sábado, 2 de junho de 2012

“É possível ser católico fervoroso e gay praticante"


Uma notinha rápida: vale conferir, aqui, o post do Blogay, da Folha de S. Paulo, sobre nosso evento de amanhã, com uma entrevista com uma das moderadoras aqui do blog.

E o pessoal do DiverCidade Maravilhosa também publicou a respeito, aqui. Estaremos juntos amanhã!

Ficam as dicas. ;-)

Pastor gay critica fundamentalistas e defende teologia inclusiva


Nosso amigo Marcio Retamero é teólogo, historiador e pastor presbiteriano, e participará da nossa mesa-redonda no nosso evento "O Amor de Cristo nos Uniu - Gays Cristãos na Igreja Católica", amanhã, dia 03/06 (saiba mais aqui), falando sobre "Homossexualidade e Bíblia".

(Fonte: Bule Voador)

A Igreja Católica está se reduzindo a uma seita?

Intervenção: Jim Lambie

Se a hierarquia continuar nesse caminho de privação de direitos em massa, o resultado não será uma Igreja menor e mais fiel, mas sim uma seita isolada e contracultural.

A análise é de Jamie L. Manson, teóloga católica e mestre em teologia pela Yale Divinity School. Suas colunas no jornal National Catholic Reporter - NCR - renderam-lhe um prêmio da Catholic Press Association por melhor coluna/comentário regular em 2010. O artigo foi publicado no sítio do jornal NCR, 24-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Muito tem se falado nos últimos meses sobre um anúncio publicado no The New York Times (imagem abaixo) encorajando católicos liberais e nominais a "sair da Igreja", porque ela nunca poderá ser mudada a partir de dentro e porque participar dela é colaborar com o seu sistema opressivo.

O anúncio foi pago por uma organização chamada Freedom from Religion Foundation. Mas, quanto mais eu reflito sobre o anúncio e sobre o comportamento da nossa hierarquia ultimamente, há uma parte de mim que não ficaria surpresa se ficássemos sabendo que o próprio Vaticano secretamente pagou pelo anúncio.

Com os seus ataques contra o casamento homossexual, a batalha contra a prestação de cuidados de saúde adequados às mulheres, o golpe hostil contra a LCWR [Leadership Conference of Women Religious] e a inquisição contra as meninas escoteiras, a hierarquia continua se apresentando como um embaraçoso espetáculo midiático em uma sociedade que há muito tempo se recusa a aceitar o ensino sobre o controle de natalidade, que acredita na igualdade das mulheres e que, cada vez mais, apoia o casamento homossexual.

Mesmo aqueles que não são afetados diretamente por essas batalhas ideológicas acham odioso o fato de que a hierarquia prefere gastar uma quantidade preciosa de dinheiro e de recursos em ações judiciais contra o governo Obama e em bizarras novas campanhas como a Fortnight for Freedom [período de oração e reflexão sobre a liberdade religiosa proposto pela Conferência dos Bispos dos EUA para os dias 21 de junho a 4 de julho].

Os líderes da Igreja parecem obcecados por privar de seus direitos o maior número de leigos possível.

A pergunta é: por quê? Por que a hierarquia está agindo como a nova chefe que, para se livrar da equipe que herdou, torna tudo o mais desconfortável possível para que não permaneçam na organização? As lideranças da Igreja tomaram uma decisão por reduzir seu tamanho? Será que ele perceberam que os 2,2 bilhões de dólares em acordos em torno dos abusos sexuais e o número rapidamente decrescente de padres nos Estados Unidos tornou a Igreja incapaz de prover as necessidades dos 72 milhões de católicos?

Talvez, todas essas batalhas ideológicas – que, dizem, estão fundamentadas no desejo do Papa Bento XVI de uma Igreja menor e mais fiel – tenham realmente tudo a ver com dinheiro, ou com a falta dele. Mais de um comentarista sugeriu que o fim da repressão contra a LCWR poderia estar na recaptura de propriedades, bens e reservas de pensão das comunidades religiosas.

Infelizmente, se a hierarquia continuar nesse caminho de privação de direitos em massa, o resultado não será uma Igreja menor e mais fiel, mas sim uma seita isolada e contracultural.

Em seu livro The Sacred Quest, os estudiosos Lawrence Cunningham e John Kelsay descrevem as características de uma Igreja e de uma seita. Eles contam com o trabalho pioneiro do estudioso alemão Ernst Troeltsch - o primeiro a fazer essa distinção com base em suas observações na Europa -, do início do século XX, quando comunidades religiosas como a Igreja da Inglaterra estavam em contraste com grupos dissidentes, como os quakers, cujas crenças religiosas os excluíram da cultura dominante de seu país.

Cunningham e Kelsay definem uma igreja como "uma comunidade religiosa de alguma posição social que convida todos os membros de uma sociedade a participar de suas atividades, tem uma participação no bem-estar da comunidade social, e afirma ser o guardião da verdade religiosa".

Uma seita, por outro lado, "tende a exigir mais da conformidade em seus membros, é exclusiva, distancia-se das preocupações da sociedade em geral e também afirma ser a portadora da verdade religiosa." Seitas são "exclusivistas, introspectivas e têm algumas tensões com a cultura dominante". Exemplos atuais de seitas seriam os Amish ou os judeus hassídicos.

Enquanto a hierarquia e seus devotos gastam todo o seu tempo e energia exilando os "dissidentes" na Igreja, são eles que estão se tornando dissidentes na sociedade. O chamado de Bento XVI para a obediência radical e a recusa de questionamentos soa mais como a demanda absoluta de uma seita para o conformismo do que o chamado para uma igreja universal.

A recusa da hierarquia em reconhecer a necessidade crucial de contracepção global, bem como um sacerdócio que inclua mulheres e pessoas casadas, é um sinal claro de seu isolamento contínuo com relação às preocupações da sociedade.

Alguns na hierarquia e muitos dos que estão no movimento neoconservador até já se voltaram para a noção pré-Vaticano II de que a salvação só pode vir através da Igreja Católica Romana.

Até mesmo os trajes a Igreja Católica estão se tornando sectaristas. Jovens seminaristas e recém-ordenados tornaram-se notórios por arrastar para fora dos armários da Igreja túnicas amarradas como saias, pluviais e manípulos repletos de traças. E qual leitor do NCR pode se esquecer do galero do cardeal Raymond Burke, ou da exibição da capa magna de 20 metros de comprimento do bispo Edward Slattery James na Basílica do Santuário Nacional da Imaculada Conceição [veja as fotos no post original, aqui]?

Quem pode ficar feliz e em paz na Igreja institucional, exceto aqueles que possuem pontos de vista extremistas e contraculturais? Claro, alguém pode argumentar que o próprio Jesus foi considerado extremista e contracultural em seu tempo. Mas aqui está a diferença: Jesus não tinha medo do mundo.

Jesus nunca permitiu obediência absoluta à lei para trunfar as necessidades pastorais da das pessoas diante dele. Ele desafiou o ritual religioso em prol da cura do sofrimento. Ele chamou todos - coletores de impostos, homens ricos, mulheres, bêbados, prostitutas - para a sua mesa, sem exigir nenhum teste de fidelidade ou confissões.

A Igreja Católica Romana está se tornando rapidamente um refúgio para aqueles que têm medo do mundo. A Igreja que, há 50 anos, chamou a si mesma para imergir no mundo moderno está, em vez de encolhendo, recusando-se a se envolver de uma forma significativa e pastoral com as lutas e necessidades humanas de hoje.

A hierarquia está tão arraigada em ideologias que esqueceu que existem complexas histórias humanas por trás de questões como a contracepção, a ordenação de mulheres e o casamento homossexual. Não é à toa que eles têm tanto medo de mulheres religiosas - que construíram uma Igreja de integridade e credibilidade moral por imersão na realidade da vida humana e pela coragem de se comprometer com um mundo cheio de sofrimento, fissura, imprevisibilidade e paradoxo.

Ao invés de permitir que o ministério da Igreja cresça e evolua com a comunidade humana, a hierarquia parece estar escolhendo o caminho de um grupo religioso dissidente. Ao fazer isso, eles estão abandonando, de bom grado, aqueles que esforçaram-se por décadas para permanecer fiéis à Igreja, mesmo através da desgraça dos abusos sexuais e da rescisão gradual das promessas do Concílio Vaticano II.

E quando essa geração de fiéis morrer, quem entre as novas gerações irá achar vida e sentido nesta Igreja-seita? Aqueles que querem fugir de um mundo em fluxo, com sofrimento, incerteza e luta pela igualdade? Aqueles que querem se recolher em um enclave fundamentalista onde homens europeus e patriarcais afirmam ter a verdade absoluta e inquestionável sobre Deus e sobre o nosso mundo?

Talvez seja uma Igreja mais fraca do que a hierarquia e seus devotos acham que querem. Talvez isso é tudo o que as lideranças sê veem realisticamente capazes de pagar. Quaisquer que sejam as motivações, se eles continuarem nesse caminho, terão que aceitar que deixarão de ser uma Igreja no mundo moderno e, ao contrário, se transformarão em uma seita exclusivista e isolada.

Foi Deus quem mandou?

Do querido Murilo Araújo (em mais um editorial brilhante para o Vestiario.org), que já chegou no Rio de Janeiro e nos dará a alegria de participar do nosso evento amanhã (saiba mais aqui), partilhando conosco seu testemunho de gay cristão:
(...) me deparei com a seguinte notícia, hoje mais cedo: “Pastor diz em sermão que governo deveria matar homossexuais”. Minha primeira reação foi pensar: “como assim? Que ano é hoje? Inquisição, é você? Não, pera… Inquisição era coisa dos católicos, e o cara aí não é padre, é pastor.” Depois de me dar conta de que a história parecia verdadeira mesmo, de que estamos mesmo em 2012, minha segunda reação foi uma mistura de nojo e revolta. A terceira foi vir escrever. 
Sei que a crítica que essa figura precisa receber pode até parecer óbvia, sei que um cara desses merece nada mais que desprezo pela sua suprema imbecilidade, sei até que muita gente deve estar começando a encher o saco de me ver falar sempre dessa questão de religião no debate sobre homofobia. Mas desculpa, eu não consegui ficar na minha. Se me revolto só de pensar que ainda existe gente encarando a homossexualidade dessa maneira, imaginem o tamanho da indignação que me bate quando vejo uma suposta autoridade propagar esse tipo de discurso de ódio, com a mesma tranquilidade (e uma pitada a mais da veemência) com que mandaria as pessoas rezarem antes de dormir. 
E não é o primeiro caso: na semana passada, após Barack Obama ter defendido abertamente o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o pastor Charles Worley, da Carolina do Norte, sugeriu que gays e lésbicas fossem trancados em campos de concentração, rodeados por cercas eletrificadas, como uma forma de se ver livre deles e delas – afinal de contas, isolados do resto do mundo, “eles não podem se reproduzir”. 
Desta vez, no mesmo estado (onde um referendo popular proibiu casamento e união civil entre homossexuais um dia antes da declaração de Obama), foi a vez do pastor Curtis Knapp ir ainda mais longe e defender morte. Assim, direto. Pelo menos teve a decência de esclarecer que a ideia não era dele, e mencionar o suposto autor original, ninguém mais ninguém menos que Ele, o “Todo-Poderoso”: “Você dirá: Oh, eu não posso acreditar, você é horrível. Você é um neanderthal. É disso que você está chamando Deus? Ele é um neanderthal? As Escrituras são a sua palavra ou não? Se é a sua palavra, ele ordenou. É sua ideia, não a minha. E eu não me envergonho disso. Ele disse que os colocará à morte. (…) Você tem uma ideia melhor? Uma ideia melhor do que a de Deus?”. 
E o que me deixa mais curioso nessa história é a apropriação indevida das tais boas ideias de Deus, usadas apenas na hora em que interessa. Duvido muito que estes mesmos pastores que invocaram a citação bíblica de Levítico para destilar sua homofobia deixem de comer moluscos quando queiram (Levítico 11, 10), ou de fazer a barba quando incomodar (Levítico 19, 27; Levítico 21, 5) ou ainda que ordenem que as mulheres de suas igrejas raspem as cabeças se não desejarem usar véus dentro dos templos (Carta de Paulo aos Coríntios 11, 6). Não é estranho ser fundamentalista para algumas coisas, relativizando outras com tanta tranquilidade
Penso na quantidade de fieis presentes dentro destas igrejas, ou até mesmo fora delas, que certamente sairão pelas ruas repetindo este tipo de discurso de ódio, e promovendo todo tipo de violência. Acho que todo mundo tem memórias de algum homofóbico (por menos religioso que seja) afirmando que Deus fez o homem para a mulher, como justificativa para não apoiar a igualdade de direitos. Isso para não falar dos muitos casos de espancamentos a chute, pedra e lâmpada. Ou dos constantes assassinatos – que é exatamente o que o tal pastor está querendo que o governo faça. 
E quem calará a boca destas figuras? Quem, se a sociedade também homofóbica dá a eles o direito de dizer as babaquices que quiserem, sob o suposto princípio da liberdade de expressão? É por essas e outras que ainda escrevo sobre este assunto. Se eles podem dizer aquilo que quiserem, ao menos precisamos nos preocupar em escancarar o preconceito e a intolerância. (...)


Leia também:
Porque nada justifica a homofobia. Nem a Bíblia
Leia o texto do Murilo na íntegra aqui

Deus não pertence a uma religião


A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 28, 16-20 que corresponde ao Domingo da Santíssima Trindade, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


No núcleo da fé cristã num Deus trinitário há uma afirmação essencial. Deus não é um ser tenebroso e impenetrável, encerrado egoisticamente em si mesmo. Deus é Amor e só Amor. Nós cristãos acreditamos que no mistério último da realidade, dando sentido e consistência a tudo, não há senão Amor.

Jesus não escreveu nenhum tratado acerca de Deus. Em nenhum momento o encontramos expondo aos camponeses da Galileia alguma doutrina sobre Ele. Para Jesus, Deus não é um conceito, uma bela teoria, uma definição sublime. Deus é o melhor Amigo do ser humano.

Os investigadores não duvidam de um dado que recolhem dos evangelhos. As pessoas que escutavam Jesus a falar de Deus e o viam atuar em seu nome experimentavam Deus como uma Boa Nova. O que Jesus diz de Deus soa-lhes a algo de novo e bom. A experiência que comunica e contagia parece-lhes a melhor notícia que podem escutar de Deus. Por quê?

Talvez o primeiro que captam é que Deus é de todos, não só dos que se sentem dignos para apresentar-se ante Ele no templo. Deus não está preso a um lugar sagrado. Não pertence a uma religião. Não é uma propriedade dos piedosos que peregrinam a Jerusalém. Segundo Jesus, ele “faz sair o seu sol sobre bons e maus”. Deus não exclui nem discrimina ninguém. Jesus convida todos a confiar Nele: “Quando oreis dizei: Pai!”

Com Jesus eles vão descobrindo que Deus não é só dos que se aproximam dele carregados de méritos. Antes deles, escuta a quem lhe pede compaixão porque se sentem pecadores sem remédio. Segundo Jesus, Deus anda sempre procurando aqueles que vivem perdidos. Por isso se sente tão amigo de pecadores. Por isso lhes diz que Ele “veio procurar e salvar o que estava perdido”.

Também se dão conta de que Deus não é só dos sábios e entendidos. Jesus agradece ao Pai porque gosta de revelar aos pequenos coisas que estão ocultas aos ilustrados. Deus tem menos problemas para entender-se com o povo simples do que com os doutos que acreditam saber tudo.

Sem dúvida, a vida de Jesus foi dedicada em nome de Deus a aliviar o sofrimento dos doentes, libertar os possuídos por espíritos malignos, resgatar leprosos da marginalização, oferecer o perdão a pecadores e prostitutas..., o que os convenceu que Jesus experimentava Deus como o melhor Amigo do ser humano, que só procura o nosso bem e apenas se opõe aos que nos fazem mal. Os seguidores de Jesus nunca puseram em dúvida que o Deus encarnado e revelado em Jesus é Amor e só Amor para todos.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Leonardo Tenório é a nossa cara


Dica do excelente Queer and Politics.

Bullying e homofobia nas escolas

Escultura: Mark Jenkins

Esse assunto tem estado muito em evidência ultimamente, e deve ter gente se perguntando por que há tanta insistência no assunto. Afinal, já não se falou o suficiente? As pessoas já não estão 'carecas' de saber?

Sim, as pessoas sabem que o bullying acontece, mas é só. A solução ainda está longe de ter sido alcançada, e isso porque envolve uma série de fatores.

Bullying em geral já é ruim, mas quando acontece com alguém por motivos que ele ou ela consegue conversar com os pais ainda há uma saída, porque os pais podem ir à escola e conversar com a direção e os professores e tentar achar uma solução. Um trabalho interessante neste sentido foi feito em uma escola em Porto Alegre e pode ser visto aqui. [Não deixe de ler também: Homofobia nas escolas]

No entanto, quando se trata de adolescentes LGBT o panorama muda. Muitas vezes o/a adolescente não pode contar para os pais que sofre bullying na escola pelo simples motivo de que ele não pode contar sobre a sua homossexualidade para os pais. A maioria dos pais não está preparada para lidar com essa realidade, existem inúmeros relatos de jovens LGBT que são obrigados a esconder da família o que são e, portanto, também não podem contar com a ajuda dos pais para tentar uma solução junto à escola. Isso leva a situações como essa descrita em um artigo da Unesco, sobre evasão escolar [aqui]:
"Pesquisas recentes, como o estudo Discriminação em razão da Orientação Sexual e da Identidade de Gênero na Europa, do Conselho da Europa, identificaram que como resultado do estigma e da discriminação na escola, jovens submetidos ao assédio homofóbico são mais propensos a abandonar os estudos. Também são mais predispostos a contemplar a automutilação, cometer suicídio e se engajar em atividades ou comportamentos que apresentam risco à saúde."
Essa situação de isolamento total, na qual o/a jovem não pode contar com ninguém para ajudá-lo pode levar a extremos como o suicídio e outros problemas. Um caso ocorrido no Brasil ilustra o abandono em que se encontram jovens assim:


Mesmo quando não chega a esse ponto, há sérias consequências. Em um estudo feito nos EUA concluiu-se que há uma tendência maior à depressão e ao comportamento de risco e de contrair DSTs [aqui]. (...) No Brasil a situação não é diferente. Conforme um estudo, maioria dos jovens brasileiros discrimina homossexuais [aqui]. (...) E, em uma entrevista feita recentemente com o deputado Jean Wyllys, ele conta um pouco sobre a sua própria experiência como vítima de bullying na escola [aqui]. (...)

A quem cabe resolver o problema? Àquele que tem o poder para isso. Diante de tantas evidências de que o bullying de fato ocorre nas escolas, e considerando que os pais e professores estão sem nenhum preparo para lidar com a situação, fica muito claro que a solução precisa vir das autoridades. O Kit Anti-Homofobia que foi vetado pela presidente Dilma é uma das coisas de que precisamos para mudar o panorama do bullying nas escolas.

A omissão descrita por Jean Wyllys na entrevista parece ser comum. Como se pode ver no vídeo sobre o suicídio ocorrido no Brasil, a professora também se omitiu. Pode-se concluir que muitos professores se omitem possivelmente porque eles mesmos são homofóbicos. Embora não cometam violência eles mesmos, permitem que aconteça. Nas palavras do irmão do menino de 14 anos que se suicidou: "olha aí ó, meu irmão tá apanhando aí, tem uns moleque batendo nele aí. Aí ela [a professora] 'ah, não tenho nada a ver com isso, a briga é de vocês' "
Quando a criança sai do ambiente da família para o ambiente maior que é a escola, em seu processo gradual de se inserir na sociedade, ela precisa ser protegida. Não é correto tratá-la como se fosse uma pessoa adulta, já plenamente capaz de se defender, nem de agressões verbais, muito menos físicas. E muitas vezes a orientação tem que vir de cima: são as autoridades que precisam mandar um recado muito claro de que a omissão diante desse tipo de conduta é inadmissível.

- Åsa Heuser, vice-presidente da LiHS, para o Conselho LGBT da LiHS

(Fonte: LiHS)

Evangélicos e católicos pedem defesa da liberdade religiosa

Arte: Jose Romussi

O movimento Evangélicos e Católicos Juntos (Evangelicals and Catholics Together) alude, em manifestação pública, à urgente necessidade de defender a verdadeira liberdade religiosa e admite que os cristãos fracassaram, com frequência, “em querer viver essa liberdade, perseguindo outras religiões ou fazendo uso de métodos coercitivos de proselitismo”.

A informação é da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC), 10-05-2012, aqui reproduzida via IHU.


O documento insta católicos e evangélicos a trabalharem juntos na busca do respeito às crenças, pela liberdade religiosa, também na América do Norte e na Europa, como parte dos direitos democráticos. A história mostra que as sociedades religiosamente livres são melhores para o povo e mais segurar para o mundo, aponta o texto.

Expressa, ainda, a necessidade de manter a separação real entre Igreja e Estado, garantia legal para a liberdade religiosa. Católicos e evangélicos propõem que o papel dos cidadãos, tanto crente como não crentes, esteja no mesmo plano público, a fim de trabalhar pela construção de um espaço real de liberdade e de debate.

Evangélicos e Católicos Juntos reporta-se também à perseguição que cristãos sofrem nos Estados Unidos por defenderem a religião islâmica e o radicalismo do uso de símbolos religiosos. “Mas a liberdade religiosa também está em perigo em alguns países onde o idioma dos direitos humanos é parte do vocabulário moral público”, mencionando casos de problemas com a legislação norte-americana em relação à objeção de consciência para os médicos que se negam a realizar abortos ou aos ministros religiosos que se opõem aos casais gays.

Ânimo, vocês não estão sozinhos!

Foto via Blue Pueblo

Textos para sua reflexão:
At 2, 1-11, 1Cor 12, 3-7.12.13 e Jo 20, 19-23

Era festa de Pentecostes. Cinqüenta dias haviam se passado desde todos aqueles acontecimentos que cercaram a morte e a ressurreição de Jesus. O Mestre já havia aparecido a eles e, na sua frente, havia ascendido aos céus. Porém, os discípulos ainda encontravam-se fechados e com medo do que poderia lhes acontecer. Ainda que tivessem visto e trouxessem em seus corações a certeza de que o Senhor havia ressuscitado, não sabiam como agir ou que caminhos seguir para levar adiante os ensinamentos do Senhor, já que não viam como enfrentar o resto do povo que não possuía a mesma experiência que a deles. Então, o Espírito Santo veio sobre eles e se manifestou na forma de línguas de fogo sobre suas cabeças (cf At 2,1-11).

Imediatamente, tudo clareou. Não havia mais espaço para o medo, para o limite, para as fronteiras. Era urgente que a mensagem de Jesus Cristo fosse levada a todos os homens e mulheres!

O Espírito prometido por Jesus em diversas ocasiões veio animar aqueles homens que se encontravam fechados, abrindo-lhes as portas do entendimento, enchendo-lhes o peito de coragem, e os impulsionando a ir além e além. E, o que se sucede a partir daquele dia começado no silêncio e na escuridão do Cenáculo, é conhecido: a mensagem de Jesus se espalha pelo mundo, a Igreja se constitui e a humanidade é invadida por uma nova esperança. Onze homens medrosos transformariam a história da humanidade, que nunca mais seria a mesma após receber a mensagem de Cristo.

O Espírito que veio sob a forma de vento e de fogo e permanece a soprar e a aquecer nossos corações com o entendimento e a coragem necessários para que possamos continuar o trabalho dos Onze. Se também temos medo, Ele nos acalma; se os caminhos são tortuosos, Ele os aplaina; se só vemos trevas, Ele faz brilhar as luzes. É ele que nos anima e que nos enche de desejos e sonhos, fazendo com que nossos atos nos ultrapassem. É esse mesmo Espírito que forma o corpo místico de Cristo ao que nos une de forma indelével e eterna, e através do qual formamos uma só família e uma só Igreja.

O Espírito de Deus é o sopro criador, o transformador de realidades, o acalentador de corações. Encher-se desse Espírito é deixar-se invadir pelo próprio amor de Deus, é deixar-se mover pelas cordas impulsionadoras do Pai que nos quer irmãos e irmãs em todo o mundo. É, por fim, abandonar-se à graça e deixar que Deus viva em nós, suplantando-nos de tal modo que sejamos imagem e semelhança Dele e O testemunhemos concretamente.

Que o Espírito que anima a vida da Igreja, garantindo-lhe a alma e o ardor vibrantes, possa também acender essa mesma chama em nossos corações e suscitar-nos o desejo de melhor amar e servir sempre, em qualquer lugar, a qualquer pessoa.

- Gilda Carvalho
Reproduzido via Amai-vos

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O importante é ser uma boa pessoa

Foto via Blue Pueblo

São palavras assim que nos iluminam o caminho e nos fazem cada vez mais acreditar que, sim, um mundo melhor está nascendo, neste exato momento.

Amigas/os,
Parabens pelo seu site!!! Sou uma velha mulher heterosexual, casada, 71 anos. Por um acaso achei o seu site. Está muito bom!
Na minha longa vida encontrei um bom número de gays e lesbicas, colegas, chefes, amigas/os.
Eram todos pessoas maravilhosas, excelentes profissionais, bons chefes ou colegas, fiel amigos. Em regra pessoas muito preocupados com o "social". Ajudavam aos menos favorecidos.
Eu acho que o importante é ser uma boa pessoa, ter bom carater, ser honesto, trabalhar. Se a pessoa prefere viver com uma pessoa do mesmo sexo, ou do sexo oposto é de importância nenhuma. E quem se sente atraido pelo mesmo sexo tem o mesmo direito de amar como uma pessoa que se sente atraído pelo sexo oposto.
Um abraço
Irene Ortlieb

Comentário recebido por e-mail, reproduzido com autorização da autora.


* * *

"Curar gays? Então, curemos cristãos também"


Uma importante e muito bem colocada reflexão de Leonardo Sakamoto em seu blog:

Pior do que algum instituto de pesquisa obscuro revelar que encontrou a cura para a homossexualidade é o fato de nós, jornalistas, darmos espaço acrítico para a divulgação desses milagres científicos. Isso gera audiência e leitura? Ô se dá! Pais aliviados ficam agradecidos, uma vez que isso mostraria que seu filho ou sua filha apenas “padece de uma terrível doença” e seu comportamento “não foi um erro de criação”.

E, ao mesmo tempo, ajuda a reforçar como um desvio o fato de alguém ser atraído por uma pessoa do mesmo sexo. E se é um desvio, pode ser corrigido. Arrumado. Consertado. Curado. Imagine só, você não curte de verdade aquela pessoa. Está apenas dodói.

Uma das primeiras orientações a estudantes de jornalismo é verificar a fonte da informação. E tentar entender quais os interesses por trás dela. Uma pesquisa que encontra algum “gene gay” financiada com recursos de organizações religiosas deve ser tão levada a sério quanto um estudo sobre os benefícios do tabaco bancado pela Souza Cruz ou a Phillip Morris.

E se fosse o contrário? Tempos atrás, me recomendaram o vídeo abaixo, que ironiza a situação. Procurando um argumento para enviar a um colega que tem medo da sexualidade alheia, reencontrei-o.

Todos têm direito a expressar sua fé, como todos deveriam ter direito de ter sua orientação sexual respeitada. Ainda mais porque escolhemos a fé. Não a orientação sexual.

O vídeo serve como provocação para ajudar a percebermos como os argumentos pífios que usamos podem ser ridículos quando voltados contra nós mesmos.


É um absurdo que a essa altura da história nossa sociedade ainda esteja discutindo se deve ou não universalizar direitos. Que, de tempos em tempos, gays e lésbicas sejam espancados e assassinados nas ruas só porque ousaram ser diferentes da maioria. Que seguidores de uma pretensa verdade divina taxem o comportamento alheio de pecado e condenem os diferentes a uma vida de inferno aqui na Terra. E, se não bastasse tudo isso, representantes políticos (que deveriam garantir que direitos fossem válidos a todos os cidadãos) agem não para fazer valer o Estado de Direito, mas sim no intuito de incentivar a intolerância, empurrando a sociedade para o precipício.

Encontro marcado!

Clique na imagem para ampliar.
Mais informações aqui

Não resistimos: olhem que lindo o convite feito por um amigo nosso no Facebook aos seus amigos.
Tae galera, como sempre digo na vida devemos ter equilíbrio... Nesse domingo irei ao encontro promovido pelo grupo Diversidade Católica, a fim de refletir sobre a questão "pessoas que amam pessoas do mesmo sexo e espiritualidade". Como todos sabem eu acredito que em um relacionamento, seja entre dois homens, entre duas mulheres ou entre um homem e uma mulher, pra dar certo tem q ter Deus (o Amor) no meio, pra que ambos sejam fortes diante das adversidades que toda relação enfrenta e construir uma história real de amor, respeito, cumplicidade, fidelidade e felicidade. Portanto, esse fds sairei pra balada na sexta e sábado não irei sair para estar bem disposto no domingo pra participar desse evento q é aberto ao publico e começará as 14h na UNIRIO, Av. Pasteur, 456, Botafogo, Praia Vermelha. Anima ae. Bom e abençoado dia pra todos!!!
Mais informações sobre nosso encontro domingo aqui. ;-)

Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos (3)

Foto: Tony Park

Começamos a publicar há duas semanas (veja a primeira parte aqui e a segunda, aqui), em 6 partes (que você acessa na tag "Homossexualidade e evangelização"), o artigo "Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos", do Pe. Luís Correa Lima, SJ, divulgado pelo Centro Loyola de Fé e Cultura, da PUC-Rio, como uma síntese do curso Diversidade Sexual, Cidadania e Fé Cristã, realizado em 2010 e 2011. O artigo, que sairá sempre às quintas-feiras pela manhã, tem como objetivo fornecer subsídios a religiosos e leigos, agentes de pastoral e outros para entender melhor e encontrar meios de lidar, dentro do contexto da Igreja Católica, com os desafios pastorais da relação e cuidado da população LGBT, no foco do acolhimento respeitoso e amoroso.

A Sagrada Escritura
Com relação à Sagrada Escritura e a homossexualidade, convém ir além da leitura ao pé da letra. Há novas maneiras de se compreender os textos bíblicos, utilizando o método histórico-crítico que os situa em seus respectivos ambientes sócio-culturais, com seus modos de expressão próprios. A Igreja reconhece esta abordagem desde o tempo do papa Pio XII, e a aprofundou com o Concílio Vaticano II, ao mesmo tempo em que busca harmonizá-la com os conteúdos da fé.

A Revelação divina testemunhada na Bíblia é proposta e expressa de modos diversos, através de ‘gêneros literários’ históricos, proféticos, poéticos ou outros. Importa que o intérprete busque o sentido que os autores sagrados em determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu tempo e da sua cultura, pretenderam exprimir servindo-se dos gêneros literários então usados. Para se entender corretamente o que os autores sagrados quiseram afirmar, devem-se levar em conta as maneiras próprias de sentir, dizer ou narrar em uso no tempo deles, como também os modos que se empregavam frequentemente nas relações entre os homens daquela época (Dei verbum, nº12).

No judaísmo antigo, acreditava-se que o homem e a mulher foram criados um para o outro, para se unirem e procriarem. Há uma espécie de heterossexualidade universal que está suposta, expressa no imperativo ‘crescei-vos e multiplicai-vos’. O livro que contem este preceito, o Gênesis (1,28), foi escrito no tempo do exílio judaico na Babilônia. Para o povo de Israel, expulso de sua terra e submetido a uma potência estrangeira, crescer era fundamental para a sobrevivência da nação e da religião. O sêmen do homem supostamente continha o ser humano inteiro em miniatura, e deveria ser colocado no ventre da mulher assim como a semente é depositada na terra. Não se conhecia o óvulo. O sêmen jamais deveria ser desperdiçado, como mostra a história de Onã, fulminado por Deus por causa deste tipo de transgressão (Gên 38,1-10).

É neste contexto que a relação sexual entre dois homens era considerada uma abominação. Israel devia se distinguir das outras nações de várias maneiras, pelo seu culto e por uma série de usos e costumes, segundo o código de santidade do livro do Levítico. Aí se inclui a proibição do homoerotismo (Lv 18,22). Proíbe-se também, e com rigor: trabalhar no sábado, comer carne de porco ou frutos do mar (ou qualquer animal marítimo ou fluvial que não tenha barbatanas e escamas), aparar o cabelo e a barba, tocar em mulher mestruada durante sete dias, usar roupa tecida com duas espécies de fio, semear no campo duas espécies de semente e acasalar animais de espécies diferentes. Quando o cristianismo se expandiu entre os povos não judeus, este código deixou de ser normativo, mas a proibição do homoerotismo permaneceu. A Igreja herdou a visão antropológica da heterossexualidade universal, com suas interdições.

O pecado de Sodoma foi recusar hospitalidade, levando à tentativa de estupro feita aos hóspedes do patriarca Ló. Com freqüência, o estupro era uma forma de humilhação imposta por exércitos vencedores aos vencidos. Originalmente, o delito de Sodoma era visto como “orgulho, alimentação excessiva, tranqüilidade ociosa e desamparo do pobre e do indigente”. Através do Profeta, o Senhor diz: “Tornaram-se arrogantes e cometeram abominações em minha presença” (Ez 16, 49-50). Posteriormente tal pecado foi identificado com o homoerotismo, mas na origem ele nada tem a ver com o amor entre pessoas do mesmo sexo, ou mesmo com as relações sexuais livremente consentidas entre pessoas do mesmo sexo.

Há um relato semelhante ao de Sodoma no livro dos Juízes (cap. 19 e 20). Um levita e sua concubina se hospedaram na cidade de Gabaá, da tribo de Benjamin. Os habitantes da cidade hostilizaram os visitantes e estupraram até a morte a concubina do levita. O Senhor suscitou os israelitas contra aquela cidade, e ela foi completamente destruída. Não se deve, a partir deste relato, condenar a heterossexualidade. O que se condena, tanto em Sodoma quanto em Gabaá, é a falta de hospitalidade e a hostilidade violenta para com a pessoa que vem de fora.

No Novo Testamento, a carta de São Paulo aos Romanos contém uma refutação do politeísmo (1,18-32). Os pagãos não adoravam o Deus único, mas as criaturas. E ainda permitiam o homoerotismo, que era abominação para os judeus. Este comportamento era visto como castigo divino pela prática religiosa errada: “Por tudo isso, Deus os entregou a paixões vergonhosas”. Outros escritos paulinos têm a mesma posição, associando o homoerotismo à idolatria e à irreligião (1 Cor 6, 9-11; 1 Tm 1, 8-11). No contexto judaicocristão da antiguidade, este argumento era compreensível. Não havia o que atualmente se entende por orientação sexual: uma característica constitutiva dos indivíduos que os faz gays ou héteros. É algo que nada a ver com a crença em um ou em vários deuses, ou com qualquer prática religiosa.

Muitas vezes estes textos bíblicos são usados sem a devida contextualização de sua época, sociedade e cultura; e sem a devida compreensão da situação presente, em um forte assédio moral contra pessoas homossexuais. Os norte-americanos chamam isto bible bullets, balas bíblicas. Elas são impiedosamente disparadas e ferem a autoestima das pessoas de modo devastador. A Palavra de Deus, fonte de vida em plenitude, acaba por gerar uma chaga profunda de sofrimento intenso, depressão e morte. É um terrorismo espiritual, face perversa do fundamentalismo religioso.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Todos os homens podem se casar


“Homecoming” é o título do curta-metragem produzido a fim de apoiar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo na Inglaterra e no País de Gales.

De autoria do premiado cineasta Mike Buonaiuto, "Homecoming" retrata um soldado inglês que transforma o seu regresso ao país num pedido de casamento ao seu parceiro. Desde o seu lançamento, em abril último, já teve mais de 750 mil visualizações.

Em 2005 foi concedido aos casais constituídos por pessoas do mesmo sexo acesso à figura jurídica da união civil, mas ainda continua a ser negado o acesso ao casamento civil.

(Fonte: dezanove.pt)

O Parlamento Brasileiro, o PLC 122 e a Diversidade nas Escolas Públicas


Artigo do Rev. Marcio Retamero (que participará da nossa mesa-redonda no nosso evento "O Amor de Cristo nos Uniu - Gays Cristãos na Igreja Católica", no próximo domingo, dia 03/06, falando sobre "Homossexualidade e Bíblia") para o Bule Voador:

No último dia 15 de maio, estive em Brasília participando no Senado Federal e na Câmara dos Deputados de dois eventos comuns à agenda LGBT no Brasil. No primeiro, participei do Congresso LGBT sobre o PLC 122, convocado pela Senadora Marta Suplicy; no segundo, do IX Seminário LGBT, que debatia o ensino sobre a diversidade sexual nas escolas públicas brasileiras.

No Senado, pela manhã, meu objetivo não era defender o governo ou TODOS os artigos do PLC 122, mas falar desde o lugar em que me encontro enquanto teólogo e pastor cristão progressista e inclusivo; cidadão gay e pastor de pessoas que amam pessoas do mesmo sexo, bem como pessoas que amam pessoas do sexo oposto. Fui pontuar as questões urgentes em torno da homofobia e a urgência de uma lei que contemple e tipifique a homofobia como crime de ódio, dentre outras coisas que o PLC 122 advoga.

Muito estardalhaço foi feito no Brasil desde que em 2006, a deputada Iara Bernardes do PT de SP deu início ao Projeto de Lei nº 122/2006. Assim que os setores conservadores e fundamentalistas da religião cristã evangélica no Brasil tomou conhecimento do texto, o Pastor Silas Malafaia se auto-elegeu o maior inimigo da causa gay no Brasil, o paladino contra o PLC 122 e tem vencido com sua verborragia insana e argumentos frágeis de desconstruir. Contudo, tem encontrado eco e a anuência da sociedade brasileira, não apenas entre os evangélicos, diga-se de passagem. Basta ler os comentários que são postados nos sites onde o dito pastor aparece falando sobre o PLC 122, que verificamos ser verdade o que aqui coloco.

Tenho meus “senões” com o PLC 122, eu confesso. Desde que este Projeto nasceu, tenho dito aos líderes do Movimento Homossexual no Brasil que este é um projeto natimorto, infelizmente. O PLC 122 quis, na verdade, como dizemos no popular, “abraçar o mundo com as pernas” e deu no que está dando, ou seja, em nada. No próximo ano, ele será arquivado, certamente, sem ter sido tocado pelos senadores e senadoras, pois é neste estágio que ele está parado, no Senado Federal.

A senadora Marta Suplicy tentou dar uma nova roupagem ao PLC 122, principalmente no que diz respeito à tal “liberdade de expressão” que o tal do maior inimigo da causa gay no Brasil tanto gosta de apontar no tal Projeto. O Movimento Homossexual não gostou da nova roupagem da Marta e retornamos à segunda versão do Projeto, cuja redação é da senadora Fátima Cleide, que acabou não se reelegendo ao Senado por conta, talvez, da sua defesa e trabalho contra a homofobia no Brasil.

O texto do PLC 122 criminaliza alguns atos preconceituosos ou difamatórios contra as pessoas LGBT como p.ex. a agressão verbal ou física em caso de demonstração pública de afeto, o discurso injurioso contra pessoas LGBT, a demissão trabalhista por orientação sexual e o discurso homofóbico, ou seja, o pensamento filosófico contra a homossexualidade. Talvez este seja o ponto mais fraco do PLC 122 que fez com que a sociedade brasileira, em sua maioria, não ficasse ao lado do PLC 122.

No site da ABGLT, Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais do Brasil, podemos consultar no link legislação, todas as leis que já temos em vigor nos municípios e estados da nossa Federação em relação à homofobia, identidade de gênero etc.

O site nos informa, por exemplo, que em mais de uma dezena de municípios e estados da Federação, já existem leis que protegem as pessoas LGBT do preconceito e da agressão verbal ou física em estabelecimentos públicos por demonstrações de afetos publicamente; uma grande parte dessa legislação não tem caráter criminalizador, mas pedagógico, multando o estabelecimento ou a pessoa que agride pessoas LGBT. Aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, temos a Lei 3406 de 15 de maio de 2000 [http://www.abglt.org.br/port/leiest3406.htm], sancionada pelo então governador evangélico, hoje deputado federal, Anthony Garotinho, a redação da Lei foi do então deputado estadual Carlos Minc.

Pela lei carioca, o cidadão ou a cidadã LGBT tem o direito de, assim como os heterossexuais, exprimirem seus afetos publicamente e as sanções são pesadas contra os lesionados pelos estabelecimentos comerciais, associações etc. A penalidade pode ser a multa, perda de função no caso do funcionalismo público e fechamento ao público no caso de estabelecimento comercial. Portanto, a lei carioca não dá cadeia, mas ensina; não criminaliza, mas adota uma função pedagógica.

O PLC 122, para artigo similar, penaliza o réu. Dá cadeia. Assim como demitir alguém por orientação sexual. Está ai, meu desacordo com o PLC 122, ele deveria ser pedagógico e não criminalizador.

Fui para o Senado Federal com os argumentos afiados em relação aos detratores do PLC 122, principalmente a Frente Parlamentar Evangélica. Tentando ser sucinto, me coloquei dizendo:

1 – É preciso diferenciar, cada vez mais e melhor, liberdade de expressão de discurso injurioso. Qual é o limite da liberdade de expressão? Podemos usá-la para ofender e injuriar pessoas? Agredi-las verbalmente com palavras chulas, comparando-as aos párias sociais e toda sorte de gente de má conduta social como fazem os pastores evangélicos em suas pregações?

2 – Tipologizar o crime como homofóbico quando há assassinato e lesão corporal e verbal. Crimes homofóbicos são crimes “assinados”. Nunca são poucas facadas, mas muitas facadas. Nunca são poucos tiros, mas muitos tiros. Os requintes de crueldade são característicos deste tipo de crime, basta compará-los conforme nos informa os jornais, de como a polícia encontra a vítima. Não dá pra comparar um crime homofóbico, assinado como tal, com o assassinato por dívidas com o tráfico ou um assassinato circunstancial de um cidadão no calor da hora de um assalto, por exemplo. A lesão corporal bem como a agressão verbal, também devem ser tipificados como crime, pois ambas lesam e muito, as vítimas. Palavras também ferem e trazem prejuízos à psique humana.

3 – Questões trabalhistas. Não deveria “dar cadeia”, mas multa e uma multa grande aos patrões que demitirem uma babá por ela ser lésbica ou um vendedor de loja por ele ser gay. Não podemos, com base na orientação sexual das pessoas, medir seu caráter, se assim fosse, os heterossexuais, que são a maioria da população estariam em maus lençóis. Demitir alguém por que esse alguém é LGBT ou não admitir no emprego, por questão de orientação sexual e gênero deve ser tipificado na lei como homofobia, mas não criminalizar, na minha opinião, o empregador, antes, fazê-lo entender, onde o ser humano é mais sensível, no bolso, que assim não pode ser.

4 – No caso do discurso injurioso, a mesma coisa. Não deveria “dar cadeia”, mas mexer no bolso daquele que ofende com seu discurso o cidadão ou cidadã homossexual. Aqui entram os pastores que elegeram os LGBT como a “última Geni”, em referência à música de Chico Buarque. Não sei porque, mas os pastores gostam de proferirem em seus púlpitos discursos injuriosos contra homossexuais. Os comparam com toda sorte de coisas ruins e de exemplos ruins na sociedade. Sempre dão um jeito de comparar homossexuais com pedófilos, por exemplo, contrariando as estatísticas, pois sabemos, já que a pedofilia é crime tipificado (o que nos dá dados concretos sobre este tipo de crime), ao contrário da homofobia, que a maioria dos pedófilos são heterossexuais do sexo masculino, cerca de 70%, próximos ao menor de idade alvo, como pais, tios, avós, pastores e padres e que é mínimo a participação de pessoas LGBT neste tipo de crime.

A Bíblia diz muito sobre vários assuntos desde o Velho ao Novo Testamento e ninguém, nenhuma vertente cristã pode se considerar cumpridora do que realmente a Bíblia ordena, uma vez que ela ordena coisas impensáveis hoje como vender a filha para pagar dívidas ou não semear dois tipos de semente na mesma terra ou comer camarão ou matar o filho mentiroso porque ele mentiu.

Usar a Bíblia hoje contra as pessoas LGBT como no passado ela foi usada contra negros, índios e mulheres e toda sorte de pessoas que a Igreja considerava hereges não cabe mais numa sociedade cujo estado é de direito, democrático e laico, ou seja, secular.

Assim como a Bíblia diz que os homossexuais não herdarão o Reino dos Céus (numa leitura “literal” de uma das cartas de Paulo), também diz, numa das Cartas de Paulo, que os judeus mataram Jesus e que a mulher deve ser submissa ao homem, usando véu na Igreja e nada nela falar, somente perguntando em casa, ao macho, o que não entendeu na Igreja.

Assim como a Bíblia diz que os filhos de Cã, identificados com os africanos não são pessoas de boa índole e que são afeitos à toda sorte de males e idolatrias.

A Bíblia diz, em certa altura, no Novo Testamento, que os judeus mataram Jesus e que por isso “o seu sangue deve ser sobre eles”, ou sejam, devem ser mortos.

Muita coisa a Bíblia diz… Contudo, porque hoje os pastores não pregam mais que negros não têm alma, que a mulher deve ser submissa (embora alguns mais radicais ainda acreditem nisso) e que os judeus são dignos de pena de morte porque “mataram o Senhor Jesus?” Porque tais pessoas são protegidas pela Lei.

Então, as pessoas LGBT são a última “Geni” dos religiosos, não sobrara para eles nenhuma outra categoria de pessoas para sentarem a língua com todo tipo de discurso injurioso, que está bem longe da tão advogada liberdade de expressão como querem os evangélicos fundamentalistas.

O Pastor Malafaia gastou dezenas de milhares de reais para espalhar pelo Rio de Janeiro outdoors dizendo: “Por que Deus criou macho e fêmea”. Escreveu nos outdoors o óbvio do óbvio, uma vez que um homossexual masculino não deixa de ser macho, tampouco uma homossexual feminina deixa de ser fêmea, nem mesmo as travestis deixam de ser machos, com exceção das transexuais, que mudam de sexo por uma questão de saúde psíquica e física.

Acredito que a “cruzada” que Malafaia tomou para si, arregimentando quase por completo a parcela evangélica da sociedade e ganhando adeptos entre nem os que crentes são por conta do caráter criminalizador do PLC 122. Caso as questões de injúria e não de liberdade de expressão (os religiosos podem continuar tratando a homossexualidade como pecado, caso assim acreditam, embora haja controvérsias) fosse tratada pelo PLC não como crime, que “dá cadeia”, mas mexendo no bolso deles, ainda que gritassem alto contra o PLC 122, porque eles sabem que seriam atingidos, seu discurso perderia muita força.

Basicamente é isso o que fui dizer ao Senado Federal. Não sei se me ouviram ou se me ouvirão. A participação no 9º Seminário LGBT da Câmara dos Deputados e questão que envolve a diversidade sexual nas escolas, tratarei em outro texto, posto que este já está de bom tamanho.

- Marcio Retamero, teólogo, historiador e pastor presbiteriano, participará da nossa mesa-redonda no nosso evento "O Amor de Cristo nos Uniu - Gays Cristãos na Igreja Católica", no próximo domingo, dia 03/06 (saiba mais aqui), falando sobre "Homossexualidade e Bíblia".

Paulista de 68 anos faz cirurgia de mudança de sexo pelo SUS


Dica do excelente Queer and Politics.

Onde sopra o Espírito?

Foto via Blue Pueblo

A festa de Pentecostes, celebrada neste domingo, lembra a vinda do Espírito Santo sobre os primeiros cristãos, reunidos no cenáculo em Jerusalém. Com a força do Espírito, sentiram-se animados a partir em missão.

Daí para a frente, o Espírito Santo iria conduzir a Igreja. Ele se encarregaria de indicar os rumos, e até de antecipar os passos que os cristãos deveriam dar.

Foi o que aconteceu, por exemplo, quando Pedro foi procurado por Cornélio, um pagão, que o convidava a visitar sua casa. Ao entrar, Pedro se surpreendeu, vendo que o Espírito Santo descia sobre os pagãos, da mesma maneira como tinha descido sobre eles em Pentecostes.

Pedro então compreendeu que os pagãos eram destinatários do Evangelho, tal como o povo de Israel. A Igreja aprendeu a estar atenta aos sinais do Espírito, para tomar suas decisões com segurança.

Foi o que aconteceu em nossa época, com o anúncio do Concílio Vaticano Segundo, em janeiro de 1959. O Papa João 23 não se cansava de testemunhar que a idéia de um concílio tinha surpreendido a ele mesmo. A certeza da inspiração divina lhe vinha da pronta adesão do povo, que de imediato se identificou com a proposta do papa. Com esta certeza, a Igreja pôde levar em frente a realização do Concílio.

Algumas manifestações do Espírito são fáceis de identificar. Sobretudo quando contam com o aval do povo. A própria teologia reconhece que o "sensus fidelium”, a "intuição dos fiéis” é sinal seguro de procedimento eclesial.

Mas existem situações mais complicadas. Nem sempre o clamor do povo é porta-voz do Espírito Santo. Há certas manifestações, também políticas e sociais, cuja ênfase, em vez de manifestar caminhos seguros de procedimentos corretos, esconde interesses não confessados, e tenta forçar rumos que não levam ao bem comum.

Por isto, não dá para colocar na conta do Espírito Santo todas as manifestações populares. A confiança no Espírito de Deus não dispensa o esforço de discernimento, para perceber os valores que estão em jogo.

O próprio Evangelho nos dá uma pista, quando Jesus explica como seria o procedimento do Espírito. Disse Ele que o Espírito "não falará de si mesmo...; mas, receberá do que é meu e vo-lo anunciará” (Jo 16, 13).

Com esta afirmação, Jesus sinaliza a necessidade de constatar a coerência entre o que ele fez e ensinou, com as manifestações que possam ocorrer. Para serem do Espírito, precisam estar em sintonia com as verdades objetivas proclamadas por Cristo.

A Bíblia conta uma bonita história, para advertir da necessidade de discernir a presença de Deus. Elias estava refugiado na caverna, nas proximidades do monte Horeb. Foi avisado que Deus passaria naquela noite. Ele se colocou então na entrada da caverna. Veio um forte furacão que fazia as rochas se contorcerem. Mas Deus não estava no furacão. Depois aconteceu um violento terremoto, que sacudiu a terra. Mas Deus não estava no terremoto. Depois desceu um fogo devorador. Mas Deus não estava no fogo. Por fim, veio uma brisa suave, que amenizou todo o ambiente. Era Deus que estava chegando.

Precedendo a este episódio, o mesmo livro narra a cena do confronto de Elias com os 400 sacerdotes do deus Baal. Desafiados por Elias a invocarem o seu deus para que fizesse descer fogo sobre a lenha da oferenda, os sacerdotes gritaram o dia inteiro, mas não foram capazes de se fazerem ouvir por seu falso deus. Ao passo que Elias, com poucas palavras, foi prontamente atendido por Javé.

Há certas manifestações que se assemelham à gritaria dos sacerdotes de Baal. Em nada contribuem para o discernimento objetivo dos problemas a resolver.

A análise objetiva da realidade é garantia mais segura do acerto das decisões a serem tomadas.

- Dom Demétrio Valentini, Bispo de Jales (SP)

(Fonte: Amai-vos)

terça-feira, 29 de maio de 2012

O 'homo fobicus', esse ser primitivo

Imagem via Facebook

"É primitivo apontar o dedo, a piadinha constante e o insulto fácil. É primitiva a discriminação no local de trabalho, os cochichos e o olhar reprovador."

Simples e verdadeiro


A ILGA queria fazer um filme poderoso, simples e verdadeiro, para veicular no Dia Internacional de Combate à Homofobia. E conseguiu.

Pobreza e (com)paixão



“Se eu dou comida a um pobre, me chamam de santo,
mas se eu pergunto por que ele é pobre, me chamam de comunista.”
(Dom Hélder Câmara)

Nei Alberto Pies, no Brasil de Fato (fonte: PavaBlog)


A defesa das causas dos pobres é uma tarefa muito árdua. Exige da gente mais do que compreensão, discursos e teorias, mas, sobretudo, compromisso e compaixão. Somos muito preconceituosos para com o sofrimento dos pobres.

Desconhecemos sua realidade e não nos dispusemos a mexer na raiz de nossos problemas: a nossa forma de organizar o mundo. Entre nós é muito forte a idéia de que pobres são coitados, por isto desprovidos de sorte e de bens. Se não lutam, são preguiçosos. Se lutam e exigem, tornam-se perigosos. Mesmo quando passam fome, a gente insiste em dizer que eles ainda são capazes de sonhar.

Só a lucidez da razão e a sensibilidade podem tratar bem das questões da existência e convivência humanas. Na visão ocidental, desenvolvemos a ilusão de que somente a razão nos dará respostas aos problemas humanos.

Nem a razão ornamental (que serve de ornamento), nem a razão instrumental (ferramenta para transformar a realidade) são capazes de justificar o sofrimento e a realidade daqueles que excluímos socialmente (os pobres).

Os pobres não são invenção, não são uma ideia. Os pobres são reais. Os pobres existem, e sofrem a violação de sua vida e dignidade.

Leonardo Boff, defensor incansável das causas dos pobres e oprimidos, afirma que são três as compreensões que se tem da pobreza. Uma primeira, clássica, é a ideia de que o pobre é aquele que não tem. A estratégia então é mobilizar quem tem para ajudar a quem não tem, através de ações assistencialistas, sem reconhecer a potencialidade dos mesmos.

A segunda ideia, moderna, é aquela que descobre os potenciais do pobre e compreende que o Estado deve fazer investimentos para que ele seja profissionalizado e potencializado, com fins à inserção no mundo produtivo.

Ambas as posições desconsideram, na visão de Boff, que a pobreza é resultado de mecanismos de exploração, que sempre geram enormes conflitos sociais. Boff acredita que é preciso reconhecer as potencialidades dos pobres não apenas para engrossarem a força de trabalho, mas principalmente para transformarem o sistema social.

Os pobres, organizados e articulados com outros atores da sociedade, são capazes de construir uma democracia participativa, econômica e social. “Essa perspectiva não é nem assistencialista nem progressista. Ela é libertadora”,a firma Boff.

Só a compaixão reveste-se de libertação. Compaixão não é sofrer pelos outros, mas sofrer com eles. O sofrer com os outros permite à gente colocar-se em seu lugar. Enxergar a partir dos seus pontos de vista e de suas realidades. É também deixar-se transformar, permitindo que os nossos mais nobres sentimentos se traduzam em ações concretas a favor dos pobres, fracos e marginalizados.

Poucos vivem a compaixão. Muitos perderam a sensibilidade, o que os impossibilita de viver a caridade e o amor ao próximo. Outros preferem atribuir aos pobres a culpa por sua situação de miséria e vulnerabilidade.

Outros discursam democracia, não perguntando se esta propicia as mesmas condições e oportunidades a todos, como ponto de partida. Põe que o ponto de chegada depende de cada um de nós. E muitos, em grande número, tratam como crime a atitude de quem luta por causas humanitárias, quando estas exigem uma mudança na estrutura e organização da sociedade.

“As pessoas são pesadas demais para serem levadas nos ombros. Leve-as no coração”, disse Dom Hélder Câmara. Este é o sentido maior da compaixão para com os pobres: não os defendemos por serem bons ou anjos, mas porque são parte de uma sociedade desigual, que não sabe lidar com eles.

- Nei Alberto Pies é professor e ativista em direitos humanos

Paradas, caminhadas e marchas


Foto: Divulgação

Lendo esta nota do Vitor Angelo outro dia no Blogay, não pudemos deixar de nos lembrar de nossa caminhada, realizada há exatamente um ano, por uma Educação sem Homofobia (saiba mais aqui). E vamos caminhando. :-)

Nos últimos anos, o Brasil viu diminuir o número de paradas gays. Segundo dados da ABGLT, a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros, se em 2010, foram 201 eventos do orgulho gay, o número caiu para 160 em 2011 e neste ano acontecerão apenas 64 paradas.

Estes dados representam que ongs andam com dificuldade para captar  recursos para estes eventos, mas também uma mudança de foco da militância que tem preferido marchas e caminhadas menores, descentralizadas, com um alto teor de politização.


Um exemplo foi a marcha que aconteceu no domingo, 20, na zona sul de São Paulo. A participação está bem longe dos milhões da parada da Avenida Paulista. Foram apenas 60 pessoas, mas todas muito conscientes e dando visibilidade às principais bandeiras do movimento gay, até a que pretende se firmar como aliada de outros movimentos sociais. “A nossa luta é todo dia, contra o machismo, racismo e a homofobia!” foi um dos gritos dos manifestantes.

A 1ª Caminhada LGBT da Zona Sul de São Paulo foi organizada por membros do Grupo ELES, Diversou, 5ª Diversidade e 4 Elemento com divulgação feita principalmente nas redes sociais. Este novo elemento parece ser agora um dos pontos centrais das militâncias e quanto mais as ongs conseguirem lidar bem com elas, melhor para toda a militância.

- Vitor Angelo, no Blogay

Hospitalidade: um dom para o outro e para si mesmo


Praticar a hospitalidade traz consigo um dom inesperado: descobrimos que, dando espaço ao outro na nossa casa e no nosso coração, a sua presença não nos subtrai espaço vital, mas amplia os nossos ambientes e os nossos horizontes, assim como a sua partida não deixa um vazio, mas dilata o nosso coração até permitir-lhe abraçar o mundo inteiro.

A reflexão é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Stampa, 25-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, reproduzido via IHU.


"Não esqueçais a hospitalidade: alguns, praticando-a, acolheram anjos sem sabê-lo". Essa exortação da Epístola aos Hebreus nos lembra que a acolhida autêntica cria um diálogo fecundo de mudanças e de enriquecimentos para o hóspede, assim como o anfitrião: do diálogo, não saímos como havíamos entrado, e o desafio do diálogo requer a disponibilidade para empreender esse caminho.

No diálogo, surgem visões inéditas do outro, ganha espaço o fim do preconceito, a descoberta do que se tem em comum e também o que falta a cada um dos interlocutores. Ali ocorre a contaminação, o deslocamento das fronteiras: aquele outro que eu situava em uma dimensão remota se revela muito mais próximo e parecido comigo do que eu pensava. A fronteira permanece, mas não é mais um lugar de conflito ou de maus entendidos, mas sim de pacificação e de encontro. A hospitalidade, que exigiu que se ultrapassasse a soleira de uma casa, agora se aprofunda e se torna encontro entre humanos.

Certamente, se não se espera nada do outro, o diálogo já nasce morto: a suficiência, o querer bastar a si mesmo é de fato negação do outro, quer ele seja considerado como objeto a ser possuído, quer nos recusemos a vê-lo e a levá-lo em consideração. Mas, se aceitarmos a presença do outro, ainda mais se estivermos disposto a acolhê-lo como "hóspede interior", reconhecendo os seus traços presentes em nós, então explode a centelha do diálogo autêntico: damos tempo ao outro, trocam-se palavras que se tornam dons recíprocos.

O diá-logos, de fato, é uma palavra que se deixa atravessar por uma palavra outra, é um entrelaçamento de linguagens, de sentidos, de culturas: as interrogações do outro se tornam as minhas, as suas dúvidas incomodam as minhas certezas, as suas convicções interpelam as minhas. Então, descobriremos que, no diálogo, chegamos a expressar pensamentos jamais pensados antes, com a fascinante percepção de senti-los ao mesmo tempo como inauditos, embora familiares a nós mesmos, acabando por descobrir que temos há muito tempo entre as nossas mãos realidades que estávamos convencidos de ignorar.

É no diálogo, nesse lugar privilegiado em que cada um continua sendo ele mesmo e, ao mesmo tempo, aceita o risco de se tornar "outro", que o hóspede se torna a revelação de um dom que vem de "outro lugar", a descoberta de um ponto de vista inédito sobre a própria existência, o florescimento com palavras e gestos da interioridade que nos habita.

E tudo isso a partir de um gesto muito simples e concreto: o dar de beber e de comer ao hóspede. Sabemos que, nos países mediterrânicos, um copo de água ou uma xícara de café são o gesto mais espontâneo, mais imediato de hospitalidade. Mas hoje, na nossa sociedade, a mesa ainda é o centro, o polo em torno do qual se organiza a casa para que seja acolhedora?

Desde a sua primeira aparição na evolução das civilizações, a mesa se manifestou como lugar feito não só para comer, mas também para comunicar: se o alimento não é "falado", nutre apenas agressividade, violência e opressão. A mesa em comum com o hóspede é o espaço em que o alimento é compartilhado, e o comer se torna "convívio", ocasião de comunhão vital: é à mesa, à mesa compartilhada, que o ser humano tem a oportunidade, todas as vezes renovada, de se libertar do seu ser "devorador" – do alimento e do outro – e de se tornar mais uma vez, a cada dia, uma pessoa de comunhão.

A mesa é, de fato, o lugar em torno do qual o ser humano começou a fazer amizade, a criar sociedade, a estipular alianças. É ato comunal por excelência. Comer também é o comportamento humano mais carregado de simbolismo. Comer juntos, oferecer a própria comida ao hóspede, significa fazer com que o outro entre em uma comunhão muito profunda conosco.

De fato, "nós comemos o que a nossa mãe nos ensinou a comer. E não só isso – nos lembra Leo Moulin –, mas tal comida nos agrada e continuará agradando por toda a vida, porque nós comemos com as nossas recordações (...) Ou, melhor, nós comemos as nossas lembranças, porque nos dão segurança, temperadas como são por aquele afeto e por aquela ritualidade que caracterizaram os nosso primeiros anos de vida".

Isso também vale para a cultura-mãe, para a cultura em que fomos criados, para a cozinha particular daquela região ou daquela cidade que nós oferecemos ao hóspede (ou que vemos ser oferecida a nós). E entendemos também, descobrindo o desgosto que pode nos provocar a comida que nos é oferecida quando somos hóspedes ou as resistências que o outro manifesta diante dos alimentos que nós lhe oferecemos quando o hospedamos, como estamos enraizados em uma história particular e como é longo e cansativo o caminho rumo ao encontro com o outro.

Então, da partilha da palavra no diálogo e do alimento em torno de uma mesa, nasce um conhecimento novo do hóspede: aquele que era estranho, de quem se ignorava a proveniência, de quem custávamos a compreender a linguagem, agora se tornou alguém familiar, parte daquele círculo de pessoas e de mundos que constitui o "nosso" mundo, feito de semelhanças e de alteridades, de costumes e de novidades, de tradições recebidas e de novos caminhos tomados.

E esse elementos "socializante" da hospitalidade não deveria ser esquecido. Quando um de nós acolhe um outro, de fato, nunca está só: no meu acolher o outro sempre está comigo a minha história, as pessoas que a atravessaram, os encontros que a determinaram, a cultura que a orientou. Da mesma forma, o hóspede acolhido também não é um indivíduo fechado em si mesmo, nunca chega sozinho: consigo, ele traz o seu passado, as pessoas e os fatos que o fizeram sofrer ou alegrias, as esperanças e as decepções, o futuro esperado o o desconhecido.

Sim, no face a face de duas pessoas individuais, a hospitalidade também continua sendo o lugar comunitário por excelência: são dois mundos que se encontram através do entrelaçamento de dois olhares e do dialogar de dois rostos.

A hospitalidade é um dom! Dom a quem é hospedado, dom a quem hospeda. Certamente, a hospitalidade é apenas uma etapa, não pode ser traduzida em uma situação definitiva, porque ela sempre se dirige a novos interlocutores temporários que se voltam para a soleira da casa ou da cidade. A condição do hóspede é a de quem não permanece, senão se tornaria um membro e perderia a sua própria qualidade de forasteiro, estrangeiro, outro, peregrino: a hospitalidade é um rito de passagem, o dom temporário de um espaço.

Praticar a hospitalidade, então, trará consigo um dom inesperado: quase inadvertidamente acabaremos descobrindo que, dando espaço ao outro na nossa casa e no nosso coração, a sua presença não nos subtrai espaço vital, mas amplia os nossos ambientes e os nossos horizontes, assim como a sua partida não deixará um vazio, mas irá dilatar o nosso coração até permitir-lhe abraçar o mundo inteiro.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A verdade que emerge


Recebemos do nosso querido amigo Pe. James Alison a seguinte mensagem, a respeito de sua participação no evento "O Amor de Cristo nos Uniu - Gays cristãos na Igreja Católica", que realizaremos no próximo domingo, dia 03/06, na UNIRIO (saiba mais aqui):
"Estou imensamente honrado pelo convite, e cheio de entusiasmo para partilhar com tod@s. Sinto que a nossa confiança está crescendo por todo o mundo, na medida em que fica cada vez mais evidente que estávamos falando a verdade, por menos conveniente que parecesse no passado."
O Pe. James participará da nossa mesa-redonda com o tema "A verdade que emerge", sobre a presença e pertença dos LGBTs na Igreja e o amor irrestrito e incondicional do Pai por cada um de nós.

Se quiser saber mais, leia sua "Carta de um padre católico a um jovem homossexual", aqui, e a introdução de João Batista Libânio, SJ, ao seu livro "Fé além do ressentimento: fragmentos católicos em voz gay", aqui.

Eu só queria que vocês soubessem


Não é incomum que eu seja abordado ou receba emails de pessoas que leram coisas que escrevi ou me ouviram em algum espaço falando sobre suas experiências e de que forma o meu trabalho de alguma forma ressoa nessas experiências. Foi assim, inclusive, que conheci o meu namorado. Guardo com muito carinho e respeito todas essas confissões, em geral carregadas de muita dor e sofrimento, mas também há alegria e satisfação. Elas acontecem (pessoal ou virtualmente) num espaço que eu chamaria de sagrado e sempre me emocionam, fazendo com que me sinta ao mesmo tempo privilegiado e responsável diante de tamanha confiança. Essas experiências e os seus sujeitos, sem dúvida, são incorporadas no trabalho que desenvolvo e na defesa das coisas nas quais acredito e pelas quais procuro lutar.

Recentemente tive mais uma dessas experiências e que me marcou profundamente. Fui abordado por um rapaz que disse que queria conversar comigo. Percebi que ele tinha me esperado, e esperado a oportunidade em que pudesse falar comigo privadamente. Naquela ocasião, não consegui dar atenção a ele e ficamos de conversar em outro momento. Acabei esquecendo e quando o vi novamente disse que ainda conversaríamos. Ele disse que não era nada importante e apenas algum tempo depois a conversa aconteceu. Achei que ele queria comentar algo sobre meu trabalho, perguntar alguma coisa, tirar uma dúvida. Ele era bastante tímido e a conversa foi curta, talvez mais curta do que deveria ter sido.

Em poucas palavras ele me disse: “Eu queria te dizer que meus pais me mandaram para um desses programas para ex-gays. Eu fique lá durante um período longo e no último dia em que eu estive nesse lugar eu fui abusado sexualmente pelo diretor. Foi então que eu tive certeza de que não havia nada de errado comigo. Eu só queria que você soubesse”. Ou mais ou menos isso, porque de repente eu já nem consegui mais prestar atenção aos detalhes, embora ele falasse com uma serenidade que ainda agora me espanta. Ainda falamos de algumas outras questões. Eu disse que era importante que ele se cuidasse, especialmente agora que estava explorando com liberdade o fato de ser homossexual.

Foi apenas o tempo de eu me afastar um pouco, ficar sozinho, e começar a chorar quase sem me dar conta. Chorei por sentir uma profunda tristeza, de não ter dito tudo o que eu poderia ter dito para que ele ficasse bem e para que as suas feridas, se não fossem curadas, fossem aliviadas. Chorei de raiva, por imaginar que essas histórias são tão reais e tão presentes e continuamos permitindo que elas se repitam em nome de sei lá o que. Chorei por imaginar todas as coisas que foram feitas com esse rapaz e com tantos outros nesse lugar e chorei por causa da minha sensação de impotência, por pensar que eu não pude fazer nada para que isso não acontecesse, para que ele não tivesse que passar pelo que passou. Chorei por tantos outros motivos e todas as vezes que lembro dessa história choro de novo. E, provavelmente, todas essas questões são mais minhas do que dele, pois o seu olhar expressava exatamente o que ele me dizia: “Eu só queria que você soubesse”.
Queria pegar ele no colo, dizer que tudo ia ficar bem e que ninguém mais faria mal a ele – algo que infelizmente eu não posso fazer, nem garantir. Ainda tive uma última oportunidade de abraçá-lo e, olhando em seus olhos, que nesse momento também se encheram de lágrimas disse: “Você é lindo, Deus te ama e não deixa ninguém dizer o contrário”. Uma tentativa de bênção para quem tão generosamente me buscou em confissão e compartilhou algo tão íntimo e pessoal.

Fiquei pensando no que fez com que eu fosse, naquele momento, a pessoa escolhida para ouvir essa confissão. Penso, e só consigo escutar ele dizendo que “queria que eu soubesse”. Talvez como prova definitiva de que os tais ministérios para ex-gays são efetivamente uma violação do direito humano de auto-determinação no âmbito do gênero e da sexualidade e uso abusivo da religião para manutenção de estruturas, padrões e relações de poder desiguais. Talvez o fato de contar para alguém também fosse parte de um processo de cura através da verbalização e do reconhecimento da violência sofrida.

Na verdade não sei. Mas a firmeza, a simplicidade e a serenidade com a qual ele me contou essa experiência me fazem pensar que, de alguma forma, o fato de ele falar e o fato de eu saber pudessem fazer com que outras pessoas não tenham que passar por essa mesma experiência, fazendo da confissão uma denúncia. Por isso, talvez arbitrariamente, eu escrevo esse texto pois, assim como esse rapaz, eu queria que vocês soubessem!

E sabendo, fizessem alguma coisa para que impedir que histórias como essas se repitam, marcando profunda e irremediavelmente a vida de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais.

- André S. Musskopf, bacharel, mestre e doutor em teologia pela Escola Superior de Teologia
Reproduzido via blog do autor

Padre reconhece diferença entre casamentos civil e religioso: "Igreja respeita união gay"


Foi aprovado na última quinta-feira (24), pela Comissão de Direitos Humanos do Senado, o Projeto de Lei que legaliza a união estável entre homossexuais [saiba mais aqui]. Os grupos gays do Estado [AL] consideraram a medida um avanço. Entretanto a Igreja Católica ainda opina, afirmando que não aceita a união gay, mas respeita a decisão.

O padre Manoel Henrique, da paróquia da Igreja São Pedro, em Maceió, ressalta que a autora do projeto, a senadora Marta Suplicy (PT-SP), disse que não se deve confundir união com casamento religioso. Ele destacou que a Igreja não aceita, mas respeita a ação do Senado. “A Igreja admite que o Estado tenha o dever de defender o cidadão. É missão do Estado fazer isso”, alegou.

O juiz Wladimir Paes de Lira, da 26º Vara da Capital, Vara da Família, explicou que o projeto ainda precisa passar pela Comissão de Constituição de Justiça (CCJ), pelo plenário do Senado e pela Câmara dos Deputados para que vire lei.

O juiz disse que já realizou dois casamentos entre pessoas do mesmo sexo e acredita que isto seja uma evolução, sinal de que o povo está sendo mais tolerante. “Em Alagoas existe uma portaria que obriga os cartórios a receberem o processo que será analisado pelo juiz, que pode ser favorável ou não”.

Nildo Correia, presidente do Grupo Gay de Alagoas (GGAL), colocou que será uma decisão de grande importância para todos. “Infelizmente ainda existe um tabu. As questões da vergonha, da religião, fazem com que muitos casais ainda vivam no anonimato”.

(Fonte: Tribuna Hoje - mais uma dica do amigo @wrighini)

''O cristianismo não é uma religião do medo, mas da confiança e do amor''

Foto: Pink Sword

O cristianismo não é uma religião do medo, mas da confiança e do amor ao Pai que nos ama. Essas duas densas afirmações nos falam do envio e da acolhida do Espírito Santo, o dom do Ressuscitado, que nos torna filhos em Cristo, o Filho unigênito, e nos coloca em uma relação filial com Deus, relação de profunda confiança, como a das crianças.

Publicamos aqui a Audiência Geral do Papa Bento XVI, publicada no jornal L'Osservatore Romano, 23-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, reproduzido via IHU.


Queridos irmãos e irmãs,

Quarta-feira passada, eu mostrei como São Paulo diz que o Espírito Santo é o grande mestre da oração e nos ensina a nos voltarmos novamente para Deus com os termos afetuosos dos filhos, chamando-o de "Abba, Pai". Assim fez Jesus. Mesmo no momento mais dramático da sua vida terrena, Ele nunca perdeu a confiança no Pai e sempre o invocou com a intimidade do Filho amado. No Getsêmani, quando sente a angústia da morte, a sua oração é: "Abba! Pai! Tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice! Mas não o que eu quero, mas sim o que tu queres" (Mc 14, 36).

Desde os primeiros passos do seu caminho, a Igreja acolheu essa invocação e a assumiu como própria, sobretudo na oração do Pai Nosso, em que dizemos cotidianamente: "Pai ... seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu" (Mt 6, 9-10). Nas Cartas de São Paulo, encontramo-la duas vezes. O Apóstolo, ouvimo-lo agora, se dirige aos gálatas com estas palavras: "A prova de que vocês são filhos é o fato de que Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho que clama: Abba, Pai!" (Gl 4, 6). E no centro daquele canta ao Espírito que é o capítulo oitavo da Carta aos Romanos, São Paulo afirma: "E vocês não receberam um Espírito de escravos para recair no medo, mas receberam um Espírito de filhos adotivos, por meio do qual clamamos: Abba! Pai!" (Rm 8, 15).

O cristianismo não é uma religião do medo, mas da confiança e do amor ao Pai que nos ama. Essas duas densas afirmações nos falam do envio e da acolhida do Espírito Santo, o dom do Ressuscitado, que nos torna filhos em Cristo, o Filho unigênito, e nos coloca em uma relação filial com Deus, relação de profunda confiança, como a das crianças; uma relação filial análoga à de Jesus, embora a origem e a espessura sejam diferentes: Jesus é o Filho eterno de Deus que se fez carne, nós, ao contrário, nos tornamos filhos n'Ele, no tempo, mediante a fé e os Sacramentos do Batismo e da Crisma. Graças a esses dois sacramentos somos imersos no Mistério pascal de Cristo. O Espírito Santo é o dom precioso e necessário que nos torna filhos de Deus, que realiza aquela adoção filial a qual são chamados todos os seres humanos para que, como precisa a bênção divina da Carta aos Efésios, Deus, em Cristo, "nos escolheu antes de criar o mundo para que sejamos santos e sem defeito diante dele, no amor" (Ef 1,4).

Talvez, o ser humano de hoje não percebe a beleza, a grandeza e a consolação profunda contidas na palavra "pai" com que podemos nos dirigir a Deus na oração, porque a figura paterna muitas vezes hoje não é suficientemente presente, embora muitas vezes não seja suficientemente positiva na vida cotidiana. A ausência do pai, o problema de um pai não presente na vida da criança é um grande problema do nosso tempo, por isso se torna difícil entender na sua profundidade o que quer dizer que Deus é Pai para nós.

De Jesus mesmo, da sua relação filial com Deus, podemos aprender o que significa propriamente "pai", qual é a verdadeira natureza do Pai que está nos céus. Críticos da religião disseram que falar do "Pai", de Deus, seria uma projeção dos nossos pais no céu. Mas o oposto é verdadeiro: no Evangelho, Cristo nos mostra quem é pai e como é um verdadeiro pai, de modo que possamos intuir a verdadeira paternidade, aprender também a verdadeira paternidade. Pensemos na palavra de Jesus no Sermão da Montanha, onde diz: "Amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês! Assim vocês se tornarão filhos do Pai que está no céu" (Mt 5, 44-45).

É justamente o amor de Jesus, o Filho unigênito – que chega ao dom de Si mesmo na cruz – que nos revela a verdadeira natureza do Pai: Ele é o Amor, e nós também, na nossa oração de filhos, entramos nesse circuito de amor, amor de Deus que purifica os nossos desejos, as nossas atitudes marcadas pelo fechamento, pela autossuficiência, pelo egoísmo típicos do homem velho.

Gostaria de me deter um momento sobre a paternidade de Deus, para que possamos nos deixar aquecer o coração por essa profunda realidade que Jesus nos fez conhecer plenamente e para que a nossa oração seja por ela nutrida. Portanto, podemos dizer que, em Deus, o ser Pai tem duas dimensões. Acima de tudo, Deus é nosso Pai, porque é o nosso Criador. Cada um de nós, cada homem e cada mulher, é um milagre de Deus, é querido por Ele e é conhecido pessoalmente por Ele.

No Livro do Gênesis, quando se diz que o ser humano é criado à imagem de Deus (cf. 1, 27), quer-se expressar justamente essa realidade: Deus é o nosso Pai, por Ele não somos seres anônimos, impessoais, mas temos um nome. E uma palavra nos Salmos sempre me toca quando eu a rezo: "Tuas mãos me plasmaram", diz o salmista (Sl 119,73). Cada um de nós pode dizer, nessa bela imagem, a relação pessoal com Deus: "Tuas mãos me plasmaram. Tu me pensaste e criaste e desejaste".

Mas isso ainda não basta. O Espírito de Cristo nos abre a uma segunda dimensão da paternidade de Deus, além da criação, porque Jesus é o "Filho" em sentido amplo, "da mesma substância do Pai", como professamos no Credo. Tornando-se um ser humano como nós, com a Encarnação, a Morte e a Ressurreição, Jesus, por sua vez, nos acolhe na sua humanidade e no seu próprio Filho, para que possamos entrar no seu específico pertencimento a Deus.

Certamente, o nosso ser filhos de Deus não tem a plenitude de Jesus: devemos nos torná-lo cada vez mais, ao longo do caminho de toda a nossa existência cristã, crescendo no seguimento de Cristo, na comunhão com Ele para entrar cada vez mais intimamente na relação de amor com Deus Pai, que sustenta a nossa vida. É essa realidade fundamental que nos é descerrada quando nos abrimos ao Espírito Santo, e Ele nos faz voltar novamente a Deus dizendo-lhe: "Abbá!", Pai! Realmente entramos além da criação na adoção com Jesus; unidos estamos realmente em Deus e filhos de um modo novo, em uma dimensão nova.

Mas gostaria agora de voltar aos dois trechos de São Paulo que estamos considerando acerca dessa ação do Espírito Santo na nossa oração. Aqui também são duas passagens que se correspondem, mas contêm uma tonalidade diferente. Na Carta aos Gálatas, de fato, o Apóstolo afirma que o Espírito grita em nós "Abba! Pai!". Na Carta aos Romanos, ele diz que somos nós que gritamos: "Abbá! Pai". E São Paulo quer nos fazer compreender que a oração cristã nunca é, nunca ocorre apenas em sentido único de nós a Deus, não é só um "agir nosso", mas é também expressão de uma relação recíproca em que Deus age por primeiro: é o Espírito Santo que grita em nós, e nós podemos gritar porque o impulso vem do Espírito Santo. Nós não poderíamos rezar se não estivesse inscrito nas profundezas do nosso coração o desejo de Deus, o ser filhos de Deus.

Desde que existe, o “homo sapiens” sempre está em busca de Deus, tenta falar com Deus, porque Deus inscreveu a si mesmo nos nossos corações. Portanto, a primeira iniciativa vem de Deus, e, com o Batismo, Deus de novo age em nós, o Espírito Santo age em nós; é o primeiro iniciador da oração, para que possamos depois realmente falar com Deus e dizer "Abba". Portanto, a Sua presença abre a nossa oração e a nossa vida, abre aos horizontes da Trindade e da Igreja.

Além disso, compreendemos – este é o segundo ponto – que a oração do Espírito de Cristo em nós e a nossa n'Ele não é só um ato individual, mas também um ato de toda a Igreja. No rezar, abre-se o nosso coração, entramos em comunhão não só com Deus, mas precisamente com todos os filhos de Deus, porque somos uma coisa só. Quando nos dirigimos ao Pai na nossa sala interior, no silêncio e no recolhimento, jamais estamos sozinhos. Quem fala com Deus não está sozinho. Estamos na grande oração da Igreja, fazemos parte de uma grande sinfonia que a comunidade cristã espalhada em toda a parte da terra e em todo tempo eleva a Deus.

Certamente, os músicos e os instrumentos são diferentes – e esse é um elemento de riqueza –, mas a melodia de louvor é única e em harmonia. Todas as vezes, então, que gritamos e dizemos: "Abba! Pai!" é a Igreja, toda a comunhão dos seres humanos em oração que sustenta a nossa invocação e a nossa invocação é invocação da Igreja. Isso se reflete também na riqueza dos carismas, dos ministérios, das tarefas, que desenvolvemos na comunidade.

São Paulo escreve aos cristãos de Corinto: "Existem diversos carismas, mas um só é o Espírito; há diversos ministérios, mas um só é o Senhor; há diversas atividades, mas um só é Deus que realiza tudo em todos" (1Cor 12, 4-6). A oração guiada pelo Espírito Santo que nos faz dizer "Abbá! Pai!" com Cristo e em Cristo nos insere no único grande mosaico da família de Deus, em que cada um tem um lugar e um papel importante, em profunda união com o todo.

Uma última anotação: aprendemos a gritar! "Abba!, Pai" também com Maria, a Mãe do Filho de Deus. O cumprimento da plenitude do tempo, do qual fala São Paulo na Carta aos Gálatas (cf. 4, 4), acontece no momento do "sim" de Maria, da sua adesão plena à vontade de Deus: "Eis aqui a serva do Senhor" (Lc 1, 38).

Queridos irmãos e irmãs, aprendamos a apreciar na nossa oração a beleza de sermos amigos, ou, melhor, filhos de Deus, de podê-lo invocar com a confidência e a confiança que um filho tem pelos pais que o amam. Abramos a nossa oração à ação do Espírito Santo para que em nós ele grite a Deus "Abba! Pai" e para que a nossa oração mude, se converta constantemente o nosso pensar, o nosso agir para torná-lo cada vez mais conforme ao do Filho Unigênito, Jesus Cristo. Obrigado.
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