sexta-feira, 25 de julho de 2014

I Encontro Nacional de Católicos LGBT: instruções de conexão para a transmissão online



Amig@s, nosso evento amanhã terá transmissão online, e estamos na torcida para a rede da Unirio ser boa o bastante para proporcionar uma transmissão de qualidade.

Porém, é importante lembrar que você que vai nos assistir online deve ter também uma boa conexão. Uma dica é evitar usar wi-fi; a conexão por meio de um cabo de rede ligado diretamente ao seu modem deve melhorar a qualidade da transmissão, se você sentir necessidade.

Vamos oferecer duas opções de transmissão: ustream e justin.tv. As duas oferecem chat para colocação de perguntas ou comentários, mas para usá-lo é preciso se cadastrar antes (o cadastro consiste em entrar pelo Facebook ou criar uma nova conta, ambas bem simples e rápidas).

Com relação ao chat, não podemos garantir que todas as intervenções de quem estiver online serão respondidas. Porém, se você tiver alguma dúvida, questionamento ou quiser compartilhar um depoimento, não deixe de nos mandar, pelo e-mail contato@diversidadecatolica.com.br.

Link para a transmissão no UStream: http://www.ustream.tv/channel/i-encontro-nacional-de-cat%C3%B3licos-lgbt

Link para transmissão no justin.tv: www.justin.tv/DCBrasil (computador e smartphones, mas chat só no computador)

Saiba mais sobre o evento aqui ou na página do Facebook, aqui.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

I Encontro Nacional de Católicos LGBT: veja como chegar!


Queridos amigos, nosso evento, "Tua Fé te Salvou": I Encontro Nacional de Católicos LGBT, vai acontecer neste sábado, dia 26/7, em um dos campi da Unirio, na Av. Pasteur, entre os bairros de Botafogo e Urca.

Atenção: tanto a Unirio quanto a UFRJ têm vários campi nessa região. O Auditório Paulo Freire do Centro de Ciências Humanas e Sociais/CCHS, onde estaremos, fica na Av. Pasteur, número 458 (foto do portão abaixo).

As melhores referências são o Shopping Rio Sul, que fica a cerca de 10-15 min. de caminhada do local, e o Pão de Açúcar, que fica a 5 min. de caminhada dali. Confiram as indicações abaixo para ninguém se perder!

Para quem for de carro, há estacionamento no local.  Para quem for de metrô e não quiser fazer a caminhada até a Unirio, dá pra fazer integração metrô-ônibus na estação Botafogo, pela linha 513, que faz integração com a Urca. Quem for de ônibus, pode usar o 107, que vem da Central do Brasil, no Centro, ou as linhas 511 e 512, que circulam pela Zona Sul. Todos esses ônibus passam na Av. Pasteur e param no ponto bem ao lado do portão.

Saiba mais sobre o evento aqui ou na página do Facebook, aqui

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terça-feira, 22 de julho de 2014

Repercussões do I Encontro Nacional de Católicos LGBT


Nosso próximo evento aberto, o “Tua fé te salvou”: I Encontro Nacional de Católicos LGBT, que acontecerá este sábado, 26/7, na Unirio, saiu no AudioLab, da UERJ. Ouça a matéria no player acima.

Saiba mais sobre o evento aqui ou na página do Facebook, aqui.

domingo, 20 de julho de 2014

Um mestre ouvinte e aprendiz


Ontem, Rubem Alves se foi. Que esse mestre cujas palavras doces e frescas tanta falta nos farão agora interceda por nós junto à luz do Pai Amoroso.

"Mestre, ensina-nos a orar", pediu uma velhinha.

"Quando orarem, vocês não serão como os vaidosos que gostam de orar em lugar visível para serem vistos pelos homens. Você, quando orarem, entrem nos seus quartos e, fechada a porta, orarão ao seu Pai, que ali está, invisível, mesmo que ninguém o veja. E não fiquem repetindo a mesma coisa, como se Deus fosse surdo. Deus sabe do que vocês necessitam, antes que vocês o digam. Vocês orarão assim:

Pai-Nosso… Mãe-Nossa…

Pai… Mãe… de olhos mansos, sei que estás invisível em todas as coisas.

Que o teu nome me seja doce, a alegria do meu mundo.

Traze-nos as coisas boas em que tens prazer:

Os jardins, as fontes, as crianças, o pão e o vinho, os gestos ternos, as mãos desarmadas, os corpos abraçados…

Sei que desejas dar-me o meu desejo mais fundo, desejo cujo nome esqueci… mas tu não esqueces nunca.

Realiza pois o teu desejo para que eu possa rir.

Que o teu desejo se realize em nosso mundo, da mesma forma como ele pulsa em ti.

Concede-nos contentamento nas alegrias de hoje: o pão, a água, o sono…

Que nossos olhos sejam tão mansos para com os outros como os teus o são para conosco.

Porque, se formos ferozes, não poderemos acolher a tua bondade.

E ajuda-nos para que não sejamos enganados pelos desejos maus.

E livra-nos daquele que carrega a morte dentro dos próprios olhos.

Amém.

(Rubem Alves)

Referência-homenagem via nossos irmãos do Episcopaz (aqui)

Some gays are christians. Get over it! ;-)



E, num desses papos deliciosos que nascem nos comentários na internet, nosso querido Murilo comentou a postagem do Markos sobre como LGBTs não-religiosos às vezes tratam a religiosidade de outros gays, que reproduzimos aqui. E, claro, não podemos deixar de publicar as palavras do Murilo aqui também:

Nos últimos tempos, tenho tido recorrentes sofrimentos e embates relacionados a esse tipo de coisa. Outro dia vieram me dizer, com essas exatas palavras, que eu era tipo "judeu nazista". Às vezes são pessoas que conhecem todas as minhas posições e toda a minha visão aberta (e toda a minha atuação política) envolvendo sexualidades, identidade de gênero, direitos sexuais, direitos reprodutivos, feminismo e tudo mais... Pessoas que, apesar de tudo isso, no imediato momento em que digo que sou católico, deixam de considerar todas estas questões pra me tomar ou como um hipócrita, ou como um traidor, um inimigo. Como eu digo volta e meia: é todo mundo queer, mas quando envolve o sagrado, a política identitária ferve. Ou você é isso, ou é aquilo. Ou você tá com a gente, ou você tá com eles.

Aí vem a hora em que essas pessoas vomitam em cima da gente todo o histórico de barbáries que a Igreja cometeu, e reiteram fervorosamente o quanto a Igreja é violenta, homofóbica, transfóbica, misógina, ignorando que eu, que estou dentro dela, sei mais do que ninguém a respeito dessas violências. Porque eu as sofro cotidianamente. Os enfrentamentos são constantes, pra mim. Não preciso que ninguém me fale disso de novo. A questão toda é que a vivência religiosa mecânica e pouco profunda vivida pela maior parte das pessoas (um pouco associada à cultura de proliferação evangélica que temos no Brasil) faz com que muita gente pense que, se eu discordo dos princípios de uma religião, tenho que sair dela e criar a minha. Ou virar agnóstico, "porque tudo bem você ter uma fé, mas você não precisa ter religião". As pessoas tomam as religiões (especialmente as maiores, mais institucionais) como organismos perfeitamente homogêneos, difundem e reiteram o pensamento de que se eu estou numa religião, concordo com tudo o que ela pensa, endosso todas os seus discursos e práticas e não estou aberto para criticá-la. E pior: pensam que eu estou nela JUSTAMENTE por endossar esses discursos e práticas. Dica: Felicianos, Sheherazades e Malafaias pensam e dizem a mesma coisa. Eu, pelo menos, escolho bem de quem discordar.

As pessoas ignoram a rede de vivências que a gente encarna cotidianamente, na nossa paróquia, na nossa comunidade, onde se constituem laços e onde se constrói uma vivência coletiva da fé que é o que realmente importa para a maioria de nós. Nesse contexto, se constroem outras vivências, outros pensamentos, outros afetos, de modo que o discurso ou a doutrina da instituição às vezes são as coisas que importam menos. Falando do meu caso, em particular: eu provavelmente seria um coxinha conservador e teria muitas crises com relação à minha sexualidade se não tivesse vivenciado o que vivenciei na minha pastoral. Vivi em contextos absurdamente reacionários toda a vida (na família, na escola, etc.), sendo que o único oásis de liberdade que eu tive nesse contexto todo foi a Igreja, onde eu conseguia pensar politicamente e coletivamente questões muito novas, inclusive relacionadas à sexualidade. A primeira vez em que eu ouvi falar sobre legislação sobre casamento gay ou sobre adoção por casais do mesmo sexo, foi numa palestra com a assessora jurídica de uma ONG LGBT, durante um curso de Teologia organizado por um movimento católico de esquerda da minha diocese. A primeira vez que eu parei para pensar na minha sexualidade com calma, foi depois de uma conversa com um padre, que veio me dizer que achava que eu era muito livre, mas que precisava encarar os meus medos. E acreditem, essa minha vivência não é tão incomum quanto parece. Ela só é invisibilizada, como qualquer dissidência.

Sair da Igreja, nesses casos, é um caminho que é ambíguo, porque é fácil politicamente, mas é difícil subjetivamente. Difícil porque é uma castração enorme pedir que deixemos essa vivência que organiza a nossa experiência de fé e de tantas outras dimensões da vida. Fácil porque é, de fato, bem mais simples deixar as instituições que não contemplam a nossa experiência, em vez de travar a luta por dentro, né? A questão é que esse não é um caminho eficaz. Se a gente começa a simplesmente abandonar as instituições homofóbicas, ou a condenar todas as vozes dissidentes que existem nelas (e isso vale não só para as igrejas, mas para a academia, para a política, para as mídias), a gente ajuda a fomentar o silenciamento que a própria Igreja está a costumada a provocar, e acaba fazendo exatamente o contrário do que se pretende: a gente contribui para que as igrejas continuem sendo vozes de ódio e fundamentalismo, e vozes cada vez mais fortes. Movimentos como o Diversidade Católica e as igrejas inclusivas, com todas as questões controversas que os envolvem (como em qualquer movimento político), ainda têm o mérito de lutar para que o cristianismo seja uma voz de ódio a menos no mundo, e eu ainda fico sem saber como militantes de toda ordem, do alto de suas consciências críticas, ainda conseguem deslegitimar esses movimentos e negar a importância de suas lutas, taxando-os de inimigos, porque estão "do lado" do opressor. Entendo perfeitamente a reação das pessoas contra a Igreja, até porque, quase sempre, eu compartilho dessa reação, e vivencio o mesmo enfrentamento. O que eu não entendo é que as pessoas neguem o direito à liberdade religiosa, encarnando, por vezes, os mesmos discursos fundamentalistas que dizem combater.

Com relação às religiões de matriz africana, sem dúvida que elas são um espaço beeeeeeem mais aberto que as religiões cristãs para muitas questões (acho que a gente tem muito pra aprender), inclusive para a questão da sexualidade. Mas é uma religião que também tem alguns problemas sérios nesse ponto, que por vezes passam despercebidos na atuação do movimento LGBT, especialmente porque o movimento das religiões afro-brasileiras é um grande parceiro nosso na pauta da laicidade, e a gente nem sempre está disposto a fazer críticas a quem está do nosso lado.

Quero deixar claro que não tô querendo inverter o discurso nem justificar a postura das igrejas cristãs, com o argumento fajuto de que "todo mundo faz". Só que me preocupa essa imagem difundida, de uma abertura muito grande das religiões de matriz africana, que às vezes invisibiliza algumas violências e contribui para que certas opressões sigam silenciosamente. São muito recorrentes, por exemplo, casos de lesbofobia contra as filhas de terreiro, de objetificação de seus corpos negros, por vezes havendo deslegitimação de suas sexualidades numa violência de que nunca se fala. Mesmo a própria aceitação da homossexualidade, por vezes está perpassada pela compreensão de que muitos homens podem ter "alma feminina" por terem orixás femininas como guia - o que envolve, na base, uma confusão entre identidade de gênero e orientação sexual. Quer dizer... a religião não escapa de algumas questões, e ainda que sejam visivelmente mais abertas, também demandam novas reflexões e políticas sobre gênero e sexualidade. E assim funciona com diversas outras religiões e doutrinas, e a gente poderia gastar mais trinta comentários aqui enumerando isso.

Quando eu pontuo essas questões, reitero, não estou querendo inverter o discurso. O centro do que eu quero levantar não é exatamente a realidade dessa ou daquela religião, mas o fato de ficarmos nessa constante e infrutífera avaliação da legitimidade da pertença das pessoas, especialmente quando são pessoas ligadas à militância. Por vezes, isso ainda é feito sem sequer parar para escutar como cada um negocia e organiza a própria pertença ou a relação com valores institucionais hegemônicos. A gente se desvia do que é importante, e acaba incorrendo nessa hierarquização: "se for sem religião, é melhor; em tal religião pode; em tal religião até pode; mas nessa outra já é vandalismo". E fica parecendo que a nossa militância é feita ATRAVÉS da doutrina religiosa, e não APESAR dela, quando o que ocorre, na maioria das vezes, é justamente o inverso, porque entre a doutrina e o cotidiano há um abismo - não só para LGBTs, mas para religiosos de modo geral. O uso da camisinha por 99% dos católicos está aí pra não me deixar mentir. As pessoas vivem me tomando como um cúmplice do opressor, citando Beauvoir, sendo que às vezes eu me vejo mais como um agente infiltrado, hahaha. Não sei se me fiz entender ou se viajei no pensamento, mas acho que, de maneira geral, a gente precisa de um pouco mais de sororidade, pra começar a se reconhecer como parceiros de luta, sem se importar com o modo como cada um organiza sua fé ou sua religiosidade.

sábado, 19 de julho de 2014

Católicos LGBT: Por Um Novo Tempo


Sobre o I Encontro Nacional de Católicos LGBT, clique aqui


A Igreja Católica vive uma fase de renovação com o papa Francisco, que vai às raízes do evangelho e se conecta com a sociedade atual. Com um estilo despojado, o papa faz um apelo para que se vá às “periferias existenciais”, ao encontro dos que sofrem com as injustiças e os diversos tipos de conflitos. Ele critica a Igreja ensimesmada, entrincheirada em estruturas caducas incapazes de acolhimento, e fechada aos novos caminhos que Deus apresenta. A novidade que Deus traz à nossa vida, diz ele, é verdadeiramente o que nos realiza e nos dá a verdadeira alegria e serenidade, porque Deus nos ama e quer apenas o nosso bem.

O anúncio do amor de Deus que nos salva deve preceder a obrigação moral e religiosa. Hoje, alerta o papa, muitas vezes prevalece o inverso. Este anúncio deve concentrar-se no essencial, procurando curar todo tipo de ferida e fazer arder o coração, como o dos discípulos de Emaús. A Igreja deve ser sempre a casa aberta do Pai, onde há lugar para todos os que enfrentam fadigas em suas vidas, e não uma alfândega dos sacramentos. O confessionário não deve ser uma sala de tortura, mas um lugar de misericórdia, no qual o Senhor nos estimula a fazer o melhor que pudermos. E a Eucaristia não é o prêmio dos perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os que necessitam. Sobre os gays, Francisco fez a célebre interrogação: “se uma pessoa é gay, busca a Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?”.

A Igreja se prepara para um sínodo mundial sobre a família, interrogando-se sobre a atenção pastoral aos que vivem em uniões do mesmo sexo. E, caso adotem crianças, como lhes transmitir a fé. Diante das mudanças culturais, das conquistas da cidadania LGBT na sociedade e de sinais de abertura na hierarquia da Igreja, é hora de nós, cristãos católicos LGBT, exercermos nosso protagonismo.

Vários de nós participamos ativamente de nossas comunidades, mas muitas vezes não podemos manifestar nossa orientação sexual por causa do preconceito e da aversão. Não poucos de nós acabaram e acabam por se afastar da Igreja por nos depararmos com essa situação. Constata-se até mesmo um assédio espiritual a que somos submetidos, sendo tratados como endemoninhados a serem exorcizados ou submetidos a orações de “cura e libertação” para mudarmos quem somos. É necessário que nos protejamos e nos afastemos dos ambientes onde isso acontece, indo ao encontro de fiéis e ministros religiosos sensíveis às nossas feridas e dificuldades, bem como aos nossos talentos e potencialidades.

O processo de inclusão e conquista da cidadania na Igreja em favor dos LGBT é sabotado quando se afirma que nela só há lugar para o gay celibatário. Esta é uma leitura rasa da doutrina, que leva a uma simplificação perversa sob a forma de dilemas do tipo “tudo ou nada” e “ame-a ou deixe-a”. Infelizmente, essa simplificação cruel tem unido religiosos ultraconservadores, de um lado; e críticos antirreligiosos implacáveis, de outro lado. Ambos alimentam um radicalismo estéril.

As mudanças almejadas não dependem só da hierarquia, ainda que haja sinais favoráveis. Elas dependem muito dos fiéis leigos, interagindo com suas comunidades e com a sociedade. A Igreja, em grande parte, são os fiéis que a fazem nas comunidades locais e nas práticas cotidianas. É hora de a cidadania LGBT contagiar a Igreja.

Aproveitamos para reforçar o convite para que todos compareçam no próximo sábado, dia 26/7, ao "Tua fé te salvou": I Encontro Nacional de Católicos LGBT, a se realizar aqui no Rio de Janeiro com a presença de representantes de nossos grupos-irmãos de São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Recife/Olinda, Curitiba e Ribeirão Preto. Para os que não puderem participar presencialmente, haverá transmissão online - vamos divulgar as instruções para conexão ao longo da semana, fiquem ligados. Para saber mais sobre o evento, clique aqui. Até lá!

Equipe Diversidade Católica

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A terceira margem do rio

 

Nosso amigo Markos Oliveira postou ontem em seu perfil no Facebook a reflexão abaixo, que nos pareceu fundamental e reproduzimos aqui. De fato, é doloroso constatar como a violência tende a ensinar violência. Vemos pessoas que pertencem a uma ou mais minorias e são atingidas por exclusões e dilaceramentos de toda ordem muitas vezes permanecerem presas no ciclo da violência e, sem se darem conta, acabarem por reproduzi-la. Porque, diante de tensões e contradições, a lógica da violência e da exclusão e a impossibilidade da conciliação é tudo o que a gente aprendeu, e o lugar de vítimas imoladas onde fomos colocados é tudo o que a gente conhece.

Ainda bem que existem pessoas como o Markos, que de alguma maneira encontraram o caminho para transcender essas oposições. Acharam o caminho do meio, chegaram à terceira margem do rio - e, de lá, acendem fogueiras e acenam com lanternas, tentando mostrar o caminho para os que estão em busca.

Segue o comentário dele:


Infelizmente não é raro eu ver quem diz defender o respeito e a diversidade com um discurso de meio que querer obrigar que LGBTs abandonem sua religiosidade, principalmente se for o cristianismo. Se não obrigar, tratar tais pessoas de forma inferior ou pejorativa o que, pra mim, é uma atitude tão controladora da vida alheia quanto a atitude de fundamentalistas religiosos.

Dizem que tais LGBTs são idiotas, burros, gostam de sofrer por quererem ficar numa religião que os condena e os discrimina, mas é preciso compreender que o direito à liberdade de crença - e de não crença - e para todos e todas, inclusive para LGBTs.

Hoje sou ateu, mas tive criação evangélica. Minha família é admiradora de Malafaias e Felicianos e não foi fácil eu impor a minha vontade para a minha vida.

Eu preferi seguir outros caminhos, mas admiro e muito os LGBTs que permanecem com sua religiosidade e tentam mudar, de dentro, tais fundamentos e instituições, para que um dia sejam respeitosas com a diversidade.

Acredito que o trabalho de grupos como a Diversidade Católica e igrejas evangélicas inclusivas são fundamentais porque as instituições religiosas fazem parte e influenciam nossa sociedade e para que um dia possamos ter uma sociedade que não discrimine LGBTs, é fundamental que se faça um trabalho de educação e inclusão dentro destas instituições, pois os que as frequentam tais instituições não deixam lá dentro seus preconceitos aprendidos dentro delas, eles trazem para a sociedade.
Seguimos juntos, Markinhos... ;-)

terça-feira, 15 de julho de 2014

“Os que dizem que o homossexual é doente são os que estão doentes”



Raúl Vera, (Acámbaro, Guanajuato, 1945) é o bispo mais ameaçado do México. Um prelado que saiu vivo de mais de um atentado, e cujo trabalho em favor dos desaparecidos, migrantes, menores, indígenas, prostitutas e párias de todos os tipos lhe granjeou ódios ferozes, incluindo a letal inimizade do narcotráfico. Mas as ameaças não parecem lhe afetar. Engenheiro de carreira e filho intelectual de Maio de 68, forjou uma lenda de indomável.

Seu primeiro desafio veio em 1995 quando João Paulo II lhe enviou como coadjutor para Chiapas, em plena efervescência zapatista. Tinha como missão colocar em ordem a diocese de San Cristóbal de las Casas, dirigida pelo carismático Samuel Ruiz, um seguidor das teses indigenistas e da teologia da libertação. Logo depois de chegar, aquele comissário político que todos consideravam conservador e cujo destino era levar a mitra para Ruiz, acabou apoiando o clero local. Roma não esqueceu. Quatro anos depois foi enviado, como castigo, para o árido bispado de Saltillo, em Coahuila, no norte do país. De pouco adiantou. Dali voltou para as trincheiras. Fez frente aos desmandos do Governo e também ao terror dos Los Zetas.

Seu discurso, de forte conteúdo social, irredutível na luta contra a desigualdade e furioso contra o “capitalismo liberal”, o deixa longe do aristocrático e ortodoxo episcopado mexicano. Uma distância que engrandeceu ainda mais sua atitude para com as mulheres partidárias do aborto e sua defesa dos direitos dos homossexuais. Durante muito tempo, Raúl Vera foi a ovelha negra, o desobediente, o antiquado esquerdista, até que o terremoto ideológico provocado pela chegada do Papa Francisco à cátedra de São Pedro deu nova força para sua voz. Agora, os outros bispos param para escutá-lo.

Pergunta. O que aconselharia que o Papa visitasse quando vier ao México?

Resposta. Para começar, que conhecesse a rota dos migrantes. Também o faria visitar uma prisão, porque ele gosta de ir a prisões; o levaria à periferia de uma cidade grande, porque ele diz que temos que visitar as periferias. Organizaria uma visita de acordo com o que ele nos pede que façamos. E faria com que as pessoas da primeira fila fossem os indígenas, fossem os pobres.... Isso é algo que não se costuma fazer, colocar os pobres na frente.

P. Há pouco tempo, o senhor batizou a filha de um casal lésbico. O que pensa da homossexualidade?

R. A homossexualidade, ai... É um tema que temos negado. Os que dizem que o homossexual é doente são os que estão doentes. Tenho um amigo que foi sacerdote e que é homossexual. Ele diz que não reconhecer os homossexuais é como julgar pelas regras do rúgbi os que jogam futebol, e aí dizer a eles que além de tudo estão violando as regras. A Igreja precisa aproximar-se deles não com condenação, mas com diálogo. Não podemos anular toda a riqueza de uma pessoa somente por sua preferência sexual. Isso é doentio, é não ter coração, é não ter senso comum.

P. E com o aborto não acontece a mesma coisa?

R. Sobre o aborto penso como pensa a igreja, que é um assassinato. As diferenças estão em como tratar, como penalizar. O aborto, como o matrimônio entre os homossexuais, nos serviu de subterfúgio para dizer que temos moral na Igreja. Mas não somos capazes de defender os direitos dos trabalhadores. É muito fácil ir contra uma mulher defensora do aborto, não causa problemas e ainda por cima somos apoiados pela ultradireita conservadora. Veja, aqui houve uma campanha nacional contra o aborto, a favor da vida. E o que eu fiz? Organizei rosários com toda a população para meditar sobre a defesa da vida dos migrantes, a defesa da vida dos mineiros, a defesa da vida das mulheres e da defesa da vida do não nascido. Mas somos uns hipócritas... Parece que as únicas regras morais são condenar os matrimônios homossexuais, condenar as defensoras do aborto. E com isso, já somos perfeitos cristãos.

(...)

O bispo Vera fala suavemente. Aos 69 anos, está tranquilo. Acabada a entrevista, se dirige ao seu escritório, repleto de livros, para mudar de vestimenta.

Ao lado está seu quarto. Não lhe importa que olhem dentro. Com seu computador e a mesa desorganizada parece o quarto de um universitário, exceto pela cama, pequena, velha e sem colchão, de frade dominicano.

Leia a entrevista na íntegra aqui.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

7 anos de Diversidade Católica


Queridos,

Hoje, 14 de julho, em meio aos preparativos para nosso I Encontro Nacional de Grupos Católicos LGBT (saiba mais aqui), o Diversidade Católica completa 7 anos. Foi neste dia que o nosso site entrou na internet.

Coincidentemente (ou providencialmente), 14 de julho é o dia da Revolução Francesa, que clamou por liberdade, igualdade e fraternidade, dando passos decisivos na construção da cidadania moderna. Nós hoje atuamos em favor da cidadania LGBT na Igreja e na sociedade. Outra coincidência é o dia de São Camilo, fundador de uma ordem religiosa de ministros dos enfermos. E nós trabalhamos pela cura das feridas homofóbicas, que são espirituais, emocionais e mesmo físicas, e podem ser de extrema gravidade.

Neste dia, agradecemos a Deus por todos os nossos membros e leitores, pelos nossos grupos-irmãos de outras cidades do Brasil e do mundo, por todos os que carregam ou simpatizam com nossa bandeira, e por todas as vidas transformadas para as quais nós, de algum modo, pudemos contribuir.

Deus seja louvado.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Afinal, o que há dentro do armário?



Do nosso amigo Murilo Araújo

"Assisti esse vídeo inteiro chorando, sentindo muito a tristeza de ver, mais uma vez, que tantas pessoas ainda precisam esconder quem elas são. Fico revisitando um pouco a minha própria trajetória: comecei a pensar na minha sexualidade no dia em que um amigo, muito querido, me perguntou quais eram os meus medos (e eu não tenho certeza se ele sabia do que estava falando). Pensando muito, me dei conta de que os meus medos eram a minha família, os meus amigos, minha Igreja... um pouco do que essas pessoas dividem nesses depoimentos. E isso carrega um sofrimento muito grande, porque esses são exatamente os lugares de onde a gente mais espera amor, acolhida e segurança. Quando a nossa sexualidade surge como um elemento pra gente, a sensação é de estar sozinho, sem chão, e isso dói. Quando alguém diz que nem todo mundo precisa sair do armário, é porque nunca esteve dentro de um, não sabe a violência que ele representa.

No final, a gente fica com vontade de abraçar cada um desses meninos (principalmente o Luiz), pra dizer 'calma, vai ficar tudo bem, a gente tá aqui', e fazer alguma coisa pra isso tudo acabar. Tem que acabar. Pouco adianta eu estar bem aqui hoje, sem o meu armário, se tanta gente aí pelo mundo ainda tem que enfrentar isso."

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Drag Queen de Seatle enfrenta protestos anti-gay que tentavam atrapalhar o início da Parada do Orgulho Gay





Por Jonathan Higbee, 01 de julho de 2014

Antes de me mudar para Seattle há um ano, fui conhecer um “brunch” dominical animado por uma drag no fim de semana em que eu e meu companheiro estávamos na cidade procurando um lugar para morar. Mama Tits, uma estrela-ícone de Seattle como eu viria a saber depois, era a âncora do brunch no Unicorn e uma das principais influências que tive com relação à decisão de ir morar lá; é durona como um prego mas também uma bicha histérica, que adora beber e tem um coração de ouro. Quando a vi na Parada que rolou no fim de semana depois de meses, sua efervescência e cuidado em relação à comunidade LGBT estavam plenamente à vista. Não imaginava que sem seu tenso enfrentamento aos que faziam protestos contra os gays e tentavam atrapalhar a Parada, ocorrido um pouco antes naquele mesmo dia, o evento teria atrasado muito e tumultuaria a programação.

Mama Tits descreveu com detalhes a situação para o site Seattle Gay Scene:

“Eu os vi subindo a rua antes da Parada e olhei para a Sylvia e a DonnaTella e disse, ‘Queridas, vamos fazer uma muralha!’ Antes que eu me desse conta, lá estava eu enfiando minhas tetas no nariz do líder deles que falava no megafone. Eu tinha a sensação de ter a força de todas as pessoas que já foram feridas por estes caras, uma energia que me apoiava e me fortalecia! Eu já estava quase entrando no piloto automático dos tempos em que eu era uma Sister of Perpetual Indulgence ["Irmã da Indulgência Perpétua" – referência a um grupo de "freiras" queer de São Francisco]. Me plantei no caminho dele e dali não me mexia. Quando ele passava por mim, eu voltava a ficar na frente dele diversas vezes. Encarava-o olhando no fundo dos seus olhos e dava pra perceber que havia dor no seu olhar, notava-se que estava assustado e não era pra menos. Ele tentou me bater com seu cartaz, mas como diz a Bianca Del Rio, 'Hoje não, Satanás!'

"Empurrei o cartaz para afastá-lo do meu rosto e do meu cabelo, porque, por favor, NÃO ENCOSTE no meu cabelo. E, era tudo o que podia fazer para NÃO ficar violenta e não fiz porque uma vez que isso acontece, todo mundo sai perdendo. Tentaram me cercar como uma tática de intimidação, mas convenhamos, eu sou IMENSA e aquilo não funcionou de jeito nenhum! A polícia veio até mim e pediu que os deixasse passar e ainda me disseram para não aborrecê-los e ainda me disseram que não deixasse que eles me irritassem. Disse aos guardas que não estava irritada, mas que IRIA me defender se fosse atacada e eles tinham que tirar aqueles caras da Parada. Então eu caminhei e peguei meu microfone e comecei a chamar a atenção das pessoas ao redor. Queria que fizessem uma grande e alegre algazarra para abafar o ódio… e, cara, foi o que fizeram! A multidão fez as paredes tremerem na esquina das ruas 4 e Pine!

"Um pouco depois de eu ouvi-lo citar o Levítico, eu declamei de volta todas as outras partes que ele estava deixando de lado para mostrar o quanto ele era hipócrita. É sempre interessante como esses malucos religiosos deturpam TUDO o que está na Bíblia e a distorcem à vontade para disseminar ÓDIO, quando tudo o que estão fazendo é na verdade demonstrar sua ignorância. Gritei, ‘Você NÃO TEM PODER aqui, suma antes que alguém atire uma casa sobre VOCÊ!’ Depois dele sairem acompanhados do itinerário da parada, percebi o quanto aquilo tinha me afetado. Estava tremendo e à beira de lágrimas, porque quando as pessoas cegamente odeiam e pregam esse ódio em público como fazem esses caras, eles não têm a menor consideração pela vida das pessoas que eles estão atingindo. "Há pessoas que tiram a própria vida por causa deste tip de ÓDIO, há pessoas que são ASSASSINADAS por causa deste tipo de ÓDIO. E eu só quero dar um basta a isso! Se esses instigadores do ÓDIO abaixassem seus cartazes e abrissem suas mentes e se ARREPENDESSEM de seus julgamentos, talvez então pudessem encontrar alegria e felicidade tornando-se parte da festa, ao invés de ser parte do Inferno.”

Fonte

Tradução: Lula Ramires

terça-feira, 8 de julho de 2014

Garotos e garotas lindas que só precisam ser amados...


O autor deste emocionante depoimento (e, caso queira ler mais depoimentos, há uma série deles na tag "gay e cristão", aqui) nos enviou, para compartilharmos com vocês, esta carta que lhe foi enviada por sua mãe. Que suas palavras possam inspirar outras famílias, e que possam alimentar nossas esperanças na caminhada.

Hoje, 25 de junho de 2014, às 15:00h, hora da misericórdia, tive uma conversa muito sincera, tranquila e especial com o meu filho mais velho. Os amores da minha vida, na verdade, são dois: ele e seu irmão, as pérolas que Jesus me concedeu...

Mas, nessas linhas, quero me expressar sobre a conversa que tive com o meu filho mais velho, de 23 anos. Entre sorrisos e lágrimas, ouvi o que há muito tempo esperava ouvir de sua boca. E com muito amor, carinho e compreensão, graças a Deus, pude acolher o que o meu filho tinha para me falar. Claro que o ajudei, pois para ele foi muito mais difícil, mas com toda delicadeza e cuidado, como sempre, ele me disse: “mainha, eu sou gay”.

Hum... Olhei para aqueles olhinhos cheios de lágrimas e disse: “filho, mainha já sabe”, dei um forte abraço no meu João e disse-lhe: “você é o meu filho amado, aquele que Jesus com sua infinita misericórdia me deu. E eu sou a mãe mais feliz do mundo por ter você como filho. Filho que nunca me deu trabalho, e sim muitas alegrias”. Enxuguei seus olhinhos com cheirinhos e o lembrei do quanto ele me fazia bem. Fiz questão de repetir o que sempre disse a ele: “Você é uma pessoa incrível, de caráter muito íntegro, e de um coração tão grande que não sei como cabe em você”

Filho, você me mostrou com sua vida e dignidade o respeito para com os outros, o amor e, principalmente, o objetivo de ser um homem de Deus, tornando o caminho de quem passa por você mais florido e esperançoso.

Quero te agradecer, meu amor, por todos os momentos em que você foi tão generoso comigo, você é um filho que toda mãe gostaria de ter, mas quem tem sou eu...

Queria muito que todas as mães de filhos gays pudessem te conhecer e conversar um pouquinho com você.

Quem sabe as que ainda não conseguem abraçar os seus filhos, fossem abraçadas por ele e, daí, começassem a amar os seus filhos como eles são: garotos e garotas lindas que só precisam ser amados. Quero te deixar aqui, nessas linhas, uma palavra de sua mainha: enquanto vida eu tiver e por onde quer que eu vá, sempre defenderei essa causa com toda a força do meu coração!

Te amo, te amo, te amo...

Sua mainha

P.S: Cheirinhos nos olhos, meu menino mais lindo do mundo!

segunda-feira, 7 de julho de 2014

“Tua fé te salvou”: I Encontro Nacional de Católicos LGBT


Queridos amigos,

é com grande alegria que convidamos a todos para nosso próximo evento aberto, o I Encontro Nacional de Católicos LGBT, a se realizar no sábado, dia 26 de julho, de 13h30 às 17h, na UNIRIO (Auditório Paulo Freire do Centro de Ciências Humanas e Sociais/CCHS: Av. Pasteur, 458, em Botafogo/Urca, próximo ao shopping Rio Sul).(Veja como chegar: aqui)

Estaremos com nossos grupos irmãos de São Paulo, Brasília, Recife/Olinda, Belo Horizonte, Curitiba e Ribeirão Preto (SP), em uma tarde de encontro, partilha e troca de experiências dos católicos LGBTs brasileiros: quem são, como vivem sua identidade religiosa, como sentem a comunidade da qual fazem parte e como se dá sua atuação através dos vários grupos leigos organizados.

Vamos aproveitar para celebrar um ano do evento que realizamos durante a JMJ 2013, "O Jovem Homossexual na Igreja: I Encontro de Relatos e Experiências" (saiba mais aqui) e fazer um balanço de nossa caminhada com a Igreja.

A entrada é franca, sujeita apenas à lotação do espaço, e você será muito bem-vindo. Compareça! Será um prazer passar esse dia com você.

Confirme sua presença na página do evento no Facebook (aqui) e fique ligado nas novidades!

 Clique na imagem para ampliar

Programação:

13h30: Chegada e acolhida
13h45: Abertura
13h50: Abertura e apresentação: homoafetividade e fé cristã
14h10: Apresentação e breve história de cada grupo
15h10: Intervalo
15h20: Microfone aberto para depoimentos, dúvidas, partilha e discussão.
16h30: Encerramento
16h40: Lanche e confraternização


Sobre o Diversidade Católica e outros grupos de Católicos LGBT organizados no Brasil:

Somos um movimento de gays católicos praticantes que buscam conciliar as duas identidades: homossexual e religiosa. Procuramos, dentro do diálogo franco, caminhar junto à Igreja Católica, respeitando e reconhecendo sua liderança no papa Francisco, refazendo a ponte entre a comunidade homossexual e a Igreja, tendo como diretriz a certeza de que a mensagem do Evangelho é para todos e que não pode haver exclusão de qualquer forma dentro da expressão de fé.

O Diversidade Católica do Rio de Janeiro, que conta atualmente com mais de 200 membros, foi criado em 2007. De lá para cá, surgiram grupos-irmãos em São Paulo (Grupo de Ação Pastoral da Diversidade), Brasília, Recife/Olinda (Pastoral da Diversidade - Pernambuco), Belo Horizonte, Curitiba (Diversidade Católica do Paraná - DCPR) e Ribeirão Preto (Diversidade Católica de Ribeirão Preto (SP) e Região - DCRP), além de outros em formação. 

O batismo imprimiu em nós a marca indelével do pertencimento à Igreja de Cristo; por isso, almejamos a acolhida e reintegração de católicos LGBT que, por qualquer motivo, se sentiram excluídos da Igreja mas sentem o desejo de retornar à comunidade.

Os grupos mantêm encontros presenciais regulares e atuam também virtualmente. O Diversidade Católica do Rio de Janeiro, que realiza este primeiro encontro, está presente na internet através do blog [www.diversidadecatolica.blogspot.com.br], do site [www.diversidadecatolica.com.br] e do Facebook [www.facebook.com/diversidadecatolica].

Valores que norteiam nossa atuação:
1. Dignidade. Todas as identidades e orientações sexuais gozam de igual dignidade.
2. Perseverança. Somos cientes das provações do caminho e nos mantemos fiéis à missão.
3. Fraternidade. Somos uma comunidade cujos membros se ajudam mutuamente.
4. Tolerância. Estamos abertos ao diálogo com outros pontos de vista.
5. Fidelidade. Somos membros inalienáveis da Igreja Católica Apostólica Romana.
6. Caridade. Ajudamos o desenvolvimento pessoal dos nossos membros e da comunidade externa.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A Igreja Católica ante a homossexualidade: contextualizações e indicações pastorais (parte 4 de 4)


Como divulgamos aqui, a Revista Vida Pastoral está lançando em julho-agosto um número temático sobre homoafetividade e fé cristã. Reproduzimos esta semana os artigos dessa edição relacionados ao tema de capa; começamos por este do Pe. Luís Correa Lima, SJ, em duas partes (primeira e segunda), e continuamos agora com o artigo de Edênio Valle, em quatro partes (a primeira está aqui,  a segunda, aqui e a terceira, aqui). Para quem quiser acesso à edição virtual da revista na íntegra, é só clicar aqui. Segue a terceira parte do artigo:

6. O aporte das ciências psicológicas e antropológicas

6.1. Ante um quadro assim complexo, é necessário ter consciência de que a questão não pode ser abordada de maneira unilateral. Seria, por exemplo, demasiado simplista enquadrar as tendências sexuais humanas em dois grupos polarizados: o dos homossexuais e o dos heterossexuais. No tocante à sexualidade, não se pode reduzir o quadro a “ou preto ou branco”. Há toda uma gama de sensibilidades entre esses dois extremos. Cada caso, como se diz, é um caso. Em indivíduos de orientação heterossexual pode existir latente possibilidade de atração homossexual. E vice-versa. O que acontece é que o machismo repressivo da cultura dominante escondia, durante séculos, essa realidade latente. A atual permissividade e badalação no que se refere ao lado feminino do homem começam a mostrar, com maior nitidez, essa dimensão longamente recalcada seja no homem, seja na mulher.

A Igreja, como mãe e mestra, não tem o direito de simplificar ingenuamente o quadro e desconsiderar o momento sociocultural em que vivemos. Nivelamentos e simplificações a respeito da sexualidade são injustificados e não correspondem à realidade dos fatos. Confundem e mesmo inviabilizam a conquista de uma identidade sexual personalizada e razoavelmente consistente, que é o que interessa e é realisticamente possível.

6.2. A confusão poderá diminuir se esclarecermos algumas ideias errôneas que circulam a respeito da homossexualidade. Algumas delas têm um quê de verdade, uma vez que valem para alguns homossexuais. Outras não passam de “mitos” populares sem fundamento. Eis os mais difundidos:
  • O mito de que o interesse do homossexual é sempre ou quase sempre só genital;[11]
  • O mito de que todo homossexual sente atração por crianças e adolescentes e quer ter relações físicas com eles. É hipótese admitida por muitos psicólogos que a pedofilia, hoje um crime punido pela lei na maioria dos países, seja mais frequente entre heterossexuais;
  • O mito de que os homossexuais masculinos sejam sempre efeminados e as mulheres de tendência lésbica sejam sempre masculinizadas;
  • O mito de que todos os homossexuais tendam, sempre e necessariamente, a formar grupos mais ou menos secretos;
  • O mito de que todos os homossexuais masculinos tendem a certas profissões mais típicas de mulheres;
  • O mito de que todos sejam promíscuos, instáveis em suas relações e incapazes de compromissos duradouros (quando o são, é por razões que vieram a se somar à sua tendência, como pode dar-se também com heterossexuais);
  • O mito de que todos os que se sentem homossexuais ou até cometem atos homossexuais (na fantasia ou comportamentalmente) devam ser sempre e de fato diagnosticados como tais. Há aqui largo espectro de variações a ser levado em conta.
  • O mito de que os homossexuais possam sempre mudar essa sua orientação por meio da força de vontade, pela via do tratamento médico e terapêutico ou em virtude da oração e da ascese.
6.3. À luz do exposto, põe-se a questão: qual o objetivo da formação de indivíduos de orientação homossexual propriamente dita que desejam viver como cristãos católicos ou almejam mesmo ser admitidos ao processo formativo da vida religiosa e do sacerdócio? Uma congregação masculina de forte matiz norte-americano, após anos de debate interno, formulou assim o objetivo psicopedagógico de sua formação:

O objetivo de nossa formação, tanto para candidatos heterossexuais quanto homossexuais, é o estilo de vida celibatário. Esse supõe a capacidade de renunciar à atividade sexual genital e busca uma consistente maturidade psicossexual, expressa em um desenvolvimento global (humano-afetivo, pessoal, comunitário e espiritual) do candidato.

Nessa abordagem, já bastante adotada nos Estados Unidos, revela-se um estado mais avançado de discussão psicopedagógica do que o existente no Brasil. É concepção que considera possível uma pessoa de orientação homossexual ser encaminhada às ordens e ou à vida religiosa, não havendo razão, em princípio, para ser vetada. Os critérios de admissão e o acompanhamento psicopedagógico devem ser os mesmos usados para os heterossexuais. Mas o parágrafo acima citado enuncia dois requisitos indispensáveis para que uma pessoa assuma o compromisso de um estilo celibatário de vida: certa maturidade afetivo-sexual e razoável equilíbrio relacional global da pessoa. Tais requisitos são os mesmos para todos os candidatos. Essa proposta pedagógica me parece psicologicamente plausível, com a ressalva que farei logo abaixo. Há outra condição: saber que o objetivo da formação para a vida religiosa e para o serviço presbiteral não é o celibato. Este é apenas um meio e uma expressão de algo mais profundo: o amor a Deus e aos irmãos “por causa do Reino”. O que está no centro da formação é a pessoa em seu ser e agir, na rica trama de relacionamentos e potencialidades de seu existir como sujeito e filho/a de Deus.

O celibato, não se pode olvidar, é dom de Deus; tem natureza essencialmente carismática. Há quem diga que a Igreja, em suas normas, tem esquecido essa premissa fundamental. Desde essa perspectiva, que é teológica, não se pode propriamente falar em “educar para o celibato”. O que se pode favorecer é a integração e a estabilidade emocionais que permitem viver esse dom com liberdade interior, fecundidade para os outros e senso de realização pessoal.

6.4. Hesito em apresentar uma opinião para a qual não disponho de dados colhidos diretamente de pesquisas e observações cientificamente conduzidas, mas sim verificados e testados em minha já longa experiência clínica e pastoral.

Conheço dezenas de seminaristas, religiosos e sacerdotes de tendência homossexual que chegaram a razoável integração psicossexual e afetiva. Alguns entre eles tiveram uma vida feliz e puderam dar testemunho de vida, de serviço e de fidelidade ao ideal de consagração proposto pela Igreja. Mas conheço também casos opostos, alguns dos quais dramáticos. Refiro-me aqui à homogenitalidade propriamente dita, sem excluir ohomoerotismo. Os atos e hábitos voltados unilateralmente para práticas genitais diretas são os que precisam ser questionados de melhor forma. Eles geram, com facilidade, vidas truncadas, sofridas e carregadas de tensões. No caso de ambientes religiosos, são necessariamente obrigadas a um ocultamento angustiado e ambíguo que de modo algum favorece o amadurecimento da pessoa e a expansão da vocação.

Tenho conhecimento, também, de casos de escândalo público e de condenações judiciais, aliás, mais do que justas, pois se tratava de crimes. Note-se que não me refiro apenas aos casos que aparecem nos jornais. Embora as práticas homogenitais sejam as que mais chamam a atenção, elas, psicologicamente falando, nem sempre são o problema mais fundamental. Elas tampouco se restringem a clérigos de orientação homossexual. Existem escândalos semelhantes também entre religiosos e sacerdotes de tendência heterossexual. Não se pode generalizar a afirmação que faço a seguir, mas minha experiência me leva a dizer que, em termos gerais, pessoas com características estruturais de tipo homossexual são mais facilmente infensas a esse tipo de comportamento, provavelmente devido às circunstâncias repressivas impostas pela sociedade e pela cultura e favorecidas pelos ambientes de formação da Igreja. Não me refiro, tampouco, aos casos patológicos, que naturalmente existem e mereceriam uma discussão à parte. O que tenho em mente são pessoas até certo ponto sexualmente consideradas “normais”.

7. À guisa de amarração

Conhecer as vias pelas quais a Igreja vem tentando se reposicionar a respeito da homossexualidade nos mostrou que estamos ainda em meio a um processo de esclarecimento. Eticamente, os formadores da Igreja sabem que estão ante sérios questionamentos e ainda em busca de critérios e procedimentos que façam justiça, sobretudo, às pessoas de tendência homossexual radicada. Não há, assim, nesta ‘amarração” como apresentar conclusões, no sentido estrito do termo. É preferível falar em pistas, fazendo mais justiça à complexidade da questão.[12] De grupos com os quais andei buscando tais pistas, aprendi a valorizar algumas indicações que passo a comentar.

7.1. Em minha prática, constato notável incidência, em homossexuais por constituição, de traços atitudinais e comportamentos que denotam habilidades de vários tipos. São distúrbios (não doenças!) de várias origens e tipos. Alguns deles podem, sim, trazer aspectos que exigem cuidado psicoterapêutico e os contraindicam à vida religiosa e ao ministério presbiteral, em boa parte por serem narcisistas e sexualmente infantis. Indivíduos heterossexuais que apresentassem essas mesmas características também deveriam ser considerados como não indicados a uma vida celibatária. Quando aceitos, ambos os grupos devem ser acompanhados especialmente no amadurecimento dos aspectos obscuros que os contraindicam ao sacerdócio e à vida de consagração. Em princípio, os formadores devem propor a todos – sem distinção da orientação sexual da pessoa – aquelas virtudes cristãs e humanas que a Igreja aconselha aos celibatários e que supõem disponibilidade ao outro, riqueza e equilíbrio nos relacionamentos e, naturalmente, abertura a Deus e à caridade pastoral para com todos, sem acepção de pessoas. É uma meta ideal árdua para qualquer ser humano. A Igreja pede, por isso, correspondente maturidade psicossexual, só possível a quem tiver superado os estágios egocêntricos da primeira evolução psicoinfantil. O mínimo que se deveria dizer é que essas pessoas, para se equilibrarem psíquica, emocional e socialmente, necessitariam de um acompanhamento mais especializado.[13]

7.2. A marginalização e o desprezo a que a homossexualidade foi submetida por séculos e séculos é fenômeno cultural mais vasto do que a Igreja. Esta, no entanto, esteve diretamente envolvida na milenar opressão exercida sobre o grupo homossexual, reforçada pelo absoluto monossexismo dos claustros. Hoje, esse isolamento já não existe. Religiosos e religiosas jovens já convivem com naturalidade em espaços secularizados e em contato direto com pessoas de sua idade. Com isso, acentuou-se a exposição aos estímulos de uma cultura hipererotizada, na qual a homossexualidade se tornou uma bandeira libertária. Por essa razão, é preciso criar, nos lugares de formação, um clima mais saudável em relação à sexualidade e ao comportamento intersexual. Essa é uma precondição para que as casas de formação possam ser de auxílio aos portadores de traços que evidenciam tendência à homossexualidade.

Como não podia deixar de ser, os que se apresentam à porta das casas de formação são filhos/as da época consumista, permissiva e pluralista que os envolve. Os formadores estão ante a tarefa de rever costumes e normas herdados de um passado culturalmente cada vez mais longínquo. As velhas práticas pedagógicas precisam ser revistas, mas faltam-nos ainda as metodologias para tanto. No passado, os formadores eram afetados por grande ignorância (ignoratio invencibilis elenchi) a respeito das origens e desenvolvimento da homossexualidade humana. Hoje, já não há o direito de invocar essa justificativa histórico-cultural para omissões e equívocos pedagógicos. Os candidatos de orientação homossexual que eventualmente acolhemos em nossas casas têm o direito de esperar de nós não só compreensão, como também acompanhamento psicológico e espiritual adequados.

7.3. O acolhimento pedagógico de um candidato com orientação homossexual nada tem que ver com atitudes de facilitação e relativismo moral ou religioso. Talvez seja até o contrário. Compreender melhor o fenômeno homossexual em todas as suas dimensões pede um trabalho mais consciencioso nos relacionamentos e procedimentos formativos. Pode-se agir com respeito às pessoas de tendência homossexual sem ferir o que a Igreja pede, ao dizer que “nenhum método pastoral(ou pedagógico, ou psicológico) pode ser empregado que, pelo fato de esses atos serem julgados conformes com a condição de tais pessoas, lhes venha a conceder uma justificação moral” (Declaração, n. 8).

7.4. Da reflexão deontológica aqui feita pode-se tirar uma conclusão desafiadora: as questões afetivo-sexuais prementes em candidatos/as de tendência homossexual exigem maior estudo e melhor treinamento por parte dos pastores que acompanham essas pessoas no discernimento do que Deus lhes pede como caminho de vida (cf. EMPEREUR, 1998; OLIVEIRA, 2007; AARDWEG, 1997). Dessa maneira, no encaminhamento dessas pessoas, o que importa é colaborar para que possam discernir seu caminho de vida segundo as exigências de sua vocação cristã. Esse é um caminho de progressiva libertação pessoal e espiritual, no qual é preciso estabelecer uma parceria entre o esforço de autoconhecimento psicológico e religioso da pessoa e a presença atenta e competente de pastores e formadores bem preparados para essa tarefa.

Bibliografia

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[1] CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Declaração acerca de certas questões de ética sexual. São Paulo: Paulinas, 1976.
[2] BENTO XVI. Deus Caritas Est. São Paulo: Paulinas, 2005, n. 3-5.
[3] Não entro aqui na crítica agressiva que o documento pontifício recebeu de grupos de defesa da causa homossexual. Menciono, no entanto, o comentário do Pe. Bruce Williams, dominicano, que valoriza o documento sem omitir que ele próprio teve “reações ambíguas” numa primeira leitura da carta de 1986, a seu ver “construtiva em muitos aspectos e negativamente desapontadora em outros”(Williams, 1987).
[4] Saliento, desde já, que o texto fala aqui de “atos” e não da “tendência” homossexual.
[5] Cf. JOÃO PAULO II. Discurso a los obispos de EEUU. Ecclesia, n. 39, p. 1314, 5 out. 1979.
[6] As críticas foram muitas. Denunciava-se, no documento, uma postura biologística e medicalizante e uma tentativa de defender concepções pré-modernas que não podem ser hoje sustentadas. No fundo, mantinha-se o conceito de um caráter universal de doença, presente necessariamente na homossexualidade, o que já havia sido contestado por importantes entidades médicas desde a década de 1980. Além disso, a visão de sexualidade, nos meios católicos, mantinha o ponto de vista “procriativo” como o único definidor da validade moral da sexualidade humana, esquecendo sua dimensão interativa e de reciprocidade, mais ampla que o aspecto da genitalidade ao qual o documento estaria limitado.
[7] Deus Caritas Est, teologicamente falando, é um texto que mereceria uma análise mais acurada. Em sua primeira parte, a encíclica trata de conceitos como os de eros, philia e ágape e conversa com filósofos como Nietzsche, que criticava abertamente a maneira como os cristãos praticam e vivem a caridade. Lidas na perspectiva de nosso tema, as considerações de Bento XVI poderiam servir de base teológica para novas reflexões a respeito da sexualidade humana. Em princípio, os conceitos da Deus Caritas Est não contradizem o que Joseph Ratzinger assinava quando prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, mas com esse texto ele traz um fundamento evangélico mais promissor. Não é aqui o lugar para entrar nesse assunto.
[8] Um comentário psicoterapêutico sobre esse documento pode ser encontrado em Valle (2011).
[9] Veja-se, por exemplo, a bem fundamentada posição do Conselho da Igreja Evangélica Luterana da Alemanha em seu documento oficial: Mit Spannungen leben, Hannover, EKD, 1996.
[10] No Brasil, tivemos o médico e sacerdote João Mohana, que inovou a visão católica e a pastoral no campo da sexualidade.
[11] Nos documentos aqui comentados, pode-se observar que não é essa a posição da Igreja. Interessante documento da Diocese de Michigan (de 1973) lembra que a sexualidade, também a de tendência homossexual, pode e deve implicar a responsabilidade, a disposição ao sacrifício, a fidelidade, a amizade etc. Cf. Kosnik,1982, p. 246. Recente texto dos bispos norte-americanos a pais de filhos/as homossexuais assume a mesma postura positiva, na tentativa de animar positivamente os pais na ajuda a seus filhos/as.
[12] Cerca de 200 participantes de um seminário conduzido por Edênio Valle e Antônio Moser segundo a metodologia ver-julgar-agir, com a assessoria do psiquiatra Dr. João Moura e da psicanalista paulista Dra. Elsa Oliveira Dias, chegaram a interessantes conclusões, redigidas e posteriormente publicadas no formato de cópias mimeografadas.
[13] Quando se trata da admissão à vida religiosa ou às ordens sacras, devem ser tomados em conta os dois lados do compromisso que o candidato assume de livre vontade. À congregação ou diocese que o acolhe cabe a responsabilidade de acompanhá-lo em direção ao ideal proposto, mas não se pode esquecer que o candidato, por sua vez, se compromete com um esforço pessoal de crescer nessa mesma direção. Ambos os compromissos precisam ser devidamente ponderados não só na fase formativa, mas também na vida adulta.

Edênio Valle
Presbítero da Congregação do Verbo Divino. Professor associado de Psicologia da Religião no Programa de Ciências da Religião da PUC de São Paulo. Doutorado pelo Instituto de Psicologia da Universidade Pontifícia Salesiana de Roma. Publicou diversos livros e dezenas de artigos em sua área de especialização.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

A festa do corpo


Corpus Christi é a festa em que a Igreja Católica celebra a instituição do sacramento da eucaristia. No século 13, Santa Juliana, francesa, viu em sonho, aos 16 anos, a Lua com pequena mancha escura. Interpretou como sendo a Igreja iluminada por suas festas e, a mancha, sinal da ausência de data dedicada ao Corpo de Cristo.

O cristianismo é a religião do corpo, malgrado as sequelas platônicas. No Credo, proclamamos nossa fé, não na ressurreição da alma ou do espírito, mas na “ressurreição da carne”.

A cultura da morte faz do corpo objeto de sujeição. A pessoa é reduzida à força de trabalho. Suga-se de seu corpo toda a vida, sem que lhe pague o salário justo para que possa florescer em sua potencialidade espiritual: cultura, lazer, criatividade.

Tais direitos ficam restritos àqueles que podem gravitar em torno do culto hedonista do corpo. Há um infindável estímulo consumista para exaltar a estética do corpo: publicações, cosméticos, academias de ginásticas, cardápios diet etc.

A cultura da vida sacraliza o corpo. Para Jesus, ele é morada de Deus. A própria divindade se faz corpo no homem Jesus. A quem lhe indagou o percurso para a vida eterna (o doutor da lei, Zaqueu, Nicodemos etc.), Jesus respondeu com ironia.

A quem lhe pediu vida nesta vida, um corpo saudável como expressão do dom maior de Deus, Jesus atendeu com amor: o cego que pediu a cura para recuperar a visão, o paralítico que desejou andar, a mulher atormentada pela hemorragia, o homem da mão seca que suplicou por saúde.

Jesus restaurou corpos (milagres); alimentou corpos (partilha dos pães e dos peixes); celebrou corpos (bodas de Caná e o Reino de Deus comparado a banquetes).

Uma sociedade que segrega corpos pela cor da pele ou submete-os por relações injustas de trabalho é contrária aos princípios do Evangelho.

O corpo de Deus, em Jesus, é rejeitado, difamado, preso, condenado, torturado, crucificado. Contudo, "no primeiro dia da semana", seu corpo ressuscitou, primícia e promessa de que nossos corpos haverão de vencer a morte.

Jesus permanece entre nós na forma de pão. Todo pão que se partilha é eucaristicamente dotado de presença divina. Pães materiais — salário digno, emprego, direitos reconhecidos; e pães simbólicos —, o gesto de carinho, a solidariedade, o amor.

Nosso corpo traz a história do Universo. Todas as células foram tecidas por moléculas feitas de átomos engendrados no Big Bang e cozinhados no calor das estrelas. Somos feitos de matéria estelar. Na intimidade atômica, cada partícula é também onda, como se a natureza risse de nossa lógica cartesiana incapaz de apreender que toda matéria, inclusive o nosso corpo, é energia condensada.

Espírito não é algo que se opõe à carne, mas sua expressão mais profunda e luminosa. É fantástico que a própria natureza, em trajes bordados pela química e em baile ritmado pela física, tenha aflorado em seres dotados de inteligência capaz de decifrar os seus enigmas e apreender o seu sentido.


- Frei Betto

Fonte

Para sempre


A liturgia, na sequência do Tempo Pascal, faz questão de celebrar na semana depois da Santíssima Trindade, uma grande festa da Eucaristia: a festa do Cristo que se dá em alimento para a felicidade de seus irmãos.

A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras da Festa do Corpo e Sangue de Cristo (quinta-feira, 19 de Junho de 2014). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Eis o texto.

Referências:
1ª leitura: Deuteronômio 8,2-3.14-16
2ª leitura: 1Coríntios 10,16-17
Evangelho: João 6,51-58

Para além do rito

Seja na 1ª leitura, que fala do maná e da água do rochedo, seja na Carta de Paulo ou no capítulo 6 de João, em nenhum lugar encontramos a ideia de «adoração do Santo Sacramento». O pão e o vinho da Eucaristia não estão aí para serem olhados, mas para serem compartilhados e consumidos. Repetindo, a presença de Deus e do Cristo é «presença real» e permanente, em todas as coisas. Presença esta que se torna eficaz, operativa em nós, quando aceitamos nos reunir, fazendo-nos um só, em seu nome (Mateus 18,20). É isto mesmo o que se passa quando fazemos a Eucaristia, mas devemos compreender que o «sacramento» significa, convoca e sustém o que temos que viver por todo o tempo. O «fazei isto em memória de mim» não se refere apenas a um rito, mas à reprodução ao longo de nossas existências do dom de si mesmo que o Cristo nos fez. Que fique bem entendido, este dom da nossa vida para os irmãos não assume sempre a forma de uma paixão corporal e sangrenta, mas sempre passa pela crucifixão dos nossos egoísmos e das nossas vontades de possuir e dominar. Uma descoberta a ser feita: a alegria incomparável de uma nova vida que vem habitar todos os que escolhem reproduzir da forma que for a atitude doCristo «dando sua vida pelos seus amigos». Por isso a forma ritual da memória da Paixão e Ressurreição do Cristotoma o nome de «Eucaristia», ou seja, «ação de graças».

Mas, então, por que o rito, o "sacramento"?

Esta questão se põe, de fato, e explica um pouco porque hoje muitos crentes desertam de nossas Eucaristias. Quando alguém aceita passar por algum detrimento para que outro possa viver, o Cristo está aí, mesmo se não é nomeado e, até mesmo, no limite, se sequer é conhecido. Este exatamente é o caso da viúva de Marcos 12,41-44: deu para o Templo «tudo o que tinha para viver». Sim, talvez pudesse encontrar melhor destinatário, mas na verdade também o Templo é uma figura do Corpo do Cristo. Muitas são as razões para a celebração do sacramento, sejam quais forem. Primeiro, o que o Cristo fez na última Ceia traz já um caráter ritualístico: através da partilha do pão e do vinho, significando o dom de sua carne e do seu sangue, é que o fato se dá. É uma antecipação que vai tornar os discípulos parte interessada nos acontecimentos da Páscoa. Já para nós que viemos depois esta antecipação dá lugar a uma re-atualização, mas, por ela, também nós seremos integrados ao dom da sua vida que o Cristo nos fez. O rito é a linguagem, a proclamação pública do que consideramos primordial e que temos de fazer o mundo saber, pois que se refere também a ele, bem entendido. Mas é preciso acrescentar que o desprezo ao mandamento doCristo, ao «fazei isto em memória de mim», no que se refere também ao rito, nos destina ao esquecimento (que é o contrário da memória). Ao fim de certo tempo, a Páscoa, o Evangelho e o próprio Cristo acabam saindo das nossas vidas e dos nossos espíritos.

"Eu sou o pão da vida vindo do céu"

Tem mais: a convergência dos crentes para celebrar o sacramento significa a sua unidade. E ela mesma produz esta unidade. Lembremos que, para santo Agostinho, o corpo que põe no mundo o sinal sacramental (todo sacramento é «sinal sensível») é, enfim, este corpo que chamamos de Igreja. A eficácia do sacramento não é mágica: ela se faz pela nossa adesão livre ao dom de si mesmo que o Cristo nos faz, entregando-nos a sua vida. «Nós comemos deste pão.» Isto que Jesus fez na Páscoa torna-se a nossa Sabedoria, a nossa «filosofia», a nossa razão de viver. E se nos rendemos à Missa, é porque esta escolha do amor não vem de nós mesmos: não podemos produzir este pão porque ele não vem da terra. Na linguagem bíblica (1ª leitura e evangelho) se diz que ele «vem do céu», ou seja, desta presença que, mesmo se inacessível aos nossos sentidos, nos envolve, nos habita e nos faz existir. Este “outro” do mundo, de nós mesmos e de tudo o que podemos produzir abre as nossas vidas, arranca-nos das nossas escravidões, das nossas solidões e dos nossos fechamentos em nós mesmos. Da fé neste «outro lugar» e neste «outro modo de ser» é que nasce a esperança. E aqui estamos nós, abertos que estamos já, e em condições de encarnar o amor que nos faz ser. O pão e o vinho que recebemos permitem que nos tornemos no pão que, por nossa vez, podemos dar também. Assim o «pão do céu» pode tornar-se o pão da terra.

Fonte

A Igreja Católica ante a homossexualidade: contextualizações e indicações pastorais (parte 3 de 4)


Como divulgamos aqui, a Revista Vida Pastoral está lançando em julho-agosto um número temático sobre homoafetividade e fé cristã. Reproduzimos esta semana os artigos dessa edição relacionados ao tema de capa; começamos por este do Pe. Luís Correa Lima, SJ, em duas partes (primeira e segunda), e continuamos agora com o artigo de Edênio Valle, em quatro partes (a primeira está aqui e a segunda, aqui). Para quem quiser acesso à edição virtual da revista na íntegra, é só clicar aqui. Segue a terceira parte do artigo:

3. O Catecismo da Igreja Católica (1992)

3.1. Como se sabe, o Catecismo foi redigido para compendiar o que a Igreja ensina e precisa ser guardado por todos os fiéis, como um item básico de referência. O Catecismo não diz tudo sobre os temas que aborda, quer apenas resumir o que a Igreja considera essencial. No caso da homossexualidade (cf. n. 2.357-2.359 e 2.331-2.333), ele não entra em questões ainda em fase de esclarecimento. Ao falar da homossexualidade, começa com uma espécie de definição. A simples leitura dessa definição já demonstra que os redatores do verbete estavam atentos ao que hoje se discute na biomedicina e nas ciências psicológicas e sociais. A homossexualidade, afirma o Catecismo, implica “relações entre homens e mulheres que sentem atração sexual, exclusiva ou predominante, por pessoas do mesmo sexo”. Esse fenômeno fundamentalmente humano, segundo o texto, tem uma origem psicológica ainda sem explicações satisfatórias. Além disso, revestiu-se das mais variadas formas ao longo dos séculos, de acordo com as distintas culturas. A cultura de hoje lhe conferiu algumas características próprias ao nosso tempo.

3.2. Do ponto de vista da moral, o Catecismo retoma o que os dois textos já comentados nos afirmaram. Vê a prática de atos homossexuais como inadmissível do ponto de vista da moral cristã, pois é uma “desordem”. Como tal, contraria a lei natural porque é fechada ao dom da vida e desprovida daquela complementaridade e reciprocidade à qual a sexualidade integral naturalmente se endereça. Reconhece que o número de pessoas com orientação homossexual “não é negligenciável” e que essa tendência pode estar fundamentalmente ancorada no organismo (seria “inata”). Diz, também, que ela pode representar uma “provação”para a pessoa, sublinhando que “toda pessoa, homem ou mulher, deve reconhecer e aceitar sua própria identidade sexual” e que a pessoa humana “não pode ser adequadamente descrita por uma referência reducionista ao seu ou à sua orientação sexual” (n. 16). Essas duas observações são de suma relevância, pois supõem a originalidade fundamental de cada pessoa. Em uma cultura que massifica a sexualidade e a reduz a um objeto, é essencial a defesa da diferenciação e originalidade da pessoa em sua dimensão sexual.

Uma pessoa de orientação homossexual não o é por opção; deve, por isso, ser aceita com respeito, sensibilidade e compaixão, pois também essas pessoas “são chamadas a realizar a vontade de Deus na sua vida e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar por causa de sua condição”.

4. Outros documentos posteriores

Vou me referir ainda a três outros textos, deixando de lado uma consideração mais cuidadosa da recente encíclica Deus Caritas Est, de Bento XVI, que muito tem a nos dizer sobre o amor humano assim como este se revela no homem e na mulher.[7]

4.1. Em um desses documentos, que leva o título de Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, elaborado pela Congregação para a Doutrina da Fé, a tomada de posição é formalmente contrária às modificações que estão sendo introduzidas em vários países no sentido de favorecer a união civil entre casais homossexuais de ambos os sexos. No contexto, estão em discussão também a ética e as normas sobre a adoção de crianças por parte desses casais.

É uma discussão polêmica, presente também no Brasil (cf. Martin, 1995). A posição manifestada pela Santa Sé provocou especial repulsa por parte de seus críticos por ser interpretada como uma intervenção descabida da Igreja em um tema laico e civil. Não caberia a uma Igreja dizer se essa mudança na legislação seria ou não uma exigência da justiça e uma prática pertinente em sociedades laicas como as atualmente existentes no Ocidente. Em uma sociedade plural, o injusto seria tentar impor a opinião de um grupo, religioso ou não, sobre a dos demais. O texto, em si, repisa os mesmos conceitos e princípios nos quais a Igreja vinha insistindo desde os anos 1970, por exemplo: “as relações homossexuais estão em contraste com a lei moral natural [...] pois fecham o ato sexual ao dom da vida”. Mas há afirmações mais taxativas e de tom mais duro, por exemplo: “por seu caráter imoral [...] ela é nociva a um reto progresso da sociedade humana”.

4.2. Outro texto veio do Secretariado para a Família, organismo da Santa Sé chefiado por prelados reconhecidamente conservadores. Foi publicado quase concomitantemente com o pronunciamento sobre a união civil de casais homossexuais. Trata-se de um léxicon (não, portanto, de um pronunciamento) sobre a sexualidade e a família. No verbete sobre a homossexualidade emite-se um juízo crasso e quase grosseiro. Em vez de apresentá-lo, julgo mais oportuno citar o que escreve João Silvério Trevisan, assumindo o papel de porta-voz da indignação dos homossexuais brasileiros (cf. Trevisan, 2004). Para ele, o Lexicon perpetua

velhos preconceitos, num raciocínio capcioso que chega à arrogância. Contrapondo-se à Organização Mundial da Saúde, define a prática homossexual como “um conflito psíquico não resolvido” que “favorece um desvio”, o que a torna “contrária ao vínculo social e aos fundamentos antropológicos”. Assim, desautoriza casais homoafetivos a constituir família, sob o pretexto de se tratar de “atormentados” que sofrem de “impotência ansiogênica”. Numa inversão perversa que torna a sociedade vítima de militantes homossexuais, o documento acusa-os de conspirar para ganhar poder na ONU e no Parlamento Europeu. E demoniza homossexuais como vilões que minam a moral familiar. Há cinismo ao esconder que a própria Igreja partilha da responsabilidade de criar atormentados/as. Bastaria um mínimo de sensatez para compreender como o seu poder espiritual afeta gravemente a vida de milhões de pessoas, por minar a autoestima e estimular o ódio social aos homossexuais. Ao contrário de sua propalada vocação pastoral, a Igreja não se dá conta sequer do sofrimento psíquico que impõe a milhares de homossexuais católico/as e à numerosa parcela homossexual do clero.

4.3. O terceiro documento, que retoma e sintetiza muito do que a Igreja oficial havia afirmado nos textos até aqui citados, é a Instrução sobre os critérios de discernimento acerca das pessoas com tendência homossexual e da sua admissão ao seminário e às ordens sacras, de 2005.[8]

Dois tópicos dessa instrução chamam especialmente a atenção do psicólogo. Logo no início, após citar suas muitas fontes eclesiásticas sem fazer distinções (cf. nota 2 da instrução), é tratado o tema da maturidade afetiva e da paternidade espiritual necessária a um presbítero católico. A linguagem é, propositadamente, a da “tradição constante da Igreja”e não a da academia ou da ciência psicológica. Saliento, nessa parte, duas afirmações da instrução; uma delas “define” o que é a homossexualidade e a outra oferece os critérios a serem usados pela autoridade eclesiástica responsável pela formação dos futuros padres ou religiosos:

No que respeita às tendências homossexuais profundamente radicadas, que certo número de homens e mulheres apresenta, também elas são objetivamente desordenadas e constituem, frequentemente, mesmo para tais pessoas, uma provação. Estas devem ser acolhidas com respeito e delicadeza: evitar-se-á, em relação a elas, qualquer marca de discriminação injusta. Essas pessoas são chamadas a realizar em sua vida a vontade de Deus e a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que encontrar (n. 4).

A Igreja não pode admitir ao Seminário e às Ordens sacras aqueles que praticam a homossexualidade, apresentam tendências homossexuais profundamente arraigadas ou apoiam a chamada cultura gay. Essas pessoas encontram-se, de fato, numa situação que obstaculiza gravemente um correto relacionamento com homens e mulheres. De modo algum, se hão de transcurar as consequências negativas que podem derivar da ordenação de pessoas com tendência homossexual profundamente radicada. Diversamente, no caso de se tratar de tendências homossexuais que sejam apenas expressão de um problema transitório como, por exemplo, o de uma adolescência ainda não completa, elas devem ser claramente superadas, pelo menos três anos antes da ordenação diaconal (n. 6).

Há, nesse documento, uma lacuna que causa estranheza a quem entende de psicologia e/ou psicoterapia. Trata-se de uma questão que envolve a formação profissional de quem deve emitir um parecer a respeito do tipo, grau e complexidade do envolvimento homossexual do candidato portador dessa tendência. A instrução parece dispor que é às autoridades eclesiásticas (o bispo, o reitor do seminário, os formadores, o diretor espiritual e o confessor) que incumbe o discernimento tanto da idoneidade vocacional quanto do psicodiagnóstico de cada candidato. Discernir, por exemplo – coisa nem sempre fácil –, entre o caráter “transitório” ou “profundamente radicado” da tendência. Não deixa de ser preocupante que a instrução parta desse pressuposto, pois há casos em que se torna indispensável colaboração dos especialistas da psicologia e da pedagogia para chegar a distinções diagnósticas e encaminhar os cuidados psicoterapêuticos muitas vezes indispensáveis e que são, por lei, privativos de profissionais devidamente credenciados.

5. Pronunciamentos moral-teológicos

5.1. Na teologia católica, os ensinamentos do magistério sempre tiveram um peso decisivo, uma espécie de palavra final seja qual fosse a natureza do tema em debate. As aberturas ou fechamentos do que ele preceitua repercutem na reflexão dos teólogos, seja estimulando, seja coibindo sua função de aprofundamento, explicitação, crítica ou aplicação. As posições hoje existentes na teologia moral sobre a homossexualidade refletem bem essa situação. Os teólogos de outras Igrejas cristãs[9] gozam de maior liberdade, uma vez que não têm de se preocupar com limites e condições, em geral restritivas, que são de praxe na Igreja Católica. No tocante à sexualidade, têm crescido cada vez mais as posições críticas, mesmo que sub-repticiamente. Há três correntes teológicas a esse respeito: uma mais tradicional, que até chega a criticar o Vaticano como demasiado condescendente neste campo; outra, seguramente majoritária hoje em dia, que tenta aprofundar as brechas que os pronunciamentos oficiais oferecem; e uma terceira, que vê como inadequado e insuficiente o tratamento que as autoridades maiores da Igreja Católica dão à sexualidade em geral e, consequentemente, à homossexualidade e aos homossexuais.

Pioneiro na discussão psicopastoral da homossexualidade foi o médico, psicanalista e sacerdote francês Marc Oraison.[10] Para ele, ser homossexual não podia ser a priori visto como algo “mal”. O fato de alguém serhomossexual “não comporta em si nenhuma maldade moral”(Vidal, 1985, p. 117). Oraison foi bem além do ensinamento oficial e teve provavelmente influência sobre ele, na medida em que foi um dos primeiros a propor que, também quanto ao juízo e tratamento pastoral e médico-psicológico da tendência homofílica, o critério principal de sua eticidade fosse o grau e a qualidade de sua “humanização”. Sobre os homossexuais, ele afirmava expressamente:

o prazer intercambiado e compartilhado pode ser uma expressão de amor, na medida justamente em que se o viva em uma relação intersubjetiva alcançada… O prazer erótico não é forçosamente a expressão do amor, ou seja, de uma relação verdadeiramente intersubjetiva. Pode ser “solitário”, pode ser buscado também com um companheiro ao qual se situa, sobretudo, como objeto, como instrumento de excitação e distensão orgástica. Mas pode ser verdadeiramente relacional. Um sujeito homossexual não pode sentir-se atraído por esse prazer se não com um sujeito de seu mesmo sexo. Representa, como vimos, um inacabamento da evolução afetiva, uma imperfeição quanto ao acesso à diferenciação (sexual). Mas o homossexual não pode mudar nada em semelhante situação, que está sofrendo com pesar. Não é, portanto, impossível que, nessa situação que é a sua, chegue a viver uma relação erótica com um companheiro igualmente homossexual que seja, ao nível do que lhes é acessível, a expressão de uma verdadeira relação intersubjetiva. Pode-se falar, em tal caso, de um “pecado”? (apud Vidal, 1985, p. 118).

5.2. Na sequela de reflexões como a de Oraison, vale a pena chamar a atenção para o esforço de moralistas católicos para chegar a uma compreensão e avaliação ética mais correta do “comportamento” homossexual. Em tal comportamento, esses teólogos procuravam distinguir os comportamentos “desintegradores” – que se verificam também em heterossexuais (aberrações, promiscuidade, prostituição, pedofilia, abusos e atos não vinculativos etc.) – dos comportamentos que propiciam e manifestam uma evolução em curso no nível psicoafetivo, humano e cristão. O que diz, por exemplo, J. McNeill resume bem a posição de fundo que hoje se tornou dominante na ética sexual cristã: “as mesmas regras morais que se aplicam às atividades e condutas heterossexuais” se aplicam igualmente às pessoas de tendência homossexual (apud VIDAL, 1985, p. 117). Outro ponto em que reina relativo acordo prático e pastoral é a aplicação do princípio do “mal menor”. Mas, naturalmente, há que perguntar, caso a caso, se essa “solução” não seria uma maneira de fugir pela tangente, evitando as árduas controvérsias suscitadas por pessoas com tendência homossexual comportamentalmente estabelecida.

Os pastores, segundo Vidal (1985, p. 110), precisam aprender a adotar uma “atitude de provisoriedade” relativamente ao que é divulgado como resultados (biológicos, genéticos, neurológicos, psicológicos e antropológicos) proclamados definitivos e seguros, venham eles de setores “progressistas” ou de arraiais “conservadores”. Os dados científicos de que dispomos não podem ser vistos dessa forma simplista. Logo, tampouco o juízo ético e a atitude pedagógica ou pastoral devem ser categóricos quando se observam os critérios e valores teológico-pastorais nos quais a Igreja julga seu dever insistir também em nossos dias. Assim sendo, continua Vidal (1985, p. 110), a avaliação moral e pastoral-pedagógica da homossexualidade “deverá ser formulada em uma chave de busca e de abertura”.A finalidade última que o moralista, o educador e o pastor devem ter em mente deveria ser libertar-se e libertar as pessoas e o meio em que atuam “de falsas compreensões e das injustas normas sociojurídicas em que a mentalidade dominante (acrítica e ideológica) a encarcerou”. É função da educação e da ética “ser uma força mais interna… (na) emancipação humana, nesse âmbito da condição homossexual” (VIDAL, 1985, p. 125).

Portanto, o padre e o educador cristão devem saber integrar a avaliação e a ajuda formativa aos indivíduos de tendência homossexual em um projeto ético mais amplo e mais articulado com toda a sexualidade humana e com cada ser humano em sua unicidade e totalidade de seu ser-assim.

5.3. A história da moral cristã – seja da católica, seja da protestante (cf. Maspoli, 2006) – mostra especial dificuldade em situar o lugar antropológico e ético do prazer sexual. São maneiras de ver a sexualidade eivadas de elementos antropológicos e filosóficos que se inspiram no dualismo maniqueu e na tendência neoplatônica, popularizada por Agostinho, de negar qualquer espaço e valor ao prazer sexual.

A interpretação tradicional das passagens bíblicas relacionadas à homossexualidade está sendo questionada e superada pelos conhecimentos da exegese contemporânea; representa uma visão minimalista dos dados bíblicos, assim como estes aparecem nas Escrituras e, mais ainda, nas atitudes de Jesus.

A própria teologia da sexualidade e do matrimônio, bem como a nova visão da pessoa, está levando ao questionamento de conceitos e práticas tidas, durante séculos, como as únicas compatíveis com a fé e a santidade cristãs.

À medida que o conhecimento sobre a homossexualidade foi avançando, a Igreja sentiu a necessidade de rever posições já não justificáveis, sem se afastar, contudo, da experiência humana e cristã de quem funda seu comportamento no evangelho e nos valores do Reino. Entre os pontos revistos, podem ser listados os seguintes:

Reconhecer que houve uma redução indevida da sexualidade homossexual à sua dimensão genital e, em consequência, a uma visão moral e pastoral dependente mais do biológico do que do pessoal;
Reconhecer que não tem fundamento a suposição de que a homossexualidade seja uma condição reversível, dependente apenas da vontade da pessoa homossexual e não de outros fatores complexos;
Reconhecer o caráter machista, “androcêntrico” e antifeminista de suas posições no passado. A visão, por exemplo, da mulher como “um macho mutilado” colaborou muito para uma condenação a priori da homossexualidade e do homossexual e do surgimento de um clima homofóbico que caracterizou certos ambientes conventuais;


Reconhecer a unilateralidade de uma visão que tem a procriação como condição única para o exercício moralmente permitido da sexualidade. Tal critério era aplicado universalmente e teve um peso determinante no que concerne à homossexualidade, fazendo que os atos homossexuais fossem vistos fora de uma visão de conjunto mais ampla, que poderia lhes conferir outro significado humano. A valorização exagerada da finalidade procriadora da sexualidade deixava na penumbra outros possíveis critérios, como, numa palavra, a philia e o próprio ágape cristãos, enfatizados por Bento XVI em sua primeira encíclica.


Em suma, os pronunciamentos da Igreja sobre a homossexualidade não representam um ponto final das discussões. Devem ser encarados como um alerta que baliza o debate, um juízo emitido com o objetivo de salvaguardar o que é essencial, do ponto de vista da dignidade das pessoas, da sexualidade humana e do modo cristão de viver a sexualidade como dom e responsabilidade de vital importância para a humanidade. Nesse sentido, é normal que o conhecimento que a humanidade adquire sobre a sexualidade afete, até certo ponto, as concepções e os modos de comportamento relativos a essa dimensão fundamental para a realização humana, propiciando um amadurecimento cada vez mais pleno das pessoas.

[Continua amanhã]
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