segunda-feira, 6 de maio de 2013

Sem-tetos espirituais



Li este depoimento hoje com lágrimas nos olhos, mas o coração cheio de alegria. As lágrimas foram de tristeza por essa igreja que ainda fecha as portas a tantos, mas a alegria foi por reconhecer nos manifestantes a igreja de Cristo à qual pertenço e que tanto amo. Foi nesse espírito que traduzi o texto e agora o compartilho, na esperança de que esse relato possa inspirar os cristãos a seguirmos afirmando nosso lugar na casa do Pai, com nossas mãos "sujas" e nossos corações limpos. :-) (via@Christians Tired of Being Misrepresented)



"Pedie se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será aberto. Porque todoaquele que pede, recebe. Quem busca, acha. A quem bate, abrir-se-á."(Mateus 7:7-8).

Hoje, eu e outros batemos à porta da Catedral de St. Patrick [Nova York], mas a porta não foi aberta — pelo contrário, foi fechada na nossa cara. Ao começar a redigir este artigo, estou ciente da intensidade das emoções que se agitam no fundo do meu coração. É um sentimento que não me é familiar, pois até hoje nunca me havia sido negado um lugar à mesa de Cristo. Com efeito, hoje foi o primeiro dia em que me senti destituído,abandonado e perdido.

Mais cedo, um grupo de católicos, eu incluído,nos reunimos na esquina da rua East 46th com Fifth Avenue, em Manhattan. Nosso encontro tinha um único objetivo:sujar nossas mãos para, em seguida, irmos assistir à missa na Catedral de St. Patrick. Estávamos sujando as mãos em resposta silenciosa à coluna do Cardeal Dolan de semana passada, na qual ele afirmou que as pessoas LGBT eram bem-vindas na igreja desde que lavassem as mãos. Ao esfregarmos nossas mãos com cinzas,elas assumiram a aparência e a sensação do empenho que vem definindo nosso trabalho para recebermos um lugar igualitário à mesa de Cristo na Igreja Católica. Os participantes eram não só católicos LGBT, mas também aliados e,talvez mais importante, pais de filhos LGBT. Reunimo-nos não em protesto, mas para dar nosso testemunho silencioso.

Foi o que se passou após termos sujado as mãos que por exemplo difícil para mim entender e situar no contexto da experiência cristã. Por volta de 9h30 da manhã,nosso grupo de dez pessoas foi abordado por quatro viaturas policiais, oito policiais uniformizados, um capitão de polícia e um detetive da unidade especial para LGBTs. O detetive nos informou que a Catedral proibiria a nossa entrada porque nossas mãos estavam sujas. Foi nesse momento que me dei conta do poder que o medo tem. A Arquidiocese de Nova York estava respondendo a partir do seu medo a uma presença pacífica e silenciosa na missa.Mesmo diante disso,resolvemos caminhar solenemente de nosso ponto de encontro até a Catedral, na esperança de sermos acolhidos.

Ao chegarmos à Catedral de St. Patrick, fomos abordados por Kevin Donohue, que se identificou como encarregado das operações da catedral. Infelizmente, o tom do Sr. Donohue era frio e reprovador. O que me deixou mais perplexo foi ele dizer que poderíamos entrar na catedral desde que lavássemos as mãos antes. Até agora,quando escrevo estas palavras, tenho dificuldade para compreender seu significado, tentando entender seu caráter de exclusão.

Foi nesse momento que o Sr. Donohue nos advertiu de que, caso entrássemos na Catedral de St. Patrick com as mãos sujas,seríamos presos e acusados de invasão criminosa. Ao ouvir essas palavras,lembro que pensei "Como posso ser acusado de invasão criminosa da minha própria casa?". Foi aí que percebi oque significa ser um sem-teto espiritual. Foi um entendimento particularmente difícil para mim à luz do encontro privado que eu tivera com o Cardeal Dolan em 27 de novembro de 2012, em seu escritório em Manhattan. Durante esse nosso encontro, ele expressou tamanho amor e acolhimento que me pareceu muito difícil compreender essa “acolhida condicional” subsequente.

Em resposta à ameaça de prisão por parte da Arquidiocese,optamos por ficar do lado de fora, onde permanecemos em vigília silenciosa, comas palmas das mãos estendidas na direção das portas principais da Catedral. À medida que se aproximava o horário do início da missa, as portas temporárias de aço que se encontram na fachada da Catedral enquanto as originais estão sendo restauradas pareciam simbolicamente apropriadas. O aço frio e as portas cerradas diante de nós parecem-me, agora, capturar bem a frieza que sentimos departe tanto dos funcionários da Catedral quanto do próprio cardeal. Nossa presença pacífica teve como resposta um sonoro "vocês não são bem-vindos".

Tendo sido criado como católico romano desde o nascimento, minha experiência da Igreja e de sua comunidade de crentes sempre foi de um lugar de acolhimento e afirmação. Quando me assumi homossexual, o padre que me acompanhava desde a infância e as lideranças da paróquia da minha cidade natal ficaram ao meu lado e me apoiaram. Hoje, essa experiência infantil de “igreja” entrou em agudo contraste com a resposta fria e implacável da Arquidiocese de Nova York e do Cardeal Dolan à nossa presença na Catedral pela manhã.

Outro dia, postei no meu mural no Facebook que, após a falsa acolhida do Cardeal, eu me encontrava em uma encruzilhada na minha jornada de fé; entretanto, percebo agora que não sou eu que me encontro nessa encruzilhada, e sim o próprio Cardeal. Ele se encontra num ponto em que pode escolher enxergar a dignidade intrínseca a todas as pessoas ou seguir por um caminho de julgamento e acusação.

Hoje, encontro-me não em uma encruzilhada, mas sim no limiar de uma porta. Eis que eu e outros estamos à porta da Igreja e batemos, buscamos, rogamos. Espero que nosso ato de hoje leve as portas da Catedral a se abrirem para nós não em termos condicionais, mas com o entendimento de que somos todos criados à imagem e semelhança de Deus.

A vigília desta manhã não foi uma questão demãos sujas, mas, como disse Brendan Fay, de "corações limpos". Com nossos corações limpos e nossas mãos sujas, continuaremos batendo às portas da Catedral, com a esperança de que, um dia, o Cardeal Dolan por fim se dê conta de que também nós somos dignos de entrar na igreja, como filhos de Deus.

Fonte e imagens da manifestação

Tradução e comentário: Cristiana Serra
Imagem: Adriana Varejão

Um comentário:

Navorski disse...

Fico pensando se ser um "sem teto espiritual" não é uma espécie de sina. Quer dizer, trata-se de bem mais que aceitar ou não pessoas LGBT, existe uma coisa por trás disso, um "problema" que liga a questão dos gays a outras e que, no final, diz respeito a todos os cristãos, ou deveria dizer. A igreja não me parece um lugar acolhedor, quando poderia ser e isso é decepcionante. Eu tento ter alguma vida espiritual de uma maneira muito íntima (espero que Deus entenda a minha ignorância), mas as "coisas cristãs" em sua "versão hegemônica", me causam repulsa, a mesma que tenho pelo nazismo e afins, mas como uma espécie de mágoa. Não sou "bom" o suficiente pra "transcender" isso.

"Lavar as mãos", meu deus... Quanto é realmente dito contra a violência homofóbica?, mas todos estão interessados na sujeira das nossas mãos. Eu admiro a coragem de vocês e a desses caras nesse ato.

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