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domingo, 11 de maio de 2014
quinta-feira, 8 de maio de 2014
Clara e Marina, entre normas e absurdos
Via Facebook | Clique na imagem para ampliar
Uma mulher trocar marido e filho por outra mulher é "absurdo", como diz uma das imagens acima, porque que mulher pode se dar a liberdade de trocar o lugar que lhe cabe na sociedade por qualquer outro de sua escolha, e diferente do que dela se espera? Pior, que mulher pode se dar a liberdade de não gravitar em torno do modelo androcêntrico que ainda rege, em grande parte, nossas escolhas e relações?
Imagens como estas denunciam o quanto nossa cultura ainda é normativa, o quanto ainda é difícil sair dos padrões, a carga de recriminações e segregações que tantos ainda têm de suportar como preço a pagar por sua "emancipação". Porque, para aqueles que temos normas a seguir, "autonomia" e "autodeterminação" se confundem com "subversão" e "transgressão". O "prazer", quando escapa aos limites devidamente estabelecidos, se transforma em "devassidão". Mesmo os prazeres clandestinos, para serem tolerados, têm de obedecer às leis que regem o domínio das sombras.
O perigo é que, se trevas e luz não se misturam, a lógica da exclusão de tudo o que escapa às normas condena seus cumpridores a uma paranoia perpétua. Afinal, quanto mais populosa a terra das sombras, mais cercados e acuados estarão os habitantes da luz - ou "cidadãos de bem", ou "defensores da moral e dos bons costumes" (ou, como chamam jocosamente as fãs do casal Clarina, "a família brasileira"). E, no entanto, é por suas sombras que a sociedade normativa respira. São os marginais e clandestinos que insuflam ar novo nos quartos fechados e lubrificam as engrenagens enferrujadas, mesmo pagando caro por isso.
A visão de mundo por trás das imagens acima, muito mais do que "apenas" lesbofóbica e machista, é heteronômica, opressora e sufocante. Mas essas imagens só existem porque expressam a tensão da mudança. Na relação entre a Marina de Manoel Carlos e Clara (esse exemplo de mulher-mãe-e-dona-de-casa da "família tradicional"), dois mundos se chocam e tentam se encontrar. A paixão meio platônica que coloca as duas em algum lugar entre a sedução e essa estranha "amizade" que não ousa dizer seu nome evoca todas as hostes de amantes anônimos que, durante gerações, tiveram de se contentar com migalhas de afeto e fragmentos de ternura - por não terem o direito, como disse Marina um dia desses, de "competir com o amor dele no seu coração"; "ele", o cônjuge legítimo e devidamente nomeado, ao passo que tantos de nós tivemos, e temos ainda, de relegar a expressão e vivência do nosso desejo e do nosso afeto à invisibilidade e ao silêncio da culpa e dos inferninhos. Mas não é só isso. Na dança de encontros e desencontros entre as duas, como nos debates e embates entre correntes antagônicas nas “redes sociais”, vejo as tentativas de mundos antes mutuamente excludentes de negociar e encontrar uma saída da antinomia inclusão/exclusão.
Claro, a Rede Globo, em si, não está fazendo nenhum favor a ninguém. Mas tampouco está discriminando ninguém. O que a emissora de televisão revela é a carga de contradições, a ebulição da mudança no corpo social, a busca de superação da polarização. A história de Clara, Marina, Vanessa e Cadu é a história de todos nós, LGBTs ou não, em busca da terceira margem do rio onde nos libertaremos. Onde não teremos de ser nem anjos nem demônios, mas apenas humanos - cada qual um ser singular, com seu modo único de experimentar e expressar, da maneira mais autêntica possível, seu desejo e seu amor.
- Cristiana Serra, psicóloga e membro do Diversidade Católica
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Imagens como estas denunciam o quanto nossa cultura ainda é normativa, o quanto ainda é difícil sair dos padrões, a carga de recriminações e segregações que tantos ainda têm de suportar como preço a pagar por sua "emancipação". Porque, para aqueles que temos normas a seguir, "autonomia" e "autodeterminação" se confundem com "subversão" e "transgressão". O "prazer", quando escapa aos limites devidamente estabelecidos, se transforma em "devassidão". Mesmo os prazeres clandestinos, para serem tolerados, têm de obedecer às leis que regem o domínio das sombras.
O perigo é que, se trevas e luz não se misturam, a lógica da exclusão de tudo o que escapa às normas condena seus cumpridores a uma paranoia perpétua. Afinal, quanto mais populosa a terra das sombras, mais cercados e acuados estarão os habitantes da luz - ou "cidadãos de bem", ou "defensores da moral e dos bons costumes" (ou, como chamam jocosamente as fãs do casal Clarina, "a família brasileira"). E, no entanto, é por suas sombras que a sociedade normativa respira. São os marginais e clandestinos que insuflam ar novo nos quartos fechados e lubrificam as engrenagens enferrujadas, mesmo pagando caro por isso.
A visão de mundo por trás das imagens acima, muito mais do que "apenas" lesbofóbica e machista, é heteronômica, opressora e sufocante. Mas essas imagens só existem porque expressam a tensão da mudança. Na relação entre a Marina de Manoel Carlos e Clara (esse exemplo de mulher-mãe-e-dona-de-casa da "família tradicional"), dois mundos se chocam e tentam se encontrar. A paixão meio platônica que coloca as duas em algum lugar entre a sedução e essa estranha "amizade" que não ousa dizer seu nome evoca todas as hostes de amantes anônimos que, durante gerações, tiveram de se contentar com migalhas de afeto e fragmentos de ternura - por não terem o direito, como disse Marina um dia desses, de "competir com o amor dele no seu coração"; "ele", o cônjuge legítimo e devidamente nomeado, ao passo que tantos de nós tivemos, e temos ainda, de relegar a expressão e vivência do nosso desejo e do nosso afeto à invisibilidade e ao silêncio da culpa e dos inferninhos. Mas não é só isso. Na dança de encontros e desencontros entre as duas, como nos debates e embates entre correntes antagônicas nas “redes sociais”, vejo as tentativas de mundos antes mutuamente excludentes de negociar e encontrar uma saída da antinomia inclusão/exclusão.
Claro, a Rede Globo, em si, não está fazendo nenhum favor a ninguém. Mas tampouco está discriminando ninguém. O que a emissora de televisão revela é a carga de contradições, a ebulição da mudança no corpo social, a busca de superação da polarização. A história de Clara, Marina, Vanessa e Cadu é a história de todos nós, LGBTs ou não, em busca da terceira margem do rio onde nos libertaremos. Onde não teremos de ser nem anjos nem demônios, mas apenas humanos - cada qual um ser singular, com seu modo único de experimentar e expressar, da maneira mais autêntica possível, seu desejo e seu amor.
- Cristiana Serra, psicóloga e membro do Diversidade Católica
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E o valor da discussão suscitada pelo casal da novela se confirma em vídeos como este:Para além dos dogmas
A espiritualidade é anterior à institucionalização das crenças e, em vez de respostas, traz perguntas, tolerância, meditação
Participei, de 1º a 4 de maio, do Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora. Reuniu cerca de 400 pessoas em Fortaleza, a maioria com menos de 30 anos. A notícia triste foi a transvivenciação, em Goiânia, dia 2, de Dom Tomás Balduino, bispo dominicano defensor de indígenas e sem-terra.
Há, hoje, uma busca difusa por espiritualidade. Porém, os sedentos não encontram com facilidade o caminho do Poço de Jacó (João 4).
Até o surgimento do cristianismo, as religiões se prendiam a limites étnicos, culturais e territoriais. O apóstolo Paulo universalizou a proposta de Jesus, estendeu-a a todos os povos sem precisarem renunciar a suas identidades culturais.
Por que espiritualidade e não propriamente religião? Espiritualidade e religião se complementam, mas não se confundem. A espiritualidade existe desde que o ser humano irrompeu na natureza. As religiões são recentes, datam de oito mil anos.
A religião é a institucionalização da espiritualidade, como a família o é do amor. Há relações amorosas sem constituir família. Há espiritualidade sem identificação com religião. Há, inclusive, espiritualidade institucionalizada sem ser religião, caso do budismo, uma filosofia de vida.
As religiões, em princípio, deveriam ser fontes de espiritualidade. Em geral, elas se apresentam como catálogos de regras, crenças e proibições, enquanto a espiritualidade é livre e criativa. Na religião, predomina a voz exterior, da autoridade religiosa. Na espiritualidade, a voz interior, o “toque” divino.
A religião é instituição; a espiritualidade, vivência. Na religião há disputa de poder, hierarquia, excomunhões, acusações de heresia. Na espiritualidade predominam a disposição de serviço, a tolerância para com a crença (ou a descrença) alheia, a sabedoria de não transformar o diferente em divergente.
A religião culpabiliza; a espiritualidade induz a aprender com o erro. A religião ameaça; a espiritualidade encoraja. A religião reforça o medo; a espiritualidade, a confiança. A religião traz respostas; a espiritualidade, perguntas. Religiões são causas de divisões e guerras; espiritualidades, de aproximação e respeito.
Na religião se crê; na espiritualidade se vivencia. A religião nutre o ego, uma se considera melhor que a outra. A espiritualidade transcende o ego e valoriza todas as religiões que promovem a vida e o bem. A religião provoca devoção; a espiritualidade, meditação. A religião promete a vida eterna; a espiritualidade a antecipa. Na religião, Deus, por vezes, é um conceito; na espiritualidade, experiência inefável.
Há fiéis que fazem de sua religião um fim. Ora, toda religião, como sugere a etimologia da palavra (religar), é um meio de amar o próximo, a natureza e a Deus. Uma religião que não suscita amorosidade, compaixão, cuidado do meio ambiente e alegria serve para ser lançada ao fogo.
Há que se cuidar para não jogar fora a criança com a água da bacia. O desafio é reduzir a distância entre religião e espiritualidade. E não abraçar uma religião vazia de espiritualidade nem uma espiritualidade solipsista, indiferente às religiões.
Há que fazer das religiões fontes de espiritualidade, amor e justiça. Jesus é exemplo de quem rompeu com a religião esclerosada de seu tempo e vivenciou e anunciou uma nova espiritualidade, alimentada na vida comunitária, centrada na atitude amorosa, na intimidade com Deus, na justiça aos pobres, no perdão. Dela resultou o cristianismo.
Quem pratica os ritos de sua religião, acata os mandamentos e paga o dízimo, mas é intolerante com quem não pensa ou crê como ele, pode ser um ótimo religioso, mas carece de espiritualidade. É como uma família desprovida de amor. A espiritualidade deveria ser a porta de entrada das religiões.
- Frei Betto
Fonte Tweet
A família entre utopia e realidade: uma reflexão teológica
Leonardo Boff, teólogo e por mais de 20 anos professor de teologia sistemática e ecumênica no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis, posteriormente professor de ética na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e em outras universidades no estrangeiro, tece algumas reflexões sobre a família, do ponto de vista da teologia católica.
Antes de abordarmos, suscintamente, a questão complexa da família (1), faz-se mister conscientizar uma verificação sem a qual toda nossa reflexão se apresentaria viciada ou condenada ao irrealismo. É o fato de que a família, mais que qualquer outra realidade, participa da ambiguidade inerente à condição humana que nos faz simultaneamente dementes e sapientes, sim-bólicos e dia-bólicos, numa palavra, nos revela a coexistência da luz e da sombre e de intrincadas de contradições que existem em cada um de nós. Por isso, por um lado, a família encerra altíssimos valores e, por outro, contem deformações lamentáveis. Dai viver em permanente crise, com chances de acrisolamento (donde vem a palavra crise) e de crescimento ou também com riscos de decadência e de deterioramento de sua situação.
1. Família: utopia e realidade
Não obstante esse dado primeiro, não desaparece em nós dimensão utópica, vale dizer, aquele horizonte de sentido que nos chama sempre a melhorar e a não nos resignar à realidade dada. Recusamo-nos aceitar passivamente a situação decadente. Queremos superá-la. Não secundamos um pragmatismo preguiçoso, sem sonhos e destituído de vontade de aperfeiçoamento, que simplesmente administra a crise, tirando vantagens onde pode, mas sem um projeto de criação de novos modelos de convivência. Infelizmente, esta é a tendência dominante, particularmente, no quadro da pós-modernidade para a qual qualquer coisa vale (anything goes) ou só vale o que está na moda.
Entretanto, uma pessoa ou uma sociedade que já não sonha e que não se orienta por utopias, escolheu o caminhou de sua decadência e de seu desaparecimento. Sem utopia não se alimenta a esperança. Sem esperança não há mais razões para viver e o desfecho fatal é a auto-destruição. Por isso é de fundamental importância a dimensão utópica em tudo o que empreendemos, também com referência à família, mesmo com a consciência de que jamais alcançaremos a utopia. Não obstante isso, esta desempenha função insubstituível, pois a ela relativiza as realizações históricas concretas e mantém o processo sempre aberto a novas incorporações. Numa palavra, a utopia nos fazer andar. Jamais alcançaremos as estrelas. Mas que seriam nossas noites sem elas? São elas que espantam os fantasmas da escuridão e nos enchem de reverência face à “grandeur” e à majestade de um céu estrelado. Porque temos estrelas, não tememos a escuridão.
Precisamos, portanto, de uma utopia para a família, para que continue humana, lugar de realização a dois no amor e na confiança, digna de procriar novas vidas para esse mundo e para Deus.
Quando confrontamos, entretanto, a família humana com a Família divina que é a SS. Trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo e a sagrada família de Nazaré, de Jesus, Maria e José, estas contradições que referimos saltam aos olhos. O risco é a produção de um discurso paralelo: exaltar, por um lado, as excelências da Família divina e da sagrada Família de Nazaré e apontar e, por outro, as mazelas da família humana, sem um real confronto entre elas.
Outro risco, mais frequente na produção escrita e falada dos cristãos é apresentar, por cima das cabeças, a utopia cristã da família, sem tomar a sério os desafios que vêm da família atual, sob a pressão violenta de transformações de toda ordem que ocorrem na sociedade, nas formas dos relacionamentos humanos e de coabitação entre pessoas que querem viver juntas. O discurso cristão, então, soa irrealista, sem responder às demandas reais dos cristãos.
Nossa reflexão procura manter a dialética entre o utópico e o real contraditório. Partiremos dos desafios do real para, então, confrontá-lo com utópico. Desta forma, esperamos fazer justiça às duas dimensões e estaremos em condição de criar espaço para inspirações que incentivam a criatividade face à realidade histórico-social que nos toca sofrer e viver.
2. A família e as transformações histórico-sociais
A família padece pesadamente das influências da cultura dominante, hoje mundializada. Esta se caracteriza por processos sociais que colocam a economia como eixo estruturador de tudo. Esta economia e seu maior instrumento, o mercado, se regem por uma feroz competição deixando totalmente à margem a cooperação e os valores da solidariedade, fundamentais para a vida humana e para a família. Ela trouxe inegáveis benefícios para a condição humana, especialmente as comodidades da vida cotidiana, a medicina, os transportes, a comunicação e tantas outras mas também a agravou porque está mais interessada em oferecer bens materiais do que qualquer outra coisa. Os valores não materiais, ligados à gratuidade, ao amor, à solidariedade, à fraternidade, à troca e à espiritualidade ocupam um lugar irrelevante quando não são feitos também mercadorias, colocadas na banca do mercado e exploradas por conhecidos pregadores televisos ou por todo um mercado de literatura de auto-ajuda que mais ilude que ilumina.
Ora, destes valores altamente positivos vive fundamentalmente a família. Lamentavelmente constatamos que nossa cultura não oferece as condições concretas e adequadas para a família viver com normalidade tais valores e alimentar seu sonho. Antes, destrói, para a grande maioria das famílias, a infra-estrutura que lhes permite subsistir, viver o amor e exercer o cuidado para com os filhos/filhas. Isso porque a riqueza é pessimamente distribuída. Esta injustiça social globalizada dá origem a milhões e milhões de famílias empobrecidas, marginalizadas e excluídas. Separações e divórcios campeiam de forma assustadora. As maiores vítimas são as crianças a quem se negam as condições fundamentais que ocorrem nos três primeiros anos, de elaborar, em conctato com a mãe e em seguida com o pai, as disposições básicas que vão orientar toda a vida: o sentimento de pertença, a percepção de cuidado, de proteção, o sentido dos limites e da partilha, valores fundamentais que orientam todo o percurso da vida.
Como se depreende, nosso tipo de organização social não prima pelo cultivo de valores nem se submete a critérios éticos coletivos que ultrapassam interesses individuais. A dimensão espiritual é privatizada ou se apresenta extremamente anêmica. Tal atmosfera não propicia ambiente favorável a uma família bem integrada e sadia nem lhe subministra motivações para resistir aos apelos da erotização generalizada dos meios de comunicação inclusive os chats eróticos e de namoros virtuais via internet, que tanto debilitam os laços da fidelidade e do afeto conjugal, nem lhe oferece auxílios em momentos de crise.
A este cenário familiar dramático somam-se ainda as profundas transformações sociais e tecnológicas que afetam pesadamente o estatuto da família como a precarização do trabalho, os horários e as longas horas de transporte. As formas tradicionais de família estão ameaçadas de desaparecimento.
A família clássica patricentrada que distribuía os papéis consoante o gênero, privilegiando o pai e o esposo está cedendo lugar à família participativa, onde marido e mulher assumem todas as tarefas num sentido cooperativo, aspecto esse que deve ser positivamente valorizado.
O que está se impondo hoje por causa da urbanização acelerada do mundo é a família nuclear: pai/mãe e filhos/filhas. Este tipo de família por força do regime de trabalho do casal (ambos trabalham fora), terceiriza funções que antes eram próprias da família: o cuidado do bebê por uma babá ou empregada e depois pela creche, a arrumação da casa, a preparação da comida, o cuidado pelos idosos e doentes. Tudo isso é feito por pessoas pagas para realizarem estas tarefas. Ao casal restam as relações intersubjetivas do afeto, da convivência e do companheirismo.
A família ampliada que engloba a todos do mesmo laço de sangue, tende, especialmente nas metrópoles, a se diluir. A grande família que encerrava a todos os que viviam sob o mesmo teto, familiares, parentes, inquilinos e empregados ficou reservada, praticamente, a alguns grandes latifundiários de terras que vivem relações arcaicas.
A família dos ancestrais se restringiu às famílias de notáveis, por algum título nobiliárquico ou outro qualquer. Elas ainda cultivam tradições e memórias genealógicas, mas geralmente o fazem num sentido socialmente conservador e elitista. Não determinam mais o sentido da família original.
3. Desafios das novas formas de coabitação
Ao lado das famílias-matrimônio que se constituem no marco jurídico-social e sacramental, mais e mais surgem as famílias-parceria (coabitação e uniões-livres) que se formam consensualmente fora do marco institucional e perduram enquanto houver a parceria, dando origem à família consensual não conjugal.
A introdução do divórcio dá lugar a famílias unipessoais (a mãe ou o pai com os filhos/filhas) ou multiparentais (com filhos/filhas provenientes de matrimônios anteriores) com conhecidos problemas de relacionamento entre pais e filhos/filhas. Por fim, crescem no mundo todo as uniões entre homoafetivos (homens e mulhares) que lutam pela constituição de um quadro jurídico que lhes garanta estabilidade e reconhecimento social.
Não queremos emitir um juízo ético sobre estas formas de coabitação. Precisamos antes entender o fenômeno. Concretamente: como conceituar a família face às várias formas como ela está se estruturando?
Um especialista brasileiro, Marco Antônio Fetter, o primeiro entre nós a criar a Universidade da Família com todos os graus acadêmicos, assim define: "a família é um conjunto de pessoas com objetivos comuns e com laços e vínculos afetivos fortes, cada uma delas com papel definido, onde naturalmente aparecem os papéis de pai, de mãe, de filhos e de irmãos”(2).
Transformação maior, entretanto, ocorreu na família com a introdução de preservativos e de anticoncepcionais, hoje incorporados à cultura como algo normal, fazendo com que o discurso contrário da Igreja hierárquica católica pareça a alguns críticos, extemporâneo, e no caso da AIDS, até demasiadamente rigorista. Os próprios cristãos, de resto fervorosos e determinados a acolher as prescrições oficiais, têm dificuldades de assumi-los. Acresce ainda que com os preservativos e a pílula, a sexualidade ficou separada da procriação e do amor estável.
Mais e mais a sexualidade bem como o matrimônio são vistos como chance de realização pessoal, incluindo ou não a procriação. A sexualidade conjugal ganha mais intimidade e espontaneidade, pois, pelos meios contraceptivos e pelo planejamento familiar fica liberada do imprevisto de uma gravidez não desejada. Os filhos/filhas deixam de ser consequência fatal de uma relação sexual mas são queridos e decididos de comum acordo. Esta perspectiva é libertadora não obstante o risco do individualismo e do fechamento da família sobre si mesma.
A ênfase na sexualidade como realização pessoal propiciou o surgimento de formas de coabitação que não são o matrimônio. Expressão disso são as uniões consensuais e livres sem outro compromisso que a mútua realização dos parceiros ou a coabitação de homoafetivos, homens e mulheres.
Tais práticas, por novas que sejam, devem incluir também uma perspectiva ética e espiritual. Importa zelar para que sejam expressão de amor e de mútua confiança. Se houver amor, para uma leitura cristã do fenômeno, ocorre algo que tem a ver com Deus, pois Deus é amor (1Jo 4,12.16). Então, não cabem preconceitos e discriminações. Antes, cumpre ter respeito e abertura para entender tais fatos e colocá-los também diante de Deus, como insinuou o Papa Francisco em sua curta entrevista no avião regressando da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro. Se o casal homoafetivo vive um compromisso e assumir a relação com responsabilidade não se lhe pode negar relevância religiosa e espiritual. Cria-se uma atmosfera que ajuda superar a tentação da promiscuidade e reforça-se a fidelidade e a estabilidade que são bens de toda relação entre pessoas, seja por via do matrimônio ou de outra forma de coabitação. Então, antes de moralizar, procurar compreender.
Se há sexo sem procriação, pode haver procriação sem sexo. Trata-se do complexo problema da procriação in vitro, da inseminação artificial e do “útero de aluguel”. Toda esta questão é extremamente polêmica em termos éticos e espirituais e não parece que se tenha chegado a um consenso seja na sociedade seja nos pronunciamento das Igrejas.
Geralmente a posição oficial católica, expressa, por exemplo, na encíclica de João Paulo II, Evangelium Vitae tende a uma visão naturista, exigindo para a procriação a relação sexual direta dos esposos, quando, é razoável se admitir a legitimidade da união de um óvulo da esposa com um espermatozóide do marido de forma artificial e depois implatar óvulo fecundado no útero, desde que tal procedimento seja imbuido de amor e de adesão à vida.
Para encurtarmos a reflexão sobre esta questão tão complexa que não cabe aqui ser tratada, valemo-nos da opinião de um especialista holandês católico:
“A tecnificação da procriação humana não é sem problemas. A inseminação artificial em suas diferentes formas, a fecundação in vitro e o transplante de embriões, todas estas possibilidades técnicas nos permitem, por um lado, tratar o espermatozóide e o óvulo como ‘material biológico’, e com eles fazer procedimentos técnicos e tomá-los como objeto de pesquisas científicas, e, por outro, realizar uma gravidez fora dos quadros seguros do casamento tradicional. Assim é possível que uma mulher engravide por inseminação artificial com esperma de um doador anônimo; pode-se reunir in vitro espermatozóides e óvulos e implantá-los depois em uma mulher qualquer; pode-se ter um filho por meio de uma ‘mãe de aluguel’. Estes meios técnicos não estão, de forma neutra, à nossa disposição enquanto capacidade puramente instrumental”(3). Exigem um discernimento ético e a criação de uma ambiência de amor, de mútuo apoio e de calorosa acolhida da vida que vem.
Numa palavra: eles devem permanecer como instrumentos a serviço do amor, da ajuda a esposos com problemas e sempre no respeito à sacralidade da vida.
Não basta a procriação artificial. O ser humano tem direito de nascer humanamente, de um pai e de uma mãe que em seu amor o desejaram. Se por qualquer problema, recorre-se a uma intervenção técnica, nunca pode-se perder a ambiência humana e o correto propósito ético.
O filho/filha que daí procede deve poder ter nome e sobrenome e ser recebido socialmente. A identidade social, nestes casos, é mais importante, antropologicamente, que a identidade biológica, como no caso de Jesus em sua relação com José. Este dando-lhe um nome e inserindo-o em sua descendência davídica, garantiu a Jesus identidade social. Ademais, é importante que a criança seja inserida num ambiente familiar para que, em seu processo de individuação, possa realizar o complexo de Electra em relação à mãe ou o de Édipo em relação ao pai, de forma bem sucedida. Desta forma se evitam danos irreparáveis pelo resto da vida.
O que se deve, entretanto, impedir é que a procriação humana seja entregue à instituições tecnológicas com seus especialistas que manipulam “material genético” pois seria a inaguração do terrificante “Admirável Mundo Novo”(1932) de Aldous Huxley, violando a sacralidade da vida e dispensando o que há de mais excelso e divino no ser humano que é sua capacidade de amar e pelo amor conjugal transmitir a vida, a maior criação da complexidade do universo e o supremo dom de Deus.
4. A Sagrada família e a família moderna
Depois desta agenda de problemas, alguém, seguramente, poderia perguntar: que tem a ver o arquétipo cristão de família que é representada pela família de Nazaré de Jesus, Maria e José, com a atual e contraditória família humana? Como ela nos pode iluminar e inspirar?
Antes de qualquer resposta possível, cumpre reconhecer a radical diferença de situações e de modelos de família. Não há apenas uma distância temporal de mais de dois mil anos, mas também uma distância cultural considerável. A família de Nazaré vivia a cultura agrária e das pequenas vilas, ligada diretamente à relações primárias. Nós viemos da cultura tecno-científica cheia de aparatos que nos criam um mundo de segunda mão. Neste nível, Nazaré não nos poderá dizer, diretamete, nada. Habitamos em mundos diferentes.
Mas isso não é tudo o que se pode dizer. Ela, ao contrário, nos tem muito a dizer. Mas o que nos tem a dizer, se situa num outro nível e pode interessar a todos. Tanto lá como aqui, estamos às voltas com pessoas humanas que amam, que se angustiam, que tem perplexidades, que buscam sentido, que trabalham, que cuidam, seguem as tradições de seu povo e que são tementes de Deus. Todas estas pessoas são habitadas por sonhos, valores e propósitos de felicidade e paz. E também acometidas de angústias e medos como, segundo os evangelistas, por ocasião da fuga da família de Nazaré para o Egito porque Herodes ameaçava de morte o filho recém nascido.
Toda família ou toda forma de coabitação e convivência entre humanos, seja de gêneros distingos ou do mesmo gênero, por mais diferentes que sejam suas modalidades históricas, vivem, não de técnicas nem de arranjos, mas da vontade de encontrar e viver o amor, sonham em inserir-se bem na comunidade (era o que significava “ser justo”, aplicado a José) e ser minimamente felizes. O núcleo imutável da família é o afeto, o cuidado de um para com o outro e a vontade de estar junto, também abertos à procriação de novas vidas. Este é o lado permanente, dentro do lado cultural cambiante.
Se assim é, então, não devemos, em primeiro lugar, considerar o caráter institucional da família (a perspectiva dominante nos documentos eclesiásticos e nas reflexões dos teólogos) mas seu caráter relacional. Importa ver o complexo jogo de relações que se realiza entre os parceiros. Nestas relações é que está a vida, funcionam os sonhos e as utopias de amor, fidelidade, encontro e feliidade, numa palavra, aparece o lado permanente. O lado institucional é socialmente legítimo, mas não é originário, ele é derivado, histórico e cambiente conforme as diferentes tradições. Por isso pode assumir as mais diversas formas. Nele a vida já vem enquadrada e normas presidem as relações. Mas tais delimitações somente perduram com sentido quando são alimentadas pelo húmus do sonho, do afeto terno e pela intercomunhão.
Aceitas estas premissas, o que nos tem a dizer a família de Nazaré? Exatamente esse lado de relação, de amor, de cuidado, de piedade e de fidelidade a três: entre Jesus, Maria e José. Eles se transformaram em arquétipos cristãos que, num nível profundo e coletivo, continuam a alimentar o imaginário dos fiéis e a suscitar valores que dão sentido e trazem felicidade à família. É aquilo que chamamos modernamente de capital social familiar.
Estudos transculturais revelaram que a quantidade e a qualidade de tempo em que os membros da família passam juntos vivendo relações de afeto e de pertença são determinantes para os comportamentos individuais e para as opções sociais que serão tomadas. Se o capital social familiar se apresenta alto e sadio dá origem a uma maior confiança no próximo, há menos violência e corrupção. Em consequência, há mais participação nas associações, nos movimentos sociais e no voluntariado. Os conflitos familiares e o número de divórcios caem surpreendemente. Quando o capital social familiar vai se diluindo, lentamente emergem situações críticas com desfechos muitas vezes dramáticos senão trágicos.
Podemos imaginar que o capital social familiar de Jesus, Maria e José era altíssimo. Logicamente, sabemos pouco do dia-a-dia da sagrada Família. A pesquisa histórica e exegética levantou os dados sócio-históricos mais seguros especialmente nos últimos anos com os métodos refinados da arqueologia e da antropologia da vida cotidiana (cf. J. A. Pagola e J. H. Crossan entre outros). Mas independente desta pesquisa, ao analisarmos o José da história, que de profissão era artesão e campones mediterrâneo, depois esposo, pai, educador e “homem justo” veremos que ele é representante legítimo da família normal judaica, piedosa, ordeira e trabalhadora.
Eu diria até que José inaugurou uma forma de coabitação absolutamente nova e até escandalosa para a época: casa com uma mulher grávida (Mt 1,18; Lc 1,27) que, depois é informado, ser grávida pelo Espírito Santo (Mt 1,20; Lc 1,35). Tem a coragem de levá-la para sua casa (Mt 1,24), quem sabe, tendo que enfrentar os comentários dos vizinhos e as suspeitas dos parentes, como insinuam com razão os evangelhos apócrifos.
Não precisamos detalhar os valores que esta família teve que viver, como já referimos, ao fugir do sanguinário Herodes, no desconforto do exílio, com a perplexidade face ao menino que já desperta com consciência própria no Templo em Jerusalém e, que por fim, segue seu próprio caminho, sem que Maria e os demais parentes o entendam completamente (cf. Mc 3,23 quando querem pegar Jeus porque acham que ficou louco).
Ora, estes valores foram vividos outrora e são vividos do mesmo jeito, hoje em dia, por tantas famílias, por parceiros de vida ou por outros que optaram viver juntos com coragem, com fidelidade, com responsabilidade e, não raro, com uma dimensão religiosa e espiritual.
A questão é superarmos certo moralismo que não ajuda a ninguém, prejulga as várias formas de família ou de coabitação e que nos faz perder os valores que podem estar ai presentes, vividos com sinceridade pelas pessoas. Na verdade, são tais realidades que contam numa perspectiva ética e valem diante de Deus.
O valor maior da doutrina da Igreja sobre a família reside exatamente nisso: recordar sempre de novo os valores perenes e trazer à consideração dos cristãos e às demais pessoas de boa vontade a perspectiva utópica da família. Infelizmente nem sempre a Igreja é compreendida, porque ela mesma não sabe esclarecer o gênero literário da utopia e do mundo dos valores. Utiliza demasiadamente o rigor da doutrina e menos a compreensão cordial, ”a revolução da ternura” e a misericórida, tão enfatizadas pelo Papa Francisco.
Seja como for, são inconsistentes as críticas mais frequentes de que, via de regra, trata-se de uma doutrina abstrata e irrealista. Se entendermos a função da utopia e de sua linguagem, como esclarecemos acima, estamos em condições de valorizar positivamente a função da doutrina eclesiástica, como poderoso reforço do capital social familiar.
Partindo das realidades que os documentos dos Papas não desconhecem, o ensino a Igreja bebe sua inspiração deste fundo utópico da sagrada Família de Jesus, Maria e José. A partir dela, se alimenta uma visão altamente humana e esperançadora da vida em família.
Não obstante todas as contradições reais, desta iluminação podem surgir possíveis alternativas e novos caminhos ao lado e junto a outras instâncias que na sociedade também se empenham por resgatar a família e dar-lhe a centralidade que possui para a vida em todas as suas etapas de realização.
Assim o faz, por exemplo, João Paulo II. na Carta Apostólica Familiaris Consortio (1981) e na Carta às Famílias (1994). Em ambos os documentos, enfaticamente se afirma que a família é uma comunidade de pessoas, fundada sobre o amor e animada pelo amor, cuja origem e meta é o divino Nós(4).
Na Familiaris Consortio predomina, curiosamente, a dimensão de relação sobre a dimensão de instituição. Define-se a família “por um complexo de relações interpessoais – relação conjugal, paternidade-maternidade, filiação, fraternidade – mediante as quais cada pessoa humana é introduzida na família humana”(5)
São estas relações interpessoais que fazem dela uma comunidade de pessoas: ”A família, fundada e vivificada pelo amor, é uma comunidade de pessoas: dos côngues, dos pais e dos filhos, dos parentes”(6). A comunhão caracteriza a família:”A lei do amor conjugal é comunhão e participação, não a dominação”(7), valores que fazem da família, como bem o diz o Catecismo da Igreja Católica “um símbolo e imagem da comunidade do Pai e do Filho no Espírto Santo”(8), a “Igreja doméstica”(9).
Que seria da família e dos parceiros se não ardesse neles a utopia? Não é próprio do amor e das relações intersubjetivas de afeto e de cuidado, a linguagem do sonho e da exaltação? Não se chamam com frequência os esposos de “meu bem”, “meu amor”? Sem esse motor que continuamente anima a caminhada, sem esse nicho de sentido, ninguém suportaria as dificuldades inerentes a toda relação intersubjetiva, nem as limitações da condição humana decadente e lábil. O capital social familiar iria desaparecendo.
São estes valores que abrem a família para além dela. O sonho mesmo é que a partir dos valores da família, em suas diferentes formas, surja a família-escola, a família-empresa, a família-comunidade, a família-nação e a família-humanidade, para se chegar enfim, à família-Terra, trampolim derradeiro para a família-Deus-Trindade.
Portanto, os valores e inspirações que deram vida à família de Nazaré, continuam a sustentar as relações conjugais, as parcerias humanas e todos os que celebram o sentido da vida na relação de amor e de intimidade. O Deus-Trindade que penetrou tão profundamente na condição familiar pela trindade de Nazaré, a ponto de ai se personificar, continua assistindo os seres humanos em suas buscas. As formas e os caminhos podem variar, não varia, entretanto, o amor e a comunhão que movem os corações humanos na direção de um ao outro e na direção do grande Outro que é Trindade de Pessoas, intercambiando eternamente vida, amor e comunhão.
Estas esparsas reflexões querem animar a discussão sobre o tema da família, proposto pelo Papa Francisco para ser examinado por todo o povo de Deus, em todas as dioceses, paróquias e grupos de base. Desta discussão tão vasta e diversificada nascerão, seguramente, perspectivas novas que nos ajudarão a entender a família que sempre existiu e as novas formas de coabitação surgidas nos últimos tempos.
Notas
1) A bibliografia sobre a família e o matrimônio é infindável. Como não pretendemos erudição sobre o assunto veja os seguintes estudos a título de orientação: os dois números da revista internacional Concilium, o nº 55 de 1970 e o nº 260 de 1995; Bach, J. M., O futuro da família: tendências e perspectivas, Vozes, Petrópolis 1983; Id., Evolução do amor conjugal, Vozes, Petrópolis 1980; Schillebeeckx, E., O matrimônio- realidade terrestre e mistério de salvação, Vozes, Petrópolis 1969; Vidal, M., Moral do matrimônio, Vozes, Petrópolis 1982; um casal de leigos cristãos, Esther Brito Moreira de Azevedo e Luiz Marcello Moreira de Azevedo, Matrimônio – para que serve este sacramento? Vozes, Petrópolis 1997; CNBB, Casamento e família no mundo de hoje – textos seletos do magistério eclesial, Vozes, Petrópolis 1994; Boff, L., O sacramento do matrimônio: símbolo do amor de Deus para com os homens no mundo presente, em O Destino do homem e do mundo, Vozes, Petrópolis 2002(10ª edição)pp. 137- 156; Id. São José, a personificação do Pai, Vozes, Petrópolis 2012.
2) Veja Família: os desafios de uma instituição em crise, em Correio Riograndense de 29 de outubro de 2003, p.11. Diz ainda Fetter: ”Existem famílias idiossincráticas que, antigamente, seriam consideradasa absurdas: uma família formada por duas lésbicas, uma tem um filho de um rapaz, outra tem o filho de outro, e elas formam uma família muito organizada – uma funciona com o papel fálico e outra, mais como mãe….um grupo de irmãos pode constituir uma família, desde que um deles assuma o papel de pai, outro de mãe, enfim, que estejam presentes os três subsistemas básicos que normalmente formam uma família: o conjugal, o filial e o fraternal. Onde existem os papéis para esses subsistemas, posso afirmar que há uma família” op.cit. p. 11. Para quem se interessar pela Universidade da Família veja o site na internet:http://www.unifam.com.br e o e-mail: mafetter@terra.com.br
3) Houdijk, R., Formas de coabitação e procriação fora do matrimônio, em A família, revista internacional Concilium nº 260 (1995) pp. 30-38 aqui p.36.
4) Veja o Catecismo da Igreja Católica, Vozes, Petrópolis 1993 que nos números 1655-1658 e 2201-2233 sistematiza a posição oficial da Igreja.
5) Familiaris Consortio, nº 15.
6) Ibid. nº18
7) Cf. Documento de Puebla dos bispos latinoamericanos, 1979, nº 582.
8) Idem nº 2205
9) Lumen Gentium do Vaticano II nº 11; veja também Catecismo op.cit. nn.1665-1666 e 2204. Tweet
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Reconstruir o diálogo com as pessoas homossexuais
A opinião é de Claude Besson, copresidente da associação Réflexion et partage e autor de Homosexuels catholiques. Sortir de l'impasse ("Homossexuais católicos. Sair do impasse", Ed. De l'Atelier). O artigo foi publicado no jornal La Croix, 08-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.
Eis o texto.
Depois das ruidosas manifestações do ano passado e das últimas semanas, muitas pessoas homossexuais e suas famílias pensam, talvez, que não há muito a esperar por parte de uma certa faixa da Igreja Católica. Com efeito, pode-se acreditar que nada mudou, ou que até mesmo o modo de considerar as pessoas homossexuais deu passos para trás.
Há desânimo, o que é absolutamente legítimo e compreensível. No último encontro da nossa associação Réflexion et partage (Reflexão e partilha), uma mãe de família nos confidenciava: "Eu me acordo à noite e me pergunto por que tanto desprezo pelas pessoas homossexuais".
Apesar de tudo isso, não posso deixar de pensar naqueles que desejam continuar vivendo a sua fé na Igreja, mas que não encontram o lugar da palavra para eles, que estão isolados, que são desconhecidos, às vezes culpabilizados, que não vivem nas grandes cidades e que se escondem. Pessoalmente, não posso me desinteressar por ele, e é principalmente por essas pessoas que eu quero continuar agindo e acreditando que situações possíveis podem nascer.
Vai ser preciso tempo, diálogo, encontro, reflexão, implementação de iniciativas que poderão, pouco a pouco, mudar o olhar de certos católicos sobre a vivência das pessoas homossexuais através de uma melhor compreensão da realidade. Alguns poderão se surpreender, não faltam documentos, livros, artigos sobre esse tema. Mas, como eu pude constatar dando palestras em algumas dioceses francesas, tal ignorância traz medo. E o medo gera a exclusão, o desprezo, a confusão, os conflitos às vezes, os guetos e, no fim, o desejo de se livrar do outro. O medo é um mau conselheiro.
Ao invés, diversas dioceses organizam iniciativas para acolher melhor as pessoas homossexuais e as suas famílias. Por exemplo, na diocese de Grenoble, constituiu-se um "grupo da palavra" entre pessoas homossexuais, pais e responsáveis eclesiais. Em uma dezena de dioceses, ao menos, foram constituídas equipes, cujos primeiros encontros foram ricos em intercâmbios, partilha e diálogo.
Alguns elaboraram novas propostas, como o Chemin d'Emmaüs (uma iniciativa da diocese de Nanterre), um dia de peregrinação aberto a todos e particularmente às pessoas direta ou indiretamente envolvidas na homossexualidade. Tendo participado dele, posso assegurar que isso derrubou muitos preconceitos contra a homossexualidade. Também fui testemunha de um "grupo da palavra" constituído recentemente em uma paróquia da diocese de Lyonpor iniciativa dos pais.
Também foi apreciável a organização de seis seminários no Collège des Bernardins, em Paris, sobre "Fé cristã e homossexualidade" com representantes de associações (David et Jonathan, Devenir Un an Christ, Communion Béthanie, Réflexion et Partage). O último seminário, sobre o tema "Fazer casal", permitiu apresentar as experiências de casais homossexuais e heterossexuais na escuta, no diálogo, na construção do viver-juntos e da fraternidade que trarão os seus frutos.
Eu acredito na possibilidade de avançar a pequenos passos, no trabalho de porosidade, como o fato de se inserir em uma equipe de animação pastoral, em uma equipe de partilha bíblica, em uma reflexão sobre o casal etc. Isso não é possível em toda a parte, certamente, mas eu conheço muitas pessoas homossexuais que, inserindo-se nas comunidades cristãs, fizeram avançar o modo de pensar de muitos católicos sobre a homossexualidade. Como um casal de homens com mais de dez anos de vida em comum que busca se inserir em uma reflexão paroquial para os casais (heterossexuais, é claro) que tem dez anos de vida em comum. Essas experiências de porosidade parecem particularmente frutíferas.
Poder-se-ia acrescentar a todas essas experiências in loco os recentes documentos do Conselho Família e Sociedade da Conferência Episcopal Francesa, que permitem entrever aberturas: "Não é pelo fato de que a Igreja concede um estatuto especial para a relação amorosa entre um homem e uma mulher que ela não concede valor a outras relações amorosas... Podemos estimar o desejo de um compromisso com a fidelidade de um afeto, de um apego sincero, da preocupação pelo outro e de uma solidariedade que vai além da redução da relação homossexual a um simples compromisso erótico" [1]. Em outro documento do mesmo conselho, lê-se: "Toda pessoa tem direito a uma acolhida amorosa, assim como ela é, sem ter que esconder um aspecto ou outro da sua personalidade" [2].
O verdadeiro diálogo, no sentido de deixar se atravessar pela palavra do outro (dia = atravessar; logos = palavra) é uma riqueza que é preciso começar e continuar sempre que possível. Penso que muitos cristãos e responsáveis eclesiais são pessoas de boa vontade e buscam refletir e compreender melhor.
"Para restaurar a comunhão, já se poderia começar com encontros entre pessoas homossexuais e simpatizantes da 'manif pour tous'", declarava recentemente Dom Descubes, arcebispo de Rouen (no La Croix do dia 3 de fevereiro). As pessoas homossexuais nas associações cristãs estão disponíveis e desejam esses encontros...
"Uma árvore que cai faz mais barulho do que uma floresta que cresce", diz o ditado. Não podemos prever o porvir, mas cabe a nós fazê-lo "advir", lá onde estamos, cada uma e cada um de nós.
Notas:
1. Élargir le mariage aux personnes de même sexe ? Ouvrons le débat !, setembro de 2012.
2. Poursuivons le dialogue !, maio de 2013. Tweet
E vivam as diferenças! ;-)
Todos os héteros são iguais só por serem héteros? Então, os LGBTs também não.
Por um mundo em que, mais que "tolerar" as diferenças, possamos celebrá-las! :-)
Beijos!
Cris Tweet
terça-feira, 6 de maio de 2014
Um Deus pessoal pode ser uma séria responsabilidade
Palestra de Karen Armstrong, considerada a melhor TED de 2008
Contudo, um Deus pessoal pode tornar-se uma séria responsabilidade. Pode ser um mero ídolo esculpido à nossa imagem, uma projeção de nossas limitadas necessidades, temores e desejos. Podemos supor que ele ama o que amamos e odeia o que odiamos, endossando nossos preconceitos em vez de nos obrigar a transcendê-los. Quando ele parece não impedir uma catástrofe, ou mesmo desejar uma tragédia, pode dar a impressão de ser insensível e cruel. Uma fácil crença em que um desastre é a vontade de Deus pode nos fazer aceitar coisas fundamentalmente inaceitáveis. O próprio fato de que, como pessoa, Deus tem um gênero sexual é também limitante: significa que a sexualidade de metade da raça humana é sacralizada à custa do feminino, e pode levar a um desequilíbrio neurótico e inadequado nos costumes sexuais humanos. Um Deus pessoal pode ser perigoso, portanto. Em vez de nos puxar para além de nossas limitações, 'ele' pode nos encorajar a permanecer complacentemente nelas; 'ele' pode nos tornar tão cruéis, insensíveis e auto-satisfeitos quanto 'ele' parece ser. Em vez de inspirar a compaixão que deve caracterizar toda religião avançada, 'ele' pode nos estimular a julgar, condenar e excluir. Aparentemente, portanto, a ideia de um Deus pessoal só pode ser uma etapa em nosso desenvolvimento religioso. (…) "
- Karen Armstrong, em seu livro "Uma História de Deus" (Cia. das Letras)
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Na véspera da Parada, Igreja Católica lança nota em apoio à comunidade gay
Muitos já devem ter visto, mas nunca é demais reforçar a importância e relevância desse importante passo pastoral! Como tão bem colocou um grande amigo nosso, unimo-nos, na alegria e na esperança, a todos e todas que lutam por uma sociedade mais justa, humana e fraterna, onde as diferenças sejam respeitadas, e o Reino de Deus seja realidade neste mundo. Parabéns à Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo! Parabéns ao Grupo de Ação Pastoral da Diversidade - São Paulo, pois os frutos do trabalho de vocês já podem ser vistos, e são alegria e verdade aos nossos olhos!
Veja mais no Estadão e no Superpride
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domingo, 27 de abril de 2014
Comungar em outra paróquia
Já imaginou escrever uma carta para o papa e, meses depois, receber um telefonema dele em pessoa e, para completar, ser autorizado a fazer algo que a Igreja tradicionalmente não permite? Isso teria acontecido com a argentina Jaqueline Lisbona, uma mulher casada com um homem divorciado que escreveu para o papa Francisco para dizer que havia sido impedida de comungar e mesmo de confessar pelo padre de sua paróquia.
"Existem padres que são mais papistas do que o papa", teria dito Francisco a Jaqueline, segundo relatos dela própria em entrevista à rádio argentina La Red Am910. "Ele me disse para ir comungar em outra paróquia."
O suposto telefonema do papa repercutiu fortemente na Argentina e foi noticiado pelo site Vatican Insider, do grupo italiano La Stampa, especializado em cobrir a Igreja Católica.
Lisbona contou ser casada com Julio Sabetta há 19 anos apenas no civil, por ele ser divorciado. O casal tem duas filhas. Ainda assim, a argentina teria tido a comunhão recusada pelo padre local, assim como também não teria podido fazer sua confissão. "(Ele me disse que) quando eu retornasse para casa, retomaria uma vida de pecado", conta.
A mulher decidiu então escrever para seu compatriota Jorge Mario Bergoglio, o cardeal argentino que se tornara papa havia alguns meses. "Escrevi a carta espontaneamente porque ele é argentino, ouve as pessoas e porque eu acredito em milagres", disse à rádio.
De acordo com o relato, a carta foi enviada em setembro de 2013 e, na última segunda-feira (21), o telefone teria tocado na casa do casal. "O telefone tocou, meu marido atendeu e a pessoa (do outro lado da linha) pediu para falar comigo. 'Quem fala?', ele perguntou e a voz respondeu 'Fr. Bergoglio'. Meu marido perguntou se era realmente ele, o Papa, e ele disse que sim e que estava telefonando em resposta à carta datada de setembro", contou.
O marido Julio Sabetta relatou o telefonema do papa em sua conta no Facebook:
Segundo Jaqueline, o papa teria dito que "estaria lidando com a questão" do casamento de divorciados, um dos temas que podem vir a ser tratados no Sínodo dos Bispos ainda em 2014 e em 2015. "Ele disse que a minha carta fora útil para ajudá-lo a refletir sobre o assunto", completou.
"Ele agiu de forma absolutamente normal no telefone e eu fique muito emocionada de falar com o papa Francisco. Disse que voltaria a escrever depois que comungasse novamente", contou Lisbona.
De acordo com o site Vatican Insider, a assessoria de imprensa do Vaticano não confirmou nem negou o telefonema. Apenas disse não comentar sobre conversas privadas do papa.
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Uma súplica ao papa Francisco em nome da juventude LGBT
Uma súplica necessária - ainda que não dependa apenas do Papa, mas das vozes de todos nós.
Vossa Santidade,
Escrevo a Vossa Santidade como católico, ex-monge beneditino e homem gay que passou 30 anos servindo aos sem-teto, primeiro como integrante do Movimento do Trabalhador Católico e agora como fundador e diretor executivo do Centro Ali Forney, o maior centro americano para jovens sem-teto lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT), com sede em Nova York.
Escrevo em nome dos jovens sem-teto LGBT aos quais sirvo. Peço a vossa Santidade que tome medidas urgentes para protegê-los contra as consequências devastadoras da rejeição religiosa, a razão mais comum pela qual jovens LGBT são expulsos de suas famílias. À base do problema está o fato de que a Igreja ainda ensina que a conduta homossexual é pecado e que ser gay é um transtorno. Espero que Vossa Santidade compreenda como esse ensinamento dilacera famílias e impõe sofrimento a jovens inocentes, que acabe com esse ensinamento e impeça seus bispos de combater a aceitação das pessoas LGBT como membros iguais da sociedade.
Espero que Vossa Santidade abra seu coração ao sofrimento de nossos jovens. Ao mesmo tempo em que jovens LGBT estão encontrando a coragem de falar a verdade que está em seus corações ainda em idade mais nova, números epidêmicos deles estão sendo rejeitados por suas famílias e levados a tornar-se sem-teto. O número de jovens que sofrem esse destino cruel é estarrecedor; no ano passado pelo menos 200 mil jovens LGBT viveram sem teto nos Estados Unidos. Os jovens LGBT compõem 40% da população sem-teto jovem deste país, apesar de comporem apenas cerca de 5% da população jovem total.
Um estudo recente da rejeição familiar constatou que pais com forte envolvimento religioso são significativamente menos tolerante de seus filhos LGBT. Nos últimos dez anos, milhares de jovens LGBT procuraram o Centro Ali Forney em busca de abrigo seguro, vindos de todas as partes de nossa nação e do mundo, relatando terem sido expulsos de suas casas por pais religiosos que os consideravam perversos e pecaminosos. O que esses jovens suportam é horrendo. Eles sofrem o tormento de serem rejeitados e indesejados por seus pais, somados às provações da fome, do frio e da exploração sexual enquanto estão sem teto. Jovens LGBT rejeitados por suas famílias têm probabilidade oito vezes maior de tentar o suicídio que jovens LGBT cujos pais os aceitam.
A Igreja Católica Romana é a maior e mais influente organização cristã do mundo. Ao ensinar que a conduta homossexual é pecado e que a orientação homossexual é um desvio, ela influencia incontáveis pais e famílias em países de todo o mundo, levando-os a rejeitar seus filhos. Em nome desses filhos, e à luz do ensinamento de amor e compaixão que é o cerne da mensagem de Jesus, peço a vossa Santidade que ponha fim a esse ensinamento.
Jesus Cristo nunca disse uma palavra de julgamento ou condenação da homossexualidade ou das pessoas LGBT, segundo suas palavras registradas no Evangelho. Ele falou de um Deus amoroso e misericordioso e ordenou a seus seguidores agir com amor e compaixão. Jesus falou de Deus como um pai amoroso que jamais abandonaria seus filhos.
Há escritos bíblicos que endossam condutas hoje reconhecidas como erradas; trechos que endossam o estupro das esposas de inimigos e o assassinato de seus filhos, que endossam a escravidão e até o genocídio. Nenhuma dessas instruções bíblicas é conservada como ensinamento da Igreja, pois elas são reconhecidas como sendo cruéis, imorais e reflexos da ignorância de tempos mais primitivos. Peço a Vossa Santidade que reconheça que a condenação da homossexualidade também é cruel e errada, sendo originária de um entendimento primitivo e obsoleto da sexualidade humana. Peço que Vossa Santidade se una ao número crescente de comunidades e denominações religiosas que optaram por nos saudar e abraçar com amor e aceitação.
A sabedoria e eficácia de um ensinamento deve ser julgada em parte por seus frutos. O ensinamento de que a conduta homossexual é pecaminosa tem resultados tóxicos, levando muitos pais cristãos a abandonar seus filhos LGBT à miséria e à condição de sem-teto. Como uma semente boa poderia render uma colheita tão amarga?
Para mim, essa tragédia tem muitas faces humanas. Vejo Justin, cuja mãe, antes de expulsá-lo de casa, convocou um padre que o imobilizou no chão e tentou expulsar o demônio do garoto de 16 anos. Ou Terry, que foi enviado a aulas de religião católica em que o instrutor o isolou dos outros alunos, dizendo que era alguém "possuído por demônios". Quando sua mãe o expulsou de casa, disse que preferiria que ele morresse na rua a deixar que ele vivesse na casa dela se fosse gay. Me recordo de Maria, cuja família a levou até uma floresta distante de sua casa e ali a forçou a sair do carro e a abandonou, porque o fato de ser lésbica a fazia ser "perversa". Penso no garoto cujo nome não cheguei a conhecer e cujo pai ficou tão enojado com a homossexualidade dele que expulsou o filho de casa e disse que o mataria e enterraria no quintal se ele tentasse voltar.
Respeito Vossa Santidade profundamente como líder que manifestou profunda preocupação com a situação dos pobres. Convido-o a vir ao Centro Ali Forney para conhecer nossos jovens abandonados e ver com seus próprios olhos como as vidas deles foram devastadas pela rejeição religiosa. Acredito que não exista prova mais convincente do caráter nocivo da condenação da homossexualidade do que o sofrimento consequente, plenamente visível nos olhos de nossos jovens LGBT sem-teto.
Compartilhamos a crença no Deus do amor. Sei em meu íntimo que aquilo que meus jovens sofreram é, em última análise, uma violação do amor. Que a Igreja contribua para essa violação com seus ensinamentos é trágico. Com certeza Deus ama seus filhos mais que os ensinamentos.
Espero que Vossa Santidade aceite meu convite e venha ao Centro Ali Forney para conhecer os jovens aos quais servimos. E espero que possamos encontrar terreno comum, buscando com que eles sejam protegidos e amados.
Sinceramente,
Carl Siciliano
Carl Siciliano
Esta carta foi publicada originalmente no New York Times como anúncio pago pela Mitchell Gold + Bob Williams (em parceria com a Faith in America), que estão festejando o 25º aniversário de sua empresa e conscientizando comunidades em todo o país sobre questões de importância crítica.
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terça-feira, 22 de abril de 2014
Igreja Católica pede desculpas a gays e lésbicas no Uruguai
O arcebispo de Montevidéu, Daniel Sturla, pediu desculpas a todos os LGBT do Uruguai em nome da Igreja Católica.
O religioso se reuniu com representantes arco-íris e pediu perdão pelos crimes cometidos pela Igreja no passado e disse esperar que todos possam viver em paz.
Especificamente, Sturla pediu desculpas por declarações homofóbicas feitas no passado por seu antecessor, Nicolás Cotugno e Jaime Fuentes, bispo da diocese de Minas .
Em 2008, Cotugno disse que os homossexuais são “doentes e devem ir para uma ilha para se curar”. Já Fuentes lançou uma campanha contra o casamento gay, que acabou sendo legalizado no país, em 2013.
“Em nenhum momento Sturla usou termos tradicionais homofóbicos que até recentemente eram comuns na instituição, sempre expressou-se com o maior respeito. A reunião era para ter durado meia hora, mas durou duas horas. Sturla reiterou que não teria problemas em autorizar que filhos de casais gays sejam batizados na Igreja”, disse Omar Salsamendi, jornalista e ativista LGBT.
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domingo, 20 de abril de 2014
Feliz Páscoa!
A sua ressurreição de Cristo não é algo do passado; contém uma força de vida que penetrou o mundo. Onde parecia que tudo morreu, voltam a aparecer por todo o lado os rebentos da ressurreição. É uma força sem igual. É verdade que muitas vezes parece que Deus não existe: vemos injustiças, maldades, indiferenças e crueldades que não cedem. Mas também é certo que, no meio da obscuridade, sempre começa a desabrochar algo de novo que, mais cedo ou mais tarde, produz fruto. Num campo arrasado, volta a aparecer a vida, tenaz e invencível. Haverá muitas coisas más, mas o bem sempre tende a reaparecer e espalhar-se. Cada dia, no mundo, renasce a beleza, que ressuscita transformada através dos dramas da história. Os valores tendem sempre a reaparecer sob novas formas, e na realidade o ser humano renasceu muitas vezes de situações que pareciam irreversíveis. Esta é a força da ressurreição, e cada evangelizador é um instrumento deste dinamismo (Papa Francisco, A Alegria do Evangelho, nº276).
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sexta-feira, 18 de abril de 2014
Sexta Feira Santa
Negligência do prefeito interrompe ato litúrgico de mais de 40 anos
Manifestantes acampam da porta da Catedral e Arquidiocese cancela programação da Sexta-Feira Santa
Jornal do Brasil
A negligência do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, em negociar com os ex-moradores do prédio da Oi, no Engenho Novo, interrompeu um ato litúrgico que o mundo inteiro celebra nesta sexta-feira (18). Faz parte da programação da Igreja Católica realizar uma Solene Função Litúrgica comemorativa da Paixão e Morte de Cristo. No no Rio de Janeiro, ela seria realizada às 15h, na Catedral de São Sebastião, pelo Cardeal Dom Orani. A arquidiocese do Rio, no entanto, por questões de segurança, precisou cancelar a solenidade e também os eventos que viriam em seguida - Procissão do Senhor Morto e Auto da Paixão. Durante a madrugada desta sexta, cerca de 95 desabrigados que acampavam em frente à Prefeitura foram expulsos do local por agentes da Polícia Militar e da Guarda Municipal, e se encaminharam à Catedral.
"A liturgia foi cancelada. A igreja foi fechada porque os invasores da fábrica da Oi acamparam na porta da igreja, pedindo abrigo. O padre cancelou tudo, também não vai ter o Auto da Paixão. Já estava tudo programado, já tinha marcado todo o ensaio, não tem como fazer em outro lugar", explica a Associação Cultural da Arquidiocese, que promove o Auto da Paixão.
Os manifestantes acamparam na porta da catedral para solicitar apoio das autoridades eclesiásticas nas negociações com a Prefeitura por moradia. A Arquidiocese comentou que lamenta a situação dos desabrigados e que faria esforços para servir de ponte na negociação, principalmente pelas crianças acampadas. O arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta, teria se oferecido como mediador do conflito. No começo da noite, por volta das 18h, um Major da PM entrou na Catedral para conversar com a Arquidiocese. Até o fechamento dessa reportagem ainda não havia uma posição sobre o conteúdo da conversa.
Na Sexta-Feira da Paixão, não se celebra Missa nas igrejas do mundo todo, mas, sim, a Solene Função Litúrgica comemorativa da Paixão e Morte de Jesus Cristo. Esta teria três partes, liturgia da palavra, adoração da Cruz e comunhão eucarística. Após a cerimônia, seria realizada a tradicional visita à imagem do Senhor Morto, até as 18h, quando sairia da Catedral a procissão do Senhor Morto. Com a participação de Dom Orani, imagens seriam levadas pelas ruas tradicionais do Centro do Rio até a Lapa, para voltar à Catedral e encenar, pelo 35° ano consecutivo, o Auto da Paixão de Cristo, ocasião em que o cardeal ofereceria uma mensagem aos carioca e turistas.
Repercussão entre fiéis
Repercussão entre fiéis
Fiéis, que se programaram para assistir a Solene Função Litúrgica, chegaram à Catedral e foram surpreendidos com as portas fechadas. Dezenove pessoas da família de Angela Cardoso vieram de Marcelândia, no Mato Grosso. "Estamos decepcionados. Eu já conheço a Igreja, mas eles não. Queria poder dividir esse momento com a minha família", lamenta Angela.
Fiéis, que se programaram para assistir a Solene Função Litúrgica, chegaram à Catedral e foram surpreendidos com as portas fechadas. Dezenove pessoas da família de Angela Cardoso vieram de Marcelândia, no Mato Grosso. "Estamos decepcionados. Eu já conheço a Igreja, mas eles não. Queria poder dividir esse momento com a minha família", lamenta Angela.
Para Antônio José Neto, a tristeza é substituída pelo que ele chama de "uma causa justa". Ele diz: "Eu lamento, mas sei que é uma causa justa. Para mim, não houve invasão, houve um pedido desesperado de socorro, que a Igreja acolheu. Nós viemos para participar dessa celebração, mas faz parte da vida. Não vou ser menos abençoado por isso".
Ana Luiza e Gabriela são irmãs e participaram da Jornada Mundial da Juventude. Elas contam que haviam programado um encontro com um grupo de jovens que também estava na Jornada. "Não sabemos como vamos fazer para encontrar com eles, mas estamos pensando em ficar aqui e participar da celebração que vai ter no estacionamento", disse Ana Luiza. A irmã completa: "O que importa é lembrar esse momento e o real significado da Páscoa. Cristo morreu e ressuscitou, por mim, por eles e por todos nós".
Ana Luiza e Gabriela são irmãs e participaram da Jornada Mundial da Juventude. Elas contam que haviam programado um encontro com um grupo de jovens que também estava na Jornada. "Não sabemos como vamos fazer para encontrar com eles, mas estamos pensando em ficar aqui e participar da celebração que vai ter no estacionamento", disse Ana Luiza. A irmã completa: "O que importa é lembrar esse momento e o real significado da Páscoa. Cristo morreu e ressuscitou, por mim, por eles e por todos nós".
Celebração com os desabrigados
Celebração com os desabrigados
A situação dos ex-moradores do prédio da Oi mobilizou membros da Igreja Católica. Um culto ecumênico, organizado às pressas, reuniu católicos, evangélicos e desabrigados no estacionamento da Catedral, por volta das 15h. Cerca de 30 pessoas entoaram hinos, leram trechos da Bíblia e fizeram orações. Às 18h, foi realizado outro ato, com orações e hinos.
A situação dos ex-moradores do prédio da Oi mobilizou membros da Igreja Católica. Um culto ecumênico, organizado às pressas, reuniu católicos, evangélicos e desabrigados no estacionamento da Catedral, por volta das 15h. Cerca de 30 pessoas entoaram hinos, leram trechos da Bíblia e fizeram orações. Às 18h, foi realizado outro ato, com orações e hinos.
Durante o ato houve um princípio de tumulto quando o repórter de uma emissora de televisão, que foi impedido pelos desabrigados de entrar no estacionamento, se exaltou. Em uma discussão acalorada, ele provocou o grupo: "um monte de sem terra aí, um monte de sem teto". Revoltados, os desabrigados responderam gritando e jogando água em direção ao repórter. A Polícia, que estava próxima ao local, filmou a ação. Outros integrantes do grupo que ocupa a Catedral apaziguaram a discussão, pedindo para que as ofensas e provocações não fossem respondidas.
Durante o ato houve um princípio de tumulto quando o repórter de uma emissora de televisão, que foi impedido pelos desabrigados de entrar no estacionamento, se exaltou. Em uma discussão acalorada, ele provocou o grupo: "um monte de sem terra aí, um monte de sem teto". Revoltados, os desabrigados responderam gritando e jogando água em direção ao repórter. A Polícia, que estava próxima ao local, filmou a ação. Outros integrantes do grupo que ocupa a Catedral apaziguaram a discussão, pedindo para que as ofensas e provocações não fossem respondidas.
Para Luiz Augusto, Ministro da Sagrada Comunhão, a celebração foi uma forma "prática" de propagar o evangelho. "Eu não gosto de tumulto na rua, nunca participei de greve e nem nada disso, mas quando o ser humano está sendo ameaçado na sua integridade, o meu papel de cristão fala mais alto", explica. Luiz participou na celebração do culto e levou uma palavra de conforto para os desabrigados. "A gente acredita que fé é vida, então, estar aqui hoje realmente é a Via Sacra. Hoje nós estamos vivendo a Via Sacra atualizada", define a Coordenadora da Caridade Social, Aurea Gesler.
Para Luiz Augusto, Ministro da Sagrada Comunhão, a celebração foi uma forma "prática" de propagar o evangelho. "Eu não gosto de tumulto na rua, nunca participei de greve e nem nada disso, mas quando o ser humano está sendo ameaçado na sua integridade, o meu papel de cristão fala mais alto", explica. Luiz participou na celebração do culto e levou uma palavra de conforto para os desabrigados. "A gente acredita que fé é vida, então, estar aqui hoje realmente é a Via Sacra. Hoje nós estamos vivendo a Via Sacra atualizada", define a Coordenadora da Caridade Social, Aurea Gesler.
O Ministro de Louvor, Yan Piorno, tocou violão para o grupo que se reuniu a fim de celebrar a Páscoa. "Na verdade, esse é exatamente o público que deveria entrar na Igreja, que são os menos favorecidos. Então, nós viemos aqui dar assistência. A Prefeitura disse que está vendo um abrigo para eles, mas a gente sabe que isso pode não proceder. Há muito tempo que esse pessoal está na chuva, está na rua e até agora a Prefeitura não fez alguma coisa. Eu não vi coerência de eu estar em outra Igreja celebrando a Paixão de Cristo e essas pessoas estarem aqui, então, essa foi a minha Paixão de Cristo", diz.
O Ministro de Louvor, Yan Piorno, tocou violão para o grupo que se reuniu a fim de celebrar a Páscoa. "Na verdade, esse é exatamente o público que deveria entrar na Igreja, que são os menos favorecidos. Então, nós viemos aqui dar assistência. A Prefeitura disse que está vendo um abrigo para eles, mas a gente sabe que isso pode não proceder. Há muito tempo que esse pessoal está na chuva, está na rua e até agora a Prefeitura não fez alguma coisa. Eu não vi coerência de eu estar em outra Igreja celebrando a Paixão de Cristo e essas pessoas estarem aqui, então, essa foi a minha Paixão de Cristo", diz.
Sexta Feira Santa
JESUS, O MAIOR DEFENSOR DOS DIREITOS HUMANOS DE TODOS OS TEMPOS!
"Eu vim para os perdidos", respondeu Jesus quando questionado sobre o fato de andar na companhia de marginais e excluídos. Tweet
Sexta Feira Santa
"Mas ele foi trespassado por causa das nossas trangressões, esmagado em virtude das nossas iniquidades. O castigo que havia de trazer-nos a paz, caiu sobre ele, sim, por suas feridas fomos curados." ( Is. 53, 5).
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domingo, 13 de abril de 2014
Domingo de Ramos
Hoje, Domingo de Ramos, ao adentrar as portas da igreja, todo nós, exultantes, com os ramos de oliveira e as palmas, daremos um duplo testemunho acerca do Senhor: pelos ramos de oliveira confessaremos o Messias, o Ungido, já que é da oliveira que sai o azeite para a unção; e ao recebê-lo com as palmas da vitória, daremos testemunho de seu triunfo sobre a morte, porque teremos compreendido o significado de seu último sinal que foi o Despertar de Lázaro.
Através destes dois pórticos entraremos na Semana Santa e este curto tempo que vamos viver estará marcado por acontecimentos misteriosos, muitas vezes, aparentemente contraditórios, pouco claro para a nossa mente “pragmática” e “realista”. Se estivermos atentos, isto será uma constante na semana que iniciaremos.
Se olharmos atentamente para o Senhor, veremos no Evangelho deste Domingo de Ramos que o Senhor avança e entra triunfalmente em Jerusalém e é recebido como um rei vitorioso. Não obstante, montado num jumento, se apresenta como um soberano humilde, não-violento. E isto já nos adverte que seu reino não é deste mundo (Jo 18,36).
Jesus recebe silencioso todas estas aclamações do povo e, ante a curiosidade de alguns gregos que querem vê-lo, diz umas palavras que, até mesmo para os discípulos mais próximos são, no mínimo, enigmáticas.
É chegada a hora em que o Filho do Homem será glorificado. Amém! Amém! Digo-vos: se o grão de trigo caído na terra não morre, fica só; mas se morre, dá muito fruto. Jo 12, 23-24.
Seus discípulos, certamente se perguntariam: Como pode ser que o Senhor, que acaba de ressuscitar Lázaro, e que hoje é aclamado pela maioria do povo de Israel, nos diga agora que sua glorificação consiste em que morrerá como um grão de trigo?
É que neste curto espaço de tempo de uma semana, momento em que vamos nos submergir no Mistério de nossa Salvação, tudo será renovado.
A morte vai adquirir um novo significado, será uma morte frutífera; Deus será glorificado por sua morte porque irá transformá-la numa passagem luminosa para a Ressurreição. Porém, esta transformação o Senhor a realizará atravessando a dor, as trevas e a solidão que a morte contém em suas entranhas.
Todas as palavras que o Senhor dirige à multidão são pouco compreensíveis. Como pode ser que um dos elementos mais repulsivos da época, o elemento de tortura por excelência que utilizavam os romanos, a cruz, seja transformado pelo Senhor, com sua presença, num pólo de atração para Ele? (...)
Quiçá, como diz Martín Buber falando dos profetas, porque as realidades significativas se realizam mais na profundidade do fracasso que na superficialidade do êxito. O êxito é efêmero, passageiro, porém, no fracasso nossa consciência fica perturbada para sempre.
Quem se recorda dos que mataram os profetas e o Cristo?
Então, com um novo olhar, estes acontecimentos nos podem ser iluminados.
Nas palavras finais do Evangelho do Domingo de Ramos, o Senhor vai se distanciando lentamente da multidão até ocultar-se dela. A sua vida pública vai chegando ao seu fim. A hora da glória só será compartilhada na intimidade por alguns poucos. Veremos que a maioria dos que hoje o recebem como rei, pedirão que seja crucificado. O aparente êxito de hoje, será transformado no aparente fracasso dos dias que virão.
Por isso, tudo pode ser novo nesta semana que começa se não abandonamos o Senhor porque, é a partir de suas ações, e não de nossos pensamentos, que cada coisa terá um novo olhar.
Pois bem, se o novo nos dá medo, se todo o edifício que temos cuidadosamente construído por pensamentos e conceitos se nos desmorona ante os acontecimentos que vamos contemplar, como poderemos participar deste tempo da Paixão sem perigo para as nossas almas, como dirá o diácono nos ofícios desta Semana?
A resposta é bastante simples, porém, não simplória: responder à proposta que o Senhor nos faz no Evangelho: Se alguém me serve, siga-me, e onde eu estiver, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, meu Pai o honrará. (Jo 12, 26).
Seguir o Senhor para estar com Ele, para servi-Lo, fazer um silêncio profundo sobre nossas necessidades, sobre nossos pensamentos, sobre nossos sentimentos, sobre nossas opiniões. Estar atentos aos acontecimentos sem a interferência de nosso eu, sequer para tentar compreender. Silêncio receptivo: somente a ação de Deus, seus atos, suas palavras, seu silêncio. Podemos repetir ao longo destes dias uma pequena oração “Não eu, Senhor, senão Tu”.
E, ao mesmo tempo, com o olhar posto somente n’Ele, pedir-Lhe que nos revele as traições, as negações, a covardia e a indiferença que guardamos em nosso coração, defesas que impedem sua presença redentora em nós.
Quiçá então, ao final deste curto percurso, animemo-nos a recorrer, algo se faça novo em nós, e comece nosso caminho rumo a verdadeira conversão.
O Domingo de Ramos, o Senhor entra em Jerusalém e nos convida para que O sigamos. Pressentindo já a glória da Ressurreição, abraçamos a todos vocês, amigos e fiéis, com o santo ósculo da Páscoa que faz passar por nós o sopro da Vida nova. Que as portas da igreja, que abrimos hoje solenemente na liturgia, sejam simbolicamente as portas de nosso coração aberto e vulnerável, orientado unicamente, neste tempo de uma semana, para a realização do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Tweet
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