sábado, 10 de dezembro de 2011

Por uma cultura da vida nos perigos do tempo presente


Hoje, nos confrontamos com uma nova religião da morte. Uma vida não mais amada está pronta para matar e para ser morta.

A opinião é do teólogo alemão Jürgen Moltmann, em conferência apresentada durante a cerimônia de abertura do sétimo Fórum de Pequim, organizado entre os dias 5 e 7 de novembro de 2010 pela Universidade de Pequim.

Com a participação de mais de 350 estudiosos representantes de 50 países, o tema do fórum foi “Harmonia das civilizações e prosperidade para todos. Compromissos e responsabilidades para um mundo melhor”.

O artigo foi publicado no blog da Editora Queriniana, 17-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU, com grifos nossos.


Conferência de abertura do Fórum de Pequim, China, novembro de 2010

A minha intervenção será sobre o que está me ocupando há muito tempo:
  • uma cultura da vida mais forte do que o terror da morte;
  • um amor à vida que supera as forças destrutivas presentes hoje no mundo.
E isso porque acredito firmemente que "onde há perigo é, cresce também aquilo que salva" [1].

Vou começar com alguns dos perigos do nosso tempo na primeira parte, às quais vou responder na segunda parte com as dimensões de um mundo vivível e a vitalidade do amor.

I. O terror hoje de uma morte universal

1. A vida humana atualmente está em perigo, e não só porque a nossa existência é mortal. De fato, sempre foi assim. Mas está em perigo porque ela já não é mais amada, afirmada e acolhida. O poeta francês Albert Camus, depois da Segunda Guerra Mundial, afirmava: "Este é o mistério da Europa: a vida não é mais amada". Aqueles que sofreram naquela guerra homicida sabe o que ele queria dizer. Uma vida não mais amada está pronta para matar e para ser morta.

Hoje, nos confrontamos com uma nova religião da morte. Não quero dizer com isso a religião do Islã, mas sim a ideologia do terror tão típica do século XXI: "Os seus jovens amam a vida", assim se expressou o mulá talibã Omar, no Afeganistão, "os nossos amam a morte". Depois do assassinato em massa de Madri, no dia 11 de marco de 2004, foram encontradas cartas com a mesma mensagem: "Vocês amam a vida; nós, a morte". Essa parece ser a ideologia do terrorista moderna dos assassinos suicidas. Lembro que ainda 60 anos atrás, na Europa, houve um evento semelhante: "Viva la muerte", gritou um velho general fascista durante a Guerra Civil. E não se pode dissuadir um assassino suicida: ele rompeu o temor da morte, não ama mais a vida e quer morrer junto a suas vítimas.

2. Além dessa superfície de terror, encontra-se um perigo maior. Os tratados de paz e pela não proliferação das armas entre as nações têm um pressuposto tácito: a vontade de sobrevivência, a vontade de viver de ambos os lados. Mas o que acontece se um parceiro não quer sobreviver, mas pretende morrer, e se, com essa morte, ele pode destruir, como um todo, esse mundo "ímpio" e "sem Deus"? O que acontece quando um país que possui armas nucleares está obcecado por essa "religião da morte" e se torna o agente suicida do extermínio coletivo do resto do mundo, só porque está empurrado contra um canto e renuncia a todas as formas de esperança? A dissuasão só funciona se todas as partes têm a vontade de viver e querem sobreviver.

A sedução de destruir este mundo, que é percebido como velho, ímpio ou ateu, pode crescer em um desejo de morte universal. Se queremos sacrificar nossa própria vida, que parece ser inútil e sem significado, podemos destruir este mundo hostil por inteiro. Essa "religião da morte" apocalíptica é o verdadeiro inimigo da vontade de viver, do amor pela vida e da afirmação do ser.

3. Além dos perigos que existem hoje para a vida comum das nações em nível político, existe uma ameaça constante de data mais antiga: a nuclear. A primeira bomba atômica sobre Hiroshima, em agosto de 1945, marcou o fim da Segunda Guerra Mundial e foi, ao mesmo tempo, o início do fim para todo o gênero humano, ou seja, a idade em que é possível, a qualquer momento, o fim da humanidade. Nenhum ser humano é capaz de sobreviver ao "inverno nuclear" que se seguiria a uma grande guerra atômica. Lembrem-se: o gênero humano esteve à beira de um evento semelhante há mais de 40 anos durante a Guerra Fria. E é verdade que o conflito aberto não é mais muito provável, já que tal confronto cessou em 1990. Vivemos em um tempo de relativa paz, mas ainda há tantas bombas atômicas e de hidrogênio armazenadas nos arsenais das grandes nações (e até mesmo das mais pequenas), capazes de autodestruir a humanidade. Sakharov chamou isso de "suicídio coletivo": "Quem atira primeiro morre por segundo" – essa foi, há mais de 40 anos, a chamada "destruição recíproca assegurada".

Muitas pessoas haviam se esquecido da ameaça atômica até que o presidente Obama despertou no ano passado, em Praga, o velho sonho de um "mundo sem bombas atômicas" e empreendeu novas negociações com a Rússia para o desarmamento. Então, de repente, muito de nós se deram conta novamente do destino que paira como uma nuvem escura sobre as nações. Insolitamente, tem-se a percepção explícita da presença da ameaça nuclear naquilo que os psicanalistas norte-americanos chamam de "entorpecimento nuclear". Reprimimos a ansiedade, procuramos esquecer essa ameaça e vivemos como se o perigo não existisse, embora ele corroa o nosso subconsciente, desgastando o nosso amor pela vida.

4. Diferentemente da ameaça nuclear, as mudanças climáticas não são apenas uma ameaça, mas já uma realidade que está surgindo em toda parte. As pessoas sabem disso porque todos podem vê-las, percebê-las e, às vezes, sentir o seu odor.

A destruição do meio ambiente que causamos por meio do sistema econômico global de hoje, indubitavelmente, danificará seriamente a sobrevivência da humanidade no século XXI. A sociedade industrial moderna desequilibrou o equilíbrio do organismo Terra e deu início à morte ecológica universal, a menos que se mude o modo em que as coisas se desenvolvem. Os cientistas mostraram que as emissões de dióxido de carbono e de gás metano destroem o nível de ozônio da atmosfera, enquanto o uso dos fertilizantes químicos e de uma multidão de pesticidas torna o solo estéril. Eles demonstraram que o clima global já está mudando agora, hoje, tanto que experimentamos um aumento de catástrofes "naturais", como secas e inundações, que não são naturais, mas sim causadas pela mão do homem. O gelo do Ártico e da Antártida derrete, e, nos próximos séculos – dizem-nos os cientistas –, cidades costeiras como Hamburgo, minha cidade, e regiões como Bangladesh e muitas ilhas dos mares do Sul serão inundadas. Tudo, em todas as formas de vida sobre a Terra, está ameaçado.

A crise ecológica é, em primeiro lugar, causada pela civilização científica e tecnológica ocidental. Isso é verdade.

Mas é um erro pensar que os problemas ambientais são problemas unicamente dos países industriais do Ocidente. Ao contrário, as catástrofes ecológicas estão agravando ainda mais os problemas econômicos e sociais já existentes nos países do Terceiro Mundo. Indira Gandhi tinha razão quando dizia que "a pobreza é a pior poluição".

Todos conhecemos essa realidade, mas parecemos paralisados. Não fazemos aquilo que sabemos que é necessário para impedir as piores consequências. Essa paralisia também pode ser definida de "aturdimento ecológico". Nada acelera uma catástrofe iminente como a paralisia do fazer.

Não sabemos se o gênero humano vai sobreviver ao destino que ele criou. E isso é bom. Porque, se soubéssemos que não sobreviveremos, não faríamos nada. Se soubéssemos que existem possibilidades, igualmente não faríamos nada. Só se o futuro for aberto a ambas as soluções, somos obrigados a fazer hoje o que é necessário para sobreviver amanhã. Como não somos capazes de saber se o gênero humano vai sobreviver, devemos agir hoje como se o futuro da vida dependesse de nós, e devemos, ao mesmo tempo, confiar que nós e os nossos filhos faremos a vida e a sobrevivência vencerem.

5. Mas deve haver uma raça humana ou somos só um acidente da natureza? Atualmente, mais de seis bilhões de seres humanos vivem na terra, e esse número deverá crescer rapidamente. Mas a Terra também poderia não ser habitada. Ela viveu sem seres humanos por milhões de anos e pode sobreviver talvez por milhões de anos depois que a raça humana desapareça. Tudo isso deixa o campo aberto para a pergunta última e mais crucial:

Nós, seres humanos, estamos sobre a terra só por acaso, ou faz parte da evolução da vida que os homens deviam vir? Se a natureza mostrasse um "forte princípio antrópico", poderíamos nos sentir "em casa no universo" (Stuart Kauffman). Se isso não pode ser provado, o universo não dá nenhuma resposta à questão existencial da humanidade. Nem as estrelas, nem os nossos genes nos dizem se um ser humano deve existir ou não. Mas como podemos amar a vida e afirmar o nosso existir humano se a humanidade é só um acidente da natureza e, como tal, supérfluo e irrelevante para o universo, talvez só um erro dela? Há um "dever ser", como nos diz Hans Jonas? Existe qualquer razão para amar a vida e afirmar o ser humano? Se não há respostas, toda cultura da vida é incerta em seus fundamentos e está construída sobre bases precárias.

II. Uma cultura da vida deve ser uma cultura de vida comum entre os humanos e o mundo natural

1. Podemos "viver com a bomba"? Acho que é possível crescer em sabedoria, mas como?

O sonho do presidente Obama de um "mundo sem armas nucleares" é justo, mas continua sendo um sonho. Jamais a humanidade será capaz de enfrentar aquilo que agora ela consegue fazer. Qualquer pessoa que tenha aprendido a fórmula da fissão atômica não a esquece jamais. Desde Hiroshima, em 1945, o gênero humano perdeu a sua "inocência atômica".

Mas o prazo atômico é também a primeira idade comum das nações. Todos os países se encontram no mesmo barco. Todos nós compartilhamos a mesma ameaça, cada um de nós pode se tornar uma vítima. Nessa nova situação, a humanidade deve se organizar como sujeito da sobrevivência comum. A criação das Nações Unidas em 1946 foi um primeiro passo. Os acordos de segurança internacionais vão garantir a paz e nos darão tempo para viver, e um dia, talvez, a unificação transnacional entre humanos manterá sob controle os meios de destruição nuclear. A ciência nos diz como adquirir poder sobre a natureza; a sabedoria nos ensina a controlar o nosso poder. O desenvolvimento da sabedoria pública e política é tão importante quanto o progresso científico.

A primeira lição a ser aprendida é esta: a dissuasão não assegura mais a paz. Só a justiça salva a paz entre as nações. Não há outro caminho para alcançar a paz no mundo se não houver ações e equilíbrios harmônicos entre os vários interesses. A paz não é a ausência da violência, mas sim a presença da justiça. A paz é um processo, não uma propriedade. Ela é um caminho comum de redução da violência e de construção da justiça nas relações sociais e globais do gênero humano.

A paz dentro das nossas nações é uma questão de justiça social. A alternativa à pobreza não é a propriedade. A alternativa à pobreza e à propriedade é a comunidade, e o espírito de comunidade é a solidariedade e a ajuda recíproca. Esse é, em síntese, o ensinamento moral das religiões mundiais.

2. O "respeito pela Vida"

Se, em um sistema de vida, que liga uma sociedade humana com o ambiente natural, se verifica uma crise – a morte da natureza –, tem-se também uma crise de todo o sistema vital. Aquela que hoje chamamos de "crise ecológica" não é simplesmente uma crise do nosso ambiente, mas é uma crise total do nosso sistema de vida e não pode ser resolvida apenas com os instrumentos tecnológicos. Ela pede uma mudança do sistema e uma mudança dos valores e das convicções-guia da nossa sociedade. As sociedades modernas industriais não estão mais em harmonia com os ciclos e os ritmos da terra como ocorria nas sociedades agrícolas pré-modernas. As sociedades da modernidade estão programadas sobre o progresso e a expansão dos projetos humanos. Reduzimos a natureza da terra a "nosso ambiente" e destruímos o espaço vital das outras formas de vida. Ano após ano, centenas delas morrem. Nada é mais destrutivo do que reduzir a natureza a ambiente do homem.

Precisamos de uma mudança do domínio moderno da natureza a um "respeito pela vida", como Albert Schweitzer e o Tao Te Ching nos ensinam. Isto é, respeito por cada forma única de vida e pela nossa vida comum no mundo humano e natural e pela grande comunidade de todos os seres vivos. Um biocentrismo pós-moderno substituirá o antropocentrismo ocidental e moderno. Naturalmente, não se pode voltar a uma orientação ao “kósmos” do mundo rural antigo e pré-moderno, mas podemos dar início a uma necessária transformação ecológica da sociedade industrial. Para isso, devemos – acho – mudar o nosso conceito de tempo. A concepção linear de progresso no consumo e no descarte da produção deve abrir caminho para uma concepção circular de tempo de "energia renovável" e de "economia da reciclagem". Só as circulações da vida podem dar estabilidade ao nosso mundo de progresso. Mas a economia da reciclagem ainda é a economia dos pobres.

A Carta Mundial para a Natureza, aprovada no dia 28 de outubro de 1982 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, vai neste sentido:
A humanidade faz parte da natureza [...] Toda forma de vida é única e merece ser respeitada, qualquer que seja a sua utilidade para o homem [2].
Nós fazemos "parte da natureza" e só podemos sobreviver, portanto, preservando a integridade da natureza.

3. A vida do amor em tempos de perigo

O ser humano não é apenas um dom da natureza, mas é também a tarefa do ser humano. Aceitar isso em tempos de terror requer uma grande coragem de viver. A vida deve ser afirmada contra o terror e a ameaça. Em palavras simples: a vida deve ser vivida; a vida amada, a vida comum no mundo humano e no natural é mais forte do que a ameaça da aniquilação universal. Vejo três fatores maiores dessa coragem de existir e da coragem de viver:

a) A vida humana deve ser afirmada, porque também pode ser negada. Como todos sabem, uma criança só pode crescer em uma atmosfera de confiança. Em uma atmosfera de rejeição, a criança desapareceria na alma e no corpo. Ela aprende a se aceitar quando é aceita. O que é verdade para ela vale para os seres humanos sempre: onde somos acolhidos, apreciados e afirmados, somos motivados a viver; onde percebemos um mundo hostil de desprezo e de rejeição, nos retiraremos em nós mesmos e ficamos na defensiva. Precisamos de uma forte afirmação de vida que possa enfrentar tais negações. Cada sim à vida é mais forte do que toda negação da vida, porque pode criar algo novo que os resíduos não podem fazer.

b) A vida humana é uma vida de participação e de partilha. Estamos vivos onde sentimos a simpatia dos outros e permanecemos vivos onde compartilhamos a nossa vida com outros. Na medida em que temos interesses, estamos vivos. É fácil fazer a contraprova: a indiferença leva à apatia. A apatia total é uma vida absolutamente não vivida; é a morte da alma antes da morte física.

c) A vida humana é viva se for busca da felicidade. A vida humana ganha em vitalidade com o seu lutar inato. A "busca da felicidade" é, desde os tempos da Declaração Americana de Independência, um direito humano essencial. Buscar a própria felicidade não é só um direito humano privado, mas é também um direito público. Falamos de "vida boa" ou de uma "vida significativa" e, com isso, queremos dizer uma vida que vive suas máximas potencialidades na vida pública de uma sociedade boa e harmoniosa, como nos disse Confúcio.

Quando levamos a sério essa "busca da felicidade", encontramos o infortúnio das massas pobres e começamos a sofrer com aqueles aos quais cabe esse destino. A compaixão com a qual tomamos parte na sua paixão pela vida é o reverso da busca da felicidade. Quanto mais nos tornamos capazes de felicidade na vida, mais somos capazes de sentir dor e compaixão. Essa é a grande dialética da vida humana.

Mas "onde há perigo, cresce também aquilo que salva". Como cresce a salvação? Tentei mostrar como o Ser pode levar consigo o não-ser e como a vida pode superar a morte mediante o amor e como as contradições mortais podem se transformar em diferenças produtivas e em formas superiores de vida e de comunidade, ou – como disse o professor Tu Weiming – "enquanto a harmonia reconhece o conflito e a contradição, busca transformar a tensão destrutiva em tensão criativa, de modo que uma relação estressante pode ser regenerada em uma síntese superior".

Lembro-me da famosa afirmação do filósofo alemão Friedrich Hegel, amigo de Hölderlin desde seus tempos de estudante na Universidade de Tübingen. Ele escreveu a primeira afirmação do pensamento dialético na sua Fenomenologia do Espírito de 1807:
[A vida do Espírito, ao contrário, não é] aquela que se enche de horror perante a morte e se preserva íntegra da decadência e da devastação, mas é aquela vida que suporta a morte e nela se mantém [3].
Uma vida humana plenamente amada e vivida supera as contradições do terror e da ameaça. Toda verdadeira espiritualidade religiosa revela o grande e divino Sim à vida, Sim à Terra e Sim ao futuro, apesar dos perigos.

Notas:
1 - Patmos, in F. Hölderlin, Poesie, Ed. Rizzoli, Milão, 2001, p.489.
2 - http://nadiadesantis.com/leggi-e-trattati/la-carta-mondiale-della-natura.html
3 - Bompiani, Milão 2000, 87 (Prefácio 27).

Viver com esperança

Chromatic typewriter: Tyree Callahan

No curso de sua pregação, João o Batista disse: "Depois de mim, vem o mais forte do que eu, de quem não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das sandálias. Eu vos tenho batizado com água. Ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo". (Mc 1,7-8)

Viver com esperança. Isto soa um pouco esvaziado a nós hoje, que estamos habituados à gratificação instantânea. Parece significar tanto estar reconciliado com a contínua falta de plenitude quanto viver em uma espécie de desespero silencioso - apenas esperando para chegar ao fim. Porém, isso não tem nada a ver com o que a "virtude" – a força – da esperança nutrida pela meditação.

Uma esperança desabrocha à medida que outras morrem. Esperanças são desejos velados ou fantasias que usamos como substitutos para a realidade ou como defesas contra decepções e sofrimentos. Muitas vezes precisamos tremer à beira do desespero e do desapego da vontade antes de descobrir o verdadeiro sentido da esperança. Antes, porém, de chegar a esse limiar, começamos nos agarrando a falsas esperanças. É em relação a elas que os Joãos Batistas de nossas vidas - aqueles que sozinhos dão consolo autêntico - não são arautos da desgraça, mas pregadores da realidade.

Mas no momento em que somos agraciados com o vazio, somos visitados pela esperança que nos ilumina sobre o significado do processo que estamos atravessando. Mesmo se não podemos ver a luz no fim do túnel nós sabemos, no entanto - com uma espécie de visão noturna - que estamos no caminho, e até mesmo o sentimento de fracasso ou de ter sido esquecido são parte do processo que vai florescer na luz do amor. Para aqueles que vivem na esperança (é disso que o aprendizado do Advento se trata), não há encerramento ou desligamento definitivo. Como o velho rabi disse: Deus não espera que sejamos sempre bem-sucedidos, mas não estamos autorizados a desistir. Isto não é só sabedoria humana sobre a necessidade de suportar. É uma revelação sobre a infinita simplicidade de Deus.

Com amor,

Laurence Freeman OSB
Mensagem do autor para a segunda semana deste Advento (veja trecho da mensagem para a primeira semana aqui)
Para saber mais, visite o site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil.

* * *

Caso se interesse pelo tema, leia também o belo texto "A esperança como atitude crítica", de Frei Betto, aqui.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Ao meu irmão amado




Tenho pensado quieta, nesses dias abafados sobre o Deus que fala no silêncio do meu coração. Ele está em mim e, por isso, tenho plena confiança nas palavras Dele, sempre gentis nos meus momentos de maior dúvida.

Vivo num mundo de homens. A criatura mais perfeita de Deus e também aquela única capaz de desejar se igualar a seu criador “comendo do fruto do Bem e do Mal”. Na minha opinião, o pecado original pelo qual sofremos até hoje é o julgamento.
Um dia quisemos discernir o Bem do Mal e esta era a única árvore que não nos podia pertencer. Só a Deus cabe julgar bons ou maus. Entendo que, a partir do momento que o homem aponta e denigre aquilo que julga mau e mata ou ofende por aquilo que considera bom, sem tentar conhecer de fato o objeto de seu julgamento, aí estaria realmente em pecado. Pra ser mais clara, o preconceito de qualquer tipo, pra mim, é o que comumente chamam de pecado porque é um pré julgamento de uma característica de algum de seus irmãos que foi criado pelo mesmo Deus de amor que criou você.

Jesus, nosso Messias, veio para que todos fossem dignos do Reino de Deus. O Verbo se fez carne para que toda a humanidade soubesse que a divindade está todo o tempo com ela e que somos irmãos, não importa em que acreditemos. Que devemos ser justos, acolhedores, amorosos, que devemos – por mais caro que seja muitas vezes – relevar as mágoas porque também magoaremos o próximo e que devemos viver em sociedade e que esta vida na Terra, que ganhamos pela glória de Deus, é uma bênção que deve ser desfrutada todos os dias com nossos irmãos na paz e no companheirismo.

Nosso Cristo nos ensinou também que cada tempo e cada grupo tem seus costumes e que, no fim, dois mandamentos resumem a Lei: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”. Deus está em mim e, para amar ao próximo como a mim mesma, é preciso amar a mim intensamente! É preciso ter confiança naquilo que sou. É preciso conhecer-se profundamente, mergulhar em si e encontrar o Sagrado que há dentro de cada um. Depois que o Senhor que conversa com meu coração me inspirou a correr atrás de mim mesma, fortalecer minha consciência e minha auto-confiança, entendi que a doutrina é uma Lei de homens que acreditamos estarem certos, que seguimos, mas de quem também discordamos. Não é errado discordar. A Igreja não pode se cristalizar nela mesma porque o mundo evolui e aquilo que não consegue acompanhar o giro do mundo, fica para trás. Veja, estou falando da Instituição, não do homem Jesus Cristo. A mensagem Dele é para todos e para todo o tempo do mundo. É uma mensagem de libertação, de alegria de viver e de fé.

Rezo muito. Rezo o tempo todo. Ultimamente tenho cantado músicas da missa em todo lugar, a todo tempo. É como uma foto que relembra alguém que amo e isso conforta meu coração no meio do mundo de correria e caos. Quando entro numa igreja procuro a caixinha de água benta; isso me traz conforto também. Muitas coisas que aprendi quando pequena já ficaram para trás, como, por exemplo, o tradicional “como era no princípio, agora e sempre. Pelos séculos e séculos, amém!”. Pois é, perdeu-se o “Pelos séculos e séculos”. A missa já foi em Latim, já deixou de ser, e, hoje, pode ser que seja de novo. A regra muda, as pessoas mudam. A instituição muda. As homilias nunca são iguais, há sempre uma nova interpretação para o mesmo versículo da nossa amada Bíblia que tem inclusive interseções com nossos irmãos judeus e muçulmanos de costumes tão diversos aos nossos.

Meu irmão que me lê, hoje eu escrevo com carinho para você. Te mandaria uma carta para que você pudesse sempre guardar e lembrar que você é uma criação perfeita como todos os filhos de Deus e a sua responsabilidade no mundo e conhecer-se, ser gentil para com seu irmão e ser plenamente feliz. A religião deve nos ajudar nesse caminho, deve facilitar a caminhada; nunca ser uma pedra ou uma fonte de discórdia ou angústia. Deus não está no céu; Deus não está num templo; Deus está dentro de você mesmo.

Fique em paz.
Com amor,
Zu

Espiritualidade e religião‏

Ilustração: Minjae Lee

Espiritualidade e religião se complementam mas não se confundem. A espiritualidade existe desde que o ser humano irrompeu na natureza, há mais de 200 mil anos. As religiões são recentes, não ultrapassam 8 mil anos de existência. A religião é a institucionalização da espiritualidade, assim como a família é do amor. Há relações amorosas sem se constituírem em família. Do mesmo modo, há quem cultive sua espiritualidade sem se identificar com uma religião. Há inclusive espiritualidade institucionalizada sem ser religião, como é o caso do budismo, uma filosofia de vida.

As religiões, em princípio, deveriam ser fontes e expressões de espiritualidades. Nem sempre isso ocorre. Em geral, a religião se apresenta como um catálogo de regras, crenças e proibições, enquanto a espiritualidade é livre e criativa. Na religião, predomina a voz exterior, da autoridade religiosa. Na espiritualidade, a voz interior, o “toque” divino.

A religião culpabiliza; a espiritualidade induz a aprender com o erro. A religião ameaça; a espiritualidade encoraja. A religião reforça o medo; a espiritualidade, a confiança. A religião traz respostas; a espiritualidade suscita perguntas. As religiões são causas de divisões e guerras; as espiritualidades, de aproximação e respeito. Na religião se crê; na espiritualidade se vivencia. A religião nutre o ego, pois uma se considera melhor que a outra. A espiritualidade transcende o ego e valoriza todas as religiões que promovem a vida e o bem.

A religião provoca devoção; a espiritualidade, meditação. A religião promete a vida eterna; a espiritualidade a antecipa. Na religião, Deus, por vezes, é apenas um conceito; na espiritualidade, uma experiência inefável.

Há fiéis que fazem de sua religião um fim e se dedicam de corpo e alma a ela. Ora, toda religião, como sugere a etimologia da palavra (religar), é um meio para amar o próximo, a natureza e a Deus. Uma religião que não suscita amorosidade, compaixão, cuidado do meio ambiente e alegria, serve para ser lançada ao fogo. É como flor de plástico, linda, mas sem vida.

Há que tomar cuidado para não jogar fora a criança com a água da bacia. O desafio é reduzir a distância entre religião e espiritualidade, e precaver-se para não abraçar uma religião vazia de espiritualidade nem uma espiritualidade solipsista, indiferente à religião.

Há que fazer das religiões fontes de espiritualidade, de prática do amor e da justiça, de compaixão e serviço. Jesus é o exemplo de quem rompe com a religião esclerosada de seu tempo, e vivencia e anuncia uma nova espiritualidade, alimentada na vida comunitária, centrada na atitude amorosa, na intimidade com Deus, na justiça aos pobres, no perdão. Dessa espiritualidade resultou o cristianismo.

Há teólogos que defendem que o cristianismo deveria ser um movimento de seguidores de Jesus, e não uma religião tão hierarquizada e cuja estrutura de poder suga parte considerável de sua energia espiritual.

O fiel que pratica todos os ritos de sua religião, acata os mandamentos e paga o dízimo, e, no entanto, é intolerante com quem não pensa ou crê como ele, pode ser um ótimo religioso, mas carece de espiritualidade. É como uma família desprovida de amor. O apóstolo Paulo descreve magistralmente o que é espiritualidade no capítulo 13 da Primeira carta aos coríntios. E Jesus a exemplifica na parábola do bom samaritano (Lucas 10, 25-37), e faz uma crítica mordaz à religião em Mateus 23.

- Frei Betto
Reproduzido via Conteúdo Livre

Quem mostra o amor de Jesus?

Imagem do post original

Não acreditamos que, por ser gay, alguém será necessariamente, a priori, pior ou melhor do que os demais, sob qualquer aspecto. Do mesmo modo, não acreditamos que ser cristão, ou especificamente católico, necessariamente tornará alguém melhor do que os outros. Ser cristão (católico ou não) constitui, a nosso ver, antes de tudo um compromisso - um compromisso com uma determinada ética, com a busca de superar as dificuldades e limitações tão demasiadamente humanas e tentar, a cada dia mais, abrir-se para o outro, olhá-lo com os olhos de compaixão e coração misericordioso que só a graça de Cristo pode nos dar, quando caminhamos com Ele. Ser cristão é, para nós, ser plenamente humano, reconhecendo as limitações inerentes à nossa humanidade e buscando abrir-se e entregar-se à graça de Cristo para colocar nossas capacidades e talentos a serviço da construção de um mundo mais amoroso e fraterno, um mundo plural, onde haja espaço para o respeito às diferenças e onde cada um tenha lugar para ser tal como é.

Ser cristão, pois, a nosso ver não constitui garantia de salvação. Pelo contrário, é um compromisso com um permanente estado de conversão, que exige de nós atenção redobrada com as tentações do caminho, sobretudo a acomodação, a passividade, a soberba dos que se creem "certos", salvos e em segurança; um estado de conversão que nos mantenha vigilantes para os sinais de Deus Pai que zela por nós e Sua voz que fala no silêncio, no mais íntimo dos nossos corações, e nos mantenha a caminho, procurando sempre descobrir novas maneiras de em tudo amar e servir.

Daí o alerta de que é pelos frutos que se conhece a videira: não basta dizer "Senhor, Senhor", como advertem os evangelistas; é nas obras que se traduz o serviço a Cristo. Daí se entende que a Graça possa tocar a todos, crentes ou não crentes, filhos de Deus de todos os povos e nações - a Graça está com aqueles que amam, aqueles que se entregam à vida de coração aberto e inundado pela alegria e compaixão que são sinais inequívocos da presença de Cristo.

É sob essa ótica que reproduzimos o texto abaixo, de autoria do americano Philip Yancey, autor americano de vários
best sellers cristãos que conhecemos através do ótimo blog Teologia Inclusiva, do Alexandre Feitosa.

Eu estava em Washington num dia em que 300 mil ativistas de direitos dos homossexuais se reuniram lá para uma manifestação. Era outubro, o dia estava muito frio, e nuvens cinzentas derramavam a chuva sobre os manifestantes que desfilavam pelas ruas da capital do país. Enquanto olhava a movimentação, na calçada bem em frente à Casa Branca, assisti a um confronto muito notável.

Aproximadamente quarenta policiais, muitos deles a cavalo, formaram um círculo para proteger um pequeno grupo de manifestantes cristãos. Graças aos enormes cartazes alaranjados com ameaças vívidas do fogo do inferno, o pequeno grupo de crentes conseguira atrair a maioria dos fotógrafos da imprensa. Apesar de ser um deles para cada 15 mil homossexuais, gritavam frases inflamadas contra os manifestantes.

O líder gritava ao microfone, mandando que as “bichas” fossem para casa, e os outros o seguiam, repetindo o mesmo grito. Quando se cansaram disto, passaram para “Que vergonha o que você faz!” No intervalo entre os gritos, o líder fazia sermões breves, carregados de enxofre, sobre falsos pastores, lobos em pele de cordeiro, e o fogo mais quente do inferno (que, para ele, estava reservado para os sodomitas e outros pervertidos).

O último insulto do repertório, gritado com mais entusiasmo, foi “Aids, Aids, ela espera por você.” Tanto eu quanto eles acabáramos de ver uma procissão com várias centenas de pessoas com Aids, algumas em cadeiras de rodas, outras com o rosto macilento e encovado como o dos sobreviventes dos campos de concentração e alguns cobertos de feridas vermelhas. Ouvindo os gritos, não conseguia compreender como alguém pudesse desejar esse destino para outro ser humano.

Os manifestantes responderam de formas diversas aos cristãos. Os mais briguentos jogavam beijos ou gritavam de volta: “Fanáticos! Que vergonha vocês são!” Um grupo de lésbicas fez com que membros da imprensa rissem, gritando em uníssono: “Queremos a esposa de vocês!”

Dentre os manifestantes gays, pelo menos 3 mil faziam parte de grupos religiosos: movimento Dignidade Católica, grupo Integridade Episcopal e, até mesmo, alguns mórmons e adventistas do sétimo dia. Mais de mil marchavam sob a bandeira da Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM), denominação que professa uma teologia bem ortodoxa, exceto quanto à homossexualidade. Este último grupo respondeu de forma tocante aos cristãos cercados por eles: pararam bem firmes, voltaram o rosto para eles, e cantaram algo mais ou menos assim: “Jesus ama vocês, sabemos com certeza, porque a Bíblia assim o diz.”

As fortes ironias presentes naquela cena de confronto me acompanharam até muito tempo depois que saí de Washington. De um lado, os cristãos “justos”, defendendo a pura doutrina (nem mesmo o Conselho Nacional de Igrejas considera a ICM apta a ser aceita como membro). Do outro lado, os “pecadores”, muitos dos quais admitiam abertamente sua prática homossexual. Ainda assim, um lado destilou ódio e o outro cantou o amor de Jesus.

- Philip Yancey
Reproduzido via blog Teologia Inclusiva
In Perguntas que Precisam de Respostas, editora Textus, 2001

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

"Já sofri muito por ser o que sou. Chega: sou um filho amado de Deus"


Percebemos que a ideia de conciliar nossas identidades de gays e católicos muitas vezes causa um certo estranhamento ou mesmo desconforto em algumas pessoas - e, nesse caso, não só os "fundamentalistas", mas também em muitos gays não-religiosos. Em vista disso, iniciamos há algumas semanas uma série de depoimentos aqui no blog, que serão publicados sempre às quintas-feiras, às 15h, de algumas das pessoas que frequentam as reuniões e atividades do Diversidade Católica e que se dispuseram a compartilhar, com os leitores do blog, um pouco de suas histórias e suas vivências como gays e católicos que são.

O depoimento desta semana tem uma peculiaridade: foi enviado para nós não por um membro do grupo do Rio, mas por um amigo virtual, uma das pessoas que entraram em contato conosco interessadas em iniciar um grupo de católicos gays em Belo Horizonte e nos pediram ajuda para estruturá-lo. Os grifos são do autor.

A série pode ser acessada através da tag "gay e cristão".

A cada um deles, sempre, nosso muito obrigado. :-)


Eu “amei“ em toda a minha vida, até hoje, quatro pessoas. Duas do sexo masculino e duas do sexo feminino. Somente depois de uma longa caminhada, consegui descentrar o amor romântico a fim de buscar o amor real: uma mescla de amor Eros, amor Filia e amor Ágape, além de muito suor e lapidação no cotidiano de uma relação. Tornei-me uma pessoa melhor.

Sou intenso e faço a experiência de Deus da Meditação à Teologia da Libertação. A espiritualidade, o fato de gostar de gente, literatura, música, psicanálise e a paixão por viagens contrapuseram e ressignificaram intensos sofrimentos, perdas, abuso sexual e bullying na infância.

Somente aos 42 anos, encaro a minha orientação sexual não convencional como dom de Deus. Já sofri muito por ser o que sou. Chega: sou um filho amado de Deus: Ele me ama e ponto.

Existem sete bilhões de pessoas no planeta terra. Existem sete bilhões de singularidades. Portanto, existem sete bilhões de sexualidades, porque ninguém é igual a ninguém. Hetero, bi, homo, transexual... São balizamentos importantes, mas essas denominações não podem aprisionar a vastidão do mistério que pulsa em cada coração humano: buscamos sempre Deus no outro, nossa verdadeira sede é Dele e é essa a nossa maior e melhor realidade.

Uma amiga íntima, freira, falou-me um dia: “Marcos, Deus é amor, a pessoa humana é que é um mistério...” Pura sabedoria, verdade verdadeira. Assim...

Aos 07 anos, amei pela primeira vez: uma menina de minha sala, dois anos mais velha que eu. Ela era muito feia, mas eu adorava Gláucia: a menina mais charmosa que já conheci. Ela usava óculos fundo de garrafa, tinha uma pinta preta e grande no rosto e era zarolha. A sua vivacidade, jeito de falar, dançar e ser encantavam-me. E ela levava bombom de cereja para mim e batia nos meninos que me insultavam na escola. Eu andava com a foto dela na minha merendeira e cheguei ao ápice da paixão ao entregar meu ovo de páscoa inteiro para ela, que quase desmaiou de alegria. E eu de tristeza no dia em que, ao chegar à escola, sua carteira estava vazia. E vazia para sempre. A família mudou-se para outro país para aproveitar uma excelente oportunidade de trabalho para seu pai. Ah, que dor eu sofri!

Aos 13 anos, vivi um amor platônico, experiência que todo mundo deveria ter, porque além de ser uma delícia, prepara, delicadamente, o adolescente para o namoro real. Tiago era o nome dele. Ele tinha 16 anos e um dos adolescentes mais bonitos que conheci em minha vida. Ele era o “cara”: quase todas as meninas queriam namorá-lo. E ele namorou muitas garotas, mas, coetaneamente, por uns bons anos e todos os dias, ele quase furou com sua moto, o asfalto da rua onde morava. Eu ficava no jardim, meio que escondido por entre as árvores e o coração disparado. Seus olhos negros atravessaram todas as barreiras de censura e de preconceito existentes em mim e iluminaram meu ser por inteiro. Eu não precisava de mais nada, sentia-me “pleno”, podia morrer. É engraçado: ao rememorar essas cenas, não posso deixar de falar que jamais tive qualquer fantasia sexual genital com ele. O fato de ele existir e o fato de poder todas as manhãs, na escola, vê-lo e ser visto, de ser o seu amor proibido, enchia-me de um tipo de alegria que jamais senti novamente. Nunca comunicamo-nos por palavras. Elas, hoje penso, quebrariam o encanto. Somente sorrisos, olhares e as iniciais de nossos nomes, de maneira clandestina escritos nas árvores de nosso colégio. Ao mesmo tempo, eu era coroinha e amigo do padre do bairro: nós jogávamos peteca em dupla e ele era extremamente amigo: deu-me um belo presépio em um dos natais e ensinou-me que Jesus nasce no coração de todos nós em todos os momentos de nossas vidas. Sinto que Deus enviou-me Tiago e encheu-me de uma pureza de estado de alma, que a turbulência de minha fase posterior, dos 17 aos 21 anos, não conseguiu apagar. Nessa etapa de minha vida, afastei-me da Igreja e experimentei vários namoricos e relacionamentos sexuais - corri sério risco de vida ou de contrair AIDS – até dar-me conta de que não tinha coragem e maturidade de me entregar a ninguém. Eu precisei de mais dois anos para que a homofobia silenciosa e arrasadora começasse a ser transformada em fonte de amor. Eu precisei fazer psicanálise por uns bons anos e essa foi essencial no meu processo de amadurecimento humano. Quanta dor, quanta busca: tocar o dedo nas feridas, enfrentar o inconsciente, as sombras: nossas mestras companheiras, como nos ensinam os padres do deserto dos primeiros séculos de cristianismo: “O céu começa em você “ ensinou-me o passar dos anos e o monge beneditino Anselm Grün, autor do belo livro com esse nome.

Em uma segunda-feira ao meio-dia em ponto, aos 25 anos, conheci a paixão de minha vida: Marco Túlio e três anos de relacionamento que valeram por trinta. Túlio acabava de sair do seminário, onde viveu por muitos anos. Túlio: homem de inteligência viva e ousada, que açulou minha consciência crítica, opção preferencial pelos excluídos, cidadania, direitos humanos. Através dele pude “Beber do próprio poço” com Gustavo Gutierrez; ser atravessado pela obra de Theilhard de Chardin; saborear “Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos”, “Vida para além da morte”, “São Francisco de Assis: ternura e vigor” e tantos outros magníficos livros de Leonardo Boff; tive “Fome de beleza e de pão”, aprendi o “Catecismo Popular” e vivi o “Batismo de Sangue” de um de nossos maiores escritores e profetas modernos, que é Frei Betto. Através desse relacionamento, comecei a participar de pastorais sociais, acompanhei movimentos reivindicativos em portas de fábricas, conheci a realidade dos nossos irmãos das favelas, fiz retiros espirituais com prostitutas e a experiência do sexo como expressão do amor entre dois homens. Nós dormíamos entre livros de Adélia Prado, Clarice Lispector e discos de Maria Bethânia, Almir Sater, Renato Teixeira, Simon e Garfunkel. Nós tocávamos violão e ele tinha uma voz linda. Viajávamos. Fazíamos amor nas estradas desertas e o céu estrelado, íamos a cachoeiras pouco exploradas e festas simples de interior... Como abominar esse amor gerador de tantos frutos e poucos ramos secos? Quem ousa julgar e pisar no solo sagrado de uma relação bem diferente daquilo que o sociólogo polaco Zigmunt Bauman denomina de “amor líquido“ resultado de uma sociedade em que tudo é superficial, artificial, efêmero, “líquido” que se esvai ao se deparar com a concretude do mundo atual de valores distorcidos? Somente a ignorância e o medo, mãe e pai de todo preconceito podem sustentá-lo. E é por isso que precisamos dar testemunho de nossas vidas, buscas e direitos autênticos.

29 a 40 anos
Conheci a mãe de meu maior presente de Deus: meu filho. Uma mulher extraordinária em muitos aspectos, que cuidou de mim com devoção, em momentos delicados de minha vida. E confesso: Marco Túlio, apesar das inúmeras qualidades, jamais teria dado conta de sustentar as barras pelas quais tivemos que enfrentar juntos. Não pelo fato de ser homem, mas devido à sua personalidade imatura para os momentos mais difíceis de um relacionamento. Devido ao fato de eu saber claramente sobre a predominância de minha orientação homossexual, jamais imaginei namorar e me casar com uma mulher... Mas com o desenrolar da psicanálise, minha dimensão heterossexual bloqueada e maciçamente reprimida veio à tona e eu fiquei completamente envolvido por um desejo e por um amor que nunca imaginei que me habitasse. Apavorado e apaixonado, contei tudo para ela, que linda, delicada, sensível e paciente, acolheu-me totalmente. Simplesmente aceitou-me do jeito que sou. Eu não resisti e vivi o mais profundo relacionamento de minha vida: desejo, afinidade, cumplicidade, fidelidade e filho.

Porém, jamais deixei de ser homossexual e sempre, nos sonhos apareciam os desejos e na vida de vigília uma angústia muito forte, um peso excessivo, algo muito ruim que sempre compartilhei com ela. Até que, por fim, ela foi, mais uma vez, um anjo em minha vida ao pedir a separação. Ela com muito sofrimento e de maneira delicada apontou-me que o excesso de peso era o meu ressentimento inconsciente com minha posição subjetiva no mundo: minha posição no casamento convencional. Era verdade. Parte da verdade, pois sofri as piores dores de minha vida. Óbvio que ela também apresentou limitações que ajudaram a colocar fim ao casamento. Mas, cheguei a sentir que não viveria sem ela. Separamo-nos. Isso aconteceu no início de 2009 e por dois anos fiquei muito mal. As orações diárias, a bondade de Deus, o amor de minha família e amigos e o tempo devolveram-me a alegria de viver.

Hoje, aos 42 anos, sinto-me livre para amar novamente e acredito firmemente que será um homem o meu companheiro. Porém, o maior aprendizado que fiz após essas experiências de amor e de vida é, ao mesmo tempo, o meu núcleo gerador de confiança, serenidade e alegria: independentemente do amor que eu for viver, o meu e o nosso maior caso de amor precisa sempre ser com Deus. Jesus é o amado insubstituível. somente Ele é o “cara”. E esse caso de amor é, podemos falar com toda certeza, o que nos sustenta e nos fortalece para que possamos dar o melhor de nós, aconteça o que acontecer.

Experimente desde o raiar do dia, todos os dias, louvar, amar e servir à Trindade. E você vai sentir uma transformação profunda no seu ser e na sua vida.

Com carinho, a todos vocês.

- Marcos, novembro de 2011

Orai e vigiai

Foto enviada por nosso amigo Hugo Nogueira, via Facebook

Há algo de que eu gostaria muito de falar, porque sinto, em muitos de nós, católicos, certo esquecimento em relação ao tema: a oração.

A vigília, estarmos atentos às circunstâncias e às características do mundo que vão de encontro ao Evangelho, parece-me bastante mais encarecida pelos cristãos, nos dias de hoje, do que a oração.

Trata-se de uma consequência da correria do dia a dia, em que todos nós estamos submetidos a cargas horárias de trabalho e/ou estudo estafantes, extenuantes, que nos consomem todo o tempo, e mais nos consumiriam se mais tempo tivéssemos.

Madre Teresa de Calcutá passou por um episódio que considero importante de ser aqui relatado. Suas freiras e noviças acordavam bem cedo para iniciar os serviços de caridade que caracterizam a sua Ordem. Mas, antes dos serviços, Madre Teresa reunia todas as religiosas para 4 horas de oração e, no fim do dia, a ida à missa. As religiosas, num dado momento, começaram a reclamar de “tantas” horas de oração, que poderiam ser convertidas em mais serviços de caridade.

Foram falar com Madre Teresa sobre o caso. Pediram-lhe que diminuísse o tempo de oração para que o tempo de serviço aumentasse.

Madre Teresa pediu um dia para lhes dar a resposta. Orou sobre o assunto, pediu discernimento, e, no dia seguinte, reuniu as religiosas e lhes anunciou: daquele dia em diante, o tempo de oração passaria de 4 horas diárias para 6 horas diárias. E assim foi feito.

O serviço de caridade, que aquelas religiosas parecem não ter compreendido na dimensão completa do Mistério Pascal, está também na oração.

Devemos orar, não apenas vigiar.

A propósito, não é à toa que a padroeira dos missionários católicos, juntamente com São Francisco Xavier, seja Santa Teresinha do Menino Jesus, ou Santa Teresa de Lisieux, que era uma freira de clausura, ou seja, que não era missionária, que não saía em missão ao mundo, melhor dizendo. Por quê? Porque alguém que queira ir ao mundo para pregar ou para se comprometer com a fraternidade como solução das injustiças sociais PRECISA ter como protetor alguém cuja grande missão à humanidade não foi a vigília, mas a oração. Santa Teresinha é uma missionária da oração. Por isso é fácil entender, também, que os Frades Mínimos, de São Francisco de Paula, missionários em essência, tenham como patrona Nossa Senhora dos Milagres, a quem, sempre, levam junto à sua chancela eclesial de CHARITAS – GRAÇA, CARIDADE.

Nossa caridade, nosso conhecimento advindo por leitura das Sagradas Escrituras, tudo o que fazemos, mesmo em benefício de nossos semelhantes, deve ser precedido e sucedido pela oração. É ela que nos torna piedosos. A mera leitura e compreensão do magistério nos tornaria intelectuais, eruditos. A oração nos torna mais: nos torna piedosos. A oração é a base do serviço correto, da interpretação correta, é a base do amor.

O que Nossa Senhora de Fátima pediu em suas aparições em Portugal foi, sobretudo, oração, muita oração. Oração para que os corações duros se convertessem à misericórdia, oração para que a Igreja não ficasse acéfala (já que Fátima profetizou o atentado a João Paulo II, e Ela própria salvou sua vida), oração para que a Rússia se convertesse ao catolicismo; e o próprio “Bispo de branco”, o Papa João Paulo II, profetizado como “sangrando e tombado” na profecia da Mãe de Jesus, foi um dos principais responsáveis políticos pela queda do comunismo de bases stalinistas que grassava na União Soviética, para desespero do povo russo que queria se converter a Jesus e a Maria, à Igreja, quero dizer. Há um filme russo muito bom: “Anna, dos 6 aos 18”, em que o diretor, Nikita Mikhalkov, filma sua filha Anna dos 6 aos 18 anos, e lhe faz, ao longo do tempo as mesmas perguntas. É incrível a cena em que velhos e velhas que viveram antes do stalinismo sobem de joelhos uma escarpa pedregosa e alcantilada, para rezar a Cristo aos pés de uma árvore, pois ali havia uma catedral que Stalin mandou derrubar. Isso comprova a fé daquelas pessoas, que – numa atitude piedosa – iam implorar àquela árvore, resquício do sagrado, sagrada ela mesma, portanto, o Espírito de Cristo. Regimes tentaram banir a Igreja, mas nunca, jamais conseguiram arranhar a fé.

Sim, a Igreja, ao longo de sua história, tem feito inúmeros serviços sociais, políticos. Tem participado de tantos marcos históricos, que seria necessário escrever-se uma tese de doutoramento para relatá-los. Não me refiro a acontecimentos de cunho eclesiológico, mas a acontecimentos de cunho temporal, como, para não irmos muito longe, a assinatura da Bula Inter Coetera (Papa Alexandre VI), o Tratado de Tordesilhas, e, muito recentemente, vários tratados do Concílio Vaticano II, como o Gaudium et Spes, que, diferentemente do Lumen Gentium, que tratava mais profundamente dos aspectos do clero e sua missão, trata, agora, da participação da Igreja como instrumento social de transformação e fraternidade num mundo conturbado por excesso de materialismo, entre outras questões prementes às quais a Igreja, como sempre fez, não virou as costas: “a explosão demográfica, as injustiças sociais entre classes e entre povos e o perigo da guerra nuclear, entre outros problemas socias e econômicos.” (GS, 46 e ss.). O Gaudium et Spes também ficou notório pela abertura gradativa e permanente da Igreja aos progressos científicos em prol da humanidade. Diz-se, até, que o Gaudium et Spes veio para fazer a Igreja e a Ciência se reconhecerem como irmãs, não como inimigas, antípodas.

Mas tudo isso precisa ter como lastro a oração. A contemplação silenciosa e profunda aos mistérios de Deus. O amor ao Santíssimo Sacrário. O exame de consciência – da própria consciência, não da consciência alheia – ali, diante do Cordeiro de Deus. A súplica sincera a Deus pelo discernimento real do que é e do que não é pecado.

Somos todos pecadores, e a oração nos aproxima de Deus, dando-nos um vislumbre, por meio do Mistério de sua palavra, de onde, como, quando, por quê e contra quem pecamos. E como podemos nos remir dessas faltas. Precisamos fazer esse exame de consciência profunda, precisamos criar intimidade com Deus para discernirmos, em nós, quais são nossos pecados e como podemos, com o auxílio do Espírito Santo, redimi-los, como foi dito.

A vontade de Deus não é o que queremos e como queremos, mas Lea é aquilo que é. Porém, nós, falíveis que somos, só alcançaremos esse conhecimento, ainda que parcial, parcimonioso, graças ao discernimento que a oração sincera fecundará em nossos corações.É a chamada reforma interior. Cada um deve se comprometer à sua própria, e, de coração aberto a Deus, aprender a orar aceitando que “seja feita a Sua Vontade”, não a nossa.

No período composto por coordenação, em que há dois imperativos, “orai” vem antes de “vigiai”. O que isso significa? Significa que a vigília sem oração é exclusivamente secular, e não caracteriza o fideísta, não importando a que religião ele pertença. Significa que a oração precede a ação.

Na oração ecumênica de Cristo, o Pai-Nosso, ele deixa bem claro: “Venha a nós o Vosso Reino”. Não somos nós que alcançamos a Graça, por supostos méritos que tenhamos ou deixemos de ter; ao contrário, é a Graça que vem até nós, pela misericórdia de Deus, no que, na missa latina, chamava-se o Miserere (ouçam-se as missas de Mozart e Bach por exemplo, ou os Réquiens de Brahms, Mozart, Verdi etc., e ali se encontrará o Miserere).

A oração, porquanto nos aproxima de Deus, vai, pouco a pouco, mitigando o pecado da soberba. Passamos, cada vez mais, a nos reconhecer criaturas dependentes do amor de Deus, manifestado na santa natureza, e a reconhecer que por nossa simples consciência, intelectualidade, erudição ou racionalismo, não conseguiremos compreender os altos desígnios divinos.

Há quatro fontes de conhecimento humano: a Teologia, a Filosofia, a Ciência e a Arte. Cada uma dessas fontes contribui com o homem e seu contato com a natureza que o envolve carinhosamente. Todos nós, mesmo que inconscientemente, somos, em nosso pensamento, consequência das quatro fontes de conhecimento.

Com a Filosofia, aprendemos a refinar o pensamento e a adaptá-lo às diferentes categorias da sociedade, pensando-a por diversos prismas e epistemes que se encaixam como num verdadeiro mosaico.

Com a Ciência, saímos do senso comum, aprendemos a ter paciência, a observar experimentos e anotar resultados para uma futura conclusão, aprendemos a pensar a médio e longo prazos, aprendemos a hierarquizar a qualidade e a quantidade de dados empíricos e teóricos, aprendemos a ser flexíveis, pois nem sempre uma hipótese que aventáramos se consolida numa tese que supúnhamos verdadeira.

Com a Arte, aprendemos a apreciar o belo em todas as suas manifestações criadas pelo homem como espelho de Deus. Mesmo com a corrente desconstrucionista, que supostamente propunha que Arte não é apenas o que é belo, o beletrismo ou as Belas Artes, não deixa de ser no belo e na beleza que, afinal, essa premissa se sustenta. O próprio Duchamp assumiu, no fim de sua vida, que o seu urinol, no fim das contas, tratava de reafirmar a beleza do Renascimento. Os gregos já haviam percebido essa possibilidade de contraste no conceito de antiperístase (tratei desse conceito num capítulo de livro que publiquei em Angola sobre a obra de Manuel Bandeira, poeta que nossos patrícios angolanos muito admiram).

Mas e a Teologia? O que aprendemos com ela? Antes de responder a isso, é preciso saber de onde vem a experiência íntima teológica, e em que ela se difere das outras fontes de conhecimento.

A Teologia surge da revelação, não do raciocínio. A fé é sobrenatural, não pode e nem deve ser explicada de modo científico, filosófico ou artístico. A Teologia é a primeira das fontes de conhecimento, primeira até mesmo do ponto de vista cronológico, como nos prova a Arqueologia e a Antropologia, e também a Psicologia. Por isso, é natural que Filosofia, Arte e Ciência se relacionem com a Fonte-Mãe de conhecimento, a Teologia. Mas sublinho a autonomia da Teologia em face das outras fontes.

A fé é suprarracional, prescinde das explicações filosóficas. A fé existe ou não existe. A fé é tautológica, e, no caso dos católicos, diz respeito ao sentimento profundo, à esperança da parousia, da escatologia cristológica. Assim, o campo da Teologia necessita da oração para se manter, porque a oração é a consequência da fé, cuja causa é, para todos nós, um mistério, como nos anuncia a Santa Missa: “Eis o Mistério da Fé”.

A fé sem oração tende a se esvanecer e a se desintegrar. A Teologia se diferencia das outras fontes de conhecimento pelo fato de que não é apenas intelectual, racional, nem diz respeito aos cinco sentidos, nem pode ser alcançada apenas mediante controle estrito de experimentos. A Teologia, por ser suprarracional, possui um elemento que a diferencia de todo tipo de conhecimento humano: a fé.

Não foi à toa que Jesus encareceu tanto esse dom: “Se tivesses fé, ordenarias à montanha e ela se atiraria ao mar”.

- Marcelo Moraes Caetano

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Jornalista lança livro que serve de guia para ajudar a ler a Bíblia

Vale a pena ouvir a entrevista de Luiz Paulo Horta, membro da Academia Brasileira de Letras, no CBN Rio.





Veja mais sobre Luiz Paulo Horta aqui.


Rodolfo Viana

O multiculturalismo fracassou?

Foto: Kees Straver

Fala-se muito do fracasso do multiculturalismo. Uma afirmação que muitos pronunciam com complacência, sem, porém, indicar qual perspectiva o substitui ou deveria substituí-lo. É verdade ou é um estratagema para alimentar temores e intolerâncias a serem instrumentalizadas politicamente? (E aqui, o que nós estamos fazendo - ou não - para promover uma sociedade verdadeiramente plural, em que as diferenças sejam vistas como iguais e não fracionadas por hierarquias e mecanismos de exclusão?)

A análise é da antropóloga italiana Anna Casella Paltrinieri, professora da Università Cattolica del Sacro Cuore, em artigo para a revista Popoli, 14-02-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU, com grifos nossos.


Angela Merkel começou há algum tempo, agora David Cameron, da Inglaterra, lhe faz eco. No meio, houve as revoltas das banlieau parisienses, os "repatriamentos" dos membros da comunidade rom romenos, as fogueiras nos campos nômades. Muitos começam a difundir a ideia: o multiculturalismo fracassou, as sociedades não podem suportar muitas diversidades culturais, a convivência pacífica entre povos e grupos pertence aos contos fabulescos, mas não responde à prova dos fatos. Verdadeiro? Falso? A questão não é acadêmica e não é de pouca importância. Convém pensar acima disso.

Não há a necessidade de ser estudioso de ciências sociais para observar nas nossas cidades, até nas menores, a presença de pessoas que vêm de todas as partes do mundo. As estações, as ruas dos centros históricos, as periferias estão há muito tempo "coloridas". Os nossos filhos têm colegas de escola chineses, africanos, latino-americanos. As cuidadoras dos nossos pais continuam sendo, em grande parte, ucranianas, romenas, russas, as empregadas filipinas, os operários nos canteiros de obras, africanos. O multiculturalismo, portanto, é um "fato", não uma teoria ou uma opção, uma questão de gostos. E, nas nossas sociedades, o multiculturalismo é um "fato" há dezenas de anos.

Então, o que fracassou? Talvez, como diz (a meu ver, justamente) o sociólogo Franco Ferrarotti, não fracassou o multiculturalismo, mas sim as políticas e as teorias sobre o multiculturalismo. Fracassaram aquelas teorias da convivência multiétnica que se revelaram incapazes de compreender e governar as sociedade multicultural. Fracassaram as políticas colocadas em ação pelos Estados para governar (ou mais frequentemente para exorcizar) a presença de pessoas com outras tradições e outros valores.

A visão britânica da sociedade multicultural continua, porém, no esquema do Commonwealth e, assim, pressupõe um pensamento que não coloque em discussão a supremacia política e cultural do mundo inglês, diante do qual as outras culturas só podem ser subalternas e "funcionais". A visão francesa assimilacionista se rege pela necessidade de tornar totalmente privada e individual a pertença cultural. Privadamente, você pode ser árabe, curdo, ganense. Em público, você é um cidadão, anônimo e incolor. Um laicismo abstrato (do qual a França é mestra até naquilo que concerne à pertença religiosa), absolutamente incapaz de compreender o estado de ânimo e a cultura do povo das banlieaux. E a visão alemã, tão radicada no binômio "sangue e solo", pensa em uma inviolabilidade do seu próprio território no qual os "outros" só podem ser hóspedes.

Essas teorias mascaram todas as ideias arcaicas de uma hierarquia das culturas, da qual descendem, como estamos bem vendo, práticas políticas e jurídicas que sustentam a legitimidade de uma hierarquia dos direitos e do acesso aos recursos. Assim, muitas políticas sobre o multiculturalismo (por exemplo na Itália) são pensadas em função da defesa do perigo representado pelos outros.

O medo (Thomas Hobbes ensina) torna-se o critério da vida associada, e o Estado, o protetor da nossa tranquilidade. Na realidade, se olharmos para a história, quando se verificou o conflito entre povos, entre comunidades, não era só por causa da diversidade cultural. Nesse caso, ocorreu porque, sobre essa diversidade, construíram-se projetos políticos que avantajavam alguns e puniam outros, porque as diferenças se radicalizaram e se tornaram intoleráveis, porque se construíram esquemas de pensamento sobre os "outros" e se pretendeu que fossem definitivos, porque se deixou que visões anti-igualitárias, frequentemente racistas, circulassem livremente na opinião pública.

A diversidade cultural é, parece-me, uma das variáveis da diversidade humana (junto com a diversidade de gêneros, de religiões, de capacidades pessoais, de idade...). Assim como as outras, deve ser tratada dentro de um esquema que tenha bem sólidos os princípios da dignidade da pessoa, da justiça, da liberdade e da igualdade. É um desafio democrático, não o fim da democracia.

Para cuidar da preparação para o Natal


Os jesuítas do Centro de Espiritualidade Inaciana de Itaici elaboraram um material incrível de preparação para o Natal neste Advento, para quem quiser fazer uma reflexão diária neste período. O material está muito bem organizado em arquivos pdfs (versões completa, com toda a orientação acerca da oração inaciana, e resumida) que podem ser baixados e impressos. Caso se interessem, deem uma olhada aqui. Reproduzo abaixo o texto de apresentação do material.

Beijos carinhosos a tod@s! :-)

* * *

Mais uma vez estamos disponibilizando, através do site do CEI-Itaici, roteiros de oração para que os grupos e comunidades cristãs possam viver mais intensamente o Tempo do Advento e alargar suas vidas para caber o mistério do Natal.

Advento nos revela a presença da eternidade no coração do tempo. O Eterno continua vindo, pelos caminhos mais imprevisíveis, iluminando a dura rotina e a seqüência do cotidiano.

Advento é tempo de espera, de preparação e de chegada. Tempo forte carregado de sentido, que nos faz ter acesso àquilo que é mais humano em nós: o sentido da esperança, a travessia, o encontro com o novo... Tempo que nos arranca de nossas rotinas e modos fechados de viver.

A Vinda de Cristo é o grande evento que agita os corações, sacode as inteligências, inquieta as pessoas, move as estruturas... Toda a nossa vida se transforma na história de uma espera e de um encontro surpreendente.

Por isso, o Advento deveria ser um tempo para voltar-nos para o interior em meio à agitação, e olhar para dentro de nós mesmos. Aí, no nosso interior, há tanto de eterno. A eternidade dialoga com a gente, fala por dentro. Caminhamos para O Senhor que vem à medida que mais nos adentramos ao fundo de nós mesmos e da realidade. Advento nos convida a “contaminar-nos” da realidade; e isso nos humaniza.

Somos “seres de travessia”. O Advento nos convida a não perder de vista nosso horizonte, nossos objetivos, nosso propósito de investir a vida, gratuitamente, naquilo que vale a pena. Cada momento é o “hoje” de Deus; por isso o “fim” está sempre chegando.

O Esperado traz uma novidade que envolve e que se revela em cada rosto humano e em cada fragmento de tempo, deste tempo colocado em nossas mãos.

Contemplando o “hoje” de Deus, o coração se alarga até o assombro, os braços se abrem para a acolhida, os pés se movem para o encontro, os olhos se aquecem para o reconhecimento.

Vamos todos fazer este “caminho orante”, descendo em direção à nossa humanidade. Ali, nas grutas de nosso interior, uma Infância Divina nos espera... e nos enche de alegria.

Bom proveito.

Itaici, Indaiatuba, SP, Novembro de 2011.

''Eu ouvi os clamores da Natureza'', diz Deus

Foto: Nick Brandt

"Deus perdoa sempre; os homens, de vez em quando; mas a Natureza não perdoa nunca!", escreve Antonio Cechin, citando Santo Agostinho.

E Irmão Cechin pergunta: "Funcionará o Natal deste ano como o fecho de ouro de um ano em que vivemos melhor alfabetizados ecologicamente? Qual foi a eficiência da nossa Campanha da Fraternidade marca 2011 que termina?"

Segundo ele, "é uma avaliação a fazer sempre em final de ano, a fim de sermos dignos de qualquer Campanha que se preze. Inda mais a nossa devendo ser de fraternidade. Do contrário, teríamos que trocar o nome de Campanha por simples propaganda ou divulgação de um tema importante".

Antonio Cechin, irmão marista e miltante dos movimentos sociais, é autor do livro "Empoderamento Popular. Uma pedagogia de libertação". Porto Alegre: Estef, 2010.

Eis o artigo, aqui reproduzido via IHU.


Eis que o Natal vem aí!... E vem com força!... Com a força que Deus costuma dar ao evento que acontece ao longo de dois mil e onze anos, sem solução de continuidade.

Mas cadê os profetas?... Cadê os Isaías, Jeremias, Malaquias e tantos outros que anunciaram com grande antecedência, ao longo de todo o Antigo Testamento, a vinda do Deus Messias Salvador?...

Cadê hoje, o tonitruante João Batista, do Novo Testamento, Precursor que vinha logo aí, correndo na frente do cortejo real, gritando aos quatro ventos o nome do Justiceiro que, à semelhança de um foguista, estaria a caminho a fim de limpar a sua eira? Cortaria a árvore seca? Tocaria fogo em toda a planta que não desse frutos, a ponto de assustar a muitos que perguntavam: "E daí?... O que devemos fazer para escapar do flagelo iminente?" a que o Batista respondia: "Quem tem dois pães dê um a quem não tem; e quem tem duas túnicas faça o mesmo?"

Mas cadê mesmo os profetas de hoje? Aqueles que têm como Missão ler os sinais dos tempos para o povo, isto é, clarear os acontecimentos em sua significação mais profunda? Cadê os evangelizadores ou transmissores da Boa Nova?... Cadê os Catequistas da Libertação anunciando que o fim do cativeiro está a caminho, uma vez mais, por ocasião do Natal ano 2011, às portas?

Nos tempos que correm e que são os nossos, na falta de autênticos evangelizadores, o Deus-Amor, o Paizinho dos céus nos envia uma vez mais, o seu Filho muito amado. Em seu infinito amor O envia para um povo cada vez mais surdo e cego, sem olhos para ver e sem ouvidos para ouvir. Por isso mesmo, Ele já não fala mais do mesmo jeito que antigamente quando dizia "Eu ouvi os clamores do meu Povo". Em 2011, Ele fala com mais ênfase: "Meu Povo: Eu hoje estou ouvindo berros que são da Mãe Natureza!"

Não esqueçamos que o único Mestre Jesus de Nazaré, de uma feita, soltou a queixa: “se os profetas deixarem de gritar, as pedras falarão!” Pois não é que vivemos tempos de pedra? Já nos alertava o profeta da cidade de Hipona (norte da África) o bispo Agostinho. Ele vivia nos bons tempos chamados "dos Padres da Igreja", por terem sido fundadores de Comunidades ou Igrejas. Na qualidade de Bom Pastor, Agostinho dizia: "Deus perdoa sempre; os homens, de vez em quando; mas a Natureza não perdoa nunca!" É que, a respeito dos bons tempos de antigamente, aqueles de Agostinho, dos padres da Igreja, o escritor clássico português, padre Manuel Bernardes, contemporâneo do Concílio de Trento, em seu livro "A Nova Floresta" nos diz: "Antigamente os cálices eram de pau, mas os padres eram de ouro; hoje, os cálices são de ouro e os padres de pau!" Em tempos de pedra, não deveríamos preparar a chegança de Quem prometeu "trocar coração de pedra por coração de carne"?... Substituir ódios e guerras por amor e paz?...

Neste 2011 o Lite-motiv, isto é "o motivo condutor" da Igreja, no Brasil, é a Natureza. O lema que nos ilumina é a frase de São Paulo: "A Natureza geme em dores de parto enquanto espera a manifestação dos filhos de Deus".

Pois não é que domingo passado iniciou o ano litúrgico com o primeiro domingo do advento ou seja, a primeira das quatro semanas que preparam o Natal? Isso aqui em terra, porque da banda dos céus, o que nos veio, exatamente aqui, na região metropolitana, neste início de advento? Nada menos que um imenso toró, com uma ventania de velocidade superior a 100 quilômetros horários, destelhando centenas de casas, derrubando postes elétricos de cimento armado, pondo por terra árvores e muros, abalroando automóveis e provocando outros desastres similares. Até pouco tempo atrás, cataclismos desse tipo aconteciam como verdadeira raridade. Hoje desastres ditos naturais acontecem com sempre maior freqüência com nomes os mais diversos, tais como: tsunamis, tempestades, desmoronamentos, destelhamentos, demolições, vulcões, maremotos, e quejandos outros designativos.

É a Natureza saída das mãos de Deus que não suporta mais tanta agressão por parte dos "filhos de Deus" ingratos e que não tornam Deus manifesto de jeito nenhum. Ela, a Mãe Natureza não consegue mais suportar as agressões que recebe, de quem tem o dever de tratá-la com respeito e cuidados, como merece a obra de arte tecida pelo artista Criador.

Será que em algum lugar desta região metropolitana se estará lendo "o sinal dos tempos" tão claro como o berro que a natureza deu aqui, inteiramente perceptível para nossos olhos e nossos ouvidos, em nome do único Mestre Jesus de Nazaré?... Será que em alguma sala de aula de religião de alguma escola, ou em alguma catequese em âmbito paroquial, algum profeta, algum evangelista, algum catequista da libertação, ou em alguma homilia de missa dominical ter-se-á ligado o berro da natureza com o grande grito do Homem-Deus pregado no Calvário no instante da morte? Grito e berro naquele instante final de Vida do Mestre por excelência, se deram juntos, numa fusão homem-natureza. O primeiro, o Homem, fazendo parte integrante e inseparável da segunda, a Natureza.

Funcionará o Natal deste ano como o fecho de ouro de um ano em que vivemos melhor alfabetizados ecologicamente? Qual foi a eficiência da nossa Campanha da Fraternidade marca 2011 que termina? É uma avaliação a fazer sempre em final de ano, a fim de sermos dignos de qualquer Campanha que se preze. Inda mais a nossa devendo ser de fraternidade. Do contrário, teríamos que trocar o nome de Campanha por simples propaganda ou divulgação de um tema importante.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A verdadeira tarefa


"Minha verdadeira tarefa espiritual consiste em deixar-me ser amado, plena e completamente, e crer que neste amor chegarei ao cumprimento de minha vocação. Sigo tentando levar meu ser errante, inquieto e ansioso ao seu lugar, para que possa repousar no abraço de seu amor."

- Henri Nouwen, aqui

Nessa Mesa nos ensinais

Imagem postada pelo autor

Um assíduo seguidor no Twitter e amigo no Facebook, Marcelo Spitzner, publicou o texto abaixo em seu ótimo blog What about? e teve a gentileza de nos enviar o link. É para nós uma honra sermos citados por ele, e é com alegria que reproduzimos sua tão lúcida reflexão aqui.

Esse post se diferencia dos outros postados aqui por uma temática ainda não abordada, mas que é extremamente importante para mim, que ocupa boa parte das minhas reflexões cotidianas porque minha história foi profundamente marcada por uma vivência religiosa católica e, sobretudo, católica eucarística e litúrgica.

Geralmente aos domingos, costumo me dedicar a refletir sobre minha relação com Deus ou com a Espiritualidade. Não têm sido reflexões fáceis de serem feitas, pois desde que me decidi por não mais frequentar a Comunidade Católica e de assumir em relação a ela uma posição política de não aceitação de certas contradições com práticas evangélicas essencias (tais como o verdadeiro acolhimento, o amor fraterno, o perdão, a enfase na pregação do Kerygma muito mais do que o apontamento do dedo dos pecados e das contradições humanas, mas também em termos cidadãos a pouco boa vontade de se debruçar de maneira aberta a estudar e dialogar questões ligadas às minorias, às sexualidades, às legítimas escolhas e condições humanas, a questões ligadas ao casamento e à reprodução percebendo de maneira racional e inteligente, o que não afasta em nada da fé e da dogmática, o desenvolvimento cultural e social através dos tempos e da história.), meu sentimento, às vezes, é de angustia e exclusão. Algumas vezes, no entanto, a sensação de que algo poderia ser feito. Nessas vezes, penso que vivemos tempos dificeis em que as mentes e corações abertos para discutir, pensar, e assumir posições missionários num sentido mais inclusivo e libertador são vozes enfraquecidas e/ou ofuscadas em tempos de aparente ( ou real) retrocesso nos avanços conciliares sentidos nas décadas de 60, 70 e bem nos inícios dos 80.

Então, nesse domingo como nos outros, voltei-me para refletir no silêncio do meu quarto os passos da liturgia eucarística dominical; lembrei muito do refrão de um canto de comunhão, que, se não me engano, foi composta em tempos de Campanha da Fraternidade (campanha idealizada e iniciada por D. Hélder Câmara, bela e santa figura e sem o devido reconhecimento), para, no tempo quaresmal, levar a comunidade católica a se posicionar de maneira mais humana e fraterna frente às necessidades, tristezas e misérias do próximo (tempo de lembrar das palavras de Jesus na parábola do Bom Samaritano: Quem é o teu próximo?), e que diz o seguinte:

1. Ó Senhor, nós estamos aqui,/ junto à mesa da celebração,/ simplesmente atraídos por Vós,/ desejamos formar comunhão!
Igualdade, fraternidade,/ nesta mesa nos ensinais.

As lições que melhor educam, na Eucaristia é que nos dais! (bis)

2. Este encontro convosco, Senhor,/ incentiva a justiça e a paz;/ nos inquieta e convida a sentir/ os apelos que o pobre nos faz.

As questões que me ocorreram foram:

a) Que ideia temos e que ideia a comunidade cristã tem de igualdade? O que significa igualdade no contexto da mesa eucarística? Há pessoas mais iguais do que outras?

b) Na esteira da pergunta de Jesus, quem é o teu próximo?, pode-se perguntar: quem é o teu igual? quem é o diferente? O que contitui a igualdade e a diferença?

c) O que é fraternidade? Que fraternidade cabe e qual não cabe ao redor do pão e do vinho dado para salvação de todos?

d) A quem e por que interessa dividir as pessoas em relação a certas condutas? A quem e por que interessa deslocar certos conceitos e não outros? - Aqui me lembro de alguns textos do Blog da Lola: como esse em que ela aponta pra coisas que eram consideradas, assim como a homossexualidade, abominação e que para ninguém, hoje, são consideradas causas de abominação.

Acabei me sentindo realmente excluído da mesa da igualdade e da fraternidade e da Igreja daquele que disse ter vindo pra que todos tivessem vida e vida em abundância e que havia alertado aos fariseus e aos doutores da Lei que as prostitutas os precederiam no Reino.

No entanto, ainda tenho esperanças de que alternativas novas e evangélicas bem como pessoas proféticas se levantem para mudar essa realidade. Tenho uma amiga que, mesmo muito ortodoxa e conservadora, me confirma essa esperança pela sua disposição de amar e sua capacidade de reflexão. Nesses momentos sempre busco suas palavras, suas orações. Nesse domingo não foi diferente, mandei uma sms, sua resposta foi pronta e confortadora. Eu me senti o seu próximo.

Lembrei-me, também, de um padre e do pessoal do Diversidade Católica.

E, senti que posso pôr outra pergunta para mim mesmo: O que queres aprender dessa mesa? Como me colocar a responsabilidade de ajudar na reflexão? O que é possível fazer? E, por fim, para que serve em tempos cada vez mais secularizados, e em meio às minhas posições políticas e teóricas e minhas experiências afetivas, cotidianas voltar-me para essa realidade?

UNESCO lidera nova iniciativa anti-bullying




A UNESCO lançou a primeira consulta internacional das Nações Unidas para lidar com o bullying contra alunos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros), nas escolas e nas universidades.

Estudos recentes, tais como o Discriminação em razão da Orientação Sexual e da Identidade de Gênero na Europa, do Conselho da Europa, identificaram atitudes homofóbicas e transfóbicas persistentes, em todo o mundo, o que deixa pessoas LGBT vulneráveis a taxas alarmantes de crimes de ódio, discriminação e violência por causa de sua orientação sexual.

Nos Estados Unidos, mais de 90% dos estudantes LGBT afirmam ter sido vítimas de assédio homofóbico; na Nova Zelândia, 98% das pessoas LGBT afirmam que já foram verbal ou fisicamente abusadas na escola. Essa violência homofóbica viola o direito dos jovens à educação e a ambientes de aprendizagem seguros.

Como resultado do estigma e da discriminação na escola, jovens submetidos a assédio homofóbico são mais propensos a abandonar os estudos. Também são mais propensos a contemplar a automutilação, cometer suicídio e se engajar em atividades ou comportamentos que apresentam um risco à saúde.

A consulta ocorrerá entre 6 e 9 de dezembro, no Rio de Janeiro, Brasil. Ela explorará como melhor apoiar alunos e professores LGBT, prevenir e combater o bullying e a discriminação homofóbica e transfóbica nas escolas, e assegurar ambientes de aprendizagem LGBT-seguro. Essa iniciativa avalia programas e políticas existentes em todo o mundo a fim de compartilhar as melhores práticas com os ministérios da educação.

Fonte:
Unesco

Confira támbém:
Por uma educação sem homofobia

Outra prática que merece atenção como um tipo de bullying támbem, são as pervesidades que algumas igrejas e religiosos ainda cometem, há o post apontando:

"A Cura da Homossexualidade" - Denúncia

Rodolfo Viana

Convertei-vos para preparar o caminho do Senhor!


Os tempos litúrgicos de preparação para grandes festas da Igreja – a Quaresma e o Advento – são marcados pelo chamado à conversão. Santo Inácio de Loyola nos ensina que quanto maior o esforço pessoal no caminho do conhecimento do Senhor e da descoberta de Sua vontade para a vida humana, maior será a glória a ser desfrutada. Certamente, o santo vivia os apelos desses tempos tão ricos para a caminhada espiritual do fiel.

O segundo domingo do Tempo do Advento traz mais explicitamente a mensagem da conversão: Preparai os caminhos, endireitai as estradas! (cf Is 40, 3, Mc 1, 3, Lc 3, 1-6 e Mt 3, 2). Somos convidados à preparação interior e à descoberta daquilo que precisa ser consertado dentro de nós.
Somos convidados, também, a (re)lembrar todos aqueles que prepararam nossos caminhos para o nosso encontro pessoal com o Senhor. Quem são? Onde estão? Elevemos uma prece por cada um e cada uma. Somos convidados, ainda, a pensar nos caminhos que estamos preparando: sou sinal de Deus? Preparo o caminho de alguém ou sirvo de obstáculo aos outros?

Nesses convites que nos chegam, encontramos a figura de João Batista, o primo de Jesus, que pregava no deserto conclamando à conversão e à penitência. João será o precursor do Messias, aquele que apontará Jesus às multidões e aos seus discípulos, reconhecendo no parente o verdadeiro Cordeiro de Deus. João, homem rude que vivia na aridez do deserto, severo em atitudes e enfático em sua pregação, será aquele que – já na plenitude dos tempos – indicará uma nova aliança que Deus está fazendo com seu povo, através de Jesus de Nazaré.

Dois milênios depois rememoramos aqueles acontecimentos: um Menino nasce em Belém e, ao se fazer adulto, é anunciado por um profeta como o Salvador que chega. O anúncio de João ainda é possível de ser escutado: preparem os caminhos, endireitem suas veredas. É o convite do Precursor neste pouco tempo que nos resta antes de celebrarmos a Noite Santa do Natal de Jesus.

Aproveitemos, pois, mais esse convite. A conversão é feita de pequenos gestos diários, de esforços cotidianos para transformar nossos corações, de sorrisos que se abrem, de mãos que se dão, de corpos que se desalojam de seu comodismo e vão ao encontro do outro. Assim, poderemos fazer deste um tempo privilegiado, um tempo penitencial onde a glória do Senhor virá ao nosso encontro, fazendo de cada coração a morada do Menino-Deus.

Para sua reflexão: Mc 1, 1-8

- Gilda Carvalho
Reproduzido via Amai-vos

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Preconceito e Comentário de Arnaldo Jabor

No passado as campanhas de HIV/Aids tinham sempre um tom pesado, acusatório onde parecia que pela estética do medo e do cruel seria possível conter uma ideia de comportamento e educar o público. Medieval o argumento. Um dos filmes foi uma campanha do governo Francês que me assustou pensar como se sentirá uma pessoa que seja soropositiva diante dele. O vídeo abaixo, só contribui pra fazer enxerto de asneira no imaginário coletivo, veja:




No entanto, na semana passada duas coisas me chamaram muita atenção. O que me parece ser uma mudança na postura social moral. O tom do vídeo abaixo com certeza fica visível esta mudança e um tom mais responsável. Assista agora o filme da campanha deste ano do Dia Mundial de Combate à Aids:





Pra encerrar, mas principalmente enfatizar esta mudança de postura social, deixo o leitor com o comentário do Arnaldo Jabor na CBN dando uma bronca em seus ouvintes retrógrados:




#FicaAdica
#FicaAanálise
#FicaAreflexão


Rodolfo Viana

Águas da ética

Fotocolagem: Serge Mendzhiyskogo

Sócrates foi condenado à morte por heresia, como Jesus. Acusaram- no de pregar novos deuses. Tal iluminação não lhe abriu os olhos diante do céu, e sim da Terra. Percebeu não poder deduzir do Olimpo uma ética. Os deuses do Olimpo podiam explicar a origem das coisas, não ditar normas de conduta.

A promiscuidade no Olimpo não convinha traduzir-se em atitudes; assim, a razão conquistou autonomia frente à religião. Em busca de valores capazes de normatizar a convivência humana, Sócrates apontou a nossa caixa de Pandora: a razão.

Se a moral não decorre dos deuses, devemos erigi-la. Em Antígona, peça de Sófocles, em nome de razões de Estado Creonte proibiu Antígona de sepultar seu irmão Polinice. Ela se recusou a obedecer a “leis não escritas imutáveis, que não datam de hoje nem de ontem, que ninguém sabe quando apareceram”. Eis a afirmação da consciência sobre a lei, da cidadania sobre o Estado.

Platão ensinou a discernir realidade e ilusão. Em República, lembrou que, para Trasímaco, a ética de uma sociedade reflete os interesses de quem ali detém o poder. Poder é o direito concedido a um indivíduo ou conquistado por um partido ou classe social de impor a sua vontade aos demais.

Aristóteles nos arrancou do solipsismo ao associar felicidade e política. Mais tarde, Santo Tomás de Aquino, inspirado nele, formulou uma ética política ao priorizar o bem comum e valorizar a soberania popular e a consciência individual como reduto indevassável.

Maquiavel, na contramão, destituiu a política de ética e a reduziu ao jogo de poder.

Para Kant, a grandeza do ser humano reside na ética, na capacidade de se autodeterminar a partir da própria liberdade. Há em nós um senso inato do dever. Não deveríamos deixar de fazer algo por ser pecado, e sim por ser injusto. A ética individual deve se complementar pela ética social, já que não somos um rebanho de indivíduos, mas uma sociedade que exige, à boa convivência, normas e leis e, sobretudo, cooperação de uns com os outros.

Hegel e Marx acentuaram que a liberdade é sempre relacional, consiste na construção de comunhões com a natureza e os nossos semelhantes. Porém, a injustiça torna alguns dessemelhantes.

Nas águas da ética judaico-cristã, Marx ressaltou a irredutível dignidade de cada ser humano e, portanto, o direito à igualdade de oportunidades. Em outras palavras, somos tanto mais livres quanto mais construímos instituições que promovam a felicidade de todos.

A filosofia moderna abriu novo campo de tensão ao frisar que, respeitada a lei, cada um é dono de seu nariz. A privacidade como reino da liberdade total. Deslocou a ética da responsabilidade social (cada um deve preocupar-se com todos) para os direitos individuais (cada um que cuide de si).

Tal distinção ameaça a ética de ceder ao subjetivismo egocêntrico. Tenho direitos, prescritos numa Declaração Universal, mas e os deveres? Que obrigações tenho para com a sociedade em que vivo? O que tenho a ver com o faminto, o excluído e o meio ambiente?

Daí a importância do conceito de cidadania. Os indivíduos são diferentes e, numa sociedade desigual, tratados segundo sua importância na escala social. Já o cidadão, pobre ou rico, é dotado de direitos invioláveis, e está sujeito à lei como todos os demais.

Agora, a humanidade desperta para os efeitos nefastos de seu modo de subjugar a natureza.

A recente consciência ecológica amplia a noção de ethos. A casa é todo o Universo. Não se fala de Pluriverso, mas de Universo. Há uma íntima relação entre todos os seres visíveis e invisíveis, do macro ao micro, das partículas elementares aos vulcões.

Segundo Teilhard de Chardin, o princípio da ética é o respeito a todo o criado para que desperte suas potencialidades. Assim, faz sentido falar da dimensão holística da ética.

O ponto de partida da ética foi assinalado por Sócrates: a polis, a cidade. A vida é processo pessoal e social. A ótica neoliberal erra ao dizer que cada um se contente com o seu mundinho.

Mas fica a pergunta de Walter Benjamin: o que dizer a milhões de vítimas de nosso egoísmo?

- Frei Betto
Reproduzido via Conteúdo Livre
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...