sábado, 25 de fevereiro de 2012

Marcas da Homofobia no Século XX: do Holocausto à homofobia de hoje

Foto daqui

Por Gabriel Ferreira [1]
Publicado originalmente no Boletim do Tempo Presente, edição de fevereiro (aqui)


O tema da homofobia insere-se em um dos fenômenos sociais mais relevantes do século XX e da história do Tempo Presente e, ainda assim, é freqüentemente negligenciado e ainda pouco estudado em todos os campos da ciência. Compreender os verdadeiros e amplos aspectos desta discriminação é um desafio antigo que só agora começa a receber sua merecida atenção. Ignorar a homofobia e não inserí-la às outras formas de discriminação, como o racismo e o sexismo (ainda que, ressalto, cada qual tenha suas particularidades), é uma maneira de perpetuar tal discriminação.

No que tange às relações internacionais (e a seu campo de estudo), a luta contra o preconceito e aversão à homossexualidade também se encontra em um período decisivo e até mesmo paradoxal: ao mesmo tempo em que cresce o discurso dos Direitos Humanos, de caráter universal e não limitado às fronteiras estatais, visualizamos um cenário de pouca pressão por parte dos Estados em cobrar o fim da chamada “State-sponsored homophobia” [2] (homofobia patrocinada pelos Estados).

Introdução – Caracterização de um preconceito
A fim de mostrar algumas das marcas da homofobia no século XX é necessário, antes de tudo, caracterizar o conceito. O termo homofobia precede o fenômeno por ele apresentado, sendo utilizado pela primeira vez em 1971 nos Estados Unidos pelo psicólogo George Weinberg. Ainda assim, por carecer de sua essência política e mais abrangente, o termo passou a ser utilizado coloquialmente e sociologicamente com significados que transpassavam sua origem epistemológica. Este artigo, em concordância com diversos autores e ativistas, entende homofobia como uma manifestação arbitrária (freqüentemente respaldada em instituições, como Igreja e o Estado) de ódio, aversão, violência ou rejeição da homossexualidade e/ou dos homossexuais, designando-os como inferiores ou anormais.

A homofobia atinge um grupo heterogêneo (homens, mulheres, adultos, crianças) vítima de preconceitos pela orientação sexual (a heteronormatividade atua como um dever-ser que marginaliza as atitudes e pessoas fora deste “padrão”), ou pelo conceito de gênero (comportamentos que escapam daqueles socialmente aceitos para “homens” e “mulheres”, como travestis, transexuais, homens que manifestam grande sensibilidade, mulheres que manifestam forte personalidade, etc.) [3].

O presente artigo busca, além de seu caráter exploratório no campo de estudos da homofobia e sua história, dar atenção ao período da perseguição aos homossexuais na Alemanha nazista, revelando suas causas, conseqüências e a retomada da importância do assunto. Para tal, serão utilizados diversos artigos sobre o tema geral da homofobia, sobre o período nazista e, também, duas obras cinematográficas e uma peça teatral. Em termos conclusivos e para mostrar a relevância no estudo do Tempo Presente, apresentarei, ao fim, um balanço simplificado sobre a situação atual do tema e como ela se insere na sociedade brasileira e nos movimentos de reivindicação dos direitos.

O “Holocausto Gay” - Homossexualidade em Berlim e o Parágrafo 175
A Berlim do início do século XX se apresentava como cosmopolita e gay, tendo fama internacional pela sua vida noturna e agitada. Este fato se contrastava com a já existência, ainda que de teor distinto à alteração nazista, do Parágrafo 175. O Parágrafo 175 do Código Criminal alemão, originário de 1871, já criminalizava a chamada “fornicação antinatural” [4], referindo-se ao sexo entre homens e à bestialidade, punindo-a com a prisão. Entretanto, político e socialmente a lei era posta em questão: não só florescia nas cidades alemãs, em especial em Berlim, uma “vida gay” com clubes, organizações e reconhecimento na Europa, como também existiram diversos fortes movimentos políticos com a intenção de derrubar a existência do Parágrafo 175. A capital alemã, no início do século XX, contava com quarenta bares gays, duas revistas de circulação freqüente sobre o tema, uma forte organização em favor dos direitos gays (Comitê Científico-Comunitário, Wissenschaftlich-humanitäres Komitee), além de abertura para publicidade de bailes de drag-queens nos periódicos (NORTON, 1975).

Evidentemente que tal abertura, além de relativa, estava de alguma forma condicionada à conjuntura das forças políticas. Antes de nos voltarmos às perseguições, prisões e outras formas de repressão, é importante analisarmos o porquê da perseguição nazista aos homossexuais. É essencial destacar que a motivação de tais atos deve ser buscada naqueles que a praticam, e não nas vítimas. Assim como atenta Francisco Carlos Teixeira da Silva, “é a anatomia do fascismo que explica seus crimes e não a das vítimas” (2000, p.150). Buscar a causa da homofobia no “comportamento homossexual” é, além de um equivoco, um preconceito em si.

A perseguição aos homossexuais não esteve, em primeiro momento, atrelado aos objetivos nazistas e presente nos discursos de Hitler. Um caso interessante foi o do parceiro político e líder da SA (Sturmabteilung), Ernst Röhm. Homossexual conhecido, Röhm foi alvo dos opositores do nazismo quando exposta sua homossexualidade e Hitler, ainda assim, em resposta, afirmou que “sua vida privada não pode ser objeto de escrutínio a menos que conflita com os princípios básicos da ideologia do Nacional Socialismo” [5]. A importância de Röhm como líder de um grupo grande e forte da Tropa de Assalto (SA) é, sem dúvida, a responsável pela sua defesa. Entretanto, o que destaco aqui é a inexistência, a princípio, de uma política direta de perseguição nazista aos homossexuais. A existência de um importante líder nazista e homossexual também era, na época, recebida pelos gays como segurança de que medidas mais restritivas não seriam adotadas. Röhm só foi assassinado, juntamente com outras duzentas pessoas, em 30 de junho de 1934, devido à sua ainda maior força e poder que foi tida por Hitler como ameaça e, também, à maior aproximação de Hitler com grupos do Exército e industriais militares.

A morte de Röhm foi um divisor histórico na perseguição nazista aos homossexuais. A partir deste momento, com a liderança das SS (Schutzstaffel) por Heinrich Himmler, Hitler ordenou que “se registrassem” os homossexuais e a Gestapo ficou responsável pela criação de “dossiês” de homossexuais e outros associais. Os gays foram, imediatamente, expulsos do Exército e do partido nazista. Coube a Himmler, entretanto, a motivação e estabelecimento de ações que pudessem efetivamente punir a homossexualidade.

O Parágrafo 175, revisado e ampliado, resultou num considerável aumento das acusações após 1934. Em 1933 foram condenados 853 adultos sob o Parágrafo 175, subindo consideravelmente para 8562 adultos condenados em 1938. Contribuiu para isso, além da maior atenção e iniciativa por parte de Himmler, a revisão nazista no código 175. Com ela, o dispositivo legal passava a incluir toda e qualquer forma de excitação e desejo sexual por parte de um ou mais homens, não se restringindo, como antes, à existência de penetração sexual. Nem ao menos o contato físico era necessário. Tal subjetividade no parágrafo permitia, é claro, arbitrariedade na sua aplicação. Assim como muitos gays não foram presos e levados aos campos de concentração sob a acusação de homossexualidade, há relatos de prisioneiros heterossexuais que receberam o triângulo rosa, tanto pela facilidade da condenação quanto pela vergonha que a permeava.

É certo, também, que a subjetividade criava uma forte tensão entre a condenação da homossexualidade e a apreciação da beleza masculina, da masculinidade, da virilidade e até mesmo da união e proximidade de homens em torno das questões nacionais. Criava-se, portanto, uma forçada separação entre o companheirismo (e a exaltação da masculinidade) e o homoerotismo.

A perseguição: da propaganda nazista ao “perigo homossexual”
A tarefa de identificar homossexuais se tornou um empecilho para os nazistas. Além de muitos se enquadrarem no tipo-ideal ariano, tido como superior para os nazistas, era extremamente difícil provar, judicialmente, as práticas sexuais dos cidadãos. Parte deste problema foi resolvida com a já mencionada revisão do parágrafo 175, mas os nazistas precisaram de uma ajuda fundamental para a localização e condenação destes ‘associais’: as denúncias civis. Resultado de uma política de educação e propaganda por parte do Partido Nazista e de uma já existente intolerância para com os homossexuais, as denúncias se tornaram o mais eficiente meio de apreensão.

Diferentemente dos opositores políticos - que podiam ser encontrados em listas partidárias, abaixo-assinados e organizações -, os homossexuais constituíam uma categoria heterogênea e esparsa. Evidentemente que clubes e locais noturnos conhecidos foram perseguidos e fechados, dando lugar às faixas vermelhas do Partido Nacional Socialista. Exemplo marcante foi o ocorrido com o Comitê Científico-Comunitário (Wissenschaftlich-humanitäres Komitee), considerada a primeira organização pública científica e social a favor dos direitos de homossexuais e travestis, que foi destruída e queimada pelos nazistas. Entre as chamas e a intolerância foram destruídos 20.000 livros e jornais, 5.000 fotografias, documentos e listas com nomes de pessoas a favor do fim da exclusão dos direitos gays. Seus maiores organizadores, assim como todos os relacionados ao Instituto, foram perseguidos pela Gestapo.

A propaganda e o discurso nazista em prol da discriminação de homossexuais, oficializados com a criação do Gabinete Central do Reich para o Combate à Homossexualidade e ao Aborto, mantinha seu argumento em três pilares, posteriormente discorridos nesta seção: a) a idéia da homossexualidade como um entrave à reprodução da superior raça ariana; b) o caráter “amoral” e “associal” dos gays; c) a homossexualidade como uma raça distinta ou uma patologia.

A homossexualidade representava um entrave no objetivo de eugenia ariana, já que a prática sexual entre homens, e entre mulheres, de nada contribuía para a busca da raça pura superior. Este aspecto está no cerne da violência e perseguição aos homossexuais no período nazista. O Diretor Legal do Reich, Hans Frank, afirmou, em 1938, que a “atividade homossexual significa a negação da comunidade como deve ser, constituída para a raça não se extinguir. É por isso que o comportamento homossexual, em especial, não merece misericórdia” [6]. Tida como uma peste, o comportamento gay devia ser eliminado para resguardar a superioridade ariana.

Enquadrado na questão da moralidade estava também o dito “comportamento homossexual” (certamente estereotipado, mas tido como verdade nos discursos nazistas), ligado a palavras como “pederastia”, “sodomia”, “depravado”. Associando as práticas sociais com o binarismo marcante do masculino/feminino os nazistas enxergavam uma falha social nos homens efeminados. Explica-se, assim, a ainda maior violência para com homossexuais “passivos”, travestis e drag-queens. A fuga das características masculinas (força, virilidade, frieza) e adoção de características femininas (sensibilidade, histeria, nervosismo), como estabelecidas pelo padrão hitlerista, eram, portanto, tidas como uma afronta à moralidade alemã. No caso de drag-queens e travestis este perfil “associal” se tornava ainda mais claro (GILES, 2001).

Havia polêmica por parte dos nazistas quanto à possibilidade ou não de readequação dos homossexuais à sociedade. A questão central era: encarariam a homossexualidade como doença (patologia que necessitava de explicações científicas) ou como um desvio de comportamento?

No primeiro caso, as medidas mais adequadas seriam o extermínio e a busca científica por esta patologia. Em alguns casos, especialistas médicos se valerem de diversos métodos para curar a homossexualidade. O Dr. Vaernet, por exemplo, injetou substâncias hormonais, como testosterona, em homens homossexuais para verificar se haveria mudança em seu comportamento sexual. Quando verificava a ineficácia, buscava a castração (PLANT, 1986).

Já quando a homossexualidade era vista como um desvio de comportamento, passível de correção, as ações recomendadas eram a punição e criação de medidas que pudessem garantir a “normalização” do indivíduo. Muitos homossexuais foram obrigados a viver uma vida de mentira em uma família convencional, com esposa e filhos, para não levantar suspeita nazista. A questão das lésbicas se insere perfeitamente neste contexto da homossexualidade como desvio. A não inclusão das mulheres homossexuais sob o Parágrafo 175 era justificada pela possibilidade de fertilidade das mesmas. Assim, elas ainda poderiam contribuir para o objetivo da procriação da raça ariana.

A máquina publicitária nazista tentava, enfim, por em flamas uma já existente homofobia, levando uma imagem do homem homossexual como “velho e sujo”, atrás de corromper jovens adolescentes (GILES, 2001).

O horror nazista: Pierre Seel e Gad Beck
Para compreendermos as conseqüências e horrores da punição nazista aos homossexuais precisamos ter em mente as já explicadas mudanças nos dispositivos legais, as maneiras de identificação e os argumentos por trás das medidas. O estudo dos homossexuais como vítimas do Holocausto não deve ser limitado ao número de mortos ou condenados pelo artigo 175. É preciso entender e conhecer os horrores vividos por estas vítimas, não deixando morrer suas memórias (negligenciada pelo Estado alemão pós-nazista, como posteriormente será explicado). A importância de conhecer as histórias das poucas vítimas ainda vivas é claramente visível no documentário “Parágrafo 175”, de 2000, dirigido por Rob Epstein e Jeffrey Friedman, narrado por Rupert Everett.

O documentário é formado por uma série de entrevistas, intercaladas com imagens e informações, com algumas vítimas homossexuais do Holocausto. No ano 2000, menos de dez destes sobreviventes ainda estavam vivos, e somente seis aceitaram contribuir com sua história para o documentário. Dentre eles, me atentarei aos depoimentos de Pierre Seel e Gad Beck.

Pierre Seel, sobrevivente e autor do importantíssimo livro de memórias “Pierre Seel, Deportado Homossexual” (no original em francês “Moi, Pierre Seel, déporté homosexuel”) demonstrou enorme angústia e incômodo em tratar do tema. Trata-se de um claro exemplo de como o descaso de anos deixa marcas profundas nas vítimas. Além dos maus tratos que recebeu, Seel viveu no silêncio até 1981, obrigado a formar uma família e agir “como uma sombra”, em suas palavras, já que, como será explicado, os homossexuais condenados sob o parágrafo 175, além de não terem sido reconhecidos como vítimas do Holocausto, podiam ser presos até a revogação parcial do dispositivo 175, o que ocorreu somente em 1994.

O nome de Pierre Seel estava em uma das “listas rosa” da Gestapo (lista com os nomes dos supostos homossexuais, obtidas tanto pela polícia quanto por denúncias anônimas) o que levou a sua prisão em 1941. Lá, antes de ser enviado ao campo de concentração de Schirmeck-Vorbrück, foi torturado e violentado por um pedaço partido de madeira, entre risos e piadas a respeito de sua homossexualidade. Nas palavras de Seel, retiradas do documentário “Parágrafo 175”:
Assim, agora vê porque não falei em 40 anos? Estou “90% deficiente” desde a guerra. Meu traseiro ainda sangra, até hoje! Os nazistas colocaram 25 centímetros de madeira em meu traseiro! Posso falar disso? Isso é bom para mim? Isso é muito para os meus nervos! Não posso seguir com isso. Estou envergonhado da humanidade. Envergonhado!
Como se não bastassem os horrores vividos nesta experiência, Seel presenciou também a morte de seu amante na adolescência e amigo, Jo, no campo de concentração. Como conta em seu livro, os nazistas ordenaram que um quadrado fosse ordenado com filas e, no centro, dois membros da SS trouxeram um jovem, reconhecido instantaneamente por Seel. Despido e com uma lata na cabeça (para ampliar seus gritos), o homem foi ferozmente devorado por cães pastores alemães. Pierre Seel assistiu quieto, acompanhado somente por suas lágrimas e pelas centenas de testemunhas.
Desde esse dia, continuo a acordar freqüentemente a meio da noite aos gritos. Durante mais de cinqüenta anos essa cena repetiu-se incessantemente na minha mente. Nunca esquecerei o bárbaro assassinato do meu amor — em frente dos meus olhos, dos nossos olhos, porque houve centenas de testemunhos. (SEEL, 1994)
Pierre Seel viveu com sua mulher por 28 anos, na França, em uma relação marcada pelo silêncio e pela confusão em esconder sua sexualidade, além do sentimento de incompetência no papel de pai de dois filhos. Somente em 1979 falou pela primeira vez sobre suas memórias e, em 1989, visitou os campos de concentração nos quais viveu suas piores experiências. Contou seu testemunho em 1981 para uma revista gay e em 1994 lançou o livro “Pierre Seel, Deportado Homossexual”, aparecendo freqüentemente na imprensa francesa. Viveu por aproximadamente doze anos com seu companheiro Eric Feliu, que trabalhava com criação de cães. Seel não só expôs um sofrimento somado a um silêncio de décadas, como também superou o seu trauma por cães; simbolicamente o início de uma vida sincera, apto e à vontade para amar seu companheiro.

Gad Beck, nascido em 1923, também retratou seus horrores no livro “An Underground Life: Memoirs of a Gay Jew in Nazi Berlin” (2000). Dentre as histórias mais marcantes, Beck retrata o dia em que, aos 19 anos, usando uniformes da Juventude Hitlerista, se dirigiu à delegacia onde estava detido seu amante, em uma tentativa desesperada de libertá-lo do destino nos campos de concentração. Fingindo pertencer à juventude do partido, Becker conseguiu convencer um oficial a libertar o preso temporariamente, prometendo-o trazer de volta. Quando já fora do departamento policial, seu amante, sem titubear, lhe disse: “Gad, não posso ir com você. Minha família precisa de mim. Se eu abandoná-los, nunca poderei ser livre”. Beck relembra que, “naqueles segundos, vendo-o ir embora, eu amadureci” [7].

O triângulo rosa: homossexuais nos campos de concentração
Segundo os dados mais modestos, cerca de 20.000 homossexuais foram enviados ao campo de concentração. Entretanto, há grande debate em relação a esta estimativa. O número de homossexuais condenados e presos pelo parágrafo 175, de acordo com os dados oficiais, chegou a quase 50.000, entre 1933 e 1942. Estão fora deste número as vítimas usadas para testes científicos, os não-civis homossexuais, as vítimas de dados destruídos pelos nazistas e os diversos casos em que nenhum registro oficial foi realizado.

Também para mostrar a controvérsia nos números, autores como Rictor Norton demonstram que, segundo os dados de Rudolph Hoesss, líder da SS e Rapport-führer (líderes responsáveis por reportar ao Führer os dados e acontecimentos nos campos de concentração), foram assassinados, somente sob sua supervisão, 15.000 homossexuais. Como diz Rictor Norton (1998), “as estimativas variam entre 430.000 vítimas (o que provavelmente seria muito) e 10.000 (o que provavelmente é muito pouco)”.

Estatísticas e depoimentos de homossexuais e heterossexuais relatam que os prisioneiros com o triângulo rosa (os homossexuais eram identificados por um triângulo rosa em seu peito, assim como os judeus com suas estrelas amarelas) eram sistematicamente alocados para a realização dos piores trabalhos e, somado a isso, eram violentados e reprimidos de maneira mais dura tanto pelos outros presos quanto pelos oficiais nazistas. Assim, segundo Ruediger Lautmann, os prisioneiros com triângulo rosa tinham uma taxa de mortalidade de 60%, enquanto os prisioneiros políticos a tinham em 41% e as Testemunhas de Jeová em 35%.

As experiências vividas por dois homossexuais em um campo de concentração nazista são bem representadas na aclamada peça de Martin Sherman, “Bent”, realizada também em filme pelo diretor Sean Mathias, em 1997, estrelado por Clive Owen e com participação de Mick Jagger. Na obra, Max e seu parceiro Rudy são capturados pela Gestapo e, no trem, vivem um pesadelo. O personagem Rudy, descrito como mais afeminado, é logo identificado como “depravado”. Evidencia-se, aí, a arbitrariedade na aplicação do código 175. O personagem principal, Max, é alertado por Horst, já marcado pelo triângulo rosa por haver assinado uma lista em favor dos direitos gays, que os prisioneiros homossexuais recebiam os piores trabalhos e logo morriam, sugerindo-o para não reconhecer-se como gay. Assim, após negar conhecer seu companheiro, torturado e morto pelos nazistas, Max consegue receber a estrela amarela. A história também retrata os trabalhos destinados aos “depravados”: os mais perigosos, em britadeiras e sob tortura. No campo de concentração, entre o horror e a vigia dos oficiais nazistas, Max estabelece uma relação amorosa com Horst, ainda que sem qualquer contato físico e olhares escassos. Encontram um jeito de sobreviver àquela loucura, através da mesmíssima coisa que os colocaram alí: o amor. No fim, a peça se constrói como uma belíssima e forte história, capaz de comover e ensinar.

O descaso: prolongando o sofrimento
Os prisioneiros homossexuais nos campos de concentração não reconheceram o fim de seu horror com o fim da Guerra. Como não foi derrubado o Parágrafo 175, estes ainda eram classificados como criminosos. As reparações e pensões do Estado para as vítimas do Holocausto foram negadas aos homossexuais perseguidos. Homossexuais poderiam ser presos, inclusive, por “ofensas repetidas”.

Somente na década de 70 e 80 que o tema ganhou certo destaque na historiografia central, com as autobiografias lançadas pelas vítimas gays da perseguição nazista, produções literárias como “Bent”, e estudos sobre a homofobia nazista e a destruição dos movimentos LGBT na Alemanha pré-nazista. A partir da década de 80, algumas cidades, como San Francisco, Berlin e Amsterdam ergueram memoriais para lembrar os milhares de homossexuais mortos, presos e torturados pela política nazista.

O Parágrafo 175 sofreu lentas alterações nos territórios alemães no período pós-nazista. Retomando ao texto anterior a alteração nazista, que tornava subjetivo o dispositivo legal, foram criminosas as relações sexuais de coito entre homens de qualquer idade até 1968. Nesta data o crime foi limitado a sexo entre jovens menores de 18 anos. Na Alemanha Oriental foi abolido por completo em 1988, enquanto na Alemanha Ocidental somente em 1994.

Assim, claramente se estendeu a violência e discriminação, legal ou não, para com os homossexuais alemães. As vítimas do horror nazista foram obrigadas a buscarem uma adequação ao estilo de vida “normal” e, pelo descaso com suas memórias, a uma vida de silêncio e negação. Foi somente em 2002 que o governo alemão lançou um pedido oficial de desculpas às vítimas homossexuais. Um reconhecimento tardio, muito tardio, que demonstra, infelizmente, a atualidade da discriminação homofobia.

Conclusão
A perseguição, condenação e violência para com homossexuais foi um dos temas mais marcantes do período nazista e, ainda sim, não é um dos temas mais pesquisados e estudados da historiografia do período. Diversos fatos contribuíram para isso, como o descaso e a decisão de não reconhecimento dos homossexuais como vítimas do Holocausto, a permanência do parágrafo 175 nos dispositivos legais alemães, e o prejuízo documental gerado por esta “demora” no reconhecimento da importância do tema. Foi somente nas últimas décadas do século XX, principalmente na década de 80, que o tema foi tratado com maior atenção por historiadores e sociólogos. Existe, ainda hoje, uma carência em relação ao tema, ainda que seja indiscutível o avanço das últimas três décadas na produção, e disseminação, do conhecimento.

A atualidade do tema é claríssima: a homofobia que hoje mata um homossexual a cada dois dias, somente no Brasil (e em casos documentados), tem raízes bem semelhantes, e por vezes se utiliza dos mesmos argumentos, daquela homofobia (tida as vezes como bem distante) do princípio do século. Conhecer e emocionar-se com as histórias deste horror nazista é um alerta em um tempo onde tentamos caminhar para a democracia e inclusão de mais direitos a grupos historicamente fragilizados. Não podemos nos enganar com algumas conquistas (ainda que sem dúvida importantes), como a decisão do Supremo Tribunal Federal do Brasil em reconhecer e igualar as uniões homoafetivas e reconhecê-la como unidade familiar. Na Alemanha, em seu período anterior ao advento absoluto do nazismo, houve também diversas conquistas, movimentos organizados e avanços de direitos. Ainda assim, os homossexuais assistiram sua própria perseguição, alguns como Gad Beck relutando-se a acreditar, em seu próprio território.

A luta pelos direitos gays deve, sim, estar apoiada em fatores históricos, mas não deve se limitar a tal. A história deve ser um instrumento para um entendimento que possibilite a luta não ingênua do agora. As organizações em defesa dos direitos LGBT (Lésbicas, Gays, Travestis e Transexuais) devem ter mobilização constante e a sociedade em geral deve compreender que se trata de uma luta ainda maior. É uma luta por uma democracia (um pouco mais) plena, por direitos e pelo respeito, pela inclusão e pela não-violência.

A história ajuda a entender porque devemos buscar e abraçar as reivindicações dos LGBT, independentes de nossa orientação sexual. Quando lutamos contra a homofobia, quando buscamos a criminalização da mesma, quando buscamos o reconhecimento das uniões homoafetivas em todas as esferas do poder, estamos, ao fim, lutando por uma sociedade sem o sofrimento de Pierre Seel, Gad Beck e inúmeros outros. Estamos lutando pelo fim dos triângulos rosa.

E se hoje milhões de pessoas em diversas partes do mundo marcham em alegria e pelo respeito, enquanto milhares marcharam em direção aos campos nazistas, acompanhados pelo sofrimento, é mesmo com orgulho que devemos caminhar. Um orgulho que não seja ingênuo, mas que não nos deixe esquecer a felicidade, o amor e o respeito, que são os mais importantes. Quando observamos jovens vestindo os triângulos rosa ao inverso notamos que a História ensina. Assusta. Mas, sem dúvida, constrói.

Notas
1. Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Assistente de pesquisa do Laboratório de Estudos da América Latina (LEAL) e bolsista do Núcleo de Estudos em Teoria Política (NUTEP).
2. Termo utilizado freqüentemente pela organização internacional ILGA (International Lesbian, Gay, Bisexual, Trans and Intersex Association) para designar países onde existam leis de criminalização de atos sexuais entre adultos do mesmo sexo. Utilizado também para caracterizar a forma institucionalizada da discriminação homofóbica.
3. Recomenda-se, para uma mais larga compreensão do conceito de homofobia e suas implicações, assim como a relação com outras discriminações, o livro “Homofobia – história e crítica de um preconceito” (Borrillo, Daniel; Autêntica Editora; 2010)
4. Versão do Parágrafo 175 de 15 de maio de 1871, em inglês: “§ 175 Unnatural fornication. Unnatural fornication, whether between persons of the male sex or of humans with beasts, is to be punished by imprisonment; a sentence of loss of civil rights may also be passed.”
5. Em inglês: "His private life cannot be an object of scrutiny unless it conflicts with basic principles of National Socialist ideology."
6. Em inglês: “Homosexual activity means the negation of the community as it must be constituted if the race is not to perish. That is why homosexual behaviour, in particular, merits no mercy.”
7. Disponível em: http://www.ushmm.org/wlc/en/idcard.php?ModuleId=10006666


Bibliografia
GILES, Geoffrey. Why bother about homosexuals? Homophobia
and Sexual Politics in Nazi Germany. 2001. Em: http://www.ushmm.org/research/center/publications/occasional/2002-04/paper.pdf. Acesso em: 05 Julho 2011.

JOHANSSON, Warren e PERCY, Willian. Homosexuals in Nazi Germany. Em: http://motlc.wiesenthal.com/site/pp.asp?c=gvKVLcMVIuG&b=395203. Acessado em: 04 Julho 2011

LAUTMANN, Ruediger. Gay prisoners in concentration camps as compared with Jehova's Witnesses and Political Prisoners. Em: http://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/Holocaust/gaycomp.html . Acesso em: 06 Julho 2011.

MUELLER, L. Christine. The other side of the Pink triangle: still a Pink triangle, 2004.

NORTON, Rictor. "One day they were simply gone": The Nazi Persecution of Homosexuals. 1999. Em: http://rictornorton.co.uk/nazi.htm. Acesso em: 02 Julho 2011

PLANT, Richard. Pink triangle: the nazi war agaisnt homosexuals, 1988.

SILVA, Francisco Carlos Teixeira. Os fascismos. in: O século XX / organização: Daniel Aarão Reis Filho, Jorge Ferreira, Celeste Zenha – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. Volume 2. O tempo das crises: revoluções, fascismo e guerras.

UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAM MUSEUM. Nazi persecution of homosexuals 1933-1945. Em: http://www.ushmm.org/museum/exhibit/online/hsx/. Acessado em: 04 de Julho 2011

Ferreira, Gabriel. Marcas da Homofobia no Século XX: do Holocausto à homofobia de hoje. Boletim do Tempo Presente, Ano 7, n° 1, 2011.

Entre conflitos e tentações

Imagem daqui

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 1,12-15 que corresponde ao Primeiro Domingo da Quaresma, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.
Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Antes de começar a narrar a atividade profética de Jesus, Marcos escreve estes breves versículos: “O Espírito levou Jesus para o deserto. Ficou no deserto quarenta dias deixando-se tentar por Satanás; vivia entre bichos, e os anjos serviam-no”. Essas breves linhas são um resumo das experiências básicas vividas por Jesus até a sua execução na cruz.

Jesus não conheceu uma vida fácil e tranquila. Viveu impelido pelo Espírito, mas sentiu na Sua própria carne as forças do mal. A Sua entrega apaixonada ao projeto de Deus levou a viver uma existência desgarrada por conflitos e tensões. Dele temos de aprender a viver em tempos de prova.

“O Espírito levou Jesus para o deserto”. Não o conduz a uma vida cômoda. Leva-o por caminhos de prova, riscos e tentações. Procurar o reino de Deus e a Sua justiça, anunciar Deus sem o falsear, trabalhar por um mundo mais humano é sempre arriscado. Foi para Jesus e será para os Seus seguidores.

“Ficou no deserto quarenta dias”. O deserto será o cenário pelo que transcorrerá a vida de Jesus. Esse lugar inóspito e nada acolhedor é símbolo de prova e purificação. O melhor lugar para aprender a viver do essencial, mas também o mais perigoso para quem fica abandonado às suas próprias forças.

“Tentado por Satanás”. Satanás significa “o adversário”, a força hostil a Deus e a quem trabalha pelo Seu reinado. Na tentação descobre-se o que há em nós de verdade ou de mentira, de luz ou de trevas, de fidelidade a Deus ou de cumplicidade com a injustiça.

Ao longo da Sua vida, Jesus manter-se-á vigilante para descobrir “Satanás” nas circunstâncias mais inesperadas. Um dia rejeitará Pedro com estas palavras: “Afasta-te de mim, Satanás, porque os Teus pensamento não são os de Deus”. Nos tempos de prova temos de os viver, como Ele, atentos aos que nos podem desviar de Deus.

“Vivia entre bichos, e os anjos serviam-no”. As feras, os seres mais violentos da terra, evocam os perigos que ameaçaram Jesus. Os anjos, os seres melhores da criação, sugerem a proximidade de Deus que o abençoa, cuida e sustem. Assim viverá Jesus: defendendo-se de Antipas a quem chama “raposa” e procurando na oração da noite a força do Pai.

Temos de viver estes tempos difíceis com os olhos fixos em Jesus. É o Espírito de Deus o que nos está empurrando para o deserto. Desta crise sairá um dia uma Igreja mais humilde e mais fiel ao Seu Senhor.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Decisões atuais, origens históricas


Os historiadores do futuro terão, nas relações familiares do Brasil contemporâneo, um amplo campo de pesquisa. Principalmente se o assunto for uniões de pessoas do mesmo sexo. Em 2011, decisão unânime do Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu formalmente como união estável também aquelas entre pessoas do mesmo sexo, com os mesmos direitos e deveres que regem as uniões estáveis entre homem e mulher.

Não que a decisão pareça grande novidade. Na América Latina, o Brasil é o sexto país a reconhecer direitos de casais do mesmo sexo, seja por meio de uniões civis (Uruguai, Equador e Colombia), seja através do casamento (Argentina e México). Mas, na verdade, é novidade sim: ainda há no mundo 76 países onde a homossexualidade é crime, chegando a ser punido com morte em cinco deles (Irã, Arábia Saudita, Mauritânia, Iêmen e Sudão.

A situação ganha perspectiva se, além de compararmos o Brasil com outros países, adicionarmos ao tema uma abordagem histórica, como o faz a historiadora Sueann Caulfield, professora da Universidade de Michigan e especialista no estudo das relações de gênero e de sexualidade.

Mesmo sem bola de cristal, ela vem há tempos estudando as novas famílias no Brasil e demonstrando que a recente decisão do STF tem fundamento em opções feitas há mais tempo do que normalmente costumamos imaginar. Mais do que isso: ela vem mostrando como a legislação e a jurisprudência sobre as relações entre homens e mulheres criadas ao longo do século 20 foram importantes para a construção de instrumentos jurídicos que consideram legítimas, hoje, as relações entre pessoas do mesmo sexo. São dela os argumentos que exponho a seguir.

Desigualdades perante a lei
Desde a instituição do casamento civil no Brasil, com a promulgação da primeira constituição republicana, em 1891 – antes disso, embora tenha havido muita discussão sobre o casamento civil no Império, matrimônio reconhecido era só na igreja – se começou a discutir a constituição da família, os direitos das mulheres casadas e dos filhos legítimos e ilegítimos e as possibilidades de divórcio.

O assunto ocupou muito espaço na época da discussão do primeiro código civil, de 1916. No entanto, contrariando a posição de juristas proeminentes como Clóvis Bevilaqua, o código consagrou a desigualdade nas relações entre homens e mulheres: os maridos eram considerados, na teoria e na prática, o cabeça do casal, podendo decidir onde suas mulheres e filhos iriam viver, se iriam trabalhar e como seus bens seriam administrados. Poderiam também representar todos os membros de sua família perante a justiça. As mulheres casadas eram, assim, juridicamente incapazes, como haviam sido durante todo o período colonial e imperial.

O código civil também instituiu diferenças entre as mulheres, classificando algumas de honestas e outras de desonestas. Não é preciso muita imaginação para adivinhar que desonestas eram aquelas mulheres que não casavam virgens – estas podiam até ser deserdadas por seus pais, além de ter o casamento anulado.

Havia ainda os filhos legítimos e ilegítimos. Estes não podiam ser reconhecidos pelo pai, a menos que a primeira esposa morresse e ele viesse a se casar com a mãe da criança, o que raramente acontecia. Tudo isso para mostrar que, nos primeiros anos do século 20, a família continuou sendo constituída pelo ‘indissolúvel casamento’, como queria a igreja católica.

Feliz transgressão
Só que, felizmente, o comportamento das pessoas não segue a lei. Desde a década de 1920, mulheres que viviam maritalmente com seus companheiros brigavam na justiça pelo reconhecimento da legalidade de suas uniões. Isso foi especialmente importante nos anos 1930 e 1940 para que elas se beneficiassem dos direitos reconhecidos por Vargas às famílias dos trabalhadores. Muitos juízes reconheceram essas uniões como 'fatos sociais' e deram ganho de causa às mulheres.

Discussões sobre propriedade de casais formados em uniões consensuais também foram parar nos tribunais. Como os bens do casal eram geralmente registrados no nome do homem, em caso de separação muitas vezes as mulheres ficavam sem nada. Mas recorriam à justiça. Foram tantos os casos que, em 1964, o STF passou uma resolução determinando que as uniões de fato deveriam ser consideradas como casamentos do ponto de vista civil, no que se referia à separação, divisão de propriedade e direitos de herança.

Esses direitos foram reconhecidos e renomeados pela Constituição de 1988. A partir de então, concubinagem virou união estável, que ganhou a mesma ‘especial proteção do Estado’ que os casamentos tinham. Mesmo definindo casamento como uniões “entre um homem e uma mulher”, ao instituir a dignidade humana e cidadania como princípios constitucionais fundamentais, a Constituição criou instrumentos jurídicos para considerar uniões entre pessoas do mesmo sexo também como uniões estáveis.

Nos muitos casos que atolaram os tribunais brasileiros desde 1988, o apelo à dignidade humana e aos direitos de cidadania – afinal, os casais do mesmo sexo argumentavam ter deveres iguais aos dos demais cidadãos, mas não os direitos correspondentes – deram origem à decisão do STF de 2011.

Como conclui Sueann Caulfield, longe de ter sido uma decisão repentina, a justiça brasileira, ainda que influenciada pelo ativismo político internacional e pela mídia brasileira – que em muito contribuiu para criar uma opinião pública favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo –, seguiu sua própria tradição de reconhecer que a variedade do comportamento das pessoas deve ser protegida por lei, ao contrário de outros países, onde as pessoas devem, o tempo todo, adequar seu comportamento à lei.

Em tempo
Diante dessa situação, impossível é entender como o Brasil continua sendo um dos líderes mundiais nos crimes contra homossexuais. Foram 260 assassinatos em 2010, 251 em 2011 e 20 só em janeiro de 2012.
Espero que a superação desse paradoxo brasileiro esteja próxima, para que, quando virar tema de estudo dos historiadores do futuro, ele já seja parte do passado.

- Keila Grinberg
Departamento de História, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
Pós-doutoramento na Universidade de Michigan (bolsista da Capes)

(Publicado no Ciência Hoje

Fonte: Fora do armário)

Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio incluem orientação sexual e identidade de gênero


Pessoal,

Tenho a alegria de compartilhar a publicação das novas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (Diário Oficial da União, 31/01/2012) em que foram incluídas orientações para a inclusão de Orientação Sexual, Identidade de Gênero, bem como os temas do programa Saúde e Prevenção nas Escolas nos projetos político-pedagógicos das escolas.

Peço atenção especial ao Art. 16. Selecionei os seguintes incisos:

Art. 16. O projeto político-pedagógico das unidades escolares que ofertam o Ensino Médio deve considerar:
V - comportamento ético, como ponto de partida para o reconhecimento dos direitos humanos e da cidadania, e para a prática de um humanismo contemporâneo expresso pelo reconhecimento, respeito e acolhimento da identidade do outro e pela incorporação da solidariedade;
X - atividades sociais que estimulem o convívio humano;
XIV - reconhecimento e atendimento da diversidade e diferentes nuances da desigualdade e da exclusão na sociedade brasileira;
XV - valorização e promoção dos direitos humanos mediante temas relativos a gênero, identidade de gênero, raça e etnia, religião, orientação sexual, pessoas com deficiência, entre outros, bem como práticas que contribuam para a igualdade e para o enfrentamento de todas as formas de preconceito, discriminação e violência sob todas as formas;
XIX - atividades intersetoriais, entre outras, de promoção da saúde física e mental, saúde sexual e saúde reprodutiva, e prevenção do uso de drogas;
XXI - participação social e protagonismo dos estudantes, como agentes de transformação de suas unidades de ensino e de suas comunidades;

Com essas Diretrizes, nenhum(a) gestor(a) escolar poderá dizer que esses assuntos não podem ser trabalhados nas escolas.

Peço que divulguem essas informações por todas as mídias possíveis.

Toni Reis
Presidente da ABGLT

Fonte: Tantas Notícias

Contando os dias

Foto: 1-7-6-0

Contando os dias. As crianças fazem isso quando elas esperam por alguma coisa. Prisioneiros fazem isso enquanto atravessam seu encarceramento. Peregrinos espirituais também, de uma forma infantil, e porque amam a liberdade.

A contagem regressiva da Quaresma começou. Trata-se de um meio artificial (parecendo mais natural, por ser tão antigo) para um melhor entendimento acerca do tempo e da eternidade, que está presente aqui e agora. É, como alguém a chamou, um gosto da "tempeternidade", o tempo atravessado por uma consciência clara do sagrado no que é comum.

Leva tempo para que a mente comum do dia-a-dia se conscientize do movimento de mudança que a meditação está constantemente impulsionando em nosso ser mais profundo. É por isso que não importa muito o que nós sentimos, ou não sentimos, em nossa prática espiritual. Alguns dias enxergamos o seu significado e ficamos entusiasmados. Outros dias ela nos parece tola e, uma perda de tempo. É a consciência mais profunda, mais clara, o coração puro, que conta toda a verdade.

Qualquer que seja a prática Quaresmal que você começou, assim como a própria meditação, não se trata de ser perfeito ou de alcançar sucesso. Vamos extirpar isso da equação, desde o primeiro dia.

Todos nós falhamos. Todo mundo começa, pára e começa de novo. Tudo o que importa é a fidelidade, é voltar. Fidelidade ensina disciplina. Disciplina liberta-nos do ego e nos leva além de nós mesmos para a consciência pura, inocência pura e, no fim das contas, puro amor.

- Laurence Freeman, OSB
Reproduzido via site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Código de Ética Profissional e a Psicóloga Cristã

Imagem daqui

Tem repercutido o fato de que finalmente o Conselho Regional de Psicologia do Paraná chamou a senhora Marisa Lobo, autointitulada "Psicóloga Cristã" nas redes sociais e defensora de terapias para "cura da homossexualidade", a prestar esclarecimentos sobre sua atuação.

Como adverte o psicólogo Alessandro Vieira dos Reis:

Como já pontuado anteriormente, vivemos hoje no Brasil um crescimento assombroso do cristianismo evangélico, em especial do neopentecostal. Nesse contexto, surge um mercado consumidor para um novo tipo de terapia alternativa, ao lado de tantas outras já existentes e igualmente não reconhecidas oficialmente por órgãos como o Conselho de Psicologia e o de Medicina: a psicoterapia cristã (cujo carro-chefe, atuamente, é a propaganda da pretensa “cura da homossexualidade”). 
Como toda terapia alternativa, (...) a Psicoterapia Cristã faz um pastiche teórico-metodológico da Psicologia com alguma espiritualidade mística e/ou religiosa. Como terapia alternativa explora o efeito placebo originário da fé do paciente. Pouquíssimo ou nada se baseia em Ciência. Seu diferencial diante das outras terapias alternativas é que a fé que neste caso é religiosa, reforçada por um aparato social poderoso (uma determinada comunidade cristã), e não uma fé mística individual (...). 
Por conta desse mercado crescente, deduzo que será cada vez mais comum a presença de líderes religiosos em cursos de formação em psicoterapias breves, bem como a criação de cursos especialiados para membros dessa comunidade (como os já muito comuns, nos EUA, cursos de “aconselhamento pastoral”). 
E eis aí um novo agente surgindo no cenário da Psicologia Brasileira, caros psicólogos e clientes de Psicologia. Em um Brasil que cada vez mais tem como grandes líderes pastores como Silas Malafaia (que também é psicólogo, notem!), Edir Macedo e Valdomiro Santiago, cada vez mais surgirá demanda e oferta de psicólogos cristãos. Marisa Lobo não é a primeira, mas é o protótipo e modelo teórico, metodológico e prático para muitos e muitas que estão por vir.
Seu texto completo pode ser lido aqui.

A respeito desse caso, reproduzimos abaixo texto do também psicólogo e amigo deste blog Flavio Alves, originalmente publicado em seu blog Ideias Canhotas.

E, caso tenha interesse, você encontra aqui a nota da ABGLT de apoio ao Conselho Regional de Psicologia do Paraná a respeito do caso.


De tempos em tempos vejo algum burburinho em torno das declarações da senhora Marisa Lobo (“Psicóloga Cristã”) nas redes sociais. Particularmente não sou de dar muita audiência para pessoas ou blogs desse tipo, mas sendo um profissional da área é inevitável não ler alguma coisa sobre o que ela anda dizendo.

Sou psicólogo, entrei na faculdade de Psicologia no ano de 2006. Logo nas primeiras semanas, no meio de um debate em sala de aula, uma professora nos disse que, a partir do momento que ingressamos na graduação, já nos submetíamos aos dispositivos do Código de Ética da profissão.

O Código de Ética Profissional do Psicólogo gerou e subsidiou inúmeras discussões ao longo do curso, algumas bem calorosas e que, obviamente, envolviam religião, sexualidade, política, profissionalismo, entre milhares de outras questões inerentes ao trabalho do psicólogo.

Ao longo de minha formação aprendi, e assim o faço até hoje, a compreender o Código como NORTE e não como uma lista de regras. O Código expressa um conjunto de valores e princípios que são fundamentais para o exercício da função e nos dá a dimensão exata da responsabilidade que cada profissional tem para com as pessoas e para com a sociedade no exercício dela.

Assim, de tudo o que eu li até hoje, afirmo sem sombra de dúvidas que Marisa Lobo, para promover suas opiniões, distorce o Código de Ética do Profissional Psicólogo, deturpa textos científicos, falta com a verdade quando fala a respeito de proposições que tramitam nas Casas Legislativas do país e das bandeiras defendidas pelos movimentos sociais, e reúne uma rede de fundamentalistas contra todos os que a questionam.

Recentemente, Marisa Lobo foi chamada ao Conselho Regional de Psicologia do Paraná para prestar esclarecimentos sobre sua atividade profissional, e após o ocorrido fez inúmeros comentários nas redes sociais, mobilizando alguns segmentos para atacar a profissão e os movimentos sociais e se colocando acima de qualquer tipo de crítica.

Para entender a situação é fundamental conhecer o que diz o Código, instrumento que deveria ser conhecido por todos, psicólogos ou não.

Vejamos o que diz o texto: o Código de Ética Profissional já em seus princípios fundamentais afirma que cada psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos. E que trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (CFP, 2005, p.7).

Ou seja, o profissional de psicologia atua na sociedade e exerce sua profissão de maneira a garantir e promover os Direitos Humanos, nos sendo vedada qualquer tipo de ação que colabore, mesmo que indiretamente para a marginalização de qualquer grupo ou pessoa.

Indo mais adiante, o CE dispõe em seu primeiro artigo:
Art. 1º – São deveres fundamentais dos psicólogos:
c) Prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho dignas e apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios, conhecimentos e técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação profissional;
Este dispositivo estabelece o conhecimento científico como parâmetro para a atuação do profissional psicólogo, ou seja, seu exercício está condicionado ao domínio de métodos e técnicas validados e comprovados cientificamente, e que possam ser questionados da mesma maneira, pela ciência.

Independente da fé que professa, ao exercer sua profissão, o psicólogo se pautará pela ciência, sempre! O segundo artigo determina que:
Art. 2º – Ao psicólogo é vedado:
a) Praticar ou ser conivente com quaisquer atos que caracterizem negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade ou opressão;
b) Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais;
f) Prestar serviços ou vincular o título de psicólogo a serviços de atendimento psicológico cujos procedimentos, técnicas e meios não estejam regulamentados ou reconhecidos pela profissão;
Este artigo reforça o compromisso do psicólogo com os direitos humanos, impede que psicólogos se utilizem de sua profissão e da relação que estabelecem com seus atendidos para induzi-los a compartilhar de suas convicções, além de impedir que vinculemos nosso título a qualquer outra coisa que não se relacione a profissão, ou seja, religião, política, time de futebol, gosto musical entre milhões de outras coisas.

Em resumo, o Código o reafirma que em todo lugar em que o profissional se apresente como psicólogo, o deve fazer com base no conhecimento científico, nos métodos e técnicas advindos da Psicologia e respeitando os Direitos Humanos.

Marisa Lobo, que se tornou conhecida por se utilizar da profissão e do título acadêmico que possui para fazer proselitismo religioso, promove reiterados ataques aos movimentos por direitos humanos (com ênfase ao LGBT), às religiões de matriz africana, aos ateus e ao sistema de Conselhos de Psicologia.

Sabedora das infrações que comete, Marisa Lobo se esforça para se passar por vítima de um Conselho dominado por militantes intolerantes, postura fica nítida na foto em que posa em frente à sede do CRP/PR de bíblia em punho, numa tentativa de tornar uma discussão sobre sua conduta profissional em um debate religioso.

Sobre o processo que corre no CRP/PR, Marisa Lobo afirma que o Conselho exige que renuncie seu deus, renegue sua fé para exercer a profissão de psicóloga, numa clara distorção da verdade, expediente bem comum em seu blog e em suas postagens nas redes sociais.

Nas declarações que deu sobre o processo, Marisa Lobo em momento nenhum se defendeu, não desmente o que é colocado, ao contrário, ataca ainda mais os homossexuais, ateus, entre outros segmentos e novamente tenta se passar por vítima. Publicou alguns trechos na internet, e em NENHUM momento há a orientação para que ela deixe de freqüentar sua igreja ou suspenda seu trabalho missionário, o que existe é a exigência de que ela separe sua atuação profissional das atividades religiosas em que está envolvida, que deixe de utilizar do título de psicóloga para defender sua fé e misture ciência com religião.

Aos psicólogos, como a qualquer outra pessoa é garantido o direito de professar a sua fé e praticar sua religião, mas isso deve ser feito nos lugares e momentos adequados e de forma alguma deve ser associada ao exercício da profissão. Ao contrário do que Marisa Lobo tenta provar, é possível ser psicólogo e ter vida religiosa sem que uma coisa anule a outra.

Logo, fica claro que Marisa Lobo distorce e deturpa qualquer informação ou texto para atender seus interesses políticos/religiosos. Submete os interesses da profissão à sua agenda religiosa, incorre em falta ética, e deve ser responsabilizada por isso.

Como disse aqui, o Código afirma em seus princípios o compromisso com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, declaração esta que garante a liberdade religiosa como direito fundamental. Serve para nortear a atuação de todos os profissionais de Psicologia, independente de sua fé religiosa, convicção política, orientação sexual, o Código se aplica a todos e nenhum profissional está acima dele.

Espero que a situação no CRP do Paraná se resolva rapidamente, que a profissão saia fortalecida e nossos princípios sejam preservados!

Surge uma dúvida: ainda sei duvidar?

Led birdMakoto Tojiki

Um exercício tolerante e construtivo que, em nível coletivo, cria as condições da democracia. O ponto de partida é uma antiga convicção: não se erradica a necessidade de Deus do coração humano.

A opinião é do sociólogo italiano Franco Garelli, professor da Universidade de Turim, em artigo para o jornal "La Stampa", 04-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU, com grifos nossos. Ao final, lá embaixo, fazemos um adendo que seria anedótico, se não fosse grave...


Em toda a sua vida de grande estudioso dos fenômenos religiosos, Peter Berger – hoje professor emérito da Universidade de Boston, autor de livros famosos como "Um rumor de anjos", "O imperativo herético", "Questões de fé" – fez um constante exercício de equilíbrio, de conciliação entre opostos, de uma busca de sentido que foge tanto das simplificações, quanto das visões ideológicas da realidade. Não tanto, obviamente, pelo gosto da moderação ou do compromisso, mas sim por estar convencido de que, por trás das posições extremas no campo religioso, esconde-se a não aceitação da condição moderna.

Entre os pontos qualificadores do seu trabalho, certamente está o desmascaramento dos fanatismos de todo tipo, que, na modernidade avançada, assumem rostos diferentes e contrastantes: das Igrejas e dos fiéis que pregam uma ortodoxia acrítica (mais atenta aos dogmas do que à vida), àqueles que, em nome da razão e da ciência, negam valor à busca da fé; dos muçulmanos que perseguem os cristãos, aos ocidentais que impugnam a cruz contra os imigrantes islâmicos; sem falar das excomunhões recíprocas que grupos de fiéis de orientação diferente lançam entre si sobre temas da família, do aborto, da bioética. Orientações radicais ou absolutas, portanto, cujo fundamentalismo está na base dos conflitos que agitam o mundo hoje sobre várias questões éticas e religiosas.

Justamente a esses temas, Peter Berger dedicou seu último livro, escrito com Anton Zijderveld, com o título emblemático "Elogio del dubbio" ["Elogio da dúvida"], agora traduzido na Itália pela editora Il Mulino. Trata-se de uma sintética e cativante síntese do seu pensamento, revisitado à luz dos fenômenos emergentes nesse campo.

O ponto de partida reflete uma antiga convicção de Berger. A modernidade necessariamente não erradica a necessidade de Deus do coração do homem, embora modificando o seu modo de estar e de se orientar no universo. Hoje, não vivemos mais em um mundo de destino, mas sim de escolhas, que se afirmam também no campo religioso. Assim, o crer não é mais dado por óbvio ou como uma característica hereditária, mas torna-se cada vez mais um objeto de preferência. Paralelamente, na sociedade aberta, a verdade religiosa também tende a perder o seu carácter exclusivo e assume validade em relação ao ambiente.

A modernidade, portanto, pluraliza e relativiza, nos torna conscientes de que o mundo é habitado por muitas concepções de verdade e de salvação, que cada sociedade e cultura tem os seus próprios percursos de significado.

Muitos, no entanto, não aceitam uma pluralidade que desestabiliza a existência e buscam ancoragens mais fortes. Incluem-se nesse quadro os extremismos opostos: seja os fiéis que se enraízam em antigas certezas, que se fecham na fortaleza para evitar a contaminação cognitiva; seja aqueles que optam por um relativismo radical, cuja dúvida sistemática põe em causa toda forma de crença religiosa.

De um lado, portanto, há fiéis fanáticos convictos de ter o monopólio absoluto da verdade, pela qual suprimem toda sombra de dúvida e ridicularizam aqueles que acreditam de modo moderado ou duvidoso; de outro, os relativistas puros, os forçados à dúvida, a tal ponto que se tornam cínicos e rotulam como fanatismo toda forma de credo. A dúvida, em outros termos, precisa de uma sólida racionalidade que a mantenha sob controle.

Eis, portanto, as interrogações fundamentais sobre as quais Berger e Zijderveld construíram a sua obra: como ser hoje reflexivo e crítico com relação à realidade sem cair no relativismo e no cinismo? E, ao mesmo tempo, como amadurecer convicções justas sem se tornar fanático? Em outros termos, como aceitar a modernidade evitando atalhos de sentido oposto, empreendidos apenas com o objetivo de fugir do tormento da escolha? E ainda, como os relativistas extremos fazem para não relativizar até a si mesmos?

É desnecessário dizer que o elogio do qual se fala no livro é o de uma dúvida sincera, coerente, construtiva. A verdadeira dúvida não pode dar vida a muitos "ismos" que circulam nas nossas sociedades (identificados no fanatismo, no relativismo, no cinismo), cujas "certezas" contrastam com os "prós e os contras", os estados de humor oscilantes, a contínua busca de sentido da qual está embebida a experiência da modernidade avançada.

Uma dúvida ao mesmo tempo tolerante e construtiva, que, em nível pessoal, sempre oferece novos estímulos para melhor definir as suas posições, enriquecendo-as também com o pensamento alheio; e que, em nível coletivo, cria as condições da democracia, ao dar espaço à discordância, combater os absolutismos, mas, ao mesmo tempo, levar a encontrar novas sínteses.

Muitas outras inspirações surgem desse fino trabalho, que, na argumentação, alcança o pensamento de muitos clássicos das ciências humanas e sociais, e que nos presenteia definições que nos obrigam a ir além da obviedade e das posições convencionais. Como aquelas para as quais "a verdadeira dúvida é típica de uma posição genuinamente agnóstica"; ou a observação de que "em todo fundamentalista há um relativista à espera de ser libertado, enquanto em todo relativista há um fundamentalista à espera de renascer"; ou ainda a ideia de que, "para uma sociedade estável, são perigosas tanto a extrema segurança, quanto a extrema insegurança".

Adendo nosso: compare-se a reflexão acima com o texto "Edir Macedo e o pum do diabo", no Blog do Rovai (aqui). Em texto retirado do blog do Bispo Edir Macedo, assinado pelo Bispo Renato Cardoso, a dúvida é comparada ao cheiro mais catinguento que se possa imaginar - o tal "pum do diabo" do título - a fim de sugerir:

Aqui vai o que eu gostaria que você fizesse de agora em diante: você vai tratar a dúvida como se fosse o pum do diabo.
Todas as vezes que uma dúvida vier a sua mente, você vai reagir como se estivesse num quarto com o diabo e ele tivesse acabado de soltar um pum. Você vai fugir de lá — daquela dúvida — o mais rápido possível.

A dúvida é uma das principais razões dos fracassos das pessoas. É o que faz feder os seus planos e dá às suas decisões (se é que consegue tomá-las) um cheiro horrível.
Não se esqueça disso: dúvida = pum do diabo
Como comenta o autor do post, Antonio Luiz MCCosta (@ALuizCosta), "Na teoria bispiana, a dúvida é algo do diabo. Ou seja, seja um cordeirinho, dê o dízimo e bola pra frente".

Em quantas outras igrejas não se encontram também pessoas, religiosos e leigos, com essa mesma atitude? Daí a importância, a nosso ver, do elogio da dúvida - com o devido alerta quanto ao perigo dos excessos - trazido pelo texto acima.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Na Quarta-feira de Cinzas tudo volta ao normal


"A fantasia nova era seu orgulho. E ele, o orgulho dos pais. Espada de plástico, calça, colete, botas e lenço na cabeça – sem esquecer de um indefectível tapa-olho – faziam do menino um pirata no carnaval de rua daquela cidadezinha do interior. A mãe municiava seu pequeno corsário de confete, com o qual ele atacava, sem cerimônias, os transeuntes. Enquanto isso, o pai registrava tudo com uma câmera de vídeo digital – para a posteridade. Sabe como é, os filhos crescem rápido demais.

"Sem que fosse sua intenção, um dos ataques de bolinhas de papel acertou em cheio um outro menino, fantasiado de catador de latinhas de alumínio. Fantasia sem graça aquela, feita por uma camiseta esburacada, bermuda encardida e pés descalços. Ao invés de uma reluzente cimitarra de plástico, cinco ou seis latinhas de cerveja carregadas na improvisada bacia formada pelos braços. O tamanho dos dois era o mesmo, tiquinhos de gente de seis anos, no máximo.

"O menino fantasiado de catador de latinhas, que seguia em uma marcha firme, se detém. Sem dizerem nada, por um instante, se olham. O pirata deve ter pensado que fantasia estranha era aquela, cheirando a cerveja. Não seria melhor deixar aquelas latinhas ali e vir brincar com ele? Havia confete para todo mundo no saco da mamãe. E a rua era grande o suficiente.

"O olhar do outro parou em misto de inveja e resignação – apesar dele não ter idade para entender o que é inveja, muito menos resignação. Ter um fantasia bonita e colorida como aquela seria bom demais. Não ter que trabalhar na noite de domingo, poder brincar com os pais, melhor ainda. Mas o tempo corria – o tempo sempre corre. Tinha que procurar mais latinhas porque a concorrência estava alta e a festa, como a infância, não ia durar muito mais tempo.

"Virou o rosto para frente, continuou sua marcha e se perdeu na multidão. O outro ainda ficou parado um instante. Depois, enfiou a mão no saco de confetes e jogou novamente para cima, formando uma chuva de papel.

"Afinal de contas, é carnaval. Na Quarta-feira de Cinzas tudo volta ao normal."

PS: Isso não é um conto, mas gostaria que fosse. Presenciei a cena há alguns anos e já a trouxe aqui. Não quero ser (mais) chato do que sou, adoro esta época do ano. Mas me lembro sempre daquele garotinho. Porque, assim como as festas de Carnaval no Brasil, situações como essa parecem não ter hora para acabar.

- Leonardo Sakamoto, do Blog do Sakamoto, aqui

O Estado em nome de Deus


Para entender que vídeo é este, veja, abaixo, 
o segundo comentário de Conceição Lemes.

Esse caso do veto do Ministério da Saúde ao vídeo direcionado ao público gay da campanha de prevenção às DST-Aids para o Carnaval 2012 tem dado pano pra manga, e com razão. Em meio a boatos, equívocos, desmentidos e "mentidos" do Ministério da Saúde, fizemos um breve levantamento do que se está dizendo por aí.

E, por favor, não deixe de ler o comentário de Beto Volpe, que deixamos lá para o final.


"As campanhas do Ministério da Saúde procuram destacar as especificidades daqueles segmentos da população que se encontram mais expostos ao HIV e dar holofote à vulnerabilidade provocada pelo preconceito e pela negação de seus direitos. Assim, já estiveram em destaque as mulheres, a população negra, as pessoas idosas, as jovens, entre outros.

Como faz habitualmente, ainda no final de 2011, o Ministério constituiu um grupo de trabalho composto por especialistas em prevenção, técnicos em comunicação, representantes da sociedade civil, dos jovens e do movimento gay, que acertaram qual seria o segmento prioritário e as estratégias de comunicação.

Decidiu-se por uma campanha que fosse clara o bastante sem ser vulgar, em que os jovens gays se enxergassem sem estereótipos, que falasse de camisinha, da necessidade de portá-la e de não se esquecer de usá-la. Era importante tomar cuidado com os atores e sua interpretação para não haver dúvidas de que eram gays e que a relação deles chegaria à necessidade do preservativo.

Com essas orientações, abriu-se um processo de licitação em que 12 propostas criativas foram analisadas antes da escolha final. A partir daí, o Ministério realizou dez grupos focais com jovens, gays e heteros, onde se ajustaram detalhes da criação e se fizeram recomendações e alertas.

Não é a primeira vez que os jovens gays são alvos da campanha da Aids. O Ministério da Saúde já produziu filmes que contemplavam os gays em 2007 e 2010, sempre dividindo o foco principal com outros jovens.

Lamentavelmente, quase ninguém viu esses filmes, uma vez que a grade de programação era pequena e concentrava-se em horários de baixa audiência, ao contrário da versão heterossexual, destacada nos horários nobres.

A perplexidade diante da suspensão da divulgação do vídeo lançado pelo ministro Padilha, no último dia 2, revela que a homofobia institucional não escolhe ideologia e que o que orienta as decisões governamentais são acordos políticos e interesses eleitorais, mesmo que isso custe vidas e imploda toda uma política de saúde pública democrática, construída com base em evidências."

- Oswaldo Braga, em seu blog


"O que pega é a desculpa do Ministério da Saúde e de seu ministro Alexandre Padilha – o mesmo que teve enfrentamento em janeiro desse ano com as feministas que eram contra o cadastro das grávidas e Dilma (só depois de muita pressão e porque iria ficar bem mal para sua imagem de defensora das mulheres) voltou atrás e vetou - que decidiram retirar o vídeo no site do ministério e da publicidade em TV aberta.

Segundo a Folha, o ministério acredita que a postagem do vídeo no portal foi 'um equívoco'. Mas o grande equívoco é assistirmos a mais uma atitude hipócrita de um Governo em relação aos homossexuais desse país. Mais uma negligência de uma esquerda que diz ter compromisso com os Direitos Humanos, mas na verdade está muito mais comprometida com o que há de mais asqueroso no poder: a falta de fibra pra realmente mudar o estado de coisas de uma minoria que é agredida constantemente nas ruas."

- Vitor Angelo, no Blogay (Folha de S. Paulo)


"Tolerância é bom. Porém, legal mesmo não é apenas tolerar, mas acreditar que as diferenças tornam o mundo mais interessante e rico do que a monotonia monocromática da velha ditadura comportamental a que estamos subjugados pela religião, pela tradição, pelo preconceito.

Dizem que falta informação e, por isso, temos uma sociedade que pensa de forma tão tacanha. Que não temos contato com o 'outro' e, portanto, continuamos a temê-lo. Mas e quando a informação sobre o outro não flui por medo dos atores públicos que deveriam tornar isso possível? É difícil ser vanguarda na defesa dos direitos humanos, eu sei. Mas o governo pode se esforçar um pouco mais.

Afinal de contas, que mensagem o poder público quer passar barrando a divulgação em massa de campanhas de saúde destinadas aos gays que não se escondam atrás de nossa vergonha heterossexual e mostrem a realidade como ela é? Dois gays ficando em uma balada é uma cena que não difere de um homem e uma mulher na mesma situação – ao contrário do que os autores de novelas querem passar, com aquelas cenas platônicas ridículas, quando envolvem duas pessoas do mesmo sexo, feitas para não ofender os membros da TFP na sala de jantar."

- Leonardo Sakamoto, no Blog do Sakamoto, com grifos nossos


"Temos que nos posicionar enfaticamente, não contra o Departamento [de DST, Aids e Hepatites Virais] que tem suas limitações de decisão, mas contra o próprio Ministro que, de cara limpa, fez um discursos bonitinho para a mídia e plateia (...) e, como já vem se tornando uma marca da sua gestão, mudou de rumo mal apagaram os holofotes."

- CEDUS, via Tantas Notícias


"Os dois movimentos [militantes e ONGs LGBT e de Aids] vão caminhar juntos nessa questão. Inclusive no que diz respeito às denúncias que serão feitas tanto aqui – por exemplo, ao Ministério Público Federal — quanto internacionalmente, em órgãos de defesa dos direitos humanos.

Para quem desconhece os bastidores dos dois movimentos, saiba que essa associação é fato raro, pois, em geral, eles atuam separadamente. Mas a repercussão à proibição do filme foi tão grande entre os seus militantes que a campanha de prevenção à aids no Carnaval 2012 conseguiu a proeza de juntá-los numa mesma luta."

- Conceição Lemes, no Vi o Mundo - inclui a íntegra da nota da ABGLT


"Como repórter especializada na área de saúde há 30 anos, acompanho a epidemia de HIV/aids desde os anos 80. Já vi muitas campanhas de prevenção da transmissão sexual do HIV/aids e garanto: o novo filme [vídeo do início deste post] é medíocre, só pra cumprir tabela; é uma das piores campanhas de carnaval já vistas em toda a história do programa de aids brasileiro.

(...) 'Esse vídeo burocrático, sem criatividade, apenas com dados do boletim epidemiológico, feito de improviso, a toque de caixa, só comprova que houve censura e veto à campanha original', denuncia Mario Scheffer, ativista da luta contra a aids e presidente do da luta contra a aids e presidente do Grupo Pela Vidda-SP (ONG aids fundada em 1989). 'A censura imposta ao vídeo original é clara demonstração de discriminação e violação aos direitos dos homossexuais, população altamente vulnerável à infecção pelo HIV e que demanda, portanto, campanha de saúde pública de grande alcance. Essa discriminação imposta aos gays, dentro do próprio governo, é co- responsável pelo crescimento da epidemia nessa população.'

(...) 'O Ministério da Saúde se rendeu à patrulha religiosa dos fundamentalistas e aos conservadores de plantão da base aliada que tanto influenciam as decisões governo hoje', afirma Scheffer. 'No ano passado, aconteceu a mesma coisa. A campanha do Ministério da Saúde prevista para 1 de dezembro, Dia Mundial de Luta Contra a Aids, iria abordar os jovens gays. Mas o tema foi ‘abortado’, dando lugar a uma campanha genérica sobre preconceito.'

Mario Scheffer não fala apenas como ativista. Tem expertise em Saúde Pública e Comunicação; é sanitarista, pesquisador na área e pós-doutor em Ciências pela Faculdade de Medicina da USP .

'A abordagem não pode estar restrita a peças especificas para guetos, como quer o ministro Padilha ao veicular o vídeo só em locais de freqüência gay', argumenta. 'A divulgação em larga escala do filme abordando gays e prevenção do HIV é importantíssima, porque ele enfrenta um problema de saúde pública que estão jogando pra debaixo do tapete.'

Primeiro, porque jovem gay 'não existe' socialmente. Jamais uma pesquisa vai trazer quantos jovens se declaram homossexuais. Ao se referir à adolescência, os testemunhos de gays adultos quase sempre evocam sentimentos que eram marcados pelo silêncio e incertezas.

Segundo, porque no momento em que a sociedade toma conhecimento, via mensagem sensível mas realista da realidade homossexual, o jovem gay confronta-se com a construção íntima de sua identidade. A auto-estima é um passo importantíssimo para a prevenção eficaz.

(...) Em tempo: matéria publicada nesta terça-feira pela Folha de S. Paulo dá a versão de que o veto ao filme destinado aos jovens homossexuais seria da presidenta Dilma, que também teria barrado o do elefante. Diz que ela teria gostado apenas do vídeo na praia, destinado ao público heterossexual.

Independentemente de quem tenha vetado essa campanha, uma coisa é certa: o obscurantismo venceu a saúde pública."

- Conceição Lemes, em excelente análise no Vi o Mundo


"@marcofeliciano Pressão Nossa: Ministério da Saúde manda tirar do site vídeo com cena homossexual glo.bo/yG6KoF

Essa tuitada do pastor e deputado federal Marco Feliciano, do Partido Social Cristão por São Paulo, sacramenta o fim do estado laico no Brasil. O lobby religioso uma vez mais exigiu e neste carnaval a campanha de prevenção à AIDS não contará com a peça publicitária para o público homossexual, produzida justamente pelo preocupante recrudescimento da epidemia entre essa população. Esse fato vem logo após o governo vergonhosamente ceder a esse grupo conservador e suspender a distribuição dos kits anti-homofobia, perpetuando os casos de bullying físico e psicológico contra os jovens gays e lésbicas nas escolas.
Isso já havia sido anunciado na campanha eleitoral com a supressão de temas como aborto e união civil entre pessoas do mesmo sexo do programa de governo. Tudo em prol de uma coligação política que tende mais para uma inquisição moderna, que conseguiu unir os cristão das mais diversas religiões e é baseada no preconceito, preconizando a exclusão e o sofrimento para aqueles que não forem do povo de Deus.

Muito se faz neste mundo em nome do Pai. Em nome dEle são atirados aviões sobre vidas, são explodidas mulheres em meio a multidões, são executados homossexuais e outras pessoas que pensam ou agem de forma diferente das Escrituras. Em nome dEle o destino de 33 milhões de pessoas foi alterado, sendo que outros tantos o tiveram selado, pois não se pode usar ‘contraceptivos’. Em nome do Pai a eternidade no Paraíso pode ser garantida apenas mantendo em dia o carnê de mensalidades, não importando o quão execrável possa ser sua existência. Em nome dEle, homens ditos de Deus vociferam duras palavras contra os pederastas e sodomitas em pregações onde falta a única coisa que o Pai realmente quer que façamos nesse mundo: amar uns aos outros.

Quando se mistura Estado e religião não dá coisa boa. É só verificar ao redor do mundo e através da história e ver que os resultados são a rigidez da sociedade e um sistema político ditatorial, sempre em nome do Pai. Lembro de uma situação na clínica de fisioterapia onde faço meu tratamento, quando em conversa sobre esse tema com uma senhora evangélica ela posicionou-se, peremptoriamente:

- Quem assumir a presidência tem que governar com o ‘povo de Deus’ (evangélicos de forma geral).
Ao que eu rebati:
- E se um espírita assumir a presidência?
- …… (silêncio)

Ditadura é assim, só e boa para os poucos que estão por cima da carne seca, como se costuma dizer. Eles controlam a informação e decretam a censura de tudo que não lhes convém. E nós deveríamos estar escolados sobre isso, saímos de uma há menos de trinta anos."

- Beto Volpe, no Imprença, com grifos nossos.

* * *

Atualização em 23/02/2012:

Você encontra aqui um relato sobre a reunião de militantes com representante do Ministério da Saúde para esclarecimento do caso.

Reflexão sobre a essência da vida cristã: o amor


Nesta sua mensagem para a Quaresma 2012, o papa Bento XVI pede aos católicos de todo o mundo que neste período haja reflexão, no sentido de “prestarmos atenção uns aos outros”, com “preocupação concreta pelos mais pobres”. Na mensagem, o papa faz o chamamento dos cristãos à “responsabilidade pelo irmão”. Isto é, que estejamos atentos “aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida”.

Leia na íntegra o texto divulgado pela Santa Sé:


Irmãos e irmãs!

Quaresma oferece-nos a oportunidade de reflectir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor. Com efeito este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal.

Desejo, este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado da Carta aos Hebreus: «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (10, 24). Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor «com um coração sincero, com a plena segurança da fé» (v. 22), de conservarmos firmemente «a profissão da nossa esperança» (v. 23), numa solicitude constante por praticar, juntamente com os irmãos, «o amor e as boas obras» (v. 24). Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre actual sobre três aspectos da vida cristã: prestar atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal.

1. «Prestemos atenção»: a responsabilidade pelo irmão.

O primeiro elemento é o convite a «prestar atenção»: o verbo grego usado é katanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a «observar» as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e todavia são objecto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a «dar-se conta» da trave que têm na própria vista antes de reparar no argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41). Encontramos o referido verbo também noutro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a «considerar Jesus» (3, 1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela «esfera privada». Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o «guarda» dos nossos irmãos (cf. Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o facto de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo actual sofre sobretudo de falta de fraternidade: «O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo» (Carta enc. Populorum progressio, 66).

A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspectos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é «bom e faz o bem» (Sal 119/118, 68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades. A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de «anestesia espiritual», que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, «passam ao largo» do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16, 19). Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de «prestar atenção», de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias. Sempre devemos ser capazes de «ter misericórdia» por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: «O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende» (Prov 29, 7). Deste modo entende-se a bem-aventurança «dos que choram» (Mt 5, 4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança.

O fato de «prestar atenção» ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspecto da vida cristã que me parece esquecido: a correcção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje é-se muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: «Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber» (Prov 9, 8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado para exprimir a correcção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11). A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de «corrigir os que erram». É importante recuperar esta dimensão do amor cristão.

Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a advertência cristã nunca há-de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: «Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado» (Gl 6, 1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correcção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade. É que «sete vezes cai o justo» (Prov 24, 16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1 Jo 1, 8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais rectamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22, 61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós.

2. «Uns aos outros»: o dom da reciprocidade.

O fato de sermos o «guarda» dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de a considerar na sua perspectiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a actual pode tornar-se surda quer aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que «leva à paz e à edificação mútua» (Rm 14, 19), favorecendo o «próximo no bem, em ordem à construção da comunidade» (Rm 15, 2), sem buscar «o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos» (1 Cor 10, 33). Esta recíproca correcção e exortação, em espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã.

Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada com a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas alegra-se contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que «os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros» (1 Cor 12, 25) – afirma São Paulo –, porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, pode cada cristão expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e omnipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a acção do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt 5, 16).

3. «Para nos estimularmos ao amor e às boas obras»: caminhar juntos na santidade.

Esta afirmação da Carta aos Hebreus (10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1 Cor 12, 31 – 13, 13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efectivo sempre maior, «como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia» (Prov 4, 18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspectiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras.

Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de «pôr a render os talentos» que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12, 21; 1 Tm 6, 18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre actual, para tendermos à «medida alta da vida cristã» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: «Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima» (Rm 12, 10).

Que todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Heb 6, 10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica.

Fonte: Amai-vos

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Eu sou a filha da Chiquita Bacana


Resiliência – Capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas (Wikipédia)

É isto de que boa parte das minorias são feitas. Para existir, o que por si só já é resistir, num mundo com padrões rígidos de ser aos quais você não satisfaz, por um motivo ou outro, ou por quase todos, é preciso resiliência.

E isto fica absolutamente claro através da celebração das “filhas da chiquita”. A festa surgiu em 1975 no bojo da maior manifestação religiosa do norte do Brasil, o Círio de Nazaré que atrai cerca de 2.000.000 de pessoas em Outubro.

Este contexto é interessantíssimo. O mais importante evento gay de Belém do Pará nasce em simbiose total com a festa católica mais tradicional da região. Espera-se a imagem da santa ser transladada até a Igreja da Sé e depois no meio deste percurso acontece a festa. Há shows de drag, música e muito, muito fervo.

Eu conhecia esta história por alto, mas ontem vi o ótimo documentário “As filhas da Chiquita” (Direção: Priscilla Brasil. 2006). O filme retrata muito bem esta interseção entra as duas festas e a maneira como cada um dos respectivos organizadores lida com esta confluência de motivos, pessoas e rituais tão díspares.

O discurso da Igreja é o óbvio ululante e não poderia ser outro a partir dos personagens escolhidos para representá-la: um padre com cara de infeliz que repete todos os bordões de uma teologia rasa contra a homossexualidade e uma senhorinha fofa de cabelos quase azuis que diz que um assassino merece mais perdão do que um homossexual.

A fala das “chiquitas” é bem mais interessante. Mostra como cada um, e muitos se afirmavam devotos, ressignificou a pertença religiosa para além da questão da culpa pela homossexualidade. Mais do que isso, desde que esta é entendida como algo intrínseco, vivê-la é de algum modo respeitar a sua natureza e, assim sendo, ser autêntico, verdadeiro, valores morais positivos diante de Deus.

O documentário, rapidamente, conversa com gente simples sentado num bar. Um diz que a homossexualidade é algo estranho à cultura cabocla, indígena da região, uma espécie de contágio que viria do “sul”, das novelas a que os companheiros de mesa logo desdizem; um senhor faz mesmo um discurso bastante libertário sobre o que, nós “do sul”, chamamos de “direitos individuais”. O que mais me chamou atenção nesta sequência, no entanto foi o uso tranqüilo, plenamente incorporado ao discurso, do termo “gay”. Não deixou de me causar certo fascínio pensar que tal termo foi incorporado à homossexualidade nos E.U.A. como uma forma de positivar a experiência de ser homossexual e foi se propagando por meio da militância e setores mais engajados com esta mesma finalidade, chegando até uma mesa de bar bem simples em Belém do Pará.

É o “mestre de cerimônias” da festa das filhas da Chuiquita, no entanto, que nos dá a forma mais feliz de entender a relação entre estas duas festas. Uma imagem que sai cheia de flores, com um manto todo trabalhado na pedraria tinha mesmo que inspirar uma festa gay. E eu acrescentaria: que é conduzida num carro puxado por um bando de homens se roçando uns aos outros para segurar a corda. Ok, talvez a melhor frase mesmo seja a da Miss “Chiquita 2006”, uma drag pobre e descabelada que no seu agradecimento disse cinco frases incompreensíveis, no meio das quais soltou esta: “Nasci feia. Porque quando eu nasci, a beleza tava de férias”.

Fiquei pensando também se apesar de ser um grande fervo a festa das chiquitas não é por si só a manifestação gay política mais significativa do Norte. Existir e se mostrar em praça pública, no evento sagrado e sério do Círio, talvez seja maior do que qualquer manifestação sisuda e cheia de cartazes.
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