quarta-feira, 18 de junho de 2014

A Igreja Católica ante a homossexualidade: contextualizações e indicações pastorais (parte 2 de 4)


Como divulgamos aqui, a Revista Vida Pastoral está lançando em julho-agosto um número temático sobre homoafetividade e fé cristã. Reproduzimos esta semana os artigos dessa edição relacionados ao tema de capa; começamos por este do Pe. Luís Correa Lima, SJ, em duas partes (primeira e segunda), e continuamos agora com o artigo de Edênio Valle, em quatro partes (a primeira está aqui). Para quem quiser acesso à edição virtual da revista na íntegra, é só clicar aqui. Segue a segunda parte do artigo:

2. Pronunciamentos da Santa Sé sobre a homossexualidade

Até aqui, apenas contextualizei rapidamente alguns aspectos do estado da questão. Propositadamente, não mencionei o que se passa nos arraiais do clero (sobre esse ponto, cf. Nasini, 2001). Passarei, a seguir, a expor o que os documentos e pronunciamentos da Santa Sé têm reafirmado sobre o tema e indicarei, em rápidas pinceladas, a recepção deles pelos teólogos e pastoralistas da Igreja.

Tomarei como referência os textos que, em minha avaliação, marcam o surgimento de um enfoque até certo ponto novo na abordagem da homossexualidade pela Igreja oficial. Comentarei especialmente dois deles: o de 1975, publicado no Brasil em 1976, e o outro, de 1985. Ambos têm como destinatários “os bispos da Igreja Católica”, o que os caracteriza como textos também de natureza pastoral, ou seja, não dirigidos ao público externo, mas sim aos que devem conduzir a ação evangelizadora na Igreja. É importante frisar essa origem e esses destinatários dos textos para não buscar neles o que não pretendem nem podem oferecer.

O documento de 1976 leva o nome de Declaração sobre alguns pontos da ética sexual. Foi elaborado pela Congregação para a Doutrina da Fé, o que me parece ser sintomático, por deixar claro que, para a autoridade eclesiástica, se tratava basicamente de uma questão de doutrina. O outro foi publicado dez anos mais tarde, em 1986. Procede da mesma fonte, mas é redigido na forma de uma carta Sobre o cuidado pastoral de pessoas homossexuais.

O objetivo de ambos os documentos é esclarecer tanto princípios de doutrina quanto de pastoral afetados pela discussão pública, cada vez mais acesa, em torno da homossexualidade. Há, provavelmente, por trás do documento de 1986 uma decisão pessoal do papa João Paulo II, que, àquela época, imprimia às diretrizes da Cúria Romana uma orientação católico-conservadora, centrada na defesa do pensamento católico sobre a família, o aborto, as políticas de controle de natalidade, as reivindicações do feminismo e as legislações liberais relativas à homossexualidade que começavam a aparecer nos parlamentos dos países ocidentais, secundando costumes cada vez mais disseminados no Ocidente secularizado. Aliás, essa preocupação quanto ao aspecto “teológico-doutrinal” foi uma constante também de outros pronunciamentos do pontificado de João Paulo II. Sabe-se, além do mais, que nos dicastérios e secretariados mais diretamente responsáveis pelas tomadas de posição normativas estavam alguns dos cardeais e teólogos mais conservadores da Cúria Romana.

Apesar de os documentos apresentarem avanços – o que é necessário valorizar –, encontraram igualmente rejeições e críticas, como era de esperar.[3] Em muitos ambientes, a repulsa foi quase total, o que, provavelmente, fez que leitores e comentaristas engajados não valorizassem devidamente os avanços e pistas novas constantes dos textos. Naturalmente, havia também o outro lado, o partido dos conservadores, que criticava os escritos por terem cedido demasiado à pressão da opinião pública liberal.


2.1. A Declaração sobre alguns pontos de ética sexual, de 1976

O documento de 1976 parte de um posicionamento claro da Santa Sé e marca um distanciamento do magistério em relação à opinião de teólogos católicos e protestantes – mesmo de Igrejas – mais abertos ao diálogo. Considera com extrema preocupação “a tendência a julgar com indulgência e até mesmo a desculpar completamente as relações homossexuais em determinadas pessoas”. E argumenta afirmando que esse modo de pensar fere “o constante ensino do magistério… e o sentir moral do povo cristão”.

2.1.1. Aventa, em defesa de sua posição bastante severa, dois argumentos principais. Um é bíblico. A declaração afirma de modo categórico que, para a Bíblia, “os atos[4] de homossexualidade são intrinsecamente desordenados [...] não podem, em hipótese alguma, receber qualquer aprovação”. No entanto, abre uma brecha que evita uma leitura taxativamente negativa e condenatória dos textos do Antigo e do Novo Testamento, ao sublinhar que a Bíblia “não permite [...] concluir que todos aqueles que sofrem de tal anomalia sejam por isso pessoalmente responsáveis”. Um segundo argumento é tirado da ordem natural das coisas, um argumento de enorme peso na teologia medieval e na patrística, bem na linha existente já na Bíblia judaica. De acordo com essa interpretação, existe uma “ordem moral objetiva” segundo a qual “as relações homossexuais são atos destituídos da sua regra essencial e indispensável” que é a procriação, ditada pela natureza criada por Deus.

Apesar dessa avaliação moral “objetivista e extrínseca”(expressões usadas por Azpitarte, 1997), a declaração apresenta vários elementos que podem ajudar a contextualizar, de maneira diferente, a homossexualidade. São conceitos que aparecem, sobretudo, no momento em que a declaração abandona a chave doutrinal e passa a tratar a questão à luz de um sentido pastoral e pedagógico. Mas mesmo esses parágrafos benévolos são precedidos por uma reprovação de todo e qualquer “método pastoral que reconheça uma justificação moral desses atos (homossexuais) por considerá-los conformes à condição dessas pessoas”.

Em outro parágrafo, o documento acentua que os que padecem de tal “anomalia”não são necessariamente responsáveis por ela, uma vez que não o fazem por escolha própria. Este é um ponto fundamental, no qual insistem quase todos os moralistas contemporâneos. Azpitarte, por exemplo, diz:

o simples fato de apresentar tendências homossexuais, de sentir atração pelo próprio sexo, é um fato que não entra no campo da moralidade. Ninguém é bom nem mau por experimentar tendências e sentimentos que não pode afastar de si e que, inclusive, experimenta como um destino imposto à margem de sua vontade, algo assim como faz com que nasçamos homem ou mulher. Na medida em que a homofilia não se baseia em uma opção escolhida, não há lugar para culpa. O pecado tem outras categorias, que não radicam na existência pura e simples de um fenômeno psicológico, mas sim na aceitação livre e voluntária das práticas homossexuais (1997, p. 78).

De tal raciocínio decorrem sérias consequências para a consideração do comportamento relativo à pessoa do homossexual. Ao lado do rigor quanto às questões de princípio, surge, na moral católica e nos textos da autoridade eclesiástica, evidente interesse em favorecer uma atitude de maior acolhida na ajuda às pessoas de tendência homossexual. Isso é expresso claramente em frases da declaração como a seguinte:

Indubitavelmente, essas pessoas homossexuais devem ser acolhidas, na ação pastoral, com compreensão, e devem ser apoiadas na esperança de superar suas dificuldades pessoais e sua inadaptação social. Também sua culpabilidade deve ser julgada com prudência.

2.1.2. Após essa breve apresentação do documento de 1976, chamo a atenção do leitor para uma observação que reputo importante. Há indícios de que no texto existe uma concomitância entre uma “linha dura” e outra, mais branda, no que diz respeito ao acolhimento da pessoa homossexual. João Paulo II, em um discurso aos bispos norte-americanos, reafirmou essa posição, assinando em primeira pessoa o que a Santa Sé e também alguns episcopados já haviam afirmado sobre o mesmo assunto.[5] Esse discurso do papa antecipava, de alguma maneira, um texto mais denso, publicado dez anos depois pela Congregação para a Doutrina da Fé, em 1986. Dada a tumultuada recepção[6] da declaração de 1976 por parte da opinião pública mundial, parece que era dupla a intenção do papa com esse discurso pronunciado no país onde a polêmica se fazia mais agressiva: manter o rigor doutrinário, mas, simultaneamente, ressaltar a dignidade fundamental e os direitos do homossexual como pessoa. De alguma forma, João Paulo II pretendia, assim, afastar da Igreja a pecha de hostil à sexualidade e de preconceituosa quanto aos homossexuais e suas reivindicações políticas e sociais.

2.2. Carta de 1986 sobre o atendimento das pessoas homossexuais

2.2.1. A carta se apresenta de maneira modesta ao afirmar que não quer nem pode ser “um tratado exaustivo”, admitindo, assim, que também a Igreja sabe que está diante de uma questão de grande complexidade. Nesse sentido, a carta procura se fundamentar “nos resultados seguros das ciências humanas”. Mas, além do que as ciências ajudam a trazer à luz, a Igreja procura em seu horizonte próprio, que é o da fé, sabendo que esse ângulo, muito especialmente em questões de moral sexual, não pode prescindir de um “estudo atento, empenho concreto e reflexão honesta, teologicamente equilibrada”,sobre o fenômeno homossexual.

O texto, porém, causa a impressão de ser doutrinariamente ainda mais restritivo que o anterior. Já em seu terceiro parágrafo, ele volta à questão dos atos homossexuais como atos “privados de sua finalidade essencial e indispensável” e expressa taxativamente:

a particular inclinação da pessoa homossexual, apesar de não ser em si mesma um pecado, constitui um comportamento intrinsecamente mau do ponto de vista moral. Por este motivo, a própria inclinação deve ser considerada como objetivamente desordenada.

Esse discurso duro e direto permeia quase toda a carta e se faz notar, especialmente, nos seguintes itens: na caracterização dos atos homossexuais; na interpretação teológica dos textos bíblicos; na reação às contestações, críticas e manipulações políticas recebidas pelo documento de 1976 e na condenação de algumas “interpretações excessivamente benévolas”que certos teólogos quiseram dar à condição homossexual etc.

Nos Estados Unidos, a afirmação que causou mais polêmica na imprensa e na militância gay foi a que reiterava a noção de “desordem objetiva”como inerente à homossexualidade e, ao menos indiretamente, também à pessoa do homossexual. Sou da opinião que a intenção da carta não era diminuir os homossexuais, mas foi assim que ela foi lida, como uma tentativa de brecar a luta por seus direitos. Em vários passos, porém, guardando um tom pastoral, o documento afirma o valor e a dignidade dos homossexuais. Eles são descritos como pessoas “frequentemente generosas e que se doam” (n. 7); como investidos de “uma dignidade natural… (que)… deve ser sempre respeitada em palavras, em ações e nas leis” (n. 10); como detentores de uma “liberdade fundamental que caracteriza toda pessoa humana e lhe confere dignidade” (n. 11); como tendo especial “direito” ao cuidado pastoral da Igreja (n. 13-17).

2.2.2. Do lado católico, destacaram-se os posicionamentos do bispo norte-americano Mons. John R. Quinn. Em um artigo influente, ele encarou o controvertido ponto da “homossexualidade como desordem e doença”, depreendido da leitura da carta. Quinn se situou na linha da Associação Americana de Psiquiatria, que, em seu famoso DSM (Diagnostic and Statistical Manual), havia abandonado a classificação da homossexualidade como enfermidade ou desordem psicológica, passando a considerá-la como uma modalidade normal de comportamento. Em que pese o fato de os textos de Roma insistirem em usar a expressão “desordem intrínseca”, dando quase a entender que à homossexualidade se associa necessariamente algo doentio, na opinião de Quinn, o texto da Congregação para a Doutrina da Fé não tinha nem poderia ter a intenção de dirimir um problema de natureza médica e psiquiátrica. Não competiria ao magistério abordar tecnicamente esse problema, do âmbito da ciência médica e psicológica. É interessante notar que o cardeal Joseph Ratzinger, então prefeito da congregação que preparara o texto, escreveu uma carta pessoal a Mons. Quinn, agradecendo sua “cuidadosa análise”e as “pertinentes orientações… que mostravam claridade e sensibilidade pastorais”.

2.2.3. No tocante à discriminação e violência de que os homossexuais foram vítimas no passado e sofrem também hoje, a carta se expressa sem meias palavras:

é de se deplorar firmemente que as pessoas homossexuais tenham sido, e sejam ainda hoje, objeto de expressões malévolas e de ações violentas. Semelhantes comportamentos merecem a condenação dos pastores da Igreja, onde quer que aconteçam. Eles revelam uma falta de respeito pelos outros, que fere os princípios elementares sobre os quais se alicerça uma sadia convivência civil.

O que acontece é que, mesmo quem não está envolvido pessoalmente com a causa homossexual, ao esbarrar com conceitos como “desordem objetiva”, se pergunta sobre a possibilidade de coadunar expressões de apreço pela pessoa do homossexual, presentes em alguns outros trechos desses documentos, com julgamentos tão taxativos quanto o de “desordem objetiva”, à qual, segundo o texto, a homossexualidade estaria sempre e necessariamente associada.

2.2.4. Preparando a parte mais inovadora e positiva – a relativa ao acolhimento das pessoas –, a carta retoma alguns aspectos que já apareciam na Declaração de 1976. Podemos enumerar os seguintes: a referência ao dever dos pastores de procurar melhor compreensão da condição homossexual; a necessidade de julgar com prudência sua possível culpabilidade moral; a distinção entre “a condição ou tendência”, de um lado, e os “atos homossexuais”, de outro. Em sua parte conclusiva, a carta se estende sobre a verdade, a libertação, o amor e a misericórdia, considerados como dimensões integrais do acolhimento pastoral devido a todos os cristãos sem discriminação alguma.

A carta, dando um passo não suficientemente definido no documento de 1976, reconhece a capacidade do homossexual de ser sujeito de suas decisões. Quando cristão, essa dignidade, que lhe vem de sua capacidade de optar e se autogerir, abre-lhe a possibilidade e o dever de viver o que a fé cristã exige de qualquer batizado em termos de santidade, vivência do amor e observância dos mandamentos. Nesse particular, um homossexual não difere, portanto, de um heterossexual. Todos, para lá das orientações que sua sexualidade pode experimentar, são chamados ao mesmo caminho de crescimento humano e plenitude espiritual em Cristo.

[Continua amanhã]

terça-feira, 17 de junho de 2014

A Igreja Católica ante a homossexualidade: contextualizações e indicações pastorais (parte 1 de 4)


Como divulgamos aqui, a Revista Vida Pastoral está lançando em julho-agosto um número temático sobre homoafetividade e fé cristã. Reproduzimos esta semana os artigos dessa edição relacionados ao tema de capa; começamos por este do Pe. Luís Correa Lima, SJ, em duas partes (primeira e segunda), e continuamos agora com o artigo de Edênio Valle, em quatro partes. Para quem quiser acesso à edição virtual da revista na íntegra, é só clicar aqui. Segue a primeira parte do artigo:


O artigo expõe o pensamento ético da Igreja Católica sobre a homossexualidade, assim como sua forma de apresentação nos documentos emanados da Santa Sé. Ao mesmo tempo, faz breve resenha das posições de alguns moralistas contemporâneos e de contribuições da psicologia e da pedagogia para um melhor manejo da questão da homossexualidade por parte da Igreja.

Introdução

Minha experiência de contato direto com boa parte do clero do Brasil me mostrou que, entre nós, presbíteros, há um desconhecimento bastante generalizado do que a Igreja Católica tem dito e repetido sobre a ética sexual em geral e, mais especificamente, sobre a homossexualidade. O que a gente geralmente escuta são generalizações imprecisas (pró e contra) que dão a entender que a Igreja Católica continua a considerar a homossexualidade apenas como uma anomalia ou desvio patológico que ofende a lei natural e é sempre e necessariamente um pecado, o que de fato não corresponde nem ao que a Igreja ensina nem aos fatos.

1. Caminhando para nova compreensão teológica e pastoral

Um bom exemplo da abertura da Igreja acha-se sintetizado na declaração feita pela Congregação para a Doutrina da Fé em 29 de dezembro de 1975, um dos momentos em que, na Cúria Romana, se dá um endurecimento doutrinário e disciplinar. Lê-se aí um parágrafo que representa uma abertura em parte brecada, mas não desmentida:

A pessoa humana, segundo os dados da ciência contemporânea, está de tal modo marcada pela sexualidade que esta é a parte principal entre os fatores que caracterizam a vida dos homens. Na verdade, no sexo radicam as notas características que constituem as pessoas como homens e mulheres no plano biológico, psicológico e espiritual, tendo assim muita parte em sua evolução individual e em sua inserção na sociedade.[1]

Não é difícil perceber que o parágrafo supracitado traz algumas novidades que merecem aprofundamento. Primeiro, nele se diz, com todas as letras, que o ser humano é uma pessoa e, enquanto tal, tem sua vida e evolução social e psicológica marcadas e condicionadas pela maneira como é marcada sua vivência da sexualidade. Sublinha-se, assim, que não se pode falar da pessoa e de sua sexualidade em sentido abstrato e/ou puramente espiritualizante. Dizer “pessoa” implica afirmar sua qualidade de ser situado e datado, portador de um corpo sexuado, mas ao mesmo tempo – porque pessoa – livre e potencialmente desenvolvido em ao menos três planos essenciais de seu existir: o biológico, o psicológico e o espiritual. A sexualidade, portanto, abrange o todo do humano. Não cabe dualizar o existir. Há uma espécie de osmose entre sexualidade e existência. Nesse sentido, pode-se dizer que o indivíduo humano não tem um sexo; ele é sexo. O existir humano comporta e supõe uma maneira própria de ser no mundo e uma capacidade também racional de lhe dar sentido. Em outros termos, como dizia o papa Bento XVI[2] em sua primeira encíclica, ele não pode, em consequência, ser concebido sem a sexualidade, ou seja, sem o eros, que implica o corpo, a philia, a dimensão da amizade,eo ágape, que abre o ser humano para uma relação que transcende e complementa as duas primeiras. Um ser humano sexualmente adulto sem essas três dimensões é tão impensável quanto um homem sem sentimentos, sem inteligência e/ou sem vínculos pessoais que o impliquem responsavelmente. O problema, nesse campo tão ambíguo da vivência humana, concentra-se especialmente em saber falar sobre oeros e o prazer que propicia e saber lidar com eles. A dificuldade não está só ou principalmente na philia ou noágape. O problema, no dizer de Moreira (2006), é que, quando o assunto é o eros em sentido estritamente sexual, um dos assuntos mais explorados e lucrativos da nossa sociedade atual, aí o tema se torna um tabu para a Igreja e seus representantes ordenados, deixando a todos sem recursos para superar certos impasses. A Igreja, em tais circunstâncias, tende a ficar batendo, monotonamente, nas mesmas teclas (Moreira, 2006, p. 4). No caso da homossexualidade, pesam ainda preconceitos que datam de muitos séculos e são hodiernamente sentidos como ofensa a direitos humanos básicos. São temas difíceis que a Igreja, ultimamente, tem tentado enfrentar, até porque seus presbíteros têm sido insistentemente acusados de abusos e destemperos sexuais em diversos países do mundo.

Para a Declaração de 1975, a sexualidade relaciona-se com a capacidade que o ser humano tem de reciprocidade (de ser-com). Como tendência que tem um componente libidinal congênito, tal capacidade já está presente em algumas espécies inferiores, mas, na espécie humana, ela se faz dentro de uma relação “eu-tu”.

Sendo uma realidade tão fundamental e complexa, a sexualidade, especialmente no caso das homofilias, não pode ser definida apenas desde um único ponto de vista histórico, ético-cultural ou teológico-doutrinal, por importante que ele possa ser. Isso se tornou mais evidente devido aos notáveis avanços das modernas ciências biomédicas, sociais e psicológicas, óticas que exercem enorme influência na atual discussão sobre a homossexualidade. Para quem vem da psicologia, como eu, o fato de um texto como o da Declaração de 1975 iniciar com uma menção expressa à necessidade de ter presente o aporte das ciências representa um passo altamente significativo. De maneira muito clara, o texto diz que a teologia e a ética cristãs não podem voltar as costas às descobertas científicas. Eu acrescentaria que esse princípio tem validade mesmo quando as evidências científicas são altamente questionadoras de modos de ver, julgar e agir defendidos no passado pela Igreja, com ou sem o apoio da Escritura e da Tradição. Como encontrar caminhos que respondam a tais desafios das ciências e da sociedade sem, ao mesmo tempo, negligenciar ou deixar de lado o papel que cabe essencialmente à Igreja no exercício de sua missão evangelizadora no mundo contemporâneo? Acompanhando o que tem sido dito e feito pelo papa Francisco, tenho a impressão de ser essa a pergunta que ele nos faz em alguns de seus pronunciamentos esporádicos sobre o assunto. Entre moralistas católicos de clara fama, a reflexão parece caminhar na mesma direção. É o caso de Snoek (1981), Azpitarte (1997), Vidal (1985), Moser (2001), Cozzens (2001) e Forcano (1996) e de pastoralistas e psicólogos como Oraison (1976), Leers e Trasferetti (2002), Valle (2011) , dentre outros outros, que têm se debruçado sobre o tema da homossexualidade não sem suscitar suspeitas por parte das autoridades eclesiásticas e de setores mais conservadores da Igreja.

No presente texto não me aterei ao mérito teológico e doutrinário das argumentações. Minha perspectiva será a da psicologia social, com ênfase no cuidado psicoterapêutico e pastoral, procurando evitar polêmicas do tipo “ou tudo ou nada”. Evitarei, igualmente, entrar no debate científico mais específico das ciências biomédicas e demais ciências afins. No fundo, o que pretendo mostrar é que, na parte doutrinária, a Igreja se mantém coerente com os seus ensinamentos tradicionais, mas, no tocante à pastoral (isto é, ao acolhimento e acompanhamento das pessoas), sua atitude é de maior compreensão para a complexidade desse comportamento em cada um de seus múltiplos e distintos aspectos, tanto científicos quanto bíblico-teológicos e históricos (cf. ALISON, 2010;; BOSWELL, 1985;; CRAWFORD e ZAMBONI, 2005; DI VITO, 2005; MALINA, 2005 e outros). A transição processual das posições da Igreja está longe de ter chegado a resultados conclusivos, mas existe já uma vontade de entender e dialogar. Ao lado dessas inegáveis aberturas, aparecem, porém, resistências e fechamentos. Há grupos fundamentalistas de tendência quase diametralmente oposta, e nesse embate cabe à Igreja preservar dons e valores preciosos. Nos Estados Unidos, a dissensão é ainda mais veemente, devido à força política do movimento gay e também aos dolorosos escândalos comportamentais surgidos no seio do clero. Lá, hoje, o debate é escancaradamente público, tendo sido quebrada a maneira sigilosa com que, durante séculos, assuntos como a homossexualidade eram debatidos e as normas e medidas pastorais e disciplinares eram tomadas.

Não é nada fácil solucionar o impasse pastoral em que a Igreja se debate. O primeiro ano do pontificado do papa Francisco aponta, sem dúvida, para uma retomada do diálogo com a modernidade – ela mesma em crise –, mas persistem vacilações e dificuldades que não podem ser subestimadas. Uma delas reside no fato de o magistério eclesiástico continuar mantendo uma visão e um referencial unilateralmente patriarcais. Desse prisma, torna-se difícil para o magistério discutir padrões de comportamento sexual que há séculos a Igreja declara serem “contra a natureza” criada e desejada por Deus e o exercício de sexualidades alternativas é sempre visto e julgado só negativamente (NOLASCO, 1995; GREEN e TRINDADE, 2005, dentre outros. Ora, na realidade social e cultural contemporânea, a “minoria” homossexual já não vive no “gueto” cultural a que fora relegada (com o aval da Igreja). Hoje, ela se apresenta como legítima representante de uma luta libertária que tem como objetivo defender direitos proclamados elementares em sociedades democráticas. Nas Paradas do Orgulho Gay, esse movimento coloca milhões de simpatizantes e militantes nas grandes avenidas das capitais brasileiras. Conta, para tanto, com a ajuda interessada do “mercado” gay e da indústria do espetáculo (SIMÕES e FRANÇA, 2005). Nas telas da Globo, o beijo homossexual em uma novela recente foi recebido com aplausos por milhões de brasileiros, até por famílias inteiras, que encaravam com simpatia o itinerário de um dos principais personagens do enredo e de um grupo de parceiros seus. Além disso, no Congresso Nacional, seguindo uma tendência mundial, são aprovadas leis que legitimam os direitos dos cidadãos e cidadãs homossexuais. Os formadores de opinião e a imprensa caminham inequivocamente na mesma direção. Não existe, porém, unanimidade, pois, assumindo posições antagônicas, existe uma massa até certo ponto anônima, do meio da qual se destacam deputados e senadores ligados principalmente a Igrejas neopentecostais. Resulta daí crescente animosidade entre grupos homofóbicos, que perseguem e agridem homossexuais nas praças e ruas, e outros que, ao contrário, saem às ruas em defesa dos direitos dos homossexuais. Aos poucos, porém, surge e ganha consistência o que Castells (1983) chamou de “cultura identitária homossexual”.Em tal clima cultural, não é de estranhar que surjam desentendimentos de princípio também no seio das Igrejas cristãs, como a Católica.

Resumindo: a Igreja (a grande comunidade de fé) e os pastores (os que são postos à frente do povo de Deus) estão, sim, em busca de nova ética sexual, mas, ao mesmo tempo, veem-se presos a certas amarras que os impedem de lidar, de forma mais desimpedida, com a nova mentalidade existente especialmente entre os mais jovens. Os textos e pronunciamentos emanados da Santa Sé buscam indicar caminhos alternativos, novas atitudes e normas pastorais para o acompanhamento. Embora a lógica individualista, secularizada e permissiva que preside hoje a sociedade, a cultura e a política em todos os campos continue sendo rejeitada, é inegável a existência, na Igreja, da disposição de repensar perguntas de fundo antes descartadas e vistas como indignas de consideração. Eis algumas dessas perguntas: a) São as posições e normas tradicionalmente tidas como inquestionáveis corroboradas pelos conhecimentos que temos hoje da Bíblia e da teologia da sexualidade? b) São os posicionamentos e concepções adotados até bem recentemente compatíveis com os dados seguros das ciências que estudam a sexualidade humana? c) No caso da minoria de tendência homossexual, a Igreja mantém sua posição de respeito à pessoa humana em seus direitos e dignidade? d) Haveria caminhos pastorais alternativos mais aptos para ajudar os católicos e a humanidade a viver suas tendências sexuais – homo ou heterossexuais – na perspectiva dos valores essenciais da fé cristã? e) A motivação que leva a Igreja a falar de um modo mais aberto da homossexualidade teria sido “segurar” a onda da opinião pública, hoje largamente disseminada, segundo a qual os homossexuais teriam direito à plena cidadania na sociedade e na Igreja e seria seu modo de comportar-se “uma” das formas normais de viver a sexualidade humana? Tanto mais que a essa visão e prática se soma vasto movimento político-cultural em torno da “causa” homossexual, cujos objetivos últimos seriam a autorrealização da pessoa, a aplicação dos avanços do conhecimento científico nesse campo e a nova visão antropológica, ética e teológica que a humanidade vem desenvolvendo a respeito da sexualidade como um direito do indivíduo em sociedades livres, laicas e democráticas. Essa é uma polêmica complexa que está longe de chegar ao seu fim.

[Continua amanhã]

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Homoafetividade e evangelização: abrir caminhos (parte 2 de 2)


Como divulgamos aqui, a Revista Vida Pastoral está lançando em julho-agosto um número temático sobre homoafetividade e fé cristã. Reproduzimos esta semana os artigos dessa edição relacionados ao tema de capa, começando por este do Pe. Luís Correa Lima, SJ, que dividiremos em duas partes. A primeira foi postada aqui ontem. Para quem quiser acesso à edição virtual da revista na íntegra, é só clicar aqui. Segue a segunda parte do texto:

2. A evolução histórica

A religião cristã se tornou hegemônica em muitos países, chegando a ser a religião do Estado. O homoerotismo foi classificado como sodomia e criminalizado. Para a Igreja, a sodomia era um crime horrendo: provocava a ira de Deus a ponto de causar tempestades, terremotos, pestes e fome que destruíam cidades inteiras. Era algo indigno de ser nomeado, um “pecado nefando”, que não se podia mencionar, muito menos cometer (Vide, 2007, p. 331-332). Tribunais eclesiásticos, como a Inquisição, julgavam os acusados desse delito e entregavam os culpados ao poder civil para serem punidos, até mesmo com a morte.

Com o advento do Iluminismo e da razão autônoma independente da Revelação, a prática sexual exercida sem violência ou indecência pública não devia cair sob o domínio da lei. Começou uma crescente descriminalização da sodomia. A modernidade, impulsionada pelo Iluminismo, trouxe a separação entre Igreja e Estado, a autonomia das ciências e os direitos humanos, que restringem o poder do soberano sobre o súdito e ampliam a liberdade da pessoa em relação à coletividade. O termo sodomia foi substituído, no século XIX, por “homossexualidade”. A questão é trazida do âmbito religioso e moral para o âmbito médico. O que então era visto como abominação passa a ser considerado como doença. Por muitas décadas, pessoas homossexuais eram internadas em sanatórios. Chegou-se até mesmo ao uso do choque elétrico.

A partir dos anos 1970, houve progressiva “despatologização” da homossexualidade, impulsionada pelo crescimento do movimento gay. Nos anos 1990, a Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade da lista de doenças. E em 1999, o Conselho Federal de Psicologia declarou que a homossexualidade não é nem doença, nem distúrbio, nem perversão e proibiu os psicólogos de colaborar em serviços que proponham tratamento e cura da homossexualidade. Assim, algumas pessoas são homossexuais e o serão por toda a vida. Não se trata de opção, mas de condição ou orientação. Com isso, surgiu também novo campo jurídico: o direito homoafetivo, contemplando a população LGBT.

A modernidade, em suas grandes linhas, foi assimilada pela Igreja Católica no Concílio Vaticano II. Além do novo enfoque da evangelização e da leitura da Bíblia, o concílio legitimou a separação entre Igreja e Estado e a autonomia da ciência e reconheceu a liberdade de consciência, o direito de a pessoa agir segundo a norma reta da sua consciência e o dever de não agir contra ela. Nela está o “sacrário da pessoa”, onde Deus está presente e se manifesta. Pela fidelidade à voz da consciência, os cristãos estão unidos às outras pessoas no dever de buscar a verdade e de nela resolver os problemas morais que surgem na vida individual e social (Gaudium et Spes, n. 36 e 16). Nenhuma palavra externa substitui a reflexão e o juízo da própria consciência. O Catecismo da Igreja Católica aprofunda esse ensinamento e cita o cardeal Newman: “A consciência é o primeiro de todos os vigários de Cristo” (n. 1.778). É ela quem primeiro representa Cristo para o fiel.

3. O ensino atual da Igreja e as perspectivas pastorais

O papa Bento XVI, certa vez, afirmou que o cristianismo não é um conjunto de proibições, mas uma opção positiva. E acrescentou que é muito importante evidenciar isso novamente, porque essa consciência hoje quase desapareceu por completo (BENTO XVI, 2006). É muito bom que um papa reconheça esse problema. Há ênfase demais na proibição, gerando ameaça de condenação eterna, culpa e medo que paralisam as pessoas. O ponto de partida do ensinamento cristão deve ser o seu elemento positivo que é boa notícia (evangelho). Francisco segue esse caminho e avança: “o anúncio do amor salvífico de Deus precede a obrigação moral e religiosa. Hoje, por vezes, parece que prevalece a ordem inversa”. Para ele, a prioridade da pregação deve ser curar todo tipo de ferida. Depois se pode falar de todo o resto. O anúncio, concentrando-se no essencial, é também aquilo que mais apaixona e atrai, aquilo que faz arder o coração, como aos discípulos de Emaús (Francisco, 2013c). A compreensão e a exposição do ensinamento da Igreja também devem seguir esse itinerário.

Uma carta pastoral afirma que nenhum ser humano é mero homo ou heterossexual. Ele é, acima de tudo, criatura de Deus e destinatário de sua graça, a qual o torna filho seu e herdeiro da vida eterna (CDF, 1986, n.16). A posição da moral católica deve se basear na razão humana iluminada pela fé e encontrar apoio também nos resultados seguros das ciências humanas (n.2). Toda violência física ou verbal contra pessoas homossexuais é deplorável, merecendo a condenação dos pastores da Igreja onde quer que se verifique (n.10). Os atos homossexuais, por sua vez, são considerados intrinsecamente desordenados e, como tais, não podem ser aprovados em nenhum caso (n. 3). Sobre a culpabilidade da pessoa, porém, deve haver prudência no julgamento. São reconhecidos casos em que a tendência homossexual não é fruto de opção deliberada da pessoa e que esta não tem alternativa, mas é compelida a se comportar de modo homossexual. Por conseguinte, em tal situação, ela agiria sem culpa. Alerta-se para o risco de generalizações, mas podem existir circunstâncias que reduzem ou até mesmo eliminam a culpa da pessoa (n. 11). Nesta situação, não se pode dizer jamais que a pessoa está em pecado mortal e deve se afastar dos sacramentos.

A castidade, hoje, é definida primeiramente como a integração bem-sucedida da sexualidade na pessoa, na sua unidade de corpo e alma (Catecismo, n. 2.337). Essa integração é um caminho gradual, um crescimento em etapas marcadas pela imperfeição e até pelo pecado (n. 2.343). Não é o reino do tudo ou nada. É preciso levar em conta a situação em que a pessoa se encontra e os passos que ela pode e deve dar. Só há uma integração bem-sucedida se a pessoa viver em paz com a sua sexualidade, amando o seu semelhante e a si mesma.

O estudo crítico da Bíblia, a devida atenção aos resultados das ciências, a fidelidade à própria consciência e os matizes da moral são referências que tornam o ensinamento da Igreja um componente rico e dinâmico na vida dos fiéis. Não se deve buscar nesse ensinamento nem na Bíblia um manual de instruções próprio de um eletrodoméstico ou um código moral detalhado, universal e imutável. Muitas vezes se fazem citações descontextualizadas da Bíblia e simplificações indevidas da doutrina, com extrema rigidez e terrível ímpeto condenatório dirigido aos gays. A pregação, em vez de curar feridas e aquecer o coração, traz mais devastação; e a Palavra do Deus da vida acaba se tornando palavra de morte. Os gays jamais devem ser tratados como endemoninhados a ser exorcizados ou ser submetidos a orações de “cura e libertação” para mudarem a sua condição.

Sobre o reconhecimento legal da união homossexual, o ensino da Igreja faz severa oposição à equiparação dessa união àquela entre homem e mulher, bem como a mudanças no direito familiar que caminhem nesse sentido. No entanto, ainda que com ressalvas, afirma que se podem reconhecer direitos de pessoas homossexuais conviventes, com proteção legal para situações de interesse recíproco (CDF, 2003, n. 5 e 9). Esse passo é muito importante. Se não há nenhum reconhecimento social ou proteção legal das uniões homoafetivas, a homofobia presente na sociedade pressiona os gays a contrair uniões heterossexuais para fugirem do preconceito. Isso tem acontecido há séculos e traz muito sofrimento às pessoas envolvidas. É necessário que pare. O sacramento do matrimônio, nessas circunstâncias, é inválido (Código de Direito Canônico, Cân. 1.095, n. 3). Os fiéis precisam saber disso. O casamento tradicional não é solução para a pessoa homossexual.

Outra iniciativa é a dos bispos norte-americanos, que escreveram bela carta pastoral aos pais dos homossexuais. O título é oportuno e profético: “Sempre nossos filhos”. Os bispos afirmam que Deus não ama menos uma pessoa por ela ser gay ou lésbica. Deus é muito mais poderoso, mais compassivo e, se for preciso, mais capaz de perdoar do que qualquer pessoa neste mundo. Os bispos exortam os pais a amar a si mesmos e não se culpar pela orientação sexual de seus filhos nem por suas escolhas. Os pais não são obrigados a encaminhar os filhos a terapias de reversão para torná-los heterossexuais. Os pais são encorajados, sim, a lhes demonstrar amor incondicional. E, dependendo da situação dos filhos, observam os bispos, o apoio da família é ainda mais necessário (USCCB, 1997).

Uma forma de acolhimento que vem sendo aplicada por bispos católicos da Suíça se dá por meio das bênçãos. Conforme recomendações da Conferência Episcopal Suíça para a Igreja daquele país, pessoas homossexuais podem ser abençoadas, sem que isso denote qualquer semelhança com o matrimônio sacramental (CES, 2002, n. 3) e sem contrariar as normas da Igreja. No Ritual de Bênçãos, por exemplo, há bênção de uma residência, com orações pelos que nela residem, bênção do local de trabalho e bênçãos para diversas circunstâncias.

Há muitas famílias que têm filhos gays e sofrem imensamente com isso. Os pais frequentemente culpam a si mesmos e não sabem o que fazer. Essa mensagem é muito oportuna também na realidade social e eclesial do Brasil. Os bispos norte-americanos também trataram da pastoral com homossexuais. Nesse trabalho, os ministros religiosos são convidados a ouvir as experiências, as necessidades e as esperanças dessas pessoas. Assim se manifesta o respeito à dignidade inata e à consciência do outro. Gays e lésbicas podem, dependendo das circunstâncias, revelar a sua condição a familiares e amigos e crescer na vida cristã (USCCB, 2006).

As iniciativas em favor do acolhimento são corroboradas pelo papa Francisco: “Se uma pessoa é gay e procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para a julgar?… Não se devem marginalizar essas pessoas por isso” (Francisco, 2013b). Em vez de julgá-las ou marginalizá-las, deve-se fomentar na Igreja um ambiente acolhedor no qual pessoas gays possam buscar a Deus. Que a Igreja seja um lugar onde suas feridas sejam curadas e seus corações aquecidos. Um lugar onde sintam o jugo leve e o fardo suave oferecidos por Jesus.

Bibliografia

CDF (Congregação para a Doutrina da Fé). Homosexualitatis problema. Roma, 1986. Disponível em: .
______. Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais. Roma, 2003.
CES (Conférence des Évêques Suisses). Note pastorale 10. Friburgo, 2002. Disponível em: .
BENTO XVI. Entrevista de Bento XVI em previsão de sua viagem à Baviera (I). Zenit, 16 ago. 2006.
FRANCISCO. Solenidade de Pentecostes. Roma, 19 maio 2013a. Disponível em: .
______. Encontro do santo padre com os jornalistas durante o voo de regresso do Brasil. 28 jun. 2013b.
______. Entrevista exclusiva do papa Francisco às revistas dos jesuítas. Brotéria,19 ago. 2013c.
USCCB (United States Conference of Catholic Bishops). Always our children. Washington, 1997. Disponível em: <www.usccb.org>.
______. Ministry to persons with a homosexual inclination. Washington, 2006. Disponível em: <www.usccb.org>.
VIDE, D. Sebastião Monteiro da. Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia (1707). Brasília: Senado Federal, 2007.


Luís Corrêa Lima, SJ
Padre jesuíta, doutor em História e professor da PUC-Rio. Trabalha em pesquisa sobre história da Igreja, modernidade e diversidade sexual. Colabora na Paróquia N. Sra. da Boa Viagem, na Rocinha, e atua no aconselhamento espiritual de pessoas homossexuais. E-mail: lclima@puc-rio.br

domingo, 15 de junho de 2014

Claudio Pastro na capela da Santíssima Trindade


Neste domingo da Santíssima Trindade, o querido Fábio Sotero nos envia esta linda reflexão do Pe. Ramón F. de la Cigoña, SJ e a compartilhamos aqui.

O mural de Claudio Pastro (*1948) sobre a Santíssima Trindade, na capela do 2º piso de Vila Kostka, Itaici (SP) [veja inteiro aqui] foi pintado em 1990, e ocupa quase 20 metros quadrados de extensão. A pintura foi feita diretamente sobre a massa, com técnicas de afresco, onde a tinta (pigmentos naturais, terra etc.) se mistura com a própria massa, penetrando-a por alguns milímetros.

O mural revela ondulações, alongando, desse modo, o lugar quadrado da capela. As mesmas curvas flutuantes convidam-nos a ir além do espaço e entrar no mistério de Deus... As curvas e as cores descansam o nosso olhar, trazem paz interior e lembram o deserto, lugar bíblico da provação e da revelação.

No deserto o homem se despoja de todas as suas mentiras. Para que as máscaras? A quem seduzir ou enganar? Contudo, Israel foi tentado no deserto e Jesus também. Nosso “eu” mais profundo é terra solitária, por onde vagueiam anjos e demônios, o bem e o mal.

No deserto podemos encontrar também o Senhor. E adorá-lo.

O artista, C. Pastro, não fechou o horizonte contemplado, deixando espaços sem pintar. Esses vãos convidam a ir além do que vemos e as ondulações das dunas ampliam o espaço de visão exterior e interior. Tudo se orienta, na fé, para o mistério, para o encontro Daquele que sempre vem. Observe o movimento cósmico que nos convida a entrar no mistério de Deus: o mundo, o deserto, as pessoas, o Cordeiro... Tudo está em movimento, porque a vida é sair de si mesmo e doar-se.

O tema da Santíssima Trindade na arte vem da tradição Copta e Siríaca. A Trindade não é fácil de ser representada. Alguns teólogos caíram em diversas heresias ao falar da Trindade: Uns, para assegurar a fé num único Deus, acabaram negando a Trindade das pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo); outros, destacando a diversidade, acabaram negando a unidade.

O artista representou a Trindade na figura dos três anjos peregrinos. O anjo, na Sagrada Escritura, representa muitas vezes, o próprio Deus. A Trindade é mistério de comunhão, gerador de vida. O Pai não é o Filho, nem o Espírito Santo é o Pai. São diferentes nas suas relações interiores e exteriores. Mas uma coisa é certa: onde está um sempre estão os outros dois. A Trindade é verdadeira comunidade.

No mural, o Pai está no meio, como aquele que gera. Seu olhar e suas mãos indicam o Filho muito amado (pessoa e Cordeiro).

O Filho é imagem do Pai (quem me vê, vê o Pai...); sua mão também aponta o Cordeiro imolado (Ele mesmo!) e a chaga dele, de onde vão brotar a água e o sangue, o Batismo e a Eucaristia. Jesus sempre olha para nós, pois é o único revelador do Pai. É ele quem revela o mistério da Santíssima Trindade. O Filho segura o cajado de Pastor. Eu sou o Bom Pastor!

O Espírito Santo é o doador de todos os dons. Ele revela o mistério e, ao mesmo tempo, nos convida a entrar nele. E olha para o mundo! O seu cajado está solto, porque Ele o colocou nas mãos dos pastores que hoje nos guiam, os bispos.

As cores usadas nos três anjos são o azul, o vermelho e o amarelo, cores do fogo. A divindade é luz que atrai e purifica.

No centro, a mesa com o Cordeiro de pé e imolado, o Alfa e o Omega, aquele que é, que era, e que vem (Ap 1, 8).

No meio, a árvore da vida, símbolo da eternidade de Deus. Algumas das suas folhas são amarelas... Esses traços amarelos se repetem nas asas e no resplendor dos três personagens e nos faz lembrar da promessa feita outrora a Abraão: Olha para as estrelas, assim será tua posteridade...

Todos estamos na tenda, a capela é a tenda, com Abraão e Sara. Observe as estacas da tenda nos dois extremos do mural. Abraão e Sara representam a humanidade toda. O homem e a mulher aproximando-se do mistério de Deus.

Alguns se aproximam do mistério de Deus e o adoram, como Abraão. Outros, como Sara, escutam e não entendem.

É Deus quem toma a iniciativa de se aproximar de nós, pois foram os três anjos, que vieram ao encontro de Abraão, como peregrinos que caminham para onde nós estamos. Deus quer se aproximar também de nós. Contudo, podemos acolhê-lo ou não; crer, como Abraão, ou rir, como Sara. Dentro de nós habita um Abraão ou uma Sara?

A fé rejuvenesce! Perceba como o artista fez um Abraão jovem. Adorando, nos unimos a Deus e aos irmãos. Formamos também comunidade.

Que a contemplação do belo e do Santo faça brotar a imagem de Deus Pai, Filho e Espírito Santo em cada um de nós.

Amém!
Fonte

Homoafetividade e evangelização: abrir caminhos (parte 1 de 2)



Como divulgamos aqui, a Revista Vida Pastoral está lançando em julho-agosto um número temático sobre homoafetividade e fé cristã. Reproduzimos esta semana os artigos dessa edição relacionados ao tema de capa, começando por este do Pe. Luís Correa Lima, SJ, que dividiremos em duas partes. A segunda será postada aqui amanhã. Para quem quiser acesso à edição virtual da revista na íntegra, é só clicar aqui. Segue a primeira parte do texto:

O acolhimento pastoral de pessoas homossexuais, recomendado pelo papa Francisco, encontra apoio na leitura crítica da Bíblia, na evolução histórica, nas conclusões das ciências, no ensinamento da Igreja e em iniciativas regionais promovidas pelos bispos. É preciso superar barreiras para viabilizar e fomentar esse acolhimento.


A Igreja Católica vive um tempo de renovação com o papa Francisco. Ele convoca a Igreja a ir às “periferias existenciais”: ao encontro dos pobres e dos que sofrem com as diversas formas de injustiças, conflitos e carências. A novidade que Deus traz à nossa vida, diz o papa, é verdadeiramente o que nos realiza e nos dá a autêntica alegria e serenidade, porque Deus nos ama e quer apenas o nosso bem. Francisco critica uma Igreja ensimesmada, entrincheirada em estruturas caducas incapazes de acolhimento e fechada aos novos caminhos que Deus apresenta. A ação do Espírito Santo ergue nosso olhar para o horizonte, impelindo-nos a essas periferias (Francisco, 2013a).

Importante sinal dos tempos atuais é a visibilização da população homossexual. No passado, gays, lésbicas e bissexuais viviam no anonimato ou à margem da sociedade. Eles se escondiam em casamentos tradicionais e, quando muito, formavam guetos, protegendo-se em espaços de convivência bastante reservados. Hoje, fazem imensas paradas, estão presentes nas telenovelas, buscam reconhecimento, exigem respeito e reivindicam direitos. Essa população está em toda parte. Com frequência, usa-se o termo gay (originalmente “alegre”) para se referir a todos eles. Quem não é gay tem parentes próximos ou distantes que são, velada ou manifestamente, bem como vizinhos ou colegas de trabalho. Os gays fazem parte da sociedade e, ao se visibilizarem, almejam cidadania plena, com os mesmos direitos e deveres dos demais.

Essa visibilização também manifesta os problemas que os afligem. Há uma aversão a pessoas homossexuais, a homofobia, que produz diversas formas de violência física, verbal e simbólica contra essas pessoas. No Brasil, são frequentes os homicídios, sobretudo de travestis. Há também o suicídio de muitos adolescentes que se descobrem gays e mesmo de adultos. Eles chegam a essa atitude extrema por pressentirem a rejeição hostil da própria família e da sociedade. Há pais que já disseram: “Prefiro um filho morto a um filho gay”. Entre os xingamentos mais ofensivos que existem, consta a referência à condição homossexual e à relação sexual entre pessoas do mesmo sexo. Tal hostilidade gera inúmeras formas de discriminação e, mesmo que não leve à morte, traz frequentemente tristeza profunda ou depressão.

Há muitos gays na Igreja. São pessoas que nasceram e foram criadas nesse ambiente, têm fé e, em certo momento, descobriram essa orientação sexual. Vários deles participam ativamente de sua comunidade, mas não poucos se afastaram e se afastam por depararem com incompreensão e hostilidade. É preciso que encontrem fiéis e ministros religiosos sensíveis às suas feridas e dificuldades e, também, aos seus talentos e potencialidades. Não há dúvida de que essa realidade faz parte das periferias existenciais apontadas pelo papa.

Para a Igreja, a lei de toda a evangelização é pregar a Palavra de Deus de maneira adaptada à realidade dos povos, como diz o Concílio Vaticano II (1962-1965). Deve haver um intercâmbio permanente entre a Igreja e as diversas culturas. Para isso, ela necessita da ajuda dos que conhecem bem as várias instituições e disciplinas, sejam eles crentes ou não. Os fiéis precisam saber ouvir e interpretar as várias linguagens ou sinais do nosso tempo, para avaliá-los adequadamente à luz da Palavra de Deus, de modo que a Revelação divina seja bem compreendida e apresentada de modo conveniente (Gaudium et Spes, n. 44). A correta evangelização, portanto, é uma estrada de duas mãos, de intercâmbio entre a Igreja e as culturas contemporâneas. A fé cristã necessita dialogar com os diversos saberes legítimos. Só se pode saber o que a Palavra de Deus significa hoje, e que implicações ela tem, com suficiente conhecimento da realidade atual, que inclui a visibilização da população LGBT e o reconhecimento dos seus direitos humanos.

1. A Sagrada Escritura

Para se tratar corretamente da homossexualidade na Bíblia, convém ir além da leitura ao pé da letra. A Revelação divina testemunhada nesse livro é proposta e expressa de modos diversos. Segundo o concílio, o leitor deve buscar o sentido que os autores sagrados, em determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu tempo e da sua cultura, pretenderam exprimir, servindo-se dos gêneros literários então usados. Devem-se levar em conta as maneiras próprias de sentir, dizer ou narrar em uso no tempo deles, como também os modos que se empregavam frequentemente nas relações entre as pessoas daquela época (Dei Verbum, n. 12).

No judaísmo antigo, acreditava-se que o homem e a mulher foram criados um para o outro, para se unirem e procriarem. Supõe-se uma heterossexualidade universal, expressa no imperativo “crescei e multiplicai-vos” (Gn 1,28). Isso foi escrito no tempo do exílio judaico na Babilônia. Para o povo expulso de sua terra e submetido a uma potência estrangeira, crescer era fundamental para a sobrevivência da nação e da religião. Não se nega o desígnio divino de que a humanidade se espalhe pela terra, mas a necessidade de sobrevivência do povo judeu naquele tempo era urgente.

O sêmen do homem, supostamente, continha o ser humano inteiro e deveria ser colocado no ventre da mulher assim como a semente é depositada na terra. Não se conhecia o óvulo. O próprio nome sêmen está ligado a semente. Ele jamais deveria ser desperdiçado, como mostra a história de Onã. Este praticou coito interrompido e ejaculou fora da vagina da esposa. Por isso, Onã foi fulminado por Deus por causa dessa transgressão (Gn 38,1-10).

É nesse contexto que a relação sexual entre dois homens era considerada uma abominação. Israel devia se distinguir das outras nações de várias maneiras, com seu culto, sua lei e seus costumes, segundo o código de santidade do livro do Levítico. Aí se inclui a proibição do homoerotismo, considerado abominação (Lv 18,22). Proíbe-se também, e com rigor: trabalhar no sábado, comer carne de porco ou frutos do mar, aparar o cabelo e a barba, tocar em mulher menstruada durante sete dias, usar roupa tecida com duas espécies de fio, semear no campo duas espécies de semente e acasalar animais de espécies diferentes. Quando o cristianismo, nascido em Israel, expandiu-se entre os povos não judeus, a santidade do Levítico não se tornou norma para esses povos, mas a proibição do homoerotismo sim.

A essa proibição se somou a história de Sodoma e Gomorra, cujo pecado clamou aos céus e resultou no castigo divino destruidor (Gn 19). Esse pecado foi recusar hospitalidade aos homens abrigados na casa do patriarca Ló, a ponto de tentarem estuprá-los. Com frequência, o estupro era uma forma de humilhação imposta por exércitos vencedores aos vencidos. Inicialmente, o delito de Sodoma era visto como “orgulho, alimentação excessiva, tranquilidade ociosa e desamparo do pobre e do indigente”. Por meio do profeta, o Senhor diz: “Tornaram-se arrogantes e cometeram abominações em minha presença” (Ez 16,49-50). Vários séculos depois, tal pecado foi identificado com o homoerotismo, mas na origem ele nada tinha que ver com o amor entre pessoas do mesmo sexo ou mesmo com relações sexuais livremente consentidas entre pessoas adultas do mesmo sexo.

No Novo Testamento, a carta aos Romanos afirma que quem ama o próximo cumpriu a lei, pois os mandamentos se resumem no amor ao próximo como a si mesmo (Rm 13,8-10). Este é o espírito dos mandamentos e o critério de sua interpretação. Mas, ao refutar o politeísmo, o apóstolo Paulo o associa ao homoerotismo (Rm 1,18-32). Os pagãos não adoravam o Deus único, mas as criaturas. E ainda permitiam essa prática sexual vista como abominação pelos judeus. Esse comportamento era considerado castigo divino pela prática religiosa errada: “Por tudo isso, Deus os entregou a paixões vergonhosas”. Outros escritos paulinos têm a mesma posição, ligando o homoerotismo à idolatria e à irreligião (1Cor 6,9-11; 1Tm 1,8-11). No contexto judaico-cristão da Antiguidade, esse argumento era compreensível. Não havia o conceito de orientação sexual, de uma tendência profundamente enraizada na pessoa, com relativa estabilidade, atraindo-a para o sexo oposto ou para o mesmo sexo. Tal orientação nada tem que ver com a crença em um ou em vários deuses ou com alguma prática religiosa. Mas, no contexto da Antiguidade, a Igreja herdou a visão antropológica da heterossexualidade universal com suas interdições.

[Continua amanhã]

O coração de Deus


O Espírito Santo, festejado no domingo passado, nos leva a mergulhar na intimidade do coração de Deus. Ele é dom mútuo, abertura, calor e partilha; é o sopro que desperta, é torrente, doçura, luz, ternura…

A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras da Festa da Santíssima Trindade (Domingo, 15 de Junho de 2014). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Eis o texto.

Referências:
1ª leitura: Êxodo 34,4-6.8-9
2ª leitura: 2 Coríntios 13,11-13
Evangelho: João 3,16-18

O Deus desconhecido

Nós, humanos, só podemos existir sendo imagem e semelhança deste que nos faz ser e a quem chamamos de «Deus». Fora isso, há para nós somente o nada. O problema é que só por meio da nossa liberdade podemos ser «como Deus» que é livre para ser o que Ele é: é tomando livremente o caminho que escolhemos. O que Deus criou à sua imagem foram as nossas liberdades. Mas o que devemos escolher para assemelharmo-nos a Ele? O leque de possibilidades à nossa escolha apresenta uma infinidade de modelos que, entre outros textos, podem se resumir na fórmula de Deuteronômio 30,15-20: «Eis que hoje estou colocando diante de ti a vida e a felicidade, a morte e a infelicidade. ... Escolhe pois a vida para que vivas...» Sim, mas onde estão a felicidade e o bem? Onde estão a infelicidade e o mal? É aí que entra o que chamamos de «Revelação». Deus vai nos mostrar «como Ele é» para que possamos nos fazer como Ele, sob o influxo do seu Espírito. E (a) isto podemos acolher ou recusar. Somente por esta «aliança» é que existimos. Sob formas diversas, que vão do mito à história revisitada e interpretada, as Escrituras nos desvendam as peripécias desta descoberta de «como Deus é». Descoberta que só chega ao seu termo no final do Livro, com o Cristo e o pleno acolhimento do seu Espírito. E então, como Deus é? É intercâmbio, reciprocidade, dom de Si; numa palavra, é «Trindade». Assim, resulta para nós que só existimos por nos darmos aos outros, que apenas salvamos o que damos de nós mesmos para que outros sejam.

Para muito além das nossas palavras


Quando dizemos «Trindade», não vamos imaginar termos feito a volta toda do Ser de Deus e que O temos enfim compreendido. Deus não pode ser qualificado nem definido por palavras. Tão logo dizemos «Pai, Filho, Espírito» e a questão se põe novamente. De fato, palavras como pai, filho e sopro referem-se às nossas experiências humanas e ganham um sentido diferente quando aplicadas a Deus. Qual sentido? Não é possível precisar. Estas palavras são como flechas que podem orientar o nosso olhar, mas jamais atingem o seu alvo. Este Pai está de fato muito além de tudo o que podemos colocar sob a palavra paternidade. Por isso Paulo, em Romanos 8,26, escreve que não sabemos nos dirigir a Deus como convém e que o Espírito deve vir a nós para falar a Deus com «gemidos inefáveis», indizíveis, sem palavras. Temos que, enfim, nos manter diante deste circuito vertiginoso do intercâmbio trinitário (ainda palavras!) em silêncio e com abertura, para recebermo-nos d’Ele, que é «Eles», entrando neste seu intercâmbio. Estamos aqui bem longe das figuras de Deus que a Bíblia apresenta para fazer-nos superá-las: o Todo Poderoso autoritário, o senhor da história que, de repente, se torna o autor dos nossos massacres e de todos os nossos males, o juiz impiedoso e vingativo, o inspetor exageradamente meticuloso e exigente. Mas estamos, ao invés disso, diante e dentro de um indizível turbilhão de amor que nos faz ser.

O corpo uno e múltiplo

Deus é, portanto, em Si mesmo, Aquele que faz ser (Pai), Aquele que recebe a Si mesmo e que aceita ser (Filho) e Aquele que vai de Um para o Outro e, de alguma forma, transporta-Os para todas as coisas, concedendo-lhes ser e receber-se. Isto tudo poderia também ser dito sob a forma de núpcias, onde o casal humano seria a imagem de Deus. Daí resulta que só podemos existir de verdade, ou seja, ser imagem e semelhança de Deus, tomando consciência de que somos frutos de uma rede de relações que, de próximo em próximo, estende-se à humanidade inteira. Assumir isto com toda a nossa liberdade equivale a aceitarmos fazer parte deste «um só corpo». Para chegarmos até aí, temos necessidade de que Deus se revele. Sem isto, como poderíamos fazer-nos à sua imagem? A Páscoa nos ensina que Deus é dom de Si: o Pai nos dá o Filho, o Filho nos dá a sua vida e o Espírito é «entregue», derramado, segundo a expressão usada por João (19,30. Ver também 7,39 e 1 João 5,6-7). O fruto da Páscoa é a possibilidade de os homens se fazerem um, assim como o Pai, o Filho e o Espírito são Um. Quando Jesus se dá a nós como alimento e como bebida, ou seja, como o que mantém a vida, acrescenta: «Fazei isto em memória de mim.» Fazer e refazer isto para que todos os tempos sejam investidos desta memória, é pôr no mundo o corpo feito de membros reconciliados que chamamos de Igreja. Sem cessar, ela deve refazer-se, transformar-se e progredir para tornar-se verdadeiramente Imagem.

Fonte

sábado, 14 de junho de 2014

Revista Vida Pastoral sobre "Homoafetividade e fé cristã"



Como divulgamos aqui, a Revista Vida Pastoral está lançando em julho-agosto um número temático sobre homoafetividade e fé cristã. Reproduziremos ao longo da semana os artigos dessa edição relacionados ao tema de capa, começando hoje pelo editorial em que a equipe da publicação justifica a escolha do tema. Para quem quiser acesso à edição virtual da revista na íntegra, é só clicar aqui. Segue o editorial:


Caros leitores e leitoras,

Graça e paz!

É comum, em ambientes religiosos, ouvirmos dizer que sobre alguns temas de ética da sexualidade é preferível silenciar, para evitar polêmicas. Por isso, publicar uma edição de Vida Pastoral sobre a temática da fé cristã ante a homoafetividade foi motivo de bastante reflexão prévia. O objetivo da edição não é polemizar, mas oferecer subsídios para melhor compreensão da questão e favorecer o atendimento de necessidades pastorais. Se, por um lado, houve de fato problemas entre a hierarquia e teólogos morais no passado recente – o que não significa que não haja excelentes reflexões dos moralistas católicos –, por outro, tem havido constante esforço, seja por parte da Santa Sé, seja por parte de muitos pastores do povo de Deus, no sentido de compreender e abordar adequadamente questões de sexualidade e de homoafetividade que interpelam os cristãos atualmente, como atesta Pe. Edênio Valle em seu artigo. Certas posturas extremadas geralmente revelam desconhecimento do que a Igreja diz oficialmentesobre ética da sexualidade. Por vezes, limitam-se a repetir superficialidades e generalizações publicadas pelos meios de comunicação ou pelo senso comum.

Já em 1976, uma carta da Congregação para a Doutrina da Fé (Declaração sobre alguns pontos de ética sexual)afirmava: “Indubitavelmente essas pessoas homossexuais devem ser acolhidas, na ação pastoral, com compreensão e devem ser apoiadas na esperança de superar suas dificuldades pessoais e sua inadaptação social. Também sua culpabilidade deve ser julgada com prudência”. Outra carta da mesma congregação, do ano de 1986 (Carta aos bispos sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais), afirma que nenhum ser humano é mero homo ou heterossexual, mas é, acima de tudo, criatura de Deus e destinatário de sua graça, que o torna filho seu e herdeiro da vida eterna (n. 16). A posição da moral católica deve se basear na razão humana iluminada pela fé e encontrar apoio também nos resultados seguros das ciências humanas (n.2). Toda violência física ou verbal contra pessoas homossexuais é deplorável, merecendo a condenação dos pastores da Igreja onde quer que se verifique (n. 10).

É verdade que, em temas complexos, convém ter prudência. Entretanto, silenciar a respeito do assunto pode significar omissão, seja em relação às pessoas e às famílias que necessitam de orientação, seja em relação à própria Igreja, que tem o desejo e a missão de auxiliar os seres humanos em suas necessidades, ouvindo seus apelos e anseios. Amar a Igreja é também ajudá-la em seu esforço de dialogar com as necessidades atuais, com as ciências sociais, humanas e biológicas, fazendo progredir sua tradição.

Qualquer um que tenha contato pastoral com o público católico ou esteja atento a notícias sobre violência contra homossexuais, casos de homicídios e de suicídios, afastamentos e incompreensões mútuas entre a Igreja e as pessoas homossexuais sabe quanto é importante compreendermos bem a questão.

Educar as pessoas para a boa vivência da ética cristã em todas as dimensões, não apenas na sexualidade, é muito mais do que pôr ênfase em condenações, culpas e medos. Como nos lembra o papa Francisco, o ponto de partida do ensinamento cristão deve ser o seu elemento positivo que é boa notícia (evangelho). Para ele, a prioridade da pregação deve ser curar todo tipo de ferida e “o anúncio do amor salvífico de Deus precede a obrigação moral e religiosa. Hoje, por vezes, parece que prevalece a ordem inversa”.

Pe. Jakson Alencar, ssp

Confiar em Deus


A leitura que a Igreja propõe neste domingo e o evangelho de Jesus Cristo segundo João 3, 16-18 que corresponde a Festa da Santíssima Trindade, ciclo A do ano litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto.

O esforço realizado pelos teólogos ao longo dos séculos para expor em conceitos humanos o mistério da Santíssima Trindade apenas ajuda hoje os cristãos a reavivar a sua confiança em Deus Pai, a reafirmar a sua adesão a Jesus, o Filho encarnado de Deus, e a acolher com fé viva a presença do Espírito de Deus em nós. Por isso pode ser bom fazer um esforço para nos aproximarmos do mistério de Deus com palavras simples e coração humilde seguindo de perto a mensagem, os gestos e a vida inteira de Jesus: mistério do Filho de Deus encarnado.

O mistério do Pai é amor cativante e perdão contínuo. Ninguém está excluido do Seu amor, a ninguém se lhe nega o Seu perdão. O Pai ama-nos e procura-nos a cada um dos Seus filhos e filhas por caminhos que só Ele conhece. Olha para todos os seres humanos com ternura infinita e profunda compaixão. Por isso, Jesus invoca-O sempre com uma palavra: “Pai”.

A nossa primeira atitude ante esse Pai deve ser a confiança. O mistério último da realidade, que nós crentes chamamos “Deus”, não nos há de causar nunca medo ou angústia: Deus só pode amar-nos. Ele entende a nossa fé pequena e vacilante. Não temos de sentir-nos tristes pela nossa vida, quase sempre tão medíocre, nem desalentar-nos ao descobrir que temos vivido durante anos afastados desse Pai. Podemos abandonar-nos a Ele com simplicidade. A nossa pouca fé basta.

Também Jesus nos convida à confiança. Estas são as Suas palavras: “Não vivais com o coração perturbado. Acreditais em Deus. Acreditai também em Mim”. Jesus é o vivo retrato do Pai. Nas Suas palavras escutamos o que nos diz o Pai. Nos Seus gestos e ao Seu modo de atuar, entregue totalmente a fazer a vida mais humana, descobre-se o quanto Deus nos quer.

Por isso, em Jesus podemos encontrar-nos em qualquer situação com um Deus concreto, amigo e próximo. Ele coloca paz na nossa vida. Faz-nos passar do medo para a confiança, do receio à fé simples no mistério último da vida que é só Amor.

Acolher o Espírito que alenta o Pai e o Seu Filho Jesus é acolher dentro de nós a presença invisível, profunda, mas real do mistério de Deus. Quando nos fazemos conscientes desta presença contínua, começa a despertar-se em nós uma confiança nova em Deus.

A nossa vida é frágil, cheia de contradições e incertezas: crentes e não crentes vivemos rodeados de mistério. Mas a presença, também misteriosa do Espírito em nós, apesar de débil, é suficiente para sustentar a nossa confiança no Mistério último da vida que é só Amor.

Fonte

sexta-feira, 13 de junho de 2014

“A linguagem é viva, quando falam as obras”


Dos Sermões de Santo António de Lisboa, presbítero:
Quem está cheio do Espírito Santo fala várias línguas. Estas várias línguas são os vários testemunhos de Cristo, como a humildade, a pobreza, a paciência e a obediência; falamos com estas virtudes, quando as praticamos na nossa vida. A linguagem é viva, quando falam as obras. Calem-se, portanto, as palavras e falem as obras. De palavras estamos cheios, mas de obras vazios; por este motivo nos amaldiçoa o Senhor, como amaldiçoou a figueira em que não encontrou fruto, mas somente folhas. Diz São Gregório: «Há uma norma para o pregador: que faça aquilo que prega». Em vão pregará os ensinamentos da lei, se destrói a doutrina com as obras.

Mas os Apóstolos “falavam conforme a linguagem que o Espírito Santo lhes concedia”. Feliz de quem fala conforme o Espírito Santo lhe inspira e não conforme o que lhe parece! [...]

Falemos, por conseguinte, conforme a linguagem que o Espírito Santo nos conceder; e peçamos-lhe, humilde e piedosamente, que derrame sobre nós a sua graça, para que possamos celebrar o dia de Pentecostes com a perfeição dos cinco sentidos e a observância dos dez mandamentos, nos reanimemos com o forte vento da contrição e nos inflamemos com as línguas de fogo na profissão da nossa fé, para que, assim inflamados e iluminados nos esplendores da santidade, mereçamos ver a Deus trino e uno.

domingo, 8 de junho de 2014

“Uma Igreja que não surpreende está doente e precisa ser internada para terapia intensiva”, diz Papa


Que, dentro e fora das igrejas, a mensagem de Francisco para este Pentecostes se faça ouvir. Para que o mundo renasça.

Uma Igreja que não surpreende é “fraca, doente e moribunda e deve ser internada para terapia intensiva”, disse o Papa Francisco, na manhã de hoje, domingo de Pentecostes, na Basílica de São Pedro, em Roma.

Concelebraram com ele os cardeais, os arcebispos e os bispos da Cúria Romana.

“Onde chega o Espírito de Deus, tudo renasce e se transfigura: o evento de Pentecostes assinala o nascimento da Igreja e a sua manifestação pública. Dois traços nos chamam a atenção: uma Igreja que surpreende e causa admiração. Atenção: se a Igreja é viva sempre deve surpreender, caso contrário é fraca, doente, moribunda e precisa ser internada para terapia intensiva”, disse Bergoglio depois da oração do Regina Coeli de hoje.

“Alguns em Jerusalém – observou o Pontífice – teriam preferido que os discípulos de Jesus, bloqueados pelo medo, permanecessem fechados dentro de casa para não criar problemas. Também hoje tantos querem isto dos cristãos”. Ao contrário, “o Senhor ressuscitado os instiga para irem ao mundo: “Como o Pai me enviou, eu envio a vocês”.

“A Igreja de Pentecostes – portanto – é uma Igreja que não se resigna em ser inócua, um elemento decorativo. É uma Igreja que não hesita em sair para fora, ao encontro das pessoas, para anunciar a mensagem que lhe foi confiada, também se esta mensagem incomoda e inquieta as consciências, também se esta mensagem, talvez, lhe traga problemas e, tantas vezes, até o martírio”. A Igreja nasce una e universal, com uma identidade precisa, mas aberta, uma Igreja que abraça o mundo mas não o captura, como as colunas desta Praça: dois braços que se abrem para acolher, mas não que não se fecham para nos manter presos”.

“Nós cristãos somos livres, e a Igreja nos quer livres”, concluiu.

Fonte

Viver Deus desde dentro



A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 20, 19-23 que corresponde a Festa de Pentecostes, Ciclo A do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Há alguns anos, o grande teólogo alemão Karl Rahner atrevia-se a afirmar que o principal e mais urgente problema da Igreja dos nossos tempos é a sua “mediocridade espiritual”. Estas eram as suas palavras: o verdadeiro problema da Igreja é “continuar com uma resignação e um tédio cada vez maior pelos caminhos habituais de uma mediocridade espiritual”.

O problema não parou de se agravar nestas últimas décadas. De pouco serviram as intenções de reforçar as instituições, salvaguardar a liturgia ou vigiar a ortodoxia. No coração de muitos cristãos está se apagando a experiência interior de Deus.

A sociedade moderna apostou pelo “exterior”. Tudo nos convida a viver a partir de fora. Tudo nos pressiona para nos movermos com rapidez, sem pararmos em nada nem em ninguém. A paz já não encontra resquícios para penetrar até o nosso coração. Vivemos quase sempre na superfície da vida. Estamos esquecendo o que é saborear a vida desde dentro. Para ser humana, à nossa vida falta uma dimensão essencial: a interioridade.

É triste observar que tampouco nas comunidades cristãs sabemos cuidar e promover a vida interior. Muitos não sabem o que é o silêncio do coração, não se ensina a viver a fé a partir de dentro. Privados da experiência interior, sobrevivemos esquecendo a nossa alma: escutando palavras com os ouvidos e pronunciando orações com os lábios, enquanto o nosso coração está ausente.

Na Igreja fala-se muito de Deus, mas onde e quando escutam os crentes a presença silenciosa de Deus no mais fundo do coração? Onde e quando acolhemos o Espírito do Ressuscitado no nosso interior? Quando vivemos em comunhão com o Mistério de Deus desde dentro?

Acolher o Espírito de Deus quer dizer deixar de falar só com um Deus a quem quase sempre colocamos longe e fora de nós, e aprender a escutá-lo no silêncio do coração. Deixar de pensar em Deus apenas com a cabeça, e aprender a percebê-Lo no mais íntimo do nosso ser.

Esta experiência interior de Deus, real e concreta, transforma a nossa fé. A nós surpreende como se pôde viver sem a descobrir antes. Agora sabe por que é possível acreditar inclusive numa cultura secularizada. Agora conhece uma alegria interior nova e diferente. Parece-me muito difícil manter por muito tempo a fé em Deus no meio da agitação e frivolidade da vida moderna, sem conhecer, mesmo que seja de forma humilde e simples, alguma experiência interior do Mistério de Deus. 

Pentecostes: o perdão para recriar o mundo


O Pentecostes é uma festa pascal; ela é o desenvolvimento do mistério da Páscoa. Não é uma festa independente do Espírito Santo; é a festa do Senhor ressuscitado que dá aos discípulos o seu Espírito, que é o Espírito de Deus Pai. É por isso que esta festa se situa, ao mesmo tempo, na noite da Páscoa no evangelho de São João, e 50 dias depois da Páscoa no livro dos Atos dos Apóstolos, inclusive na cruz da Sexta-Feira Santa em todos os evangelistas.

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do Domingo de Pentecostes – Ciclo A do Ano Litúrgico (08 de junho de 2014). A tradução é de André Langer.

Referências bíblicas:
Primeira leitura: At 2,1-11
Segunda leitura: 1 Cor 12,3b-7.12-13
Evangelho: Jo 20,19-23

Eis o texto.


O Pentecostes é uma festa pascal; ela é o desenvolvimento do mistério da Páscoa. Não é uma festa independente do Espírito Santo; é a festa do Senhor ressuscitado que dá aos discípulos o seu Espírito, que é o Espírito de Deus Pai. É por isso que esta festa se situa, ao mesmo tempo, na noite da Páscoa no evangelho de São João, e 50 dias depois da Páscoa no livro dos Atos dos Apóstolos, inclusive na cruz da Sexta-Feira Santa em todos os evangelistas, em particular em João: “Tudo está realizado. E inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19,30).

No mistério pascal, todos os elementos desse mistério – a Morte, a Ressurreição, a Ascensão e o Pentecostes – são tão importantes que os primeiros cristãos fizeram deles acontecimentos distintos separados no tempo: três dias para a Ressurreição, 40 dias para a Ascensão e 50 dias para o Pentecostes. Mas, na realidade, trata-se de um mesmo e único acontecimento teológico que nos fala simultaneamente de Deus, do homem, de Cristo e da Igreja. Não há, portanto, contradições entre os escritos e seus autores; encontramos simplesmente maneiras diferentes de descrever a riqueza do mistério cristão.

Desde o início do tempo pascal, nós lemos os relatos da Páscoa e da Ascensão. Hoje, celebramos o Pentecostes, a festa do Espírito de Cristo, o Espírito de Deus, a festa da Igreja. O que nos dizem os textos bíblicos que a Igreja nos propõe hoje?

1. Atos dos Apóstolos 2,1-11

Neste texto de Lucas, sobre o dom do Espírito Santo dado aos apóstolos reunidos, o autor não procura descrever um acontecimento material e histórico que aconteceu num dado momento da história da Igreja nascente. O fato de que Lucas tenha escolhido compor seu relato por meio de uma série de alusões ao Antigo Testamento, pode desviar a nossa atenção para uma leitura de tipo histórico, que procurasse determinar como as coisas se passaram. Devemos, ao contrário, compreender as mensagens que Lucas quer dar à sua comunidade sobre o papel e a força do Espírito:

1) O Pentecostes judaico celebrava o dom da Lei ao Povo de Israel, o povo da antiga Aliança. O Pentecostes cristão celebra o dom do Espírito ao novo Povo de Deus, a Igreja, o povo da nova Aliança.

2) Assim como Moisés subiu ao Sinai para dar ao povo a Lei de Deus, Cristo subiu ao céu para derramar o Espírito de Deus, o Espírito da nova Aliança.

3) Assim como para Moisés o barulho do trovão e o fogo das luzes acompanham o dom da Lei de Deus, aqui o barulho, o vento e o fogo acompanham a vinda do Espírito Santo.

4) No Sinai, de acordo com tradições judaicas, Deus propôs os mandamentos nas diversas línguas do mundo, mas apenas Israel os aceitou. No livro dos Atos dos Apóstolos, Deus repara esse fracasso: todas as nações compreendem a linguagem do Espírito: “Cheios de espanto e de admiração, diziam: ‘Esses homens que estão falando não são todos galileus? Como é que nós os escutamos na nossa própria língua?’” (At 2,7-8)

5) No Antigo Testamento, as 12 tribos de Israel estão reunidas para ouvir Moisés. Aqui, os 12 povos são chamados para ouvir os 12 apóstolos investidos pelo Espírito do Cristo, proclamar as maravilhas de Deus: “todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua!” (At 2,11b)

Em suma, este relato de Lucas é o inverso de Babel, é a abertura à universalidade e o sopro do Espírito da nova Aliança que abole as fronteiras; não há mais exclusão nem rejeição.

2. 1 Cor 12,3b-7.12-13

Os coríntios acreditavam que o dom do Espírito Santo estava reservado a uma elite. Eles só reconheciam sua presença no sensacional, nos cristãos que tinham o dom de falar em línguas e, particularmente, naqueles que eram eloquentes na animação das assembleias. Paulo quer, aqui, restabelecer a realidade do Espírito Santo:

1) Todo fiel que proclamar que “Jesus é o Senhor” (1 Cor 12,3), é habitado pelo Espírito Santo. Portanto, o mais humilde e o menor dos batizados também recebeu o Espírito Santo.

2) O Espírito, o Senhor e Deus são inseparáveis. Sem mesmo chamá-lo pelo nome, Paulo nos fala da Trindade que se dispensa em carismas: dons da graça, mas o Espírito é o mesmo (v. 4), dons dos serviços na Igreja, mas o Senhor é o mesmo (v. 5) e dons das atividades, mas é o mesmo Deus que as realiza (v. 6). O Espírito põe, portanto, todos os fiéis a agir, cada um segundo seus carismas, em vista do bem de todos (v. 7).

3) Esta unidade na diversidade Paulo a exprime através de uma fábula, conhecida na sua época, sobre o corpo e seus membros, para significar que todos os cristãos, em sua diversidade, pertencem ao mesmo corpo, o Corpo do Cristo ressuscitado. Esta pertença transcende as clivagens étnicas: “De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito” (1 Cor 12,13).

3. João 20,19-23

Para João, é na noite da Páscoa que o Espírito Santo é dado aos discípulos reunidos. Que mensagens podemos tirar dessa passagem bíblica?

1) O medo: os discípulos têm medo, eles são fracos, eles se sentem abandonados. As portas estão trancadas. Apesar disso, Jesus se apresenta a eles (v. 19). É, portanto, na humanidade dos discípulos que Cristo se faz presente.

2) A Paz: duas vezes Cristo oferece a sua paz (vv. 19.21). Mas, por que esta insistência? O sentido bíblico da palavra paz não é a ausência de guerra ou de conflitos; é a plenitude de vida que lembra a presença do Ressuscitado (cf. TOB, Lc 1,79 nota J). É, portanto, a sua Vida de Ressuscitado que Cristo dá aos seus discípulos. É uma promessa de Ressurreição também para eles.

3) A Alegria: João sublinha que o Ressuscitado da Páscoa é o Crucificado da Sexta-Feira Santa: “mostrou-lhes as mãos e o lado” (Jo 20,20a). O evangelista não quer dizer que se trata do cadáver de Jesus reanimado; o Ressuscitado se apresenta como aquele que fica para sempre marcado por sua humanidade, aquele que, pela cruz, testemunhou o Amor infinito de Deus. Do seu lado aberto nasceu a Igreja, ápice do sangue da Vida nova e da água viva do Espírito. Esta é a Alegria pascal experimentada pelos discípulos reunidos na noite da Páscoa.

4) O perdão: o sopro do Cristo sobre os seus discípulos nos remete ao sopro de Deus no Gênesis, sopro que dá a vida ao ser humano. Aqui, o sopro de Cristo significa a Vida nova dada aos discípulos, pelo dom do Espírito Santo, para que advenha um mundo novo. Entretanto, uma coisa é essencial para que nasça esse mundo novo: é o perdão. Deus deve, em primeiro lugar, apagar a nossa história passada, derramando sobre nós o sopro do perdão dos pecados: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20,23). Cabe a nós, portanto, fazer nascer esse mundo novo e é com toda a liberdade que nós podemos fazê-lo ou recusá-lo. Que responsabilidade!

Para terminar, é uma missão que nos é confiada: nós temos a responsabilidade de fazer nascer o mundo novo desejado pelo Cristo da Páscoa. Esta missão é confiada a todos os cristãos em geral e, em particular, aos padres no ministério do perdão. É, portanto, pela nossa abertura ao outro, pela nossa acolhida da sua diferença que nós testemunhamos o Cristo ressuscitado e que nós trabalhamos para fazer nascer esse mundo novo. O Espírito que nos habita não é um Espírito de medo que recusaria a novidade; é um Espírito que nos torna capazes de inventar, criar, decifrar, abrir novos caminhos, a fim de permitir às mulheres e aos homens de hoje encontrar e reconhecer o Cristo sempre vivo através dos seus discípulos. O perdão é fundamental para a recriação do mundo, e o Espírito nos dá a possibilidade de dá-lo ao outro e de recebê-lo do outro, a fim de que nasça esse mundo novo desejado pelo Cristo da Páscoa.

Bom Pentecostes!

Fonte

terça-feira, 3 de junho de 2014

Jogue com orgulho: celebrando a igualdade entre os atletas


Em tempos de Copa do Mundo, a campanha #JogueComOrgulho, lançada pelo Google, é um grande exemplo para as empresas e a sociedade em geral.

O Google lança hoje uma campanha global para a Copa do Mundo promovendo a igualdade racial e o fim do preconceito a homossexuais no esporte. A iniciativa ocorre uma semana depois de o Google divulgar um relatório que mostra que a maioria dos seus funcionários é homem e branca e admitir publicamente que tem um problema de desigualdade para resolver dentro da empresa.

"Essa campanha faz parte de uma grande iniciativa do Google de abraçar como causa a questão da diversidade e se posicionar contra os preconceitos por raça, gênero e a homofobia", disse o presidente do Google no Brasil, Fabio Coelho.

No último dia 29, o Google divulgou um relatório apontando que 70% dos seus 45 mil funcionários no mundo são homens. A presença das mulheres é menor ainda considerando apenas as aéreas de tecnologia (17%) e liderança (21%). Os trabalhadores do Google são, em sua maioria, brancos (61%) ou asiáticos (30%), considerando apenas o escritório dos Estados Unidos. Os negros e hispânicos representam apenas 5% da equipe. Não há dados sobre a divisão étnica dos cerca de 600 funcionários do Google no Brasil.

"O Google não está no lugar que nós gostaríamos quando olhamos a questão da diversidade e é difícil enfrentar esse desafio se você não estiver preparado para discutir isso abertamente", afirmou o vice-presidente sênior da área de recursos humanos do Google, Laszlo Bock, em publicação no blog corporativo que apresentou o diagnóstico sobre a equipe do Google.

Para o presidente do Google do Brasil, ao abrir seus números e admitir que tem um problema, a empresa dá um primeiro passo para se tornar mais inclusiva. "O Google vai ser uma empresa melhor quando sua equipe refletir de forma mais fiel a diversidade que existe na população", disse Coelho.

A companhia não tem cotas para recrutar minorias, mas diz que tem programas para fomentar o acesso à área de tecnologia dos grupos menos representados. Um exemplo é a criação de um programa que leva mulheres latinas à sede do Google no Vale do Silício para ter aulas de ciências da computação. Há iniciativas similares em universidades americanas com maior porcentual de alunos negros.

Para o consultor da empresa de recrutamento de executivos Exec, Rodrigo Foz Forte, a desigualdade racial e de gêneros nas empresas não é exclusividade do Google. "A qualificação é o que mais pesa na hora de contratar. As empresas não costumam pedir para priorizar ou restringir raças ou gêneros específicos", explica. Segundo ele, a desigualdade histórica de acesso a formação escolar de qualidade entre a população negra é um dos fatores que reduz sua presença no alto escalão.

Campanha. O Google divulgará no YouTube um vídeo contra o preconceito no esporte [acima]. O filme traz depoimentos de atletas brasileiros, como Neymar e Marta; dos astros do basquete Kobe Bryant e John Amaechi; e do jogador de futebol americano Michael Sam, o primeiro da liga americana a se assumir gay.

No Brasil, o Google passou a defender publicamente os diretos dos homossexuais em 2012, quando divulgou um vídeo com depoimentos dos funcionários a favor do casamento gay. A empresa participou oficialmente da Parada Gay em São Paulo nos últimos dois anos. "A polêmica existe e há algumas críticas. Mas resolvemos adotar a causa", diz Coelho. Questionado se isso não é uma estratégia de
marketing, o presidente do Google nega. "Não é marketing. É uma crença corporativa."

Fonte

Campanha da PUC-GO contra a homofobia


Vejam só esta campanha realizada pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás para o Dia de Combate à Homofobia, 17 de maio, deste ano de 2014. Clique nas imagens para ver em tamanho maior.

São as instituições católicas cumprindo sua vocação de promover a paz e a justiça social! 

 



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