interessa, não é nem o "olam hazzeh" nem o "olam habba": é o tempo que resta entre esses dois tempos, quando se verifica no tempo a cesura do acontecimento messiânico (o qual, para Paulo, é a ressurreição).

Como podemos representar esse tempo? Aparentemente, se o transferirmos como se faz na geometria com um segmento e uma linha, a definição que eu dei agora – o tempo que resta entre a ressurreição e o fim do tempo – não coloca dificuldades. Mas é uma outra coisa totalmente diferente se buscarmos pensá-lo no plano da experiência do tempo que ele implica. É claro que viver no "tempo que resta" ou viver o "tempo do fim" só pode significar uma transformação radical da experiência e também da representação habitual do tempo. Não é mais a linha homogênea e infinita do tempo cronológico profano (representável, mas vazio de qualquer experiência), nem o instante pontual e da mesma forma impensável do seu fim.

Mas não é nem mesmo um simples segmento retirado do tempo cronológico e que iria da ressurreição até o fim do tempo. É um tempo que pulsa dentro do tempo cronológico, que o trabalha e o transforma a partir de dentro. É, de um lado, o tempo que o tempo emprega para terminar; de outro, o tempo que nos resta, o tempo do qual precisamos para fazer o tempo terminar, para atingir a meta, para nos libertarmos da nossa representação ordinária do tempo.

Enquanto esta última, enquanto tempo dentro do qual acreditamos estar, nos separa daquilo que somos e nos transforma em espectadores impotentes de nós mesmos, o tempo do Messias, ao contrário, enquanto tempo operativo (kairós) no qual compreendemos pela primeira vez o tempo (o chronos), é o tempo que nós mesmos somos. É claro que esse tempo não é um outro tempo, que teria o seu lugar em algum outro lugar improvável e venturo. É, pelo contrário, o único tempo real, o único tempo que temos, e fazer experiência desse tempo implica em uma transformação integral de nós mesmos e do nosso modo de viver.

É isso que Paulo diz em uma passagem extraordinária, que é talvez a mais bela definição que ele deu da vida messiânica: "Eis o que vos digo, irmãos: o tempo é breve ("ho kairos synestalmenos esti": o verbo "systello" indica tanto o fato de cair as velas [de um navio] quanto o modo em que um animal se abaixa preparando-se para dar um salto). O que importa é que os que têm mulher vivam como se a não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram, como se não se alegrassem; os que compram, como se não possuíssem; os que usam deste mundo, como se dele não usassem". (1Cor 7,29-31).

Algumas frases antes, Paulo havia dito, a propósito da vocação messiânica: "Cada um permaneça na profissão em que foi chamado por Deus. Eras escravo, quando Deus te chamou? Não te preocupes disto. Mesmo que possas tornar-te livre, antes cuida de aproveitar melhor o teu chamamento" (1Cor 7,20-21).

"Hos me", "como se não" nos diz então que o sentido último da vocação messiânica é de ser a revogação de toda vocação. Justamente como o tempo messiânico transforma, a partir de dentro, o tempo cronológico, assim a vocação messiânica, graças ao "hos me", ao "como se não", é a revogação de toda vocação, que muda e esvazia a partir de dentro toda experiência e toda condição factual para abri-la a um novo uso.

É um ponto importante, já que nos permite pensar corretamente essa relação entre as coisas últimas e as coisas penúltimas, que define a condição messiânica. Pode um cristão viver apenas de coisas últimas? Um grande teólogo protestante, Dietrich Bonhoeffer, denunciou a falsa alternativa entre radicalismo e compromisso, que parte, em ambos os casos, da separação clara entre as realidades últimas e as realidades penúltimas, isto é, aquelas que definem a nossa condição social e humana de todos os dias. Ora, como o tempo messiânico não é um outro tempo, mas sim uma transformação do tempo cronológico, assim viver as coisas últimas é, antes de tudo, viver de outro modo as coisas penúltimas.

A verdadeira escatologia talvez não seja outra coisa que a transformação da experiência das coisas penúltimas. Já que as realidades últimas têm primeiro lugar dentre as penúltimas, estas – contra toda radicalismo – não podem ser simplesmente rejeitadas; mas – pela mesma razão e contra toda possibilidade de compromisso – as coisas penúltimas não podem ser consideradas como últimas. É com o verbo "katargein" – que não quer dizer "destruir", mas sim tornar inoperante, literalmente "des-operar" – que Paulo expressa a relação entre o que é último e o que não é. A realidade última desativa, suspende e transforma a realidade penúltima, mas é, porém, no seu interior que ela entra em jogo inteiramente.

Isso permite compreender a situação própria do Reino em Paulo. Ao contrário da corrente representação escatológica, deve ser lembrado que, para ele, o tempo do Messias não pode ser um tempo futuro. A expressão com a qual ele indica esse tempo é sempre "ho nyn kairos", o tempo do agora. Como escreve em 2Cor 6,2: "[Idou nyn] Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação!".

"Paroikia" e "parousia", estada do estrangeiro e presença do Messias, têm a mesma estrutura que é expressada em grego com a preposição "para": a de uma presença que distende o tempo, de um já que é também um não ainda, de um atraso que não é um adiamento para mais tarde, mas um descarte e uma disjunção dentro do presente, que nos permite compreender o tempo.

Vê-se bem, portanto, que a experiência desse tempo não é algo que a Igreja possa escolher entre fazer ou não fazer. Não existe Igreja senão nesse tempo e por meio desse tempo.

A Igreja e os sinais dos tempos

O que há dessa experiência do tempo do Messias na Igreja de hoje? De fato, a referência às coisas últimas parece ter desaparecido do discurso da Igreja a tal ponto que se pôde dizer, não sem ironia, que a Igreja de Roma fechou o Escritório Escatológico. E é com ironia, sem dúvida ainda mais amarga, que um teólogo francês pôde escrever: "Esperava-se o Reino, e chegou a Igreja". É uma imagem poderosa, sobre a qual devemos refletir.

Considerando o que foi dito acima sobre a estrutura do tempo messiânico, é claro que não se trata de criticar a Igreja pelo seu compromisso em nome do radicalismo. Nem se trata, como fez o maior teólogo ortodoxo do século XIX, Fëdor Dostoevskyi, de apresentar a Igreja de Roma sob a figura do Grande Inquisidor. Trata-se de uma outra coisa, ou seja, da capacidade da Igreja de compreender o que Mateus 16,3 chama de sinais dos tempos, "ta semeia ton kairon".

Quais são esses sinais que o Evangelho opõe ao desejo vão de interpretar o aspecto do céu? Se a história é penúltima em referência ao Reino, este – viu-se acima – tem o seu lugar antes de tudo e acima tudo na história. Viver no tempo do Messias exige, portanto, a capacidade de ler os sinais da sua presença na história, de reconhecer no seu percurso o selo da economia da salvação. Aos olhos dos Padres – mas também para os filósofos que refletiram sobre a filosofia da história, que foi e continua sendo (também em Marx) uma disciplina essencialmente cristã –, a história se apresentava como um campo de tensões, percorrido por duas correntes opostas: a primeira – que Paulo, em uma célebre e enigmática passagem da Segunda Carta aos Tessalonicenses, chama de "to catechon" – que considera e diferencia sem parar o fim do mundo ao longo da linha do tempo cronológico, infinito e homogêneo; a outra que, colocando em tensão a origem e o fim, não cessa de interromper e levar o tempo a termo. Chamamos de lei ou de Estado a primeira polaridade, devotada à economia, ou seja, ao governo infinito do mundo; e chamamos de Messias ou de Igreja a segunda, cuja economia – a economia da salvação – é essencialmente finita.

Uma comunidade humana não pode sobreviver se essas duas polaridades não estão copresentes, se não existe entre elas uma tensão e uma relação dialética.

Ora, é exatamente essa tensão que hoje é despedaçada. Enquanto a percepção da economia da salvação no tempo histórico se ofusca na Igreja, vê-se a economia estender seu próprio domínio cego e derrisório sobre todos os aspectos da vida social. Ao mesmo tempo, a exigência escatológica que a Igreja ignorou retorna sob uma forma secularizada e parodística nos saberes profanos, que parecem competir para profetizar em todos os campos das catástrofes irreversíveis. O estado de crise e de emergência permanente que os governos do mundo proclamam hoje é justamente a paródia secularizada da perpétua atualização do juízo último na história da Igreja.

Ao eclipse da experiência messiânica do cumprimento da lei e do tempo, corresponde uma hipertrofia inaudita do direito, que pretende legislar sobre tudo, mas que trai com um excesso de legalidade a perda de toda legitimidade verdadeira. Afirmo, aqui e agora, medindo as palavras: hoje, sobre a terra, não há mais nenhum poder legítimo, e os próprios poderosos do mundo são todos reis de ilegitimidade. A jurisdização e a economização integral das relações humanas, a confusão entre aquilo em que podemos crer, esperar, amar, e aquilo que somos levados a fazer ou a não fazer, a dizer ou a não dizer, marca não apenas a crise do direito e dos Estados, mas também e sobretudo a da Igreja, pois a Igreja não pode viver senão se mantendo – enquanto instituição – em relação imediata com o fim da Igreja. E – não devemos esquecer –, na teologia cristã, há uma única instituição que não conhecerá seu fim e sua dissolução: é o inferno. Aqui se vê bem – me parece – que o modelo da política de hoje – que aspira a uma economia infinita do mundo – é propriamente infernal. E, se a Igreja despedaça a sua relação original com a "paroikia", ela só pode se perder no tempo.

Eis porque a pergunta que eu coloco, certamente sem ter nenhuma autoridade para fazê-la senão a de um hábito obstinado de ler os sinais dos tempos, se resume nesta: a Igreja se decidirá a aproveitar a sua ocasião histórica e a retomar a sua vocação messiânica? Pois o risco é que ela mesma seja arrastada para a ruína que ameaça todos os governos e todas as instituições da terra.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Saí duplamente do armário: como gay católico e como católico gay


Percebemos que a ideia de conciliar nossas identidades de gays e católicos muitas vezes causa um certo estranhamento ou mesmo desconforto em algumas pessoas - e, nesse caso, não só os "fundamentalistas", mas também em muitos gays não-religiosos. Em vista disso, iniciamos há algumas semanas uma série de depoimentos aqui no blog, que serão publicados sempre às quintas-feiras, às 15h, de algumas das pessoas que frequentam as reuniões e atividades do Diversidade Católica e que se dispuseram a compartilhar, com os leitores do blog, um pouco de suas histórias e suas vivências como gays e católicos que são.

A série pode ser acessada através da tag "gay e cristão".

A cada um deles, sempre, nosso muito obrigado. :-)


Vivia uma adolescência conturbada, explodindo questionamentos e angustia existencial. Até que conheci algumas pessoas da Igreja, e fui magicamente resgatado de uma solidão que acreditava ser eterna. Com eles eu não precisava parecer mais forte, mais seguro. Mesmo a minha falta de jeito para eles era um charme. Até então acreditava que a adolescência era o pior tempo da vida e tudo o que queria era crescer e deixar esse tempo para trás.Com eles passei a gostar de ser jovem, de estar no aqui e agora, de ser eu mesmo – ainda que soubesse bem pouco sobre mim mesmo até então. Formamos um grupo jovem chamado PANE (Para Amar Nós Existimos), no dia 06 de agosto de 1978.

Toda esta felicidade durou oito meses, e logo meu pai se transferiu de volta ao Rio de Janeiro com todos os seis filhos. Passei a freqüentar as missas da Igreja da Ressurreição no Posto 6. Achei que era para mim um chamado convocar jovens a partir dos 16 anos para ensinarem o catecismo, preparando crianças para a primeira comunhão. Atendi imediatamente e nos 4 anos seguintes (cada turminha durava 2 anos) tive um compromisso certo todos os sábados pela manhã.

Daí passei a dar palestras nos encontros da Igreja e de outras paróquias também. Fiz cursos de formação de lideranças e assumi uma coordenação na Pastoral da Juventude, na Arquidiocese. Em 1980, quando João Paulo II veio ao Brasil pela primeira vez, ajudei a formar o coral de 2000 vozes, que cantou para o papa no Aterro.

Minha espiritualidade continuava alegre e celebrando a vida, mas o fantasma da minha religiosidade infantil voltou a assombrar-me com maior frequência. Tentava abafar os clamores sexuais da explosão hormonal, que eram cada vez mais fortes, com orações e leituras do Evangelho. Minha vocação gay era cada vez mais difícil de ser ignorada. Por outro lado, os clamores sociais e políticos daqueles últimos anos de chumbo também eram cada vez fortes, e tampouco pude ignorá-los. Trabalhei na fundação de um partido e militei no movimento estudantil da Faculdade de Medicina, onde eu estudava. Acabei abraçando um novo estilo de vida, que me parecia a única forma de viver minha identidade homoerótica: deixei a Igreja, a Faculdade, o Partido e a casa de meus pais.

A minha sede espiritual que vinha sendo bem saciada desde aqueles anos do PANE, procurei aplacar - ainda que sem consciência- com spirits (destilados em inglês). Daí em diante, minha vida foi descendo ladeira abaixo. Seguia sendo o mesmo amigo amoroso, idealista e sensível às injustiças sociais. Mas a maior parte das vezes isso só fazia aumentar as doses necessárias para aplacar minhas sedes sem fim. Doses de prazer imediato que conseguia com o álcool, as drogas e o sexo desenfreado.

Há exatos treze anos, em dezembro de 1997, comecei a trilhar este caminho de volta, justamente com uma viagem a Brasília, onde pude reencontrar aqueles tais amigos, que havia deixado 18 anos atrás. Aos poucos eu já estava seguindo de volta para casa, e nem poderia sonhar com a festa que o Pai estava me preparando. Tudo o que queria era fugir da dor e do sofrimento em que vivia mergulhado. Já podia até ouvir a música da festa na casa do Pai. Foi então que recebi o telefonema da Heloisa, contando que estavam formando um grupo de gays católicos. Atendi ao chamado mais por curiosidade intelectual do que qualquer outra coisa. No primeiro encontro, fui surpreendido por uma emoção inesperada: viver a eucaristia num ambiente especialmente acolhedor, que aconteceu antes da reunião. Visivelmente emocionado, eu me justifiquei e fiz questão de dizer que não sabia se deveria estar ali, porque eu não era mais católico. Foi quando me disseram que eu era bem-vindo de qualquer maneira. Fui voltando, voltando e entre uma reunião e outra, senti vontade de ir à missa. Escolhi a missa do pe. França, aos domingos às 07h30. Assim, não seria reconhecido e me pouparia ter de explicar o que estava fazendo ali.

O novo grupo passou a se chamar Diversidade Católica, e se dedica a acolher as reses desgarradas ou prestes a se desgarrarem da Igreja. Somos convidados a integrar nossas identidades que tanto pareceram opostas para a maior parte de nós. Por outro lado, somos chamados a viver esta experiência como uma missão. Uma missão exclusiva que somente cada um de nós pode cumprir.

Através deste rebanho, eis que voltei à Igreja e recebi um novo chamado pessoal: um pedido de voluntários para o Coro da Ressurreição, que carece especialmente de vozes masculinas. Não pude ignorar este chamado. Faz parte de minha volta para casa. Embora o caminho de volta seja longo e ainda tenha muito a seguir, já posso sentir o calor do abraço do Pai, já percebo a luz de Seu amor incondicional.

Outro dia, meu companheiro adoeceu, e todos os colegas do Coro da Igreja souberam da minha aflição. Sempre perguntam pelo meu amigo desde então. Sem me dar conta, eles começaram a ver-me também na minha dimensão homoerótica. Mesmo depois disso, minha casa foi escolhida para sediar a confraternização de Natal do Coro. Fiquei muito feliz por recebê-los no lar onde vivo com meu companheiro.

Quando meu companheiro e eu decidimos caminhar juntos, nós nos ajoelhamos e pedimos a Deus que permitisse nossa união, desde que ela fosse útil a Ele e aos nossos próximos. Encontramos muitas dificuldades para manter nosso propósito, especialmente a distância física: mais de 2000 km nos separavam! Mas seguimos juntos há mais de seis anos e já vivemos sob o mesmo tempo há 3 anos. Talvez a Igreja nunca reconheça uma união entre pessoas do mesmo sexo como um casamento. Tampouco eu sei se isto seria desejável, dependendo do modo como esta instituição é vista e vivida dentro e fora da Igreja. Sabemos, no entanto, que ela será abençoada por Deus se e somente se for útil aos Seus planos.

O jantar de Natal do Coro foi ontem à noite e, na hora da oração, fiz questão de agradecer a oportunidade de coroar este meu momento de vida com aquela festa. Contei como e porque tinha estado tanto tempo afastado da Igreja. Comentei que embora tenha sido necessário me afastar da Igreja para viver minha dimensão homoerótica, nunca cheguei a me desligar realmente de Deus e que o pároco de nossa Igreja vinha acompanhando esta minha trajetória de perto, e nunca havia se preocupado em me recriminar, mas sempre se mostrou aberto a acolher-me caso eu quisesse voltar. Em seguida, recebi sinais explícitos de apoio e solidariedade de quase todos os presentes, alguns fazendo questão de agradecer verbalmente a confiança da revelação, e todos se mostrando muito felizes por estarem ali, naquela hora. Uma hora de vida, que se tornou um ritual. Eu também estava vivendo um momento feliz. Eu já tinha precisado da ajuda dos amigos do Diversidade Católica para sair do armário e assumir minha identidade católica. Assim, inteiro, pude apostar na acolhida dos meus colegas paroquianos, cujos princípios cristãos falaram mais alto que as crenças e os hábitos próprias de suas gerações e formações; apesar de tantas vezes a hierarquia da Igreja dirigir-se de modo pouco amoroso a tantos gays que insistem em procurar viver segundo a inspiração do Cristo e dentro da Igreja Católica.

- Arnaldo, 47 anos, Rio de Janeiro
Este depoimento foi publicado originalmente no site do Diversidade Católica, aqui.

Entendendo a fé (2)

Foto: i can read

Continuação do post de ontem...

Uma nova compreensão da fé destrói a prisão da crença. Ela liberta as pessoas religiosas para um mundo de ações compassivas, expressadas na parábola do Bom Samaritano. Ninguém está excluído dessa extensão da experiência de unidade, que surge das profundezas da alma, nas quais as crenças não podem adentrar, porque "conhecemos a Deus não por meio do pensamento, mas por meio do amor". Nos horizontes que a luz da experiência contemplativa revela, não mais identificamos a fé com a crença, ou condenamos as crenças de outras pessoas como sendo deficientes. O contemplativo deveria ser possuidor de uma cortesia mais parecida com a do Cristo, do que isso. E, dentro do risco, sim isso envolve um risco, do encontro com o outro, de encontrar outros crentes nos reinos desconhecidos da diferença, descobrimos a própria natureza da fé. Também seremos reconfortados porque, de fato, nossa própria identidade, que acreditávamos ameaçada, se afirma. [...]

A mera afirmação e defesa de nossas convicções não pode conduzir a uma verdadeira comunidade de fé. Isso faz com que nos tornemos membros de uma seita, uma cabala fundamentalista. Fecha a mente, como um órgão de percepção e da verdade. Caso confundamos a fé com a crença, dessa maneira, e passemos a pensar na fé como doadora de um senso de sermos diferentes ou superiores aos outros, terminaremos como o fariseu que agradecia a Deus por fazê-lo diferente dos outros e ficava satisfeito por ser superiormente diferente. A mente religiosa, nesse estado, pode até se persuadir a si mesma de que isso é humildade. Ao nos identificarmos inteiramente com a crença (o lado esquerdo do cérebro), negando a fé (o lado direito do cérebro), ocupamos um mundo privado só nosso, em lugar do reino de Deus, ou do reino de Cristo, no qual "não há nem judeus, nem gregos, homens ou mulheres, escravos ou libertos". Os religiosos frequentemente têm receio do poder da fé, precisamente porque ela tende a nos dirigir para esse reino indiferenciado do Espírito, no qual desmantelam-se todas as diferenças, que as crenças que colocamos em nosso altar podem controlar minuciosamente, religiosas, sociais e até mesmo de gênero.

A fé é a pista de alta velocidade para o espírito. Todo ato de fé que fazemos é uma descoberta do labirinto do espírito. A crença, quando rompida pela fé, conduz a um labirinto de espelhos, uma série de infinitas regressões, o labirinto do ego. Labirintos levam a becos sem saída e, quanto mais nos perdemos, mais entramos em pânico. Porém, os labirintos só nos pedem para seguirmos fielmente seus volteios e curvas, estranhos, mas afinal simétricos, de modo a sermos conduzidos para casa, ao centro.

- D. Laurence Freeman, OSB
Reproduzido via site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil, com grifos nossos

In Laurence Freeman, FIRST SIGHT: The Experience of Faith (London: Continuum, 2011) pg.9-10).
Tradução de Roldano Giuntoli

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Mães pela igualdade: Áurea Lúcia


"Sou mãe de sete filhos. A primeira é Jandira, gerada em mim. Falou, andou, cresceu e floresceu. Parceira querida e generosa. Certa vez, a vida até nos permitiu ser mães juntas – eu, pela sexta vez; ela, estreando. Fizemos barriga e enxoval juntas e amamentamos nossas crias em venturosa cumplicidade.

Daí floresceu a mãe e a mulher adulta viçosa, valente, determinada do talento criativo e da disposição para viver a vida com responsabilidade. Floresceu a profissional competente e a cidadã solidária da liberdade e da coragem de olhar com honestidade para si mesma, amar-se e revelar-se lésbica.

Floresceu a universalidade do amor em nosso lar, em nossa família, e de meu desejo de compartilhar esta felicidade, integro-me às Mães pela igualdade."

Áurea Lúcia
Brasília, DF / Olhos D'água, Goiás, Brasil.

Reproduzido via X1

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Junte-se às Mães pela Igualdade no Brasil. Divulgue, convide, participe! Mais informações aqui.

Indignar-se: redescobrindo a via para a identidade humana


Em todas as partes do mundo cresce na sociedade um movimento: o dos indignados. Saindo às ruas, ao espaço público, em protesto contra injustiças que decidiram não mais tolerar, os indignados protestam com palavras, gestos, atitudes. Pretendem com isto chamar a atenção da sociedade e, sobretudo de seus dirigentes.

O que move esses grupos que enchem as ruas? O que move essas pessoas que não são bandidos, nem arruaceiros, mas sim cidadãos corretos, que trabalham e pagam seus impostos? Qual o motor de sua cólera, de sua indignação?

Indignação quer dizer cólera ou desprezo experimentado diante de uma indignidade, ou injustiça, afronta. É repulsa e revolta diante daquilo que fere valores básicos, direitos e princípios que regem a vida dos seres humanos.

Ela pode ser meramente uma defesa de interesses privados, domésticos e individuais. Diante de coisas que dizem respeito exclusivamente à própria pessoa, à família ou ao círculo dos mais próximos. Ou ainda o círculo mais largo da empresa, do partido político, ou até da agremiação esportiva. Tudo aquilo que freia, desvia, prejudica os interesses do grupo ou do clã suscita indignação que pode derivar em ações legais, judiciais, etc. Atingir os interesses do grupo suscita imediatamente a reação corporativa e indignada de seus membros.

Sem querer minimizar ou mesmo demonizar este tipo de indignação, é necessário constatar, no entanto, que ela toma a defesa de interesses particulares não universalizáveis. E pode inclusive tomar o aspecto de autodefesa de privilégios, como a defesa a qualquer preço ou custo de um estilo de vida confortável, protestando por isto contra propostas mais sociais; que beneficiem um leque mais amplo de pessoas e grupos. Assim também a indignação contra certas medidas de maior transparência pelo fato de que podem pôr a nu ou denunciar atitudes escusas de determinadas pessoas ou grupos a quem não interessa que a verdade venha à tona. O protesto gerado por este tipo de indignação não visa então prioritariamente o estabelecimento de valores ou do bem comum.

A indignação que hoje vemos ganhar as ruas parece fundar-se, no entanto, sobre razões não tanto formais, e certamente mais radicais do que aquelas cometidas contra as regras da equidade a nível pessoal ou intra-grupal. Trata-se de uma indignação propriamente ética, que se levanta em nome da proteção ou da defesa do ser mesmo das pessoas, de sua integridade física e moral.

Complexa e densa, essa indignação pode inclusive ir de encontro ao direito positivo e conduzir, em conseqüência, à resistência cidadã. Este tipo de indignação se refere, então, a valores reconhecidos como fundamentais e não negociáveis, como por exemplo, aqueles expressos na Declaração dos Direitos Humanos que, ainda que longe de ser perfeitos, representam uma conquista inalienável da humanidade sobre razões universais ou ao menos universalizáveis.

A indignação ética apresenta características que ultrapassam as fronteiras dos interesses próprios e pessoais e corporativistas. E mais: não se fundam no negativo nem na exclusão de inimigos ou de quem quer que seja. Estes, ao contrário, são incluídos nos benefícios dos valores que os atos de indignação ética pretendem promover. E mesmo os tiranos comprovadamente sanguinários, quando vencidos no bojo de atos que se iniciaram com uma atitude de indignação ética têm direito a um julgamento e a um procedimento judiciário com tudo que isso implica.

Parece-me que o que assistimos hoje em várias partes do mundo se encaixa neste segundo caso de indignação. Desde os protestos dos estudantes no Chile exigindo mais verbas para educação; passando pelos espanhóis que enfrentam 20% de desemprego, num processo de deterioração social que pode espalhar-se qual doença contagiosa por todo o continente europeu e por todo o mundo; até Nova York, onde o movimento “Occupy Wall Street”denuncia publicamente um sistema financeiro que sugou os recursos de muitas nações e gerações e agora dá sinais de exaustão.

No Brasil, o movimento contra a corrupção ainda mostra números tímidos de adesões, se comparado com o que ocorre em outras latitudes. Entretanto, o mero fato de que exista e haja começado já é uma esperança. Perder a capacidade de indignar-se é o pior que pode acontecer a uma pessoa, pois a desumaniza e debilita naquilo que tem de mais nobre e mais fundamental: sua liberdade. Indignar-se pode ser o novo caminho que a humanidade vai encontrando para gritar bem alto sua dignidade de seres humanos, feitos para a vida em plenitude.


- Maria Clara Bingemer
Reproduzido via Amai-vos

Entendendo a fé (1)


Em lugar de dedos que apontam para a lua, a doutrina ou o dogma viram-se para trás apontando para si mesmos. Tudo aquilo que questiona a crença, é então percebido como ameaçador, e aquilo que ameaça pode exalar um tipo de estranheza ou ameaça que incita o medo.

“Eu sou aquilo que eu acredito” é um princípio tão perigoso quanto “existo porque eu penso”. Então, aquilo que quero, ou tento, acreditar constitui minha identidade, meu eu, e assim, porque acredito nessas doutrinas, eu sou um cristão. Outras pessoas que não acreditam nessas declarações específicas são “não-crentes”. A crença, na verdade, pode ser forte e verdadeira. Podemos ser leais a nossas convicções, e morrer defendendo o sistema do qual elas fazem parte. Todavia, esse tipo de convicção, aquela pela qual poderíamos morrer, deveria surgir a partir da experiência da fé, e não do medo de uma identidade ameaçada e insegura. Por que morrer, ou atacar outras pessoas, apenas com respeito a fórmulas verbais? Enquanto pensamos na fé como sendo constituída por convicção, falta-nos a dimensão completa da mente de Cristo.

Esta é a mente “católica” que, intrinsecamente, busca incluir e integrar, em lugar de excluir e condenar, sempre que se encontra com diferentes expressões de crenças que trazem à tona a incerteza natural em nosso próprio sistema. Percebemos que existem crenças em diferentes caminhos, e que outras pessoas sustentam as suas, tão sinceramente quanto sustentamos as nossas. Sem a fé, isso nos fará sentir dolorosamente ameaçados. Quando reagimos a partir de nossa própria insegurança, nós cristãos frequentemente descrevemos os devotos seguidores de outras religiões como não-crentes, apenas porque eles possuem diferentes crenças.

As diferenças, assim como os opostos, em última análise, resolvem-se apenas em Deus, que é infinitamente simples, o suficiente para contê-las todas. Apenas em Deus podemos encontrar os outros, e é no nível da fé, e não no da crença, que esse encontro ocorre.

- D. Laurence Freeman, OSB
Reproduzido via site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil, com grifos nossos

In Laurence Freeman, FIRST SIGHT: The Experience of Faith (London: Continuum, 2011) pg.9-10).
Tradução de Roldano Giuntoli

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Continua amanhã... :-)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Casamento sem escala (#CasamentoIgualitario)

Foto daqui

"O Estado não existe para apenas legitimar os valores das maiorias."

- Marco Buzzi, ministro do STJ

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Antes não havia nada.

Até parece que amor entre iguais não existia.

Na vã tentativa de varrer para baixo do tapete os homossexuais e seus vínculos afetivos, a Constituição Federal admite a conversão em casamento somente à união estável entre um homem e uma mulher.

Diante da total omissão do legislador, que insiste em não aprovar qualquer lei que assegure direitos à população LGBT, o jeito foi socorrer-se da justiça.

Assim, há uma década o Poder Judiciário, ao reconhecer que a falta de lei não quer dizer ausência de direito, passou a admitir a possibilidade de os vínculos afetivos, independente da identidade sexual do par, terem consequências jurídicas. No começo o relacionamento era identificado como mera sociedade de fato, como se os parceiros fossem sócios. Quando da dissolução da sociedade, pela separação ou em decorrência da morte, dividiam-se lucros. Ou seja, os bens adquiridos durante o período de convivência eram partilhados, mediante a prova da participação de cada um na constituição do “capital social”.

Nada mais.

Apesar da nítida preocupação de evitar o enriquecimento sem causa, esta solução continuava provocando injustiças enormes. Como não havia o reconhecimento de direitos sucessórios, quando do falecimento de um do par o outro restava sem nada, sendo muitas vezes expulso do lar comum por parentes distantes que acabavam titulares da integralidade do patrimônio.

Mas, finalmente, a justiça arrancou a venda dos olhos, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) consagrou a inserção das uniões homoafetivas no conceito de união estável.

Por tratar-se de decisão com efeito vinculante – isto é, nenhum juiz pode negar seu reconhecimento – os magistrados passaram a autorizar a conversão da união em casamento, mediante a prova da existência da união estável homoafetiva, por meio de um instrumento particular ou escritura pública. Assim, para casar, primeiro era necessária a elaboração de um documento comprobatório do relacionamento para depois ser buscada sua conversão em casamento, o que dependia de uma sentença judicial.

Agora o Superior Tribunal de Justiça (STJ) acabou de admitir que os noivos, mesmo sendo do mesmo sexo, podem requerer a habilitação para o casamento diretamente junto ao Registro Civil, sem precisar antes comprovar a união para depois transformá-la em casamento.

Ou seja, a justiça passou a admitir casamento sem escala!

Só se espera que, diante de todos esses avanços, o legislador abandone sua postura omissiva e preconceituosa e aprove o Estatuto da Diversidade Sexual, projeto de lei elaborado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que traz o reconhecimento de todos os direitos à comunidade LGBT e seus vínculos afetivos.

Com certeza é o passo que falta para eliminar de vez com a homofobia, garantir o direito à igualdade e consagrar o respeito à dignidade, independente da orientação sexual ou identidade de gênero.

Enfim, é chegada a hora de assegurar a todos o direito fundamental à felicidade!

- Maria Berenice Dias
Advogada, Vice-Presidenta Nacional do IBDFAM, Presidenta da Comissão da Diversidade Sexual da OAB
www.direitohomoafetivo.com.br

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Pela PEC do Casamento Civil Igualitário já: www.casamentociviligualitario.com.br

A boa alma carnavalesca da Parada

Foto via Gay1

Carnavalizaram a Parada. E que bom! Depois que Mikhail Bakhtin me explicou alguns conceitos, vejo a carnavalização com muito bons olhos e um grande sorriso de contentamento. Explicou-me Bakhtin que a carnavalização é essencialmente transgressora, subversiva e me mostrou a força de transformação política, social e cultural que há nisso. Com ele aprendi que o carnaval abarca todos, sem discriminação, sem limites, sem rótulos, que o carnaval horizontaliza, inclui. Descobri que o carnaval não pode ser confinado nem controlado: ele toma de assalto os espaços públicos, não segue regras nem respeita manuais de comportamento. Não cerceia, não cala, não amarra. O contrário disso: liberta, iguala, dá voz. Não há marginalização no carnaval, todos são trazidos para o centro da cena, inclusive quem no dia a dia vive à margem. O que fica calado, sufocado e castrado pela censura da cultura oficial, que dita o que é permitido e aceitável, toma conta do cenário. O bizarro, o diferente, o que não é tolerado frente à normatividade se torna o senhor do espetáculo, tem elevada sua auto-estima e adquire outra perspectiva de mundo. E é por tudo isso que não cabe a acusação de alienação no carnaval, pois ele não é pensado, ele é vivido. Não se reflete sobre novos modos de ver ou de viver, a experiência é concreta, é sensorial. A vida é vista e vivida de outra forma, uma forma radicalmente nova e revolucionária, pois não é apenas o modo de ver e viver que é novo, a própria inserção social adquire novos contornos e nada é mais revolucionário que isso, que essa transgressão: a vivência, na prática, da superação do cotidiano opressor.

A carnavalização promove metamorfoses, transexualidades, excentricidades, superação de limites. Masculino e feminino se misturam e se reinventam. Masculino e feminino não são suficientes. Enquadramentos não dão conta da tamanha diversidade, pluralidade e transgressão. Travestis, transexuais, lésbicas, gays e bissexuais ultrapassam o que se espera dos gêneros – nas roupas, nas vozes, nos modos de ser e agir. A tudo subvertemos. O mundo fica às avessas, caem as fronteiras entre o sagrado e o profano, entre o sublime e o vulgar. Não há mais obediência à ordem pré-estabelecida. Desejos são permitidos e liberados. Recorrendo à fantasia, à máscara ou ao desnudamento de modos, de roupas e de mascaramentos, todos podem revelar sua identidade mais legítima. A Parada é uma grande catarse coletiva. E isso, claro, é uma afronta aos moralistas, aos conservadores. E daí a importância do caráter carnavalesco da Parada: a livre expressão, o não-controle, o organismo vivo que cresce e se movimenta por si mesmo. Multifacetado, polifônico, polissêmico - liberto.

No carnaval, nenhum excesso é demais. Nenhuma transgressão ultrapassa os limites. A carnavalização reinventa modos de ser e estar no mundo. E aí é que o aspecto carnavalesco da parada é redentor. Nada é erro, nada é desvirtuante. Somos todos apenas seres humanos em busca da felicidade. Por isso mesmo é que apavoramos, assustamos, inibimos e agredimos os moralistas, os conservadores, os homofóbicos. Quanto mais nos mostramos, dançamos, gritamos, festejamos e não nos enquadramos em seus paradigmas, mais desafiamos a sociedade hipócrita e homofóbica que nos quer cercear o espaço, nos controlar o movimento, nos privar a sexualidade e nos tornar invisíveis. Nós quebramos tabus. Nosso carnaval viola o que é socialmente aceito, o que é comum, desloca significados, faz a vida adquirir outra configuração. Vamos às ruas e subvertemos a ordem imposta, vivenciando livremente sentimentos considerados pecaminosos e passíveis de punição.

Estando em grupo e à luz a do dia, imagine o inferno que vive aquele conservador tacanho, aquele moralista atrofiado, ao ver tanta gente na rua, à luz do dia, cantando e dançando, feliz, celebrando a vida e o amor que eles tanto querem e se esforçam para sufocar. Deve ser muito penoso. Por isso usam de toda artimanha para internalizarmos o moralismo que apregoam. Portanto, reflita bem sobre isso, reflita mesmo, preste atenção para não fazer o jogo do inimigo, não carregue o opressor dentro de si, não reproduza o seu discurso, deixe que os outros vivam o que desejam e precisam viver. Muitos não sabem o quanto podem ser felizes, o quanto podem ser livres, nem o quanto podem ter de apoio, muito menos quantos somos. Muitos se sentem absolutamente solitários e oprimidos e outros tantos terminam por achar que não há saída. A Parada mostra que ninguém está só, que há lugar para todos e que a vida é possível. Quantos se lembram da sensação de descobrir que não estava só e do que isso significou? Então, relaxe e deixe que a Parada tenha suas funções política, cultural e social. Ou faça muito melhor: não relaxe! Corra e participe da maior quantidade de Paradas e manifestações que você puder e participe ativamente de grandes transformações: subverta, transgrida, revolucione!

- Ivone Pita
Reproduzido via Gay1

Por que ''o teu próximo'' revolucionou a fé

Foto daqui

Publicamos aqui um trecho do livro de Enzo Bianchi e Massimo Cacciari, Ama Il prossimo tuo (144 páginas), décimo primeiro e último livro da série "Os Mandamentos", publicado pela editora Mulino.

O texto foi publicado no jornal Corriere della Sera, 22-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o texto.

É preciso começar pelos textos decisivos em que ressoa o mandatum novum: "Amarás o Senhor teu Deus com todo O teu coração e toda a tua alma e com todas as tuas forças e toda a tua mente, e amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Lucas 10, 27). O verbo agapán é usado para indicar tanto o amor que se deve ao Theós, quanto aquele ao próximo, plesios. A tradução latina, proximus, também mostra bem a importância do termo: proximus é de fato um superlativo. Não pode se tratar de um simples "vizinho". O plesios enquanto proximus se refere a nós com uma intensidade que nenhuma proximidade, nenhuma contingente contiguidade poderia alcançar. Nem se trata, certamente, de uma voz inexplicavelmente nova, vinda de algum outro lugar misterioso.

Esse mandatum também é um pleroma, não katalysis da Lei, salvação do próprio nomos em sua renovação radical. O preceito do pleno respeito dos direitos do hóspede, assim como do companheiro, do aliado, do amigo havia sido afirmado, de fato, com pleno vigor pelos profetas – porém, o rea' da Primeira Aliança, que a Septuaginta traduz no máximo como plesios, mesmo quando designa o estrangeiro, o concebe sempre como ligado a nós, ou pelo símbolo da hospitalidade, ou das relações de confiança recíproca, garantidos por pactos e arautos de acordos "úteis" às partes.

O timbre do mandatum evangélico "excede" completamente essa dimensão. O fato de combinar imediatamente o amor pelo Senhor ao pelo próximo constituiria verdadeira novitas, mesmo que plesios aqui traduzisse exatamente rea'. O que era mandado, juntamente com outros deveres, aqui completa até a Primeira Palavra! O Logos que serve de fundamento para toda a vida de Israel não se expressaria plenamente, permaneceria imperfeito, se não significasse em si mesmo amor pelo próximo.

É evidente que plesios é chamado, então, neste contexto, a assumir uma pregnância inaudita – mas, ainda mais, é evidente que a própria visão de Deus muda por essa sua extraordinária proximidade ao “plesios.

Só em um ponto, talvez, na Primeira Aliança, se chega a uma intuição análoga – e é do maior significado isso ocorra em Jó. Todo o drama de Jó poderia ser interpretado da seguinte forma: é isto que ele pede: não que lhe sejam poupados os suplícios (no máximo as fofocas dos “advocati Dei”), mas que Deus se mostre a ele como rea', plesios, proximus (16, 21): "como um mortal faz com o seu rea' (plesion autoú)", ele quer encontrá-lo “face a face” e defender o homem diante dEle. Moisés também falava com o Senhor como um homem fala com o seu rea' (Êxodo 3, 11), mas a cena em Jó está radicalmente mudada: no Êxodo, parece evidente a forma do acordo, ou melhor: da aliança eterna; “rea'” expressa aqui uma proximidade atual e incontestável. Para Jó, ao contrário, o Senhor deveria se fazer “rea'”; ele exige que a relação entre o mortal e o seu Deus se torne uma relação entre “próximos”.

Poder-se-ia argumentar que Jó exige a companhia, a amizade, a proximidade de Deus no sentido daquela reciprocidade confiante, que o termo “rea'" expressa substancialmente. Ele quer amar o seu Senhor como o próximo, no aspecto do próximo, mas isso não equivale de fato a amar o próximo como ao Senhor. E se isso ocorre, é evidente que o significado que atribuíamos a rea' e ao plesios dos LXX, é revolucionado.

Foi dito: "Amarás o teu próximo (agapeseis ton plesion soú)" – mas também foi dito: odiarás o inimigo, odiarás quem não está contigo no vínculo das leis da hospitalidade, no sentido mais amplo do termo. Mas talvez os gentios também não sabem disso? "Mas eu porém vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem".

Em Lucas o paradoxo da extrema proximidade entre amor por Deus e amor pelo próximo; em Mateus, o da relação que vem se estabelecer entre plesios e echthrós, entre proximus e inimicus. O inimigo não pode ser amado sob o fundamento de um pacto, nem em vista de qualquer ganho, nem esperando reciprocidade. No entanto, deve ser amado como plesios. Isto é, no termo, deve ser compreendido o máximo afastamento. Próximo, "superlativamente" próximo, é o próprio inimigo (o hospes que não só se declara abertamente hostis, mas até inimicus, echthrós).

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Por que os jovens cristãos abandonam as Igrejas

Instalação: Nele Azevedo

Três de cada cinco jovens cristãos, mais ou menos, se afastam da fé e abandonam suas igrejas de origem. Isso, geralmente, acontece por volta dos 15 anos. É um fenômeno comum, que tem diversos graus, com todas as confissões religiosas cristãs do ocidente, na Europa e nos Estados Unidos. E a grande pergunta é: por que isso acontece, e por que com esta frequência?

A reportagem é de Marco Tosatti e está publicada no sítio Vatican Insider, 10-10-2011. A tradução é do Cepat, aqui reproduzida via IHU.

Um novo estudo, cujo resultado foi tornado público há alguns dias pelo Barna Group, indica seis razões diferentes para este êxodo juvenil. Os pesquisadores do Barna Group apresentaram seus questionários a uma variedade de pessoas: jovens, adultos, adolescentes, jovens pastores evangélicos e seus colegas mais idosos. A pesquisa teve uma extensão de período de tempo muito longa: cinco anos.

O primeiro problema: as igrejas dão a sensação de serem “excessivamente protetoras”. Quase um quarto dos jovens, na faixa de idade dos 18 aos 29 anos, responderam que “os cristãos demonizam tudo o que não tem a ver com a Igreja”, na maior parte dos casos. 22% declararam que as Igrejas ignoram os problemas do mundo real, 18% afirmaram que sua Igreja parecia muito preocupada com o impacto negativo dos filmes, da música e dos videogames.

Aprofundando mais, descobriu-se que muitos jovens adultos sentem que sua experiência do cristianismo é superficial, pouco intensa. Um terceiro grupo juvenil entrevistado afirmou que “a Igreja é chata”. 20% dos que participaram da pesquisa como adolescentes, afirmaram que Deus parece estar ausente de sua experiência de igreja.

O estudo evidenciou que muitos jovens adultos não apreciam o modo como sua Igreja parece se opor à ciência. Além disso, um terço dos protagonistas do estudo, jovens adultos, declarou que “os cristãos parecem confiar no fato de que conhecem todas as respostas”, ao passo que um quarto deles afirmou, de maneira muito simples, que “o cristianismo é contra a ciência”.

Alguns fazem uma crítica à sua correspondente Igreja: as confissões às quais pertenciam ou às quais ainda pertencem são muito “simples” ou julgam de um modo muito fácil quando se toca a questão da sexualidade. 17% dos jovens cristãos afirmam “que cometeram erros, e que se sentem julgados pela Igreja por causa deles”. Dois de cada cinco jovens adultos cristãos afirmam que os ensinamentos da Igreja sobre o controle da natalidade e sobre o sexo “são antiquados”.

A quinta razão que o estudo aponta para explicar o êxodo das Igrejas cristãs é que muitos jovens adultos lutam contra o problema da exclusividade do cristianismo. 29% dos jovens cristãos declararam que “as Igrejas têm medo do que as outras fés acreditam”, e sentem o dever de escolher entre seus amigos e sua fé.

A sexta e última razão assinalada pelo estudo sobre as razões pelos quais os jovens se afastam das Igrejas reside no fato emocional. Ou seja, sentem que a Igreja “é pouco amistosa em relação às pessoas que têm dúvidas”. Mais de um terço dos jovens adultos declararam que é impossível, na Igreja, fazer perguntas sobre as questões mais urgentes da vida e 23% admitiram que “tem dúvidas intelectuais significativas” sobre a sua fé.

Do estudo nasceu um livro, cujo autor é David Kinnaman, presidente do Barna Group, com um título bastante indicativo: “You Lost Me: Why Young Christians Are Leaving Church... and Rethinking Faith” (Me perdeste: por que os jovens cristãos abandonam e mudam de ideia sobre a Igreja). E Kinnamam indica que um dos problemas pode residir no fato de que as Igrejas estão estruturadas e dirigidas a jovens adultos “tradicionais”.

“Mas a maior parte dos jovens adultos já não seguem o caminho tradicional de sair de casa, procurar um emprego, casar-se e ter filhos, tudo isso antes dos 30 anos. Estes acontecimentos foram retardados, deslocados para outra fase e inclusive às vezes eliminados do radar dos jovens adultos”.

O estudo do Barna Group é confirmado por outros dados. Um estudo realizado pela Life Way Reaserch mostra que dois terços dos jovens adultos que participam com regularidade de uma Igreja protestante (isto é, algumas vezes por mês durante pelo menos um ano seguido), deixaram de fazê-lo entre os 18 e 22 anos. Muitos retornam, e participam novamente, inclusive de maneira esporádica; mas 34% declararam que não retornaram antes de cumprir 30 anos. “Circulam muitos números alarmantes sobre o abandono da Igreja. E agora quisemos fazer um estudo que nos desse uma imagem clara da situação, e seguramente há más notícias, mas também soluções importantes que podem ser encontradas. Se sabemos o motivo pelo qual as pessoas se afastam, podemos mover-nos melhor para entrar em contato com estas pessoas”, disse Ed Stetzer, diretor da Life Way Reaserch, organismo da Southern Baptist Convention.

A maior parte dos abandonos está relacionada a mudanças na vida; o que podem também fazer supor uma certa superficialidade na aproximação da fé. Por exemplo, a entrada na universidade, e consequentemente o afastamento físico da igreja à qual se pertence foi o motivo pelo qual um quarto dos jovens se afastou.

“Quando as mudanças misturam as prioridades e o tempo na vida dos jovens adultos, é o momento de se comprometer na vida da Igreja, muitos não se sentem bem-vindos nem comprometidos”, afirma Stetzer. Mais de 52%, no entanto, afirmaram que “as crenças éticas, políticas ou religiosas” contribuíram para o abandono. 18% declararam que não estão de acordo com a “posição da Igreja em temas políticos e sociais; 16% não queriam identificar-se com uma igreja ou com uma religião organizada; e 14% haviam observado que os membros da igreja “estavam inclinados a fazer juízos ou eram hipócritas”; enquanto 20% não se sentiam “em sintonia com os membros da minha Igreja”.

Muitos abandonam, mas nem sempre de maneira definitiva; o abandono é temporal, ou parcial. 34% dos que decidiram voltar, afirmam “Simplesmente queria voltar”; 28%: “Ouvi o apelo de Deus que me dizia que voltasse à Igreja”.
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