"Se eu pudesse dizer que ele não precisa se esconder..."
Ele ria - meio tímido – de certas piadas. Ele sabia que a vida era bem mais dinâmica que as teorias e teses, assim como os olhares que todos lançavam discretíssimos para os pênis dos outros colegas de vestiário. Sim, alguns eram homossexuais, mas ele sabia que muitos ali estavam - no melhor estilo do macho competitivo – apenas fazendo comparações. Não via naquilo o que a moçada do vestiário certamente chamaria de viadagem. Ele ria – meio sem graça – de certos comentários mais pejorativos contra os gays.
Ele voltou a fazer esporte e retornou ao ambiente dos vestiários, mas algo ainda o incomodava muito. Um garoto, muito feminino, muito frágil, era constantemente alvo de um silêncio e um desdém malicioso. Quando o jovem entrava na área dos chuveiros, todos faziam questão de tentar sair o mais rápido possível. Era como se um leproso fosse contaminar todo o clima de masculidade reinante. O moleque também era tímido e não reagia, não sabia como se comportar, o que responder, apesar de ser clara a vontade de excluí-lo do vestiário.
Ele lembrou de um artigo de Duílio Ferronato, na antiga coluna GLS da Revista da Folha de São Paulo que contava que ao fazer capoeira e escutar piadinhas contra gays, o colunista logo de cara rebateu: “Eu sou viado”. E todos começaram a respeitá-lo. Mas aquele pobre garoto não poderia fazer isso pois nada era direto, a agressão era silenciosa.
Ele, de repente, percebeu que um desses machinhos começou a dizer que o armário de número 24 – que sempre estava vazio - era do tal garoto. E essa brincadeira começou a ficar constante. O garoto talvez nunca tenha escutado, mas não demorou muito e nunca mais viram o jovem que sumiu para alívio das testosteronas exacerbadas.
Ele tinha que fazer algo, ele se irmanava com a timidez e com uma certa liberdade de não ter que seguir condutas e regras para poder ser homem. Enfim, no dia que o vestiário estava cheio de "cuecas", todos rindo, fazendo o seu velho e sempre ritual de afirmação da macheza, ele sem mais nem menos se trocou e colocou a roupa no armário de número 24. aquele que estava sempre vazio.
Ele percebeu que rolaram olhares estranhos, mas ninguém mexeu com ele nem fez piadinhas e assim ele fez durante todas as vezes que ia ao vestiário. Ele fazia questão de colocar suas roupas no armário de número 24. Era sua resposta sem barulho para uma agressão que o perturbou. Ele, heterossexual, mas deslocado do discurso de afirmação de uma certa forma de masculinidade, não precisava sair do armário, mas colocar lá dentro de forma trancafiada o desprezo e a ignorância de seus colegas de vestiário.
- Vitor Angelo
Publicado originalmente no Blogay
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O vídeo acima faz parte da campanha "Pink Dot", de Cingapura, cujos organizadores sabem que o preconceito e a discriminação não vão acabar de uma hora para outra e convidam todos a mostrar que os LGBTx não estão sozinhos. A cada situação mostrada, os personagens dizem "Se ao menos eu tivesse coragem de defendê-lo..."; "Se eu pudesse dizer que ele não precisa se esconder...";
"Se pudesse dizer a elas que seu amor uma pela outra também é bonito..."; "Se eu pudesse mostrar a ela o quanto ela é importante para mim..."; "Se as pessoas gays pudessem parar de se sentir culpadas por serem diferentes..."; "Ah, se o mundo pudesse ver o que eu vejo". Tweet
2 comentários:
Amei o vídeo!!
Demais, né? :-) E que proposta incrível a dessa campanha. Precisamos organizar uma dessas por aqui...
Beijos.
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