sábado, 19 de maio de 2012

História da homossexualidade




Como derrubar preconceitos históricos? Ao longo dos séculos, a homossexualidade já foi entendida de várias formas e, mesmo com a evolução em tantos campos, o assunto ainda gera polêmica, e até violência. Uma entrevista com Luis Correia Lima, padre jesuíta e historiador, concedida ao Canal Saúde, da Fiocruz, em 28/06/11 (postagem original aqui).

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A emergência das forças teocratas nos EUA

"Casamento Gay é do Mal"
- Vocês poderiam parecer mais assustadores, por favor?
Charge: Mike Luckovich

Artigo de Idelber Avelar para a Revista Fórum deste mês (leia a matéria de capa deste mesmo número, sobre a investida dos fundamentalistas contra o Estado Laico, aqui):

Num momento em que o Brasil atravessa uma assustadora onda teocrata, com níveis inéditos de violência homofóbica, uma enxurrada de projetos de lei inconstitucionais, em clara violação do Artigo 19 da Carta Magna, e sucessivas concessões do governo ao neopentecostalismo mais reacionário, vale a pena revisitar a ascensão recente da direita religiosa nos Estados Unidos. Trata-se de uma história bem diferente da brasileira, sem dúvida, mas talvez ela contenha alguma lição.

Das sete eleições presidenciais realizadas nos EUA entre 1980 e 2004, os Republicanos venceram cinco. A direita religiosa foi chave em cada uma dessas cinco vitórias. Mais importante ainda, a atuação do neoevangelismo e a recusa do Partido Democrata em combatê-lo de frente foram decisivas no movimento do centro político dos EUA na direção da direita. Posições acerca de temas econômicos e culturais que, até os anos 70, teriam sido consideradas de um conservadorismo extremista passaram a transitar pelo discurso político como se fossem centristas e razoáveis. A emergência de um discurso que, em termos latino-americanos ou europeus, chamaríamos de esquerda, era uma possibilidade nos EUA até aquele momento (à raiz da grande mobilização dos anos 60), mas ela foi soterrada com a eleição de Ronald Reagan em 1980 e só voltaria a dar sinais de vida trinta anos depois, com o Ocupar Wall Street. De certa forma, a hegemonia Republicana não foi interrompida por Clinton ou Obama, na medida em que seus governos foram adaptações Democratas do programa Republicano (lembre-se, por exemplo, que foi Clinton quem desmantelou o sistema de bem-estar social e foi Obama quem legalizou o assassinato extra-judicial de cidadãos acusados de “terrorismo”). Muitos fatores contribuíram para essa longa hegemonia conservadora, mas a atuação da direita neopentecostal foi decisiva.

Somente a partir da eleição de Reagan se unifica o tripé reacionário que constituiria a nova face do Partido Republicano. Esses três segmentos do conservadorismo eram, até então, relativamente independentes entre si e nem todos possuíam vida partidária ativa. A partir da década de 1980, eles se unem e formam um bloco temível: falo daquilo que, nos EUA, chamamos de conservadores econômicos (defensores do “livre mercado” e do Estado mínimo, que passam por uma trajetória de aproximação crescente a um fundamentalismo à la Ayn Rand), os falcões da política externa (representantes da indústria bélica e proponentes de um destino manifesto dos EUA de controle sobre o resto do planeta) e os conservadores sociais, que se mobilizam em torno de bandeiras como a proibição do aborto e do casamento gay, o ensino de criacionismo nas escolas e a promoção de abstinência sexual. A direita neopentecostal é o grande motor deste último grupo, até o ponto em que o rótulo “conservadores sociais” se tornou, nos EUA, uma espécie de outro nome para os teocratas.

O apoio incondicional a Israel tem sido um dos eixos da aliança entre os três setores. Pode parecer paradoxal à primeira vista, mas o sionismo mais extremista nos EUA não tem sua base na comunidade judaica, e sim no cristianismo neopentecostal. Os que mais se mobilizam na promoção e financiamento da colonização ilegal na Palestina são os chamados cristãos renascidos, que creem que aqueles que não se reconciliarem com Cristo na sua segunda vinda à Terra estão condenados ao inferno. Note-se que se trata de um ensinamento fundamentalmente antissemita. Mas a acusação de antissemitismo, claro, nunca é feita a esses grupos, já que seu apoio a Israel é incondicional. A “resolução” desse bizarro paradoxo se dá através da doutrina do chamado “dispensacionalismo”, que preconiza que o controle completo de toda a Palestina pelo estado de Israel é um prerrequisito para a segunda vinda do Messias.

Um dos equívocos mais comuns na compreensão dos teocratas ocidentais de hoje em dia é acreditar que eles são um mero resquício, uma sobrevivência medieval ou pré-moderna, fadada a desaparecer quando as sociedades se secularizarem por completo. Nada é mais falso. Trata-se de uma operação especificamente moderna, com raízes no colonialismo inglês do século XIX e muito ancorada nas novas tecnologias. Pat Robertson, por exemplo, um dos principais líderes da direita religiosa dos EUA, construiu seu império como evangelista televisivo, começando com o estabelecimento do Christian Broadcasting Network (CBN), em 1960, uma intensa campanha para a compra de receptores de TV a cabo entre neopentecostais nos anos 60, a fundação do Canal da Família nos anos 70 e a explosão de programas de TV evangélicos nos anos 80. Nessa mesma década, Robertson se consolidaria como arrecadador para os contras da Nicarágua e parceiro de Ronald Reagan na confecção da aliança que selou o pacto entre falcões da política externa, conservadores sociais e conservadores econômicos. Seria em 1983, justamente na convenção da Associação Nacional de Evangélicos, que Ronald Reagan faria o pronunciamento que ficou conhecido como “o discurso do império do mal”, em que a União Soviética era definida nesses termos, já puramente morais e não políticos.

Desde a campanha presidencial de Richard Nixon em 1968, fortemente ancorada nos medos dos brancos sulistas ante os avanços da legislação dos direitos civis (e decisiva na perda da longa hegemonia que o Partido Democrata, o partido da escravidão, sempre possuíra no sul), a direita cristã acumulou uma série de vitórias organizativas. Entre os grupos de direita religiosa formados nos anos 70 e 80 se contam: o Fórum Águia (1972), a Causa Cristã Americana (1974), o Foco na Família (1977), a Voz Cristã (1978), especificamente treinada para arregimentar evangélicos em eleições, a Maioria Moral (1979), do ultra-reacionário Jerry Falwell, a Washington para Jesus (1980), instrumento de congregação dos cristãos de direita na campanha de Ronald Reagan, o Conselho de Pesquisa da Família (1983) e, finalmente, a Coalizão Cristã (1987), de Pat Robertson, talvez a mais poderosa voz da direita evangélica nos EUA.

Se tivermos que definir qual o recurso retórico mais utilizado por esse segmento ao longo dos anos, diríamos que foi a metonímia, a toma (ou, aqui no caso, a confusão deliberada) da parte pelo todo. A expressão “Maioria Moral”, por exemplo, não poderia ser mais enganosa. As visões representadas por esse grupo estão quilômetros à direita do que poderia ser considerado o centro e a maioria do espectro político dos EUA. A maioria dos cidadãos dos EUA defende, por exemplo, o direito ao aborto. 67% concordam que a Constituição “exige uma clara separação entre Igreja e Estado”. A Coalizão Cristã não representa, portanto, nem mesmo as visões dominantes entre os cristãos dos Estados Unidos. Mas quando se fala em “cristãos” na política dos EUA, pensa-se neles. A atividade dos grupos da direita evangélica, combinada com a superexposição midiática e a recusa do Partido Democrata a enfrentá-los politicamente, acaba colocando-os na posição permanente de fazer chantagens e ameaças, e vai criando essa imagem distorcida do corpo político. O resultado é que o centro do espectro nunca está à direita o suficiente, pois os grupos teocratas, incentivados pela falta de uma resposta contundente dos liberais seculares, vão acumulando conquistas e abocanhando mais território. Nesse aspecto, o processo guarda uma semelhança assustadora com o que se vive hoje no Brasil.

O excelente site Theocracy Watch mapeia a lista de matérias sobre as quais os teocratas intervêm com regularidade nos EUA . É uma iniciativa que, aliás, deveria ser replicada no Brasil, combinando-se o ótimo trabalho que já fazem os blogs Comer de Matula, Fiscais de Fiofó e Eleições Hoje. No caso do ensino fundamental e médio, a estratégia da direita cristã tem sido promover candidatos aos conselhos das escolas ao mesmo tempo em que retira seus filhos das escolas públicas. Robert Thoburn, um dos reconstrucionistas mais influentes em política educacional, afirmou claramente: “O seu objetivo, uma vez eleito para o conselho, deve ser afundar o navio”. Dois dos projetos documentados em vários textos da direita cristã (e abraçados por um pré-candidato Republicano à Presidência este ano, Rick Perry) são a abolição do Ministério da Educação e a derrubada da decisão de 1962 da Suprema Corte, que declarou inconstitucional que o Estado patrocine orações nas escolas públicas como parte do currículo. Na batalha para conferir legitimidade ao criacionismo nas escolas, como se ele fosse ciência legítima, o Instituto Discovery tem sido até mais influente que os grupos fanáticos como a Coalizão Cristã. Ele aposta na estratégia de “lecionar a controvérsia” – como se houvesse uma controvérsia real entre cientistas acerca da evolução ou o criacionismo. Esse marco, que confere ao fanatismo religioso uma cara moderada e razoável, se encarna na chamada teoria do design inteligente, que é simplesmente criacionismo com pretensões e retórica pseudo-científica, que faz uso de um procedimento básico de qualquer ciência – a dúvida – para desqualificar pesquisa já comprovada e sugerir que o fenômeno estudado não é explicável sem a hipótese de uma “inteligência” (outro nome para a divindade) por trás dele.

Nenhuma análise da direita religiosa dos EUA está completa sem menção ao fato de que se trata, em vários sentidos, de uma guerra contra as mulheres. De certa forma, a própria emergência da direita cristã é, em sua totalidade, uma tentativa de reverter a decisão da Suprema Corte conhecida como Roe v. Wade, de 1973, que cancelou várias restrições estaduais e federais ao aborto. De lá pra cá, e especialmente durante o governo Bush, uma série de limitações voltaram a ser impostas ao aborto, que continua (não se sabe até quando) legal nos EUA. Em novembro de 2003, rodeado por legisladores homens – não havia uma única mulher –, George W. Bush assinou a proibição do “aborto por nascimento parcial”, que é uma técnica para interromper a gravidez avançada, de 20 a 26 semanas. Em 2004, o “Ato sobre as vítimas não-nascidas de violência” conferia o estatuto de pessoa humana ao feto – exatamente o que se tenta agora no Brasil com o chamado estatuto do nascituro. A medida, na prática, conferia fundamento jurídico para uma futura revogação de Roe v. Wade. O grupo de defesa dos direitos das mulheres, NARAL, contabilizou, desde 1995, 335 medidas anti-escolha, promulgadas num contexto em que é cada vez mais difícil para um médico realizar abortos e cada vez mais arriscado para uma mulher visitar as clínicas, dada a intensa pressão, com frequência acompanhada de agressões, com que os grupos anti-escolha têm se manifestado.

Mas a grande vitória dos teocratas dos EUA não foi assinada por nenhum dos George Bush nem por Ronald Reagan. Isso é o mais incrível. A maior conquista teocrata nos EUA dos últimos 30 anos foi assinada por Bill Clinton, e é conhecida como “Ato de Defesa do Casamento”, a inacreditável lei de 21 de setembro de 1996 que define o casamento como a união de um homem e uma mulher. Concebida, evidentemente, como um ataque direto a gays e lésbicas, o ato estipula que nenhum estado dos EUA será obrigado a reconhecer um casamento entre pessoas do mesmo sexo realizado em outro estado. A seção 3, depois declarada inconstitucional por duas cortes de Massachusetts (mas ainda sob recurso), determinava o não-reconhecimento federal de qualquer casamento entre pessoas do mesmo sexo para efeitos de herança, seguridade social, planos de saúde ou declarações de imposto de renda. O voto na Câmara dos Deputados foi um massacre: 342 a 67. No Senado, outra goleada: 85 a 14. Bill Clinton assinou essa monstruosidade como parte de uma estratégia de “conciliação” com os teocratas.

Pesquisa atrás de pesquisa demonstrava que a população dos EUA não se importava com isso e, quando perguntada, declarava-se majoritariamente contra essa explícita restrição aos direitos de gays e lésbicas. Qualquer análise sociológica e estatística minimamente competente mostrava que o ato era uma estratégia de Republicanos desesperados com a popularidade de Clinton e dispostos a mobilizar uma franja fanática do eleitorado. A estratégia Democrata de recusar o debate aberto, de não encarar a polêmica, só rendeu, no final das contas, mais dividendos para a teocracia cristã, sempre pronta a empurrar os limites do possível para a direita. A experiência norte-americana dos últimos 30 anos mostra claramente: a maioria da população não é composta de homofóbicos e misóginos convictos, mas a homofobia e a misoginia prosperam quando a dinâmica das seguidas concessões impede o debate aberto. Que o governo federal entenda isso, antes que o PT perca definitivamente a autoridade moral para falar em direitos humanos.

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Quando Deus pauta a política

29ª Vigília internacional pelos mortos de Aids: amanhã, 20/05, em São Paulo


Amanhã, 20/05, o pessoal da Pastoral da Diversidade vai participar da Vigília Internacional sobre a AIDS. Saiba mais sobre o grupo aqui e  no www.pastoraldadiversidade.com.br.

Em torno de 100.000 pessoas de todo o mundo celebrarão no próximo dia 20 de maio a Vigília Internacional sobre a AIDS para recordar aqueles que perderam suas vidas como consequência da enfermidade e apoiar aqueles que vivem com HIV ou se veem afetados pelo seu impacto. Apoiados por líderes comunitários, empresários e religiosos de 500 cidades e povos de 115 países, os participantes da Vigília têm pedido a todos os atores da resposta ao HIV que atuem com maior intensidade.
"A Vigília Internacional sobre a AIDS é um lembrete vivo de nossa constante batalha contra essa enfermidade tão letal”, afirma Mayowa Joel, coordenador da Vigília na Nigéria. "Recordar aos amigos e entes queridos que perdemos pela AIDS é essencial nesse momento em que os financiamentos diminuem e mudam as prioridades de saúde e desenvolvimento, o que ameaça os avanços que temos realizado para acabar com a Aids e reduzir a propagação do HIV e outras enfermidades intimamente relacionadas, especialmente a tuberculose”.

Segundo as últimas estatísticas de ONUSIDA, em todo o mundo cerca de 34 milhões de pessoas vivem com a Aids. Aumentar o acesso ao tratamento tem conseguido estabilizar a epidemia, no entanto morrem a cada ano 1,8 milhões de pessoas de enfermidades relacionadas à Aids, enquanto em torno de 2,7 milhões de pessoas se infectam. Anualmente, pelo menos 390.000 crianças nascem com o HIV, algo que é absolutamente prevenível com o conhecimento médico atual.

As pessoas que têm participado da Vigília Internacional desse ano solicitaram aos governos e aos organismos internacionais que garantam que mais pessoas possam ter acesso a melhores serviços sanitários, assim como ao tratamento do HIV. Também pediram aos governos locais e nacionais que façam mais para defender os direitos das pessoas que vivem com o HIV e deixem de tolerar o estigma e a discriminação.

Segundo os participantes da Vigília, a resposta ao HIV só terá êxito quando se converter em um esforço que aborde e se sustente nas necessidades de todos os afetados pelo HIV, incluindo as pessoas que vivem com o vírus e grupos específicos como homens que têm relações sexuais com homens, usuários de drogas, profissionais do sexo, mulheres e jovens.

Promover conjuntamente a saúde e a dignidade é o tema da Vigília desse ano. Salienta que não se pode preservar a saúde nem o bem-estar se não se respeita a dignidade da pessoa e se promovem ou protegem os direitos de todos. Promover conjuntamente a saúde e a dignidade está intimamente relacionado ao marco baseado nos direitos da Saúde, dignidade e prevenção positivas, que focam na saúde e no bem-estar das pessoas soropositivas. Desenvolvido pela UNISIDA e GNP+, este marco tem servido como referência para as políticas nacionais que respondem às necessidades das pessoas que vivem com HIV em todo o mundo.

Histórico
A Vigília Internacional sobre a AIDS, coordenada pela Rede Mundial de Pessoas que Vivem com o HIV, é uma das maiores e mais antigas campanhas de mobilização popular para promover a sensibilização sobre o HIV no mundo. Começou no ano de 1983 e se celebra a cada terceiro domingo de maio sob a liderança de organizações comunitárias, sanitárias e religiosas de 115 países. A Vigília, tendo em conta que 33 milhões de pessoas vivem atualmente com o vírus, é uma intervenção importante para promover a solidariedade mundial, reduzir o estigma e a discriminação e dar esperança às novas gerações.

Para muitos organizadores, a mobilização comunitária para a Vigília começa no Dia Mundial de Combate à Aids (1º de dezembro) e acaba com o ato internacional de maio. As organizações coordenadoras são diversas e nelas se incluem as principais redes da população, organizações de serviços, instituições acadêmicas, centros de atenção sanitária, grupos religiosos, empresas, meios de comunicação, entre outros.

Os atos de comemoração vão de pequenas vigílias comunitárias a celebrações nacionais que transcorrem durante dias. Para além da memória, muitas organizações coordenadoras utilizam a Vigília como uma oportunidade para promover os serviços locais do HIV, fomentar a educação e o diálogo comunitário e defender a melhora das políticas públicas.

A liderança das pessoas que vivem com HIV e daqueles afetados pelo vírus é um aspecto essencial da Vigília. O fato de que é liderado pelas comunidades é o que torna este evento tão especial e importante.

(Fonte: Adital)

Só a experiência direta e imediata do Evangelho pode revitalizar a Igreja

Imagem via Facebook

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 16, 15-20 que corresponde ao Domingo da Ascenção do Senhor, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Os evangelistas descrevem com diferentes linguagens a missão que Jesus confia aos seus seguidores. De acordo com Mateus, hão de “fazer discípulos” que aprendam a viver como Ele os ensinou. De acordo com Lucas, hão de ser “testemunhas” do que viveram junto Dele. Marcos resume tudo dizendo que hão de “proclamar o Evangelho a toda a criação”.

Quem se aproxima hoje de uma comunidade cristã não se encontra diretamente com o Evangelho. O que se percebe é o funcionamento de uma religião envelhecida, com graves sinais de crise. Não podem identificar com clareza no interior dessa religião a Boa Nova proveniente do impacto provocado por Jesus há vinte séculos.

Por outro lado, muitos cristãos não conhecem diretamente o Evangelho. Tudo o que sabem de Jesus e da sua mensagem é o que podem reconstruir de forma parcial e fragmentária escutando catequistas e pregadores. Vivem a sua religião privados do contato pessoal com o Evangelho.

Como poderão proclamá-lo se não o conhecem nas suas próprias comunidades? O Concílio Vaticano II recordou algo demasiado esquecido nestes momentos: “O Evangelho é, em todos os tempos, o princípio de toda a sua vida para a Igreja”. Chegou o momento de entender e configurar a comunidade cristã como um lugar onde o principal é acolher o Evangelho de Jesus.

Nada pode regenerar o tecido em crise das nossas comunidades como a força do Evangelho. Só a experiência direta e imediata do Evangelho pode revitalizar a Igreja. Dentro de alguns anos, quando a crise nos obrigue a centrar-nos apenas no essencial, veremos com clareza que nada é mais importante hoje para os cristãos do que nos reunir para ler, escutar e partilhar juntos os relatos evangélicos.

O principal é acreditar na força regeneradora do Evangelho. Os relatos evangélicos ensinam a viver a fé, não por obrigação mas por atração. Fazem viver a vida cristã, não como dever mas como irradiação e contágio. É possível introduzir já nas paróquias uma dinâmica nova. Reunidos em pequenos grupos, em contato com o Evangelho, iremos recuperar a nossa verdadeira identidade de seguidores de Jesus.

Temos de voltar ao Evangelho como novo começo. Já não serve qualquer programa ou estratégia pastoral. Dentro de uns anos, escutar juntos o Evangelho de Jesus não será uma atividade a mais entre outras, mas a matriz desde a qual começará a regeneração da fé cristã nas pequenas comunidades dispersas no meio de uma sociedade secularizada.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Metafísica

Foto: Amy Hildebrand 

HÁ METAFÍSICA bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

- Fernando Pessoa
(Fonte: A fé absurda)

40% dos países membros da ONU criminalizam relações homoafetivas


No Chile, no último 27 de março um jovem de 24 anos, brutalmente espancado, não resistiu e morreu. Morreu porque era homossexual. Daniel Zamudio entrou para a lista de casos de crimes de ódio e intolerância que imperam em pleno Século XXI. Hoje [Ontem] (17), Dia Internacional de Luta contra Homofobia, manifestações por direitos humanos se realizaram em vários países do mundo pedindo respeito à orientação sexual, direito à cidadania e justiça para casos como esses.

Todas essas manifestações fazem um contraponto a dados alarmantes que representam sérios retrocessos no trato dos direitos humanos de homens e mulheres, independente de suas orientações sexuais.

O relatório lançado ontem pela Associação Internacional Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersex (ILGA, por suas siglas em inglês) indica que 40% dos países membros da Organização das Nações Unidas criminalizam atos sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Mais: 78 países de 193 ainda possuem leis punitivas para pessoas que mantenham relações homoafetivas. Assim, por exemplo, é ilegal ser gay no Irã, na Argélia, Bangladesh (com pena de prisão perpétua), Arábia Saudita, entre outros.

Este relatório, lançado em Genebra, se concentra no levantamento de leis que criminalizam a atividade sexual com consentimento entre pessoas do mesmo sexo. "Lamentavelmente, esta sexta edição de nosso relatório anual sobre a homofobia de Estado contempla um aumento do número total de países no mundo cuja legislação persegue as pessoas em função de sua orientação sexual – agora são 78 contra os 76 do ano passado”, afirma o documento da Ilga.

Entre alguns avanços, o Brasil é citado por conta da homologação que reconhece a união entre pessoas do mesmo sexo, como pessoas possíveis de constituir famílias. No entanto salienta que o país ainda não tem uma legislação que puna devidamente casos de homofobia e dedique maiores proteção a esta população.

"Todavia, as políticas públicas em defesa e em favor das pessoas LGBT não são suficientes nem eficazes na redução da violência homofóbica, que inclui assassinatos de gays e lésbicas, violência moral e os preconceitos no trabalho e nos meios de comunicação. O Brasil não conta com nenhuma instituição pública nem um projeto específico contra as ocorrências de crimes por homofobia e violência, seja física ou simbólica”, assinala o relatório.

Na América Latina, diz o documento, apesar de os países serem signatários de vários tratados e convenções que protegem os direitos humanos no que diz respeito à orientação sexual e identidade de gênero, às condições de igualdade e liberdade cidadã, ainda não há um compromisso real e prático dos Estados em oferecer mecanismos que ponham fim à violência à população LGBT.

Nesta parte o levantamento do Ilga relata a morte do jovem chileno Daniel Zamudio e de 11 lésbicas na região da América Latina e Caribe que eram reconhecidas ativistas pelos direitos humanos. "É uma violência que não é coerente com a vontade expressada pelos governos que representam os estados assinantes [dos tratados e convenções]”, complementa.

Em Honduras, de setembro de 2008 a fevereiro deste ano, foram 71 mortes registradas de pessoas LGBT, segundo relatou à Ilga a Rede Lésbica Cattrachas. O Caribe também representa uma preocupação, já que 11 países dessa região ainda perseguem e castigam com prisão pessoas com orientações diversas que não sejam heterossexuais.

De todo modo, o relatório elogia as iniciativas da sociedade civil organizada que lutam cotidianamente pelos cumprimentos dos direitos LGBT, salientando que através delas é que é possível conseguir mudanças significativas neste cenário, neste mundo onde as pessoas precisam ser respeitadas pelo que são.

O relatório completo aqui. Mapas e gráficos produzidos pela ILGA sobre a homofobia no mundo, aqui (via Fora do Armário).

(Fonte: Adital)

Integrantes do Movimento Gay de Maringá se reúnem com líderes religiosos

Imagem daqui

É hoje, e o Diversidade Católica estará presente! :-)

Integrantes do Movimento Gay de Maringá realizarão um encontro com líderes religiosos, entre eles o arcebispo Dom Anuar Battisti, a partir das 16h desta sexta-feira (18), na Cúria Metropolitana da Igreja Católica.

O encontro faz parte das manifestações da Semana Municipal de Combate à Homofobia, que culminará com a Parada Gay de Maringá, no próximo domingo (20). Participarão da reunião representantes da Pastoral da Diversidade da Igreja Anglicana, Igreja Comunidade Metropolitana e Igreja Metodista.

"Também estará presente o líder um dos fundadores do Grupo Diversidade Católica, do Rio de Janeiro, que reúne gays e lésbicas católicos. Nossa intenção é mostrar as dificuldades que os homossexuais enfrentam em seu dia a dia por conta de sua opção sexual, e expor como eles se sentem mal em não poder seguir a religião que escolheram", fala o integrante do movimento de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais (LGBT) de Maringá , Luiz Modesto.

Conforme Modesto, o encontro é ecumênico, por isso o convite é estendido também a todos os líderes religiosos que desejarem participar da reunião.

(Fonte: odiario.com. Enviado pelo querido @MarkosOliveira)

Leia também:
Uma questão de justiça: os LGBTs de Maringá e a Catedral

Minha fé não é aquilo em que acredito


Texto de Paulo Brabo, publicado simultaneamente no blog Bacia das Almas e na versão online da Revista Ultimato, em 21/09/2007:

A distinção mais útil que encontrei nesta caminhada foi a que estabeleceu Jacques Ellul entre fé e crença. Crença é aquilo que professamos acreditar; é o contéudo doutrinário peculiar à nossa facção religiosa, expresso com palavras muito bem escolhidas em nossas declarações de fé. Não há, por outro lado, conjunto de palavras suficiente para definir adequadamente a fé. Nossas crenças são passíveis de exposição, mas nossa fé é questão pessoal – seu conteúdo é o mistério tremendo, a tensão superficial entre eu e o universo, entre eu e o desconhecido, entre eu e o futuro, entre eu e a morte, entre eu e o outro, entre eu e Deus.

Os religiosos de todas as estirpes vivem em geral muito mais preocupados com as filigranas da crença do que com a vivência da fé – e posso dizê-lo por experiência própria. As divisões que fazemos questão de estabelecer entre a nossa e as demais facções da cristandade, e entre a cristandade e as outras heranças religiosas, estão fundamentados, naturalmente, em diferenças de crença. Às vezes dizemos que diante de Deus o desafio da fé é o mesmo para todos, mas agimos claramente como se nossa identidade de cristãos e de seres humanos fosse adequadamente definida pelo teor de nossas crenças. Sentimo-nos devidamente legitimados, devidamente representados, pela felicidade de pertencermos ao grupo ou denominação que professa (ao contrário, naturalmente, de todas os outros grupos ou denominações) a crença mais pura, destilada e correta. Fingimos que nos dobramos diante de Deus e de seu Cristo, mas nosso cristianismo é ortodoxolatria.

“A fé”, explica Ellul, “isola o indivíduo; a crença, (qualquer que seja, inclusive a cristã) ajunta pessoas. Na crença nos vemos unidos a outros na mesma corrente institucional, todos orientados em direção ao mesmo objeto de crença, compartilhando das mesmas idéias, seguindo os mesmos rituais, arrolados na mesma organização, falando o mesmo dialeto.”

Diante disso, sinto-me cada vez menos inclinado a responder aos que perguntam em que acredito, ou aos que levantam-se em indignação quando ouvem a temerária confissão de alguma crença minha (“O quê? O Brabo acredita na evolução?” “O quê? O Brabo não condena a fé dos católicos?” “O quê? O Brabo crê que igreja bem-sucedida é a que fecha as portas?” “O quê? O Brabo acredita em [inserir crença arbitrária aqui]“). Sinto-me cada vez menos motivado a responder aos que perguntam sobre minha tradição religiosa, a qual denominação pertenço, se faço parte de alguma igreja, se endosso determinado autor ou se fico devidamente escandalizado diante de determinada barbárie doutrinária.

Não devo iludir a mim mesmo ou a quem quer que seja dando a impressão de que resta algo de importância na vida espiritual (ou na vida) que não seja a fé, e – minha gente – minha fé não é aquilo em que acredito. Minha fé não está naquilo em que acredito, e nem poderia estar. Minha fé não é adequadamente expressa por aquilo em que acredito, e nem poderia ser.

Em primeiro lugar, porque minhas crenças mudam, mesclam-se e transformam-se constantemente. Minhas crenças nascem, reproduzem-se e morrem num plano totalmente independente do desafio que está na fé. Em segundo lugar porque, como lembra Ellul, “toda crença é um obstáculo à fé. As crenças atrapalham porque satisfazem a nossa necessidade de religião”. Quem pergunta aquilo em que acredito está tentando estabelecer comigo a mais rasteira das conexões; está querendo legitimar a sua crença a partir da minha, e isso não tem como ser saudável para ninguém.

Quem se abraça dessa forma à crença está buscando, evidentemente, o conforto do terreno conhecido e palmilhado. “A crença é confortadora”, observa Ellul. “A pessoa que vive no mundo da crença sente-se segura”. A fé, por outro lado, é coisa terrível, a que ninguém em são juízo deveria aspirar. A fé deixa-me sozinho com um Deus que pode não estar lá. A fé convida-me a um grau de liberdade que posso não ter o desejo de experimentar. A fé quer tirar-me da zona de conforto da crença e levar-me para regiões de mim mesmo e dos outros aonde não quero ir. A fé pressupõe a dúvida, a crença exclui a dúvida. A crença explica sensatamente aquilo em que acredito, a fé exige loucamente que eu prove.

Nossas crenças são âncoras de legitimação, que nos mantém seguros no lugar mas nos impedem de seguir adiante – o que, convenhamos, é muito conveniente. Quem iria em sã consciência escolher abandonar o abraço confirmatório da crença comum e dar um passo em direção à vertigem da fé, ao desafio de tornar-se um indivíduo separado, distinto e singular (numa palavra, santo) diante de Deus? Queremos voltar para o Egito, onde havia cebolas; não suportamos o desafio constante, sempre iminente, sempre exigente, do deserto.

Não tenho como recomendar a crença; sua única façanha é nos reunir em agremiações, cada uma crendo-se mais notável do que a outra e chamando o seu próprio ambiente corporativo de espiritualidade. Não tenho como endossar a crença; não devo dar a entender que a espiritualidade pode ser adequadamente transmitida através de argumentos e explicações. Não devo buscar o conforto da crença; o Mestre tremeu de pavor e não tinha onde reclinar a cabeça. Não devo ouvir quem pede a tabulação da minha crença; minha fé não é aquilo em que acredito.

Nunca deixa de me surpreender que para o cristianismo Deus não enviou para nos salvar um apanhado de recomendações ou uma lista suficiente de crenças, mas uma pessoa. Minha espiritualidade não deve ser vivida ou expressa de forma menos revolucionária. Não pergunte em que acredito. Mande um email, pegue uma condução, venha até minha casa, tome um café na minha mesa e aceite o meu abraço. Não devo esperar ato maior de fé, e não tenho fé maior para oferecer.

Leia também:
"Fé e crença", Jacques Ellul

quinta-feira, 17 de maio de 2012

"Eu trabalho para que as coisas fiquem melhores"


"Eu trabalho para que as coisas fiquem melhores", dizem, nos respectivos idiomas, os cerca de 50 políticos e líderes de instituições europeias que participam num novo vídeo inspirado na campanha It Gets Better, que pretende ajudar os jovens LGBT a vencer o isolamento e a combater as tentativas de suicídio devido à discriminação.

Os políticos mostram a cara num vídeo divulgado a propósito do Dia de Combate à Homofobia e Transfobia, que marca a data de hoje, 17 de maio. Martin Schulz (presidente do Parlamento Europeu) e Herman van Rompuy (presidente do Conselho Europeu) também participam.

Será que algum dia veremos também os nossos políticos tirando a sua solidariedade do armário? E nossos amigos e familiares, colegas e conhecidos? E cada um de nós?

Que também aqui a homofobia não tenha mais lugar.

(Fonte: dezanove.pt)

Dividindo o mundo em caixinhas

Foto daqui

Da querida Kamila Oliveira, do Minoria é a Mãe (o blog que volta e meia diz tudo o que a gente queria dizer, mas não sabia como). Perfeito para, no dia internacional de combate à homofobia, nos lembrarmos de combater os preconceitos embutidos nos rótulos que nós mesmos construímos para classificar o mundo, as coisas e as pessoas:

Rótulos são facas de dois gumes. Quando precisamos falar de um movimento, de um grupo de pessoas, ou coisas do tipo, rotular é útil. Definir para as pessoas que existem gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros ajuda, porque o ser humano têm essa necessidade de dividir tudo em coisas muito específicas para poder simplesmente começar a pensar sobre o assunto. O problema é que, como talvez você já tenha percebido na frase acima, existem muitos outros conceitos entre esses poucos que eu citei, mas são esses poucos que formam a sigla do movimento LGBT+.

Há alguns anos, a única sigla que eu conhecia era GLS - gays, lésbicas e simpatizantes. Depois eu vi GLBS - agora incluindo bissexuais. Um tempo depois o S saiu e entrou o T, e uma decisão recente da ABLGBT colocou o L na frente pra chamar mais atenção para a causa lésbica. Esse é só um exemplo de como definir pessoas pode ajudar outras a entender do que se trata um movimento.

Eu gosto de fazer uma analogia com caixas pra tentar explicar o que é um rótulo. É como se dentro da cabeça de todo mundo houvesse várias caixinhas, geralmente em pares. Em cima de cada caixinha dessas existe um rótulo: homossexual (essa se desdobra pra outras duas: gay e lésbica), heterossexual, gordo, magro, negro, branco, bonito, feio, rico, pobre, etc. A divisão é quase sempre binária. Dentro de cada uma dessas caixinhas está um pensamento pré-definido - um julgamento. O que acontece é que, quando uma pessoa te acha feio, por exemplo, ela automaticamente pega o pensamento que tá dentro da caixinha “feio” e aplica a você. São como primeiras impressões enlatadas - o problema é que não são primeiras impressões de verdade, pois já estavam lá bem antes de você.

Se você diz que é bissexual, você confunde as caixinhas. Porque é como se você fosse hetero e homo “ao mesmo tempo”, e não pode, só dá pra usar uma caixinha por vez. Se você é transgênero, as pessoas não sabem se te colocam na caixinha “homem” ou “mulher”, não sabem se te colocam em “homossexual” ou “heterossexual”, porque acham que é alguma coisa no meio, e nos pré-julgamentos não existe meio termo. Ou é isso ou é aquilo, e toda característica acaba caindo nessa armadilha; algumas, como as que eu citei, mais do que outras.

Todos os dias novos termos e conceitos aparecem. No mundo ideal eles provavelmente não seriam necessários, mas hoje em dia são. Isso acontece porque em determinados grupos as pessoas não precisam explicar e definir para as outras se gostam disso, daquilo, se são assim ou assado. Mas, de modo geral, é fácil perceber que isso é muito pontual e fora desse grupo de repente a necessidade de definição se torna tão necessária que você praticamente não existe em sociedade se não puder ser colocado em alguma caixa.

Talvez um dia seja tão desnecessário explicar a sexualidade queer quanto hoje é desnecessário explicar a heterossexualidade - a grande maioria das pessoas nunca realmente pára pra pensar por que é hetero, ou se escolheu ser hetero, ou em que momento da vida percebeu ser hetero. Talvez um dia a identidade de gênero não seja mais confundida com a sexualidade. Apesar de tudo que se vê por aí e apesar de muitas vezes pensar que está piorando, eu costumo ser otimista e pensar que, mais dia menos dia, as mudanças acontecem.

- Kamila Oliveira

Tortura nunca mais?!

Sobre o ato na Cinelândia, mais informações aqui

Hoje celebramos o Dia Internacional de Combate à Homofobia. Nesta data, em 1990, a Assembleia Geral da Organização Mundial de Saúde retirou de maneira técnica e científica, a Homossexualidade do Código Internacional de Doenças, impossibilitando qualquer interpretação de cunho moral e preconceituoso, e vedando a qualquer profissional, seja de área saúde ou afins, o tratamento (vulga "cura") ou correção da orientação sexual.

Há 17 anos luto pelo respeito aos direitos humanos e civis de qualquer cidadão, independente de sua raça, credo, gênero ou orientação sexual. Comecei minha atuação na área de prevenção de HIV/AIDS e outras DSTs, aprofundando, em seguida, a questão do combate ao preconceito, que impeça a cada um de nós exercer de forma plena nossa cidadania.

No entanto, o dia de hoje - além de ser um marco para toda a comunidade LGBT - deve ser também de profunda reflexão. Digo isso, pois fico alarmado com o requinte de violência nos crimes de ódio cometidos contra cidadãos LGBT em nosso país. Se antes esses atos vinham disfarçados de assaltos - como na época do “Boa Noite Cinderela" - hoje vemos corpos carbonizados, olhos e membros arrancados, e sinais de tortura física e psicológica.

Se traçarmos um gráfico entre o aumento desses crimes com a crescente manifestação de incitação ao ódio por parte de parlamentares e pessoas públicas, veremos que isso não é apenas uma coincidência.

Não sei o que faz um ser humano sair de casa e que, ao invés de levar a namorada ao cinema, prefere “bater nos viados”. Ou uma pessoa se sentir incomodada diante da demonstração de afeto entre duas pessoas do mesmo sexo que se amam! Não posso achar que isso não tenha um processo de deformação mental chamado também de homofobia. Mas o respeito que garante a liberdade do outro é o mesmo que nos garante o exercício de nossos direitos civis. Não peço a aceitação, mas sim respeito. Afinal, nosso código penal e civil nos garante isso.

Quando em 2011 criamos na Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual (CEDS) o programa RIO SEM PRECONCEITO, demos um enorme passo na direção do diálogo: uma política pública de combate a todo e qualquer tipo de preconceito, pois nos igualamos na dor dos que sofrem e já sofreram por serem apenas “diferentes” na raça, na religião, na altura, tipo físico do padrão estabelecido como “normal” por essa sociedade.

O Brasil passou de sétima para sexta economia mundial. Evoluiu em índices sociais e hoje, dialoga, em pé de igualdade com grandes potências. Pois nesse mesmo Brasil, onde nossa presidente foi torturada nos porões da ditadura e centenas de jovens morreram em busca da democracia, cidadãos continuam sendo barbaramente torturados por terem uma orientação sexual diferente do considerado padrão. E esses crimes não são declarados como o que realmente são: crimes hediondos!

Quando nos tornamos indiferentes a uma cena como a do garoto levando um golpe de lâmpada no rosto em plena Avenida Paulista, ou a do menino de 14 anos, morador de São Gonçalo, mantido em cárcere privado e cujo corpo foi abandonado numa vala, por achar que esse problema “não é nosso”, me questiono que tipo de sociedade entregaremos às próximas gerações.

Até cidadãos não homossexuais sofrem por crime de homofobia como foi o caso do pai, no interior de São Paulo, que teve sua orelha decepada por estar abraçado com o filho. A “justificativa”: “acharam que eles eram namorados”.

Vivemos um período onde a instrumentalização da informação incita a segregação contra minorias. No caso a bola da vez são os homossexuais. Nada de novo, pois métodos semelhantes foram utilizados por populistas como Hitler, Mussolini, os Talibãs, os Xiitas etc. E agora como antes é tudo apenas parte de um projeto de poder, não importa qual massa tenha de ser manipulada.

Mas se o mundo muda, o Poder Público tem o dever de acompanhá-lo. É preciso discutir de forma técnica, aos olhos da Lei e não de acordo com as regras de uma ou outra religião, pois essas são de opção de cada cidadão, temas pertinentes aos dias de hoje. Por mais que se negue, homossexuais são mortos apenas por serem homossexuais.

Quando o sentimento se torna maior, temos de nos questionar. Que tipo de representação queremos? Que sociedade construímos? Mais do que nunca, hoje é um dia para o cidadão LGBT lembrar que ele é cidadão desse país e que seu direito só será exercido através da denúncia, da cobrança e, principalmente, do conhecimento dos direitos que já possui no código civil ou penal, ainda que estes não sejam plenos e igualitários aos conferidos aos heterossexuais e as demais minorias.

- Carlos Tufvesson
Publicado hoje no site do jornal O Globo. Reproduzido via Conteúdo Livre

Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos (1)

Foto: Tony Park

Publicamos a partir de hoje, em 6 partes, sempre às quintas-feiras pela manhã, o artigo "Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos", do Pe. Luís Correa Lima, SJ, divulgado pelo Centro Loyola de Fé e Cultura, da PUC-Rio, como uma síntese do curso Diversidade Sexual, Cidadania e Fé Cristã, realizado em 2010 e 2011. O artigo tem como objetivo fornecer subsídios a religiosos e leigos, agentes de pastoral e outros para entender melhor e encontrar meios de lidar, dentro do contexto da Igreja Católica, com os desafios pastorais da relação e cuidado da população LGBT, no foco do acolhimento respeitoso e amoroso.

Um novo quadro e sua história
Um importante sinal dos tempos atuais é a visibilização da população homossexual. No passado, gays, lésbicas e bissexuais viviam no anonimato ou à margem da sociedade. Escondiam-se em casamentos tradicionais e, quando muito, formavam guetos, que são espaços de convivência bem isolados. Hoje, fazem imensas paradas, junto com travestis e transexuais, estão presentes nas telenovelas, exigem respeito e reconhecimento, e reivindicam direitos. Esta população está em toda parte. Quem não é gay, tem parentes próximos ou distantes que são, bem como vizinhos ou colegas de trabalho que também são, velada ou manifestamente. Eles compõem a sociedade, visibilizam-se cada vez mais, e querem ser cidadãos plenos, com os mesmos direitos e deveres dos demais.

A visibilização desta população também manifesta os problemas que a afligem. Há uma aversão a pessoas homossexuais, chamada homofobia, que produz diversas formas de violência física, verbal e simbólica contra estas pessoas. No Brasil são freqüentes os homicídios, sobretudo de travestis. Há também o suicídio de muitos adolescentes que se descobrem gays, e mesmo de adultos. Eles chegam a esta atitude extrema por pressentirem a rejeição hostil da própria família e da sociedade. Há pais que já disseram: ‘prefiro um filho morto que um filho gay’. Esta hostilidade gera inúmeras formas de discriminação, e, mesmo que não leve à morte, traz freqüentemente tristeza profunda ou depressão.

Tamanha repulsa tem raízes históricas. Por muitos séculos, as relações entre pessoas do mesmo sexo foram consideradas como o pecado de Sodoma, que resultou no castigo divino destruidor (Gên 19). Este pecado foi a tentativa de estupro feita aos hóspedes do patriarca Ló. No Brasil do século 18, por exemplo, então colônia de Portugal, as leis eclesiásticas consideravam a sodomia ‘tão péssimo e horrendo crime’ que “provoca tanto a ira de Deus, que por ele vêm tempestades, terremotos, pestes e fomes, e se abrasaram e subverteram cinco cidades, duas delas somente por serem vizinhas de outras onde ele se cometia”. Era um pecado indigno de ser nomeado, por isso chamava-se ‘pecado nefando’, do qual não se pode falar, muito menos se cometer [VIDE, D. Sebastião Monteiro. Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia (1707). Brasília: Senado Federal, 2007, p. 331-332]. Tribunais eclesiásticos, como a inquisição, julgavam os acusados de sodomia e entregavam os culpados ao poder civil para serem punidos, até mesmo com a morte.

Esta aversão ao homoerotismo é mantida no Brasil independente. O seu primeiro Código Penal, de 1823, determinava que “toda pessoa, de qualquer qualidade que seja, que pecado de sodomia por qualquer maneira cometer, seja queimado, e feito por fogo em pó, para que nunca de seu corpo e sepultura possa haver memória, e todos seus bens sejam confiscados para a Coroa de nosso Reino, posto que tenha descendentes; pelo mesmo caso seus filhos e netos ficarão inábeis e infames, assim como os daqueles que cometeram crime de Lesa Majestade (traição) [TREVISAN, João Silvério. Devassos no paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. Rio de Janeiro: Record, 2004, p.164].

O advento do Iluminismo trouxe importantes mudanças. A razão autônoma, independente da Revelação e do ensinamento da Igreja, deve governar a sociedade e conduzir seus dirigentes. Para os iluministas a prática sexual, se exercida sem violência ou indecência pública, não devia absolutamente cair sob o domínio da lei. Por isso julgavam uma atrocidade punir a sodomia com a morte. O código napoleônico em 1810 retirou o delito de sodomia da legislação penal. Por sua influência, muitos países latinos fizeram o mesmo décadas depois, inclusive o Brasil.

A secularização impulsionada pelo Iluminismo vai modificar a própria compreensão do homoerotismo. Em 1869, o escritor austro-húngaro Karol Maria Benkert criou o termo ‘homossexualidade’, um neologismo greco-latino que formou um conceito de diversidade psicofísica para substituir a sodomia. Este termo teve ampla difusão, e o homoerotismo se deslocou do âmbito religioso e moral para o âmbito biológico. Não era mais uma abominação, mas se tornou uma doença. Houve uma patologização, que permaneceu por muitas décadas. Na primeira metade do século 20, foram feitas no Brasil internações de pessoas por homossexualidade. Alguns médicos chegaram até a sugerir o tratamento com choque elétrico.

A partir do anos 1970, houve uma crescente despatologização da homossexualidade. O movimento político-social da população LGBT [Sigla que significa: lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Também se usa o termo gay de modo genérico, para as diversas formas de homossexualidade] trouxe uma sensilibidade maior à sua realidade. A Associação Psiquiátrica Americana retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais. Na década seguinte, no Brasil, o Conselho Federal de Medicina retirou a homossexualidade da lista de desvios e transtornos sexuais. Em 1990, a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da lista de doenças. Em 1999, o Conselho Federal de Psicologia afirmou que a homossexualidade não é doença, nem distúrbio, nem perversão; e proibiu os psicólogos de colaborarem em serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades. Isto significa que, definitivamente, algumas pessoas são homossexuais e o serão por toda a vida. De maneira alguma se trata opção, mas de condição ou orientação.

A homossexualidade também se encontra entre os animais. Desde o início do século 20, ela é descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos. O comportamento homoerótico foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71 espécies de mamíferos, incluindo coelhos, cães, gatos, antílopes, carneiros e leões. A homossexualidade entre primatas não humanos já está amplamente documentada na literatura científica, incluindo macacos bonobos e chimpanzés, os parentes mais próximos do homem na cadeia evolutiva [VARELLA, Dráuzio. “Violência contra homossexuais”, 4 dez. 2010]. Não se pode de modo algum atribuir a sua causa ao pecado original.

Continua na próxima quinta-feira, 24/5/12

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O sândalo e o machado

Imagem daqui

Do Pastor Ricardo Gondim, via PavaBlog:

Doces lembranças me ligam à casa da vovó. Mergulho nos porões mais remotos da infância e lá, na pequena casa de vila, encontro meu natal colorido, minhas inquietações adolescentes, minhas viagens juvenis. Numa estreita moradia de Fortaleza, meia parede, experimentei o carinho de tios e tias. No bairro de nome doce, Gentilândia, acordei para a vida. Estranho, sempre chamei casa da vovó, nunca casa do vovô.

Amei minha avó materna. Ela me embalava na rede para dormir, contava histórias de fadas; por suas mãos, fui levado ao mundo corajoso dos cangaceiros. Vovó me encantou; conhecia os seres que povoam o mundo mágico do matuto cearense. Sem exagero: Vovó Maria Cristina Sales Gondim foi a mulher mais doce e, ao mesmo tempo, mais determinada e firme que já conheci.

Sua casa era pequena, mínima: sala de visita e jantar juntas; dois quartos para o lado esquerdo de quem entra; no fundo, cozinha e banheiro diminutos. Quando a ditadura militar prendeu papai, nos vimos obrigados a morar nesse aperto.

Só havia duas camas na casa – e somávamos 13 almas. Eu dormia de rede. Depois que todos se acomodavam, pendurava os punhos nos ganchos que atravessavam a sala, e procurava apagar.

Sempre que alguém se mexia, ouvia o ranger doloroso das outras redes. As caladas da madrugada me metiam medo. Aquele barulho, que mais parecia um choro, amedrontaria qualquer insônia. Repousávamos amontoados – as redes se entrelaçavam, umas por cima das outras. Com o tempo, aprendi a reconhecer o fôlego de todos. De portas fechadas, com uma janela apenas, a casa esquentava. Eu ressentia, naquele calor, o forje do amor. A sala era forno e nos fundiamos uns nos outros. Viramos uma grande família.

Depois de vários anos, visitei vovó. Ela já não morava na mesma vila. Idosa e cansada, vivia com uma tia. Vovó gostava de conversar comigo. Por vezes implorava por minha companhia. E eu, absurdamente idiotizado pelo idealismo religioso, esquecia; varava semanas sem aparecer.

Numa tarde, fui ver-lhe. Péssimo dia para visitar uma pessoa querida; eu estava com raiva. Fora traído por pessoas mesquinhas há pouco. Sem me dar conta, comecei a despejar um rancor bolorento na vovó.

Como eu estava amargo! Havia esquecido que ódio guardado apodrece, vira amargura. Falei para ela do quanto desejava uma vingança divina. Enquanto debulhava ira, me desfigurava. Rancor deforma. Eu esquecera de escalar um sentinela para os lábios; e vomitei toda a ira que trouxe comigo.

Sem me repreender, ela perguntou:

–Você se lembra do quadro que ficava pendurado no quarto lá de casa?
– Claro – respondi. Ele é uma das boas recordações daqueles dias.

Um quadro tridimensional bem pequeno ficava pendurado no primeiro cômodo da casa. Nele, havia a miniatura de uma tora de árvore. Um machado cravado, feria o caule. Por cima, a frase: “Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere”.

Vovó não disse mais nada. Eu me calei. Dei-lhe um beijo na testa e parti. Nunca mais fui o mesmo.

Passados tantos anos, ganhei uma talha de madeira que virou sacramento de uma verdade, que espero reproduzir na vida dos meus netos. A talha se parece com o quadro, e tem a mesma inscrição: “Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere”.

“Abençoem aqueles que os perseguem; abençoem, e não os amaldiçoem… Não retribuam a ninguém mal por mal”. – [Romanos 12.14 e 17]

Soli Deo Gloria

Comprometidos com a dignidade humana

Foto via Blue Pueblo

Pouco mais de um ano depois, reproduzimos a nota abaixo, emitida no dia 11/05/11 pelo primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), tanto para marcar o primeiro aniversário da decisão do STF em prol da união civil homoafetiva, como para assinalar que nem tudo é fundamentalismo entre os religiosos e, sim, é possível uma leitura das Escrituras e dos acontecimentos no mundo mais próxima do olhar amoroso e inclusivo de Cristo.

“... o que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com teu Deus.” Miqueias 6. 8.

Recebemos com serenidade a recente decisão unânime do STF sobre o reconhecimento jurídico das uniões estáveis de pessoas homoafetivas. Tal aprovação representa um importante avanço em nossa sociedade na busca pela superação de todas as formas de preconceito e um aperfeiçoamento no conceito de igualdade e cidadania numa sociedade marcada pela pluralidade, mas também por profundas desigualdades e discriminações;

Nosso reconhecimento é feito com base em sólida tradição de defesa da separação entre igreja e estado (e entre religiões e estado), que não significa a sujeição de um campo ao outro, nem a substituição de um pelo outro, mas a necessária junção da autonomia institucional e legal com a liberdade de expressão e o pluralismo. Ou seja, a IEAB sente-se perfeitamente à vontade para expressar sua posição porque sua prática a recomenda e porque entende que o estado deve ser continuamente acompanhado em suas decisões, em qualquer esfera de poder, aprovando-o ou questionando-o em suas ações; - A decisão do STF levanta sérios desafios a todos os cristãos de todas as igrejas, pois requer abertura para reconhecer que as relações homoafetivas são parte do jeito de ser da sociedade e do próprio ser humano. A partir de agora, os direitos desse grupo tornaram-se iguais aos de todas as outras pessoas. Reconhecemos que há ainda muito que fazer nesse campo, pastoral e socialmente, para afirmar a dignidade da pessoa humana e seus direitos. Sabemos que um profundo e longo debate deve acontecer na sociedade brasileira a este respeito, e a IEAB não está isenta de nele participar, com profunda seriedade e compromisso de entender as implicações do evangelho de Jesus Cristo em nosso tempo e lugar; - Reconhecemos que tal decisão é resposta à prece que sempre fazemos em nossos ritos de Oração Matutina/Vespertina: “Ó Senhor, que nos governas... ao teu misericordioso cuidado encomendamos nossa Pátria... concede a todas as Autoridades, sabedoria e força para conhecer e praticar a tua vontade. Enche-os de amor à verdade e à justiça...” (Livro de Oração Comum, pg. 38). Assim, afirmamos nosso compromisso pastoral para com essas pessoas. Cremos que a promessa declarada no rito do batismo: “És de Cristo para sempre!” (Livro de Oração Comum pag. 169) repousa sobre todos nós e, portanto, não nos cabe decidir quem pertence ou não a Deus.

Neste momento de mudança, reafirmamos nosso compromisso de ser uma Igreja que Acolhe e Serve, reconhecendo o sensus fidelium declarado na última CONFELIDER: defender os Direitos Humanos e o Direito à Cidadania plena. Entendemos que esse compromisso é decorrência dos votos que fazemos perante o altar em nossa confirmação: "Defenderás a justiça e a paz para todos, respeitando a dignidade de todo ser humano" (Livro de Oração Comum pg 179);

Louvamos a Deus pelos avanços conquistados, entendendo que fazem parte da sutil e gradativa inspiração do Espírito Santo para transformar nossa sociedade. Conclamamos todos os anglicanos e as anglicanas a acolher as pessoas que nos buscam, a orar por elas e acompanhá-las pastoralmente, entendendo que a Igreja é um edifício ainda em construção e que a totalidade de sua membresia só é conhecida pelo próprio Cristo, Senhor da Igreja.

No amor inclusivo de Jesus Cristo, nosso Senhor e Rei e supremo juiz dos vivos e mortos,

Dom Maurício José Araújo de Andrade
Bispo Primaz

Meus pais e eu

Foto daqui

Comentário do Tony Goes em seu blog:

"Como é bom começar o dia lendo boas notícias no jornal, né não? A de hoje foi saber que Ana Karolina Lannes - que faz a Ágata, filha da Carminha, na novela 'Avenida Brasil' - tem dois pais e está muito feliz com isto. A nota na coluna da Mônica Bergamo (aqui) me levou à matéria no site da revista 'Contigo!' (aqui). Se não me engano, Ana Karolina é a primeira mini-celebridade a assumir em público que é criada por um casal gay, e está obviamente tão bem ajustada que serve de contra-exemplo para (...) [as bobagens que] proferem por aí. Aliás, já estava mais do que na hora de uma novela dessas retratar uma situação parecida: não a luta pela guarda da criança nem os problemas clichês, mas a atmosfera sadia que muitos pais do mesmo sexo conseguem criar para seus filhos. Isto sim é o que vai quebrar com tudo."

Leia também:
4 mitos sobre filhos de pais gays
Por que casais homossexuais podem ser excelentes pais
Feliz dia das mães! :-)

Uma carta do papa em 2020

Foto daqui

No livro The content of faith, do teólogo jesuíta Karl Rahner (1904-1984), organizado a partir de seus escritos, consta o trecho abaixo, intitulado "Uma carta do papa em 2020". Expressa-se nele a profecia do pensamento de Rahner, em um artigo que oferece um vislumbre de esperança de que, um dia, algum papa será suficientemente corajoso para enviar tal carta à Igreja e ao mundo.

Este breve ensaio parece ser particularmente relevante neste momento na história, em que as rodas parecem estar caindo do carro institucional mais seriamente do que em qualquer momento anterior. O que Karl Rahner escreve aqui se encaixa muito bem com os muitos pensamentos já publicados nos últimos tempos, incluindo os de Dom Geoffrey Robinson.

O artigo foi publicado no sítio australiano
Catholica, 03-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Embora eu não atribua a nenhum dos meus antecessores, ou ao menos aos meus predecessores imediatos, uma falta de humildade e de modéstia, parece-me que hoje um papa [no ano 2020] pode, até mesmo publicamente, fazer esta autoavaliação crítica mais claramente do que costumava ser feita. Pessoas importantes na história do mundo e da Igreja costumaram ter a ideia de que a sua autoridade legítima se colocaria em risco se deixassem seus "súditos" ver que eles também eram apenas seres humanos que cometiam erros. Era somente após a sua morte que os historiadores da Igreja eram autorizados a descobrir falhas, erros ou hesitações em um papa.

Mas, se eu estou convencido de que, mesmo como papa, eu continuo sendo um ser humano que irá cometer falhas, talvez até mesmo graves, por que não me seria permitido reconhecer isso mesmo durante a minha vida? Será que a mentalidade de pessoas que realmente não importam tanto hoje é a de que a autoridade não sofre danos, mas ao contrário lucra quando o seu portador admite abertamente as limitações de um pobre e pecador ser humano, e não tem medo de reconhecê-los? Por enquanto, ao menos, estou disposto a ouvir discussões públicas em minha presença, eventualmente para aprender com os outros e para reconhecer que eu aprendi.

Mesmo como papa, eu gostaria de continuar aprendendo. Deixe que as pessoas percebam que um papa pode errar, cometer equívocos, estar mal informado e escolher o tipo errado de assistentes. Tudo isso é evidente, e eu acredito que nenhum papa recente duvidou seriamente disso. Mas por que tal evidência deve permanecer oculta e encoberta? Pedro permitiu que Paulo o confrontasse frente a frente, e eu suponho que Pedro reconheceu que Paulo estava certo. Mesmo hoje, um papa pode se permitir algo desse tipo. Eu, pessoalmente, reivindico esse direito e estou disposto, se necessário, a permitir que a minha autoridade sofra uma perda, o que seria meu dever aceitar.

Eu não deverei ser um grande papa. Eu não tenho os meios para isso. Portanto, não vou ter um complexo de inferioridade se eu parecer bastante modesto em comparação com os grandes papas do século XX. Para mim, isso parece ser providencial. Tenho a sensação de que, através da sua grandeza, esses papas tiveram uma influência na Igreja que provavelmente nunca pretenderam ter e que teve seu lado questionável, uma influência que eu vou tentar compensar com o meu pontificado mais modesto.

Não é verdade? Esses papas não fomentaram involuntariamente uma mentalidade na Igreja que superestima a função apropriada do papa, de acordo com o dogma e de como ela foi na maior parte da história dos papas? Essa mentalidade não implica que um papa deva ser, em todos os aspectos, o maior da Igreja, um ponto de referência para todos os impulsos, um mestre superior a todos os pensadores e teólogos, um santo e um profeta, um homem que conquista todos os corações com a sua personalidade fascinante, um grande líder que molda o seu século e empalidece estadistas e outras grandes personalidades na insignificância, um pontífice a quem todos os bispos se referem respeitosamente, como pequenos oficiais pernate o seu rei, a fim de ouvir obedientemente as suas palavras e ordens ?

Eu não vou me tornar um papa desses e não considero necessário isso a todos. O papa tem uma tarefa na Igreja que é estritamente limitada, apesar da jurisdição universal e da plenitude da autoridade de ensino mencionada pelo Concílio Vaticano Primeiro. Vou exercer essa plenitude de poder, mas dentro dos limites impostos sobre mim pelas limitações da minha própria natureza. Isso e nada mais.

Eu não vou ser o mais santo da Igreja. Perante Deus, eu sou menos do que os santos que vivem hoje na Igreja, aqueles que rezam em silêncio, aqueles que são misticamente arrebatados, aqueles que perecem por causa de sua fé nas prisões dos inimigos de Cristo e da Igreja, aqueles que amam altruisticamente, como Teresa de Calcutá, todos os heróis desconhecidos e não recompensados do dever e da abnegação cotidianos.

Ninguém pode negar que até mesmo um Inocêncio III empalidece diante de Francisco de Assis, e que os papas Pio dos dois últimos séculos são menos importantes do que um Cura d'Ars ou do que uma Santa Teresinha de Lisieux. Você podem dizer, é claro, que eu estou comparando realidades que não podem ser comparadas. No entanto, na vida da Igreja e diante do tribunal eterno de Deus, santos e grandes teólogos como um Tomás de Aquino ou um John Henry Newman são mais importantes do que a maioria dos papas, e sobretudo mais importante do que jamais vou ser.

Há muitos carismas na Igreja, e o papa não tem todos em si mesmo. Se é verdade que podemos realmente compreender apenas os nossos próprios carismas, então até mesmo um papa deve dizer a si mesmo que ele não pode avaliar tudo o que vive na Igreja, e que só Deus, e não o papa, se encontra onde tudo o que é bom e santo na Igreja se funde em uma sinfonia perfeita.

É por isso que nenhum dano será feito se o meu pontificado corrigir, em certa medida, a mentalidade dos cristãos piedosos que equivocadamente esperam dos papas aquilo que eles podem receber apenas dos santos e das grandes mentes da Igreja e, possivelmente, de si mesmos.

Será que há cristãos, e talvez papas, que se lembram de que, ao rezar o Pai Nosso com esperança impaciente pela vinda do reino eterno de Deus, eles estão rezando também pelo fim do papado?

terça-feira, 15 de maio de 2012

Amanhã, 16/5: III Marcha Nacional contra a Homofobia


Por Paulo Tavares Mariante, advogado, filiado ao PT em Campinas, militante pelos direitos humanos, Coordenador de Direitos Humanos do Identidade – Grupo de Luta Pela Diversidade Sexual, e Conselheiro Municipal de Saúde de Campinas – SP:

No próximo dia 16 de maio acontecerá em Brasília a III Marcha Nacional Contra a Homofobia, convocada pela ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, que reúne mais de 200 organizações de base por todo o território nacional) e com o apoio de outras redes e associações nacionais do movimento LGBT. Precisamos refletir sobre o momento em que vivemos no Brasil, do ponto de vista do reconhecimento dos direitos da diversidade sexual e dos enfrentamentos com o campo conservador (em especial o fundamentalismo religioso), a conjuntura e a correlação de forças. (...)

Em décadas de atuação do movimento LGBT e da diversidade sexual, travamos muitas lutas, e obtivemos algumas conquistas isoladas, como leis municipais e estaduais punindo a discriminação de caráter homofóbico, e algumas ações pontuais em políticas públicas municipais, estaduais e federais. E a presença de um Presidente da República – Lula – na abertura da I Conferência Nacional LGBT, em junho de 2010, dava a impressão de que outros avanços estavam por vir.

A campanha eleitoral de 2010, quando as três candidaturas de maior expressão eleitoral – Dilma, Serra e Marina – se submeteram às chantagens dos grupos religiosos conservadores, em temas e debates fundamentais para os direitos das mulheres e pela diversidade sexual – como aborto e casamento homossexual – e comprometendo gravemente o princípio da laicidade do estado – separação entre estado e religião – em seus discursos, foi a senha para que o fundamentalismo religioso desequilibrasse a balança a seu favor.

A desastrosa decisão da Presidenta Dilma Rousseff de suspender a distribuição dos materiais didáticos e pedagógicos do Projeto Escola Sem Homofobia – denominado por seus detratores como “kit gay” – pela pressão das bancadas fundamentalistas religiosas pôs mais combustível no motor do ódio. Rifar os direitos LGBT pela pressão dos conservadores religiosos não era em si nenhuma novidade – o Governo de Fernando Henrique Cardoso fez isso duas vezes, em Janeiro de 1999 e Maio de 2001 – mas a maior autoridade pública da Nação ir a frente às câmeras de TV e fazer uma fala lamentável – “de que seu governo não iria fazer ‘propaganda’ de ‘opções sexuais’(sic) – teve um peso considerável em todos os desatinos da homofobia religiosa que estariam por vir.

O fundamentalismo religioso é um fenômeno que merece uma análise mais cuidadosa por parte daquelas e daqueles que afirmam lutar pela democracia e pela igualdade de direitos. A questão vai muito além da homofobia e da negação de direitos à população LGBT, ou do rechaço aos direitos sexuais e reprodutivos, o que por si só já seria motivo de preocupação. Recentemente, um município importante na Bahia aprovou uma lei que torna obrigatório, em todas as escolas da rede pública municipal de ensino, que seja rezado no começo do dia a oração cristã conhecida como “Pai Nosso”. E professores de escolas públicas estaduais de diferentes estados constrangeram e intimidaram alunos adolescentes que não queriam participar de uma “oração” em sala de aula! Se olharmos o que vem ocorrendo por todo o Brasil perceberemos que o avanço do fundamentalismo religioso é uma ameaça concreta à própria democracia.

As decisões do Supremo Tribunal Federal que reconheceram a legitimidade jurídica das uniões entre pessoas do mesmo sexo e sua equiparação às uniões estáveis heterossexuais, bem como autorizando a realização do aborto nos casos de fetos anencéfalos, e ainda a constitucionalidade das cotas raciais nas universidades, têm sua importância numa espécie de contraponto à onda fundamentalista religiosa que acovarda o governo federal e o Congresso Nacional. Mas não podemos ter a ilusão de que isso é de fato uma garantia de que o quadro atual não possa piorar.

O fundamentalismo religioso está cada vez mais organizado, com peso considerável em espaços de mídia e de grupos econômicos, e a recente aliança com os ruralistas apenas evidencia qual a sua verdadeira opção política, que é pela direita. Este setor não tem qualquer dúvida quanto ao seu lado nas disputas sociais, inclusive nas que dizem respeito à classe trabalhadora, mesmo que faça isso de forma subliminar.

O movimento LGBT e pela diversidade sexual precisa de um esforço para superar a visão – equivocada, em nosso ponto de vista – de que podemos avançar em nossas lutas sem uma aliança estratégica com os demais segmentos oprimidos, discriminados e excluídos de nossa sociedade. Nenhuma opressão ou discriminação será superada enquanto outras coexistirem.

A construção de uma frente nacional pela igualdade de direitos, que aglutine militantes dos movimentos negros, feministas, LGBT e da diversidade sexual, da juventude, das pessoas com deficiência, idosos, trabalhadoras e trabalhadores, bem como sem terra, sem teto, e pela efetividade dos direitos sociais, para nós é tarefa essencial a ser desenvolvida e embora não seja simples ou fácil exige um esforço de unidade e de priorização.

Que a mobilização para a III Marcha Nacional Contra a Homofobia, na qual estaremos juntas e juntos gritando por nossos direitos em Brasília, seja também um momento para aprofundarmos essa reflexão, na perspectiva de construção de uma sociedade diferente, sem qualquer forma de opressão.

(Fonte: Fora do Armário)

Leia também:
Programação da Semana Nacional contra a Homofobia
Quando Deus pauta a política

Deputado gay na universidade católica

Foto daqui

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), assumidamente homossexual, defende no Congresso Nacional a criminalização da homofobia e o casamento gay. Ele esteve em duas universidades católicas participando de debates: em Recife, onde se realizou um congresso sobre direito homoafetivo, e no Rio de Janeiro, tratando da agenda LGBT no legislativo. Pode-se perguntar por que estas instituições católicas promovem eventos dessa natureza. As aspirações e as reivindicações do movimento gay não divergem dos ensinamentos da Igreja?

Antes de tudo, a universidade católica é uma ‘universidade’, isto é, um universo de encontro dos saberes, da diversidade de pontos de vista, da pesquisa e do ensino que passam pelo debate aberto e respeitoso. O simples fato de ser universidade já justifica plenamente um evento assim. Além disso, o humanismo de inspiração cristã deve permear esta instituição, sem diminuir em nada a sua competência acadêmica.

Não se pode ficar alheio à realidade da população LGBT, que carrega um estigma milenar de uma dura discriminação e é vítima de uma brutal hostilidade: a homofobia. Não se pode ficar alheio ao seu anseio destas pessoas por segurança, liberdade e igualdade. O Concílio Vaticano II, iniciado há 50 anos, afirma que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e das mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e dos que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração (GS,1).

Por isso, a universidade católica faz uma reflexão séria e um debate qualificado sobre a cidadania da população LGBT. Assim, ela pode fomentar ideias inovadoras que beneficiam a sociedade e a vida política, arejam os ambientes cristãos e alavancam as transformações tão necessárias ao nosso tempo. Fica ainda a questão: como podem os fieis católicos lidar com a oposição da alta hierarquia ao reconhecimento do casamento gay, considerado por ela uma ameaça à família tradicional e nocivo a um reto progresso da sociedade?

O conceito de ‘cristão adulto’, sobre o qual refletiu o teólogo Karl Rahner, pode contribuir bastante neste debate. No início do século 20, o magistério da Igreja rechaçava a teoria da evolução, ensinando que os primeiros capítulos da Bíblia, que narram a criação do homem, tinham que ser entendidos de maneira literal. Se nessa época um paleontólogo estivesse plenamente convencido do vínculo entre o ser humano e o mundo animal, como ele deveria proceder? Neste caso, tal cientista não deveria rejeitar toda a fé da Igreja e nem toda a sua doutrina, mas discernir entre o que é fundamental e o que não é. Ele deve saber quais são as convicções de sua fé realmente centrais e existencialmente significativas, para nelas se aprofundar sempre mais; e por fim rejeitar o que se mostra irremediavelmente inaceitável.

Não se deve colocar todas as coisas em termos de tudo ou nada. O Concílio Vaticano II diz que há uma ‘hierarquia de verdades’, isto é, uma ordem de importância dos ensinamentos da Igreja segundo o seu nexo com o fundamento da fé cristã (UR,11). Este nexo pode ser maior ou menor. Há ensinamentos de mais relevância, e outros de menos relevância. Isto contribui para o discernimento. O cristão adulto, diz Rahner, é um fiel que vive conflitos semelhantes ao daquele paleontólogo. Ele precisa tomar decisões em assuntos importantes, colocando-se diante de Deus e de sua consciência, e enfrentar as consequências, sem ter necessariamente o respaldo institucional e eclesial desejado.

Muitas pessoas hoje estão plenamente convencidas de que o casamento gay é legítimo e deve ser reconhecido pelo Estado. Entre elas, o presidente norte-americano Barack Obama. A união homo e a união hétero se destinam a pessoas diferentes. É cada vez mais evidente que não há concorrência entre estas formas de união, e nem ameaça à família ou à sociedade. Muitos cristãos pensam assim. Sabem que Deus é amor e compreensão, e que Ele quer a felicidade dos seus filhos. Estes cristãos devem ser encorajados a dar testemunho desta fé inclusiva, tão necessária ao nosso tempo, mesmo que eles não tenham o devido respaldo de suas igrejas. Isto é ser cristão adulto. Os eventos promovidos por estas universidades católicas ajudam a trilhar este caminho, que é belo e humanizante.

Equipe Diversidade Católica

* * *

Atualização em 22/05/12:
Leia aqui a nota publicada no jornal da PUC (de circulação no campus) sobre a visita do deputado à universidade. :-)

Filha de Raúl Castro diz que pai é a favor da união gay

Foto daqui

HAVANA - Filha do presidente cubano Raúl Castro, a sexóloga Mariela Castro disse neste sábado (12/05/12) que seu pai é a favor da união civil entre homossexuais e orientou que toda a forma de descriminação contra minorias seja banida da ilha.

A diretora do Centro Nacional de Educação Sexual (Cenesex), que se destacou como um defensora da diversidade sexual, liderou uma marcha contra a homofobia, que reuniu cerca de 400 cubanos, entre homossexuais, travestis e transexuais.

— Tenho entendido que o presidente cubano se manifestou em várias ocasiões sobre o tema) — disse Mariela Castro. — Mas não fez isso em público. Certamente é parte de suas tática e estratégia. É seu estilo. Eu não vou pressioná-lo (Raúl Castro) a fazê-lo publicamente, porque me importa mais que se trabalhe em ações específicas que em palavras — disse ela.

Os gays têm sido depreciados e por vezes reprimidos desde os primeiros anos da revolução de 1959, que levou o ex-ditador Fidel Castro ao poder. Homossexuais e transexuais foram enviados em 1960 a campos de trabalhos forçados, em uma sociedade com fortes doses de machismo.

As declarações de Mariela Castro, que dançou na passeata ao ritmo de conga pelas ruas de Havana, veio logo após o presidente Barack Obama apoiar o casamento gay nos Estados Unidos.

— Saúdo o presidente Obama por sua mensagem humana de entendimento (...) a favor do casamento, da união livre de pessoas do mesmo sexo — reiterou. — Ele (Raul) tem falado sobre a necessidade de avançar nas questões dos direitos de orientação sexual e identidade de gênero e de superar todos os preconceitos — disse a sexóloga ao responder a uma pergunta da Reuters sobre se seu pai apoiava uniões civis de cubanos do mesmo sexo.

A diretora do Cenesex, cujos avanços em direitos incluem cerca de 15 cirurgias gratuitas de mudança de sexo desde 2008, apresenta desde 2006 ao Parlamento uma emenda que procura formas de alterar o Código da Família, em vigor desde 1975, sobre assuntos relacionados à transexualidade e à homossexualidade no país. A Primeira Conferência Nacional do Partido Comunista em janeiro decidiu rejeitar todas as formas de discriminação, incluindo a orientação sexual.

(Fonte: O Globo. Colaboração do amigo @Lucas_Vazzz)

Não temos medo de pensar. Temos medo de não amar.

Foto: David Talley

Texto escrito a quatro mãos por Lucas Lujan e Suênio Alves e publicado no extraordinário blog Fora da Zona de Conforto em 4 de agosto de 2009. Fica para reflexão... :-)

Não temos medo de (re)pensar conceitos sobre Deus. Temos medo de não (re)amar como Cristo, quem na realidade não amamos: os mendigos, os pobres, os excluídos, os marginalizados, as crianças africanas, os homens e mulheres de Darfur.

Não temos medo de incertezas. Temos medo que nosso Amor deixe de ser nossa bandeira do Reino de Deus.

Não temos medo de não saber. Temos medo das certezas que prendem Deus a um esquema.

Não temos medo de questionar dogmas. Temos medo de que os dogmas impeçam a transformação de vidas.

Não temos medo do inferno. Temos medo de que nossas mãos se fechem, e não possam ajudar o nosso próximo a sair de sua existência-inferno. Ou pior, que as nossas próprias mãos sejam as quais o empurra para esta existência-inferno.

Não temos medo de devanear teorias loucas. Temos medo que a loucura desse mundo violento cegue nossos olhos a ponto de sempre que pararmos num farol, nesta cidade-sombria, fechemos nossos vidros para a sinceridade dos filhos da injustiça.

Não entendemos como problema sair do molde da teologia sistemática. Temos medo de sistematizar Deus e modela-lo a algum padrão.

Nós não temos medo de chorar por nós mesmos. Nós temos medo de que não mais choremos o choro dos outros.

Não sentimos culpas pelas nossas dúvidas. Mas pedimos que nos lembre sempre de amar como Cristo.

Não temos medo ter uma fé cheia de espelhos em enigmas e despedaçada, que não tem a precisão de uma fé “face a face”. Temos medo de perder o que existe de mais precioso: Amar.

Não temos medo de balançar alicerces religiosos construídos por pensamentos humanos. Temos medo de perder a doçura e a simplicidade de Jesus.

Não temos medo de sermos rejeitados pela instituição. Temos medo da hipocrisia religiosa.

Não temos medo de sermos chamados de hereges. Temos medo de compactuar com o sistema religioso e seus interesses, e esquecermos de amar pessoas.

Não temos a pretensão que nossos argumentos tenham todos os versículos a favor, e assim entrarmos numa guerra de versículos. Temos medo que nós não cumpramos aquilo que Cristo chamou de o resumo da lei e dos profetas: Amar a Deus e ao próximo.

Não temos medo de nos manifestar a favor de alguém. Desde que esse alguém não se esqueça que o conceito central do cristianismo é o amor.

Aprendemos que não podemos ficar presos às amarras da religião e da instituição.

Aprendemos que Deus está acima da religião.

Aprendemos que no Reino não importa o que se pensa, importa o que se ama.

Aprendemos a olhar pessoas como “filhos de Deus”, e amá-las incondicionalmente.

Aprendemos que qualquer um que tenta abrir os olhos de pessoas encabrestadas pela religião, acaba sendo queimado na fogueira da instituição.

Estamos seguros que o Verdadeiro Amor lança fora todo medo, e por isso não temos medo de caminhar com alguém que nos ensina a lidar responsavelmente com a liberdade do amor.
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