sábado, 21 de janeiro de 2012

Homossexualidade e Contra-hegemonia no Catolicismo

Foto: Eric Cahan

Neste artigo publicado no livro "Retratos do Brasil homossexual: fronteiras, subjetividades e desejos", de Horácio Costa et. al (São Paulo: Edusp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2010, p. 423-430), Luís Correa Lima, padre jesuíta e historiador, defende que as posições doutrinárias do papa e da Cúria Romana contrárias ao homoerotismo não esgotam esta questão na Igreja Católica. Deve-se examinar a atuação dos bispos e de suas conferências em diversos países, os teólogos e suas reflexões, as comunidades religiosas locais e suas iniciativas pastorais e, sobretudo, a consciência dos fiéis, à qual se atribui um papel fundamental e insubstituível nas decisões morais. Há um importante tecido eclesial heterogêneo, permeável à sociedade moderna, que não deve ser negligenciado, onde se operam adaptações e negociações. Neste processo, constrói-se no catolicismo um discurso e uma prática destoantes e contra-hegemônicos, em favor dos gays e de suas bandeiras.

No mundo católico, chama a atenção a presença de um discurso oficial e articulado, contrário às práticas homoeróticas, ao casamento gay e às principais bandeiras dos movimentos LGBT. Para o Catecismo da Igreja Católica, os "atos de homossexualidade‟ são contrários à lei natural, intrinsecamente desordenados, e em nenhum caso podem ser aprovados. Evoca-se as Sagradas Escrituras que os consideram graves depravações. As pessoas homossexuais devem ser acolhidas e nunca discriminadas, mas são chamadas a viver a continência sexual permanente (Catecismo, 1992, nº2357-2359).

Há poucos anos, a Cúria Romana emitiu um documento específico contrário à união civil de pessoas do mesmo sexo. Os termos são bem duros: tais uniões são "nocivas" a um reto progresso da sociedade humana; deve haver oposição clara e incisiva ao seu reconhecimento legal, sobretudo dos políticos católicos; não se deve colaborar para que este reconhecimento seja colocado em prática e, quando for possível, recorrer-se-á à objeção de consciência. Não se devem inserir crianças nas uniões homossexuais através da adoção, pois isto significa praticar a violência contra elas, aproveitando-se do seu estado de fraqueza para introduzi-las em ambientes que não favorecem o seu pleno desenvolvimento humano (Congregação, 2003).

Este discurso tem ampla repercussão, mas não diz tudo sobre a realidade da Igreja Católica e sua maneira de lidar com a homoafetividade. O mundo católico abrange multidões de fiéis espalhados pelo Planeta, uma considerável heterogeneidade cultural e ideológica, e uma ampla diversidade de níveis e de ambientes eclesiais. Além das posições doutrinárias do papa e da Cúria Romana, deve-se considerar a atuação dos bispos e de suas conferências em muitos países, os teólogos e suas reflexões, as comunidades paroquiais e suas as iniciativas pastorais e, sobretudo, a consciência dos fiéis, à qual se atribui um papel fundamental e insubstituível nas decisões morais. Há um importante tecido eclesial que não deve ser negligenciado.

Na Holanda, país com tradição de aceitação social da homossexualidade, há uma flexibilização da doutrina católica em questões morais e uma adaptação à prática. Já nos anos 1960, antes das paradas gays, o Instituto Pastoral da Holanda formulou diretrizes bastante inovadoras para o trabalho com homossexuais: 1) em hipótese alguma pode-se romper uma amizade existente; 2) o matrimônio heterossexual não pode ser solução e deve ser desaconselhado; 3) não se deve esquecer que a continência não é uma exigência tão evidente; na realidade ela é observada só esporadicamente; 4) parece recomendável ajudar o homossexual a construir uma amizade firme; 5) no acompanhamento de amizades homossexuais parece importante insistir sobretudo na fidelidade (Snoek, 1967, p. 803).

Atualmente naquele país, segundo uma pesquisa da Universidade de Utrecht, oitenta por cento do clero católico celebra uniões de pessoas do mesmo sexo, apesar da proibição eclesiástica. E metade do clero as celebra dentro de templos católicos (Simonis, 2001).

Nos Estados Unidos, o movimento gay gerou uma constelação de grupos distintos. Em 1969, um ano depois dos protestos de Stonewall, um segmento católico deu origem ao Dignity, atualmente Dignityusa – gay, lesbian, bisexual & transgender catholics. Este grupo é bem consolidado institucionalmente, com núcleos em todo o país (Dignityusa, 2009). Em alguns lugares, tem amplo apoio da hierarquia; em outros, não. Onde não encontra o apoio hierárquico, os membros se reúnem em paróquias anglicanas.

Há também uma importante protagonista do movimento gay católico norte-americano: a irmã Jeannine Gramick. Ela chegou a ser proibida pela Cúria Romana de prosseguir seu trabalho pastoral com os homossexuais. No entanto, desobedeceu a proibição e continuou. Como punição, a religiosa foi expulsa de sua congregação, mas não foi excomungada. Outra congregação a acolheu. A irmã Gramick continua na Igreja, na vida religiosa e no trabalho com gays e lésbicas. Há poucos anos, ela esteve no Brasil quando foi exibido um filme documentário sobre sua vida (Gramick, 2005).

A opinião pública católica é crescentemente favorável às bandeiras LGBT. No Canadá, onde há dez províncias, a maior adesão ao casamento gay é na Província de Quebec, coincidentemente a que tem a maior população católica. Na Espanha, onde a população é majoritariamente católica, mais de dois terços é a favor desta união. No Brasil, uma pesquisa revelou que 42% da população é a favor do casamento gay. Entre os católicos brasileiros, a proporção sobe para 46%. Ou seja, quase metade deste segmento religioso (Religião, 2007, p. 4).

Diante da disparidade entre o discurso do Vaticano e as convicções dos fiéis, pode-se dizer que o mundo católico está cindido e desgovernado? Na verdade, trata-se da própria natureza da Igreja. Ela tem uma tradição milenar com raízes no antiguidade judaica e no mundo greco-romano. E, ao mesmo tempo, está inserida na modernidade, em diversos contextos com os quais interage intensamente, sobretudo em nível local.

A modernidade entrou com força no catolicismo através do Concílio Vaticano 2º, realizado entre 1962 e 1965. Este Concílio reconheceu a liberdade de consciência, que é o direito de a pessoa agir segundo a norma reta da sua consciência, e o direito de não agir contra ela. Ela é proclamada o "sacrário da pessoa", a intimidade onde Deus se manifesta. Nenhuma palavra externa substitui o juízo e a reflexão da consciência.

Também foram reconhecidas a legítima a autonomia das ciências e a separação entre Igreja e Estado (Documentos, 1965, GS, nº16 e 36.). No diálogo da Igreja com outras confissões religiosas, o Concílio abriu caminho afirmando a existência de uma hierarquia de conteúdos na doutrina católica ("hierarquia de verdades"). Alguns pontos são mais importantes do que outros, sobretudo os que tocam o núcleo da fé (ibidem, UR, nº11). As divergências entre os que crêem não devem ser todas colocadas no mesmo nível importância, como se todas elas fossem muralhas intransponíveis. Isto tem conseqüências no diálogo da Igreja com a sociedade contemporânea, para se lidar com a diversidade ideológica. Ao se levar em conta uma hierarquia de convicções, amplia-se o espaço ideológico para as divergências. Nem todo o dissenso exclui da Igreja o fiel.

A modernidade também propicia e fomenta uma nova abordagem da Bíblia, que é o método histórico-crítico. Este método rejeita radicalmente a leitura literal dos textos sagrados e abre novos caminhos para a sua compreensão. O Concílio apóia esta inovação, ao mesmo tempo em que procura conciliá-la com os conteúdos da fé (ibidem, DV, nº12). Ao aceitar e incorporar estes elementos da modernidade, a própria Igreja entra em um dinamismo que desestabiliza muitas certezas imutáveis, dos tempos idos da cristandade. Não é mais possível se evitar questionamentos maiores que problematizam doutrinas tidas como certas, inclusive no campo da sexualidade.

O discurso hegemônico católico contrário à homoafetividade foi abertamente contestado pelo clero de Chicago, após o pronunciamento do Vaticano em 2003 opondo-se à união civil. Em nome da dignidade da pessoa humana e do respeito que lhe é devido, aqueles padres criticaram o "tom de tamanha violência e abuso" contra gays e lésbicas, que são filhos e filhas da Igreja. Ninguém mais do que eles têm sido massacrados por uma linguagem "tão vil". Termos como "intrinsecamente desordenado", "nocivo" e "grave depravação" são um bombardeio que em muitos arrasa o respeito próprio e a auto-estima. Em lugar dessa linguagem "asquerosa e tóxica", eles propõem uma abertura de diálogo que inclua a experiência vivida dos fiéis. Os padres reconhecem a bênção divina na vida de inúmeros homossexuais em seus relacionamentos. E defendem que suas vivências sejam ouvidas com respeito (Carta, 2003).

Dois anos depois deste embate ideológico, o cardeal Ratzinger foi eleito papa. Esta eleição gerou grande lamento e tristeza no movimento gay internacional. Afinal, Ratzinger assinou os documentos romanos contrários ao homoerotismo e às bandeiras LGBT. Esperava-se um endurecimento conservador. No entanto, ele não aconteceu. Em seu pontificado Bento 16 defende, sim, e com veemência, o termo "matrimônio" reservado à união entre homem e mulher (Bento 16, 2007b). Porém, quanto à união civil
homoafetiva, o papa diz que o seu reconhecimento "parece perigoso e contraproducente", por um suposto risco de enfraquecer a família tradicional, fundada na união entre homem e mulher (2007a). Convém analisar os termos usados: "parece" não quer dizer necessariamente que seja; e "perigoso" não significa abominável nem inadmissível. Portanto, Os termos do papa não são taxativos e nem encerram o debate.

Nos tempos de João Paulo 2º, a linguagem da Cúria Romana era bem dura. Afinal, os órgãos da Cúria obedeciam ao papa, e ele considerava a união civil de homossexuais uma grave de violação da lei de Deus e uma manifestação da astuciosa "ideologia do mal" (JOÃO PAULO 2º, 2005, p. 22-23). Bento 16, no entanto, não mais sob as ordens de seu antecessor, limita-se a restrições moderadas.

No nível local e nacional, importantes avanços ocorrerem. Os bispos norte-americanos fizeram um pronunciamento sobre o trabalho pastoral com os gays. Eles não aprovam a adoção de crianças por casais do mesmo sexo. Porém, aceitam o batismo de crianças sob a responsabilidade destes casais, se houver o propósito de que elas sejam educadas na religião católica (USCCB, 2006). Neste ponto, muitas escolas católicas nos Estados Unidos colaboram recebendo estas crianças. Em diversas regiões, elas
convivem com outras crianças sem problemas ou reclamações dos pais. As mudanças na sociedade contribuem para a boa aceitação e convivência.

Recentemente o novo presidente da Conferência dos Bispos da Alemanha, Robert Zollitsch, declarou-se a favor da união civil dos homossexuais. Ele afirmou que se trata de uma questão da própria realidade social: se há pessoas com esta orientação, o Estado deve adotar uma legislação correspondente (Zollitsch, 2008, p. 54). Convém ressaltar que um presidente de uma conferência episcopal não faria uma declaração dessas sem o respaldo interno dos outros bispos, e sem um amplo consenso da Igreja local. E isto se dá justamente na terra natal do papa, a Alemanha.

Na Itália, o cardeal Carlo Martini, jesuíta e arcebispo emérito de Milão, também entrou nesta questão. Ele é uma figura de grande liderança na Igreja e de diálogo aberto com a sociedade. Martini teve uma atuação decisiva no conclave que elegeu o papa atual. Fazendo um balanço de sua própria vida, ele declarou: “Entre os meus conhecidos há casais homossexuais, homens muito estimados e sociáveis. Jamais me foi perguntado e nem me teria vindo em mente condená-los” (Martini; Sporschill, 2008, p. 124-125). Demasiadas vezes, acrescenta, a Igreja tem se mostrado insensível, principalmente com os jovens nesta condição.

Os jesuítas na Itália apóiam a união civil homoafetiva. A sua prestigiosa revista Aggiornamenti sociali publicou em junho deste ano o estudo de um núcleo católico de bioética, com sede em Milão. Ele defende que a convivência entre duas pessoas do mesmo sexo é benéfica para a vida social. Em uma relação duradoura, deve-se reconhecer direitos e deveres a quem oferece cuidado e sustento ao companheiro, independentemente de que a intimidade entre eles seja sexual ou somente afetiva. E ao político católico, acrescenta o estudo, é justificável votar a favor deste reconhecimento (Gruppo, 2008, p. 421-444).

Há, portanto, um discurso e uma prática destoantes e contra-hegemônicos na Igreja Católica a favor dos gays e de suas bandeiras. Nunca antes na história da Igreja, vozes de tal importância na hierarquia se posicionaram desta maneira. Que consequências isto terá? É difícil prever, mas no mínimo se pode dizer que há uma forte incidência da questão homossexual na vida eclesial. E uma incidência que se dá no inevitável contexto da modernidade.

Certa vez o papa Bento 16 declarou que o cristianismo, incluindo o catolicismo, “não é um conjunto de proibições, mas uma opção positiva. E é muito importante que evidenciemos isso novamente, porque essa consciência, hoje, desapareceu quase que completamente” (Bento 16, 2006). De fato, o cristianismo está fortemente associado a proibição, pecado, culpa, condenação e medo. Mas ele tem a chance de trilhar um caminho novo.

No campo da diversidade sexual, este caminho novo de opção positiva pode se apoiar em uma importante convicção estruturante, que foi expressa em uma carta do Vaticano aos bispos sobre o trabalho pastoral com pessoas homossexuais. Ainda que a carta seja bastante restritiva, esta convicção permite que tudo o mais seja revisto: nenhum ser humano é um mero homo ou heterossexual mas, sim, criatura de Deus e destinatário de Sua graça, que o tornam filho Seu e herdeiro da vida eterna (Congregação, 1986, nº16).

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Glossário (Documentos do Concílio Vaticano 2º): 
GS: Gaudium et Spes 
UR: Unitatis Redintegratio 
DV: Dei Verbum

Referências bibliográficas:


BENTO 16, Entrevista de Bento XVI em previsão de sua viagem à Baviera (l) Agência Zenit, 16 ago. 2006. Disponível em: . Acesso em: 31 ago. 2006.
____ Discorso di sua santità Benedetto XVI agli amministratori della regione Lazio del comune e della provincia di Roma. Roma, 11 jan. 2007. Disponível em:
. Acesso em: 10 fev. 2009.
____ Discurso do papa Bento XVI por ocasião da inauguração do ano judiciário do tribunal da rota romana. 27 jan. 2007. Disponível em:
. Acesso em: 10 fev. 2009.
Carta Aberta à Hierarquia da Igreja Católica Romana sobre a Solicitude Pastoral com Pessoas Gays e Lésbicas. Chicago, 19 dez.
2003. Disponível em:
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Catecismo da Igreja Católica. 1992. Disponível em:
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CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Letter to the bishops of the Catholic Church on the pastoral care of homosexual persons. 1986. Disponível em:
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____Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais. 2003. Disponível em:
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DIGNITYUSA. Disponível em:
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Documentos do Concílio Vaticano II. 1965. Disponível em:
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GRAMICK, Jeannine. “Rompendo o silêncio”, entrevista a Ana Aranha. Revista Isto é, 12 dez. 2005. Disponível em:
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Gruppo di Studio sulla Bioetica. “Riconoscere le unioni omosessuali? Un contributo alla discussione”. Aggiornamenti Sociali, Milão, nº6, jun. 2008. P. 421-444.
JOÃO PAULO 2º. Memória e identidade. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. 192 p.
MARTINI, Cardeal Carlo M.; SPORSCHILL, Georg. Diálogos noturnos em Jerusalém: Sobre o risco da fé. São Paulo: Paulus; Rio de Janeiro: PUC-RIO, 2008. 157 p.
RELIGIÃO. Folha de S. Paulo, 6 mai. 2007. Especial 1.
SIMONIS, Adrian. “What the cardinals believe” (entrevista com o cardeal Simonis). Christianity today, 19 mar. 2001. Disponível em: 
http://www.cardinalrating.com/cardinal_104__article_359.htm. Acesso em: 11 fev. 2009. 
SNOEK, Jaime. “Eles também são da nossa estirpe – considerações sobre a homofilia”. Vozes, nº9. Petrópolis: Vozes, 1967, p. 792-803. Disponível em: . Acesso em: 11 fev. 2009.
United States Conference of Catholic Bishops (USCCB), Ministry to persons with a homosexual inclination: guidelines for pastoral care. 2006. Disponível em: 
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ZOLLITSCH, Robert. "Es wäre eine Revolution". In: Der Spiegel, Alemanha, nº8, 18 fev. 2008. P. 54 et. seq. Entrevista.

Dia Nacional de combate à intolerância religiosa

Foto: Shen Wei

...E que esta seja uma data para refletirmos sobre todas as intolerâncias, tanto contra as religiões quanto justificadas por elas.

Em 21 de janeiro comemora-se o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. O que podemos trazer à memória nesta celebração? Qual a sua importância para cada um de nós? A instituição de uma data nacional para comemorar uma certa postura é, especificamente neste caso, uma manifestação civil de repúdio a toda forma de violência contra a manifestação religiosa pessoal ou grupal. No caso do Brasil, a liberdade de expressão religiosa é garantida pela Constituição. Vivemos uma atmosfera de aceitação e mistura de religiões, que, embora aparentemente sejam saudáveis, nem sempre são expressados ou vivenciados com um real espírito de abertura para o outro.

Diferenças religiosas sempre existiram na história da humanidade, antes mesmo do Cristianismo. Talvez porque a escolha e a expressão de uma fé toque tão profundamente ao ser humano, esta mesma escolha passa a ser algo tão defendido por ele que acaba por afastá-lo e confrontá-lo com o outro. E, o que é pior, quando esta defesa ultrapassa o limite individual e passa ao grupal, nós nos encontramos com os distúrbios – e até mesmo com guerras – provocadas unicamente pela não concordância com a escolha do outro.

O que Deus deve pensar de tudo isso? Haveria realmente uma religião melhor que outra? O que nos diria Jesus? Se olharmos as experiências vividas por Jesus, veremos o Mestre convivendo com tranquilidade com pessoas de diferentes religiões ou posturas religiosas. Assim, falará com a samaritana, conversará com fariseus, com romanos, com levitas, frequentará a casa daqueles que são considerados espúrios pelos líderes religiosos, como Mateus, incluirá todos na salvação que propõe aos homens. Se pensarmos que Ele mesmo, Jesus, era um judeu atuante, que frequentava o Templo, que guardava as festas judaicas, que respeitava as tradições de seu povo, só podemos ter em mente que Ele enxergava algo além da simples escolha religiosa. Ele via os corações, Ele olhava além daquilo que cada um externava a partir de sua escolha. Por isso, deixará como único mandamento o amor ao próximo como a si mesmo.

Se pudéssemos viver a plenitude do mandamento maior de Jesus Cristo, certamente teríamos inúmeros problemas a menos, no que toca as questões religiosas. Se tivéssemos a coragem de amar o outro, olhando além de diferenças que perpassam raças, [gênero, orientação sexual...], religiões, países, jeitos de ser e viver, o mundo certamente seria muito melhor. Amar o outro como a si mesmo é o grande desafio da humanidade!

Amar não é especificamente gostar do outro, já que o gostar diz respeito à afinidade, ao convívio, ao prazer de estar junto. Amar diz respeito à compreensão mais profunda da escolha alheia, ao respeito por seu jeito de ser e à busca de um entendimento comum que propicie um real encontro de seres humanos com o divino.

Estabelecer, portanto, um dia para (re)pensar a intolerância religiosa e suas conseqüências, e, ao mesmo tempo convidar a uma nova postura de diálogo e encontro é oferecer um momento propício para a reflexão individual de nossa própria postura, motivando-nos para começar nos nossos pequenos ambientes de convívio, a criar um mundo melhor.

- Gilda Carvalho
Reproduzido via Amai-vos, com grifos nossos

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Atualização em 28-01-2012:
Caso se interesse em aprofundar o tema, sugerimos a leitura do artigo "Combater a intolerância é dever de todos", de Elói Ferreira de Araujo‏, Presidente da Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura (MinC) - aqui.

O sentido da vida nas palavras de Jesus


Eugenio Scalfari, jornalista e fundador do jornal italiano La Repubblica, e o cardeal emérito de Milão, Carlo Maria Martini, refletem sobre os pontos que unem fé e existência terrena. Dois pontos de vista que partem de premissas diferentes buscam na justiça, na caridade e no perdão uma perspectiva comum.

A reportagem é do jornal La Repubblica, 24-12-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.


No fundo de um longo corredor, uma porta de vidro se abre para uma pequena sala onde escorre o tempo de Carlo Maria Martini, ex-arcebispo de Milão, biblista, pastor de almas e de consciências, cardeal da Santa Igreja Romana. Ele se senta em uma cadeira ao lado de uma janela da qual se veem um pedaço de céu e um cipreste.

Ao seu lado, está o seu assistente, Pe. Damiano, que é quase a sua sombra, o ajuda a se mover, administra-lhe os medicamentos nos horários estabelecidos, o acompanha nos seus deslocamentos quase raros. Não é frequente que um jesuíta se torne cardeal e é ainda menos frequente que tenha estado à frente da diocese mais importante da Europa, mas Martini é uma exceção por muitas coisas e também pela sua carreira eclesiástica.

Eu vi os jesuítas muito de perto em uma fase particular da minha vida: eu tinha 20 anos, era 1944, Roma estava ocupada pelos nazistas. Os jovens recrutas e os judeus eram procurados pelas SS, a polícia militar do Reich, e eu encontrei refúgio junto a uma centena de outros jovens na Casa del Sacro Cuore, onde os jesuítas promoviam os chamados "exercícios espirituais". Duravam no máximo uma semana, mas, no nosso caso, duraram mais de um mês. A casa era um território extra, com bandeira do Vaticano na janela e guardas paladinos no portão.

Como os jesuítas não dizem mentiras, como nos disse o padre reitor, tivemos que fazer os exercícios espirituais de verdade, embora entre nós houvesse muitos judeus e alguns não crentes.

Para mim, foi uma experiência valiosa, até porque o reitor era o padre Lombardi, um sacerdote de notável personalidade e de grande fineza intelectual, ao qual, mais tarde, foi dado o apelido de "microfone de Deus" por causa de suas atividades que, na bem da verdade, eram mais políticas do que pastorais.

Os jesuítas que eu conheci naquela ocasião, que guiavam as "meditações" e celebravam a missa e outras funções religiosas que pontilhavam os nossos dias, eu observei com muita atenção. O reitor, quando nos despedimos, me propôs até que eu me inscrevesse na Universidade Gregoriana, tínhamos entrado em confidências e também em polêmicas durante uma série de debates sobre Santo Agostinho e sobre São Tomás.

Lembro esses episódios pessoais para dizer que os jesuítas que eu conheci naquela época não se assemelhavam em nada a Carlo Maria Martini. Eram muito acolhedores e amigáveis, mas também muito arcaicos no seu modo de considerar a religião. Martini, ao contrário, está totalmente envolvido na modernidade do pensamento.

Quanto à intensidade da fé, não cabe a mim medi-la. Digo apenas que a fé de Martini nos faz pensar, porque emerge do seu profundo. Aquela que se respirava no Sacro Cuore, ao contrário, tinha um cheiro de sacristia bastante desagradável para quem, como eu, não tem a fé e nem sente a necessidade de buscá-la.

Pergunto-lhes, então, qual é a razão pela qual eu visite Martini frequentemente e ele aceite de bom grado essas visitas. A minha resposta é que estamos no mesmo comprimento de onda, nos sentimos em sintonia um com o outro, e o motivo provavelmente é este: nós dois nos fazemos as mesmas perguntas: quem somos, de onde viemos, para onde vamos. Essas perguntas parecem ter se tornado um lugar comum, talvez o sejam, mas continuam constituindo a base de toda filosofia e de todo conhecimento. As nossas respostas muitas vezes diferem, mas às vezes coincidem e, quando isso acontece, para mim é uma festa, e espero que para ele também.

O nosso encontro de hoje é o quarto que eu tive com ele. É o dia 6 de novembro, chove lá fora, estamos na casa de repouso da Companhia de Jesus em Gallarate, em um prédio que foi doado à Companhia há cerca de 50 anos pela família Bassetti. Os encontros anteriores ocorreram em 2009 e em 2010, mas o primeiro foi um debate que ocorreu em Roma no fim dos anos 1980 no Palácio da Chancelaria, organizado pelo Pe. Vincenzo Paglia, da comunidade de Santo Egídio.

O cardeal está com Parkinson, está muito lúcido, mas caminha com dificuldade. Há algum tempo, o mal lhe enfraqueceu muito a voz, que se tornou quase um sussurro, mas o Pe. Damiano aprendeu a ler do movimento dos seus lábios as palavras sem voz e as traduz para torná-las compreensíveis.

A nossa conversa aqui transcrita foi revisto pelo cardeal: as dificuldades da comunicação tornavam necessário o seu imprimatur.

Eis a entrevista.

Eugenio Scalfari – Gostaria de começar o nosso diálogo por um nome e pela pessoa que o portava: Jesus. Para mim, essa pessoa é um homem nascido em Belém, onde seus pais, José e Maria, que viviam em Nazaré, se encontravam ocasionalmente no dia e na noite do parto. Para o senhor, eminência, esse menino é o filho de Deus. Parece que a diferença entre nós, sobre esse ponto, portanto, é insuperável. Mas é precisamente esse nome que nos une. O senhor o chama de Jesus Cristo, eu o chamo de Jesus de Nazaré. Para o senhor, é Deus que se encarnou no Filho, para mim é um homem que se acredita ser o Filho, e nessa convicção ele viveu os últimos três anos da sua vida, os anos de pregação e depois da "paixão" e do sacrifício. Mas a pregação é justamente aquela parte da sua vida que nos une. Eu pensei muito no encontro de duas pessoas já avançadas em anos que vêm de educações, culturas e trajetos de vida tão diferentes que estão ansiosos por se conhecer cada vez mais e cada vez melhor. Tudo isso tem um sentido? Às vezes, penso que o senhor espera me converter, me fazer encontrar a fé. Isto recairia nas suas tarefas de pai de almas. É a isso que o senhor se propõe?

Carlo Maria Martini – Não, não penso em lhe converter, embora não possamos excluir, nem eu, nem você, que, em um certo ponto da sua vida, a luz da fé possa lhe iluminar. Mas essa é uma eventualidade que se refere apenas a você. Você busca o sentido da vida. Eu também o busco. A fé me dá esse sentido, mas não elimina a dúvida. A dúvida muitas vezes atormenta a minha fé. É um dom, a fé, mas também é uma conquista que pode se perder a cada dia, e a cada dia pode ser reconquistada. A dúvida faz parte de nossa condição humana. Seríamos anjos e não homens se tivéssemos afugentado a dúvida para sempre. Aqueles que não se põem à prova com esse tormento têm uma fé pouco intensa, muitas vezes a deixam de lado e não vivem a sua essência. A fé intensa não deixa esse espaço cinza e vazio. A fé intensa é uma paixão, é alegria, é amor pelos outros e também por si mesmo, pela sua própria individualidade ao serviço do Senhor. O Evangelho diz: ama o teu próximo como amas a ti mesmo. Não há nessa mensagem a negação do amor também por si mesmo. O amor – se é verdadeira paixão – atua em todas as direções, é transversal, é ao mesmo tempo vertical para Deus e horizontal para os outros. O amor pelos outros já contém o amor por Deus. Você ama os outros?

Eugenio Scalfari – Nem sempre, não totalmente. Eu estaria mentindo se dissesse que amo os outros com paixão assim como eu amo pessoas próximas de mim, e eu estaria mentindo se dissesse que o ódio é um sentimento desconhecido para mim. Detesto a injustiça e odeio os injustos. Tolero os diferentes de mim e, em alguns casos, os amo, pensando que a sua diversidade é uma riqueza. Mas os injustos, não.

Carlo Maria Martini – Talvez você se lembrará que, sobre o tema da injustiça, discutimos muito no nosso encontro anterior.

Eugenio Scalfari – Lembro muito bem. Eu lhe perguntei quais eram os pecados mais graves, e o senhor me respondeu que os preceitos da Igreja enumeram uma série de pecados numerosa. Na realidade – você me disse e eu transcrevi fielmente no artigo que eu fiz depois daquele nosso encontro –, o verdadeiro pecado do mundo é a injustiça, do qual os outros derivam.

Carlo Maria Martini – Sim, o senhor se lembra muito bem, eu disse assim. Mas talvez não aprofundamos o suficiente o que eu entendia pela palavra injustiça.

Eugenio Scalfari – Pode explicar agora.

Carlo Maria Martini – Pois bem, a injustiça é a falta de amor, a falta de perdão, a falta de caridade e o sentimento de vingança.

Eugenio Scalfari – O senhor também me disse que o sacramento da confissão e da penitência, fundamental para os cristãos, não é mais vivido e praticado como deveria ser.

Carlo Maria Martini – A penitência não é recitar dez "pai-nossos", mas sim descobrir a beleza da caridade e colocá-la em prática.

Eugenio Scalfari – Isso me lembra o arrependimento do Inominado de Manzoni em Os noivos...

Carlo Maria Martini – A luta contra o egoísmo é muito longa.

Eugenio Scalfari – Deduzo que o Criador criou um mundo injusto.

Carlo Maria Martini – O Criador deu aos seres humanos a liberdade. Ela pode gerar a solidariedade para com os outros, mas também o egoísmo, a opressão, o amor pelo poder. Eu li o seu último livro, você fala dessas coisas.

Eugenio Scalfari – Sim, eu também penso que o instinto de amor permeia a vida das pessoas, mas têm dimensões e direções diferentes. O senhor chama isso de amor, eu chamo de eros, o senhor chama o bem de caridade, e eu o chamo de sobrevivência da espécie, isto é, humanismo. Parece-me que, com palavras diferentes, dizemos a mesma coisa. Jesus, pelo que eu entendo, tentou o milagre de anular o amor por si mesmo, mas esse milagre não teve êxito.

Carlo Maria Martini – Jesus não tentou anular o amor por si mesmo, ao contrário, colocou-o como medida para o amor pelos outros.

Eugenio Scalfari – Eu penso que a vida começou a partir de um ser monocelular e depois seguiu em frente vertiginosamente segundo a evolução natural. Nós temos uma mente reflexiva que nos permite pensar a nós mesmos e ver as nossas ações, mas na economia do Universo somos um pequeno evento: assim nasceu o mundo e todos nós, e assim desaparecerá. Nesse ponto, nenhuma outra espécie será capaz de pensar Deus, e Deus morrerá se nenhum ser vivo for capaz de pensá-lo. Nós não somos uma regra, nós somos um acaso, uma espécie criada pela natureza, como eu acredito, ou por um deus transcendente, como o senhor crê. Spinoza diz: Deus sive Natura, ou Natura sive Deus. O senhor sabe que essa concepção da divindade, tão intensa como a do senhor, desemboca na imanência? Uma centelha de Divindade está, portanto, em todas as criaturas vivas e é justamente a vida.

Carlo Maria Martini – Você me perguntou no nosso encontro anterior o que eu pensava da afirmação do teólogo Hans Küng que defende a fé na vida como a condição preliminar e necessária para se chegar à fé em Deus. Lembra-se?

Eugenio Scalfari – Sim, lembro também que o senhor estava de acordo com essa afirmação.

Carlo Maria Martini – É verdade, e vê-se isso observando um bebê recém-nascido, que se confia totalmente nas mãos dos pais. Você também veio aqui na confiança que não encontraria ninguém com um fuzil apontado contra você. Essa é uma forma primária de fé.

Eugenio Scalfari – Claro. O senhor disse, em um escrito seu, que é um erro afirmar que Deus é católico.

Carlo Maria Martini – Sim, eu disse isso. Deus é o Pai de todos os povos, portanto, dar-lhe o adjetivo de católico é limitante.

Eugenio Scalfari – O senhor terá que admitir, no entanto, que o monoteísmo cristão é muito diferente do judaico e também do Islã. Nessas religiões, a Trindade seria considerada heresia inconciliável com o Deus único. Nessas religiões, o Deus único é inominável e não representável. Para os cristãos, ao contrário, ele tem o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e foi pintado e esculpido ao longo de milênios. A história da arte ocidental é em grande parte a história de Deus, do Filho, da mãe do Filho, dos Santos. Pode-se dizer que o cristianismo é uma religião monoteísta? Ou historicamente é uma religião helenista?

Carlo Maria Martini – A Trindade é Deus-comunhão. O Filho é a Pessoa com quem o Pai se manifesta aos homens. Talvez o modelo "ontológico" com o qual se pensou a Trindade até hoje deveria dar lugar ao modelo "relacional" que ajudaria mais até o diálogo horizontal. Quanto ao Santos, não são só intermediários entre nós e Deus, mas também testemunhas do bem, e talvez a Igreja canonizou muitos deles.

Eugenio Scalfari – Portanto, quando a nossa espécie desaparecer, e quando o juízo universal ocorrer, o Filho não terá mais razão de ser, nem o Espírito Santo.

Carlo Maria Martini – Não exatamente, o Filho será a bem-aventurança das almas que viverão na luz.

Eugenio Scalfari – Sem memória do eu terrestre que abandonaram?

Carlo Maria Martini – Nós, homens, não somos capazes de saber essas coisas, de conhecer o além. Mas sabemos que Paulo diz que a Caridade jamais terá fim. Portanto, supomos que reconheceremos o que vivemos no amor.

Eugenio Scalfari – Deus é o pai de todos os povos, mas a Igreja também fez do Deus católico uma bandeira de identidade, de guerra e de massacres.

Carlo Maria Martini – Quando fez isso, estava equivocada. A Igreja, assim como todas as instituições terrenas, contém o bem e o mal, mas é depositária de uma fé e de uma caridade muito grandes. Até Pedro renegou.

Eugenio Scalfari – Talvez seja muita instituição.

Carlo Maria Martini – Talvez seja muita instituição.

Eugenio Scalfari – Talvez seja muita dogmática.

Carlo Maria Martini – Eu diria de outra forma: o aspecto colegial da Igreja foi muito negligenciado. A meu ver, esse ponto deveria ser profundamente revisto.

* * *

A conversa já dura mais de uma hora. Eu olho para o Pe. Damiano de modo interrogativo, e ele diz que sim com a cabeça. Digo ao cardeal que chegou a hora de me despedir. "Mas eu lhe faço uma última pergunta: o que o senhor pensa dos fatos políticos italiano destes últimos meses? A Igreja, depois de um silêncio muito longo, misturado com alianças altamente questionáveis, finalmente pediu, com o cardeal Bagnasco, que fosse limpada a lama que manchou a ética pública. O senhor concorda com essa posição?".

Carlo Maria Martini – Eu concordo. Na Itália, existe uma catolicidade informada e consciente, e há anticorpos preciosos que, no fim, se manifestarão, contribuindo para recuperar o bem também na esfera onde se administra o poder.

Eu me levanto. Ele também se levanta, ajudado pelo Pe. Damiano. Nos abraçamos. Ele murmura algo, e o Pe. Damiano traduz: "Ele disse que reza frequentemente pelo senhor". Dirigindo-me a ele, lhe digo: "Eu penso frequentemente no senhor. É o meu modo de rezar".

Ele se aproxima do meu ouvido e, com um fio de voz, diz: "Rezo por você e também penso em você frequentemente", ele sorri e aperta a minha mão. Talvez ele quisesse dizer que pensar no outro é mais do que rezar. Pelo menos eu entendi assim.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

''Paulo também viu situações de separação de casais''

Escultura: Kyle Kirkpatrick

O livro "Parejas y sexualidad en la comunidad de Corinto", do pastor metodista argentino Pablo Manuel Ferrer, foi recentemente censurado pela Congregação para a Doutrina da Fé. Nesta entrevista, concedida ainda em 2010, é possível compreender um pouco mais de seu pensamento.

A reportagem é de Adrian Hernandez, publicada no sítio da editora argentina San Pablo, 04-09-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O pastor da Igreja Argentina Metodista, Pablo Manuel Ferrer, 38 anos, apresentou seu livro Parejas y sexualidad en la comunidad de Corinto no espaço de reflexão criado por ocasião do Mês da Bíblia [setembro de 2010], na sede da editora San Pablo, em Buenos Aires. Na apresentação, o pastor metodista desenvolveu o tema da diversidade no amor, como introdução à sua obra, acompanhado pelo padre Aldo Ranieri, que dará continuidade aos encontros de formação bíblica.

Pablo Ferrer é professor de Novo Testamento no Instituto Universitário ISEDET, onde doutorou-se em teologia. Além disso, leciona em institutos católicos, na Escola Bíblica Nuestra Señora de Sión e na Congregação do Divino Mestre de San Isidro.

Ferrer concordou em responder por telefone a esta entrevista do seu escritório da Paróquia Evangélica Emanuel, no bairro La Paternal. Ao ser consultado sobre a importância do fato de seu livro ser publicado em uma editora católica, ele explicou que "o conhecimento e a busca bíblica podem transcender fronteiras denominacionais, tanto de um lado, quanto de outro. Eu me nutro com irmãos e irmãs católicos também. Não é conhecimento católico ou conhecimento metodista. Faz parte do ecumenismo que ajuda a crescer no conhecimento bíblico".

Eis a entrevista, aqui reproduzida via IHU.


Esse conhecimento da Bíblia apaga a fronteira implícita que propõe a divisão entre "um lado" e "o outro"?

Não acredito que haja a ideia de apagar, mas sim de respeitar. É bom saber que há pessoas que têm outra tradição, outra forma de compreender, de celebrar e de entender a divindade. É bom compartilhar e que o outro continue vivendo a sua crença e que isso lhe permita viver a sua própria religião.

Na comunidade de Corinto, qual é o fim do matrimônio?

Na realidade, não há um fim. O matrimônio não tem um fim. Eu proponho que Deus nos chama para a vida em paz e para uma vida em sociedade. Para algumas posições, essa é uma decisão que será tomada através do matrimônio. Para outras, não será assim. Essa é a grandeza de Paulo. Enquanto algumas posições descartam todo contato de casal, e outras insistem que é determinante o fato de se estar casado, Paulo relativiza o matrimônio, a viuvez, o fato de estar solteiro, o fato de estar separado ou junto com outra pessoa de comum acordo.

Em seu livro, você defende que "se o projeto de casal unido por mútuo acordo não tiver resultado, então não se deve perder de vista o chamado à paz". O que isso significa?

Em Corinto, há pessoas que não estão unidas pelo casamento formal, mas sim por uniões de fato, por mútuo acordo, que Paulo considerada válidas também. Ele lhes outorga um valor salvífico para a pessoa não crente (e integrante do casal). Evidentemente, Paulo vê situações de separação. O mandamento é "não se separem", e imediatamente depois diz: "Mas, se se separarem"... Isto é, ele começa a relativizar os mandamentos que são muito duros e leva em conta as situações que se vivem por lá. Esse é o valor para o nosso tempo: pôr mandatos estritos acaba, às vezes, destruindo as pessoas. Paulo anuncia que Deus não nos chamou para cumprir mandamentos, mas sim para a paz.

Qual é a diferença entre um mandato e um conselho de Paulo?

Para algumas coisas, Paulo impõe um mandamento que ele compreende como um mandamento de Jesus. Em outros casos, anima-se a dar um conselho: "Isto sou eu que digo, não o Senhor". O que acontece? Com o tempo, com a tradição – para nós –, o conselho de Paulo, assim como o mandamento de Jesus, ficou como um novo mandamento. Eu estou em uma corrente de interpretação bíblica em que entendemos os conselhos de Paulo como conselhos para esse momento e que ele entende que é o melhor para essa situação. O problema é quando nós o transformamos em um mandamento. É um assunto para se refletir nestes tempos.

Como você chega à ideia de corrupção sexual?

Eu proponho repensar a ideia de porneia [devassidão, libertinagem]. A minha ideia é traduzir, como corrupção, algo que corrompe a natureza humana em seu aspecto individual e social, e tirar da porneia a ideia de imoralidade que envolve um cumprimento de normas. Em contrapartida, a corrupção tem a ver com a relação entre os seres humanos. A corrupção sexual é o desejo desenfreado que governa os demais desejos. Em nosso tempo, isso é evidente nos meios de comunicação de massa, que propõem que o desejo sexual soluciona toda uma outra série de desejos. É como o desejo por excelência a ser alcançado.

E a resposta de Paulo?

Ele se opõe ao grupo que defende que "não se deve tocar em mulher", desejo zero. Paulo contesta que isso é impossível, a menos que se trate de um carisma de Deus. Ele sugere que cada homem tenha sua mulher, e que cada mulher, seu homem; que o desejo sexual não deve ser reprimido suprimir nem tentar controlá-lo, mas sim canalizá-lo. Paulo não coloca os filhos como o produto que deve ser obtido do desejo. Ele mantém o desejo como um fim em si mesmo. Na nossa tradição, pietista ou ocidental e cristã, proibimo-nos o desfrute do desejo em si mesmo. Consequentemente, deve haver uma utilidade: os filhos.

Por que você defende que Paulo dá uma resposta inclusiva sobre a mulher considerada "impura"?

Na comunidade de Corinto, um grupo encontra na mulher o perigo de cair em pecado. Em 1 Coríntios, Paulo envolve tanto o homem quanto a mulher na decisão. Ele reconhece que há desejo em ambos os sexos, em oposição ao mandamento que Paulo recebe de "não tocar em mulher", que significa que a mulher não tem decisão: desejo para tocar o homem.

Paulo recolhe o debate de Corinto entre o poder e o desejo. Qual é a resposta?

Paulo democratiza o poder, um poder compartilhado. Deve se produzido de mútuo acordo: "Que não se neguem entre si". A negação não leva a lugar algum. Em um matrimônio, isso acontece muito. Uma das partes tira o seu corpo ou obriga o outro quando não sente vontade ou não quer. Na realidade, há uma posse compartilhada, e ambos devem estar de mútuo acordo.

Outro assunto do seu livro é o desejo e o carisma de Deus. Como você o interpreta?

O desejo existe, afirma Paulo. Lutar com isso não faz sentido. É preciso desfrutá-lo. Paulo admite que, em si mesmo, há um carisma (nos perguntaríamos: ele apagou o desejo ou colocou o desejo sexual em outra coisa?). Não é uma decisão de Paulo não tocar em uma mulher para melhorar certa coisa. O carisma é algo concedido por Deus a uma pessoa, não para benefício próprio, mas sim para o benefício da comunidade. Se o carisma de abstinência sexual é o mais importante, aqueles que gozam dele podem governar a comunidade; os demais, não. O capítulo 13 expressa que o único carisma e o mais importante é o amor. Ali, havia uma guerra de carismas. Paulo está fendendo a ideia de hierarquia de carismas e, portanto, a hierarquia daqueles que possuem esses carismas. Atualmente, acredito que podemos perceber isso também.

O carisma é importante em uma comunidade?

Paulo trabalha isso em 1 Coríntios, capítulo 14. Ele escreve que prefere o carisma profético. Uma pessoa fala, e isso para a edificação da comunidade. Esse é um critério que Paulo usa para determinar quando há um carisma e quando há uma característica de uma pessoa. Deus não deu um carisma a Moisés para que ele se convertesse em um super-herói, mas sim para libertar o seu povo. Eu me permito perguntar a uma pessoa: "Se isto é um carisma seu, como você beneficia o seu próximo?".

No livro, você atribui ao autor bíblico um conhecimento sobre o matrimônio ideal e o possível. Como é o casamento possível?

Paulo dirá que o ideal é que todos sejam como eu; se não for assim, há outros que estão vivendo outras realidades possíveis, não a ideal, mas sim a que foi possível viver. Entendo que Paulo enfatiza que a minha realidade – que eu entendo como ideal –, assim como a outra – que eu entendo como possível – são iguais frente aos olhos de Deus. O carisma de abstinência sexual, o casado, o separado, o juntado são diferentes possibilidades que têm o mesmo valor perante os olhos de Deus. Isso não dá nem tira uma maior aproximação a Deus.

Quais são os desafios a partir do olhar de Paulo e que, hoje, estão ocultos na comunidade?

Quanto ao âmbito sexual, certas situações ficam solapadas. Uma delas é a homossexualidade. Por exemplo, pessoas que eu conheço, que integram a comunidade e que têm tendência homossexual que não é declarada, não são eleitas como presidente ou membro de um conselho paroquial. Todos sabemos disso, no entanto, não o trazemos à tona. Na nossa Igreja [metodista], uma pessoa separada não é algo que deve ser oculto; concebemo-lo como algo que pode acontecer.

Na sua Igreja, como vocês trabalham pastoralmente a situação de pessoas separados e que voltaram a se casar?

É válido voltar a formar uma família, um casal, ou decidir ficar sozinho. Quando se rompe um projeto matrimonial, realiza-se uma revisão. Pastoralmente, eu acompanho cada um desses projetos, tentando que sejam o mais possível saudáveis, verdadeiros, tentando que não se repitam algumas experiências.

''Na Igreja, também há quem trabalhe contra o Evangelho''

Fotomontagem: Isabel M. Martinez

Em tempos de confrontos entre cristãos e LGBTs por causa do discurso do papa (saiba mais aqui), é importante lembrar que nunca há só anjos nem só demônios em lugar nenhum (mais aqui). Se, por um lado, como adverte o autor deste texto, nem todos os que dizem "Senhor, Senhor" vivem de fato e anunciam com a própria vida a mensagem evangélica de amor irrestrito e acolhimento incondicional do Pai, por outro não se justifica julgar, condenar nem excluir aquele que, a meu ver, está "em erro" - e isso vale para cristãos e LGBTs. Afinal, errar, todos erramos. Vamos definir o outro pelo que ele faz ou tem de pior? Ou vamos buscar meios de dialogar, caminhar e crescer juntos, nos nossos erros e acertos, nas nossas diferenças e na humanidade que nos torna todos irmãos?

* * *

"Não basta se dizer crente em Cristo; é preciso se dizer e ser seguidor de Jesus na forma ditada pelo Evangelho que, antes de ser um livro quadriforme, é a vida do homem Jesus."

A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado na revista Jesus, de janeiro de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU, com grifos nossos.


Estes são os dias da memória do nascimento e da infância de Jesus, e os Evangelhos que nos querem narrar a vinda ao mundo do Filho de Deus, daquele que só Deus nos podia dar, de Jesus, Palavra do Pai feita carne (cf. Jo 1,14) por ação do Espírito de Deus, são obrigados, no entanto, a testemunhar que essa vinda, esse admirável dom se realizou no silêncio, na discrição e foi percebido só por alguns, por poucos fiéis.

Eram muitíssimos aqueles que se diziam fiéis e eram contados no número do povo de Deus, eram muitos aqueles que frequentavam o templo, as sinagogas e falavam do Deus uno e vivo. Porém, só pouquíssimos homens e mulheres, anônimos em sua maioria, souberam esperar realmente o Messias, souberam reconhecê-lo e acolhê-lo entre eles como um dom de Deus. Se não tivessem acolhido e olhado com esperança para esse menino, para Jesus, jamais saberíamos da sua existência nem conheceríamos os seus nomes: Zacarias, um sacerdote, e Isabel, sua esposa; José, um artesão, e Maria, sua esposa; Simeão, um velho sacerdote; Ana, uma velha e pobre viúva; alguns pastores de Belém.

Por outro lado, os profetas já tinham entendido e souberam ler a realidade e a verdade da comunidade do Senhor. Dentro do povo de Israel, o povo empírico que é humanamente legível como um povo de fiéis, o Senhor sente na verdade como suas testemunhas só um "resto", uma "porção" quase escondida que não se impõe, que não tem força, que não sabe o que significa vencer, que não é contada... São fiéis humildes, sobretudo, pobres até no coração, mansos que não têm ninguém em quem esperar, senão no Senhor; são fiéis que não buscam apoios mundanos, que não tecem relações para ter poder, que não sonham coisas grandes para além das suas forças (cf. Sl 131, 1): são os 'anawim, os pobres do Senhor.

Mas essa realidade não se refere apenas aos tempos da antiga aliança; refere-se também ao nosso hoje. Na nossa linguagem, muitas vezes abusamos da palavra "Igreja", que repetimos frequentemente de modo ambíguo, quando não até desviado e desviante. Porque a Igreja é uma realidade misteriosa, em que nós acreditamos, mas que não podemos verificar com segurança. A Igreja é a comunhão com os santos no céu daqueles que "o Senhor conhece como seus" (cf. 2Tim 2, 19; Nm 16, 5), como membros do seu corpo; é uma comunhão que não é mensurável (só o Senhor a "conta"!); é uma comunhão constituída por pecadores sempre perdoados, que conhecem o seu pecado e o oferecem ao Senhor como invocação de misericórdia; é uma comunhão daqueles que não simplesmente dizem acreditar em Deus e ser cristãos, mas buscam sincera e obstinadamente dar forma à sua vida segundo o Evangelho.

Sim, a Igreja é uma comunhão que conhece Jesus Cristo como Evangelho, não um Jesus fruto das suas próprias projeções, das suas próprias ideologias e, por isso, desfraldado como "o que temos de mais caro no cristianismo", mas sim o Jesus do Evangelho, que é o Evangelho feito carne, a carne de um homem que viveu humanamente. Não basta se dizer crente em Cristo; é preciso se dizer e ser seguidor de Jesus na forma ditada pelo Evangelho que, antes de ser um livro quadriforme, é a vida do homem Jesus.

Portanto, é preciso discernir quando se fala de Igreja. Não se trata de gostar de posições elitistas, de se alegrar sentindo-se entre poucos, nem de se sentir vítimas, como afirmavam muitos pregadores do século XIII: Duo sunt ecclesiae, "duas são as Igrejas," uma que persegue, a outra que é perseguida. Trata-se de não pensar em "vencer", em "se impor", mas sim em saber discernir, na medida do possível, um núcleo que olha para Cristo como para o Evangelho e, para o Evangelho, como para Cristo, sem distinções ou separações: um núcleo que ouve o Evangelho, que permite que a sua vida seja moldada pelo Evangelho; um núcleo de fiéis que, apesar de suas inadequações e contradições provocadas pelo Evangelho, quer que o Evangelho vença sobre si mesmos; um núcleo que conhece o fogo do Evangelho, aquele fogo que é redespertado por baixo das cinzas pelas quais às vezes parece estar coberto, todas as vezes que um homem ou uma mulher o busca.

Sim, o cristão deve saber que no povo de Deus também, na Igreja também, pode haver aqueles que trabalham contra o Evangelho, aqueles que se dizem cristãos e consideram o Evangelho uma utopia, que dizem crer em Deus em Cristo, mas que riem das palavras de Jesus, do seu Evangelho.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

E ser feliz é o que realmente importa!


Reproduzimos abaixo o lindo texto de Flavio Alves, publicado em seu excelente blog Ideias Canhotas.

Um dia desses acompanhei em um fórum na net o relato um adolescente de 16 anos que compartilhava com os membros sua angústia: havia entregue uma carta para sua mãe revelando a sua homossexualidade e naquele momento aguardava a reação dela, bem como do restante da família que provavelmente não reagiria bem.

Acabei puxando pela memória algumas lembranças de como vivenciei este período, algumas coisas até já compartilhei por aqui. Lembro que este período foi um tanto quanto solitário, não tinha com quem dividir as minhas angústias, falar das minhas confusões e das paixonites. Penso que com o advento da internet, hoje exista mais espaço para que as pessoas possam se expressar e existe a real possibilidade de abertura de canais para que as pessoas dêem vazão àquilo que as afligem.

Nas mensagens que se seguiram ao post, muitas pessoas deram apoio e se solidarizaram com a situação do garoto, e houve – sempre há – quem aproveitou a oportunidade para pisar, humilhar e despejar alguns preconceitos sobre uma pessoa que já estava bastante fragilizada e exposta, essas nem merecem consideração.

Entre vários comentários das pessoas que seguiam o fórum algumas coisas me chamaram a atenção: a primeira é que a internet (e os espaços criados por ela) nunca vai substituir as relações humanas, o olho no olho, o calor de um abraço e o som das palavras, porém, é possível encontrar algum alento por ali.

Pelos textos percebia-se que o ato de se assumir por vezes é aterrorizante. A angústia de expor uma parte importante de nossas vidas e o temor das conseqüências deste ato que parece tão simples são assustadoras. Acabam por misturar sentimentos, valores morais, convenções sociais, doutrinas religiosas, entre tantas outras coisas que acabam por trazer uma sensação de inadequação e não pertencimento ao grupo familiar e de amizades.

A segunda coisa que me chamou a atenção foram os inúmeros conselhos sobre a melhor forma de se revelar, de assumir a própria homossexualidade. Já ouvi uma infinidade de conselhos sobre quando e como se assumir. Alguns bastante válidos, como contar para um amigo próximo, um familiar ou alguém de confiança que possa dar espaço para que a pessoa se abra, mas até isso é mais fácil em teoria.

Porém, alguns outros acabavam por fazer com que o fardo de se assumir ficasse cada vez mais pesado, aconselhando o rapaz (e quem mais estivesse na situação) a antes de se assumir conquistar independência financeira, fazer uma faculdade, conseguir um bom trabalho, juntar uma boa grana, mudar de casa e depois contar à família. E aos que ainda não podem sair de casa ficava a recomendação de ser o melhor em tudo, o melhor aluno, o melhor filho, o melhor primo, o melhor funcionário, o melhor amigo, pois essa seria uma forma de “compensar” o fato de ser gay.

Avaliando o que eu passei, o que eu escuto por aí, o que já estudei e o que eu li no fórum, percebo que essa idéia da independência financeira associada a tese de que devemos ser os melhores em tudo é bem mais comum do que se pensa, e em alguns casos parece ser uma reação quase que automática, como se ao não depender financeiramente de ninguém, estivéssemos acima do julgamento de qualquer pessoa, ou deixássemos de depender afetivamente das outras pessoas também. Ou como se o fato de eu ser o melhor aluno, manter meu quarto organizado, ir ao mercado com minha mãe e lavar a louça do jantar compensasse o fato de não ser o que esperavam que eu fosse.

Pura balela! Não tem dinheiro, produção acadêmica, eficiência profissional que compense afeto, aliás, não há nada para ser compensado. Ao nos revelarmos, o fazemos por que queremos ser amados como somos, e não por aquilo que temos, fazemos ou podemos vir a ter. O fazemos por que levar uma vida dupla é insuportável, por que se negar e não se aceitar é tão doloroso, quanto por que o medo de perder o amor e o respeito das pessoas que amamos.

E por fim, no meio das postagens surgiram as eternas perguntas: como se assumir? Como contar a nossos pais sobre nossa sexualidade? E para as pessoas próximas? E o que fazer quando isso acontecer? Como vai ser depois de contar?

Sinceramente não sei, e não creio que existam respostas e receitas certas para se assumir. Mas tenho a certeza que é importante falar sobre o assunto.

Hoje, penso que para compartilhar esta parte tão importante com a família e com os amigos, a primeira coisa a se fazer é estar bem consigo mesmo.

Isso mesmo, ao me revelar e exigir respeito das pessoas devo em primeiro lugar me aceitar e me respeitar, estar bem com isso. Aceitar que a minha orientação sexual é uma variação natural da sexualidade humana, e que mesmo que alguns preconceituosos digam, não sou nenhum anormal, abominação ou aberração.

Note-se que eu digo “me respeitar” e não “se dar ao respeito”, como dizem por aí. Na linguagem moralista, “se dar ao respeito” é se anular, se esconder, se portar como se a nossa sexualidade (homo, bi, trans, ou qualquer outra possível) não existisse, ou ficasse restrita ao maravilhoso mundo de Nárnia, bem guardada dentro do armário.

Depois de estar seguro e feliz com o que se é, penso que a melhor coisa a se fazer é conversar, conversar e conversar sempre!

Estar aberto para responder as perguntas que surgirão, lidar com as dúvidas, com as frustrações, com as cobranças e em alguns casos com as limitações que decorrerão daí.

Enfim, acredito que se assumir não se limita a contar a alguém. Se assumir tem a ver com se aceitar e gostar se si próprio como realmente se é. É um processo de autoconhecimento que se faz diariamente, é tomada consciência de si próprio, de reconhecer que somos e podemos ser falhos, mas que nossa sexualidade não tem relação nenhuma com isso. Se assumir é dar novos sentidos aos nossos valores e sentimentos, é compreender a maneira como amamos e como lidamos com nossos afetos. Se assumir é um ato de coragem que demonstra cuidado com a nossa própria existência e uma grande disposição para ser feliz. E ser feliz é o que realmente importa!

- Flavio Alves
Publicado originalmente no blog Ideias Canhotas

Uma fé sem busca não tem nada a dizer


O caminho pessoal da fé só pode ter a aparência de uma busca verdadeira; não é a transmissão de um conteúdo doutrinário.

A opinião é do cientista político e leigo católico italiano Christian Albini, em nota publicada em seu blog,
Sperare per Tutti, 09-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Eu li a Nota da Congregação para a Doutrina da Fé com as indicações pastorais para o Ano da Fé proclamado por Bento XVI [disponível aqui].

Sinceramente, achei-a decepcionante. Tudo se reduz a uma exortação para que se façam esforços para apresentar os conteúdos da doutrina católica, concentrando-se muito no Catecismo e substancialmente ignorando a Palavra de Deus

Quer-se redescobrir a fé deixando de lado o seu fundamento.

Além disso, todo o documento é permeado por uma ideia da doutrina católica como um pacote completo e já predisposto de verdade do qual a Igreja é detentora e que deve transmitir ao mundo. Não há espaço para as perguntas e para a busca. Mas uma fé sem busca não tem nada a dizer, especialmente ao homem contemporâneo...

Sem ir procurar muito longe, até mesmo em algumas passagens da homilia de Bento XVI na missa do dia 8 de janeiro [Celebração do Batismo do Senhor] encontramos uma ênfase diferente.
Deus quer nos dar sobretudo a Si mesmo e Sua Palavra. Quais são "as fontes da salvação"? São a Palavra de Deus e os Sacramentos. Os pais não são a fonte, assim como nós, sacerdotes, não somos a fonte: somos apenas como que canais, através dos quais deve passar a linfa vital do amor de Deus.
O verdadeiro educador não liga as pessoas a si mesmo, nem é possessivo. Ele quer que o filho, ou o discípulo, aprenda a conhecer a verdade e estabeleça com ela uma relação pessoal. O educador cumpre o seu dever até o fim, não faz faltar a sua presença atenta e fiel; mas o seu objetivo é que o educando ouça a voz da verdade falar ao seu coração e a siga em um caminho pessoal.
Esse caminho pessoal, observo eu, só pode ter a aparência de uma busca verdadeira; não é a transmissão de um conteúdo doutrinário.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Sim, sou alguém e sou feliz sem Deus

Charge daqui

Do excelente blog da Lola, tomamos a liberdade de reproduzir este guest post do Robson, do blog Consciência. Para a gente ver e refletir como preconceitos, sectarismos e exclusões são muito parecidos, independente de quem sejam os alvos.

É uma pena que a fundamental busca do ser humano pela verdade e por sua realização seja tantas vezes obscurecida pelo uso das "verdades" que se vão encontrando pelo caminho como instrumentos de intolerância, segregação e marginalização... Ou, como diz um texto que publicamos há algum tempo aqui:

"A única coisa que um judeu precisa saber é que Moisés ensinou que havia um só Deus para todas pessoas. O resto é irrelevante.
Um cristão precisa saber que o Cristo mensageiro disse para amar o próximo como a si mesmo e Deus sobre todas as coisas. O resto é irrelevante.
Os budistas precisam saber que Buda ensinou que devemos nos desprender de nosso orgulho, ego, cobiça e ambição material. O resto é irrelevante.
A única coisa que um muçulmano precisa saber é que a guerra santa que o profeta ensinou não é uma batalha contra outras crenças. E sim a conquista do nosso próprio mal, tentações e orgulho. O resto é irrelevante.
E a única coisa que um ateu precisa entender é que nós, não um deus distante, somos os responsáveis por nossas atitudes. O resto é irrelevante." ;-)

Sou alguém e sou feliz sem (um) Deus. Sou ético e tenho bom coração sem ele. É o que sou. Sou aquilo que tantos religiosos juram que não existe: alguém que descrê em Deus, respeita os irmãos de senciência e leva uma vida agradável –- não a mais agradável possível, com que eu sonho diariamente, mas me sinto bem confortado com o que tenho ao meu alcance hoje, livre de grandes problemas.

Religiosos ateofóbicos dizem que ninguém pode ser feliz nem bondoso sem o Deus deles. Dizem que ninguém que não crê em Deus pode viver uma vida boa, saudável e moralmente reta. Para eles eu sou alguém que não existe. Porque sou feliz e bondoso sem um Deus para me guiar e moralizar.

Não me sinto superior de forma alguma, mas eu sinceramente posso sentir uma ponta de pena daqueles que dizem coisas do tipo “Sem Deus eu não sou ninguém”, “Sem Deus eu não sei viver”, “Sem Deus eu não sou nada!”, “Sem Deus minha vida não tem sentido!”. Porque isso revela um tanto de pequenez, submissão humilhante e autoestima deficiente viciada na religião. E também porque há no planeta centenas de milhões de pessoas -– talvez passem do bilhão -– que, a despeito da crença auto-humilhante e negacionista de tantos crentes, são algo/alguém, sabem viver e têm uma vida provida de sentido sem uma entidade superior que chamem de Deus.

Tenho família e amigos fiéis e sou financeiramente razoável (nem pobre nem abastado). E, claro, sou cheio de amor para dar. Amor a tod@s – mulheres (em todos os sentidos), homens (fraternidade, amizade, respeito e apreço), animais não humanos (carinho, amizade e respeito ético) e Natureza silvestre (devoção, carinho, comunhão espiritual e profundo respeito não só como mantenedora da vida, mas também como portadora de um sentido intrínseco que eu gostaria de desvendar).

Gosto de computador, de internet, dos meus blogs, dos meus artigos, do Twitter, de alguns “blogs sujos”, de alguns blogs de humor, das tirinhas de memes, do Trollface, do FFFFFUUUUU-, de games de estratégia, de praia, de viajar, de florestas, do céu estrelado da noite, de contato com a Natureza, de animais não humanos (o que se reflete também em meus hábitos de consumo), de Coldplay, de synthpop, de new wave anos 80, de rock pernambucano, do antigo movimento Rock Brasil, de sair com amigos, de paquerar, de amar, de visitar livrarias, de sucos de maracujá e acerola, de comida vegana, de revisão e correção de textos, de livros, de sociologia, da esquerda política, de feminismo, de abolicionismo animal, de antimilitarismo, de ambientalismo, de teoria socioambiental, de Educação Ambiental, de História à Annales, de ler sobre religiões politeístas e orientais, de literatura ateísta, de O Senhor dos Anéis, de Star Wars, de Matrix, de Smallville, de Beavis & Butt-head, de Cavaleiros do Zodíaco, de Dragon Ball Z, do anime Yu-Gi-Oh, de Capitão Planeta, dos Simpsons, de Chaves, de Chapolin, de rir com gols contra… Sou um ser humano íntegro, com emoções, gostos, interesses, necessidades, anseios, sonhos, tudo o que um ser humano normal tem.
Sou, estou, sinto, gosto, amo, detesto, sofro, protejo, luto, rio, choro, regozijo, trabalho, contemplo, medito, conquisto, fracasso, venço, perco, supero… Sem Deus. Sem Javé, sem Cristo, sem Allah, sem Zeus, sem Xangô, sem Shiva, sem Odin, sem Amaterasu, sem a Deusa e o Deus, sem Ísis, sem Dagda, sem Marduk, sem Baal, sem Ngai, sem Quetzalcoatl, sem Inti, sem Aton, sem nenhuma deidade.

Sou um dessas centenas de milhões de seres humanos que sabem que sentido da vida, ética, bondade e alegria de viver independem de religião e crença. Não preciso de deus nenhum, tampouco de recompensas e punições como o céu e o inferno cristãos, para me dizer o que é certo e errado e que devo ser submisso a uma divindade altamente contraditória para ser feliz. E isso, a despeito da intolerante crença de tantos, não me tira o conceito de moral -– pelo contrário, modéstia à parte, minha consciência ético-moral respeita e zela por muito mais seres vivos do que a média da população religiosa respeita (ou diz respeitar), ainda que isso não seja regra no ateísmo.

Por mais que suas igrejas e a Bíblia neguem isso aos cristãos pouco tolerantes, há ateus boníssimos e cristãos perversos e criminosos –- da mesma forma que há também cristãos boníssimos e ateus perversos e criminosos. Ao contrário do que os Datenas da vida vociferam, não ter Deus no coração não me leva a cometer nenhuma violência, crueldade, crime ou transgressão legal, ao mesmo tempo em que “amar a Deus sobre todas as coisas” não impede que tantos padres abusem de crianças, inúmeros pastores extorquam seus “cordeiros” e muitos fanáticos assassinem e destruam “em nome de Deus”.

Não vou me arrogar como um exemplo de pessoa moral e reta, tenho defeitos e vícios (nenhum, porém, que comprometa minha saúde) como qualquer ser humano, mas minha vida e personalidade me são bastantes para derrubar diversos odiosos mitos morais que envolvem o ateísmo.

Como o de que Deus seria necessário para dizer o que é certo e errado: especialmente porque muito do que a tal moral bíblica diz como certo os Direitos Humanos e também os Direitos Animais, ambos de cunho essencialmente secular, consideram eticamente censurável –- guerras, genocídios, sacrifícios animais, estupros, machismo, homofobia, intolerância religiosa, ódio, extorsão com pretextos religiosos etc. E porque mesmo a grande maioria dos ditames morais que os cristãos obedecem hoje não são bíblicos, mas sim laicos -– em outras palavras, mesmo para os próprios crentes a Lei de Deus na prática não prevalece mais sobre a Lei dos Humanos (“dos homens” não, por favor).

E o de que o ateísmo teria sido responsável pela malignidade dos Stalins, Pol Pots e Milosevics da vida: além desse mito ser uma generalização extremamente preconceituosa e ignorar que, ao contrário das religiões, o ateísmo, não sendo nenhum sistema organizado de crenças mas sim a ausência dele, não determina qualquer orientação moral, ele ignora a existência dos assassinos cristãos que até apelaram ao seu Deus para justificar seus crimes, como Hernán Cortés, Francisco Pizarro Adolf Hitler, Tomás de Torquemada, George W. Bush, Teodósio e inúmeros papas das Idades Média e Moderna.

Sou algo e alguém, sou feliz e moralmente reto e minha vida tem todo um sentido sem Deus, e não tenho vergonha nenhuma de dizer isso, pelo contrário. Faço questão de fazê-lo -– aliás, sou obrigado a isso, ainda mais neste país em que infelizmente a não amoralidade ateísta não é considerada algo óbvio. E sou mais satisfeito ainda por poder dizer que sou oposto aos religiosos intolerantes e teocêntricos no que tange a ser livre daquela submissão e autoestima viciada que condiciona todo o sentido da vida, a felicidade e a própria qualidade de ser algo ou alguém a um Deus específico.

É para mostrar que ateus também são gente como qualquer cristão, como qualquer religioso, que escrevi este texto. Para mostrar que todos os seres humanos são moralmente iguais, são igualmente humanos, são igualmente sencientes, são igualmente vivos, são igualmente seres com ou sem Deus. E não é a ausência dele que nos faz deixar de ser tudo aquilo que somos em essência.
Se você ainda acredita que sem Deus é impossível ser alguém e viver, conheça a nós ateus. Conviva conosco. Busque nos entender. Abandone seus preconceitos. Aceite-nos como somos. Aceite os irreligiosos que somos.

Racismo + Homofobia = Preconceito

Todo tipo de preconceito deve ser combatido!Afinal, o preconceito é um balaio que guarda muita coisa, homofobia, racismo, xenofobia e tantas outras definições que só porque não me recordo, ou talvez não terminem em “ia”, ou não tenham um nome específico, deixam de merecer ser combatidas com valores éticos. Por isso, acho importante iniciar nas bases da educação. Pra mim, está aí a importância da discussão sobre os preconceitos nas Escolas.

Confiram o vídeo de uma campanha Mexicana contra o racismo:




Rodolfo Viana

O Evangelho é um jardim

Foto: Walter Mason

Recebemos de um dos membros do grupo esta bela mensagem:
Partilho com vocês essa interessante e breve reflexão encontrada no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal).
Em meio à conjuntura acalentada (...); com as indagações em voga se na Igreja Católica Apostólica Romana haveria lugar para este ou outro tipo de pessoa... Abrindo mais o horizonte e olhar, convido a refletirem sobre as experiências pessoais com DEUS, seu lugar, seu momento. 
Fica a pergunta: "Onde estás?"
Abração.
Não será de todo irrelevante que a primeira coisa que Deus nos pergunte seja: «Onde estás?» (Gn 3, 9). Na verdade, peregrinos no tempo, nós existimos sempre num determinado espaço. Por mais que vivamos num mundo crescentemente global, somos e vivemos sempre num certo local.

Também a nossa experiência cristã pode ser descrita por um mapa onde se registam os locais do encontro com Deus e se traçam os percursos da Sua passagem. O nosso seguimento de Jesus não se deixa descrever apenas pelos momentos desse encontro (quando?), mas pede ainda que se apontem os seus lugares (onde?). Há, de facto, um quê de topografia do sagrado a que o cristianismo não poderá renunciar. A Sagrada Escritura regista, ela própria, um número assinalável de lugares onde, por excelência, se dá essa epifania de Deus.

Um desses lugares é o jardim. Talvez nem sempre disso tenhamos a devida consciência, mas há entre a experiência cristã e o espaço do jardim uma íntima relação: do jardim original do Éden (Gn 2-3), ao jardim minimal das Oliveiras (Jo 18, 1); do jardim perfumado do Cântico dos Cânticos (Cant 4, 16), ao jardim de pasto verdejante cantado pelo salmista (Sl 23); do jardim silencioso onde Jesus foi sepultado, ao mesmo jardim onde Ele próprio, uma vez ressuscitado, aparece como «jardineiro» (Jo 19, 40–20, 16). Há ainda jardins em tantas conversões pessoais, como a de S. Agostinho (Confissões VIII), e em tantas empresas comunitárias, como nos mosteiros, casas construídas à volta de um claustro/jardim. Como uma metáfora aberta, o jardim surge pois como um desses lugares em que Deus ama encontrar-se com a humanidade. Ele representa simbolicamente uma «feliz harmonia entre céu e terra, entre graça e esforço, entre natureza e cultura» (cf. E. Salmann).

Não sei bem se o jardim surge como lugar do sagrado porque a Deus agrade deambular por estes espaços aprazíveis, ou se porque Deus transforme em jardins os lugares por onde passa. Todavia, parece-me que na metáfora do jardim o cristianismo encontra não apenas um traço da sua identidade, mas também uma perspetiva para a sua missão: ser no mundo o que um jardim é numa cidade. Um espaço tranquilo no meio do bulício. Um lugar onde o cinzento da envolvência não abafa a cor da vida. Um local onde o ar corre fresco. Um lugar onde, apesar dos pesos da vida, se experimenta aquela «carga leve» e aquele «jugo suave» de que falava Jesus (Mt 11, 30). O Evangelho aparecerá então como aquele jardim em que sempre podemos passear, mesmo quando o inverno é severo.

- P. Alexandre Palma
In Voz da Verdade, 14.01.12

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Vietnã


Mulher, como você se chama? – Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? – Nao sei.
Para que cavou uma toca na terra? – Não sei.
Desde quanto está aqui escondida? – Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? – Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? – Não sei.
De que lado você está? – Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. – Não sei.
Esses são teus filhos? – São.

- Wislawa Szymborska
Via bonito, isso

O preconceito no armário


Ele está ali no meio das roupas que vestimos a cada dia. Invisível, sem cheiro. É como se fosse uma caspa que só os outros enxergam. O preconceito fica guardado nas gavetas das coisas ditas e ouvidas, em casa, na escola, no trabalho. Escondemos, por vergonha. Ou, o que é pior, nos recusamos a reconhecer que ele existe. Até o momento em que o preconceito sai do armário de forma irracional.

Foi o que aconteceu na USP com um PM, o sargento André Ferreira. O sargento parecia uma pessoa normal, dialogando com universitários que ocupavam um espaço da universidade. Pedia que se retirassem dali. De repente, viu ao fundo um rapaz negro, com cabelo rasta, de tranças longas. O sargento se transformou num ogro. “E você aí, é estudante? Cadê a carteirinha?”, perguntou. O rapaz respondeu: “Sou. Dou a minha palavra”. Mas não mostrou documento.

O sargento se descontrolou: apontou a arma, puxou-o pelos cabelos e pela roupa, empurrou, agrediu e o enxotou. No fim, Nicolas Menezes Barreto tirou a carteira de estudante da USP do bolso. O vídeo é de uma brutalidade que atinge qualquer um que tenha noção de direitos humanos. A Polícia Militar afastou o sargento por despreparo e descontrole emocional.

Mas por que o rapaz negro não mostrou logo o documento que o policial branco exigiu? Insolente, não conhece o seu lugar. É o que muita gente boa diz por aí. Entendo a reação do estudante à atitude ofensiva do PM. Foi uma cena de preconceito racial explícito. O sargento não teria agido assim com um branco. Nicolas sabia disso. Deve ter sido a enésima vez em que enfrentou suspeita pela cor da pele.

Por muito menos, já me recusei a mostrar a carteira de jornalista. Cobri como repórter a temporada de Fórmula 1 em 1990. A cada corrida, eu era abordada por fiscais do autódromo nos bastidores. Os fiscais não pediam a credencial de meus colegas homens. No terceiro país em que isso se repetiu, eu estava acompanhada de um amigo sem a credencial adequada. O fiscal exigiu meu documento. Eu disse: “Não vou mostrar. Vá pedir ao Bernie Ecclestone (o homem forte da F-1)”. Era evidente que, só por eu ser mulher, eles desconfiavam que eu fosse uma maria gasolina da vida. Depois de um tempo, irrita. Esse e outros episódios me revelaram que eu trafegava muitas vezes numa pista masculina.

Os gays sofrem mais. O ator Marcelo Serrado não deseja que sua filha de 7 anos veja um beijo gay na novela das 21 horas. Ele faz o caricato Crô, um dos personagens mais populares de Fina estampa. Serrado acha que homossexuais só devem se beijar na televisão depois das 23 horas. Assassinatos, traições, prostituição, porradas do marido na mulher, isso tudo passa no horário nobre. “Detesto a homofobia, mas as barreiras devem ser quebradas aos poucos”, disse Serrado. “Tenho vários amigos gays, um foi jantar na minha casa na sexta-feira passada.”Sou contra cotas sexuais ou raciais. O mérito determina uma promoção. Mas o último Censo do IBGE me surpreendeu. A educação deveria ter reduzido mais a desigualdade entre os sexos. A mulher tem hoje no Brasil dois anos de escolaridade a mais que o homem, mas ganha em média 30% menos que ele. E, quanto mais instruída é a mulher, maior a diferença entre seu salário e o do homem com a mesma escolaridade. Dos brasileiros que ganham acima de 20 salários mínimos, os homens são mais de 80%. Só um punhado de mulheres chega à direção e a cargos executivos. Existe ou não uma discriminação sutil no mundo que manda?

Homossexuais influentes lastimaram a declaração de Serrado. “Ele tem o direito de educar sua filha como quiser”, diz Alexandre Vidal Porto, diplomata brasileiro, em Tóquio, com 46 anos e relacionamento estável há nove. “O que acho péssimo é o ator, mesmo não querendo que a filha presencie um beijo gay, declarar que não é homofóbico. Parece aquela senhora que diz não ser racista, mas preferiria que a filha não se casasse com um negro. Ou seja, Marcelo Serrado é um homofóbico no armário. Precisa sair dele.” Vidal Porto é casado em Nova York e seu marido, americano, tem passaporte diplomático e seguro de saúde concedidos pelo Itamaraty: “Como sabemos nos defender – ele é advogado por Yale, e eu por Harvard –, é difícil nos discriminar”.
O beijo é uma manifestação de afeto. Se os telejornais mostram casais gays reais se beijando em casamentos coletivos, por que na ficção a cena seria imprópria a crianças e adolescentes?

Em 1978, o deputado Harvey Milk foi morto por defender os homossexuais. Dez anos antes, em 1968, o Nobel da Paz Martin Luther King foi morto por defender os negros. Há quase um século, em 1913, a inglesa Emily Wilding Davison morreu ao defender o voto das mulheres. O mundo mudou, felizmente. Mas não o bastante.

- Ruth de Aquino
Reproduzido via Conteúdo Livre

Súplica reeditada


Pai nosso e dos exilados, dos deprimidos, das meninas vendidas à prostituição, dos curdos, das aeromoças, dos ianomâmis, dos carvoeiros, das juízas, dos mineradores chineses, dos médicos legistas, dos cabelereiros, das noviças, dos poetas, das atrizes, dos teólogos, das massagistas, dos meus filhos e netos, dos ateus, das motoristas de ônibus, dos carcereiros.

Que estás no céu, na terra, no vácuo, no hades, no patíbulo, na floresta, na sala de hemodiálise, no cabaré, na UTI, no acampamento dos sem-terra, na catedral, na sala de tortura, no asilo de velhos, no botequim, no matadouro, no quartel, na ambulância, no escafandro, no aeroporto, no palco, na piscina, no hospício.

Santificados sejam o teu nome, a ideia que fazemos de ti, o livro que escrevemos sobre ti, a música que cantamos sobre ti, os planos de paz que organizamos pensando em ti, a mulher que tocamos por seguirmos a ti; e o futuro que sonhamos por ousarmos te chamar de Pai.

Venha o teu reino. Sentimos a urgência não de ir até aí, mas de demonstrar aqui neste planeta diminuto a aspiração que está no além. Queremos nos enraizar neste chão para fazer algo novo, algo que se sobreponha ao que já se construiu na história. Acontece que somos inadequados, claudicantes e egoístas. Incentiva-nos a querer mostrar lampejos do que seria a vida se vivêssemos, minimamente, teus valores. Faze-nos subversores do inexorável, sabotadores das sinas, revolucionários do amanhã. Precisamos da esperança que desvela outra realidade, outro mundo, outra forma de viver.

Seja feita a tua vontade na terra como ela é feita no céu. Desde a criação decidiste que homens e mulheres tomariam os rumos da história. Tu assinalaste a eles a responsabilidade de disseminar bondade e não crueldade, equidade e não injustiça, criatividade e não opressão, liberdade e não escravidão. Anima-nos para que possamos incubar vida, parir oportunidade, perenizar o bem e assim estreitar esse abismo que nos separa de tua morada.

O pão nosso de cada dia, nos dai hoje, mas que este pão nos alimente física, emocional e espiritualmente. Não nos deixe satisfeitos com a ração que nos apequena em nossa humanidade. Temos fome de sentido, carecemos de afetos, ansiamos por beleza, desejamos transcendência. Dá-nos gula de palavras; e que as palavras, transformadas em versos, nos saciem de eternidade. E que as parábolas, temperadas de metáforas, se transformem no banquete que nos salva no dever inclemente de sobreviver, só sobreviver.

Perdoa a nossas dívidas bem como as ofensas grosseiras de quem ataca a adolescente, o homossexual, o pobre, o negro, o cigano, o gari, o porteiro, a babá, o garçom, o pedreiro, o trovador, a enfermeira, a maria-ninguém. Somos cruéis uns com os outros, lentos em reconhecer a dignidade alheia. Mordazes, desaprendemos a respeitar dores. Inclementes, desonramos sonhos. Insensíveis, não paramos para ouvir queixas. O perdão nos livra dos grilhões que nos aferramos com o endurecimento. Precisamos de misericórdia, antídoto que nos salva do veneno que tentamos inocular nos outros. Falta-nos a percepção que revidar só expõe a soberba de nos achar melhores e mais privilegiados que os demais.

Assim como perdoamos aos nossos devedores, não nos deixa aspirar de ti nada além do que fazemos pelo próximo. Não te sintas obrigado a nos absolver mais do que absolvemos, a nos compreender mais do que compreendemos, a nos proteger mais do que protegemos. A régua que medirmos deve ser a mesma que esperamos ser aferidos. Que nossa balança não se vicie. E que nós nos identifiquemos no próximo, única forma de amá-lo.

Não nos deixe cair em tentação. Livra-nos do mal, que é a desgraça de cobiçar poder, honra e glória. Lembra-nos: cobiçar poder transforma anjo em diabo e homens em demônios. Que não nos iludamos com caminhos largos, com brilho intenso ou com segurança de riqueza sem fim. Desperta-nos para a vida do Nazareno que desprezou valer-se do divino em sua árdua trilha humana. Sem apelar para poderes sobrenaturais, ele se fez gente. Foi grande porque não fugiu da morte estúpida e banal que os opressores lhe impuseram. Dá-nos a serenidade de não nos seduzir pela mentira de que existe outra senda senão a que ele escolheu.

Amém.

Soli Deo Gloria

- Ricardo Gondim
Reproduzido via site do autor.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Não há dois caminhos iguais...

Imagem daqui

A espiritualidade inaciana é um caminho para Deus estreitamente ligado à vida concreta. Deus nos chama a cada dia para o desconhecido, para o novo; Deus nos tira de casa e nos faz sair do nosso egoísmo, das nosas seguranças e comodidades, para nos conduzir e fazer entrar numa “terra nova”...

Ao “deixar-se conduzir” cada pessoa vai construindo seu caminho, único, original e sagrado...

Em um dos seus raros escritos, o sábio sufi Hafiz Shirazi (1325 – 1389) comenta a busca espiritual:
“Aceite com sabedoria o fato de que o Caminho está cheio de contradições. 
O Caminho, muitas vezes, nega-se a si mesmo, para estimular o viajante a descobrir o que existe além da próxima curva. 
Se dois companheiros de jornada estão seguindo o mesmo caminho, isto significa que um deles está na pista falsa, pois não há uma fórmula igual para se atingir a verdade do Caminho, e cada um precisa correr os riscos de seus próprios passos. 
Só os ignorantes procuram imitar o comportamento dos outros. Os homens inteligentes não perdem seu tempo com isto, e desenvolvem suas habilidades pessoais; sabem que não existem duas folhas iguais numa floresta de cem mil árvores; não existem duas viagens iguais no mesmo Caminho”.
- Pe. J. Ramón F. de la Cigoña SJ
Reproduzido do blog do autor, Terra Boa
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