sábado, 31 de março de 2012

Carregamos o lar dentro de nós


O homem sempre enxergou o mundo através dos grandes ciclos naturais. Tudo o que era será outra vez, diz um dos livros sapienciais da Bíblia. As estações orbitam como as constelações, previsíveis e tranquilizantes àqueles que experimentam a mudança e a mortalidade. A repetição, porém, é uma faca de dois gumes: é reconfortante em sua previsibilidade, mas tediosa em sua mesmice. Então tentamos ter o melhor de dois mundos, buscando a mudança quando esta pode realizar nossos desejos e ainda assim nos agarrando ao status quo, pois, não importa o quanto este seja incompleto, é o que conhecemos melhor.

Talvez a maior parte da história humana e de nossa vida seja passada numa tentativa de resolver essa equação.

O ciclo da natureza é a batida do baixo. Mas com base nele preparamos as variações criativas que nos libertam de toda sua monotonia. Uma vez libertado o espírito da criação, nos sentimos conectados à fonte da repetição cíclica que nunca é tediosa e é sempre nova. A experiência de Deus como nascente de tudo que existe é o objetivo último de todo o esforço e desejo humanos, mesmo aqueles mais iludidos e ofensivos. Como as grandes migrações na natureza, que ocorrem constantemente em nosso redor, estamos sempre procurando o lar, que é onde podemos nos sentir realizados e em paz, seguros e capazes de nos desenvolver.

"O Pai está em mim e eu estou no Pai"

Em peregrinação, no grande êxodo para deixar a opressão do espírito, nos damos conta de que carregamos o lar dentro de nós e progredimos em direção a ele nos ciclos de descoberta e despojamento, do encontrar e do perder. No êxodo diário de nossa meditação giramos a roda da oração, e ela sempre nos leva para um lugar novo.

- Laurence Freeman, OSB
Mensagem para a Sexta-feira da Quinta Semana da Quaresma (30/03/12) à Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

"O preconceito é filho da ignorância e irmão da violência"


Zélia Duncan é uma das artistas que gravaram depoimento para a campanha pelo casamento civil igualitário que se inicia em 12 dias.

Para saber quem mais participa da campanha Nacional de Apoio ao Casamento Civil Igualitário, entre em www.casamentociviligualitario.com.br. Lá você encontrará fotos, depoimentos dos participantes e maneiras de interagir e contribuir na luta pela igualdade de direitos.

(Via Um Outro Olhar)

Bispo pede mudança no ensino da Igreja sobre a sexualidade

Foto: Navid Baraty

No 7º Simpósio Nacional sobre Catolicismo e Homossexualidade, nos Estados Unidos, o bispo australiano emérito Geoffrey Robinson pediu, na sexta-feira, 16 de março, "um novo estudo de tudo o que tem a ver com a sexualidade" – uma espécie de estudo que ele previu que "terá uma profunda influência sobre o ensino da Igreja referente a todos os relacionamentos sexuais, tanto hetero quanto homossexuais".

A reportagem é de Jerry Filteau, publicada no sítio National Catholic Reporter, 16-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.

"Se o ensino da Igreja sobre os atos homossexuais deve mudar, o ensino básico que rege todos os atos sexuais também devem", disse.

Robinson, padre desde 1960 e bispo auxiliar de Sydney de 1984 até sua aposentadoria por motivos de saúde em 2004, disse no simpósio de Baltimore, promovido pela New Ways Ministry, que, "pelo fato de o sexo ser uma forma tão vital de expressar o amor, o sexo é algo sempre sério".

Essa visão, defendida pela Igreja, está em contraste com a percepção geral da sociedade moderna, que "parece estar dizendo cada vez mais que o sexo em si não é algo sério", afirmou.

Para que a Igreja possa lidar com o sexo seriamente, no entanto, isso não significa por si só que a Igreja deve continuar aceitando acriticamente suas compreensões tradicionais da moral sexual, defendeu.

Robinson foi um dos conferencistas de destaque do simpósio ocorrido entre os dias 15 e 17 de março, que reuniu cerca de 400 gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros, católicos questionadores e membros da Igreja que exercem seu ministério junto a eles. O primeiro dia do encontro foi dedicado a um retiro espiritual orientado pelo bispo.

No almoço do simpósio na sexta-feira, o governador de Maryland, Martin O'Malley, se dirigiu ao grupo sobre uma lei estadual pendente, que ele havia assinado poucos dias antes, legalizando no Estado o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Os opositores da nova lei lançaram uma campanha para um referendo popular em novembro, para revogá-la, mas várias pesquisas recentes indicam que uma ligeira mas crescente maioria da população eleitoral do Estado apoia a legalização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo.

Em sua palestra à tarde – disponível, juntamente com outros escritos, no seu site – Robinson não abordou a crescente questão em debate nos EUA sobre se as uniões entre fiéis do mesmo sexo devem ser abençoadas com o título e com todos os direitos legais do "matrimônio". Mas ele argumentou que a avaliação moral da Igreja a respeito de tais uniões mudaria drasticamente se se reavaliasse a sua abordagem tradicional a toda a atividade sexual humana.

Ele disse que, enquanto a ênfase da Igreja sobre o significado profundo do sexo é correta, a sua abordagem do direito natural à moral sexual e a sua interpretação das antigas passagens bíblicas sobre a homossexualidade e outras atividades sexuais precisa de correção.

Robinson – cujas atividades antes de se tornar bispo incluíam o ensino de direito canônico e a presidência da Sociedade de Direito Canônico da Austrália e da Nova Zelândia – disse que a sua própria percepção de como o sexo era sério aconteceu quando os bispos australianos o chamaram para chefiar uma investigação sobre as causas do abuso sexual clerical contra menores em seu país e sobre como resolver esses problemas.

"Paradoxalmente, foram os efeitos do abuso sexual de menores, mais do que qualquer outra coisa, que me convenceram de que o sexo é algo sério", disse.

Ele começou sua conferência com três premissas básicas:

  • "Não há nenhuma possibilidade de uma mudança no ensino da Igreja Católica sobre o tema dos atos homossexuais, a menos que e até que ocorra, primeiro, uma mudança em seu ensino sobre os atos heterossexuais.
  • "Há uma séria necessidade de uma mudança no ensino da Igreja sobre os atos heterossexuais.
  • "Se e quando essa mudança ocorrer, ela inevitavelmente terá um efeito sobre o ensino sobre os atos homossexuais".

"Se o ponto de partida [no ensino da Igreja atual] é que todo ato sexual deve ser tanto unitivo quanto procriativo, não há nenhuma possibilidade de aprovação dos atos homossexuais", disse Robinson.

No entanto, ele questionou o argumento da lei natural, especialmente conforme estabelecido pelos papas recentes, e sugeriu que uma leitura mais nuançada dos mandamentos divinos na Escritura e dos ensinamentos de Jesus levaria a um conjunto diferente de normas morais – começando por uma mudança no ensino da Igreja de que todo ato ou pensamento sexual que caia fora de um ato conjugal de amor aberto à procriação é um pecado mortal por ser uma ofensa direta contra o próprio Deus em seu plano divino para a sexualidade humana.

"Durante séculos, a Igreja ensinou que todo pecado sexual é um pecado mortal. Esse ensinamento pode não ser proclamado hoje em voz tão alta quanto antes, mas foi proclamado por muitos papas, nunca foi retratado e afetou inúmeras pessoas", afirmou Robinson.

"Esse ensinamento fomentou uma crença em um Deus incrivelmente zangado", acrescentou, "já que esse Deus condenaria uma pessoa a uma eternidade no inferno por um único momento não arrependido de prazer deliberado decorrente do desejo sexual. Eu simplesmente não acredito em um Deus como esse. De fato, eu positivamente rejeito esse Deus".

Robinson tem sido uma fonte de polêmica na Igreja desde ao menos 2002, quando ele pediu que o Papa João Paulo II encomendasse um estudo em nível eclesial sobre o abuso sexual clerical de menores na Igreja.

Seu livro de 2007 Confronting Power and Sex in the Catholic Church: Reclaiming the Spirit of Jesus [Confrontando poder e sexo na Igreja Católica: Reivindicando o Espírito de Jesus], atraiu a ira de seus colegas bispos da Austrália, que se opuseram à sua turnê de palestras em 2008 nos Estados Unidos para falar sobre algumas das questões abordadas no livro.

O texto completo de sua conferência no simpósio do New Ways Ministry, assim como outros escritos e referências a polêmicas em que Robinson se envolveu em seus esforços para mudar a forma como a Igreja aborda as questões da moral sexual – muito detalhados para serem resumidos em um único artigo – podem ser encontrado em seu site.

Leia também:
Bispo afirma a necessidade de um reexame total da fé e da cultura católicas

Não podemos separar Deus do sofrimento dos inocentes

Imagem daqui

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 14, 1-15,47 que corresponde ao Domingo de Ramos, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto, aqui reproduzido via IHU.

Nem o poder de Roma nem as autoridades do Templo puderam suportar a novidade de Jesus. Sua forma de entender e de viver Deus era perigosa. Não defendia o império de Tibério; chamava todos a procurar o Reino de Deus e sua justiça. Não considerava importante quebrar as leis do sábado nem as tradições religiosas; somente lhe preocupava aliviar as dores das pessoas enfermas e desnutridas da Galileia.

Mas isso não foi perdoado. Ele se identificava demais com as vítimas inocentes do império e com os esquecidos pela religião do templo. Executado sem piedade em uma cruz, nele Deus revela-se a nós sempre identificado com todas as vítimas inocentes da história. Junto ao grito de todos , eles unem-se agora ao grito da dor do mesmo Deus.

Nesse rosto desfigurado do Crucificado revela-se a nós um Deus surpreendente, que quebra nossas imagens convencionais de Deus e põe em questão toda prática religiosa que tente dar culto a Deus, esquecendo o drama de um mundo no qual se segue crucificando aos mais frágeis e indefesos.

Se Deus foi morto identificado com as vítimas, sua crucifixão converte-se num desafio inquietante para os seguidores de Jesus. Não podemos separar Deus do sofrimento dos inocentes. Não podemos adorar o Crucificado e viver dando as costas ao sofrimento de tantos seres humanos destruídos pela fome, guerras e miséria.

Deus continua interpelando-nos desde todos os crucificados do nosso tempo. Não podemos continuar vivendo como expectadores desse sofrimento tão grande, alimentando nossa ingênua ilusão de inocência. Temos que nos manifestar contra essa cultura do esquecimento que permite isolarmos dos crucificados deslocando o sofrimento injusto que há no mundo para uma distância onde desapareça o clamor, o gemido e o pranto.

Não podemos nos fechar em nossa sociedade do bem-estar, ignorando essa outra sociedade do mal-estar na qual milhares de pessoas nascem somente para extinguir-se aos poucos anos de uma vida que somente foi morte. Não é humano nem cristão nos instalar na seguridade esquecendo aos que somente conhecem uma vida insegura e continuamente ameaçada.

Quando os cristãos dirigiram seus olhos até o rosto do Crucificado, eles contemplaram o amor imenso de Deus que se entregou até a morte por nossa salvação. Se olharmos mais detidamente, logo descobriremos o rosto de muitos crucificados que, longe ou perto de nós, estão reclamando nosso amor de solidariedade e compaixão.

sexta-feira, 30 de março de 2012

“A ciência é um dos melhores modos para se conhecer a Deus”


“A ciência é um dos melhores modos para se conhecer a Deus”, defende, no convênio sobre o tema “Viver a fé católica”, promovido pela arquidiocese norte-americana de Denver, o padre Guy Consolmagno, astrônomo do Observatório Vaticano. Estudar cientificamente o universo ajuda a entender melhor “a pessoa de Cristo”. O religioso e cientista ítalo-americano, que há mais de 30 anos estuda os asteroides e os cometas (um asteroide foi batizado com o seu nome), não exclui a possibilidade de que haja outra vida inteligente no universo.

Mas o ET não faz a fé entrar em crise: “O que aprendemos não anula o que já sabemos. Se um dia descobrirmos que não estamos sozinhos no universo, tudo aquilo em que cremos não é que seja incorreto, pelo contrário, nos daremos conta de que é mais verdadeiro, de modos e formas que nunca pudemos imaginar”. Para confirmar tudo isso, o padre Consolmagno cita o Evangelho de São João: “No princípio era o Verbo, isto é, Jesus, a segunda pessoa da Trindade. O Verbo é a salvação, a encarnação de Deus no universo. Segundo o Evangelho, o Verbo existia antes do universo. O único ponto no espaço-tempo que é o mesmo em todas as linhas temporais. Este é o modo como a salvação acontece, e aqui se manifestou na pessoa de Jesus Cristo”. Antes da criação do universo, Cristo já existia; e, portanto, abraçava, não apenas a nós e a terra, mas a outros hipotéticos seres.

“O ateísmo moderno tende a considerar Deus simplesmente como uma força que “enche os vazios” em nossa compreensão do universo” – observa o jesuíta nascido em Detroit em 1952. “Mas usar Deus para encher os vazios de nosso conhecimento é teologicamente enganoso, já que minimiza Deus e o reduz a outra força dentro do universo em vez de reconhecê-lo como fonte de criação. Aqueles que crêem em Deus não deveriam temer a ciência, mas deveriam considerar a ciência como uma oportunidade que Deus deu à humanidade para que o conheça melhor”. A fé e a razão são como que as duas asas com as quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. É Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em definitiva, de conhecê-lo a Ele próprio, para que, conhecendo-o e amando-o, possa alcançar também a plena verdade sobre si mesmo. O padre Guy Consolmagno precisa que acredita em Deus “não porque Ele seja o final de uma cadeia lógica de cálculos, mas porque experimentou que a física e a lógica podem mostrar-me a beleza, a razão e o amor, mas não explicá-los”. Além disso, a fundamental diferença entre o jesuíta e o cientista ateu Stephen Hawking é que ele reconhece que Deus não é outra parte do universo que explica o inexplicável, mas o “Logos”, a “Razão” mesma.

As outras religiões ou filosofias podem dar-nos uma visão racional do universo, mas “apenas o Evangelho pode nos dizer que a razão mesma se materializa entre nós na forma de Jesus Cristo”. “Tomás de Aquino fala de numerosos mundos”. A encarnação, segundo o Evangelho, aconteceu aqui; mas poderia valer também em qualquer outro lugar. “A Bíblia é a ciência divina, um trabalho sobre Deus” – precisa o padre Consolmagno. “Não é necessário que seja ciência física” e explique como o universo foi construído. Mas um universo sem limites “poderia incluir outros planetas com outros seres criados pelo mesmo Deus de amor. A ideia da existência de outras raças e outras inteligências não é contrária ao pensamento tradicional cristão. Não há nada nas Sagradas Escrituras que possa confirmar ou contradizer a possibilidade de vida inteligente em outras partes do universo”. Nosso conhecimento não é completo; e é uma loucura “subestimar a capacidade de Deus para criar com uma profundidade de modos que nós não entenderemos nunca completamente”. E, portanto, seria da mesma maneira arriscado pensar que “entendemos a Deus completamente”, limitando sua ação ao planeta Terra, e aos outros seres humanos. Observar os asteroides, os meteoritos e os corpos celestes “é uma das coisas que me aproximam de Deus”. Santo Tomás, “que sempre foi proposto pela Igreja como mestre do pensamento e modelo do reto modo de fazer teologia”, reconhece que a natureza, objeto precisamente da filosofia, pode contribuir para entender a revelação divina.

A fé, portanto, não tem medo da razão, mas que a busca e confia nela. Assim como a graça supõe a natureza e a leva a término, do mesmo modo a fé supõe e aperfeiçoa a razão. Esta última, iluminada pela fé, se libera da fragilidade e dos limites derivados da desobediência do pecado e encontra a força necessária para elevar-se ao conhecimento do mistério de Deus Uno e Trino. Já João Paulo II, na encíclica Fides et Ratio, de 1998, advertia que “muitos arrastam sua vida até quase a borda do abismo, sem saber o que vão encontrar”.

A filosofia, que tem a grande responsabilidade na formação do pensamento e da cultura através do “apelo permanente à busca do verdadeiro”, tem que recuperar com força sua vocação original. Portanto, não há motivo para que exista “nenhuma competitividade entre a razão e a fé: uma está dentro da outra, e cada uma delas tem seu próprio espaço de realização”. Assim que, “a fé pede que seu objeto seja compreendido com a ajuda da razão; a razão, no auge de sua busca, admite que é necessário aquilo que a fé apresenta”. Crer na possibilidade de conhecer a verdade universalmente válida não é, em hipótese alguma, fonte de intolerância; pelo contrário, é condição necessária para um sincero e autêntico diálogo entre as pessoas. E os cientistas, com sua pesquisa, “nos dão um crescente conhecimento do universo em seu conjunto e da variedade incrivelmente rica de seus componentes, animados e inanimados, e das complicadas estruturas atômicas e moleculares”.

Giacomo Galeazzi para o Vatican Insider, 20-03-2012. 
Tradução do Cepat, aqui reproduzida via IHU.


Leia também:  Entre Deus e o Big Bang está o astrônomo do papa

O que entendo por verdade


(...) Ninguém sabe tudo sobre Machado de Assis, matemática, física quântica ou futebol. O arroubo teológico de possuir a verdade pela correta dissecação de um texto bíblico é tontice. Não há nenhum sistema que abarque a verdade sobre Deus.

Ao preocupar-me com problemas éticos e práticos de meu compromisso humano, saberei me manter flexível nos pressupostos teóricos. Ao lidar com pessoas reais, que vivem problemas reais, que fazem perguntas reais, reconhecerei que a vida transborda para além dos sistemas de pensamento.

Teologar é assumir compromisso de jamais considerar que as afirmações teóricas estão acima da vida. As questões “duras” de nossa contemplação devem coincidir com as que dizem respeito às pessoas. Que as pessoas nos intriguem, não teorias livrescas. O teólogo tem que ser, antes de tudo, um realista. Realismo: esforço de trazer para perto da vida, coração e mente; isto é, emoção e razão. O Logos, o Verbo, se fez carne. No cristianismo vimos, tocamos e cheiramos a verdade encarnada, não pensada.

O conhecimento do Verbo não se restringe ao racional. Ele foi uma pessoa. O conhecimento de Deus extrapola o cogito moderno. Cristianismo é sinônimo de compromisso, comunhão, solidariedade e busca da justiça. A obediência da fé tem mais possibilidade de compreender os mistérios de Deus que o estéril exercício da racionalidade.

Teologia não se algema à letra do texto. O texto, analisável gramaticalmente, mata. Certas verdades só são captadas pelo espírito. Elas pulsam na esfera da sensibilidade. Só com um novo nascimento, uma iniciação indescritível, vê-se o que está no sobrenatural. Para apreender o mistério divino é preciso nadar no rio que não dá pé. Encontram Deus os que voam com asas de águia. O Espírito batiza, mergulha no amor aqueles que buscam a Deus.

Só arranhamos a superfície do conhecimento de Deus, mesmo quando caem viseiras espirituais, rasgam-se máscaras da soberba e rompem-se vícios da linguagem.

(...)

Não se faz teologia para gerar adeptos, mas para transformar o próprio teólogo. O processo que articula ideias sobre Deus não pode desencadear intolerância, soberba, exclusivismo. Essa sabedoria merece ser descartada como demoníaca.

Teologia não pode ensimesmar. Pensar com liberdade significa vigiar para que vantagens, amparos, privilégios, não impeçam a alma de ser compassiva. É fácil abstrair sobre o sofrimento universal enquanto se vive em zona de segurança.

Se o projeto de Deus para a humanidade inclui o câmbio de corações de pedra em corações de carne, então que o processo comece por aqueles que compreenderam essa verdade. O teólogo molha os textos de lágrimas, impregna seu discurso com misericórdia, calça a história de ternura.

Conhecer a verdade significa dispor-se a caminhar ao sabor do vento; atirar-se a um navegar impreciso, trabalhar constrangido pelo amor e vivificado pela graça. O bom pensador enlaça a fragilidade com a bem-aventurança da mansidão – e com ela herda a terra.

(...) Em verdades assim eu creio.

Soli Deo Gloria

- Ricardo Gondim
Reproduzido a partir do site do autor

quinta-feira, 29 de março de 2012

Estudo investiga por que ex-católicos abandonaram a Igreja


Em um estudo incomum cujos principais resultados foram divulgados em uma conferência na Catholic University of America, em Washington, no dia 22 de março, a Villanova University, na Filadélfia, perguntou aos ex-católicos da diocese de Trenton, Nova Jersey, por que eles abandonaram a Igreja.

Embora os resultados em si mesmos não sejam surpreendentes, segundo os pesquisadores, o estudo sugere novas formas pelas quais a Igreja pode se aproximar dos católicos que estão insatisfeitos com o que a Igreja ensina e com a forma como ela atua – incluindo aqueles tão insatisfeitos que decidiram ir embora.

Uma das suas principais recomendações foi que os párocos, bispos e outras autoridades da Igreja respondam, de forma consistente, com diálogo construtivo aos questionamentos de católicos irritados, e não com uma simples reiteração das regras ou políticas eclesiais.

O padre jesuíta William J. Byron (foto), professor de administração da St. Joseph’s University, na Filadélfia – que colaborou no estudo com Charles Zech, fundador e diretor do Center for the Study of Church Management da Villanova’s School of Business –, citou diversas vezes uma resposta de um católico desfiliado que se queixou: "Faça uma pergunta a um padre e você receberá uma regra. Você não recebe uma resposta do tipo 'Vamos sentar e conversar sobre isso'".

Byron e Zech disseram aos participantes da conferência na Catholic University of America que muitas das respostas dos católicos não praticantes ou desfiliados da diocese de Trenton correspondiam ao que os pesquisadores sabiam a partir de outras pesquisas: eles se opõem ao que veem como uma atitude não acolhedora da Igreja com relação aos gays e lésbicas, ou com relação aos divorciados em segunda união; acham as homilias sem inspiração; a paróquia, não acolhedora; o pároco, arrogante; ou a equipe da paróquia, indiferente; ou sofreram terríveis experiências pessoais com um padre ou outra autoridade eclesial, como a rejeição por serem divorciados.

Alguns dos ex-católicos se queixaram do fato de os padres serem muito liberais, enquanto outros citaram "a verborragia extremamente conservadora" que ouviam nas homilias – refletindo as divisões políticas intracatólicas que refletem divisões semelhantes na sociedade norte-americana mais ampla.

Surpreendentemente, disse Byron, embora todos os que responderam à pesquisa abandonaram a Igreja por vários motivos de insatisfação, "apenas metade dos entrevistados foram marcadamente negativos" em sua avaliação do seu pároco mais recente. Havia "muitas respostas entusiastas e positivas" acerca dos pastores mais recentes, relatou.

Byron e Zech observaram que as respostas – às quais a Villanova teve acesso a partir de uma série de anúncio publicitários nas mídias católicas e seculares locais – não tinham a pretensão de representar uma pesquisa sociológica por amostragem aleatória. Elas eram o que Byron chamou de "pesquisa de conveniência", representando apenas as respostas utilizáveis dos 298 ex-católicos da diocese de Trenton que ficaram sabendo da pesquisa através dos anúncios midiáticos locais e sentiram fortemente o convite a ponto de responder por correio ou pela Internet.

Antes da conferência de três horas em Washington, por e-mail ao NCR, o bispo David M. O'Connell (foto), de Trenton, disse que havia convidado Byron e Zech para realizar a pesquisa com os ex-católicos da sua diocese depois de ler um artigo que Byron escreveu no ano passado na revista America, uma revista jesuíta nacional, sugerindo que "entrevistas de saída" com ex-católicos poderiam ajudar a Igreja a entender melhor por que os católicos abandonam a Igreja e a responder de forma mais eficaz às suas preocupações.

"Quando eu me tornei bispo de Trenton, em dezembro de 2010, eu fiquei sabendo que apenas 25% da nossa população católica participava da missa regularmente", escreveu O'Connell. "Essa porcentagem [a média mensal que a maioria das dioceses norte-americanas usam para contabilizar a participação na missas e como norma para medir as tendências locais de participação nas missas] diminuiu um pouco em outubro de 2011. Isso me preocupou muito".

O'Connell, que, como Byron, foi ex-reitor da Catholic University of America (Byron de 1982 a 1992; O'Connell de 1998 a 2010), disse ter perguntado a Byron como explorar na diocese de Trenton a ideia de Byron sobre as "entrevistas de saída" para ver por que os católicos abandonam a Igreja e o que poderia ser feito a respeito.

Byron disse em Washington que seu o artigo na revista America foi motivado por uma conversa que ele tivera com um proeminente líder empresarial católico de Nova Jersey, que sugeriu que, se qualquer loja perdesse clientes, sua primeira resposta deveria ser fazer entrevistas de saída para ver por que os clientes não estavam mais comprando lá.

Resposta pastoral criativa

Em seu e-mail ao NCR, O'Connell destacou uma das conclusões do estudo de Zech-Byron, a saber, que um dos desafios mais imediatos diante da Igreja dos EUA é esclarecer aos católicos a importância central da Eucaristia em suas vidas.

"Se apenas 25% ou menos dos nossos católicos participam da Eucaristia regularmente, eu acho que temos uma séria preocupação", disse. "A média nacional é quase a mesma [que a da diocese de Trenton]. Precisamos engajar os nossos católicos de tal forma que vejamos a Eucaristia como a 'fonte e o ápice' da vida cristã, uma parte necessária do quem somos na Igreja".

Zech e Byron recomendaram que O'Connell se concentre mais imediatamente em "uma explicação renovada da natureza da Eucaristia" e em "uma criativa resposta litúrgica, pastoral, doutrinária e prática" às queixas sobre a qualidade das liturgias católicas do fim de semana, especialmente acerca da música e das homilias.

Uma questão lateral sobre as homilias – nem mesmo observada no estudo ou em sua apresentação na conferência – foi citada depois ao NCR por Mary Gautier, antiga pesquisadora do Centro para Pesquisa Aplicada no Apostolado, com sede na Georgetown University, em Washington. Ela disse ao NCR que, atualmente, um terço dos padres ativos nas dioceses dos EUA – 6.000 de um total de 18.000 sacerdotes – são estrangeiros, e muitas vezes suas homilias não são compreendidas por muitos membros da comunidade.

Mais relacionada com o estudo da Villanova e a conferência é a questão de como as práticas paroquiais convidam ou deixam de convidar os católicos a fazer parte de uma comunidade de fiéis que compartilham um compromisso como discípulos de Cristo.

William Dinges, professor do departamento de teologia e de estudos religiosos da Catholic University, disse que as pesquisas da década de 1940 e 1950 indicavam que os católicos norte-americanos e os aderentes a outras religiões eram bastante idênticos em termos de sua adesão a crenças e práticas religiosas dos seus antepassados.

Isso começou a mudar para os católicos depois do Concílio Vaticano II, na década de 1960, disse ele, embora tenha ressaltado que isso não se deveu só ao Concílio, mas também a uma grande variedade de outros fatores que influenciaram a filiação, a participação e o senso de filiação à Igreja Católica dos EUA nos anos do pós-Concílio.

Byron disse que as descobertas de Trenton exortam as lideranças católicas a serem mais sensíveis às preocupações dos leigos católicos.

Em um certo momento durante a sessão de perguntas e respostas da discussão, quando a crescente escassez de padres foi levantada como um problema, Byron desafiou abertamente as posições católicas oficiais acerca do celibato sacerdotal e da ordenação de mulheres.

Chamando a exclusão de homens e de mulheres casados da ordenação de "barreiras institucionais", ele disse que tais ordenações "podem não acontecer", e muitos argumentariam que "não deveriam acontecer", mas defender que essas coisas são "impossíveis" é negar que "nada é impossível para Deus".

"Podemos estar sufocando o Espírito" com a "nossa resistência para responder" à atual escassez de padres, mediante a recusa da Igreja de expandir suas regras sobre quem pode ser ordenado, disse.

Byron disse ao NCR que ele e Zech já receberam alguns convites para realizar estudos semelhantes em outras dioceses, e ele espera que mais pedidos surjam depois de um artigo que deverá ser publicado na revista America em abril sobre os resultados do estudo de Trenton.


- Jerry Filteau
Fonte: Unisinos, via Amai-vos

Chile: igrejas condenam ataque a jovem homossexual

Foto daqui

Agredido no Parque San Borja, em Santiago do Chile, por quatro neonazistas no sábado, 4 de março, o jovem Daniel Zamudio, 24 anos, homossexual, não suportou os ferimentos e faleceu, ontem, nesta cidade - conforme havíamos publicado aqui, ao divulgar a carta aberta escrita ao rapaz pelo padre jesuíta Marcos Cárdenas.

O arcebispo de Santiago, Ricardo Ezzati Andrello, pediu “uma convivência mais humana e sem violência” Não se pode construir o futuro da comunidade humana sobre a base da intolerância, agressão e violência. "É de deplorar com firmeza que as pessoas homossexuais tenham sido e sejam ainda objeto de expressões malévolas e de ações violentas. Tais comportamentos merecem a condenação dos pastores da Igreja, onde quer que se verifiquem”, argumentou em nota à imprensa.

A Igreja Evangélica Luterana no Chile também se manifestou nas redes sociais. “Não devemos nos enganar colocando a culpa em dois ou três torturadores, porque o sadismo da nossa cultura, que faz do vexame uma prática diária da vida em sociedade, é mais sutil e perigosa. Até com a Bíblia se golpeia os que são e vivem de modo diferente”, assinalou.

Fonte: IHU


Abre o teu Evangelho e medita

Foto: David Lazar

- Abre o teu Evangelho, olha para ele e toma nota do que te vou dizer.

Deu-me um lápis.

- Procura, primeiramente, no Evangelho de São Mateus, o sexto capítulo, e lê, desde o quinto ao nono versículo (Mt 6,5-8). Aqui está a preparação ou a introdução. Ensina, que não é na vaidade, nem no meio do barulho, mas num lugar isolado e tranquilo que se deve orar; orar para pedir perdão pelos nossos pecados, em união com Deus. Não se deve fazer muitos pedidos sobre as necessidades do dia a dia, como fazem os pagãos.

Depois, lê ainda do nono até ao décimo quarto versículo (Mt 6,9-13), onde encontras a forma da oração, isto é, as palavras que devemos pronunciar. Tudo o que precisamos para a nossa vida está aqui sabiamente reunido. Lê também o décimo quarto e décimo quinto versículos deste capítulo e verás qual a condição que é necessária manter, para que a oração seja efetiva, pois se não perdoarmos aos que nos ofendem, Deus não perdoará os nossos pecados.

No sétimo capítulo, do sétimo ao décimo segundo versículo, encontramos os meios para o sucesso na oração e a aprovação na esperança: pedir, procurar, bater. Esta expressão intensa representa uma parte da oração e o exercício principal, para que a oração não só esteja presente em todas as ações, mas que as supere no tempo. Esta é a principal riqueza da oração... Verás o exemplo no décimo quarto capítulo do Evangelho de São Marcos, do trigésimo segundo versículo ao quadragésimo, onde o próprio Jesus Cristo repete as mesmas palavras na oração. Encontramos um exemplo semelhante no Evangelho de São Lucas (cf. Lc 11,5-13) na parábola do amigo importuno e na parábola do juiz iníquo e da viúva (cf. Lc 18,1-14), apresentando o mandamento de Jesus, que nos manda rezar sempre, a toda a hora e em qualquer lugar; orar e não desanimar, isto é, não se entregar à preguiça.

Além destes sensatos conselhos, o Evangelho de São João mostra-nos ainda um ensinamento fundamental sobre a misteriosa oração interior do coração. Em primeiro lugar, assistimos à conversa de Jesus Cristo com a samaritana, onde é revelado o culto interior a Deus do espírito e da verdade, como Deus deseja, e que representa a verdadeira oração permanente, como uma nascente de água viva a jorrar para a vida eterna 0o 4,5-24).

Mais à frente, no décimo quinto capítulo, do quarto versículo ao oitavo, descreve-se, ainda de forma mais clara, a força, a potência e a necessidade da oração interior, isto é, o refúgio da alma em Cristo, na recordação eterna de Deus.

Depois, lê, no décimo sexto capítulo, do vigésimo terceiro ao vigésimo quinto versículo, no mesmo Evangelho. Que mistério aí se nos apresenta! Vê que a oração em nome de Jesus, ou como é conhecida, a oração de Jesus «Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim!», se repetida frequentemente, tem uma força enorme, e ilumina o nosso coração. Isso nos é dado ver nos Apóstolos, que, sendo discípulos de Jesus Cristo há menos de um ano, aprenderam a rezar ao Senhor, isto é, o «Pai-Nosso».

Sabemos também que, no fim da sua vida terrena, Jesus Cristo lhes desvendou o seu mistério, para que a oração fosse definitivamente um sucesso. Ele disse-lhes: «Nesse dia nada me perguntareis. Em verdade vos digo que tudo quanto pedirdes a meu Pai, em meu nome, Ele vos dará. Até agora, nada pedistes em meu nome; pedi e recebereis» (Jo 16,23-24). Assim sucedeu. Quando os Apóstolos aprenderam a dizer a oração em nome de Jesus Cristo, então, realizaram-se milagres admiráveis, e eles próprios ficaram maravilhados!

Vês agora a ligação e a plenitude do ensinamento sobre a oração, tão sabiamente exposta no Evangelho? Se, depois, começares a leitura das Epístolas dos Apóstolos, aí encontrarás, consequentemente o ensinamento da oração.

Para continuarmos as observações anteriores, indico-te algumas passagens que revelam os atributos da oração. Nos Atos dos Apóstolos, descreve-se a prática, isto é, o exercício aplicado e permanente na oração dos primeiros cristãos, instruídos na fé em Jesus Cristo (cf. Act 4,31). Indicam-nos os frutos ou os resultados da oração permanente, isto é, a expansão do Espírito Santo e das suas dádivas àqueles que oram.

Verás algo semelhante no décimo sexto capítulo, nos versículos vinte e cinco e vinte e seis. Continua, ordenadamente a leitura das Mensagens dos Apóstolos e verás:

1) como a oração é necessária em todos os atos da vida (Tg 5,13-16);
2) como o Espírito Santo ajuda a rezar (Jd 20-21; Rm 8,26);
3) como devemos rezar com o espírito (Ef 6,18);
4) como é necessário, ao orarmos, sossego ou paz interior (Fl 4,6-7);
5) como é necessário orar sem cessar (1 Ts 5,17);
6) finalmente, notamos que devemos rezar não só por nós, mas por todos (1 Tm 2,1-5).

In Relatos de um peregrino russo, ed. Paulinas

Fonte: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal)

quarta-feira, 28 de março de 2012

Fundamental


"Só uma coisa era fundamental (e dificílima): ACREDITAR."
- Caio Fernando Abreu

O débito constitucional em direitos humanos

Imagem daqui

São passados 24 anos desde que a Constituição estabeleceu o princípio da não discriminação, independentemente do motivo. O mundo civilizado tem cada vez mais reconhecido as homossexualidades enquanto uma modalidade de orientação sexual e avançado na cidadania isonômica em relação aos heterossexuais.

Na capital da Paraíba, segundo divulgou o IBGE, apenas em três bairros de João Pessoa não houve quem se declarasse viver em união homoafetiva no recenseamento de 2010: em 95% dos bairros que compõem João Pessoa houve quem se declarasse viver em união estável com companheira ou companheiro do mesmo sexo.

Segundo os registros do IBGE, há em toda João Pessoa 718.919 domicílios. Destes, 396 apresentaram declaração de vida conjugal homoafetiva: "Dos 63 bairros de João Pessoa, 38 têm até cinco domicílios nestes moldes segundo a apuração."

Ocorre, porém, que na mesma Paraíba, em 19 de novembro de 2011 a Ong Movimento do Espírito Lilás (MEL) apurou que teria havido uma média mensal de 2 lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais assassinados na Paraíba, somente nos oito dos 223 municípios da Paraíba: Em dez meses, 18 pessoas foram mortas no estado [afirmou o presidente do MEL, Renan Palmeira].

Dados compilados pelo histórico Grupo Gay da Bahia (BBG) dão conta que a Paraíba está em segundo lugar no ranking nacional de crimes cometidos com motivação homofóbica. O estado de Pernambuco ocupa o primeiro lugar com 19 crimes. A Bahia e São Paulo dividem a terceira posição, cada um com 17 homicídios.

Ainda segundo matéria publicada no sítio Gay 1 Brasil, integrantes da Ong MEL percorreram, por dois meses, às próprias expensas e em companhia de representantes da OAB, seccional da Paraíba, delegacias de 8 municípios do estado (Santa Rita, Sousa, Patos, Bananeiras, Campina Grande, Queimadas, Cabedelo e João Pessoa), levantando dados acerca dos delitos por motivação de ódio contra LGBTTs: “Não existe um levantamento oficial. Nós viajamos com recursos próprios para realizar a primeira parte do levantamento”, disse Renan Palmeira.

Fato. Até o ano passado, apenas se podia contar com o trabalho sistemático (e por muitos anos incompreendido) do antropólogo fundador do GGB e principal responsável pela iniciativa da reunião das notícias veiculadas na imprensa sobre crimes vitimando homossexuais, travestis e transexuais. Hoje, nem isso. O acadêmico Luiz Mott comunicou publicamente em dezembro de 2011 que não mais faria essa compilação dos crimes de natureza homofóbica praticados (impunemente) no Brasil: aviso pela última vez: transfiro à Secretaria de Direitos Humanos a responsabilidade pela manutenção do banco de dados sobre assassinatos de LGBT no Brasil.

Desde o início dessa catalogação, divulgada em agosto de 1981, no Boletim nº 1 do GGB (MOTT, 2011, pág. 11), o Grupo deixava explícito que ela era certamente incompleta. No entanto, nesses já mais de 17 anos que se tem podido contar com linhas de financiamento (nacionais, internacionais) para pesquisas e projetos, jamais qualquer Ong ou núcleo acadêmico de pesquisa teve a iniciativa de tomar a si a tarefa de aperfeiçoar aquela compilação. A única pesquisa que se tem notícia a monitorar o encaminhamento dado pelas instituições policiais e judiciárias aos delitos originários pelo ódio a LGBTTs foi realizada pelos antropólogos Sérgio Carrara e Adriana R. B. Vianna, do IMS/UERJ, e divulgada em 2004.

Segundo informam, os pesquisadores partiram de notícias veiculadas em jornais e, em seguida, buscaram localizar os seus desdobramentos nos arquivos da polícia e do Judiciário fluminenses. Foram encontrados “105 registros de ocorrência e 57 processos, envolvendo 108 vítimas do sexo masculino que apareceram na imprensa como homossexuais” (CARRARA e VIANNA, 2004, p. 366, nota 5). Parte do mesmo contexto no qual, em 1992, por exemplo, 92% dos homicídios foram arquivados no município do Rio de Janeiro (Soares et al apud CARRARA e VIANNA, 2004, p. 372, nota 9), aqueles 105 registros de ocorrência resultaram em apenas 57 processos. Dos 23 discutidos no artigo, 15 foram arquivados; em 5 houve condenações; e em 3, absolvição (CARRARA e VIANNA, 2004, p. 366, nota 5 e p. 372).

Os 23 processos analisados tratam de crimes de latrocínio (art. 157 do CP). Para melhor observar e discutir as sociodinâmicas presentes nesse tipo penal quando homossexuais (masculinos) são as vítimas, em contexto onde a homossexualidade é culturalmente desqualificada, Carrara e Vianna trabalham a partir da noção de “crimes de lucro”, proposta por Ramos e Borges em 2001. Estes autores definem “crimes de lucro” como formas de violência que visam a obtenção de algum ganho – chantagem, extorsão, por exemplo (RAMOS e BORGES, 2001, 75). Conseqüência da fixação dos homossexuais no lugar da abjeção e da ignomínia, a engendrar relações pautadas pela clandestinidade, predominaram, nos casos presentes nos autos examinados, a assimetria socioeconômica e geracional entre os assassinos e suas vítimas. Em diversos deles os criminosos foram apresentados como “garotos de programa”, embora igualmente tenha-se verificado exceções a essa característica geral (CARRARA e VIANNA, 2004, p. 367 e nota 7).

Depois de examinarem os 23 processos criminais autuados entre 1981 e 1989, tendo homossexuais masculinos como vítimas, Carrara e Vianna concluíram que os campos policial e judiciário penal (neste incluídos advogados, promotores e magistrados) mostravam-se fortemente influenciados pelas noções fixadas “por psiquiatras, sexólogos e médicos-legistas ao longo do século XX, segundo as quais a homossexualidade era compreendida como doença ou anomalia” (CARRARA e VIANNA, 2004, p. 366). Essa forma de representação da homossexualidade (“a gramática ativo-passivo”, aliada às noções das vítimas como seres “melancólicos”, “tristes”, “solitários”, “promíscuos”, adictos ao sexo, degenerados, anômalos) marcava de forma determinante os discursos dos profissionais de ambos os campos e, via de conseqüência, os modos de desempenho das funções investigativa e julgadora.

Por um lado, a sexualidade da vítima aparece majoritariamente vista no interior dessa moldura desqualificatória e culpabilizadora, enquanto que a dos agressores “nunca é problematizada de fato, uma vez que a capacidade de ser sexualmente ‘ativo’ os inclui na categoria mais geral de ‘homens’”, isto é, livres da classificação desqualificante de homossexuais (CARRARA e VIANNA, 2004, p. 381). Profundamente influenciados por tais representações sentenças ambivalentes foram produzidas:
Em pelo menos um dos casos, o assassinato do professor AVB, sua evocação com sucesso parece ter sido decisiva para a absolvição do réu confesso. Em um maior número de casos, ou porque a vítima não consegue ser inteiramente capturada nessa imagem ou porque para alguns juízes ela não justifica inocentar um assassino, os réus acabam condenados (CARRARA e VIANNA, 2004, p. 382).

Os achados dessa pesquisa nos levam à constatação de que, longe do ideal de neutralidade e imparcialidade difundido como sendo o seu modus operandi, o Judiciário na realidade de seu ofício cotidiano produziu decisões marcadamente influenciadas pelas pessoais representações da homossexualidade que seus agentes sejam portadores. Por ausência de pesquisas e dados estatísticos, não sabemos como o Judiciário e a polícia judiciária tem enfrentado tais crimes em épocas mais recentes.

No entanto, tendo em vista a espiral ascendente dos delitos motivados por essa representação desqualificadora e estigmatizante da homossexualidade, travestilidade e transgeneridade, é possível imaginar, igualmente, a continuidade da impunidade específica, no grande oceano de impunidade geral que nos caracteriza. Fator que atua como elemento estimulador, ao lado dos discursos reprovadores das homossexualidades, partindo de personalidades públicas como os Deputados Federais integrantes da chamada “Bancada Evangélica” (sic) e algumas autoridades eclesiásticas – católicas e evangélicas.

Na opinião da Senadora Marta Suplicy, de 1995 – quando ela apresentou o projeto de parceria civil homoafetiva -, até os dias atuais, “o Brasil retrocedeu e muito. O Judiciário avançou e o Executivo avançou [...], ele avançou corajosamente, quem se apequena, quem tem medo, é o Legislativo. O Legislativo não avança.” (FILHO, 2011).

No canal de denúncias de violações dos direitos humanos instituído pelo Governo federal em janeiro de 2011, após seis meses o Módulo LGBT (disque 100) ostentava 560 reclamações – o que representa 3 por dia. Desse total, 20% se originaram em São Paulo. O Presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis e Transexuais – ABGLT –, Toni Reis, afirma tratar-se de um número muito elevado e grave, principalmente tomando em referência o fato de que o número da central de denúncia ainda não era de amplo conhecimento do público-alvo. Em novembro de 2011 o serviço contabilizava 1.067 denúncias. Destas, foram apuradas 3.455 violações. No topo aparecem a violência psicológica, com 46,5% e a discriminação, com 29,41% (DISQUE, 2011). A Ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, divulgou nota afirmando que “a situação é urgente e merece toda a nossa atenção para a promoção de um ambiente de paz e respeito à diversidade” (GAY1, 21/07/2011).

Alie-se a este quadro a capacidade que tem demonstrado o bloco evangélico para submeter todo o Congresso à sua peculiar visão de mundo e impedir que o Legislativo Federal cumpra sua função e regulamente a Constituição da República, fixando as sanções decorrentes das práticas discriminatórias em razão de orientação sexual e identidade de gênero. Na atual legislatura, a Frente Parlamentar Evangélica (um fenômeno sui generis, em se tratando de país laico) contabiliza 66 deputados “cristãos”, de um total de 513, o que equivale dizer que 447 são laicos. No Senado, de um total de 81, somente 3 buscam impor sua pessoal visão religiosa sobre a nação, enquanto que 78 seguem os preceitos constitucionais da separação entre estado e religião (GERALD, 2012). Embora tão minoritários, tais parlamentares vem conseguindo aparelhar e impor a paralisia de todo o Congresso Nacional no tocante ao reconhecimento e proteção dos Direitos Humanos ao segmento de cidadãos composto por travestis, transexuais, gays, lésbicas e bissexuais. Ao imporem sua visão de mundo sobre o Legislativo, terminam por impô-la sobre toda a nação, afrontando o princípio republicano da laicidade.

Enquanto o Congresso Nacional brasileiro se deixa pautar pelas pessoais convicções religiosas de sua diminuta parcela (66 deputados e 3 senadores), são passados 24 anos desde que a Constituição estabeleceu o princípio da não discriminação, independentemente do motivo. No curso desse tempo, o mundo civilizado tem cada vez mais reconhecido as homossexualidades enquanto uma modalidade de orientação sexual e avançado na efetividade da cidadania isonômica em relação aos heterossexuais. Personalidades como o Secretário Geral da ONU Ban Ki-moon; a Secretária de Estado dos EUA, Hilary Clinton; e a Presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, já se manifestaram publicamente em defesa dos Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Travestis, Transexuais.

A Alta Comissária da ONU, Navy Pillay, tem chamado atenção dos governos nacionais para o continuado aumento dos crimes homofóbicos e os exortado a tomarem medidas para acabar com a discriminação e com o preconceito baseado na orientação sexual ou na identidade de gênero. Segundo Pillay, “Ninguém tem o direito de tratar um grupo de pessoas como sendo de menor valor, menos merecedores ou menos dignos de respeito” (ONU, 2011).

Em sete de fevereiro do corrente ano o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, em sentença unânime proferida no caso Vejdeland e outros v. Suécia, declarou que o direito à liberdade de expressão não pode estar a serviço da intolerância, da promoção do ódio e da estigmatização: Fases de conteúdo discriminatório, ofensivas aos homossexuais como grupo, representam imputações graves e danosas, ainda que não haja incitamento direto a crimes de ódio. Para a Corte Européia, a discriminação fundada na orientação sexual é tão ofensiva quando aquela baseada em “raça, origem e cor” (VEJDELAND, 2012).

Durante painel na 19ª Reunião do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, realizada em Genebra em 07 de março de 2012, as práticas discriminatórias relacionadas com a orientação sexual e identidade de gênero integrava a agenda de discussões. A alta comissária dos Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, mencionou o modus operandi dessa violência específica: "Temos relatórios sobre homens gays atacados por agressores que gritavam insultos homofóbicos e sobre outros mortos na rua, lésbicas submetidas a estupros coletivos, às vezes descritos como ''estupros corretivos'': "Pessoas transexuais agredidas sexualmente e apedrejadas até a morte, com os corpos tão desfigurados que era quase impossível reconhecê-las. E também temos informação sobre o abuso cometido em celas de delegacias e prisões", acrescentou Pillay (EFE, 2012). Suponho ser desnecessário destacar que os tipos de violências referidos por Pillay são profundamente familiares e frequentes em nosso Brasil. Em vídeo apresentado durante a sessão, o Secretário Geral Ban Ki-moon voltou a se manifestar contra a discriminação e violência baseadas na orientação sexual e identidade de gênero:
"A todos aqueles que são lésbicas, gays, bissexuais ou transexuais, permitam-me dizer que vocês não estão sós. Sua luta contra a violência e a discriminação é uma luta conjunta. Qualquer ataque sobre vocês é um ataque sobre os valores universais".
Ban Ki-moon acrescentou ainda que esse segmento social sofre discriminação nos empregos, escolas e hospitais, assim como ataques pessoais que incluem a violência sexual (ONU, 2012).

Até mesmo Cuba, país que nas primeiras décadas de sua revolução executou política de violenta repressão e mesmo assassinato contra travestis, gays e lésbicas, manifestou-se contrária à discriminação por motivo de orientação sexual e identidade de gênero. Seu delegado à reunião, Juan Antonio Quintanilla, declarou: “todo ato de discriminação ou violência contra qualquer pessoa é condenável, injustificado e ilegal, incluindo aqueles sustentados em motivos como raça, cor, sexo, orientação sexual, idioma ou religião” (PRENSA LATINA, 2012).

No Brasil, a além da ministra dos direitos humanos e da ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres, o Ministro de nosso tribunal constitucional, Carlos Ayres Britto, já se pronunciou publicamente sobre a violência e a discriminação sofrida por esse segmento social. Em sua opinião, trata-se de uma "prática que chafurda no lamaçal do ódio". Britto também defendeu a tipificação dessa conduta (entrevista ao jornal Folha de São Paulo, em 04/07/2011).

Diante de semelhante conjuntura, uma pergunta surge, inevitável:
– Seguirão os representantes do povo brasileiro a permitir que se repita a mesma história verificada durante a luta contra a escravidão, quando Brasil figurou na história como o último país a abolir aquela infâmia?
– Quantos mais precisarão ser assassinados e espancados?

- Rita C. C. Rodrigues
Publicado originalmente na Jus Navigandi

Referências:
BARROS, Ana Claudia. Bahia começa 2012 liderando ranking de assassinatos de homossexuais. Terra Magazine, 20/01/2012. Disponível em: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5569036-EI6578,00-Bahia+comeca+com+numero+recorde+de+assassinatos+de+homossexuais.html
CARRARA, Sérgio e VIANNA, Adriana R. B. “As vítimas do Desejo”: Os tribunais cariocas e a homossexualidade nos anos 1980. In: PISCITELLI, Adriana, GREGORI, Maria Filomena e CARRARA, Sérgio (orgs.). Sexualidades e Saberes: Convenções e Fronteiras. Rio de Janeiro: Garamond, 2004, p. 365-383.
COLAÇO, Rita. PLC 122/2006: O Parlamento, o Executivo, os Direitos Humanos, o fisiologismo e o obscurantismo religioso e cultural. Disponível em:
http://comerdematula.blogspot.com/2011/12/plc-1222006-o-parlamento-o-executivo-os.html
DISQUE Direitos Humanos. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. http://www.sedh.gov.br/clientes/sedh/sedh/2011/12/22-dez-2011-orcamento-2012-para-populacao-lgbt-sera-64-maior-em-relacao-a-2011
EFE, Agência. Países islâmicos abandonam debate na ONU sobre liberdade sexual. UOL notícias, 07/03/2012. Disponível em: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2012/03/07/paises-islamicos-abandonam-debate-na-onu-sobre-liberdade-sexual.htm
ELEIÇÕES Hoje. 235 LGBTs assassinados até novembro. 14/12/2011. Disponível em: http://www.eleicoeshoje.com.br/235-lgbt-assassinados-novembro/#axzz1kgULKI00
FILHO, Hélio. Legislativo tem medo de avançar na questão LGBT, diz Marta. Mix Brasil, 05/04/2011. Disponível em: http://mixbrasil.uol.com.br/pride/politica/legislativo-tem-medo-de-avancar-na-questao-lgbt-critica-marta-suplicy.html#rmcl
GAY1. Em 6 meses o Disque 100 recebeu 560 denúncias de agressões a LGBTs. 21/07/2011. Disponível em: http://www.gay1.com.br/2011/07/em-6-meses-o-disque-100-recebeu-560.html#
GAY1. Cerca de dois LGBTs são mortos na Paraíba por mês. 19/10/2011. Disponível em: http://www.gay1.com.br/2011/07/em-6-meses-o-disque-100-recebeu-560.html#
GAY1. 95% dos bairros de João Pessoa têm domicílios com casais LGBTs. 16/11/2011. Disponível em: http://www.gay1.com.br/2011/07/em-6-meses-o-disque-100-recebeu-560.html#
GERALD. Marcelo. Dilma, a presidenta submissa. Sítio Eleições Hoje, 06/01/2012. Disponível em http://www.eleicoeshoje.com.br/dilma-presidenta-submissa/#axzz1kgULKI00.
JOYCE, Karla. Histórico do PLC 122/2006. Disponível em: http://www.plc122.com.br/historico-pl122/#axzz1lXz29X5p
MOTT, Luís (Editor). Boletim do Grupo Gay da Bahia 1981-2005. Salvador: Ed. GGB, 2011.
ONU, 2011. No Dia Internacional contra a Homofobia e a Transfobia, ONU alerta para aumento dos crimes homofóbicos, 17/05/2011. Disponível em: http://www.onu.org.br/no-dia-internacional-contra-a-homofobia-e-a-transfobia-onu-alerta-para-aumento-dos-crimes-homofobicos/
ONU, 2012. ONU pide terminar con la violencia y discriminacion contra minorías sexuales, 07/03/2012. Disponível em: http://www.un.org/spanish/News/fullstorynews.asp?newsID=22884&criteria1=ddhh
PRENSA LATINA. Rechaça Cuba em Genebra toda forma de discriminação, 07/03/2012. Disponível em: http://www.prensalatina.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=485394&Itemid=75
RAMOS, Silvia e BORGES, Doriam. Disque Defesa Homossexual: Números da violência. In: Violência e minorias sexuais. RJ: Comunicações do ISER, nº 56, Ano 20, 2001, p. 67-78.
RIOS, Roger Raupp. Notas sobre o substitutivo ao projeto de lei 122 (criminalização da homofobia). Disponível em: http://www.plc122.com.br/crticas-de-roger-raupp-rios/#ixzz1lYU6H4f4
SELIGMAN, Felipe e NUBLAT, Johanna. Pela 1ª vez, ministro do STF defende criminalização da homofobia. Jornal Folha de São Paulo, 04/07/2011. Disponível em: http://comerdematula.blogspot.com/2011/07/ayres-brito-min-do-stf-constituicao-e.html
VECCHIATI, Paulo Roberto Iotti. Críticas à proposta de nova emenda ao PLC 122/06. Disponível em: http://www.plc122.com.br/criticas-proposta-emenda-plc122/#axzz1lXz29X5p
VEJDELAND and Others v. Sweden, 2012. Disponível em: http://cmiskp.echr.coe.int/tkp197/view.asp?action=html&documentId=900340&portal=hbkm&source=externalbydocnumber&table=F69A27FD8FB86142BF01C116

E o Concílio descobriu a liberdade de consciência

Foto: Chris Engman

Um novo passo para expor as autênticas novidades “reformadoras”, não “revolucionárias”, de acordo com a contraposição, que também já foi usada mais de uma vez por Joseph Ratzinger, justamente a propósito da sua atitude em relação à historicidade da Igreja católica e, portanto, também do Concílio. Nos artigos anteriores, vimos a recuperação da centralidade da Palavra de Deus, da Escritura, na vida da comunidade de fé e a difusão da Bíblia em língua moderna, acessível a todo o povo de Deus. Na mesma linha – a segunda novidade – a forte afirmação da necessidade do ecumenismo, com a busca da unidade, perdida há séculos – nove, quase dez para as Igrejas ortodoxas, e quase cinco para os evangélicos. Depois, passando para uma relação decididamente nova com a realidade do judaísmo, religião e cultura, com o pedido de perdão pelo anti-semitismo religioso, muito cultivado em séculos e originando, ainda que indiretamente, trágicas realidades como a Shoah. Esta é a importância do ponto quatro da declaração Nostra Aetate, com a recomendação de se superar as hostilidades do passado, e a condenação de atitudes diferentes, com a reprovação de “ódios, perseguições e manifestações de anti-semitismo para com os Judeus em todos os tempos, não importando quem cometeu tais atitudes”.

Outra grande e inegável novidade do Vaticano II – a quarta nesta lista – constitui o tema do que hoje se chama “liberdade religiosa”, o que costumamos considerar no âmbito da “liberdade de consciência”. É o tema presente no documento intitulado “Dignitatis Humanae”, que foi aprovado na véspera da conclusão do Concílio, no dia 7 de dezembro de 1965, após as animadíssimas discussões e dos muitos embates, sobretudo dos tradicionalistas pertinentemente conservadores, que viam em alguns desses passos uma concessão contrária à afirmação da verdade da fé e do Evangelho de salvação.

Na declaração “Dignitatis Humanae”, ressoam fortes palavras no ponto sete: “Todos devem ser isentos da coerção individual, de grupos sociais, de qualquer tipo de poder humano... Que ninguém seja obrigado a atuar contra a sua consciência... Ninguém pode ser obrigado a abraçar a fé contra a sua vontade... todos devem buscar a verdade, porém tal verdade não deve ser imposta pela força, mas difundida docilmente e fortemente”.

O tema da liberdade religiosa, no Concílio, teve precisas consequências também para os traços da atividade missionária. Sobre este ponto, é suficiente observar o ponto treze da Ad Gentes. “Onde quer que Deus abra a porta da palavra, para anunciar o mistério de Cristo a todos os homens, deve ser anunciada com franqueza e perseverança (o Deus vivente é aquele que Ele enviou para a salvação de todos, Jesus Cristo).

“Somente deste modo, os não cristãos, que o Espírito Santo abrirá os corações, crerão e livremente se converterão ao Senhor, e sinceramente aderirão Àquele que, sendo “o caminho, a verdade e a vida” (Jo, 14,6), responde a todas as aspirações do espírito e, mais, as superam infinitamente”.

Isto é a confirmação da obrigação, para todos os crentes, do anúncio da fé, mas depois, com inegável clareza, o texto segue dizendo como se deve agir, mencionando os documentos “Dignitatis Humanae” e Lumen Gentium, explicitando o modo pelo qual o necessário anúncio deve se encarnar para ser autenticamente cristão e eclesial: “A Igreja proíbe severamente obrigar ou induzir e atrair as pessoas com inoportunos enganos, a abraçar a fé, da mesma forma que energicamente reivindica o direito de que ninguém, com injustas vexações, seja separado da sua fé. De acordo com um costume muito antigo da Igreja, os motivos de conversão devem ser examinados detalhadamente, e, se necessário, purificados”.

Um tema candente, durante séculos, e que recebeu pouca atenção da parte de muitos no conjunto da história, inclusive, “pessoas santas”, às vezes, mais tarde canonizadas, certamente não por esse motivo... Mesmo considerando que a cultura do tempo conduzia a essas consequências, é necessário recordar que Gregório XVI, na primeira metade do século XIX, definia como “deliramientum” (uma loucura) a tese que sustentava o respeito à liberdade de consciência e de religião... Porém, é necessário certificar que essa mesma liberdade, que pode parecer uma “novidade” em relação ao costume eclesiástico durante séculos, não é uma negação do passado da fé, ao contrário, pois possui sua origem nos textos de fé, como nos Evangelhos e nas cartas de Paulo. E por esse propósito, grandes teólogos como São Tomás, já no século XIII e John Henry Newman, no século XIX, exaltaram o primado da boa consciência, portanto, da “boa fé”. Além disso, a maneira de anunciar, do “render contas da esperança que há dentro de nós” já estava explícita nas palavras de São Pedro, que serenamente indicava: “Porém tudo isto tem que se fazer com mansidão, respeito e em boa consciência” (I Pe, 3,15).

É certo que durante séculos não foram ideias evidentes. Além disso, uma longa série de eventos as contradiziam. Por enquanto, a última consequência: só neste contexto de liberdade de consciência é que se deve interpretar a forte advertência de São Paulo: “Tudo o que não vem da fé é pecado” (Rom, 14,23). O que Paulo quer dizer com esta palavra “fé”?

Como se pensou que a “fé” tem que ser forçosa e explicitamente sempre fé cristã, conhecimento e reconhecimento da divindade de Cristo e da realidade da Igreja como tal, teve como consequência que todos os atos de virtude de um não cristão na realidade eram pecado. Sabemos que, durante séculos, esta ideia foi o fundamento teórico para difundir e impor a fé, com os instrumentos da violência e do poder político e colonial. O Concílio claramente indica outro caminho, importante também por suas imediatas consequências. Esta será a novidade sucessiva destas reflexões: a atitude do Vaticano II para com as outras religiões e, ao final de contas, também para as consciências dos homens que podem não pertencer a nenhuma religião...

- Gianni Gennari, teólogo italiano,
Publicado no sítio Vatican Insider, 09-03-2012.
Tradução: Cepat, aqui reproduzida via IHU.

terça-feira, 27 de março de 2012

Nem iguais, nem diferentes


"Não queremos ser diferentes, e, sim, que todo mundo tenha o direito de ser como é."
- Renato Russo, que faria 52 anos hoje... Faz falta.

Carta aberta a Daniel Zamudio

Daniel Zamudio, em foto de arquivo

Um jovem homossexual chileno que foi agredido por um grupo de neonazistas em Santiago foi declarado com morte cerebral no último domingo pelos médicos que o atendiam desde o ataque, no início do mês. Os assassinos, já detidos pela polícia chilena, agrediram brutalmente o rapaz durante três horas, tendo lhe arrancado parte de uma orelha, marcado seu corpo com símbolos neonazistas, apedrejado-o e quebrado uma de suas pernas. 

[Atualização em 28/03/12: Daniel Zamudio faleceu ontem, às 19:45h, horário do Chile. (Informação do amigo @realfpalhano) Mais um mártir. Até quando?]

O jesuíta Marcos Cárdenas escreveu-lhe uma carta aberta, que recebemos ontem via Twitter dos queridos @realfpalhano e @wrighini e reproduzimos aqui, com tradução nossa.

Estimado Daniel:

Permito-me te escrever estas linhas mesmo não te conhecendo e ainda que possivelmente você não lerá esta carta. Faço-o porque não posso permanecer calado diante do mal perpetrado por esses recalcitrantes, ou, melhor dizendo, canalhas - que, incapazes de reconhecer a grandeza e mistério do ser humano, te massacraram a golpes tão-somente pela sua orientação sexual.

Provavelmente, você vai se perguntar por que um religioso está te escrevendo, sabendo que pertenço a uma instituição que, desde tempos idos, condena moralmente e exclui os homossexuais. Por desgraça, vivemos em uma sociedade homofóbica, que não respeita essa orientação. Te digo que sou contrário às posições desrespeitosas, de censura, inquisidoras, obscurantistas. Minha atitude face a essa tendência é de diálogo. Está claro para mim que alguns setores da Igreja ainda adotam uma posição intolerante, da qual não compartilho: mas esse já é outro tema.

Te escrevo com a intenção de te contar que essa agressão bestial, cruel e desapiedada não passará para a história como mais um ataque apenas, ou como uma noticia a mais das páginas policiais. Te prometo que lutaremos e combateremos para que essa prática nefasta seja extirpada da nossa sociedade. Há instituições que têm sido proféticas na denúncia e condenação de atos desse gênero; a MovilH e a Fundación =Iguales, entre outras. Para mím, essas instituições são presença de Deus, pois as lésbicas, gays, transexuais e bissexuais são filhos e filhas prediletos de Deus,  perseguidos, pisoteados e excluídos que têm sido ao longo da história.

Tenho certeza, Daniel, de que Deus te ama profundamente, ama a tua vida, a tua família e a tua condição homossexual. Você é, para nós, causa de orgulho e  admiração. Se nós, cristãos, acreditamos em um Deus que é e se  manifesta no amor, será que o amor entre pessoas do mesmo sexo, portanto, não seria uma concretização - nada mais, nada menos - do amor de Deus? Creia-me: se a utopia do amor se concretizar, espero que as trincheiras do ódio e da violência desapareçam.

Me despeço com um abraço grande e te incluo em minhas orações.

Até sempre, Daniel.

- Marcos Cárdenas, jesuíta. Estudante de Filosofia na UAH.

Fonte: Sentidos Comunes, com informações do Terra.

* * *

Leia também:
Carta aberta do Fórum Europeu LGBT ao Papa Bento XVI
Carta de um padre católico a um jovem homossexual
Minha culpa perante os nossos irmãos e irmãs homossexuais

E mais (atualização em 28/03/12):
Excelente artigo, indicado pelo amigo @wrighini: Daniel Zamudio e a violência no Brasil
Multidão segue funeral de jovem gay morto por neonazistas no Chile
Igrejas condenam ataque a jovem homossexual

Deus tem entranhas de mãe


(...) No princípio era a Misericórdia. A Criação aparece como um grande gesto de Misericórdia e nossa vida torna-se a história da fidelidade desse amor gratuito. Fomos criados por um gesto misericordioso, fomos feitos por mãos misericordiosas, pensados por uma mente misericordiosa. Se Deus não fosse misericordioso, não teríamos jamais existido; e se essa Misericórdia existe desde o princípio do nosso viver, ele ainda agora é fonte de vida, graça da qual temos contínua necessidade e que constantemente está agindo em nós para reconciliar-nos. Vivemos mergulhados na Misericórdia.

Na Sagrada Escritura sempre há um núcleo comum na realidade indicada como “misericórdia”: uma bondade essencial, um envolvimento do coração, uma ternura que comove. Para a Bíblia, a misericórdia revela a natureza íntima de Deus; a misericórdia é uma outra expressão típica do Amor. É aquela que melhor revela a natureza do Deus Pai e Mãe de infinita bondade. O Deus de Jesus não é um juiz com um catálogo de leis que tem necessidade de mandar, controlar, verificar... Basta-lhe a misericórdia, a compaixão...

A misericórdia revela um aspecto essencial da natureza divina: o lado feminino de Deus. A Misericórdia significa, etimologicamente, possuir um coração (cor) que se compadece da miséria (miseri) do outro porque a sente profundamente como sua. Em hebraico é ainda mais forte, pois a palavra “misericórdia” (“rahamim”) significa ter entranhas de uma mãe. Deus não só tem um coração que ama. Isso já é extraordinário. Mas também tem entranhas. Isso é avassalador. Foi um ato criativo de Misericórdia que nos deu vida. Tal experiência de Misericórdia gera em nós uma atitude correspondente de misericórdia. Ao revelar seu rosto misericordioso, Deus cria em nós um coração novo, feito de acordo com o seu, capaz de viver a misericórdia à sua maneira.

É exatamente este o maior sinal da sua Misericórdia: ama-nos a ponto de enviar-nos ao mundo como instrumentos de sua reconciliação, pondo em nosso coração um Amor que vai além da justiça. (...)

- Pe. Adroaldo Palaoro, SJ
Mensagem para a segunda-feira da segunda semana da Quaresma do Retiro Quaresmal 2012 do CEI

segunda-feira, 26 de março de 2012

Em face dos últimos acontecimentos


Em uma iniciativa do Instituto Moreira Sales, do Rio de Janeiro, várias personalidades de primeira linha da cultura brasileira emprestaram seu rosto, gesto, voz e interpretação para uma homenagem ao poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, que conta com uma providencial leitura de Laerte para o poema “Em face dos últimos acontecimentos”.

Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos)
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?

Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros,
sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.

Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.

Propõe isso a teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher de trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?

- Carlos Drummond de Andrade

Fonte: Mix Brasil

Cale-se! O silêncio machuca, o diálogo é música

Foto: Paul Spielvogel / CATERS NEWS, aqui

Discordo visceralmente de muita coisa que leio e escuto, mas nem por isso acho que elas não tenham o direito de vir a público. Pelo contrário, repetindo Voltaire, discordo, mas defendo o direito de que seja dito. Afinal de contas, a saída para contrapor uma voz não é forçar o silêncio, mas sim outra voz. O silêncio dói, machuca. O diálogo é música.

Por isso, sinto um amargo na boca quando vejo pessoas que, sob o risco de verem seus argumentos naufragarem em sua própria arrogância, tentam calar o outro. Não percebem elas que muitas vozes dissonantes não vêm da cabeça ou do coração, mas sim do fígado. Por isso, regeneram-se. E, se cortadas ao meio, geram duas. Multiplicam-se. Uma idéia forte é algo poderoso. Difícil de ser contido com a força física. Tomo a liberdade de retomar um debate que travei aqui, tempos atrás, e que cai como uma luva com fatos que aconteceram recentemente.

Acredito que meu ponto de vista está correto, mas isso não faz dele uma Verdade Absoluta – até porque verdades absolutas – do meu ponto de vista – não existem. Não mais. Morreram. Uma outra pessoa pode defender que a forma mais correta de acabar com a fome, a violência, as guerras, a injustiça seja por outro caminho. Ou que a paz de espírito ocorra obrigatoriamente através de grandes concessões pessoais ou obediência a regras ditadas por profetas. Desse enfrentamento de idéias e de propostas sairá um vetor resultante que apontará para uma direção, dependendo da correlação de forças envolvidas, dos atores dedicados a isso, da aceitação dessas idéias pelo restante de uma sociedade.

Por exemplo, não acredito que o livre mercado seja a panacéia para tudo, mas há quem diga que sim. Ótimo, vamos discutir os argumentos que embasam as diferentes posições e não chamar o outro de canalha ou burro, esquerdista idiota ou direita fascista, e travar por aí a discussão. Ou pior, defender o fechamento de um veículo de comunicação, a demissão de uma profissional, o fechamento de uma igreja.

Muitos simplesmente repetem mantras que lêem na internet, ouvem em bares ou vêem na igreja e não param para pensar se concordam ou não realmente com aquilo. É um Fla-Flu, um nós contra eles cego, que utiliza técnica de desumanização, tornando esse outro uma coisa sem sentimentos. Isso é muito útil durante eleições polarizadas, mas péssimo para o cotidiano.

Somos seres complexos com múltiplos níveis de relações. Tenho colegas conservadores politicamente, mas liberais em comportamento que guardo em muito mais estima do que colegas progressistas politicamente, mas com um discurso e prática comportamentais bisonhos. Afinal de contas, não é possível defender a liberdade dos povos e transbordar machismo, tratando a companheira como uma serva em casa.

É mais fácil pensar de forma contrária, preto no branco, os de lá, os de cá. Mas, dessa forma, a vida vai ficando mais pobre. Sem o direito ao convívio diário com aqueles que pensam de forma diferente, estancamos em nossas posições, paramos de evoluir como humanidade. Do outro lado sempre estará um monstro e do lado de cá os santos. Isso sem contar a impossibilidade de apreciar tudo o que o outro tem de melhor – do ombro amigo à conversa inflamada em uma mesa de bar.

Sugiro que busquem a tolerância no diálogo, mesmo que firme e duro, e se perguntem se acham que estão certos a todo o momento, uma vez que nossa natureza não é de certezas, mas de dúvidas e falhas que só conseguem ser melhor percebidas no tempo histórico.

- Leonardo Sakamoto
Publicado originalmente no blog do autor

Ato Educar para a Diversidade | Contra a lei que proíbe o combate à homofobia nas escolas do Rio


ATO EDUCAR PARA A DIVERSIDADE | CONTRA A LEI QUE PROÍBE O COMBATE À HOMOFOBIA NAS ESCOLAS DO RIO!
CINELÂNDIA - 27 DE MARÇO - 15H

O projeto ainda precisa ser votado pela Câmara dos Vereadores em segunda discussão, que acontecerá nesta terça-feira, dia 27 de março, às 16h.

Venha. Junte-se. Mobilize seu grupo, seus amigos, sua igreja, sua universidade. Não dá mais para assistir parados à essa avalanche de facismo, preconceito e discriminação.

Escola é lugar de ensinar respeito, justiça, direitos!

Para entender o caso, leia isto aqui. Mais informações sobre o ato aqui.

* * *

Atualização em 28/03/2012:
"Na tarde de ontem, deveria ter ocorrido a segunda votação, em caráter definitivo, mas não aconteceu em função de duas propostas de mudança ao texto original de Carlos Bolsonaro. Assim que elas forem avaliadas, o projeto volta a votação e, caso aprovado, será encaminhado ao executivo para que o prefeito Eduardo Paes o sancione – ou não, é que esperamos.

Mesmo que ainda não tenha sido aprovado, um projeto como esse preocupa apenas pela sua existência. A coisa fica ainda mais grave quando nos damos conta de que tem gente apoiando, e muita gente. A sensação que fica é a de um retrocesso medonho, em que vemos os ignorantes promovendo a ignorância para não sair de suas posições privilegiadas. E me parece no mínimo contraditório um projeto que promove a ignorância tratar exatamente da educação em uma cidade. Não faz o menor sentido."

(Fonte: Murilo Araújo em ótimo comentário no Vestiário, aqui)

Para que os seres humanos possam ser Deus

Foto: Théo Gosselin 

Nascida de uma visão mais profunda do que palavras, e transmitida através do silêncio cheio do Espírito, a mensagem cristã é constrangedora. "Deus fez-se humano para que os seres humanos possam ser Deus."

Esta recorrente afirmação dos primeiros teólogos soa mais ousada do que muitos teólogos arriscariam dizer hoje, e resistiu com muita força às tentativas do dualismo gnóstico de diluí-la. É claro que só podemos compreender o que isso significa pela experiência de nossas vidas, quando tentamos viver – e fracamente, na maior parte do tempo – como se fosse a verdade central, a coisa real em todas as circunstâncias.

Ela sugere que a Encarnação é Deus concentrado em um ser humano singular, para que Deus possa de fato "tornar-se plenamente humano". De que outra forma pode-se ser humano sem ser um ser humano em um tempo e lugar determinados? Os teólogos clássicos achavam que isso era necessário, mas que o sofrimento experimentado por este indivíduo era inevitável. Deus precisava ser humano. Jesus, o cumprimento dessa necessidade divina, assim como qualquer outro humano, não queria sofrer. (Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice!).

Para muitos, hoje em dia, essa doutrina pode parecer abstrata e paroquial. Na verdade, ela muda a forma como nós mesmos nos encarnamos em nossas próprias e únicas histórias de vida, através de todas as fases de nosso desenvolvimento. Ela nos ajuda a não ficar presos na mentalidade infantil ou no comportamento adolescente, como vemos acontecer na maioria dos conflitos violentos e, de fato, em muitos dos nossos próprios problemas pessoais.

Ele também nos ensina o modo autêntico de lidar com o sofrimento. Como diz Leonard Cohen, devemos aprender a lamentar nos estritos limites da dignidade e beleza. A tendência do ego à auto-piedade arrisca tornar-nos isolados e amargos. Mas saber qual é nosso destino, para onde o sofrimento nos leva, dá tanto compaixão quanto dignidade para a nossa abordagem da decepção, do sofrimento e da perda.

É por isso que a Quaresma é um tempo cristão. E que a meditação é uma oração cristã. Não devemos nos castigar por causa de nossas falhas, ou buscar a iluminação apenas como uma fuga do sofrimento. Mas para ser plenamente humanos, completamente acordados, a fim de que possamos realmente "tornar-nos Deus", como estamos programados a ser.

- Laurence Freeman OSB
Mensagem para a Segunda-Feira da Terceira Semana da Quaresma (12/03/12) à Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

domingo, 25 de março de 2012

Eu te trarei no sangue

Imagem daqui

Apaga-me os olhos: eu posso ver-te!
Fecha-me os ouvidos: eu posso ouvir-te!
E sem pés posso ir ao teu encontro
e mesmo sem boca eu posso chamar-te!
Arranca-me os braços, e eu te seguro
com o coração, como com minhas mãos.
Pára meu coração, e em mim o cérebro
há de pulsar; e se puseres fogo
em meu cérebro, eu te trarei no sangue.

- Rainer Maria Rilke.
In O livro de horas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993, p. 101.

Comunhão ou desunião?


Os sacramentos não "pertencem" ao clero – e ninguém está excluído deles.

A opinião é da teóloga feminista católica norte-americana Mary E. Hunt, cofundadora e codiretora da Women's Alliance for Theology, Ethics and Ritual (Water), em Silver Spring, Maryland, EUA. O artigo foi publicado no sítio Religion Dispatches, 05-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mary E. Hunt também é autora do mais recente Cadernos Teologia Pública, nº. 66, intitulado Discurso feminista sobre o divino em um mundo pós-moderno. A versão online estará disponível a partir do dia 27 de março no sítio do IHU.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU, com grifos nossos.


A notável violação de decência que levou um pároco católico a negar a Comunhão a uma lésbica no funeral de sua mãe recebeu uma generalizada e bem merecida condenação (entenda o caso aqui). Até mesmo a arquidiocese de Washington admitiu que o padre havia violado as suas políticas. Em uma pequena nota, um vigário prometeu a Barbara Johnson e à sua família que ele iria celebrar uma missa em memória de sua mãe. Eles merecem simpatia pela sua perda, um completo pedido de desculpas da Igreja institucional e tempo para lidar com o seu luto em paz.

Ao invés disso, Johnson suportou corajosamente a atenção midiática para trazer à luz algumas rápidas mudanças no catolicismo. A mudança é uma alteração na autoridade. Ela é evidente na luta contra o projeto dos planos de saúde do presidente Obama, onde fica claro que a Conferência dos Bispos dos EUA não passa de uma das muitas vozes católicas na arena pública. Mais perto de casa (Roma), as pessoas já não consideram mais como competência do clero julgar quem faz parte da comunidade católica e, portanto, quem é digno para a Comunhão, e quem não é.

Envio as minhas condolências e agradecimentos à família Johnson. Ofereço algumas intuições sobre a questão para as muitas pessoas que ficaram pensando quem poderia ser tão cruel e insensível no funeral da mãe de alguém. Faço isso para apressar o dia em que tais ações indizíveis não aconteçam mais.

Trégua nas "guerras de hóstias"
Para os católicos, os sacramentos são algo poderoso, voltados a elevar à expressão pública alguns aspectos da vida cotidiana da comunidade. O sacramento não “torna” algo sagrado, mas o sacramento é celebrado “porque” algo é sagrado. Nesse caso, o que é sagrado é a vida de uma boa mulher pela qual a comunidade se reúne para dar graças e celebrar. Eu suspeito que o padre culpado não veria isso dessa forma, mas um número crescente de católicos sim.

O que alguns têm chamado de "guerras de hóstias" não são apenas diferenças na teologia, mas também diferenças na visão de mundo. Os dias de hocus pocus dominocus ficaram para trás, parte de uma perspectiva biologicamente construída que simplesmente não se sustenta em um universo guiado por símbolos. Com ecos de transubstanciação soando em nossos ouvidos, os católicos sabem agora que o que acontece na Eucaristia não é uma transformação mágica e inexplicável do pão e do vinho no corpo e no sangue literais de Jesus. A teologia sacramental foi além disso, até uma compreensão mais rica e mais simbólica.

Agora, nós ensinamos às crianças, e queremos que outros saibam, que nós entendemos a Eucaristia como a reunião de diversas comunidades de pessoas para dar graças e para lembrar a vida, a morte e a ressurreição de Jesus. Ao fazer isso, os participantes se unem à graça, à energia e à responsabilidade do movimento de Jesus então e agora. Ninguém é excluído da mesa. Nenhum padre está autorizado a cobrir o cibório quando certas classes de pessoas se aproximam do altar. Ao contrário, o coração da tradição, do sacramento e da solidariedade católicas é representado muitas e muitas vezes em um louvor perene com variações infinitas.

"Marge gostaria que você o fizesse"
O indecoroso incidente no recente funeral me fez pensar sobre o funeral de uma  popular e poderosa freira dominicana, a Ir. Marjorie Tuite, que ocorreu no dia 3 de julho de 1986, na Igreja de St. Vincent Ferrer, em Nova York. "Marge" Tuite era uma das organizadoras comunitárias formadas por Alinsky (ou foi ela que treinou Saul Alinsky?) antes que o termo fosse anexado a um certo presidente dos EUA. Ela, que trabalhava para o grupo ecumênico da Church Women United e oferecia muita solidariedade na Nicarágua, morreu de repente, depois de um episódio com o Vaticano acerca da assinatura de um anúncio no New York Times sobre o aborto. Alguns disseram que ela morreu de um ataque do coração pela forma como foi tratada por Roma.

O funeral de Marge atraiu familiares, amigos e ativistas pela justiça social de muitos tipos. As feministas católicas presidiram, na verdade, apesar de um padre amigo de Marge ter sido oficialmente citado como celebrante. Quando a missa começou, o pároco dominicano, trajando o hábito completo, incluindo o capuz, anunciou do púlpito que "apenas católicos", e de fato "apenas católicos que se prepararam", poderiam receber a Comunhão. Presumivelmente, ele queria dizer católicos que tinham se confessado recentemente e que jejuaram naquele dia. Ele imediatamente saiu da igreja, com o seu dever cumprido, e muitas pessoas insultadas.

No momento da Comunhão, diversas feministas católicas passaram pelo corredor central para garantir a todos que eles eram bem-vindos para receber a Comunhão: "Marge gostaria que você o fizesse" era a sua mensagem. Muitos o fizeram. William Sloan Coffin, um conhecido pastor protestante entrou na fila da Comunhão. O meu colega do clero presbiteriano à minha esquerda e o líder pro-choice [que defende a opção de abortar] católico à minha direita foram até o corredor central para a Comunhão. Nenhum sino soou, nenhuma luz piscou, ninguém foi derrubado do seu cavalo, e todos homenagearam Marge Tuite de uma forma que ela apreciaria. Foi uma Eucaristia católica com muita boa vontade por toda parte, como deveria ser especialmente em um funeral.

Percebo que alguns católicos olham de soslaio para tais práticas. Muitos não-católicos não têm certeza da etiqueta inter-religiosa nessa situação. Mas o que eu acho trágico é o testemunho de católicos como Phil Donahue. Em uma recente convenção do Dignity [movimento católico de defesa e apoio à comunidade LGBT], ele falou de maneira comovente sobre como é ser aquele parente no banco da igreja  por cima do qual os familiares passam para ir comungar. Ele aprendeu da Igreja institucional que o seu divórcio, o seu segundo casamento (de 30 anos) e a falta de uma anulação o tornavam indigno para receber a Comunhão. Quem disse?

A questão é: quem ensinaria as pessoas a se absterem da própria expressão de fé que as une ao resto da comunidade? Eu sei, aquelas mesmas pessoas que proibiriam a contracepção se tivessem meia chance. Mas, da forma como o catolicismo se desenvolve na pós-modernidade, tais ensinamentos vão na mesma linha de exigir que as mulheres cubram a cabeça na igreja. Esperemos que Phil Donahue entenda a mensagem.

A mudança é nos modelos de autoridade – do modelo de cima para baixo e centrado no clero para um modelo mais arredondado e comunitário. É algo novo sob o sol católico contemporâneo, mas é real.

O desrespeito com Johnson também me fez lembrar de um tempo em que eu dei uma palestra sobre imortalidade, sugerindo, assim como muitas teólogas feministas, que, quando morremos, talvez, nos tornamos parte do composto da nova vida. Meu comentarista era o altamente respeitado teólogo jesuíta John McNeill, expulso da Companhia de Jesus por ser abertamente gay. John, que não era um jovem na época, quase correu até o palco para explicar ao público qual ele considerava como sendo o meu principal erro. Ele via as coisas de forma bastante diferente no departamento da imortalidade. Assegurou aos presentes que espera ser acolhido nos braços de seu Deus Pai amoroso, que irá lhe chamar de "pequeno Jackie McNeill" por toda a eternidade. Que seja.

É assim que nós fazemos
Felizmente, nenhum dos dois já descobriu se algum de nós estava certo. Mas, logo depois das palestras, o meu amigo John e eu nos encontramos com um grupo para celebrar a Eucaristia. As nossas diferenças teológicas foram postas de lado para o que realmente era importante, ou seja, se aproximar à mesa para dar graças e receber o sustento espiritual juntos. É assim que os católicos fazem, apesar das diferenças teológicas.

Um relato da experiência de Johnson no funeral de sua mãe incluía um detalhe que eu não posso confirmar, mas posso muito bem imaginar. Um blogueiro que falou com ela escreveu que, depois de ter sido preterido pelo padre para a Comunhão, Barbara, na verdade, recebeu uma hóstia de um leigo que estava servindo como ministro da Eucaristia na missa. Ministros leigos distribuem a Comunhão em muitas, senão na maioria, das igrejas católicas nestes tempos de cada vez menos padres. Foi a pessoa não ordenada, e não o padre, que fez a coisa certa.

Esse gesto, baseado no senso comum pastoral, é o pior pesadelo dos clérigos católicos, que eu presumo que mantêm as autoridades romanas e diocesanas acordadas durante a noite. Os leigos estão assumindo uma crescente autoridade, não implorando a permissão nem o perdão de ninguém. O clero está começando a perceber que a Eucaristia não pertence a eles mais do que os edifícios, a teologia ou o ministério eclesiais. Eles não estão no comando de quem recebe a Comunhão, quer sejam políticos ou garçonetes, divorciados, recasados e/ou queers. Quer seja nas catedrais ou nas comunidades de base, as pessoas decidem por si mesmas sobre a Comunhão, assim como decidem sobre a contracepção, a sexualidade e o casamento. A comunidade católica está mudando de fato.

O vinho e o brinde do altar passam por um novo momento na história católica, como Barbara Johnson  recentemente pôde constatar.
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