quinta-feira, 29 de maio de 2014

O pastor da paz



Uma feliz notícia: o arcebispo de Recife e Olinda dará entrada no pedido de beatificação e canonização de D. Helder Câmara, que por sua vida e suas obras já foi há muito santificado pelo povo. Viva D. Helder!

"Data memorável e histórica para a igreja particular de Olinda e Recife, nosso Arcebispo Dom Antônio Fernando Saburido, depois de consultar seus irmãos bispos do Regional Nordeste 2, encontrou parecer favorável, para dar inicio ao processo de Beatificação e Canonização do grande pastor da paz DOM HÉLDER CÂMARA. Hoje na Igreja dos Manguinhos em Recife foi lida e depois assinada por nosso Arcebispo Dom Fernando a carta que será enviada à Congregação para a causa dos Santos, em Roma. Que alegria imensa para toda Arquidiocese e todo povo de Deus que conheceu e pôde partilhar a vida, com Dom Hélder, o DOM, o pai dos pobres, o pastor da paz."

Via Frei Ronaldo César, aqui

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Obrigada, Senhor!

 
Nossa amiga e parceira Majú Giorgi, do Mães pela Igualdade e colunista do iG, fez um balanço e uma reflexão sobre sua relação com o catolicismo e os rumos recentes que a Igreja vem tomando. Destacamos alguns trechos abaixo, com links para os fatos e pessoas citados por ela  - e você pode ler o texto na íntegra aqui.
(...) Eu não sou mais católica, porque quando eu mais precisei eu não pude contar com a minha Igreja, muito pelo contrário. Foi o primeiro lugar que procurei e inócuo foi. Queriam enfiar meu filho de volta pra dentro do armário. (...)

Hoje eu sei separar bem religião e religiosidade. Apesar disso, continuei devota de minha Nossa Senhora a quem peço todos os dias que cubra meus filhos com seu manto sagrado! Nos últimos anos tenho tido a grata surpresa de me deparar com vozes que lentamente se levantam na defesa dos LGBT dentro das Igrejas. São padres, rabinos e pastores que gradualmente se colocam a serviço do enfrentamento a homofobia e suas matizes tão injustas. Poderia citar aqui Padre Beto, Rabino Nilton Bonder, Pastor Ricardo Gondim, Pastor Marcio Retamero e tantos outros. Seria eu uma intolerante se fosse buscar nas fogueiras da inquisição motivos para odiar a ICAR [Igreja Católica Apostólica Romana] sendo eu, hoje, testemunha da tentativa de mudança.

Na visita do Papa Francisco, pudemos ver a Diversidade Católica na JMJ. Logo depois vieram as declarações do Papa. Logo depois vieram as novas diretrizes da CNBB e que trazia em uma de suas pautas, pauta aliás que me arrancou lágrimas, o acolhimento a casais homoafetivos e que os filhos destes fossem mais que acolhidos, fossem batizados. Em seguida, vimos o apoio do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs no Brasil) do qual faz parte a ICAR, com assinatura em carta aberta ao PLC122 que pedia a equiparação da homofobia ao racismo.

Neste meio tempo, vimos Padres do mundo todo se posicionando contra as injustiças e a opressão sistemática ao povo LGBT. A felicidade de nossos meninos , meninas e famílias sexodiversas que têm no sagrado seu ponto de equilíbrio foi tão grande, tão imensa, que cartazes homenageando esses religiosos inundaram as redes sociais [veja alguns aqui].

Mas o ápice aconteceu as vésperas da Parada LGBT , quando a Arquidiocese de São Paulo emitiu [a nota que você pode ler aqui, em apoio à comunidade LGBT e condenando a violência homofóbica] (...)

A semana passada, a consagrada revista Vida Pastoral foi toda dedicada a sexualidade homoafetiva e pela primeira vez na sua história, trouxe um artigo de uma pessoa que não é padre, nossa querida Edith Modesto, e outro daquele que sempre traz em suas palavras um bálsamo para nossas almas sofridas, nosso amado Padre Luís Corrêa Lima [aqui]. Neste dia recebi uma mensagem de um menino…Emmanuel, que beirava a loucura de tanta felicidade e desejo de outra vez abraçar sua fé.

Por último, tivemos a declaração do Secretário Geral da CNBB, Dom Leonardo Steiner, que diz que uniões entre pessoas do mesmo sexo precisam de amparo legal [aqui].

Dito isso, eu espero que as pessoas entendam que sim, estão havendo reais mudanças na Igreja Católica. Hoje o Papa Francisco soma sua voz à de outros dois grandes líderes religiosos mundiais, Desmond Tutu e Dalai Lama pelo fim da perseguição ao povo LGBT.

Lembrem-se sempre, que os países com esmagadora maioria católica são os que mais somam avanços na causa LGBT, Espanha, Portugal, Argentina e Uruguai.

Sigo com minha fé…porque…CONTRA O AMOR NÃO HÁ LEI ! GÁLATAS 5:23 (...)


À Majú, todo o nosso carinho e gratidão pelos laços de afeto que nos unem e pelos caminhos compartilhados. Sigamos juntos!


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Lançar fora o medo


"Este Túmulo sagrado convida-nos a lançar fora outro medo que é talvez o mais difuso na nossa era moderna, a saber, medo do outro, medo do que é diferente, medo do seguidor de outra fé, de outra religião, ou de outra confissão. O racismo e todas as outras formas de discriminação estão ainda espalhados em muitas das nossas sociedades contemporâneas; o pior é que, frequentemente, permeiam também a vida religiosa das pessoas. O fanatismo religioso já ameaça a paz em muitas regiões do globo, onde o próprio dom da vida é sacrificado no altar do ódio religioso."

- Patriarca Bartolomeu I, no encontro com o Papa Francisco

domingo, 25 de maio de 2014

Papa Francisco: Diversidade "não deve provocar rejeição" porque "variedade é sempre enriquecimento"

Papa Francisco abençoa o repórter palestino Imad Freij
durante o voo entre Roma e Amã, 24.5.2014. Via

O papa Francisco iniciou este sábado uma visita de três dias à Terra Santa, tendo sublinhado na homilia da primeira missa a que presidiu, na Jordânia, que «a diversidade de pessoas e de pensamento não deve provocar rejeição e obstáculos, porque a variedade é sempre enriquecimento».

A intervenção centrou-se no apelo à paz mediante a invocação do Espírito Santo, dado que a celebração, no estádio de Amã, capital jordaniana, se realizou «não longe do local onde o Espírito Santo desceu com poder sobre Jesus de Nazaré, depois que João o batizou no rio Jordão», disse Francisco, citado pela Rádio Vaticano.

«A Ele [Espírito Santo] pedimos para preparar os nossos corações para o encontro com os irmãos para além das diferenças de ideias, língua, cultura, religião; para ungir todo o nosso ser com o óleo da sua misericórdia que cura as feridas dos erros, das incompreensões, das controvérsia», pediu.

Francisco frisou que a paz «não se pode comprar, não se vende», sendo antes «um dom a procurar pacientemente e a construir artesanalmente mediante pequenos e grandes gestos» que envolvem a «vida quotidiana».

«O caminho da paz consolida-se se reconhecemos que todos temos o mesmo sangue e fazemos parte do género humano; se não esquecemos que temos um único Pai no céu e que somos todos seus filhos, feitos à sua imagem e semelhança», afirmou.

Ao chegar a Amã, o papa encontrou-se com o rei Abdullah, tendo elogiado o «generoso acolhimento» do país a uma grande quantidade de refugiados palestinos, iraquianos e provenientes de outras regiões de crise, em particular da vizinha Síria, envolvida num conflito que dura há demasiado tempo».

Torna-se «urgente uma solução pacífica para a crise síria, bem como uma solução justa para o conflito israelo-palestino», acentuou, pedindo a Deus para que proteja do «medo da mudança».

Na primeira intervenção na Jordânia, Francisco renovou o «profundo respeito» e «estima» pela comunidade muçulmana, e realçou o papel do monarca na promoção de «uma mais adequada compreensão das virtudes proclamadas pelo Islão e a serena convivência entre os fiéis das diversas religiões», tendo agradecido a Abdullah o facto de ser «artífice de paz».

A Jordânia foi também louvada «por ter encorajado várias iniciativas importantes a favor do diálogo inter-religioso para a promoção da compreensão entre judeus, cristãos e muçulmanos, entre as quais a "Mensagem Inter-religiosa de Amã"», bem como por ter patrocinado, no âmbito da ONU, a celebração anual da "Semana de Harmonia entre as Religiões".

Dirigindo «uma saudação plena de afeto à comunidade cristã», presente na região «desde a era apostólica», Francisco recordou a sua contribuição «para o bem comum da sociedade».

«Apesar se serem hoje numericamente minoritários», os cristãos trabalham no apoio aos refugiados, através da Cáritas Jordânia, além de dirigirem escolas e hospitais, «podendo professar com tranquilidade a sua fé, no respeito da liberdade religiosa, que é um direito humano fundamental».

A terminar, o papa expressou os votos de «paz» e «prosperidade» para a Jordânia, com o desejo que a visita «contribua para incrementar e promover boas e cordiais relações entre cristãos e muçulmanos».

O programa do primeiro dia da viagem de Francisco à Terra Santa completa-se com a visita ao local do Batismo de Jesus (Betânia além do Jordão) e, às 17h15 (hora de Lisboa), o encontro com refugiados e jovens com deficiência, na igreja latina de Betânia.

Líderes de crenças diversas apoiam religiões afro-brasileiras


Representantes e e estudiosos das mais variadas crenças repudiaram a sentença do juiz federal do Rio de Janeiro Eugênio Rosa de Araújo, afirmando que “manifestações religiosas afro-brasileiras não se constituem religião”. Araújo se retratou em relação às religiões afro-brasileiras, mas não retirou os vídeos do YouTube, atitude criticada por líderes religiosos. Presidente da Associação Nacional de Mídia Afro, a candomblecista Márcio Righetti, responsável pela denúncia feita ao Ministério Público Federal, ressalta que a mobilização contra os vídeos não é voltada apenas para os devotos de matrizes afro-brasileiras, mas também pela democracia:

– A sociedade civil tem que mostrar sua capacidade política para que não aconteça novamente. As declarações do juiz foram totalmente infelizes. Mesmo se retratando, ao não retirar os vídeos, mantém institucionalizada a intolerância religiosa. Quero deixar claro que isso não é uma defesa específica da comunidade de terreiro; é uma defesa da democracia.

No ato Independente de escolhas, somente unidos somos fortes, que ocorreu nesta quarta-feira (21) na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Centro do Rio, líderes de diferentes religiões debateram sobre o problema da intolerância religiosa no Brasil. Foram recolhidas assinaturas no abaixo-assinado pedindo a retirada dos vídeos, a ser entregue ao Ministério Público. O babalaô Ivanir dos Santos, presidente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), também não ficou satisfeito com o que chamou de “arrependimento pela metade”:

– Por sermos religiosos, nós aceitamos o arrependimento, mas não pode ser pela metade. O juiz reconhece que são religiões, mas mantém a medida e os vídeos. É contraditório. Estamos pedindo que retirem o vídeo para nos respeitarem. Não queremos punir ninguém. Estamos pedindo respeito e dignidade.

Não apenas as religiões diretamente atacadas pelo juiz Eugênio Rosa participaram do ato contra a intolerância religiosa, que contou com a participação de católicos, muçulmanos e judeus. Representante do arcepisbo do Rio, dom Orani Tempesta, que não pôde comparecer ao ato, o diácono Nelson Águia, secretário da Comissão Arquidiocesana de Diálogo Inter-Religioso, também defendeu a retirada dos vídeos, e ressaltou a importância do encontro entre as religiões:

– Não devemos criar acirramento entre as religiões, uma guerra religiosa. Devemos construir pontes, e não levantar muros. Não viemos para discutir dogmas nem doutrinas, viemos conversar sobre aquilo que nos é comum: a paz e a fraternidade. O que todas as religiões querem é que o homem seja melhor do que ontem. Nós temos mais coisas que nos unem, portanto, para que acentuar aquilo que nos separa? Devemos promover a harmonia. Eu vim representando Dom Orani, que prega a união e a harmonia entre as religiões. A expressão dele é que não devemos deixar ninguém de fora. Nós devemos incluir, e não excluir. Devemos conversar com todos. (ouça as declarações de outros líderes religiosos).

"A sentença é inaceitável para toda a sociedade", diz pesquisadora

A historiadora especialista em pertenças religiosas Denise Fonseca, professora do Departamento de Serviço Social da PUC-Rio e uma das autoras do livro Presença do axé: mapeando terreiros no Rio de Janeiro (Ed. PUC-Rio e Pallas), com a também professora da PUC Sonia Giacomini, questiona a postura do magistrado.

– O juiz jamais poderia emitir um parecer, transformando sua autoridade em verdade, e impor à sociedade brasileira, do lugar de poder que ocupa, uma percepção que parece um tanto pessoal. No espaço público, onde ele se enunciou, não poderia ter feito. Para fazer uma argumentação como aquela, num espaço jurídico, refletindo sobre questões que passam pelos campos da antropologia religiosa, da teologia, ele deveria, minimamente, ter consultado especialistas destas áreas.

Para a professora da PUC, a sentença é inaceitável para toda a sociedade. A defesa da liberdade democrática deve ser debatida por todos, não só pelos adeptos das religiões de matrizes africanas, como se fosse um problema exclusivamente deles.

– Isso reflete também uma vontade política, uma adesão a um projeto intolerante que vem se construindo na sociedade brasileira e que hoje ocupa espaços de poder muito importantes. Por trás, está a vontade que é expressa nos 15 vídeos. Trata-se, sim, de cooptar e aliciar politicamente, explorar economicamente um segmento muito vulnerável – analisa Denise, que completa: – Essa questão é apenas a ponta de um iceberg, de uma questão política que diz respeito a todos nós.

Em carta aberta, Denise defende a livre expressão, “fundamento democrático para a concretização do princípio de dignidade da pessoa humana”, e lembrou que é preciso combater “antigos e odiosos projetos de sociedade nos quais nossas diferenças – de qualquer ordem – são percebidas como equívocos e tratadas com desrespeito”. Citando o estudo sobre o trabalho social desenvolvido nas casas religiosas, ela afirma: “Ali se cuidam de pessoas que buscam na fé um esteio para sobreviver à pobreza com dignidade”. Lançada em março, a publicação é resultado de uma pesquisa que mapeou 847 terreiros no Estado do Rio, em 20 meses de trabalho de campo, contanto com mais de 30 pesquisadores, entre eles líderes religiosos. (Leia também Rio ganha mapa das casas de umbanda e candomblé e assista reportagem de TV).

Padre Hortal: "Caso expõe incompreensão de aspectos religiosos e culturais"

Para o reitor da Universidade Católica de Petrópolis e ex-reitor da PUC-Rio, padre Jesus Hortal Sánchez, o caso mostra uma incompreensão dos aspectos religiosos e culturais que envolvem as religiões de matrizes africanas para além dos cultos nos terreiros.

– Na nossa sociedade, os símbolos da umbanda e do candomblé, sobretudo em algumas regiões, são muito comuns. É um aspecto mais cultural do que religioso. Isso acontece com outras religiões.

Padre Hortal, que foi consultor do Vaticano para o diálogo com o judaísmo por dez anos, ressalta que religiões costumam ser definidas como um conjunto de crenças, que têm um código de conduta e que significam sempre uma relação com a divindade. No entanto, lembra, elas podem ser constituídas de formas diferentes:

– Existem os dois aspectos: o da fé, das crenças, das doutrinas; e o da conduta ética. Há religiões reveladas, como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, que têm escritura. E há também religiões que, na tradição, elaboram suas crenças e condutas.

Denise ainda afirma que as alegações do juiz federal, que se baseiam em três aspectos para considerar uma religião como uma religião – ter um Deus único, uma hierarquia visível e de ter um texto sagrado como referência –, não se sustentam em face a muitas outras religiões. Esta não seria a única maneira de definir religiões. A professora completa que a sentença está em total desacordo com a liberdade de credo e o respeito a diferentes crenças. O fato de o juiz ter voltado atrás “pelo apoio que a sociedade demonstrou”, para ela, foi tão inaceitável quanto a afirmação inicial de que candomblé e umbanda não são religiões:

– Inaceitável em nome da democracia brasileira. A sentença abominável foi mantida. O juiz voltou atrás evocando o direito da livre expressão, fundante do princípio democrático, que garante a liberdade de expressão para tornar concreta a dignidade da pessoa humana, exatamente o que não está feito. A decisão garantiu a manutenção de espaços de violência, de degradação e de desqualificação do outro.

O babalaô Ivanir (foto), porém, vê um lado positivo na discussão sobre intolerância religiosa no Brasil:

– Este tem sido um problema muito grave na sociedade brasileira. O dado novo é que a sociedade está acordando. Não é só o ataque à umbanda e ao candomblé; é o desrespeito com a pessoa que é de uma religião diferente ou até mesmo não tem religião. Se alguém escolhe até não acreditar em Deus, tenho que respeitá-lo.

Fonte

Comunicação ao serviço de uma autêntica cultura do encontro


Compartilhamos aqui a mensagem do Papa Francisco para o 48º Dia Mundial das Comunicações Sociais, em 1º de junho de 2014. Os grifos são nossos.

Queridos irmãos e irmãs,

Hoje vivemos num mundo que está a tornar-se cada vez menor, parecendo, por isso mesmo, que deveria ser mais fácil fazer-se próximo uns dos outros. Os progressos dos transportes e das tecnologias de comunicação deixam-nos mais próximos, interligando-nos sempre mais, e a globalização faz-nos mais interdependentes. Todavia, dentro da humanidade, permanecem divisões, e às vezes muito acentuadas. A nível global, vemos a distância escandalosa que existe entre o luxo dos mais ricos e a miséria dos mais pobres. Frequentemente, basta passar pelas ruas duma cidade para ver o contraste entre os que vivem nas calçadas e as luzes brilhantes das lojas. Estamos já tão habituados a tudo isso que nem nos impressiona. O mundo sofre de múltiplas formas de exclusão, marginalização e pobreza, como também de conflitos para os quais convergem causas económicas, políticas, ideológicas e até mesmo, infelizmente, religiosas.

Neste mundo, os meios de comunicação em massa podem ajudar a sentir-nos mais próximo uns dos outros; a fazer-nos perceber um renovado sentido de unidade da família humana, que impele à solidariedade e a um compromisso sério para uma vida mais digna. Uma boa comunicação ajuda-nos a estar mais perto e a conhecer-nos melhor entre nós, a ser mais unidos. Os muros que nos dividem só podem ser superados, se estivermos prontos a ouvir e a aprender uns dos outros. Precisamos de harmonizar as diferenças por meio de formas de diálogo, que nos permitam crescer na compreensão e no respeito. A cultura do encontro requer que estejamos dispostos não só a dar, mas também a receber de outros. Os meios de comunicação podem ajudar-nos nisso, especialmente nos nossos dias em que as redes da comunicação humana atingiram progressos sem precedentes. Particularmente a internet pode oferecer maiores possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos; e isto é uma coisa boa, é um dom de Deus.

No entanto, existem aspectos problemáticos: a velocidade da informação supera a nossa capacidade de reflexão e discernimento, e não permite uma expressão equilibrada e correcta de si mesmo. A variedade das opiniões expressas pode ser sentida como riqueza, mas é possível também fechar-se numa esfera de informações que correspondem apenas às nossas expectativas e às nossas ideias, ou mesmo a determinados interesses políticos e económicos. O ambiente de comunicação pode ajudar-nos a crescer ou, pelo contrário, desorientar-nos. O desejo de conexão digital pode acabar por nos isolar do nosso próximo, de quem está mais perto de nós. Sem esquecer que a pessoa que, pelas mais diversas razões, não tem acesso aos meios de comunicação social corre o risco de ser excluído.

Estes limites são reais, mas não justificam uma rejeição dos meios de comunicação; antes, recordam-nos que, em última análise, a comunicação é uma conquista mais humana que tecnológica. Portanto haverá alguma coisa, no ambiente digital, que nos ajuda a crescer em humanidade e na compreensão recíproca? Devemos, por exemplo, recuperar um certo sentido de pausa e calma. Isto requer tempo e capacidade de fazer silêncio para escutar. Temos necessidade também de ser pacientes, se quisermos compreender aqueles que são diferentes de nós: uma pessoa expressa-se plenamente a si mesma, não quando é simplesmente tolerada, mas quando sabe que é verdadeiramente acolhida. Se estamos verdadeiramente desejosos de escutar os outros, então aprenderemos a ver o mundo com olhos diferentes e a apreciar a experiência humana tal como se manifesta nas várias culturas e tradições. Entretanto saberemos apreciar melhor também os grandes valores inspirados pelo Cristianismo, como, por exemplo, a visão do ser humano como pessoa, o matrimónio e a família, a distinção entre esfera religiosa e esfera política, os princípios de solidariedade e subsidiariedade, entre outros.

Então, como pode a comunicação estar ao serviço de uma autêntica cultura do encontro? E – para nós, discípulos do Senhor – que significa, segundo o Evangelho, encontrar uma pessoa? Como é possível, apesar de todas as nossas limitações e pecados, ser verdadeiramente próximo aos outros? Estas perguntas resumem-se naquela que, um dia, um escriba – isto é, um comunicador – pôs a Jesus: «E quem é o meu próximo?» (Lc 10, 29 ). Esta pergunta ajuda-nos a compreender a comunicação em termos de proximidade. Poderíamos traduzi-la assim: Como se manifesta a «proximidade» no uso dos meios de comunicação e no novo ambiente criado pelas tecnologias digitais? Encontro resposta na parábola do bom samaritano, que é também uma parábola do comunicador. Na realidade, quem comunica faz-se próximo. E o bom samaritano não só se faz próximo, mas cuida do homem que encontra quase morto ao lado da estrada. Jesus inverte a perspectiva: não se trata de reconhecer o outro como um meu semelhante, mas da minha capacidade para me fazer semelhante ao outro. Por isso, comunicar significa tomar consciência de que somos humanos, filhos de Deus. Apraz-me definir este poder da comunicação como «proximidade».

Quando a comunicação tem como fim predominante induzir ao consumo ou à manipulação das pessoas, encontramo-nos perante uma agressão violenta como a que sofreu o homem espancado pelos assaltantes e abandonado na estrada, como lemos na parábola. Naquele homem, o levita e o sacerdote não vêem um seu próximo, mas um estranho de quem era melhor manter a distância. Naquele tempo, eram condicionados pelas regras da pureza ritual. Hoje, corremos o risco de que alguns meios de comunicação nos condicionem até ao ponto de fazer-nos ignorar o nosso próximo real.

Não basta circular pelas «estradas» digitais, isto é, simplesmente estar conectados: é necessário que a conexão seja acompanhada pelo encontro verdadeiro. Não podemos viver sozinhos, fechados em nós mesmos. Precisamos de amar e ser amados. Precisamos de ternura. Não são as estratégias comunicativas que garantem a beleza, a bondade e a verdade da comunicação. O próprio mundo dos meios de comunicação não pode alhear-se da solicitude pela humanidade, chamado como é a exprimir ternura. A rede digital pode ser um lugar rico de humanidade: não uma rede de fios, mas de pessoas humanas. A neutralidade dos meios de comunicação é só aparente: só pode constituir um ponto de referimento quem comunica colocando-se a si mesmo em jogo. O envolvimento pessoal é a própria raiz da fiabilidade dum comunicador. É por isso mesmo que o testemunho cristão pode, graças à rede, alcançar as periferias existenciais.

Tenho-o repetido já diversas vezes: entre uma Igreja acidentada que sai pela estrada e uma Igreja doente de auto-referencialidade, não hesito em preferir a primeira. E quando falo de estrada penso nas estradas do mundo onde as pessoas vivem: é lá que as podemos, efectiva e afectivamente, alcançar. Entre estas estradas estão também as digitais, congestionadas de humanidade, muitas vezes ferida: homens e mulheres que procuram uma salvação ou uma esperança. Também graças à rede, pode a mensagem cristã viajar «até aos confins do mundo» (Atos 1, 8). Abrir as portas das igrejas significa também abri-las no ambiente digital, seja para que as pessoas entrem, independentemente da condição de vida em que se encontrem, seja para que o Evangelho possa cruzar o limiar do templo e sair ao encontro de todos. Somos chamados a testemunhar uma Igreja que seja casa de todos. Seremos nós capazes de comunicar o rosto duma Igreja assim? A comunicação concorre para dar forma à vocação missionária de toda a Igreja, e as redes sociais são, hoje, um dos lugares onde viver esta vocação de redescobrir a beleza da fé, a beleza do encontro com Cristo. Inclusive no contexto da comunicação, é precisa uma Igreja que consiga levar calor, inflamar o coração.

O testemunho cristão não se faz com o bombardeio de mensagens religiosas, mas com a vontade de se doar aos outros «através da disponibilidade para se deixar envolver, pacientemente e com respeito, nas suas questões e nas suas dúvidas, no caminho de busca da verdade e do sentido da existência humana (Bento XVI, Mensagem para o XLVII Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2013). Pensemos no episódio dos discípulos de Emaús. É preciso saber-se inserir no diálogo com os homens e mulheres de hoje, para compreender os seus anseios, dúvidas, esperanças, e oferecer-lhes o Evangelho, isto é, Jesus Cristo, Deus feito homem, que morreu e ressuscitou para nos libertar do pecado e da morte. O desafio requer profundidade, atenção à vida, sensibilidade espiritual. Dialogar significa estar convencido de que o outro tem algo de bom para dizer, dar espaço ao seu ponto de vista, às suas propostas. Dialogar não significa renunciar às próprias ideias e tradições, mas à pretensão de que sejam únicas e absolutas.

Possa servir-nos de guia o ícone do bom samaritano, que liga as feridas do homem espancado, deitando nelas azeite e vinho. A nossa comunicação seja azeite perfumado pela dor e vinho bom pela alegria. A nossa luminosidade não derive de truques ou efeitos especiais, mas de nos fazermos próximo, com amor, com ternura, de quem encontramos ferido pelo caminho. Não tenhais medo de vos fazerdes cidadãos do ambiente digital. É importante a atenção e a presença da Igreja no mundo da comunicação, para dialogar com o homem de hoje e levá-lo ao encontro com Cristo: uma Igreja companheira de estrada sabe pôr-se a caminho com todos. Neste contexto, a revolução nos meios de comunicação e de informação são um grande e apaixonante desafio que requer energias frescas e uma imaginação nova para transmitir aos outros a beleza de Deus.

Vaticano, 24 de Janeiro – Memória de São Francisco de Sales – do ano 2014.

Franciscus
Fonte

sábado, 24 de maio de 2014

(Re)leituras do Gênesis


Saiu hoje no jornal O Globo uma matéria sobre uma nova tradução do Gênesis que está sendo lançada no Brasil do ponto de vista da tradição judaica (o primeiro livro do nosso Antigo Testamento é o primeiro livro da Torá judaica). A reportagem nos pareceu preciosa por seus esclarecimentos acerca do método judaico de leitura e interpretação das Escrituras, baseado na permanente reflexão e atualização críticas à luz do tempo presente. E pensar que só há pouco mais de um século nós, cristãos, e especialmente católicos, começamos a vislumbrar as possibilidades do método histórico-crítico, que só em meados do século XX se tornou oficialmente o método preferencial para leitura e exegese da Bíblia adotado pelos católicos - e que, com o recrudescimento do fundamentalismo entre católicos e reformados, ainda há tantos que defendem leituras literais e descontextualizadas dos textos bíblicos e da Tradição. E, no entanto, talvez o que mantenha a Bíblia viva e sagrada através dos séculos seja justamente sua permanente reatualização à luz dos tempos que correm...

Aliás, é o que mantém a Igreja viva através dos tempos, como bem lembrou esta semana o secretário-geral da CNBB, D. Leonardo Steiner, ao comentar que "A Igreja muda sempre; está em mudança. Ela não é a mesma através dos tempos. Tendo como força iluminadora de sua ação o Evangelho, a Igreja busca respostas para o tempo presente. Assim como todas as pessoas, a Igreja sempre procura ler os sinais dos tempos, para ver o que se deve ou não mudar" (aqui). :-)

Segue a matéria do Globo. Que proporcione reflexões instigantes! Boa leitura! :-)

Narrativa fundamental para o povo judeu, a Torá está longe de ser um texto estático, como muitos podem imaginar. Ao contrário, a tradição judaica é calcada justamente na interpretação dos fundamentos religiosos, o que acaba por aproximá-los da realidade contemporânea, legando um retrato histórico da realidade de cada época. Nesse espírito, chega ao mercado editorial brasileiro uma nova tradução da primeira parte da Torá (Gênese), da Ed. Exodus, de autoria do psicanalista e estudioso do judaísmo Davy Bogomoletz, que pode interessar não apenas aos religiosos, mas também ao público em geral. Ela foi feita com base no texto original e na tradução do rabino argentino Marcos Edery, e traz uma gama variada de interpretações.

A Torá (ou Pentateuco, parte inicial da Bíblia hebraica e que corresponde também aos cinco primeiros livros do Velho Testamento para os cristãos) é o conceito central da tradição judaica. O termo significa “instrução” e oferece aos seus seguidores regras para viver de acordo com as obrigações religiosas e a lei civil. Em geral, o livro vem acompanhado de comentários feitos por rabinos ao longo dos tempos, interpretando e atualizando as leis divinas. Essa tradição de releituras faz com que, por exemplo, inovações médicas sejam mais bem aceitas hoje - mesmo temas considerados polêmicos para outras religiões, caso das pesquisas com células-tronco.

- Novas traduções da Bíblia existem muitas, mas traduções do Pentateuco por autores judeus só havia a do rabino Masliach, bem antiga; a de Jairo Friedlin e David Gorodovitz, mais recente, que traduziram a Bíblia Hebraica integral; e esta, do rabino argentino Mordechai (Marcos) Edery - explica Bogomoletz. - Enquanto as traduções anteriores ou eram destituídas de comentários, como a do Jairo Friedlin e David Gorodovitz, ou traziam muito poucas interpretações, como a do rabino Masliach, esta (do rabino Edery) tem sua força justamente nos comentários, uma coleção enorme de interpretações dos mais variados exegetas judeus, desde o gênio medieval Rashi até comentaristas atuais como Adin Steinzalz.

Muitas interpretações reunidas

Essas variadas interpretações, nas palavras de Bogomoletz, são justamente o grande diferencial desta nova edição, que mantém a atualidade das escrituras.

- Levando-se em conta que os judeus não leem a Bíblia (o Antigo Testamento) sem alguma interpretação da mesma, fica clara a importância desta edição - afirma o especialista. - Para os leitores não judeus, e para muitos judeus também, trata-se de um primeiro contato com a antiga arte judaica de interpretação do texto bíblico.

A ideia, de acordo com especialistas, é trazer o texto divino para o mundo real, como explica o psicanalista Paulo Blank, do Programa Transdisciplinar de Estudos Avançados da ECO-UFRJ, em análise sobre a nova tradução: “A tradição judaica preferiu trazer o texto bíblico ao mundo dos homens, que nele interferem através da linguagem que produz pensamento. Sem essa característica interpretativa, as narrativas bíblicas teriam se transformado numa ordem engessada pela sacralização da escritura.”

- Os judeus sempre interpretaram os textos bíblicos. “Toda geração tem seus intérpretes”, diz um célebre aforismo judaico. E o fato é que, a cada geração, surgem novas descobertas sobre sentidos de versículos e significados de palavras no mesmo texto - explica Bogomoletz. - Não se trata aqui de uma “diferença” entre as interpretações. Cada intérprete estudou a obra de seus antecessores e acrescenta as suas inovações.

Um paraíso sem maçãs

Neste primeiro volume, do Gênese, Bogomoletz cita exemplos de interpretações que, por conta das várias análises, trazem visões diferentes das cristãs. Eva, na tradição judaica, é criada a partir de um dos lados de Adão, não de sua costela. Ela é criada, como explica Bogomoletz, para defrontar-se com Adão, não para servi-lo. A costela, segundo ele, vem do folclore cristão. Tampouco há maçã no paraíso. Na tradição judaica, o “fruto proibido” não é nomeado. Da mesma forma, não existe o “terrível” pecado sexual pelo qual o cristianismo explica a expulsão do casal do céu. O pecado, na tradição judaica, é estritamente político, diz o tradutor, isto é, constituiu-se de uma desobediência.

- A sexualidade não teve nada a ver com isso - garante Bogomoletz. - Ao contrário, a sexualidade é explicitamente estimulada no texto, desde o famoso “Crescei e multiplicai-vos” até as inúmeras bênçãos que prometiam muitos filhos a quem as recebia.

Por conta dessa tradição das releituras e interpretações múltiplas, segundo a historiadora Mônica Selvatici, especialista em identidade judaica e cristã da Universidade Estadual de Londrina, no Paraná, o judaísmo tende a ser mais dinâmico, mais aberto a mudanças e inovações do que outras religiões.

- A tradição de múltiplas interpretações, de estudo contínuo do texto bíblico, me parece que torna o judaísmo mais aberto, sim. Ele não se fecha numa única verdade, numa única doutrina - afirma Mônica. - E é interessante essa tradução com os diversos comentários ao longo dos tempos, porque permitirá trabalhos variados sobre diferentes leituras históricas.

Bogomoletz concorda. E fala sobre a adaptação das religiões a questões que surgem com a vida moderna.
- Falando como judeu, o judaísmo acredita que Deus nos deu a vida, mas a medicina dos homens está aí para servir à Sua vontade de preservar a vida. Então toda inovação médica é bem-vinda, do ponto de vista dos rabinos, porque representa mais um instrumento a serviço do Criador. O judaísmo não proíbe o aborto, mas põe condições à sua realização (principalmente quanto ao tempo de vida do feto) - enumera. - Já o casamento gay é outra coisa; tem a ver com escolhas individuais, não com o salvamento de vidas em perigo. No entanto, há mais de 15 anos venho ouvindo falar de sinagogas para gays (nos Estados Unidos), e Tel Aviv, a principal cidade de Israel, é quase uma Capital Mundial do movimento gay, apesar de os ortodoxos rangerem os dentes contra.

Para os especialistas, a Torá é essencial também na construção da identidade judaica, como lembra o psicanalista Paulo Blank em sua análise da tradução do primeiro volume do livro. “Amos Oz, o escritor israelense bem conhecido do público brasileiro, publicou em 2012 pela Yale University Press um ensaio intitulado “Jews and Words” (Judeus e Palavras). Apesar de seu ateísmo declarado, ele identifica na adesão milenar às narrativas hebraicas da Bíblia e ao seu estudo — que manteve viva a língua original — o verdadeiro traço identitário dos que hoje se definem como judeus.”

Uma identidade em um texto

A historiadora Mônica Selvatici tem opinião semelhante.

- Os textos que formam o Pentateuco (a Torá) foram escritos em épocas bem distintas - explica Mônica. - No entanto, a edição final desse conjunto unido ocorreu no século VI a.C., quando Nabucodonosor destrói Jerusalém e leva parte da elite judaica para a Babilônia. Neste contexto do exílio, surge a necessidade de se fixar um texto que conferisse essa ideia, essa unidade, uma tentativa de fixação de um povo por meio de um texto.

Mesmo para quem não é religioso, a Torá tem um papel importante na construção da identidade judaica.

- Os religiosos judeus leem a Bíblia Hebraica como ela “foi entregue no Sinai” e acreditam inteiramente que ali está a História do Povo Judeu - explica Bogomoletz. - Já os leigos têm, cada qual, sua opinião mais ou menos fundamentada. Posso dizer que, embora muitas coisas (principalmente as mais antigas, anteriores à fundação do primeiro reino hebreu) possam ser consideradas lendas pelos leigos, não há muita dúvida de que tais lendas se basearam, muitas vezes, em tradições orais bem anteriores.

Professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ, Maria Clara Bingemer defende a ideia de que a Torá é importante para todas as religiões, não apenas a judaica:

- Sobretudo para as monoteístas. Na verdade, o judaísmo transformou o mapa religioso da Humanidade ao inaugurar a fé em um Deus único e pessoal - diz a teóloga. - Claro que isso foi um processo longo que teve etapas e fases até chegar ao monoteísmo tal como é vivido hoje pelo povo de Israel. E esse monoteísmo foi construído a partir da experiência do povo com a escuta de seu Deus, que foi registrada em uma escritura. Nessa escritura, a Lei de Deus (a Torá) tem uma importância fundamental por demonstrar que Ele está ligado à vida do fiel como indivíduo e à do povo como coletivo. A Torá significa esse registro escrito e permanente de um Deus pessoal que fala ao ser humano e lhe dá orientações de conduta para viver a verdadeira adoração e praticar a verdadeira justiça.

Fonte

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Secretário geral da CNBB diz que uniões entre pessoas do mesmo sexo precisam de amparo legal


Desde que assumiu a liderança da Igreja Católica, o Papa Francisco vem tocando no assunto com cautela, mas tem assinalado uma disposição da instituição em aceitar os fiéis gays. Em um movimento inédito de abertura, o Pontífice disse, logo após sua passagem pelo Brasil, em julho do ano passado, que os homossexuais não devem ser marginalizados: “Se uma pessoa é gay e busca a Deus, quem sou eu para julgá-la?”. Em entrevista ao GLOBO, o bispo auxiliar de Brasília e secretário geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Leonardo Steiner, reitera a afirmação do Papa: “pessoas do mesmo sexo que decidiram viver juntas necessitam de um amparo legal na sociedade”.

A declaração pode ser interpretada como uma mudança de tom da CNBB. Há cerca de um ano, quando o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou uma resolução determinando que os cartórios brasileiros deveriam celebrar casamentos entre pessoas do mesmo sexo, a CNBB se posicionou contra a medida, que vinha a reboque de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de 2011.

O GLOBO: Recentemente, o Papa Francisco disse: “Quem sou eu para julgar um homossexual que procura Deus?”. Hoje, a Igreja Católica está aberta a aceitar seus fiéis homossexuais?
Dom Leonardo Steiner: Pode-se dizer que o Papa faz eco ao que o Catecismo da Igreja Católica diz a respeito das pessoas homossexuais: “Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á para com eles todo sinal de discriminação injusta”. Entende-se que acolher com respeito, compaixão e delicadeza significa caminhar e estar junto da pessoa homossexual e ajudá-la a compreender, aprofundar e orientar a sua condição de filho, filha de Deus.

É importante que a Igreja Católica não marginalize os homossexuais?

A acolhida e o caminhar juntos são necessários, para se refletir sobre o que condiz ou não com a realidade vivida pelas pessoas homossexuais, e o que, de fato, lhes é de direito, para o seu próprio bem e o da sociedade.

O Papa também quer estudar as uniões homossexuais para entender por que alguns países optaram por sua legalização. Isso representa o início de um diálogo sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo?

É importante compreender as uniões de pessoas do mesmo sexo. Não é um interesse qualquer quando se trata de pessoas. É necessário dialogar sobre os direitos da vida comum entre pessoas do mesmo sexo, que decidiram viver juntas. Elas necessitam de um amparo legal na sociedade.

A CNBB, porém, se declarou contra a resolução do Conselho Nacional de Justiça que determinou que os cartórios devem celebrar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Por quê?

Ao dar reconhecimento legal às uniões estáveis como casamento civil entre pessoas do mesmo sexo em nosso país, a Resolução do CNJ interpreta a decisão do Supremo Tribunal Federal de 2011. Certos direitos são garantidos às pessoas comprometidas por tais uniões, como já é previsto no caso da união civil. A dificuldade está em decidir que as uniões de pessoas do mesmo sexo sejam equiparadas ao casamento ou à família. A afirmação mais forte em relação à decisão do Conselho nacional de Justiça foi de que tal decisão não diz respeito ao Poder Judiciário, mas, sim, ao conjunto da sociedade brasileira, representada democraticamente pelo Congresso Nacional, a quem compete propor e votar leis, após aprofundado debate; o que não existiu.

A Igreja deve passar por mudanças para se adaptar aos novos tempos?

A Igreja muda sempre; está em mudança. Ela não é a mesma através dos tempos. Tendo como força iluminadora de sua ação o Evangelho, a Igreja busca respostas para o tempo presente. Assim como todas as pessoas, a Igreja sempre procura ler os sinais dos tempos, para ver o que se deve ou não mudar. A verdades da fé não mudam.

Fonte

Todos irmãos: somos um só corpo no amor de Cristo




Um breve comentário a propósito da nossa postagem recente sobre o trabalho de nosso amigo, o diácono Marcos Lord, e seu alter ego, Luandha Perón (leia nossa postagem original aqui, e uma nota de esclarecimento do próprio Marcos sobre o trabalho da Betel e a presença da ICM no Brasil, aqui):

Temos muito orgulho dos laços de parceria e inquebrantável amizade que nos unem a nossos irmãos da Comunidade Betel - ICM Rio. Somos integralmente adeptos da atitude ecumênica e do diálogo inter-religioso defendidos e vividos pela Igreja Católica desde pelo menos o Concílio Vaticano II, ocorrido o começo da década de 1960. Acreditamos firmemente, como prega a doutrina católica, que todos os cristãos, católicos ou reformados, somos todos irmãos em Cristo e filhos de uma única e mesma Santa Madre Igreja. Para quem tiver interesse em se aprofundar no tema, indicamos a leitura do texto abaixo e dos documentos conciliares ali citados.

Com relação ao trabalho de Marcos como drag queen, a repercussão que teve a notícia constitui, a nosso ver, uma maravilhosa oportunidade para ampliar o entendimento e celebração da diversidade. Para nós, antes de podermos falar em definições de sexo biológico (
homem/mulher), identidade de gênero (masculino/feminino) e orientação sexual (homossexual, heterossexual ou bissexual) e todas as diferentes maneiras como os seres humanos, na magnífica diversidade com que o Pai nos criou (reflexo exuberante da Sua própria riqueza), transitamos entre essas diferentes instâncias - antes de podermos falar dessas identidades (e para que nenhuma delas se transforme em rótulo, estigma nem prisão), há algo que nos une e dignifica a todos, que é o fato de sermos, todos, Filhos Amados do mesmo Pai e irmãos em Cristo.

A esse respeito, uma boa leitura a respeito é o artigo "Imagem de Deus e Diversidade", aqui.

Um fraterno e caloroso abraço a todos! :-)

Equipe Diversidade Católica
 
* * *

O Concílio Vaticano II e o Ecumenismo

1. A forma como a Igreja católica vê hoje a tarefa ecuménica, considerando-a uma opção “irreversível” e “prioritária”, é impensável sem o Concílio. Por outro lado, o alcance do Vaticano II só se entende olhando para o peso que a consciência do problema ecuménico teve no decurso do processo conciliar.

A questão ecuménica esteve presente logo na intenção de convocar o Concílio (anunciada no último dia do Oitavário pela Unidade - 25.1.1959). Ainda antes do seu início, João XXIII criou o Secretariado para a Unidade dos Cristãos (15.6.1960), que veio a ter uma importância fulcral na forma como muitos temas foram refletidos. Finalmente, a 19.10.1962 (pouco depois do início da 1ª sessão), João XXIII elevou o Secretariado ao nível de Comissão conciliar, colocando-o em igualdade com as outras Comissões.

2. Do ponto de vista ecuménico, o Concílio representou um profundo salto qualitativo na consciência católica. Pode falar-se mesmo de uma “transformação epocal”, no sentido de que o Concílio marcou “o princípio do fim” de uma mentalidade de “Contra-Reforma”, que condicionou a identidade católica desde Trento até aos nossos dias, conduzindo-a a estreitezas confessionalistas limitadoras da sua catolicidade. Para essa mudança foi estimulante a presença de observadores não católicos.

3. Em termos de conteúdos, a importância ecuménica do Vaticano II encontrou expressão direta no Decreto Unitatis redintegratio (UR), votado a 19.11.1964, no mesmo dia da Lumen Gentium (LG). A coincidência de datas não é casual: o Decreto sobre o Ecumenismo tem de ser lido em estreita ligação com a Constituição sobre a Igreja. Todos os aspetos da renovação eclesiológica operada pelo Concílio são de relevância ecuménica: desde o novo sentido do mistério da Igreja à visão da Igreja como “Povo de Deus”; desde as bases de uma eclesiologia de comunhão à valorização, ainda que incipiente, da realidade das Igrejas Locais.

A abertura ecuménica na Lumen Gentium emerge sobretudo na perceção da comunhão que já existe entre todos os cristãos, comunhão essa assente em bens que edificam a Igreja: a Palavra de Deus escrita; a fé trinitária; a vida da graça; a fé, a esperança e a caridade e outros dons interiores do Espírito Santo, etc. (LG 15). Por isso, reconhece-se que a “Igreja de Cristo” não se identifica pura e simplesmente com a “Igreja católica”, mas “subsiste” nela. Ou seja: fora do espaço visível da Igreja católica há elementos de santificação e de verdade, há eclesialidade (LG 8).

4. Dois outros documentos são de grande significado ecuménico. Em várias das suas perspetivas – por exemplo, na conceção da Revelação ou na visão da relação entre Escritura e Tradição – a Constituição Dei Verbum coloca sob outros pressupostos o diálogo com os cristãos provenientes da Reforma. Não menos relevante é a Declaração Dignitatis humanae sobre a liberdade religiosa como um direito social e civil, individual e comunitário, a reconhecer pelo Estado em todas e quaisquer circunstâncias.

5. O Decreto sobre o Ecumenismo foi um dos documentos que requereu maior disponibilidade mental para a mudança (a sua aprovação exigiu grande capacidade de diálogo interno). Destacam-se algumas das suas afirmações: os cristãos não católicos são vistos como “irmãos no Senhor” (UR 3); há bens de salvação nas outras Igrejas e Comunidades eclesiais (UR 3); os católicos também foram responsáveis pelas divisões (UR 3 e 7); o ecumenismo exige disponibilidade para uma renovação permanente (UR 3 e 6); no centro da tarefa da unidade está o ecumenismo espiritual (UR 7 e 8); há uma legítima pluralidade na expressão da verdade cristã (UR 4, 9); importa atender à “hierarquia das verdades” da fé (UR 11).

6. A receção ecuménica do Concílio tem sido marcada por avanços e recuos (o que não acontece só na Igreja católica). De qualquer forma, avançou-se mais em quase 50 anos do que nos últimos cinco séculos. Basta ler a Encíclica Ut Unum Sint (1995) enquanto receção criativa do Concílio, a Declaração católico-luterana sobre a Justificação (1999) ou o documento católico-anglicano sobre Maria (2005) para confirmar isso.

Naturalmente, persistem tarefas bem complexas a enfrentar. A busca da unidade é questionada por novos problemas e frequentemente contraditada na prática concreta. Um problema fulcral é que muitos membros da Igreja (também hierarcas e teólogos) ainda não interiorizaram o que a tarefa ecuménica exige em termos de transformação de mentalidade e de abertura à ação criativa do Espírito.

- José Eduardo Borges de Pinho, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

Fonte: Agência Ecclesia

quarta-feira, 21 de maio de 2014

A casa do Pai tem muitas moradas



O Diácono Marcos Lord, Líder Pastoral da Icm Betel Rio, foi notícia neste fim de semana no jornal O Globo, que fez uma matéria (leia aqui) sobre ele e seu alter ego, a drag queen (e também pastora) Luandha Perón. A reportagem ficou entre as mais lidas do site do jornal por pelo menos dois dias, trazendo, para nossa alegria, uma grande visibilidade ao lindo trabalho realizado pelos nossos amigos e parceiros da ICM Betel. (Leia nota de esclarecimento do próprio Marcos sobre o trabalho da Betel, aqui.)

Aproveitando a ocasião, divulgamos aqui um depoimento (público) que recolhemos no Facebook (aqui) e que nos emocionou profundamente. Porque Luandha tem razão: a casa de nosso Pai, onde Ele nos espera de braços e coração abertos, tem muitas moradas, e há lugar para todos - sem exceção nem condições.

NUNCA FUI TÃO PROFUNDAMENTE TOCADO POR JESUS como aconteceu hoje em minha vida.
Tudo começou quando decidi almoçar, no domingo, com os irmãos da Igreja Cristã Metropolitana da Baixada. Não queria participar do culto que antecederia, pois me recusava a participar de qualquer culto evangélico. Por este motivo aguardei que terminassem do lado de fora do local... Ao final, ouvi a música “Geni e o Zepelim” de Chico Buarque de Hollanda, que me fez lembrar o musical “A Ópera do Malandro”, cuja canção fora feita para o Genival que tinha Geni como seu “nome de guerra”. Já neste momento lembrei-me da Susan Kidman, que muitos dos meus amigos conhecem muito bem... Ali soube que o Pastora Luandha Perón ministraria o culto de mais tarde. Achei incrível e queria muito estar neste momento, tirar fotos e postar pra qualquer irmão cristão de outras denominações o que é, de fato, ousadia, só para que estes pudessem comentar negativamente. Mesmo os que não comentam, costumam fazer seus julgamentos (como sempre) dentro de seus corações “puros”.
Cheguei cedo para o culto. Muitos membros sequer haviam chegados. Fiquei ansioso e torcendo para saber da repercussão que causaria após ser publicado na mídia. Fui me controlando até que ela surge para explicar a Palavra de Deus. Parecia que Deus falava comigo através dela. Senti a emoção tomando conta de mim aos poucos. Quando ouvi as seguintes palavras: “EU TE AMO! NA MINHA CASA TEM MUITAS MORADAS. VENHA MORAR COMIGO”, tive de me retirar e desabafar toda a amargura que estava em meu peito, no banheiro. No momento da ceia, já estava tão nervoso que quase derrubei o cálice da mão da pastora. Saí novamente e minha oração se resumiu em mais um choro doído. Ao final do culto, totalmente aquebrantado, decidi participar da singela homenagem feita aos amigos que partiram vítimas da AIDS.

Pensei comigo (o tempo todo reflito e questiono as coisas): “Maior que ser vitima da AIDS é ser vítima do preconceito”. E lembrei-me do amigo Luis Phellipe que partiu este ano... Então respirei fundo e entrei na fila para acender uma vela e ajudar a formar a cruz que se criava no chão. Ao chegar a minha vez, não consegui colocar a vela de pé. E ali, curvado em frente ao altar do Senhor, tive outra crise que não pude evitar. Minhas lágrimas saíram azedas como o vinagre que Jesus foi obrigado a tomar em seu sacrifício. Tirei os óculos e pus no chão, e tremia, num misto de tristeza, vergonha e alívio. Do meu coração parecia sair os pregos cravados por muitos evangélicos e homofóbicos que existem nas Igrejas... Neste momento pude ver as Mãos do Senhor me ajudando através de mãos cujas unhas eram pintadas e tinha um anel enorme em um de seus dedos. Deus estava ali, eu sei. Eu senti. Os cuspes e pedras que haviam me atirado estavam sendo limpos e retirados por uma Drag Queen. Então, sai dali para tentar entender o que estava acontecendo...

Sou como uma samaritana, inconformada por ser tão discriminada por esta sociedade machista, porém que fora acolhida nos braços de Jesus. Sou como o mendigo Lázaro, que retornou da morte por meio Jesus. Sou como a mulher impura, que apenas ao tocar nas vestes de Jesus, foi curada de seu mal. Sou como aquele que está à porta de muitas Igrejas, esperando um convite para entrar e permanecer como é...
Enfim, neste período pascal, Ele ressurgiu em minha vida, e por isso, sinto-me lavado e impulsionado a sair do meu comodismo pra fazer diferença neste mundo, com pessoas tão injustas e preconceituosas. Ele deseja que sejamos Sal que dá gosto à vida daqueles que não veem razão pra viver; quer que sejamos luz para os que vivem à marginalidade desta sociedade; quer também que caminhemos até Ele como somos e estivermos, entretanto sem máscaras. Porque estas, como maquiagem, já são usadas em muitas Igrejas.

Com carinho, para Marcos Lord.
* * *

ATUALIZAÇÃO EM 22/05/14:

Não deixe de ler nosso comentário a respeito da repercussão desta postagem, aqui, e a nota de esclarecimento do próprio Marcos, aqui :-)

terça-feira, 20 de maio de 2014

O cardeal de Viena felicita a “drag queen” Conchita Wurst, vencedora do Festival Eurovision


O cardeal de Viena e presidente da Conferência Episcopal da Áustria, Christoph Schönborn, felicitou a “drag queen” barbada Conchita Wurst por sua recente vitória no Festival Eurovision da canção.

A reportagem é publicada por Noticiero Digital, 16-05-2014. A tradução é de André Langer, aqui reproduzida via IHU.

“Alegro-me muito por Thomas Neuwirth, que teve tanto sucesso com sua atuação como Conchita Wurst”, escreve o cardeal em sua coluna semanal publicada na sexta-feira, dia 16 de maio, pelo jornal gratuito Heute, um dos mais lidos da capital austríaca.

“No colorido jardim de Deus há uma variedade de cores. Nem todos os que nasceram como seres masculinos sentem-se como homens, e o mesmo acontece do lado feminino. Merecem como pessoas o mesmo respeito que todos nós”, acrescenta Schönborn.

A tolerância, o principal lema da atuação de Conchita Wurst [que costuma repetir "Seja a melhor versão de você mesmo, em vez de uma cópia mal feita de outra pessoa"], “é um tema real e grande”, explica o cardeal de Viena.

E ser tolerante significa “respeitar o outro, embora não se compartilhe suas convicções”, assegura o líder da Igreja austríaca.

“Rezo por ele (Thomas Neuwirth) para que sua vida seja abençoada”, conclui Schönborn, considerado um dos cardeais mais influentes da Europa.

Neuwirth, um cantor homossexual de 26 anos, causou furor em todo o mundo com a figura de Conchita Wurst ao vencer o recente Festival Eurovision, em Copenhague, com a música “Rise like a Phoenix”.

Em tempo: apesar de o cardeal se referir a Conchita pelo nome Thomas e no masculino, há que se reconhecer o quanto é significativo ele ter decidido livremente abordar o assunto em sua coluna semanal (em vez, por exemplo, de ter se limitado a comentar caso lhe tivessem perguntado), sobretudo quando se leva em conta a forte reação conservadora e moralista que se seguiu à vitória de Conchita, principalmente na Rússia, onde se organizou uma campanha em que homens postaram na internet fotos e vídeos raspando a barba por esta "não representar mais um símbolo de masculinidade". Schönborn já havia mostrado antes uma postura respeitosa e acolhedora em relação aos gays, "mesmo não compartilhando de suas convicções", como ele diz - tal como demonstrou no episódio em que confirmou a escolha de um jovem gay eleito para o conselho de sua paróquia (como contamos aqui), tendo depois convidado o rapaz e seu marido para almoçar (como comentamos aqui).

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O modelo das igrejas: Cristo ou Feliciano?



A propósito da aprovação, em 16 de outubro de 2013, do projeto de lei 1.411/11, na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara (então presidida pelo Deputado Pastor Marco Feliciano), vetando as igrejas de serem enquadradas em crimes de discriminação caso proibissem a presença de homossexuais em seus templos, a Revista Fórum publicou (em 22/10/13) uma entrevista com o historiador e cientista da religião Leandro Seawright Alonso, doutorando em História Social pela Universidade de São Paulo e pesquisador do grupo de trabalho sobre o papel das igrejas na ditadura civil-militar brasileira da Comissão Nacional da Verdade (CNV). Como um bocadinho de reflexão crítica histórica e sociológica sempre é salutar, pareceu-nos oportuno reproduzir alguns trechos aqui, mas vale a pena ir à fonte (aqui) original para lê-la na íntegra.

"(...) Alonso acredita que o Brasil ser um Estado laico é um ideal, não é uma realidade. Autor do livro Entre Deus, Diabo e Dilma: messianismo evangélico nas Eleições 2010 (Fonte Editorial), o pesquisador observa ainda como a bancada evangélica busca promover uma instrumentalização do voto religioso, em ascensão no Brasil, e a demonização das esquerdas no País." Com a palavra, Leandro Seawright Alonso:

"Parto da premissa fundamental para quaisquer democracias que a humanidade tem triplo direito: tem direito ao conservadorismo, ao progressismo e à moderação apaziguadora. Na prática, significa dizer que os membros das igrejas protestantes históricas e pentecostais têm o direito de discordar de 'culturas sexuais' alternativas ou das práticas homossexuais propriamente ditas. E têm o direito de fazê-lo com base na Bíblia Sagrada (que na maior parte das vezes carece de melhor interpretação), e em outros pressupostos de fé, de doutrina, de tradição religiosa.
Sobre o projeto de lei 1.411/11, entretanto, considero-o tanto inconstitucional, quanto democraticamente vulgarizador e indiscernível do ponto de vista de um 'espaço aberto ao público'. Porque um templo é lugar de espaços compartilhados com aqueles que não são necessariamente membros da comunidade local. Caso contrário, as igrejas fundamentalistas poderiam funcionar de portas fechadas ao público e renegar os princípios da 'evangelização dos povos'. Sociologicamente, uma igreja requer diálogo com a comunidade ao redor, mas uma seita busca determinado isolamento imaginário em uma 'sociedade dos salvos' intocáveis e sem nenhum interesse de 'conversar' com os seus avessos democráticos naturais."



"Essas atitudes fortalecem convicções religiosas farisaicas de muitas pessoas que acorrem às igrejas evangélicas como atitude de resistência à modernização moral do país. Evidentemente, esse projeto de lei ratificou os princípios fundamentalistas, autoritários e preconceituosos de comunidades religiosas que sustentam certo arcaísmo transplantado de outros tempos para os nossos. Conheço muitas denominações protestantes históricas sérias e éticas (batista, metodista, presbiteriana, etc…), que, embora não concordem doutrinariamente com 'culturas sexuais' alternativas, respeitam profundamente – com raras exceções – os seres humanos com outras orientações sexuais."



"Em uma democracia, em um Estado laico, cabe-nos aceitar as diferenças e conviver em sociedade com as mais variadas formas de pensamentos, de filosofias, de confissões, de crenças, de descrenças. Reconheço que o Estado é pretensamente laico e as pessoas nem sempre são. Nem por isso elas devem legislar em nome do Estado de direito, utilizando-se das suas crenças e descrenças como procura fazer o Feliciano. Se isso acontece é porque os políticos semelhantes ao Feliciano representam milhares de brasileiros com as mesmas visões e intolerâncias. 'Pecamos' também na formação política, no diálogo e na redemocratização das ideias."



"Revista Fórum – O relatório sobre Violência Homofóbica no Brasil com dados referentes a 2012, divulgado em junho deste ano pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH), aponta que os casos de violações (que inclui violência física, psicológica e discriminação) contra homossexuais no Brasil cresceram 46,6% no ano passado. Propostas como essa e a própria atuação da Comissão de Direitos Humanos, com o pastor Marco Feliciano a frente, prejudicam o combate à violência contra a população LGBT?

Leandro Alonso – Prejudicam. (...) uma igreja cristã – que tem logicamente liberdade de crença, de discordância, de ortodoxia – precisa desenvolver uma pastoral eficaz para cuidar de gente, cuidar de seres humanos. Isso inclui o combate a qualquer forma de violência contra os seres humanos – independentemente de cor, credo, orientação sexual. Não existe escolha além do amor cristão. Não foi isso que o Cristo disse? 'E Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo [...]' – Marcos 12: 29: 31. (...) uma parcela dos religiosos aderiu à 'apologia da inação', ou seja, à falta de atitude diante das atrocidades cometidas no Brasil contra grupos suscetíveis à violência, tais como as mulheres, os homossexuais, os moradores em situação de rua e outros grupos de seres humanos. Muitos têm medo de se posicionar. Porque existe sempre um risco de má interpretação por suas comunidades locais ou por suas denominações, mas não existe o que temer: cuidar de gente não é o mesmo que concordar com as suas opiniões diversas. Os atos do Feliciano afetaram os números que não são apenas números, mas pessoas que deveriam ser protegidas pelo Estado de direito."



"Grande parte das igrejas evangélicas precisa se “converter” ao cristianismo do Novo Testamento. Sinto-as historicamente distantes dos fundamentos teológicos da Reforma Protestante. Precisam resgatar a concepção do 'protestantismo' em sentido mais amplo que mera contestação moralista herdada do 'american way of life' (estilo americano de vida). (...) Segundo as histórias bíblicas fundantes, Jesus Cristo andou entre todos os seres humanos, tornou-se amigo deles e camarada dos opositores aos fariseus. Ele comeu com os pecadores. Sentou-se à mesa com as prostitutas e sofreu críticas severas dos religiosos. Acusaram-no de 'comilão e beberrão'. Tornou-se 'preso político', foi torturado duramente e recebeu pena de morte. O Cristo irritou os religiosos, pois 'descumpriu' a lei ao quebrar as interpretações ortodoxas, por exemplo, ao 'curar' em um sábado – dia sagrado dos judeus. Digamos que Cristo não era um bom modelo para judeus religiosos. Cabe uma pergunta teológica, aqui: Quem é o modelo das igrejas, Cristo ou Feliciano? Lembre-se que Feliciano fez que o projeto de lei 1.411/11 fosse aprovado e, com isso, algumas pessoas homossexuais serão proibidas de entrarem em templos religiosos oficiais (sem punição para os clérigos protestantes ou católicos). Paradoxalmente, o Cristo disse: 'Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve' – Mateus 18: 38 – 30. Na mesma linha discriminatória, nos Estados Unidos – de outros tempos – algumas igrejas evangélicas colocaram plaquinhas nas portas dos templos: 'aqui não entra nem cachorro e nem negros'. Espero que as igrejas brasileiras não adiram aos 'ditadores evangélicos' e que não reescrevam plaquinhas com palavras semelhantes referindo-se aos mais variados grupos sociais díspares. O pastor batista Martin Luther King Junior, negro corajoso, ativista, compreendeu bem o sentido da luta contra as diferentes 'ditaduras do pensamento' e às multiformes discriminações sociais."



"As chamadas 'igrejas inclusivas' (...) possuem um significado importante na vida dos seus frequentadores. Mas essas igrejas são os abrigos dos excluídos. Perceba que a junção de excluídos não os torna mais incluídos por conviverem entre iguais. Pelo contrário, significa que precisaram se organizar para superar as angústias das violências e dos temores religiosos sofridos pela não aceitação."



"Para usar uma expressão de Antônio Flávio Pierucci, engendra-se um 'efeito fariseu' na política brasileira da 'bancada evangélica' que prega aquilo que não vive. (...) Por forte discurso religioso, os fundamentalistas trabalharam com a manipulação do imaginário religioso contra as 'hostes espirituais da maldade' política (...)

Sobre ser o Brasil um Estado laico, reafirmo que se trata de um ideal e não ainda de uma realidade. Se uma criança evangélica, na aula de religião de sua escola, aprender sobre a mitologia do Candomblé, sobre a poesia do sufismo, e mesmo sobre o catolicismo popular, qual deve ser a reação de sua família? Lembro-me que quando os primeiros missionários protestantes chegaram ao Brasil, eles, como minorias, não poderiam se casar e mesmo sepultar os seus mortos porque a Igreja Católica dominava não apenas os documentos do Império, mas também os cemitérios (nos quais não se poderia sepultar acatólicos). O pressuposto, e o ideal, de Estado laico vieram com a proclamação da República, mas não se pode negar que a presença protestante no País foi fundamental para se repensar as variáveis religiosas no Brasil.

Finalizo com uma reflexão incitada por Pierucci ao abordar em um dos seus textos sociológicos a seguinte passagem bíblica:

'Dois homens subiram ao templo, para orar; um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo. O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado' – Lc 18: 10 – 14."

domingo, 18 de maio de 2014

As mãos que o papa beija


Nosso amigo Teleny mais uma vez se supera com este comentário lúcido e ponderado a respeito das repercussões do encontro, no último 6 de maio, do Papa Francisco com o padre salesiano italiano Michele De Paolis, um dos fundadores da Comunidade Emmaus (1978) e, segundo algumas fontes, cofundador do grupo italiano AGEDO (associação de amigos, parentes e pais de pessoas homossexuais e transexuais, fundada em 1992 na cidade de Milão).

Ainda marcando o Dia Internacional Contra a Homofobia e a Transfobia, celebrado ontem, vamos reproduzir aqui apenas alguns trechos do Pe. De Paolis, citados por Teleny em seu post, mas vale muito a pena ler seu comentário na íntegra, aqui. Com a palavra, o Pe. De Paolis:
"Aqueles que desejam transformá-los em 'heterossexuais', por assim dizer, estarão forçando-os a agir contra a sua natureza e tornando-os psicopatas infelizes. Precisamos colocar em nossas cabeças que Deus, nosso Pai, quer que nós, suas crianças, sejamos felizes e frutifiquemos com os dons que Ele colocou em nossa natureza! (...) Vocês têm o direito de procurar um parceiro. E não se preocupem: onde existe o ágape, existe Deus. Vivam a sua vida com alegria. E com a nossa mãe Igreja precisamos ter paciência. A atitude da Igreja com os homossexuais mudará. Neste sentido, inúmeras iniciativas já foram empenhadas."

"Estou espantado com o fato de que muitos homens da Igreja (...) ignoram completamente o fenômeno da homossexualidade, que a ciência já esclareceu de modo inequívoco: a orientação homossexual não é escolhida livremente pela pessoa. O rapaz e a moça se descobrem dessa maneira: trata-se de uma abordagem profundamente enraizada na personalidade, que constitui um aspecto essencial da própria identidade: não é uma doença, não é uma perversão. O rapaz ou a moça homossexual podem dizer a Deus: 'Você nos fez assim!'.

Algumas pessoas de Igreja dizem: 'Tudo bem ser homossexual, mas não deve ter relações sexuais, não podem amar uns aos outros!' Isso é a máxima hipocrisia. É como dizer a uma planta que cresce: 'Você não deve florescer, não deve dar frutos!'. Isso sim é contra a natureza.

Confesso a vocês que no começo eu também tinha meus preconceitos. Então, estudei e consegui. Sucessivamente tentei entrar na lógica do Evangelho; eu queria olhar para as coisas da parte de Deus. Entendo que o Pai não exclui do seu amor nenhum de seus filhos e não julga a pessoa com base em seus impulsos sexuais, que são atribuições da natureza e não de uma escolha voluntária."



sábado, 17 de maio de 2014

17 de maio, Dia Internacional contra a Homofobia e Transfobia (2)


Acaba de sair um número temático da Revista Vida Pastoral sobre homoafetividade e fé cristã. Parabéns à Editora Paulus e ao padre Jakson Alencar pela coragem de abordar este assunto. A revista é de distribuição gratuita nas livrarias Paulus e Paulinas, basta pedir no balcão - e, a partir do segundo exemplar, paga-se R$ 1,00 por cada um. Futuramente, será disponibilizada também on-line.

Como bem assinalou Miguel Ferraz, citado pelos nossos amigos da página Católicos LGBT's:
"Novos tempos! Novos tempos! A consagrada revista Vida Pastoral faz sua capa e seus artigos principais sobre a fé cristã e a sexualidade homoafetiva! Tempos de coragem nos dado por Francisco! Pode-se dizer o que se vai na mente e coração!"

17 de maio, Dia Internacional contra a Homofobia e Transfobia (1)

Clique na imagem para ampliar

Se há uma coisa que me dá orgulho na minha trajetória como católico, é o fato de toda ela ter sido na Pastoral da Juventude, que me garantiu toda a formação política que tenho hoje - especialmente aquela que pauta as minhas reflexões sobre gênero e sexualidade (ainda que esse tema não seja tão debatido nela). Enquanto todos os meu contextos de convivência me cercaram de discursos conservadores por toda a vida, foi (curiosamente) na Igreja que encontrei um oásis de sonho, de liberdade, de crítica e de comprometimento verdadeiro com a construção de uma sociedade livre de opressões - que é o sonho de Deus, o projeto de Cristo.
[Neste] Dia Internacional de Luta contra a Homofobia, sinto reforçado esse meu orgulho - e essa minha pertença - ao ver essa nota da Caju Casa da Juventude, um dos principais centros de formação juvenil na América Latina, responsável por produzir alguns dos materiais mais presentes na minha formação cristã e no meu trabalho como liderança de pastoral. Vozes como essa reforçam a minha esperança e a minha vontade de ser Igreja, de ser Pastoral da Juventude, de ser "semente de transformação" - como disse um padre amigo certa vez, numa conversa sobre política, à beira da porta de casa.

- Murilo Araújo, no Facebook

terça-feira, 13 de maio de 2014

Reconhecimento mútuo


E, nesta semana de dia das mães (e poucos dias depois de uma postagem aqui no blog sobre o casal "Clarina"), deixo registrados aqui meus parabéns ao autor da novela das 21h, Manoel Carlos, pela cena de ontem entre mãe (Chica/Natália do Valle) e filha (Clara/Giovanna Antonelli) - que, apesar de casada há dez anos com um homem, com quem tem um filho, vem se descobrindo apaixonada por outra mulher, a fotógrafa Marina (Tainá Müller).
"Eu já desconfiava disso. (...) Eu queria conversar com você. Eu desconfiei, eu queria falar, mas eu não encontrava as palavras, sabe? Eu queria dizer alguma coisa, mas só me vinha à cabeça o discurso do preconceito. E esse eu não queria, porque... eu TENHO preconceito. Eu não queria ter. Eu tenho vergonha... Eu tenho vergonha de ter preconceito, mas eu tenho. Quem sabe agora, começando pela minha família, quem sabe eu consigo ficar livre mais rápido, mais fácil, desse preconceito.
Me dá um abraço?"
Quanta dor seria evitada, quantas almas e famílias seriam poupadas de se dilacerar, se esse reconhecimento (mútuo) honesto e franco pudesse ser feito e acolhido com mais frequência.

Assista à cena no site da novela, aqui.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Perguntas e respostas sobre Jesus e os homossexuais


Um livro que parece ser uma longa carta ao Papa Francisco sobre a questão homossexual depois da famosa frase:"Quem sou eu para julgar um gay?". A pergunta da qual se parte: o que é a violência para Jesus? "Violência, para Jesus, é imputar aos diferentes, aos rejeitados e aos oprimidos que eles são constitutivamente negativos, colocando no coração da sua autoconsciência a culpa e o desprezo por serem o que são, mesmo não tendo feito mal a ninguém".

A resenha é da filósofa e jornalista italiana Delia Vaccarello, vencedora do prêmio For Diversity Against Discrimination, da União Europeia. O artigo foi publicado no jornal L'Unità, 07-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto (obrigado pela dica!), aqui reproduzido via IHU.

Se a violência é induzir os "diferentes" a punirem a si mesmos com as próprias mãos, assimilando os ditames de uma doutrina segundo a qual a condição homossexual é uma tendência de "desordem objetiva", torna-se evidente a contradição entre o anúncio de salvação de Jesus e a condenação do amor gay e lésbico por parte da doutrina oficial católica.

Essa é a tese na base do livro de Paolo Rigliano, a partir do dia 12 de maio nas livrarias, intitulado Gesù e le persone omosessuali (ed. La meridiana), que abre à esperança. Com a carta-livro, Rigliano (autor, dentre outros, de Amori senza scandalo, Ed. Feltrinelli; Curare i gay?, Ed. Cortina) reúne entrevistas realizadas ao longo de quatro anos com personalidades de destaque entre as quais aparecem Alberto Maggi, Vito Mancuso, Franco Barbero, Elizabeth Green.

A questão dirigida a todos é: "como seguir Jesus?". E ela é formulada a partir deste princípio: "Para Simone Weil, violência é impor aos outros – os oprimidos – que sonhem e realizem o sonho do dominador, egocêntrico e exclusivo. A mensagem de Jesus nega na raiz essa violência, toda violência: compromete a criar as condições interiores e exteriores para que floresça o desejo e o sonho de cada um – dos diferentes e dos rejeitados em primeiro lugar".

A pergunta, então, torna-se uma vara divinatória que busca uma solução capaz de promover uma "relacionalidade nova" reconhecida pela doutrina: "Eu perguntei aos meus interlocutores como seguir Jesus e, portanto, dialoguei com eles sobre por que e como realizar uma acolhida integral da vida e do amor das pessoas lésbicas e gays: como fundamentá-lo e anunciá-lo, como antecipá-lo e suscitá-lo".

Das respostas de Elizabeth Green, vem à tona que Jesus não fala de homossexualidade porque isso não lhe interessa, porque o Evangelho "nos liberta da necessidade de criar categorias como 'homossexuais', 'mulheres', 'imigrantes', das quais eu tenho que me separar e que eu tenho que excluir para conseguir ser eu mesmo ou eu mesma".

Para Green, a "grandeza de Jesus está no fato de que ele se faz próximo de todos e de todas, vai ao encontro de todos e de todas", enquanto a oposição heterossexualidade/homossexualidade enrijece, multiplica as exclusões, engessa a sexualidade.

Alberto Maggi convida a buscar novas respostas: "A grande força que Jesus deu ao Evangelho é quando ele diz: 'O Espírito os acompanhará nas coisas futuras'. Ou seja, a comunidade tem a capacidade, graças ao Espírito Santo, de dar novas respostas às novas necessidades. Não se pode dar respostas velhas para as novas necessidades, portanto não se pode buscar nas Escrituras respostas a essa problemática".

Maggi se mostra confiante nas capacidades da Igreja de encontrar caminhos para evitar a exclusão, justamente porque os fechamentos sobre a sexualidade são e foram muito fortes, a ponto de serem paradoxais, e a reflexão está em andamento: "Ora, o pecado do divórcio é pior do que o de homicídio - diz o padre de Marche –, porque, se você matar a sua esposa e depois se arrepender, você retorna novamente à comunhão da Igreja. Mas se você se divorciar, não há mais perdão para você. É possível que seja mais grave se divorciar de um cônjuge do que matá-lo? Portanto, há comissões estudando isso, também o divórcio e a condição homossexual".

A propósito de "lei natural", com base na qual a homossexualidade é definida como "contra a natureza", Vito Mancuso fornece uma leitura alta disso, alinhada com os Evangelhos: "A lei que vivifica a natureza é a lei da relação. Tudo o que favorece a relação está em conformidade com a lei natural; tudo o que impede a relação é contrário à lei natural". E o Evangelho é "relação que busca alimentar os outros a ponto de se fazer alimento, relação que se esvazia para saciar os outros". Portanto, argumenta Mancuso, o Evangelho diz "que esses afetos que você desenvolve em nível físico devem poder ser vividos sob a insígnia da relação total harmoniosa".

Com uma prosa discursiva, o livro, através dos diálogos, mostra como o livre pensamento está presente dentro da Igreja. Ele oferece aos fiéis homossexuais uma nova forma de ler a própria experiência, colocando em primeiro lugar não a lei que exclui, mas sim a relação e o amor de Deus. Ele se inscreve no rastro da interrogação traçada pelo Papa Francisco.

Fonte
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...