sábado, 29 de agosto de 2015

Eu sou lésbica!

Nesse dia importante de enfrentamento do desafio da invisibilidade, publicamos aqui um texto bonito e sensível enviado pela nossa amiga Andréa Balsan.

Todo nosso apoio e solidariedade às nossas irmãs, mulheres lésbicas!


Sinto-me corrompida em um mundo que me transforma em fetiche e demônio.
Muitas vezes sou só mais uma mulher invisível, algo a ser cobiçado pela falta de harmonia.
Matam, surram, abusam.
Me chamam de caminhoneira, sapatão, alguém possuído.
Mas sou só uma mulher.
Se corto o cabelo, se uso roupas diferentes...
Só penso em amor.
Homens, mulheres, poetas de todos os tipos, olhem os meus olhos!
Olhem em minha alma!
Vejam:

Eu sou lésbica!

E sou amiga, filha, trabalhadora, vizinha, irmã, mãe, companheira, namorada.

Eu sou lésbica!

Então não me vejam por estereótipos.
Vejam quem eu sou.
Ser humano como você.
Alguém que vive, sonha. E ama.


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Eu, o Outro e Todos Nós: Intermediações possíveis entre homossexuais católicos e os cânones da Igreja

No próximo dia 27 de agosto, às 19 horas, o Diversidade Católica e a Edições Loyola, em parceria com a Blooks Livraria, organizarão no Rio de Janeiro o evento de lançamento do livro "Homossexuais Católicos: como sair do impasse", de Claude Besson, lançado no Brasil recentemente. Besson é uma das lideranças do grupo francês "Reflexão e Partilha", que tem uma história de mais de 10 anos de trabalho pastoral com pessoas gays e católicas, e seu livro promete oferecer pistas importantes para este apostolado aqui no Brasil. 

Em preparação para o evento, publicamos aqui uma bela resenha sobre o livro, a fim de oferecer uma pequena pitada das discussões. A análise é de Marcelo Maldonado, que é escritor e bacharel em Literatura Brasileira, e que será um dos palestrantes do lançamento. Para maiores informações, consulte a página do evento no Facebook. Divulgue e participe!



Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

Mário de Sá-Carneiro

Quando Mário de Sá-Carneiro pôs fim à própria vida, às vésperas de completar 26 anos, num pequeno hotel em Paris, nos últimos dias de abril de 1916, aquele ato pareceu-lhe a única saída para o grande impasse de sua existência: como construir/ constituir uma identidade cujo conflito com a realidade não resulte na dispersão?

Não é à toa que este (Dispersão) é o título do único volume de poesias que publicou em vida e também do célebre poema em que declara: “Perdi-me dentro de mim / Porque eu era labirinto, / E hoje, quando me sinto, / É com saudades de mim.” Grande parte da obra de Sá-Carneiro é permeada pela questão da alteridade, cujo sentido profundo reside na impossibilidade de ser, na inadequação do existir e na incomunicabilidade com o outro – grafado no poema com maiúscula, o que significa o outro enquanto entidade mítica. Preso em si mesmo e também aprisionado dentro de uma realidade hostil, o poeta não vislumbra qualquer possibilidade de diálogo para o estabelecimento de uma identidade concreta (e, portanto, de uma existência plena), quer no domínio da criação estética pura, quer no campo da vida cotidiana.

A homossexualidade surge, na obra de Sá-Carneiro, como uma espécie de mote para esse impasse: o espelhamento de um eu num outro que jamais pode se consumar porque se consome num jogo conflituoso de desejos e proibições. É o que declara Ricardo de Loureiro, personagem da novela A Confissão de Lúcio, de 1913: 
Nunca soube ter afetos (já lhe contei), apenas ternuras. A amizade máxima, para mim, traduzir-se-ia unicamente pela maior ternura. E uma ternura traz sempre consigo um desejo caricioso: um desejo de beijar… de estreitar… Enfim: de possuir! (…) Para ser amigo de alguém (visto que em mim a ternura equivale à amizade) forçoso me seria antes possuir quem eu estimasse, ou homem ou mulher. Mas uma criatura do nosso sexo, não a podemos possuir. Logo, eu só poderia ser amigo de uma criatura do meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo.[1]
Claude Besson, ao que parece, lida com uma questão bastante semelhante em seu estudo Homossexuais católicos: como sair do impasse (Edições Loyola, 2015), no qual expõe as contradições entre as rígidas posturas canônicas adotadas pelo apostolado católico em relação aos homossexuais que desejam não apenas professar a fé cristã, mas tornar-se parte atuante da vida de suas comunidades. Eu não sou eu nem sou o outro: como conciliar uma identidade – construída a duras penas em meio a uma realidade social que não contempla ou sequer legitima os modelos gays – com a fé cristã quando o discurso oficial da Igreja trata da condição homossexual de forma traumatizante, julgadora, culpabilizante e excludente?

Besson inteligentemente estrutura suas reflexões em três estágios distintos: em primeiro lugar, aplica um viés antropológico ao tratar da homossexualidade à luz de teorias que analisam suas possíveis origens e que, por fim, dada a complexidade da questão da formação da identidade pessoal – para a qual tanto características inatas quanto adquiridas tornam-se elementos constitutivos –, descartam o seu desenvolvimento enquanto fruto de uma escolha individual consciente e deliberada.

Ao avançar nesse sentido, o autor analisa o processo de reconhecimento da condição homossexual a partir das etapas da descoberta, da negação e rejeição, das tentativas de subverter a orientação sexual e da aceitação em si, após um percurso em que idas e vindas não raro expõem os indivíduos a sentimentos de vergonha, culpa, frustração, clandestinidade, estigmatização e violência, nos seus mais diversos graus e manifestações. Educado num mundo em que a heteronormatividade exclui e rechaça qualquer outra possibilidade de manifestação da sexualidade, o indivíduo homossexual carece de modelos positivos a respeito da própria condição e acaba por assimilar essa proibição, sofrendo um processo de homofobia interiorizada. 

O autor aborda ainda o mesmo processo de descoberta através do ponto de vista da família, para a qual o evento de percepção ou anúncio da homossexualidade de um filho ou filha na maioria das vezes representa um ganho significativo nas relações pessoais, no sentido de um maior entendimento e acolhimento entre seus membros. A importância do diálogo dos pais com os adolescentes é enfatizada para além das experiências sexuais que naturalmente ocorrem nessa fase da vida, devendo pautar-se no fortalecimento da confiança dos jovens em suas potencialidades e no desenvolvimento de uma afetividade mais amadurecida.

Encerrando essa primeira parte, a questão da alteridade se interpõe como importante discussão a respeito da noção errônea de que os homossexuais rejeitam a diferença entre os sexos, o que significaria a mera redução de homens e mulheres aos seus papéis sexuais. Eu não sou o outro: a alteridade se estabelece a despeito da igualdade sexual, pois se alicerça em bases mais profundas – o reconhecimento do outro em sua história pessoal, afetiva, educacional, em seus valores éticos, suas vivências e escolhas – do que apenas no valor diferencial (e impessoal) de um objeto de pulsão. 

Num segundo momento, Besson examina a aparente contradição contida na condição “gay católico”, no que considera a priori dois posicionamentos excludentes, uma vez que o indivíduo homossexual, ao confrontar-se com o parecer oficial da Igreja quanto à sua realidade, reveste-se de sentimentos de desonra, culpa, vergonha e desesperança, causando um inevitável afastamento e até mesmo um abandono da fé cristã. 

Como já havia feito na primeira parte, o autor entremeia suas reflexões com delicados e contundentes depoimentos de indivíduos que, através de suas experiências pessoais, descrevem as mais variadas reações diante da constatação das contradições entre os cânones do Magistério e a própria palavra de Jesus Cristo pregada pelos evangelhos. A maioria desses depoimentos refere-se a um sentimento doloroso de solidão e aponta para situações extremadas como as frequentes tentativas de suicídio relatadas. 

Ao contínuo e constante avanço das abordagens do tema no âmbito da sociedade civil e de uma ampla difusão de informações e discussões a seu respeito, o Magistério manteve-se num silêncio perturbador e omisso, quebrado apenas para reforçar as teses de que a manifestação da homossexualidade é reprovável e, portanto, pecaminosa. No entanto, a partir principalmente das reformas propostas pelo Concílio Vaticano II, houve uma ligeira evolução na postura doutrinal no sentido de reprovar os atos homossexuais, ao que o acolhimento ao indivíduo passou a ser estimulado com “respeito, compaixão e delicadeza.” Na prática, nas paróquias e comunidades, o que se deu foi que esse acolhimento manifestou-se na manutenção do silêncio em torno do assunto ou, quando muito, nos casos em que sacerdotes eram procurados por homossexuais para uma orientação, em conselhos sobre “a prática da sublimação dos instintos inferiores na castidade pelas virtudes do autodomínio.” Isso, obviamente, acabou por expor outro posicionamento excludente: como pode se dar esse acolhimento se, ao mesmo tempo, a doutrina rejeita e condena aquilo que, no homossexual, é parte constitutiva de sua identidade?

A esse respeito, Besson esmiúça na própria Bíblia as referências que alegadamente corroborariam a nomeação específica da homossexualidade como comportamento ou prática abominável e chega à (inevitável) conclusão de que não é possível fazê-lo, uma vez que as interpretações do texto bíblico à luz de suas contextualizações histórico-sociais não permitem reconhecer essa questão tal como ela se coloca na sociedade moderna: numa abordagem moral e ética individual. O autor expõe as análises de teólogos sobre as cinco passagens que mencionam a homossexualidade – a saber: dois versículos do Levítico, um versículo da Epístola de São Paulo aos Coríntios, um versículo da Epístola de São Paulo a Tito e um texto da Epístola de São Paulo aos Romanos – além da célebre narrativa de Sodoma e Gomorra e, finalmente, sobre as alusões à criação do homem e da mulher no livro do Gênesis para concluir que todas dizem muito mais respeito à prática em si em contextos ligados à conformidade ritual dos critérios de pureza, de pertença religiosa ou de idolatria do que à sua natureza sexual propriamente dita.

Na terceira e última parte de seu estudo, Claude Besson aponta para algumas possíveis estratégias para provocar o avanço das intermediações entre indivíduos homossexuais e agentes ministeriais e romper o silêncio em torno do assunto. O autor aposta no aprofundamento da fé cristã através de postulados como os de André Fossion, que convidam a repensar o cristianismo e a uma nova compreensão da fé baseada na distinção dos seus cinco efeitos salutares, três dos quais dizem respeito intrinsecamente à experiência homossexual:

– Libertação do medo de Deus: restauração de uma relação de confiança e reconhecimento no amor divino;
– Libertação da dominação do pecado: o amor incondicional de Deus esvazia a necessidade de um castigo, livra o indivíduo da culpa e restaura a esperança;
– Liberdade para desejar: livre do pecado, o indivíduo engaja-se com mais compromisso no projeto de caridade do Cristo, em favor de uma humanidade mais fraterna.

A esse chamado, o sentido da vida e das relações humanas (leia-se, da própria afetividade) passa a ser construído a partir da realidade da vida, a partir do(s) outro(s) e com o(s) outro(s), cotidianamente, uma realidade na qual o desejo de amar pauta-se pela liberdade de consciência. Em certo ponto, Besson afirma: toda relação de amor é uma abertura para o outro. Desta maneira, abre-se um novo entendimento para o termo “fecundidade” quando aplicado a relações homoafetivas fundamentadas nessa intermediação, traduzido na expressão “parentalidade espiritual”, na qual um casal do mesmo sexo pode perfeitamente criar condições plenas de uma vida fecunda no envolvimento com o trabalho, com a comunidade, com o acolhimento, a caridade, a pastoral, o apoio mútuo, a criação artística, a pesquisa científica, etc. 

Tendo em vista esse engajamento espiritual, o autor propõe outros tipos de engajamento a fim de impulsionar um diálogo sereno e produtivo sobre a questão da homossexualidade e sua conciliação com a fé cristã e dá exemplos de como, na França, algumas iniciativas conseguiram criar espaços para a partilha de experiências e a troca de informações entre as comunidades e seus membros. Besson enfatiza em primeira instância a necessidade de se falar sobre o assunto, de tirar a palavra homossexualidade literalmente do armário e ter a coragem de mencioná-la nos cultos, nas reuniões paroquiais, sempre acompanhada da disseminação da informação correta e sem mistificações. O autor menciona, então, a experiência do grupo Réflexion et Partage (Reflexão e Partilha), do qual é um dos fundadores, e de seus esforços para ajudar as comunidades cristãs a acolher a realidade homossexual.

Em seguida, salienta que é preciso ocupar um lugar em que se possa começar um trabalho de integração dos indivíduos homossexuais nas comunidades. Embora não seja tão simples assim, o autor dá como exemplo bem sucedido o que aconteceu em Saint-Merry, cuja comunidade foi procurada por membros do grupo David e Jonathan para abrigar um núcleo de orações e troca de experiências. Sob a condição de também participar da vida da comunidade local, o inicialmente pequeno núcleo foi tomando proporções cada vez mais expressivas, diluindo preconceitos, assumindo uma postura positiva e inclusiva e ganhando ampla visibilidade nas atividades paroquiais.

Por fim, mas não menos importante, reforçando sempre o conceito de que uma igreja se faz com (e para) os seus membros, ressalta a importância do favorecimento de locais de acolhimento e escuta dentro das dioceses, através da criação de pastorais que se ocupem especificamente do tema de forma ordenada, estruturada e constante. As iniciativas nesse sentido, apesar de terem gerado frutos importantes e bastante significativos, infelizmente ainda são poucas e isoladas. No Brasil, núcleos como o Diversidade Católica, no Rio de Janeiro, e o Grupo de Ação Pastoral da Diversidade, em São Paulo, tem desenvolvido ações não apenas centradas no acolhimento e partilha de experiências, mas também no sentido de promover um diálogo com a sociedade e instâncias superiores da hierarquia eclesiástica.

Na conclusão do seu estudo, Claude Besson afirma que o seu maior intento foi o de abrir portas. Talvez tenha sido essa a sua compreensão para responder à questão proposta, contida igualmente no poema de Mário de Sá-Carneiro: eu sou Eu – em construção, muitas vezes disperso, fragmentado – e devo necessariamente me abrir, sair de mim, deixar de ser qualquer coisa de intermédio, cruzar a ponte e bater à porta do Outro, que, por sua vez, deve estar disposto ao diálogo, à troca de impressões, ao enriquecimento de experiências que estabelecem o entendimento. 

Como ensina Besson, para quem o medo é mau conselheiro, deve ser a Fé (e não o tédio) o pilar de sustentação desse processo.

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[1] SÁ-CARNEIRO, Mário de. A confissão de Lúcio. In: Obras Completas, pg. 376, Alexei Bueno (org.). Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

O Papa e o Transexual


Há algumas semanas, o papa Francisco recebeu em sua casa a visita do transexual espanhol Diego Neria e de sua companheira. Este gesto, surpreendente e ousado, é comparável ao do papa João XXIII recebendo a família Krushev, do governante da então União Soviética, considerada por muitos o Império do Mal. É curioso lembrar que há menos de quatro anos circulou a notícia de que o papa Bento XVI, em sua viagem a Berlim, iria receber os líderes do movimento gay. Foi uma piada de 1º de abril com ampla difusão na Alemanha. Agora, o gesto de Francisco supera a imaginação dos que riam do seu antecessor.

Diego nasceu mulher, mas desde criança sentia-se homem. No Natal, escrevia aos reis magos pedindo como presente tornar-se menino. Ao crescer, resignou-se à sua condição. “Minha prisão era meu próprio corpo, porque não correspondia absolutamente ao que minha alma sentia”, confessa. Ele escondia esta realidade o quanto podia. Sua mãe pediu-lhe que não mudasse de sexo enquanto vivesse. E ele acatou este desejo até a morte dela. Diego tinha 39 anos. Um ano depois, ele resolveu começar a mudança de sexo e passar pelas cirurgias necessárias. Na igreja que frequentava, despertou a indignação de pessoas: “como se atreve a entrar aqui na sua condição? Você não é digno”. Certa vez, chegou a ouvir de um padre: “você é filha do diabo”! Mas felizmente teve o apoio do bispo, que lhe deu ânimo e consolo nos últimos tempos.

Isto o encorajou a escrever ao papa Francisco e pedir um encontro com ele. Surpreendentemente, Diego recebeu um telefonema do próprio papa, e combinaram o encontro. No dia 24 de janeiro, às 17h, o papa o recebeu e o abraçou no Vaticano, na presença da sua mulher com quem ele em breve se casará. Hoje, Diego Neria é um homem em paz.

O papa Francisco já havia declarado, felizmente, que se uma pessoa é gay, busca a Deus e tem boa vontade, não cabe a ele julgá-la. E que não deve ser marginalizar as pessoas por isso, mas integrá-las na sociedade. Ao convocar o Sínodo sobre a Família, ele lançou questões para amplo debate sobre as novas configurações familiares, contemplando inclusive os LGBTs: que atenção pastoral se pode dar às pessoas que escolheram viver em uniões do mesmo sexo? E, caso adotem crianças, o que fazer para lhes transmitir a fé? Numa das assembleias do Sínodo, no Vaticano, um casal australiano contou que recebeu na ceia de Natal o seu filho gay com o respectivo companheiro. Isto escandalizou alguns cardeais e bispos. Ao receber Diego e sua companheira, o papa faz o mesmo que o casal australiano, dando um exemplo extraordinário à Igreja e à sociedade.

Há muito sofrimento decorrente do preconceito, da rejeição e da violência física e verbal contra os LGBTs. Acolhê-los na família e na igreja muda muito a realidade de todos, pois traz um alívio profundo, cura feridas devastadoras e fortalece a autoestima. As famílias e as comunidades eclesiais que os acolhem têm uma chance extraordinária de conhecê-los melhor, e de se libertarem de estereótipos e preconceitos odiosos que só assim podem ser vencidos. A acolhida é um poderoso fermento de mudança na sociedade. E um dos frutos recentes desta mudança já se torna visível: o batismo de filhos de casais homoafetivos. Eles se tornam membros da Igreja, sacramentalmente, com a promessa de serem educados na fé.

No entanto, há também resistências. Pessoas como o padre e os fieis que Diego encontrou, considerando-o indigno e diabólico, estão por toda parte. Há publicações em ambientes católicos, com grande difusão, que caricaturam as questões de gênero e de orientação sexual. Uma delas traz o desenho de um homem sentado se interrogando: “que gênero eu vou escolher para este ano”? E, em outra página, o desenho de um garoto nu olhando para o próprio pênis e se perguntando: “não sou homem? Eu? Então... o que isto”? Estas caricaturas são injustas e cruéis com os LGBTs. Basta conhecer a história de pessoas como Diego - bem como de tantos gays, lésbicas, bissexuais e travestis - para se dar conta do mal que tais posturas causam e reforçam.

Sabe-se que a teoria de gênero é criticada pelo papa e pelos bispos. Eles temem pela eliminação da diferença entre homem e mulher, que é parte do desígnio divino inscrito na natureza. Mas isto não pode levar, de maneira alguma, a se patologizar as pessoas que não têm atração pelo mesmo sexo, ou que não se identificam com o corpo que nasceram.

É preciso considerar também algumas declarações do papa Francisco em defesa da família, como a mensagem à Igreja da Eslováquia por ocasião de um plebiscito nacional contra o casamento gay, e contra a adoção de filhos por casais do mesmo sexo. Foi uma maneira indireta de o papa se opor a mudanças na legislação civil, num país em que mais de 70% da população é católica. Mas o resultado do plebiscito esteve longe de barrar as mudanças. O comparecimento às urnas não chegou a 22% da população, muito menos do que os 50% necessários para o resultado ter validade jurídica.

A estas posições do papa, no entanto, não se deve dar um peso maior do que convém. A Igreja Católica preza a sã laicidade, que inclui a legítima autonomia do Estado. Este não deve legislar para a hierarquia católica, mas para os seus cidadãos em vista do bem comum. Entre eles há crentes e não crentes, além de crentes que não concordam em tudo com os seus ministros religiosos. E o bem comum deve contemplar os LGBTs e suas famílias, sem transformá-los em cidadãos de segunda categoria. De um modo geral, estas intervenções da hierarquia pouco interferem na legislação civil de muitos países. Há um processo consistente de mudança em favor do direito homoafetivo, que faz parte da modernidade contemporânea e não tem volta. Os cristãos lúcidos hão de reconhecer os valores desta nova realidade, que dá a mais pessoas a oportunidade de amarem e serem amadas.

As ações e motivações religiosas inclusivas ganham força na Igreja Católica, apesar de fortes resistências. Não se deve negligenciar este potencial religioso benéfico, que se soma a outras igrejas e pode fazer muita diferença na vida de milhões e milhões de pessoas. Ao criar novos cardeais, o papa Francisco alertou contra a tentação de estar com Jesus longe dos marginalizados, isolando-se numa casta que nada tem de autenticamente eclesial. Pois é no evangelho dos marginalizados que está em jogo a nossa credibilidade.

Por isso, nunca nos esqueçamos de Diego Neria e de tantos que são como ele.

Equipe Diversidade Católica

domingo, 30 de novembro de 2014

O Natal à espera de nascer


Bansky

Onde refugiados buscam uma liberdade sempre por vir
E os corações se consomem como que à espreita
Onde as crianças crescem antes do tempo
E a vida se perde nas fronteiras do pensamento
Onde o coração dos velhos se enregela
E ossos, tendões, sangue e células desmoronam
Onde o medo se apresenta a cada dia
E a perfeição do amor parece uma ilusão
O Natal está à espera de nascer
Em você, em mim, na humanidade inteira.

- Howard Thurman, líder negro e teólogo americano

Via | Tradução: Cris

domingo, 2 de novembro de 2014

Deus é gay?


Nunca antes na história da Igreja um papa ousou, como Francisco, colocar a questão da sexualidade no centro do debate eclesial: homossexualidade, casais recasados, uso de preservativo etc. O Sínodo da Família, realizado no Vaticano, só dará sua palavra final sobre esses temas em outubro de 2015, quando voltará a se reunir.

Quem, como eu, transita há décadas na esfera eclesiástica sabe que é significativo o número de gays entre seminaristas, padres e bispos. Por que não gozarem, no seio da Igreja, do mesmo direito dos heterossexuais de se assumir como tal? Devem permanecer “no armário”, vitimizados pela Igreja e, supostamente, por Deus, por culpa que não têm?

É preciso reler o Evangelho pela ótica gay, como pela feminista, já que a presença de Jesus entre nós foi lida pelas óticas aramaica (Marcos); judaica (Mateus); pagã (Lucas); gnóstica (João); platônica (Agostinho) e aristotélica (Tomás de Aquino).

A unidade na diversidade é característica da Igreja. Basta lembrar que são quatro os evangelhos, não um só: quatro enfoques distintos sobre Jesus. Até a década de 1960, predominava no Ocidente uma única ótica teológica: a europeia, tida como “a teologia”. O surgimento da Teologia da Libertação, com a leitura da Palavra de Deus pela ótica dos pobres, causa ainda incômodo aos que consideram a ótica eurocentrada como universalmente ortodoxa.

Diante dos escândalos de pedofilia, dos 100 mil padres que abandonaram o sacerdócio por amor a mulheres, e da violência física e simbólica aos gays, Francisco ousa se erguer contra o cinismo dos que se arvoram em “atirar a primeira pedra.”

Como Jesus, a Igreja não pode discriminar ninguém em razão de tendência sexual, cor da pele ou condição social. O que está em jogo é a dignidade da pessoa humana, o direito de casais gays serem protegidos pela lei civil e educarem seus filhos na fé cristã, o combate e a criminalização da homofobia, um grave pecado. A Igreja não pode continuar cúmplice e, por isso, acaba de superar oficialmente a postura de considerar a homossexualidade um “desvio” e “intrinsecamente desordenada”.

A dificuldade de a Igreja Católica aceitar a plena cidadania LGTB se deve à sua tradição bimilenar judaico-cristã, que é heteronormativa. Por isso, os conservadores reagem como se o papa traísse a Igreja, a exemplo do que fizeram no passado, quando se recusaram a aceitar a separação entre Igreja e Estado; a autonomia das ciências; a liberdade de consciência; as relações sexuais, sem fins procriativos, dentro do matrimônio; a liturgia em língua vernácula.

Deus é gay? “Deus é amor”, diz a Primeira Carta do apóstolo João, e acrescenta “o amor é de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus.” E, se somos capazes de nos amar uns aos outros, “Deus permanece em nós.”

Por ser a presença de Deus entre nós, Jesus transitou, sem discriminação, entre o mundo dos “pecadores” e dos “virtuosos”. Não apedrejou a adúltera; não fugiu da prostituta que lhe enxugou os pés com os cabelos; não negou a Madalena, que tinha “sete demônios”, a graça de ser a primeira testemunha de sua ressurreição. Jesus também não se recusou a dialogar com os “virtuosos” — aceitou jantar na casa do fariseu; acolheu Nicodemos na calada da noite; dialogou sobre o amor samaritano com o doutor da lei; propôs ao rico que, “desde jovem” abraçava todos os mandamentos, a fazer opção pelos pobres.

Sobretudo, ensinou que não é escalando a montanha das virtudes morais que alcançamos o amor de Deus. É nos entregando a esse amor, gratuito e misericordioso, que logramos fidelidade à Palavra.

Fé, confiança e fidelidade são palavras irmãs. Têm a mesma raiz. E a vida ensina que João é fiel a Maria, e vice-versa, não porque temem o pecado do adultério, e sim porque vivem em relação amorosa tão intensa que nem cogitam a menor infidelidade.

- Frei Betto

Fonte

Os Gays e o Sínodo dos Bispos


A Igreja Católica viveu um momento efervescente com a Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos sobre a Família. A mensagem cristã neste campo tem uma grandeza e uma beleza inegáveis, mas também problemas e questionamentos inevitáveis. Só se considera matrimônio, base da família, a união exclusiva e indissolúvel entre um homem e uma mulher, que entre os fiéis deve ser celebrada com um rito religioso próprio. Só se aceitam as relações sexuais praticadas no matrimônio, excluindo os métodos artificiais de controle da natalidade. No mundo atual, estas posições destoam da vida da grande maioria dos fiéis e contrastam com as novas configurações familiares. Os nós da moral sexual católica também dizem respeito aos gays.

Ao convocar o Sínodo, o papa Francisco enviou a todas as dioceses do mundo um documento preparatório com 39 perguntas, a fim conhecer melhor esta realidade e começar a transpor este abismo entre doutrina e prática. Entre as perguntas, que atenção pastoral se pode dar às pessoas vivendo em uniões do mesmo sexo? E, no caso de adotarem crianças, o que fazer para lhes transmitir a fé? Portanto, não se trata simplesmente de reiterar a doutrina. Buscam-se caminhos de inclusão e cidadania eclesial.

No ensinamento do papa, sobretudo em sua carta a Alegria do Evangelho (Evangelii Gaudium), o anúncio do amor salvador de Deus precede a obrigação moral e religiosa. Este anúncio deve curar todo tipo de ferida e fazer arder o coração, como o dos discípulos de Emaús ao encontrarem o Cristo ressuscitado. A Igreja deve ser sempre a casa aberta do Pai, onde há lugar para todos os que enfrentam fadigas em suas vidas, e não uma alfândega pastoral. O confessionário não deve ser uma sala de tortura, mas um lugar de misericórdia, no qual o Senhor nos estimula a fazer o melhor que pudermos. A Eucaristia não é prêmio dos perfeitos, mas alimento aos que necessitam e remédio generoso. Matizando a moral, o papa dá grande importância ao bem possível, às etapas de crescimento das pessoas que vão se construindo dia a dia.

Os relatórios produzidos desde a convocação do Sínodo apontam claramente nesta direção: não mudar a doutrina e o ideal sobre a família, mas acolher sem condenar as pessoas que vivem em outros modelos familiares, incluindo as uniões homossexuais e seus filhos. Pela primeira vez, não se fala em atos ‘intrinsecamente desordenados’ e contrários à lei natural, algo tão comum até recentemente. O que permanece é a recusa veemente de se equiparar legalmente união homo e união hétero. Estes relatórios não são ensinamento oficial da Igreja, e nem as conclusões da futura Assembleia Ordinária do Sínodo, convocada para outubro de 2015. Tudo tem valor apenas consultivo. Só será ensinamento oficial a exortação pós-sinodal, a ser escrita pelo papa em 2016.

É certo que esta Exortação vai estar na linha do papa Francisco, estimulando a flexibilidade e o acolhimento. O valor de todo este processo até agora, mais do que os textos, são os debates abertos na Igreja como nunca se viram nas últimas décadas. É muito bom o superior geral dos jesuítas dizer publicamente que pode haver mais amor cristão em uma união irregular do que em um casal casado na Igreja. Ou um arcebispo nigeriano opor-se à criminalização da homossexualidade em seu país, e apoiar famílias que acolhem seus filhos gays com os respectivos companheiros. Tudo isto ajuda a formar na Igreja uma opinião pública que aceita e estima a diversidade sexual.

O cristão adulto, que está atento aos sinais dos tempos e encontra razões em favor da plena cidadania dos LGBT, não precisa esperar o apoio total da hierarquia católica para agir nesta direção. Porém, é muito importante aproveitar as oportunidades que podem surgir na Igreja, sobretudo em nível local, para o acolhimento das pessoas e a superação do preconceito. A homofobia religiosa tem uma longa história e uma considerável abrangência. Mas ninguém deve ser proibido de mudar para melhor, nem as pessoas, nem as instituições.

Equipe Diversidade Católica

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Nota de esclarecimento e repúdio à homofobia na disputa eleitoral


Nós, cristãos católicos LGBT, reunidos na Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT, expressamos nossa perplexidade e indignação diante da manifestação homofóbica de um dos candidatos à Presidência da República no debate transmitido pela Rede Record, na TV aberta e com transmissão nacional, no último domingo (28) à noite; do total silêncio dos demais candidatos em relação às suas palavras; e do riso audível da plateia presente no estúdio da emissora durante sua fala.

Como LGBTs, gostaríamos de esclarecer que a homofobia não se reduz à rejeição irracional ou ódio em relação aos homossexuais; compreende igualmente toda manifestação arbitrária que qualifica o outro como contrário, inferior ou anormal e, devido à sua (suposta) diferença em relação a determinado padrão preponderante, alija essa pessoa de sua humanidade, dignidade e personalidade. Portanto, desqualificar alguém a partir da desqualificação de uma categoria em que o indivíduo (supostamente) se insere é homofobia.

Do mesmo modo, reduzir todo o rico espectro afetivo e sexual de um grupo de seres humanos, como fez o referido candidato no debate de domingo; equiparar, sem nenhuma fundamentação em dados concretos, homossexualidade a pedofilia; classificar a homossexualidade como doença, numa visão patologizante ultrapassada e destituída de qualquer base científica; estimular o "enfrentamento" dessa população pela "maioria", contrariando o princípio democrático de proteção e asseguramento de direitos de todos, inclusive (e sobretudo) das minorias; sugerir que os homossexuais sejam "tratados" em "algum lugar distante", remetendo a práticas famigeradas de internação e isolamento que ainda é preciso combater - tudo isso é homofobia. Tudo isso constitui a tão danosa violência psicológica a que todos nós, LGBTs, estamos submetidos ao longo de nossas vidas. Tudo isso dá corpo à violência simbólica e social que se abate sobre nós diariamente e ganha expressão material nos números assustadores das agressões, tortura e assassinatos com requintes de crueldade que, em nosso país, atingem não só a população LGBT, mas também aqueles indivíduos percebidos como LGBTs - violência que, só neste ano de 2014, já matou pelo menos 216 pessoas pelo simples fato de serem LGBT.

Como cidadãos, gostaríamos de salientar que o direito à liberdade de expressão é sempre antecedido pelo direito de cada pessoa a ser respeitada em sua dignidade. Ninguém tem o direito de propalar racismo, misoginia nem homofobia em público, na medida em que isso fere a dignidade de outras pessoas e reproduz e incentiva, direta ou indiretamente, a violência física e psicológica.

Como cristãos, lamentamos que o cristianismo, em qualquer vertente, se veja sob a ameaça de se esvaziar da sua riqueza simbólica e espiritual, perdendo qualquer traço de humanismo e sendo reduzido a mera ideologia moral e instrumento de normatização social, tornando tantos crentes incapazes de qualquer solidariedade, empatia e identificação com a humanidade de seus próximos.

Como católicos, expressamos nosso sonho com uma Igreja efetivamente católica, isto é, universal; uma Igreja de portas abertas para todos, como diz o Papa Francisco, pronta a acolher a todos em suas diferenças, aberta ao diálogo e atenta à sua vocação de defensora da vida e da dignidade de toda e cada pessoa humana.

Em Jesus Cristo, Autor da Vida, somos todos chamados à caminhada-construção de um mundo de amor, justiça e paz. Convidamos todas as pessoas de boa vontade, em particular os cristãos, a refletirem sobre o preconceito e a violência para com as pessoas LGBT e a se empenharem na sua superação, guiados pelo auxílio do Senhor, que nos ensina a amar uns aos outros, e iluminados por Maria, mãe intercessora de todos nós.

Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT
Diversidade Católica do Rio de Janeiro (DCRJ); Grupo de Ação Pastoral da Diversidade - São Paulo;
Diversidade Católica de Belo Horizonte; Diversidade Cristã de Brasília; Diversidade Católica do Paraná (DCPR); Diversidade Católica Ribeirão Preto/SP e região (DCRP); Diversidade Católica de Passos (MG); Pastoral da Diversidade - PERNAMBUCO; núcleos em formação em Itajaí (SC), Anápolis (GO) e Fortaleza (CE)

2 de outubro de 2014

domingo, 14 de setembro de 2014

Ato contra a LGBTfobia e pela criminalização da homofobia, hoje na praia de Copacabana (RJ) e em vários lugares do Brasil


Na noite de terça para quarta passadas, na localidade de Inhumas, próxima a Goiânia, o jovem João Antonio Donati, de 18 anos, foi morto. João, descrito pelos que o conheciam como um jovem alegre e trabalhador, era declaradamente gay. Segundo as primeiras notícias, foi encontrado com as duas pernas quebradas, e talvez o pescoço, e com a boca cheia de papeis - um deles com a frase "vamos acabar com essa praga".

Imediatamente denunciado como crime de ódio homofóbico, o caso alcançou repercussão suficiente para merecer uma nota de repúdio inclusive da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

A resposta da polícia foi, em menos de 24 horas, identificar e prender um "suspeito", que imediatamente confessou o crime. Na ocasião em que foi apresentado, os investigadores, que até menos de 24 horas antes trabalhavam com a possibilidade de crime homofóbico e não tinham nenhuma pista do(s) criminoso(s), "revelaram" que um documento de identidade havia sido esquecido no local do crime e levado à localização do culpado: um agricultor que teria tido relações com João, e, depois de um desentendimento e uma briga, o matou por estrangulamento. O laudo oficial do IML diz que não havia fratura.

Assim, mais uma vez vemos um LGBT barbaramente morto, com claros sinais de tortura, com evidentes indícios de crime de ódio. Mais uma vez, esses sinais e indícios são negados pela polícia, descaracterizando a motivação homofóbica do ato. Recentemente, vimos o caso do jovem Kaique dos Santos, que foi encontrado jogado de um viaduto, com os dentes quebrados e uma barra de ferro atravessada na perna, ser oficialmente definido como "suicídio". Ou Lucas Fortuna, militante gay encontrado morto com evidências de espancamento e tortura e que, segundo a delegada responsável pelo caso, morreu em uma tentativa de assalto "porque os rapazes (?!) não são homofóbicos".

Além deles, foram notificados só neste ano de 2014 mais de 200 casos de homicídio de LGBTs. Sempre com marcas de violência excessiva e desnecessária e sempre, sempre, descaracterizados como homofobia pelos investigadores.

O que os cidadãos deste país precisam compreender é que a violência que atinge um, atinge todos, em todas as etapas deste processo: desde a definição do que são o comportamento e a aparência adequados e aceitáveis e a patrulha moral até a invisibilização dos LGBTs e da violência sofrida por LGBTs e a culpabilização das vítimas ("também, quem mandou desmunhecar / se vestir desse jeito / ser abertamente gay / se expor tanto / ir transar com outro homem / etc").

O que os cidadãos deste país precisam compreender é que justificar a violência psicológica e física sofrida por LGBTs é justificar toda sorte de violência sofrida por cidadãos desse país que não se enquadrem no gestual, no timbre de voz, no jeito de se vestir, no jeito de falar, no estilo de vida, na vida afetiva e sexual que se define como padrão. É justificar que moças como Ana de Holanda, atacada no meio da rua no centro do Rio de Janeiro numa manhã de carnaval deste ano, apanhe e tenha sua calcinha arrancada porque estava andando de mãos dadas com a namorada - e sem que nenhum passante, NINGUÉM, tenha feito NADA para interferir. É justificar que meninos como Alexandre Ivo, encontrado morto aos 14 anos após horas de tortura num terreno baldio de São Gonçalo (RJ), tenham sua vida barbaramente abreviada porque alguém se incomodou com o fato de que ele parecia mais afeminado do que o aceitável. É justificar que mães, pais, irmãos, parentes e amigos das vítimas sejam condenados a carregar o fantasma da violência sofrida pela pessoa amada porque alguém julgou e condenou essa pessoa por não ser aceitável segundo os seus padrões.

É por isso que hoje, às 14 horas, estaremos em frente ao Copacabana Palace, na praia de Copacabana, protestando contra a LGBTfobia e pela criminalização da homofobia. Porque a criação de uma lei que equipare a homofobia ao crime de racismo, como crime de ódio, não vai nem fazer com que a homofobia desapareça magicamente da sociedade, nem com que a violência homofóbica deixe de acontecer. Mas vai realizar uma parte do trabalho de educar a sociedade, de esclarecer, de tirar da invisibilidade e do silêncio, de denunciar. Vai fornecer ferramentas legais para reduzir a impunidade desses criminosos. Vai começar a cumprir a obrigação de um regime democrático de proteger suas minorias. E, principalmente, vai contribuir para o fim da barbárie e da violência em que estamos todos, LGBTs, mulheres, negros, integrantes de qualquer outra minoria ou não, imersos. Porque a violência se enfrenta com leis e instituições fortes. Por isso estamos hoje na rua, para clamar por JUSTIÇA para a nossa gente. 

Além do Rio de Janeiro, hoje e nos próximos dias serão realizados atos em várias cidades do país, bem como no exterior. Irmãos, é nosso dever cristão lutar pela construção de um mundo mais justo, em que os pequeninos e desamparados não sejam vitimados pela violência. Basta de homofobia.

Quem vem com a gente?

domingo, 10 de agosto de 2014

Não basta só ser pai

- Desculpe, Jesus, acho que sou gay.
- Relaxa, cara, eu já sabia muito antes de você.

É dia dos pais e sabemos que não existe uma família igual a outra. Cada uma tem uma história, cada pessoa vive uma situação única. Mas uma coisa nos une e irmana a todos: o amor incondicional e irrestrito do Pai Amoroso que está sempre de braços abertos para nos acolher e em quem sempre encontramos um colo receptivo onde repousar nossa fadiga e recuperar forças. Ele tem sempre o Pão da Vida para alimentar os famintos e curar nossas feridas.

"E agora, eis o que diz o Senhor, aquele que te criou e te formou: Nada temas, pois eu te resgato, eu te chamo pelo nome, és meu. Porque és precioso a meus olhos, porque eu te aprecio e te amo, permuto reinos por ti, entrego nações em troca de ti. Fica tranqüilo, pois eu estou contigo." (Isaías 43:1-5)

E, para celebrar a data, compartilhamos aqui mais este lindo vídeo do pessoal do Põe na Roda, de quem a cada novo lançamento nos tornamos mais fãs.


sábado, 2 de agosto de 2014

Os gays e a Bíblia


É no mínimo surpreendente constatar as pressões sobre o Senado para evitar a lei que criminaliza a homofobia. Sofrem de amnésia os que insistem em segregar, discriminar, satanizar e condenar os casais homoafetivos.

No tempo de Jesus, os segregados eram os pagãos, os doentes, os que exerciam determinadas atividades profissionais, como açougueiros e fiscais de renda. Com todos esses Jesus teve uma atitude inclusiva. Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as “pessoas diferenciadas”...).

Relações entre pessoas do mesmo sexo ainda são ilegais em mais de 80 nações. Em alguns países islâmicos elas são punidas com castigos físicos ou pena de morte (Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Nigéria etc).

No 60º aniversário da Decclaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, 27 países membros da União Europeia assinaram resolução à ONU pela “despenalização universal da homossexualidade”.

A Igreja Católica deu um pequeno passo adiante ao incluir no seu Catecismo a exigência de se evitar qualquer discriminação a homossexuais. No entanto, silenciam as autoridades eclesiásticas quando se trata de se pronunciar contra a homofobia. E, no entanto, se escutou sua discordância à decisão do STF ao aprovar o direito de união civil dos homoafetivos.

Ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. A pessoa nasce assim. E, à luz do Evangelho, a Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hétero, e sim como filho de Deus, chamado à comunhão com Ele e com o próximo, destinatário da graça divina.

São alarmantes os índices de agressões e assassinatos de homossexuais no Brasil. A urgência de uma lei contra a homofobia não se justifica apenas pela violência física sofrida por travestis, transexuais, lésbicas etc. Mais grave é a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização.

A Igreja Católica já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem o seu amor por pessoas do mesmo sexo. Ora, todo amor não decorre de Deus? Não diz a Carta de João (I,7) que “quem ama conhece a Deus” (observe que João não diz que quem conhece a Deus ama...).

Por que fingir ignorar que o amor exige união e querer que essa união permaneça à margem da lei? No matrimônio são os noivos os verdadeiros ministros. E não o padre, como muitos imaginam. Pode a teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo?

Ora, direis ouvir a Bíblia! Sim, no contexto patriarcal em que foi escrita seria estranho aprovar o homossexualismo. Mas muitas passagens o subtendem, como o amor entre Davi por Jônatas (I Samuel 18), o centurião romano interessado na cura de seu servo (Lucas 7) e os “eunucos de nascença” (Mateus 19). E a tomar a Bíblia literalmente, teríamos que passar ao fio da espada todos que professam crenças diferentes da nossa e odiar pai e mãe para verdadeiramente seguir a Jesus.

Há que passar da hermenêutica singularizadora para a hermenêutica pluralizadora. Ontem, a Igreja Católica acusava os judeus de assassinos de Jesus; condenava ao limbo crianças mortas sem batismo; considerava legítima a escravidão e censurava o empréstimo a juros. Por que excluir casais homoafetivos de direitos civis e religiosos?

Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados. A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei.

- Frei Betto, via

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Papa: "O Espírito Santo faz a diversidade, mas também a unidade"


Diversidade :-)

O Espírito Santo faz a diversidade, mas faz também a unidade na Igreja: foi o que disse o Papa Francisco durante o encontro da manhã desta segunda-feira na "Igreja Pentecostal da Reconciliação" em Caserta, sul da Itália, aonde foi encontrar o Pastor Giovanni Traettino, seu amigo dos tempos de Buenos Aires e que, como ele, há muitos anos trabalha em prol do ecumenismo. (...)

O Pastor Traettino – que em 1º de junho passado participara do encontro do Papa no Estádio Olímpico de Roma com a Renovação Carismática – recordou o esforço de Francisco ao ir pela segunda vez a Caserta e afirmou: "Com homens como o senhor há esperança para nós cristãos!"

Em seguida, falou da unidade da Igreja fundada em Jesus Cristo. Disse que o centro da nossa vida é estar na presença de Jesus e que a fé é um encontro pessoal com Ele.

Por sua vez, o Papa falou da diversidade que não é divisão e recordou quem é que faz a unidade na Igreja:

"O Espírito Santo faz a diversidade na Igreja e essa diversidade é tão rica, muito bonita; mas, depois, o próprio Espírito Santo faz a unidade. E assim a Igreja é una na diversidade. E para usar uma palavra bela de um evangélico, que amo muito, uma diversidade reconciliada pelo Espírito Santo."

A unidade – observou ainda – não é uniformidade, porque "o Espírito Santo faz duas coisas: faz a diversidade dos carismas, e depois faz a harmonia dos carismas". O ecumenismo é justamente buscar que "essa diversidade seja mais harmonizada pelo Espírito Santo e se torne unidade".

O Pontífice pediu perdão, como pastor dos católicos, pelas leis emanadas no passado contra os protestantes, vez que estas tiveram apoio de católicos.

Em seguida, respondeu aos que ficaram surpresos pelo fato de o Papa ter ido visitar pentecostais. Na verdade, foi restituir a visita que lhe haviam feito em Buenos Aires, disse ele mesmo:

"Alguém estará surpreso: 'O Papa foi visitar evangélicos!' Foi encontrar irmãos! – respondeu (plausos). Porque, na verdade, foram eles que vieram por primeiro me encontrar em Buenos Aires. E isso é um testemunho. Vieram e se aproximaram. E assim começou esta amizade, esta proximidade entre os pastores de Buenos Aires. E hoje aqui. Agradeço muito a vocês, peço que rezem por mim, preciso muito... para que ao menos eu seja melhor. Obrigado! (aplausos)." 

Fonte 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

"Temos que ter paciência, mas o fato de que ele abriu essas portas mostra que a Igreja está querendo realmente ser mais positiva"


Arcebispo emérito de São Paulo, prestes a completar 80 anos, D. Claudio Hummes foi entrevistado no domingo passado, 27/07, pelo jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Fez uma avaliação positiva do pontificado de Francisco, com quem troca cartas e se reúne quando viaja a Roma, falou sobre temas polêmicos e disse confiar que o Papa fará reformas necessárias na Igreja, pedindo paciência.

Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui. A seguir, alguns trechos que selecionamos:


Que avaliação o senhor faz desses 16 meses de pontificado de Francisco?

Muito positivamente. Todos sabemos que ele foi um grande presente para a Igreja. É de uma vitalidade, de uma capacidade de sentir, de viver a realidade, de se aproximar das pessoas e de entrar na vida delas. Ele tem um carisma extraordinário e um grande amor aos pobres. Para ele, é fundamental que a Igreja consiga ir às periferias, ir até os que estão fora de todo o grande processo humano, que progride. Na escolha do nome, ele afirma isso, porque São Francisco de Assis é o homem dos pobres, da paz e da ecologia. (...)

O que há em comum, além do nome, entre Francisco de Assis e Francisco de Roma?

Há muita coisa em comum. Em Buenos Aires, Bergoglio estava presente nas favelas e tinha um trabalho muito grande, de muitos anos ali. Sempre digo que o Papa encontrou sua identidade. Não que ele começasse a partir daí a ser Francisco. Ele já era Francisco antes e aquilo deu um clique. O seu passado era isso, embora fosse jesuíta. É um homem profundamente dedicado aos pobres.

Bergoglio, como São Francisco de Assis, tem a missão de reparar uma "Igreja que está em ruínas"?

Claro. Ele nunca sublinhou isso, mas ele conhece essa frase e, certamente, isso o desafia muito.

Como será essa reconstrução?

Ele diz que a Igreja precisa de reforma. E essa é uma palavra muito forte na Igreja. Por causa da Reforma Protestante, acabou se tornando uma palavra de muito peso. Mas ele usa essa palavra, e diz que a Igreja precisa de reformas não apenas das estruturas institucionais, mas no que há de humanamente ultrapassado nela e nos novos desafios. Ele diz que essas reformas foram pedidas pelos cardeais, naqueles três dias de reuniões antes do conclave. Muitas coisas foram sugeridas. O Papa já está fazendo essas reformas, a começar pelo banco do Vaticano e pela Cúria.

Quais outras reformas pediram?

Que houvesse mais colegialidade, que os bispos fossem mais convocados a ter voz no governo universal da Igreja. O concílio já tinha dito isso, só que, depois, aos poucos, foi-se centralizando tudo em Roma. Muitas coisas podem ser resolvidas pelos episcopados locais, pelos tribunais eclesiásticos locais. Não precisa ser tudo atribuição da Cúria Romana, que vai centralizando, e a gente sabe que essas coisas são automáticas. Para você controlar tudo, você centraliza tudo. O Papa quer uma Igreja mais missionária, capaz de derrubar muros e construir pontes. Ele diz que nós fizemos muralhas e as pessoas não conseguem mais entrar na Igreja. Não são apenas leis que devem ser reformadas, mas a própria maneira de ser da Igreja e de fazer evangelização.

Existe a possibilidade de mudanças em questões como celibato, divórcio, homossexualidade e ordenação de mulheres?


Algumas coisas ele já indicou claramente que não tem como mexer, como o aborto, porque se trata de eliminação de vidas humanas. Sobre o celibato dos padres, já disse que não é um dogma e, portanto, a Igreja pode repensar. Mas isso ainda não entrou em discussão. O que está agora em pauta é a questão da família, e aí entram temas como os casais de segunda união, essa problemática dos tipos de família e aquilo que as leis começam a chamar de família. E também como dar apoio às famílias para que elas possam viver o evangelho dentro de uma sociedade secularizada. Foi enviado um grande questionário, e aí está uma outra novidade dele, porque ele insistiu que esse questionário — que já foi respondido — também fosse entregue aos leigos. Em outubro, terá o sínodo extraordinário que vai tratar dessa questão. e, em outubro do ano que vem, o ordinário.

Um pedido recorrente do Papa é para que rezem por ele. O senhor acha que ele vai encontrar resistências para fazer as reformas?

Certamente, perplexidade. Não diria resistência explícita, pública, talvez um pouco de resistências por baixo. Isso é humano. Mas o Papa diz que também quer ouvir quem não concorda, porque isso nos faz pensar, ter mais luz e equilíbrio nas soluções. (...)

Algo mudou na Igreja depois das declarações de Francisco sobre os homossexuais? Se um casal homoafetivo procurar uma paróquia, poderá receber os sacramentos ou ser padrinho em um batizado, por exemplo?

Não sei como estão agindo na realidade prática. O Papa disse uma palavra muito importante: "Se um homossexual busca Deus, quem sou eu para julgá-lo?" A pessoa tem de ser respeitada. Se ela tem uma orientação homossexual, o que isso significa na vida dela? Ela, na verdade, tem de viver dignamente a sua vida. Nessa questão do batizado, não sei como os bispos estão aplicando isso, porque, em si, não tem nada a ver com isso, a não ser que fosse um pecador público, digamos assim, que fosse uma pessoa complicada nesse sentido. O padrinho é aquele que deve ajudar a educar religiosamente, e uma pessoa que tem uma orientação sexual poder ser um santo. Se ele vive o evangelho, dentro das suas condições, ele pode ser um santo. Em tese, não tem nada contrário.

O Papa dá declarações de acolhimento, mas as normas da Igreja são excludentes. Como o senhor vê a questão?

Claro, a gente tem de ir devagar. Não se faz tudo de um dia para o outro. Por isso que o Papa apela: "Temos de pensar juntos, temos de discutir juntos" para chegar a ter, de fato, uma orientação que vá ao encontro das pessoas e daquilo que Jesus Cristo nos ensina. A gente não deve ter pressa. É a Igreja quem tem que indicar o caminho e não a pessoa individual querer fazer reformas. Então, temos que ter paciência, mas o fato de que ele abriu essas portas mostra que a Igreja está querendo realmente ser mais positiva nessas questões.

Se Jesus vivesse hoje, ele seria a favor do casamento gay?

Não sei, não faço nenhuma hipótese sobre isso. Quem deve responder isso é a Igreja em seu conjunto. Temos que cuidar para não ficar levantando questões individualmente, porque isso acaba criando mais dificuldades para a gente chegar numa conclusão que seja válida. Acho que a gente tem que se reunir, ouvir as pessoas, os próprios em jogo, os bispos. É a Igreja que deve indicar os caminhos, e deve haver caminho para todos. (...)

A Igreja Católica vem perdendo, em média, um ponto percentual de fieis ao ano no Brasil. O que explica esse fenômeno e como estancá-lo?
Há muitas razões. O povo que migra da Igreja Católica para as pentecostais, protestantes, evangélicas tem as suas razões. É preciso ouvir e analisar o porquê. Acho que tem a ver com a busca de soluções de problemas graves na vida, pois têm pessoas que sofrem com a falta de assistência em saúde, por exemplo. Então, elas vão buscar curas por bênçãos, exorcismos, porque há quem diga que a doença seja fruto do demônio. O povo que não tem recurso busca em qualquer lugar o mínimo de esperança. Poder ser também que tenham ficado desiludidos com a falta de atenção e de acolhimento dentro da Igreja Católica. Nós nos perguntamos se não estamos muito distantes das pessoas. Certamente, um dos motivos é que a Igreja ficou esperando muito as pessoas virem até ela e não foi ao encontro das pessoas.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Gratidão, apenas

Realização, simplesmente

Não tenho palavras para expressar a alegria e a gratidão que sinto neste momento. Há seis anos o Diversidade Católica se tornou o meu caminho e os seus membros, meus irmãos e companheiros de jornada. As emoções que experimentamos ontem ao comungarmos da nossa fé e da luta por um mundo mais justo e mais livre, onde as diferenças sejam verdadeiramente celebradas e a singularidade de cada um, reconhecida como um tesouro inestimável a proteger e partilhar; as palavras que dissemos e ouvimos, cada uma delas uma pérola preciosa e insubstituível; e cada gesto, cada olhar, cada sorriso, cada lágrima, cada abraço, cada encontro e reencontro com os amigos próximos ou distantes que, mesmo espalhados por este Brasilzão afora, seguem unidos no afeto e irmanados pelos ideais comuns — deixaram em mim uma marca que nunca vai se apagar. Vocês estão gravados na minha alma e no meu coração e serão para sempre uma parte inseparável de quem eu sou e virei a ser.

E, neste momento histórico da fundação da Rede Nacional de Católicos LGBT, mais que nunca sinto vivo e presente em minha vida o amor irrestrito e incondicional de um Pai/Mãe que nos conduz em nossa caminhada e nos conhece e guarda na palma de sua mão. Que possamos seguir atentos à Sua luz e à Sua Palavra, que vibra e pulsa na vida de cada um dos nossos irmãos. Porque somos todos sagrados, e tudo aquilo que somos é dom e uma bênção.

Todo o meu afeto e gratidão à Juliana, Murilo, Luís (porque, como disse o Riomar, você chora. E como chora rs), Pedro , Simone, Raphael, Rodrigo, Beto, ao incansável Pyter, Valéria, à fundamental Rosilene (Patricia, o presente de vocês já está aqui embelezando a nossa casa!), o impagável Sergio, Arnaldo e Riomar, Rafael, Francisco, Rodolfo, Deyvid, Humberto, Ruann, Silvana, Ketrim, Bruno (irmão e padrinho), Vagner, Leo, Paulo, Antonio, Alan, Aline, Henrique, Michelle, Newton, a ovelha primeira, Diva, e ao Diogo e ao Felipe... E ao Geraldo - por tanto, mas também pelas catacumbas.

Ao Calviin, que quase me matou de emoção; ao imprescindível Ciro e ao Felipe; ao Lula, Daniel, Rômulo, Lucas, Leonardo, ao lindo Tyago e aos doces Edilson e Lucas; ao irresistível Acir; ao Márcio, ao Dyego e à Gabriella; ao Uéles, ao Egidio, ao Lipe, ao Assis, com os quais tenho tanto a aprender; e ao Washington e ao José, ao Degles, ao Deyvson e ao Luiz, que mesmo longe nos iluminaram com sua presença e suas palavras. E ao Joceni e à Amanda, que sempre nos aquecem com sua amizade.

E ao João, meu irmão de alma.

A todos e cada um de vocês, meu amor, meu trabalho, minhas mãos e meu coração.

Nossas vozes, espalhadas pelo Brasil afora


Passado o "Tua Fé te Salvou": I Encontro Nacional de Católicos LGBT, enquanto vamos absorvendo o impacto de seus primeiros frutos - a formação da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT e a divulgação de seu manifesto - e nos preparamos para o trabalho que virá, aproveitamos para compartilhar aqui alguns depoimentos sobre o evento. Para quem quiser, fizemos também um álbum, com fotos e outros comentários, registrando um pouco da história dessa jornada (veja aqui).

"Acho que vou demorar em assentar o acontecido neste dia. Só que veio uma certeza nesta noite quando caminhava de volta pra casa: que eu acho que foi o Cristo Redentor que lhes ensinou a abrir os brazos e a abrazar ao mundo, como este é. Seguirei rezando por vocês assim como que tenho a certeza que vocês o fazem pelo mundo e por nós. Obrigado por me fazer parte de esta VIDA COMPARTILHADA."

- H. (MG/México)


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"Por mais que eu cate as palavras cá dentro, elas insistem em continuar sussurando um pouco mais no coração, sem me deixar dizer muita coisa, ainda fervilhando e sendo processadas nesse monte de emoções e felicidades que foi o “Tua fé te salvou”: I Encontro Nacional de Católicos LGBT, no dia de hoje. Tudo o que tenho a dizer por hora é "obrigado". Obrigado a todos os meninos do Diversidade Católica, pelo encontro que construímos, um dos frutos dessa trajetória bonita trilhada desde 2006. Obrigado a todos os membros dos grupos que participaram do encontro, que a partir de hoje compõem a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT. Obrigado por fazerem essa história de mudança acontecer. Obrigado por serem para mim - e permitirem que eu seja para vocês - a Igreja que queremos ver no mundo.

Deus abençoe e anime a nossa luta e caminhada. E parafraseando um amigo muito querido que esteve entre nós hoje: que não deixemos, jamais, que alguém tire de nós aquilo que temos de mais sagrado: o saber que somos sagrados. Amo vocês."

- Murilo (BA/MG/RJ)




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É com profunda alegria que penso nesse fim de semana tão marcante, cheio de histórias incríveis e pessoas inesquecíveis. A fundação da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT é para mim não apenas um passo ou uma conquista, mas a materialização da imensa alegria que advém do Evangelho.

Desde o Vaticano II nós cremos em uma Igreja – Povo de Deus que caminha com toda a humanidade rumo ao Reino, uma Igreja guiada pelo Espírito, que a impulsiona e renova constantemente sem nunca deixar se enclausurar. 50 anos e muitas incertezas depois, recebemos a graça da eleição do Papa Francisco, que foi para cada um de nós uma grande luz, aquecendo os corações frios e iluminando caminhos que já não acreditávamos que existiam.

Nós estamos deixando pra trás uma Igreja fechada, saudosista, obsessivamente moralista, envelhecida, triste, e monolítica e estamos vivendo uma nova Igreja: aberta, dialogante, jovem, vibrante, que se arrisca sem medo de acidentar-se, fundamentada na Boa Nova salvífica de Jesus, uma Igreja que sai às ruas, presidida na Caridade, atuante como hospital de campanha e que respeita os diversos. É a Igreja de Medelín e Aparecida, de Dom Paulo, Helder Câmara, Martini, Romero, Tereza, Dulce e tantos grandiosos santos e santas!

Por isso minha alegria com nossa Rede, porque as mudanças na Igreja não vêm exclusivamente de cima. Vêm do seu povo, da sua base, onde passeia o Espírito. Leigos, pobres, mulheres, gays, excluídos, a cada um de nós cabe à tarefa de renovar a Igreja partindo sempre do Evangelho!

Agradeço a Deus pela vida de cada um que esteve no Encontro, presente fisicamente, virtualmente ou em orações. Agradeço por todos que já caminharam conosco e pelos muitos que ainda chegarão!

Meu obrigado imenso (...) ao Bom Deus que permitiu isso tudo!

Amém! Aleluia!"

- Lucas (SP)


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Bom dia família! Gostaria de partilhar minha satisfação e alegria de estar com vocês neste maravilhoso evento. Confesso que mesmo participando no DC estava decidida a desistir de uma vivência mais engajada na igreja. Minha paróquia passa por uma grande crise e estou desgastada das picuinhas e bla bla blas paroquiais que não levam a nada. Ter estado com vocês me fez não sei se mudar de ideia, mas não desistir totalmente, aguardar o tempo certo para agir e não desistir de agir, porque a semente que eu plantar hoje futuramente será colhida - e é somente isso que importa, da mesma forma que hoje eu colho frutos plantados pelos pioneiros em nossa causa. Gratidão por existirem e fazerem parte de minha vida!! De fato, hoje vejo-me como Lázaro, saindo do sepulcro depois de tanto tempo morta, e certamente o DC tem uma enorme parcela nisso. Gratidão por TUDO!! Amo vocês!

Conhecer este grupo foi experimentar um abraço de Deus q sempre tive desejo imenso de experimentar e buscava há tempos... sou imensamente encorajada a continuar cada vez que lembro que o DC existe. Isso é muito bom pra mim pois me dá sopro de vida!!

- Aline (RJ)


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“Perguntaram o motivo de eu me envolver com um grupo católico para a inclusão LGBT na Igreja. Nunca tive que enfrentar problemas causados pela minha sexualidade na família, na escola/universidade, entre amigos, no trabalho...

Mas me engajo pelas meninas lésbicas que são estupradas DIARIAMENTE, pelos meninos e meninas que se suicidam por não serem aceitos, pelas vítimas físicas da intolerância, pelos adultos esquizofrênicos por não se aceitarem como são... 
Por eles e por causa deles estou no Diversidade Católica. O que é quase um masoquismo, já que acender luzes em uma instituição que ainda é medieval em vários setores é dar porrada em ponta de faca. Mas, talvez até por isso, estou lá. Adoro desafios.
Este documento é o primeiro fruto de um encontro nacional no último fim de semana. E este documento me ajuda a fazer um outing (pra mim mais difícil que o outro outing): sim, eu sou do Diversidade Católica.

Beijos."

- Sergio (RJ)


* * *
A vida é engraçada, muito engraçada. Ela nos tira coisas e pessoas e, ela mesma, trata de colocar coisas e pessoas nas nossas vidas, não substituindo o que foi tirado, mas como que compensando a perda mostrando que muito de bom ainda não nos era conhecido. O encontro nacional de católicos LGBT que participei este fim de semana, no Rio de Janeiro, foi surpreendente. Fui para coletar dados e como forma de conhecer melhor outras realidades para minha pesquisa de mestrado, mas lá me deparei com uma infinidade de vidas diferentes e que se encontravam em um ponto: A fé e o amor pela igreja. Os momentos vividos nesse fim de semana marcaram e marcarão ainda, por um bom tempo, a vida de quem lá estava. Aos novos amigos deixo o meu carinho, abraço e a vontade de ajudar na busca de uma sociedade mais justa e igual. Aos novos amigos deixo a minha disponibilidade em propagar a luta de cada participante do encontro e o desejo de dias melhores e de uma igreja mais humanizada, aberta aos sinais do tempo. A tod@s fica a minha voz, aqui no RN, como a voz de todos que estão espalhados pelo Brasil todo, animando e encorajando uns aos outros. Beijo na alma de todos e #Avante!
 
- Assis (RN)


* * *

"O dia de hoje foi de silêncio e ação de graças. Silencio para ainda deixar ecoar em mim os sentimentos de alegria, fraternidade e amorosidade, vividos ontem no 1º Encontro Nacional de Católicos LGBT. A ação de graças por poder amar a Deus nos meus irmãos no grupo católico Diversidade Católica e poder expandir este amor. Agradeço a todos que me acolheram no DC em especial Cristiana e Juliana, que foram as primeiras neste acolhimento, numa noite de vigília Pascal (Aleluia). Agora novos desafios, e conquistas estão por vir com a Rede Nacional, graças a Deus! Com fé, alegria e amor, vamos seguir. Deus é bom!

'... E há algo que tudo supera: a perfeição consiste no amor e no conhecimento de Deus, e a amizade está junto dela como uma espécie de escada — de modo que o homem, de amigo do homem, sobe um infinito degrau e se torna amigo de Deus, conforme diz o Salvador no Evangelho: Já não vos chamo servos, mas amigos' (Elredo de Rievaulx)."

- Rosilene (RJ)
 

 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Manifesto de Grupos Católicos LGBT do Brasil




Quem acompanha nosso blog ou nossa página no Facebook sabe que aconteceu neste dia 26, no Rio de Janeiro, o I Encontro Nacional de Católicos LGBT, reunindo, além do Diversidade Católica do Rio de Janeiro, que promovemos o evento, nossos grupos-irmãos que se reúnem nas cidades de São Paulo (Grupo de Ação Pastoral da Diversidade), Brasília, Recife/Olinda (Pastoral da Diversidade - Pernambuco), Belo Horizonte, Curitiba (Diversidade Católica do Paraná - DCPR) e Ribeirão Preto (Diversidade Católica de Ribeirão Preto (SP) e Região - DCRP), além dos núcleos em formação em Itajaí (SC), Anápolis (GO) e Passos (MG).

Os representantes desses grupos aproveitamos a oportunidade para trocar ideias a respeito das dificuldades com que nos deparamos e possibilidades de ação em nosso trabalho pelos LGBT em geral e, especialmente, na Igreja Católica Romana. Ao longo das próximas semanas, vamos compartilhar aqui algumas das reflexões nascidas desse diálogo. Porém, de imediato já nasceram dois frutos do nosso encontro: a articulação da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT, composta pelos grupos lá representados e aberta aos novos que virão; e a redação de nosso manifesto, em que apresentamos, em linhas gerais, os princípios que norteiam nossa ação e nossa contribuição para que a cidadania LGBT contagie a Igreja.

Convidamos tod@s a ler, refletir, compartilhar, divulgar e debater por aí.

E seguimos juntos em nossa caminhada, invocando a intercessão de Maria, o abraço protetor e amoroso do Pai, a companhia e amizade do Cristo e a luz inspiradora do Espírito Santo.

Equipe Diversidade Católica


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domingo, 27 de julho de 2014

O amor vencerá



Queridos amigos divers@s!

Aconteceu! Neste dia 26 de julho foi parido o nosso
I Encontro Nacional de Grupos Católicos LGBT. Um filho gerado há alguns meses e tão aguardado, nasceu e foi lindo. A ansiedade do preparo do enxoval foi a típica de quem espera alguém que não sabe como vai sair mas que já ama com todo o seu ser. Fruto do amor, esperado com todo o carinho do preparo, naqueles meses que antecediam sua chegada, e enfim... nasceu!!!

Um fato bastante emocionante durante este encontro, foi que em 8 anos da história de existência do grupo, pela primeira vez, tivemos entre nós a presença de uma pessoa representante dos "T".

M. é travesti, professora, psicóloga, feliz, filha de Deus e tão amada por Ele quanto qualquer outro ser humano, a obra mais perfeita da criação.

Foi emocionante ter a presença de M. em nosso meio porque naquele momento em que ela se pronunciava eu me lembrava do momento em que eu assumi pra mim mesmo que era gay e assumi que eu não poderia mudar isso em mim. Eu acreditava (mesmo antes de conhecer o DC) que se eu era assim então foi Deus que me criou assim, logo eu não poderia mudar em mim os planos de Deus. Me afastei da religião e não de Deus. Pois Deus não me condenava, mas eu acreditava que a religião sim. Fui me afastando dos meus trabalhos pastorais, pois mesmo tendo a certeza que ser gay não era uma escolha e sim a vocação para o qual fui chamado, eu me sentia um hipócrita por estar na igreja e não viver o que as pessoas naquela doutrina me diziam que era correto.

Eu me afastei da minha religião, por achar que ela me condenava. Mas mesmo assim este afastamento não foi total, vez ou outra lá estava eu sentado na missa, saboreando a palavra de Deus, o que não me deixava desanimar e enfraquecer totalmente ao ponto de me entregar. Pra mim era muito cômodo: Sou gay, mas ninguém sabe que sou gay. Se eu não contar ninguém vai me apontar o dedo, julgar ou me limitar nos espaços físicos da igreja.

E digo para vocês, mesmo assim era muito difícil viver assim. Mesmo assim era um processo desgastante estar ali, mesmo sem estar sob os olhares de acusação, mas o sentimento de culpa fazia com que eu achasse que todos estavam me olhando, julgando e condenando.

Agora vamos às analises dos fatos. Se eu, que passava despercebido sob os olhares acusadores dos homens da nossa sociedade que constituem nossa igreja, me sentia tão abandonado naquele meio. Imagina pros nossos irmãos e irmãs da classe T da sigla que nos define. Passava despercebido porque eu não assumi a minha homossexualidade em minha comunidade, então eu era apenas mais um na multidão. Mas Travestis, Transsexuais e Transgêneros, pela coragem que têm de assumir quem realmente são e adotar para si o estilo de vida que os fazem feliz, não conseguem passar despercebidos. Creio eu que um T quando passa por este conflito de poder ou não ser católico e ser quem realmente é, e opta por ser feliz vivendo da forma que foi criado para viver, ao se afastar da Igreja, ten seu afastamento total desta Comunidade. Para evitar sofrer com os olhares acusadores que os cercam. Eles não conseguem ser apenas mais um na multidão.

Receber M. em nosso I Encontro Nacional de Grupos Católicos LGBT foi um momento de muita alegria e ao mesmo tempo de reflexão sobre o tema "Avancemos para águas mais profundas". A própria M. em seu discurso nos relatava o que não seria novidade para nós, que muitas de suas amigas quando se descobrem e se aceitam deixam de ser católicas por não se sentirem acolhidas por Deus.

Deixam de ser católicas? M. tem grande dificuldade, no começo de sua fala, de se dizer católica. Por que?

M. e toda a comunidade de Travestis, Transsexuais e Transgêneros são criaturas de Deus, criada por Ele única e exclusivamente. Amados por Ele de forma incondicional. Batizados, são chamados e aceitos pela Igreja como filhos de Deus. Ora, não é o batismo um sacramento de caráter indelével na alma? Então nenhum batizado deixa de ser filho de Deus, nem por opção, nem por qualquer tipo de condenação.

Assim como M. tantos outr@s T, estão por aí se dizendo não mais católicos. Assim como ela tantos outr@s precisam ser lembrados do amor incondicional de Deus. Precisamos continuar buscando evangelizar nas periferias da nossa sociedade, onde pessoas estão se esquecendo que Deus é apenas Amor. Precisamos ir em busca dos que estão sendo convencidos, erradamente, de que Deus seleciona seus filhos amados. Precisamos ir em busca dos que ainda precisam saborear Deus, não apenas ouvir falar nEle. Precisamos arriscar viver por Amor.

 "O amor vencerá!"

Cabo Frio, 27 de janeiro de 2014, DG, 28 anos, membro do Diversidade Católica do Rio de Janeiro.
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