sábado, 13 de agosto de 2011

Paixões

Ilustração: weheartit

Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício - acho medonho alguém viver sem paixões.

- Graciliano Ramos

Essa manga é rosa?


Um belo texto do nosso amigo Eduardo da Amazônia, datado de 29 de novembro de 2008:

Curiosidade de heteros, desconfiança de lésbicas e gays de análises apuradas e sentidos antenados. É assim geralmente o caminho que um homem perpassa quando está sendo descoberto ou descobrindo-se homossexual. Pode ou não ter se relacionado com uma pessoa do mesmo sexo: com o vizinho, o primo, o colega do irmão... ou pode simplesmente ter segurado o fôlego ao ser atendido por um belo garçom num barzinho a beira do ver-o-rio ou suspirado ao ver o sarado rapaz que tradicionalmente corre todas as tardes na Praça Batista Campos. Pode até dar uma disfarçada tomando um tacacá, flertando-o por cima da cuia, mas por todo corpo começa a circular uma gostosa energia.

Essa energia começa a fazer bater o coração mais forte, vibrante como a multidão de pessoas que nos dias de Remo e Paysandu no mangueirão balançam a arquibancada do estádio ou dos/as “pavuleiros/as” nos domingos de junho dançam, pulam e cantam na Praça da República. E por falar nisso, me lembrei com o Teatro da Paz que também tem certa semelhança com os gays: alguns têm o privilégio de conhecer por dentro, outros não e até mesmo tem alguns que não fazem questão de ver e já se contentam com o que viram por fora. Os porquês são outras histórias que não nos cabe no momento.

E se na missa das 18hs na Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, logo na entrada você recebe aquele olhar... e no abraço da paz, recebe um toque no ombro e ao virar ganha um gostoso e apertado abraço! Fica confuso com medo de estar a pecar, mas logo se lembra das palavras de Jesus dizendo: “Eu vim para que todos tenham vida em abundância” (Jo 10,10); e alivia quando se lembra: “Cristo nos libertou para que sejamos verdadeiramente livres...” (Gl 5,1). E no final da celebração, um cumprimento e um escondido papel passado pelas mãos contendo número de telefones, MSN, orkut e uma frase: “te espero terça-feira às 19hs na Casa das Onze Janelas”.
Chega em casa fica com medo, confuso, bebe um pouco de suco de cupuaçu e rever o bilhete que estava em seu bolso. Esconde rapidamente antes que alguém veja e corre para o quarto, cobrindo-se do frio que a chuvinha lá fora traz e fica pensativo: flertes, o garçom, o abraço, o bilhete...

Atrasado e correndo atravessa frente à Igreja da Sé, onde logo avista aquele que o espera e logo caminha em sua direção. Num abraço forte e pedindo desculpas pelo atraso, inicia a conversa de apresentação. Olhar sério, sorrisos e a água da Baia do Guajará batendo na margem embala a noite. A hora avança e as pessoas já começam a se dispersar e apesar de morar em Icoaraci, quer permanecer, parecendo não estar preocupado com o horário ou não. Olha para um lado e outro e não vê mais ninguém e mal vira a cabeça em direção ao garoto e é surpreendido com um beijo roubado. Facilita até para o assaltante atravessando seus braços sobre suas costas num abraço, acariciando-o com suas mãos. Sobre o céu da Amazônia, carícias proibidas trocadas no desejo de viver intensamente este momento como se fosse o último.

Se esta manga é rosa? Isto eu não sei, só sei que em Belém do Pará “a medida do AMOR é AMAR sem medidas”. Escondido ou não: experimente! Descubra-se como alguém que merece e deve ser feliz. Quem sabe não irá descobrir que a chuva das duas pode ser diferente...

- Eduardo da Amazônia (@EduAmazonia)
Reproduzido via blog do autor.

Um pouco de história: a invenção do papado

Grafite: Bansky

Em 1059, foram mudados os critérios de eleição do bispo de Roma. A partir dessa data, esse escolhido também passaria a ser o Pontífice Máximo de toda a Cristandade.

A análise é de Giacomo Todeschini, professor de história medieval da Universidade de Trieste, na Itália, em artigo publicado no jornal Il Manifesto, 30-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.

Eis o texto.

No dia 13 de abril de 1059, um bispo de Roma, eleito há poucos meses, e que ninguém ainda considerava como "o papa", Nicolau II, nascido Gerard de Bourgogne, bispo de Florença, convocou em Roma, em São João de Latrão, uma reunião sinodal durante a qual se estabeleceu de uma vez por todas que apenas os cardeais reunidos em conclave podiam eleger o bispo de Roma, e que este seria o Pontífice Máximo de toda a Cristandade. A decisão dessa elite consagrada tomou forma e se difundiu por meio de uma bula de Nicolau II, a In nomine Domini.

Essa solene decisão deu início ao processo de separação definitiva da Igreja do mundo dos poderes soberanos seculares europeus. A partir de 1059, o arquipélago das Igrejas europeias começou a se tornar a "Igreja" e a ter o seu centro indiscutível em Roma, na pessoa do Papa.

Uma figura ambígua
O período histórico durante o qual ocorreu essa mudança, que produziu depois, ao longo do tempo, um efeito avalanche de enormes proporções, também é politicamente problemático. O poder do bispo de Roma havia sido, durante séculos, um poder muito frágil, muito menos significativo do que o dos imperadores romanos estabelecidos em Constantinopla, e também do poder que os imperadores romanos do Ocidente, de Carlos Magno a Oto III, haviam reivindicado e parcialmente obtido.

As Igrejas ocidentais e orientais tinham entendido o papel do sucessor de Pedro em Roma em termos políticos de um primado compartilhado com o que os patriarcas e bispos, da Europa aos territórios bizantinos, exerciam em todos os casos, reconhecendo a supremacia dos imperadores sentados no trono que havia sido de Constantino.

Entre Roma e a área franco-germânica dos imperadores do Ocidente, sobretudo, o equilíbrio havia sido muito delicado, pelo menos desde que, no século IX, os soberanos da dinastia carolíngia haviam começado a exercer sobre o bispo de Roma um poder em partes iguais de proteção, defesa e controle. No século X, quando o título imperial havia sido passado para a dinastia germânica dos Oto, a relação entre a casa imperial e o episcopado romano havia se tornado ainda mais estreita.

A questão era complicada pelo fato de que a eleição do bispo romano, figura ambígua, de um lado ligada a um território bem definido, mas, de outro, simbólico representante do carisma universal de Pedro, era muito ambicionada pelas famílias nobres romanas, que muitas vezes conseguiam assentar sobre o trono episcopal um membro dos seus clãs.

O partido dos reformadores
A eleição de Nicolau II também havia ocorrido nesse clima conflitual. Ela havia sido, substancialmente, o fruto de um confronto explícito entre duas facções: uma, encabeçada pelo conde de Túsculo, poderosa família romana, e por uma parte do clero romano, que tinha eleito seu próprio candidato, João dos Condes de Túsculo, com o nome de Bento X; a outra, apoiada pela imperatriz alemã Agnes, filha do duque da Aquitânia e de Agnes de Borgonha, regente em nome do seu filho, o futuro imperador Henrique IV, do duque de Lorena e do partido eclesiástico "reformador", ou seja, contrário ao controle das famílias romanas sobre o Sólio de Pedro, que, ao contrário, tinha eleito Nicolau II.

A batalha foi travada dentro de poucos meses entre Siena, Florença, Roma e o palácio imperial alemão, onde reinava a imperatriz Agnes, de 34 anos (ela morreria em 1077, como penitente reclusa em um mosteiro romano, depois da submissão do filho imperador ao Papa Gregório VII). A eleição de um conde de Túsculo a bispo de Roma com o nome de Bento X, em 1058, foi velozmente seguida pela contraeleição de Nicolau II, em virtude dos apoios políticos superlativos que o seu partido desfrutava.

O prestígio constituído pelo apoio de uma imperatriz de grande estirpe e do senhor de Lorena teve uma ressonância e uma convalidação totalmente especial pelo fato de eles serem apoiados pelo grupo de intelectuais monges e bispos que, de Pedro Damiani, de Ravena, a Humberto de Moyenmoutier (ou de Silvacandida), de Lorena, formavam o grupo dos "reformadores", ou seja, compunham o partido eclesiástico franco-italiano intencionado, com bases canônicas e teológicas, a distinguir o carisma apostólico do senhoril, na perspectiva de estabelecer o primado do poder sacerdotal sobre o senhoril, régio ou imperial dos poderosos seculares.

Uma elite sacerdotal
A eleição de Nicolau II e a subsequente deposição e excomunhão de Bento X foram, portanto, tanto o efeito de uma vitória da aliança entre soberanos de porte internacional e intelectuais eclesiásticos fortemente comprometidos em sentido teórico e projetual, como também a premissa de uma consolidação do poder carismático dos eclesiásticos reunidos em torno da figura do bispo romano, em si só já potencialmente polêmico com relação ao vínculo que tradicionalmente unia o episcopado romano às famílias dos imperadores e da grande nobreza europeia.

O primeiro e mais vistoso sinal da tensão que os "reformadores" instaurariam entre Roma e os soberanos do Ocidente se manifestou, com efeito, ainda poucos meses depois da eleição e da consagração de Nicolau II, ocorrido no dia 24 de janeiro de 1059. Na bula In nomine Domini, de fato, o papa recém-eleito decretou, com base daquilo no que os teólogos reformadores haviam elaborado, que o bispo de Roma, o papa, poderia agora ser eleito apenas pelos bispos cardeais e com o voto adicional dos cardeais não bispos, de modo que o "povo" e o resto do clero fosse capaz, depois, de aprovar essa escolha, sem, porém, que essa faculdade pudesse significar um direito de se intrometerem na questão.

A eleição do pontífice, portanto, passaria a se referir exclusivamente a uma elite sacerdotal, a cardinalícia, enquanto o resto do clero e o povo teriam nessa liturgia um papel secundário e passivo (“religiosissimi viri praeduces sint in promovenda pontificis electione, reliqui autem sequaces”).

Ao mesmo tempo, o texto da bula de Nicolau II especifica que só é elegível quem pertencer ao âmbito eclesiástico romano ou europeu, e que, portanto, todo eleito que não tenha sido, por sua vez, anteriormente consagrado como sacerdote não poderá, por consequência, ter acesso ao cargo de pontífice.

Esses aspectos do documento estabeleciam, em suma, que os poderes soberanos seculares não tinham mais nenhum direito explícito e formal de participar da eleição dos pontífices e que, ao mesmo tempo, nenhum fiel desses poderes podia se tornar pontífice se não tivesse sido antes consagrado e reconhecido pela hierarquia eclesiástica de obediência romana.

A "reverência" da Igreja com relação ao imperador (o futuro Henrique IV) não implicava mais um direito automático seu de escolher quem devia se tornar bispo de Roma, mas, ao contrário, sublinhava a dependência do seu poder ao sacerdotal: o papa deverá ser eleito "do seio da Igreja de Roma, se for considerado idôneo; senão, que seja tomado de outra Igreja. Salvo a devida honra e a reverência ao nosso dileto filho Henrique, que agora é chamado de Rei e que esperamos que seja, com a ajuda de Deus, futuro imperador, como o concedemos, e aos sucessores dele que pessoalmente pedirão esse privilégio a esta Sé Apostólica".

Do lado de Satanás
Em um parágrafo subsequente, indiretamente, se começava a afirmar o princípio da supremacia da Igreja de Roma sobre outras Igrejas, sublinhando, ao mesmo tempo, que essa supremacia também era a origem da maior autoridade e influência da Igreja romana com relação aos poderes soberanos seculares. Esse duplo conceito, que se afirmará plenamente a partir do pontificado de Gregório VII, menos de 20 anos depois, por volta de 1075, é expresso aqui na forma de uma condenação muito violenta de todos aqueles que não querem se submeter às decisões do sínodo lateranense de 1059.

Estes, resistindo ao decreto de Nicolau II em relação a uma eleição definida como "incorruptível, genuína e livre", por ser reservada aos graus mais altos do clero, virão a se encontrar do lado de Satanás e fora da Cristandade, entendida nesse ponto como um Corpo social, ao qual, para dele pertencer, se torna decisivo se reconhecer nas tomadas de posição da Corte pontifícia romana.

"Mas se alguém, contrariamente a este nosso decreto promulgado no sínodo, for eleito, ou considerado, ou assentado no trono por meio da revolta, da temeridade ou de qualquer outro meio, seja por todos acreditado e considerado não como Papa, mas como Satanás, não apóstolo, mas apóstata, e com perpétua excomunhão por autoridade divina e dos santos apóstolos Pedro e Paulo, junto com os seus instigadores, partidários e seguidores, seja expulso e rejeitado das portas da santa Cristandade de Deus como Anticristo, inimigo e destruidor de toda a Cristandade. E não lhe seja dada nenhuma audiência a esse respeito, mas, perpetuamente, seja privado da dignidade eclesiástica de qualquer grau que tenha sido. Com a mesma sentença seja punido qualquer pessoa que esteja do seu lado ou lhe render homenagem como a um Pontífice, ou presumir defendê-lo. E quem temerariamente se opor a este nosso decreto e na sua presunção tentar confundir e perturbar a Igreja Romana contra este estatuto seja condenado a perpétuo anátema e excomunhão, e seja considerado entre os ímpios que não ressurgirão no Juízo. Que sinta contra si a ira do Onipotente, do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e, nesta vida e na futura, experimente o furor dos santos apóstolos Pedro e Paulo, cuja Igreja ele teve a pretensão de abalar. A sua casa seja deserta e ninguém habite nas suas tendas (Salmo 69, 26). Os seus filhos sejam órfãos e sua mulher, viúva. Que seja expulso em terror ele e seus filhos, e mendiguem e sejam rejeitados das suas casas. Que o usurário se aposse da sua substância, e que estrangeiros se aproveitem dos frutos da sua fadiga. Toda a terra combata contra ele, e que os elementos lhe sejam adversos,e os méritos de todos os santos defuntos o confundam e mostrem aberta vingança contra ele nesta vida".

Legitimidade ao reino normando
A reforma, ou melhor, a revolução ocorrida nos critérios da eleição do bispo de Roma, em 1059, abria caminho, portanto, para um conjunto de possíveis desenvolvimentos, ambiguamente interconectados. Enquanto, de fato, de um lado, a eleição de Nicolau II havia sido possível graças ao apoio do mundo imperial, de outro lado, a ascensão ao trono papal de um "reformador" inaugurava uma época de contrastes com os poderes soberanos que a época medieval transmitiria à Europa moderna.

A possibilidade de se aliar, em defesa da verdadeira fé, com quem, pessoa ou grupo, o pontífice romano considerava mais confiavelmente cristão, mas também de desconhecer essa aliança onde ela se revelasse inútil para a solidez da “respublica” católica, uma realidade política que se afirmava como transnacional justamente por causa da afirmação do primado do pontífice romano, inaugurava, além disso, uma longa temporada da política europeia – provavelmente ainda não concluída – cuja complexa conflitualidade teria sido variavelmente orquestrada e arbitrada pelo poder supranacional dos papas.

Exatamente Nicolau II, ainda no crucial 1059, poucos meses depois do sínodo lateranense, dará início a essa lógica no mesmo momento em que reconhecerá a plena legitimidade do recém-nascido reino normando, um potentado de nova e incerta legalidade, conferindo a soberania sobre a Campânia, Puglia, Calábria e Sicília a Roberto, o Guiscardo, e aos chefes do clã dos Hauteville.

Do tratado de Melfi em junho de 1059 à concordata, estipulada ainda em Melfi em agosto do mesmo ano, logo depois de um concílio do qual haviam participado alguns dos principais representantes da reforma católica romanocêntrica, de Humberto de Silvacandida a Hildebrando de Soana, a autenticação por parte da Sé Romana de um poder cristão vassalo de Roma sobre terras até pouco antes islâmicas ou bizantinas começava a significar mais coisas aos olhos do mundo: acima de tudo, que o papa podia legitimar um poder político armado como já havia ocorrido aos tempos de Carlos Magno, mas, ainda melhor, ligando-o consigo um pacto de submissão.

Em segundo lugar, que o papa assentado em Roma podia estabelecer um poder fiel a si sobre terras não só infiéis, mas também, no passado, pertencentes a outros poderes cristãos rivais (o do imperador do Oriente, no caso da Itália meridional).

E, finalmente, que o papa, único entre os poderosos ocidentais, tinha o direito superior de tornar institucional um poder de fato pelas razões indiscutíveis da fé, ou seja, em consequência das escolhas tanto políticas quanto ideológicas operadas por um novo tipo de soberania, a papal, cujo desconhecimento já significava a saída da Cristandade.

Um modelo de longa duração
A afirmação, em 1075, por parte de Gregório VII, do primado romano como primado político universal ("… Só ele pode usar as insígnias imperiais; só ao Papa todos os príncipes devem beijar os pés; que só o Seu nome seja pronunciado nas igrejas; o Seu nome seja o mesmo em todo o mundo; a Ele é permitido depor os imperadores; que uma sentença Sua não possa ser reformada por ninguém, enquanto, ao contrário, Ele pode reformar qualquer sentença emanada por outros; Ele não pode ser julgado por ninguém; Ele pode liberar os súditos da obrigação de obediência aos príncipes que impuseram o seu poder pela força..."), além do tom provocativo e paradoxal que a diferencia, levava às suas lógicas conclusões um discurso já implícito nas deliberações e nas políticas de 1059.

Esse discurso impunha, no próprio coração do processo de civilização do Ocidente que da Idade Média levaria à modernidade, tanto uma possibilidade para o poder de se apresentar como universal, supranacional, carismático e indiscutível, quanto um modelo de autoridade única e eterno, por provir diretamente do Cristo no momento da sua encarnação e, portanto, autorizada em nome de uma Verdade superior a legislar bem além dos limites do seu efetivo domínio territorial.

A força desse modelo, cujas primeiras raízes se encontram no processo de transformação das Igrejas do Ocidente em uma Igreja hierarquicamente ordenada em torno ao Centro constituído pelo pontífice romano, já se torna totalmente visível no sínodo lateranense de 1059, sobre a unicidade exclusiva da entronização do bispo romano. Portanto, ela continuará agindo não apenas nas políticas teocráticas dos "soberanos pontífices", de Inocêncio III em diante, mas também, senão sobretudo, na vontade expansionística de uma Europa cristã cujo objetivo será, explicitamente, na era dos Estados nacionais, a conquista e a submissão do planeta Terra.

Ser grato


A vida de todo dia traz muitas dificuldades. Em certos momentos, a pressão é tão grande que se transforma em angústia. E, no entanto, estamos vivendo um mistério extraordinário. Como diz a epístola de são Pedro, “bendito seja Deus que nos tirou das trevas para a sua luz admirável”.

Apesar de todos os problemas, no fundo de nós mesmos deveria existir um sentimento de gratidão. Porque fomos chamados à vida, e recebemos esse patrimônio incrível que é a natureza humana. Tão incrível, que aprouve ao próprio Deus revestir-se da nossa humanidade, viver como um de nós, sofrer como sofremos, e também sentir as nossas alegrias.Essa atitude básica de gratidão é o tema de uma das cartas do monge Barsanúfio, que viveu no século VI nas imediações de Gaza, Palestina:

“De acordo com as palavras do Apóstolo, devemos conservar sempre uma atitude de gratidão:

”Em tudo, demos graças a Deus“. ”Demos graças, inclusive, pelas tribulações, sofrimentos, angústias, doenças, porque também é o Apóstolo quem diz: “Através de muitas tribulações entraremos no Reino de Deus”. E lá, seremos livres de todo mal.

“Não tenha dúvidas, nunca desanime. Lembre-se do ensinamento de Paulo: ”Embora a nossa natureza exterior se gaste continuamente, a nossa natureza interior se renova a cada dia“. Aceitando o sofrimento, seremos capazes de partilhar da cruz de Cristo.

”Enquanto o navio estiver em mar alto, está exposto ao perigo e à mercê dos ventos. Mas quando ele chega ao porto, já não há nada que ameace sua segurança, sua tranquilidade, sua paz.

“O mesmo acontece conosco. Durante esta vida, somos sujeitos ao sofrimento e atacados pelas tempestades espirituais. Mas quando chegarmos ao término dessa viagem, não teremos mais nada a temer”.

- Luiz Paulo Horta
Reproduzido via Amai-vos

* * *

Barsanúfio sabia das coisas.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Juntos

Foto: Bobby Bong

A mensagem de amor e compaixão vai se espalhar se todos os que seguem algum caminho espiritual trabalharem juntos, em harmonia e respeito mútuo.

- Dalai Lama

Três links e um brinde

Instalação: Elise Morin

Rapidinho, três links para baixar trabalhos acadêmicos de qualidade sobre a relação entre homoafetividade e cristianismo:

Via(da)gens teológicas: itinerários para uma Teologia Queer no Brasil (tese de doutorado de André S. Musskopf, Bacharel, Mestre e Doutor em Teologia pela Escola Superior de Teologia. Pesquisador nas áreas de: Estudos Feministas, Teorias de Gênero, Teoria Queer, Masculinidade, Homossexualidade e Diversidade Sexual, na sua relação com Religião e Teologia). Aqui

Homossexualidade, religião e gênero: a influência do catolicismo na construção da auto-imagem de gays e lésbicas (tese de mestrado em teologia de Valéria Melki Busin), aqui

A fé e os afetos: Diversidade Sexual, Catolicismo e Protestantismo em sites de grupos cristãos inclusivos, por Murilo Silva de Araújo e Maurício Caleiro. Trabalho apresentado no Intercom Júnior – IJ 07 – Comunicação, Espaço e Cidadania, do XVI Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste, realizado de 12 a 14 de maio de 2011. (O Diversidade Católica está aqui! ;-)) Aqui

E um brinde:
"A Igreja do Diabo", conto de Machado de Assis. Uma análise atemporal (e deliciosa) sobre ética, vícios, virtudes e humanidade... aqui (RT @Wedge_issue) #ficadica

Com amor,

Cris

CNBB repudia o Dia do Orgulho Hétero

Reproduzo aqui uma nota muito interessante do Magistério. Ótima noticia pro fim de semana!

Em nota, CNBB classifica Dia do Orgulho Hétero como desnecessário. Entidade que representa a Igreja Católica pede veto ao Dia do Orgulho do Hétero


Conhecida por manter posições conservadoras quando se trata de diretos pró-LGBT - inclusive durante a votação da união estável entre casais do mesmo sexo pelo STF -, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), representada pelo cardeal Raymundo Damasceno, surpreendeu ao emitir uma nota pública de repúdio à criação do Dia do Orgulho Heterossexual, com pedido expresso de veto.

O documento foi divulgado nesta quinta-feira pelo Conselho Nacional LGBT, órgão ligado a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH).

Veja alguns trechos do documento:

“Certas manifestações geram manifestações de oposição. Não há necessidade disso, quem tem sua identidade clara não tem necessidade de reivindicar isso [a criação do dia]”.

“A possível sanção deste projeto banalizaria o enfrentamento da homofobia e estimularia atos de violência, como os que temos assistido nos últimos meses, sobretudo em São Paulo (...) Entendemos que a legislação aprovada pela Câmara paulistana não é compatível com os valores e objetivos fundamentais da República, como a igualdade, a dignidade da pessoa e o princípio da não-discriminação”.

O presidente do Conselho LGBT e secretário-executivo da SEDH, Ramais de Castro, enviou um ofício ao prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, comunicando a existência da nota de repúdio.

Fonte: Mix Brasil

Os leigos devem salvaguardar a herança de Jesus

Escultura: Sean Henry

"Estimo que os leigos devem mais e mais assumir a tarefa da teologia e mais ainda, de salvaguardar a herança de Jesus, contra a mediocrização a que está sendo submetida por uma política vaticana mais carnal que espiritual, mais centrada no poder que no carisma, mais eclesiocêntrica do que reinocêntrica", afirma Leonardo Boff, teólogo, em entrevista concedida à IHU On-Line. Segundo ele, "eles, como leigos, não estão ao alcance das instituições de vigilância dos órgãos doutrinais do Vaticano. E a maioria está dentro das universidades do Estado e por isso gozam da proteção da liberdade acadêmica e das leis, pois o Vaticano passa por cima até dos direitos mais comezinhos quando quer salvaguardar seus interesses". E Leonardo Boff lembra a história da Igreja: "Houve épocas no começo da Igreja nas quais quase todos os bispos viraram hereges nestorianos. Foram os leigos que salvaram a ortodoxia cristológica e mariológica. Talvez hoje estejamos enfrentando situação semelhante".

Na entrevista Leonardo Boff afirma que "Jon Sobrino pensa a tarefa da teologia a partir das vítimas e do povo crucificado, “o que exige da Igreja uma clara opção pela vida destes todos. Essa conversão custa muito àqueles estratos da instituição que, de certa forma, se fossilizaram em seu status quo”.

Renomado teólogo brasileiro, Leonardo Boff foi um dos criadores da Teologia da Libertação e, em 1984, em razão de suas teses a ela ligadas e apresentadas no livro "Igreja: carisma e poder – ensaios de eclesiologia militante" (Petrópolis: Vozes, 1982) foi condenado pela Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano. Deixou, então, a Ordem dos Freis Franciscanos e desde 1993, é professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. É autor de mais de 60 livros nas áreas de teologia, espiritualidade, filosofia, antropologia e mística, entre os quais citamos "Ética da Vida" (Rio de Janeiro: Sextante, 2006) e "Virtudes para outro mundo possível II: convivência, respeito e tolerância" (Petrópolis: Vozes, 2006).

Confira a entrevista, aqui reproduzida via IHU com grifos nossos.

A recente notificação da Congregação para a Doutrina da Fé sobre duas obras de Jon Sobrino coloca novamente em pauta a Teologia da Libertação. Por que motivo esta teologia, que alguns chegam a considerar defunta, continua provocando tanta inquietação?

Esta teologia está viva em todas as Igrejas que tomaram a sério a opção pelos pobres, contra a pobreza, e em favor da vida e da liberdade. O Fórum Social da Teologia da Libertação, celebrado uma semana antes do último Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, no ano de 2005, trouxe 300 representantes de todos os continentes e mostrou a vitalidade desta teologia. A notificação contra Jon Sobrino, um dos mais significativos teólogos da libertação, mostra que Roma está reagindo porque, no meu modo de ver, está perdendo a batalha contra a Teologia da Libertação. Os dois documentos, um de 1984 e o outro de 1986, não conseguiram abafar esta teologia. Como ela nasceu ouvindo o grito dos oprimidos e hoje este grito aumentou e virou clamor, ela tem todas as razões para continuar viva. Hoje não apenas os pobres gritam, como também gritam as águas, as florestas, os animais e a própria Terra sob a agressão sistemática do modo de produção e consumo globalizado. Assim, surgiu uma vigorosa ecoteologia da libertação, nascida na América Latina e assumida em muitas igrejas e universidades do primeiro mundo. Jon é incômodo à ideologia vigente no Vaticano, que é articular a Igreja Católica com os poderes emergentes. Ele, Sobrino, pensa a tarefa da teologia a partir das vítimas e do povo crucificado, o que exige da Igreja uma clara opção pela vida destes todos. Essa conversão custa muito àqueles estratos da instituição que, de certa forma, se fossilizaram em seu status quo.

Uma das grandes dificuldades da ortodoxia católica com respeito à Teologia da Libertação é a afirmação de uma nova hermenêutica que envolve uma ortopraxis. Jon Sobrino fala em hermenêutica da práxis. Para ele, não há como compreender Jesus fora da prática de seu seguimento. Qual o alcance dessa reflexão teológica e em que medida ela provoca uma mudança na reflexão cristológica em curso?

A teologia mesmo tradicional sempre afirmou que a missão da teologia não se esgota na simples compreensão da fé, mas deve sempre pensar a fé informada pela caridade que leva à prática. De mais a mais não é dizendo “Senhor, Senhor” e fazendo cristologia que estamos sendo fiéis à mensagem de Cristo, mas “fazendo a vontade do Pai” que significa uma prática. Em outras palavras, o que salva de fato não é a ortodoxia, mas a ortopraxia, não as prédicas, mas as práticas. Na América Latina esta exigência de prática se chama “seguimento de Jesus”, que implica valorizar sua prática libertadora, escutar sua mensagem especialmente aquela que dá centralidade aos pobres (serão nossos juízes definitivos, segundo Mateus, 25) e compartilhar de seu destino que pode ir da maledicência, passando pela tortura, até a morte. Não é sem razão que a única Igreja hoje que possui mártires desde leigos, religiosos(as), padres e até bispos como Dom Romero de El Salvador e Dom Angelelli da Argentina, é a Igreja da libertação. Jon Sobrino mesmo é um sobrevivente do fuzilamento de toda a sua comunidade jesuítica de El Salvador, 6 confrades, além da cozinheira e sua filha de 15 anos. Salvou-se porque nessa noite estava fora de casa . Toda esta temática que envolve tensões e conflitos não agrada Roma, que sempre busca composições para manter uma paz que é aparente e uma harmonia que é duvidosa.

Na recente notificação sobre as obras de Jon Sobrino há um questionamento aos pressupostos metodológicos utilizados pelo teólogo de El Salvador, em particular a idéia da Igreja dos pobres como lugar teológico fundamental. Como situar a centralidade da questão dos pobres na Teologia da Libertação?

Há uma diferença fundamental entre o método convencional de se fazer teologia nos centros metropolitanos de teologia e no Vaticano e o nosso da América Latina. Essa diferença ficou clara na recente Exortação Apostólica Sacramento da Caridade, do atual Papa Bento XVI. Esse documento com mais de cem páginas se estrutura em três partes: a primeira, a Eucaristia objeto de fé; a segunda, a Eucaristia, objeto de celebração; e a terceira, a Eucaristia objeto de vivência. Curiosamente, nesta última parte o documento entra na realidade conflitiva do mundo atual, da fome, das guerras e das ameaças ecológicas. Mas isso nada tem a ver com as duas primeiras partes. Portanto, parte-se de cima para baixo, da fé, da tradição e da celebração litúrgica. Só depois se derivam conseqüências. É uma teologia das conseqüências. Nós, da América Latina, inclusive os documentos oficiais da Igreja latino-americana, como Medellín (1968), Puebla (1979) e Santo Domingo (1992), partimos da última parte, quer dizer, da realidade. Esta não vem apenas referida, mas analisada com os instrumentos das ciências sociais, históricas, antropológicas, ecológicas e pedagógicas. Isso para evitar as ilusões do ingenuísmo e da mera relação de fatos sem discernir as inter-relações entre eles e suas causalidades. Procuram-se as estruturas que funcionam na base destes fatos e que produzem as contradições. Só depois invocamos a Escritura, a Tradição e o Magistério para iluminar, criticar e ressaltar pontos centrais da realidade que deve ser assumida pela Igreja, no caso, pelas Igrejas. Essa virada metodológica é de difícil aceitação por parte do Vaticano e também das teologias progressistas européias e norte-americanas. Antes de tudo, porque a maioria não sabe fazer uma análise consistente da realidade e depois obrigaria a mudar de mente e incorporar outros olhos com os quais se lê a realidade e os textos fundadores da fé. O método é mais que método. É uma verdadeira conversão pessoal e institucional. Quando partimos da realidade, encontramos, escandalosamente à vista, os pobres e os oprimidos. Escutamos seus gritos, vemos suas chagas. E aí a atitude básica é aquela de Jesus: miserior super turbas. E sentimos a urgência de nos solidarizar, aliviar suas cruzes e colaborar para que saiam desta anti-realidade. Operar isso é obra das Igrejas da libertação e da reflexão que as acompanha, que é a teologia e a pedagogia de libertação.

Ainda na notificação sobre as obras de Jon Sobrino há uma inquietação sobre a ênfase dada pelo autor no Jesus histórico, bem como na sua relacionalidade. Na visão de Sobrino, torna-se problemática a absolutização absoluta de Cristo, ou seja, o esquecimento da dupla relacionalidade de Jesus: com o reino de Deus e o Deus do reino. Está havendo um certo risco de cristomonismo, na tendência em curso de questionamento do "reinocentrismo da Teologia da Libertação e o que isso significa para a Igreja na América Latina?

O risco teológico mais antigo da Igreja Romana é o cristomonismo, quer dizer, a ditadura de Cristo na Igreja e no mistério da salvação. Em primeiro lugar há que se afirmar que Jesus é Filho de Deus e não simplesmente Deus, o que remete para o Pai, que na relação com o Filho faz proceder o Sopro, que é o Espírito. Portanto, a inteira Trindade está presente na história e no processo de salvação e libertação. O conceito mais englobante e ligado à prédica de Jesus é a categoria Reino que envolve toda a criação, as sociedades humanas e as pessoas para culminar no Reino da Trindade. Dar centralidade ao Reino é sermos fiéis ao Jesus histórico, que não se preocupou com a Igreja, mas com o Reino e, ao mesmo tempo, considerarmos que nada está fora do Reino, categoria globalizadora de todas as instâncias do real. Jon Sobrino tem enfatizado que a construção do Reino se faz sempre contra o Anti-Reino, que é uma energia de oposição e anti-crística que encontra base na realidade e foi ela quem assassinou Jesus Cristo e os mártires de toda a história. A categoria Reino, bem como a categoria de Povo de Deus, não são bem vistas pela teologia institucional de Roma porque relativizam a Igreja e fazem dela apenas Sacramento do Reino, mediação do Reino, pálida presença do Reino no mundo, mas nunca o próprio Reino identificado com a Igreja. Essa humildade de ser apenas a vela e não a chama é difícil para uma Igreja que se auto-finalizou e se considera como uma espécie de galáxia englobando todos os sistemas e subsistemas.

Quais são os desafios do pluralismo religioso hoje, para o fazer teológico na América Latina?

O desafio primeiro é reconhecer o fato do pluralismo religioso. Isso não constitui uma patologia ou decadência, mas um dado positivo de realidade. É mais ou menos como a biodiversidade. Terrível seria se, na natureza, houvesse apenas pinus eliotis ou baratas. A riqueza está na biodiversidade ecológica analogamente ao valor da diversidade religiosa. Cada expressão religiosa revela algo do Mistério de Deus e nenhuma pode pretender possuir qualquer monopólio, nem da revelação nem dos meios de salvação. A graça e o propósito salvador de Deus perpassam toda a realidade e são oferecidos a todos. O segundo desafio se prende ao valor que damos a esta diversidade. Já o disse: são formas diferentes de expressar o Mistério, e por isso devemos aprender uns dos outros, nos enriquecermos com as trocas, os diálogos e as buscas de convergências, em vista do serviço espiritual dos povos, alimentando neles a chama sagrada da presença de Deus que está na história e no coração de todos. Temos ainda muito que andar para realizarmos esta tarefa. Mas, pelo menos, não temos ainda guerras de religião e entre fundamentalismos que já estão surgindo entre nós.

Em recente artigo, o teólogo Clodovis Boff assinalou que a Conferência de Aparecida não poderá ser a repetição, ainda que atualizada, das Conferências de Medellín, Puebla e Santo Domingo, mas deverá, sim, inovar em sua forma e acento, face aos novos sinais dos tempos. Será o caso? Por quê?

Eu creio que Aparecida deve consagrar a caminhada do magistério das Igrejas latino-americanas, pois não ganhou ainda sustentabilidade e reconhecimento oficial, especialmente por parte do Vaticano. Ai há pontos inegociáveis, como a libertação (Medellín), a opção pelos pobres (Puebla) e a inculturação (Santo Domingo). Mas não basta patinar sobre o mesmo chão. Importa ver quais são os sinais dos tempos hoje e com referência a eles pronunciar uma palavra adequada que tenha o significado de uma boa nova. A isso os cristãos têm direito de pedir a seus pastores. Creio que continua de pé ainda o clamor dos pobres, as desigualdades e injustiças, mas valorizando o que eles estão fazendo em seus movimentos, partidos e articulações de trabalhadores, índios, negros, mulheres. Esses sujeitos históricos se cansaram das elites e resolveram votar em si mesmos e em representantes que vêm de seu meio, assim no Brasil, na Bolívia, no Equador e em outros lugares. Depois, há a urgência que nos vêm do fato de que a Terra vai encontrar um novo equilíbrio aumentando seu aquecimento em até 3-4 graus Celsius, o que pode implicar a criação de milhões e milhões de vítimas e uma fantástica dizimação de seres vivos, emigrações numerosíssimas, destruição de cidades marítimas e outras conseqüências ligadas às mudanças climáticas, gerando fome e sede para milhões por causa da destruição das safras. Todas estas questões estão na ordem do dia das políticas mundiais e deveriam estar na agenda pastoral de nossas Igrejas. Dai a importância de Aparecida estar atenta aos novos sinais dos tempos. Se não estiver atenta aos tempos, como vai ler os sinais dos tempos?

Quais são as perspectivas para a 5ª Assembléia da Conferência Episcopal Latino-Americana em Aparecida, depois da notificatio sobre a obra de Jon Sobrino?

Creio que não vai ter muita influência negativa. A condenação de escritos de Jon Sobrino, no meu modo de ver, e isso é acenado por ele mesmo, em sua carta ao Geral de sua Ordem, se deve ao furor condemnandi da Teologia da Libertação, furor presente no grupo latino-americano de Cardeais e altos funcionários da Cúria Romana. Não é mistério da oposição sistemática que fazem o Card. Alfonso López Trujillo, Dario Castrillon Hoyos e Lozano Barragan, e, não em último lugar, Dom Karl Joseph Romer, ex-bispo auxiliar do Rio de Janeiro e agora em Roma, sempre zeloso em identificar erros e heresias possíveis em bispos e em teólogos. Eles estão para se aposentar. Quiseram fazer um agrado ao Papa, limpando o terreno para sua vinda ao Brasil, condenando a Jon Sobrino. Batem nele, mas pensam na Igreja latino-americana que querem reenquadrar no processo persistente de romanização que foi iniciada por João Paulo II e está sendo levada avante pelo atual papa.

Quais são as possibilidades e os limites da criação de novos espaços para o exercício da reflexão teológica latino-americana, para uma teologia cada vez mais pública?

Estimo que os leigos devem mais e mais assumir a tarefa da teologia e mais ainda, de salvaguardar a herança de Jesus, contra a mediocrização a que está sendo submetida por uma política vaticana mais carnal que espiritual, mais centrada no poder que no carisma, mais eclesiocêntrica do que reinocêntrica. Eles, como leigos, não estão ao alcance das instituições de vigilância dos órgãos doutrinais do Vaticano. E a maioria está dentro das universidades do Estado e por isso gozam da proteção da liberdade acadêmica e das leis, pois o Vaticano passa por cima até dos direitos mais comezinhos quando quer salvaguardar seus interesses. Houve épocas no começo da Igreja nas quais quase todos os bispos viraram hereges nestorianos. Foram os leigos que salvaram a ortodoxia cristológica e mariológica. Talvez hoje estejamos enfrentando situação semelhante.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Saúde


Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente.

- Jiddu Krishnamurti

Tuitadas


Projeto "Todos os Meninos". Vale a pena ajudar http://migre.me/5t2S3

RT @gayporacaso: Isso não é saco de dormir P#RR@ gayporacaso.com.br/isso-nao-e-sac…

RT @lolaescreva: “Vc ñ tem q ser gay p/ser vítima de um ataque homofóbico.Basta parecer gay”. Post mto bom do @ofrido bloguedofrido.blogspot.com/2011/08/nem-as…

RT @_Filosofei @elitonsotemeu: Seja dono do seu silêncio, para não ser escravo de suas palavras.

RT @andretrig: "A bondade é o único investimento que nunca vai à falência." (Henry Thoreau) #bomdia

Alckmin se diz contra Dia do Orgulho Hétero e a favor da união gay http://bit.ly/oo776C

Os gays Eduardo e Hugo não vão morrer. Ao contrário, eles vão ter um final feliz, assinando um contrato de união estável, em "Insensato Coração" http://bit.ly/qZXFKN

RT @Inspire_Us: In the right light, at the right time, everything is extraordinary. - Aaron Rose

Ser gay não é estranho. Estranha é a homofobia. http://twitpic.com/64bnsw

Vereadores agora querem "desaprovar" dia do hétero em São Paulo - 09/08/2011 http://bit.ly/qhtcIC

Coletânea de faixas raras expõe pioneira militância de Leci Brandão na causa LGBT http://bit.ly/oZgXgT

Cine-fórum "As positivas" - fIlme+debate 15/8, 19h30 em Botafogo (RJ) http://twitpic.com/64br3r

RT @pejulio: #santaclaraclareai a nossas emissoras de TV.que mais parecem escuridão que luz!!

Tapa na cara ou soco no estômago? Há sim disposição dos brasileiros pª reagir. A internet oferece ferramentas eficazes http://bit.ly/qZkFNq

Os alemães e a aversão à Roma ''católica'' http://bit.ly/qvNNjZ

Laerte: dois homens que se abraçam http://twitpic.com/64d0ni

Pais de homossexuais falam do amor e das lições de respeito mútuo http://glo.bo/qrR7qW

Pobres jovens do século 21 http://bit.ly/p4qFmM

Proposta agrava crime de homicídio motivado por orientação sexual da vítima http://bit.ly/p5jbqM (Clique para votar em apoio à proposta!)

RT @tsitonio: Deu ALOCKA nos quadrinhos! http://bit.ly/pNW0ns ;o)

RT @ABIA_HSH: O que leva o governo federal a gastar R$ 18 milhões por ano numa fábrica de camisinhas? http://t.co/u8UeO3M

As bolhas no meu sangue


"O nitrogênio residual é o nitrogênio remanescente no corpo após um mergulho, cujo tempo de demora para ser eliminado depende do tempo de mergulho e da profundidade atingida. (...) Caso a eliminação do nitrogênio residual seja deficiente (...) pode ocorrer a geração de bolhas de nitrogênio que não conseguem ser eliminadas do corpo humano, ficando retidas em tecidos ou na circulação sanguínea. Esta ocorrência é chamada de doença descompressiva."
— Wikipedia


Quando passo pelo aquário que decora o hall de um dos prédios da faculdade onde dou aula, sempre paro um minuto para olhar os peixinhos levando sua vida encaixotada. Eles, assim como nós, estão sempre alheios a um detalhe que só nos damos conta raramente: ambos, eu e os peixinhos, estamos mergulhados em um fluido, ele no líquido e eu no gasoso. E nem nos damos conta disso, a não ser nesses momentos reflexivos.

Peixes não costumam se aventurar muito do lado de fora de seu ambiente (alguns, sorte nossa, desconhecem essa regra...), mas nós humanos desenvolvemos um sem número de técnicas, ciências, equipamentos, máquinas e veículos que nos fazem ir lá onde os peixes vivem, mesmo nas profundidades mais abissais junto de seus parentes mais bizarros. O problema de ir tão fundo (e para humanos, qualquer 10m já configura uma atmosfera extra de pressão sobre nossos frágeis corpos) nem é vencer a profundidade, mas voltar dela.

Não sei quanto falta. Talvez nunca chegue a respirar ar limpo e puro de novo. Mas a pressão incômoda das tradições, da religião, da misoginia, principalmente do cáustico e silencioso machismo, talvez a substância mais resiliente da tabela periódica dos preconceitos, vai ficando cada vez mais para baixo. Já consigo ver o bruxulear da luz clara do sol atravessando a ondulante linha d'água. Tenho algumas bolhas no sangue, mas vão ser reabsorvidas ao longo da subida. Se ainda estou consciente que ainda estou imerso no frio oceano cultural que fui mergulhado quando criança, é com orgulho que vejo que estou hoje mais perto da superfície que estava ontem.

- Rodrigo Souza
Reproduzido via blog do autor

Santa Clara e a dimensão erótico/esponsal da espiritualidade cristã


No estágio final do “mytho” grego de Eros, o deus do amor aparece como o mais fiel dos esposos do Olympo. A imagética grega desvela assim que o anseio mais profundo do coração humano, erótico no sentido amplo do termo, destina-se a esponsalidade, não a dispersão.

Em tempos modernos, quando a religião parece agarrar-se a moral como baluarte de sua existência ou justifica exclusão e violência “em nome de Deus”, parece oportuno lembrar, quando a Igreja celebra a Memória de Santa Clara, a dimensão erótico/esponsal da espiritualidade cristã.

A liberdade do místico transparece no modo com que ele brinca com a rigidez de nossos conceitos. É significativo que Clara, descrevendo sua filiação espiritual ao caminho franciscano, recorra a uma imagem que “subverte” os papéis de gênero. Nela, São Francisco aparece como uma mãe, que, expondo seu seio, amamenta-a com a doçura celeste de sua doutrina. Aliás, não custa lembrar que o pobrezinho de Assis descrevia a si mesmo como uma mãe para seus frades e desejava que todo Superior de sua fraternidade assim o fosse.

Tal originalidade é fruto de um Eros assumido e desposado, “agapicamente erótico”, cuja tradução se revela na alegria de saber-se amado e amar; na criatividade em criar pontes no acolhimento de todo outro; no maravilhamento de descobrir a unidade na diversidade.

Nem lei nem doutrina. O essencial da vida cristã é uma Pessoa, Jesus Cristo. Pessoa que é relação e nos convida a relação. O mesmo amor que anseia pela comunhão, lança fora os medos que provocam as divisões –“ já não há homem nem mulher, sois todos vós um em Cristo”. Tira-nos da pseudo segurança da moral e nos expõe a vulnerabilidade da acolhida.

Que Santa Clara, Mestra de uma espiritualidade a um só tempo estática e extática – centrada no Único necessário e constantemente saindo de si ao encontro de Deus e do próximo – nos ajude a encontrar o júbilo de sabermo-nos todos criados pelo mesmo Amor e exclamar com gratidão: “Senhor, sede bendito, porque me criastes!”

- Thiago Lins

* * *

Repitamos hoje com Santa Clara:
“Senhor, sede bendito, porque me criastes!”

O povo simples


Jesus não teve problemas com as pessoas simples. O povo sintonizava facilmente com Ele. Aquelas pessoas humildes que viviam a trabalhar as suas terras para levar para adiante a família, acolhiam com alegria a Sua mensagem de um Deus Pai, preocupado com todos os Seus filhos, sobretudo, os mais esquecidos.

Os mais desamparados procuravam a Sua bênção: junto de Jesus sentiam Deus mais próximo. Muitas doentes, contagiados pela sua fé num Deus bom, voltavam a confiar no Pai do céu. As mulheres intuíam que Deus tem que amar os Seus filhos e filhas como dizia Jesus, com um fundo de mãe.

O povo sentia que Jesus, com a Sua forma de falar de Deus, com a Sua forma de ser e com o Seu modo de reagir ante os mais pobres e necessitados, anunciava-lhes o Deus que eles necessitavam. Em Jesus experimentavam a proximidade salvadora do Pai.

A atitude dos «entendidos» era diferente. O que ao povo simples lhe enche de alegria a eles indigna-os. Os mestres da lei não podem entender que Jesus se preocupe tanto com o sofrimento e tão pouco com o cumprimento do sábado. Os dirigentes religiosos de Jerusalém olham-no com receio: o Deus Pai de que fala Jesus não é uma Boa Nova, mas um perigo para a sua religião.

Para Jesus, esta reacção tão diferente ante a Sua mensagem não é algo casual. Ao Pai parece-lhe o melhor. Por isso dá-Lhe graças diante de todos: «Te dou graças, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e entendidos e as deste a conhecer aos simples. Sim, Pai, assim te pareceu melhor».

Também hoje o povo simples capta melhor que ninguém, o Evangelho. Não têm problemas para sintonizar-se com Jesus. A eles revela-se o Pai melhor que aos “entendidos” em religião. Quando ouvem falar de Jesus, confiam Nele de forma quase espontânea.

Hoje, praticamente, tudo o que é importante se pensa e se decide na Igreja, sem o povo simples e longe dele. No entanto, dificilmente, se poderá fazer algo de novo e bom para o cristianismo do futuro sem contar com ele. É o povo simples que nos arrastará para uma Igreja mais evangélica, não os teólogos nem os dirigentes religiosos.

Temos de redescobrir o potencial evangélico que se encerra no povo crente. Muitos cristãos simples intuem, desejam e pedem para viver a sua adesão a Cristo de forma mais evangélica, dentro de uma Igreja renovada pelo Espírito de Jesus. Reclamam mais evangelho e menos doutrina. Pedem o essencial, não frivolidades.

- José Antonio Pagola
Reproduzido via Amai-vos

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Apologia do conhecimento

Instalação: Sonja Vordermaier

Se o conhecimento pode criar problemas, não é através da ignorância que podemos solucioná-los.

- Isaac Asimov

Tuitadas

Clipart: aqui

RT @ciatrianguloro: #MarchaEstadoLaicoBSB mudou de data. Será dia 30 de novembro. Aguarde novas informações.

RT @PedagogiaQueer: Vídeo criativo sobre "Kit Hétero" bit.ly/nAr4Ar

RT @SuperDir_Seasdh: Testemunhas do caso Alexandre Ivo dão depoimento nesta quinta, diz @Ancelmocom: http://yfrog.com/h6sf8tlj

RT @NossosTons: Pais contam como revelaram aos filhos que são gays. http://goo.gl/fb/xkSDE

RT @Amaivos: O pai continua sendo necessário? http://ow.ly/5Z0Oc

Presidente do Chile assina projeto de lei que autoriza a união civil entre homossexuais http://bit.ly/p4JU99

RT@HannahStein_: Piñera faz uma das maiores repressões a movimentos estudantis que esse mundo já viu, abaixa cabeça quando fala do casamento em si - sim, pq casamento é só entre um homem e uma mulher (está lá no projeto "Acuerdo de vida en pareja). E pq mandou de livre e espontânea vontade esse projeto ao congresso, para amigos gays ele virou o defensor dos direitos humanos... :-P

Coro masculino gay inglês assina contrato milionário http://bit.ly/pCVXSM

PAC e direitos humanos no Brasil: "Nove operários morrem na Bahia. Isso é só o começo" http://j.mp/pRqC6q

"Preparados?": sobre beijos e democracia http://bit.ly/oIVRUe (@flavioalves_65)

Um funeral para Gilvan http://bit.ly/qOFlrL (@flavioalves_65)

Conversa franca sobre a Criação do homem e da mulher http://bit.ly/mX2Iox (blog Teologia Inclusiva)

RT @_ihu: A democracia está sendo transformada pelas redes sociais. Entrevista especial com Ronaldo Lemos. http://bit.ly/ne2kdG

Indignados com a visita do papa http://bit.ly/qeWjq5

‘Os jovens são aqueles que podem mudar o nosso mundo’, afirma Superior Geral dos Jesuítas http://bit.ly/qjkgF0 #magis2011

RT @andretrig: "Justo quando a lagarta achou que o mundo se tinha acabado,ela virou uma borboleta" (McMillen) #bomdia

RT @homorrealidade: Ney Matogrosso, 70 anos de ousadias e desafios em um país conservador homorrealidade.blogspot.com/2011/08/ney-ma…

RT@CristaoIncluso Carta do Pai http://bit.ly/oFPst3

O espaço não pode ser só de quem divulga preconceito (@lolaescreva) http://bit.ly/qWVMIx

Prisão de homofóbico faz esquecer polêmica do beijo gay http://bit.ly/qf23kS

@TonyGoes: o Chile e a união gay http://bit.ly/ruCHGj

Costumes

Escultura: Sean Henry

Meu amigo Hugo Nogueira me enviou estas belas passagens de Gianni Vattimo*. Um testemunho sobre o choque entre a descoberta da sua identidade e a atitude religiosa danosamente moralista - e porque a postura tradicional não pode mais ser a resposta aos anseios do povo de Deus.

"...o objecto de amor por causa do qual alguém pode decidir não ir mais à missa... consciência de que pertencia (ou... que tinha escolhido pertencer?) a uma minoria sexual, entregue àquilo a que o catecismo chamava vício contranatura, pecado contra o Espírito Santo...

...Não conseguia acreditar então, e não acredito certamente agora, que a conduta homossexual seja intrinsicamente desordenada, pelo que não poderia existir uma vida moralmente digna a não ser no âmbito do 'uso' legítimo, o reprodutivo, da sexualidade. Hoje, mais claramente do que então, dou-me conta de que o horror da Igreja Católica pela homossexualidade é um dos mais evidentes resíduos supersticiosos que a marcam... Comecei a deixar de ir à igreja quando... comecei a tentar construir uma vida sentimental livre do esquema neurótico do pecado e confissão. Além disso, como poderia pertencer a uma igreja cujo ensinamento público me considera uma pessoa moralmente desprezível ou, quando muito, se aceitasse esta qualificação, como um doente que é preciso curar, um irmão monstruoso que se deve manter escondido?... Podemos, certamente, não exagerar o problema da própria constituição homossexual...; mas não ao ponto de ignorar a relação entre esta forma de exclusão e tantas outras que caracterizam a nossa sociedade e, consequentemente, a Igreja, que tanto no plano da moral como no da política, parece estar condenada a chegar sempre com séculos de atraso relativamente à evolução dos costumes".
(Fonte: VATTIMO, Gianni. Acreditar em acreditar. Lisboa: relógio D'Água, 1998, p.137.)

"Regressar à Igreja...[não é o] voltar arrependido à casa paterna [mas traduz a reivindicação do] direito de voltar a ouvir a palavra evangélica sem ter por isso de partilhar as verdadeiras superstições, em matéria de filosofia e de moral, que ainda a obscurecem na doutrina oficial da Igreja".
(Fonte: VATTIMO, Gianni. A sociedade transparente. Lisboa: Relógio D'Água, 1992, p. 73.)
_______________
* Criador da filosofia do “pensamento fraco”, Vattimo escreveu inúmeras obras, das quais destacamos Acreditar em acreditar (Lisboa: Relógio D’Água, 1998); Depois da cristandade. Por um cristianismo não religioso (São Paulo: Record, 2004) e O fim da modernidade: niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna (São Paulo: Martins Fontes, 1996). Vattimo também é deputado no Parlamento Europeu.

Violência, redescrição e democracia liberal

Grafite: Blu

O Brasil é um país onde em relação a tudo “se dá um jeitinho”. Somos um povo que não leva a vida a ferro e fogo. Verdade? Os dados estatísticos não confirmam tal imagem.

Dados recentes do IBGE mostram que passa de 43% o número das mulheres brasileiras que já sofreram agressão doméstica. O Sindicato dos Professores do Estado de São Paulo, também em indicação recente, revelou que mais de 86% dos professores paulistas já sofreram, da parte de alunos, alguma agressão física ou psicológica dentro do ambiente escolar. Números do movimento gay revelam que, nos últimos tempos, há o registro de mais de 220 mortes de homossexuais por ano, sendo tais mortes ocorridas por conta das vítimas serem homossexuais – sendo que esse número, por falta de um monitoramento maior, abrangendo todo o Brasil, pode ser o dobro. Pelo senso do IBGE, entre 2002 e 2008 o assassinato de brancos caiu 30% no Brasil, sendo que o de negros, no mesmo período, teve um aumento de 13%.

É claro que essa violência contra grupos específicos é vista pelos setores conservadores como algo que nada revela. Os setores conservadores tendem a dizer que a violência em geral tem aumentado. Eles não mentem. Os dados mostram que o número de assassinatos no Brasil, em vinte anos, cresceu 237%. Por dados da ONU, o Brasil abriga 11% (por ano) das vítimas de assassinatos do nosso Planeta. Isso representa 40 mil pessoas por ano! O que os conservadores erram é quanto à solução que eles fornecem: sempre indicam como necessário o aumento do contingente policial. Mas, aí os dados não os favorecem muito. O Brasil tem um policial para cada 304 habitantes, o que é um número igual ao das democracias ocidentais desenvolvidas, preocupadas com a segurança. Talvez esteja em questão a qualidade do policial, a concentração regional da polícia e, enfim, o que está ligado à qualidade: o treinamento e o salário (o que é parte da solução da corrupção policial).

De tudo que disse acima, nota-se que há violência e violência. A violência geral tem a ver com uma política nacional de segurança e bem estar. Há de se pensar melhor na questão das drogas e do tráfico se quisermos de fato levar a sério a violência brasileira. Mas, quanto às violências específicas, dirigidas a grupos, elas ainda estão ligadas a elementos de ordem cultural que seguem uma lógica um pouco diferente da violência em geral.

A agressão que tem por vítima a criança, a mulher, o professor, o homossexual, o negro etc., está ligada ao que os conservadores tendem a não aceitar como sendo digno de nota. Eles se prendem a um modelo de sociedade que vê o cidadão como sendo o “eu” liberal, que se apresenta ao Estado na condição de livre, desenraizado e despersonalizado. Ele é o cidadão, apenas. Como cidadão, mostra-se segundo esse conceito que o faz computado como vítima de violência pelos gráficos da violência em geral. Mas, se apimentarmos um pouco a visão liberal (não creio que precisamos sair dela e adotar o comunitarismo para falar o que vou falar), há como vê-lo sob a violência que o coloca em um quadro que tem de tomá-lo como semi-livre, situado e personalizado. Um cidadão visto dessa maneira no quadro da violência, é que nos dá a relação brasileira entre violência e práticas culturais relativamente pessoais que precisam ser mudadas.

Eu explico. Quando da violência geral, aquele que a pratica não está movido diretamente pelo preconceito ou pela desvalorização real do outro. Ele está movido por um objetivo que não é o outro. O outro é meio. Ele quer a droga ou o dinheiro. Então, mata ou maltrata. Quando da violência em relação a cidadãos enraizados, semi-livres e personalizados, a violência e a vítima não são meios, são fins. O que o agressor quer é realmente firmar o seu poder, a sua superioridade sobre aquele que ele toma como inferior e que, por alguma razão, ergueu o nariz contra ele ou pareceu erguer o nariz contra ele. As vítimas são tomadas como aqueles que deveriam se calar, mas que não se calam, falam e falam até demais, impondo um tipo de regime não econômico de palavras que o agressor não quer ouvir, pois elas contrariam algo nele, em geral, a própria imagem do agressor em seu meio. Qual? A de que eles mandam ou deveriam mandar – em alguém, é claro. Esse alguém deveria ser a potencial vítima que, então, em algum momento pior, se torna realmente a vítima. Esse desejo de subordinar alguém aliado ao preconceito contra a vítima – que faz dela alguma coisa que permite ou até pede a violência contra ela – ajudam o quadro a se configurar: o fraco se põe diante do potencial agressor, e precisa ser punido para “voltar ao seu lugar”. Feito isso, a imagem do agressor em seu meio parece restituída. Ele manda. Ele manda ao menos em alguém. Ele resolve e põe as coisas “no lugar” ao menos no seu canto – sua casa principalmente, sua rua, às vezes.

Quando ouvimos os relatos dos que presenciaram os atos dos agressores a pessoas dos grupos citados, as palavras que são contadas como saídas da boca do agressor são muito semelhantes. “Cala a boca” é uma expressão comum. “Você não vale nada” também aparece muito. “Você vai ficar no seu lugar” é outra coisa comum. Nos três casos, o agressor diz claramente que sua agressão não tem a ver com qualquer coisa que não com a própria figura do outro. Ele, o outro, está ali e, por estar ali e ser o fraco, precisa se portar como o fraco. Ele está ali como serviçal a ser chicoteado. Mas … êpa, está começando a ficar ousado, a falar o que não deve falar ou o que não deve mais falar. Não lhe foi dado voz. Como então que fala?

Alguns podem estranhar por eu colocar nesse meio o professor. Mas, que tenhamos claro, aí também, ao menos atualmente, estamos diante de uma figura que encarnava poder até pouco tempo, mas que agora se parece muito, em termos sócio-econômicos, com o agressor, então, por que diabos uma figura assim deveria estar na frente de uma sala dando ordens? O adolescente criado em uma situação em que quem fala é o diferente, o realmente rico ou o realmente forte, não vai tolerar que alguém que tem apenas um saber inútil fale mais grosso. Também o professor deve calar a boca – como a criança e a mulher no lar, como a “bicha louca” na rua e como o “pretinho safado” no trabalho. Alguns dos agressores lembram os nazistas, uma vez que se dedicam a molestar pessoas com dificuldades físicas e psíquicas, o que também já se configura um grupo na mira da agressão urbana.

Assim, nesse caso, a violência que cresce tendo como vítima pessoas de grupos sociais determinados, é um problema que os setores conservadores não querem ver. O que os setores não conservadores observam, é que de fato o chamado “preconceito” fala alto. Não há como lidar com isso como se lida com a violência em geral. Há de se lidar com isso considerando a necessidade de uma mudança de vocabulário, de redescrições dessas potenciais vítimas, para que elas saiam do lugar em que foram colocadas, como os que são um nada, ou seja, os que devem obedecer e se calar exatamente porque “foram feitos para isso”.

As políticas e leis contra a violência praticada contra crianças, mulheres, negros, homossexuais, professores, prostitutas, portadores de características físicas ou mentais diferenciadas etc. forçam a sociedade a encontrar novas formas de descrição desse pessoal. Essas redescrições é que permitem que vários dos potenciais agressores não possam mais, a partir de um determinado momento, ver nas pessoas desses grupos aqueles que são indignos de abrir a boca ou falar em tom altivo. A redescrição cria novas imagens e então, de um modo às vezes até rápido, ninguém mais possui a velha imagem no horizonte, aquela que favorecia o tratamento desigual ou a atração da mão maldosa.

As leis ajudam bem na mudança de vocabulário. As mudanças de vocabulários não podem se restringir a uma ação social desprovida da colaboração da punição dada pela lei. É necessária a coerção social feita pela cultura em geral, pelo modo como conversamos, mas é necessária também a coerção dada pela punição da lei. Lei contra homofobia ou Lei Maria da Penha ou lei contra a “palmada pedagógica” ou a legislação das cotas étnico raciais (e não “cotas para pobres”) e assim por diante ajudam os potenciais agressores no ganho de uma nova percepção, aquela que põe que as vítimas, se são protegidas pela lei, são especiais, ou seja, que são tão valorizadas pela sociedade que merecem leis próprias para cuidar delas. Isso realmente muda a face de uma sociedade. Faz ela aprender os conceitos e abandonar os preconceitos quando ela, uma vez sem escola boa, não consegue fazer isso por meios regulares. Mas, ainda com escola boa, essas leis devem existir. O fato de nossa sociedade ter optado por elas não é de agora, é uma longa história. Redescrever é um lado da mudança social, o outro é a alteração da legislação que dá um empurrãozinho na redescrição, ensinando a todos nós, quiçá também aos conservadores, que o “somos iguais” da doutrina liberal depende, às vezes, de tratar alguns de modo desigual, favorecendo-os, exatamente para que todos voltem a ficar no mesmo patamar de igualdade. Assim, o liberalismo realmente consegue, nisso, se dizer um regime bom para se acoplar à democracia, fazendo vingar a democracia liberal.

- Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ
Reproduzido via site do autor, com grifos nossos.

Manter viva a chama interior, desafio do cristianismo


Em dezembro de 2006, a Revista IHU On-line teve como tema a pergunta "Por que ainda ser cristão?", respondida em forma de depoimentos e testemunhos, que reproduziremos aqui espaçadamente. Esperamos com isso convidar também você, leitor, a refletir sobre a importância da fé e do cristianismo, qualquer que seja o lugar por eles ocupado em sua vida. Um forte abraço! :-)

* * *

Leonardo Boff foi um dos criadores da Teologia da Libertação e, em 1984, em razão de suas teses a ela ligadas e apresentadas no livro "Igreja: carisma e poder – ensaios de eclesiologia militante" 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1982, foi submetido a um processo pela ex-Inquisição em Roma, na pessoa do cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI. Em 1985, foi condenado a um ano de "silêncio obsequioso" e deposto de todas as suas funções. Dada a pressão mundial sobre o Vaticano, retornou a elas em 1986. Em l992, sendo outra vez pressionado com novo "silêncio obsequioso" pelas autoridades de Roma, renunciou às suas atividades de padre. Continuou como teólogo da libertação, escritor e assessor das comunidades eclesiais de base e de movimentos sociais. Desde 1993, é professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É autor de mais de 60 livros nas áreas de teologia, espiritualidade, filosofia, antropologia e mística, entre os quais citamos "Ética da Vida" (Rio de Janeiro, Sextante, 2006); "Igreja: carisma e poder. Ensaios de uma eclesiologia militante" (São Paulo: Record, 2006); e "Virtudes para outro mundo possivel II: convivência, respeito e tolerância" (Petrópolis: Vozes, 2006). Eis o que Boff falou à IHU On-Line, por e-mail, sobre o cristianismo hoje. (Grifos nossos)

O cristianismo, bem como as religiões, não quer substituir a ciência e a técnica. Estas atendem a necessidades nossas, mas são mudas e cegas quando se trata de definir o sentido da vida. O cristianismo nisso é forte. Ele afirma que estamos na palma da mão de Deus. A vida é chamada para a vida e não para a morte. Mas não qualquer vida, senão a vida transfigurada e ressuscitada, permitindo-nos viver numa profunda comunhão com Deus. Como dizem os místicos: seremos também Deus por participação.

A crença em Jesus
Jesus é uma antecipação, uma pequena miniatura daquilo que será realidade para todos na plenitude dos tempos. Nele aconteceu uma revolução no processo de evolução. A ressurreição o transfigurou totalmente e o levou ao ponto ômega da história. Como ele é nosso irmão, participaremos também deste destino.

Os valores do cristianismo
O Cristianismo nos oferece um outro olhar sobre toda a realidade. Não a vê como algo morto e sem sentido. Mas como uma criatura que nasceu do coração do Criador. Tudo é sacramento, fala de Deus, remete a Deus, vem penetrado de Deus. Assim tudo se faz templo sagrado, a formiga do caminho, o pobre da esquina, o Papa em Roma e cada um de nós. Esse olhar nos convida a sentirmo-nos filhos e filhas do Pai e Mãe celestes e irmãos e irmãs uns dos outros. Devemos tratar os outros como se Deus estivesse nascendo de dentro deles.

As relações entre fé, razão e o discurso da ciência
A ciência diz como o mundo é. A fé se admira pelo fato de que existe mundo e não o nada. A ciência traz utilidades, atende a demandas da vida e da razão. A fé responde às questões que sempre estão na agenda das pessoas. Pouco importa sua idade: de onde venho? Para onde vou? Qual o meu lugar neste mundo, no conjunto dos seres? Que posso esperar depois desta vida? A fé se especializou na resposta a estas questões para as quais a ciência tem pouco a dizer. E responde positivamente. Nós temos futuro, a vida continua e a eternidade nos espera, caindo nos braços do Deus, que é Pai e Mãe de infinita ternura.

Paulo de Tarso e os ensinamentos de Jesus Cristo
Paulo é o maior gênio teológico do cristianismo. Ele fez a ruptura necessária da matriz hebraica e criou a matriz helênica. Hoje vivemos destas duas heranças. Ele atualizou para o mundo moderno daquele tempo a mensagem de Jesus, criando uma teologia que vai muito mais longe do que é dito nos evangelhos. Por isso, ele é o príncipe da liberdade e da criatividade cristã.

Os desafios do cristianismo no século XXI
O primeiro desafio é a (des)ocidentalização do Cristianismo. Mais e mais o Ocidente é um acidente na história mundial. O cristianismo não pode ligar seu destino apenas ao Ocidente. Ele deve poder ser assimilado pelas culturas mundiais a partir de suas matrizes próprias, fazendo suas sínteses como nós fizemos.

O segundo desafio é de ordem organizacional. O cristianismo de versão católica é ainda tributário a usos e costumes medievais e das cortes européias. Ele não incorporou os valores da experiência democrática da modernidade que supõe pessoas participativas, livres, adultas. Ele ainda infantiliza demais os fiéis, marginaliza as mulheres e rebaixa os leigos. Esse é um dos motivos por que tantos estão emigrando da Igreja Católica.

Entretanto, o maior desafio é como conseguir que os seres humanos mantenham viva a chama interior, sagrada, da presença de Deus, da sacralidade de cada coisa que existe, da veneração pela grandiosidade e complexidade do universo e de respeito pelo mistério de cada pessoa humana. Se perdemos esta dimensão, corremos o risco de afundar e de se perverter o que existe de mais importante no ser humano: sua dignidade e sua capacidade de transcendência.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

I wanna hold your hand


Por que nós nos sentimos mais confortáveis vendo dois homens segurando armas do que dando as mãos?

- Ernest Gaines
(RT@ivonepita)

Tuitadas

Ilustração: Tad Carpenter

Em 13/6/11 houve um incêndio na casa do @pejulio. Se alguém quiser ajudar, um RT já é um começo. Obrigado! bit.ly/pUL7SE

Argentina ganha seu primeiro senador assumidamente Gay http://bit.ly/npWUXA

Carta do 1° Encontro Sudeste de Jovens Gays e Homens que Fazem Sexo com Homens (HSH) http://bit.ly/phetZX

Argentina: acesso a preservativos para crianças de 11 anos nas escolas gera polêmica ‎ http://bit.ly/n4HN1t

Dia do orgulho heterossexual é a legitimidade da homofobia http://bit.ly/pNt55T

PL-122: afinal, o que eles querem? http://twitpic.com/63dawg

Para download: e-book "Diálogo Latino-americano sobre Sexualidade e Geopolítica" http://bit.ly/n9LjNE

Carta ao prefeito Gilberto Kassab acerca do “Dia do Orgulho Hétero” (05-08-2011) (por @jeanwyllys_real) http://bit.ly/osh99N

Pacientes com Aids sofrem com a falta de exame http://glo.bo/qZuJH0 (via X1 Tantas Notícias)

‘Dia do Orgulho Hétero parece brincadeira’, diz associação de gays http://bit.ly/nd1564

Inauguração do Centro de Referêcia de Cidadania LGBT - Baixada I - Duque de Caxias http://bit.ly/ruaxpA

Transfobia é Crime http://bit.ly/nQvYOD

Uma graça de parábola: "O Jesus e a moça, a cocada e o samaritano..." http://bit.ly/mRsM6h (@murilo17)

Nāo deixe que o medo bloqueie a sua bençāo. @JovemGayCristao @ExHetero

CNBB promove debate sobre Reforma Política http://bit.ly/nCxKOD

Todas as oportunidades perdidas entre China e Igreja Católica http://bit.ly/qlGH8F

Paulo VI e a suposta ''renúncia'' de 1977 http://bit.ly/nMZOG1

RT @ciatrianguloro: #MarchaEstadoLaicoBSB mudou de data. Será dia 30 de novembro. Aguarde novas informações.

RT @willgomes @tarsogenro: Bom dia! Neste dia 10, vote e aprove as prioridades da tua região para o orçamento 2012 http://pud.im/s2f

Vereadores agora querem "desaprovar" dia do hétero http://bit.ly/oaLtTZ

RT @observatorio: "UM FILME SÉRVIO" - Falsa polêmica sobre a censura http://bit.ly/pJ2pMw

RT @Amaivos: O pescador, o anel e o rei http://ow.ly/5YV40

"Aceitação e respeito", por @ivonepita http://bit.ly/pc7KjZ

RT @PedagogiaQueer Está acontecendo a I Semana de Gênero da UCB: Corpos e Identidades. Confira a programação! Detalhe: em Brasília. http://t.co/vhj5h2k

RT @CristaoIncluso Ter problemas na vida é inevitavel. Ser derrotado por eles é opcional.

RT @NossosTons: Brasil precisa respeitar diversidade e combater homofobia, diz ministra @_mariadorosario http://t.co/k5X3SWz

"Parabéns Brasil!" Sobre miopia e distorções


Caríssimos, o instituto Ibope Inteligência acaba de descobrir o óbvio, vale dizer: os homossexuais são uma minoria na sociedade brasileira. Pesquisa publicada hoje, e realizada há duas semanas, mostra coisas óbvias, a nosso favor, mas a única manchete que os editorialistas míopes do Brasil são capazes de produzir é: “55% dos brasileiros reprovam união homoafetiva”. Se considerarmos toda a população brasileira (a pesquisa se guia por amostragem), chega-se a essa conclusão, que não deveria espantar ninguém. Se fosse o contrário, eu já estaria celebrando bodas de prata (2 anos de casado no meio gay), pois há muito tempo as leis já teriam sido modificadas, dando igual tratamento a nós e aos heterossexuais. 45% a favor, em uma sociedade tão machista e preconceituosa, é um belo resultado, e significa um crescimento se consideradas pesquisas anteriores. Verificados com calma os outros números, chegamos a belas e inescapáveis conclusões, como: quanto maior o grau de escolaridade de um indivíduo, maior a probabilidade deste ser a favor dos homossexuais, e quanto menor, mais tosca, e precária a sua formação intelectual, maior a probabilidade deste ser contrário. Podemos alegar isso, agora, com o respaldo do trabalho sério e científico do Ibope. Não vou entrar na (divertida) análise de cunho religioso, pois é chover no molhado, todos sabemos que os evangélicos são majoritariamente contrários a nós, católicos idem, ambos são criacionistas, acreditam em Adão e Eva e não em Darwin, não dá nem para dialogar. [Nota do blog: Sem querer puxar a brasa para a nossa sardinha, mas apenas corrigindo um dado: com relação a católicos, a pesquisa surpreendeu com 50% favoráveis à união homoafetiva. E, com relação à generalização sobre a adesão ao criacionismo, bem... vamos dar um desconto para o efeito de ironia do autor. ;-)]

Melhor, nisso tudo, é ir direto ao ponto mais importante: uma (ainda) minoria, como nós, é protegida pela Constituição Federal! A união homoafetiva já foi declarada constitucional pelo Supremo Tribunal Federal, em recente decisão, unânime, dos 11 maiores magistrados do Brasil. A tentativa das bancadas conservadoras no Congresso Nacional, de enviar a referendo público a aprovação de nossos direitos tropeça nesse fato. Os Ministros do STF interpretaram a Constituição naquilo que é chamado “Cláusula Pétrea” (que não se muda). Não adianta o Congresso legislar contra isso! É bem verdade que, em muitos casos, pode acontecer de termos de impetrar mandados de segurança para garantir nosso direitos, o que será a glória para muitos advogados. Mas será só mais uma etapa, pois os números crescem em nosso favor a cada ano, acompanhando a onda mundial, e, e já disse aqui, um rio nunca corre para trás. A evolução foi agora cientificamente reconhecida pelo Ibope, o Brasil está de parabéns! Abraços do Cavalcanti.

- Lourenço Cavalcanti
Reproduzido via 23B

A fé dos homofóbicos


Em 1946, quando os negros reivindicaram a inclusão de alguns direitos na Constituição, foi um salseiro. Foram acusados de antidemocráticos e racistas por congressistas e estudantes da UNE. Em 1988, a Constituição promoveu o racismo de contravenção a crime. Ninguém chiou. Na década de 50, quando se discutia o divórcio, teve cardeal dizendo que se devia pegar em armas para combater a proposta. Em 1977, o Congresso aprovou o divórcio. Não houve tiroteio, e a igreja do cardeal nunca mais tocou no assunto. Recordar é viver.

Agora, os evangélicos estão anunciando o apocalipse caso o Senado faça o que a Câmara já fez: aprovar lei punindo a homofobia com prisão. A lei em vigor pune a discriminação por raça, cor, etnia, religião e procedência nacional. A nova acrescenta a punição por discriminação contra homossexuais. Cerca de 1 000 evangélicos tentaram invadir o Senado em protesto. Dizem que a criminalização da homofobia levará à prisão em massa de pastores e padres, e viveremos todos sob o domínio gay. A história ensina que, cedo ou tarde, a lei, ou outra qualquer com objetivo similar, será aprovada, e a vida seguirá seu curso regular sem nada de extraordinário.

Os evangélicos e aliados dizem que proibir a discriminação contra gays fere a liberdade de expressão e religião. Dizem que padres e pastores, na prática de sua crença, não poderão mais criticar a homossexualidade como pecado infecto e, se o fizerem, vão parar no xadrez. É uma interpretação tão grosseira da lei que é difícil crer que seja de boa-fé.

Tal como está, a lei não proíbe a crítica. Proíbe a discriminação. Não pune a opinião. Pune a manifestação do preconceito. Uma coisa é ser contra o casamento gay, por razões de qualquer natureza. Outra coisa é humilhar os gays, apontá-los como filhos do demônio, doentes ou tarados. É tão reacionário quanto uma Ku Klux Klan alegar que a proibição da segregação racial fere sua liberdade de expressão. Querem a liberdade de usar a tecnologia Holerite de cartões perfurados pela IBM?

Alegam que a liberdade religiosa fica limitada porque combater o pecado vira crime. É um duplo equívoco. O primeiro é achar que uma doutrina de crença em forças sobrenaturais autoriza o fiel a discriminar o herege. O segundo é atribuir à lei valor moral. O direito penal não é instrumento para infundir virtudes. É um meio para garantir o convívio minimamente pacífico em sociedade. Matar é crime não porque seja imoral, mas porque a sociedade entendeu que a vida deve ser preservada. Dúvidas? Recorram ao Supremo Tribunal Federal. Na democracia, é assim. Lei não é bíblia de moralidade.

O que essa proposta pretende dar aos gays, e sabe-se lá se terá alguma eficácia, é aquilo a que todo ser humano tem direito: respeito à sua integridade física e moral. Os evangélicos, pelo menos os que foram a Brasília, dão prova de desconhecer que seres humanos não diferem de coisas só porque são um fim em si mesmos. Os seres humanos diferem das coisas porque, além de tudo, têm dignidade. As coisas têm preço.

- André Petry (colunadopetry@abril.com.br)
Publicado originalmente na coluna do autor na Revista Veja, edição 2067, de 2 de julho de 2008
Reproduzido via Gospel LGBT

Recolhimento produtivo


Passei a terceira semana de julho em retiro espiritual com meus confrades dominicanos. No feriado de Corpus Christi, fiz o mesmo, durante três dias, com grupos de oração integrados por leigos. Neste mundo atordoado, notícias nos perseguem em todos os cantos e recantos. Solicitações se multiplicam. Retirar-se, recolher-se à solidão, estar consigo mesmo, é uma exigência espiritual e intelectual. Muitos indígenas o fazem ao passar da adolescência à idade adulta. Os esportistas se concentram nos dias precedentes a jogos e disputas.

Se logro produzir tantos artigos e livros (53 títulos em 35 anos. O 54º, um romance, sai no final deste mês), não é devido à equipe de fradinhos que, como sugere Ricardo Kotscho, ocupa-se, no porão do convento, a redigir, dia e noite, textos que assino. É graças a retiros literários. Pelo menos 120 dias do ano reservados à criação literária. Evito a agitação urbana e mantenho o celular desligado e a ansiedade contida.

Escrever, como diria Thomas Edison, não é mera questão de inspiração, e sim de transpiração. (João Ubaldo Ribeiro opina que a melhor inspiração é um fornido cheque do editor.) Para criar há que ralar. Ter a disciplina de renunciar a convites, festas, atrações, viagens. E dedicar-se seriamente ao trabalho de ler, escrever e pesquisar. Basta abrir as correspondências de Balzac e Flaubert para ter uma ideia de como se entregavam ciosamente ao ofício literário.

Ah, quantas narrativas jamais nos chegaram por ficarem retidas na imaginação de escritores que não se empenharam em virar autores! Quantas obras-primas literárias sorvidas em tulipas de chope nos bares da noite! A preguiça é um dos sete pecados capitais. Nome inadequado. Nada a ver com sombra, água fresca e jornal sem letras. Prefiro o termo sugerido pelo monge Cassiano (370-435): acídia, latinização do grego acédia. Acídia é o desânimo de cultivar a vida espiritual. De orar. De ler e meditar a palavra de Deus. De praticar a virtude e superar o vício. De abraçar os ensinamentos dos mestres espirituais.

Esta a importância do retiro espiritual: distanciar-se do burburinho cotidiano, livrar-se por uns dias da hipnose televisiva e do magnetismo internético, deixar o celular desligado e conectar-se ao silêncio, ao íntimo de si mesmo, para escutar melhor a voz divina e, assim, dilatar a capacidade de amar. Muitas vezes a resistência em retirar-se deriva do medo (inconfessado) de encontrar a si mesmo. De escutar a própria intuição, ouvir a voz do silêncio. É semelhante à resistência à terapia. Assim como há quem julgue que ela “é para loucos”, há quem considere que retiro “é para monges”.

Tenho amigos com imensa dificuldade de desconectar-se do dia a dia. São compulsiva e compulsoriamente antenados em tudo. Na verdade, ficam ligados no varejo. Não conseguem se empenhar no atacado. Deixam escapar por entre os dedos os talentos que possuem. Tornam-se, assim, presas fáceis da ansiedade e vítimas do estresse. São aptos ao infarto, pois nem sequer conseguem mastigar devagar o que ingerem.

Ainda que não haja oportunidade de fazer um retiro espiritual, ao menos a manhã ou a tarde de um domingo do mês deveria ser reservada ao isolamento. Bastaria visitar uma igreja, desfrutar a tranquilidade de um parque ou mesmo trancar-se em casa e meditar. Para o artista, retirar-se é imprescindível. A criação exige distanciamento. Krajcberg refugia-se no Sul da Bahia. Manoel de Barros, numa fazenda do Mato Grosso. Adélia Prado, em Divinópolis (MG). João Gilberto se impõe uma vida monástica em seu apartamento no Rio.

Talvez por isso Javé, em sua sabedoria, tenha primeiro criado a luz e, por fim, os seres humanos. Nossa excessiva tagarelice teria prejudicado a obra da Criação. E, como narrador invisível, Deus prefere ser conhecido por sua palavra e obra. Assim como nós, leitores, conhecemos Camões, Machado de Assis e Dostoiévski.

- Frei Betto
Jornalista e escritor
Reproduzido via Conteúdo Livre
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