sexta-feira, 4 de maio de 2012

Por uma espiritualidade cheia de Tesão

Foto daqui

Contra o que se sente
toda a filosofia é mesmo vã
O Livro é sagrado
quando o que apregoa
é revelado na Carne.

– Adélia Prado

Isaac Palma, no Ide por toda Web (reproduzido aqui via PavaBlog):

A espiritualidade que se prega na maioria das igrejas é brochante. É morta, apática, sem vida. Os discursos teológicos são extremamente racionais, nós conseguimos o impensável, racionalizamos Deus e colocamos ele em uma caixinha minúscula chamada cristianismo. Algo tem me incomodado, em conversas com amigos e diante de tudo o que tenho visto, no cristianismo evangélico brasileiro [Parece-nos que também no católico, ao menos em certos setores, por que não?], falta “sangue no zoio”, falta Tesão.

Onde está o brilho nos olhos? Onde está aquele sentimento que nos invade de tal forma que parece nos possuir?

Chega da espiritualidade da letra, que nos paralisa em certezas, eu quero uma que sinta dor, que sangre a dor do mundo. Precisamos de uma espiritualidade que nos arrebate os sentidos. Falta tesão e sobra razão. Bem mais do que a mente pode conceber precisamos de algo que ressuscite nossos corpos, nossos sentidos. Temos que sensualizar nossa espiritualidade. Na nossa fala tem que transparecer a volúpia, o desejo. É preciso encarnar mais do que proclamar.

Que possamos dar espaço para o Espírito Santo nos encher de indignação, dessa inspiração, que no Espírito Santo possamos constantemente sermos incompletos, porque é só na incompletude que podemos avançar. Ai daqueles que graças às suas certezas paralisam o seu caminhar.

Que o Espírito Santo nos encha do Tesão de Deus. Precisamos de uma espiritualidade que penetre nas injustiças desse mundo, goze esperança e fecunde vida.

A mensagem de Deus deve ser escrita com Sangue.

Muito além da nossa apatia, é preciso gritar por justiça. Que as noites de sono perdidas sejam pra lembrar dos que não tem onde dormir, que as vezes que perdemos a fome seja para lembrar dos que não tem o que comer.

Que não fiquemos na caridade, mas que possamos gritar: JUSTIÇA.

Que busquemos bem mais do que apaziguar nossas consciências, que possamos de fato dar a luz a um mundo novo.

Estamos grávidos de uma nova humanidade. Deus ressuscite nossos corpos para sentirmos as dores de parto!

Não me conforte Deus, eu não preciso de segurança. Preciso dessa inquietude do seu Espirito, que me impele a agir com Amor, a abraçar aqueles que ninguém quer abraçar.

Deus me dê esse Tesão, não deixe formular teorias filosóficas que não me levarão a lugar algum, que eu possa agonizar as dores do mundo e delas ver nascer o novo.

Que assim sejamos, que não nos confortemos nem nos conformemos nesse mundo. Que possamos parir esse novo mundo por ai. Cheios desse tesão que possamos fazer nascer em todos o Reino de Deus.

2 comentários:

Navorski disse...

Acho que o meu comentário não foi e agora eu me peguei pensando. Tenho que comentar pra resolver isso. (se o outro comentário tiver ido, excluam esse).

Não acho que o que falte seja o tesão, tanta coisa dá tesão, até o medo. Eu tenho começado a repensar e a re-sentir [nem sei se já tinha sentido] a Confiança em Deus [e essas palavras ainda me pesam] quando participei de uma celebração carismática. Tesão não faltava, todo mundo on fire para "receber" o "espírito santo". Mas havia muito medo e muito desespero. Era bastante confuso, por um lado as pessoas experimentavam uma confiança grande, por outro mistificavam o mundo. Eram as drogas, os problemas com os pais, o sexo... tudo pra ser negado, como se o mal fossem as coisas elas mesmas. E então, tchibum!, submeter-se ao que se dizia porque aquilo era a Graça. Eram uns 50 universitários aceitando Deus, opiniões e modos de vida, tudo misturado, sem nada a dizer. Olha, eu tenho muito a dizer (não sei se pra ser ouvido). Era uma excitação de se entregar, mas uma entrega meio desesperada, eu troco tudo pela paz ou pelo que se diz ser a paz. Na verdade, só depois de abstrair para enxergar e aceitar a humanidade disso, eu pude ver O que se apontava de um jeito meio torto.

Eu não sei o que falta, eu procuraria no que me fez caminhar de volta pra igreja: Serenidade, Confiança e Perdão. Acho que encontramos a Deus nos encontrando, não nos perdendo. A tranquilidade é marca da Certeza que não precisa colonizar o outro, que não cala a questão para submeter-se a regras e preconceitos humanos, que aceita o movimento das coisas, inclusive da existência, que possibilita o Amor e que confia na Verdade. Isso também dá tesão, mas é secundário.

Equipe Diversidade Católica disse...

Oi, Navorski,

De fato, seu primeiro comentário não entrou aqui para a gente, não...

Mas vamos a este: muito, muito importante essa sua colocação. Acho que o texto se refere a uma questão um pouco diferente dessa que você aborda, que é uma forma excessivamente doutrinária e magisterial de viver o cristianismo - muito baseada em fórmulas, normas e "o que diz a Igreja", "o que diz a tradição", perdendo o contato com a essência amorosa e apaixonada da mensagem de Cristo.

Esse ponto que você toca, essa questão de um arrebatamento que às vezes se vê tirando as pessoas do contato consigo mesmas, da percepção dos seus sentimentos mais profundos e, de certa forma, anestesiando as pessoas - esse arrebatamento (que você descreve como "desesperado"), também a mim pessoalmente parece alienante; parece que mais afasta as pessoas do contato consigo e com Deus e as coloca em um estado alterado meio eufórico, às vezes até meio histérico...

Mas acho que, pensando na ressalva que fiz no começo, a sua busca de serenidade, confiança e perdão (que três palavras lindas você escolheu) não é de jeito nenhum incompatível com o Tesão. Porque leio esse "tesão" do texto como justamente esse "sentir", "se sentir", "sentir Deus", esse contato primordial, essa re-ligação consigo mesmo e com o Pai que a religião tem por função promover - em oposição a quem se perde, ou no desespero, ou na mera repetição de fórmulas de certo/errado e da fria letra da lei. E sabemos que "a letra mata, mas o Espírito vivifica" (2 Coríntios 3:6), né? :-)

Senão, o cristianismo se limitará a ser uma agência moral (v. mais aqui) - o que seria uma perda trágica do seu potencial transformador. :-)

Grande abraço, e muito obrigada pelo seu comentário enriquecedor. Sigamos refletindo juntos! :-)))

Cristiana
Equipe Diversidade Católica

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