quarta-feira, 30 de julho de 2014

"Temos que ter paciência, mas o fato de que ele abriu essas portas mostra que a Igreja está querendo realmente ser mais positiva"


Arcebispo emérito de São Paulo, prestes a completar 80 anos, D. Claudio Hummes foi entrevistado no domingo passado, 27/07, pelo jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Fez uma avaliação positiva do pontificado de Francisco, com quem troca cartas e se reúne quando viaja a Roma, falou sobre temas polêmicos e disse confiar que o Papa fará reformas necessárias na Igreja, pedindo paciência.

Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui. A seguir, alguns trechos que selecionamos:


Que avaliação o senhor faz desses 16 meses de pontificado de Francisco?

Muito positivamente. Todos sabemos que ele foi um grande presente para a Igreja. É de uma vitalidade, de uma capacidade de sentir, de viver a realidade, de se aproximar das pessoas e de entrar na vida delas. Ele tem um carisma extraordinário e um grande amor aos pobres. Para ele, é fundamental que a Igreja consiga ir às periferias, ir até os que estão fora de todo o grande processo humano, que progride. Na escolha do nome, ele afirma isso, porque São Francisco de Assis é o homem dos pobres, da paz e da ecologia. (...)

O que há em comum, além do nome, entre Francisco de Assis e Francisco de Roma?

Há muita coisa em comum. Em Buenos Aires, Bergoglio estava presente nas favelas e tinha um trabalho muito grande, de muitos anos ali. Sempre digo que o Papa encontrou sua identidade. Não que ele começasse a partir daí a ser Francisco. Ele já era Francisco antes e aquilo deu um clique. O seu passado era isso, embora fosse jesuíta. É um homem profundamente dedicado aos pobres.

Bergoglio, como São Francisco de Assis, tem a missão de reparar uma "Igreja que está em ruínas"?

Claro. Ele nunca sublinhou isso, mas ele conhece essa frase e, certamente, isso o desafia muito.

Como será essa reconstrução?

Ele diz que a Igreja precisa de reforma. E essa é uma palavra muito forte na Igreja. Por causa da Reforma Protestante, acabou se tornando uma palavra de muito peso. Mas ele usa essa palavra, e diz que a Igreja precisa de reformas não apenas das estruturas institucionais, mas no que há de humanamente ultrapassado nela e nos novos desafios. Ele diz que essas reformas foram pedidas pelos cardeais, naqueles três dias de reuniões antes do conclave. Muitas coisas foram sugeridas. O Papa já está fazendo essas reformas, a começar pelo banco do Vaticano e pela Cúria.

Quais outras reformas pediram?

Que houvesse mais colegialidade, que os bispos fossem mais convocados a ter voz no governo universal da Igreja. O concílio já tinha dito isso, só que, depois, aos poucos, foi-se centralizando tudo em Roma. Muitas coisas podem ser resolvidas pelos episcopados locais, pelos tribunais eclesiásticos locais. Não precisa ser tudo atribuição da Cúria Romana, que vai centralizando, e a gente sabe que essas coisas são automáticas. Para você controlar tudo, você centraliza tudo. O Papa quer uma Igreja mais missionária, capaz de derrubar muros e construir pontes. Ele diz que nós fizemos muralhas e as pessoas não conseguem mais entrar na Igreja. Não são apenas leis que devem ser reformadas, mas a própria maneira de ser da Igreja e de fazer evangelização.

Existe a possibilidade de mudanças em questões como celibato, divórcio, homossexualidade e ordenação de mulheres?


Algumas coisas ele já indicou claramente que não tem como mexer, como o aborto, porque se trata de eliminação de vidas humanas. Sobre o celibato dos padres, já disse que não é um dogma e, portanto, a Igreja pode repensar. Mas isso ainda não entrou em discussão. O que está agora em pauta é a questão da família, e aí entram temas como os casais de segunda união, essa problemática dos tipos de família e aquilo que as leis começam a chamar de família. E também como dar apoio às famílias para que elas possam viver o evangelho dentro de uma sociedade secularizada. Foi enviado um grande questionário, e aí está uma outra novidade dele, porque ele insistiu que esse questionário — que já foi respondido — também fosse entregue aos leigos. Em outubro, terá o sínodo extraordinário que vai tratar dessa questão. e, em outubro do ano que vem, o ordinário.

Um pedido recorrente do Papa é para que rezem por ele. O senhor acha que ele vai encontrar resistências para fazer as reformas?

Certamente, perplexidade. Não diria resistência explícita, pública, talvez um pouco de resistências por baixo. Isso é humano. Mas o Papa diz que também quer ouvir quem não concorda, porque isso nos faz pensar, ter mais luz e equilíbrio nas soluções. (...)

Algo mudou na Igreja depois das declarações de Francisco sobre os homossexuais? Se um casal homoafetivo procurar uma paróquia, poderá receber os sacramentos ou ser padrinho em um batizado, por exemplo?

Não sei como estão agindo na realidade prática. O Papa disse uma palavra muito importante: "Se um homossexual busca Deus, quem sou eu para julgá-lo?" A pessoa tem de ser respeitada. Se ela tem uma orientação homossexual, o que isso significa na vida dela? Ela, na verdade, tem de viver dignamente a sua vida. Nessa questão do batizado, não sei como os bispos estão aplicando isso, porque, em si, não tem nada a ver com isso, a não ser que fosse um pecador público, digamos assim, que fosse uma pessoa complicada nesse sentido. O padrinho é aquele que deve ajudar a educar religiosamente, e uma pessoa que tem uma orientação sexual poder ser um santo. Se ele vive o evangelho, dentro das suas condições, ele pode ser um santo. Em tese, não tem nada contrário.

O Papa dá declarações de acolhimento, mas as normas da Igreja são excludentes. Como o senhor vê a questão?

Claro, a gente tem de ir devagar. Não se faz tudo de um dia para o outro. Por isso que o Papa apela: "Temos de pensar juntos, temos de discutir juntos" para chegar a ter, de fato, uma orientação que vá ao encontro das pessoas e daquilo que Jesus Cristo nos ensina. A gente não deve ter pressa. É a Igreja quem tem que indicar o caminho e não a pessoa individual querer fazer reformas. Então, temos que ter paciência, mas o fato de que ele abriu essas portas mostra que a Igreja está querendo realmente ser mais positiva nessas questões.

Se Jesus vivesse hoje, ele seria a favor do casamento gay?

Não sei, não faço nenhuma hipótese sobre isso. Quem deve responder isso é a Igreja em seu conjunto. Temos que cuidar para não ficar levantando questões individualmente, porque isso acaba criando mais dificuldades para a gente chegar numa conclusão que seja válida. Acho que a gente tem que se reunir, ouvir as pessoas, os próprios em jogo, os bispos. É a Igreja que deve indicar os caminhos, e deve haver caminho para todos. (...)

A Igreja Católica vem perdendo, em média, um ponto percentual de fieis ao ano no Brasil. O que explica esse fenômeno e como estancá-lo?
Há muitas razões. O povo que migra da Igreja Católica para as pentecostais, protestantes, evangélicas tem as suas razões. É preciso ouvir e analisar o porquê. Acho que tem a ver com a busca de soluções de problemas graves na vida, pois têm pessoas que sofrem com a falta de assistência em saúde, por exemplo. Então, elas vão buscar curas por bênçãos, exorcismos, porque há quem diga que a doença seja fruto do demônio. O povo que não tem recurso busca em qualquer lugar o mínimo de esperança. Poder ser também que tenham ficado desiludidos com a falta de atenção e de acolhimento dentro da Igreja Católica. Nós nos perguntamos se não estamos muito distantes das pessoas. Certamente, um dos motivos é que a Igreja ficou esperando muito as pessoas virem até ela e não foi ao encontro das pessoas.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Gratidão, apenas

Realização, simplesmente

Não tenho palavras para expressar a alegria e a gratidão que sinto neste momento. Há seis anos o Diversidade Católica se tornou o meu caminho e os seus membros, meus irmãos e companheiros de jornada. As emoções que experimentamos ontem ao comungarmos da nossa fé e da luta por um mundo mais justo e mais livre, onde as diferenças sejam verdadeiramente celebradas e a singularidade de cada um, reconhecida como um tesouro inestimável a proteger e partilhar; as palavras que dissemos e ouvimos, cada uma delas uma pérola preciosa e insubstituível; e cada gesto, cada olhar, cada sorriso, cada lágrima, cada abraço, cada encontro e reencontro com os amigos próximos ou distantes que, mesmo espalhados por este Brasilzão afora, seguem unidos no afeto e irmanados pelos ideais comuns — deixaram em mim uma marca que nunca vai se apagar. Vocês estão gravados na minha alma e no meu coração e serão para sempre uma parte inseparável de quem eu sou e virei a ser.

E, neste momento histórico da fundação da Rede Nacional de Católicos LGBT, mais que nunca sinto vivo e presente em minha vida o amor irrestrito e incondicional de um Pai/Mãe que nos conduz em nossa caminhada e nos conhece e guarda na palma de sua mão. Que possamos seguir atentos à Sua luz e à Sua Palavra, que vibra e pulsa na vida de cada um dos nossos irmãos. Porque somos todos sagrados, e tudo aquilo que somos é dom e uma bênção.

Todo o meu afeto e gratidão à Juliana, Murilo, Luís (porque, como disse o Riomar, você chora. E como chora rs), Pedro , Simone, Raphael, Rodrigo, Beto, ao incansável Pyter, Valéria, à fundamental Rosilene (Patricia, o presente de vocês já está aqui embelezando a nossa casa!), o impagável Sergio, Arnaldo e Riomar, Rafael, Francisco, Rodolfo, Deyvid, Humberto, Ruann, Silvana, Ketrim, Bruno (irmão e padrinho), Vagner, Leo, Paulo, Antonio, Alan, Aline, Henrique, Michelle, Newton, a ovelha primeira, Diva, e ao Diogo e ao Felipe... E ao Geraldo - por tanto, mas também pelas catacumbas.

Ao Calviin, que quase me matou de emoção; ao imprescindível Ciro e ao Felipe; ao Lula, Daniel, Rômulo, Lucas, Leonardo, ao lindo Tyago e aos doces Edilson e Lucas; ao irresistível Acir; ao Márcio, ao Dyego e à Gabriella; ao Uéles, ao Egidio, ao Lipe, ao Assis, com os quais tenho tanto a aprender; e ao Washington e ao José, ao Degles, ao Deyvson e ao Luiz, que mesmo longe nos iluminaram com sua presença e suas palavras. E ao Joceni e à Amanda, que sempre nos aquecem com sua amizade.

E ao João, meu irmão de alma.

A todos e cada um de vocês, meu amor, meu trabalho, minhas mãos e meu coração.

Nossas vozes, espalhadas pelo Brasil afora


Passado o "Tua Fé te Salvou": I Encontro Nacional de Católicos LGBT, enquanto vamos absorvendo o impacto de seus primeiros frutos - a formação da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT e a divulgação de seu manifesto - e nos preparamos para o trabalho que virá, aproveitamos para compartilhar aqui alguns depoimentos sobre o evento. Para quem quiser, fizemos também um álbum, com fotos e outros comentários, registrando um pouco da história dessa jornada (veja aqui).

"Acho que vou demorar em assentar o acontecido neste dia. Só que veio uma certeza nesta noite quando caminhava de volta pra casa: que eu acho que foi o Cristo Redentor que lhes ensinou a abrir os brazos e a abrazar ao mundo, como este é. Seguirei rezando por vocês assim como que tenho a certeza que vocês o fazem pelo mundo e por nós. Obrigado por me fazer parte de esta VIDA COMPARTILHADA."

- H. (MG/México)


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"Por mais que eu cate as palavras cá dentro, elas insistem em continuar sussurando um pouco mais no coração, sem me deixar dizer muita coisa, ainda fervilhando e sendo processadas nesse monte de emoções e felicidades que foi o “Tua fé te salvou”: I Encontro Nacional de Católicos LGBT, no dia de hoje. Tudo o que tenho a dizer por hora é "obrigado". Obrigado a todos os meninos do Diversidade Católica, pelo encontro que construímos, um dos frutos dessa trajetória bonita trilhada desde 2006. Obrigado a todos os membros dos grupos que participaram do encontro, que a partir de hoje compõem a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT. Obrigado por fazerem essa história de mudança acontecer. Obrigado por serem para mim - e permitirem que eu seja para vocês - a Igreja que queremos ver no mundo.

Deus abençoe e anime a nossa luta e caminhada. E parafraseando um amigo muito querido que esteve entre nós hoje: que não deixemos, jamais, que alguém tire de nós aquilo que temos de mais sagrado: o saber que somos sagrados. Amo vocês."

- Murilo (BA/MG/RJ)




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É com profunda alegria que penso nesse fim de semana tão marcante, cheio de histórias incríveis e pessoas inesquecíveis. A fundação da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT é para mim não apenas um passo ou uma conquista, mas a materialização da imensa alegria que advém do Evangelho.

Desde o Vaticano II nós cremos em uma Igreja – Povo de Deus que caminha com toda a humanidade rumo ao Reino, uma Igreja guiada pelo Espírito, que a impulsiona e renova constantemente sem nunca deixar se enclausurar. 50 anos e muitas incertezas depois, recebemos a graça da eleição do Papa Francisco, que foi para cada um de nós uma grande luz, aquecendo os corações frios e iluminando caminhos que já não acreditávamos que existiam.

Nós estamos deixando pra trás uma Igreja fechada, saudosista, obsessivamente moralista, envelhecida, triste, e monolítica e estamos vivendo uma nova Igreja: aberta, dialogante, jovem, vibrante, que se arrisca sem medo de acidentar-se, fundamentada na Boa Nova salvífica de Jesus, uma Igreja que sai às ruas, presidida na Caridade, atuante como hospital de campanha e que respeita os diversos. É a Igreja de Medelín e Aparecida, de Dom Paulo, Helder Câmara, Martini, Romero, Tereza, Dulce e tantos grandiosos santos e santas!

Por isso minha alegria com nossa Rede, porque as mudanças na Igreja não vêm exclusivamente de cima. Vêm do seu povo, da sua base, onde passeia o Espírito. Leigos, pobres, mulheres, gays, excluídos, a cada um de nós cabe à tarefa de renovar a Igreja partindo sempre do Evangelho!

Agradeço a Deus pela vida de cada um que esteve no Encontro, presente fisicamente, virtualmente ou em orações. Agradeço por todos que já caminharam conosco e pelos muitos que ainda chegarão!

Meu obrigado imenso (...) ao Bom Deus que permitiu isso tudo!

Amém! Aleluia!"

- Lucas (SP)


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Bom dia família! Gostaria de partilhar minha satisfação e alegria de estar com vocês neste maravilhoso evento. Confesso que mesmo participando no DC estava decidida a desistir de uma vivência mais engajada na igreja. Minha paróquia passa por uma grande crise e estou desgastada das picuinhas e bla bla blas paroquiais que não levam a nada. Ter estado com vocês me fez não sei se mudar de ideia, mas não desistir totalmente, aguardar o tempo certo para agir e não desistir de agir, porque a semente que eu plantar hoje futuramente será colhida - e é somente isso que importa, da mesma forma que hoje eu colho frutos plantados pelos pioneiros em nossa causa. Gratidão por existirem e fazerem parte de minha vida!! De fato, hoje vejo-me como Lázaro, saindo do sepulcro depois de tanto tempo morta, e certamente o DC tem uma enorme parcela nisso. Gratidão por TUDO!! Amo vocês!

Conhecer este grupo foi experimentar um abraço de Deus q sempre tive desejo imenso de experimentar e buscava há tempos... sou imensamente encorajada a continuar cada vez que lembro que o DC existe. Isso é muito bom pra mim pois me dá sopro de vida!!

- Aline (RJ)


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“Perguntaram o motivo de eu me envolver com um grupo católico para a inclusão LGBT na Igreja. Nunca tive que enfrentar problemas causados pela minha sexualidade na família, na escola/universidade, entre amigos, no trabalho...

Mas me engajo pelas meninas lésbicas que são estupradas DIARIAMENTE, pelos meninos e meninas que se suicidam por não serem aceitos, pelas vítimas físicas da intolerância, pelos adultos esquizofrênicos por não se aceitarem como são... 
Por eles e por causa deles estou no Diversidade Católica. O que é quase um masoquismo, já que acender luzes em uma instituição que ainda é medieval em vários setores é dar porrada em ponta de faca. Mas, talvez até por isso, estou lá. Adoro desafios.
Este documento é o primeiro fruto de um encontro nacional no último fim de semana. E este documento me ajuda a fazer um outing (pra mim mais difícil que o outro outing): sim, eu sou do Diversidade Católica.

Beijos."

- Sergio (RJ)


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A vida é engraçada, muito engraçada. Ela nos tira coisas e pessoas e, ela mesma, trata de colocar coisas e pessoas nas nossas vidas, não substituindo o que foi tirado, mas como que compensando a perda mostrando que muito de bom ainda não nos era conhecido. O encontro nacional de católicos LGBT que participei este fim de semana, no Rio de Janeiro, foi surpreendente. Fui para coletar dados e como forma de conhecer melhor outras realidades para minha pesquisa de mestrado, mas lá me deparei com uma infinidade de vidas diferentes e que se encontravam em um ponto: A fé e o amor pela igreja. Os momentos vividos nesse fim de semana marcaram e marcarão ainda, por um bom tempo, a vida de quem lá estava. Aos novos amigos deixo o meu carinho, abraço e a vontade de ajudar na busca de uma sociedade mais justa e igual. Aos novos amigos deixo a minha disponibilidade em propagar a luta de cada participante do encontro e o desejo de dias melhores e de uma igreja mais humanizada, aberta aos sinais do tempo. A tod@s fica a minha voz, aqui no RN, como a voz de todos que estão espalhados pelo Brasil todo, animando e encorajando uns aos outros. Beijo na alma de todos e #Avante!
 
- Assis (RN)


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"O dia de hoje foi de silêncio e ação de graças. Silencio para ainda deixar ecoar em mim os sentimentos de alegria, fraternidade e amorosidade, vividos ontem no 1º Encontro Nacional de Católicos LGBT. A ação de graças por poder amar a Deus nos meus irmãos no grupo católico Diversidade Católica e poder expandir este amor. Agradeço a todos que me acolheram no DC em especial Cristiana e Juliana, que foram as primeiras neste acolhimento, numa noite de vigília Pascal (Aleluia). Agora novos desafios, e conquistas estão por vir com a Rede Nacional, graças a Deus! Com fé, alegria e amor, vamos seguir. Deus é bom!

'... E há algo que tudo supera: a perfeição consiste no amor e no conhecimento de Deus, e a amizade está junto dela como uma espécie de escada — de modo que o homem, de amigo do homem, sobe um infinito degrau e se torna amigo de Deus, conforme diz o Salvador no Evangelho: Já não vos chamo servos, mas amigos' (Elredo de Rievaulx)."

- Rosilene (RJ)
 

 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Manifesto de Grupos Católicos LGBT do Brasil




Quem acompanha nosso blog ou nossa página no Facebook sabe que aconteceu neste dia 26, no Rio de Janeiro, o I Encontro Nacional de Católicos LGBT, reunindo, além do Diversidade Católica do Rio de Janeiro, que promovemos o evento, nossos grupos-irmãos que se reúnem nas cidades de São Paulo (Grupo de Ação Pastoral da Diversidade), Brasília, Recife/Olinda (Pastoral da Diversidade - Pernambuco), Belo Horizonte, Curitiba (Diversidade Católica do Paraná - DCPR) e Ribeirão Preto (Diversidade Católica de Ribeirão Preto (SP) e Região - DCRP), além dos núcleos em formação em Itajaí (SC), Anápolis (GO) e Passos (MG).

Os representantes desses grupos aproveitamos a oportunidade para trocar ideias a respeito das dificuldades com que nos deparamos e possibilidades de ação em nosso trabalho pelos LGBT em geral e, especialmente, na Igreja Católica Romana. Ao longo das próximas semanas, vamos compartilhar aqui algumas das reflexões nascidas desse diálogo. Porém, de imediato já nasceram dois frutos do nosso encontro: a articulação da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT, composta pelos grupos lá representados e aberta aos novos que virão; e a redação de nosso manifesto, em que apresentamos, em linhas gerais, os princípios que norteiam nossa ação e nossa contribuição para que a cidadania LGBT contagie a Igreja.

Convidamos tod@s a ler, refletir, compartilhar, divulgar e debater por aí.

E seguimos juntos em nossa caminhada, invocando a intercessão de Maria, o abraço protetor e amoroso do Pai, a companhia e amizade do Cristo e a luz inspiradora do Espírito Santo.

Equipe Diversidade Católica

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domingo, 27 de julho de 2014

O amor vencerá



Queridos amigos divers@s!

Aconteceu! Neste dia 26 de julho foi parido o nosso
I Encontro Nacional de Grupos Católicos LGBT. Um filho gerado há alguns meses e tão aguardado, nasceu e foi lindo. A ansiedade do preparo do enxoval foi a típica de quem espera alguém que não sabe como vai sair mas que já ama com todo o seu ser. Fruto do amor, esperado com todo o carinho do preparo, naqueles meses que antecediam sua chegada, e enfim... nasceu!!!

Um fato bastante emocionante durante este encontro, foi que em 8 anos da história de existência do grupo, pela primeira vez, tivemos entre nós a presença de uma pessoa representante dos "T".

M. é travesti, professora, psicóloga, feliz, filha de Deus e tão amada por Ele quanto qualquer outro ser humano, a obra mais perfeita da criação.

Foi emocionante ter a presença de M. em nosso meio porque naquele momento em que ela se pronunciava eu me lembrava do momento em que eu assumi pra mim mesmo que era gay e assumi que eu não poderia mudar isso em mim. Eu acreditava (mesmo antes de conhecer o DC) que se eu era assim então foi Deus que me criou assim, logo eu não poderia mudar em mim os planos de Deus. Me afastei da religião e não de Deus. Pois Deus não me condenava, mas eu acreditava que a religião sim. Fui me afastando dos meus trabalhos pastorais, pois mesmo tendo a certeza que ser gay não era uma escolha e sim a vocação para o qual fui chamado, eu me sentia um hipócrita por estar na igreja e não viver o que as pessoas naquela doutrina me diziam que era correto.

Eu me afastei da minha religião, por achar que ela me condenava. Mas mesmo assim este afastamento não foi total, vez ou outra lá estava eu sentado na missa, saboreando a palavra de Deus, o que não me deixava desanimar e enfraquecer totalmente ao ponto de me entregar. Pra mim era muito cômodo: Sou gay, mas ninguém sabe que sou gay. Se eu não contar ninguém vai me apontar o dedo, julgar ou me limitar nos espaços físicos da igreja.

E digo para vocês, mesmo assim era muito difícil viver assim. Mesmo assim era um processo desgastante estar ali, mesmo sem estar sob os olhares de acusação, mas o sentimento de culpa fazia com que eu achasse que todos estavam me olhando, julgando e condenando.

Agora vamos às analises dos fatos. Se eu, que passava despercebido sob os olhares acusadores dos homens da nossa sociedade que constituem nossa igreja, me sentia tão abandonado naquele meio. Imagina pros nossos irmãos e irmãs da classe T da sigla que nos define. Passava despercebido porque eu não assumi a minha homossexualidade em minha comunidade, então eu era apenas mais um na multidão. Mas Travestis, Transsexuais e Transgêneros, pela coragem que têm de assumir quem realmente são e adotar para si o estilo de vida que os fazem feliz, não conseguem passar despercebidos. Creio eu que um T quando passa por este conflito de poder ou não ser católico e ser quem realmente é, e opta por ser feliz vivendo da forma que foi criado para viver, ao se afastar da Igreja, ten seu afastamento total desta Comunidade. Para evitar sofrer com os olhares acusadores que os cercam. Eles não conseguem ser apenas mais um na multidão.

Receber M. em nosso I Encontro Nacional de Grupos Católicos LGBT foi um momento de muita alegria e ao mesmo tempo de reflexão sobre o tema "Avancemos para águas mais profundas". A própria M. em seu discurso nos relatava o que não seria novidade para nós, que muitas de suas amigas quando se descobrem e se aceitam deixam de ser católicas por não se sentirem acolhidas por Deus.

Deixam de ser católicas? M. tem grande dificuldade, no começo de sua fala, de se dizer católica. Por que?

M. e toda a comunidade de Travestis, Transsexuais e Transgêneros são criaturas de Deus, criada por Ele única e exclusivamente. Amados por Ele de forma incondicional. Batizados, são chamados e aceitos pela Igreja como filhos de Deus. Ora, não é o batismo um sacramento de caráter indelével na alma? Então nenhum batizado deixa de ser filho de Deus, nem por opção, nem por qualquer tipo de condenação.

Assim como M. tantos outr@s T, estão por aí se dizendo não mais católicos. Assim como ela tantos outr@s precisam ser lembrados do amor incondicional de Deus. Precisamos continuar buscando evangelizar nas periferias da nossa sociedade, onde pessoas estão se esquecendo que Deus é apenas Amor. Precisamos ir em busca dos que estão sendo convencidos, erradamente, de que Deus seleciona seus filhos amados. Precisamos ir em busca dos que ainda precisam saborear Deus, não apenas ouvir falar nEle. Precisamos arriscar viver por Amor.

 "O amor vencerá!"

Cabo Frio, 27 de janeiro de 2014, DG, 28 anos, membro do Diversidade Católica do Rio de Janeiro.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

I Encontro Nacional de Católicos LGBT: instruções de conexão para a transmissão online



Amig@s, nosso evento amanhã terá transmissão online, e estamos na torcida para a rede da Unirio ser boa o bastante para proporcionar uma transmissão de qualidade.

Porém, é importante lembrar que você que vai nos assistir online deve ter também uma boa conexão. Uma dica é evitar usar wi-fi; a conexão por meio de um cabo de rede ligado diretamente ao seu modem deve melhorar a qualidade da transmissão, se você sentir necessidade.

Vamos oferecer duas opções de transmissão: ustream e justin.tv. As duas oferecem chat para colocação de perguntas ou comentários, mas para usá-lo é preciso se cadastrar antes (o cadastro consiste em entrar pelo Facebook ou criar uma nova conta, ambas bem simples e rápidas).

Com relação ao chat, não podemos garantir que todas as intervenções de quem estiver online serão respondidas. Porém, se você tiver alguma dúvida, questionamento ou quiser compartilhar um depoimento, não deixe de nos mandar, pelo e-mail contato@diversidadecatolica.com.br.

Link para a transmissão no UStream: http://www.ustream.tv/channel/i-encontro-nacional-de-cat%C3%B3licos-lgbt

Link para transmissão no justin.tv: www.justin.tv/DCBrasil (computador e smartphones, mas chat só no computador)

Saiba mais sobre o evento aqui ou na página do Facebook, aqui.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

I Encontro Nacional de Católicos LGBT: veja como chegar!


Queridos amigos, nosso evento, "Tua Fé te Salvou": I Encontro Nacional de Católicos LGBT, vai acontecer neste sábado, dia 26/7, em um dos campi da Unirio, na Av. Pasteur, entre os bairros de Botafogo e Urca.

Atenção: tanto a Unirio quanto a UFRJ têm vários campi nessa região. O Auditório Paulo Freire do Centro de Ciências Humanas e Sociais/CCHS, onde estaremos, fica na Av. Pasteur, número 458 (foto do portão abaixo).

As melhores referências são o Shopping Rio Sul, que fica a cerca de 10-15 min. de caminhada do local, e o Pão de Açúcar, que fica a 5 min. de caminhada dali. Confiram as indicações abaixo para ninguém se perder!

Para quem for de carro, há estacionamento no local.  Para quem for de metrô e não quiser fazer a caminhada até a Unirio, dá pra fazer integração metrô-ônibus na estação Botafogo, pela linha 513, que faz integração com a Urca. Quem for de ônibus, pode usar o 107, que vem da Central do Brasil, no Centro, ou as linhas 511 e 512, que circulam pela Zona Sul. Todos esses ônibus passam na Av. Pasteur e param no ponto bem ao lado do portão.

Saiba mais sobre o evento aqui ou na página do Facebook, aqui

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terça-feira, 22 de julho de 2014

Repercussões do I Encontro Nacional de Católicos LGBT


Nosso próximo evento aberto, o “Tua fé te salvou”: I Encontro Nacional de Católicos LGBT, que acontecerá este sábado, 26/7, na Unirio, saiu no AudioLab, da UERJ. Ouça a matéria no player acima.

Saiba mais sobre o evento aqui ou na página do Facebook, aqui.

domingo, 20 de julho de 2014

Um mestre ouvinte e aprendiz


Ontem, Rubem Alves se foi. Que esse mestre cujas palavras doces e frescas tanta falta nos farão agora interceda por nós junto à luz do Pai Amoroso.

"Mestre, ensina-nos a orar", pediu uma velhinha.

"Quando orarem, vocês não serão como os vaidosos que gostam de orar em lugar visível para serem vistos pelos homens. Você, quando orarem, entrem nos seus quartos e, fechada a porta, orarão ao seu Pai, que ali está, invisível, mesmo que ninguém o veja. E não fiquem repetindo a mesma coisa, como se Deus fosse surdo. Deus sabe do que vocês necessitam, antes que vocês o digam. Vocês orarão assim:

Pai-Nosso… Mãe-Nossa…

Pai… Mãe… de olhos mansos, sei que estás invisível em todas as coisas.

Que o teu nome me seja doce, a alegria do meu mundo.

Traze-nos as coisas boas em que tens prazer:

Os jardins, as fontes, as crianças, o pão e o vinho, os gestos ternos, as mãos desarmadas, os corpos abraçados…

Sei que desejas dar-me o meu desejo mais fundo, desejo cujo nome esqueci… mas tu não esqueces nunca.

Realiza pois o teu desejo para que eu possa rir.

Que o teu desejo se realize em nosso mundo, da mesma forma como ele pulsa em ti.

Concede-nos contentamento nas alegrias de hoje: o pão, a água, o sono…

Que nossos olhos sejam tão mansos para com os outros como os teus o são para conosco.

Porque, se formos ferozes, não poderemos acolher a tua bondade.

E ajuda-nos para que não sejamos enganados pelos desejos maus.

E livra-nos daquele que carrega a morte dentro dos próprios olhos.

Amém.

(Rubem Alves)

Referência-homenagem via nossos irmãos do Episcopaz (aqui)

Some gays are christians. Get over it! ;-)



E, num desses papos deliciosos que nascem nos comentários na internet, nosso querido Murilo comentou a postagem do Markos sobre como LGBTs não-religiosos às vezes tratam a religiosidade de outros gays, que reproduzimos aqui. E, claro, não podemos deixar de publicar as palavras do Murilo aqui também:

Nos últimos tempos, tenho tido recorrentes sofrimentos e embates relacionados a esse tipo de coisa. Outro dia vieram me dizer, com essas exatas palavras, que eu era tipo "judeu nazista". Às vezes são pessoas que conhecem todas as minhas posições e toda a minha visão aberta (e toda a minha atuação política) envolvendo sexualidades, identidade de gênero, direitos sexuais, direitos reprodutivos, feminismo e tudo mais... Pessoas que, apesar de tudo isso, no imediato momento em que digo que sou católico, deixam de considerar todas estas questões pra me tomar ou como um hipócrita, ou como um traidor, um inimigo. Como eu digo volta e meia: é todo mundo queer, mas quando envolve o sagrado, a política identitária ferve. Ou você é isso, ou é aquilo. Ou você tá com a gente, ou você tá com eles.

Aí vem a hora em que essas pessoas vomitam em cima da gente todo o histórico de barbáries que a Igreja cometeu, e reiteram fervorosamente o quanto a Igreja é violenta, homofóbica, transfóbica, misógina, ignorando que eu, que estou dentro dela, sei mais do que ninguém a respeito dessas violências. Porque eu as sofro cotidianamente. Os enfrentamentos são constantes, pra mim. Não preciso que ninguém me fale disso de novo. A questão toda é que a vivência religiosa mecânica e pouco profunda vivida pela maior parte das pessoas (um pouco associada à cultura de proliferação evangélica que temos no Brasil) faz com que muita gente pense que, se eu discordo dos princípios de uma religião, tenho que sair dela e criar a minha. Ou virar agnóstico, "porque tudo bem você ter uma fé, mas você não precisa ter religião". As pessoas tomam as religiões (especialmente as maiores, mais institucionais) como organismos perfeitamente homogêneos, difundem e reiteram o pensamento de que se eu estou numa religião, concordo com tudo o que ela pensa, endosso todas os seus discursos e práticas e não estou aberto para criticá-la. E pior: pensam que eu estou nela JUSTAMENTE por endossar esses discursos e práticas. Dica: Felicianos, Sheherazades e Malafaias pensam e dizem a mesma coisa. Eu, pelo menos, escolho bem de quem discordar.

As pessoas ignoram a rede de vivências que a gente encarna cotidianamente, na nossa paróquia, na nossa comunidade, onde se constituem laços e onde se constrói uma vivência coletiva da fé que é o que realmente importa para a maioria de nós. Nesse contexto, se constroem outras vivências, outros pensamentos, outros afetos, de modo que o discurso ou a doutrina da instituição às vezes são as coisas que importam menos. Falando do meu caso, em particular: eu provavelmente seria um coxinha conservador e teria muitas crises com relação à minha sexualidade se não tivesse vivenciado o que vivenciei na minha pastoral. Vivi em contextos absurdamente reacionários toda a vida (na família, na escola, etc.), sendo que o único oásis de liberdade que eu tive nesse contexto todo foi a Igreja, onde eu conseguia pensar politicamente e coletivamente questões muito novas, inclusive relacionadas à sexualidade. A primeira vez em que eu ouvi falar sobre legislação sobre casamento gay ou sobre adoção por casais do mesmo sexo, foi numa palestra com a assessora jurídica de uma ONG LGBT, durante um curso de Teologia organizado por um movimento católico de esquerda da minha diocese. A primeira vez que eu parei para pensar na minha sexualidade com calma, foi depois de uma conversa com um padre, que veio me dizer que achava que eu era muito livre, mas que precisava encarar os meus medos. E acreditem, essa minha vivência não é tão incomum quanto parece. Ela só é invisibilizada, como qualquer dissidência.

Sair da Igreja, nesses casos, é um caminho que é ambíguo, porque é fácil politicamente, mas é difícil subjetivamente. Difícil porque é uma castração enorme pedir que deixemos essa vivência que organiza a nossa experiência de fé e de tantas outras dimensões da vida. Fácil porque é, de fato, bem mais simples deixar as instituições que não contemplam a nossa experiência, em vez de travar a luta por dentro, né? A questão é que esse não é um caminho eficaz. Se a gente começa a simplesmente abandonar as instituições homofóbicas, ou a condenar todas as vozes dissidentes que existem nelas (e isso vale não só para as igrejas, mas para a academia, para a política, para as mídias), a gente ajuda a fomentar o silenciamento que a própria Igreja está a costumada a provocar, e acaba fazendo exatamente o contrário do que se pretende: a gente contribui para que as igrejas continuem sendo vozes de ódio e fundamentalismo, e vozes cada vez mais fortes. Movimentos como o Diversidade Católica e as igrejas inclusivas, com todas as questões controversas que os envolvem (como em qualquer movimento político), ainda têm o mérito de lutar para que o cristianismo seja uma voz de ódio a menos no mundo, e eu ainda fico sem saber como militantes de toda ordem, do alto de suas consciências críticas, ainda conseguem deslegitimar esses movimentos e negar a importância de suas lutas, taxando-os de inimigos, porque estão "do lado" do opressor. Entendo perfeitamente a reação das pessoas contra a Igreja, até porque, quase sempre, eu compartilho dessa reação, e vivencio o mesmo enfrentamento. O que eu não entendo é que as pessoas neguem o direito à liberdade religiosa, encarnando, por vezes, os mesmos discursos fundamentalistas que dizem combater.

Com relação às religiões de matriz africana, sem dúvida que elas são um espaço beeeeeeem mais aberto que as religiões cristãs para muitas questões (acho que a gente tem muito pra aprender), inclusive para a questão da sexualidade. Mas é uma religião que também tem alguns problemas sérios nesse ponto, que por vezes passam despercebidos na atuação do movimento LGBT, especialmente porque o movimento das religiões afro-brasileiras é um grande parceiro nosso na pauta da laicidade, e a gente nem sempre está disposto a fazer críticas a quem está do nosso lado.

Quero deixar claro que não tô querendo inverter o discurso nem justificar a postura das igrejas cristãs, com o argumento fajuto de que "todo mundo faz". Só que me preocupa essa imagem difundida, de uma abertura muito grande das religiões de matriz africana, que às vezes invisibiliza algumas violências e contribui para que certas opressões sigam silenciosamente. São muito recorrentes, por exemplo, casos de lesbofobia contra as filhas de terreiro, de objetificação de seus corpos negros, por vezes havendo deslegitimação de suas sexualidades numa violência de que nunca se fala. Mesmo a própria aceitação da homossexualidade, por vezes está perpassada pela compreensão de que muitos homens podem ter "alma feminina" por terem orixás femininas como guia - o que envolve, na base, uma confusão entre identidade de gênero e orientação sexual. Quer dizer... a religião não escapa de algumas questões, e ainda que sejam visivelmente mais abertas, também demandam novas reflexões e políticas sobre gênero e sexualidade. E assim funciona com diversas outras religiões e doutrinas, e a gente poderia gastar mais trinta comentários aqui enumerando isso.

Quando eu pontuo essas questões, reitero, não estou querendo inverter o discurso. O centro do que eu quero levantar não é exatamente a realidade dessa ou daquela religião, mas o fato de ficarmos nessa constante e infrutífera avaliação da legitimidade da pertença das pessoas, especialmente quando são pessoas ligadas à militância. Por vezes, isso ainda é feito sem sequer parar para escutar como cada um negocia e organiza a própria pertença ou a relação com valores institucionais hegemônicos. A gente se desvia do que é importante, e acaba incorrendo nessa hierarquização: "se for sem religião, é melhor; em tal religião pode; em tal religião até pode; mas nessa outra já é vandalismo". E fica parecendo que a nossa militância é feita ATRAVÉS da doutrina religiosa, e não APESAR dela, quando o que ocorre, na maioria das vezes, é justamente o inverso, porque entre a doutrina e o cotidiano há um abismo - não só para LGBTs, mas para religiosos de modo geral. O uso da camisinha por 99% dos católicos está aí pra não me deixar mentir. As pessoas vivem me tomando como um cúmplice do opressor, citando Beauvoir, sendo que às vezes eu me vejo mais como um agente infiltrado, hahaha. Não sei se me fiz entender ou se viajei no pensamento, mas acho que, de maneira geral, a gente precisa de um pouco mais de sororidade, pra começar a se reconhecer como parceiros de luta, sem se importar com o modo como cada um organiza sua fé ou sua religiosidade.

sábado, 19 de julho de 2014

Católicos LGBT: Por Um Novo Tempo


Sobre o I Encontro Nacional de Católicos LGBT, clique aqui


A Igreja Católica vive uma fase de renovação com o papa Francisco, que vai às raízes do evangelho e se conecta com a sociedade atual. Com um estilo despojado, o papa faz um apelo para que se vá às “periferias existenciais”, ao encontro dos que sofrem com as injustiças e os diversos tipos de conflitos. Ele critica a Igreja ensimesmada, entrincheirada em estruturas caducas incapazes de acolhimento, e fechada aos novos caminhos que Deus apresenta. A novidade que Deus traz à nossa vida, diz ele, é verdadeiramente o que nos realiza e nos dá a verdadeira alegria e serenidade, porque Deus nos ama e quer apenas o nosso bem.

O anúncio do amor de Deus que nos salva deve preceder a obrigação moral e religiosa. Hoje, alerta o papa, muitas vezes prevalece o inverso. Este anúncio deve concentrar-se no essencial, procurando curar todo tipo de ferida e fazer arder o coração, como o dos discípulos de Emaús. A Igreja deve ser sempre a casa aberta do Pai, onde há lugar para todos os que enfrentam fadigas em suas vidas, e não uma alfândega dos sacramentos. O confessionário não deve ser uma sala de tortura, mas um lugar de misericórdia, no qual o Senhor nos estimula a fazer o melhor que pudermos. E a Eucaristia não é o prêmio dos perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os que necessitam. Sobre os gays, Francisco fez a célebre interrogação: “se uma pessoa é gay, busca a Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?”.

A Igreja se prepara para um sínodo mundial sobre a família, interrogando-se sobre a atenção pastoral aos que vivem em uniões do mesmo sexo. E, caso adotem crianças, como lhes transmitir a fé. Diante das mudanças culturais, das conquistas da cidadania LGBT na sociedade e de sinais de abertura na hierarquia da Igreja, é hora de nós, cristãos católicos LGBT, exercermos nosso protagonismo.

Vários de nós participamos ativamente de nossas comunidades, mas muitas vezes não podemos manifestar nossa orientação sexual por causa do preconceito e da aversão. Não poucos de nós acabaram e acabam por se afastar da Igreja por nos depararmos com essa situação. Constata-se até mesmo um assédio espiritual a que somos submetidos, sendo tratados como endemoninhados a serem exorcizados ou submetidos a orações de “cura e libertação” para mudarmos quem somos. É necessário que nos protejamos e nos afastemos dos ambientes onde isso acontece, indo ao encontro de fiéis e ministros religiosos sensíveis às nossas feridas e dificuldades, bem como aos nossos talentos e potencialidades.

O processo de inclusão e conquista da cidadania na Igreja em favor dos LGBT é sabotado quando se afirma que nela só há lugar para o gay celibatário. Esta é uma leitura rasa da doutrina, que leva a uma simplificação perversa sob a forma de dilemas do tipo “tudo ou nada” e “ame-a ou deixe-a”. Infelizmente, essa simplificação cruel tem unido religiosos ultraconservadores, de um lado; e críticos antirreligiosos implacáveis, de outro lado. Ambos alimentam um radicalismo estéril.

As mudanças almejadas não dependem só da hierarquia, ainda que haja sinais favoráveis. Elas dependem muito dos fiéis leigos, interagindo com suas comunidades e com a sociedade. A Igreja, em grande parte, são os fiéis que a fazem nas comunidades locais e nas práticas cotidianas. É hora de a cidadania LGBT contagiar a Igreja.

Aproveitamos para reforçar o convite para que todos compareçam no próximo sábado, dia 26/7, ao "Tua fé te salvou": I Encontro Nacional de Católicos LGBT, a se realizar aqui no Rio de Janeiro com a presença de representantes de nossos grupos-irmãos de São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Recife/Olinda, Curitiba e Ribeirão Preto. Para os que não puderem participar presencialmente, haverá transmissão online - vamos divulgar as instruções para conexão ao longo da semana, fiquem ligados. Para saber mais sobre o evento, clique aqui. Até lá!

Equipe Diversidade Católica

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A terceira margem do rio

 

Nosso amigo Markos Oliveira postou ontem em seu perfil no Facebook a reflexão abaixo, que nos pareceu fundamental e reproduzimos aqui. De fato, é doloroso constatar como a violência tende a ensinar violência. Vemos pessoas que pertencem a uma ou mais minorias e são atingidas por exclusões e dilaceramentos de toda ordem muitas vezes permanecerem presas no ciclo da violência e, sem se darem conta, acabarem por reproduzi-la. Porque, diante de tensões e contradições, a lógica da violência e da exclusão e a impossibilidade da conciliação é tudo o que a gente aprendeu, e o lugar de vítimas imoladas onde fomos colocados é tudo o que a gente conhece.

Ainda bem que existem pessoas como o Markos, que de alguma maneira encontraram o caminho para transcender essas oposições. Acharam o caminho do meio, chegaram à terceira margem do rio - e, de lá, acendem fogueiras e acenam com lanternas, tentando mostrar o caminho para os que estão em busca.

Segue o comentário dele:


Infelizmente não é raro eu ver quem diz defender o respeito e a diversidade com um discurso de meio que querer obrigar que LGBTs abandonem sua religiosidade, principalmente se for o cristianismo. Se não obrigar, tratar tais pessoas de forma inferior ou pejorativa o que, pra mim, é uma atitude tão controladora da vida alheia quanto a atitude de fundamentalistas religiosos.

Dizem que tais LGBTs são idiotas, burros, gostam de sofrer por quererem ficar numa religião que os condena e os discrimina, mas é preciso compreender que o direito à liberdade de crença - e de não crença - e para todos e todas, inclusive para LGBTs.

Hoje sou ateu, mas tive criação evangélica. Minha família é admiradora de Malafaias e Felicianos e não foi fácil eu impor a minha vontade para a minha vida.

Eu preferi seguir outros caminhos, mas admiro e muito os LGBTs que permanecem com sua religiosidade e tentam mudar, de dentro, tais fundamentos e instituições, para que um dia sejam respeitosas com a diversidade.

Acredito que o trabalho de grupos como a Diversidade Católica e igrejas evangélicas inclusivas são fundamentais porque as instituições religiosas fazem parte e influenciam nossa sociedade e para que um dia possamos ter uma sociedade que não discrimine LGBTs, é fundamental que se faça um trabalho de educação e inclusão dentro destas instituições, pois os que as frequentam tais instituições não deixam lá dentro seus preconceitos aprendidos dentro delas, eles trazem para a sociedade.
Seguimos juntos, Markinhos... ;-)

terça-feira, 15 de julho de 2014

“Os que dizem que o homossexual é doente são os que estão doentes”



Raúl Vera, (Acámbaro, Guanajuato, 1945) é o bispo mais ameaçado do México. Um prelado que saiu vivo de mais de um atentado, e cujo trabalho em favor dos desaparecidos, migrantes, menores, indígenas, prostitutas e párias de todos os tipos lhe granjeou ódios ferozes, incluindo a letal inimizade do narcotráfico. Mas as ameaças não parecem lhe afetar. Engenheiro de carreira e filho intelectual de Maio de 68, forjou uma lenda de indomável.

Seu primeiro desafio veio em 1995 quando João Paulo II lhe enviou como coadjutor para Chiapas, em plena efervescência zapatista. Tinha como missão colocar em ordem a diocese de San Cristóbal de las Casas, dirigida pelo carismático Samuel Ruiz, um seguidor das teses indigenistas e da teologia da libertação. Logo depois de chegar, aquele comissário político que todos consideravam conservador e cujo destino era levar a mitra para Ruiz, acabou apoiando o clero local. Roma não esqueceu. Quatro anos depois foi enviado, como castigo, para o árido bispado de Saltillo, em Coahuila, no norte do país. De pouco adiantou. Dali voltou para as trincheiras. Fez frente aos desmandos do Governo e também ao terror dos Los Zetas.

Seu discurso, de forte conteúdo social, irredutível na luta contra a desigualdade e furioso contra o “capitalismo liberal”, o deixa longe do aristocrático e ortodoxo episcopado mexicano. Uma distância que engrandeceu ainda mais sua atitude para com as mulheres partidárias do aborto e sua defesa dos direitos dos homossexuais. Durante muito tempo, Raúl Vera foi a ovelha negra, o desobediente, o antiquado esquerdista, até que o terremoto ideológico provocado pela chegada do Papa Francisco à cátedra de São Pedro deu nova força para sua voz. Agora, os outros bispos param para escutá-lo.

Pergunta. O que aconselharia que o Papa visitasse quando vier ao México?

Resposta. Para começar, que conhecesse a rota dos migrantes. Também o faria visitar uma prisão, porque ele gosta de ir a prisões; o levaria à periferia de uma cidade grande, porque ele diz que temos que visitar as periferias. Organizaria uma visita de acordo com o que ele nos pede que façamos. E faria com que as pessoas da primeira fila fossem os indígenas, fossem os pobres.... Isso é algo que não se costuma fazer, colocar os pobres na frente.

P. Há pouco tempo, o senhor batizou a filha de um casal lésbico. O que pensa da homossexualidade?

R. A homossexualidade, ai... É um tema que temos negado. Os que dizem que o homossexual é doente são os que estão doentes. Tenho um amigo que foi sacerdote e que é homossexual. Ele diz que não reconhecer os homossexuais é como julgar pelas regras do rúgbi os que jogam futebol, e aí dizer a eles que além de tudo estão violando as regras. A Igreja precisa aproximar-se deles não com condenação, mas com diálogo. Não podemos anular toda a riqueza de uma pessoa somente por sua preferência sexual. Isso é doentio, é não ter coração, é não ter senso comum.

P. E com o aborto não acontece a mesma coisa?

R. Sobre o aborto penso como pensa a igreja, que é um assassinato. As diferenças estão em como tratar, como penalizar. O aborto, como o matrimônio entre os homossexuais, nos serviu de subterfúgio para dizer que temos moral na Igreja. Mas não somos capazes de defender os direitos dos trabalhadores. É muito fácil ir contra uma mulher defensora do aborto, não causa problemas e ainda por cima somos apoiados pela ultradireita conservadora. Veja, aqui houve uma campanha nacional contra o aborto, a favor da vida. E o que eu fiz? Organizei rosários com toda a população para meditar sobre a defesa da vida dos migrantes, a defesa da vida dos mineiros, a defesa da vida das mulheres e da defesa da vida do não nascido. Mas somos uns hipócritas... Parece que as únicas regras morais são condenar os matrimônios homossexuais, condenar as defensoras do aborto. E com isso, já somos perfeitos cristãos.

(...)

O bispo Vera fala suavemente. Aos 69 anos, está tranquilo. Acabada a entrevista, se dirige ao seu escritório, repleto de livros, para mudar de vestimenta.

Ao lado está seu quarto. Não lhe importa que olhem dentro. Com seu computador e a mesa desorganizada parece o quarto de um universitário, exceto pela cama, pequena, velha e sem colchão, de frade dominicano.

Leia a entrevista na íntegra aqui.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

7 anos de Diversidade Católica


Queridos,

Hoje, 14 de julho, em meio aos preparativos para nosso I Encontro Nacional de Grupos Católicos LGBT (saiba mais aqui), o Diversidade Católica completa 7 anos. Foi neste dia que o nosso site entrou na internet.

Coincidentemente (ou providencialmente), 14 de julho é o dia da Revolução Francesa, que clamou por liberdade, igualdade e fraternidade, dando passos decisivos na construção da cidadania moderna. Nós hoje atuamos em favor da cidadania LGBT na Igreja e na sociedade. Outra coincidência é o dia de São Camilo, fundador de uma ordem religiosa de ministros dos enfermos. E nós trabalhamos pela cura das feridas homofóbicas, que são espirituais, emocionais e mesmo físicas, e podem ser de extrema gravidade.

Neste dia, agradecemos a Deus por todos os nossos membros e leitores, pelos nossos grupos-irmãos de outras cidades do Brasil e do mundo, por todos os que carregam ou simpatizam com nossa bandeira, e por todas as vidas transformadas para as quais nós, de algum modo, pudemos contribuir.

Deus seja louvado.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Afinal, o que há dentro do armário?



Do nosso amigo Murilo Araújo

"Assisti esse vídeo inteiro chorando, sentindo muito a tristeza de ver, mais uma vez, que tantas pessoas ainda precisam esconder quem elas são. Fico revisitando um pouco a minha própria trajetória: comecei a pensar na minha sexualidade no dia em que um amigo, muito querido, me perguntou quais eram os meus medos (e eu não tenho certeza se ele sabia do que estava falando). Pensando muito, me dei conta de que os meus medos eram a minha família, os meus amigos, minha Igreja... um pouco do que essas pessoas dividem nesses depoimentos. E isso carrega um sofrimento muito grande, porque esses são exatamente os lugares de onde a gente mais espera amor, acolhida e segurança. Quando a nossa sexualidade surge como um elemento pra gente, a sensação é de estar sozinho, sem chão, e isso dói. Quando alguém diz que nem todo mundo precisa sair do armário, é porque nunca esteve dentro de um, não sabe a violência que ele representa.

No final, a gente fica com vontade de abraçar cada um desses meninos (principalmente o Luiz), pra dizer 'calma, vai ficar tudo bem, a gente tá aqui', e fazer alguma coisa pra isso tudo acabar. Tem que acabar. Pouco adianta eu estar bem aqui hoje, sem o meu armário, se tanta gente aí pelo mundo ainda tem que enfrentar isso."

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Drag Queen de Seatle enfrenta protestos anti-gay que tentavam atrapalhar o início da Parada do Orgulho Gay





Por Jonathan Higbee, 01 de julho de 2014

Antes de me mudar para Seattle há um ano, fui conhecer um “brunch” dominical animado por uma drag no fim de semana em que eu e meu companheiro estávamos na cidade procurando um lugar para morar. Mama Tits, uma estrela-ícone de Seattle como eu viria a saber depois, era a âncora do brunch no Unicorn e uma das principais influências que tive com relação à decisão de ir morar lá; é durona como um prego mas também uma bicha histérica, que adora beber e tem um coração de ouro. Quando a vi na Parada que rolou no fim de semana depois de meses, sua efervescência e cuidado em relação à comunidade LGBT estavam plenamente à vista. Não imaginava que sem seu tenso enfrentamento aos que faziam protestos contra os gays e tentavam atrapalhar a Parada, ocorrido um pouco antes naquele mesmo dia, o evento teria atrasado muito e tumultuaria a programação.

Mama Tits descreveu com detalhes a situação para o site Seattle Gay Scene:

“Eu os vi subindo a rua antes da Parada e olhei para a Sylvia e a DonnaTella e disse, ‘Queridas, vamos fazer uma muralha!’ Antes que eu me desse conta, lá estava eu enfiando minhas tetas no nariz do líder deles que falava no megafone. Eu tinha a sensação de ter a força de todas as pessoas que já foram feridas por estes caras, uma energia que me apoiava e me fortalecia! Eu já estava quase entrando no piloto automático dos tempos em que eu era uma Sister of Perpetual Indulgence ["Irmã da Indulgência Perpétua" – referência a um grupo de "freiras" queer de São Francisco]. Me plantei no caminho dele e dali não me mexia. Quando ele passava por mim, eu voltava a ficar na frente dele diversas vezes. Encarava-o olhando no fundo dos seus olhos e dava pra perceber que havia dor no seu olhar, notava-se que estava assustado e não era pra menos. Ele tentou me bater com seu cartaz, mas como diz a Bianca Del Rio, 'Hoje não, Satanás!'

"Empurrei o cartaz para afastá-lo do meu rosto e do meu cabelo, porque, por favor, NÃO ENCOSTE no meu cabelo. E, era tudo o que podia fazer para NÃO ficar violenta e não fiz porque uma vez que isso acontece, todo mundo sai perdendo. Tentaram me cercar como uma tática de intimidação, mas convenhamos, eu sou IMENSA e aquilo não funcionou de jeito nenhum! A polícia veio até mim e pediu que os deixasse passar e ainda me disseram para não aborrecê-los e ainda me disseram que não deixasse que eles me irritassem. Disse aos guardas que não estava irritada, mas que IRIA me defender se fosse atacada e eles tinham que tirar aqueles caras da Parada. Então eu caminhei e peguei meu microfone e comecei a chamar a atenção das pessoas ao redor. Queria que fizessem uma grande e alegre algazarra para abafar o ódio… e, cara, foi o que fizeram! A multidão fez as paredes tremerem na esquina das ruas 4 e Pine!

"Um pouco depois de eu ouvi-lo citar o Levítico, eu declamei de volta todas as outras partes que ele estava deixando de lado para mostrar o quanto ele era hipócrita. É sempre interessante como esses malucos religiosos deturpam TUDO o que está na Bíblia e a distorcem à vontade para disseminar ÓDIO, quando tudo o que estão fazendo é na verdade demonstrar sua ignorância. Gritei, ‘Você NÃO TEM PODER aqui, suma antes que alguém atire uma casa sobre VOCÊ!’ Depois dele sairem acompanhados do itinerário da parada, percebi o quanto aquilo tinha me afetado. Estava tremendo e à beira de lágrimas, porque quando as pessoas cegamente odeiam e pregam esse ódio em público como fazem esses caras, eles não têm a menor consideração pela vida das pessoas que eles estão atingindo. "Há pessoas que tiram a própria vida por causa deste tip de ÓDIO, há pessoas que são ASSASSINADAS por causa deste tipo de ÓDIO. E eu só quero dar um basta a isso! Se esses instigadores do ÓDIO abaixassem seus cartazes e abrissem suas mentes e se ARREPENDESSEM de seus julgamentos, talvez então pudessem encontrar alegria e felicidade tornando-se parte da festa, ao invés de ser parte do Inferno.”

Fonte

Tradução: Lula Ramires

terça-feira, 8 de julho de 2014

Garotos e garotas lindas que só precisam ser amados...


O autor deste emocionante depoimento (e, caso queira ler mais depoimentos, há uma série deles na tag "gay e cristão", aqui) nos enviou, para compartilharmos com vocês, esta carta que lhe foi enviada por sua mãe. Que suas palavras possam inspirar outras famílias, e que possam alimentar nossas esperanças na caminhada.

Hoje, 25 de junho de 2014, às 15:00h, hora da misericórdia, tive uma conversa muito sincera, tranquila e especial com o meu filho mais velho. Os amores da minha vida, na verdade, são dois: ele e seu irmão, as pérolas que Jesus me concedeu...

Mas, nessas linhas, quero me expressar sobre a conversa que tive com o meu filho mais velho, de 23 anos. Entre sorrisos e lágrimas, ouvi o que há muito tempo esperava ouvir de sua boca. E com muito amor, carinho e compreensão, graças a Deus, pude acolher o que o meu filho tinha para me falar. Claro que o ajudei, pois para ele foi muito mais difícil, mas com toda delicadeza e cuidado, como sempre, ele me disse: “mainha, eu sou gay”.

Hum... Olhei para aqueles olhinhos cheios de lágrimas e disse: “filho, mainha já sabe”, dei um forte abraço no meu João e disse-lhe: “você é o meu filho amado, aquele que Jesus com sua infinita misericórdia me deu. E eu sou a mãe mais feliz do mundo por ter você como filho. Filho que nunca me deu trabalho, e sim muitas alegrias”. Enxuguei seus olhinhos com cheirinhos e o lembrei do quanto ele me fazia bem. Fiz questão de repetir o que sempre disse a ele: “Você é uma pessoa incrível, de caráter muito íntegro, e de um coração tão grande que não sei como cabe em você”

Filho, você me mostrou com sua vida e dignidade o respeito para com os outros, o amor e, principalmente, o objetivo de ser um homem de Deus, tornando o caminho de quem passa por você mais florido e esperançoso.

Quero te agradecer, meu amor, por todos os momentos em que você foi tão generoso comigo, você é um filho que toda mãe gostaria de ter, mas quem tem sou eu...

Queria muito que todas as mães de filhos gays pudessem te conhecer e conversar um pouquinho com você.

Quem sabe as que ainda não conseguem abraçar os seus filhos, fossem abraçadas por ele e, daí, começassem a amar os seus filhos como eles são: garotos e garotas lindas que só precisam ser amados. Quero te deixar aqui, nessas linhas, uma palavra de sua mainha: enquanto vida eu tiver e por onde quer que eu vá, sempre defenderei essa causa com toda a força do meu coração!

Te amo, te amo, te amo...

Sua mainha

P.S: Cheirinhos nos olhos, meu menino mais lindo do mundo!

segunda-feira, 7 de julho de 2014

“Tua fé te salvou”: I Encontro Nacional de Católicos LGBT


Queridos amigos,

é com grande alegria que convidamos a todos para nosso próximo evento aberto, o I Encontro Nacional de Católicos LGBT, a se realizar no sábado, dia 26 de julho, de 13h30 às 17h, na UNIRIO (Auditório Paulo Freire do Centro de Ciências Humanas e Sociais/CCHS: Av. Pasteur, 458, em Botafogo/Urca, próximo ao shopping Rio Sul).(Veja como chegar: aqui)

Estaremos com nossos grupos irmãos de São Paulo, Brasília, Recife/Olinda, Belo Horizonte, Curitiba e Ribeirão Preto (SP), em uma tarde de encontro, partilha e troca de experiências dos católicos LGBTs brasileiros: quem são, como vivem sua identidade religiosa, como sentem a comunidade da qual fazem parte e como se dá sua atuação através dos vários grupos leigos organizados.

Vamos aproveitar para celebrar um ano do evento que realizamos durante a JMJ 2013, "O Jovem Homossexual na Igreja: I Encontro de Relatos e Experiências" (saiba mais aqui) e fazer um balanço de nossa caminhada com a Igreja.

A entrada é franca, sujeita apenas à lotação do espaço, e você será muito bem-vindo. Compareça! Será um prazer passar esse dia com você.

Confirme sua presença na página do evento no Facebook (aqui) e fique ligado nas novidades!

 Clique na imagem para ampliar

Programação:

13h30: Chegada e acolhida
13h45: Abertura
13h50: Abertura e apresentação: homoafetividade e fé cristã
14h10: Apresentação e breve história de cada grupo
15h10: Intervalo
15h20: Microfone aberto para depoimentos, dúvidas, partilha e discussão.
16h30: Encerramento
16h40: Lanche e confraternização


Sobre o Diversidade Católica e outros grupos de Católicos LGBT organizados no Brasil:

Somos um movimento de gays católicos praticantes que buscam conciliar as duas identidades: homossexual e religiosa. Procuramos, dentro do diálogo franco, caminhar junto à Igreja Católica, respeitando e reconhecendo sua liderança no papa Francisco, refazendo a ponte entre a comunidade homossexual e a Igreja, tendo como diretriz a certeza de que a mensagem do Evangelho é para todos e que não pode haver exclusão de qualquer forma dentro da expressão de fé.

O Diversidade Católica do Rio de Janeiro, que conta atualmente com mais de 200 membros, foi criado em 2007. De lá para cá, surgiram grupos-irmãos em São Paulo (Grupo de Ação Pastoral da Diversidade), Brasília, Recife/Olinda (Pastoral da Diversidade - Pernambuco), Belo Horizonte, Curitiba (Diversidade Católica do Paraná - DCPR) e Ribeirão Preto (Diversidade Católica de Ribeirão Preto (SP) e Região - DCRP), além de outros em formação. 

O batismo imprimiu em nós a marca indelével do pertencimento à Igreja de Cristo; por isso, almejamos a acolhida e reintegração de católicos LGBT que, por qualquer motivo, se sentiram excluídos da Igreja mas sentem o desejo de retornar à comunidade.

Os grupos mantêm encontros presenciais regulares e atuam também virtualmente. O Diversidade Católica do Rio de Janeiro, que realiza este primeiro encontro, está presente na internet através do blog [www.diversidadecatolica.blogspot.com.br], do site [www.diversidadecatolica.com.br] e do Facebook [www.facebook.com/diversidadecatolica].

Valores que norteiam nossa atuação:
1. Dignidade. Todas as identidades e orientações sexuais gozam de igual dignidade.
2. Perseverança. Somos cientes das provações do caminho e nos mantemos fiéis à missão.
3. Fraternidade. Somos uma comunidade cujos membros se ajudam mutuamente.
4. Tolerância. Estamos abertos ao diálogo com outros pontos de vista.
5. Fidelidade. Somos membros inalienáveis da Igreja Católica Apostólica Romana.
6. Caridade. Ajudamos o desenvolvimento pessoal dos nossos membros e da comunidade externa.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A Igreja Católica ante a homossexualidade: contextualizações e indicações pastorais (parte 4 de 4)


Como divulgamos aqui, a Revista Vida Pastoral está lançando em julho-agosto um número temático sobre homoafetividade e fé cristã. Reproduzimos esta semana os artigos dessa edição relacionados ao tema de capa; começamos por este do Pe. Luís Correa Lima, SJ, em duas partes (primeira e segunda), e continuamos agora com o artigo de Edênio Valle, em quatro partes (a primeira está aqui,  a segunda, aqui e a terceira, aqui). Para quem quiser acesso à edição virtual da revista na íntegra, é só clicar aqui. Segue a terceira parte do artigo:

6. O aporte das ciências psicológicas e antropológicas

6.1. Ante um quadro assim complexo, é necessário ter consciência de que a questão não pode ser abordada de maneira unilateral. Seria, por exemplo, demasiado simplista enquadrar as tendências sexuais humanas em dois grupos polarizados: o dos homossexuais e o dos heterossexuais. No tocante à sexualidade, não se pode reduzir o quadro a “ou preto ou branco”. Há toda uma gama de sensibilidades entre esses dois extremos. Cada caso, como se diz, é um caso. Em indivíduos de orientação heterossexual pode existir latente possibilidade de atração homossexual. E vice-versa. O que acontece é que o machismo repressivo da cultura dominante escondia, durante séculos, essa realidade latente. A atual permissividade e badalação no que se refere ao lado feminino do homem começam a mostrar, com maior nitidez, essa dimensão longamente recalcada seja no homem, seja na mulher.

A Igreja, como mãe e mestra, não tem o direito de simplificar ingenuamente o quadro e desconsiderar o momento sociocultural em que vivemos. Nivelamentos e simplificações a respeito da sexualidade são injustificados e não correspondem à realidade dos fatos. Confundem e mesmo inviabilizam a conquista de uma identidade sexual personalizada e razoavelmente consistente, que é o que interessa e é realisticamente possível.

6.2. A confusão poderá diminuir se esclarecermos algumas ideias errôneas que circulam a respeito da homossexualidade. Algumas delas têm um quê de verdade, uma vez que valem para alguns homossexuais. Outras não passam de “mitos” populares sem fundamento. Eis os mais difundidos:
  • O mito de que o interesse do homossexual é sempre ou quase sempre só genital;[11]
  • O mito de que todo homossexual sente atração por crianças e adolescentes e quer ter relações físicas com eles. É hipótese admitida por muitos psicólogos que a pedofilia, hoje um crime punido pela lei na maioria dos países, seja mais frequente entre heterossexuais;
  • O mito de que os homossexuais masculinos sejam sempre efeminados e as mulheres de tendência lésbica sejam sempre masculinizadas;
  • O mito de que todos os homossexuais tendam, sempre e necessariamente, a formar grupos mais ou menos secretos;
  • O mito de que todos os homossexuais masculinos tendem a certas profissões mais típicas de mulheres;
  • O mito de que todos sejam promíscuos, instáveis em suas relações e incapazes de compromissos duradouros (quando o são, é por razões que vieram a se somar à sua tendência, como pode dar-se também com heterossexuais);
  • O mito de que todos os que se sentem homossexuais ou até cometem atos homossexuais (na fantasia ou comportamentalmente) devam ser sempre e de fato diagnosticados como tais. Há aqui largo espectro de variações a ser levado em conta.
  • O mito de que os homossexuais possam sempre mudar essa sua orientação por meio da força de vontade, pela via do tratamento médico e terapêutico ou em virtude da oração e da ascese.
6.3. À luz do exposto, põe-se a questão: qual o objetivo da formação de indivíduos de orientação homossexual propriamente dita que desejam viver como cristãos católicos ou almejam mesmo ser admitidos ao processo formativo da vida religiosa e do sacerdócio? Uma congregação masculina de forte matiz norte-americano, após anos de debate interno, formulou assim o objetivo psicopedagógico de sua formação:

O objetivo de nossa formação, tanto para candidatos heterossexuais quanto homossexuais, é o estilo de vida celibatário. Esse supõe a capacidade de renunciar à atividade sexual genital e busca uma consistente maturidade psicossexual, expressa em um desenvolvimento global (humano-afetivo, pessoal, comunitário e espiritual) do candidato.

Nessa abordagem, já bastante adotada nos Estados Unidos, revela-se um estado mais avançado de discussão psicopedagógica do que o existente no Brasil. É concepção que considera possível uma pessoa de orientação homossexual ser encaminhada às ordens e ou à vida religiosa, não havendo razão, em princípio, para ser vetada. Os critérios de admissão e o acompanhamento psicopedagógico devem ser os mesmos usados para os heterossexuais. Mas o parágrafo acima citado enuncia dois requisitos indispensáveis para que uma pessoa assuma o compromisso de um estilo celibatário de vida: certa maturidade afetivo-sexual e razoável equilíbrio relacional global da pessoa. Tais requisitos são os mesmos para todos os candidatos. Essa proposta pedagógica me parece psicologicamente plausível, com a ressalva que farei logo abaixo. Há outra condição: saber que o objetivo da formação para a vida religiosa e para o serviço presbiteral não é o celibato. Este é apenas um meio e uma expressão de algo mais profundo: o amor a Deus e aos irmãos “por causa do Reino”. O que está no centro da formação é a pessoa em seu ser e agir, na rica trama de relacionamentos e potencialidades de seu existir como sujeito e filho/a de Deus.

O celibato, não se pode olvidar, é dom de Deus; tem natureza essencialmente carismática. Há quem diga que a Igreja, em suas normas, tem esquecido essa premissa fundamental. Desde essa perspectiva, que é teológica, não se pode propriamente falar em “educar para o celibato”. O que se pode favorecer é a integração e a estabilidade emocionais que permitem viver esse dom com liberdade interior, fecundidade para os outros e senso de realização pessoal.

6.4. Hesito em apresentar uma opinião para a qual não disponho de dados colhidos diretamente de pesquisas e observações cientificamente conduzidas, mas sim verificados e testados em minha já longa experiência clínica e pastoral.

Conheço dezenas de seminaristas, religiosos e sacerdotes de tendência homossexual que chegaram a razoável integração psicossexual e afetiva. Alguns entre eles tiveram uma vida feliz e puderam dar testemunho de vida, de serviço e de fidelidade ao ideal de consagração proposto pela Igreja. Mas conheço também casos opostos, alguns dos quais dramáticos. Refiro-me aqui à homogenitalidade propriamente dita, sem excluir ohomoerotismo. Os atos e hábitos voltados unilateralmente para práticas genitais diretas são os que precisam ser questionados de melhor forma. Eles geram, com facilidade, vidas truncadas, sofridas e carregadas de tensões. No caso de ambientes religiosos, são necessariamente obrigadas a um ocultamento angustiado e ambíguo que de modo algum favorece o amadurecimento da pessoa e a expansão da vocação.

Tenho conhecimento, também, de casos de escândalo público e de condenações judiciais, aliás, mais do que justas, pois se tratava de crimes. Note-se que não me refiro apenas aos casos que aparecem nos jornais. Embora as práticas homogenitais sejam as que mais chamam a atenção, elas, psicologicamente falando, nem sempre são o problema mais fundamental. Elas tampouco se restringem a clérigos de orientação homossexual. Existem escândalos semelhantes também entre religiosos e sacerdotes de tendência heterossexual. Não se pode generalizar a afirmação que faço a seguir, mas minha experiência me leva a dizer que, em termos gerais, pessoas com características estruturais de tipo homossexual são mais facilmente infensas a esse tipo de comportamento, provavelmente devido às circunstâncias repressivas impostas pela sociedade e pela cultura e favorecidas pelos ambientes de formação da Igreja. Não me refiro, tampouco, aos casos patológicos, que naturalmente existem e mereceriam uma discussão à parte. O que tenho em mente são pessoas até certo ponto sexualmente consideradas “normais”.

7. À guisa de amarração

Conhecer as vias pelas quais a Igreja vem tentando se reposicionar a respeito da homossexualidade nos mostrou que estamos ainda em meio a um processo de esclarecimento. Eticamente, os formadores da Igreja sabem que estão ante sérios questionamentos e ainda em busca de critérios e procedimentos que façam justiça, sobretudo, às pessoas de tendência homossexual radicada. Não há, assim, nesta ‘amarração” como apresentar conclusões, no sentido estrito do termo. É preferível falar em pistas, fazendo mais justiça à complexidade da questão.[12] De grupos com os quais andei buscando tais pistas, aprendi a valorizar algumas indicações que passo a comentar.

7.1. Em minha prática, constato notável incidência, em homossexuais por constituição, de traços atitudinais e comportamentos que denotam habilidades de vários tipos. São distúrbios (não doenças!) de várias origens e tipos. Alguns deles podem, sim, trazer aspectos que exigem cuidado psicoterapêutico e os contraindicam à vida religiosa e ao ministério presbiteral, em boa parte por serem narcisistas e sexualmente infantis. Indivíduos heterossexuais que apresentassem essas mesmas características também deveriam ser considerados como não indicados a uma vida celibatária. Quando aceitos, ambos os grupos devem ser acompanhados especialmente no amadurecimento dos aspectos obscuros que os contraindicam ao sacerdócio e à vida de consagração. Em princípio, os formadores devem propor a todos – sem distinção da orientação sexual da pessoa – aquelas virtudes cristãs e humanas que a Igreja aconselha aos celibatários e que supõem disponibilidade ao outro, riqueza e equilíbrio nos relacionamentos e, naturalmente, abertura a Deus e à caridade pastoral para com todos, sem acepção de pessoas. É uma meta ideal árdua para qualquer ser humano. A Igreja pede, por isso, correspondente maturidade psicossexual, só possível a quem tiver superado os estágios egocêntricos da primeira evolução psicoinfantil. O mínimo que se deveria dizer é que essas pessoas, para se equilibrarem psíquica, emocional e socialmente, necessitariam de um acompanhamento mais especializado.[13]

7.2. A marginalização e o desprezo a que a homossexualidade foi submetida por séculos e séculos é fenômeno cultural mais vasto do que a Igreja. Esta, no entanto, esteve diretamente envolvida na milenar opressão exercida sobre o grupo homossexual, reforçada pelo absoluto monossexismo dos claustros. Hoje, esse isolamento já não existe. Religiosos e religiosas jovens já convivem com naturalidade em espaços secularizados e em contato direto com pessoas de sua idade. Com isso, acentuou-se a exposição aos estímulos de uma cultura hipererotizada, na qual a homossexualidade se tornou uma bandeira libertária. Por essa razão, é preciso criar, nos lugares de formação, um clima mais saudável em relação à sexualidade e ao comportamento intersexual. Essa é uma precondição para que as casas de formação possam ser de auxílio aos portadores de traços que evidenciam tendência à homossexualidade.

Como não podia deixar de ser, os que se apresentam à porta das casas de formação são filhos/as da época consumista, permissiva e pluralista que os envolve. Os formadores estão ante a tarefa de rever costumes e normas herdados de um passado culturalmente cada vez mais longínquo. As velhas práticas pedagógicas precisam ser revistas, mas faltam-nos ainda as metodologias para tanto. No passado, os formadores eram afetados por grande ignorância (ignoratio invencibilis elenchi) a respeito das origens e desenvolvimento da homossexualidade humana. Hoje, já não há o direito de invocar essa justificativa histórico-cultural para omissões e equívocos pedagógicos. Os candidatos de orientação homossexual que eventualmente acolhemos em nossas casas têm o direito de esperar de nós não só compreensão, como também acompanhamento psicológico e espiritual adequados.

7.3. O acolhimento pedagógico de um candidato com orientação homossexual nada tem que ver com atitudes de facilitação e relativismo moral ou religioso. Talvez seja até o contrário. Compreender melhor o fenômeno homossexual em todas as suas dimensões pede um trabalho mais consciencioso nos relacionamentos e procedimentos formativos. Pode-se agir com respeito às pessoas de tendência homossexual sem ferir o que a Igreja pede, ao dizer que “nenhum método pastoral(ou pedagógico, ou psicológico) pode ser empregado que, pelo fato de esses atos serem julgados conformes com a condição de tais pessoas, lhes venha a conceder uma justificação moral” (Declaração, n. 8).

7.4. Da reflexão deontológica aqui feita pode-se tirar uma conclusão desafiadora: as questões afetivo-sexuais prementes em candidatos/as de tendência homossexual exigem maior estudo e melhor treinamento por parte dos pastores que acompanham essas pessoas no discernimento do que Deus lhes pede como caminho de vida (cf. EMPEREUR, 1998; OLIVEIRA, 2007; AARDWEG, 1997). Dessa maneira, no encaminhamento dessas pessoas, o que importa é colaborar para que possam discernir seu caminho de vida segundo as exigências de sua vocação cristã. Esse é um caminho de progressiva libertação pessoal e espiritual, no qual é preciso estabelecer uma parceria entre o esforço de autoconhecimento psicológico e religioso da pessoa e a presença atenta e competente de pastores e formadores bem preparados para essa tarefa.

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[1] CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Declaração acerca de certas questões de ética sexual. São Paulo: Paulinas, 1976.
[2] BENTO XVI. Deus Caritas Est. São Paulo: Paulinas, 2005, n. 3-5.
[3] Não entro aqui na crítica agressiva que o documento pontifício recebeu de grupos de defesa da causa homossexual. Menciono, no entanto, o comentário do Pe. Bruce Williams, dominicano, que valoriza o documento sem omitir que ele próprio teve “reações ambíguas” numa primeira leitura da carta de 1986, a seu ver “construtiva em muitos aspectos e negativamente desapontadora em outros”(Williams, 1987).
[4] Saliento, desde já, que o texto fala aqui de “atos” e não da “tendência” homossexual.
[5] Cf. JOÃO PAULO II. Discurso a los obispos de EEUU. Ecclesia, n. 39, p. 1314, 5 out. 1979.
[6] As críticas foram muitas. Denunciava-se, no documento, uma postura biologística e medicalizante e uma tentativa de defender concepções pré-modernas que não podem ser hoje sustentadas. No fundo, mantinha-se o conceito de um caráter universal de doença, presente necessariamente na homossexualidade, o que já havia sido contestado por importantes entidades médicas desde a década de 1980. Além disso, a visão de sexualidade, nos meios católicos, mantinha o ponto de vista “procriativo” como o único definidor da validade moral da sexualidade humana, esquecendo sua dimensão interativa e de reciprocidade, mais ampla que o aspecto da genitalidade ao qual o documento estaria limitado.
[7] Deus Caritas Est, teologicamente falando, é um texto que mereceria uma análise mais acurada. Em sua primeira parte, a encíclica trata de conceitos como os de eros, philia e ágape e conversa com filósofos como Nietzsche, que criticava abertamente a maneira como os cristãos praticam e vivem a caridade. Lidas na perspectiva de nosso tema, as considerações de Bento XVI poderiam servir de base teológica para novas reflexões a respeito da sexualidade humana. Em princípio, os conceitos da Deus Caritas Est não contradizem o que Joseph Ratzinger assinava quando prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, mas com esse texto ele traz um fundamento evangélico mais promissor. Não é aqui o lugar para entrar nesse assunto.
[8] Um comentário psicoterapêutico sobre esse documento pode ser encontrado em Valle (2011).
[9] Veja-se, por exemplo, a bem fundamentada posição do Conselho da Igreja Evangélica Luterana da Alemanha em seu documento oficial: Mit Spannungen leben, Hannover, EKD, 1996.
[10] No Brasil, tivemos o médico e sacerdote João Mohana, que inovou a visão católica e a pastoral no campo da sexualidade.
[11] Nos documentos aqui comentados, pode-se observar que não é essa a posição da Igreja. Interessante documento da Diocese de Michigan (de 1973) lembra que a sexualidade, também a de tendência homossexual, pode e deve implicar a responsabilidade, a disposição ao sacrifício, a fidelidade, a amizade etc. Cf. Kosnik,1982, p. 246. Recente texto dos bispos norte-americanos a pais de filhos/as homossexuais assume a mesma postura positiva, na tentativa de animar positivamente os pais na ajuda a seus filhos/as.
[12] Cerca de 200 participantes de um seminário conduzido por Edênio Valle e Antônio Moser segundo a metodologia ver-julgar-agir, com a assessoria do psiquiatra Dr. João Moura e da psicanalista paulista Dra. Elsa Oliveira Dias, chegaram a interessantes conclusões, redigidas e posteriormente publicadas no formato de cópias mimeografadas.
[13] Quando se trata da admissão à vida religiosa ou às ordens sacras, devem ser tomados em conta os dois lados do compromisso que o candidato assume de livre vontade. À congregação ou diocese que o acolhe cabe a responsabilidade de acompanhá-lo em direção ao ideal proposto, mas não se pode esquecer que o candidato, por sua vez, se compromete com um esforço pessoal de crescer nessa mesma direção. Ambos os compromissos precisam ser devidamente ponderados não só na fase formativa, mas também na vida adulta.

Edênio Valle
Presbítero da Congregação do Verbo Divino. Professor associado de Psicologia da Religião no Programa de Ciências da Religião da PUC de São Paulo. Doutorado pelo Instituto de Psicologia da Universidade Pontifícia Salesiana de Roma. Publicou diversos livros e dezenas de artigos em sua área de especialização.
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