sábado, 8 de outubro de 2011

Sinal do Amor

Pôster: Thomas Yang

Cada amor humano é sinal do Amor eterno que nos criou.

- Papa Bento XVI

O Vaticano II, 50 anos depois


O Concílio Vaticano II permanecerá na história como uma tentativa de reformar a Igreja no final de uma época história de 15 séculos. Seu único defeito foi que chegou demasiado tarde. Três anos após sua conclusão, tinha início a maior revolução cultural do Ocidente.

A análise é do teólogo José Comblin, falecido em março deste ano, em artigo publicado na revista Adista Documenti, nº. 68, 24-09-2011. A tradução é de Benno Dischinger, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o texto.


1. Antes do Concílio

A maioria dos bispos que chegou ao Concílio Vaticano II não entendia porque tinha sido convocada. Os bispos, como os funcionários da Cúria, pensavam que o papa sozinho pudesse decidir tudo e que não fosse necessário convocar um Concílio. Mas havia uma minoria profundamente consciente dos problemas existentes no povo católico, sobretudo nos países intelectual e pastoralmente mais desenvolvidos, onde se havia vivenciado episódios dramáticos de contraposição entre as preocupações dos sacerdotes mais abertos ao mundo contemporâneo e a administração vaticana. Todos aqueles que procuravam uma presença da Igreja no mundo contemporâneo, marcado pelo desenvolvimento das ciências, da tecnologia e da nova economia, como também pelo espírito democrático, eram reprimidos. Havia, no entanto, uma elite de bispos e cardeais cônscios das reformas necessárias e decididos a acolher a ocasião oferecida por João XXIII.

As comissões preparatórias eram claramente conservadoras e é por isso que, na abertura do Concílio, as perspectivas dos teólogos e dos peritos trazidos pelos bispos mais conscientes eram antes pessimistas. Mas, houve o discurso de abertura de João XXIII, que rompia decididamente com a tradição dos papas anteriores. João XXIII anunciou que o Concílio não se reunira para pronunciar novas condenações de heresias, como de costume. Tratava-se de apresentar ao mundo outra imagem de Igreja que a tornasse mais compreensível aos contemporâneos. A maior parte dos bispos não compreendeu nada e pensou que o papa não tivesse dito nada, porque não havia mencionado nenhuma heresia. Para o papa não se tratava de aumentar o número dos dogmas, mas de falar a mundo moderno numa linguagem que este pudesse compreender. Uma minoria iluminada entendeu a mensagem e sentiu ter obtido o apoio do papa na luta contra a Cúria.

Mas a Cúria romana tinha uma estratégia. Existia um modo de anular o Concílio. As comissões preparatórias haviam preparado documentos sobre todas as questões anunciadas: Todos estes documentos eram conservadores e não permitiam nenhuma mudança real na pastoral. Teriam sido consignados às comissões conciliares que os teriam aprovado e o Concílio teria terminado em poucas semanas com documentos inofensivos que não teriam modificado nada. O importante era traçar listas de comissões com bispos conservadores e explicar ao Concílio que a coisa mais prática era aceitar as listas já preparadas pela Cúria.

O primeiro a descobrir tal estratégia foi dom Manuel Larrain, bispo de Talca, no Chile, e presidente da Celam. Junto com dom Helder Câmara – eram amigos íntimos, habituados a trabalhar juntos – foram avisar os líderes do episcopado reformador. (...) Tratava-se de rejeitar as listas preparadas pela Cúria e solicitar que as comissões fossem eleitas pelo próprio Concílio. O cardeal Döpfner de Munique, Liénart de Lille, Sünens de Malinas, Montini de Milão e alguns outros tomaram a palavra e solicitaram que fosse o próprio Concílio que nomeasse os membros das comissões, proposta que foi aprovada por aclamação.

A conclusão foi que as novas comissões rejeitaram todos os documentos elaborados pelas comissões preparatórias: uma afirmação do episcopado referente à Cúria romana. O papa ficou satisfeito. (...).

A maioria conciliar que o grupo líder conseguiu garantir não queria uma ruptura e por isso sempre deu importância à minoria conservadora, embora pequena, que representava os interesses da Cúria e se identificava com ela. Portanto, muitos textos resultaram ambíguos, porque a um parágrafo reformista seguia um conservador que dizia o contrário. De um lado se anunciavam novos temas e do outro se dava espaço àqueles velhos da tradição dos papas Pio. Tal ambiguidade prejudicou muito a aplicação do Concílio.

A minoria conciliar e a Cúria não se converteram. Ainda hoje se opõem ao Vaticano II, encontrando argumentos nos próprios textos conciliares conservadores. Quando João Paulo II citava os textos do Vaticano II, eram aqueles mais conservadores, como se os outros não existissem. Por exemplo, na Constituição Lumen Gentium, é claro que o acento é posto sobre o papel dado ao povo de Deus. Todavia, quando se trata da hierarquia, o povo de Deus desaparece e tudo continua como sempre. Em 1985, por solicitação do cardeal Ratzinger, o termo povo de Deus foi eliminado do vocabulário do Vaticano. Desde então, nenhum documento romano faz referência ao povo de Deus, que era o tema central da Constituição conciliar. (...)

Tal situação teve muita importância na evolução subsequente do Vaticano II na Igreja. Desde o início, houve um partido ao qual sempre se deu importância e poder e que lutou contra todas as novidades. Nas eleições pontifícias que, como sempre, são manipuladas por alguns grupos, o problema do Vaticano II tem sido decisivo e tem sido eleitos papas dos quais se conheciam as reservas sobre os documentos conciliares em tudo o que tinham de novo. O atual papa ainda pode viver dez anos e mais. Depois dele podemos prever que seja novamente eleito um papa pouco empenhado com o Concílio, para usar um eufemismo, porque os grupos que sustentam esta posição são muito fortes na Cúria e no colégio dos cardeais, e não há sinais que as futuras nomeações possam produzir uma mudança de direção. As últimas nomeações na Cúria são eloquentes.

2. De 1965 a 1968

A história da recepção do Vaticano II foi determinada por um acontecimento totalmente imprevisto. 1968 é a data símbolo da maior revolução cultural na história do Ocidente, mais do que a revolução francesa ou a russa, porque atinge a totalidade dos valores da vida e todas as estruturas sociais. A partir de 1968 houve muito mais do que um protesto estudantil. Houve o início de um novo sistema de valores e de uma nova interpretação da vida humana.

O Vaticano II respondera às interrogações e aos desafios da sociedade ocidental em 1962. (...). A sociedade européia destruída pela guerra tinha sido reconstruída e a Igreja ocupava um lugar relevante na sociedade. (...). Na realidade, perdera contato com a classe operária, mas esta já estava se reduzindo numericamente por via da evolução da economia para os serviços. O número dos católicos praticantes estava diminuindo, mas não de modo a chamar a atenção. (...). Os problemas eram estruturais e não tocavam os dogmas nem a moral tradicional.

Em 1968 entrava improvisamente em andamento uma revolução total que abraçava todos os dogmas e toda a moral tradicional, bem como todas as estruturas institucionais da Igreja e de toda a sociedade. (...). O Vaticano II respondera aos problemas de 1962, mas nada tinha a responder aos desafios de 1968. Em 1968 teria sido um Concílio conservador apavorado pelas radicais transformações culturais que tinham início.

(...). 1968 significa uma mudança de toda a política, da educação, dos valores morais, da organização da vida e da economia. (...).

a) 1968 significou uma crítica radical perante todas as instituições estáveis e de todos os sistemas de autoridade. Era a contestação global de toda a sociedade organizada tradicional. (...). A Igreja católica era o modelo típico de um sistema institucional radicalmente autoritário. Por isso, foi imediata e vigorosamente atacada e denunciada. As mudanças conciliares, tão tímidas, não podiam convencer a nova geração. O Vaticano II era totalmente inofensivo se confrontado com a revolução cultural iniciada em 1968.

b) Em 1968 teve início uma luta contra todos os sistemas de pensamento, as assim ditas “grandes narrações”. (...) Não se aceita nenhum sistema que tenha a pretensão de ser “a verdade”. E isso investe contra os dogmas e o código moral da Igreja católica, e toda a sua pretensão de “magistério”. O Vaticano II não podia sequer imaginar tal situação. Não houvera nenhuma crítica de nenhum dogma e jamais fora posto em discussão seu inteiro sistema de pensamento. Ora, a nova geração contestava todo o sistema doutrinal da Igreja católica, porque tal sistema não permitia o livre exercício do pensamento. (...).

c) Simultaneamente, ocorreu a explosão da revolução feminista. A descoberta da pílula que permitia evitar a fecundação e, portanto, facilitava a limitação da natalidade provocou um entusiasmo universal entre as mulheres. (...) Os episcopados dos países socialmente desenvolvidos e os teólogos consultados pelo papa entendiam que não houvesse nada na moral cristã que pudesse condenar o uso da pílula. Mas, o papa se deixou impressionar pelo setor mais conservador, embora minoritário, e publicou a encíclica Humanae vitae. Foi como uma bomba. Houve imensa revolta entre as mulheres católicas, as quais não aplicaram a proibição papal e aprenderam a desobedecer. (...). Muitos bispos ficaram abalados, mas não podiam fazer nada porque o Concílio absolutamente não havia tocado a questão do exercício do primado do papa. O papa decide por si, também contra todos. Era este o caso: o papa havia decidido contra os bispos, os teólogos, o clero, os leigos informados. Desafortunadamente, isso foi obra de Paulo VI que, pelos muitos méritos havidos na história do Concílio, aparecia como homem de abertura. (...). Para muitos, a Humanae vitae era como um desmentido do Vaticano II: nada mudara!

d) Até então, o consumo tinha sido orientado pelos costumes. Havia um consumo moderado e limitado. O consumo dependia da regularidade da vida: refeições regulares e tradicionais, festas tradicionais com despesas tradicionais, segundo um ritmo de vida no qual o trabalho ocupava o lugar central. A partir dos anos 60, o trabalho deixa de ser o centro da vida. A partir de então, no centro está a procura do dinheiro para poder pagar as férias, os fins de semana, as festas que se multiplicam indefinidamente e o consumo festivo. O trabalho é o que permite o consumo. (...). As próprias estruturas sociais estimulam o consumo e todos os que não podem consumir se sentem rejeitados pela sociedade. (...)

e) (...) Uma nova moral avalia as pessoas com base no dinheiro acumulado e na ostentação de riqueza. A partir disso, os donos do capital fazem o que querem e como querem. Até a queda do comunismo na URSS, o magistério estava empenhado contra isso e dava pouca atenção ao crescimento rápido de uma nova forma de capitalismo. (...). Na prática, a Igreja se esquece da Gaudium et Spes e aceita a evolução incontrolada do capitalismo. A doutrina social da Igreja perde todo o significado profético porque não se aplica em nada a casos concretos. Na prática o magistério aceita o novo capitalismo. (...).

3. A reação da Igreja foi aquela que se podia temer

Os papas e muitos bispos aceitaram o argumento dos conservadores de que os problemas da Igreja derivavam do Vaticano II. Vários teólogos que haviam defendido e promovido os documentos conciliares mudaram de idéia e adotaram a tese dos conservadores, como o próprio papa atual. Diziam que o Concílio fora “mal interpretado”. Por isso, João Paulo II convocou um sínodo extraordinário em 1985, por ocasião dos 20 anos da conclusão do Concílio, para lutar contra as falsas interpretações e dar uma interpretação correta. Na prática, a nova interpretação, a “correta”, consistia em suprimir tudo aquilo que de novo havia nos documentos do Vaticano II. Um sinal fortemente simbólico foi a condenação da expressão “povo de Deus”. (...). Praticamente, aconteceu como após a Revolução francesa: fechar as portas e as janelas para cortar a comunicação com o mundo exterior e reforçar a disciplina para evitar fugas. Mas, em vão. O problema é que a Igreja já não tem mais uma imensa reserva de camponeses pobres. Na América Latina os pobres vão com os evangélicos.

Desde então, na linguagem oficial se faz referência ao Concílio, mas sua mensagem é ignorada. O Concílio permanece na memória e nos princípios das minorias sensíveis à evolução do mundo, que extrai dele argumentos para solicitar mudanças e respostas aos desafios do mundo atual. Os jovens, incluindo os novos sacerdotes, não sabem o que foi o Concílio, que não reveste para eles nenhum interesse. Estão mais interessados no catolicismo anterior ao Vaticano II, com suas seguranças, sua beleza litúrgica e a justificação de um autoritarismo clerical que os protege dos problemas.

A reação da Igreja tem sido aquela do retorno à disciplina precedente, cujo símbolo é dado pelo novo Código de direito canônico (...). O novo Código fecha as portas a todas as mudanças que poderiam inspirar-se no Vaticano II. Torna o Vaticano II historicamente inoperante.

No mundo, a prioridade dada à luta contra o comunismo – um comunismo já em plena decadência – induziu a Igreja a aceitar silenciosamente (os silêncios da Doutrina social da Igreja, dizia padre Calvez) o capitalismo desenfreado que emergiu nos anos 70. Na América Latina o Vaticano apoiou as ditaduras militares e condenou todos os movimentos de transformação social em nome da luta contra o comunismo. Desde a época do governo de Reagan, a aliança com os Estados Unidos permaneceu firme até a guerra contra o Iraque, que abriu por um momento os olhos do papa. De tal modo, a Igreja se aliava com os poderosos do mundo e se condenava a ignorar o mundo dos pobres em sua pastoral real.

Na América Latina a reação a Igreja à revolução cultural ocorrida no mundo desenvolvido foi muito dolorosa. Destruiu algo de novo que estava nascendo. Na América Latina, o Vaticano II significou uma mudança real. (...). O Celam, com a aprovação de Paulo VI, convocou a Assembléia de Medellín, a qual mudou a orientação da Igreja para que tirasse do Concílio conclusões práticas. Decidiu optar pelos pobres e empenhar-se por uma mudança social radical, legitimou as comunidades eclesiais de base e a formação dos leigos com base na Bíblia e na ação política. (...). Em várias regiões, Medellín não foi aceita nem aplicada. Mas houve regiões importantes nas quais Medellín modificou a Igreja e se tornou a aplicação real do Vaticano II.

Tudo isso foi sistematicamente atacado em Roma com argumentos oferecidos por setores reacionários da América Latina. Desde 1972, a campanha contra a Conferência de Medellín foi dirigida por Alfonso López Trujillo. Malgrado isso, em Puebla, em 1979, Medellín se salvou. Mas, sob o pontificado de João Paulo II, a pressão cresceu. Os argumentos romanos, as nomeações episcopais, a repressão contra os bispos mais empenhados na linha de Medellín tiveram efeito. A condenação da teologia da libertação em 1984 acabaria dando o golpe final. A carta do papa à Conferência episcopal brasileira do ano subsequente limitou um pouco o alcance da condenação, mas a teologia da libertação ainda representa hoje algo de suspeito.

4. O que resta do Vaticano II

Hoje, as reformas realizadas pelo Vaticano II nos parecem muito tímidas, totalmente inadequadas e insuficientes. Será preciso andar muito além, porque o mundo mudou mais nos últimos 50 anos do que nos 2.000 anos precedentes. Do Vaticano II devem permanecer, como base para as reformas futuras:

  • O retorno à Bíblia como referência permanente da vida eclesial acima de todas as elaborações doutrinais ulteriores, dos dogmas e da teologia.
  • A afirmação do povo de Deus como participante ativo na vida da Igreja, tanto no testemunho da fé como na organização da comunidade, com total definição jurídica dos direitos e dos instrumentos necessários no caso de opressão da parte da autoridade.
  • A afirmação da Igreja dos pobres.
  • A afirmação da Igreja como serviço ao mundo, fora de toda busca de poder.
  • A afirmação de um ecumenismo de participação mais íntima entre as Igrejas cristãs.
  • A afirmação do encontro entre todas as religiões e pensamentos não religiosos.
  • Uma reforma litúrgica que use símbolos e palavras compreensíveis pelos homens e pelas mulheres contemporâneas. (...).

5. As condições da humanidade atual em estado de radical transformação.

a). Como entender a fé? A partir da modernidade, muitos cristãos perderam a fé ou pensaram tê-la perdido porque têm uma idéia errônea da fé. (...).

O objeto da fé é Jesus Cristo, a vida de Jesus Cristo. É dar a própria adesão a esta vida e adotá-la como norma, porque tem um valor absoluto, porque esta vida é a verdade, porque é assim que devemos ser homem ou mulher. Não é uma evidência que não permita dúvidas. É uma percepção de verdade que jamais suprime uma franja de dúvida, porque é sempre um ato voluntário e porque esta verdade não se vê. O crente não se sente obrigado a crer. É um ato de dom da própria vida, a escolha de um caminho. Não há evidência do fato de que Jesus vive e está conosco, porém sente-se sua presença como um apelo repetido, malgrado todas as dúvidas. (...).

Hoje o papa condena como relativismo fenômenos próprios do ser humano, que hoje não pode mais entender o modo tradicional de conhecer os objetos da religião. Estes não fazem parte de sua experiência de vida. (...). Tal condição do ser humano de hoje pressupõe uma profunda revisão da teologia da fé, a qual já está ocorrendo, mas não se divulga, com a conseqüência que milhões de adolescentes perdem sempre mais a fé, por não lhes ser explicado o que ela é.

b) A religião. Os nossos contemporâneos abandonam os atos litúrgicos oficiais da Igreja porque os consideram enfadonhos. A missa habitual é enfadonha, salvo em algumas circunstâncias especiais nas quais comparecem milhares de pessoas. (...) Quando a liturgia era em latim, era melhor porque não se entendia. Uma vez que se compreende, se capta seu estilo insuportável. É usada uma linguagem pomposa, formal, do tipo “humildemente pedimos”: ninguém fala assim. “Unimos as nossas vozes às dos anjos”: fórmula convencional que não responde a nada na vida. Há centenas de fórmulas semelhantes. (...).

c) A moral. Nossos contemporâneos não aceitam códigos morais, o fato que se lhes imponham ou se proíbam condutas porque estão no código. Eles querem entender o valor dos preceitos ou das proibições. Ou seja, estão descobrindo a consciência moral que permite captar o valor dos atos. (...). Antes a base da moral cristã era a obediência à autoridade. Era preciso fazê-lo ou não fazê-lo, porque a Igreja o ordenava ou proibia. Por isso tantas vezes os leigos perguntavam: isto se pode fazer? Se o sacerdote dizia que sim, o problema moral estava resolvido. Pois bem, isso pertence ao passado.

d) A comunidade. O cristianismo é comunitário. Mas, as formas tradicionais de comunidade tendem a debilitar-se. A própria família perdeu muito de sua importância porque os seus membros se encontram mais raramente. A paróquia atual perdeu o sentido de comunidade. Mas, estão aparecendo muitas novas formas de pequenas comunidades baseadas na livre escolha. Tais comunidades terão a capacidade de celebrar a eucaristia, o que pressupõe uma pessoa adaptada a presidi-la em cada grupo de umas cinqüenta pessoas. Não existe nenhuma dificuldade doutrinal para isso, porque nos primeiros séculos a situação era esta e não havia problemas. Isso é fundamental, porque uma comunidade que não se reúne na eucaristia não é realmente uma comunidade cristã. Os sacerdotes de tempo integral estarão em torno ao bispo de cada cidade importante para evangelizar todos os setores da sociedade urbana.

É claro que não sabemos quando e como se chegará a isso. É pouco provável que um Concílio que reúna unicamente bispos possa encontrar as respostas aos desafios da época. As respostas não virão da hierarquia, nem do clero, mas dos leigos que vivem o evangelho em meio a um mundo que compreendem. Por isso, devemos estimular a formação de grupos de leigos empenhados ao mesmo tempo com o evangelho e com a sociedade humana na qual atuam.

O Vaticano II permanecerá na história como uma tentativa de reformar a Igreja no final de uma época história de 15 séculos. Seu único defeito foi que chegou demasiado tarde. Três anos após sua conclusão, tinha início a maior revolução cultural do Ocidente. Os seus detratores o acusaram de todos os problemas que emergiram desta revolução cultural, e, com isso, o mataram. Mas o Vaticano II permanece como um sinal profético. Em meio a uma Igreja prisioneira de um passado que não sabe superar, representa uma voz profética. Não conseguiu reformar a Igreja como teria desejado, mas foi um convite a olhar em frente. Ainda há potentes movimentos que pregam o retorno ao passado. Devemos protestar. Quando pessoas que nada entendem da evolução do mundo contemporâneo querem refugiar-se num passado sem abertura ao futuro, devemos denunciar. Para nós, o Vaticano II é Medellín. Também quiseram matar Medellín. Mas Medellín permanece como a luz que nos mostra o caminho.

Uma última reflexão: O futuro da Igreja católica está nascendo na Ásia e na África. Será muito diverso. Aos jovens será preciso dizer: aprendei o chinês!

Estamos decepcionando a Deus?

Foto: Matthew Cox

Jesus está no recinto do Templo, rodeado de um grupo grande dos altos dirigentes religiosos. Ele nunca os tinha experimentado tão de perto. Por isso, com uma audácia incrível, ele pronuncia uma parábola dirigida diretamente para eles. Sem dúvida, é a mais dura que saiu de sua boca.

Quando Jesus começa a falar-lhes de um homem que plantou uma vinha e a cuidou com solicitude e um amor especial, cria um clima de expectativa. A “vinha” é o povo de Israel. Todo o mundo conhece o canto do profeta Isaias que fala do amor de Deus pelo seu povo com essa imagem tão bonita. Eles são os responsáveis dessa “vinha” tão querida por Deus.

O que nenhuma pessoa imaginava é a forte acusação que vai lhes dizer Jesus: Deus está decepcionado. Os séculos têm passado e eles não têm conseguido recolher do povo tão querido os frutos de justiça, solidariedade e de paz que se aguardava.

Uma ou outra vez Deus havia enviado a seus servidores os profetas, mas os responsáveis da vinha os têm maltratado sem piedade até provocar sua morte. Que mais pode fazer Deus pela sua vinha? Segundo o relato, o senhor da vinha envia seu próprio filho, pensando: “Eles vão respeitar o meu filho”. Mas os vinhadores o matam para ficar com sua herança.

A parábola é clara. Os dirigentes do Templo se encontram exigidos a reconhecer que o senhor há de confiar sua vinha a outros vinhadores mais fiéis. Jesus aplica-lhes rapidamente a parábola: “Eu vos digo que o Reino de Deus será tirado de vocês e será entregue para um povo que produza seus frutos”.

Transbordados por uma crise na qual eles não conseguem responder com pequenas reformas, distraídos pelas discussões que impedem ver o essencial, sem coragem para escutar a chamada de Deus a uma conversão radical ao Evangelho, a parábola obriga-nos fazermos perguntas sérias.

Nós somos esse novo povo que Jesus deseja, dedicado a produzir os frutos do reino ou também nós estamos decepcionando a Deus? Vivemos trabalhando por um mundo mais humano? Como estamos respondendo desde o projeto de Deus as vítimas da crise econômica e aos que morrem de fome e desnutrição na África?

Respeitamos ao Filho de Deus que tem sido enviado ou jogamos de variadas formas “fora da vinha”? Acolhemos a tarefa que Jesus nos tem confiado de humanizar a vida ou vivemos distraídos por outros interesses religiosos mais secundários?

Que estamos fazendo com os homens e mulheres que Deus nos envia, também hoje, para recordarmos seu amor e sua justiça? Já não existem mais entre nós nem os profetas de Deus nem as testemunhas de Jesus? Já não os reconhecemos?

- José Antonio Pagola
Reproduzido via IHU, com grifos do autor.

Leitura do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 21,33-43, que corresponde ao 27º Domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico (2-10-11).

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Eu também


...e uma declaração de amor. Porque todas as formas de amor, se é amor, valem a pena. :-)

"É tão bom quando as coisas acontecem como estão acontecendo agora, e eu consigo sentir você assim tão perto, tão junto comigo, mãos dadas e tudo. É bom caminhar contigo, dividir, é bom sentir que a gente compartilha a vida e as coisas ruins e as coisas boas e tudo o mais que vier e é bom sentir esse não ser sozinho e ao mesmo tempo ter espaço para estar sozinho, ter a liberdade de ser o que se é, de tirar as máscaras e não fazer de conta que não dói, que não cansa, que não chateia. É bom poder acolher as tuas caras feias e a tua tristeza e saber que quando eu chateio e entristeço, tem acolhimento também. E é bom saber também que quando as coisas estão fora do lugar e a gente se bagunça, pode demorar mas a gente acaba encontrando um jeito nosso, vai tateando devagarinho e uma hora encontra a mão do outro, segura bem forte com aquele amor teimoso, e junto vai caminhando. E desse jeito meu e teu é que a gente rabisca essa história só nossa, constrói uma porção de coisas bonitas. Tão bom. Bom saber que você está aí, e poder dizer com todas as letras e sem duvidar, num suspiro: eu também, eu também, eu também."

Reproduzido do blog Bicho Solto

Yom Kippur e os fanatismos religiosos

Illustração: Mikhail Abramov

No final da tarde desta sexta-feira começa o dia mais sagrado do povo judeu, o Yom Kippur, ou Dia do Perdão. Em jejum absoluto de 25 horas e muita oração, a comunidade judaica reúne-se em sinagogas de todo o mundo para um feriado dedicado à introspecção. Essa é uma oportunidade para refletir sobre o papel da religião na busca do aprimoramento do universo - em hebraico, ticun olam - e o combate aos fanatismos religiosos.

Esse feriado ocorre sempre dez dias após o Ano-Novo Judaico, o Rosh Hashaná. O calendário hebraico tem origem na criação bíblica do primeiro homem e da primeira mulher. Contamos 5.772 anos desde o sexto dia da criação do mundo. A liturgia desse período, conhecido com as Grandes Festas, indica que somos julgados por Deus no Rosh Hashaná e a sentença é confirmada no dia do Yom Kippur.

"É esse o jejum que escolhi? (...) A isto você chama de jejum? (...) Assim deveria ser o jejum: rompa as cadeias da iniquidade, desate os grilhões da opressão, envie o oprimido para a liberdade e quebre toda forma de dominação. Compartilhe seu pão com o faminto, abrigue em sua casa os pobres errantes, cubra o nu quando o vir e não ignore o seu próximo" - essas são as palavras que lemos, ano após ano, na manhã do Yom Kippur. De maneira dramática, o profeta Isaías (58:5-7) nos convida a refletir sobre o objetivo de nosso jejum. Impele-nos, principalmente, a uma coerência entre nossa atitude ritual e nosso comportamento social.

De nada adianta jejuar, na opinião do profeta, se não traduzirmos essa demonstração religiosa em atos de tzedaká, justiça social. O jejum faz sentido apenas quando acompanhado de um comportamento social ético e moral. Nosso compromisso precisa expressar-se em relação ao próximo para somente então ter legitimidade perante Deus.

Infelizmente, constatamos que uma conduta religiosa diligente nem sempre vem acompanhada do mesmo cuidado no campo da moral. Não são raros os casos de pessoas que cumprem meticulosamente as leis divinas e abandonam, com impressionante facilidade, suas obrigações para com os homens.

Assim, é possível encontrar indivíduos que oram regularmente para Deus, mas não pagam seus impostos. Cuidam com muito empenho de sua alimentação, contudo não têm o mesmo cuidado com o que dizem, ou seja, preocupam-se com o que colocam em sua boca, mas não se incomodam com o que sai dela. Preservam os dias sagrados e suas minuciosas leis e, no entanto, desprezam os sentimentos daqueles que os cercam. Jejuam em feriados religiosos e se esquecem de Deus e dos homens nos demais dias do ano.

Para essas pessoas o profeta Isaías diz: "Não jejuem mais assim". Enquanto o indivíduo não conseguir encontrar coerência entre seu comportamento em relação a Deus e a seu compromisso para com seu semelhante, o jejum será irrelevante ou mesmo uma afronta ao Criador do universo.

Em nossos dias, é possível ainda identificar indivíduos que não só abandonam seus compromissos sociais e se dedicam ao ritual religioso, mas também encontram na religião a justificativa para o desprezo ao seu semelhante. Vemos pessoas de diversas religiões agindo de forma imoral em nome de seus deuses. Mesmo um Deus que sempre pregou o amor, a justiça e a paz é invocado para legitimar atitudes de desamor, injustiça e guerra. Como se algum conflito pudesse ser santo, como se algum destrato ao ser humano pudesse ser chancelado pela vontade de Deus.

Para esses indivíduos o profeta Isaías diz: "De nada vale seu jejum". Não existe um caminho religioso para embranquecer as máculas sociais. Não há Deus ou religião que se preste a legitimar o antiético e o imoral. Por isso o jejum deve ser a celebração de um comportamento de justiça social. O ritual do jejum comemora a conquista de um nível espiritual que precisa condizer com nosso comportamento moral.

Emmanuel Lévinas, filósofo lituano que viveu na França no final do século passado, acreditava que todas as leis judaicas são dotadas de uma mensagem ética. O jejum ensina-nos a pensar naqueles que não têm condição de se alimentar com dignidade. A alimentação casher, ritualmente apropriada, ensina-nos que devemos tratar os escassos recursos naturais com consciência. O Shabat, o sétimo dia da semana, ajuda-nos a entender que nós, nossos empregados e também nossos animais merecem pelo menos um dia de descanso semanal.

Acreditamos que a religião pode ser a porta de entrada para um comportamento ético e moral. Quando não deturpadas, as condutas religiosas ajudam o indivíduo a ordenar sua escala de valores e redirecionar suas atitudes. Assim, como nos ensina o profeta Isaías, o jejum faz sentido apenas quando acompanhado de uma atitude social coerente. O jejum pode ser uma excelente oportunidade de redirecionamento comportamental, ele pode pôr-nos em contato com o sagrado. O jejum pode elevar-nos espiritualmente e ser o primeiro passo na mudança de atitude em relação à vida.

Neste ano, em especial, voltamos nossa atenção para o Oriente Médio em razão do pleito palestino de ser reconhecido como Estado-membro da ONU. Sob a perspectiva religiosa, o conflito entre palestinos e israelenses encontrará seu fim no dia que em vozes extremistas de ambos os lados forem substituídas pelo respeito à imagem de Deus refletida na alteridade daquele que lhe é diferente.

Que sejam o Yom Kippur e os dias sagrados de todas as religiões oportunidade para refletirmos sobre o potencial que têm os rituais para nos conduzirem a uma sociedade mais justa e moderada.

- Michel Schlesinger
Reproduzido via Conteúdo Livre

Fidelidade à própria consciência

Escultura: Zeno Frudakis

Quando nosso amigo Teleny publicou em seu blog o post que reproduzimos aqui ontem, fizemos uma pergunta e, generosamente (enquanto não compramos o livro do Pe. José Lisboa, rs) ele nos brindou com o texto abaixo, que reproduzimos aqui. Lembrando que o trabalho do Pe. Lisboa é com vocações para o sacerdócio, e é a elas que se refere ao falar em "vocacionados" - embora, como veremos, ele extrapole suas considerações também para os leigos gays. Eis o texto.

Recebi o comentário no meu texto anterior do Pessoal da Diversidade Católica e como o assunto é sério e amplo (certamente não para uma simples "resposta ao comentário"), decidi transcrever aqui alguns trechos do livro "Acompanhamento de vocações homossexuais" (autor: Pe. José Lisboa Moreira de Oliveira). Os grifos no texto são meus.

Uma parte do comentário que recebi diz:
É sempre bom quando se percebe que a homoafetividade e o homoerotismo não são problemáticos em si; a grande delicadeza da doutrina do Magistério, hoje, é justamente a premissa de que o homoerotismo é desordenado e, portanto, o homoafetivo deve manter o celibato... Qual a posição desse autor a respeito?
O livro é tão bom que a sinto vontade de transcrevê-lo, praticamente, na íntegra. Como, porém o conceito de um blog não permite isso, vou me controlar [:)] e citar algumas partes mais importantes. O autor fala várias coisas sobre a homoafetividade e o homoerotismo. É verdade que o livro – em sua maior parte - aborda o tema de acompanhamento vocacional destinado àqueles que são chamados ao sacerdócio ou à vida religiosa, mas não deixa de apontar os princípios para o mesmo trabalho para com os católicos leigos que, igualmente, são chamados a diversos ministérios dentro da comunidade cristã.

Padre José Lisboa declara abertamente que "não existem razões suficientes para se excluir alguém das nossas comunidades por causa do seu jeito atual de viver a sexualidade. Todavia, a acolhida não deve acontecer por motivos de piedade, como se a pessoa homossexual fosse alguém miserável, pecador público degenerado, que precisasse de pena e de misericórdia da nossa parte. Acolhe-se a pessoa porque é humana e porque ela é portadora de dignidade e de valores, independentemente daquilo que ela seja. As pessoas homossexuais são portadoras de qualidades e de talentos que não se encontram com facilidade no comum dos mortais". (p. 12)

Quanto ao próprio acompanhamento vocacional, o autor diz: "O importante em tudo isso é que a animação vocacional contribua efetivamente para que o vocacionado ou vocacionada homossexual descubra a verdade acerca da sua situação e queira acolher essa verdade. A partir disso poderá fazer uma verificação profunda sobre a possibilidade ou não de abraçar um tipo específico de vocação. Certamente as exigências e as futuras responsabilidades de cada vocação específica são bem diferentes. Aquelas dos leigos e das leigas não são as mesmas da vida consagrada e do ministério ordenado. E vice-versa. Mas os vocacionados e as vocacionadas não podem ser enganados. Não devemos esconder deles as reais dificuldades que poderão enfrentar. (...) Quando há fortes indícios de que a pessoa não tem a mínima estrutura para assumir um tipo de vocação específica [como, por exemplo, o sacerdócio, público-alvo do livro], é melhor ajudá-la a repensar o seu projeto. Fazer o contrário é enganar os vocacionados e as vocacionadas homossexuais e contribuir para futuras histórias sofridas e desastrosas". (p. 38)

E agora chegamos ao que interessa: “O acompanhamento de vocações homossexuais inclui também um itinerário voltado especificamente para os cristãos leigos e as cristãs leigas. ‘Se todas as pessoas são pensadas e queridas por Deus, antes mesmo de serem concebidas, como não admitir que Ele tenha planos para elas e também para elas tenha previsto alguma missão? Ninguém vem ao mundo por acaso, e, por isso mesmo, nos planos de Deus ninguém está sobrando’ [Antonio Moser*; “O enigma da esfinge: a sexualidade”, p. 258]. Este princípio teológico justifica a elaboração de um projeto de animação vocacional que contemple o acompanhamento de vocacionados e vocacionadas homossexuais leigos e leigas. (...) O animador ou a animadora vocacional deve ter presente que nem sempre é fácil para as pessoas cumprir determinadas exigências. Muitas vezes certas teorias são elaboradas por burocratas aos quais não falta nada. É muito fácil impor, aos outros, normas que nunca seremos obrigados a cumprir. Mas na prática a teoria é outra. Deve-se então, nesse tipo de acompanhamento vocacional, evitar fardos pesados insuportáveis que nós mesmos não seríamos capazes de carregar (cf. Mt 23, 1-4). (...) Não se pode falar de salvação quando o rigorismo e a rigidez transformam a vida da pessoa num verdadeiro inferno. (...) O trabalho do animador ou da animadora vocacional é contribuir para que cada vocacionado ou vocacionada, particularmente os homossexuais, sejam sensíveis à própria consciência e a sigam fielmente. Assim sendo, deve-se ter muito cuidado para não tentar violentar a consciência das pessoas, tentando impor a todo custo as concepções pessoais. É claro que existe a objetividade dos princípios e das normas. Mas esta serve tão-somente para o bem das pessoas. Em última instância, é o ser humano que decide diante de Deus. (...) Ninguém pode ser forçado a agir contra a sua consciência. (...) À luz da experiência de fé, a homossexualidade se transforma em uma forma concreta de se relacionar co Deus. De fato, vivendo com muita humildade, buscando o equilíbrio na vivência da sexualidade, superando toda forma de conformismo, mas também de perversão ou laxismo, a pessoa homossexual pode chegar a uma verdadeira experiência mística, percebendo-se como alguém amado por Deus. E a partir desta experiência poderá amar de verdade as pessoas, sem angústia e sem manipulações. Basta que para isso o homossexual tenha sido ajudado a libertar-se tanto da imagem de um Deus castrador como da atitude orgulhosa que leva ao fechamento e à auto-suficiência.

"(...) O acompanhamento vocacional de homossexuais torna-se mais complexo quando o vocacionado ou vocacionada, a partir da sua convicção de fé, no uso de sua liberdade, decide assumir comportamentos considerados mais ousados e que fogem dos padrões comumente aceitos pela maioria da população católica. Neste caso, é necessário que o animador ou animadora vocacional tenha uma profunda maturidade humana e afetiva, sexual e cristã, para poder continuar realizando a sua missão sem traumas e sem preconceitos. Quem acompanha esses casos, sem deixar de considerar as indicações da fé cristã e as orientações da Igreja, precisará de uma grande liberdade interior para não sucumbir diante das provocações do vocacioando ou vocacionada, como também diante do rigorismo e da intransigência da lei eclesiástica. Vale mais uma vez recordar que a lei existe para promover o bem das pessoas e não o contrário. Alguém, motivado pela fé e pela consciência, pode, muitas vezes, fazer algo diferente daquilo que a lei determina. E na maioria das vezes o faz de um modo mais perfeito. Quando isso acontece tal pessoa está revelando os limites da lei. De fato, é sempre possível que uma lei se torne obsoleta no sentido que não responde mais à sua finalidade que é o bem e a salvação das pessoas. E quando algo se torna antiquado e não mais colabora para a salvação das pessoas precisa ser mudado. E, normalmente, alguém tem de correr esse risco de romper com o estabelecido, mesmo sob a pena de carregar o estigma de herético ou blasfemador. Foi o que aconteceu com Jesus. Nada impede, nem mesmo uma aprovação pontifícia, que uma lei eclesiástica se torne obsoleta. Por isso em todos os casos a lei da vida precisa ser sempre aplicada. Quando a lei não facilita o desenvolvimento da fé, da vida, da graça e da salvação ela não tem mais sentido. No acompanhamento vocacional o animador ou animadora não pode esquecer que a própria moral cristã sempre defendeu o direito a epikéia. Esta á, antes de tudo, uma atitude da pessoa que, olhando para a ordem estabelecida e confrontando-a com a sua situação concreta e para a realidade que lhe cerca, resolve ir além do ordenamento jurídico. É claro que existe sempre o risco do individualismo e do laxismo. Para não cair nesse perigo, a pessoa, antes de decidir avançar, precisa avaliar a sua atitude honestamente, com retidão, sem fazer pouco das normas, das leis e da autoridade. Isso tudo pode trazer conflito, inclusive com as autoridades estabelecidas, mas o princípio da epikéia afirma que a coisa mais importante não é pura e simples fidelidade à lei, mas a fidelidade à própria realidade, guiada pela retidão de consciência e pela decisão de obedecer a um apelo interior. (...) A epikéia, como atitude virtuosa, exige a prontidão para ousar. Em linha de princípio, corre-se este risco em toda situação que esteja sob a legislação positiva. Isto porque, segundo Santo Tomás de Aquino, em todo o campo do direito, a virtude da epikéia é o guia. (...)

"Temos de partir do princípio que nem todas as pessoas têm o carisma do celibato. Por isso pode acontecer que um homossexual não consiga permanecer sem a convivência com alguém. A Igreja Católica propõe, por meio de seus documentos, que os homossexuais cristãos pratiquem a castidade. Isso é muito fácil quando não se está na pele da outra pessoa. Mas, como vimos antes, na prática é tudo muito complicado. Como exigir a continência de sujeitos que estão profundamente convencidos de não poder conservá-la e que sabem, ao mesmo tempo, que não podem casar?" (pp. 71-74)

Padre José Lisboa cita um dos “'casos emblemáticos', aquele da pessoa homossexual que, sabendo da sua condição, decide em consciência formar um casal com outra pessoa do mesmo sexo, pretendendo continuar a viver como cristão. (...) É importante considerar esse caso porque a legislação de muitos países e a consciência coletiva tendem a aceitar cada vez mais essa situação como normal. E muitos cristãos homossexuais não chegam a formalizar a união por causa do medo de serem afastados da comunidade cristã. No processo de discernimento, o animador ou animadora vocacional precisa propor algumas considerações importantes ao vocacionado em questão. Não será suficiente o argumento do pecado, da condenação e da proibição, uma vez que essa pedagogia normalmente produz efeito contrário, levando a pessoa a uma vida até mais permissiva do que antes. Começando sempre pela reflexão sobre a fidelidade ao projeto de vida plena que Deus tem para cada pessoa, o animador ou animadora pode e deve interrogar o vocacionado sobre suas intenções, sobre o conceito de fidelidade, sobre o sentido da vida a dois. Não deve deixar de lado a proposta do ensinamento da Igreja sobre a questão. Além disso, pode e deve refletir sobre a importância da satisfação plena na realização do ato sexual, uma vez que existe o risco de não haver plena complementação no encontro íntimo entre pessoas do mesmo sexo. As pesquisas feitas por Thévenot** indicam que muitos casais homossexuais não se sentem satisfeitos com a relação e por isso se separam muito rápido. Há casos em que a insatisfação é tão grande que a pessoa, mesmo vivendo com alguém, busca com muita frequência relações sexual-genitais com outras pessoas. Porém, com muita honestidade, é preciso dizer que não faltam exemplos de casais homossexuais que conseguiram fazer uma experiência profunda de Deus-Amor. Para alguns, a vida a dois foi como que uma “terapia da vida”. Mas para chegar a isso tiveram que superar dolorosamente muitos desafios e cultivar muitos valores cristãos entre os quais o perdão, o desprendimento, a pobreza interior. Tiveram de ir além da “paixão fulminante” para abrir-se mais ao dom da ternura, da renúncia de um relacionamento perverso. Certamente não vivem uma união idílica. Permanecem nessas situações difíceis de carência e limites. É preciso confessar, com Thévenot, que, apesar de tudo, é possível encontrar hoje neste tipo de união pessoas vivendo com dignidade a vida cristã.

"Existem autores que evocam também para esse caso o princípio da epikéia já mencionado anteriormente. Partem do princípio tomístico de que a verdade e a retidão não são iguais para todos. Por isso, em determinadas situações é possível transgredir legitimamente a lei para salvar o bem das pessoas. Todavia, lembram esses autores, para que o princípio da epikéia possa ser aplicado corretamente é indispensável que a decisão passe pelo crivo da razão, a qual tem a função de regular sabiamente as inclinações e paixões humanas. Não bastam o instinto e a paixão desmedida. De acordo com o mesmo princípio tomístico todas as vezes que agimos sem consultar a razão cometemos um pecado. [Comentário no rodapé: Thévenot acredita que por honestidade intelectual este princípio tomístico não pode ser aplicado ao caso dos homossexuais porque, segundo Tomás, a razão da relação sexual reside na conservação da espécie. Hoje, porém, a reprodução não é mais considerada a razão exclusiva da relação sexual (cf. Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 48). Também por honestidade intelectual é preciso dizer que, biblicamente falando, a relação sexual é destinada antes de tudo à superação da solidão: “Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda” (Gn 2, 18). O filho é a consequência e não a razão principal da relação sexual entre duas pessoas que verdadeiramente se amam.]

"Portanto, no acompanhamento vocacional se abre uma brecha para evitar todo tipo de condenação. O papel do animador ou da animadora vocacional não é de ser porta-voz de Satanás, o acusador dos irmãos e irmãs (cf. AP 12, 10), mas de ser mensageiro da salvação trazida por Cristo: “Quem acusará os escolhidos de Deus? Deus, quem justifica? Quem condenará? Cristo Jesus, que morreu, mais ainda que tenha ressuscitado e está à direita de Deus, intercedendo por nós?” (Rm 8, 33-34). Vimos anteriormente que também as pessoas homossexuais são queridas por Deus e não estão sobrando no mundo. O papel de quem acompanha essas pessoas é ajudá-las a chegar o máximo possível à meta que nos é proposta." (pp. 75-78)

_______________
Notas (Teleny):

* Frei Antônio Moser é Diretor Presidente da Editora Vozes, professor de Teologia Moral e Bioética no Instituto Teológico Franciscano (ITF) em Petrópolis/ RJ, Membro do Conselho Administrativo da Diocese de Petrópolis/ RJ, Pároco da Igreja de Santa Clara, Diretor do Centro Educacional Terra Santa, Membro da Comissão de Bioética da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), Coordenador do Comitê de Pesquisa em Ética da Universidade Católica de Petrópolis (UCP), além de conferencista no Brasil e no exterior. Escreveu 25 livros, participou como co-autor e colaborador de inúmeros e publicou incontáveis artigos científicos em revistas nacionais e internacionais. Atualmente desenvolve intensa atividade pastoral, sendo um dos principais especialistas brasileiros em Pastoral Familiar e Bioética.

** Pe. Xavier Thévenot, eminente professor de Teologia Moral no Instituto Católico de Paris.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O importante

Ilustração: Jonathan Mak

Seu tempo é limitado; não o desperdice vivendo a vida de outra pessoa. Não se deixe aprisionar pelo dogma - que significa viver segundo o pensamento de outras pessoas. Não permita que o ruído das opiniões alheias abafe sua própria voz interior. E, acima de tudo, tenha a coragem de seguir seu coração e sua intuição. De algum modo, eles já sabem o que você realmente quer ser. Tudo o mais é secundário.

- Steve Jobs (1955-2011)

O que é afinal viver segundo a vontade de Deus?

Foto: i can read

Percebemos que a ideia de conciliar nossas identidades de gays e católicos muitas vezes causa um certo estranhamento ou mesmo desconforto em algumas pessoas - e, nesse caso, não só os "fundamentalistas" citados pelo autor do texto abaixo, mas também em muitos gays não-religiosos. Em vista disso, iniciamos hoje uma série de depoimentos aqui no blog, que serão publicados sempre às quintas-feiras, às 15h, de algumas das pessoas que frequentam as reuniões e atividades do Diversidade Católica e que se dispuseram a compartilhar, com os leitores do blog, um pouco de suas histórias e suas vivências como gays e católicos que são.

A cada um deles, sempre, nosso muito obrigado. :-)


Muitos “fundamentalistas cristãos” ao acessar esse blog podem pensar que é um absurdo ser gay e ser católico. Não me espanto mais em encontrar com esse tipo de pensamento, às vezes violento, quando vivemos em um mundo muito longe da proposta de amor e de fraternidade anunciada por Jesus Cristo, há mais de 2000 anos.

Sou oriundo de família católica, tenho até um tio padre missionário. Mas minha vivência religiosa só se concretizou aos 17 anos, quando me preparava para receber o sacramento da Crisma.

Quando cheguei a essa nova fase da minha vida eu já tinha conhecimento que eu era, como os rotulistas gostam de proclamar, “diferente”. Passei minha adolescência sempre reparando mais no torso dos meninos do que no desenvolvimento dos seios das meninas. E jamais me senti culpado por isso, porque o que eu sentia era natural, espontâneo. Apesar de viver numa casa em que era “influenciado” pela heterossexualidade dos meus pais, eu me descobria homossexual.

Mas e a Igreja? O que pensa? E eis que vivenciei, a partir dos meus 20 anos, um período de grande questionamento. Tinha aprendido que Deus é amoroso, é misericordioso, é paz. E eu me pegava refletindo se esse mesmo Deus me condenaria por uma questão que era natural em mim, porém condenada pelo discurso da Igreja.

No auge dessa crise existencial, já certamente desesperado com uma “pseudo culpa” que até então não tinha, encontro no meu caminho um padre com quem fui me aconselhar sem receio algum de ser repreendido. Eu apenas precisava compartilhar tudo o que estava sentindo nos últimos meses, eu necessitava desabafar com uma pessoa que partilhava da mesma crença que a minha, que conhecesse o discurso da Igreja sobre homossexualidade, enfim, precisei buscar naquele sacerdote palavras para aliviar minha tensão. Infelizmente não podia procurar por isso nos meus pais, pois preconceito sempre foi palavra de ordem no âmbito familiar.

E tal decisão só me demonstrou o quanto Deus é amor! Após desabafar como se tivesse cometido algum crime. Após alguns minutos destrinchando um monólogo eu olho para o padre, que sorrindo me olha nos olhos e diz: “Deus quer que sejamos felizes! Se a sua consiste em partilhar a vida com outro homem, busque por isso sem culpa. Apenas não faça de sua homossexualidade uma promiscuidade”.

Surpresos? Eu também! Não que eu esperasse um discurso pronto, mas é que realmente essas palavras fizeram que eu sentisse o peso de uma tonelada se desmanchar pelos meus ombros e me sentir ainda mais acolhido pela Igreja que eu lia e ouvia me condenar por não ser heterossexual. Desde então aprendi a viver como um gay católico, sem culpa alguma de viver o que em mim sempre foi natural.

Anos seguiram, minha vivência pastoral se intensificou sem maiores interferências... O padre foi embora, outro veio... E com esse novo presbítero veio também uma mentalidade livre do preconceito. Abençoado duas vezes! Foi meu pensamento imediato. Me perguntei se o carisma da congregação religiosa à qual pertencem tinha a ver com esse discurso inclusivo.

Estava descobrindo neste novo padre um grande amigo, confessor e orientador espiritual. Uma pessoa em quem podia confiar, livre de julgamentos.
Pra mim nunca foi impossível conciliar minha (homo) sexualidade com a minha crença (católica). Uma nunca excluiu a outra. Ia à missa, comungava e participava da vida paroquial. Tinha muito claro que o discurso da Igreja podia até dizer que eu era errado por viver minha sexualidade, mas o amor de Deus transcende tudo isso. Eu namorava, tinha relações sexuais, saia para bares e boates gays, enfim, vivia minha sexualidade de forma plena.

Ter neste novo padre o apoio que precisava me mostrou uma Igreja que sabe que sou gay e não me despreza por isso. Tanto não me despreza que há pouco mais de um ano, a convite pessoal deste pároco, me tornei Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão. Um voto de confiança que ganhei desse amigo. Lembro-me de na época ter conversado com ele, porque além de uma grande responsabilidade, me preocupava que ele pudesse se expor demais em me escolhendo para este serviço. Não preciso nem comentar que essa questão não o pertubou.

Hoje tenho a mais plena certeza que Deus me fez assim! Sou criado à sua imagem e semelhança. Sou seu filho amado. E comungar e estar intimamente ligado a Deus neste momento só me fortalece na caminhada espiritual.

E não há ninguém que possa me expulsar de onde eu pertenço! O meu lugar é na Igreja sim, junto com meus outros irmãos, que longe de estereótipos, formam comigo a comunhão dos santos!

Este testemunho foi escrito por um gay católico de 33 anos que, entre muitas outras coisas, é arquiteto, Ministro da Eucaristia, Coordenador da Pastoral da Liturgia na Paróquia que freqüenta há 15 anos no Estado do RJ, e um grande amigo.

Saber ler a Bíblia


Nosso querido amigo Teleny, em seu blogo Retorno (G-A-Y), mais uma vez nos veio com uma dica preciosa, que reproduzimos abaixo, com grifos nossos:

São Jerônimo, Doutor da Igreja (n. 347; +420), cuja memória celebramos em 30/09, último dia do mês da Bíblia, disse: "Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo" (o que inclui também a capacidade de interpretá-la). É neste contexto que trago hoje um trecho do (surpreendente!) livro de José Lisboa, “Acompamhamento de vocações homossexuais". Antes de ler o próprio texto, vale a pena saber um pouco mais sobre o autor.

Jose Lisboa Moreira de Oliveira, nascido aos 14 de agosto de 1956, é o sacerdote da Sociedade das Divinas Vocações (Vocacionistas), natural de Araci (Bahia), doutor em teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, formador, autor de vários livros e dezenas de artigos sobre o tema da vocação e da animação vocacional, membro da Equipe de Reflexão Teológica da Conferência Nacional dos Religiosos do Brasil, foi assessor do Setor Vocações e Ministérios da CNBB (1999-2003) e atualmente é Diretor-Presidente do Instituto de Pastoral Vocacional (IPV), gestor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília, onde também é professor de Antropologia da Religião e Ética.

...com outras palavras, o padre José Lisboa não pertence àquele pequeno grupo de sacerdotes católicos que, tidos pela hierarquia como bizarros, balançam no limiar entre a legitimidade de seu ministério e uma eventual suspensão de ordens ou, até, excomunhão. No contexto de sua ficha, cheia de méritos e reconhecimento, o livro em questão torna-se, de fato, uma leitura que espanta positivamente e desperta a esperança de uma provável mudança de mentalidade. Penso comigo mesmo: os componentes daquele ambiente fechado e petrificado, chamado “alto clero”, têm que ouvir a voz de um dos seus mais próximos e respeitados colaboradores. A não ser que já estejam preparando uma sentença de Pilatos... Vamos, pois, ao texto.
O ser homossexual, em si mesmo, não representa nenhum pecado e nenhuma culpa, assim como o ser heterossexual não é garantia de perfeição e de santidade. O que a Bíblia não aprova é um determinado tipo de prática da homossexualidade que inverte e perverte a dinâmica da sexualidade desejada pelo Criador para a pessoa humana (Cf. Gn 2, 18-25). Ela não condena a homossexualidade em si, uma vez que o ser humano não pode ser condenado por uma situação que ele mesmo não teve a liberdade, a consciência e a responsabilidade suficientes para escolher. (...) Acredito que nessa mesma direção devem ser interpretados os textos oficiais da Igreja Católica que tratam dessa questão. Tomando como referência o Catecismo da Igreja Católica de 1992, aprovado pelo papa João Paulo II, acredito que seja possível fazer essa leitura, superando a mentalidade de que tais documentos discriminam homossexualidade enquanto tal. (...) Cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 2357-2359. Isso fica mais claro quando se analisam os textos bíblicos usados para dar fundamentação às afirmações magisteriais (Gn 19, 1-29; Rm 1, 24-27; 1Cor 6, 10; 1Tm 1-10). Todas essas referências bíblicas são unânimes em condenar os "abusos" (Gn 19, 4), o desrespeito ao corpo e as paixões descontroladas (Rm 1, 24-26), os relacionamentos injustos (1Cor 6, 10) e desregrados (1Tm 1, 10). Nenhum deles condena a identidade sexual da pessoa, mas a depravação, ou seja, um exercício da sexualidade que degrada e avilta a pessoa humana, imagem e semelhança do Criador. Na verdade o que é detestável é a "prostituição", isto é, toda forma de relação sexual-genital que torna a pessoa menos humana e que, por isso, ofende o Criador. Por essa mesma razão, a Bíblia condena também as relações sexual-genitais entre pessoas heterossexuais que não dignificam o ser humano e que o transformam em objeto. O que está em jogo e é detestável é a coisificação, a manipulação, da pessoa humana. Uma relação sexual-genital narcisista, voltada para a pura satisfação egoísta, custe o que custar (cf. 1Ts 4, 3-8; 1Cor 6, 15-20; 2Cor 12, 21; Gl 5, 19; Rm 1, 26-27).
Fonte: Pe. José Lisboa Moreira de Oliveira, "Acompanhamento de vocações homossexuais", Editora Paulus, São Paulo, 2007, pp. 13 e 15

Gostamos tanto, mas tanto dessa passagem, que amanhã publicamos mais. Aguardem! ;-)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Onde dois ou mais se reunirem...

Foto: Kai Stuht

Quem ama, faz sempre comunidade; não fica nunca sozinho.

– Santa Teresa d’Ávila.

A salvação pela palavra

Foto do post original

Conta a lenda que Sherazade contou muitas histórias para salvar a própria vida. Ao final, acabou salvando muito mais: a si mesma, várias outras mulheres e o próprio sultão, seu fiel ouvinte de todas as noites. Sherazade foi capaz de mudar tanto, modificar tanta gente, alterar o percurso de tantas vidas. E, então, é fantástico saber que todos os dias, em todo o mundo, também LGBTs salvam vidas pela força da palavra. Salvam vidas falando que o outro pode se assumir, pode viver, pode amar. Salvam vidas afirmando que aquela fase de opressão extrema, em que o outro pensa em se matar, é transitória, que um dia tudo irá melhorar. Seja com um blog, ou uma parada com milhões, milhares, centenas ou com poucas dezenas de pessoas, salvamos vidas ao tornar o mundo possível para quem é tido como diferente. Salvamos vidas quando tornamos a vida possível de ser vivida. Salvamos vidas quando entendemos a rede da qual fazemos parte e ajudamos em sua costura.

Salvamos vidas quando aquela pessoa oprimida por seus pais, por seus familiares, pelos amigos, na escola, na igreja, na vizinhança, pode contar somente com nossa palavra ou apenas com a noção de que não está sozinho, de que somos muitos e que sobrevivemos e somos felizes, que o mundo gira, a história avança e nossos direitos e qualidade de vida correm ao lado deles. Salvamos vidas quando uma das tantas pessoas que pensam em se suicidar, o deixa de fazê-lo por uma palavra, uma imagem, uma multidão nas ruas, alegre, cantando, pulando, dizendo ao mundo que nossa vida vai muito bem - obrigada! -, apesar de tudo e de todos que são contra. Quando mostramos seja através do que for, que não somos invisíveis, que jamais seremos, pois não nos cabem nenhum gueto e nenhuma capa mágica que nos faça desaparecer. Quando mostramos que vivemos, trabalhamos, amamos, trepamos, nos divertimos. Quando mostramos o quanto somos fortes. Cotidianamente fortes e por toda uma vida.

E não desanime, não pense nem por um minuto que sua militância é desimportante, que não tem valor, que pode ter um efeito muito pequeno e um alcance limitado. Qualquer que seja sua atuação lembre-se sempre que ela pode fazer total diferença entre a vida e a morte - física ou social – de alguém. Sempre haverá quem tente reduzir o significado deste ou daquele trabalho, seja ele qual for. E sempre haverá o fantasma do desalento de ver tanta coisa ruim ao redor, mas segure-se você também nas palavras de outros. Afinal, pense bem, podemos nos abater realmente com isso, quando um simples texto ou uma conversa on-line pode salvar uma vida? Enquanto tantos criam um universo impossível para LGBTs viverem plenos e felizes, mesmo apenas através do que falamos e escrevemos, podemos criar todo um outro mundo: um espaço de salvação do que corrói por dentro, do que não deixa respirar lá fora. Portanto, fale, escreva, publique, tenha um blog, um vlog, um site, mergulhe nas redes sociais, divulgue idéias, produza, partilhe informações, converse, chegue até as pessoas, promova ligação entre elas. É fantástico irmos às ruas, protestarmos, fazermos passeatas, paradas, reivindicações públicas, mas nada impede ou diminui a importância da propagação de palavras e idéias e sua força inegável na mudança de mundos e perspectivas de vida. Que nos diga Sherazade!

- Ivone Pita
Reproduzido via Gay1 - Politicativa

Paz: compromisso prioritário para o mundo


O Encontro Internacional "Homens e Religiões", promovido pela Arquidiocese de Munique e Freising e pela Comunidade de Santo Egídio, que ocorreu em Munique entre os dias 11 e 13 de setembro, encerrou com um Apelo de Paz lido durante a cerimônia final e assinado publicamente por 300 líderes de todas as religiões do mundo que participaram dos encontros.

A reportagem é de Michelangelo Nasça, publicada no sítio Vatican Insider, 14-09-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.


"Não há futuro na guerra. Não há alternativa ao diálogo. O diálogo é uma arma simples à disposição de todos. Com o diálogo, construiremos uma nova década e um século de paz. Tornemo-nos artesãos da paz". Esse é o convite que os líderes mundiais das religiões – reunidos em Munique na histórica Marienplatz – dirigem ao mundo.

O perigo de se voltar sobre si mesmos e de utilizar a religião como um instrumento de separação é grande. "Essa tentação – afirma o Apelo – é agravada pela crise econômica global. O mundo às vezes parece ter perdido o senso de limite. Muitas vezes, ele é mais atraído por aquilo que divide do que pela simpatia para com o outro; está mais atento às razões do eu do que ao bem comum. Em muitas partes do mundo, crescem a violência e uma crise de sentido. É necessária uma reviravolta".

É preciso olhar para o alto e abrir-se ao futuro, tornar-se ainda capaz de globalizar a justiça, mas sobretudo tornar-se disponível para o diálogo, considerado hoje – especifica o Apelo – a arma mais inteligente e pacífica, uma "resposta aos pregadores do terror, que usam até as palavras das religiões para espalhar o ódio e dividir o mundo. Nada está perdido com o diálogo".

Nos três dias bávaros, os representantes mundiais das religiões discutiram as principais problemáticas relativas ao diálogo inter-religioso e às perspectivas de paz, e o texto do Apelo final, a esse respeito, é claro: "É hora de mudar. O mundo precisa de mais esperança e de mais paz. Podemos aprender novamente a viver, não uns contra os outros, mas uns com os outros. Estamos conscientes das responsabilidades das religiões no fato de pôr a paz em risco quando não olham para o alto. Quem usa o nome de Deus para odiar o outro e para matar blasfema o Nome Santo de Deus. Por isso, podemos dizer isto: não há futuro na guerra! Não há alternativa ao diálogo. O diálogo é uma arma simples à disposição de todos. Com o diálogo, construiremos uma nova década e um século de paz. Tornemo-nos, todos, artesãos da paz. Sim, Deus conceda ao nosso mundo o maravilhoso dom da paz".

"De Munique – destaca Andrea Riccardi, líder da Comunidade de Santo Egídio, que organizou o Encontro Inter-Religioso –, se eleva uma invocação de paz, um hino à vida. Vamos embora mais fortes e mais cheios de esperança do que antes, porque não cedemos à resignação e ao pessimismo".

Aqui, continua Riccardi, "não foram ouvidos os passos pesados dos soldados, mas sim os passos leves dos buscadores de Deus e dos peregrinos da paz... Não descansaremos enquanto não houver paz perto de nós e em todo o mundo. Em um mundo globalizado, não podemos nos limitar à globalização econômica, mas precisamos ter um coração grande e um olhar universal. Estamos cheios de esperança a ponto de dizer que a próxima década será realmente nova. A novidade é a paz, em um mundo mais justo para com os pobres, em que os ricos aprendem a sobriedade e a participação verdadeira na luta contra a pobreza".

A próxima edição do Encontro Inter-Religioso mundial da Comunidade de Santo Egídio irá ocorrer em Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina, para lembrar também o 20º aniversário do "sanguinário e dramático cerco" da cidade.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Liberdade religiosa

Assemblagem: Kris Kuksi

Liberdade religiosa só existe em estados laicos. Ninguém se engane, teocracias são totalitárias - todas elas.

- Ricardo Gondim
(@gondimricardo)

A funcionária dos correios e a bênção

Instalação: A. Chernyshev e A. Shulgin
na Bienal de Moscou

“Não podemos ser simplistas. O mundo é complexo, não podemos gritar de maneira otimista como Ortega y Gasset a notícia alegre de “Deus à vista”. Há ambiguidades na religião que devem ser purificadas e evangelizadas, os povos progridem, os batizados precisam de maior formação. Mas o Espírito do Senhor enche o universo, embora não saibamos de onde vem ou para onde vai”, escreve o teólogo jesuíta boliviano, Víctor Codina, em artigo publicado no sítio espanhol Cristianisme i Justícia, 23-09-2011. A tradução é do Cepat, aqui reproduzida via IHU.

Eis o artigo.


Chega à nossa caixa postal o aviso de chegada de um pacote vindo da Espanha para a nossa comunidade de jesuítas. Tenho que fazer vários trâmites prévios para poder retirar o pacote: exigem que apresente o carimbo da minha comunidade, que retorne com ele no dia seguinte, depois tenho que entrar na fila para comprar selos, anotar o número do meu documento de identidade, assinar... Finalmente, me entregam o pacote e a funcionária que sabe que é um pacote para uma comunidade religiosa, me diz: “Padre, sua bênção”. Entre surpreso, admirado e com uma certa timidez, lhe dou a bênção.

Abençoar é invocar a proteção divina sobre alguém, sobre sua saúde e seu trabalho, sobre sua relação com Deus e com os seus, é desejar-lhe um raio de luz em meio às nuvens de cada dia.

Ao deixar o local me perguntava o que diriam Feuerbach e os mestres da suspeita (Marx, Freud e Nietzsche) sobre a minha bênção à funcionária, o que diria o teólogo luterano Barth com sua forte crítica à religião e, sobretudo, qual era a opinião de Bonhoeffer que, em seus escritos da prisão, exortava a viver no mundo secular “como se Deus não existisse” (etsi Deus non daretur); o que diriam alguns teólogos atuais que questionam a oração de petição, aqueles que criticam a religião e tendem a reduzir o cristianismo à imanência de uma ética secular, o que diriam aqueles que defendem uma espiritualidade sem religião, nem crenças, nem deuses; o que pensariam aqueles que optaram pelo agnosticismo ou pela indiferença religiosa...

Eu também me perguntava: abençoar publicamente uma funcionária dos Correios é um resto da cristandade barroca e decadente que ainda resiste em morrer? É um fruto típico dos países subdesenvolvidos? Estarei fazendo o jogo do conservadorismo involucionista? Terei pecado por clericalismo patriarcal? Estarei fomentando a fé de carvoeiro ou mesmo a superstição? É, política e eclesialmente, correto fazer o que fiz? Poderia ter me negado a dar-lhe a bênção?

E, contudo, para além destes questionamentos e ambiguidades, podemos nos perguntar se a hemorroíssa que tocou no manto de Jesus não o fez com uma fé profunda que o Senhor louvou. Podemos nos perguntar se a fé e a devoção dos pobres, daqueles que não têm outros recursos, não merecem respeito. Não foi a eles que o Pai revelou os mistérios do Reino? A secularização rampante é um fato que de forma determinista chega a todos e a todas as partes por igual? É a mesma coisa que acontece na praça Tarhir, no Cairo, onde os homens ajoelhados rezam, e o que se vive nas praças europeias ou norte-americanas, cheias de comércio e de letreiros luminosos?

Segundo a fé cristã, o ser humano é movido interiormente pelo Espírito de Jesus, tenha conhecimento disso ou não, Espírito que muitas vezes com gemidos inenarráveis nos move a clamar Abba, Pai! Não sabemos como esta oração ou a bênção pode ser eficaz, é um mistério, mas acreditamos que não é um grito que cai no vazio, como não caiu no vazio a oração de Jesus no Getsêmani. Por isso, J. B Metz em seu último livro, Mística de olhos abertos, Friburgo, 2011, se pergunta se não acontece às vezes que mesmo o não crente reza etsi Deus daretur, como se Deus não existisse...

Não podemos ser simplistas. O mundo é complexo, não podemos gritar de maneira otimista como Ortega y Gasset a notícia alegre de “Deus à vista”. Há ambiguidades na religião que devem ser purificadas e evangelizadas, os povos progridem, os batizados precisam de maior formação. Mas o Espírito do Senhor enche o universo, embora não saibamos de onde vem ou para onde vai. Daria novamente a bênção à funcionária dos correios, embora não seja politicamente correto, porque, e se Deus existisse...? Talvez poderia ter acrescentado à bênção as palavras de Jesus à hemorroíssa: “Filha, sua fé curou você. Vá em paz” (Mc 5, 34).

"A cristandade morre, mas não o cristianismo"

Foto: Jenni Holma

O filósofo Charles Taylor fala sobre a irretroatividade da secularidade, a perda da compreensão da Bíblia e a queda de antigas cosmovisões em entrevista concedida a Norbert Mayer e publicada pelo jornal Die Presse, 13-11-2007.

Eis a entrevista, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.


O Papa Bento XVI vê o secularismo de nossos dias abertamente como pecado. Em seu livro "A Secular Age" o senhor é muito mais compreensivo: o desenvolvimento seria irredutível. Como católico, o senhor realmente ainda segue a verdadeira fé?

Eu emprego o conceito de secularidade, que é um fato, e não é nenhum ‘ismo’. Considere as incríveis possibilidades da espiritualidade hoje e compare-as com o século XVIII. O mundo não era, então, tão sincrético quanto é hoje. Isso não se pode mais mudar. A Igreja precisa aprender a agir com esta espécie de mundo. Nós estamos mais próximos do Império Romano do que da Idade Média. A cristandade morre, mas não o cristianismo, este está sempre muito vivo. O papa fala sobre secularismo como doutrina e aí existem centenas de variantes. Não é possível sintetizá-las, principalmente não com a palavra "relativismo". Não vejo, portanto, o mundo como ele o vê.

O que se ganha e o que se perde com esse desenvolvimento da modernidade? Há também desenvolvimentos perigosos do iluminismo?

A vantagem é que perdemos as muletas das quais dependíamos, porque tudo, fora do católico, foi tornado ridículo. O negativo: que lentamente perdemos a compreensão da linguagem da Bíblia. Ela é tão profunda e espiritual, nós necessitamos dessa forma de expressão, mas essa linguagem empobrece para nós. Esta é sempre uma perda maciça. Quanto ao racional: se ele é visto muito estritamente, isso é ruim. Não se chega à verdade apenas por este caminho, há sempre uma margem na qual a gente se articula, a lógica e a empiria não podem abrangê-la plenamente. Trata-se de ver quão profundamente uma linguagem penetra na compreensão do mundo. Então podemos exercer reciprocamente uma crítica racional, sem jamais chegar a uma origem clara. O racionalismo também está sempre vinculado com determinado ponto de vista.

Então á verdade é sinfônica para o senhor?

Nós tentamos, em última análise, recompor fragmentos para, através disso, compreender o mundo. No final, creio eu, tudo deveria ajustar-se.

O poeta W. B. Yeats escreveu profeticamente em 1921, no poema "The Second Coming": "Things fall apart, the center cannot hold" [As coisas decaem, o centro não pode contê-las]. Esta também ainda é a nossa situação?

Isso ocorre constantemente, sempre abandonamos cosmovisões mais antigas, que para nós forneciam sentido, porém não totalmente como neste poema apocalíptico.

Como um dos pontos de virada, do qual não houve retorno e que foi essencial para o desenvolvimento da sociedade ocidental moderna, o senhor descreve a introdução da confissão auricular no quarto concílio de Latrão, no ano de 1215. O que, nesta medida da Igreja, foi tão perigoso?

O perigo implícito em tal movimento de reforma é que não se entende o que realmente representa a espiritualidade do povo que se gostaria de pôr na linha. A confissão auricular levou a uma clericalização das igrejas, o que se queria era o controle, a proibição de peregrinações regionais ou até mesmo do carnaval. Essa mobilização forçada oprime uma vida religiosa espontânea e afasta as pessoas. Pode ter o efeito de que se afastem as pessoas das igrejas. Muitos representantes do alto clero não sabem isso, eles cometem o pecado do orgulho.

O senhor é um intérprete de Hegel. Se este filósofo alemão ressuscitasse hoje dos mortos, o que não admito, e visse o nosso mundo, qual seria sua reação, principalmente em relação à religião?

Ele por certo ficaria totalmente admirado. Em seu prognóstico ele infelizmente se posicionou marginalmente, porque para ele, no grande ocaso da religião também teria havido um ocaso de toda a civilização moderna. Segundo Hegel, as verdades da filosofia, que só são entendidas profundamente por uma minoria, só podem ser vividas pelo conjunto da sociedade no registro da religião. Seu desaparecimento abre um rombo tão grande em seu conceito, que só com muita dificuldade se pode conceber sua reação.

O seu livro sobre a era secular se direciona mais contra o ateísmo, ou mais contra o pessimismo?

Ele não se direciona nem contra um, nem contra o outro. Eu só quero entender porquê as pessoas assumem essas posturas, o que as torna atraentes.

Segundo sua opinião, a fé sempre deveria estar aberta para o diálogo. Quais seriam os temas quentes dessa conversação?

Nós todos devemos ser capazes de entender-nos com esse pluralismo insistente. Pessoas que pensam de maneira bem diversa vivem hoje na mesma rua. Somente por isso já devemos permanecer em diálogo com elas.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Escolha e preconceito


"Por mais difundido e universal que seja um preconceito, sempre depende de uma escolha relativamente livre o fato de que alguém se aproprie ou não dele. Cada um é responsável pelos seus preconceitos. A decisão em favor do preconceito é, ao mesmo tempo, a escolha do caminho fácil no lugar difícil, o 'descontrole' do particular-individual, a fuga diante dos verdadeiros conflitos morais, tornando a firmeza algo supérfluo"

Ou seja, "crer em preconceitos é cômodo porque nos protege de conflitos, porque confirma nossas ações anteriores".


- Agnes Heller

Em nome do ‘só’

Foto: ig

Avenida das Américas direção da Cidade do Rock e dezenas, senão centenas de jovens e cartazes: “Um Mundo Melhor??? Só Jesus!” Levei alguns segundos para entender (às vezes a gente se pega desatento para as confrontações e as querelas e leva um tempo para perceber nuances...) que se tratavam dos “jovens do bem” contra-atacando os “jovens da superfície e da perdição” que começavam a movimentar-se para o Templo do Rock. “No Brasil não!”, pensei eu ingenuamente e com um incômodo estranho.

Por que me incomodava tanto aquela manifestação de diversidade? Não seria ela o que tanto sonhamos quado pedimos por mais engajamento e mais consciência em nossa terra, particularmente entre os jovens? O que havia de tão bélico na mostra de outro olhar que se fazia expresso por alguns destes jovens dançando e entoando seus próprios hinos hits?
Pensei que fosse talvez pela confrontação entre iguais que não se reconheciam, já que muitos pareciam fãs prontos a recolher autógrafos numa histeria de linguagem aparentemente oposta, mas que era igual. Sonhos e mitos a um neófito da vida podem ser de esquerda ou direita, do bem ou do mal, laico ou religioso, e serão sempre a mesma manifestação. Se para alguém vivido é difícil não ser presa das aparentes diferenças que são iguais, quanto mais para os jovens.

Mas acho que não era isso. O que me incomodava era a palavra “só”. “Só” não é apenas a palavra mais excludente de nosso vocabulário, como é a palavra mais prepotente que se pode proferir. Em nome do “só” já se produziram grandes violências, e uma juventude que aprende esta palavra é uma juventude perigosa. Eu conheço isso bem de perto porque o mundo religioso não aprendeu ainda a expressar sua devoção e sua piedade sem utilizar-se desta palavra. Todo aquele que tem confiança em si e em sua fé não é exclusivo. Grandes religiões e grandes religiosos afirmam outras religiões. Grandes culturas afirmam e apreciam outras culturas, grandes nações afirmam e apreciam outras nações; grandes indivíduos afirmam outros indivíduos.

Tempos messiânicos ainda estão longe porque temos poucos mestres capazes de ensinar nossos jovens a tratar a palavra “só” como uma locução antimessiânica. Entendo obviamente o messianismo como a comunhão entre todos e não a exclusão que terminará no convencimento de todos.

O perigo do “só” é que ensina o confronto e a identidade por oposição. Quem muito confronta acaba dedicando a sua vida a uma competição que lá na frente, na maturidade, se deparará com o componente destrutivo do “só”, porque estará “só”. Solitário na assombração-descoberta que na competição nunca alcançamos a certeza se competimos por algo que existe ou vencemos onde ninguém mais está disputando.

Não sou roqueiro e poderia ter passado por essa briga como se não fosse minha. Mas eu me identifico com os que vivem pela fé e, por respeito a essa escolha, não a quero ver no lugar equivocado. A fé em oposição é a declaração de sua insegurança e de sua falta de convicção. Quando Jesus ataca os vendilhões do Templo, ele não atacava os roqueiros ou os mercadores, mas as religiões que se transvertem em comércio, que vendem em espaço e momentos da fé suas bugigangas materiais, seus amuletos, enfim, seus produtos e falácias.

Como rabino não tenho por que contestar que Jesus salva! Mas “só Jesus” nos distancia tanto de suas palavras como também de um futuro messiânico. Jesus não estaria com cartazes zombando da prostituta ou do ladrão ou do diferente em suas festas e costumes. Estaria, sim, participando e traria boas novas de qualidades intrínsecas e não convencimento. “O que o homem faz a si mesmo, dez inimigos não lhe fariam!”

- Nilton Bonder
Reproduzido via Conteúdo Livre

O futuro do cristianismo

Foto via Entre Nós

Pelo que parece, o crescimento do cristianismo em meio ao Império Romano foi possível graças ao nascimento permanente de pequenos grupos e até insignificantes que se reuniam no nome de Jesus para aprender juntos a viver animados pelo seu Espírito seguindo seus passos.

Sem dúvida foi muito importante a intervenção de Paulo, Pedro, Barnabé e outros missionários e profetas. Também contribuíram as cartas e escritos que circulavam pelas diferentes regiões. No entanto o fator decisivo foi a fé simples dos crentes cujos nomes não sabemos que se reuniam para lembrar Jesus, ouvir a sua mensagem e celebrar a Ceia do Senhor.

Não podemos pensar em grandes comunidades, mas em pequenos grupos de vizinhos, familiares, amigos que se reuniam na casa de algum deles. Para o evangelista Mateus, eles estão presentes quando recupera as palavras de Jesus: “Pois, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”.

Não são poucos os teólogos que pensam que o futuro do cristianismo no ocidente vai depender, em boa parte, do nascimento e do vigor de pequenos grupos de crentes que sejam atraídos por Jesus e se reúnam ao redor do Evangelho para experimentar a força que há Cristo para gerar novos seguidores.

A fé cristã não pode se apoiar no ambiente sociocultural. Estruturas territoriais que hoje sustentam a fé daqueles que têm abandonado a Igreja ficam desbordadas pelo estilo de vida da sociedade moderna, a mobilidade das pessoas, a inferência na cultura virtual e o modo de viver no final de semana.

Os setores mais lúcidos do cristianismo irão pôr o Evangelho como o reduto ou a força decisiva para engendrar a fé. No Concilio Vaticano II faz-se esta afirmação: “O Evangelho é para Igreja o princípio de vida para toda a duração de seu tempo”. Em qualquer época e qualquer sociedade é o Evangelho que gera e funda a Igreja. Não somos nós.

Pode acontecer que Jesus irrompa com uma força desconhecida nesta sociedade sem fé e satisfeita através de pequenos grupos de cristãos simples que são atraídos por sua mensagem de um Deus Bondoso, aberto ao sofrimento dos outros e dispostos a trabalhar por uma vida mais humana. Com Jesus tudo é possível. Nós devemos ficar atentos para ouvir seu chamado.

- José Antonio Pagola
Reproduzido via IHU, com grifos do autor

Texto para reflexão:
Mateus, 18,15-20

domingo, 2 de outubro de 2011

Teologias

Foto: Sam Gellman

O fato de as ideias fundamentalistas serem avidamente acolhidas em um período de desintegração pessoal ou comunitária não prova sua validade teológica, assim como o sucesso de uma teologia liberal em períodos de uma integração pessoal ou comunitária não é certificado de sua verdade.

- Paul Tillich

Na rica Alemanha, a Igreja se faz pobre

Foto via eu, complexo

Nunca antes de sua terceira viagem à sua pátria, Bento XVI havia dado uma preeminência tão forte ao ideal de uma Igreja pobre de estruturas, de riquezas e de poder. Mas ao mesmo tempo insistiu também no dever de uma vigorosa “presença pública” desta mesma Igreja. As duas coisas juntas são possíveis?

A reportagem é de Sandro Magister e está publicada no sítio Chiesa, 28-09-2011. A tradução é do Cepat, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.


O impacto da terceira viagem de Bento XVI à Alemanha, como aconteceu anteriormente com outras viagens suas, dissipou também desta vez as nuvens que haviam obscurecido os dias prévios à visita.

As críticas, inclusive as mais hostis, foram compensadas por numerosas manifestações favoráveis, e isso numa atmosfera de simpatia generalizado.

O discurso no Parlamento, na quinta-feira, 22 de setembro, tornou possível que se preste imediatamente uma respeitosa atenção ao pensamento do papa Joseph Ratzinger sobre os fundamentos naturais e racionais do Estado liberal: uma natureza e uma razão animadas pelo Espírito criador de Deus.

Com a aula de Regensburg, em 2006, e com aquela pronunciada no Colégio dos Bernardinos, de Paris, em 2008, esta de 2011 em Berlim confirmou uma trilogia que coloca de manifesto todo o pontificado de Bento XVI, centrado no vínculo fecundo entre a Jerusalém da revelação divina, a Atenas da razão filosófica e a Roma do pensamento jurídico, e centrado também em uma releitura original e positiva dos valores do Iluminismo.

Outro momento forte da viagem de Bento XVI à Alemanha foi seu encontro em Erfurt com as Igrejas nascidas da reforma luterana.

Quanto a Martinho Lutero, o Papa não recordou as ações de ruptura com a Igreja de Roma, mas sua dramática e incessante busca de um Deus capaz de misericórdia para com uma humanidade profundamente marcada pelo mal e pelo pecado.

“A candente pergunta de Lutero deve converter-se novamente na nossa pergunta”, disse Bento XVI. Deste modo, traçou um caminho ecumênico que não é uma tática de negociação a curto prazo, nem enfraquecimento da fé para aproximá-la do mundo, mas recuperação das questões essenciais do cristianismo, as únicas pelas quais as Igrejas têm razão de ser e de falar juntos aos homens.

* * *

Mas os discursos de Bento XVI que mais discussão provocarão são, talvez, aqueles que ele dirigiu aos católicos da Alemanha e, através deles, ao conjunto do catolicismo do Ocidente.

Na Alemanha marcada, não apenas entre os protestantes, mas também entre os católicos, por persistentes sentimentos antirromanos e por pressões recorrentes para efetuar reformas disciplinares e práticas, como a abolição do celibato do clero, o sacerdócio para as mulheres, a comunhão para os casais de segunda união, a eleição “democrática” dos bispos, Bento XVI não fez concessões, nem sequer as citou, mas obrigou a todos, inclusive seus defensores, a considerar a gravidade do que está em jogo.

A Igreja católica alemã – fez notar o Papa – é uma potência “organizada de forma ótima”. Também as reformas continuamente solicitadas pertencem a este âmbito estrutural. “Mas, por trás das estruturas – perguntou o Papa – há uma força espiritual correspondente, a força da fé no Deus vivo?”.

Para Bento XVI “há um desnível entre as estruturas e o Espírito”. Porque “a verdadeira crise da Igreja no mundo ocidental é uma crise de fé”. Consequentemente, “se não chegarmos a uma verdadeira renovação na fé, qualquer reforma estrutural será ineficaz”.

Aqui o Papa está falando aos dirigentes do Comitê Central dos Católicos Alemães, mas disse coisas afins também na homilia da Missa celebrada em Friburgo, no domingo 25 de setembro, e no encontro posterior com os católicos “engajados na Igreja e na sociedade”.

Em vez de reformas de instituições e de estruturas, que para ele seria um estéril acomodamento da Igreja ao mundo, Bento XVI pregou uma reforma interior, espiritual, centrada no supremo “escândalo” da Cruz, escândalo “que não pode ser suprimido se não se quiser anular o cristianismo”: escândalo, infelizmente, “ensombrecido recentemente pelos dolorosos escândalos dos anunciadores da fé” e que se tornaram culpados pelos abusos sexuais perpetrados contra menores.

O Papa precaveu contra uma fé exclusivamente individual, fechada sobre si mesma. Insistiu sobre o vínculo indissolúvel que une todo cristão ao outro na Igreja universal.

Mas também anunciou um futuro, na Alemanha e no Ocidente, feito não por grandes massas de fiéis, mas por “pequenas comunidades de crentes”, daqueles que em outras ocasiões ele chamou de “minorias criativas”, capazes, em uma sociedade pluralista, de “despertar em outros o desejo de buscar a luz”.

Na homilia da Missa celebrada em Friburgo, o Papa confiou inclusive a precedência “no Reino de Deus” a estes inquietos buscadores da luz, em vez dos fiéis rotineiros:

“Os agnósticos que, por conta da questão de Deus, não encontram a paz; aqueles que sofrem por causa de seus pecados e têm desejo de um coração puro, estão mais próximos do Reino de Deus do que os fiéis rotineiros, que veem na Igreja somente o que aparece [o sistema], sem que seu coração seja tocado pela fé”.

Isso não é tudo. No discurso dirigido aos católicos engajados na Igreja e na sociedade, Bento XVI invocou para a Igreja uma purificação não apenas dos “excessos” de suas estruturas organizativas, mas das riquezas e do poder em geral, de “seu fardo material e político”. Recordou que isso já valia no Antigo Testamento para a tribo sacerdotal de Levi, que não possuía um patrimônio terreno, mas “exclusivamente a palavra de Deus e seus sinais”.

Estas são afirmações que Joseph Ratzinger sempre harmonizou com outras afirmações complementares. Também o fez desta vez.

Por exemplo, a propósito dos “fiéis rotineiros” precedidos no Reino dos Céus pelos agnósticos que estão na busca de Deus, notou-se que em outro momento de sua viagem – na vigília com os jovens – o Papa confirmou que todos os batizados, inclusive os mais tíbios e rotineiros, são de todos os modos definidos justamente como “santos” pelo apóstolo Paulo, e não por serem bons e perfeitos, mas porque são amados por Deus e chamados todos por ele a ser santificados.

E a propósito de uma Igreja despojada de bens e de poderes terrenos, devemos notar que Bento XVI também insistiu muitas vezes na Alemanha sobre o dever de uma vigorosa “presença pública” desta mesma Igreja, impensável sem seu “corpo” material que faça realidade a fé com as obras.

Mas fica claro que nunca antes desta viagem Bento XVI havia insistido tão acentuadamente no registro espiritual. Jamais havia dado uma preeminência tão forte ao ideal de uma Igreja pobre em estruturas, em riquezas e em poder.

Mas, ao mesmo tempo, nunca antes do discurso que pronunciou no Parlamento, o Papa Bento XVI havia reivindicado tão incisivamente ao cristianismo o fato de ser o fundamento da cultura jurídica ocidental e de toda a humanidade. E à Igreja, de ser hoje a grande defensora dessa civilização, em uma época em que está perdendo seus fundamentos.
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