sábado, 7 de janeiro de 2012

O diálogo inter-religioso como práxis cristã


Palavras de esperança, embora a situação nada favorável e a repressão contra a minoria cristã na Índia continuem, chegam de um influente professor e teólogo como o padre indiano Subhash Anand.

"O diálogo inter-religioso é um modo de vida cristão", disse o religioso que vive há 35 anos no país. Ele está convencido de que o estilo de vida proposto pelo diálogo entre as diversas religiões é uma maneira muito eficaz para testemunhar o próprio cristianismo. Ele deve se tornar, segundo o padre, uma realidade vivida, especialmente pelos sacerdotes que devem promover o diálogo e pelas comunidades cristãs.

"O compromisso da Igreja com o diálogo inter-religioso não se tornará um verdadeiro modo de vida cristã sem o envolvimento dos sacerdotes". Anand exorta os religiosos do país a promover o diálogo entre as diversas experiências religiosas.

"Devemos abordar o diálogo entre credos diferentes com responsabilidade – afirma o Pe. Anand –, se falamos a sério quando falamos de formação da fé em um contexto multirreligioso".

O sacerdote enfatiza: "O diálogo inter-religioso requer uma maior consciência crítica da fé, criatividade e coragem". Além disso, acrescenta, "é preciso uma grande capacidade de se relacionar com o outro, não encerrados em um papel de liderança, mas como homens de boa vontade. Os ministros do diálogo devem ter mais credibilidade".

- Fonte: IHU (grifos nossos)

Os 10 fatos do Vaticano menos noticiados em 2011 - e um bônus


É uma tradição nossa repassar os fatos do Vaticano menos noticiados do ano. A ideia não é sinalizar os eventos ou personalidades mais celebradas do ano, porque inúmeras outras agências de notícias já fazem isso. Ao contrário, eu tento levantar as histórias que, por outro lado, voaram abaixo do radar mas que foram realmente muito importantes.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 30-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.


Se eu estivesse compilando uma lista das maiores histórias do Vaticano do ano, por exemplo, a beatificação do Papa João Paulo II no dia 1º de maio provavelmente estaria perto do topo. No entanto, isso não está à altura de um evento "sub-noticiado", porque é difícil acreditar que alguém que tenha lido um jornal de maio de 2011 ou tenha assistido à TV nesse dia possa ter perdido esse fato.

Da mesma forma, tanto um documento do Conselho Pontifício Justiça e Paz sobre a reforma da economia internacional, assim como a disputa diplomática do Vaticano com a Irlanda foram histórias importantes, mas foram quase negligenciadas.

Por outro lado, se esta fosse uma lista de histórias "sobre-noticiadas", a número um provavelmente seria a sempre pendente reconciliação do Vaticano com a tradicionalista Fraternidade São Pio X. Apesar de já termos estado nessa estrada antes – seduzidos por ansiosos relatos de um acordo, para apenas vê-lo desfazer-se – a pegada sociológica do grupo não justifica a atenção. Estamos falando de menos de um décimo de 1% da população mundial católica, embora as suas negociações com Roma sejam às vezes noticiadas como se fossem Roosevelt e Stalin em Yalta [conferência que redefiniu as fronteiras da Europa no pós-Segunda Guerra Mundial].

Em vez disso, o que se segue é uma lista decrescente de 10 histórias ao longo de 2011 que não tiveram muito eco, especialmente nos Estados Unidos, mas que nos dizem algo significativo. Em outras palavras, este é o tipo de coisa que os vaticanistas descompromissados de todos os lugares precisam saber.

Aliás, não deixe de ler até o fim para ver um bônus que apresenta a principal "não história" do ano.

10. Scola para Milão
O cardeal Angelo Scola, 70 anos, já estava na parte superior dos candidatos papais antes da sua nomeação no dia 28 de junho a novo arcebispo de Milão, mas essa medida certamente ressalta o seu status. Durante o século XX, dois papas foram eleitos de Milão, Pio XI e Paulo VI, e vários outros arcebispos de Milão foram considerados formidáveis concorrentes. Scola se revela como uma versão extrovertida, otimista e de língua italiana de Bento XVI – um feroz defensor da identidade católica, mas que gosta de pôr o acento sobre o que a Igreja é, em vez de contra quem ela é. Como nota de rodapé, a nomeação também confirma que o Comunhão e Libertação é o movimento favorito de Bento XVI. Scola tem antigos vínculos com os ciellini [como são chamados os membros do movimento Comunhão e Libertação] e é um discípulo intelectual do seu fundador, o falecido monsenhor Luigi Giussani.

9. Átrio dos Gentios
Embora ele não tenha tido muita atração na imprensa de língua inglesa, o evento "Átrio dos Gentios", entre os dias 24 e 25 de março, em Paris, foi um grande sucesso no mundo francófono. Organizado pelo Conselho Pontifício para a Cultura, do Vaticano, presidido pelo hipererudito cardeal italiano Gianfranco Ravasi, e copromovido pela Unesco, pelo Institut de France e pela Sorbonne, o encontro levou cristãos e secularistas a um sério diálogo. Um sinal do sucesso é que um celebrado filósofo agnóstico francês, Jean-Luc Ferry, ficou tão impressionado que pediu uma reunião urgente com Ravasi para propor que os dois colaborem em um livro sobre o Evangelho de João. O encontro de Paris foi o primeiro do que Ravasi concebe como uma série de eventos "Átrio dos Gentios" em várias partes do mundo, destinados a demonstrar que a religião e o secularismo não precisam ser inimigos.

8. Assis
Compreensivelmente, o encontro de 300 líderes religiosos na cidade natal de São Francisco, promovido por Bento XVI no dia 27 de outubro, não atraiu um interesse semelhante ao que cercou a primeira cúpula inter-religiosa promovida pelo Papa João Paulo II em 1986 (a esse respeito, os próprios encontros subsequentes de João Paulo II em Assis, em 1993 e novamente em 2002, não geraram o mesmo burburinho). No entanto, a escolha de Bento XVI de marcar o 25º aniversário do histórico evento de João Paulo II com uma própria cúpula inter-religiosa foi, sem dúvida, tão importante quanto a original por causa do que ela simboliza: que a convocação dos líderes religiosos do mundo em prol da paz não era simplesmente um capricho pessoal de João Paulo II. Ao contrário, tornou-se parte da descrição de trabalho do papado, algo que os futuros papas deverão repetir. Dada a reputação de Bento XVI como um guardião da identidade católica, também é significativo que ele tenha endossado explicitamente o diálogo inter-religioso e tenha reconhecido a "grande vergonha" pelas ocasiões em que a violência foi cometida em nome da fé cristã.

7. A viagem ao Benin
Na ausência de um novo tumulto em torno dos preservativos e a Aids na África, a viagem de Bento XVI ao Benin, nos dias 18 a 20 de novembro, não foi uma sensação midiática. No entanto, os papas votam com os pés, ou seja, as suas prioridades pastorais e geopolíticas são muitas vezes reveladas por onde eles escolhem viajar. Essa foi a segunda viagem de Bento XVI à África, tornando-o o segundo continente mais visitado por ele depois da Europa. Enquanto esteve no Benin, Bento XVI apresentou um documento contendo as conclusões de um Sínodo dos Bispos para a África, de 2009, representando um plano de jogo papal para o continente onde o catolicismo cresceu quase 7.000% durante o século XX. Bento XVI endossou a agenda sociopolítica do catolicismo africano, especialmente a luta contra a corrupção, e desafiou os bispos a arrumarem a sua própria casa em termos de responsabilidade, transparência e bom governo. Ele também estendeu os seus braços ao Islã, convocando a Igreja, "em todas as situações, a persistir em estima pelos muçulmanos". Um momento marcante ocorreu no Palácio Presidencial do Benin, onde a chanceler Koubourath Osseni, uma mulher muçulmana, saudou Bento XVI como "um autêntico amigo da África".

6. Viganò para os Estados Unidos
A nomeação do dia 19 de outubro do arcebispo italiano Carlo Maria Viganò como o novo núncio ou embaixador papal para os Estados Unidos tem tanto um significado negativo quanto positivo. Durante o seu período no governo da cidade-Estado do Vaticano, Viganò esculpiu uma reputação de efetivo reformador financeiro, instaurando procedimentos eficientes de contabilidade entre os pequenos feudos notoriamente independentes do Vaticano. Seu exílio de Roma, como resultado de algumas políticas de gabinete bastante desagradáveis, ilustra indubitavelmente o que alguns observadores chamam de uma "brecha de governança" com Bento XVI – boas intenções que às vezes não são acompanhadas de escolhas administrativas astutas, que, neste caso, poderiam significar o fato de permitir que Viganò terminasse o que havia começado. No entanto, o fato de ele estar agora nos Estados Unidos significa que Viganò está posicionado para ajudar os bispos norte-americanos a seguir em frente na boa gestão do dinheiro em um momento em que alguns observadores temem que os escândalos financeiros possam se tornar o segundo round da crise dos abusos sexuais em termos de uma fonte crônica de desordens.

5. Tagle para Manila
Assim como Milão na Itália, Manila nas Filipinas é mais uma daquelas megadioceses cujo líder se torna automaticamente um ponto de referência global e geralmente atrai pelo menos um olhar como um concorrente papal. Só isso já faria a nomeação do arcebispo Dom Luis Antonio Tagle, 54 anos, no dia 13 de outubro, uma medida importante. No entanto, a escolha também é reveladora por outras razões, como o fato de que Tagle se inclui entre os estereótipos convencionais sobre o tipo de líder que geralmente prospera sob a vigilância de Bento XVI. Tagle é um moderado teológico e político, associado a uma história controversa do Concílio Vaticano II (1962-1965), cuja interpretação progressista Bento XVI passou grande parte de sua carreira contestando. Porém, Tagle também é conhecido como um talentoso teólogo, uma personalidade extremamente não clerical, um bom ouvinte e alguém totalmente desinteressado pela construção de impérios eclesiais – em outras palavras, não muito diferente da reputação de Joseph Ratzinger antes da sua eleição ao papado. Em todo caso, com a tenra idade de 54 anos, Tagle está posicionado para ser um grande rosto e uma grande voz para o catolicismo asiático por um longo tempo.

4. A proeza de quatro volumes de Bento XVI
Bento XVI é um papa ensinante, um ponto que ficou muito claro durante as suas 22 viagens ao exterior. Até agora, os observadores papais sabem que o grande momento de cada viagem provavelmente irá ocorrer durante um discurso para o "mundo da cultura", que geralmente inclui dignitários políticos, intelectuais e espirituais. Esses discursos atraem excelentes resenhas, mesmo entre os menos inclinados a simpatizar com aquilo que Bento XVI representa. O ano de 2011 trouxe outro caso em questão, na forma do discurso de Bento XVI, no dia 22 de setembro, ao Bundestag em Berlim. O papel dos grupos religiosos em uma democracia, afirmou o papa, não é "propor uma lei revelada ao Estado e à sociedade", mas sim para sustentar a "natureza e a razão" como fontes confiáveis de escolhas morais – incluindo, ressaltou, o respeito pelo pluralismo e pela diversidade. Bento XVI também acenou positivamente ao movimento ambientalista, chamando-o de "um grito por ar fresco", uma percepção de que a natureza contém uma bússola moral. A revista Der Spiegel chamou o discurso de "corajoso" e "brilhante", enquanto o jornal londrino de esquerda The Guardian encorajou os "verdes" seculares a esquecer os estereótipos do papa como "um professor alemão puritano e reprimido". Somado a discursos anteriores em Regensburg em 2006, no Collège des Bernardins, em Paris, em 2008, e no Westminster Hall, em Londres, em 2010, o discurso no Bundestag completa uma proeza de reflexão papal sobre a fé, a razão e a democracia em quatro volumes.

3. O "Papa dos agnósticos"
Improvável o suficiente, o grupo que mais sentiu o amor de Bento XVI durante 2011 foi a multidão secular agnóstica. Provavelmente, a maior manchete da sua viagem em setembro à Alemanha foi o elogio de Bento XVI aos "agnósticos que (...) sofrem por causa dos nossos pecados e desejam um coração puro". Essas pessoas, disse o pontífice, estão, na verdade, "mais perto do Reino de Deus do que os fiéis de 'rotina', que só veem o aparato da Igreja, sem que o seu coração seja tocado pela fé". Da mesma forma, o sinal inovador de Bento XVI durante o encontro de Assis foi a sua decisão de convidar não apenas líderes espirituais, mas também agnósticos. Em seu discurso naquele dia, Bento XVI disse que os agnósticos genuínos estão "fazendo interiormente o seu caminho a [Deus], na medida em que buscam a verdade e a bondade", e até os agradeceu porque "desafiam os seguidores das religiões a não considerar Deus como sua própria propriedade, como se ele pertencesse a eles, de tal forma que se sentem justificados em usar a força contra os outros". Quem poderia prever que um pontífice que se supunha ser o "Rottweiler de Deus", o último guerreiro cultural, se tornaria o "Papa dos agnósticos"?

2. O caso do crucifixo
Em um desdobramento impressionante e totalmente inesperado, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos reverteu em março a sua própria decisão de 2009 e sustentou o direito da Itália de exibir crucifixos em salas de aula públicas. A decisão significa que as expressões públicas de crença religiosa foram consideradas como não conflitantes com as normas europeias dos direitos humanos e da liberdade de consciência. Embora possa não ter atraído muita atenção nos Estados Unidos, a história tem um significado muito além das fronteiras da Europa. Com relação ao que a tradição cristã fala sobre o que ela chama de "mundo", sempre houve duas escolas básicas de pensamento. Uma delas é uma política da "porta aberta", enfatizando o diálogo com o mundo, presumindo a sua boa vontade e o seu encontro a meio caminho. A outra é um instinto de "fortaleza", que vê o mundo como fundamentalmente hostil e busca uma Igreja mais voltada para dentro, capaz de permanecer fiel a si mesma. A decisão do Tribunal dos Direitos Humanos forneceu um poderoso impulso para a abordagem da "porta aberta", sugerindo que a distensão com o secularismo pode ser possível, afinal de contas. A vitória também gerou uma nova força ecumênica e inter-religiosa, por ter atraído o apoio de denominações cristãs diferentes, assim como de muçulmanos e judeus europeus.

Como nota de rodapé, se eu tivesse que propor candidatos para as principais celebridades religiosas do ano, eu nomearia o advogado que venceu o caso do crucifixo – um especialista de Nova York em direito constitucional europeu e judeu ortodoxo chamado Joseph Weiler. A imagem de Weiler de pé na Grande Câmara do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos com a sua kipá, defendendo apaixonadamente o direito da Itália de manter o crucifixo na parede, se encontra entre as partes mais memoráveis do imaginário inter-religioso do ano.

Weiler também passou boa parte de 2011 trabalhando em um novo livro sobre o julgamento de Jesus, que promete causar frisson nas relações católico-judaicas. Entre outras notícias bombásticas, ele vai tentar persuadir os companheiros judeus que seus esforços ao longo de mais de 2.000 anos para rejeitar a acusação de deicídio foram mal empregados. Explicando cuidadosamente, Weiler acredita que "os judeus", de fato, levaram Jesus à morte e estavam fazendo exatamente o que o Senhor esperava (seu objetivo é oferecer uma leitura do julgamento que torne tanto as respostas judaicas quanto cristãs consistentes com a Escritura – um projeto, admite ele prontamente, destinado a despertar reações ferozes dos dois lados).

1. A guerra global contra os cristãos
O ano de 2011 começou com o bombardeio de uma igreja cristã em Alexandria, no Egito, no dia 1º de janeiro, que deixou 23 pessoas mortas, e encerrou com os ataques no dia de Natal contra três igrejas cristãs na Nigéria, incluindo uma paróquia católica onde pelo menos 27 pessoas morreram. No meio disso, houve inúmeros outros ataques contra cristãos, incluindo o "Massacre Maspero" do dia 9 de outubro no Cairo, em que o Exército egípcio abriu fogo contra manifestantes coptas desarmados, matando 27 pessoas e ferindo centenas de outras (acrescentando insulto à injúria, a mídia controlada pelo Estado no Egito tentou culpar brevemente os coptas pela violência, mas esse esforço rapidamente entrou em colapso diante das testemunhas oculares).

Embora esses episódios tenham sido amplamente divulgados à medida que ocorriam, eles eram geralmente interpretados como eventos localizados e isolados, ou como parte de uma outra narrativa – o rescaldo da Primavera Árabe no Egito, ou tensões inter-étnicas e sectárias na Nigéria. No entanto, tomados em conjunto, o que surge dessas atrocidades é um retrato de uma guerra global contra os cristãos. Hoje, os cristãos são de longe o grupo religioso mais perseguido do planeta.

De acordo com o secular Instituto para os Direitos Humanos, com sede na Alemanha, 80% de todos os atos de intolerância religiosa hoje são dirigidos contra cristãos. A Organização para a Segurança e Cooperação na Europa estima que cerca de 200 milhões de cristãos agora sofrem discriminação, assédio e violência direta.

A guerra global contra os cristãos também é uma história vaticana, porque os eventos de 2011 consolidaram a liberdade religiosa como o sinal social e a preocupação política do Vaticano no início do século XXI. Essa mudança tem consequências em todas as áreas, inclusive nas relações ecumênicas. O cardeal Kurt Koch, alta autoridade do Vaticano para as relações com outros cristãos, fez um discurso pouco noticiado mas muito importante em setembro, propondo o "ecumenismo dos mártires" como o novo fundamento da unidade cristã, dado que todas as Igrejas nos dias de hoje estão testemunhando o surgimento de uma nova geração de mártires.

Infelizmente, é uma aposta segura que a guerra global contra os cristãos continuará sendo uma das principais histórias de 2012. O fato de ela continuar sendo pouco noticiada vai depender de quão profundamente o resto do mundo – talvez especialmente nós, no Ocidente – acorde para ela.

* * *

Bônus: a principal não-história do Vaticano em 2011

Às vezes, um ano é notável não apenas pelo que aconteceu, mas também por aquilo que não aconteceu. Nesse espírito, eu proponho "o cão que não latiu" como a principal não história do Vaticano: me refiro ao fato de que 2011 foi, em grande parte, poupado dos massivos desastres de relações públicas que marcaram outros anos do pontificado de Bento XVI.

Considerem este breve passeio pela estrada da memória:

O ano de 2006 viu o massivo protesto islâmico contra um discurso de setembro de Bento XVI em Regensburg, Alemanha, que parecia vincular Maomé à violência. As repercussões incluíram incêndios de igrejas na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, e o assassinato de uma freira na Somália.

O início de 2007 trouxe a renúncia em desgraça da escolha de Bento XVI como o novo arcebispo de Varsóvia, na Polônia, depois das acusações de que o escolhido havia sido um colaborador comunista. No fim do ano, Bento XVI provocou protestos no Brasil por parecer sugerir que os nativos do Novo Mundo deveriam ser gratos ao colonialismo e à opressão europeus.

O ano de 2008 trouxe uma crise nas relações judaico-católicas em torno do uso da tradicional oração em latim na Sexta-Feira Santa pela conversão dos judeus. No fim, Bento XVI alterou a oração em resposta às sensibilidades judaicas, mas só depois de um longo debate público.

O ano de 2009 apresentou contratempos em torno do levantamento da excomunhão de quatro bispos tradicionalistas, incluindo um que questionava se os nazistas usaram câmaras de gás. Ele também viu uma disputa em torno da viagem de Bento XVI à África, quando o pontífice pareceu sugerir que os preservativos pioravam a crise da Aids.

O ano de 2010 trouxe a explosão da crise dos abusos sexuais na Europa, agravada por uma série de comentários inoportunos e explosivos de autoridades vaticanas. Ele também viu o surreal "caso Boffo" na Itália, em que o Vaticano permaneceu inexplicavelmente em silêncio, enquanto a imprensa nacional afirmava abertamente que o cardeal-secretário de Estado, o editor do jornal do Vaticano e o chefe do serviço de segurança do Vaticano estavam todos envolvidos em um complô para difamar um renomado jornalista italiano católico, sugerindo que ele tinha assediado uma mulher a fim de manter uma relação homossexual com o noivo dela.

Aqueles que prestaram atenção percebem que essa não é uma lista completa, mas é suficiente para dizer o seguinte: em anos anteriores, a equipe vaticana de Bento XVI ocasionalmente demonstrou talento para acertar o tiro no seu próprio pé.

Dado esse histórico, 2011 foi notável porque o cão dos desastres de relações públicas basicamente não latiu.

Houve controvérsia ao longo do ano passado, é claro. O ultraje continuou se infiltrando na Irlanda em torno da crise dos abusos sexuais, e uma fundação legal sem fins lucrativos com sede nos Estados Unidos anunciou um recurso ao Tribunal Penal Internacional buscando indiciar o papa e o Vaticano pelos escândalos. Católicos liberais reclamaram contra a nova tradução do Missal Romano e contra a aproximação do Vaticano à tradicionalista Fraternidade São Pio X. Conservadores se queixaram do documento do Conselho Pontifício Justiça e Paz sobre a economia global, especialmente o seu apoio a uma governança mundial mais forte, incluindo a ideia de um banco central mundial.

No entanto, governar é escolher, e, inevitavelmente, durante qualquer período de 12 meses, o Vaticano terá de fazer escolhas que deixarão alguém infeliz. O mais impressionante de 2011 é que não houve uma grande falha de relações públicas que exacerbasse esses debates políticos ou que criasse distrações gratuitas. Bento XVI, por exemplo, não caiu na "armadilha dos preservativos" durante a sua viagem de novembro ao Benin, nem houve qualquer nova erupção nas relações inter-religiosas.

Se o "cão que não late" de 2011 foi o resultado de uma nova compreensão ou simplesmente pura coincidência, isso está aberto a debate. No entanto, essa é a grande não história do ano, uma não história à qual Bento XVI deveria estar agradecido.

Ecumenismo e macroecumenismo: unidade interior na diversidade de caminhos


Se identidade pessoal ou grupal não se dá por contraposição e, sim, pela "capacidade de sermos nós mesmos/as na relação e no permanente aprendizado com os outros com os quais convivemos e interagimos", no campo das culturas e das religiões também é assim. Essa é a opinião do monge beneditino Marcelo Barros, nesta entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo Barros, "viver a ecumenicidade é ter um espírito universal". Por isso que "a identidade cristã não se afirma pelo fato de ser oposta ou excluir outra religião e sim por viver o caminho do Cristo na comunhão com outras tradições e expressões de fé", explica.

Para o monge, se uma igreja se fecha em si mesma e se centra em seu próprio mundo cultural, impede qualquer avanço ecumênico. "Quando os líderes eclesiásticos se refugiam em um saudosismo pessimista e fortalecem um clericalismo autoritário e centralizador, isso impede uma autêntica renovação espiritual, assim como o diálogo e a unidade com outras igrejas", diz.

Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista, membro da Comissão Latino-americana da Associação Ecumênica de Teólgos/as do Terceiro Mundo - ASETT e assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares como o MST. Tem 40 livros publicados no Brasil e outros em outros países como Itália, Espanha e Bélgica. O seu livro mais recente é Para onde vai Nuestra América: Espiritualidade socialista para o século XXI (São Paulo: Ed. Nhanduti, 2011).

Confira a entrevista, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.


IHU On-Line – Em uma sociedade marcada por sincretismos e fundamentalismos de todos os tipos, o que significa ser ecumênico?

Marcelo Barros – Ecumênico significa ser universal, no sentido de assumir o fato de pertencermos ao cosmos como membros da comunidade da vida. É verdadeiramente ecumênico quem é aberto a tudo o que é humano. De fato, em 1910, o atual movimento ecumênico começou em Estocolmo, como caminho da unidade entre igrejas cristãs. No entanto, pouco a pouco, grupos e movimentos ecumênicos perceberam que viver a ecumenicidade é ter um espírito universal. Ora, isso só pode ser vivido a partir da inserção em sua própria realidade cultural, o que significa assumir o sincretismo não como mistura ou confusão de crenças, mas como síntese interior. Raimon Panikkar (1) chamava isso de "diálogo intrarreligioso", um diálogo dentro de si mesmo que cria uma unidade interior na diversidade de caminhos.

IHU On-Line – Como equilibrar "identidade" com "unidade"?

Marcelo Barros – Na sociedade atual, quase ninguém se restringe a uma só atividade ou pertença. Eu sou monge beneditino e, ao mesmo tempo, assessor de movimentos populares, o que, em si, nada teria a ver com minha vocação de monge. Posso ainda me inserir em um partido político. Sou ao mesmo tempo amante do cinema e posso me ligar a um grupo de escritores. Atualmente, cada vez mais, as pessoas pertencem a várias instâncias ou diversas instituições.

No campo das culturas e religiões, também há muita relação e intercâmbios. Também no plano religioso, a pessoa pode viver uma identidade clara (por exemplo, ser cristã), mas, ao mesmo tempo, a partir de elementos culturais vindos da cultura negra, indígena ou mesmo espírita. Às vezes, as pessoas ou grupos sequer têm consciência disso. Por exemplo, uma pessoa muito católica que todos os dias vai ao túmulo de sua mãe e ali oferece uma flor ou uma vela acesa, pensa estar cumprindo um costume de origem e de teor teológico católico e nem se dá conta de que aquele rito que ela cumpre vem de tradições religiosas pré-cristãs e que o catolicismo simplesmente assumiu e manteve.

Do mesmo modo, se fôssemos averiguar mais detalhadamente a concepção de sacerdócio que padres católicos e fiéis mantêm até hoje, quanto desta concepção veio do evangelho e quanto depende de expressões das antigas religiões pagãs do Império Romano? Quase todo mundo vive uma identidade religiosa que é, ao mesmo tempo, una (aquela com a qual nos identificamos oficialmente) e plural (porque recebe influência de outras tradições).

Aliás, por falar em identidade, a identidade psicológica de um adolescente pode ser afirmada no confronto com o outro. Eu sou eu porque não sou você. No adulto, isso não pode e não deve ser assim. A identidade pessoal ou grupal não se dá por contraposição, mas sim pela capacidade de sermos nós mesmos/as na relação e no permanente aprendizado com os outros com os quais convivemos e interagimos. No campo das culturas e das religiões também é assim. A identidade cristã não se afirma pelo fato de ser oposta ou excluir outra religião, mas sim por viver o caminho do Cristo na comunhão com outras tradições e expressões de fé.

IHU On-Line – Em sua opinião, quais são os atores e os marcos históricos mais importantes do movimento ecumênico no Brasil e na América Latina?

Marcelo Barros – Uma coisa é o movimento ecumênico propriamente dito e outra mais ampla e mais básica é o espírito ecumênico, ecumenicidade como dimensão da fé e da vida.

1º – Sobre o movimento ecumênico: na América Latina e no Brasil, o movimento ecumênico, no sentido estrito, teve poucos marcos importantes e relativamente poucos atores que se sobressaíram. O primeiro motivo disso foi que o cristianismo veio importado da Europa para os nossos países como religião conquistadora. Esse tipo de catolicismo ainda subsiste na mentalidade de Cristandade. Ele é contrário a qualquer movimento ecumênico.

Por outro lado, a maioria das igrejas evangélicas também veio como "protestantismo de missão", compreendendo a missão como converter à sua igreja o maior número possível de adeptos. Houve pastores e profetas do movimento ecumênico, tanto católicos, como evangélicos. Nos ambientes católicos, alguns monges beneditinos, ainda nos anos 1950, fundaram em São Paulo um Centro de diálogo e comunhão com os ortodoxos (Cor Unum). Um destes monges foi D. Mauro Bodemuller. Depois do Concílio Vaticano II, D. Aloísio Lorscheider (2), ainda jovem e bispo de Santo Ângelo, foi o primeiro secretário da CNBB para a ação ecumênica. Ele percorreu o Brasil inteiro dando cursos e palestras sobre ecumenismo e preparando para a Igreja Católica um diretório ecumênico. Do lado protestante, alguns evangélicos fundaram centros ecumênicos que, no Rio de Janeiro e Curitiba, como Waldo César (3), Domício Mattos (4) e outros cumpriram uma boa ação ecumênica nos anos 1960 e 1970. Destes, o professor e sociólogo Jether Ramalho (5), com seus mais de 85 anos, até hoje continua atuando e colaborando nas relações ecumênicas. No plano teológico, no final dos anos 1960, Richard Shaull (6) e Rubem Alves (7) ajudaram muito a abrir ambientes evangélicos ao ecumenismo e à Teologia da Libertação.

2º – Quanto ao espírito ecumênico mais geral: desde o início da colonização, alguns missionários estabeleceram um diálogo respeitoso com as culturas indígenas. Nos países de cultura hispânica, Bartolomeu de las Casas (8), Antonio de Montesinos (9), São Martinho de Lima (10) (com os negros), Turíbio de Mongrovejo (11) no Peru e tantos outros praticaram nos primeiros tempos da conquista uma espiritualidade macroecumênica de defesa dos povos indígenas e respeito às suas culturas. No Brasil, José de Anchieta (12), Antônio Vieira (13) e outros missionários portugueses que defenderam os índios nas missões e reduções, mesmo com ambiguidades e dentro do sistema colonial (não romperam com ele), agiram em uma linha de respeito e defesa da vida.

Na realidade atual, teríamos de destacar muitos homens e mulheres que se consagraram à defesa dos índios e negros e ao diálogo com suas culturas. Alguns fizeram disso uma linha de pastoral na Igreja Católica. Podemos recordar no Equador Mons. Leônidas Proaño (14) no México, Mons. Sergio Méndez Arceo (15) e Mons. Samuel Ruiz (16).

No Brasil, D. Pedro Casaldáliga (17), D. Tomas Balduíno (18) e D. José Maria Pires (19) , entre vários outros bispos, padres, pastores, religiosas e leigos/as, são exemplos de cristãos/ãs consagrados à defesa dos índios e negros, a partir do diálogo intercultural e inter-religioso. Criaram assim o conceito de "macroecumenismo a serviço da vida".

Para lembrar nomes femininos e não só de bispos católicos, podemos citar Mãe Menininha do Gantois (20) e Mãe Stella de Oxossi (21), que, até hoje, em Salvador, continua sendo referência na defesa da cultura negra e do diálogo intercultural e inter-religioso.

IHU On-Line – Que papel teve o Concílio Vaticano II para a ação e o serviço ecumênicos posteriores?

Marcelo Barros – Até o Concílio Vaticano II, a Igreja Católica não aceitava oficialmente o ecumenismo. Antes, o movimento ecumênico era principalmente protestante. O diálogo com outras religiões era praticado por alguns monges e místicos que agiam sem apoio oficial. Foi o Vaticano II que abriu a Igreja Católica, tanto ao ecumenismo (entre igrejas), como ao macroecumenismo (com outras religiões). Para o caminho ecumênico, o Concílio contribuiu com a superação do conceito de missão como proselitismo e também propôs o caminho da unidade no serviço à paz e à justiça. Antes do Concílio, era comum os católicos pensarem que a unidade deveria se dar pela "volta" dos irmãos separados à Igreja Católica. O Concílio deixou claro: a única conversão possível deve ser ao Cristo e vivida por todos os cristãos. Além disso, o Concílio propôs às outras igrejas uma visão mais positiva com relação ao mundo e à relação entre fé e política.

IHU On-Line – Que pontos do Concílio merecem ser ainda mais aprofundados/concretizados ou revistos/abandonados dos debates de então?

Marcelo Barros – Até hoje, a Igreja Católica ainda não vive na prática a eclesiologia da igreja local (igreja significa comunidade local). O Concílio vislumbrou isso, mas não concretizou esta teologia. A doutrina católica sobre ministérios – especificamente, o ministério do papa que o próprio Concílio não chegou a transformar – é um ponto a ser aprofundado, se as igrejas querem realmente retomar mais profundamente o caminho do Evangelho e caminhar para a unidade na diversidade ou "diversidade reconciliada".

Sobre o diálogo com as outras religiões, o Concilio valorizou as outras tradições espirituais, abriu-se ao diálogo com elas, mas afirmou que isso deve se dar sob a unidade do Cristo. O setor atual da teologia chama isso de "inclusivismo" (todos os fiéis, em qualquer religião que seja, são salvos pela graça de Cristo). É uma concepção a ser superada, ou ao menos ampliada na direção de uma visão pluralista da fé e da salvação.

IHU On-Line – Especificamente no âmbito católico, que sombras e luzes o senhor percebe na caminhada ecumênica da Igreja Católica ao longo do papado de Bento XVI?

Marcelo Barros – Se uma igreja se fecha em si mesma e se centra em seu próprio mundo cultural, impede qualquer avanço ecumênico. Quando os líderes eclesiásticos se refugiam em um saudosismo pessimista e fortalecem um clericalismo autoritário e centralizador, isso impede uma autêntica renovação espiritual, assim como o diálogo e a unidade com outras igrejas. Onde não existe a mínima liberdade de expressão e a pesquisa teológica, só se tem permissão de repetir o que a autoridade suprema já falou; não há lugar para igrejas locais que sejam verdadeiras igrejas: elas se tornam meros departamentos da matriz ou central e sequer é possível algum processo de aproximação com outras igrejas.

IHU On-Line – Em sua opinião, quais são as principais contribuições ao ecumenismo no contexto brasileiro?

Marcelo Barros – Sem dúvida, o surgimento nos anos 1970 da Pastoral da Terra com a CPT [Comissão Pastoral da Terra], da nova pastoral Indigenista com o Conselho Indigenista Missionário – Cimi e de outras pastorais, como a operária, a carcerária, a dos sofredores de rua e com jovens, ao realizar concretamente a missão da Igreja como serviço libertador aos setores empobrecidos, possibilitou um ecumenismo de base. Esta foi e ainda é a maior contribuição ao ecumenismo na nossa realidade. Várias destas pastorais tiveram origem e têm natureza claramente ecumênicas.

IHU On-Line – E os principais desafios/obstáculos eclesiais, sociais e culturais ao ecumenismo no contexto brasileiro?

Marcelo Barros – Mesmo se há mais de cem anos já existe a separação entre Estado e Igreja, setores da hierarquia católica ainda exercem certo poder na sociedade e às vezes ainda expressam desejos de privilégios em áreas como educação e influência sobre o governo. Ainda viceja em certos ambientes católicos uma cultura de Cristandade que tende a desconhecer outras expressões espirituais. Além disso, em programas de rádio e televisão, alguns grupos pentecostais, neopentecostais e mesmo católicos rejeitam o diferente e chegam mesmo a atacar outros grupos espirituais como as religiões de tradição afrodescendente.

Além disso, as poucas iniciativas ecumênicas (boas e oportunas) como a Campanha da Fraternidade Ecumênica ainda são pensadas a partir exclusivamente da cultura católico-romana. Acontecem no tempo litúrgico da Quaresma praticado mais pela Igreja Católica. Os subsídios trazem propostas para Via Sacra e Adoração Eucarística, devoções católicas, mas não, por exemplo, para a Escola Dominical de igrejas evangélicas. Isso limita a participação de outras confissões.

Entretanto, o obstáculo maior para o ecumenismo no Brasil e em outros países ainda é a concepção de poder eclesiástico e a dificuldade de um diálogo fraterno, vivido como discipulado de iguais. Aí tocamos em temas como o da participação das mulheres nos ministérios e os assuntos ligados à moral.

IHU On-Line – O Mutirão Ecumênico deste ano sugere a reflexão em torno do tema "Unidos em Cristo na defesa da Criação". Em sua opinião, quais são as principais contribuições da teologia e da mística cristãs para a "defesa da Criação"?

Marcelo Barros – A teologia e a mística cristã se formaram em um contexto cultural que, muitas vezes, separou Criação e Redenção. Uma antiga oração, até hoje usada no Natal, diz: "Ó Deus, de forma admirável criaste o ser humano, mas, através da vinda de Jesus, de forma mais admirável ainda o redimiste". Este tipo de comparação coloca a obra da criação como algo do passado e de certa forma superada pela salvação trazida por Jesus. No contato com outras religiões (principalmente tradições mais ligadas à natureza) e diante dos desafios da atualidade (a destruição ecológica), a teologia e a mística cristãs têm aprendido a integrar mais profundamente Criação e História da Salvação. A contribuição específica da teologia e da espiritualidade cristãs para a defesa da Criação tem sido, de um lado, testemunhar que a salvação realizada por Deus, através de Jesus, atinge não só a humanidade, mas todo o universo e, ao mesmo tempo, insistir na missão do ser humano em ser zelador e representante de Deus no cuidado com a criação.

IHU On-Line – O lema do encontro é o versículo de Romanos 8, 19: "A criação espera com impaciência a manifestação dos filhos de Deus". Como podemos compreender hoje o significado mais profundo dessa afirmação de Paulo aos cristãos de Roma, diante da crise ecológica?

Marcelo Barros – Este texto revela a dimensão cósmica da redenção. Toda a natureza, criada por amor, sofre quando o ser humano se torna um Adão cego e malvado que a tiraniza. Essa mesma natureza, o universo inteiro, vive conosco a expectativa da plena libertação, iniciada pela ressurreição de Jesus e completada por todo ato de amor que atualiza a Páscoa nossa e do universo. A crise ecológica manifesta o domínio do egoísmo humano. Este Mutirão Ecumênico explicita que temos de colaborar com o parto (obra divina) de uma criação renovada e harmonizada com a humanidade nova da qual, ao menos em princípio, já devemos fazer parte.

IHU On-Line – Como as igrejas cristãs podem recuperar ecumenicamente a dimensão ecológica da fé e da espiritualidade?

Marcelo Barros – Em primeiro lugar, nenhuma igreja pode fazer isso sozinha ou isoladamente. É preciso colocar-se juntas como igrejas e em diálogo com as tradições espirituais que vivem a espiritualidade ecológica há mais tempo – as tradições indígenas e negras, por exemplo. Aí sim, é preciso retrabalhar a espiritualidade ecológica contida no louvor das celebrações (salmos e cânticos), no teor dos sacramentos (água, pão, vinho, etc.) e principalmente na valorização da vida como o que há de mais sagrado.

IHU On-Line – Como você vê a relação entre democracia e ecumenismo?

Marcelo Barros – Se cremos que o Espírito de Deus está presente e atua em toda obra de justiça, paz e amor, não há dúvida de que este mesmo Espírito inspira as atuais manifestações da juventude e de grande parte da humanidade, o que está acontecendo em várias partes do mundo. São ações e movimentações para democratizar mais ainda a democracia e transformar a organização social do mundo, de forma que a democracia seja mais participativa e não só representativa. Esta juventude dos "indignados", por exemplo, não se refere às igrejas. Entretanto, o próprio termo igreja surgiu no contexto do antigo mundo grego como assembleia de cidadãos. Paulo o universalizou e falou da igreja de Deus aberta a todos, escravos e livres, homens e mulheres, judeus e gentios.

IHU On-Line – Como as igrejas podem se comprometer de forma mais eficaz com os sujeitos contemporâneos mais vulneráveis no contexto brasileiro, como as mulheres, os negros, os índios e os homossexuais?

Marcelo Barros – Isso exige das igrejas uma visão diferente da que elas parecem ter sobre Deus e sobre a sua missão de igrejas. No modo atual como a Igreja Católica (e outras) pensa sobre Deus e compreende sua própria missão, é absolutamente compreensível que, na penúltima eleição presidencial nos EUA, bispos católicos tenham declarado voto por Bush. Esses bispos sabiam que Bush tinha invadido violentamente o Iraque, tinha mandado jogar bombas sobre a população civil, trazido para Guatânamo prisioneiros de vários povos e defendia a tortura como meio normal de interrogação. Para os tais bispos, nada disso impedia que votassem nele. O mais importante era o fato de Bush ser contra o aborto e contra a aceitação civil para fins jurídicos da união gay.

Do mesmo modo, nas últimas semanas da recente campanha eleitoral, três bispos de São Paulo se posicionaram sobre em que candidato os católicos deveriam votar para presidente. Pouco importava qual dos candidatos serviria melhor ao povo mais pobre, apresentava um programa de governo mais coerente ou, por exemplo, qual deles favoreceria mais a integração latino-americana. Nada disso importava. Para eles, o único critério era não votar naquela candidata que, segundo boatos, seria favorável à liberalização do aborto em situações médicas que a Constituição já aprovava.

Este tipo de embate não é acidental. É decorrência de uma teologia e de uma forma de compreender a doutrina que ainda é oficial na Igreja Católica e em outras igrejas. É a mesma teologia e espiritualidade que fez com que, no ano passado, no Brasil, certos setores da hierarquia católica fizessem lobby e pressionassem o presidente contra o 3º Plano Nacional de Direitos Humanos. E farão isso contra qualquer iniciativa civil que vá além da compreensão moral que estes bispos têm e que acreditam dever ser de todos os católicos. Neste ponto, existe um forte ecumenismo ao inverso do que deveria ser o ecumenismo entre setores oficiais do Vaticano, grupos pentecostais e grupos fundamentalistas do islamismo por exemplo. Se não se repensa a compreensão de Deus, da fé e da eclesiologia, o testemunho que estes hierarcas continuarão a dar a muitos setores marginalizados e vítimas de violência e discriminação (como mulheres e homossexuais) é de desamor e de aliança com o sistema patriarcal e injusto.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Marcelo Barros – Uma visão atual de espiritualidade ecumênica supõe não só a abertura para outras igrejas e tradições religiosas, mas também para muitos grupos e setores da sociedade que se ligam a uma opção pela justiça e pela paz, mas não pertencem a nenhuma tradição religiosa. Sinto que um desafio grande para a teologia ecumênica atual é ser capaz de relativizar uma linguagem teísta (na qual Deus é visto como alguém fora de nós mesmos e da vida) para inserir-se em uma espiritualidade na qual o mistério divino seja contemplado no interior do próprio ser humano, em todo ser vivo e transparente em todo o universo.

(Por Moisés Sbardelotto)

* * *

Notas:


1.- Raimon Panikkar (1918-2010): padre e teólogo espanhol. Durante a sua carreira acadêmica teve a oportunidade de abordar diferentes tradições culturais. Publicou mais de 40 livros e 300 artigos de filosofia, ciência, metafísica, religião e hinduísmo. Foi membro do Instituto Internacional de Filologia (Paris) e presidente do Centro de Estudos Interculturais da Catalunha, Vivarium. (Nota da IHU On-Line)


2,- Dom Aloísio Lorscheider (1924-2007): cardeal, arcebispo emérito de Aparecida do Norte, São Paulo. Concedeu entrevista à IHU On-Line na matéria de capa da 124ª edição, de 22-11-2004, que teve como tema os 40 anos da Lumen Gentium. Este aniversário também pautou a palestra do evento IHU ideias de 25-11-2004, ministrada por Lorscheider e D. Boaventura Kloppenburg. (Nota da IHU On-Line)


3.- Waldo Aranha Lenz César (1923-2007): sociólogo, romancista e líder ecumênico. Intelectual de formação religiosa protestante, foi bolsista do Instituto do Conselho Mundial de Igrejas, coordenou a seção de religião das enciclopédias Delta Larousse e Mirador Internacional e coordenou a Campanha Mundial contra a fome da FAO (ONU). Também atuou na coordenação da Conferência Evangélica do Brasil, destacando-se na organização da Conferência do Nordeste, na década de 1960. Fez parte do Núcleo de Pesquisas do Instituto de Estudos da Religião – ISER, assessorando diversas ONGs e instituições eclesiais. Foi ainda colunista do Jornal do Brasil. (Nota da IHU On-Line)


4.- Domício Pereira de Mattos (1916-): formou-se no Seminário Presbiteriano de Campinas em 1941, obteve o mestrado em jornalismo (1959) e em teologia (1969), na Universidade de Syracuse e no Union Theological Seminary de Nova York. Bacharelou-se em Direito (1972) e passou a exercer o magistério superior na Faculdade Brasileira de Ciências Jurídicas e na Universidade Federal de Juiz de Fora. Foi o representante por duas vezes na Aliança Mundial Presbiteriana, em Evaston (EUA) e Genebra (Suíça). (Nota da IHU On-Line)


5.- Jether Ramalho (1923-): congregacional, fundador e mentor do Centro Ecumênico de Documentação e Informação – Cedi. Dirigiu o Departamento de Ação Social da Confederação Evangélica do Brasil. Foi um dos organizadores e participantes da chamada Conferência do Nordeste, que causou uma cisão na própria Confederação. Foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e editor da revista Tempo e Presença, editada pelo Cedi, depois renomeado como Koinonia Presença Ecumênica e Serviço, por 15 anos. Jether foi encarregado pelo Conselho Mundial de Igrejas – CMI de formar uma rede de organismos ecumênicos na América Latina. Sua tarefa junto ao Conselho era de visitar todos os países da região, prestando assessoria aos movimentos ecumênicos, principalmente na área de juventude. (Nota da IHU On-Line)


6.- Millard Richard Shaull (1919-2002): teólogo presbiteriano ecumênico estadunidense, reconhecido por suas contribuições ao desenvolvimento da gênese da Teologia da Libertação latino-americana. Atuando como missionário na América Latina (Colômbia e Brasil), Shaull desenvolveu um pensamento teológico profundamente marcado pela centralidade de temáticas políticas e sociais características do contexto latino-americano. Sua reflexão teológica tem sido constantemente associada ao desenvolvimento da assim chamada "teologia da revolução", que alcançou status no cenário teológico internacional, sobretudo, a partir da Conferência Mundial sobre Igreja e Sociedade, realizada em Genebra, em 1966, sob os auspícios do CMI. (Nota da IHU On-Line)


7.- Rubem Alves (1933-): psicanalista, educador, teólogo e escritor brasileiro, autor de livros e artigos sobre temas religiosos, educacionais e existenciais, além de uma série de livros infantis. Com Carlos Rodrigues Brandão, é autor de Encantar o mundo pela palavra (São Paulo: Papirus, 2006). (Nota da IHU On-Line)


8.- Frei Bartolomé de las Casas (1474-1566): frade dominicano, cronista, teólogo, bispo de Chiapas, no México. Foi grande defensor dos índios, considerado o primeiro sacerdote ordenado na América. Sobre ele, confira a obra de Gustavo Gutiérrez, O pensamento de Bartolomeu de Las Casas (São Paulo: Paulus, 1992). Leia a entrevista Bartolomeu de Las Casas, primeiro teólogo e filósofo da libertação, concedida pelo filósofo italiano Giuseppe Tosi à IHU On-Line 342, de 06-09-2010, disponível em http://bit.ly/9EU0G0. (Nota da IHU On-Line)


9.- Frei Antonio de Montesinos (?–1540): frade e pregador dominicano que se distingui no combate contra o abuso ao qual se submetiam os indígenas da América por parte dos colonizadores. (Nota da IHU On-Line)
São Martinho de Lima ou São Martinho de Porres (1579-1639): nasceu em Lima, Peru. Seu pai era espanhol, e sua mãe, negra, alforriada, natural do Panamá. Aos 15 anos, entrou para o convento dos Dominicanos em Lima. Era amigo de Santa Rosa de Lima. Foi canonizado em 6 de maio de 1962. (Nota da IHU On-Line)


10.- Turíbio de Mongrovejo (1538-1606): sacerdote espanhol, foi sagrado bispo e enviado ao Peru. Deparou-se com muitas injustiças: indígenas oprimidos, pobres abandonados. Apoiado pela população, organizou as comunidades de sua diocese e depois reuniu assembleias e sínodos, convocando todos os habitantes para a evangelização. Sob sua direção, foram realizados dez concílios diocesanos e os três provinciais que formaram a estrutura legal da Igreja da América espanhola até o século XX. Fundou o primeiro seminário das Américas. (Nota da IHU On-Line)


11.- Beato José de Anchieta (1534-1597): jesuíta espanhol, um dos fundadores de São Paulo e declarado beato pelo Papa João Paulo II. É chamado de Apóstolo do Brasil. Tendo o Pe. Manuel da Nóbrega, provincial dos Jesuítas no Brasil, solicitado mais sacerdotes para a atividade de evangelização do Brasil, o provincial da Ordem, Simão Rodrigues, indicou, entre outros, José de Anchieta. (Nota da IHU On-Line)


12.- Antônio Vieira (1608-1697): padre jesuíta, diplomata e escritor português. Desenvolveu expressiva atividade missionária entre os indígenas do Brasil procurando combater a sua escravidão pelos senhores de engenho. Em 1641 voltou a Portugal onde exerceu funções políticas como conselheiro da Corte e embaixador de D. João IV, principalmente no que se referia às invasões holandesas do Brasil. Retornou ao Brasil em 1652, tendo estado no Maranhão, onde fez acusações aos senhores de engenho escravocratas na defesa da liberdade dos índios. Foi expulso do país, juntamente com outros jesuítas. Voltou novamente em 1681. Entre suas obras estão: Sermões, composto por 16 volumes que foram escritos entre 1699 e 1748; História do Futuro (1718); Cartas (1735-1746), em três volumes; Defesa perante o tribunal do Santo Ofício (1957), composto por dois volumes. Confira a edição 244 da IHU On-Line, de 19-11-2007, Antônio Vieira. Imperador da língua portuguesa. (Nota da IHU On-Line)


13.- Leonidas Eduardo Proaño Villalba (1910-1988): bispo e teólogo equatoriano, bispo de Riobamba de 1954 a 1985, conhecido como Bispo dos Pobres e Bispo dos Índios. Confira, nas Notícias do Dia do sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, em 08-08-2008, a notícia Leonidas Proaño. "Ficam as árvores que semeaste’, disponível em http://migre.me/5uUHp. (Nota da IHU On-Line)


14.- Sergio Méndez Arceo (1907-1992): bispo mexicano, um dos ideólogos da Teologia da Libertação. Foi membro da Academia Mexicana de História de 1954 a 1972. Participou ativamente no Congresso dos Cristãos pelo Socialismo, em 1972. Conhecido como "bispo vermelho", denunciou a intervenção norte-americana no Vietnã, na América Central e em Cuba, e condenou os regimes militares na América Latina. (Nota da IHU On-Line)


15.- Samuel Ruiz García (1924-2011): religioso mexicano, prelado da Igreja Católica Apostólica Romana, que serviu como bispo da Diocese de San Cristóbal de las Casas, Chiapas, de 1959 até 2000. Destacou-se como defensor dos direitos dos povos indígenas do México e da América Latina. (Nota da IHU On-Line)


16.- Dom Pedro Casaldáliga: bispo prelado emérito de São Félix, Mato Grosso. É poeta e escritor de renome internacional. Quando assume a prelazia de São Felix, em pleno regime militar, denuncia veementemente o latifúndio e defende a reforma agrária e o direito indígena a terra. Foi duramente perseguido pelo regime militar. Pe. João Bosco Penido Burnier, jesuíta, foi assassinado ao lado dele, no dia 12 de outubro de 1976. A edição 137 da IHU On-Line, de 18-04-2005, publicou uma entrevista com Casaldáliga: O próximo pontificado será um tempo de transição significativo, disponível em http://migre.me/5uUUu. (Nota da IHU On-Line)


17.- Dom Tomás Balduíno, OP (1922-): bispo e teólogo católico brasileiro, bispo-emérito de Goiás e assessor da Comissão Pastoral da Terra. Pertence à Ordem dominicana. Neste ano, D. Tomás concedeu ao sítio do IHU a entrevista Militares ameaçam religiosos em Goiás, disponível em http://migre.me/5uUYW. (Nota da IHU On-Line)


18.- Dom José Maria Pires (1919-): bispo católico brasileiro, arcebispo emérito da Paraíba. (Nota da IHU On-Line)


20.- Maria Escolástica da Conceição Nazaré (1894-1986): conhecida como Mãe Menininha do Gantois, foi uma Iyálorixá (mãe-de-santo) brasileira, da Bahia, filha de Oxum. Foi a quarta Iyálorixá do Terreiro do Gantois e a mais famosa de todas as Iyálorixá brasileiras. (Nota da IHU On-Line)


21.- Maria Stella de Azevedo Santos, Mãe Stella de Oxóssi, Odé Kayode (1925-): quinta Iyalorixá do Ilê Axé Opó Afonjá em Salvador, Bahia. Em 2009, ao completar setenta anos de iniciação no Candomblé, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade do Estado da Bahia. É detentora da comenda Maria Quitéria (da prefeitura do Salvador), Ordem do Cavaleiro (do governo da Bahia) e da comenda do Ministério da Cultura. (Nota da IHU On-Line)


22.- George Walker Bush (1946-): foi o 43º presidente dos Estados Unidos, sucedendo Bill Clinton em 2001. Em 2009, foi sucedido por Barack Obama. Foi governador do Texas entre 1995 e 2000. (Nota da IHU On-Line)


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A inclusão de Cristo


Como cristã tenho o compromisso, diante dessa diversidade de vozes bíblicas, de pautar-me pelos ensinamentos e pelo caminho trilhado pelo próprio Jesus. Sempre que os testemunhos bíblicos apresentam inconsistências internas (e o próprio Cristo assim os experimentou!), é meu dever honrar a Jesus como meu parâmetro último de julgamento. Assim sendo, a conclusão inescapável é que em nenhum momento Jesus condena a homossexualidade, e certamente em nenhum momento ele deseja o mal de quem quer que seja - nem mesmo daqueles a quem a cultura religiosa da época é tão pronta em condenar como pecadores. Suas palavras mais duras são reservadas unicamente àqueles cuja certeza de sua própria retidão religiosa leva-os a condenar outros ou a bloquear as persistentes tentativas do Espírito de abrir novos canais de perdão e esperança. Jesus é todo inclusão, perdão e valorização da autonomia de cada um. À luz de sua presença compassiva, as pessoas são libertadas para viverem suas vidas com força e esperança, independentemente de serem marginalizadas pelos detentores do "saber religioso".

Cynthia Bourgeault é pastora episcopal, escritora e líder de retiros, diretora-fundadora da Aspen Wisdom School, no Colorado, e principal professora visitante da Contemplative Society em Victoria, Colúmbia Britânica, Canadá. Seu livro mais recente, "The Meaning of Mary Magdalene", já está disponível.

(Traduzido daqui. Dica do querido Hugo Nogueira, como sempre - aliás, este aqui também. ;-))

Feliz 2012

Vimos aqui

Desejo um feliz ano novo em que, se Deus quiser, todas as crianças, ao ligarem a TV, recebam um banho de Mozart, Pixinguinha e Noel Rosa; aprendam a diferença entre impressionistas e expressionistas; vejam espetáculos que reconstituem a Balaiada, a Confederação do Equador e a Guerra dos Emboabas; e durmam depois de fazer suas orações. Quero um ano novo em que, no campo, todos tenham seu pedaço de terra, onde vicejem laranjas e alfaces, e voejem bem-te-vis entre vacas leiteiras. Na cidade, um teto sob o qual haja um fogão com panelas cheias, a sala atapetada por remendos coloridos, a foto do casal exposta em moldura oval sobre o sofá.

Espero um ano novo em que as igrejas abram portas ao silêncio do coração, o órgão sussurre o cantar dos anjos, a Bíblia seja repartida como pão. A fé, de mãos dadas com a justiça, faça com que o céu deixe de concentrar o olhar daqueles aos quais é negada a felicidade nesta terra. Um feliz ano novo com casais ociosos na arte de amar, o lar recendendo a perfume, os filhos contemplando o rosto apaixonado dos pais, a família tão entretida no diálogo que nem se dá conta de que o televisor é um aparelho mudo e cego num canto da sala.

Desejo um ano novo em que os sonhos libertários sejam tão fortes que os jovens, com o coração a pulsar ideais, não recorram à química das drogas, não temam o futuro nem expressem-se em dialetos ininteligíveis. Sejam, todos eles, viciados em utopia. Espero um ano novo em que cada um de nós evite alfinetar rancores nas dobras do coração e lave as paredes da memória de iras e mágoas; não aposte corrida com o tempo nem marque a velocidade da vida pelos batimentos cardíacos.

Um ano novo para saborear a brevidade da existência como se ela fosse perene, em companhia de ourives de encantos, cujos hábeis dedos incrustam na rotina dos dias joias ternas e eternas. Quero um ano novo em que a cada um seja assegurado o direito ao trabalho, a honra do salário digno, as condições humanas de vida, as potencialidades da profissão e a alegria da vocação. Um novo ano capaz de saciar a nossa fome de pão e de beleza. Rogo por um ano novo em que a polícia seja conhecida pelas vidas que protege e não pelos assassinatos que comete; os presos reeducados para a vida social; e que os pobres logrem repor nos olhos da Justiça a tarja da cegueira que lhe imprime isenção.

Um ano novo sem políticos mentirosos, autoridades arrogantes, funcionários corruptos, bajuladores de toda espécie. Livre de arroubos infantis, seja a política a multiplicação dos pães sem milagres, dever de uns e direito de todos. Espero um ano novo em que as cidades voltem a ter praças arborizadas; as praças, bancos acolhedores; os bancos, cidadãos entregues ao sadio ócio de contemplar a natureza, ouvir no silêncio a voz de Deus e festejar com os amigos as minudências da vida – um leque de memórias, um jogo de cartas, o riso aberto por aquele que se destaca como o melhor contador de piadas.

Desejo um ano novo em que o líder dos direitos humanos não humilhe a mulher em casa; a professora de cidadania não atire papel no chão; as crianças cedam o lugar aos mais velhos; e a distância entre o público e o privado seja encurtada pela ponte da coerência. Quero um ano novo de livros saboreados como pipoca, o corpo menos entupido de gorduras, a mente livre do estresse, o espírito matriculado num corpo de baile, ao som dos mistérios mais profundos.

Desejo um ano novo em que o governo evite que o nosso povo seja afetado pela crise do capitalismo, livre a população do pesado tributo da degradação social, e tome no colo milhões de crianças precocemente condenadas ao trabalho, sem outra fantasia senão o medo da morte. Espero um ano novo cujo principal evento seja a inauguração do Salão da Pessoa, onde se apresentem alternativas para que nunca mais um ser humano se sinta ameaçado pela miséria ou privado de pão, paz e prazer. Um ano novo em que a competitividade ceda lugar à solidariedade; a acumulação à partilha; a ambição à meditação; a agressão ao respeito; a idolatria por dinheiro ao espírito das bem-aventuranças.

Aspiro a um ano novo de pássaros orquestrados pela aurora, rios desnudados pela transparência das águas, pulmões exultantes de ar puro e mesa farta de alimentos despoluídos. Rogo por um ano novo que jamais fique velho, assim como os carvalhos que nos dão sombra, a filosofia dos gregos, a luz do sol, a sabedoria de Jó, o esplendor das montanhas de Minas, a música gregoriana. Um ano tão novo que traga a impressão de que tudo renasce: o dia, a exuberância do mar, a esperança e nossa capacidade de amar. Exceto o que no passado nos fez menos belos e bons.

- Frei Betto
Reproduzido via Conteúdo Livre

Em busca de uma síntese integradora: os três reis magos


Na Bíblia do Novo Testamento, há duas versões do nascimento de Jesus. Uma do evangelho de Lucas que culmina com a adoração dos pastores. A outra, do evangelho de Mateus, que se concentra na adoração dos três reis magos. A lição é: judeus e não-judeus (antigamente se dizia pagãos), cada um a seu modo, tem acesso a Jesus e participam da alta significação que ele encarna. Tentemos captar o sentido dos reis magos, festa que as Igrejas celebram no dia 6 de Janeiro, hoje quase esquecida.

As Escrituras judaico-cristãs deixam claro que Deus não se revelou apenas aos judeus. Antes de surgir o povo de Israel com Abraão, revelou-se a Enoque, a Noé, a Melquisedeque, depois a Balaão e a um não judeu, o rei Ciro a quem, pela primeira vez na Bíblia, se atribui o título de Messias. E nunca deixou de se revelar aos seres humanos, de muitas formas diferentes, pois todos são seus filhos e filhas e ouvintes da Palavra. Os reis magos estão entre eles. Quem eram? Diz-se que eram astrólogos vindos provavelmente da Babilônia.

Naquele tempo, astronomia e astrologia caminhavam juntas. Certo dia, estes sábios descobriram uma estranha conjunção de Júpiter com Saturno que se aproximaram de tal forma que pareciam uma única grande estrela, na constelação de Peixes. O grande astrônomo Kepler (+1630) fez cálculos astronômicos e mostrou efetivamente que no ano 6 antes de Cristo (data do nascimento de Cristo pelo calendário corrigido) ocorreu tal conjunção.

Para os sábios, este fato possuia grande signficação. Júpiter, na leitura astronômica da época, era o símbolo do Senhor do mundo. Saturno era a estrela do povo judeu. E a constelação de Peixes era o sinal do fim dos tempos. Os sábios babilônicos assim interpretaram: no povo judeu (Saturno) nascerá o Senhor do mundo (Júpiter) sinalizando o fim dos tempos (Peixes). Então se puseram a caminho para prestar-lhe homenagem.

Sempre houve, na história dos povos, pessoas simples ou sábias que se puseram a caminho em busca de salvação, quer dizer, de uma totalidade integradora que superasse as rupturas da existência humana. Deus veio ao encontro desta busca entrando nos modos de ser e de pensar das respectivas pessoas.

Mas por que foram encontrar Jesus? Porque, segundo a compreensão dos evangelistas, Jesus é um princípio de ordem e de criação de uma grande síntese humana, divina e cósmica. Quando dão a ele o título de Cristo ("ungido", em grego) querem expressar esta convicção. Cristo não é um nome de pessoa, mas uma qualidade conferida a alguém para cumprir uma missão que, no caso, é concretizar uma síntese integradora (salvação). Jesus operou tal síntese; por isso o chamaram de Cristo. Pessoa e missão se identificaram de tal forma que Jesus Cristo se transformou num nome. Mais correto seria dizer, Jesus, o Cristo. Esta síntese é buscada e realizada em outras religiões e caminhos espirituais, embora sob outros nomes: Sabedoria, Logos, Iluminacão, Buda, Tao, Shiva etc. Estes são “ungidos e consagrados” (significado de Cristo) para serem um centro atrator e unificador de tudo o que há no céu e na terra. Mudam os nomes, mas o sentido é sempre o mesmo.

Nossa realidade, entretanto, é contraditória. É feita de elementos sim-bólicos e dia-bólicos, de verdade e de falsidade, de luz e de sombras. Como criar uma ordem superior que ultrapasse essas contradições? Sentimos a urgência de um Centro ordenador e animador de uma síntese pessoal, social e também cósmica.

Os evangelistas usaram o fenômeno astronômico do aparecimento de uma estrela para apresentar Jesus como aquele Senhor do Universo que vem sob a forma de uma frágil criança para unificar tudo. Essa Energia é divina, mas não é exclusiva de Jesus. Ela se expressa sob muitas formas históricas e em muitas figuras religiosas, justas ou sábias e, no fundo, em cada pessoa. Em Jesus, o Cristo, ganhou uma concretização tal que mobilizou outras culturas com seus sábios vindos do Oriente, os Magos.

Todos os caminhos levam a Deus e Deus visita os seus em suas próprias histórias. Todos estão em busca daquela Energia unificadora que se esconde no signficado da palavra Cristo. Esse encontro com a Estrela que guiou os magos, produz hoje, como produziu ontem, alegria e sentimento de integração.

Haverá sempre uma Estrela no caminho de quem busca. Importa, pois, buscar com mente pura e sempre atenta aos sinais dos tempos, como o fizeram os reis magos.

- Leonardo Boff
Reproduzido via IHU, com grifos nossos

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A quem veneras neste recanto...?

Painel: Aryz

Deixa a cantilena, o cântico
e a recitação de contas de rosário!

A quem veneras neste recanto
solitário e escuro de um templo de portas fechadas?

Abre teus olhos e vê
que teu Deus não está diante de ti!

Ele está onde o agricultor está lavrando o chão duro
e onde o pedreiro está rachando pedras.

Ele está com eles no sol e na chuva,
e sua roupa está coberta de poeira.

Remove teu manto sagrado
e como Ele, desce para o chão empoeirado!

Libertação? Onde se encontra essa libertação?

Nosso mestre assumiu pessoalmente com alegria
os vínculos da criação;

Ele está vinculado a nós para sempre.
Sai de tuas meditações e deixa de lado tuas flores e o incenso!

Que mal há se tuas roupas ficam gastas e manchadas?
Encontra-o e fica com Ele na faina e no suor de tua face.

- R. Tagore
Reproduzido via blog Terra Boa

Infográfico: We All Want To Be Young


Divers@s,

olha que Infográfico divertido que foi disponibilizado no site
P.onto Eletronico inspirado na música "We All Want To Be Young" (Todos Nós Queremos Ser Jovens) do David Bowie.

ps.: Só clicar na imagem que ela fica maior.


Grande abraço;

Rodolfo Viana

Um ano para ser mais justo

Óleo sobre tela: Michael Peck

Talvez por estar diuturnamente me deparando com situações que considero tremendamente desiguais e duras para as pessoas que fugiram da aula de ser "normal" físico, sensorial e intelectualmente, questiono sempre se estão sendo justas as minhas atitudes, as ideias e os posicionamentos diante o tocar da vida.

Com esse pensamento, foi um pulo me apegar qual chapéu na cabeça de careca ao envolvente "Justiça - O Que É Fazer a Coisa Certa", de Michael J. Sandel, professor de um disputado curso da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Na obra, o autor vira a cabeça da gente de revestrés quando começa a colocar situações nas quais devem se escolher soluções consideradas as mais justas.

Quando se acha que a melhor decisão foi tomada, Sandel aplica outro argumento e bota as convicções da gente "na chon", como diria Aracy Balabanian em uma novela qualquer.

O "maraviwonderful" do livro é ir abrindo portas sobre novas possibilidades de enxergar atitudes e posicionamentos tomados no dia a dia, com a certeza de estarem certos, mas que postos diante de um holofote podem revelar distorções, erros ou falhas de conceitos.

É justo dar a vez ao velho na fila do banco uma vez que ele é aposentado e tem todo o tempo do mundo para pagar as contas?

É justo que o povo prejudicado das pernas pague menos impostos na compra de uma charanga?

E a mulher grávida ser atendida com prioridade em um hospital, seria justo?

É justo que em um cenário de fatalidade, uma criança recém-nascida seja salva antes de um cientista prestes a descobrir a cura de uma doença grave?

Antes de avaliar a justeza das coisas, é preciso descartar o aspecto do "dózinho" que dá no coração da gente diante de algumas situações, descartar o assistencialismo puro, que só atravanca a formação de uma nova realidade social. É necessário também abrir mão do egoísmo que vai sempre direcionar as decisões para o umbigo e não para o bem comum, para o universo.

Para ser justo é imprescindível ter "fé nas faculdades humanas mais elevadas" como aquelas ligadas a valores, à cidadania, à moral, aos direitos humanos, à individualidade do cidadão, como diz o professor de Harvard.

Para ser justo é preciso dosar a felicidade que as atitudes irão gerar com as dores que poderão provocar tanto na maioria como no único, além de outras questões filosóficas que variam a cada tomada de decisão.

Em resumo, ser justo, às vezes, pode dar um trabaaaaalho danado.

Porém, ter a preocupação e o cuidado de valorizar as decisões do dia a dia, sobretudo aquelas que envolvem diretamente os interesses do outro, ajuda a construir uma sociedade mais igualitária, menos voraz com os tidos mais suscetíveis por razões diversas - faixa etária, característica físicas, econômicas etc. ­

Quem dera se 2012 fosse declarado o ano internacional para ser mais justo. Assim, o eleitor poderia ser mais justo com a urna, os pais seriam mais justos com os filhos, o empregado seria tremendamente justo com o patrão, as vítimas seriam justas com seus algozes ou tudo isso ao contrário, evidentemente.

- Jairo Marques
jairo.marques@grupofolha.com.br
Reproduzido via Conteúdo Livre

“A ciência não tem que se dedicar a comprovar a existência de Deus”


A partícula de Deus. É o que os cientistas estão buscando. Na realidade, é um exagero jornalístico. O que buscam é uma partícula que dê razão definitiva à teoria da evolução. Isso pode ser comprovado pela ciência. O Pe. Ramón María Nogués é o exemplo perfeito de que ciência e religião podem andar de mãos dadas na compreensão da realidade.

A entrevista é de José Aguado e está publicada no jornal espanhol La Razón, 18-12-2011. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.


O que é a religião?

É uma tentativa de estabelecer contato com a realidade última da vida, o que chamamos Deus. É, além disso, uma criação humana que pode responder a uma inspiração ou a grandes tradições. Embora seja verdade que há grandes tradições que não se referem a Deus.

Como se diferencia a religião de outras narrações?

Não é fácil distingui-la, mas as religiões têm graus de maturidade e superam as colocações fundamentalistas e sectárias que suscitam reservas. As religiões têm uma tradição histórica que foi se polindo com o passar do tempo graças à aceitação do diálogo com a cultura ou com a ciência.

Não há conflito entre ambos?

Não, não é uma relação conflitiva. Na cultura moderna há muitas linguagens sobre a realidade. Caso forem rigorosas, ao final são compatíveis. O conflito vem quando a relação entre ambas se faz em relações de poder, sobretudo entre pessoas.

Mas a ciência foi tirando terreno da religião.

Na história da Europa muitos aspectos que eram monopolizados pela religião foram ocupados pela ciência, como a cosmologia ou a ciência da vida. Mas isso não é ruim: a religião não se pergunta pelo como, mas pelo horizonte, pelo sentido. Cada um tem que estar em seu lugar. Assim, a ciência não tem que se dedicar a comprovar a existência de Deus.

A religião está no cérebro?

A religião é um produto humano e parte da nossa experiência mental e cultural. É possível que se encontrem estruturas cerebrais que sejam significativas em experiências religiosas. É o que se denomina neurorreligião. Os místicos, por exemplo, estão na fronteira da doença: nas epilepsias leves se produz uma atividade cerebral de alta intensidade, como ocorria com Santa Teresa. Produz-se uma exaltação das possibilidades mentais, que dá estas excelências não apenas religiosas, mas também estéticas.

Deus já não dá medo.

Para as novas gerações a ideia de Deus já não está unida ao medo. Antes se utilizava o temor para falar de Deus de maneira incorreta, mas agora Deus se afastou dessa ideia. Contudo, na Europa estamos regredindo com a expressão religiosa e é preciso refletir. A perda de importância da religião, como experiência, não é uma vantagem. O sentido religioso enriquece a vida, dá resposta às últimas perguntas. Dá valor à experiência humana.

Você está em um ponto intermédio entre a ciência e a religião?

E me movimentei com comodidade. Quase sempre coincidi com colegas não religiosos, no sentido de crer em Deus. Mas são rigorosos, são prudentes e se baseiam nas comprovações. A crença em Deus não tem comprovações. O seu é um agnosticismo negativo. Estão em prudente espera.

Há ateus mais radicais.

Eu creio que os círculos dos ateus militantes estão diminuindo. Também, quando os leio, por exemplo, Richard Dawkins, e vejo a quem vão “arrebentar”, creio que não falam de mim. Criticam certos aspectos religiosos, mas não falam de mim.

É mais simples viver com fé?

A vida tem um enigma, uma pergunta. A fé é consoladora, mas não torna a vida mais fácil. O religioso bem vivido leva a assumir a insegurança, mas ela pode ser vivida de maneira mais controlada do que sem horizonte. Uma vida religiosa é vivida com a dificuldade de qualquer pessoa, mas é feita com uma consolação interior, com uma paz interior.

Há vida mais além.

Creio que na palavra de Jesus, que vem para dizer que a morte não é a última palavra. A vida é um processo aberto, mas se deve evitar imaginar o que vem depois porque se abre uma paisagem de ridicularidade: nós não podemos representar algo que está fora do espaço e do tempo. Eu creio que é uma questão de confiança.

Nem todos os cristãos fazem a mesma reflexão.

Cada um faz o que pode. Desde os que ilustram as formas imaginativas mais simples até os mais críticos. Mas a confiança de ambos é a mesma.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Aos olhos de Deus, o amor é tudo o que importa


O filme "Preces para Bobby" (Prayers for Bobby), baseado em fatos reais, conta a história de um rapaz gay e a reação de sua família à sua saída do armário - sobretudo da mãe, uma mulher marcada pela vivência religiosa. A cena acima (atenção, contém spoiler!) andou rolando no Facebook na semana passada e mostra um discurso que a mãe faz, já no final do filme, depois que a morte do filho a faz repensar seu entendimento da homossexualidade - e compreender que é preciso ir além do que nos dizem que é certo e errado e abrir os olhos e ouvidos para ver e ouvir a pessoa de carne e osso que temos diante de nós.

Afinal, gay ou não, ele continuava sendo a mesma pessoa que ela amava antes.

(Dica da amiga Gabriella Malta.)

* * *

Assista o filme legendado no Google, sem precisar baixar, aqui; mas vamos avisando: o filme é um drama daqueles de chorar até os olhos saltarem.

E, caso você se interesse pela questão da homofobia justificada por um discurso religioso, há uma excelente dica de filme aqui.

Novas ideias para um novo ano‏


Para Ricardo Rocha Aguieiras ;-)

Nascemos nus. Sem ter nada de concreto para carregar, livres de amarras. Ao longo da vida vamos adquirindo pertences de todo tipo. Uns são reconhecidamente nossos, nós os construímos, os conquistamos e, por isso, somos capazes de descrevê-los em seus mínimos detalhes. Outros simplesmente herdamos dos outros, ganhamos e não sabemos bem de quem, ou fomos catando-os e ajuntando-os sem um critério muito claro ou lógico. Não sabemos muito bem de onde vieram, se são ou não confiáveis, mas os aceitamos. E dessa forma os passamos para a frente, presenteamos outras pessoas.

Acabamos carregando muitas malas que não são nossas e algumas têm um peso enorme. São “malas” a princípio invisíveis, o que dificulta nos desfazermos delas. São crenças, hábitos, manias que de alguma forma nos incomodam, são destrutivos, mas os mantemos. E assim será até o dia em que nos dispusermos a abri-las, uma a uma, e as analisarmos friamente.

Muitas dessas malas dizem respeito à sexualidade. Homem não foge de mulher; homem não chora por qualquer coisa; homem não tem medo de barata; a homossexualidade deve ser combatida; mulher não deve assentar de perna aberta; cabe ao homem manter a casa; serviço pesado é coisa para homem. Enquanto o “bolinho” dos homens discute negócios e política, o das mulheres fala de filhos, escola e casa; futebol é coisa de homem, enquanto balé é para mulher.

Podem parecer malas ultrapassadas, coisas típicas do século passado, mas no que fundo fazem parte daquela parcela de bagagem que já conseguimos separar mas ainda não jogamos fora.

Crescemos ouvindo muitas coisas de nossa família, nossos amigos e inimigos, nossos professores. Ouvimos e lemos de tudo na mídia. E cada um deles vai nos deixando suas lições, suas crenças, seus hábitos, suas malas.

Mudamos muito, evoluímos os conceitos, valores, demos grandes passos contra o preconceito, mas existem remanescentes de uma vergonha inexplicável que faz com que em diversos momentos de nossas vidas o sexo seja um assunto velado, de discussão difícil. Mitos e tabus ainda nos rondam e só passarão a fazer parte do passado quando cada um de nós se preocupar em repensar conceitos que mantém como verdades, muitas vezes sem perceber.

Precisamos construir novas ideias, mesmo que na base estejam antigas necessidades.

- Patrícia Espírito Santo
Reproduzido via Conteúdo Livre

O papa da autocrítica e da purificação

Escultura: David Kracov

A opinião é do jornalista espanhol José Manuel Vidal, editor do sítio Religión Digital, 27-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O texto chega aqui com atraso (a Jornada de Assis aconteceu em outubro último), mas pareceu-nos um testemunho tão relevante que achamos que valia a pena começar o ano com uma nota positiva e de esperança quanto à ação da Graça na Igreja. Nós, gays cristãos de todo o mundo (veja manifesto europeu aqui), confiamos na Graça e trabalhamos para que chegue o dia em que o reconhecimento da violência perpetrada contra os LGBTs com argumentos de cunho religioso, e o trabalho para reverter essa situação, serão uma realidade, e não apenas uma ironia de começo de ano.
;-)

Eis o texto, aqui reproduzido, com grifos nossos, via IHU.

Belíssima e profunda Jornada pela paz em Assis! Era palpável a sintonia religiosa, a comunhão em Deus. No Deus dos diferentes, mas, ao mesmo tempo, unos e irmãos. Com um manifesto pela paz coral, belo e emocionante e comprometido. No clima de profunda oração. E com um papa anfitrião humilde, que não queria se destacar e que foi capaz de dar uma bela lição de teologia espiritual, sem poupar a autocrítica e o apelo à purificação. Chegou a dizer que sente "vergonha" da violência religiosa ou em nome de Deus.

Papa deu em Assis mais uma de suas lições magistrais. Com enorme capacidade didática (incluindo resumos de suas ideias). Ele começou com a lembrança do seu amado antecessor, em seu encontro de Assis há 25 anos, que fez história. Era outra época: a dos blocos e do Muro de Berlim. Uma época que foi derrubada, segundo o Papa Ratzinger, pela falta de liberdades. E também da liberdade de acreditar.

Do ontem do Papa Wojtyla ao hoje do Papa Ratzinger. E no hoje a violência não desapareceu, tendo adotado diversas formas. O papa se aprofunda em dois tipos de violência fundamentais: o terrorismo e o ateísmo.

Do primeiro, sobretudo daquele que tem raízes religiosas, ele se envergonhou. E aproveitou a ocasião para propôr, em forma de perguntas, as críticas que os ilustrados fazem à religião. Em definitivo, acusando-a de ser promotora de ódio e de violência. Eles têm razão?, se pergunta o papa. E responde que "a violência não é a verdadeira natureza da religião". E, quando a religião provoca violência, ela se desnaturaliza, perde seu ser. É uma vergonha. Precisa de purificação para se converter em instrumento de paz.

O segundo tipo de violência atual é o ateísmo. E, para rebatê-lo, o papa realiza uma equação: é verdade que a religião desnaturalizada produziu violência, mas o ateísmo de Estado, ainda mais. E cita os campos de concentração. Junto ao ateísmo de Estado, está o ateísmo individual, o do "ter e poder", pelo qual "o homem destrói a si mesmo".

Além dos religiosos e dos ateus, o papa aponta para uma terceira categoria de pessoas: os agnósticos. Os que "buscam a verdade". A alguns deles, como o professor mexicano Hurtado, o papa convidou pessoalmente ao encontro de Assis. E recriminou aos religiosos pelo fato de que, se, às vezes, os agnósticos buscadores não encontram Deus, é culpa dos próprios crentes.

E a lição terminou com um "agir", depois do ver e do julgar. No compromisso, o papa convidou a caminhar juntos pela causa da dignidade da pessoa e da paz. E, concretamente, prometeu que "a Igreja Católica não cessará a luta contra a violência, em seu compromisso pela paz no mundo". Amém.

Um encontro, o de Assis de 2011, que, como o de 1986, passará para a história.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Os sete pecados sociais


Os sete pecados sociais:

1) Prazeres sem escrúpulos;
2) Riqueza sem trabalho;
3) Comércio sem moral;
4) Conhecimento sem sabedoria;
5) Ciência sem humanismo;
6) Política sem idealismo;
7) Religião sem amor.

- M. Gandhi*

Que em 2012 cada um de nós possa ajudar a construir um mundo com menos "sem" e mais "com". :-)
Feliz ano novo! :-)

*Vimos aqui

O clube das esposas desavisadas


Nosso amigo Tony Goes postou recentemente este vídeo, com o comentário a seguir:

"Já conheci algumas mulheres que só descobriram que seus maridos eram gays muitos anos depois de casadas. Claro que nenhuma reagiu bem à notícia: a sensação de ter sido lubridiada é acachapante, assim como a de não ter sido gostosa o suficiente para convertê-lo. Algumas nutrem um ódio pelo ex- durante anos, sem perceber que ele também é vítima da mesma sociedade cruel. A própria Igreja Católica já disse que a homossexualidade é um desafio enviado por Deus, uma tentação a ser evitada a qualquer custo. Como se a vida fosse um 'reality show' e Deus, uma espécie de Boninho ainda mais sádico, que quer atazanar suas criaturas com provas cada vez mais impossíveis. Enfim, as coisas estão mudando, e hoje já vemos mulheres que apoiam seus ex-maridos gays na busca pela felicidade - é o caso da ex-esposa do jogador de rugby Gareth Thomas. Ontem fiquei sabendo da existência de uma organização americana com quase 20 anos de estrada, a Rede das Esposas Heterossexuais. É um grupo de apoio para para mulheres que passaram pelo mesmo que sua fundadora, Amity Buxton. Esta senhora vivaz de 82 anos simplesmente não quer que ninguém mais caia nessa armadilha, e defende ardorosamente o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Se ele existisse, diz ela, quantas lágrimas não seriam poupadas? Ela também se recusa a seguir o que o prega o Vaticano sobre o assunto, mas não abdica da fé católica. Que brava mulher. Será que já existe algo parecido por aqui?"

Alguém conhece alguma iniciativa similar por estas bandas de cá?

“Só um Deus nos poderá salvar”

Foto: Nespyxel

Esta frase não vem de algum Papa mas de Martin Heidegger (1889-1976), um dos mais profundos filósofos alemães do século XX, numa entrevista dada ao semanário Der Spiegel no dia 23 de setembro de 1966 mas somente publicada no dia 31 de maio de 1976, uma semana após a sua morte. Heidegger sempre foi um observador atento dos destinos amedrontadores de nossa civilização tecnológica. Para ele a tecnologia como intervenção na dinâmica natural do mundo para benefício humano, penetrou de tal maneira em nosso modo de ser que se transformou numa segunda natureza.

Hoje em dia não podemos nos imaginar sem o vasto aparato tecnocientífico sobre o qual está assentada nossa civilização. Mas ela é dominada por uma compulsão oportunística que se traduz pela fórmula: se podemos fazer, também nos é permitido fazer sem qualquer outra consideração ética. As armas de destruição em massa surgiram desta atitude. Se existem, por que não usá-las?

Para o filósofo, uma técnica assim sem consciência, é a mais lídima expressão de nosso paradigma e de nossa mentalidade, nascidos nos primórdios da modernidade, no século XVI, cujas raízes, no entanto, se encontram já na clássica metafísica grega. Esta mentalidade se orienta pela exploração, pelo cálculo, pela mecanização e pela eficiência aplicada em todos os âmbitos, mas principalmente em relação para com a natureza. Essa compreensão entrou em nós de tal maneira que reputamos a tecnologia como a panacéia para todos os nossos problemas. Inconscientemente nos definimos contra a natureza que deve ser dominada e explorada. Nós mesmos nos fizemos objeto de ciência, a ser manipulados, nossos órgãos e até nossos genes.

Criou-se um divórcio entre ser humano e natureza que se revela pela crescente degradação ambiental e social. A manutenção e a aceleração deste processo tecnológico, segundo ele, pode nos levar a uma eventual autodestruição. A máquina de morte já está há decênios construída.

Para sair desta situação não são suficientes apelos éticos e religiosos, muito menos a simples boa-vontade. Trata-se de um problema metafísico, quer dizer, de um modo de ver e de pensar a realidade. Colocamo-nos num trem que corre célere sobre dois trilhos e não temos como pará-lo. E ele está indo ao encontro de um abismo lá na frente. Que fazer? Eis a questão.

Se quiséssmos, teríamos em nossa tradição cultural, uma outra mentalidade, nos pré-socráticos como Heráclito entre outros, que ainda viam a conexão orgânica entre ser humano e natureza, entre o divino e o terreno e alimentavam um sentido de pertença a um Todo maior. O saber não estava a serviço do poder mas da vida e da contemplação do mistério do ser. Ou em toda a reflexão contemporânea sobre o novo paradigma cosmológico-ecológico que vê a unidade e a complexidade do único e grande processo da evolução do qual todos os seres são emergências e interdependentes. Mas esse caminho nos é vedado pelo excesso de tecnociência, de racionalidade calculatória e pelos imensos interesses econômicos das grandes corporações que vivem deste status quo.

Para onde vamos? É neste contexto indagações que Heidegger pronunciou a famosa e profética sentença: "A filosofia não poderá realizar diretamente nenhuma mudança da atual situação do mundo. Isso vale não apenas para a filosofia mas principalmente para toda a atividade de pensamento humano. Somente um Deus nos pode salvar (Nur noch ein Gott kann uns retten). Para nós resta a única possibilidade no campo do pensamento e da poesia que é preparar uma disposição para o aparecimento de Deus ou para a ausência de Deus em tempo de ocaso (Untergrund); pois, nós, em face do Deus ausente, vamos desaparecer”.

O que Heidegger afirma está sendo também gritado por notáveis pensadores, cientistas e ecólogos. Ou mudamos de rumo ou a nossa civilização põe em risco o seu futuro. A nossa atitude é de abertura a um advento de Deus, aquela Energia poderosa e amorosa que sustenta cada ser e o inteiro universo. Ele nos poderá salvar. Essa atitude é bem representada pela gratuidade da poesia e do livre pensar. Como Deus, segundo as Escrituras, é “o soberano amante da vida” (Sabedoria 11,24), esperamos que não permitirá um fim trágico para o ser humano. Este existe para brilhar, conviver e ser feliz.

- Leonardo Boff
Reproduzido via blog do autor.
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