sábado, 10 de agosto de 2013

Servos responsáveis!


Nossos antepassados, na fé, correram enormes riscos; eles confiaram na Palavra de Deus que desorienta e que desinstala. Eles não tiveram medo de partir para o estrangeiro, de mudar seus hábitos e de se colocar a caminho por estradas ainda não trilhadas, por caminhos inexplorados. Ao seu exemplo, podemos não fazer o mesmo?

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 19º Domingo do Tempo Comum – Ciclo C do Ano Litúrgico (11 de agosto de 2013). A tradução é de André Langer.


Referências bíblicas:
Segunda leitura: Hb 11, 1-2.8-19
Evangelho: Lc 12, 32-48

Nós continuamos no caminho que leva para Jerusalém, com Cristo e, no caminho, somos interpelados pela Palavra de Deus que nos questiona sobre a qualidade da nossa fé. Onde estamos como cristãos e cristãs? Como crentes? Como lideranças na Igreja? A carta aos Hebreus, da segunda leitura de hoje, nos recorda que: “A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se veem” (Hb 11, 1). Estamos convencidos disso? Na carta aos Romanos, Paulo chega inclusive a nos convidar a “esperar contra toda a esperança” (Rm 4, 18). E, portanto, quando olhamos para a Igreja de hoje, a Igreja que somos e que formamos, podemos nos perguntar se não estamos em pane, em falta de fé, porque a nossa Igreja não se arrisca mais; ela se assenta sobre seus dogmas e não avança mais nos caminhos do Evangelho, cujos caminhos ainda não estão demarcados ou previamente traçados. Felizmente, o Papa Francisco traz um pouco de frescor à nossa Igreja. Ele nos ensina que o medo, a certeza da fé e o autoritarismo abusivo são freios no caminho da vida cristã.

1. O medo

O Cristo do evangelho de Lucas diz aos seus discípulos: “Não tenha medo, pequeno rebanho, porque o Pai de vocês tem prazer em dar-lhes o Reino” (Lc 12, 32). Infelizmente, esse versículo foi, muitas vezes, mal interpretado: uma certa direita religiosa que acredita ter a verdade, porque faz parte do pequeno rebanho, do pequeno resto de Israel, e que impõe sua verdade mesmo quando permanece sozinha para crer nisso. Eu retorno ao Evangelho: o que Lucas nos diz é uma promessa que nos é feita. Prometer é dizer que será dado. É dar sua palavra, retardando o momento do dom efetivo. É confiar no outro, e convidá-lo para a confiança recíproca.

É isso que nos recorda o autor da carta aos Hebreus, quando escreve: “Pela fé, Abraão, chamado por Deus, obedeceu e partiu para um lugar que deveria receber como herança. E partiu sem saber para onde” (Hb 11, 8). Mas mais do que isso, diz a carta aos Hebreus, falando de Abraão, de Sara, de Isaac e de Jacó: “Todos eles morreram na fé. Não conseguiram a realização das promessas, mas só as viram e saudaram de longe: e confessaram que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra” (Hb 11, 13). Isso quer dizer que os nossos antepassados, na fé, correram enormes riscos; eles confiaram na Palavra de Deus que desorienta e que desinstala. Eles não tiveram medo de partir para o estrangeiro, de mudar seus hábitos e de se colocar a caminho por estradas ainda não trilhadas, por caminhos inexplorados. Ao seu exemplo, podemos não fazer o mesmo?

2. A certeza da fé

A fé nunca pode ser uma certeza. A única certeza que temos é não ter nunca certeza de nada. Doris Lussier dizia: “Eu não disse: eu sei; eu disse: eu creio. Crer não é saber. Eu saberei quando verei, como vocês outros. Se eu tenho que saber... E então, depois de tudo, como eu disse um dia a um amigo que é descrente: tu sabes, as nossas respectivas opiniões sobre os mistérios do além não tem grande importância. O que nós cremos ou o que nós não cremos, isso não muda absolutamente nada a verdade da realidade: o que é, é... e o que não é, não é, um ponto, é tudo. E temos de conviver com isso”. Doris Lussier descrevia sua fé da seguinte maneira: “Eu só tenho uma pequeníssima fé natural, frágil, vacilante, resmungona e sempre inquieta. Uma fé que se parece bem mais a uma esperança que a uma certeza”. E a esperança é a fé no seu melhor, dizia Charles Péguy, porque a esperança nos faz crer que amanhã será melhor, quando hoje tudo está mal. Eis a maravilha da esperança!

É a esperança que nos permite “estar com os rins cingidos e as lâmpadas acesas” (Lc 12, 35). Porque, para esperar o senhor voltar das núpcias (Lc 12, 36), é preciso saber esperar. Se estivermos certos de seu retorno, da data e da hora em que chegará, não precisamos mais esperar; saberemos exatamente como será seu retorno. É por isso que o evangelista Lucas formula esta bem-aventurança: “Felizes dos empregados que o senhor encontra acordados quando chega. Eu garanto a vocês: ele mesmo se cingirá, os fará sentar à mesa, e, passando, os servirá” (Lc 12, 37). Para vigiar, basta esperar; caso contrário, para que serve vigiar? A certeza é o que há de mais prejudicial à fé, porque a certeza acaba por ter razão da esperança.

3. O autoritarismo abusivo

Lucas escreve: “Então Pedro disse a Jesus: ‘Senhor, estás contando essa parábola só para nós, ou para todos?” (Lc 12, 41). Por meio de outra parábola, o evangelho parece dizer que os primeiros envolvidos são justamente aqueles que exercem uma responsabilidade dentro da Igreja; com a questão de Pedro, o Senhor ressuscitado, mestre da Igreja, interpela todos aqueles que têm por missão dar o grão da Palavra ao pequeno rebanho. Sobre o administrador fiel e sensato, que o senhor, na sua chegada, encontrará em seu trabalho, diz: “Em verdade, eu digo a vocês: o senhor lhes confiará a administração de todos os seus bens” (Lc 12, 44). Mas se os responsáveis pela Igreja sofrem do autoritarismo abusivo e se metem a rejeitar, condenar, marginalizar e excluir as mulheres e os homens que lhes são confiados, o mestre lhes tirará todas as responsabilidades: “Por isso eu lhes afirmo: o Reino de Deus será tirado de vocês, e será entregue a uma nação que produzirá seus frutos” (Mt 21, 43). Quanto mais se é responsável na Igreja, mais se deve produzir e dar os frutos: “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido” (Lc 12, 48b).

Para finalizar, gostaria de compartilhar com vocês a bela reflexão do exegeta francês Jean Debruynne sobre o evangelho de hoje: Um coração em desejo! “Sejam como pessoas que esperam... Mas, quem ainda pode ter tempo para esperar? Por acaso, o tempo não é dinheiro, e, atualmente, não é o tempo o item mais caro? Não são os prazos os mais ruinosos? Está na hora de não mais confundir espera com impaciência. A espera do Reino de Deus não é aquela de esperar o trem ou o avião partir. A espera do Reino de Deus é um coração em desejo e não o medo de se atrasar. Aquele que espera é aquele que ainda encontra no fundo de si um pouquinho de esperança acesa”.

Fonte

Estai preparados!


A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 19º Domingo do Tempo Comum (11 de agosto de 2013). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Referências bíblicas:
1ª leitura: Sabedoria 18,6-9
2ª leitura: Hebreus 11,1-2,8-19
Evangelho: Lucas 12,32-48

Neste domingo, somos lembrados da importância da espera. E da alegria da espera: o Senhor voltará, mas nós já o possuímos. E Ele nos enche de felicidade: «O Senhor pousa o olhar sobre os que o temem!»

Possuir desde já o que se espera
Trazemos todos no fundo de nós mesmos uma insatisfação escondida: uma certeza confusa de que tudo poderia ser melhor, de que poderíamos ser diferentes, de que as coisas que determinam a nossa situação atual poderiam e deveriam ser outras. As leituras de hoje estão cheias de referências a esta espera por uma "pátria melhor" (Hebreus 11,16). E o que esperamos exatamente? Não sabemos. No âmbito da fé, chamamos isto de «vida eterna» que consiste, diz Jesus, em conhecer -em sentido forte- o Pai e Aquele que Ele enviou; o Cristo (João 17,3). Conhecer, nascer com, para viver de sua vida. Esta é a Terra prometida para onde nos dirigimos sem que jamais, nesta vida, cheguemos a atingi-la. Como os Hebreus (11,13), nós a saudamos de longe, considerando-nos estrangeiros e viajantes nesta terra. Somos locatários provisórios dos lugares em que moramos. Mas isto não deveria nos instalar na tristeza e insatisfação? Não, uma vez que "a fé é a garantia dos bens que se esperam e a prova das realidades que não se veem" (Hebreus 11,1). A fé as antecipa. Quando a prostituta de Lucas 7 manifesta seu amor de reconhecimento antes mesmo de ter ouvido a palavra de perdão, ela copia a atitude dos Hebreus que celebraram a Páscoa antes mesmo de terem deixado o Egito: entoaram o hino de louvor, de ação de graças, antes mesmo de serem libertados, "como se isto já tivesse sido feito" (1a leitura). Alegremo-nos desde agora por aquilo em que nos tornaremos, pela vida para a qual somos chamados.

Conservai vossas lâmpadas acesas
Nosso evangelho inscreve-se perfeitamente no contexto que acaba de ser evocado. No versículo 32, Jesus nos recomenda não ter medo; a renunciar, portanto, à inquietação com respeito ao futuro. A insatisfação quanto ao nosso presente, moral, físico, espiritual, certamente tem fundamento. Corresponde ao que somos e vivemos; projeta-nos para o futuro. Mas insatisfação não quer dizer inquietude e nem mesmo medo; estas duas atitudes sinalizam a ausência da fé. E por que podemos de fato não ter medo? É Jesus quem o diz: porque «foi do agrado do Pai dar a vós o Reino». Reino significa realização, paz alegria. Mas leiamos de novo a frase que acabamos de citar: o Reino não é apresentado simplesmente como promessa, mas como um dom já realizado. Acrescente-se a isto outra palavra de Jesus: «O Reino de Deus está no meio de vós.» Ou «entre vós», ou «em vós». O futuro está já aí, portanto, presente já. Um pouco como o adulto está presente na criança. Digamos que a promessa de Deus já foi realizada na medida em que cremos nela. A nossa maneira de possuí-la é esperá-la. Espera simbolizada pelas lâmpadas que é preciso conservar acesas. Finalmente, o que esperamos não é alguma coisa, mas Alguém. E sua presença nos irá saciar porque é presença do amor. Este Amor que é «o Outro», capaz de nos penetrar e de nos transformar.

Vigiar sem descanso
Nenhum repouso nesta espera; as lâmpadas não devem se apagar jamais. É este exatamente o sentido dos versículos 35-40. Na seqüência, introduz-se, no entanto, um novo tema. De fato, o que pode exatamente significar vigiar sem descanso? Será que iremos nos tornar obcecados por esta espera, tendo apenas isto na cabeça, como um pensamento único? É claro que não. Seria um esforço em vão e logo nos descobriríamos incapazes de uma constância deste tipo. Já não é difícil para nós perseverarmos em oração, em nossa participação na missa, por exemplo, sem a menor distração? Felizmente, a partir do versículo 42, Jesus nos explica em que consiste a espera perfeita. Não se trata de manter os olhos fixos na porta para observar o momento da entrada do mestre, mas de fazer o nosso trabalho conscienciosamente. Num certo sentido, a espera do Cristo passa pelo trabalho que se nos impõe. Mas não importa como: o desejo e a espera da vinda de Deus são como uma bem leve coloração que afeta tudo o que vemos, sofremos e fazemos. Uma atmosfera em que tudo está imerso. Uma espécie de distância que nos permite dominar todas as coisas e não nos deixa afundar nas águas que não nos são favoráveis, a não ser que permaneçamos na superfície. Se esta espera se esvanece, somos entregues a todos os demônios. O chefe da casa (o responsável, conforme o v. 42 do nosso texto) não se preocupa mais com o pão dos seus empregados, mas pensa apenas em dominá-los e explorá-los (v. 45). Ao contrário, esperar é amar.

Fonte

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Um retrato desanimador dos jovens brasileiros


Alessandra Saraiva em um artigo para o jornal analisa a situação precária de uma parcela significativa dos jovens brasileiros:

Cerca de 1,5 milhão de brasileiros entre 19 a 24 anos, concentrados nas faixas mais pobres da população e excluindo donas de casa e mulheres com filhos, nem trabalham, nem estudam e nem procuram emprego e esse perfil tem crescido dentro do total da população jovem do país.


É o que mostra o estudo "Os Nem-Nem-Nem: Exploração Inicial Sobre um Fenômeno Pouco Estudado", da pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), Joana Monteiro. Para a especialista, o avanço desse perfil preocupa. A maioria desses jovens, com parcela significativa de baixa escolarização, podem ajudar a elevar o desemprego, caso decidam tentar a sorte no mercado de trabalho, após os 24 anos. "A baixa qualificação limita muito o tipo de trabalho que podem conseguir."
Além disso, o fato de pertencerem a famílias mais pobres, com pouca capacidade de sustentá-los, eleva a probabilidade de se tornarem dependentes do governo, avalia a especialista. Do total de 1,5 milhão, em torno de 46% podem ser considerados pobres, pois vivem em domicílios que estão entre os 40% mais pobres na distribuição de renda, segundo cálculos de Joana.

O recorte por faixa etária a partir de 19 anos é proposital, visto ser difícil encontrar jovens abaixo de 18 anos fora da escola, tendo em vista o avanço da escolaridade entre os brasileiros na última década, bem como a legislação envolvida em manter os jovens na escola, até essa idade.
O levantamento, que trabalhou basicamente dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou que, esses jovens desalentados, excluindo donas de casa e mulheres com filhos, já representavam 10% da população total de jovens nessa faixa etária em 2011 - um avanço em relação a 2006, quando a fatia era de 8%. "Nem mesmo a melhora nos indicadores de emprego, com aumento de vagas e de renda, estimulou a entrada desse jovem no mercado de trabalho", diz a pesquisadora da FGV.
O nome da pesquisa vem daqueles que "nem trabalham, nem estudam, nem procuram emprego", explicou Joana, usando expressão "nem-nem" que já vem sendo utilizada por economistas para delimitar jovens que não trabalham nem estudam.
Excluir donas de casa e mulheres com filhos, que também não trabalham, não estudam e nem procuram emprego, torna mais claro o possível impacto desse cenário no mercado de trabalho futuro, afirma Joana. A economista informou que, com a inclusão de donas de casa com filhos, essa fatia de "nem-nem-nem" na população entre 19 e 24 anos pularia para 17% dessa faixa etária - em torno de quatro milhões de pessoas.
No entanto, Joana observou que há probabilidade menor de que mulheres donas de casa com filhos, que não procuram vagas, conduzirem a um impacto negativo no emprego. Isso porque é relativamente baixa a perspectiva de que essa mulher vá procurar trabalho, em futuro próximo, porque já cuida da casa e dos filhos.
O mesmo não se pode dizer dos jovens desalentados sem filhos. Desses 1,5 milhão de jovens, 20% tinham menos de cinco anos de escolaridade - a maior fatia entre as faixas de estudo delimitadas. Ela considerou que, em um segundo momento, esses jovens podem se converter em adultos em busca de uma vaga. Mas a baixa qualificação tornaria difícil um lugar na população ocupada. Na prática, seriam mais pessoas em busca de trabalho, sem encontrar, impulsionando indicadores de desocupação.
Outro aspecto estudado por Joana é o ambiente domiciliar que permite esse jovem não trabalhar, não estudar e não procurar emprego. Ela admitiu que jovens de baixa escolaridade têm chance muito maior de serem inativos, quando estão em domicílios cuja renda conta com forte presença de benefícios sociais, como programas de transferência de renda. Mas essa não pode ser considerada a única explicação, frisou. "Impossível dizer se recebimento de benefícios sociais é causa ou consequência da inatividade", afirmou.
Para ela, o fenômeno não é puramente econômico. A figura protetora da mãe brasileira, disposta a sustentar os filhos até mais tarde, ajudaria na formação do cenário, segundo Joana. "Incentivar a entrada dos 'nem-nem-nem' na população economicamente ativa está longe de ser trabalho fácil. O grupo não responde às condições do mercado de trabalho. É possível que essa parcela entre 8% e 10% [sem donas de casa e mulheres com filhos] seja um nível normal de inatividade", disse.

Sodoma, homossexualidade, ataques de drones e oração



A reflexão a seguir é do jesuíta norte-americano Thomas J. Reese, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos EUA, de 1998 a 2005, e autor de O Vaticano por dentro (Ed. Edusc, 1998).

Francisco parece estar me encorajando a ser mais valente e a arriscar cometer erros.

No último domingo, eu preguei em San Francisco sobre a oração. Eu acho que essa foi uma boa decisão pastoral. As pessoas disseram ter gostado da homilia, mas eu fico me perguntando se talvez não foi apenas uma desculpa para evitar assuntos mais controversos.

Para entender o meu dilema, é preciso lembrar que a primeira leitura era do Gênesis 18, em que Abraão discute com Deus sobre a destruição de Sodoma. Por cerca de um nanossegundo, a leitura me levou a pensar a pregar sobre a homossexualidade. Eu não pensei que eu tinha algo de novo ou de interessante para dizer. Além disso, provavelmente não há uma única pessoa em San Francisco que não tenha tomado parte sobre esse assunto. Ah, sim, será que eu mencionei que o pároco que disse algo bom sobre os homossexuais no mês passado foi duramente criticado na blogosfera e denunciado ao arcebispo?

Depois, há o debate acadêmico sobre se o pecado de Sodoma foi sexual ou se foi um pecado contra a hospitalidade a estranhos. Abraão e Sara recentemente tinham mostrado hospitalidade para três estranhos e foram recompensados com uma gravidez. Os mesmos três homens vão a Sodoma, onde são recebidos por Ló e pela sua família, mas os moradores querem ter relações sexuais com eles. Quando Ló tenta proteger os seus convidados, a multidão volta-se contra dele, porque ele não é um cidadão de verdade, mas sim um "estrangeiro residente". Os hóspedes do Ló acabam salvando-o, puxando-o para dentro de casa e fechando a porta.

Ló é tão protetor de seus três hóspedes homens que ele oferece à multidão suas duas filhas virgens, ao invés. Você não precisa ser feminista para pensar que oferecer suas filhas para uma multidão para serem estupradas é uma ideia horrível. Mais tarde, essas mesmas filhas embebedam o seu pai e têm relações sexuais com ele para "assegurar a posteridade ao nosso pai". Talvez eu devesse ter pregado sobre o efeito corruptor da cultura patriarcal.

Em todo caso, sobre o tema da homossexualidade, eu não poderia dizer nada melhor do que o Papa Francisco disse no avião a caminho de volta para Roma do Rio de Janeiro. Quando perguntado sobre o "lobby gay" no Vaticano, ele respondeu:

"Acredito que quando nos encontramos com uma pessoa gay, deve-se distinguir o fato de ser uma pessoa gay do fato de fazer parte de um lobby, porque nem todos os lobbies são bons. Se uma pessoa é gay e busca o Senhor e tem boa vontade, mas quem sou eu para julgá-la? (…) Não se deve marginalizar essas pessoas por isso. (…) O problema não é ter essa tendência [da homossexualidade]... Devemos ser irmãos".

Como os padres gays têm sido falsamente acusados pela crise dos abusos sexuais, a declaração do papa é muito significativa. Em 2005, o Vaticano emitiu um documento dizendo que os homens com tendências homossexuais profundamente enraizadas não deveriam ser ordenados ou admitidos no seminário. A maioria interpretou que isso significava que alguém com uma orientação homossexual não poderia ser padre, mesmo que fosse celibatário.

O Papa Francisco deixou claro que ser gay não é um impedimento para a ordenação. Para ele, a questão não é a orientação, mas sim se uma pessoa é um bom padre. Mesmo que um padre falhe no celibato, e depois "se converte, o Senhor perdoa e, quando o Senhor perdoa, se esquece. E nós não temos o direito de não nos esquecermos". O papa deixou claro que não há espaço para a homofobia, seja na Igreja ou na sociedade. Mas e se eu tivesse dito o que ele disse 24 horas antes que ele dissesse, eu teria sido denunciado ao arcebispo.

Na realidade, quando eu li Gênesis 18, os meus pensamentos se voltaram do sexo para a guerra contra o terrorismo. Até recentemente, o governo Obama tem usado dezenas de drones para perseguir terroristas no Afeganistão, no Paquistão e em outras partes do mundo. Ela ainda está lançando ataques aéreos de drones, mas em menor número.

O diálogo entre Abraão e Deus soou como uma conversa que deveria ocorrer na sala de guerra quando se planeja um ataque de drones. Quantas mortes de civis são aceitáveis quando se persegue terroristas?

Um dos princípios da teoria da guerra justa é que os civis devem ser imunes ao ataque direto, razão pela qual a maioria dos moralistas julgou o uso de armas atômicas e de bombardeios de saturação durante a Segunda Guerra Mundial como imorais. Mas a teoria da guerra justa também reconheceu que civis inevitavelmente morrem em guerras. Os militares falam de danos colaterais, o que é uma forma antisséptica de descrever as mortes de civis. O Pentágono já não contabiliza as mortes de civis por causa da reação negativa ao elevado número de mortes de civis no Vietnã.

Em Gênesis 18, Abraão soa como um eticista argumentando contra as mortes de civis.

"Tu destruirás o justo com o injusto? Talvez haja cinquenta justos na cidade! Destruirás e não perdoarás a cidade pelos cinquenta justos que estão no meio dela?" Cada vez que Abraão vence a discussão com Deus, ele pressiona por um valor menor, até que ele consegue fazer com que Deus concorde que ele não destruiria a cidade se houvesse dez pessoas inocentes.

A lição aqui é a de que Deus quer que poupemos uma cidade cheia de terroristas pelo bem de dez inocentes? Se você tomar essa posição, esqueça os drones. Tem alguém na sala de guerra dando ouvidos a Abraão? O sigilo nos impede de saber. As informações sobre os ataques com drones devem ser tornadas públicas, juntamente com os números de vítimas civis, para que nós, como uma nação, possamos nos unir a Abraão e a Deus nessa discussão.

Quando eu pensei sobre o quão pouco impacto a minha congregação de fiéis poderia ter sobre a política de drones dos EUA, eu desisti. Assim, eu abandonei os homossexuais e os drones como temas para o meu sermão e falei sobre a oração. Fui covarde ou pastoral? Eu não sei, mas Francisco parece estar me encorajando a ser mais valente e a arriscar cometer erros.

Autor: Thomas J. Reese
Fonte: Unisinos, via

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Desigualdade Social



Artigo de Leonardo Sakamoto publicado em seu blog, 06-08-2013

Nenhum indicador é perfeito. Afinal de contas, é extremamente complexo mensurar qualidade de vida, fugindo das armadilhas da subjetividade e considerando uma miríade de variáveis. Isso sem contar que, não raro, utiliza-se como referência a qualidade de vida de determinada sociedade, pasteurizando o bem-estar mundial.
Portanto, um indicador não pode ser usado solitariamente para entender o que acontece em um país.
Índice de Desenvolvimento Humano dos municípios brasileiros, baseado em medidas de expectativa de vida, escolaridade e renda per capita, subiu 47,5% em duas décadas, passando do patamar “muito baixo” para “alto”.
O problema é que “renda per capita” dá margem a grandes distorções. Se uma única pessoa de uma comunidade ganha 50 e as outras 9 ganham, juntas, 50, a renda per capita é a mesma se todas as dez pessoas ganhassem 10. Qual comunidade é mais justa? Em qual há menos chance da convivência pacífica dar chabu?
De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o salário dos 10% mais pobres cresceu 91,2% entre 2000 e 2011, enquanto que a renda dos 10% mais ricos aumentou 16,6%. O Coeficente de Gini, que mede desigualdade social, vem caindo desde o início da década de 90 e estava em 0,527, em 2011, certamente estará menor quando saírem os números de 2012 (quanto mais próximo de zero, menor a desigualdade). Salários, Previdência Social,Bolsa Família contribuíram fundamentalmente para que isso acontecesse.
Porém, mesmo com as mudanças, a maior parte das riquezas continua na mão de pouca gente. Ainda estamos entre os 12 países mais desiguais do mundo.
Pois você acredita que qualidade de vida significa apenas ter cidadania pelo consumo, alcançando eletrodomésticos, carros populares e iogurte? Ótimo, você até comprou uma TV de LED, mas está endividado por ter que pagar o plano de saúde mequetrefe que te deixa na mão (porque não é mais “pobre” e não quer enfrentar a fila do SUS) e com a corda no pescoço pela dívida contraída com a sua faculdade caça-níqueis de qualidade duvidosa (educação básica universalizou, mas a qualidade não acompanhou). Afinal, você não tinha dinheiro para pagar um colégio particular e, portanto, não conseguiu entrar em uma universidade pública para fazer aquele sonhado curso de medicina.
Ou seja, foi importante o que avançamos. Mas isso ainda é migalha se comparado com os recursos que deveriam ser investidos para garantir serviços públicos de saúde e educação de qualidade, por exemplo.
Agora, vamos para o campo: de acordo com os dados do último Censo Agropecuário disponível (2006), do IBGE, o grau de concentração de terras no país permaneceu praticamente inalterado desde 1985. O Coeficente de Gini para o campo registra 0,854 pontos, patamar próximo aos dados verificados nas duas pesquisas anteriores: 0,856 (1995-1996) e 0,857 (1985). Quanto mais perto essa medida está do número 1, maior é a concentração na estrutura fundiária.
Isso confirma a estrutura agrária nacional como uma das mais desiguais do mundo. Enquanto os estabelecimentos rurais de menos de 10 hectares ocupam 2,7% da soma de propriedades rurais, as fazendas com mais de 1 mil hectares concentram 43% da área total.
Mas parece que muita gente, inclusive quem se diz de esquerda, esqueceu que indígenas, quilombolas, ribeirinhos, caiçaras, camponeses, comunidades de fundo de pasto e trabalhadores rurais passam por um inferno por conta desses números acima. Gente que nunca deixou de protestar e ir às ruas levar bala da polícia, tendo que aguentar os beicinhos desabonadores de apresentadores de telejornais que leem notícias de ocupações de terra no teleprompter.
Enfim, ainda fazemos parte do seleto grupo de países ricos com altíssima concentração de riqueza e respeito insuficiente aos direitos humanos. Situação que não vai mudar tão cedo, tendo em vista que a estrutura que a sustenta muda muito lentamente. Não importa o quão forte torturemos os números, fazendo leituras descotextualizadas, para acelerar o processo.
Em tempo: estava com medo de parecer fora de moda ao falar de desigualdade social, mas aí o Itaú Unibanco divulgou, nesta terça (30), que lucrou R$ 7,055 bilhões no primeiro semestre deste ano. Matéria bem sacada do UOL mostra que esse valor é maior que a economia de 33 países. Ou seja, nenhuma crítica à desigualdade social é pesada demais neste contexto.

Papa Francisco está sofrendo ataques dos conservadores


A reportagem é de Paolo Rodari, publicada no jornal La Repubblica, 06-08-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Não há mais excomunhões com Bergoglio, "o papa que já era um Francisco em Buenos Aires", como disse aoL'Osservatore Romano o seu amigo cardeal brasileiro Claudio Hummes. Em suma, um problema sério para o mundo tradicionalista que, sobre as condenações, construiu parte da sua própria fortuna.
Um dos posts mais determinados é do Blog.messainlatino.it, que se declara "pela renovação da Igreja no rastro da tradição". Ele fala abertamente da "crise de identidade do bispo de RomaFrancisco". Ele bate duro na pergunta que o papa se fez no avião, na segunda-feira, 29 de julho, no retorno do Brasil: "Se uma pessoa é gay e busca o Senhor e tem boa vontade, mas quem sou eu para julgá-la?".
Palavras que são "uma verdadeira crise de identidade" e que, diz o blog convicto, "valem muito mais do que os miseráveis episódios do báculo de Lampedusa, do samba episcopal do Rio, da rejeição das insígnias pontifícias...". Porque são "o sinal tangível de uma confusão existencial que literalmente faz tremer os pulsos e o coração dos fiéis".
Mas, Santidade, pergunta ainda o Blog.messainlatino.it, "perdoe o atrevimento, vós não sois, talvez, o 'papa'? Não tendes, talvez, as chaves para abrir e fechar o Reino dos Céus?".
O submundo é extenso e ultrapassa as fronteiras nacionais. O site Traditioninaction.org – "A mais bela aventura do mundo é a nossa", declaram os moderadores – é um grupo tradicionalista com sede em Los Angeles. Para eles, Francisco é um "burlador", que, em vez de tirar o solidéu diante de Deus, prefere "colocá-lo na cabeça de uma menina [o papa faz isso frequentemente quando encontra os fiéis, assumindo como própria um costume que também era de seus antecessores] para brincar com ela e fazer as pessoas rirem. Desse modo, ele tenta parecer um velho avô que entretém a sua neta e, ao mesmo tempo, demonstra que os símbolos do papado são inúteis". E ainda: "Trata-se de mais um passo voltado a dessacralizar os símbolos do papado, a fim de desprezá-los e depois aboli-los".
Em suma, para os tradicionalistas norte-americanos, aqueles giros pela Praça de São Pedro entre a multidão, que paraFrancisco não são tempo perdido, mas sim missão, são "turnês democráticas/demagógicas", sinal de um estilo "miserabilista".
O recente comissariamento dos "Franciscanos da Imaculada" por parte da Congregação para os Religiosos, uma ordem tradicionalista que celebra a missa com o rito antigo, provocou a rejeição do site conservadorCorrispondenzaromana.it. Dizem eles: "Em uma única medida, não só foram desautorizados o fundador de uma ordem florescente e os líderes que o assistem, mas também o motu proprio de Bento XVI que liberalizou a celebração da missa no rito gregoriano, o pontífice que o emitiu e, em última análise, a própria massa".
E ainda: "Ocorre que, em nome do papa", o governo do Instituto é transmitido "a uma minoria de frades rebeldes, de orientação progressista, nos quais o neocomissário irá se apoiar" para "conduzi-lo ao desastre do qual até agora ele tinha escapado graças à sua fidelidade às leis eclesiásticas e do Magistério".
A galáxia tradicionalista que, na web, contesta o papa não está toda em comunhão com Roma, mas também está fora dela, tendo saído, em parte, no rastro do cisma lefebvriano, em parte, da divisão interna dos Legionários de Cristo depois da expulsão do padre Marcial Maciel Degollado. Dois mundos que sopram contra o pontificado e que, desde os tempos deRatzinger, boicotam todo impulso ecumênico.
A aversão tem raízes profundas. E nasceu quando, dentro do Celam – o Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho –, o futuro papa tinha estimulado uma purificação da galáxia Legionários-Regnum Christi que, nas duasAméricas, tem seguidores e simpatizantes.
Não por acaso, foi o conservador National Catholic Register que pronunciou palavras duras contra Francisco. Na sua opinião, a eleição ao sólio de Pedro foi "mais um acréscimo à pilha das recentes novidades e mediocridade católicas".
Entre essas mediocridades, para o site Una Fides, estão as missas celebradas no Brasil, onde os sacerdotes distribuíram a Eucaristia em copos de plástico: "O Senhor, um dia, pedirá contas pelos inumeráveis sacrilégios cometidos por milhões de crentes, milhares de sacerdotes, centenas de bispos, dezenas de cardeais e talvez até por alguns papas".

Videomensagem do Papa Francisco pela Festa de São Caetano na Argentina Quarta-feira, 7 de agosto de 2013


Boletim da Santa Sé
Tradução: Jéssica Marçal
Boa noite!
Como todos os anos, depois de ter percorrido a fila, falo com vocês. Desta vez, estou um pouquinho distante e não posso partilhar com vocês este momento tão bonito. Neste momento vocês estão caminhando rumo à imagem de São Caetano. Por qual motivo? Para vocês se encontrarem com ele, para se encontrarem com Jesus. Porém hoje, o tema desta peregrinação – tema escolhido por vocês, selecionado entre tantas possibilidades – hoje o tema fala de um outro encontro, e diz: “Com Jesus e São Caetano, vamos ao encontro dos mais necessitados!”. Fala do encontro com as pessoas que têm mais necessidade, daqueles que têm necessidade que nós demos uma mão a eles, que os olhemos com amor, que partilhemos a sua dor e as suas ansiedades, os seus problemas. Porém, a coisa importante não é olhá-los de longe ou ajudá-los de longe. Não, não! É ir ao encontro deles. Isto é cristão! Isto é aquilo que Jesus ensina: ir ao encontro dos mais necessitados. Como Jesus que ia sempre ao encontro do povo. Ele ia para encontrá-lo. Ir ao encontro dos mais necessitados.
Às vezes, eu pergunto a alguém:
“Você dá esmola?”.
Dizem pra mim: “Sim, padre”.
“E quando você dá a esmola, olha nos olhos da pessoa a quem dá a esmola?”
“Ah, não sei, não me dou conta disso”.
“Então você não encontrou a pessoa. Você jogou a esmola e foi embora. Quando você dá a esmola, toca a mão ou joga a moeda?”
“Não, jogo a moeda”.
“E então não o tocou. E se não o tocou, não o encontrou”.
Aquilo que Jesus nos ensina, antes de tudo, é encontrar-se e, encontrando, ajudar. Devemos saber encontrar. Devemos edificar, criar, construir uma cultura do encontro. Quantas divergências, problemas na família, sempre! Problemas no bairro, problemas no trabalho, problemas em todo lugar. E as divergências não ajudam. A cultura do encontro. Sair para encontrar-nos. E o tema diz: “Encontrar-nos com os mais necessitados”, com aqueles mais necessitados que eu. Com aqueles que estão passando por um momento difícil, pior que aquele que eu estou passando. Tem sempre alguém passando por algo pior, né? Sempre! Tem sempre alguém. Então, eu penso: “Estou passando por um momento difícil, estou na fila para encontrar-me com São Caetano e com Jesus e depois vou encontrar os outros, porque tem sempre alguém que passa por algo pior que eu”. Com estas pessoas, é com estas pessoas que nós devemos nos encontrar.
Obrigado por me escutarem, obrigado porque vieram aqui hoje, obrigado por tudo aquilo que levam no coração. Jesus ama muito vocês! São Caetano ama muito vocês! Peço a vocês somente uma coisa: que vocês se encontrem! Que vão e procurem e encontrem os mais necessitados! Porém não sozinhos, não. Com Jesus e com São Caetano! Vai convencer outro que é católico? Não, não, não! Vai encontrá-lo, é teu irmão! E isto basta. E você vai e o ajuda, o resto faz Jesus, faz o Espírito Santo. Recordem bem: com São Caetano, nós necessitados vamos ao encontro dos mais necessitados. Com Jesus, nós necessitados, que temos mais necessidade, vamos ao encontro daqueles que têm ainda mais necessidade. E Jesus vai indicando-nos o caminho para encontrar com quem tem mais necessidade.
O teu coração, quando encontra quem tem mais necessidade, começará a crescer, crescer, crescer! Porque o encontro multiplica a capacidade de amar. O encontro com o outro engrandece o coração. Coragem! “Sozinho não sei como fazer”. Não, não, não! Com Jesus e com São Caetano!
Que Deus vos abençoe e que concluam bem o dia de São Caetano. E por favor, não se esqueçam de rezar por mim. Obrigado.

Candidato gay de família cristã emociona o júri do X Factor Austrália


A quinta temporada da competição musical The X Factor Austrália começou com o pé direito. Isso porque, na última terça-feira (06/08), Ofisa Toleafoa, candidato homossexual que tenta uma vaga de cantor no mercado musical, emocionou jurados, espectadores e auditório com sua linda voz e uma triste história de rejeição.

A história do calouro começou na Nova Zelândia, seu país de origem, de onde Ofisa, 23 anos, disse ter deixado para trás para “se encontrar” na Austrália. Segundo o calouro, sua mãe nunca aceitou sua orientação sexual e seu namorado o incentivou a mudar de país para poder ser livre e se dedicar ao sonho de ser cantor. “Estou aqui porque meu parceiro me intimou a arriscar. Se eu realmente amo música, então deveria sair de lá. Ter o privilégio de subir no palco do X Factor é algo indescritível”, revelou o cantor.

O candidato ainda comentou sobre a dificuldade de se assumir gay em uma família religiosa. “Eu cresci numa família extremamente cristã que não acredita na homossexualidade. Não podia ser quem eu sou vivendo lá. Ainda estou tentando ter o apoio da minha mãe, mas ela não é mais a mesma. A última vez que falei com ela foi, provavelmente, ano passado”, desabafou no palco do programa.

Aprovado para a próxima etapa do reality, Ofisa conseguiu emocionar os jurados Ronan Keating, Danni Minogue e Red Fo cantando a música “I am changing”, da Jennifer Hudson. “Eu só quero mostrar a ela que ‘I am changing’, eu estou mudando. Porém, meu amor nunca vai mudar. Sempre serei a mesma pessoa que ela cuidou quando eu era criança”, finalizou.



Fonte

Obama cancela encontro com Putin após leis anti-gays


O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, cancelou uma reunião bilateral que teria com Vladimir Putin em setembro. A Casa Branca justificou o cancelamento devido à “falta de progresso” nas relações russo-americanas. O encontro estava previsto para acontecer antes da cúpula do G20, em São Petesburgo, também no mês que vem, evento no qual Obama pretende comparecer.

Em entrevista ao programa de Jay Leno na rede de TV NBC, na noite de terça (06/08), Obama fez duras críticas a nova lei russa de repressão a militância pelos direitos da comunidade homossexual. O presidente dos Estados Unidos disse que ele não tem “nenhuma paciência para os países que tentam tratar gays e lésbicas e transgêneros de maneiras que os intimidem ou que são prejudiciais a essas pessoas” (Obama se refere a Rússia e também a países africanos). 

A Rússia disse que vai aplicar a lei que proíbe a propaganda gay quando hospedar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 em Sochi. Questionado se a lei teria um impacto sobre os jogos, Obama disse que acredita que Putin e a Rússia têm muita coisa em jogo “ao garantir que os Jogos Olímpicos funcionem”. “Eu acho que eles entendem que para a maioria dos países que participam nos Jogos Olímpicos, nós não toleraríamos que gays e lésbicas fossem tratados de forma diferente”, disse Obama, em meio a aplausos da platéia.



Fonte

Toda teologia é pastoral, toda pastoral é teologia


João Batista Libânio defende em entrevista que o papa Francisco coloca a dimensão pastoral em primeiro plano:
IHU On-Line - Como avalia a visita do Papa ao Brasil?  
João Batista Libânio - Chamaram realmente a atenção na pessoa do Papa em visita ao Brasil, antes de tudo, a simplicidade, o despojamento da pompa que costuma cercar tais visitas, a tranquila alegria do rosto acolhedor. Mostrou-se próximo das pessoas, especialmente das crianças e dos pobres. Não temeu, em momento nenhum, a cercania do povo. Circulava com vidro abaixado precisamente para saudar a gente e sentir-lhe o calor humano. Devolvia o mesmo afeto que recebia.
IHU On-Line - Qual foi o discurso mais importante do Papa Francisco no Brasil? Por quê?
João Batista Libânio - A importância dos discursos depende do ângulo de análise. Prefiro distinguir vários tipos de discursos, cada um com valor próprio e incomparável. Antes de tudo, falou aos jovens. Destinatário principal da viagem. Na maioria dos discursos referiu-se a eles. Três pontos me pareceram fundamentais. Antes de tudo, mostrou-se preocupado com eles na situação de crise em que estão por razões do desemprego, de exclusão por parte do sistema, do assédio da cultura presentista e do prazer e do dinheiro, sem falar do desânimo que os ameaça diante da corrupção, da política em curso. Em face de tal situação, fala-lhes de esperança, de utopia, de coragem, de não ter medo de enfrentar a realidade, dando testemunho da própria fé. E, finalmente, incentiva-os à ação, a sair às ruas, a protestar e a criar uma sociedade e Igreja novas. Chama-os “porta do futuro”.
Outros dois discursos parecidos na tônica se deram também fisicamente vizinhos. A visita a Manguinhos e ao hospital de dependentes químicos. Aí predomina o olhar da compaixão, do cuidado, do afeto, da palavra de incentivo e coragem na luta. De novo, revela fina atenção às pessoas que sofrem.
Há os discursos à sociedade, aos políticos, aos intelectuais. Recorda-lhes a responsabilidade de manter a memória da história do povo e a esperança de construir o futuro de sociedade justa, fraterna, solidária. E insiste fortemente na importância do diálogo.
Três discursos visaram antes ao interno da Igreja: ao CELAM, aos Bispos do Brasil e aos religiosos. Aos religiosos lembrou três pontos fundamentais: a origem da vocação que vem de Deus, a missão de anunciar o evangelho e a promoção da cultura do encontro. Sobre os dois discursos maiores aos Bispos do Brasil e do CELAM veremos mais a baixo
IHU On-Line - Teologicamente, o que é possível compreender pela Teologia do Povo, adotada por Bergoglio? Em que consiste a teologia do papa?
João Batista Libânio - A teologia do Papa se distingue dos anteriores pelo acento na dimensão pastoral. Evitando todo corte artificial e equivocado entre dimensão teológica e pastoral, como nos adverte K. Rahner – toda teologia é pastoral, toda pastoral é teologia -, a diferença retrata acentos diversos. Em que ela consiste? Os dois Papas anteriores se empenharam em transmitir nas viagens, com a consciência da própria responsabilidade da unidade e da guarda do  depósito da fé, a doutrina oficial da Igreja. E falavam longamente de temas teológicos ou da moral. O Papa Francisco fez outra opção. Preferiu o discurso direto, próximo das pessoas a tocá-las pela transparência da presença e por teologia simples, acessível com toque pessoal e afetivo. Para ele, sem sentir e ouvir as pessoas, as falas não atingem. Por isso, mostrou-se atento aos sinais do povo e falava, reagindo a eles.
IHU On-Line - Alguns especialistas estão chamando Francisco de Wojtyla de esquerda. Como vê essa interpretação?  
João Batista Libânio - Não creio que a distinção esquerda e direita sirva para o caso. Prefiro dizer que João Paulo II estava preocupado com a doutrina, com a verdade, com o perigo dos erros no campo da fé. O Papa Francisco centra no encontro pessoal, no diálogo, na transparência da presença, no sorriso, na acolhida das pessoas, no estímulo a não temer medo e testemunhar a fé cristã.
IHU On-Line - O papa Francisco reiterou a necessidade de uma “conversão pastoral”. Como vê essa mensagem aos bispos do Brasil e do CELAM?
João Batista Libânio - Conversão pastoral significa precisamente isso: proximidade do sofrimento, das angústias, da vida das pessoas e daí falar-lhes palavras de conforto, de estímulo, de coragem, de esperança, a partir da fé em Jesus Cristo e na Igreja. Repetiu em várias circunstâncias quase à guisa de refrão duas frases: Não tenham medo e mantenham a esperança viva! Espera, portanto, da Igreja institucional que saia dos rincões fechados e vá às ruas encontrar e dialogar com as pessoas em seus problemas e dificuldades. Portanto, uma Igreja mais pastoral que administrativa a visar ao encontro e diálogo com povo e não à organização. Eis a conversão pastoral!
IHU On-Line - Quais foram os pontos mais contundentes do discurso do papa para os Bispos da CNBB e do CELAM?
João Batista Libânio - Ao falar para os bispos, tomou como metáfora do discurso o evento das aparições de Nossa Senhora Aparecida. Usa expressões fortes do agir de Deus nela: humildade, surpresa, reconciliação. Toca-nos esperar a lentidão de Deus, o reconhecimento do mistério que habita o povo, em vez de enveredar-nos pelo caminho da racionalização apressada. Em lugar da riqueza dos recursos, desenvolvamos a criatividade do amor.
Insiste em não ceder ao medo, desencanto, desânimo, lamentações! Em seu lugar, coragem, ousadia, sair às ruas, dialogar com as pessoas, ouvi-las nas mais diversas situações, sem preconceitos, sem juízos prévios, caminhando a seu lado.
Entre si, que os bispos mantenham a colegialidade, solidariedade, diversidade sem forjar unanimidade que violente as riquezas regionais. Na sociedade, cabe à Igreja anunciar com clareza e liberdade o Evangelho.
Aos bispos do CELAM, fala de seu papel de colaborar solidária e subsidiariamente para promover, incentivar e dinamizar a colegialidade episcopal e a comunhão entre as Igrejas. Discurso bem diferente da verticalidade romana tão acentuada nos últimos tempos. Apoia-se em dois pontos importantes: o patrimônio herdado do Encontro de Aparecida e a renovação em curso das Igrejas particulares.
Chamou a atenção logo no início, ao recordar a Conferência de Aparecida, ao clima de partilha entre os bispos de suas preocupações, à oração e ao ambiente religioso com a “música de fundo” do cântico, das orações e da participação dos fieis peregrinos. Sentiam os bispos a presença do “Povo de Deus”. No horizonte, estava a Missão Continental. E tudo isso aconteceu em Santuário Mariano, em que se sentia a presença da Virgem Maria.
Ele aposta na mudança das estruturas da Igreja, não pela via “do estudo de organização do sistema funcional eclesiástico”, mas pela força do élan missionário, servindo as pessoas em comunidade. Isso implica renovação interna da Igreja e diálogo com o mundo.
Alerta para o risco da ideologização da pregação do evangelho. Sempre presente, sob diversas formas: reducionismo socializante, psicologização, atitude gnóstica e pelagiana. Haja discernimento! Alude aos fatores negativos do funcionalismo e do clericalismo que pedem a conversão pastoral de que se falou acima. Rejeita fortemente a Igreja autocentrada, auto-referenciada e insiste na proximidade e no encontro com o povo, como maneira de a Igreja atuar. Nesse discurso, o silêncio que pesava sobre a realidade das CEBs é rompido, colocando-as, porém, não no contexto diretamente da libertação, mas da piedade popular e da superação do clericalismo.
IHU On-Line - Considerando que Francisco participou da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, que postura a Igreja de Roma deve adotar em relação à Igreja do Brasil?
João Batista Libânio - Difícil de responder. Não sei até que ponto ele conseguiu no pouco tempo de convivência em Aparecida e em outros encontros conhecer a Igreja do Brasil. Pelo discurso que fez parece que vai insistir numa Igreja simples, próxima do povo, desclericalizada, voltada para o diálogo, saindo de si e assumindo o espírito missionário. Desagrada-o a Igreja auto-referenciada, voltada para dentro, para a sua organização em vez de ir ao encontro do Povo. Noutras palavras, prefere que o clero seja antes pastoral que jurídico, antes perto do povo que habitando palácios.
IHU On-Line - O papa tem organizado várias comissões para reformar a Cúria Romana. Que tipo de reforma vislumbra?
João Batista Libânio - Só depois das primeiras decisões que tomar, ao ouvir a Comissão, teremos ideia por que caminho irão as reformas. Aguardemos.
IHU On-Line - O Papa declarou na entrevista de volta a Roma que uma Igreja sem mulheres é como um Colégio Apostólico sem Maria, contudo, não é favorável à ordenação de mulheres e disse ainda que é preciso uma profunda teologia da mulher. Como avalia essas declarações, especialmente num contexto latino-americano, em que há uma expectativa em torno da ordenação de mulheres?
João Batista Libânio - O Papa Francisco não começa o pontificado como se a Igreja não tivesse nenhuma história e tradição que merecesse ser respeitada. Doutro lado, percebe que no passado se cristalizaram estruturas hoje caducas. O jogo difícil lhe é pedido de discernimento, aliás carisma dos jesuítas, de manter a tradição em tensão com a inovação. A ordenação das mulheres é um dos casos difíceis. É sabido que houve ordenações de diaconisas no início da Igreja, mas não de presbíteras. Até onde os conceitos de então são idênticos aos de hoje? O texto de João Paulo II fechando a questão da ordenação presbiteral da mulher tem tom bem incisivo, mas não definitivo no sentido dogmático do termo. Até onde um outro Papa pode abri-lo? Questão em discussão para sim e para não. Afirmações contundentes de papas anteriores manifestaram-se mais tarde equivocadas. Se o leitor tiver curiosidade neste ponto, consulte a obra de GONZÁLEZ FAUS, I..A autoridade da verdade: momentos obscuros do magistério eclesiástico. São Paulo: Loyola, 1998.
IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

João Batista Libânio - Os gestos e as palavras do Papa Francisco no Brasil ficarão gravadas, como alguém que veio estar perto de nós e não descarregar sobre nós conhecimentos doutrinais, normas, fazendo valer sua autoridade de Papa. Simplicidade, proximidade, alegria, esperança, coragem, não ter medo, saída de nós para encontrar e dialogar com todos: eis as palavras chaves que nos deixou.
Imagem: São Camilo de Lellis

Papa Francisco e a teologia da mulher: algumas inquietações


Diante da aclamação geral e da apreciação positiva da primeira visita do Papa Francisco ao Brasil por ocasião da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), qualquer ensaio crítico pode não ser bem-vindo. Mas, depois de tantos anos de luta, "ai de mim se eu me calar!”. Por isso, vão aqui algumas poucas linhas e breves reflexões, só para partilhar algumas percepções a partir do lugar das mulheres.

Não quero comentar os discursos do papa Francisco e nem a alegria que muitos de nós tivemos ao sentir a simpatia, o carinho e a proximidade de Francisco. Não quero falar de algumas posições coerentes anunciadas em relação às estruturas da Cúria Romana. Quero apenas tecer dois breves comentários. O primeiro é em relação à entrevista do papa no avião de volta a Roma, quando perguntado sobre a ordenação das mulheres e respondeu que a questão estava fechada, portanto NÃO. E acrescentou que uma "teologia da mulher” precisava ser feita e que a Virgem Maria era superior aos apóstolos, portanto nada de almejar um lugar diferente para as mulheres.

O segundo comentário tem a ver com a identificação do novo catolicismo juvenil com certa tendência carismática muito em voga na Igreja Católica hoje. Isto deveria nos levar a perguntas bastante sérias para além de nossa sede de ter líderes inspirados que falem ao nosso coração e dispensem os discursos teológicos racionalistas e dogmáticos do passado.

Como pode o papa Francisco simplesmente ignorar a força do movimento feminista e sua expressão na teologia feminista católica há mais de trinta e/ou quarenta décadas dependendo dos lugares? Espantou-me também o fato que tenha afirmado que poderíamos até ter mais espaços na pastoral, quando, na realidade, em todas as paróquias católicas, são as mulheres em sua maioria que levam adiante os muitos projetos missionários. Tenho consciência que essas palavras em relação às mulheres, poucas palavras sem dúvida, limitadas a uma viagem de volta a casa, não possam e não devam criar sombras a uma visita tão exitosa. Entretanto, são os tropeços que fazemos, os nossos atos falhos que revelam a face escondida, a face sombria que também está em nós. São esses pequenos atos que abrem as portas da reflexão para tentarmos ir um pouco mais adiante em relação às primeiras impressões.

A teologia feminista tem uma longa história em muitos países do mundo e uma longa e marginalizada história nas instituições católicas, sobretudo, latino-americanas. Publicações em Bíblia, Teologia, Liturgia, Ética, História da Igreja têm povoado as bibliotecas de muitas escolas de Teologia em diferentes países. Têm circulado igualmente em muitos ambientes leigos interessados pela novidade tão cheia de novos sentidos. E estes textos não são estudados nas principais faculdades de teologia, sobretudo, pelo futuro clero em formação e nos institutos de vida consagrada. A oficialidade da Igreja não lhes deu direito de cidadania porque a produção intelectual das mulheres continua sendo considerada inadequada para a racionalidade teológica masculina. E, além disso, se constitui em uma ameaça ao poder masculino vigente nas igrejas. A maioria não sabe o que existe como publicação e como formação alternativa organizada, assim como desconhece os paradigmas novos propostos por essas teologias plurais e contextuais. Desconhece sua força inclusiva e o apelo à responsabilidade histórica por nossos atos. A maioria dos homens de Igreja e dos fiéis continua vivendo como se a teologia fosse uma ciência eterna baseada em verdades eternas e ensinada prioritariamente por homens e, secundariamente, por mulheres segundo a ciência masculina estabelecida. Negam a historicidade dos textos, a contextualidade de posições e de razões. Desconhecem as novas filosofias que informam o pensamento teológico feminista, as hermenêuticas bíblicas e as novas aproximações éticas.

Papa Francisco, por favor, informe-se no Google sobre alguns aspectos da teologia feminista, pelo menos no mundo católico. Talvez seu possível interesse possa abrir a outros caminhos para perceberem o pluralismo de gênero na produção teológica!

Quanto a dizer, talvez em forma de consolo, que a Virgem Maria é maior do que os apóstolos é, mais uma vez, uma expressão da teologia masculina do consolo abstrato. Ama-se a Virgem distante e próxima da intimidade pessoal, mas não se escutam os clamores de mulheres de carne e osso. É mais fácil fazer poemas à Virgem e ajoelhar-se diante de sua imagem do que estar atentos ao que se passa com as mulheres nos muitos rincões de nosso mundo. Entretanto, se os homens querem afirmar a excelência da Virgem Maria terão que lutar para que os direitos das mulheres sejam respeitados através da extirpação das muitas formas de violência contra elas. Terão, inclusive, que estar atentos às instituições religiosas e aos conteúdos teológicos e morais veiculados que podem não apenas reforçar, mas gerar outras formas de violência contra as mulheres.

Temo que muitos fiéis e pastoralistas necessitados da figura do bom papa, do pai espiritual, do papa que ama a todos se rendam à simpática e amorosa figura de Francisco e reforcem um novo clericalismo masculino e uma nova forma de adulação do papado. O papa Ratzinger nos levou a uma crítica do clericalismo e da instituição papado através de suas posturas rígidas. Mas, agora com Francisco, parece que voltam nossos fantasmas do passado, agora adocicados com a singela e forte figura de um papa capaz de renunciar ao luxo dos palácios e aos privilégios de sua condição. Um papa que parece introduzir um novo rosto público a essa instituição que fez história e nem sempre uma bela história no passado. O momento exige prudência e uma crítica alerta, não para desautorizar o papa, mas para ajudá-lo a ser cada vez mais conosco, Igreja, uma Igreja plural e respeitosa de seus muitos rostos.

Meu segundo breve comentário é em relação à necessidade de identificar a maioria dos grupos de jovens presentes na Jornada e aclamando calorosamente o papa. Em que Evangelho e em que teologia estão sendo formados? De onde vêm eles? O que buscam? Não tenho respostas claras. Apenas suspeitas e intuições em relação à presença marcante de uma tendência mais carismática conservadora e mais celebrativa na linha Gospel. Manifestações de paixão pelo papa, de intenso e repentino amor que leva às lágrimas, a querer tocá-lo, a viver milagres repentinos, a dançar e agitar o corpo têm sido comuns também nos movimentos neopentecostais nas suas muitas manifestações. Sem querer fazer sociologia da religião, creio que sabemos que esses movimentos buscam uma estabilidade social para além das transformações políticas em vista do direito e da justiça para todos os cidadãos e cidadãs. Creio que correspondem, sem dúvida, ao momento atual que estamos vivendo e respondem a algumas necessidades imediatas do povo. Entretanto, há outro rosto do cristianismo que quase não pode se manifestar na Jornada. O cristianismo que ainda inspira a luta dos movimentos sociais por moradia, pela terra, pelos direitos LGBT, pelos direitos das mulheres, das crianças, dos idosos etc. O cristianismo das comunidades de base (CEBs), das iniciativas inspiradas pela Teologia da Libertação e pela teologia feminista da libertação. Estes, embora presentes, foram quase sufocados pela força daquilo que a imprensa queria fortalecer e, por conseguinte, era de seu interesse. Isso tudo nos convida ao pensamento.

Não faz uma semana que o papa viajou e já os jornais e as redes de televisão pouco falam dele. E o que acontece nas comunidades católicas depois dessa apoteose? Como vamos continuar nossas jornadas cotidianas?

Para além da visita do Papa e de uma possível nova forma do papado de Francisco, estamos sendo convidadas/os a pensar a vida, a pensar os rumos atuais de nossa história e a resgatar o que há de mais forte e precioso na tradição ética libertária dos Evangelhos. Não basta dizer que Jesus nos ama. É preciso que descubramos como nós nos amamos e o que estamos fazendo para crescer na construção de relações mais justas e solidárias.

- Ivone Gerbara é escritora, filósofa e teóloga.
Fonte
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