segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Vozes homofóbicas, calem-se!

Flores de origami: James Roper

O Evangelho de Marcos (1,21-28), proclamado na Igreja há poucos dias, narra uma cena impressionante. Jesus, ensinando na sinagoga com autoridade, encontra-se com um homem possuído por um espírito mau. Este gritou: “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir?” E Jesus o intimou: “Cala-te e sai dele!”

Como bem observou o teólogo Pagola (aqui), Jesus anuncia com liberdade e sem medo um Deus bom. Ao escutar a sua mensagem, o homem com o espírito mau se sentiu ameaçado. O seu mundo religioso derruba-se. Que forças estranhas o impedem de continuar escutando Jesus? Que experiências más e perversas lhe bloqueiam o caminho até o Deus bom que lhe anunciam? Jesus ordena que se calem as vozes malignas que não o deixam se encontrar com Deus, nem consigo mesmo. Que ele recupere o silêncio que cura o mais profundo do ser humano, libertando-se da sua violência interior. Jesus pôs fim às trevas e ao medo de Deus. Daí em diante aquele homem podia escutar a Boa Nova.

Não são poucas as pessoas hoje que vivem com imagens falsas de Deus, que lhes fazem viver sem dignidade e sem verdade. Elas não sentem Deus como uma presença amiga que convida a viver criativamente, mas como uma sombra ameaçadora que controla a sua existência. Jesus sempre começa a curar libertando de um Deus opressor.

As vozes malignas, que bloqueiam o encontro com Deus e consigo mesmo, incluem a aversão a pessoas homossexuais. A homofobia desencadeia diversas formas de violência física, verbal e simbólica contra estas pessoas. Uma violência tanto externa quanto interna. Dentre os palavrões mais ofensivos que existem, estão os que se referem à condição homossexual e às relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Há pais que já disseram: “prefiro um filho morto num acidente a um filho gay”. São freqüentes os homicídios, sobretudo de travestis. Não são raros os suicídios de adolescentes que se descobrem gays, e mesmo de adultos. Eles chegam a esta atitude extrema por pressentirem a hostilidade terrível da própria família e da sociedade. Tamanha aversão, gerando inúmeras formas de discriminação, mesmo que não leve à morte, frequentemente traz tristeza profunda ou depressão.

O discurso religioso às vezes engrossa o coro de vozes homofóbicas, mesmo que ele explicitamente se oponha à violência. Na Igreja Católica, a doutrina contrária à homoafetividade foi abertamente contestada pelo clero de Chicago, em 2003, após um pronunciamento da alta hierarquia eclesiástica contrário às uniões homossexuais. Em nome da dignidade da pessoa humana e do respeito que lhe é devido, aqueles sacerdotes criticaram o tom de tamanha violência e abuso contra gays e lésbicas, que são filhos e filhas da Igreja. Ninguém mais do que eles têm sido massacrados por uma linguagem tão vil, que os demoniza. Termos como atos “intrinsecamente desordenados”, uniões “nocivas” e “graves depravações”, são um bombardeio que em muitos arrasa o respeito próprio e a auto-estima. Em lugar dessa linguagem asquerosa e tóxica, eles propõem uma abertura de diálogo que inclua a experiência vivida dos fiéis. Os sacerdotes reconhecem a bênção divina na vida de inúmeros homossexuais em seus relacionamentos. E defendem que suas vivências sejam ouvidas com respeito (aqui).

Não há como impedir que pessoas e instituições expressem convicções homofóbicas, mas se pode enfrentar estas convicções com a luz da ciência, que não considera mais a homossexualidade como doença; e com a luz da fé no Deus bom, anunciado por Jesus. Ele ensina que a lei foi feita para o homem, e não o homem para a lei, e nos oferece o Seu jugo leve e o Seu fardo suave. Assim as vozes homofóbicas podem se calar dentro das pessoas feridas e devastadas. As trevas da ignorância podem ser dissipadas; o medo, afastado, para que nelas se restaure a autoestima e a confiança.

- Equipe Diversidade Católica

2 comentários:

Magnus disse...

Infelizmente vozes homofóbicas ainda ressoam, conforme noticiado em artigos veiculados pela agência de notícias católicas Zenit:

http://www.zenit.org/article-29673?l=portuguese

http://www.zenit.org/article-29681?l=portuguese

Equipe Diversidade Católica disse...

É verdade, Magnus. Por isso, mais que nunca, é nossa função trazer à luz a outra via, outras vozes: porque é do seu reforço que nascerá a mudança. Né? :-))

Se tiver interesse, dê uma olhada em "Homossexualidade e Contra-hegemonia no Catolicismo", aqui.

Um abraço afetuoso, paz e bem! :-)

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