sábado, 10 de março de 2012

Multiplicar a generosidade e a solidariedade

Ilustração: Bianca Green

Se queremos ser nômades de Deus, se queremos viver Dele, temos de criar uma liberdade muito grande face às coisas. A verdade é elas nos aprisionam. O que possuímos rapidamente nos possui a nós. Para o cristão um estilo de vida frugal testemunha melhor do que mil palavras a Fé em Deus. Estamos mergulhados num tempo em que tudo nos empurra para a competição... onde o desnecessário é-nos impingido pela publicidade como absolutamente necessário à nossa felicidade.

O Evangelho ensina-nos não a amontoar, mas a multiplicar. Jesus revela-nos as possibilidades de vida que um único pão esconde. Com um só pão podemos fazer muita coisa, se aprendermos a arte de multiplicar a vida. Multiplicar a generosidade, a solidariedade, a ternura, a capacidade de sofrer com os outros e de se pôr no seu lugar...

Alimentamo-nos uns dos outros. Somos uns para os outros, na escuta e na palavra, no silêncio e no riso, no dom e no afecto, um alimento necessário, pois é de vida (e de vida partilhada) que as nossas vidas se alimentam.

- P. José Tolentino Mendonça
In Pai-nosso que estais na terra
Reproduzido via Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal)

Maria de Magdala, a grande ''Apóstola dos Apóstolos''


“Não é possível contar a história da Ressurreição sem falar também de ‘Maria, a de Magdala’”. Foi essa mulher que, depois de ir ao túmulo onde Jesus havia sido depositado depois da crucificação, “viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo e saiu correndo”, como relata o Evangelho, para se encontrar os discípulos e lhes contar a grande notícia.

Segundo Chris Schenk, diretora-executiva da FutureChurch - organização norte-americana de renovação da Igreja 
que atua pela plena participação de todos católicos e católicas em todos os aspectos da vida e do ministério da Igreja - essa é a grande importância e o legado de Maria Madalena, uma das primeiras místicas do cristianismo que viveu “a experiência da Ressurreição”.

Em entrevista por e-mail à IHU On-Line, Chris busca desmontar por inteiro qualquer referência negativa a Maria Madalena: “Não há nada nas Escrituras que sustente a ideia de que ela era uma prostituta” e, “se Maria de Magdala fosse a esposa de Jesus e a mãe de seu filho, é altamente improvável que esses textos teriam omitido esses fatos importantes”.

Ao contrário, para a religiosa da congregação das Irmãs de São José, Madalena foi a principal testemunha da Ressurreição e “uma líder feminina que entendeu a missão de Jesus melhor do que os discípulos homens”. “Curiosamente – afirma –, a Igreja Oriental nunca a identificou como uma prostituta, mas honrou-a ao longo da história como ‘a Apóstola dos Apóstolos’”.

Chris Schenk, CSJ, é religiosa da congregação das Irmãs de São José, mestre em Obstetrícia e Teologia e, com a assistência da equipe da FutureChurch, desenvolve e administra programas nacionais de base, incluindo questões como a mulher na liderança da Igreja e no mundo, o futuro do ministério sacerdotal e a situação das paróquias dos EUA. Durante os últimos 15 anos, a FutureChurch tem trabalhado para restaurar a consciência sobre Santa Maria de Magdala como a primeira testemunha da Ressurreição e uma respeitada líder da Igreja primitiva. Em 2011, mais de 340 celebrações de Santa Maria de Magdala foram realizadas, incluindo 36 celebrações internacionais, inclusive no Brasil. Em 2007 e 2008, Schenk coordenou uma ação internacional para “pôr novamente as mulheres no quadro bíblico” no Sínodo sobre a Palavra. Isso resultou no maior número mulheres da história a participar de um sínodo do Vaticano, em um total de seis, que atuaram como consultoras teológicas para os padres sinodais.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – O que sabemos sobre a vida de Maria Madalena? Quem foi essa mulher que seguiu Jesus, alcunhada com expressões tão díspares quanto “prostituta e esposa de Jesus” e “discípula amada e apóstola dos apóstolos”?

Chris Schenk – Mesmo que Maria de Magdala seja a segunda mulher mais frequentemente nomeada no Novo Testamento depois de Maria, a mãe de Jesus, o que sabemos sobre ela é bastante limitado, estando confinado aos textos dos Evangelhos canônicos e ao que pode ser deduzido de como ela é retratada em uma série de textos canônicos extras. No entanto, é impressionante o quanto os estudiosos bíblicos podem nos dizer sobre ela, mesmo a partir desses dados esparsos. Por exemplo, todos os quatro Evangelhos retratam-na como líder do grupo de mulheres que testemunhou por primeiro os eventos que cercam a Ressurreição. Todos os quatro descrevem-na exatamente com a mesma frase: “Maria, a de Magdala”. Os estudiosos chamam isso de atestado múltiplo, o que significa que há evidências históricas confiáveis de que ela existiu e que não é possível contar a história da Ressurreição sem falar também de “Maria, a de Magdala”.

Em Lucas 8, 1-3 ficamos sabendo que, com Joana, esposa de um alto funcionário de Herodes, Cuza, e Susana, Maria de Magdala “e muitas outras mulheres” acompanhavam Jesus e os discípulos homens pela Galileia e “os ajudavam com seus bens” . Esse pequeno texto nos diz muito mais do que pode parecer, a princípio, para os nossos ouvidos do século XXI, que não entendem os costumes sociais que cercavam as mulheres no judaísmo palestino do primeiro século.

Para começar, as mulheres muito raramente eram nomeadas em textos antigos. Se elas são nomeadas é porque tinham alguma proeminência social e, mesmo assim, na maioria das situações, elas são nomeadas em relação aos homens presentes em suas vidas, tais como seus maridos, pais ou irmãos. As mulheres eram consideradas como parte da família patriarcal, e era raro para elas ter uma identidade separada da de um parente do sexo masculino. Assim, vemos Joana, a esposa do alto funcionário de Herodes, Cuza. Herodes é o rei. Joana faz parte de uma família rica pertencente a Cuza.

Mas quando Maria de Magdala é identificada, ela é nomeada pelo povoado de onde ela veio, não em relação a um parente do sexo masculino. Os estudiosos bíblicos acreditam que isso significa que Maria de Magdala era uma mulher rica de recursos independentes. E, com Joana e Susana (sobre quem, infelizmente, sabemos muito pouco), essas mulheres eram apoiadoras financeiras proeminentes da missão de Jesus na Galileia.

Assim começou uma longa história de patrocínio das mulheres que ajudou o cristianismo a se espalhar de forma relativamente rápida por todo o mundo mediterrâneo. Por exemplo, sabemos que Paulo tinha muitas benfeitoras ricas, como Lídia e Febe, que apoiavam financeiramente o seu ministério e o apresentaram a uma ampla gama de relações sociais no mundo dos gentios que, de outras formas, ele não teria tido acesso.

Inclusão de mulheres
A inclusão de mulheres por parte de Jesus em seu discipulado itinerante pela Galileia não é nada menos do que notável. No judaísmo palestino, os judeus observantes homens não falavam publicamente com as mulheres de fora do seu círculo de parentesco, e muito menos lhes era permitido viajar com eles em público em uma comitiva de gênero misto. Embora a observância dos costumes judaicos fosse provavelmente menos estrita na Galileia do que em Jerusalém, eu acredito que a paixão de Jesus por proclamar o reino de Deus de justiça e de relações justas era tal que transcendia costumes, e ele sabia que a sua missão dada por Deus estava voltada para as mulheres assim como para os homens.

As discípulas de Jesus muitas vezes ultrapassaram seus irmãos discípulos em termos de fidelidade à sua pessoa, particularmente em eventos em torno da paixão e morte dele. Enquanto os Evangelhos nos dizem que os discípulos homens fugiram para a Galileia, as mulheres ficaram do lado de Jesus ao longo da crucificação, morte, sepultamento e Ressurreição. É por isso que todos os quatro Evangelhos mostram as mulheres como as primeiras testemunhas. Elas sabiam onde Jesus havia sido sepultado. E as mulheres foram, então, incumbidas a “ir e a contar aos seus irmãos” a boa notícia da vitória de Jesus sobre a morte.

O fato de a mensagem da Ressurreição ter sido confiada por primeiro às mulheres é considerado pelos estudiosos das Escrituras como uma forte prova da historicidade dos relatos da Ressurreição. Se os relatos da Ressurreição de Jesus tivessem sido fabricados, as mulheres nunca teriam sido escolhidas como testemunhas, já que a lei judaica não reconhecia o testemunho de mulheres.

Escritos cristãos extracanônicos antigos mostram comunidades de fé inteiras crescendo em torno do ministério de Maria de Magdala, nos quais ela é retratada como alguém que compreende a mensagem de Jesus melhor do que Pedro e os discípulos homens. Os estudiosos nos dizem que esses escritos não são sobre as pessoas históricas de Maria e de Pedro, mas refletem, sim, tensões sobre os papeis de liderança das mulheres na Igreja primitiva. Líderes proeminentes como Maria e Pedro foram evocados para justificar pontos de vista opostos.

O que não é contestado é a representação de Maria de Magdala como uma importante mulher líder e testemunha das primeiras igrejas cristãs.

IHU On-Line – Em seu artigo Mary of Magdala, Apostle to the Apostles , você diz, entre outras coisas, que Maria Madalena “não era uma prostituta”. Em sua opinião, o que levou a essa confusão em torno da figura de Maria Madalena?

Chris Schenk – Uma explicação é uma leitura errônea comum do Evangelho de Lucas, que nos diz “sete demônios saíram dela” (Lucas 8, 1-3). Para os ouvidos do primeiro século, isso significava apenas que Maria tinha sido curada de uma doença grave, e não que ela era pecadora. Segundo biblistas como a Ir. Mary Thompson, a doença era comumente atribuída ao trabalho dos espíritos maus, e não associada com a pecaminosidade pessoal. O número sete simboliza que a sua doença era crônica ou muito grave.

Além disso, como o conhecimento das muitas discípulas de Jesus desapareceu da memória histórica, suas histórias se misturaram e se borraram. A terna unção de Maria de Betânia antes da paixão de Jesus estava ligada à mulher “conhecida por ser uma pecadora”, cujas lágrimas lavaram e ungiram os pés de Jesus na casa de Simão. Os textos de unção combinaram todas essas mulheres em uma só pecadora público-genérica: “Magdalena”. A identificação equivocada de Maria como uma pecadora pública reformada alcançou um status oficial com uma poderosa homilia sobre o perdão do Papa Gregório Magno (540-604).

Doravante, Maria de Magdala se tornou conhecida no Ocidente não como a forte mulher líder que acompanhou Jesus através de uma morte tortuosa, que testemunhou por primeiro a sua Ressurreição e proclamou o Salvador Ressuscitado à Igreja primitiva, mas como uma mulher devassa com necessidade de arrependimento e de uma vida de penitência escondida (e de preferência em silêncio). Curiosamente, a Igreja Oriental nunca a identificou como uma prostituta, mas honrou-a ao longo da história como “a apóstola dos apóstolos”.

IHU On-Line – Por que podemos falar de Maria Madalena como uma “mística”, com tão poucos elementos bíblicos (pelo menos nos Evangelhos canônicos) sobre essa mulher de Magdala? Qual seria a “mística” de Maria Madalena?

Chris Schenk – Embora não saibamos exatamente como foi a experiência da Ressurreição para Maria de Magdala, sabemos que ela teve uma experiência tão poderosa do Cristo ressuscitado que a levou a correr para contar aos seus discípulos irmãos: “Eu vi o Senhor”. Talvez bastante compreensivelmente, eles não acreditaram nela à primeira vista. Mas, qualquer que tenha sido a experiência de Maria, eu gosto de pensar que ela era uma mulher profundamente mudada, e que a mudança observável provavelmente preparou o caminho para que os outros discípulos se abrissem para receber as suas próprias experiências do Cristo ressuscitado.

Parece claro para mim que, embora os discípulos tenham experimentado uma “corporalidade” de Cristo nessas experiências da Ressurreição, não era a mesma de uma ressuscitação de uma pessoa morta. Jesus estava vivo de fato e se deu a conhecer a eles, mas ele também estava mudado o suficiente, tanto que eles não o reconheceram à primeira vista. O Evangelho de João nos diz que Maria primeiramente o confundiu com o jardineiro e, só depois de ouvir Jesus chamar o seu nome e literalmente “virar-se” [para trás], é que ela o reconheceu. Os discípulos de Emaús (Lucas 24, 13-35) não reconheceram Jesus ao longo de toda aquela longa jornada, somente no partir do pão. Assim, qualquer que tenha sido a experiência da Ressurreição, ela não foi um reconhecimento direto, mas envolveu algum sentido liminar e místico para além das nossas capacidades perceptivas usuais. É dessa forma que eu acredito que Maria de Magdala pode ser considerada uma mística.

IHU On-Line – Nesse sentido, qual é o significado mais profundo desse relato do momento mais memorável da experiência mística de Maria Madalena, ou seja, o fato de ela ter sido a primeira pessoa – e mulher – a testemunhar a Ressurreição?

Chris Schenk – Assim como muitas mulheres antes de mim, eu experimentei uma “noite escura do patriarcado” depois de perceber o quão íntima e profundamente toda a história ocidental (a única história com a qual estou familiarizada) tornou as contribuições das mulheres tudo, menos invisíveis.

O fato de Deus ter confiado por primeiro a proclamação da Ressurreição a uma mulher me diz que, embora os seres humanos discriminem, Deus não discrimina. Eu considero a inclusão das mulheres no discipulado de Jesus na Galileia e o delicado equilíbrio de gêneros por parte de Deus no evento da Ressurreição, que modificou o cosmos, profundamente consoladores, especialmente agora, quando vemos um aparente ressurgimento do medo do feminino entre muitos líderes homens da Igreja institucional.

IHU On-Line – Na história da Igreja, outra Maria, a mãe de Jesus, ocupa um lugar central há séculos – especialmente na América Latina. Que semelhanças e diferenças você vê entre estas duas grandes figuras femininas do cristianismo, Maria, a mãe de Jesus, e Maria Madalena?

Chris Schenk – Nossa... Esse é um assunto que merece uma discussão muito mais longa e estudada do que a breve resposta que eu sou capaz de dar aqui. Basta dizer que – assim como o testemunho das primeiras líderes bíblicas independentes como Maria de Magdala, Febe, Lídia, Ninfa, Prisca e até mesmo a Maria de Nazaré histórica foi ou suprimido ou apagado da memória histórica –, elas foram substituídas por homens líderes da Igreja que levantaram uma reflexão teológica sobre Maria como Virgem Mãe por honra e reconhecimento.

Em "Mary, the feminine face of the Church", Rosemary Ruether compara a Maria bíblica com Maria de Magdala e as outras discípulas que, como vimos, desempenham um papel central e às vezes não convencional nos Evangelhos. Embora haja muitas evidências no Novo Testamento sobre o papel de Maria de Magdala e das outras discípulas, a tradição da Igreja glorificou Maria, a mãe de Jesus, como a mulher fiel que permaneceu lealmente ao seu lado. Muitos estudiosos acreditam que o papel de Maria de Magdala foi suprimido porque ela apresentava um modelo de liderança feminina independente que os posteriores homens líderes da Igreja queriam evitar. Eles queriam evitar esse modelo por causa da tensão na Igreja primitiva em torno do fato de mulheres cristãs exercerem a liderança pública em uma cultura greco-romana que acreditava que a liderança feminina só era apropriada em ambientes privados.

O culto à Virgem Maria
O culto à Virgem Maria ganhou proeminência no século IV, quando o cristianismo estava se tornando a religião obrigatória do Império Romano, cujo povo adorava Deus há muito tempo tanto na metáfora masculina como feminina. Muitos estudiosos encontraram semelhanças entre o culto à Maria e o culto à Grande Deusa Mãe (Ísis, Ártemis), proeminente no mundo mediterrâneo no qual o cristianismo rapidamente se espalhou. A glorificação e a veneração a Maria foram ao encontro de profundas necessidades espirituais e psicológicas para um povo cujos corações estavam acostumados a adorar a Deus com um rosto feminino. Estudiosos identificam muitas formas concretas pelas quais essa adaptação aconteceu. Lagos e nascentes onde as divindades femininas eram honradas passaram a ser associadas a Maria, a Virgem Mãe. Santuários e templos à Deusa foram rededicados a Maria, Mãe de Deus. Finalmente, como a teóloga Elizabeth Johnson observa, “não foi por acidente que a doutrina do século V da Theotokos [Mãe de Deus] foi proclamada em Éfeso, cidade famosa pela sua adoração entusiástica da deusa grega Diana” .

Esse fenômeno foi visto mais recentemente, quando consideramos como a veneração de Nossa Senhora de Guadalupe se espalhou rapidamente por todo o México, cujos povos nativos haviam sido devastados muito recentemente pela conquista e pelas doenças dos invasores espanhóis do século XVII. A compreensão indígena do sagrado não tinha nenhuma categoria para qualquer ser divino que não incluísse também o feminino. Tepeyec, o local da revelação guadalupana, era o antigo lugar da grande deusa da terra Tonanzin. Tonanzin significa “mãe” na história nativa Nahuatl. Finalmente, os povos nativos encontraram um ser divino com o qual eles poderiam se relacionar. O Pe. Virgilio Elizondo fez esta tradução da mensagem de Nossa Senhora de Guadalupe por meio de Juan Diego para o povo recentemente derrotado: “Saibas e entendas tu, o menor dos meus filhos, que eu sou sempre Virgem Maria, Mãe do verdadeiro Deus por quem se vive. Desejo vivamente que me seja erguido aqui uma casita, para nele mostrar e dar todo o meu amor, compaixão, auxílio e defesa a ti, a todos vós, a todos os moradores desta terra e aos demais que me amam, que me invocam e em mim confiam. Ouvirei ali os seus lamentos e remediarei todas as suas misérias, penas e dores” .

Elizabeth Johnson, CSJ, fala de forma muito bela ao observar que uma das razões pelas quais Maria tem sido tão importante na história da Igreja é que: “Maria tem sido um ícone de Deus. Para inúmeros fiéis, ela tem funcionado no sentido de revelar o amor divino como misericordioso, próximo, interessado, sempre pronto a ouvir e a responder às necessidades humanas, confiável e profundamente atrativo, e tem feito isso em um grau impossível quando se pensa em Deus simplesmente como um homem ou homens de poder. Consequentemente, em devoção a ela como uma mãe compassiva que não vai deixar que um de seus filhos se perca, o que realmente está sendo mediado é uma experiência mais atraente de Deus?”

Então, embora seja uma tragédia da história que, pelo menos até recentemente, as discípulas de Jesus e de São Paulo ou foram apagadas da memória histórica ou degradadas a prostitutas em favor do modelo totalmente puro e, no fim das contas, inacessível de Maria, a virgem-mãe, o outro lado da moeda é que, de alguma maneira, Deus encontrou uma forma de preservar o acesso humano ao divino feminino na experiência cristã. É claro que o ensino oficial da Igreja nunca afirmou que Maria é divina, mas as reflexões de muitos teólogos e as experiências de oração dos fiéis muitas vezes sugerem que outra coisa está em ação.

De fato, Johnson encontra na tradição mariana um “filão de ouro que pode ser ‘explorado’, a fim de recuperar o imaginário e a linguagem femininas sobre o santo mistério de Deus”. Na tradição mariana, sugere ela, “onde quer que a ultimidade do divino seja evocada nas Escrituras, na doutrina ou na liturgia ou onde quer que a ultimidade da confiança do fiel seja convocada, podemos supor que a realidade de Deus está sendo nomeada em metáforas femininas” .

IHU On-Line – Como Maria Madalena nos ajuda a pensar a liderança das mulheres na Igreja e na sociedade de hoje? É possível chegar à igualdade de gênero na Igreja Católica?

Chris Schenk – Talvez o aspecto mais importante da recuperação da memória histórica da liderança de Santa Maria de Magdala é que as fiéis contemporâneas podem, pela primeira vez, se ver nas histórias do Evangelho e na história da Igreja primitiva.

Quando eu era criança, eu tinha a impressão, assim como quase todo mundo que eu conhecia, que era Jesus e os 12 homens que viajavam ao redor da Galileia fazendo o bem. Eu nunca via ninguém que se parecesse comigo nos Evangelhos. As mulheres pareciam ser todas as prostitutas, pecadoras, habitadas por demônios ou uma Mãe virgem. Nenhum desses modelos a serem seguidos era muito atraente. Fiquei escandalizada quando eu descobri, por meio dos meus estudos bíblicos, que Maria de Magdala foi a primeira testemunha da Ressurreição e que não há nada nas Escrituras que sustente a ideia de que ela era uma prostituta. Parecia uma grande injustiça o fato de ser assim que uma grande mulher de fé como ela era lembrada na história da Igreja, pelo menos na Igreja latina. E eu resolvi fazer algo a respeito.

Então, se nós, como Igreja, podemos começar a ver que Jesus (e mais tarde São Paulo) incluiu mulheres que eram líderes no seu discipulado mais próximo, isso leva à pergunta: “Bem, por que a Igreja não pode incluir mulheres como líderes hoje?”. Atualmente, a Igreja ensina que as mulheres são iguais. No entanto, nenhuma estrutura da Igreja lhes permite exercer essa igualdade de forma alguma. Só homens podem eleger o Papa, liderar dioceses, pastorear paróquias e pregar na Missa. Isso é uma grande perda para a comunidade de fiéis, já que necessariamente sempre ouvimos o Evangelho através da lente da experiência masculina. Estamos perdendo a oportunidade de ouvir as grandes verdades da nossa fé através das lentes da experiência feminina.

Todas as decisões na governança da Igreja exigem a ordenação, e a Igreja ensina que as mulheres não podem ser ordenadas. Portanto, temos ensinamentos conflitantes aqui. Eles não podem estar ambos certos. É por isso que eu acredito que, no fim, teremos a igualdade feminina na Igreja. Mas será uma longa luta e ela só virá através da graça de Deus em ação, convertendo os homens tomadores de decisão (lembre-se, até São Paulo se converteu) e sustentando as dezenas de milhares de mulheres e homens que trabalham para essa igualdade de muitas e variadas formas nos nossos dias.

IHU On-Line – Como vimos, é impossível entender Maria Madalena sem levar em conta sua relação com Jesus. O que sabemos sobre a relação de Jesus com as mulheres em geral? Que sementes de “mística feminina” já estão presentes na vida de Jesus ou na vida das mulheres que o seguiram?

Chris Schenk – Isso é algo interessante para se refletir. A partir dos Evangelhos, vemos que Jesus tinha muitas amizades com mulheres, e não apenas com Maria de Magdala. Certamente, Maria e Marta de Betânia eram amigas queridas, semelhante a uma família para ele. Maria de Betânia assumiu o papel de estudante rabínico (tradicionalmente reservado aos homens), sentando-se aos pés de Jesus para ouvir e aprender. Ele se recusou a mandá-la embora, não obstante Marta tenha protestado. “Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada”, diz Jesus (Lucas 10, 38-42). O Evangelho de João mostra Marta fazendo uma profissão de fé semelhante à de Pedro quando Jesus a ordena a acreditar que seu irmão vai ressuscitar: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Cristo, o Filho de Deus, aquele que deve vir ao mundo” (João 11, 27).

O autor joanino também mostra que Jesus se alimentou com a conversa teológica e a subsequente conversão da mulher samaritana: “Eu tenho um alimento para comer, que vós não conheceis” (João 4, 32).

A mulher da unção – seja ela Maria de Betânia, no Evangelho de João, ou a discípula anônima vista em Mateus e Marcos – certamente entendeu a missão messiânica de Jesus melhor do que os discípulos homens que a criticaram. A fé da mulher de que Jesus estava de fato entrando em seu reino se mostrou pelo fato de ela ungir a cabeça de Jesus, um ato semelhante à unção realizada pelo profeta Samuel, significando a realeza de Davi. O gesto profético e amoroso dessa mulher deve ter sido muito reconfortante para Jesus enquanto ele enfrentava a sua paixão e morte.

Não me sinto confortável com a frase “mística feminina” neste contexto, já que a mística é mística e, em si mesma, não tem gênero. Dito isso, o encontro humano com o divino provavelmente pode ser influenciado pelo gênero do ser humano que só pode expressar tal encontro por meio do veículo da sua humanidade masculina ou feminina. Por exemplo, a mística São João da Cruz é expressa de forma diferente do que a de Santa Teresa de Ávila. Ambos têm encontros místicos com o divino que expressam em uma linguagem única, influenciada pela totalidade da sua humanidade, o que inclui o seu gênero.

Nos Evangelhos, vemos muitos exemplos de encontros de Jesus com o Divino. O Evangelho de Lucas (Lucas 4, 18-19) revela que Jesus modelou a sua missão a partir dos escritos dos profetas. Primeiro, ele anuncia a sua missão de Deus na sinagoga da sua cidade natal de Nazaré, citando Isaías 61, 1,2: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Nova aos pobres: enviou-me para proclamar a libertação aos presos (…) para dar liberdade aos oprimidos”. Isso nos diz que Jesus foi profundamente influenciado pelos ensinamentos religiosos da sua própria tradição e encontrou a sua verdadeira identidade por meio do que poderia ser chamado de um encontro místico com a Justiça Divina, mediada pelos escritos de Isaías. Jesus passou o resto de sua vida pública sendo fiel ao seu chamado a proclamar o reino de Deus onde a justiça e a relação justa prevalecem, por fim, entre pobres e ricos, homens e mulheres, soberano e sujeito, forte e fraco.

IHU On-Line – Outra figura de destaque na história do cristianismo é Paulo de Tarso. Em sua opinião, quais as semelhanças ou diferenças entre esse grande apóstolo da Igreja primitiva e a “apóstola dos apóstolos”, Maria Madalena?

Chris Schenk – Tanto Maria de Magdala quanto Paulo tiveram experiências do Cristo Ressuscitado que mudaram as suas vidas. Essa é a grande semelhança.

A diferença é que as viagens e as cartas missionárias de Paulo às primeiras comunidades em todo o mundo mediterrâneo foram preservadas e fornecem um excelente retrato dos desafios reais enfrentados pelos primeiros cristãos. Eles são os primeiros escritos cristãos que temos.

Infelizmente, não temos nenhum registro direto semelhante do que aconteceu na vida e no testemunho subsequentes de Santa Maria de Magdala. Só podemos deduzir de fontes extracanônicas que ela era lembrada em algumas comunidades primitivas como uma proeminente líder mulher e discípula que compreendeu a missão de Jesus melhor do que os seus irmãos.

As cartas de Paulo também fornecem informações valiosas sobre a liderança coigual nas comunidades cristãs primitivas. Romanos 16 nos fala sobre os “colaboradores em Cristo” de Paulo, o casal Prisca e Áquila. O fato de Prisca ser nomeada primeira em quatro das seis vezes em que o casal é citado no Novo Testamento nos diz que ela provavelmente era a mais proeminente da dupla. Prisca e Áquila fundaram comunidades em Corinto, Éfeso e Roma que serviram como base de evangelização em cada uma dessas grandes cidades. Com Paulo, eles podem ser legitimamente chamados de “apóstolos aos gentios”, porque, como o próprio Paulo diz: “Eu lhes sou agradecido, e não somente eu, mas também todas as Igrejas fundadas entre os gentios” (Romanos 16, 04). Paulo louva outro casal de missionários, Júnias e seu marido Andrônico, como “apóstolos notáveis” (Romanos 16, 7). Júnia é a única mulher no Novo Testamento a quem é dado o título de “apóstola”.

IHU On-Line – Maria Madalena e Jesus coexistem no imaginário coletivo como um exemplo de um “amor proibido”, especialmente devido ao “beijo na boca” narrado nos Evangelhos apócrifos ou à dúvida sobre quem é a mulher que derrama “um perfume de nardo puro” nos pés de Jesus. Como você analisa, inspirada em Madalena, a conexão entre erotismo, sensualidade e mística?

Chris Schenk – Como disse anteriormente, a minha interpretação dos textos sobre a unção não se baseia em um erotismo místico, mas no significado profético da unção sobre a cabeça, como Samuel fez quando ungiu o rei Davi.

Todos os quatro Evangelhos falam sobre uma mulher que unge Jesus com um caro unguento perfumado. Em Mateus e Marcos, a mulher unge a cabeça de Jesus, evocando o profeta Samuel. Quando ela é criticada, Jesus a defende: “Onde for anunciado o Evangelho, no mundo inteiro, será mencionado também, em sua memória, o que ela fez” [Marcos 14, 9]. Infelizmente, essa mulher jamais é lembrada, já que, nas leituras do Domingo de Ramos, onde esse texto se encontra, ele é ou omitido ou tornado opcional.

Lucas retrata a mulher como uma pecadora pública, cuja unção dos pés de Jesus significa a sua grande fé e perdão. João mostra Maria ungindo os pés de Jesus no ambiente íntimo de Betânia. Como o lava-pés era um ritual devocional central na comunidade joanina, não é de se estranhar que João combina a história de Lucas da unção dos pés de Jesus com antigas tradições de unção da sua cabeça. Em Mateus, Marcos e João, a unção acontece pouco antes da prisão e paixão de Jesus.

Mas o que a unção significa? A tradição mais antiga, que evoca a unção profética de Samuel, é a pista. Essa discípula fiel entendeu a passagem de Jesus pela paixão e morte como a sua entrada real ao reino messiânico onde a liderança servidora reinará para sempre. O ato dela deve ter sido profundamente consolador para Jesus, enquanto ele enfrentava a efusão final para a vida do mundo.

Nas palavras de Isaías: “Eis o meu servo, dou-lhe o meu apoio. É o meu escolhido, alegria do meu coração. Pus nele o meu espírito, ele vai levar o direito às nações”. Para os seguidores de Jesus, a lavagem e a unção dos pés é uma estrada real que leva à vitória da Justiça.

A publicação em 2002 de O Código Da Vinci inflamou uma ampla polêmica em torno do verdadeiro papel de Maria de Magdala. Infelizmente, o livro de Dan Brown, embora sendo uma narrativa ficcional envolvente, fez um desserviço à Maria de Magdala histórica e a outras líderes mulheres da Igreja primitiva. Apesar de O Código Da Vinci transmitir um belo ideal da unidade essencial do masculino e feminino, ele é, em última análise, subversivo à liderança plena e igualitária das mulheres na Igreja, porque se centra na ficção do estado marital de Maria, em vez de se centrar no fato da sua liderança em proclamar a Ressurreição de Jesus.

Não há dados históricos ou bíblicos para sustentar a especulação de que Maria de Magdala era casada com Jesus. A controvérsia de que os escritores antigos não mencionam o seu casamento e sua prole por medo da perseguição judaica realmente não se sustenta, porque o Evangelho de João e grande parte da literatura apócrifa foram escritos depois da queda de Jerusalém, quando não haveria nada a temer das autoridades judaicas. Se Maria de Magdala fosse a esposa de Jesus e a mãe de seu filho, é altamente improvável que esses textos teriam omitido esses fatos importantes, especialmente porque ela é retratada proeminentemente tanto como a principal testemunha da Ressurreição quanto uma líder feminina que, de muitas formas, entendeu a missão de Jesus melhor do que os discípulos homens.

Se Jesus foi casado, não foi com Maria de Magdala, porque então ela teria sido conhecida como “Maria, a esposa de Jesus”, e não Maria de Magdala. Como vimos, convenções literárias e sociais na Antiguidade ditavam que, quando as mulheres eram mencionados (uma ocorrência muito rara), elas eram quase sempre nomeadas pela sua relação com a família patriarcal, por exemplo: “Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes” (Lucas 8, 1-3). De forma atípica, Maria de Magdala foi nomeada de acordo com a cidade da qual ela provinha (não pela sua relação com um homem).

Mística, erotismo e sensualidade
Minha opinião sobre a conexão entre erotismo e mística não se inspira naquilo que se pode saber da relação de Maria de Magdala com Jesus, já que os dados históricos sobre um relacionamento romântico é, no máximo, tênue.

Dito isso, eu acredito que há, de fato, uma conexão entre erotismo e mística, e essa conexão pode ser facilmente vista em muitos dos escritos e das experiências dos grandes místicos, como João da Cruz e Teresa de Ávila.

A experiência do mistério do amor de Deus é uma experiência profundamente humana. Somos Espíritos encarnados. Outra forma de dizer isso, como um fisioterapeuta amigo meu disse uma vez, é perceber que “nossos corpos são a parte mais densa do nosso Espírito”. Disso segue-se que, em qualquer encontro com o divino, nossos corpos vão refletir isso de alguma forma.

Para aqueles abençoados com experiências consoladoras do amor de Deus, pode não ser incomum encontrar nossos sentidos corporais tão cheios e consumados quanto depois de uma expressão amorosa do amor sexual íntimo. Isso não quer dizer que a experiência mística é o mesmo que o orgasmo sexual, mas sim que há uma satisfação na totalidade do nosso eu que se parece com o grande mistério e prazer da satisfação sexual humana. Alguns acham que essa satisfação divina é ainda mais profundamente satisfatória.

As escrituras geralmente usam metáforas esponsais para descrever o amor de Deus pelo seu povo. Certamente, esse amor mais poderoso dos amores humanos é uma metáfora apropriada para descrever o amor insuperável de Deus por cada pessoa e pelo mundo.

IHU On-Line – Você é diretora-executiva da FutureChurch, com sede em Cleveland, que iniciou em 1997 uma celebração especial da festa de Maria de Magdala, no dia 22 de julho. Por que essa data? Como é essa celebração e quais são seu significado e seu propósito mais profundos?

Chris Schenk – Nós escolhemos o dia 22 de julho porque é o dia da festa de Santa Maria de Magdala, celebrada pela Igreja universal. As celebrações surgiram por causa da minha paixão por esclarecer de uma vez por todas que Maria de Magdala não foi uma prostituta, mas sim a primeira testemunha da Ressurreição.

As celebrações são organizadas para apresentar aos católicos comuns o estudo bíblico contemporâneo sobre Santa Maria de Magdala e de outras mulheres nas Escrituras. As definições da cerimônia de oração também proporcionam um lugar em que mulheres competentes podem pregar e presidir em funções litúrgicas visíveis.

O significado e propósito mais profundos dessas celebrações é que tanto homens como mulheres aprendam sobre a liderança das mulheres nos Evangelhos e experimentem o fato de mulheres servirem em papéis de liderança sagrada, alguns pela primeira vez. Quando começamos essas celebrações em Cleveland, Ohio, uma amiga trouxe o seu grupo de mulheres das Alcoólicas Anônimas. Algumas dessas mulheres estavam em lágrimas durante toda a celebração, porque era a primeira vez que se experimentavam como igualmente santas e amadas por Deus em comparação com seus irmãos.
Foi assim que eu soube que estávamos tocando algo muito profundo na psique feminina e, por extensão, na psique masculina. Como nós, mulheres, raramente nos vemos nas Escrituras e quase nunca vemos mulheres servindo em papéis sagrados no altar, nós muitas vezes inconscientemente interiorizamos que temos menos valor e somos menos amadas por Deus do que os nossos irmãos.

Eu acho que a Igreja Católica jamais será curada do sexismo e da misoginia enquanto tanto as mulheres como os homens experimentem o ministério a partir de mulheres e de homens. Todos nós precisamos do ministério de ambos os gêneros.

IHU On-Line – Que outras mulheres místicas você destacaria a partir das Escrituras ou da história do cristianismo? Como essas mulheres nos ajudam a pensar a mística feminina na contemporaneidade?

Chris Schenk – Esse é um assunto muito extenso para abordar em profundidade aqui. Mas basta dizer que, ao longo da história, as mulheres muitas vezes exerceram a liderança espiritual que lhes era negada na Igreja institucional escrevendo sobre seus encontros místicos com um Deus amoroso que conforta, consola e traz justiça.

Vemos isso nos escritos do século XII de Hildegard de Bingen, que era uma visionária, vidente e curadora. Ela ficava assombrada com a corrupção do seu próprio tempo: “Este tempo é um tempo afeminado, porque a revelação da justiça de Deus é fraca. Mas a força da justiça de Deus está se manifestando, uma guerreira lutando contra a injustiça, para que esta possa cair derrotada” (Carta 23). Hildegard entendeu-se como essa guerreira feminina, a personificação da justiça de Deus.

Teresa de Ávila foi uma proeminente mística espanhola do século XVI que foi ameaçada pela Inquisição por três vezes. Quando as pessoas citavam a prescrição paulina de que as mulheres devem ficar em silêncio e nunca ter a pretensão de ensinar na Igreja (1 Tim 2, 11-14), ela contestava com palavras que ela havia recebido de Jesus em oração: “Diga-lhes que não sigam apenas uma parte da Escritura sozinha (…) e pergunte-lhes se poderão, por ventura, atar minhas mãos” (Testemunhos Espirituais, 15).

No final do século XIV, em um tempo em que a guerra e a peste assolavam toda a Europa, Julian de Norwich trouxe uma mensagem reconfortante para as pessoas aterrorizadas pela morte súbita: Deus não odeia os pecadores, mas só tem amor e compaixão por eles. Julian foi uma mística que experimentou uma cura milagrosa e teve visões que lhe deram intuições sobre o amor de Jesus. Ela escreveu sobre isso em um livro chamado Showings. Era um risco escrever sobre o amor de Deus em vez dos pecados das pessoas, porque, naqueles dias, a Igreja considerava a minimização do pecado uma heresia punível com a morte. Grande estudiosa e teóloga, Julian também foi uma mulher corajosa e criativa que confiava completamente em um Deus amoroso.

As mulheres de hoje têm acesso à mesma formação teológica e bíblica que os homens. Isso permite que os fiéis dos nossos dias apreendam o Deus-mistério através das lentes da experiência feminina em uma linguagem que possa ser entendida tanto por homens como por mulheres. Esse é um grande dom para a Igreja e está, de fato, abrindo novas formas de compreensão e de apreciação do Mistério divino que, afinal de contas, sempre será um mistério. Essa é para mim uma das coisas favoritas sobre Deus... Sempre haverá mais para aprender, explorar e amar.

IHU On-Line – Em sua opinião, considerando a atual situação social, socioeconômica e política, qual é o papel da mística e da espiritualidade, especialmente feminina?

Chris Schenk – Eu acredito que, como as mulheres muitas vezes têm experiência pessoal do que significa ser suprimidas, oprimidas e deprimidas (para citar uma amiga minha), elas entendem muito bem a importância de testemunhar o Deus de justiça e Jesus, que veio para exaltar os humildes e libertar os oprimidos.

Se alguma vez for dada às mulheres a oportunidade de pregar regularmente, eu suspeito que poderemos ouvir muito mais sobre a paixão de Jesus pelo reino justo de Deus do que nós atualmente ouvimos a partir da maioria dos púlpitos, em que os homilistas muitas vezes pregam chavões piedosos, em vez de proclamar boas novas aos pobres.

A mística feminina, como qualquer mística (e a mística é a experiência da maioria dos cristãos mais comprometidos, embora eles nunca a nomeiem dessa forma), é chamada a ajudar a trazer o reino justo de Deus aqui na terra, como no céu. Se você não acredita em mim, apenas reveja a própria oração de Jesus, o Pai Nosso, que diz isso de forma mais eloquente do que eu jamais poderia dizer.

A mística, então, também é chamada a ser profeta. E o profeta não pode sobreviver sem uma comunicação mística regular com Aquele que nos ama para além de toda a nossa compreensão e que nos fortalece para além de todas as nossas fraquezas.

(Por Moisés Sbardelotto)

A indignação de Jesus


Acompanhado pelos Seus discípulos, Jesus sobe pela primeira vez a Jerusalém para celebrar as festas da Pascoa. Ao aproximar-se do recinto que rodeia o Templo, encontra-se com um espetáculo inesperado. Vendedores de bois, ovelhas e pombas oferecendo aos peregrinos os animais que necessitam para sacrifica-los em honra de Deus. Cambistas instalados nas Suas mesas traficando com o câmbio de moedas pagãs pela única moeda oficial aceite pelos sacerdotes.

Jesus enche-se de indignação. O narrador descreve a Sua reação de forma muito gráfica: com um chicote, expulsa do recinto sagrado os animais, vira as mesas dos cambistas deitando por terra as suas moedas, grita: «Não convertais num mercado a casa do Meu Pai».

Jesus sente-se como um estranho naquele lugar. O que veem os Seus olhos nada tem a ver com o verdadeiro culto ao Seu Pai. A religião do Templo converteu-se num negócio onde os sacerdotes procuram bons ingressos, e onde os peregrinos tratam de "comprar" Deus com as Suas oferendas. Jesus recorda seguramente umas palavras do profeta Oseas que repetirá mais de uma vez ao longo da Sua vida: «Assim diz Deus: Eu quero amor e não sacrifícios».

Aquele Templo não é a casa de um Deus Pai em que todos se acolhem mutuamente como irmãos e irmãs. Jesus não pode ver ali essa "família de Deus" que quer formar com os Seus seguidores. Aquilo não é senão um mercado onde cada um procura o seu negócio.

Não pensemos que Jesus condena uma religião primitiva, pouco evoluída. A Sua crítica é mais profunda. Deus não pode ser o protetor e encobridor de uma religião tecida de interesses e egoísmos. Deus é um Pai a que só se pode dar culto trabalhando por uma comunidade humana mais solidária e fraterna.

Quase sem nos darmos de conta, todos nos podemos converter hoje em "vendedores e cambistas" que não sabem viver senão procurando o seu próprio interesse. Estamos a converter o mundo num grande mercado onde tudo se compra e se vende, e corremos o risco de viver inclusive a relação com o Mistério de Deus de forma mercantil.

Temos de fazer das nossas comunidades cristãs um espaço onde todos nos possamos sentir na «casa do Pai». Uma casa acolhedora e cálida onde a ninguém se cerra as portas, onde a ninguém se exclui nem descrimina. Uma casa onde aprendemos a escutar o sofrimento dos filhos mais desvalidos de Deus e não só o nosso próprio interesse. Uma casa onde podemos invocar a Deus como Pai porque nos sentimos os Seus filhos e procuramos viver como irmãos.

- José Antonio Pagola
Reproduzido via Amai-vos

sexta-feira, 9 de março de 2012

Um futuro para Laerte Coutinho

Cartum: Laerte

imagino Laerte
aos 96 anos
se maquiando
para ir ao cinema

diante do espelho
ele lamenta
velhas amigas
travestis
que deixaram de usar
roupas femininas
por se sentirem feias
depois de certa idade

a mão treme um pouco
mas ainda consegue
passar a sombra
sem sujar os óculos
equilibrados
na ponta do nariz

sua casa cheira
a gato doente
mas que casa não cheira
a gato doente?

-

na fila
não sabem quem é
aquela velhota
de saia laranja
curta e old fashioned

Laerte não se importa
a batalha está ganha
e suas pernas doem -

entre garotas de falos enormes
meninos de três mamilos
mastodontes de cílios escarlates
e alguns exóticos heterossexuais

- Fabrício Corsaletti
Publicado originalmente na Revista SP, da Folha de S. Paulo, em 04/03/12
Reproduzido via Conteúdo Livre

Tuítes de sexta

Nossa imagem do dia, daqui

RT@cynaramenezes: 40% da população da América Latina são governados por mulheres. Se Josefina Vazquez ganhar no méxico, serão 60%. Ao mesmo tempo, a América Latina tem as mais altas taxas de morte por violência de gênero. Somos desiguais em tudo.

RT@MarkosOliveira: "É fundamental q o trabalho doméstico tenham os direitos garantidos e deixe de ser escravocrata", Ministra Menicucci glo.bo/AuefGA

RT@JoaoWNery1: Ninguém tb nasce homem, torna-se. fb.me/1cN1HTcDa

8 de Março: A origem revisitada do Dia Internacional da Mulher
"Testemunha ocular de como movimentos sociais, altamente ideologizados, são capazes de forjar datas de celebração e eventos 'históricos', fiquei obviamente com dois pés atrás no que se refere a todas as datas de comemoração, entre outros, do movimento feminista ou de mulheres. Quem me garante que outras datas não foram também fabricadas como uma que eu vi 'nascer'?"

Batalha legal inédita em Israel: criança com duas mães biológicas
"Um casal de lésbicas israelitas foram reconhecidas em tribunal como mães de um menino, numa decisão sem precedentes nesse país."

A amiga islâmica disse: “Vocês, mulheres ocidentais, escravizam-se a partir da imagem”
"Ela carinhosamente me explicou: 'Vocês, mulheres ocidentais, acham que são livres, feministas e independentes. Mas veja bem. Dificilmente vocês saem de casa sem se preocupar com a aparência. Escravizam se a partir da imagem. E produzem a autoestima como reflexo da opinião dos outros. Eu, ao me cobrir, revelo qualidades, como capacidade, sensibilidade e inteligência.'"

Precisamos queimar cuecas em praça pública
"O homem precisa começar a entender que tem direito ao afeto, às emoções, a sentir. Passar a ser homem e não macho."

Leia também: O preço da masculinidade
"Estamos sempre sendo chamados para provar que nos tornamos suficientemente masculinos ou femininos."


Gays nas Forças Armadas: 63% dos brasileiros aprovam, diz pesquisa
"É muita 'viadagem' – para colocar essa expressão pejorativa em embate com seu próprio significado – o problema das Forças Armadas com os homossexuais, como se eles fossem menos capazes de defender o país ou ter menos bravura em combate que um hétero."

Video: UN Secretary-General message on violence and discrimination based on sexual orientation or gender identity

Leia também: "Vocês não estão sozinhos": a ONU discute a violência homofóbica
"Àqueles que são lésbicas, gays, bissexuais ou transgêneros, eu digo: vocês não estão sozinhos. Sua luta pelo fim da violência e discriminação é compartilhada por muitos. Qualquer ataque a vocês é também um ataque aos valores universais que as Nações Unidas e eu juramos defender e resguardar. Hoje, estou com vocês (...) e convoco todos os países e povos a colocarem-se comigo ao seu lado."


RT@RafaZveiter: Chega de mortes a gays e trans. Video da #maespelaigualdade Marlene: 10 anos sem justiça. #LGBT #HomofobiaNAO

Grupo da BA elege Dilma maior inimiga dos gays em 2012
"O Grupo Gay da Bahia (GGB) divulgou nesta quinta-feira os 'ganhadores' do Troféu Pau de Sebo, que elege os maiores inimigos dos homossexuais brasileiros no ano em diversos quesitos. Em 2012, a vencedora foi a presidente Dilma Rousseff (PT), que puxou uma série de políticos listados na premiação, realizada há 22 anos."

Padres no divã
"É preciso renovar o trabalho dos padres (...). Está em jogo a responsabilidade do contato com as pessoas. A formação não é mais apenas a do seminário. Há a necessidade de um monitoramento contínuo, de um apoio. Existem problemas relacionados ao excesso de trabalho, à afetividade, ao estresse. Se não foram enfrentados devidamente, há o risco de que as pessoas não confiem mais na Igreja e que as próprias igrejas se esvaziem".

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Visibilidade pro seu privilégio

Imagem daqui

A Comissão de Direitos Humanos de São Francisco fez uma pesquisa que revelou que quase 50% dos transgêneros já sofreu algum tipo de agressão física ou verbal em banheiros públicos e, consequentemente, grande parte dessas pessoas evita ir ao banheiro fora de casa, o que pode ocasionar problemas de saúde. Foi por isso que o projeto Out for Health desenvolveu um aplicativo para iPhone que mostra os banheiros "seguros" para pessoas trans - de gênero neutro ou que possuem apenas uma cabine - na cidade de Ithaca, em New York.

Eu não sei se vocês conseguem imaginar como é precisar de um aplicativo de celular que te diga onde mijar em paz (tradução literal do nome do programa). Pensando nos comentários que li sobre o que aconteceu com Laerte, tenho certeza que a maioria não consegue. Eu não sei como é a situação no exterior e muito menos especificamente na cidade de Ithaca, mas sei que os únicos banheiros de gênero neutro que já vi (e usei) foram um numa clínica especializada em transexualidade e outro no meu antigo trabalho, que só era neutro por ser adaptado para deficientes físicos, mas ainda assim ajudava.

Uma das coisas que mais me incomodou na repercussão sobre Laerte ter sido impedida de usar o banheiro feminino foi que a maioria das notícias que eu vi sobre tratava o fato como "Laerte vai à justiça para poder entrar em banheiro feminino", algo que eu não vejo ocorrer com crimes de outra natureza (exceto estupro): culpam a vítima por ir à justiça atrás de algo que é seu direito. Não vejo nas manchetes "fulano entra na justiça após ter seu carro roubado", é sempre "fulano teve seu carro roubado e polícia está à procura" ou coisas do tipo. É a clássica diferença de conotação entre "ofendeu" e "se sentiu ofendido": ao usar o primeiro, fala-se do ofensor e sua ação: ofender; ao usar o segundo, fala-se da vítima e sua ação: se sentir ofendido, deixando em dúvida se de fato ocorreu a ação do ofensor. Quando a vítima é alguém que difere do que a sociedade considera padrão, fica óbvio qual a construção frasal utilizada.

Como uma sociedade e uma mídia tão homem-branca-cisgênera-heterossexual-cristã poderia se ver no lugar de uma pessoa transgênera? Então, toma-se que o diferente é culpado até que se prove o contrário, e isso se reflete nas notícias. A opinião coletiva decide que Laerte não deveria estar indo à justiça, e que o fato dela estar fazendo-o é que é digno de nota. Discriminação aos transgêneros, transexuais e travestis, por sua vez, não é.

Eu já vi muitas pessoas repudiarem o termo “cisgênero”, que é, numa interpretação dentro da binária de gênero, como se chama uma pessoa cuja identidade de gênero está em conformidade com o que se espera do sexo biológico que lhe foi atribuído ao nascimento – ou seja, alguém que não é trans. Acredito que o motivo para esse repúdio é a sensação de desnecessidade desse termo. Por ser a regra e não a exceção, não achamos que precisamos especificar quando alguém possui essa característica, tornando a palavra, portanto, dispensável. Quantas vezes lemos, na descrição de um personagem, “era um garoto branco e magro”, por exemplo? A menos que especificados o contrário, logo imaginamos os personagens como brancos e magros. E assim, quando vemos pessoas usando códigos de vestimenta e comportamentos entendidos como de determinado gênero, os pressupomos como possuidores de determinada genitália (e, se for conhecido que assim não são, merecem ser agredidos). Os transgêneros são invisibilizados e, quando aparecem, é para ser vexados. E é por isso que precisamos de um dia de visibilidade trans.

Pois, mesmo dentro da comunidade LGBT+, o T é ignorado e por muitas vezes não compreendido. Já ouvi de lésbicas “eu gosto de mulher, não de homem, pra ficar com butches (lésbicas com características "masculinas")” e de gays “não gosto dessas bichas que viram mulher”, “não gosto de homens efeminados”. Identidade de gênero é confundida com orientação sexual: uma mulher trans não é um homem gay muito efeminado; um homem trans não é uma lésbica muito butch. E assim por diante.

Gênero não é preto e branco. A sociedade espera um tipo de comportamento de quem tem determinada genitália, e é difícil de acreditar que ainda hoje, 2012, compramos por certa essa ideia. Como bem dito nesse post do blog Feminerds: “gênero não é preto no branco, não é certo e errado, não foi enviado por fax de deus pra nós pra gente se virar com os conceitos. A gente cria e constrói, individualmente e em sociedade. E nós só temos direito de expressar nosso gênero se ele condisser com o que os outros esperam”.

E, me arrisco a dizer, essa binária de gênero é ainda mais cruel para quem é trans. Se você, trans, possui comportamentos ou gosta de vestimentas associadas pela sociedade ao gênero oposto, você não tem sua orientação sexual questionada – como acontece com os cisgêneros – : você tem a sua identidade de gênero questionada, ao ouvir comentários como “se gosta disso/faz isso por que mudou de sexo?”. Ainda mais se o tal comportamento associado pela sociedade ao sexo que lhe foi atribuído ao nascer é gostar do sexo oposto – seu mesmo gênero –, quando terá que ouvir que “iria conseguir muito mais mulher se tivesse ficado como homem mesmo”, no caso de uma mulher trans lésbica, como se a transição fosse uma estratégia de conquista (e ignorando totalmente a existência de bissexuais). Se você não nasceu com a identidade de gênero dentro do que é esperado de alguém com sua genitália, além de se preocupar com a disforia, terá que se enfiar numa caixa apertada que é o estereótipo de gênero.

Esses são apenas alguns dos privilégios que a maioria das pessoas cisgêneras possui – excluindo aquelas que se arriscam a assumir ter alguma característica culturalmente atribuída ao sexo oposto –, e a lista continua: se refererirem a você sempre com os pronomes adequados, não ouvir perguntas como “então você tem piroca ou buceta?”, não estar acostumado a confusões envolvendo o gênero que você apresenta e o sexo marcado em seus documentos. Esses são, é claro, alguns dos menores. Sequer falei ainda da grande improbabilidade de que você, cisgênero, seja expulso de casa ou demitido do emprego apenas por mostrar ao mundo seu gênero com os códigos a ele atribuídos por nossa cultura. E é por isso tudo que eu peço que não peguemos o nosso privilégio e enfiemos no rabo. Que não ignoremos a quantidade de direitos que temos e que algumas pessoas não têm, seja judicialmente ou não. Que não digam que Laerte está exagerando ao exigir um direito que todos deveríamos ter assegurado (e temos: “Segundo a Lei 10.948, é considerado ato discriminatório proibir o ingresso ou permanência de homossexuais, bissexuais e transgêneros em qualquer ambiente ou estabelecimento público ou privado”).

Nesse dia da visibilidade trans, eu espero que você não só não me ignore, como se lembre dos seus privilégios. Afinal, alguém já te disse que você não pode usar o banheiro que você entende como do seu gênero?

- Jack Dantas
Publicado originalmente no Minoria é a Mãe
Post escrito para a Blogagem Coletiva do Dia da Visibilidade Trans

Do desejo e da falta de autenticidade


Às vezes o profundo desejo de uma pessoa está tão aparente em sua personalidade que todo mundo pode ver, embora estejam todos convencidos de que este desejo está escondido, e mal se dão conta disso. São destes tristes absurdos que as tragédias humanas são feitas. Ora construímos impérios financeiros, ora nos rendemos à vícios vergonhosos como meios infantis de fugir para longe tanto de nosso verdadeiro eu como de nosso falso eu – na verdade de qualquer eu que encontremos.

Tentando lidar com isso, nós não devemos subestimar o quão profundo e arraigado é o sofrimento humano.

"Os sãos não têm necessidade de médico e sim os doentes; não vim chamar os justos, mas sim os pecadores, ao arrependimento". (Lc 5,31)

Qualquer falta de autenticidade em nós corrompe a alma, cujos sintomas nós mesmos devemos reconhecer, seja medo, raiva, tristeza ou falso desejo. Podemos responsabilizar outros por tirarem vantagem de nossa culpa, mas também nos enfraquecemos, com cada perda, por um sentimento interior de vergonha. O quanto antes nós expusermos tudo isso, melhor (...). Apenas quando começamos a simplificar é que realmente vemos que Deus não é um juiz e executor externo, mas alguém que cura e um amigo.

As metáforas podem ser falhas, mas elas se tornam reais em nossa experiência. Apenas quando descobrimos o novo continente interno de amor é que o medo e a vergonha humanos se desfazem em sua própria inexistência.

- Laurence Freeman, OSB
Mensagem para o Sábado pós-Cinzas à Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

quinta-feira, 8 de março de 2012

A revolução começa com cada um de nós

Escultura: Tjep.

"O maior desafio de hoje é: como fazer acontecer a revolução do coração, uma revolução que tem que começar com cada um de nós?"

- Dorothy Day

Se você não sabe quem é Dorothy Day, clique aqui. Neste Dia Internacional da Mulher, vale a pena conhecer a sua história. ;-)

Tuitadas de quinta


Som do dia: "Todas as mulheres do mundo", de Rita Lee, na voz de Cassia Eller

Diversidade e Unidade. Tolerância e Respeito. Coexistamos. twitpic.com/8t8vh5

RT@gabrielpriolli: “O jornalismo no BR é o mais independente. Independente dos fatos. Publica o que quer” bit.ly/vZVUiU De Franklin Martins

Lindo, lindo, sobre homossexualidade, envelhecimento e amizade. RT@flavioalves_65: Pode me ligar!
"E foi nessa hora que parei para refletir sobre a minha futura velhice e sobre homossexualidade na terceira idade. (...) Aí, de repente, num papo informal entre amigos, numa mesa de boteco, entre uma cerveja e outra, me dou conta de eu vou ficar velho, aliás, que meus anos já estão passando e eu nem tinha pensado nisso. Caraca!"

Violência doméstica e Homofobia: Direitos Humanos começam em casa!
"É preciso debater formas de garantir os direitos fundamentais daqueles que são violados dentro de suas casas. Pensar nas mulheres, idosos, deficientes, crianças e adolescentes, travestis, lésbicas e gays que não tem acesso a internet, que não têm acesso a políticas de atendimento, e que não vêem alternativas além de se submeter ao agressor ou acabar com a própria existência, já que ninguém os vê e ninguém os ouve."

RT@MarkosOliveira: Países islâmicos abandonam debate na ONU sobre direitos LGBT
"Os países da OIC (Organização da Cooperação Islâmica) abandonaram nesta quarta-feira a reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU em protesto contra a realização de uma sessão especial sobre os direitos de homossexuais e transexuais."

Ao menos 76 países têm leis que criminalizam a homossexualidade
"Atualmente em pelo menos cinco países é possível aplicar a pena de morte àqueles que forem declarados culpados de delitos de conduta homossexual. (...) A Comissão dos Direitos Humanos confirmou que o uso da pena de morte na punição de crimes não violentos, incluindo as relações sexuais entre pessoas adultas do mesmo sexo, 'constitui uma violação da lei internacional sobre direitos humanos'".

Veja também:
Aberto hoje o primeiro debate da Comissão dos Direitos Humanos da ONU sobre violência e discriminação contra LGBTs
"Àqueles que são lésbicas, gays, bissexuais ou transgêneros, eu digo: vocês não estão sozinhos. Sua luta pelo fim da violência e discriminação é compartilhada por muitos. Qualquer ataque a vocês é também um ataque aos valores universais que as Nações Unidas e eu juramos defender e resguardar. Hoje, estou com vocês (...) e convoco todos os países e povos a colocarem-se comigo ao seu lado."

Mensagem da Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos sobre a homofobia e a transfobia em todo o mundo (em vídeo, aqui)

Dia Internacional da Mulher: a relação entre o Feminismo e o L de LGBT
"'As lésbicas não são mulheres', disse Monique Wittig, feminista lésbica, nos anos 80. Com esta afirmação, Wittig questionava a categoria que estava na base das reivindicações feministas, a categoria 'mulher', dizendo que esta apenas tem e ganha sentido dentro da norma heterosexual. Com isto, Wittig denunciava que quando se falava de mulheres e dos seus direitos, se assumia que essas eram 'heterosexuais'; denunciava também que a própria definição do que é ser uma 'verdadeira mulher' se faz num sistema que apenas concebe a 'heterosexualidade' como sexualidade válida. Se mulher é aquela que se une a um homem, logo, as lésbicas não poderiam ser mulheres."

Comunismo e homofobia: o gay invisível
"E esse modelo – que prega que os gays são agentes do capitalismo para a corrupção e subversão dos valores do proletariado – foi o seguido por todos os países que aderiram ao regime comunista autoritário. Diferente dos nazistas que tiveram bem documentados os presos com o triângulo rosa (símbolo dos homossexuais nos campos de concentração), essa mesma perspectiva não se tem em relação aos gays que foram enviados aos gulags da Sibéria e aos porões de Pequim, Havana e outros centros comunistas. Pouco se sabe sobre eles. Eles são quase que apagados da História de seus países. São jogados à invisibilidade."

Metade da humanidade
Frei Betto: "É hora de aproveitar uma data como 8 de março para reabilitar a mulher na Igreja, permitindo-lhe acesso ao sacerdócio, ao episcopado e ao papado".

Vai, Maria! (Mais uma pérola do pessoal do Minoria é a Mãe. Vale muito o clique e a leitura.)
"Fizeram do Dia Internacional da Mulher uma palhaçada de exaltação aos atributos femininos de tal forma que esquecemos do porquê desse dia existir. Ele não é para ser comemorado, é para ser lamentado. Existir no calendário um dia que foi criado para lembrar da luta das mulheres por condições dignas de trabalho e esse motivo ser torcido e transformado em mais um dia de propagação de sexismos é um motivo muito grande de lamentação. (...) O dia de hoje não é para comemorar o fato da mulher ser mulher, mas para lembrar que nós não tínhamos direito algum e tivemos que lutar - e morrer - para ter os que temos, sendo que esses que temos muitas vezes não são respeitados. Hoje é dia de lembrar que mulher também é gente, e merece respeito."

RT@andretrig: Não se nasce mulher: torna-se. (Simone de Beauvoir)

O 8 de Março é Luta Para Todxs Nós!
"Ora, se grito pela libertação feminina, pelo uso-ou-desuso do salto alto, da maquiagem, da menstruação, por que não haveria, também, de acreditar na libertação masculina, dos parâmetros ignorantes de sexualidade e agressividade artificiais?

Se eu luto para que eu e minhas “semelhantes” tenhamos a livre opção de trânsito entre identidades e sexualidades, por que restringi-lo aos demais?

Que usem – ou não – batons, cintas-liga, queimem sutiãs. Que a luta do 8 de Março se torne de todxs nós. Pelo fim da opressão patriarcal machista, da dicotomia de gênero, da homofobia, lesbofobia, e transfobia. Pela total eliminação da limitação expressiva humana em detrimento da manutenção do status quo. Que, juntxs, pensemos e repensemos, com as diferentes histórias de vida e luta, uma sociedade, por fim, liberta."

Em 8 de março, não distribua rosas
"Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: 'parabéns'."

A necessidade de "reconhecer os ministérios confiados aos fiéis leigos para responder à situação atual da Igreja diocesana"
"Se levarmos a sério o ensinamento do Concílio sobre a vocação universal dos batizados, a situação das nossas pequenas comunidades dispersas, o fato de que há mais leigos engajados e formados, capazes de assumir responsabilidades, nos parece urgente engajarmo-nos nós também nesse percurso, como leigos, para fazer evoluir a Igreja Católica à qual estamos ligados. Essa Igreja nos parece muito temerosa e e lhe falta audácia para encontrar os meios para responder às necessidades do povo cristão e do mundo de hoje.

O Sínodo pediu 'o reconhecimento de ministérios confiados aos fiéis leigos para responder à situação atual da Igreja diocesana' (IV 15). Mas é oportuno ir muito além e mais rápido do que o que é proposto, a fim de que leigos e padres sejam coletivamente responsáveis pela animação das comunidades cristãs. Eles devem, com efeito, poder compartilhar por toda a parte e sempre a Palavra, o Pão e o Vinho."

“Falta um projeto para o diálogo entre as grandes religiões”, afirma rabino chefe de Roma
"O fato de [os três monoteísmos terem] uma raiz comum, não evita de nenhum modo, ao contrário, aguça os conflitos. Existem várias receitas possíveis para não se devorar: a primeira poderia ser o conhecimento direto e pessoal; a segunda a sugestão de se olhar mais as necessidades do mundo do que as próprias teologias."

“Lei Maria da Penha mudou a mentalidade do povo brasileiro”
"Antes da lei, não se falava que bater em mulher era crime, porque a punição para o agressor era comprar cesta básica e distribuir para uma comunidade. Agora, não. A Lei Maria da Penha tem a punição para o agressor."

O 8 de março e a onipresença do machismo
"Para além da polêmica do BBB: todos os dias, mulheres brasileiras sofrem todo tipo de abuso. Como no caso de Monique, ainda levam a culpa por isso."

E, last but not least, o melhor de todos de hoje: "O que é um homem? O que é uma mulher?"
"Eu gostaria de te perguntar: de onde vem essa certeza? O que faz de um homem um homem? E o que faz de uma mulher uma mulher?" | Essencial.

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História do 8 de Março, Dia Internacional da Mulher


Sugestão de Telia Negrão, jornalista e cientista social que integra o Coletivo Feminino Plural, a Rede Feminista de Saúde Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos e a Rede de Saúde das Mulheres Latinoamericanas e do Caribe (RSMLAC), ao Vi o Mundo.

Veja também:
Entrevista especial com Telia Negrão sobre os direitos sexuais e reprodutivos da mulher, aqui.

E um belo levantamento histórico sobre as origens da data e o movimento feminista, em "8 de Março: A origem revisitada do Dia Internacional da Mulher", por Miriam Martinho, que começa questionando:
"Testemunha ocular de como movimentos sociais, altamente ideologizados, são capazes de forjar datas de celebração e eventos 'históricos', fiquei obviamente com dois pés atrás no que se refere a todas as datas de comemoração, entre outros, do movimento feminista ou de mulheres. Quem me garante que outras datas não foram também fabricadas como uma que eu vi 'nascer'?"
Continua aqui.

A oração das mulheres

Imagem daqui

A dimensão feminina na oração ecumênica: na última sexta-feira, 2 de março, celebra-se em todo o mundo a jornada de meditação que une cristãos de diversas tradições.

A reportagem é de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicada no sítio Vatican Insider, 01-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.


Em antecipação ao tradicional Dia da Mulher, celebrou-se neste ano, no dia 2 de março, o "Dia Mundial de Oração das Mulheres", uma iniciativa que tem suas origens no século XIX, quando grupos de mulheres de fé protestante dos Estados Unidos e do Canadá haviam iniciado atividades comuns em prol de muitas mulheres em dificuldade, tanto em sua pátria quanto no exterior. Logo, seguiu-se a ideia de um dia unitário dedicado à oração "das" e "pelas" mulheres, depois fixado para a primeira sexta-feira do mês de março.

Embora em diferentes partes do mundo a ideia já havia sido acolhida até por grupos no âmbito católico, foi apenas em 1969, depois da abertura ecumênica do Concílio, que a União Mundial das Organizações Femininas Católicas encorajou abertamente as mulheres católicas de todo o mundo a participar.

No dia 2 de março, pelo menos três milhões de mulheres de todo o mundo tomaram parte de uma oração coral, desta vez inspirada pelos habitantes da Malásia sobre o tema Let justice prevail ("Que a justiça prevaleça"). Quase 180 países contaram com grupos de mulheres pondo-se em ação para uma sensibilização que não conhece barreiras de idade nem de condição social.

É único o objetivo plasticamente representado no logotipo de 2012, idealizado pela malasiana Hanna Cheriyan Varghese, esposa, mãe e avó, além de professora de artes plásticas e artista de grande valor, falecida há três anos: um grupo de mulheres que ajuda uma outra a se levantar e pôr-se de volta em pé.

Porque era exatamente esse o propósito da jornada de oração: contribuir para que as muitas situações – muitas vezes dramáticas e ainda mais escondidas ou esquecidas – de injustiça, marginalização e degradação às quais são forçadas as mulheres de muitos países do mundo possam finalmente ter fim ou pelo menos tomar o caminho de uma resolução.

"É uma liturgia mundial que só pode provocar o desejo de participar", escreve o dominicano Alberto Simoni, no sítio Koinonia, citando amplas passagens da celebração proposta e das motivações.

As mulheres malaias escreveram: "No dia 2 de março, buscaremos trabalhar com Deus e entre nós para criar um mundo em que sejam honrados o sexo, a raça, a cultura, a religião e o Estado".

Se as neurociências nos revelam que o cuidado pelos semelhantes é uma característica da outra metade do céu, as mulheres do movimento nos dão um exemplo de como pode se alargar o coração que bate para ajudar o próximo, quem quer que seja. Não se reza apenas pelas mulheres, mas por todos, pelo mundo inteiro. Surge claramente a mensagem de que é preciso coragem, empatia, compaixão para que a justiça possa despontar no mundo de hoje.

"Senhor, viemos diante de vós para pedir misericórdia e para vos pedir que cuide dos nossos sofrimentos. Ao nosso redor, vemos injustiça e maldade. Vimos surgir a violência para sedar as diferenças, tanto no âmbito político quanto religioso. As vozes em favor da verdade e da justiça foram silenciadas; a corrupção e a ganância ameaçam o caminho da verdade. Confessamos a falta de consciência e de interesse por essas injustiças. Perdoai-nos porque muitas vezes somos relutantes a denunciar situações difíceis da sociedade, sabendo que essa atitude traz indiferença às vítimas de leis injustas, àqueles que estão sujeitos aos opressores, àqueles que são privados de direitos e de dignidade, àqueles que são destruídos no corpo, na mente e no espírito": essa é a confissão das mulheres que se faz oração de invocação a um Deus que é acima de tudo justiça.

Não falta nem uma invocação pelos governantes de todas as nações: "Dai-lhes sabedoria para reconhecer o que é certo. Dai-lhes compaixão e força de vontade para fazer a tua vontade. Dai-lhes amor pela verdade e pela justiça. Dai-lhes o temor de Deus e fazei com que trabalhem pela justiça de todo o povo".

Mas as mulheres – especialmente aquelas que vivem em países em desenvolvimento, muitas vezes carregadas de trabalhos extenuantes a nós desconhecidos – certamente não estão sem fazer nada, e declaram todos o seu compromisso para alcançar o objetivo. Agradecidas ao Senhor que as criou, querem se tornar instrumentos de paz e reafirmar com coragem que irão contribuir, de todos os modos, para melhorar as condições da sociedade em que vivem, começando pelas suas famílias, pelos locais de trabalho e também pelas comunidades cristãs de origem, que deverão vê-las na primeira linha, ativas para denunciar a injustiça e promover a paz, a tolerância e a dignidade. Quase como um círculo destinado a se expandir e do qual é quase impossível ficar de fora, sem excluir ninguém.

Mais subsídios, em inglês, estão disponíveis aqui.

"Um vilão católico em uma história repleta de heróis"


Um padre negou à católica americana Barbara Johnson a participação na Sagrada Eucaristia. O motivo? Ela vive há dezenove anos um relacionamento lésbico. Mas o que mais chamou a atenção nessa situação e fez o caso virar notícia foi o fato de a Comunhão ter sido negada a Barbara no funeral de sua mãe. "Ele pousou a mão sobre o corpo de Cristo, olhou para mim e disse: 'Não posso lhe dar a Comunhão porque você vive com uma mulher e, aos olhos da Igreja, isso é pecado", conta ela.

O que já parece ruim fica pior: o padre deixou o altar quando, após a Eucaristia, Barbara proferia o elogio fúnebre; pior: 15 minutos depois, mandou avisar que não acompanharia o cortejo fúnebre ao cemitério. Pior: não providenciou outro padre para proporcionar uma despedida digna à falecida, que por toda a sua vida fora católica devota – despertando a justa indignação de Barbara e seus irmãos, todos profundamente religiosos.

Como pode ter acontecido tamanho desastre pastoral? A atitude do padre Marcel Guarnizo, da Igreja de São John Neumann, em Gaithersburg, Maryland, deu-se poucos dias depois de a Assembleia Legislativa aprovar uma lei legalizando o casamento homossexual no estado, que deve ser sancionada pelo governador democrata Martin O'Malley ainda esta semana. O ocorrido causou rebuliço entre os ativistas pelos direitos dos LGBTs e levou alguns conservadores religiosos a manifestar seu apoio à decisão do sacerdote. "O Pe. Marcel Guarnizo foi jogado embaixo do ônibus por cumprir o cânone 915! ", protestou um blogueiro católico da arquidiocese. "O problema aqui não é o padre, mas sim Barbara Johnson." O que o episódio torna evidente, porém, é a falta de compreensão e conhecimento do direito canônico, do catecismo e das orientações pastorais do Magistério, tanto por parte do tal blogueiro quanto do Pe. Guarnizo.

Senão, vejamos: o cânone 915 determina literalmente que "não sejam admitidos à sagrada comunhão os excomungados e os interditos, depois da aplicação ou declaração da pena, e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto". Então, antes de mais nada, há que se fazer aqui um esclarecimento e uma distinção importantes. Os documentos da Igreja que se referem à homossexualidade não só determinam que os gays sejam acolhidos com respeito como classificam os atos homossexuais (os atos, e não as pessoas) como “intrinsecamente desordenados” – o que, de acordo com a doutrina, é uma classificação insuficiente para determinar o pecado.

Aqui, abro parênteses: pode parecer estranho à primeira vista, mas há nuances que distinguem os conceitos de “desordenado, errado, mau” e “pecado”. De fato, a Teologia Moral católica chama de pecado a circunstância que reúna três elementos: matéria grave, liberdade na ação e consciência de que aquilo é pecado. Só a junção dos três elementos caracteriza pecado grave, segundo a Igreja. Ademais, diz a Constituição Pastoral Gaudium et Spes que “pela fidelidade à voz da consciência, os cristãos estão unidos aos demais homens, no dever de buscar a verdade e de nela resolver tantos problemas morais que surgem na vida individual e social” (GS 16). Ora, muitos católicos gays – como a própria Barbara – simplesmente não reconhecem suas vidas e seus relacionamentos como “desordenados”; portanto, não podem ir contra a sua consciência se esta não os acusa de estar em pecado. Esse raciocínio leva a descartar de vez as condenações dos atos homossexuais por pecaminosos, que, insisto, não encontram respaldo na doutrina católica – mas, como esse é um debate que foge ao escopo deste post, remeto o caríssimo leitor a uma das nossas perguntas frequentes, aqui. Fecha parênteses. ;-)

De todo modo, em termos práticos, se o Pe. Guarnizo estava convicto (ainda que equivocadamente) de que a mulher que tinha diante de si vivia em pecado grave, como ele deveria ter procedido? O sacerdote soube que Barbara é gay ao ser apresentado à sua esposa pela manhã, muito antes do início da celebração. Nesse caso, seria sua responsabilidade eclesiástica chamá-la para uma conversa reservada. "Quando surgem dúvidas sobre se um indivíduo deve ou não se apresentar à Comunhão, não cabe à arquidiocese de Washington repreender publicamente essa pessoa", salientaram as autoridades da arquidiocese em comunicado emitido a respeito do caso. "Qualquer questão relativa à adequação de um indivíduo para receber a Comunhão deve ser abordada pelo padre com essa pessoa em um ambiente privado e pastoral."

Ainda de acordo com as políticas da arquidiocese, a recusa de Guarnizo parece estar em desacordo com a firme posição contra a negação da Comunhão aos católicos enunciada pelo arcebispo de Washington, o cardeal Donald Wuerl, como bem lembraram fieis da comunidade. O cardeal já havia declarado não acreditar na negação da Comunhão, alegando ser impossível saber o que está no coração da outra pessoa, por ocasião da campanha presidencial de 2004, quando líderes católicos conservadores disseram que o senador John F. Kerry, de Massachusetts, candidato democrata, deveria ter a Comunhão negada por defender o direito das mulheres de decidirem-se ou não pelo aborto.

Essa história é um prato cheio para os defensores da tese de que toda religião, ou o cristianismo, ou ao menos o catolicismo em particular, são inerentemente ruins. Mas repito aqui o convite feito por John Shore, que tem um consistente trabalho de denúncia de aspectos da religião e/ou teologia que de alguma maneira promulguem a condenação dos LGBTs (é autor de “UNFAIR: Why the ‘Christian’ View of Gays Doesn't Work” e “10 Ways Christians Fail To Be Christian, and Other Such Essays”, sem tradução no Brasil), no site LGBTQNation: examinemos a situação toda com mais calma, sem julgamentos apressados, e vejamos se há algo de positivo que se pode tirar desse caso.

Sem a menor sombra de dúvida, o Pe. Guarnizo não poderia ter escolhido momento pior para pôr suas manguinhas intolerantes de fora. Contudo, faço eco às palavras de Shore: “é também o único vilão em uma história repleta de heróis católicos”. Shore prossegue em sua análise:
“Sim, o Pe. Guarnizo negou a Comunhão a Barbara. Mas quase imediatamente em seguida um Ministro da Eucaristia leigo que participava da celebração ministrou-lhe amorosamente o sacramento. 
“Sim, Barbara foi basicamente escorraçada pelo Pe. Guarnizo. Contudo, logo após o serviço (e, em medida necessariamente menor ainda durante a celebração), Barbara viu-se também cercada e abraçada por outros católicos, que fizeram questão de reiterar que aquele sacerdote não representava, de modo algum, o amor da Igreja [entendida aqui no sentido próprio do “corpo dos fieis”, não do clero apenas]. 
“Sim, o Pe. Guarnizo lamentavelmente recusou-se a acompanhar o cortejo ao cemitério. Mas logo em seguida o diretor do funeral (‘um anjo’, nas palavras de Barbara) consolou-a e assegurou-a de que providenciaria rapidamente outro padre para presidir ao ritual. Recorreu então ao Pe. Peter Sweeney, que não hesitou em abandonar o sossego de sua aposentadoria para celebrar o serviço funeral da família Johnson."
“O padre Sweeney foi perfeito", atesta Barbara. "Não poderíamos querer um sacerdote mais gentil e amoroso. Tanto o Padre Sweeney quanto o diretor do funeral nos serviram de bálsamos para acalmar nossos corações feridos.”

Quando o pároco de Saint John Neumann, o Pe. LaHood, tomou conhecimento do que havia acontecido, telefonou para Barbara para desculpar-se. Barbara encontrou-se com ele e achou-o “gentil, compassivo e sincero em seu pedido de desculpas”. E mesmo a arquidiocese de Washington apressou-se em repudiar a atitude de Pe. Guarnizo, através do comunicado supracitado:
“Em questões de fé e moral, é responsabilidade da Igreja ensinar e iluminar com a mensagem do Evangelho as circunstâncias do dia a dia. Quando surgem dúvidas sobre se um indivíduo deve ou não se apresentar à Comunhão, não cabe à arquidiocese de Washington repreender publicamente essa pessoa. Qualquer questão relativa à adequação de um indivíduo para receber a Comunhão deve ser abordada pelo padre com essa pessoa em um ambiente privado e pastoral. 
“A arquidiocese está examinando o incidente ocorrido em uma missa fúnebre celebrada pelo Pe. Marcel Guarnizo, e cuidará do caso como um problema de pessoal.”
“O que mais eles poderiam dizer tão cedo? Estão examinando o caso. É justo”, opina Shore. Barbara, porém, está determinada: “Minha família quer um pedido público de desculpas por parte do Pe. Guarnizo, e que ele seja afastado das atividades paroquiais. Nosso objetivo é que ele jamais possa voltar a atingir outra família, como fez conosco”.

Concordo com a avaliação de Shore: nada mais justo. E volto a citar suas palavras ponderadas:
“Também nós queremos ser justos ao refletirmos sobre essa história. Para tanto, não percamos de vista que neste caso, para esta família, naquela ocasião sagrada, foi a sua religião, e seus irmãos na fé, que proporcionaram a paz, o apoio e a comunhão que vieram apaziguar todos os presentes. 
“O ódio acalentado pelo Pe. Guarnizo por algumas pessoas não foi capaz de fazer sombra ao amor de Deus por todos nós, e no máximo serviu para por em destaque a capacidade das pessoas de prestar amor e conforto mútuos. A família Johnson e a alma da mãe de Barbara nada perderam aqui. O único a sair perdendo foi o Pe. Guarnizo.”
Havíamos tomado conhecimento dessa história pelo IHU no final da semana passada, mas anteontem, ao receber do amigo Hugo Nogueira, pelo Facebook, o link para o texto de Shore no LGBTQNation, achei necessário trazer para cá a história e suas comedidas considerações a respeito. Curiosamente, compus o presente texto ontem, dia para o qual havíamos programado a bela reflexão de Fredy Cunha a respeito da compaixão e da pena, o guest post do Daniel sobre sua conversa com seu pároco e o vídeo com a mensagem do Bispo Gene Robinson para os gays – todos três, a meu ver, em sintonia com a mensagem de como as manifestações do Amor e da Misericórdia de Deus por nós podem superar de longe qualquer dor que a falta deles venha a causar. E, se há uma coisa que eu aprendi na minha vivência aqui no Diversidade Católica, é que o Amor de Deus por cada um de nós se expressa no amor que sentimos, recebemos e compartilhamos com as pessoas queridas que nos cercam. A questão é se teremos olhos para enxergá-lo e abriremos nosso coração para recebê-lo... E acho que é mesmo uma boa pergunta, nestes tempos de Quaresma: vamos ficar com a dor e o sofrimento causados pelas incompreensões, pelas exclusões, pelas opressões, ou vamos nos deixar curar e libertar pelo Amor do Pai? Atendamos ao convite de Cristo e ressuscitemos com Ele na Páscoa, deixando a morte para trás.

Com amor,

Cris :-)

Com informações do  IHU e do LGBTQNation

* * *

Atualização em 13/03/12:
E nosso amigo Hugo Nogueira mais uma vez nos manda a informação quentinha: a arquidiocese do Pe. Guarnizo decidiu suspendê-lo. Sem fazer alusão direta ao caso da família Johnson, a arquidiocese atribuiu o afastamento a "atitudes tomadas nas últimas semanas", sem entrar em detalhes. A nota comunicando sua remoção foi lida em todas as missas da paróquia deste fim de semana. Leia reportagem em inglês aqui, e outra, já traduzida para o português (e com a já tradicional ênfase no confronto entre religiosos e gays, em vez de em sinais de encontro e diálogo), aqui.

Metade da humanidade‏

Ilustração: Bianca Green

É hora de aproveitar uma data como 8 de março para reabilitar a mulher na Igreja, permitindo-lhe acesso ao sacerdócio, ao episcopado e ao papado

Antes de celebrar o Dia da Mulher a 8 de março, há que comemorá-lo. Os dois verbos têm diferentes significados, embora frequentemente empregados como sinônimos. Celebrar é promover cerimônia, destacar, tornar célebre, donde celebridade. Comemorar é fazer memória, resgatar o passado, atualizar lembranças. De que mulheres tratamos nessa efeméride? Da empregada doméstica que a família preza como parente para camuflar a sonegação de seus direitos trabalhistas, a falta de carteira assinada, de férias regulares e salário digno?

É também o dia das babás, a quem é negado o direito de estudar, aprimorar-se profissionalmente, e exigido cuidado e afeto aos bebês da família? Quem se lembra das mulheres chefes de família, largadas à deriva por seus maridos, obrigadas à dupla jornada de trabalho para tentar educar os filhos?

As mulheres são a metade da humanidade. A outra metade, filhos de mulheres. E, no entanto, bilhões prosseguem submetidas ao machismo irreverente, proibidas de dirigir carros em alguns países árabes, obrigadas a suportar a poligamia em clãs africanos, forçadas à infibulação (castração feminina) em culturas fundamentalistas, menosprezadas ao nascer na China patriarcal.

Pobre Ocidente, que, do alto de sua arrogância, mira tais práticas como se aqui as mulheres tivessem alcançado a emancipação. É verdade, multiplica-se o número de mulheres chefes de Estado ou de governo, como, atualmente, Dilma Rousseff (Brasil); Cristina Kirchner (Argentina); Laura Chinchilla (Costa Rica); Ângela Merkel (Alemanha); Tarja Halonen (Finlândia); Pratibha Patil (Índia); Dália Grybauskaité (Lituânia); Eveline Widmer-Schlumpf (Suíça); Ellen Johnson Sirleaf (Libéria); e Sheikh Hasina (Bangladesh).

Não olhemos, porém, apenas para o alto. Mirem-se nas mulheres de Atenas, sugere Chico Buarque. “Elas não têm gosto ou vontade, nem defeito, nem qualidade; têm medo apenas. Não têm sonhos, só têm presságios: o seu homem, mares, naufrágios, lindas sirenas morenas.”

Há que mirar em volta: mulheres como isca de consumo, adornando carros e bebidas alcoólicas. Mulheres no açougue virtual da chanchada internáutica e nas capas de revistas que cobrem as bancas de jornais, a exibir, como vacas em exposição pecuária, seus atributos físicos anabolizados cirurgicamente. Milhões de mulheres tentando curar suas frustrações, via medicamentos e terapias, por não corresponderem aos padrões vigentes de beleza. Mulheres recauchutadas, anoréxicas, siliconizadas, em luta perene contra as rugas e as gorduras que o tempo, implacável, imprime a seus corpos. São as gatas borralheiras sempre a fugir da hora em que a velhice bate à porta, tornando-as menos atraentes aos olhos masculinos.

Sim, é preciso fazer memória de mulheres que não foram ricas de imbecilidade nem se expuseram na vitrine eletrônica do voyeurismo televisivo em rede nacional. Refiro-me a Judite, que derrotou o general Holofernes; Maria, que exaltou os pobres, despediu os ricos de mãos vazias e gerou Jesus; Hipácia, filósofa e matemática de Alexandria; Joana d’Arc, queimada viva por desafiar monarcas e cardeais; Teresa de Ávila, que arrancou Deus dos céus e centrou-o no coração humano; Joana Angélica, monja baiana que se opôs ao colonialismo português; Olga Benário, combatente contra o nazifascismo; Zilda Arns, que ensinou dezenas de países a reduzirem a mortalidade infantil; e tantas outras mulheres anônimas que, literalmente, carregam o mundo no ventre e nas costas.

À tradição cristã se deve muito a demonização da mulher. A começar pela interpretação equivocada de que foi Eva a responsável por introduzir o pecado no mundo. Assim como o papa se penitenciou por ter a Igreja Católica condenado Galileu e Darwin, é hora de aproveitar uma data como 8 de março para reabilitar a mulher na Igreja, permitindo-lhe acesso ao sacerdócio, ao episcopado e ao papado.

Jesus primeiro se revelou como messias a uma mulher – a samaritana do poço de Jacó. Ela pode ser considerada a primeira apóstola. E foi a uma mulher – Madalena – que primeiro Jesus apareceu ao ressuscitar. E é bom sempre recordar a afirmação do papa Sorriso, João Paulo I: “Deus é mais mãe do que pai”.

- Frei Betto
Publicado originalmente na Folha de S. Paulo em 07/03/12
Reproduzido via Conteúdo Livre
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