sábado, 19 de novembro de 2011

O ermo é o coração do mundo

Back to the future: Irina Werning

"Só a viagem para dentro de nós mesmos nos restitui ao mundo apaixonados pela vida."

- Adriana Zarri

* * *

O título deste micropost veio daqui.

O papel dos leigos e leigas cristãos em um período de crise da fé


Diante de "tempos radicalmente novos", como os leigos e leigas cristãos se posicionam e vivem a sua fé, em diálogo com a sociedade civil? Para nos ajudar a responder a essa pergunta, a IHU On-Line entrevistou o teólogo leigo italiano Christian Albini, ativo participante da Igreja diocesana de Crema, na região da Lombardia, na Itália, e autor de diversos livros e de um blog em que publica diversas reflexões religiosas.

Para Albini, uma mudança estrutural da Igreja é inevitável. "O catolicismo europeu correspondia a um ambiente totalmente cristão, em que o outro, o diferente, estava do lado de fora. Na Igreja planetária, ao invés, a convivência com a alteridade é a norma. A cristandade passou", afirma.

É a partir dessa perspectiva que Albini analisa, nesta entrevista concedida por e-mail, a questão da pedofilia, do sacerdócio e da formação sacerdotal para o século XXI, das novas questões teológicas e de figuras centrais na vida da Igreja italiana, como o cardeal emérito de Milão, capital da Lombardia, Carlo Maria Martini, e do recém criado cardeal Gianfranco Ravasi, que trabalhou durante muitos anos com Martini.

Nesta entrevista, Albini analisa o futuro da Igreja Católica a partir do ponto de vista de um leigo. Por isso, afirma, "é necessário desenvolver uma reflexão sobre a sinodalidade como participação de todo fiel na vida da Igreja e, portanto, também dos processos decisórios". Sem uma elaboração desse tipo, defende, "teremos uma Igreja clerical, em que o papel da hierarquia irá continuar sendo concebido na perspectiva do poder e não do serviço".

"Como leigo, todas as perspectivas que a minha Igreja me colocou à disposição consistiam em 'dar uma mão' em atividades projetadas e geridas pelo clero. Não! Não é possível! Se somos todos batizados, se somos povo sacerdotal, se recebemos o mesmo Espírito em uma Igreja-comunhão, é absurdo que à maior parte de nós não seja reconhecida uma identidade, ministérios, carismas", resume.

Christian Albini, nascido em 1973, em Crema, na Itália, é casado e pai de dois filhos. É formado em Ciências Políticas pela Università degli Studi di Milano e licenciado em Ciências Religiosas pelo Istituto di Corso Venezia. É membro da Associação Teológica Italiana. Na diocese de Crema, é membro da presidência do Conselho Pastoral e colabora com a Cáritas, a pastoral familiar e o Centro Diocesano de Espiritualidade. Na comunidade paroquial de San Giacomo, faz parte de um grupo de famílias e atua em um Centro di Ascolto delle Povertà. Autor de livros e artigos sobre temas teológicos, espirituais e filosóficos, Albini fez parte da redação da revista Aggiornamenti Sociali. Hoje, também mantém o blog
Sperare per Tutti. É cofundador do Centro Viandanti.

Confira a entrevista, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.


IHU On-Line – Como o senhor analisa a conjuntura da Igreja Católica no fim desta primeira década do século XXI? Que “sinais dos tempos” podem ser destacados nesse período dentro da vida da Igreja?
Christian Albini –
Em 1974, o missionólogo Walbert Bühlman falava de uma “Terceira Igreja às portas”, defendendo que o centro geográfico e vital do cristianismo está se deslocando, como já ocorreu no passado. Se, no primeiro milênio, foi prevalente o cristianismo oriental, no segundo a presença cristã caracterizou mais o mundo ocidental. Bühlman, a partir das tendências demográficas e dos sinais de vitalidade das diversas igrejas locais, defendia que o século XXI seria caracterizado por um ulterior recentramento rumo ao hemisfério Sul do planeta.

Hoje, nós chegamos aí! A Igreja Católica já é uma realidade planetária cujo centro de gravidade está se tornando os continentes que eram, tempos atrás, colônias ocidentais, como explicou nas suas obras o historiador e sociólogo Philip Jenkins. Em 1900, dois terços dos 270 milhões de católicos se encontravam na Europa. Hoje, os fiéis europeus são menos do que um quarto dos cerca de 1,2 bilhão de católicos. Em 2050, serão apenas 15%, muitos dos quais imigrados da África, da Ásia e da América Latina. É uma mudança se precedentes, da qual é impossível prever as consequências.

A cúpula da hierarquia parece querer controlar essa mudança, mantendo os arranjos até agora em curso. Basta pensar no último consistório, em que o número dos cardeais italianos (10 em 24 nomeações) é um dado fora da história. Além disso, os eclesiásticos que cobrem os postos de maior responsabilidade, no Vaticano como nas várias igrejas nacionais, são quase sempre aqueles mais alinhados com a visão da Cúria Romana, razão pela qual bispos nascidos na Índia ou na Bolívia pensam como em Roma. Na base, muda tudo, mas na cúpula não se toca em nada. É uma ilusão! Uma mudança também estrutural da Igreja é inevitável.

Seguramente, o catolicismo perderá aquela uniformidade que o caracterizou no segundo milênio. Não haverá mais um mundo católico definido e circunscrito (a Europa) com um único centro (Roma). O catolicismo que herdamos do passado é totalmente interno a um mesmo paradigma teológico, litúrgico, espiritual e jurídico, que se estruturou na Idade Média e depois com o Concílio de Trento, em resposta ao “desafio” protestante, que surgiu do encontro do cristianismo com a civilização greco-romana. O enraizamento da Igreja Católica em outros ambientes e em outras culturas, não assemelháveis entre si, suscitará novas germinações, novas histórias e tradições. Decairá um paradigma dominante, mas coexistirá uma pluralidade de variáveis da identidade católica (africana, asiática, europeia, latino-americana…). Irão se separar, indo cada uma pelo seu próprio caminho? Irão se influenciar e se enriquecer mutuamente? Eu espero esse segundo cenário, com uma articulação das teologias, das liturgias, das espiritualidades, das normas.

Será um catolicismo menos autocentrado. O catolicismo europeu correspondia a um ambiente totalmente cristão, em que o outro, o diferente, estava do lado de fora. Na Igreja planetária, ao invés, a convivência com a alteridade é a norma. A cristandade passou. É uma situação que me parece mais próxima daquela da Igreja das origens, diversificada no seu interior e misturada com outros sujeitos. Considero-a mais adaptada a responder aos desafios da pós-modernidade, na qual um cristianismo homogêneo e monolítico poderia resistir só como seita, como fortaleza assediada que, ao seu redor, só vê inimigos. Seria um fundamentalismo residual. E seria uma traição da universalidade do Evangelho, cuja semente está presente em todo ser humano, em todo povo, em toda cultura. Nós cremos em um Deus de seres humanos, um Deus que se encarna na história e nos encontra no nosso “aqui e agora”.

IHU On-Line – Um dos cardeais que mais se destacou como defensor das propostas do Vaticano II e de um diálogo mais profundo entre modernidade e Igreja foi Carlo Maria Martini. Como o senhor avalia a sua importância e o seu impacto na Igreja italiana e também mundial?
Christian Albini –
Carlo Maria Martini é indubitavelmente um dos homens da Igreja ao qual é reconhecida uma autoridade moral maior, mais em razão da sua mensagem do que do seu papel institucional. Não por acaso ele está entre os autores católicos mais lidos em nível mundial. O seu mérito foi o de pôr em primeiro plano alguns elementos fundamentais: o primado da Palavra de Deus, com base no qual o texto bíblico, estudado segundo as descobertas da exegese histórico-crítica e assimilado na oração, é o ponto central da vida cristã e de todo discurso pastoral ou espiritual; a adoção de uma perspectiva contemplativa em que o cristianismo não é vivido como ideologia, como código moral ou como identificação com uma instituição religiosa, mas como encontro com o Senhor Ressuscitado que suscita comunhão; a escolha de ouvir, a despeito do julgar e do repartir ensinamentos caídos do céu, que torna possíveis a confiança e o encontro.

Esses conteúdos foram comunicados adotando uma linguagem simples e acessível, diferentemente de uma certa terminologia eclesial que a maioria não compreende, e um estilo humilde e manso, que propõe mas não se impõe. Tudo isso lhe permitiu dialogar e anunciar a esperança cristã a 360 graus, dialogando com não crentes ou crentes de outras denominações.

Em Milão, a Igreja de Martini não se fechou nos recintos sagrados, esteve presente, mas não invasiva, nas situações cruciais vividas pela cidade: o terrorismo, o secularismo, a corrupção política e a perda dos valores morais. Também graças a ele, a comunidade cristã soube ser um sinal e um ponto de referência.

Não sou capaz de quantificar a sua influência, mas certamente não é de se ignorar. O fato é que, pelo menos na Itália, instaurou-se uma situação de fato pela qual a comunicação pública da Igreja é fortemente condicionada pela cúpula da Conferência Episcopal, razão pela qual os bispos tendem a não se expor e têm poucas margens de intervenção em primeira pessoa sobre as questões “ardentes”. Dou um exemplo. Há pouco tempo, em uma diocese do norte da Itália, um bispo havia aceitado confrontar-se em um debate público com um homem político, conhecido pelas suas posições críticas com relação ao recente magistério católico em matéria de bioética. De Roma, chegou-lhe a indicação de delegar um outro, porque a sua simples presença, independentemente do que dissesse, poderia soar como uma implícita legitimação do interlocutor!

É difícil, em um contexto desses, avaliar o seguimento de Martini, ao qual sua aposentadoria concedeu um posterior espaço de liberdade. Pense-se no livro-entrevista "Diálogos Noturnos em Jerusalém", que foi um grande sucesso. Neste período, prevalece um estilo de presença na sociedade que é o oposto do que foi praticado por Martini, razão pela qual aqueles que gostariam de seguir o seu exemplo continuam, por assim dizer, “sob proteção”.

Apesar disso, a sua influência está presente em muitos documentos importantes do episcopado italiano que são frutos de uma elaboração coletiva. As orientações pastorais nacionais para a próxima década, "Educare alla vita buona del Vangelo", também são marcados por uma importante carta pastoral que Martini havia dedicado profeticamente ao tema educativo há mais de 20 anos ("Dio educa il suo popolo"). Isso quer dizer que diversos bispos fazem referência a ele!

IHU On-Line – Qual é o significado de fundo da crise da pedofilia vivida pela Igreja nos últimos anos? Como o senhor analisa a resposta do Vaticano e que consequências futuras isso pode trazer para a Igreja em geral?
Christian Albini –
No meu entendimento, os episódios ligados à pedofilia demonstram que uma formação dos sacerdotes que aponte unicamente ao aspecto intelectual, à adesão à doutrina e ao magistério da Igreja, a uma espiritualidade formalística, é insuficiente. Não me convencem as explicações que apontam o dedo contra o laxismo [permissividade, licenciosidade] em matéria de moral e de sexualidade que teria se afirmado depois do Concílio e depois de 1968.

Os casos de pedofilia se referem a uma orientação fortemente tradicionalista, como demonstram os casos do ex-arcebispo de Vienna, Groër, e do fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel. A questão é a formação humana dos sacerdotes, a atenção à dimensão psicológica dos sacerdotes, a atenção à dimensão psicológica, a educação a uma espiritualidade que não seja devocionalística, mas que favoreça o conhecimento de si mesmo e o discernimento.

Entre os padres, conheci muitas personalidades não resolvidas, desequilibradas, cuja escolha de vida levou mais a uma carência do que a um crescimento interior. As problemáticas ligadas à sexualidade, que absolutamente não me parecem diminuir, são só um aspecto da questão que se manifesta muito mais frequentemente em atitudes de autoritarismo e de aridez afetiva, ou na exibição de um “Eu” ideal, o qual não correspondeu ao “Eu” real, em uma espécie de desdobramento esquizofrênico.

Há também pessoas maravilhosas, que são autênticas testemunhas da fé, mas a minha sensação é de que elas souberam enfrentar melhor suas próprias fragilidades, com as quais todos nós devemos acertar as contas ao longo de toda a vida, não graças à instituição, mas graças a um percurso interior próprio.

Sobre a resposta do Vaticano, acredito que se deva distinguir entre os casos do passado, em que prevalecia a tendência a encobrir, e os mais recentes, em que se adotou um maior rigor. Considero, no entanto, que muitas avaliações poderão ser feitas adequadamente só historicamente, porque agora é muito difícil distinguir entre os fatos objetivos e o sensacionalismo alimentado por muitos meios de comunicação. Toda essa crise pode ser, para o clero católico, a ocasião para uma profunda revisão, a menos que não se ceda à tentação de enfiar a cabeça na areia. Não basta localizar os pedófilos e intervir. Se se cai no erro de pensar que tudo se resolve tirando as maçãs podres do cesto, não se vê a mentalidade e as práticas que favoreceram indiretamente essas situações. O cardeal Lehmann alertou para o fato de atribuir exclusivamente ao indivíduo pecador as falhas da Igreja, que é o modo de pensar que favoreceu as piores práticas de encobrimento. E Timothy Radcliffe, com maior franqueza, afirmou que a crise da sexualidade entre os padres está ligada ao poder e ao modo em que o poder funciona em todos os níveis na Igreja. A partir dessa consciência, se deveria dar início a um sério exame.

IHU On-Line – Como o senhor analisa a questão do sacerdócio hoje? Que papel os sacerdotes devem ter na Igreja contemporânea e que tendências o senhor percebe para o futuro do sacerdócio?
Christian Albini –
Diante da crise do sacerdócio, tenta-se inverter a tendência, repropondo a centralidade do padre na comunidade e reafirmando uma dignidade sua superior à dos outros fiéis enquanto mediador e representante de Cristo. Apesar disso, há a exigência, por causa da queda numérica dos sacerdotes, da maturação de uma reflexão pastoral com relação ao se pensar um padre “na” comunidade e não “na cúpula” da comunidade.

Claramente, é uma linha sem perspectivas. É verdade que, em números absolutos, os padres do mundo aumentam, mas menos do que o número dos batizados segundo as tendências demográficas. Na Europa, depois, a situação é de verdadeira escassez de vocações. O seminário da minha diocese contava com 21 estudantes nas várias classes de 1970, enquanto hoje tem seis. Há Igrejas locais que “importam” sacerdotes do exterior, frequentemente com grandes problemas de integração. É um modo de puxar um cobertor que se encurta.

Uma vez saídos dos seminários, depois, muitos jovens padres se defrontam com contextos em que a imagem ideal que formaram no seminário e que se encontra em tantos pronunciamentos oficiais não procede. A carga de trabalho é anormal, enquanto os poucos ordenados devem multiplicar os cargos para suprir a diminuição dos padres. É inevitável, se o padre continuar sendo considerado aquele que deve fazer de tudo um pouco.

Além disso, em um tempo de secularismo, o seu status social desceu muito de nível, assim como os êxitos da atividade pastoral são frequentemente decepcionantes. Por isso, então, há padres que vivem incomodados com o próprio ministério. Acabam desenvolvendo verdadeiras formas de mal-estar psicológico. Outros, ao invés, se refugiam na bolha do tradicionalismo, para a qual a conformidade a um certo modelo de sacerdócio torna-se a fonte das gratificações que faltam em outros lugares. O fato de se vestirem de um certo modo, de celebrar de um certo modo, de se ater a certos esquemas morais e doutrinais torna-se uma forma da qual o padre pode obter uma espécie de autossatisfação. É o amparo oferecido, em tempos de incerteza, pelas identidades fortes e rígidas que não se deixam colocar em discussão.

Acredito que o caminho a ser tomado pelos sacerdotes não é o de reforçar a autoridade do seu próprio papel, mas de se orientar a um ministério de paternidade espiritual, de oração, de anúncio da Palavra. O padre não deveria ser o “proprietário” da paróquia, mas aquele que, em uma comunidade, sustenta, compartilha, estimula, encoraja. Um sacerdote amigo me dizia que uma pessoa lhe fez refletir ao lhe dizer: “Não vim ao seu encontro, mesmo que quisesse falar com o senhor sobre o meu problema, porque eu tinha medo de perturbá-lo”. É um episódio que o fez refletir. O seu povo o percebia mais como um homem do “fazer”, comprometido em mil atividades, do que como uma presença a qual podia se aproximar confiante.

A minha convicção é de que o padre irá encontrar o seu caminho na Igreja de amanhã só junto aos leigos. Não o padre sozinho ou o leigo sozinho, mas juntos, confrontando-se, colaborando, compartilhando. Em uma diversidade de carismas, mas em um plano de paridade e de complementaridade, saindo das relações de poder que muito frequentemente prevalecem na Igreja. Se se der esse passo, se perfilará um novo rosto da Igreja, mais confiável na nossa sociedade.

IHU On-Line – Que tendências teológicas o senhor percebe que estão ganhando força no cenário mundial? Que novas questões estão surgindo no debate teológico?
Christian Albini –
Nesse âmbito, também estamos atravessando uma transição de êxitos imprevisíveis. O século XX foi um dos séculos de maior riqueza para a teologia em toda a história cristã, com grandes novidades e figuras de estatura gigantesca. Há, portanto, uma herança teológica do século XX que ainda deve ser assimilada integralmente.

Além disso, tratava-se de uma teologia, pelas razões que indiquei na minha primeira resposta, fundamentalmente eurocêntrica, com a única exceção parcial na teologia da libertação. Teremos a verdadeira novidade do século XXI com a emergência de teologias próprias dos outros continentes, que não se limitam a se mover no tabuleiro de xadrez fornecido pelas faculdades romanas. São teologias ainda em incubação, porque, neste momento, têm um porte circunscrito, sem um impacto sobre a Igreja universal.

No século XX, ainda, os teólogos tiveram um papel de estímulo à renovação, de endereçamento e de presença no debate público que hoje perderam, em grande parte, pelo menos na Igreja Católica. Muitos procedimentos disciplinares e documentos magisteriais redimensionaram e frearam a pesquisa teológica. Não faltam estudiosos de valor, mas não surgem com a força que tiveram figuras como De Lubac, Rahner ou Von Balthasar. Entre os italianos, lembro-me de Alberto Cozzi, Paolo Gamberini, Marcello Neri, Serena Noceti, Giovanni Cesare Pagazzi…

Diante de tempos radicalmente novos, a teologia avançou em territórios anteriormente inexplorados. Quando são ultrapassadas fronteiras, é preciso ousar, correr riscos, arriscar. Esse impulso foi freado pela preocupação, também compartilhável, de perder a herança da tradição. É uma exigência que se poderia, no entanto, realizar de um modo diferente! A consequência dessa freada é que a reflexão teológica hoje permanece confinada aos ambientes acadêmicos e está ausente no debate público.

De todos os modos, acredito que, na teologia de hoje, há “canteiros abertos”, nos quais os trabalhos devem prosseguir: o pluralismo religioso, as novas fronteiras da ética (bioética, ética sexual, ética ambiental...), a laicidade e a democracia, a pós-modernidade, a justiça social no contexto da globalização, a relação com a ciência, a dimensão feminina, o aprofundamento da comunhão para ir rumo a uma Igreja menos clerical. São todos capítulos enormes.

Gostaria de indicar algumas pistas ao longo das quais estou me movendo na minha pesquisa pessoal. Sobretudo, considero que se deva trabalhar muito sobre o léxico da teologia. Se eu tivesse que indicar um projeto de pesquisa coletivo para os jovens teólogos, seria o de um novo léxico. De um lado, porque muitos conceitos tradicionais não dizem nada para a cultura contemporânea; por exemplo, termos como sacramento, graça, dogma... É preciso reexpressá-los e reapresentá-los, como também sugeria João XXIII na abertura do Concílio Vaticano II.

Por outro lado, o pensamento moderno e contemporâneo produziu conceitos novos, que não pertencem à linguagem teológica e que, de fato, não encontram lugar nos dicionários e nos manuais. A teologia não pode, porém, se permitir ignorá-los, se não quiser permanecer insignificante para o homem e a mulher de hoje. Pelo contrário, deveria assumi-los e oferecer uma contribuição a respeito, em uma perspectiva cristã. Penso em conceitos como diálogo, democracia, identidade (o que vai tocar em inumeráveis questões, pense-se em toda a questão da sexualidade...).

Uma outra pista de trabalho, que pode parecer um pouco “fora de moda”, é a recuperação de uma teologia sapiencial como na tradição monástica. Com a afirmação da teologia como ciência acadêmica, uma passagem estudada por Chenu, passou-se para o segundo plano a dimensão mais propriamente espiritual do discurso teológico em favor da racional. Essa escolha ajudou a teologia cristã a estar “dentro” da cultura ocidental do segundo milênio, uma cultura marcada pelo racionalismo científico e filosófico, mas, no longo prazo, também a empobreceu.

A crítica ateia da religião, creio, se desenvolveu no Ocidente até porque fez perder de vista outras dimensões da busca humana da verdade, até chegar a uma razão que menospreza a fé. Não se pode renunciar à razão, naturalmente. Mas apontar exclusivamente a ela – como o magistério também parece fazer, com os apelos à natureza –, dissolve a diferença cristã e corre o risco de se tornar contraproducente. De qual razão se fala, visto que, de fato, existem diversos paradigmas de racionalidade, nenhum dos quais pode ser canonizado como de autoridade? O fracasso do projeto iluminista está justamente na insustentabilidade da ideia de uma razão “absoluta”. Quando Bento XVI deseja uma ampliação do conceito de racionalidade, isso não pode não comportar uma recuperação do específico do dado espiritual ao qual toda autêntica racionalidade não pode não se abrir pelo menos como eventualidade, como possibilidade.

Por fim, para o futuro da Igreja Católica, acho que é necessário desenvolver uma reflexão sobre a sinodalidade como participação de todo fiel na vida da Igreja e, portanto, também dos processos decisórios. Sem uma elaboração desse tipo, que quer dizer a recuperação de um patrimônio que remonta aos primeiros séculos cristãos, teremos uma Igreja clerical, em que o papel da hierarquia irá continuar sendo concebido na perspectiva do poder e não do serviço, desmentindo, de fato, a realidade eucarística e comunional da Igreja.

IHU On-Line – Como o senhor vê o papel dos leigos e leigas na vida da Igreja e na teologia de hoje? Pessoalmente, como o senhor procura viver o seu laicato em sua Igreja local?
Christian Albini –
O que eu já disse sobre a complementaridade entre padres e leigos e sobre a sinodalidade constitui a minha ideia de fundo. Por outro lado, a realidade me parece muitas vezes distante disso. Os leigos são bons só quando estão alinhados, quando cantam no coro, e é a hierarquia que dá a partitura e que rege.

No pós-Concílio, na Itália, tivemos figuras de leigos que se destacavam pela sua autoridade moral. Penso em Carlo Carretto, Giorgio La Pira, Giuseppe Lazzati… Pessoas que tinham uma voz própria e que sabiam distinguir entre aquilo que pertence à essência da fé e aquilo que é opinável. Hoje, não temos mais figuras desse tipo, porque os espaços para tomar a palavra se reduziram na Igreja Católica. Procurou-se resolver a questão do laicato com os movimentos, segundo a tendência de ver nestes últimos o futuro da Igreja. Como dizendo: para os leigos, existem os movimentos; se quiserem um lugar, é ali. Os movimentos, com a sua solidez interna e sua fidelidade à hierarquia, conquistaram poder, dentro e fora da Igreja, mas não resolveram os problemas pastorais postos pelo secularismo. E, enquanto isso, os leigos não homologados aos movimentos passaram para a marginalidade, mesmo que tudo não seja imóvel. No espaço da internet, por exemplo, estão aumentando os lugares de confronto e de livre expressão.

Como vejo a contribuição que os leigos podem dar? Deus, como ocorreu em Jesus, se encarna sempre em uma história, com os seus lugares, a sua língua, os seus sabores, as suas situações. E nós somos tempo, somos história. Deus, então, toma forma em nós fazendo-se presente nos nossos lugares, línguas, sabores e situações... A história de um leigo cristão, com a sua vivência familiar, civil, laboral evidentemente não é a mesma de um ordenado! Vivendo a experiência do matrimônio, do trabalho, dos lugares da convivência cotidiana, o leigo é portador de um ponto de vista, na teologia e na pastoral, sem o qual se constroem castelos de areia e sem o qual a fé fala por fórmulas, mas não na vida. Hoje, a Igreja Católica paga as consequências de um atraso nesse sentido.

Pessoalmente, cresci com um pároco que foi, na minha diocese, um dos protagonistas do período conciliar e me acostumei a ver a Igreja não como um “assunto de padres”. Além disso, ele me ensinou que o cristão não é alguém que confia ingenuamente em respostas pré-preparadas por outros. Comecei, tocado pela sua abertura mental, a me interessar primeiro pela filosofia e depois pela teologia. Queria entender, ir até o fundo, dar-me conta pessoalmente se a mensagem cristã verdadeiramente era uma mensagem universal ou, ao invés, uma superstição anacrônica.

Para mim, a fé sempre teve uma dimensão muito forte de dúvida, de busca, ousaria dizer de luta. Apesar de todas as minhas objeções e as minhas quedas, o rosto do Senhor crucificado e ressuscitado entrevisto na oração sempre foi, para mim, no fim, mais persuasivo do que todo o resto. O discernimento me levou a me sentir chamado ao matrimônio, mas continuei estudando teologia, e foi um percurso difícil. Na Itália, não existem faculdades teológicas nas universidades estatais. Para um leigo, é mais difícil estudar teologia, porque não garante nenhuma renda. Para levar adiante a escolha familiar e as exigências trabalhistas, tive que me limitar a um magistério em ciências religiosas, sem poder me dedicar aos estudos acadêmicos em teologia.

Continuando as minhas pesquisas, acima de tudo como autodidata, comecei a escrever e a publicar. Fui aceito – talvez um caso mais único do que raro – na Associação Teológica Italiana, justamente pelas publicações que consegui produzir, mesmo sem possuir títulos acadêmicos. Há alguns anos, busco me comunicar com um público mais vasto por meio de um blog bastante seguido. Participo nas atividades da minha Igreja local em nível tanto paroquial quanto diocesano, principalmente no setor caritativo. Sou, enfim, um cristão de paróquia comum, que não pertence a nenhuma realidade associativa e que busca dar uma contribuição com seu próprio empenho e com suas próprias reflexões. Parece-me que é uma contribuição apreciada, visto que é exigida por várias partes, dentre as quais vocês, com esta entrevista.

Mas, há uma nota fora do tom. É um caminho que eu construí um pouco sozinho, por tentativa e erro, e que não seguiu uma trajetória linear, definitiva. Como leigo, todas as perspectivas que a minha Igreja me colocou à disposição consistiam em “dar uma mão” em atividades projetadas e geridas pelo clero. Não! Não é possível! Aqui, não se trata de fazer reivindicações para o desejo de contar, de ter um pouco de poder. Se somos todos batizados, se somos povo sacerdotal, se recebemos o mesmo Espírito em uma Igreja-comunhão, é absurdo que à maior parte de nós não seja reconhecida uma identidade, ministérios, carismas. Eu não quero substituir o padre. Desejo que os padres existam. Mas também desejo encontrar o lugar que o Senhor pensou para mim na comunidade cristã e na sua missão. Acredito, de fato, que uma Igreja hierárquica, no sentido do poder e não da comunhão e do serviço, é uma invenção humana que trai o Evangelho e a autêntica tradição da Igreja, dos apóstolos ao Vaticano II.

“Encontrar o meu lugar” – é importante dizer – não significa só um “fazer” em sentido ativístico. Significa também encontrar a dimensão espiritual que me pertence. Muito frequentemente, a Igreja é um lugar de iniciativas mais do que de encontro com Deus, onde talvez se ensina ao leigo uma doutrina ou uma ética, mas não se ouve a Palavra dentro da sua própria vida. Talvez, a crise da fé do Ocidente depende também do fato de que a Igreja anuncia e pratica um cristianismo “manco”.

Portanto, considero que é responsabilidade dos leigos e dos padres que compartilham essa intuição ativar-se juntos para dar-lhe impulso e difundi-la nas paróquias e nas dioceses. Estamos fazendo isso, em pequena escala, em Crema e procuramos fazer isso em escala maior com o Centro Viandanti, do qual eu sou um dos fundadores, que está começando a somar as colaborações de grupos do Centro-Norte da Itália.

(...)

IHU On-Line – Qual a sua opinião sobre a presença dos cristãos, particularmente católicos, na vida social e política da Europa hoje?
Christian Albini – Nos últimos 15 anos, na Itália, os expoentes mais influentes da hierarquia fizeram a escolha de intervir diretamente no jogo político, fazendo pedidos aos partidos mais complacentes e tentando se atribuir uma espécie de papel de “religião civil”. Como se isso pudesse substituir e compensar a secularização!

Depois, tentou-se fazer da Itália um modelo a ser seguido. É uma estratégia que, no curto prazo, recompensa, mas, em longo prazo, torna a Igreja menos confiável, ao mesmo tempo em que a fazer parecer como um ator em um jogo de poder.

Além disso, enquanto o magistério deveria dar indicações de fundo, houve intervenções que visavam sustentar ou combater procedimentos e soluções legislativas particulares, fazendo-as tornar-se quase como novos “dogmas” e instrumentalizando o conceito problemático dos “valores inegociáveis”. Tudo isso levou a alianças com as áreas políticas que mais se prestavam ao jogo, em troca de um apoio não declarado, mas que, de fato, existiu. E quando se essas alianças se fortalecem, perde-se a liberdade de ser crítico e profético... Por isso a afonia de tantos bispos e leigos, para os quais ou se alinhavam ou eram cortados dos canais da comunicação eclesial, como ocorreu com tantos.

Considero que a presença cristã na vida pública é significativa não se a Igreja adquirir influência, mas se testemunhar com sua própria ação aquilo que anuncia e souber dialogar com todas as partes políticas, não para negociar trocas, mas para se confrontar sobre valores. Fazendo críticas, mas reconhecendo também o positivo de cada área e de cada projeto. Não uma Igreja que se une a uma parte para contar mais, mas uma Igreja que está em relação com todos para ser fermento na massa.

Cabe, depois, aos católicos que optam pelo compromisso político, com base em suas capacidades, em sua autoridade moral, assumir a responsabilidade, sem receber “ordens de escuderia”, de decidir como dar concretude às suas próprias convicções e, portanto, quais soluções legislativas e de governo buscar.

IHU On-Line – Que cenários futuros da Igreja o senhor percebe para o confronto ou o diálogo com a contemporaneidade?
Christian Albini –
É um discurso muito vasto. Muito sinteticamente, vejo a pós-modernidade como a decadência de uma perspectiva única e unitária na sociedade. Acabou a civilização cristã e não há um outro paradigma que a substitua, mas sim uma coexistência de visões de mundo diversas. A única moldura comum é dada pela economia de mercado e pelas relações consumistas que ela institui. Pluralismo e consumismo constituem um duplo desafio para a Igreja, diferente de todos os da história passada. As estratégias no campo político, sobre as quais falava antes, parecem-se ser a tentativa de conservar uma hegemonia já decadente. Por isso, são necessariamente perdedoras, além de não evangélicas.

Ao desafio do consumismo, responde-se só com um testemunho de caridade e de gratuidade, partindo dos últimos, injetando anticorpos no sistema, edificando comunidades alternativas em que vale a fraternidade e não a utilidade. A nossa pastoral ainda é excessivamente centrada na maximização da participação nos sacramentos, como se se tratasse de “distribuir” a maior quantidade possível deles. Os sacramentos são o ponto de partida, ao qual se dedica a maior parte das energias, enquanto deveriam ser o ponto de chegada. Os cristãos se comportam exatamente como todos os outros, e muitos vão à missa, como se fosse um acréscimo. Pelo contrário, a missa deveria ser a fonte e o cume de um estilo de vida de seguimento do Evangelho nos momentos e nos lugares da convivência cotidiana. Toda a vida do fiel deveria testemunhar uma diferença cristã que nasce da oração e da escuta da Palavra.

Ao desafio do pluralismo, muito semelhante às origens da história cristã, se responde não com a competição com as outras crenças e visões de mundo, mas sim com a capacidade de localizar nelas a presença do Espírito. É preciso um cristianismo capaz de aprender, capaz de se deixar enriquecer pelos outros. Um cristianismo assim, que sabe dialogar sem renunciar à sua própria identidade, torna-se capaz de testemunhar aos outros que, no Evangelho, as suas riquezas encontram cumprimento. Não busca assimilá-las, mas abre com elas um canal de troca, confiando unicamente na força da Palavra.

Uma figura que, em muitos aspectos, me pareceu estar próxima dessa posição é a de Raimon Panikkar. Reconheço-me nesta sua afirmação: “A Trindade é a experiência extraordinária, concreta e particularmente, de uma visão que existe na estrutura do ser humano”. A Trindade presente, embora desconhecida, em tudo e em todos. Nesse caminho, a Igreja Católica continuará sendo universal até no pluralismo, senão pode se estagnar longamente em um desvio sectário. Depende de todos nós...

(Por Moisés Sbardelotto)

"Deus não condena ninguém. Nem a Hitler", afirma teólogo espanhol

Fotomontagem: Cassandra C. Jones

Andrés Torres Queiruga é o teólogo da síntese. Uma síntese difícil de realizar em determinadas circunstâncias, e mais ainda em nosso país [a Espanha], neste momento. Um pensador enraizado na Galícia, mas aberto ao mundo: muito galego e muito universal. Teólogo e filósofo ao mesmo tempo. Clássico e moderno, com um IPhone na mão, depois de ter utilizado um dos primeiros computadores, aquele que pesava mais de 20 quilos. Um homem livre e preso à sua consciência e à sua liberdade. Empenhado há muitos anos em “repensar a fé” e em recuperar as chaves centrais da crença e da salvação. Por isso, quase todos os seus livros giram em torno dessas duas palavras: recuperar e repensar. Um exemplo é o livro que nos apresenta, Repensar el mal.

A entrevista é de José Manuel Vidal e está publicada no sítio Religión Digital, 25-04-2011. A tradução é do Cepat, aqui reproduzida via IHU.

Eis a entrevista.


Andrés, bom-dia. Estamos felizes por contar com sua presença aqui. É um prazer... E estava na hora.
Bom-dia (risos). Sim, na verdade tinha vontade de estar aqui.

Por diversos motivos foi se atrasando a entrevista, mas hoje, finalmente, conseguimos fazê-la. E vamos começar com o livro Repensar o mal. Editado em galego (pela editora Galaxia, em Vigo) e em castelhano (pela Trotta). Mais grosso em galego e mais fino em castelhano...
... mas o livro é o mesmo (risos), com fontes diferentes.

Qual é a sua tese fundamental? Porque é um livro de fundo...
Sim. Eu estava há muito tempo preocupado com isto. Ainda quando era estudante, tive a intuição de base. Mas as duas palavras essenciais, que você lembrava, foram sendo inconscientemente: repensar e recuperar. E ao lhe ouvir estava pensando que é verdade, que um dos neologismos que introduzo (porque a ação de repensar exige novas palavras, para poder vestir os pensamentos que busca...) é o de falar da “via curta da teodiceia”. Porque o meu será um repensamento bastante radical do problema, mas ao mesmo tempo reconheço que até agora as pessoas se arranjaram bastante bem, com a antiga lógica com que se pensava o mal.

Qual era essa lógica?
Vou dizer agora... Porque, sem dúvida, hoje nos damos conta de que dizer que Deus é onipotente, bom, que nos quer infinitamente e que poderia acabar com o mal no mundo, torná-lo perfeito... mas que não quer, é uma contradição.

Não quer porque dizíamos que assim limitava a nossa liberdade...
Ou porque era um mistério, ou mil coisas. Mas, realmente, isso não vale. Seu eu tenho um amigo que está no hospital e me diz que ele poderia, apenas querendo e sem trabalho, acabar com todo o sofrimento do hospital, mas que tem motivos para não querer... Se eu pensasse que Deus eliminaria todo o mal do mundo sem que custasse trabalho nenhum, e não o fizesse... não poderia afirmá-lo.

É a pergunta que muita gente se faz diante das grandes catástrofes: se Deus é tão onipotente como dizemos, por que não interceptou o tsunami no Japão?
E veja que o Papa, que é um bom teólogo, quando chegou a Auschwitz, com boa vontade, mas se perguntou onde estava Deus, porque consentiu com isso. Se isso fosse verdade, o ateísmo teria razão. Porque, invertendo a frase, se Deus estivesse presente e não o consentisse, não haveria Auschwitz nem o Holocausto. Logo, seria preciso levar Deus ao Tribunal de Haya. Naturalmente, nem o Papa nem ninguém pensou nisso. Mas é certo que, durante muito tempo, não se percebeu a contradição. Você me perguntava por que... Porque havia uma lógica mais profunda, a lógica da confiança: a fé cristã, a tradição de um Deus bom, de um Jesus que entrega sua vida por todos... Isso de “eu não posso dar razões contra o mal, mas sei que isso não pode ter nada a ver com Deus”. Essa tese, no fundo, é a que está no relato do Paraíso. A confiança tão radical da sociedade em Deus se admitia porque o ateísmo (que é um fenômeno dos séculos XVIII-XIX) não existia culturalmente. Deus era uma evidência: estava aí e se sabia que era bom; então, se existia o mal, alguma razão haveria. Se a objetava, ou se a saltava ou era vista muito superficialmente...

E isso se rompe em algum momento?
Com a chegada da modernidade. Com a chegada da “era crítica”, de que falava Kant, já não toleramos contradições e nos atrevemos a julgar. De fato, a cultura levou a ideia de Deus ao tribunal da razão, e a partir desse momento, se fez necessário uma “via longa”.

Que é o que você faz, a via que percorre.
Exatamente: repensar e recuperar... Dedico um longo capítulo à confiança da “via curta”. Há uma frase que diz: “eu parto do amor”. Porque creio que a única coisa que podemos estar seguros a respeito de Deus na teologia é que nos ama infinitamente, sem condições, e que é a nossa salvação. Se eu aplico esta lógica assumindo que mesmo assim há mal, é porque o mal não pode ser evitado. Se entro em uma casa e ouço uma criança gritando de dor em sua cama, e vejo sua mãe, sei que a mãe não pode evitar a dor de seu filho; que, se pudesse, não o permitiria. Mas é impossível que o evite. Isaías capta esta lógica autêntica, a lógica do amor: “Poderá uma mãe esquecer-se do filho de suas entranhas? Mesmo que ela fosse capaz de se esquecer, eu não me esquecerei”. Esta é a lógica que durante a tradição tornou possível saltar a contradição da teodiceia ao uso, da qual Kant disse que havia fracassado. Eu sempre digo que a teodiceia se faz – em geral, assim o fazem todos os autores – com pressupostos antigos e se critica com razões novas. E o que quero fazer ver é que devemos revisar esses pressupostos antigos para que a cultura atual, a que coloca objeções, possa responder no mesmo nível. Isso é a “via longa”.

O que trata de demonstrar com a “via longa”?
O livro tem um subtítulo: “Da ponerologia à teodiceia”. Uma palavra grega que significa “mal”. Ponerologia é um tratado sobre o mal. Aí parto de uma evidência: o mal é um problema humano, não imediatamente religioso. Quer seja crente ou ateu, terá crises e doenças, e vai morrer. As crianças dos crentes e dos ateus nascem da mesma forma... Porque o mal é um problema humano, que afeta a todos, anterior à resposta ou não-resposta religiosa. Por isso, é ponerologia, um tratado que prescinde do fato de ser crente ou ateu.

Antes dizíamos que o mundo era finito.
E é finito (risos). Essa é a chave sobre a qual eu me apoio. Seu eu pergunto por que há mal no mundo, por que existe, a resposta é que o mundo produz mal. Se eu tenho uma dor de estômago, logo penso que eu tenho uma úlcera. Há dor no mundo. Há mal.

Por que o mundo está mal feito?
Vamos por partes, porque com os problemas se deve ir devagar. A primeira coisa é que o mundo produz mal. A segunda, que todo mal parece ter uma causa no próprio mundo... Atualmente, depois do tsunami no Japão, é algo evidente: vimos na televisão e nos perguntamos por que se produz o tsunami. Porque há um terremoto, porque há falhas tectônicas... Ou seja, que nós, automaticamente, diante de um mal horrível, pensamos que foi produzido pelo mundo. E isto é algo que mudou. Porque, com o terremoto de Lisboa, o que se pensou foi por que Deus permitiu uma coisa dessas. É uma mudança radical de cultura: tudo o que se produz ao nível empírico no mundo, tem uma causa dentro dele. Por isso, o século XIV, com a peste negra, se encheu de procissões; o século XX e XXI, com a Aids, se encheu de laboratórios, porque sabemos que o vírus não vem de Deus nem do demônio, mas que tem uma causa dentro do mundo. E para a ciência isso basta. Para um médico, como médico, o problema do mal fica nisso: há doenças, descubro sua causa, encontro o remédio se consigo, e acabou, como médico, meu problema do mal. Mas o mesmo médico, enquanto pessoa – como filósofo – se pergunta se não poderia existir um mundo sem mal. Que o mundo produz mal é evidente. Mas se fosse possível um mundo em que não se conhecesse mal algum, todos estaríamos livres de padecê-lo.

E ao mundo que produz mal, a ciência o está delimitando pouco a pouco...
Sim, mas não inteiramente. Sempre haverá mal. Às vezes os mais jovens se aborrecem quando disso isso, mas sempre foi assim: existe e sempre existirá.

E por quê? Por que não pode haver um mundo sem mal? Por que é impossível pensar um mundo assim?
Desde pequenos nos meteram mitos na cabeça. Falaram-nos do Paraíso, e então o mundo parecia poder ser perfeito. Mas isso é uma contradição: se foi tão perfeito, por que caíram tão de repente? Se buscarmos a raiz última do mal, eu creio que a encontramos na finitude: o finito, como tal, não pode ser onicompreensivo, nem ter todas as perfeições, mas tem carências e vai ter choques com outras realidades finitas. Quando nós examinamos a realidade, qualquer mal que vemos foi um choque de realidades finitas, ou simplesmente uma carência: se tenho fome, é porque me falta algo que, se fosse infinito, teria. Isto, levado ao senso comum, é o que dizem as pessoas, quando asseguram que não se pode fazer uma omeleta sem quebrar os ovos.

Nunca chove ao gosto de todos.
Mas a vida é boa.

Inclusive o mal inocente?
Inclusive esse mal inocente. A criança que fica doente, fica doente porque se contagiou com um vírus, ou o que for. Também a causa do mal do inocente é produzida pelo mundo. Os animais também sofrem...

Logo, o mundo é finito e sempre produzirá o mal.
Claro. E isto sempre intuímos: não se pode estar na procissão e tocar o sino. Ou, como disse um professor meu, não se pode chupar e soprar ao mesmo tempo. Em nível filosófico, disse muito bem Spinoza: toda determinação é uma negação. Se você é um homem, o que é fantástico, não pode ser mulher, que também é fantástico. Não pode ser as duas coisas ao mesmo tempo; por isso, um círculo não pode ser um quadrado. É uma impossibilidade metafísica: o próprio fato de ser circular impede a possibilidade de ser quadrado. É incompatível.

E o salto para a teologia?
Um momento (risos), porque vou por passos. E onde quero chegar é poder pensar, não imaginar. A imaginação produz infinitos: a criança acredita que tudo é possível mas, quando se pensa e, de fato, se olha a evolução do mundo... ou o crescimento de uma pessoa, há algo mais maravilhoso do que as mãos? Luta com um leão. E diga ao leão que pegue uma caneta e escreva... Ao determinar, você nega outras possibilidades. E por isso os grandes donos das utopias, ou acabam em catástrofes, como as modernas, ou reconhecem que são imaginações. O próprio Marx, em seu entusiasmo humanista de buscar a sociedade perfeita, onde pela manhã se caçaria e à tarde descansaria, compreendeu que não, que o mundo nunca vai ser tão perfeito.

Mas pode-se tentar melhorá-lo.
Claro, o que podemos fazer é melhorá-lo. E é aqui que entra a religião, o salto para a teologia que você dizia. Como muitos outros, toda pessoa vai enfrentar em sua vida o problema do mal. E toda pessoa tem uma resposta para este problema. Inclusive se inventou outra palavra: pisteodiceia (“Písteos” é “fé”, exposição da fé). No sentido filosófico e relacionado com o mal, está Sartre, que diz que há mal no mundo, logo, o mundo produz náuseas, é um asco. Camus pensa que o mundo é absurdo e Sísifo vai estar sempre carregando a pedra até o topo da montanha, que sempre volta a rolar morro abaixo... Temos que imaginar que sua resposta é que, em um mundo contraditório, ele salva sua dignidade enfrentando-o, mesmo que saiba que sua luta é absurda. Ou Schopenhauer: se o mundo é absurdo, o melhor seria parar. E o mal também tem uma resposta religiosa. Há diferentes pisteodiceias. Como crente, como teólogo cristão, eu tenho uma resposta apoiada em Deus, razão pela qual falamos de teodiceia: justificação de Deus. Mas ele não necessita de justificações: o que justificamos é a nossa ideia de Deus. Eu tenho que responder a quem me pergunta como posso crer nesse famoso Deus bom e onipotente... O dilema de Epicuro no século IV a.C.: Ou Deus quer e não pode eliminar o mal do mundo, e então não é onipotente, ou pode e não quer, e então não é bom. Ou não pode nem quer? Este dilema, em nível lógico, é horrível. Na “via curta” é rompido pela confiança: sabe-se que não sabe responder, mas que Deus terá que ter alguma razão, porque ele é bom, porque é Deus. É curioso que Lactâncio, que reproduz o dilema de Epicuro, toma-o tão superficialmente que acaba dizendo que, se não houvesse mal, não distinguiríamos o bom do mal, e por isso vale a pena que haja mal no mundo... Uma resposta que hoje não satisfaz nem a uma criança. Mas eles viviam na “via curta”, viviam essa fé. Nós, agora, a partir da crítica, temos que responder. Da minha parte, da única coisa que estou certo é que Deus é amor, é infinitamente bom.

E qual é a tua resposta?
Aqui entra a consequência da ponerologia. Dissemos que não existe a possibilidade de um mundo sem mal, que seja perfeito. Então, não faz sentido nos perguntar por que Deus não fez um mundo perfeito. Será como nos perguntar por que não faz um círculo quadrado. O dilema de Epicuro esconde uma armadilha, mesmo que ele não se tenha dado conta: é uma pergunta sem sentido porque está dando como evidente, como o faz ainda hoje muita gente, que é possível um mundo perfeito. Nas aulas e no meu livro dou este exemplo: como o problema é muito difícil, vamos dividir a aula em três metades, para discuti-lo. Então, sempre se produz certo movimento, as pessoas começam a se levantar... E alguém diz que é preciso ter um pouco de cuidado: cai na conta de que disse uma besteira, porque dividir uma aula em três metades é impossível. Estou falando sem dizer nada. E se me dizem “Certo, mas Deus poderia”, digo que não se trata de se pode ou não, quando o que está dizendo já carece, por si, de sentido. Portanto, não estou dizendo que existe algo que Deus não pode fazer: simplesmente nego uma contradição. Se o mundo não é perfeito, não posso esperar que Deus o faça, não posso pretender que divida a aula em três metades.

De acordo.
Mas com isto não eliminamos totalmente o problema, porque resta uma pergunta. Deus sabia que ao criar o mundo não criava um Deus, porque o mundo era finito. E se era finito, no mundo haveria mal... E à medida que vamos avançando na vida, nos damos conta de que esta tem muitas alegrias – eu não sou pessimista –, mas também muitas durezas e tragédias. Resta uma pergunta: Por que Deus, sabendo disto, criou o mundo? Eu me apoio em exemplos. Vamos perguntar a alguns pais... Hoje é um problema real para muitos pais a certeza de que trazer filhos ao mundo representa fazê-los passar por doenças, crises, morte... Trazem-nos a este mundo. Por que fazem isto? Se o pai e a mãe forem autênticos, estão certos de que valerá a pena, caso se dedicarem a eles com todo o seu amor.

Ainda que haja quem diga o contrário: não temos filhos porque não vale a pena. Vão padecer mais o sofrimento e o mal do que as coisas boas...
Por isso digo que não posso responder ao ateu que diz que o mundo é absurdo, que não vale a pena. Eu não sou pessimista: eu creio que vale a pena e que há um referendo na Humanidade. Que todos, no fundo, sabemos que vale a pena. Por isso continuamos a ter filhos.

Não influi também o instinto?
Também. Mas o instinto já não está sozinho: agora temos cultura, e estas coisas se pensam e se falam. Se Deus lhe diz que vale a pena, que ele vai cuidar da tua vida para lhe apoiar na luta contra o mal, tem que confiar nele. Isto permite uma leitura da Bíblia que vai ao núcleo mesmo da Bíblia: qual é o fio condutor da Bíblia? Eu diria que a preocupação de Deus pelo mal. Veja: o que é conhecer a Javé? Fazer justiça ao órfão e à viúva, preocupar-se com o estrangeiro e o escravo... Que mandamento deixa Jesus de Nazaré? Que nos amemos. Seu amor não era uma coisa romântica: era dar de comer a que tem fome, lutar contra o mal. Creio que Deus não teria criado o mundo se ele não vivesse debruçado sobre o mundo, se de algum modo não fosse possível nos livrar do mal. Um pai e uma não podem garantir ao seu filho que vai ser feliz, que sua vida vai ser uma vida perfeita, mas vão tentar.

Logo, não podemos pedir contas a Deus pelo mal. E, como diz no seu livro, Deus é “anti-mal”.
Claro, é a definição final: Porque Deus nos criou por amor – todas as religiões veem a Deus como quem nos aproxima da perfeição –, pode nos livrar do mal, pode nos salvar. É o último passo da teodiceia cristã, o mais difícil. E pode haver objeção a esta teoria, porque se eu digo que a finitude faz o mal, ou torna impossível um mundo sem mal, nós que esperamos a salvação, ao nos salvar seguiremos sendo nós. Portanto, seguiremos sendo finitos? Então seria impossível a salvação escatológica.

Mas, uma vez salvos, já não seremos finitos. Ou dizíamos isso...
Um momento (risos). Um autor do qual eu aprendi muito, faz uma colocação parecida com a minha, que é por onde você está apontando. Não usa as minhas palavras porque não o detalhou tanto, mas quando chega a esta objeção, dá marcha à ré. Não sabe respondê-la. Não sabe que pode buscar na finitude. Temos que nos dar conta de que, buscando, entramos em uma lógica muito peculiar, na qual confiamos em Deus e falamos da salvação das pessoas. Aqui não há clareza: você acaba de aludir ao fato de que a própria escolástica, quando falava da salvação, se encontrava com um problema e dizia que não podemos mostrar a coerência interna de maneira positiva; que só podemos mostrar que não é contraditória. Podemos mostrar racionalmente que não é impossível que Deus nos salve plenamente... Como podemos responder, então, a isto, à maior objeção? Com experiências que nos ajudem. E a primeira é que nem sempre o que não é possível em um dado momento deixa de sê-lo mais tarde. Santo Irineu, que é um teólogo que admiro e quero muito, quando lhe perguntaram porque Jesus Cristo havia aparecido tão tarde se Deus nos queria tanto, disse que isso era uma insensatez: que uma mãe não pode alimentar com carne o seu filhinho de dois meses, mas depois, quando estiver maior, pode dá-la.

É uma boa saída.
Não resolve totalmente, mas abre a possibilidade de um futuro. Porque também é verdade que experimentamos o mal como inevitável no mundo, mas ao mesmo tempo podemos lutar contra ele e diminuí-lo. O mal é um desafio que podemos vencer.

Experimentamos isso inclusive como inevitável em nós mesmos...
Quando se está doente, se quer ficar curado. Percebe que o mal é aquilo que não deveria ser. A pessoa é um ser finito, mas com uma abertura infinita. É o mistério do ser humano. Nunca estamos acabados... A frase de Pascal, de que não há nada finito que possa encher a nossa capacidade de conhecer ou superar a nossa capacidade de amar. Não há nada. Nossa segunda experiência controlável, portanto, é que temos uma abertura infinita. A terceira é a experiência do amor, o que fascinou o jovem Hegel. Ele começou fazendo sua filosofia sobre o amor, e depois – uma pena – entrou no espírito, a razão... e praticamente o abandonou. Mas quando ele fala do amor, e o faz com paixão, diz que é uma relação muito curiosa, porque nós recebemos a essência da pessoa amada, que por sua vez a recebe de nós... E quanto mais se dá, mais se tem. O próprio senso comum o compreende: tudo o que é meu é seu e tudo o que é seu é meu. Você pode estar às vezes mais feliz com a alegria de seus filhos do que com suas próprias alegrais.

Isso os pais vivem diariamente.
Eu sempre cito uma parte de Tristão e Isolda de que gosto muito: chega o momento da experiência amorosa e Tristão diz: “tu és Tristão e eu sou Isolda”. E Isolda lhe responde: “tu és Isolda e eu sou Tristão”. Esta reciprocidade no amor, que não anula a pessoa, porque quanto mais se ama, mais se é (quanto mais você ama os seus filhos, mais José Manuel você é, mais pai), nunca diminui e cria uma relação muito especial.

Além disso, você não vive isso como diminuição, mas como crescimento.
Claro, pelo contrário. Quanto mais se dá, mais se tem. Esta é a possibilidade que nos é aberta a partir da fé, que está apoiada em razões. Deus é capaz de se entregar nesta abertura infinita, de tal maneira que nós podemos dizer, como Tristão e Isolda, que somos Deus, que está em nós. Podemos negar a distinção. No livro cito um parágrafo de São João da Cruz, onde diz que já nesta vida, na experiência de Deus, na comunhão, Deus se entrega de tal maneira à alma que a alma é tão dona de Deus quanto Deus é dono da alma. A alma pode dar a Deus a quem quiser, o mesmo que Deus pode dar a alma a quem quiser... Nesta reciprocidade a nossa finitude não desaparece. Mas a comunhão com Deus é uma infinitude, algo plenificado, livre do mal. Então tudo tem coerência: Deus cria o mundo sabendo que vai existir o mal, nos apóia com todo o seu amor e nos demonstra que é sua grande preocupação ao longo de toda a revelação, e ao final nos assegura que já agora podemos viver esta alegria na esperança de que estamos habitados por Deus, por uma Vida Eterna, que é a categoria teológica que me encanta, que salta e nunca se apaga. Uma vida que, mesmo que possa ser ferida, tem Deus tão enraizado nela que fica libertada do mal, como dizia São Paulo, que é a morte, e nos plenifica na eternidade.

E o que eu lhe pergunto agora, depois desta aula magistral...? (Risos).
Pergunte-me pelo último capítulo, que é onde trato de repensar certas verdades de nossa fé levando a sério que Deus é realmente o “anti-mal”.

Por exemplo, uma das coisas que me chamaram muito a atenção, e isso que já há poucas coisas que me surpreendem teologicamente falando, é a sua descrição e suas afirmações sobre o inferno.
Claro. E sobre o diabo. É que é uma consequência imediata. Sem dúvida, enquanto o inferno nos diz algo que penso que é preciso recuperar. Porque a nossa vida é uma vida humana e livre que temos que construir. E você, como pai, sabe que uma vida que começa pode fazê-lo entrando no caminho do bem ou do mal; pode realizar-se ou destruir-se... No Deuteronômio está posto preciosamente: Diante de ti estão a água e o fogo, a vida e a morte... tens que escolher. Portanto, o inferno, o transfundo do inferno, nos fala de que a vida humana pode se arruinar. Não porque Deus a castigue, mas porque nós, usando mal a nossa liberdade, não acolhendo o amor salvador de Deus, podemos estragar a nossa vida.

Deus não condena a ninguém?
A ninguém!

Nem a Hitler? Antes se dizia que pelo menos a Hitler...
Não. Há uma frase que digo que tem copyright: Deus, como consiste em amor, consiste em estar amando. Logo, Deus não sabe, nem pode, nem quer fazer outra coisa que não seja amar. Nele não há mais que amor e salvação. Por isso, o livro no qual comecei a desenvolver este pensamento o intitulei Recuperar a salvação. De Deus só nos chega salvação: Deus não castiga. Nós podemos nos negar a acolher seu amor, mas pensar que Deus nos castiga, apesar das frases da Bíblia, que devem ser entendidas como formas de se expressar, é um erro.

Por que, eclesialmente, fomos ameaçados durante tantos anos com a teologia do medo?
Porque a cultura é assim: enquanto não repensamos as coisas, não nos damos conta do fundo, do autêntico. Vamos seguir pensando: Até que ponto nós podemos arruinar a nossa vida, se morremos entregues ao mal, como seria o caso de sua alusão a Hitler? Eu me preocupava com o inferno em Recuperar a salvação. E você me fez esse raciocínio: se nós somos mortais – como filósofo não posso dizer mais que nascemos e somos mortais –, Deus poderá tornar-nos imortais; assim como nos tirou do nada, pode dar-nos a Vida Eterna. É o pensamento da Bíblia: a imortalidade como um dom de Deus. E se a imortalidade é um dom que Deus nos dá, se a acolhemos, entramos nela; caso contrário, acabamos ao morrer. Esta foi a primeira solução, minha hipótese teológica, que nunca obriguei a compartilhar. O inferno é um castigo de Deus? Minha maneira teológica de interpretar isto é uma teoria que, me dei conta, tem muita presença na tradição. Ainda hoje muitos teólogos defendem que o inferno seria a Morte Eterna... Eu já não penso assim. Tenho outra hipótese que me parece mais coerente.

A das duas partes da mesma pessoa de Anthony de Mello...?
Exatamente. Ele não tinha esta teoria, mas me fez ver que, na parábola do Juízo Final, que é preciso dizer que é uma parábola que fala do amor, as ovelhas e os cabritos não são duas classes de pessoas: são dois aspectos de uma mesma pessoa. Todos somos um pouco ovelha e um pouco cabrito.

Alguns mais que outros... (risos).
Bom, mas creio que não é preciso explicá-lo: certamente, não há ninguém absolutamente bom nem ninguém absolutamente mau. Então, se levamos isto a sério, dado que Deus só sabe amar e não tem outro interesse senão nos salvar, estou convencido de que não há ninguém absolutamente mau. Nem sequer Hitler. Se pudéssemos penetrar no fundo do seu coração, apesar de todo o mal que fez – muito mais que bem –, encontraríamos mais bondade que maldade. Porque toda pessoa, no fundo, busca o bem.

Não existe o inferno nem há ninguém condenado...
Um momento (risos). Pensemos em uma pessoa que morre. Em um Hitler, mesmo que não goste de falar em nomes próprios porque não temos o direito de julgar... Se não é totalmente mau, está claro que tem toda uma parte, alguns aspectos, algumas capacidades em seu ser que o fecharam para Deus, por egoísmo, por agarrar-se ao mal. Nessa medida, Deus não pode salvá-lo. Mas, na medida em que esta pessoa mantém bondade, desejo de felicidade, luz... nessa medida, como Deus não quer outra coisa, o salvará. Então, para mim o inferno é a perda eterna de possibilidades, plenitude e felicidade. Isto é muito sério... Recordo que na primeira vez que expus isso a um grupo de teologia que temos desde 1970, uma pessoa a quem quero muito, que é profundamente mística, se horrorizou: “podemos perder eternamente!”. Diminuir algumas possibilidades...

... Claro, porque depois há uma parte que sempre é boa, para nos entender...
Sim. Estaremos falando de uma pessoa que eternamente esteja menos realizada do que poderia, porque se castigou a si mesma, impedindo parte do bem de Deus.

A pessoa opta abertamente?
Claro: a pessoa diminuiu o seu ser, e não permitiu a Deus mais que algumas capacidades, em vez de todas as suas potencialidades. Recupero, como vê, o horror do inferno, mas evito o que me parece uma barbaridade, que é pensar que Deus mantém as pessoas sofrendo eternamente. Orígenes e Santo Agostinho, ou um dos dois, já não lembro, perguntaram: pode uma mãe ser feliz se sabe que seu filho está condenado eternamente?

O inferno é um dogma?
O dogma é a possibilidade de condenação. O que temos que repensar é o que significa isso. Falo disso em um livrinho que tem por título O que queremos dizer quando dizemos inferno. Eu creio que é uma chamada preocupadíssima de Deus para que não entremos pelo caminho da nossa destruição. Há uma frase que gosto muito de citar: “Quanto tempo a Teologia necessitará para compreender que as ameaças divinas que aparecem na Bíblia não são mais que a preocupação do amor de Deus”. Está se preocupando para que não arruinemos a nossa vida... Um exemplo que gosto de dar é a situação de estar caminhando pela rua e ver uma mãe que diz ao seu filho: “Se fizeres isso te mato!!”. Não tomemos a frase ao pé da letra, porque a preocupação da mãe não é matar o filho, mas evitar um dano. Daqui se deduzem outras coisas: o tema do milagre, a oração de petição... que me preocupam muito, ainda que para isso precisaria de mais tempo.

Claro. Além disso, quem ficou inquieto e quiser saber mais, que compre o livro.
Isso (risos).

Estamos há mais de 40 minutos conversando e eu não penso em lhe fazer outra pergunta teológica, porque me daria outra aula...
Eu gosto de falar de teologia...

E eu gosto de escutá-lo, porque você faz isso com paixão. Mas agora vamos fazer perguntas jornalísticas... (risos). Para não terminar a entrevista limitando-nos ao âmbito teológico pura e simplesmente, mas imiscuindo-nos um pouco em temas da atualidade... Com Rajoy a Igreja estará melhor que com Zapatero?
Não sou profeta nem filho de profeta. Não sei, mas creio que a Igreja nunca deveria estar cômoda com ninguém. Tem que pegar essa linha vermelha da Bíblia de que falava, e preocupar-se, sobretudo, com os que sofrem, com os que estão sofrendo a crise econômica; preocupar-se com a justiça, a liberdade e a igualdade. Como não temos uma política perfeita, a Igreja tem que manter sua independência e estar muito atenta, sobretudo, a quem sofre na Humanidade, e em que medida ela pode ajudar a política, ou criticá-la, se for preciso, para que haja menos sofrimento humano.

De cima, como autoridade moral?
Não, de baixo. Ao participar da sociedade só deve responder ao mandamento último e definitivo de Jesus de Nazaré: amar, isto é, preocupar-se com quem tem fome, com quem está na prisão... Sem nos alinharmos com ninguém, nem com Rajoy nem com Zapatero. A Igreja tem que se aliar com a fraternidade. Isto, caso o levar a sério, é muito exigente. Inclusive mudaria prioridades na pregação da Igreja... Ligo outra vez com o anterior: o pecado não é mau porque prejudica a Deus, mas porque prejudica a nós. Quem diz isso é Santo Tomás. Tudo o que a Igreja disser à sociedade tem que ser com a finalidade de que alguém passe menos mal, com o objetivo de ajudar para que tenha uma vida menos desumana.

A beatificação de João Paulo II aponta nessa direção ou não?
Eu creio que aponta para outra coisa. Não quero agora julgar João Paulo II, mas creio que é um procedimento que pode ser qualificado de arbitrário. Será feito sem consenso de toda a Igreja e queimando etapas. Creio que o fato de ser feito santo súbido não é certo, não devia ter sido assim, e que aponta para a pouca participação que há na Igreja. E me atrevo a dizer: a Igreja necessita democratizar-se. Eu não tenho medo de utilizar a palavra democracia, porque a Igreja tem que ser muito mais que isso. A base tem que estar mais presente, não pode haver um culto do líder, dos que governam...

Mas Andrés, por que essas coisas que dizemos há muito tempo (a corresponsabilidade, a Igreja Povo de Deus...) temos que repeti-las, continuar pedindo-as depois de 40 anos?
Depois de dois mil anos, e se a Humanidade durar outros dois mil, teremos que voltar a pedi-las. Porque a Igreja é feita de pessoas e continuamente estamos recaindo em lógicas muito humanas.

Lógica de poder?
Caímos continuamente nela. É a tentação.

O pêndulo foi demais para a direita?
Sim. Neste momento, muito.

E como pode voltar para o centro?
Eu creio que com a participação de todos. Com a fidelidade. Porque é muito cômodo sair da comunidade... Eu não sou santo e também você, José Manuel, não é santo, ainda que seja muito bom. E quando criticamos, temos que nos sentir implicados na crítica. E que o que estiver mal está mal, independente de quem o fizer; o papa ou o coroinha... Uma crítica construtiva é a que pensa no bem da Igreja, a que parte do Evangelho.

A crítica e o recentramento eclesiástico se exigem mutuamente? Como se pede de baixo para cima?
Eu penso que com a mobilização de todos. Eu, por exemplo, sei que há muitas pessoas que, com todo o direito, não estão muito de acordo com a minha teologia. Para mim, na medida em que me parece que defendo a ideia de um Deus puro amor e puro perdão que nos torna mais humanos, me faz bem. Estarei sempre disposto ao diálogo e à crítica, até a mudar alguma teoria se me demonstrarem que está incorreta, mas creio que esta – que me produz tantos desconfortos – é a minha maneira de contribuir para que a nossa comunidade esteja mais viva, em defesa da minha participação democrática na Igreja. Eu nunca fui um grande eclesiólogo, mas vejo que na Igreja há um problema prático, o mais sério, que é que não está democratizada a fundo. O Concílio fala da Igreja como Povo de Deus, e dentro do povo há serviços. Foi isso que disse Jesus de Nazaré: que na Igreja, quem manda tem que estar abaixo. Hoje uma sociedade política é mais democrática que a eclesiástica, quando Jesus nos disse que tínhamos que ser imensamente democráticos.

E isso nos está passando a fatura em nível de credibilidade, de confiança social e autenticidade...
E a nível de um certo ressentimento social. Por exemplo, com a questão dos abusos a menores na Igreja: representam apenas 1% de todos os abusos da sociedade, e muitos acreditam que seja o único coletivo abusador. Me dá muita pena que se esteja utilizando isso como escudo para tapar os 99% dos abusos restantes. Nós temos que criticar muitíssimo todo este escândalo na Igreja, que contradiz diretamente o Evangelho, mas também temos que pedir que a sociedade reconheça que o problema também tem que ser enfrentado fora da Igreja. E não utilizar as acusações à Igreja para tapar um problema que é, acima de tudo, social.

Mas também não podemos pedir à sociedade o que nós não fazemos. A Igreja tapou esses escândalos durante tanto tempo...
Mas hoje está fazendo a sua confissão e enfrentando o problema. Mas eu não queria defendê-la, mas dizer que, se há este ressentimento com a Igreja, é porque passamos a vida criticando e acusando os outros, em vez de a nós mesmos. E a Igreja recebeu o pagamento por estar sempre acusando.

Nisso Bento XVI está sendo corajoso?
Claro. Se está reconhecendo, se estão dando passos. Há dioceses, nos Estados Unidos, que inclusive entraram em bancarrota, e quem paga a conta são os pobres: há muitos serviços que foram desmantelados. É um pecado da Igreja acusar sempre em vez de se autocriticar. A nossa pregação só tem sentido se demonstrarmos que tudo aquilo que dissemos é porque realmente estamos preocupados com a felicidade das pessoas, o bem da humanidade, a justiça, a liberdade e a fraternidade na sociedade...

Você vem para participar da Jornada Mundial da Juventude?
Não.

Como está a nossa terra [Espanha]?
A nossa terra está um pouco como está toda a Igreja em geral: a Igreja na Galícia, suponho que como reflexo da Igreja universal, está um pouco paralisada.

Há desilusão e desencanto?
Eu creio que sim. E me preocupa muito. Possivelmente, isto nos leva a esbarrar com o muro da frustração, e nos faça viver mais corretamente.

Mas há a possibilidade de que ressurja uma primavera, como a do Concílio?
Pior que estávamos antes dele, não estamos agora, é o que digo. E creio que na cultura, na sociedade em geral, há ânsia de transcendência. Ou seja, uma sociedade puramente pragmática, frívola e televisiva, não satisfaz as fomes profundas que estão em toda pessoa, quer seja religiosa ou ateia. Há fome de algo mais profundo. Eu sou admirador de um grande teólogo protestante que, alguns anos antes dos anos 60 em Nova York, dizia que a juventude estava morta, que não havia nada a fazer. Um grande diagnosticador da cultura como ele era, não se deu conta do que estava em gestação, de que amanhecia a revolução de 68.

Ou seja, que há esperança?
Sem dúvida.

Muitíssimo obrigado, Andrés. Temos que terminar. Como veem, é um prazer. E alguns o acusam de herege...! É uma heresia acusar a um pensador de herege!
Eu quero ser um bom teólogo.

Obrigado, Andrés.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Contra o ódio


A empresa italiana Benetton lançou nesta quarta-feira uma campanha contra o ódio e o preconceito com cartazes espalhados pelas cidades de Roma e Milão que trazem fotomontagens de líderes mundiais se beijando. O objetivo da campanha, que faz parte das ações da fundação Unhate ("Deixe de odiar"), criada e patrocinada pela Benetton, é protestar contra a "cultura do ódio" (conheça o site da Unhate Foundation aqui).

Entre os líderes retratados estão o presidente americano, Barack Obama, que aparece numa das fotomontagens beijando o líder chinês, Hu Jintao e, em outra, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez; o presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina) aparece beijando o premiê israelense, Binyamin Netanyahu; e a chanceler alemã, Angela Merkel, é retratada beijando o presidente francês, Nicolas Sarkozy (veja algumas das imagens aqui).

Já o papa Bento 16 dá um beijo no Imã do Cairo, Safwad Hagazi (a autoridade muçulmana do Egito). Uma faixa com essa montagem foi estendida na Ponte dell'Angelo, em Roma, localizada nas proximidades do Vaticano. O site oficial da fundação Unhate divulgou as montagens na manhã da última quarta-feira, mas antes do lançamento oficial pedestres curiosos já haviam fotografado as faixas espalhadas por Roma e Milão e as imagens foram divulgadas pela mídia italiana.

A repercussão foi tamanha que, no mesmo dia, a Benetton anunciou a decisão de retirar de circulação a fotomontagem com o papa e o imã sunita, dizendo-se "desolada com o fato de a utilização da imagem ter chocado tanto a sensibilidade dos fiéis". "Lembramos que o sentido desta campanha era exclusivamente combater a cultura do ódio sob todas as formas", comentou, em um comunicado, o porta-voz do grupo.

Minha opinião pessoal: é uma pena que a gente ainda viva em um mundo em que a imagem de duas pessoas se beijando, seja quem for, choque mais que tantas outras, de violência brutal, com que somos bombardeados diariamente - tanto na mídia quanto nas ruas. Mas, enfim... Achei a campanha, e o filme, lindos.

Um fim de semana de muitos beijos e muito amor para todos. :-)


Com informações da Folha de S. Paulo (aqui e aqui) e do Terra (aqui).

Ousar arriscar a fé

Foto: Ben Herndon

“A fé não nos é confiada como uma barra de ouro que se trata de manter em um cofre, mas como um dom a ser valorizado e a fazer frutificar. A fé deve ser imaginativa e criativa. O oposto da preguiça e do conservadorismo.”

A reflexão é de Raymond Gravel, sacerdote do Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi - nosso último comentário desta semana sobre as ricas leituras do domingo, 33º Domingo do Tempo Comum (13 de novembro). A tradução é do Cepat, aqui reproduzida via IHU.

Eis o texto.


Referência bíblica: Mt 25, 14-30.

Estamos quase no fim do ano litúrgico de Mateus. O Evangelho do último domingo nos convida à espera: não uma espera passiva, mas uma espera ativa para a vinda do Senhor, ou melhor, para o nosso último encontro com ele no fim da nossa vida na terra. A parábola dos talentos do Evangelho de Mateus nos diz como deve ser a nossa espera: deve ser feita de risco, ousadia, coragem, desafio, criatividade e responsabilidade. A fé não nos é confiada como uma barra de ouro que se trata de manter em um cofre, mas como um dom a ser valorizado e a fazer frutificar. A fé deve ser imaginativa e criativa. O oposto da preguiça e do conservadorismo. Mas, como entender, interpretar e atualizar a parábola dos talentos do Evangelho de hoje?

1. Situação contextual. Cuidado para não confundir os talentos do evangelho com as qualidades ou talentos que possuímos. Estamos no final do Evangelho de Mateus, um pouco antes da parábola do Juízo Final, que teremos na próxima semana, na festa de Cristo Rei do Universo. O homem que faz uma viagem é o Cristo ressuscitado. Então ele confia aos seus servos, aos seus discípulos, todos os seus bens, seus talentos. Um talento equivale aproximadamente a 34 kg de ouro, ou seja, cerca de 15 a 20 anos de salário de um operário. É uma quantidade enorme que é confiada aos servos, de acordo com sua capacidade de fazê-los frutificar. Portanto, cada um recebe uma quantia diferente dos outros: "A um deu cinco talentos, a outro dois, e um ao terceiro" (Mt 25, 15a). No entanto, não há discriminação, como Mateus diz: "a cada qual de acordo com a própria capacidade" (Mt 25, 15b). Isto quer dizer a capacidade de fazê-los render, de investi-los, de multiplicá-los. Portanto, há um risco de perder o que é confiado aos servos. Mas qual é a relação entre o talento e a fé?

2. Talento = fé. No contexto da Igreja primitiva, o talento é a fé pascal confiada aos discípulos do Ressuscitado. Antes de sair, o patrão não pediu aos servos nada em troca dos talentos que lhes confiou. Então, por que, no seu retorno, ele elogiou os dois primeiros servos que fizeram frutificar os seus talentos? E por que ele culpa o terceiro por tê-lo enterrado? Especialmente porque, na lei rabínica da época, enterrar era considerado a proteção mais segura contra os ladrões; aquele que enterrava, ao recebê-lo, uma garantia, um depósito, estava dispensado de qualquer responsabilidade. Por isso, na parábola de Mateus, o talento não é mais o dinheiro, mas a fé dos servos, dos discípulos de Cristo.

O exegeta francês Jean Debruynne escreve: “Esses talentos são como a fé. A fé não desgasta quando é usada. A fé morre quando é enterrada, quando é escondida na terra, se a quisermos guardá-la para nós mesmos. Não se pode ter fé como se tem dinheiro. Pois a fé não é ‘ter’, é ‘ser’. A fé é viver. Esta não é uma segurança, é um ‘risco’ que Pascal chamava de ‘aposta’. A fé é um ‘investimento’ de alto risco...”.

3. A confiança e a generosidade do senhor. A soma confiada aos servos é inverossímil, de onde a confiança absoluta do senhor em seus servos. Cada talento vale entre 15 a 20 anos de salário. Imaginem cinco talentos, ou dois e até mesmo um só. Esta é uma confiança incondicional. Além disso, quando o senhor volta, muito tempo depois, e ele pede contas (Mt 25, 19), não é para retomar o que ele tinha confiado antes, pois deixa isso aos seus servos, não somente os juros, mas também o capital de bens confiados. Ele deixa isso com eles e lhes promete mais: “Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu lhe confiarei muito mais. Venha participar da minha alegria” (Mt 25, 21.23). A mesma sentença é aplicada aos dois primeiros servos, mesmo que não tenham recebido a mesma quantidade de bens. Este não é, portanto, um empréstimo do senhor; é um dom, de onde a sua grande generosidade e sua liberdade.

Mas o que significa a dureza da sentença do terceiro servo? Basicamente, o senhor não é severo com o seu servo; simplesmente é impotente diante dele e não pode agir de outra forma. O senhor quis confiar-lhe um talento, e o outro o recusou, foi enterrá-lo por medo de perdê-lo: “Fiquei com medo, e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence” (Mt 25, 25). Para o servo, o talento pertence ao senhor; ele não o recebeu como um dom, como um bem a ser investido... e é por isso que este terceiro servo se condena a si mesmo; ele devolve o talento ao senhor, porque nunca o aceitou. Então, o senhor tira tudo dele, tudo o que o servo nunca teve, nunca recebeu e aceitou. E para mostrar que o terceiro servo se condena a si mesmo, Mateus o faz exclamar: "Senhor, eu sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste, e recolhes onde não semeaste" (Mt 25, 24). É com base nas suas palavras que o senhor vai acolhê-lo... Tu sabias tudo isso e não investiste... "Tirem dele o talento e o deem ao que tem dez" (Mt 25, 28).

Novamente, vemos muito bem que o dinheiro do senhor também pertence aos servos que sabem fazê-lo frutificar. Em outras palavras, a fé que investimos se multiplica; ser crente é testemunhar, e pelo testemunho, dar um gostinho para os outros crerem. É assim que nós fazemos os bens do Reino frutificar. O teólogo francês Patrick Jacquemont escreveu: "Diga-me que rosto você dá a Deus e lhe digo o que você é capaz de receber dele. A crença generosa, confiando no homem e na mulher para cultivar a terra e fazê-la dar frutos? Aqui está uma grande soma, você saberá fazer crescer. Mas se Deus é para você um homem severo, ambicioso, que mete medo, então você não tomará nenhuma iniciativa, e o que lhe será dado permanecerá improdutivo e ainda lhe será tirado. Nesta parábola dos talentos não é o senhor que é cruel, mas essa é a imagem que dele faz quem receber apenas um talento. Isso se estabelece como uma reciprocidade. Quanto maior a minha fé em um Deus magnânimo, mais rica é a minha capacidade de criar e produzir. Se eu duvido do amor de Deus eu me torno incapaz de amar a mim mesmo. Deus dá muito a todos. Se não tivermos nada, será que não foi por que o presente retornou a Deus pelo fato não ter sido acolhido como um dom para fazer frutificar?"

4. Atualização. Caso eu atualize a parábola de hoje, devo necessariamente aplicá-la à Igreja que somos nós. Como discípulos de Cristo, somos responsáveis pela fé e pela esperança que nos são confiados. Isto significa que devemos investir para construir sobre a fé e a esperança... o que significa assumir riscos e enfrentar novos desafios. Se nós nos fecharmos em doutrinas, leis, regras, escritas em outra época e sobre as quais nos apoiamos sem querer alterá-las ou adaptá-las por medo de cometer um erro... é uma falta de confiança no Senhor e uma recusa em acolher os talentos que ele gentilmente nos quis confiar. Se a nossa reação é de medo e de negação de ousar novas aventuras, novos caminhos ainda inexplorados, podemos ser tratados como o terceiro servo da parábola: "Quanto a este servo inútil, joguem-no lá fora, na escuridão. Aí haverá choro e ranger de dentes" (Mt 25, 30).

Podemos pensar que o senhor é muito severo: por que não dar uma chance a esse terceiro servo? Por que tomar o seu talento e jogá-lo fora? Na verdade, o talento não é tomado, é o próprio servo que o devolve porque nunca o recebeu. Sobre a possibilidade de jogá-lo fora, talvez seja a única maneira de dar uma chance para o servo, a de mostrar, sem disfarce, as consequências da sua opção e de seu saber. Não se trata de sair da luz, uma vez que não nunca esteve na luz. A palavra do senhor revela apenas sua situação. Esta pode ser para ele uma oportunidade de sair do enclausuramento em que seu saber o acorrentou. Uma vez que formos ao limite do impasse, podemos descobrir que não há nenhuma saída e então podemos procurar um outro caminho.

O francês Éric Julien escreveu: "O senhor na parábola, Deus, não condena quem está errado... porque o seu Amor é mais forte que os nossos erros. No entanto, o seu Amor é impotente diante daqueles que têm medo, que fogem e que enterram seus talentos na terra. Ter medo de Deus é lhe fechar a porta e se desesperar. Ter medo de Deus é morrer aos poucos". Você não acha que isso se parece muito com a nossa Igreja hoje?

Para terminar, gostaria apenas de citar novamente Jean Debruynne, que disse: "O que Cristo nos quer fazer entender é que nós não devemos ter medo da nossa fé. A fé ousa o que nunca acreditamos ser possível... Acreditar é ousar". E André Rebré acrescenta: "O medo vem da ideia que temos de Deus... Se Deus é para nós um Senhor severo e implacável, um Juiz exigente, só podemos viver com medo. Mas se ele é o Deus de Jesus Cristo, o Pai amado, que provoca uma confiança ilimitada, ele não nos reprovará por ter perdido o nosso talento desde que nos tenhamos arriscado!"

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

“A natureza é perfeita graças à nossa imperfeição”


Percebemos que a ideia de conciliar nossas identidades de gays e católicos muitas vezes causa um certo estranhamento ou mesmo desconforto em algumas pessoas - e, nesse caso, não só os "fundamentalistas", mas também em muitos gays não-religiosos. Em vista disso, iniciamos há algumas semanas uma série de depoimentos aqui no blog, que serão publicados sempre às quintas-feiras, às 15h, de algumas das pessoas que frequentam as reuniões e atividades do Diversidade Católica e que se dispuseram a compartilhar, com os leitores do blog, um pouco de suas histórias e suas vivências como gays e católicos que são.

A série pode ser acessada através da tag "gay e cristão".

A cada um deles, sempre, nosso muito obrigado. :-)


Aproveitando essa abertura que o Blog nos dá, vou abusar aqui desse contato e dar meu depoimento também... hehe! Sem pretensão e espero que possa ser útil a alguém!

Minha educação sempre teve como base os conceitos da religião católica, tanto na escola como em minha casa. Infelizmente era um conceito de um “Deus” formatado como severo e austero, eu cresci temendo ser castigado pelos meus atos anti-heterossexuais e como sofri e custei a me livrar desse “Deus”.

Foi então que na minha adolescência, entre a década de 1970 e 1980, que descobri o mundo através dos grandes jornais. Eu comprava aos domingos e devorava as reportagens sobre tudo que eu achava interessante, principalmente no que dizia respeito a comportamento humano (religião, psicologia e sociologia). Pois meu pai só comprava jornais populares, daqueles que se espremesse saía sangue.

A partir daí tive consciência que os meus problemas eram parecidos com os de todo mundo, tanto para homossexuais ou heterossexuais. Quando me dei conta, na adolescência, eu estava gostando de ficar juntinho de algum amigo que me dava mais atenção e carinho “inocentemente”. Acho que por sorte ou por simpatia, sei lá... só sei que eu sempre fui correspondido por algum colega ou amigo do meu circulo de amizade, pois na fase da minha adolescência atos de homossexualismo não eram muito explícitos e compreendidos.

Trocar carinho e ficar pertinho era normal entre a gente (eu e o amigo). Lembro-me muito bem dos gestos afetuosos de algum amigo que queria ficar perto mim tanto na amizade de colégio ou nas outras amizades. Hoje eles são chefes de família, me parece então que são heteros...! Talvez sim. Nunca tive amizade ou contato com um gay (assumido ou não) nessa fase da minha vida, meu círculo de amizade sempre foi com pessoas aparentemente heterossexuais até onde eu sabia. Percebi que eu era diferente deles apenas no interesse afetivo e erótico. Por quê?

Porque percebi que os outros hábitos que eu tinha eram parecidos com os de todos, éramos adolescentes alegres e saudáveis que gostávamos de esportes, festas... etc... por isso nunca me senti tão diferente assim, talvez por ter descoberto o mundo através da leitura e nem por isso me isolei de ninguém mesmo preferindo os meninos em vez das meninas pra trocar carícias... não sou assumido publicamente, não sei se por medo, covardia ou por achar que não tem necessidade, pois nunca vi héteros saindo por aí dizendo que são héteros, exceto quando são questionados.

Talvez não sentisse e ainda não sinto essa necessidade de ter que assumir a minha preferência sexual publicamente, acho que isso só diz respeito à pessoa que está envolvida comigo, procuro não fazer disso um drama e nem o fim do mundo, apesar do meu terapeuta achar que seria bom informar a minha preferência sexual aos mais chegados a mim (família, amigos).

Não é fácil crescer com dúvidas e crises existenciais do tipo “quem eu sou, porque Deus me fez assim?" etc. Sei que passei por todo esse processo e sobrevivi saudável e mais esclarecido graças a minha vontade de saber mais e ao meu terapeuta, principalmente em relação a ver qual é o Deus que convive comigo.

Hoje estou vivendo uma experiência inusitada aos olhos do mundo convencional. Pasmem, mas estou morando há seis meses com um rapaz hétero convicto... como assim?! Temos um conhecido em comum, e foi através dessa pessoa que eu o conheci e uma semana depois estava morando comigo. Sei que devem estar se perguntando porque um hetrero resolveu morar comigo (um gay)!

Doidera mesmo! Mas deu certo... Confesso que quando fomos apresentados fiquei impressionado com sua beleza, aliás normal para uma observação de um cara homossexual, certo? Mas tive o cuidado de transparecer que também curti a pessoa dele e por incrível que pareça essa impressão foi recíproca, pois o tal amigo em comum já tinha falado da minha pessoa pra ele e vice-versa. Daí surgiu a curiosidade de sermos apresentados.

Desde o primeiro dia dessa nova relação sempre houve uma convivência harmoniosa em casa. Ele me admira e me vê como um grande amigo que surgiu na sua vida num momento em que estava passando por graves problemas e eu também passava por problemas parecidos. Ele veio estudar aqui no Rio de Janeiro e procurava um lugar pra se hospedar durante os estudos.

A convivência está sendo tão prazerosa para ambos que agora não é mais hóspede e sim um amigo e companheiro. Às vezes ele fica surpreso por sermos tão diferentes um do outro e mesmo assim declara seu amor de amigo por mim e não faz a menor cerimônia de dizer que sente saudade de mim na minha ausência e que gosta da minha companhia. Acho isso muito bonito da parte dele sendo um hetero convicto. Apesar dessa admiração e carinho que sente por mim ele não se conforma de eu ser homossexual e diferente dele. E sempre digo a ele que foi graças a essa diferença que a vida nos uniu e ele sorri e acaba confessando que realmente é verdade. Estou lendo um livro que diz que a natureza é perfeita por causa da imperfeição e da diversidade, parece que isso se aplica a minha situação.

Claro que na maioria das vezes a “mulherada” rouba a atenção dele e o arrasta para as noitadas e eu tenho as vezes que ficar em casa sozinho, mas isso está tranqüilo de resolver, pois passei no teste do ciúme... hehehe! Descobri que esse ciúme era de atenção e não de paixão platônica (que, aliás, seria normal na minha situação, um gay, sendo ele um gatão sarado... hehe), mas não é o caso, pois também tenho meus fãs e fico feliz quando ele retorna contando suas aventuras com a “mulherada” e ficamos rindo e depois vamos comer pizza. Ele agora faz parte da minha vida e eu da dele. Ele confessa que tem sim preconceito com outros “gays” e superou as suas suspeitas a minha pessoa com a convivência. Acho que preconceito sempre vai existir tanto de heteros para gays e o contrario também por causa do julgamento sem convivência. Acho isso normal, não somos perfeitos.

A conclusão que tiro dessa experiência com meu novo amigo é que o Deus que descobri que existe dentro de mim é o mesmo do meu companheiro hetero. Jesus sempre mostrou que o respeito, a caridade e o amor ao próximo é que nos faz sentir em conexão com Deus. Devemos sempre conviver em harmonia, pois somos iguais acima de tudo como seres humanos e não deveria ser diferente por causa das preferências sexuais. Sendo assim eu e meu amigo e companheiro estamos vivendo segundo a vontade de Deus!

Chamo-me Roby, sou um ser humano católico praticante, com interesse em amar sempre outro ser humano.

A cada um o seu talento


Jesus contava aos seus discípulos histórias através das quais ia explicando os valores do Reino e mostrando o amor de Deus para com seus filhos. Esse recurso pedagógico que utilizava é bastante atual e nos ajuda na compreensão do mistério de Deus e no entendimento moral das atitudes próprias do cristão.

A Parábola dos Talentos (Lc 19, 11-27) nos ajuda a refletir sobre o que estamos fazendo com os dons que o Senhor nos dá. Como utilizamos cada dom pessoal para responder aos chamados que Deus nos faz? O que estamos fazendo com a nossa vocação, o nosso chamado a ser cristão?

Contou-nos Jesus: um homem nobre saiu para um país distante, onde seria coroado rei, para depois voltar ao seu país. Chamou, então, três servos. A um, deu dez talentos - ou dez moedas. Ao segundo, cinco; e, ao terceiro, um. Passou-se o tempo e, quando retornou, convocou os servos para saber o que haviam feito do dinheiro que havia lhes dado. Aquele que recebeu dez aplicou a quantia e a fez duplicar. O segundo, ainda que tivesse recebido uma quantia menor, também a fez render, embora ainda menos que o primeiro. O terceiro, que havia ganho pouco, com medo da severidade do patrão, enterrou a moeda e a devolveu quando esteve com o rei. Este, irado, entregou a moeda devolvida àquele que havia ganho mais e mandou matar o servo que não havia feito frutificar o pouco que lhe tinha sido dado.

O que o Mestre queria nos dizer com essa história?

Assim como o rei, Deus dá a cada um de nós talentos, aquelas capacidades individuais que nos distinguem e nos fazem únicos. A uns dá o dom da falar; a outros, o da escrita; a outros, ainda, o dom do canto, da arte, etc. O que fazemos com esses dons? Esta pergunta é pertinente aqui, apenas se tivermos em conta a perspectiva do Reino, através da qual o dom pessoal só frutifica se utilizado para servir ao outro.

É isso que estamos fazendo? Seremos capazes mostrar ao Senhor tudo o que fizemos frutificar com o que Ele nos deu, ou ficaremos paralisados achando que nos deu pouco e por isso nem o pouco há que ser colocado a serviço do outro?

Na parábola, Jesus utiliza a figura do dinheiro, mas sabemos que o talento a que se refere não é o material, mas sobretudo aquilo que não pode ser medido: tempo, palavras, compreensão, paciência, saúde, sorriso... O que fazemos com tudo isso?

Toda vocação é um chamado. Chamado a colocar a serviço aquilo que nos é dado: pouco ou muito, todos recebemos algo e é esse algo - especial, individual e único – que somos convidados a dar ao outro.


- Gilda Carvalho
Reproduzido via Amai-vos, com grifos nossos
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...