sábado, 28 de maio de 2011

Por um cristianismo maduro e responsável


Nosso amigo Tony Goes costuma nos brindar com verdadeiras pérolas em seu blog. Ontem tive a agradável surpresa de me deparar com um post sobre... o Diversidade Católica! Ok, não só sobre nós, mas também sobre nós, oras. ;-)

Comecei a ler os comentários e dois me chamaram atenção. Um, do James Figueiredo, que disse:

Todas (veja bem, TODAS) as religiões abraâmicas são nossas inimigas, e não entendo o que mais seus representantes precisam fazer pra enxergarmos isso (a última semana foi bastante elucidativa nesse ponto).

E, sinceramente, admirar gays que lutam pra conciliar sua homossexualidade com suas superstições religiosa? PUH-LEAZE.

Gays religiosos são como...sei lá, judeus nazistas. Deveríamos é nos esforçar pra libertá-los dessas prisões que só alimentam suas dúvidas e minam sua auto-estima.

E outra, do Papai Urso do Interior (a-mei esse nick!), que manifestou seu interesse em saber mais sobre o DC.

Demorei um tanto, mas fiz questão de responder, ao Tony e a esses dois especialmente. A resposta ficou loooonga (não, concisão definitivamente NÃO é o meu forte), mas achei que valia reproduzi-la aqui.


Querido Tony,

Como sou sua “seguidora” no Google, vi ontem mesmo que você havia publicado este post a respeito do Diversidade Católica. Fiquei muito tocada pelo seu carinho e lisonjeada com suas palavras. Entretanto, dei uma rápida olhada nos comentários e dois me chamaram muito a atenção.

Primeiro, o do Papai Urso do Interior: querido Papai Urso (nunca na minha vida pensei que fosse ter algum dia a chance de escrever essas três palavras em sequência, kkkkkkk), fique inteiramente à vontade para entrar em contato conosco quando quiser. Realizamos reuniões quinzenais, entre outras atividades, e será um prazer recebê-lo ou apenas conversar um pouco, conforme você quiser ou precisar. Para entrar em contato direto comigo, escreva para contatoblogdc@gmail.com, ok?

Depois, li o comentário do James Figueiredo. Demorei para escrever de volta porque estava pensando no que responder. Peço desculpas desde já pela longa resposta, mas não consegui fazer diferente, dada a importância do tema.

Essa resposta é importante porque você, James, não é o único a pensar assim, e te agradeço muito por ter exposto a sua opinião. Confesso que li apenas os seus dois primeiros comentários. Vi que a discussão entre vc e o Papai Urso continuou, mas não pude ler com atenção porque estamos às voltas com os preparativos para a Caminhada por uma Educação sem Homofobia, que tivemos a iniciativa de organizar junto com a Comunidade Betel, outro grupo de cristãos gays, e que vai acontecer amanhã aqui na orla do Rio, com concentração às 10h, no Posto 9, em Ipanema, com a presença do Deputado Jean Wyllys e outras lideranças LGBTs. Por conta disso, estamos meio assoberbados e não pude dar a este debate aqui a atenção que merece. Espero que entendam, mas peço desculpas mesmo assim. :-)

De todo modo, gostaria de sublinhar alguns pontos importantes a respeito deste tema, que talvez às vezes não fiquem claros para todo mundo.

Primeiro, religião e espiritualidade são coisas distintas. É muito comum as pessoas se esquecerem disso. Religião tem a ver com sistemas mais ou menos institucionalizados de expressão de uma determinada crença, estruturados ao longo do tempo, da história e das transformações culturais de um determinado povo ou grupo social. Em parte, é uma forma de expressão da espiritualidade tanto de cada membro desse povo ou grupo quanto do grupo em seu conjunto, mas envolve muitos outros fatores de ordem social e cultural também.

Já espiritualidade tem a ver com a necessidade humana de transcendência, isto é, de atribuir um significado à sua existência, um sentido à vida, um propósito à sua presença aqui e agora. Trata-se do conjunto de respostas que cada um procura dar àquelas perguntas que nos fazemos desde crianças: de onde vim? Para onde vou? Por que estou aqui? Para que estou aqui? Qual o sentido de tudo isto? Cada um encontra suas próprias respostas distintas, mas em geral todos nós nos deparamos com essas perguntas, e não sossegamos enquanto não encontramos uma resposta – embora seja comum também as respostas irem mudando ao longo da vida, mas isso já é uma outra história... :-)

O que acontece é que nós do Diversidade Católica encontramos no credo cristão, e especificamente na forma católica, a maneira com a qual mais nos identificamos para expressar nossa espiritualidade. Isso significa que o que dá sentido às nossas vidas é a mensagem evangélica de amor e serviço ao próximo, à luz de um Deus que é Pai e ama a cada um de seus filhos de maneira irrestrita e sem condições. E mais: o fato central e específico da nossa crença é que Cristo foi Deus encarnado como homem. Um Deus que se faz humilde e serviço aos seus filhos amados; que por amor se reduz à forma humana, por amor prega uma doutrina revolucionária, desmascarando todas as hipocrisias dos poderosos e da elite religiosa de seu tempo, e por amor aceita ser morto por essas pessoas, a fim de levar às últimas conseqüências sua mensagem de amor, humildade e não-violência. E, por amor, vence a morte e ressuscita, deixando-nos uma mensagem de esperança de que, por pior que as coisas sejam, no fim, Ele a tudo supera. (Se quiser se aprofundar nesse tema, dê uma olhada em “A Cruz: suplício ou esperança?” e “No sofrimento, Deus luta pela vida e solidariza-se com aquele que sofre”)

Desculpe, James, esse breve resumo da nossa profissão-de-fé, mas ele é importante para explicar que a crença na encarnação de Deus na figura do Cristo tem uma conseqüência fundamental para os cristãos: o fato de que é no humano, e não em uma imagem de Deus, qualquer que seja ela, que encontramos a transcendência, isto é, o significado último da nossa existência. É no serviço ao Outro que encontramos sentido. O projeto cristão, em sua origem, não é um projeto religioso (veja “O Cristianismo: uma religião ou a saída da religião?”); não é sequer um projeto de fé. É, antes de tudo, um projeto ético. (A esse respeito, dê uma olhada em dois posts nossos desta semana, de um teólogo espanhol: “Deus não está na fé, mas na ética” e “Estamos procurando Deus nos lugares errados”).

Chego então ao segundo ponto que gostaria de sublinhar: você certamente conhece cristãos cujas palavras e atos não têm nada a ver com o que acabo de expor. Eu conheço muitos; talvez até sejam a maioria. Ocorre que, ao longo desses dois mil anos de história, à medida que a história do cristianismo se misturava à história da Igreja e esta, à história do poder no Ocidente – taí aquela distinção entre espiritualidade e religião, viu? – foi se consolidando uma imagem de Deus que de certo modo se distanciou da mensagem evangélica. Por influências culturais (a absorção da doutrina estóica nos primeiros cinco séculos de nossa era, por exemplo, trouxe uma visão do corpo e da sexualidade como algo impuro, quando isso não era em absoluto um elemento original do cristianismo) e históricas (a desintegração do Império Romano, por exemplo, que alçou a Igreja à posição de centro agregador da cultura e da estrutura social da Europa Ocidental na Alta Idade Média), consagrou-se a imagem de um Deus identificado com o poder – e, de roldão com esse poder, veio a imagem de um Deus que julga, que oprime, que impõe ao homem o que é certo ou errado. Ou seja, um Deus que é um monarca totalitário e autoritário, profundamente humano, e que tem a importante função social de justificar as humanas estruturas de poder de seu tempo. Justamente a imagem e função de Deus tão criticada por Cristo em seu tempo. E justamente a antítese, portanto, do cerne da mensagem evangélica.

A questão é que, com o advento da ciência, esta nos fez o favor de desvincular da religião a prerrogativa de todo o saber sobre o mundo e explicação da vida. O que é ótimo, porque embora essa função tenha tido sua importância num determinado momento histórico, hoje a ciência a cumpre muito melhor. E pode restar à religião concentrar-se na espiritualidade – e esta, por sua vez, naquilo que só ela faz: dar conta da necessidade humana de transcendência.

O problema é que ainda existe por aí aquela imagem de um Deus opressor etc. E essa imagem é cada vez menos satisfatória, tem cada vez menos a ver com os anseios do coração humano. Daí o êxodo que as religiões mais institucionalizadas, especialmente os cristianismos, vêm sofrendo: porque essa imagem de Deus simplesmente não serve mais. Ou melhor: para alguns, serve. Há quem queira um Deus assim. Há quem procure justamente um Deus que lhe diga o que fazer, que diga o que é certo e errado, simplesmente, e lhe dê a segurança de que, se a pessoa fizer o que é certo e não fizer o que é errado, vai ganhar um prêmio, nesta vida ou numa outra depois. Você certamente conhece pessoas assim. Eu conheço pencas: são os fundamentalistas.

É com base nessa visão dualista de “isso é certo” vs. “isso é errado” que os fundamentalistas atacam a nós, gays. Nós “somos” errados e pronto. É uma visão de mundo muito simples e cômoda, mas também profundamente opressiva e esmagadora. Considerar que uma relação humana – hétero, homo ou o que for – pode ser saudável ou não dependendo das escolhas dos envolvidos é muito mais complicado e difícil (mas também muito mais libertador) que simplesmente pensar que “hétero é certo” e “gay é errado”. Quer saber? Perdem muito mais eles do que nós.

Terceiro – e, pra mim, o mais importante (embora raramente as pessoas não-religiosas levem esse fator em consideração ao nos dirigirem críticas como as suas, James): assim como a orientação sexual, a pertença religiosa é um aspecto inerente à identidade de cada um; como tal, não se trata de uma escolha. Por fatores da história de cada um talvez tão inescrutáveis quanto os motivos que fazem com que alguém seja gay, o fato é que algumas pessoas são cristãs. Algumas, especificamente católicas. Nós somos católicos. E gays. E não há nada que possamos fazer a respeito. Muitos de nós já tentaram “deixar de ser” católicos. Alguns “deixaram de ser” gays, também. Não funcionou. E foi MUITO libertador quando esses puderam se dar o direito de ser gays, de ser católicos. De ser o que são, em suma. (Mais dicas de leitura: “Permanecer e transgredir” e “Ficar ou sair da Igreja?”)

Confesso, James, que me preocupa muito ler “deveríamos é nos esforçar pra libertá-los dessas prisões que só alimentam suas dúvidas e minam sua auto-estima”. Desculpe, mas isso me soa tão parecido com a lógica de “ser gay não é bom pra você, precisamos te ajudar a deixar de lado isso que te faz muito mal”! É a mesma lógica que produz as famigeradas terapias de reversão.  Não seria mais profícuo um exercício de respeito e tolerância à diferença, mesmo quando a gente não consegue entender a diferença do outro?

Por fim, o quarto ponto que eu gostaria de salientar: Igreja nenhuma, instituição nenhuma é um corpo único, com uma só voz. Nisso, James, discordamos inteiramente... A Igreja não é o Magistério, o clero, mas todo o corpo dos fiéis, cada qual com sua voz – e é uma verdadeira multidão de vozes. Nem mesmo o Magistério em si tem uma voz única. A imprensa presta um verdadeiro desserviço quando anuncia "Vaticano diz que...", "Bispos dizem que...", como se essa entidade abstrata sem rosto tivesse existência própria. Alimentar essa imagem contribui apenas para a demonização desse Outro, que vira meu "inimigo".

Tome-se, por exemplo, a recente atitude da Igreja no Brasil em relação ao julgamento da união estável gay no STF: enquanto a CNBB se preocupava em mandar um advogado para falar contra a aprovação (ai, sou humana: intensos frêmitos de vergonha alheia), existe uma infinidade de cristãos, católicos ou não, clérigos ou não, que defendem os direitos civis gays. Veja os seguintes exemplos: “A Igreja de peito aberto para as minorias”; “As vozes da Igreja”; “Padre coordena grupo que lançou consultoria online para público LGBT”; “‘Não vamos fazer nenhuma cruzada’, diz bispo em SP sobre união gay”; “Os gays e a Bíblia”; “Os gays entram nas igrejas”; “A Igreja de portas abertas para as vítimas da homofobia”; "União Civil e Nossa Voz" “Católicos pela igualdade matrimonial”; “União estável homoafetiva, um direito conquistado”, entre muitos outros.

A mesma Igreja que tantas atrocidades perpetrou ao longo da História (e perpetra ainda, inegavelmente) em nome de “Deus” (entre aspas porque é aquele Deus opressor cuja imagem serve apenas à perpetuação de estruturas humanas de poder, sem nada a ver com o Deus da mensagem evangélica) é a mesma que produziu Dom Helder Camara, José Comblin, Zilda Arns, Josimo Tavares, Oscar Romero, Dorothy Stang, Frei Betto, Leonardo Boff; os agentes da pastoral da AIDS, da pastoral da terra – que vêm sendo silenciosamente martirizados no norte do país – e tantos outros que colocam o amor e o serviço ao próximo no centro e acima de suas próprias vidas.

Assim como a sexualidade ou qualquer outro aspecto da vida humana, também a espiritualidade pode ser vivida de formas mais ou menos saudáveis. O cristianismo praticado de maneira positiva, James, é menos uma questão de fé e mais uma questão de valores, de uma espiritualidade madura e de uma ética sólida, que tira o ser humano do egocentrismo e o coloca numa relação aberta e responsável com os irmãos.

O Diversidade Católica existe para isto: para delimitar um território – a identidade que é nossa por direito, porque somos o que somos, católicos E gays, e ninguém pode dizer o contrário; e para ajudar seus membros a viver e praticar um cristianismo maduro e responsável em sua relação com Deus e com os irmãos.

Mais uma vez, a quem chegou até aqui, me desculpem pela extensão da resposta, e obrigada pela paciência. Especialmente a você, Tony, por me ceder este espaço.

A todos – Tony, James, Papai Urso e os demais – fiquem com a graça e a paz de Cristo. Um domingo luminoso para todos.

Um abraço carinhoso,

Cristiana
Equipe Diversidade Católica

Respeito se aprende na escola



Confira aqui entrevista à Rádio CBN Rio sobre a Caminhada por uma Educação em Homofobia amanhã, 10h no Posto 9, em Ipanema.

Um passo de dança


Façamos da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança,
do medo uma escada,
do sonho uma ponte, da procura um encontro.

- Fernando Sabino

Citado na carta aberta da ABGLT à presidente Dilma.

EuroPride 2011


Uma graça essa animação, que venceu o concurso de vinhetas para a EuroPride 2011, mega evento gay que este ano acontecerá entre 1º e 12 de junho em Roma, com uma grande parada do orgulho gay no dia 11.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Aprendendo sempre


“Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso, aprendemos sempre.”

- Paulo Freire via @diegolem

Uma loucura


Em meio ao caos, sempre há uma voz amiga para apaziguar nosso coração. O amigo Teleny publicou ontem o post a seguir, que tomamos a liberdade de reproduzir aqui:

Hoje quase surtei. Tinha acabado de abrir a página da CNBB para ler a mais recente “voz da Igreja” (na onda da polêmica sobre uniões homoafetivas). Ao mesmo tempo, chegava aos meus ouvidos, o áudio da “propaganda partidária obrigatória”. Alguns minutos mais tarde, ouvi a Presidenta Dilma falando coisas estranhas. Conclusão: não entendi absolutamente nada. Nem do bispo, nem do PSOL, nem da Dilma. Ora, eu não fumei nehuma erva. Mas eles... não sei!

Dom Antônio Augusto Dias Duarte (Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro), em seu texto “A Bíblia e o frei” (aqui, [tentando responder o recente artigo de Frei Betto]), tenta ser eloquente, mas o fio condutor do discurso acaba se emaranhando. Como em outros casos de artigos publicados pela CNBB, consegui pescar dois “peixinhos” (ou duas pérolas) - frases interessantes do autor:

[1] "Ainda há tempo – se alguns freis, alguns ministros de tribunais, alguns políticos, alguns padres e alguns pastores permitirem –, de recuperar plenamente o sentido da Bíblia como o grande código de vida para as culturas, incluindo aqui também a cultura gay, para pensar e direcionar melhor todas as considerações sobre a homossexualidade."

[2] "(...) A Bíblia sempre existirá para que cada pessoa, com suas particularidades e com sua história singular, reconheça-se e valorize-se como criatura de Deus e como filha no Filho Eterno do Pai por obra do Espírito Santo, a fim de que responda à vocação do amor e da comunhão nela inscrita e aceite a própria identidade sexual e a viva na sua especificidade e na sua complementaridade."

Queira me desculpar Dom Antônio Augusto, mas o resto do texto é, para mim, uma confusão e tanto. Quem quiser, leia na fonte, sob a sua própria responsabilidade. O meu conselho é de desligar a TV e tentar se concentrar. O que aconteceu comigo foi ouvir duas vezes, no meio daquela leitura desafiadora, as exclamações de partidários do PSOL que pretendem defender “homens, mulheres e homossexuais”. Eu devo não ter escutado direito. Será possível?

Pensando bem, é mesma lógica que o bispo usa em seu artigo e que, para contestar o fenômeno da homossexualidade, cita a Bíblia: “Deus disse: façamos o ser humano à nossa imagem e segundo a nossa semelhança (...). Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus os criou. Homem e mulher Ele os criou” (Gen 1, 25-27). Vale notar que essa é a principal argumentação dos religiosos, opositores da união afetiva de pessoas do mesmo sexo: Deus criou o macho e a fêmea (como gritavam os outdoors de Silas Malafaia, espalhados pela cidade). Isso significa que, na opinião deles, a pessoa homossexual não é homem nem mulher. Deve ser então um monstro! Ou bicho!

Aí vem, depois, a Presidenta e diz que “não vai ser permitido a nenhum órgão do governo fazer propaganda de opções sexuais”. Por estar tentando, naquele momento, decifrar o propósito do texto de Dom Antônio Augusto, tive a impressão de que a Dilma havia se inspirado em uma das teorias do prelado: Em primeiro lugar, é politicamente inexato dizer que as pessoas nascem assim, pré-determinadas a uma biologia ou sujeitas necessariamente a uma definição cultural sobre a sua raça ou sobre o seu sexo. Quem diria que persiste ainda a ideia de que a identidade sexual seja uma opção, quer dizer, uma escolha. Putz! Se eu soubesse...

Corrija-me quem quiser!
Localize na web aquela propaganda do PSOL, porque eu posso não ter entendido direito.
Leia o artigo do bispo, porque eu fiquei perdido.
Tente interpretar as palavras da Presidenta, porque... sei lá!

Eu desisto...
Alguém tem um pouco de erva para compartilhar comigo?

Papa: católicos devem participar da vida pública

O Papa rezou na tarde desta quinta-feira (26) o Rosário com os bispos italianos, na Basílica de Santa Maria Maior, no contexto das celebrações dos 150 anos de unidade da Itália.

Bento XVI fez um apelo a que os prelados alentem os católicos a participar da vida pública.

A fé, de fato, não é alienação: são outras as experiências que contaminam a dignidade do homem e a qualidade da convivência social”, disse.

“Em cada época histórica, o encontro com a palavra sempre nova do Evangelho foi manancial de civilização, construiu pontes entre os povos e enriqueceu o tecido de nossas cidades, expressando-se na cultura, nas artes e, não em último lugar, nas mil formas da caridade.”

O Papa pediu aos bispos que estimulem os fiéis leigos a “vencer todo espírito de fechamento, distração e indiferença, e a participar em primeira pessoa na vida pública”, para construir uma sociedade que respeite plenamente a dignidade humana.

Bento XVI insistiu na importância das “iniciativas de formação inspiradas na doutrina social da Igreja, para que quem esteja chamado a responsabilidades políticas e administrativas não seja vítima da tentação de explorar sua posição por interesses pessoais ou por sede de poder”.

É muito importante também – sublinhou – “apoiar a vasta rede de agregações e associações que promovem obras de caráter cultural, social e caritativo”.

Ao falar sobre a Itália, o Papa destacou que o país deve se orgulhar da presença e da ação da Igreja. Esta não persegue privilégios nem pretende substituir as responsabilidades das instituições políticas; respeitosa da legítima laicidade do Estado, está atenta em apoiar os direito fundamentais do homem”.

“A Igreja – forte por uma reflexão colegial e pela experiência direta sobre o terreno – continua oferecendo sua contribuição para a construção do bem comum, recordando a cada um seu dever de promover e tutelar a vida humana em todas as suas fases e de sustentar com os fatos a família; esta continua sendo, de fato, a primeira realidade onde podem crescer pessoas livres e responsáveis, formadas nesses valores profundos que abrem à fraternidade e que permitem enfrentar também as adversidades da vida.”

Reproduzido via Amai-vos, com grifos nossos

Estamos procurando Deus nos lugares errados

Escultura: Maarten Baas

Publicamos agora o final do discurso do teólogo espanhol José María Castillo, cuja primeira parte publicamos aqui.

Quero destacar que, na minha maneira de ver as coisas, a Igreja terá futuro e a teologia poderá subsistir na medida em que ambas – Igreja e Teologia – forem capazes de tomar um rumo diferente ao que seguiram até agora. Durante séculos, a teologia se viu a si mesma como a “regina scientiarum”, o centro de todos os saberes e o poder normativo para todas as condutas. Hoje, esta posição preponderante da Igreja e de sua teologia se tornou insustentável. Porque perdeu sua falsa consistência. O progresso da ciência e o avanço irresistível das tecnologias vão colocando as religiões no seu devido lugar. Como sabemos, as religiões resistem às mudanças e, com frequência, ficam presas à fidelidade a tradições de um passado que nunca mais será determinante na vida dos indivíduos e dos povos. O que explica o desajuste crescente entre teologia e ciência, entre teologia e sociedade.

Com frequência, se pretende atribuir este desajuste à prepotência e ao afã de comando dos dirigentes das religiões. Sem dúvida, isso pode ter uma determinada influência na atual crise religiosa. Mas o fundo da questão – segundo creio – não é essa. É a teoria sobre Deus que está falhando. E, por isso, de uma equivocada teoria sobre Deus (e sobre onde e como encontrar Deus), se costumam deduzir consequências desastrosas, sobretudo, para as pessoas, para as instituições e para a sociedade. De modo geral, são muitas as pessoas que imaginam que encontram Deus em um “Tu” transcendente, que nos é imposto a partir de um poder inapelável. Mas insisto no fato de que essa “representação de Deus” está na base e na explicação da atual crise da fé, a crise da religião e a crise da Igreja. Porque quem acredita em semelhante “Deus” e pretende representá-lo ou falar em seu nome, o que faz, na realidade, é ir na contracorrente.

Porque cada dia é mais escasso o número de pessoas que se atrevem a seguir crendo nesse Deus contraditório e perigoso. Por isso insisti em que só podemos encontrar Deus em nossa imanência, no laico, no secular, no civil, no humano. Não excluo a importância que tem, para o homo religiosus, a oração, o louvor, a celebração sacramental e simbólica das próprias convicções religiosas. Nesta ordem de “mediações”, cada religião deve ser fiel à sua própria história, aos seus costumes e às suas práticas, contanto que tudo isso não fomente a exclusão dos outros, a separação dos povos e culturas, a intolerância e o fanatismo. Porque o importante não é a religião, mas Deus, ao qual só podemos encontrar em nossa imanência e em nossa humanidade.

Pois bem, se este é o conceito e a experiência de Deus, a teologia, enquanto saber que se ocupa do tema desse Deus que encontramos no verdadeiramente humano – se é que a teologia deve seguir existindo no futuro –, terá que ser, antes que um saber superior que ensina os outros saberes, deverá ser um sujeito humilde e modesto que sempre terá que se apresentar, desde essa humildade e modéstia, como um saber que aprende dos outros saberes o que necessita assimilar deles para conhecer melhor o humano, para interpretar a partir das ciências humanas o significado e as consequências que pode ter (e terá) a presença do Deus humanizado entre os seres humanos. Porque é no humano, e somente no imanente e humano, onde os humanos podem encontrar Deus.

Não faltará razão a Karl Rahner [um dos maiores teólogos católicos do século XX, perito no Concílio Vaticano II] quando disse que: “se a teologia ainda deve continuar a existir no futuro, esta não será certamente uma teologia que se instala simplesmente e a priori 'junto a' ou 'por cima de' o mundo secular ou o mundo laico... É preciso, evidentemente, dizer que a ansiosa pergunta dos teólogos sobre o futuro da teologia não pode receber senão a resposta afirmativa que exige uma única condição: a aptidão da teologia para falar de Deus em um mundo secular”. E hoje, 60 anos depois que Rahner disse estas coisas, as aceleradas mudanças das últimas décadas nos empurram a ter que afirmar, com liberdade e audácia, que, daqui em diante, somente terá sentido e futuro a teologia que for capaz de trazer algum sentido à vida. E assim, potenciar a melhor resposta que podemos dar aos nossos desejos de humanidade. Quero dizer, os desejos que buscam uma forma de vida que, por ser mais plenamente humana, seja também mais plenamente feliz.

Deus não está na fé, mas na ética

Almofadas: Stephanie Marin

O presente texto é um extrato do discurso lido por José María Castillo na solenidade em que recebeu o Doutorado Honoris Causa da Universidade de Granada, da Espanha.

José María Castillo, teólogo espanhol, é autor de uma importante obra teológica. Vários dos seus livros foram traduzidos para o português.

O texto está publicado no sítio Rebelión Digital, 13-05-2011. A tradução é do Cepat. Reproduzimos via IHU, com grifos nossos, e dividido, para melhor apreciação, em duas partes

Eis o discurso: após uma breve introdução, Castillo se propõe a refletir sobre como se pode pensar em Deus e falar de Deus em um espaço secular. E ele começa a responder a questão apontando uma contradição na capacidade do ser humano pensar em Deus, e buscando uma forma de superá-la:

(...) Deus é o Transcendente. Ao dizer isto, estamos afirmando que Deus está para além dos limites de nosso conhecimento experimental e demonstrável. Ou seja, quando falamos de Deus, na realidade estamos nos referindo à sua realidade que não conhecemos. Por isso, quando as religiões nos falam de Deus, realmente não falam, nem podem falar, de Deus em si, mas nos falam das representações de Deus que os humanos se fazem. Porque, desde a nossa imanência [a realidade material, a natureza, em sua concretude], tudo quanto podemos pensar e dizer é sempre imanente. Nunca pode ser o transcendente.

Por essa razão, a representação de Deus, que nos fizemos, é inevitavelmente projetiva. Quer dizer, nossa representação de Deus é uma projeção de nossos desejos mais fortes: o poder, a bondade, a felicidade... E assim, apareceu um Deus infinitamente poderoso e infinitamente bom. Mas, ao fazer isso, não caímos na conta de que o resultado foi um Deus contraditório e um Deus perigoso. Um Deus contraditório, porque o poder sem limites e a bondade sem limites não são compatíveis com o mal que há no mundo (se é que Deus tem algo a ver com este mundo). E um Deus perigoso, porque todo Deus monoteísta é, por isso mesmo, um Deus excludente. Por esta razão, inevitavelmente, é também um Deus violento.

Quer isto dizer que o Deus, que os humanos representaram para si, é um Deus condenado inevitavelmente ao fracasso? (...) Por esse caminho desembocamos em uma contradição insolúvel. Mas sabemos que o ser humano não age, nem só nem principalmente a partir da contribuição do discurso racional. O mais determinante em nossas vidas não são as verdades, que brotam de conteúdos mentais. O mais determinante são as convicções, que se traduzem em formas de conduta e em hábitos de vida.

Isto posto, a afirmação capital da minha reflexão se centra em que, segundo a tradição cristã, o Transcendente se torna presente em nossa imanência. Isto é, definitivamente, o que representa e o que significa Jesus de Nazaré. Quando a teologia afirma que Jesus é a encarnação de Deus, o que na realidade está dizendo é que Jesus é a humanização de Deus. Por isso, o “Senhor da Glória”, assim como se humanizou em Jesus, pôde dizer e deixou como sentença a afirmação decisiva: “O que fizestes a um destes, foi a mim que fizestes” (Mt 25, 31-46). Nessa sentença definitiva, já não se levará em conta nem a fé, nem a religião. Só ficará em pé o humano, o que cada ser humano tiver feito com os outros seres humanos.

A consequência que, em sã lógica, se segue do que acabo de dizer é que o projeto cristão não pode ser um projeto religioso ou sagrado de divinização, mas um projeto profano e laico de humanização. Deus não se encarnou no sagrado e seus privilégios, nem no religioso e seus poderes. Deus se mesclou com o humano. Portanto, encontramos Deus, sobretudo, no profano, no laico, no secular, no que é comum a todos os humanos e no que nos une aos demais seres humanos, sejam quais forem suas crenças e suas tradições religiosas. Porque o determinante, para encontrar Deus, não é a fé, mas a ética, que se traduz em respeito, tolerância, estima e misericórdia.


(Continua)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O verdadeiro significado da obediência

Foto: Anna Di Prospero, "Self-portrait with my mother"

"A obediência não vem de uma batalha de opiniões ou de uma sobreposição de uma vontade sobre a outra, mas sim de um lugar de profunda humildade e respeito." A opinião é de Clare Condon, SGS, superiora das Irmãs do Bom Samaritano da Austrália, publicada no sítio The Good Oil, 11-05-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, reproduzido via IHU com grifos nossos:

Na época do recente casamento do Príncipe William e de Kate Middleton, a mídia comentou que Kate não incluiu a "obediência a William" na sua fórmula de voto, mas, ao contrário, publicamente, afirmou: "Eu me comprometo a amar, honrar, confortar e conservar".

Considerando as mudanças nas relações de gênero que ocorreram nos últimos 50 anos, pode-se facilmente estar de acordo com a sua resposta. Qualquer forma de obediência em um casamento deve ser mútua e expressada por ambas as partes. Mas talvez haja alguma hipótese subjacente na cobertura midiática sobre o casamento de um futuro rei, de um governante do seu país. Em um marco hierárquico, espera-se que todos obedeçam ao rei?

A linguagem é dinâmica. As palavras mudam seu significado ao longo do tempo e dentro de diferentes contextos culturais. A palavra "obediência" recebe uma imagem muito ruim na nossa atual sociedade democrática e individualista, porque a "obediência" é vista como uma implicação da subserviência, de abrir mão da própria vontade pelo poder e dominação do outro. Ela é vista como um sinal de fraqueza pessoal.

A própria Igreja Católica, com suas estruturas hierárquicas e medievais, também pode distorcer o verdadeiro significado da obediência. Em tal estrutura de poder e dominação, reforçada por uma legitimidade divina, a obediência pode ser vista como simplesmente dizer "sim" ao magisterium ou à autoridade "legal", em uma forma irrefletida e pouco inteligente.

A palavra latina fundamental para "obediência" é oboedire, que corretamente traduzida significa "ouvir ou escutar". Essa tradução implica em uma relação de mutualidade, em que os membros da comunidade ouvem uns ao outros.

Na nossa tradição beneditina, essa palavra está constantemente diante de nós. É nas nossas relações humanas que nos aproximamos de Deus, e é nesses relacionamentos que chegamos a obediência à Palavra de Deus por nós mesmos e uns pelos outros, dentro e para essa comunidade.

A palavra "obediência", na tradição espiritual da Igreja Cristã, pede uma resposta profunda e informada de uma consciência bem formada pela comunidade e pela partilha da Palavra de Deus em um espírito de escuta.

Na obediência, sempre haverá uma tensão, porque nós discernimos as preferências de Deus nas situações reais e desafiadoras em que nos encontramos. A obediência não vem de uma batalha de opiniões ou de uma sobreposição de uma vontade sobre a outra, mas sim de um lugar de profunda humildade e respeito.

Por isso, eu acredito que seja válido ressuscitar o verdadeiro significado da palavra "obediência" em nossas experiências diárias de vida em comunidade, quer seja em um casamento, em uma amizade, em uma comunidade religiosa, em uma igreja ou em uma nação. Se pudéssemos ouvir mais atenciosamente uns aos outros dentro de nossas diversas comunidades, as decisões que fossem tomadas ofereceriam um maior sentido de retidão e de paz em nossas vidas e em nosso mundo.



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Um grande abraço! :-)

Cristo não é a Igreja

Foto: flor m.

No final da Última Ceia, Jesus começa a se despedir dos seus, Ele já não estará muito tempo com eles.Os discípulos estão confusos e atemorizados. Embora não lhes fale claramente, todos têm a intuição que, em breve, a morte arrebatará Jesus do seu lado. O que será deles sem Jesus?

Jesus vê os discípulos arrasados. Está na hora de reafirmá-los na fé ensinando-lhes a acreditar em Deus de forma diferente: "Não se perturbe o vosso coração! Credes em Deus, credes também em mim". Eles têm que continuar a confiar em Deus, mas no futuro, também têm que acreditar nele, pois ele é o melhor caminho para acreditar em Deus.

Jesus, então, descobre-lhes um novo horizonte. A sua morte não tem por que destruir sua fé. Na verdade, Jesus os deixa para se encaminhar ao mistério do Pai. Mas não vai se esquecer deles. Continuará a pensar neles. Ele vai lhes preparar um lugar na casa do Pai e um dia voltará para levá-los com Ele. Finalmente estarão juntos de novo, para sempre!

Os discípulos acham difícil acreditar numa coisa tão grande. No seu coração despertam todos os tipos de dúvidas e perguntas. Conosco acontece algo parecido. Não é isso tudo um lindo sonho? Não é uma ilusão? Quem pode nos garantir um tal destino? Tomé, com seu habitual senso de realismo, só faz uma pergunta: Como podemos saber o caminho que conduz ao mistério de Deus?

A resposta de Jesus é um desafio inesperado: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida". Não é conhecida na história das religiões uma afirmação tão ousada. Jesus se oferece como o caminho que nós podemos percorrer para entrar no mistério de Deus Pai. Ele pode nos descobrir o segredo último da existência. Ele pode nos comunicar a vida plena que anseia o coração humano.

Hoje são muitos os homens e as mulheres que ficaram sem caminhos para Deus. Eles não são ateus. Nunca rejeitaram Deus de sua vida de forma consciente. Eles próprios nem sabem se acreditam ou não. Simplesmente deixaram a Igreja porque não encontraram nela um caminho atraente para procurar com alegria o derradeiro mistério da vida que os crentes chamam de "Deus".

Saindo da Igreja, alguns abandonaram Jesus, ao mesmo tempo. A partir destas modestas linhas, eu quero dizer algo que muitos intuem. Jesus é maior do que a Igreja. Não confundais Cristo com os cristãos. Não confundais o Evangelho com os nossos sermões. Mesmo deixando tudo, não fiqueis sem Jesus. Nele encontrareis o caminho, a verdade e a vida, que nós não temos sabido mostrar. Jesus pode vos surpreender.

- Jose Antonio Pagola
Reproduzido via Amai-vos, com grifos nossos

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Por uma educação sem homofobia


O programa Escola Sem Homofobia produziu um conjunto de videos para distribuição nas escolas, como parte de uma campanha educativa voltada para alunos do ensino médio e visando ao combate à homofobia nas escolas. Houve por parte dos fundamentalistas e homofóbicos, entre os quais se destacou o Bolsonaro, uma campanha ativa para denegrir o que eles chamaram de "kit gay", alegando ser um programa para incentivar a homossexualidade entre crianças do ensino fundamental. Embora os videos tenham sido elogiados por entidades como UNESCO e o Conselho Federal de Psicologia, o governo acaba de recuar em sua implementação em virtude da chantagem por parte da bancada fundamentalista, que ameaçou chamar Palocci para se explicar quanto às denuncias de corrupção de que ele vem sendo alvo se o programa não fosse derrubado. Ou seja, uma importante política pública relacionada aos cidadãos LGBTTs virou moeda de troca entre fundamentalistas do Legislativo e o Executivo de rabo preso. A notícia repercutiu nas redes sociais hoje à tarde:

RT @divcatolica: Dilma Rousseff manda suspender kit anti-homofobia, diz ministro. Bancadas religiosas haviam ameaçado convocar Palocci http://glo.bo/ii3V5X

RT @divcatolica "Depois de se reunir nesta quarta-feira com deputados da chamada bancada religiosa, o governo decidiu suspender todas as produções que estavam sendo editadas pelos ministérios da Saúde e da Educação sobre a questão da homofobia." http://glo.bo/mAmSWT

RT @divcatolica Que vergonha. RT @blogdogarotinho: Mobilização garantiu vitória da família. Dilma manda recolher cartilha. http://migre.me/4DqGJ

RT@Wedge_Issue Kit anti-homofobia não é inadequado, Presidente Dilma. Inadequada é a persistente violência simbólica e física contra a população LGBTT.

RT @Felpps_: @jeanwyllys_real Agora se mexa e crie o projeto de lei que obriga as Igrejas a prestarem contas do destino de cada centavo arrecadado

RT @divcatolica: Pronto: está instaurada a guerra entre gays e igrejas. Não que as igrejas não devam prestar contas; devem, sim, em nome da transparência acima de tudo. Mas usar políticas públicas e atos legislativos como meras moedas de troca em nome de uma guerra entre setores da sociedade - isso é política de quinta categoria e nada tem a ver com cidadania. Mas que fazer, não é? No Brasil "é assim mesmo". :-(

Usar políticas públicas e atos legislativos como meras moedas de troca em nome de uma guerra entre setores da sociedade - isso é política de quinta categoria e nada tem a ver com cidadania. Mas que fazer, não é? No Brasil "é assim mesmo". Essa negociata entre a tal "bancada religiosa" (que bancada? quem são essas pessoas?!) e o executivo é a triste continuidade de um dos mais nefastos aspectos do lulismo: o uso da máquina pública para encobrir a corrupção. Nada disso tem qualquer coisa a ver com ideologias, direitos humanos, e muito menos coerência. A única coisa coerente nessa história toda foi que ontem Lula voou pra Brasilia pra assumir a liderança da "operação abafa" do caso Palocci. No meio do fogo cruzado, sobrou pra gente. Porque a corda sempre arrebenta do lado mais fraco.

Mas sempre pode piorar, não é? Agora, a confusão está armada. Ao que parece, conforme e-mail enviado hoje pelo presidente da ABGLT aos membros da associação (e confirmado aqui pelo ministro da Educação, Fernando Haddad), os materiais que Dilma viu e vetou na verdade não fazem parte do kit do projeto Escola sem Homofobia. Quem apresentou os vídeos foram os deputados fundamentalistas que se reuniram com ela, e simplesmente levaram ao absurdo a lógica da calúnia, injúria e distorção dos fatos, mostrando vídeos que continham cenas de sexo e beijos entre crianças, elementos inexistentes nos filmes do MEC.

Contaram - e acertaram - com a incompetência dos assessores da nossa presidenta, que foram incapazes de verificar o material apresentado. Aliás, por que raios foram os deputados que apresentaram o material para Dilma, e não o MEC?

Que papelório o desses deputados de última categoria. Como se não bastasse a campanha mentirosa que vêm promovendo para ludibriar e manipular a população, aplicar essa mesma lógica do engodo ao seu diálogo com a Presidente da República? Mais que um verdadeiro deboche, isso é de um nível de desrespeito pelas instituições, pela Chefe de Estado e de Governo, pelo cargo que ocupam; de uma falta de decoro parlamentar e humano; de uma falta de decência tamanha - que não é possível que não haja como instaurar um processo ético contra esses mentirosos.

E quem são eles para se arvorarem de paladinos da moralidade? De porta-vozes de Deus?!

Em tempo: os vídeos do programa do MEC foram tema de uma audiência pública intitulada "Avaliação dos programas federais de respeito à diversidade sexual nas escolas". A avaliação incluiu o kit de material do projeto Escola Sem Homofobia, e concluiu que o mesmo está apropriado para uso no ensino médio, conforme registrado aqui. Portanto, houve, sim, ampla consulta à população, aos especialistas e aos setores interessados. E o programa foi aprovado.

Este é o momento de a população se mobilizar. A questão é muito maior do que os direitos civis dos LGBTTs ou as políticas públicas voltadas para esse segmento da população. Uma política pública importante foi usada como reles moeda de troca entre o que há de pior em termos de lideranças políticas no Congresso e um Poder Executivo de rabo preso. Está na hora de os brasileiros, simpatizantes ou não da causa gay, exercerem a sua cidadania. Antes de uma questão de direito, trata-se do nosso DEVER como cidadãos.

Cristiana Serra
Equipe Diversidade Católica

PS: Agora há pouco, a ABGLT emitiu uma nota oficial, que você pode ler aqui.

* * *

Pessoal do Rio de Janeiro: caminhada-protesto no domingo por uma educação sem homofobia. 10h da manhã no posto 9, em Ipanema. Mesmo que você não vá, se tiver algum interesse ou simpatia pela causa, compartilhe, envie por e-mail aos seus amigos, ajude a divulgar.

Que esta seja, em primeiro lugar, uma caminhada da paz. Vamos colorir o Posto 9. Balões, bandeiras, camisetas, tudo o que for, para ser um evento com a característica LGBT. Vamos juntos!

Evento "Caminhada por uma Educação sem Homofobia" no Facebook: aqui


Precisamos sair às ruas, amigos, para marcar a posição de um segmento da população, independente de ser LGBTT ou não, a favor de uma educação inclusiva, capaz de produzir uma sociedade plural, em que vigore o respeito às diferenças e à diversidade.

Precisamos sair às ruas para mostrar que não vamos aceitar o uso de políticas públicas que nos dizem respeito como moeda de troca em negociatas políticas. Nem as que nos dizem respeito, nem qualquer outra, aliás - por uma questão de honestidade e transparência na política.

Isso é BEM maior do que um protesto contra ou a favor deste ou daquele político ou partido. Trata-se de cidadania, e do nosso dever como cidadãos. :-))

Como é uma sociedade laica?


O laicismo é um movimento emancipatório, um dos que mais contribuiu para combater a dominação e a lutar contra a perseguição ao pluralismo. Graças ao laicismo temos sociedades mais pluralistas, emancipadas da dominação eclesiástica. Em suas origens, é um movimento religioso, de inspiração cristã, que foi impulsionado por minorias protestantes perseguidas que se viram obrigadas a emigrar para a América do Norte e que, no nascimento dos Estados Unidos, tiveram muito cuidado em assegurar-se de que seria criada uma república laica.

O laicismo é uma tentativa de articular a diversidade e o pluralismo em todas suas manifestações pessoais e coletivas. É uma crítica do clericalismo político, à tentativa das castas sacerdotais de todas as religiões de controlar a ação do Estado. Também é a defesa do pluralismo, da autonomia da ordem jurídica e política, da dignidade e legitimidade de uma moral autônoma, e da liberdade de consciência. Além disso é a reivindicação de uma cultura de tolerância ativa. O laicismo não só se opõe à dominação, mas também é um humanismo que propõe virtudes, implicando na criação de cidadãos e, por isso, dá grande importância à educação.

Uma cultura de tolerância ativa
Estamos muito necessitados de uma cultura de tolerância ativa, na qual todas as pessoas e grupos saibam autolimitar-se e escutar os outros. Temos de praticar uma amizade cívica entre pessoas e grupos cujas  identidades, ideias e trajetórias culturais são diferentes das nossas.

Temos de reconhecer que somos diversos. Temos diferentes identidades linguísticas, sexuais, políticas, ideológicas e religiosas e devemos aprender a conviver, mediante o cultivo da amizade cívica entre pessoas que são ou pensam diferentes. Deve-se superar a pretensão de alguns eclesiásticos de que a religião católica seja o núcleo da identidade nacional, pois isto produz enormes dificuldades para o diálogo interreligioso e o reconhecimento das contribuições das culturas atéias e agnósticas.

A legislação deverá ser fundamentada numa ética cívica de mínimos e os setores confessionais devem reconhecer o pluralismo moral da sociedade. Antes de legislar sobre assuntos delicados deve-se fazer uma cuidadosa deliberação ética. Devemos refletir sobre o papel da religião e das igrejas na vida pública. Devemos considerar as implicações da imigração para ativar o diálogo intercultural e interreligioso.

Uma ameaça à democracia
O laicismo defende a liberdade religiosa, mas está contra as instituições que dificultam o pluralismo de uma cidadania diversa. Os fundamentalismos e integralismos religiosos radicais (chamem-se islamismo político, hinduísmo identitário, judaísmo ultra-ortodoxo ou cristanismo neo-integrista (católico ou protestante) constituem uma ameaça para a democracia e devem ser enfrentados, a fim de não impedirem o pluralismo. Portanto, deve-se recusar suas tentativas de que se legisle a partir da verdade que dizem possuir.
Mas não se deve esquecer que a religião é uma questão pública. Nisto coincidem todos os grandes clássicos da sociologia. As religiões não devem ser privatizadas, devem ter uma presença na vida pública e contribuir para isso, mas em democracia, devem autocontrolar seu projeto de hegemonia. Não nasceram em âmbitos de laicidade e devem aprender a viver em contextos laicos, sabendo que existe algo inviolável: a liberdade de consciência.

O processo de globalização tem mostrado a grande força social, cultural e política das religiões. Estas exercem um importante papel público nas democracias avançadas.

Há duas formas de presença pública da religião e das instituições eclesiais. A primeira — forte nos Estados Unidos, Itália e Espanha — constitui um fundamentalismo ético-religioso, com implicações políticas, herdeiro dos integralismos tradicionais. A segunda conecta a inspiração religiosa de transformação social com a produção de cidadania politicamente ativa e o aprofundamento da democracia. É uma nova forma de radicalismo social religioso, vinculado a um cristianismo laico e republicano e aos movimentos por uma globalização alternativa que confluiram no Fórum Social Mundial.

Dentro de todas as religiões há tendências pluralistas. Muitos movimentos religiosos contribuem à emancipação social. Pensemos em sua atividade educativa e sanitária, de atendimento aos mais fracos ou de promoção comunitária em todo o mundo. Hoje, importantes pensadores laicistas franceses como Regis Debray, Edgar Morin ou Frederic Lenoir pedem que se tenha um maior conhecimento e compreensão do fenômeno religioso.

É muito pouco o que se sabe de fenômenos religiosos emancipatórios como o ecobudismo, que trabalha com os mais pobres; o hinduísmo gandhiano, que incentiva o movimento Via Campesina, o judaísmo pacifista, o feminismo islâmico ou o cristianismo republicano que tem ramos evangélicos, anglicanos e protestantes. O papel emancipatório das religiões não se conhece muito, pois a informação religiosa nos meios de comunicação é muito pobre, está muito clericalizada e muito concentrada em assuntos relacionados com os bispos.

Sem laicidade, não há um futuro alternativo para o mundo árabe. Em qualquer um destes países, antes das eleições, deve-se redigir Constituições que impeçam a imposição do fundamentalismo islâmico. O mundo árabe é pluralista, o Islã é pluralista, nos países árabes existem outras religiões. A laicidade do Estado é a única que torna possível que esse pluralismo não seja reprimido e possa desenvolver-se.

Todos nós precisamos aprender a cultura da tolerância ativa, que é a pedra angular da laicidade. Não deveríamos utilizar nossos símbolos de identidade simbólica como armas de negação de outras identidades. Os países, inclusive os micro-países, são plurais e, portanto, países arco-íris. Devemos evitar as guerras de bandeiras. Expressemos nossos símbolos, vendo-os como complementares. Aprendamos a conviver na sociedade civil. Ninguém deveria pretender ter com exclusividade uma pátria ou monopolizar a cultura de um país. Laicidade é o sentido do limite e a capacidade de aprender do outro.

- Rafael Díaz Salazar
Fonte: Mirada Global. Reproduzido via Amai-vos, com grifos nossos.

* * *

Convidamos todos os nossos leitores a tomarem conhecimento dos termos do abaixo-assinado "Apoio ao KIT de Combate à Homofobia nas escolas". Caso você concorde, assine e divulgue! :-)

Des-costura

Ilustração: --neve

As coisas não são, elas se fazem. No princípio era o vácuo. E, então, alguém inventou: homem, mulher, moral, sexo, normal, correto. A partir do primeiro contorno rarefeito de cada uma destas coisas se viu que era necessário mais formas, definir, moldar: mulher-dócil-materna, homem-ativo-provedor, sexo-homem/mulher; a cada laço se reforçava como o “é assim” o que se inventava apenas a cada vez que se contavam casos, histórias, teorias científicas, narrativas sagradas. Cada laço, moldando, ajustando, formando o que, depois, se vê como a identidade sólida e perene de algo. Porque tudo é performance.

Formar-se per, através de, insistindo-se perenemente, e em laços sempre outros a respeito do mesmo. Costura-se, amarra-se de todas as maneiras possíveis, a única exigência é que o tecido seja inteiro, de alto a baixo sem linhas, junturas ou justaposições. É preciso que a costura se perca para deixar que as coisas apenas “sejam”, numa identidade que se produz a cada instante e instância.

Daí o medo dos incautos. Como desafiar um mundo de certezas? Ser homem e gostar de homem? Ser mulher e não jogar as tranças esperando alguma espécie de salvação? Os covardes dirão que é tudo muito difícil e cruel, que as coisas são como são e ponto. O que eles não sabem, ou não querem enxergar, é que as coisas não são, elas se fazem.

A natureza inscrita numa espécie de código imutável a se repetir perenemente, a sociedade como instância que precisa de bases sólidas e homogêneas, protegidas como o interesse maior da humanidade, sancionada pela benção divina que criou homem e mulher. Filmes, livros, discos, “desde que o mundo é mundo é assim” transmitem certezas absolutas e contam com manicómios, exorcismos, alguma permissão temporária no carnaval, normal/anormal e lâmpadas na cara em plena avenida para ajustar os desviantes. Tudo para que o que se faz reiteradamente como condição de se manter, desponte apenas como a obviedade do “desde sempre foi assim”.

O que não se percebeu de antemão é que, cada laço que afirma não se encaixa completamente no anterior, a costura não é perfeita, há espaços, vazios, volumes e fendas não previstas. Porque sendo performance, ser homem e mulher, nunca pode ser exatamente a mesma coisa. Não sabiam disso, não contavam comigo e tantos outros.

Aqui e ali, alargamos as brechas, vemos oportunidades na folga de laços, atrapalhamos, com apurado senso de espetáculo, o fazer-se repetitivo da trama. Retiramos da invisível sombra, o tecer constante do “normal”. Ser homem, ser mulher não é de forma alguma destino natural, mas é o que se inventa disso, e nisso falaremos mais e mais, para escândalo dos opressores e glória dos que sabem ser a vida o que, afinal de contas, importa. Então porque não fazê-la mais ampla e colorida?

Apenas Deus


Qual é a diferença entre a realidade e a irrealidade? Acredito que uma maneira pela qual podemos entender isso, é a de enxergar a irrealidade como o produto do desejo. Uma coisa aprendemos com a meditação, a abandonar o desejo, e aprendemos, pois sabemos que estamos convidados a viver integralmente o presente momento. A realidade exige a imobilidade e o silêncio. Esse é o compromisso que assumimos ao meditar. Tal como todos podemos descobrir por experiência própria, na imobilidade e no silêncio, aprendemos a nos aceitar assim como somos. Isso soa muito estranho aos ouvidos modernos, principalmente aos modernos cristãos, que foram educados para praticar muito esforço, ansiosamente: “Eu não deveria ser ambicioso? Que será de mim se eu for uma má pessoa, eu não deveria desejar ser melhor?

A verdadeira tragédia de nossos tempos é que estamos tão cheios de desejos - por felicidade, por sucesso, por prosperidade, por poder, quaisquer que sejam eles - que estamos sempre imaginando como poderíamos ser. Tão raramente acontece de chegarmos a nos conhecer tal como somos e, de aceitarmos nossa posição atual. Mas, a sabedoria tradicional nos diz: saiba quem você é, e que você é como é.

Pode muito bem acontecer de sermos pecadores e, se assim for, é importante que saibamos que o somos. Muito mais importante para nós, porém, é sabermos, por experiência própria, que Deus é a base de nosso ser, e que nele estamos arraigados e fundamentados... Esta é a estabilidade de que todos precisamos, não do esforço e da dinâmica do desejo, mas da estabilidade e da imobilidade do enraizamento espiritual. Cada um de nós está convidado a aprender em nossa meditação, em nossa imobilidade em Deus, que nele temos tudo o que precisamos.

A meditação é o supremo caminho que nos leva à fé, ao comprometimento. Toda ação será superficial, um mero imediatismo, caso não se baseie nesse compromisso com o que seja real, que também deve ser algo que seja eterno. Como cristãos, somos convidados a conhecer agora, com conhecimento pessoal e direto, o que é real e eterno e, conhecendo-o, a vivermos nossas vidas inspirados pelo amor. Esse chamado é subjacente a estas palavras de Jesus: “... aquele que procura a glória de quem me enviou é sincero e nele não há falsidade.” (Jo 7:18). O propósito de nossa meditação é o de que nada haja de falso em nós, apenas a realidade. Apenas amor. Apenas Deus.

- John Main, OSB
O Caminho do Não Conhecimento (Petrópolis, Ed. Vozes, 2009). Grifos nossos.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Sobre as flores - e também seus espinhos


Ilustração: Mark Ryden

Há uns dois dias me vejo numa enrolada daquelas que tombam qualquer Lady Gaga em dia de Emmy: um dos meus irmãos do grupo (aqueles que a gente não pode pensar em negar nada) propôs que eu o ajudasse a estruturar um próximo encontro no qual o tema é a TOLERÂNCIA, um dos nossos valores mais fortes. Ok, questão simples, não é? Pois bem, descobri que, nesse momento, não consigo fazer considerações acerca da tolerância sem parecer uma oficial da SS ou um dos censores do DOPS.

Tantos Bolsonaros, tantos Malafaias, tantos Timóteos (que, aliás, merecerá o próximo parágrafo) depois e eu comecei a ficar um pouco enjoada. Não deles, porque eles, para o bem da humanidade, falam sobre aquilo que acham errado; são capazes de dar as caras a tapa por alguma idéia - que, mesmo eleitoreira - é a opinião deles. O meu enjôo e tristeza tem vindo à tona pela forma como me sinto olhando para esses discursos tão diferentes do meu. A impressão que tenho é que a coisa toda começa a se transformar num jogo de "quem tá certo", quando o meu interesse deveria seguir o "vamos conversar numa boa com ele".

Bom, sobre o Agnaldo Timóteo, no último Superpop da Luciana Gimenez, o que eu sinto em dizer é que todo mundo está careca (desculpem-me os carecas, não é particular) de saber que ele teve, tem ou terá lá seus casos com homens mas isso é uma questão dele com ele mesmo. Ninguém tem o direito de tirar ninguém de armário nenhum em nenhuma circunstância, mesmo que esse nosso pobre amigo tenha ido ao programa fazer o papel ridículo que fez. Acredito, cada vez mais, que a tolerância tenha a ver também com o não reagir violentamente, não espezinhar, mesmo que o outro talvez mereça.

Ando pensando em como nós gays temos reagido aos ataques mais ou menos violentos que recebemos todos os dias. Obviamente não defendo que se tome um tapa e ofereça uma flor em troca, não é isso. Mas acho que a gente pleiteia tanto a aceitação, a legitimidade...Será que a melhor forma de se defender é mesmo devolvendo a violência? Tive vontade de torcer o pescoço, essa semana, de mais um padreco de quinta que escreveu um artigo sobre a condenação suprema ao Supremo por aprovar a igualdade de cidadania aos gays mas, sabe, se eu pretendo me colocar integralmente na sociedade, preciso aprender a não querer fuzilar qualquer um que pense diferente de mim. Bom, na maioria das vezes, fuzilaria mesmo... Mais uma vez agradeço a Deus por ter o Padre Luis, que freia minhas ganas assassinas.

Então, voltando àquela minha problemática sobre a preparação do próximo encontro do nosso grupo, acho que terei que contrariar meu amigo e declinar do convite. Também sou humana e dei um risinho maldoso quando vi o tal jornalista vingar um pouco cada um que sabe que o Timóteo jamais deveria estar naquele programa. Mas acho que fechei um pouco pra balanço, sabe? Não faz muito sentido falar seriamente sobre tolerância com tantas questões particulares ainda correndo soltas, dentro de mim, sobre ela.

Sempre com amor (mesmo sabendo que nem tudo são flores),
Zu.

Um mundo com 6 bilhões de sexos

Ilustração: Sergio Membrillas

Texto publicado no jornal O Globo (coluna LOGO - a página móvel), em 18.05.11:

"A caravana da comunidade arco-íris e dos simpatizantes da liberdade sexual comemoram a institucionalização da união civil gay. Enquanto isso, o mundo real já deu voltas que lei nenhuma vai alcançar tão cedo. Nos círculos mais avançados, a sigla LGBT já é passado: classificações enormes (!) como LGBTTTS (acrônimo de “lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transsexuais, transgêneros e simpatizantes” já estão em uso. A letra H aparece eventualmente — para que não se excluam... os heteros, quem diria! E o P, de panssexual, já reivindica seu lugar ao sol prismatizado. Mas as letras não bastam: como classificar, por exemplo, um homem que corta o membro para virar lésbica e usar bigode e cinta peniana para satisfazer sua amada? E os executivos engravatados que pegam travestis e fazem papel de passivos? Qual a letra? Por isso, começa-se a falar de um mundo sem gêneros, em que cada indivíduo tenha sua própria identidade sexual. Ou seja, um mundo com 6 bilhões de habitantes seria um mundo com 6 bilhões de sexos. Nesta edição da página Logo, o jornalista do GLOBO Ronald Villardo traz as últimas novidades." (Arnaldo Bloch)

Enquanto união civil gay é comemorada, novas letras somam-se ao alfabeto arco-íris, apontando para um mundo sem gêneros

Com quantos sexos se faz uma sociedade? A pergunta tem sido objeto de estudo para os que tentam entender (catalogar?) as diversas cores do arco-íris do desejo. Nas últimas semanas, a discussão esquenta ainda mais com os debates nos corredores do Congresso, mais uma vez às voltas com as reivindicações das representações LGBT, sigla que agrega cada vez mais letras, escancarando o que especialistas nas psique humana afirmam há tempos: a sexualidade é bem mais complexa do que imaginam até os ministros do STF.

Recentemente, um amigo de adolescência cujo casamento testemunhei no Mosteiro de São Bento há quase vinte anos me informou que havia se separado de sua mulher e estava namorando “sério” seu sócio na empresa de eventos. Apesar de trafegar há mais de dez anos na reportagem da mundanidade das pistas, música e moda, me vi totalmente surpreso com a novidade, já que sequer suspeitava de qualquer tendência homossexual no meu amigo. Peraí… homossexual? Quem disse? O engenheiro não gosta de ser classificado desta maneira. Rejeita veementemente o rótulo e faz questão de me confirmar que jamais viveu um casamento de fachada, reafirmando com todas as letras a paixão por sua ex-mulher, com quem tem uma bela filha, atualmente uma jovem adulta a cursar a universidade em Londres. E agora?

Segundo o psiquiatra Reinaldo Pamplona da Costa, o desejo sexual vai bem além do quadro homem (homo ou heterossexual) e mulher (homo ou heterossexual). No livro “Os onze sexos — As múltiplas faces da sexualidade humana” (Editora Gente) ele adiciona à lista os possíveis bissexuais (homem e mulher), transsexuais (homem e mulher) e os hermafroditas. Levante a mão quem ficou de fora: não vão faltar mãos levantadas... Buck Angel é um famoso ator pornô norte-americano. Nasceu menina, uma graça. Cresceu tão bela que chegou a trabalhar como modelo já na adolescência, atormentada por um único problema: Buck se sentia um rapaz. Tal desconforto, na maior parte dos casos, recebe o diagnóstico de transsexualidade, definida por psicólogos como o caso em que a identidade sexual de um indivíduo não coincide com o gênero da certidão de nascimento. Pensou em Roberta Close? É por aí. E como é comum em situações deste tipo, Buck começou a sua via crúcis para se tornar um rapaz na jovem idade adulta. Cirurgias, administração de hormônios masculinos e tudo mais o que envolve a mudança de sexo. Só que, diferentemente de Chastity Bono, a filha do ícone gay Cher que agora atende por Jack e adicionou o “plus” à sua anatomia, Buck preferiu preservar sua única parte “feminina”, por assim dizer. Tudo porque depois de se enxergar um homem, como se apresenta socialmente, Buck descobriu que se tornou… “um homem gay”. Ou seja, a satisfação sexual de Buck é com outros homens, desafiando até mesmo o conhecimento da ciência sobre o assunto. E você que não ouse a chamá-la de mulher. Enquanto você talvez tenha a necessidade de voltar ao parágrafo acima para entender melhor por que Buck Angel carrega como mote a frase “a identidade sexual não está no órgão genital”, vamos adicionando mais algumas histórias para perturbar o seu café da manhã. Lu e Gabi vêm formando um casal famoso no underground paulistano, na década de 2000. Lu, lésbica, ex-guitarrista da banda de rock Mercenárias, era completamente apaixonada por Gabi, uma travesti loura. E lá vai você de novo voltar ao início do parágrafo para entender (catalogar?) o formato deste casal. Talvez a principal questão que atravessa a sua mente seja o suposto paradoxo do namoro: se lésbicas são mulheres que gostam de mulheres, por que raios essa tal de Lu vai se apaixonar por um travesti, que nada mais é do que um homem vestido de mulher? O vice-versa, neste caso, também vale. Já que Lu veio sem o “plus”, dá para imaginar que Gabi tenha na imagem masculina mais do que apenas a genitália. Bom, mas aí já e outro assunto. Recentemente Lu virou, biblicamente falando, Luciano. Pode procurá-lo no Facebook. Gabi deixou a indústria do entretenimento noturno para se tornar taróloga. Atende por Mãe Gabi. Ambos seguem casados e felizes. História parecida é contada no filme “Elvis e Madona”, de Marcelo Lafitte, de 2009. É baseado na história real de um travesti que se apaixona pela namorada do seu filho. OK, leia de novo, eu espero. Leu? Então... é isso mesmo. D.B. é uma jovem, bela e charmosa menina que gosta de meninas. Frequentadora do high ao low do Rio de Janeiro, é amiga de muitos personagens da chamada alta sociedade carioca (isso ainda existe?). Pode ser vista tanto em um jantar no Chopin quanto na pista da The Week, o megaclube gay do Centro do Rio. E foi justamente lá que, dia desses, uma das lésbicas mais populares de quase todos os círculos da cidade foi vista aos agarros com um belo e louro heterossexual, motivo de olhares desejosos de vários meninos e meninas naquela noite. O moço estava na boate para celebrar o aniversário de um amigo em comum. Quando D. foi ao banheiro, tendo alguns minutos longe do rapaz, uma amiga não se conteve e perguntou: “O que aconteceu? Virou hétero?”. D. não pensou duas vezes: “Ah, amiga, sou sapatão mas não tô morta”.

Muito confuso esse negócio de desejo, não é mesmo, leitor amigo? Então, para descomplicar um pouco, vamos encerrar com um caso simples: um jovem rapaz gay. Filho do jogador de futebol Edmundo e da ex-modelo Cristina Mortágua, Alexandre Mortágua tem 16 anos. Ganhou as páginas dos jornais e sites por denunciar a própria mãe por maus-tratos. Ele agora vive com a avó, diz que contou para os pais sobre sua orientação sexual aos 14 anos e, como todo adolescente, já teve o seu primeiro namorado. Sonha com a profissão de estilista e já se prepara para o exame de seleção da Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, referência nacional no curso de Moda. Como você pode ver, Alexandre é um rapaz como outro qualquer e tem a vantagem de poder se casar, opa, de concretizar sua “união civil” quando encontrar sua cara-metade. Como diz a ícone pop favorita dos jovens gays no momento, Lady Gaga, ele está “no caminho certo”. Afinal de contas, ele “nasceu assim”. OK, deputados?


- Ronald Villardo

A Igreja ainda tem salvação?



"A Igreja não pode entender-se como um aparelho de poder ou uma empresa religiosa, mas como povo de Deus e comunidade do Espírito nos diferentes lugares e no mundo", escreve Anselmo Borges, teólogo e fílósofo, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, comentando o novo livro de Hans Küng, Ist die Kirche noch zu retten? (A Igreja ainda tem salvação?), em artigo publicado no Diário de Notícias, 21-05-2011.

Anselmo Borges, é padre da Sociedade Missionária da Boa Nova, estudou Teologia na Universidade Gregoriana, Roma, Ciências Sociais na École dês Hautes Études en Sciences Sociales, Paris, e Filosofia na Universidade de Coimbra. Foi professor de Filosofia e Teologia na Universidade Católica Portuguesa e no Seminário Maior de Maputo, Moçambique.

Eis o artigo, reproduzido via IHU com grifos nossos.

Não falta quem se irrite com o simples nome de Hans Küng, acusando-o inclusivamente de ressentido: não teria ainda perdoado a João Paulo II nem a Bento XVI a condenação. Mas quem tenha boa fé sabe que Küng se confessa convictamente cristão - para ele, ser cristão é ter Jesus Cristo como determinante na vida e na morte - e não pode ignorar o seu contributo incalculável para o encontro da fé com o mundo moderno e pós-moderno e um ethos global. Leia-se, por exemplo, a sua recente obra Was ich glaube, várias vezes aqui citada e agora traduzida para espanhol - Lo que yo creo -, onde, de modo profundo e pessoal, responde às perguntas essenciais: em que posso acreditar?, em que posso confiar?, em que posso esperar?, como posso configurar a minha vida?

Foi por imperativo de consciência que escreveu o livro que acaba de ser publicado: Ist die Kirche noch zu retten? ("A Igreja ainda tem salvação?"). "Preferiria não ter escrito este livro. Não é agradável dirigir à Igreja, que foi e é a minha, uma publicação tão crítica", mas, "na presente situação, o silêncio seria irresponsável".

De que sofre a Igreja? A Igreja católica, a maior, a mais poderosa, a mais internacional Igreja, essa grande comunidade de fé, está "realmente doente", "sofre do sistema romano de poder", que se caracteriza pelo monopólio da verdade, pelo juridicismo e clericalismo, pelo medo do sexo e da mulher, pela violência espiritual. Que propõe Küng?

É preciso voltar a Jesus Cristo, ao que ele foi, é, quis e quer. De facto, em síntese, a Igreja é a comunidade dos que acreditam em Cristo: "A comunidade dos que se entregaram a Jesus Cristo e à sua causa e a testemunham com energia como esperança para o mundo. A Igreja torna-se crível, se disser a mensagem cristã não em primeiro lugar aos outros, mas a si mesma e, portanto, não pregar apenas, mas cumprir as exigências de Jesus. Toda a sua credibilidade depende da fidelidade a Jesus Cristo." Como procederia Jesus nas actuais situações, quando pensamos no modo como agiu? Seria contra o preservativo, os anticonceptivos, excluiria as mulheres, obrigaria ao celibato, proibiria a comunhão aos recasados? Que diria sobre as relações sexuais antes do casamento? Como procederia em relação ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso?

A Igreja não pode entender-se como um aparelho de poder ou uma empresa religiosa, mas como povo de Deus e comunidade do Espírito nos diferentes lugares e no mundo. O papado não tem que desaparecer, mas o Papa não pode ser visto como "um autocrata espiritual", antes como o bispo que tem o primado pastoral, vinculado colegialmente com os outros bispos.

A Igreja, ao mesmo tempo que tem de fortalecer as suas funções nucleares - oferecer aos homens e mulheres de hoje a mensagem cristã, de modo compreensível, sem arcaísmos nem dogmatismos escolásticos, e celebrar os sacramentos -, deve assumir as suas responsabilidades sociais, apresentando, sem partidarismos, à sociedade opções fundamentais, orientações para um futuro melhor.

Não se trata de acabar com a Cúria Romana, mas de reformá-la segundo o Evangelho. Essa reforma implica humildade evangélica (renúncia a títulos como: Monsignori, Excelências, Reverências, Eminências...), simplicidade evangélica, fraternidade evangélica, liberdade evangélica. E é necessário mais pessoal profissional, acabando com o favoritismo. De facto, esta Igreja é altamente hierarquizada e ao mesmo tempo caótica. Quem manda no Vaticano? "Conselheiros independentes haverá poucos."

Mais: precisa-se de transparência nas finanças da Igreja; deve-se acabar com a Inquisição, não bastando reformá-la, e eliminar todas as formas de repressão; não é suficiente melhorar o Direito eclesiástico, que precisa de uma reforma de base; deve-se permitir o casamento dos padres e dos bispos, abrir às mulheres todos os cargos da Igreja, incluir a participação do clero e dos leigos na eleição dos bispos; não se pode continuar a vedar a Eucaristia a católicos e protestantes; é preciso promover a compreensão ecuménica e o trabalho em conjunto.

Caminho, verdade e vida

Foto: navdog

Durante a Última Ceia, Jesus faz um longo discurso aos apóstolos no qual fala sobre os acontecimentos que sucederiam àquela noite e os discípulos mostravam-se confusos sobre suas palavras. Foi quando o Mestre lhes indica: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim.” (Jo 14, 6).

Confusos, ainda, perguntam (por Felipe) como ver o Pai. E o Mestre continua: "Quem me vê, vê o Pai... Eu estou no Pai e o Pai está em mim... acreditem pelas obras que faço: quem acreditar fará obras maiores." (Jo 16, 11, ss). E finaliza avisando de que irá voltar para o Pai.

Depois da Morte e Ressurreição de Jesus, naqueles primeiros momentos da pregação dos apóstolos, muitas vezes a confusão deve ter invadido o coração daqueles homens: para onde vamos? Por onde caminhar? O que significava tantos ensinamentos? Como colocá-los em prática?... E as palavras de Jesus voltam a soar como uma promessa: Ele é o caminho, a verdade e a vida!

Ter os olhos fixos nos passos de Jesus para segui-Lo é tê-Lo como Caminho, Verdade e Vida. Muitas vezes o cotidiano nos assombra e perturba, tornando nosso horizonte nebuloso e também nos perguntamos tal como os apóstolos de outrora: por onde ir? E lá está novamente a promessa de nossa fé: o Cristo a quem devemos amar e seguir.

Caminhar nos passos de Jesus Cristo é pisar na terra firme, ainda que Seus passos nos pareçam levar por caminhos desconhecidos. Acreditar na verdade de suas palavras é ser capaz de testemunhar que é possível ao amor vencer o medo e a morte. Beber de Seus ensinamentos é estar constantemente ligado à fonte de água vida, da verdadeira vida, daquela que não se esgota nunca, que nasce do Pai desde sempre e nos leva à eternidade!

Por isso, quando Se apresenta como Caminho, Verdade e Vida, Jesus não deixa somente uma pista de ação, mas dá-Se a Si mesmo para que possamos mostrar ao mundo que é possível viver no amor do Pai.

Texto para sua reflexão: Jo 14, 1-12

- Gilda Carvalho
Reproduzido via Amai-vos

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O mundo, de outra maneira


É muita coragem sua, filho, chegar pra mim e dizer "eu sou gay"... :-)

Decisão do STF é uma “boa nova”, dizem batistas


Entendendo como um de seus principais papéis enfrentar a intolerância presente no tecido social brasileiro, a Aliança de Batistas do Brasil aplaudiu a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que concede direitos civis a pessoas do mesmo sexo vivendo em situação estável.

A notícia é da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC), 23-05-2011.

A decisão do STF ajuda a reparar injustiças históricas e representa uma ruptura histórica frente aos modos de constituição das formas jurídicas que regulam a sociedade brasileira. A Aliança “compreende como uma ‘boa nova’ o fato de que as pessoas identificadas sob a rubrica LGBTS (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transsexuais e Simpatizantes) estejam sendo incluídas no ideal de equidade social defendido pela Constituição Federal Brasileira”, diz documento dos batistas, assinada pela presidente da instituição, pastora Odja Barros.

A Aliança de Batistas do Brasil não encara o reconhecimento de direitos civis a pessoas do mesmo sexo vivendo em união estável como uma “onda de imoralidade”, mas afirma tratar-se de uma reparação a uma minoria historicamente tratada como pessoas de segunda categoria, estigmatizadas e sem uso pleno da cidadania.

O reconhecimento dos direitos civis a LGBTS está em consonância com os princípios evangélicos da vida em abundância, da dignidade humana e da justiça, defendidos pelas Sagradas Escrituras, frisa o documento dos batistas. “Não defendemos essas ideias por mera sofisticação cultural, muito menos para sermos fiéis à cultura presente, mas a defendemos como conseqüência de nossa leitura do Evangelho de Jesus Cristo e de nossa relação com a herança batista da qual fazemos parte”, escreveu Odja Barros.

A sede da Aliança fica em Maceió e está presente em Pernambuco, Alagoas, Bahia e Rio de Janeiro.


Reproduzido via IHU, com grifos nossos.

Os gays e a Bíblia


Reproduzimos abaixo, com grifos nossos, o comentário de Frei Betto* acerca da recente decisão do STF, da criminalização da homofobia e do posicionamento da CNBB.

É no mínimo surpreendente constatar as pressões sobre o Senado para evitar a lei que criminaliza a homofobia. Sofrem de amnésia os que insistem em segregar, discriminar, satanizar e condenar os casais homoafetivos. No tempo de Jesus, os segregados eram os pagãos, os doentes, os que exerciam determinadas atividades profissionais, como açougueiros e fiscais de renda. Com todos esses Jesus teve uma atitude inclusiva. Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as “pessoas diferenciadas”...).

Relações entre pessoas do mesmo sexo ainda são ilegais em mais de 80 nações. Em alguns países islâmicos elas são punidas com castigos físicos ou pena de morte (Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Nigéria etc). No 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, 27 países-membros da União Europeia assinaram resolução à ONU pela “despenalização universal da homossexualidade”.

A Igreja Católica deu um pequeno passo adiante ao incluir no seu catecismo a exigência de se evitar qualquer discriminação a homossexuais. No entanto, silenciam as autoridades eclesiásticas quando se trata de se pronunciar contra a homofobia. E, no entanto, se escutou sua discordância à decisão do STF ao aprovar o direito de união civil dos homoafetivos.

Ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. A pessoa nasce assim. E, à luz do Evangelho, a Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hetero, e sim como filho de Deus, chamado à comunhão com Ele e com o próximo, destinatário da graça divina.

São alarmantes os índices de agressões e assassinatos de homossexuais no Brasil. A urgência de uma lei contra a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização.

A Igreja Católica já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem o seu amor por pessoas do mesmo sexo. Ora, todo amor não decorre de Deus? Não diz a Carta de João (1,7) que “quem ama conhece a Deus” (observe que João não diz que quem conhece a Deus ama...).

Por que fingir ignorar que o amor exige união e querer que essa união permaneça à margem da lei? No matrimônio são os noivos os verdadeiros ministros. E não o padre, como muitos imaginam. Pode a teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo?

Ora, direis, ouvir a Bíblia! Sim, no contexto patriarcal em que foi escrita seria estranho aprovar o homossexualismo. Mas muitas passagens o subtendem, como o amor entre Davi por Jônatas (I Samuel 18), o centurião romano interessado na cura de seu servo (Lucas 7) e os “eunucos de nascença” (Mateus 19). E a tomar a Bíblia literalmente, teríamos que passar ao fio da espada todos que professam crenças diferentes da nossa e odiar pai e mãe para verdadeiramente seguir a Jesus.

Há que passar da hermenêutica singularizadora para a hermenêutica pluralizadora. Ontem, a Igreja Católica acusava os judeus de assassinos de Jesus; condenava ao limbo crianças mortas sem batismo; considerava legítima a escravidão; e censurava o empréstimo a juros. Por que excluir casais homoafetivos de direitos civis e religiosos?

Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados. A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei.


- Frei Betto

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*Publicado no jornal O Globo de hoje. Como não encontramos o link, reproduzimos via Gospel LGBT e Conteúdo Livre.
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