terça-feira, 4 de setembro de 2012

O dia em que suspendemos nosso julgamento


Rosh Hashana é a experiência coletiva da passagem do tempo e Yom Kipur é o dia que procuramos entender o que esta passagem significa para cada um.

Rosh Hashana é sobre o destino, pois o tempo não para, enquanto Yom Kipur é sobre a liberdade, a possibilidade de exercermos a nossa capacidade de julgar, e de não julgar.

A passagem do tempo, apesar do que ele nos traz de perdas e sofrimento, nos abre a possibilidade de aprender coisas novas e expandir nossos sentimentos, essencial para suportar nossas limitações e criar um mundo melhor para nós mesmos e para os outros.

Somos privilegiados por vivermos uma situação sem penúria materiais que nos possibilita múltiplas formas de enriquecer nossa percepção do universo: viajando, lendo, amando, comendo coisas gostosas, conhecendo pessoas, ouvindo musica ou olhando uma obra de arte. Mas todas elas são extremamente limitadas se permanecemos fechados dentro de marcos estreitos de julgamento de nós mesmos e dos outros.

Pois quem julga de forma estreita mal enxerga a si mesmo, pensa que possui a verdade e exclui a possibilidade de outras formas de percepção da realidade.

Na tradição talmúdica o Yom Kipur é o dia em que Deus julga as pessoas, mas para os humanos que não temos contato com os desígnios divinos, como diz o significado da palavra Kipur, é um dia de reparação e reconciliação.

Reparação e reconciliação somente são possíveis se deixamos de julgar. Yom Kipur é, portanto, o dia em que suspendemos nosso julgamento.

Pois nada é mais opressivo do que depender do julgamento do outro.
E nada nos produz mais sofrimento que o julgamento sobre nós mesmos.
Julgar é sempre uma forma de querer que o outro seja igual a nos, e que nos atinjamos um ideal irrealizável.

Julgar sem antes compreender é a forma mais grave de ignorância, pois, ao ignorar o outro, ficamos fechados no nosso pequeno mundo.

Julgar sem antes refletir é medo de que outro nos mostre aspectos que nos deixam inseguros em relação a nos mesmos.

Yom Kipur é o dia que lembramos que muitas vezes julgamos não em função de valores de justiça, mas porque nos desagrada que o outro seja diferente a nos.

• É o dia em que jejuar significa desintoxicar-se de nossos julgamentos apressados.
• É o dia em que não precisamos perdoar, pois deixamos de julgar.
• É o dia em que não há expiação, pois não há culpa.
• É o dia em que não nos deixamos oprimir pela obsessão de dividir entre o certo e o errado e procuramos compreender.
• É o dia em que deixamos de culpar e nos culpar para termos mais compaixão conosco e com os que são diferentes a nós.
• É o dia em que não nos fechamos em sistemas rígidos que são sempre narcisistas e reconhecemos que vivemos numa zona cinza, porque nossos sentimentos são complexos e o ser humano é finito.
• É o dia em que aceitamos que não somos onipotentes e devemos fazer escolhas frágeis entre valores, interesses e afetos conflitantes.
• É o dia em que não há atos certos ou errados, mas só afirmação de melhorar nossa vida e a dos outros.
• É o dia em que podemos perdoar e nos perdoar porque paramos de julgar.

Porque a passagem do tempo nos permite amar e aprender, e ambos são o maior dom da vida, agradecemos:

Shehechyanu, ve´quimanau ve’higuianu lazman haze
Que vivemos, que existimos, que chegamos, a este momento.

- Bernardo Sorj, via Amai-vos

Enquanto adornas o templo, não desprezes o irmão que sofre


Por ocasião da morte de Carlo Maria Martini, sj (que noticiamos aqui), no último 31 de agosto, um de nossos membros compartilhou com o grupo o texto abaixo, das Homilias sobre Mateus, de São João Crisóstomo, bispo (Hom. 50,3-4: PG 58,508-509 - séc. IV):

Queres honrar o corpo de Cristo? Não o desprezes quando nu; não o honres aqui com vestes de seda e abandones fora no frio e na nudez o aflito. Pois aquele que disse: Isto é o meu corpo (Mt 26,26) e confirmou com o ato a palavra, é o mesmo que falou: Tu me viste faminto e não me alimentaste (cf. Mt 25,35); e: O que não fizeste a um destes mais pequeninos, não o fizeste a mim (cf. Mt 25,45). Este não tem necessidade de vestes, mas de corações puros, aquele, porém, precisa de grande cuidado.

Aprendamos, portanto, a raciocinar e a reverenciar a Cristo como lhe agrada. A honra mais agradável a quem se deseja honrar é aquela que ele prefere, não aquela que julgamos melhor. Pedro, por exemplo, julgava honrá-lo, não permitindo lavar-lhe os pés; mas o que queria não vinha a ser honra, mas exatamente o contrário. Assim, honra-o tu com a honra prescrita em lei, distribuindo tua fortuna com os pobres. Deus não precisa de vasos de ouro, mas de almas de ouro.

Digo isto, não para proibir que haja dádivas, mas que com elas e antes delas se dêem esmolas. Porque ele aceita aquelas, porém, muito mais estas. Daquelas só quem oferece tem lucro; destas, também aquele que recebe. Lá o dom parece ser ocasião de ostentação; aqui só pode ser compaixão e benignidade.

Que proveito haveria, se a mesa de Cristo está coberta de taças de ouro e ele próprio morre de fome? Sacia primeiro o faminto e, depois, do que sobrar, adorna sua mesa. Fazes um cálice de ouro e não dás um copo de água? Que necessidade há de cobrir a mesa com véus tecidos de ouro, se não lhe concederes nem mesmo a coberta necessária? Que lucro haverá? Dize-me: se vês alguém que precisa de alimento e, deixando-o lá, vais rodear a mesa, de ouro, será que te agradecerá ou, ao contrário, se indignará? Que acontecerá se ao vê-lo coberto de andrajos e morto de frio, deixando de dar as vestes, mandas levantar colunas douradas, declarando fazê-lo em sua honra? Não se julgaria isto objeto de zombaria e extrema afronta?

Pensa também isto a respeito de Cristo, quando errante e peregrino vagueia sem teto. Não o recebes como hóspede, mas ornas o pavimento, as paredes e os capitéis das colunas, prendes com cadeias de prata as lâmpadas, e a ele, preso em grilhões no cárcere, nem sequer te atreves a vê-lo. Torno a dizer que não proíbo tais adornos, mas que com eles haja também cuidado pelos outros. Ou melhor, exorto a que se faça isto em primeiro lugar. Daquilo, se alguém não o faz, jamais é acusado; isto porém, se alguém o negligencia, provoca-lhe a geena e fogo inextinguível, suplício com os demônios. Por conseguinte, enquanto adornas a casa, não desprezes o irmão aflito, pois ele é mais precioso que o templo.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

10 argumentos a respeito da homossexualidade

O reverendo Jim Rigby é pastor da Igreja Presbiteriana de Santo André em Austin, Texas, e um ativista de longa data dos movimentos sociais e de uma maior justiça econômica. Ele defende os direitos dos negros, gays e de diversas minorias.

Abaixo ele escreveu dez argumentos que gostaria que os cristãos entendessem sobre a homossexualidade:


Fonte: Blogay

A dimensão do profundo: o espírito e a espiritualidade


"Tudo que acontece carrega, existencialmente, um caráter simbólico, ou podemos dizer até sacramental. Já observava finamente Goethe:”tudo o que é passageiro não é senão um sinal” (Alles Vergängliche ist nur ein Zeichen”). É da natureza do sinal-sacramento tornar presente um sentido maior, transcendente, realizá-lo na pessoa e faze-lo objeto de experiência. Neste sentido, todo evento nos relembra aquilo que vivenciamos e nutre nossa profundidade", escreve Leonardo Boff, filósofo, teólogo e escritor.

Segundo o teólogo, "Blaise Pascal que além de genial matemático era também místico, disse incisivamente; “é o coração que sente Deus, não a razão”. Este tipo de experiência transfigura tudo. Tudo se torna permeado de veneração e unção".

Eis o artigo, aqui reproduzido via IHU.


O ser humano não possui apenas exterioridade que é sua expressão corporal. Nem só interioriadade que é seu universo psíquico interior. Ele vem dotado também de profundidade que é sua dimensão espiritual.

O espírito não é uma parte do ser humano ao lado de outras. É o ser humano inteiro que por sua consciência se percebe partencendo ao Todo e como porção integrante dele. Pelo espírito temos a capacidade de ir além das meras aparências, do que vemos, escutamos, pensamos e amamos. Podemos apreender o outro lado das coisas, o seu profundo. As coisas não são apenas ‘coisas’. O espírito capta nelas símbolos e metáforas de uma outra realidade, presente nelas mas que não está circunscrita a elas, pois as desborda por todos os lados. Elas recordam, apontam e remetem à outra dimensão a que chamamos de profundidade.

Assim, uma montanha não é apenas uma montanha. Pelo fato de ser montanha, transmite o sentido da majestade. O mar evoca a grandiosidade, o céu estrelado, a imensidão, os vincos profundos do rosto de um ancião, à dura luta da vida e os olhos brilhantes de uma criança, o mistério da vida.

É próprio do ser humano, portador de espírito, perceber valores e significados e não apenas elencar fatos e ações. Com efeito, o que realmente conta para as pessoas, não são tanto as coisas que lhes acontecem mas o que elas significam para suas vidas e que tipo de experiências marcantes lhes proporcionaram.

Tudo que acontece carrega, existencialmente, um caráter simbólico, ou podemos dizer até sacramental. Já observava finamente Goethe:”tudo o que é passageiro não é senão um sinal” (Alles Vergängliche ist nur ein Zeichen”). É da natureza do sinal-sacramento tornar presente um sentido maior, transcendente, realizá-lo na pessoa e faze-lo objeto de experiência. Neste sentido, todo evento nos relembra aquilo que vivenciamos e nutre nossa profundidade.

É por isso que enchemos nossos lares com fotos e objetos amados de nossos pais, avós, familiares e amigos; de todos aqueles que entram em nossas vidas e que tem significado para nós. Pode ser a última camisa usada pelo pai que morreu de um enfarte fulminante com apenas 54 anos, o pente de madeira da avó querida que faleceu já há anos ou a folha seca dentro de um livro, enviada pelo namorado cheio de saudades. Estas coisas não são apenas objetos; são sacramentos que nos falam para o nosso profundo, nos lembram pessoas amadas ou acontecimentos significativos para nossas vidas

O espírito nos permite fazer uma experiência de não-dualidade, tão bem descrita pelo zenbudismo. “Você é o mundo, é o todo” dizem os Upanishads da Índia enquanto o guru aponta para o universo. Ou “Você é tudo” como muitos yogis dizem. O Reino de Deus (Malkuta d’Alaha ou ‘os Princípios Guias do Todo) estão dentro de vós” proclamou Jesus. Estas afirmações nos remetem a uma experiência viva ao invés de uma simples doutrina.

A experiência de base é que estamos ligados e religados (a raiz da palavra ‘religião’) uns aos outros e todos com a Fonte Originária. Um fio de energia, de vida e de sentido passa por todos os seres tornando-os um cosmos ao invés de caos, uma sinfonia ao invés de cacofonia. Blaise Pascal que além de genial matemático era também místico, disse incisivamente; “é o coração que sente Deus, não a razão” (Pensées, frag. 277). Este tipo de experiência transfigura tudo. Tudo se torna permeado de veneração e unção.

As religiões vivem desta experiência espiritual. Elas são posteriores a ela. Articulam-na em doutrinas, ritos, celebrações e caminhos éticos e espirituais. Sua função primordial é criar e oferecer as condições necessárias para permitir a todas as pessoas e comunidades de mergulharem na realidade divina e atingir uma experiência pessoal do Espírito Criador. Infelizmente muitas delas se tornaram doentes de fundamentalismo e de doutrinalismo que dificultam a experiência espiritual.

Esta experiência, precisamente por ser experiência e não doutrina, irradia serenidade e profunda paz, acompanhada pela ausência do medo. Sentimo-nos amados, abraçados e acolhidos pelo Seio Divino. O que nos acontece, acontece no seu amor. Mesmo a morte não nos mete medo; é assumida como parte da vida, como o grande momento alquímico da transformação que nos permite estar verdadeiramente no Todo, no coração de Deus. Precisamos passar pela morte para viver mais e melhor

domingo, 2 de setembro de 2012

Mas o que amo, amando-te?


“Mas o que amo, amando-Te? Não uma beleza corpórea, não uma graça transitória, não um fulgor como o da luz, que agrada a estes olhos, não doces melodias de cantos de todo tipo, não o suave perfume de flores, de unguentos e de aromas, não o maná e o mel, não membros joviais ao abraço carnal. Não são essas coisas que amo, amando o meu Deus. E, no entanto, por assim dizer, amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento e um abraço quando amo o meu Deus: luz, voz, perfume, alimento e abraço do homem interior que está em mim, onde resplandece em minha alma uma luz que não se dissipa no lugar, onde ressoa uma voz que o tempo não rouba, onde exala um perfume que o vento não dispersa, onde provo um sabor que a voracidade não reduz, onde me aperta um abraço que a saciedade nunca dissolve. É isso o que eu amo quando amo o meu Deus.”

- Santo Agostinho

(Fonte aqui)

Uma Palavra que se torna ação


O que quer dizer praticar a fé? Será que é primeiramente ir à missa no domingo? Será fazer preces e devoções? Não! Praticar a própria fé é ajudar aos desprovidos, é acolher os excluídos, é partilhar com os pobres.

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da arquidiocese de Quebec, Canadá, publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 22° Domingo do Tempo Comum (2 de setembro de 2012). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Referências bíblicas:
1ª leitura: Dt 4,1-2.6-8
2ª leitura: Jc 1,17-18.21.22.27
Evangelho: Tiago 7,1-8.14-15.21-23

Após a incursão sobre o discurso do Pão da Vida no evangelho de João, voltamos a São Marcos, o evangelista do ano B, que nos convida a refletir sobre o rosto de Deus traçado pelo Cristo da Páscoa. Nós devemos ouvir a Palavra, escutá-la atentamente, interpretá-la e atualizá-la a fim de nos alimentarmos para levá-la à prática. A Palavra deve se tornar Ação, Agir; caso negativo, ela é inútil. Infelizmente, como acontece frequentemente no caso da liturgia, foram cortados os versículos mais importantes do evangelho e da segunda leitura de hoje. São versículos que ilustram muito bem as mensagens que os autores quiseram entregar às suas comunidades.

Que rosto de Deus se desenha através da Palavra deste domingo? Um Deus que quer uma resposta livre da nossa parte, e não uma submissão alienante às regras e às doutrinas de Igreja. O exegeta Gérard Sindt escreve: “O nosso Deus é um Deus que quer homens livres e não escravos, que espera uma resposta filial e não uma submissão alienante. Não é a estrita observância de preceitos duvidáveis o que honra Deus, mas a fidelidade ao mandamento único: Amarás!”

1. Religião/Fé: O padre francês François Varone dizia que sempre devemos passar da religião à fé. Por quê? Porque a religião acaba afogando a fé até fazê-la morrer. Mas existe oposição entre os dois ou há complementaridade? O padre francês Léon Paillot escreve: “Religião ou fé? Eu creio que Jesus indica prioridades: não temos que colocar a carroça na frente dos bois. Certamente, a fé em estado puro não existe: ela se materializa em atitudes, em sentimentos, em gestos, em decisões. Na Igreja há ritos, devoções, formulações dogmáticas, estruturas que podem variar conforme as épocas e os lugares. Isso é normal. Mas o importante é não colocar essas formas que mudam antes do essencial, que é a fé, pois as formas só estão para encarná-la. O aparelho religioso não é o objetivo, e sim um meio que nos indica a direção para ir até o Outro”.

Se eu entendo bem o evangelho de hoje, o que Cristo denuncia é o fato de colocar a religião por baixo da fé. O que é mais importante? Comer com as mãos sujas por ter trabalhado, ajudado, reconfortado? Ou comer com as mãos limpas por não ter feito nada pelos outros? É verdade que podemos sujar as mãos e lavá-las antes de comer. É evidente! Mas não é essa a questão que Marcos levanta. O que o evangelista quer fazer compreender aos seus leitores é que as regras de pureza se tornaram tão importantes que os fariseus e os escribas não ousam fazer mais nada para não contrair uma impureza. É a regra, a religião e seus ritos que ficam por cima da fé e da prática.

O exemplo que São Marcos dá para ilustrar seu pensamento e que está cortado no lecionário deste domingo é o seguinte: Jesus diz aos fariseus e aos escribas: “Vocês são bastante espertos para deixar de lado o mandamento de Deus a fim de guardar as tradições de vocês’” (Mc 7,9). "Com efeito, Moisés ordenou: ‘Honre seu pai e sua mãe’" (Mc 7,10) (o que significa: ocupa-te deles, caso estejam precisando de ajuda). “Mas vocês ensinam que é lícito a alguém dizer a seu pai e à sua mãe: ‘O sustento que vocês poderiam receber de mim é Corbã, isto é, consagrado a Deus’” (Mc 7,11). “E essa pessoa fica dispensada de ajudar seu pai ou sua mãe” (Mc 7,12). “Assim vocês esvaziam a Palavra de Deus com a tradição que vocês transmitem. E vocês fazem muitas outras coisas como essas“ (Mc 7,13). Não é à toa que o Cristo do evangelho trata os fariseus e os escribas como hipócritas citando o profeta Isaias na versão grega dos Setenta: “Este povo me honra com os lábios, mas o coração deles está longe de mim. Não adianta nada eles me prestarem culto, porque ensinam preceitos humanos’"(Mc 7,6-7).

Ainda hoje não fazemos a mesma coisa na nossa Igreja? Anos atrás, um padre do Opus Dei me disse: “Tu, Raymond, tu és importante na Igreja. Tu acolhes os homossexuais, os divorciados casados novamente e todos os marginalizados... Eu lhe perguntei: Mas por que tu não fazes isso? E ele me respondeu: Eu não posso se eu quero permanecer fiel ao Magistério da Igreja”. Isso é horrível: o pároco está isento do mandamento do Amor, com a bênção das autoridades religiosas porque ele pertence ao Opus Dei. É exatamente o que São Marcos denunciava, no final do primeiro século, na sua comunidade cristã. E que dizer da falta de sacerdotes, hoje, para celebrar a Eucaristia? Prefere-se privar as pessoas desse sacramento a mudar as regras da ordenação sacerdotal. Quando fazemos isso, não estamos colocando a regra antes do essencial? E, finalmente, quando negamos às mulheres a plena igualdade com os homens na Igreja, somos culpados de uma grande injustiça que é, no entanto, corrigida por todas as sociedades civis avançadas. Como se faz para se esconder por detrás de uma tradição no intuito de justificar o injustificável? Afinal, o que é o essencial na fé cristã?

2. O essencial. A partir das leituras que nós temos hoje, há três coisas que são essenciais:

2.1. A liberdade: Deus nos quer livres. Ele está perto de nós; ele faz história conosco. A sua Palavra nos faz viver; ela restabelece a justiça. Não é esse o propósito do autor do livro do Deuteronômio? “De fato, que grande nação tem um Deus tão próximo, como Javé nosso Deus, todas as vezes que o invocamos? Que grande nação tem estatutos e normas tão justas como toda esta lei que eu lhes proponho hoje?” (Dt 4,7).

2.2. A prática: Na segunda leitura de hoje, Tiago nos diz que crer é agir antes que falar. “Por isso, deixem de lado qualquer imundície e sinal de malícia, e recebam com docilidade a Palavra que lhes foi plantada no coração e que pode salvá-los” (Tiago 1,21). Mas não podemos somente escutar a Palavra de Deus que germina em nós, precisamos também colocá-la em prática: “Sejam praticantes da Palavra, e não apenas ouvintes, iludindo a si mesmos“ (Tiago 1,22). O que quer dizer praticar a fé? Será que é primeiramente ir à missa no domingo? Será fazer preces e devoções? Não! Praticar a própria fé é ajudar aos desprovidos, é acolher os excluídos, é partilhar com os pobres: “Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo“ (Tiago 1,27). Quem são as viúvas e os órfãos de hoje?

2.3. O Amor: O Cristo do evangelho de Marcos repreende os fariseus e os escribas por não respeitar o mandamento de Deus, que é o mandamento do Amor. O homem é feito para amar e nada pode impedir-lhe de amar, é frequentemente o que sai dele que é contrário ao Amor: “O que vem de fora e entra numa pessoa não a torna impura; as coisas que saem de dentro da pessoa é que a tornam impura“ (Mc 7,15). Como diz Gérard Sindt: “Vale mais ter as mãos sujas do que não ter mãos!” Isso significa que devemos passar da palavra à ação. O exegeta francês Jean Debruynne acrescenta: “É bem fácil transformar regras em guarda-chuvas”. Isso nos protege dos outros, mas nos impede de intervir para acolher, acompanhar, socorrer, devolver a dignidade e restaurar a justiça para aquelas e aqueles que verdadeiramente precisam. Depois, após ter praticado a nossa fé, nós podemos vir celebrar, com as mãos limpas, o Amor que recebemos e partilhamos.

Para terminar, eu gostaria simplesmente de citar uma palavra do século que vem de Santo Antonio de Pádua: “A palavra é viva quando são as ações que falam. Eu vos peço: que as palavras que calem e que as ações nos falem. Estamos cheios de palavras, mas vazios de ações”.

sábado, 1 de setembro de 2012

A ''dura viela'' da morte, segundo Martini


"A morte nos obriga a confiar totalmente em Deus. O que nos espera depois da morte é um mistério, que requer da nossa parte uma confiança total."

A reflexão é do cardeal italiano Carlo Maria Martini (15 de fevereiro de 1927 - 31 de agosto de 2012), arcebispo emérito de Milão, falecido nessa sexta-feira.

O texto foi publicado no blog Sperare per Tutti, 31-08-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Mais de uma vez eu lamentei com o Senhor pelo fato de que, morrendo, não tirou de nós a necessidade de morrer. Seria tão bonito poder dizer: Jesus também enfrentou a morte em nosso lugar, e, mortos, poderemos ir para o Paraíso por um caminho florido.

Ao invés, Deus quis que passássemos por esta "dura viela" que é a morte e que entrássemos na escuridão que sempre dá um pouco de medo. Eu me pacifiquei novamente com o pensamento de ter que morrer quando compreendi que, sem a morte, nunca chegaríamos a fazer um ato de plena confiança em Deus. De fato, em cada escolha comprometedora, nós sempre temos "saídas de segurança". Ao invés, a morte nos obriga a confiar totalmente em Deus.

O que nos espera depois da morte é um mistério, que requer da nossa parte uma confiança total. Desejamos estar com Jesus, e expressamos esse desejo de olhos fechados, às cegas, colocando-nos totalmente nas suas mãos.

Desejamos também nós gozar daquela paz interior que vence toda ansiedade e se confia a Deus com todo o coração.

A queixa de Deus



A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 7, 1-8.14-15.21-23 que corresponde ao XXII Domingo do Tempo Comum, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Um grupo de fariseus da Galileia se aproxima de Jesus numa atitude crítica. Eles não estão sozinhos. Estão acompanhados de alguns escribas que vieram

de Jerusalém, preocupados sem dúvida em defender a ortodoxia dos simples camponeses das aldeias. A atuação de Jesus é perigosa. É preciso corrigi-la.

Eles observaram que em alguns aspectos os discípulos de Jesus não seguem a tradição dos mais velhos. A pesar de falar do comportamento dos discípulos, sua pergunta dirige-se a Jesus, pois sabem que ele é quem lhes ensinou a viver aquela liberdade surpreendente. Por quê?

Jesus responde com palavras do profeta Isaias que iluminam muito bem sua mensagem e sua atuação. Estas palavras com as quais Jesus se identifica totalmente é preciso que as escutemos com atenção, pois mexem em algo fundamental da nossa religião. Segundo o profeta, esta é a queixa de Deus.

“Este povo me honra com os lábios, mas o coração deles está longe de mim”. Este é sempre o risco de toda religião: dar culto a Deus com os lábios, repetindo fórmulas, recitando salmos, pronunciando palavras bonitas, enquanto nosso coração está longe dele. Porém, o culto que agrada a Deus nasce do coração, da adesão interior, desse centro íntimo da pessoa de onde brotam nossas decisões e projetos.

“O culto que me oferecem está vazio”. Quando nosso coração está longe de Deus, nosso culto fica sem conteúdo. Falta vida, a escuta sincera da Palavra de Deus, o amor ao próximo. A religião se transforma em algo exterior que se pratica por costume, mas onde faltam os frutos de uma vida fiel a Deus.

“A doutrina que ensinam são preceitos humanos”. Em toda religião há tradições que são “humanas”. Normas, costumes, devoções que nasceram para viver a religiosidade de uma cultura determinada. Podem fazer muito bem. Mas fazem machucar muito quando elas nos distraem e afastam da Palavra de Deus. Nunca hão de ter a primazia.

Ao terminar a citação do profeta Isaias, Jesus resume seu pensamento com palavras fortes: “Vocês abandonam o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens”. Quando nos aferramos cegamente às tradições humanas, corremos o risco de esquecer o mandato do amor e desviar-nos do seguimento de Jesus, Palavra encarnada de Deus.

Na religião cristã o primeiro é sempre Jesus e seu chamado para viver o amor. Somente depois estão nossas tradições humanas por mais que nós as achemos muito importantes. Não podemos esquecer nunca o essencial.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O "Novo Pentecostes" da Igreja


"A Igreja Católica se descobriu, segundo a análise do grande teólogo alemão Karl Rahner, como Igreja no mundo, verdadeira “Igreja mundial”, afirma Dr. Margit Eckholt, professora da Universidade Osnabrück e painelista no Congresso Continental de Teologia, a ser realizado nos dias 7 a 11 de outubro, em São Leopoldo, RS.

Eis o artigo, aqui reproduzido via IHU.


O Concílio Vaticano II tem sido chamado um "Novo Pentecostes" para a Igreja Católica, e necessitamos hoje do aggiornamento [atualização] e da memória viva desse "Novo Pentecostes".

O aggiornamento do Concílio se realiza acima de tudo mediante a Constituição Pastoral Gaudium et Spes. Ao compenetrar-se com a situação da humanidade atual, a Igreja se converte numa instância presente no “hoje”.

Em consequência de sua redescoberta da essencial estrutura encarnatória da fé, descobre a presença divina na luta dos humanos, homens e mulheres, no sentido de desenvolver sua humanidade. Isso se condensa em ler os “sinais do tempo” e nos desafia: a paz que está em perigo, o desequilíbrio norte-sul, os problemas da pobreza cada vez mais agudos, o diálogo, necessário mas também desafiador com os demais: as igrejas cristãs e as outras religiões, e também a questão feminina.

A Igreja define sua nova identidade como Igreja no mundo, opondo-se com a força do Evangelho a tudo aquilo que signifique desamor, morte e lesa-humanidade.

A recepção desse aggiornamento se concretizou, na América Latina, sobretudo na Igreja e na teologia: as conferências gerais do Celam a partir de Medellín, o nascimento da Teologia da Libertação, uma igreja que levou a sério a “opção pelos pobres”, também inscrita na constituição Lumen Gentium do Concílio.

A Igreja católica se descobriu, segundo a análise do grande teólogo alemão Karl Rahner, como Igreja no mundo, verdadeira “Igreja mundial”. Ainda hoje a Igreja está no processo desse descobrimento e, por isso, faz falta a memória viva dos caminhos percorridos na América Latina: o tema do Congresso que ocorrerá na Unisinos não somente toca as Igrejas latino-americanas, mas também a Igreja alemã.

Faz falta desenvolver em comum o que significa hoje em dia ser igreja “encarnada” no mundo, signo de reconciliação e respeito ao outro, o que significa ser cristão, ser cristã num mundo fragmentado, pluricultural, onde estão em diálogo, mas onde também se confrontam as diferentes religiões.

Auditora do Concílio, irmã Mary Luke Tobin escreveu: “the council was a door opened wide – too wide to be closed. Renewal has no end. If it is to continue to be life-giving, it must go on and on” [“o concílio foi uma porta amplamente aberta, demasiado aberta para ser fechada. A renovação não tem fim. Se é para continuar a fim de ser doadora de vida, ela deve ir sempre em frente”]. Este também é meu desejo para nosso tempo: uma análise aprofundada dos textos e novos impulsos do Concílio Vaticano II, o que vai ajudar a deixar abertas as portas da Igreja, em seu serviço ao Evangelho, à humanidade e a toda a criação.

A Igreja ganhará reconhecimento numa sociedade global, muito fragmentada e polarizada, abre fronteiras, constrói pontes e está comprometida na luta pela dignidade dos homens e mulheres, pela paz e cuidado de toda a criação.

Novo Pentecostes significa não perder a esperança que o Espírito e a Sabedoria de Deus vão acompanhar a Igreja também hoje, e conduzi-la para o “novo” que nos falta para ser verdadeiramente testemunhos do Reino de Deus em nossa atualidade.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Com todo o coração, acima de todas as coisas: a caridade segundo João Paulo I


Numa palavra: amar significa viajar, correr com o coração para o objeto amado. Diz a Imitação de Cristo: quem ama "currit, volat, laetatur": corre, voa e alegra-se (Imitação de Cristo, 1. III, c. V, n. 4). Amar a Deus é portanto um viajar com o coração para Deus. Viagem belíssima, embora comporte por vezes sacrifícios. Mas estes não nos devem fazer parar. Jesus está na cruz: queres beijá-l'O? Não o podes fazer sem te debruçares sobre a cruz e deixar que te fira algum espinho da coroa, que está na cabeça do Senhor (Cfr. Sales, Oeuvres, Annecy, t. XXI. p. 153). Não podes fazer a figura do bom São Pedro, que foi valente em gritar "Viva Jesus" no monte Tabor, onde havia alegria, mas não deixou sequer que o vissem ao lado de Jesus no monte Calvário, onde havia risco e dor (Ibidem:. t. XV, p. 140). O amor a Deus é também viagem misteriosa: isto é, eu não parto se Deus não toma primeiro a iniciativa. (...)

Com todo o coração. Faço notar, aqui, o adjetivo "todo". O totalitarismo, em política, é feio. Na religião, pelo contrário, um totalitarismo nosso, quanto a Deus, está muitíssimo bem. Foi escrito: Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Estes mandamentos, que hoje te imponho, serão gravados no teu coração. Ensiná-los-ás aos teus filhos e meditá-los-ás quer em tua casa, quer em viagem, quer ao deitar-te ou ao levantar-te. Atá-los-ás, como símbolo, no teu braço, e usá-los-ás como um frontal entre os teus olhos. Escrevê-los-ás sobre os pilares da tua casa e sobre as tuas portas(Deut. 6, 5-9).

Aquele "todo", repetido e levado à prática com tanta insistência, é com toda a verdade a bandeira do maximalismo cristão. E é justo: Deus é demasiado grande, demasiado merece de nós, para que baste deitar-lhe, como a um pobre Lázaro, unicamente algumas migalhas do nosso tempo e do nosso coração. bem infinito e será a nossa felicidade eterna: dinheiro, prazeres e felicidades deste mundo, em comparação com Ele, são apenas fragmentos de bem e momentos fugidios de felicidade. Não seria acertado dar muito de nós a estas coisas e dar pouco a Jesus.

Acima de todas as coisas. Agora entra-se numa comparação direta entre Deus e o homem, entre Deus e o mundo. Não seria justo dizer: "Ou Deus ou o homem". Deve-se amar "não só a Deus mas também o homem"; este último, porém, nunca mais do que Deus ou contra Deus ou tanto como Deus. Por outras palavras: O amor de Deus é certamente dominador, mas não exclusivo. (...)

E por vosso amor amo o meu próximo. Estamos aqui diante de dois amores que são "irmãos gémeos" e inseparáveis. Algumas pessoas é fácil amá-las. Outras, é difícil: não nos são simpáticas, ofenderam-nos e fizeram-nos mal. Só se amo Deus a sério, chego a amá-las a elas, como filhas de Deus e porque Deus mo pede. Jesus fixou também como há de o próximo ser amado: quer dizer, não só com o sentimento, mas com obras. Este é o modo, disse: Perguntar-vos-ei: Tinha fome, e vós destes-me de comer quando assim estava faminto? Visitastes-me quando estava doente? (Cfr. Mt. 25, 34 ss.). O catecismo traduz estas e outras palavras da Bíblia no duplo catálogo das sete obras de misericórdia corporais e sete espirituais. O catálogo não é completo e convinha atualizá-lo. Entre os famintos, por exemplo, hoje não se trata só deste ou aquele indivíduo; são povos inteiros. Todos nos lembramos das notáveis palavras do Papa Paulo VI: "Os povos da fome dirigem-se hoje de modo dramático aos povos da opulência. A Igreja estremece perante este grito de angústia e convida cada um a responder com amor ao apelo do seu irmão" (Populorum Progressio, 3). Neste ponto, à caridade junta-se a justiça, porque — diz ainda Paulo VI — "a propriedade privada não constitui para ninguém um direito incondicional e absoluto. Ninguém tem direito de reservar para seu uso exclusivo aquilo que é supérfluo, quando a outros falta o necessário" (Ibid., 23). Por conseguinte, "torna-se escândalo intolerável... qualquer recurso exagerado aos armamentos" (Ibid., 53).

À luz destas vigorosas expressões vê-se quanto indivíduos e povos estão ainda longe de amar os outros "como a si mesmos", que é mandamento de Jesus.

Outro mandamento: perdôo as ofensas recebidas. A este perdão quase parece que o Senhor dá precedência sobre o culto: Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta (Mt. 5, 23-24).

As últimas palavras da oração são estas: ó Senhor, ame-vos eu cada vez mais. Também aqui há obediência a um mandamento de Deus, que estabeleceu no nosso coração a sede do progresso. Das palafitas, das cavernas e das primeiras cabanas passámos às casas, aos palácios e aos arranha-céus; das viagens a pé, e sobre o dorso de mula ou de camelo, aos carros, aos comboios e aos aviões. E deseja-se progredir ainda com meios cada vez mais rápidos, atingindo metas mais e mais altas: Mas amar a Deus — já o vimos - é também uma viagem: Deus quer que ela seja cada vez mais decidida e perfeita.

- João Paulo I

(Fonte: aqui)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A responsabilidade das católicas latino-americanas

"Nós, mulheres católicas do continente americano, somos conscientes que o fenômeno da pobreza (feminilização da pobreza), o novo 'holocausto ecológico', a violência, a violação aos direitos fundamentais de cada pessoa e tantas outras realidades que afetam discretamente as mulheres, as crianças, as populações indígenas e o meio ambiente, nos mantêm numa situação de escravidão.

Essa realidade nos demanda uma resposta a partir de uma espiritualidade profunda e radical no seguimento de Jesus, capaz de transformar essas realidades. (...)

Há uma urgente necessidade de repensar a espiritualidade a partir do paradigma ecológico e resgatar a tradição dos místicos que desenvolveram uma espiritualidade fundamentada numa teologia da criação. Tal teologia da criação inspira-se na consciência da inabitação trinitária de Deus em todas as realidades do ser humano (homem-mulher) com seu ser de criatura, e não como amo e senhor, pois este conduz a uma lógica de domínio e exploração que impede relações harmônicas de respeito, justiça e reconhecimento da dignidade dos demais seres.

A espiritualidade profética que tem caracterizado a Igreja latino-americana encontra novos modos e paradigmas de expressão em seu caminhar e estes novos caminhos são: uma espiritualidade ética de ecojustiça, a interculturalidade como caminho de diálogo e enriquecimento mútuo das diversas tradições e expressões religiosas, e a inclusão a partir da perspectiva da mulher, entre outros.

Este mundo global, empobrecido e violento, está urgindo por uma espiritualidade ecumênica que una suas forças para responder ao desafio profético cristão que demanda uma mudança de época. A expressão ecumênica da espiritualidade conduzir-nos-á a mantermos a firme esperança de que “outro mundo é possível”. A esperança ativa e comprometida da espiritualidade libertadora evitará cairmos no sem sentido ou no pessimismo apocalíptico próprio da afluência de diversos movimentos espiritualistas."

- Marilú Rojas, doutora em Teologia Sistemática pela Universidade Católica de Lovaina, professora de teologia na Universidade Ibero-Americana em Puebla, México e faz integrande da Associação de Teólogas Itinerantes

(Fonte aqui)

Pastor luterano defende a homoafetividade

Fonte: Facebook

Do Rev. Silvio Meincke, no blog Teologia Inclusiva:

No Dia da Igreja em Colônia, na Alemanha, trabalhei como voluntário e fui hospedado em casa particular. Meus hospedeiros eram gentis e atenciosos. Sua casa revela traços da personalidade dos moradores: gostam da beleza simples e prática, sem sofisticações, com critério na escolha e nada de consumismo exagerado. Percebi grande consciência ecológica na organização da casa, no uso de água e energia, na seleção do lixo ou nos cuidados do pequeno jardim. O modo como meus hospedeiros convivem e se comunicam revela atenção carinhosa, respeito e cuidado mútuos, como acontece entre casais que são felizes e se enriquecem mutuamente.

Meus hospedeiros são dois jovens homoafetivos. Prefiro essa palavra. Homoafetividade. O termo homossexualidade soa-me muito restrito à prática sexual física propriamente dita. Homoafetividade sugere uma relação muito mais ampla: homo-convivência, homo-partilha, homo-cuidado, homo-ternura, homo-realização como ser humano.

Os próprios envolvidos devem decidir sobre o termo que querem usar. Eu vou dizer homoafetividade. Também são eles que devem decidir se querem entender a sua homoafetividade como opção ou como condição.

Eu vou dizer que é uma condição humana, porque os jovens e do ensino confirmatório, da juventude evangélica e das escolas secundárias onde lecionei, quando me procuraram como pastor, sempre vieram desesperados ao descobrirem sua homoafetividade, e nenhum deles ou delas optou por isso. Descobriram-na e sofreram. Não contribuíram em nada para que fossem homoafetivos.

Não resta dúvida que cada grupo humano precisa criar regras de convivência, leis de conduta, normas de orientação, para que a vida em comunidade seja possível. Precisa encontrar consensos, escritos ou não, que possibilitam a vida organizada e feliz dentro do seu território, dentro do seu espaço de habitação - para dizê-lo com uma palavra grega, dentro do seu "étos". O conjunto dos regulamentos, costumes convencionados, consensos escritos ou não formam os valores "éticos" de uma sociedade.

Na medida em que os grupos humanos decidem como querem organizar sua convivência, também decidem como não querem viver. Existe até mesmo certa necessidade de distanciar-se dos que são diferentes, para firmar a própria identidade. Por exemplo, o povo de Israel declarou o porco impuro entre outros motivos para se diferenciar de outros povos que o adoravam como animal sagrado.

Infelizmente, essa necessidade de diferenciar-se acontece não raras vezes à custa de minorias numéricas para as quais se cria uma imagem de inimizade. Tal imagem se agiganta e pode adquirir formas de brutal discriminação, perseguição e eliminação.

Pessoas homoafetivas têm experimentado a discriminação no decorrer da história, às vezes, tornando-se bodes expiatórios para insucessos, fracassos e frustrações de todo um povo. Ainda que as pessoas homoafetivas não prejudiquem em nada a feliz convivência no "étos", a sina da discriminação insiste em persegui-los. Meus hospedeiros, por exemplo, em nada prejudicam a possibilidade de vida boa e feliz dos moradores de Colônia.

Seguidores de Jesus Cristo podem conhecer, nos seus ensinamentos e no seu procedimento, grandes exemplos de acolhimento, inclusão e fraternidade com as minorias discriminadas pela sociedade. Amplos setores das igrejas cristãs assimilaram essa mensagem de Jesus e procuram agir dentro do seu propósito de inclusão.

Tanto mais lamentável se mostra a discriminação praticada por certos grupos dentro das comunidades cristãs - geralmente grupos terrivelmente "fortes na fé" e que, por isso, julgam-se pessoas melhores do que as que não aderiram ao seu grupo. Não estariam esses grupos incorrendo no equívoco de criar bodes expiatórios para os seus próprios medos e preconceitos? Não estariam desconhecendo os propósitos de Jesus, em nome do qual alegam agir? Não estariam caindo no equívoco de George Bush que pretende prescrever a Deus quem são os seus inimigos, para destruí-los, em nome de Deus?

No entanto, os nossos inimigos não são os inimigos de Deus; os que nós consideramos merecedores de discriminação, Deus não os discrimina. Nem mesmo precisamos recorrer a alguma piedosa generosidade - aliás, sempre humilhante - e dizer que aceitamos em nosso meio as pessoas homoafetivas em nome do amor cristão. Melhor é tê-las em nosso meio espontaneamente, sem justificativas piedosas, simplesmente como semelhantes, que não trazem mais do que apenas outra condição afetiva. Melhor do que incluí-los generosamente depois de excluí-los primeiro, é nem chegar a excluí-los.

(Silvio Meincke é pastor emérito da Igreja Evangélica da Confissão Luterana Brasileira e reside na Alemanha.)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Católicos americanos cantam por todos nós


Com legendas em português. :'-)

* * *


Como costumamos dizer em nossas reuniões: sejamos nós a Igreja que queremos ver no mundo. O que nos lembra, aliás, João Paulo I, em pronunciamento de setembro de 1978:

"Procuremos melhorar a Igreja, tornando-nos melhores. Cada um de nós, toda a Igreja, poderia rezar a oração que eu costumo rezar: Senhor, aceita-me como sou, com os meus defeitos, com as minhas faltas, mas faz que me torne como tu desejas. (...)"

(Via

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Comer a carne e beber o sangue


Quando Jesus diz que suas palavras não são carne, mas espírito e vida, quer sem dúvida dar-nos a compreender que não se trata de comer materialmente a sua carne, o seu corpo. Hoje, sabemos que isto se realiza através de sinais.

A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Notre Dame du Web, comentando as leituras do 21° Domingo do Tempo Comum (26 de agosto de 2012). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara, e José J. Lara.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Referências bíblicas:
1ª leitura: Josué 24,1-2.15-18
2ª leitura: Ef 5,21-32
Evangelho: Jo 6,60-69

Intolerável, mas necessário. Estamos concluindo hoje a leitura do cap. 6 do evangelho de João ou, mais precisamente, a leitura dos discursos sobre o pão da vida e o dom da carne e do sangue. O pão, aqui, nos é mostrado como prova, da mesma forma que o maná tão presente neste capítulo (Ex 16,2-4). Os ouvintes irão se dividir entre crentes e não crentes. É que a ideia de comer a carne de um homem e beber o seu sangue é intolerável (v. 60). Mas não seria atenuando o texto que se faria um bom negócio. Para dizer a verdade, aquela frase do Sl 14,4 “quando comem seu pão é o meu povo que estão devorando” verifica-se todos os dias. Pessoas abastadas vivem da miséria, da fome e da morte de uma multidão de homens, mulheres e crianças que os nossos sistemas econômicos reduziram ao sofrimento e à míngua, no 3º mundo e em todos os “terceiros estados” ocidentais. E esta antropofagia assassina, velada e dissimulada, é generalizada. Pois esta carne e este sangue que, apesar deles, arrancamos dos homens é que o Cristo voluntariamente nos vem dar. Inútil dizer que isto não resolve o problema de nossas vítimas; isto simplesmente nos vem convocar a entrar na lógica deste dom total. Deus não impõe o amor com base na força; seria algo totalmente contraditório. Ele vem esboçar ante os nossos olhos a imagem desta via estreita, a única capaz de conduzir-nos à vida. Assim sendo, devemos primeiramente tomar a carne e o sangue que ele nos dá e, depois, fazer nosso o amor que comanda este dom.

Comer a carne e beber o sangue. Do mesmo modo que se haviam revoltado quando lhes revelara a sua origem, ao dizer-lhes de onde viera (Jo 6,41-42), também agora os interlocutores de Jesus revoltam-se quando Ele lhes revela para onde vai - quer dizer, para o Pai - mediante a Paixão. Jesus, em substância, lhes diz o seguinte: se ficaram chocados por lhes ter anunciado o dom da carne e do sangue, o que irão dizer então, quando tudo isto efetivamente vier a acontecer, quando virem o Filho do homem subir para onde estava antes? Explicando um pouco mais: o dom da carne e do sangue é para sempre, para todos os instantes, desde o começo. A cruz é disto uma revelação, é a hora em que os tempos se cumpriram. O que não impede que Jesus dirija a seus indignados ouvintes, palavras surpreendentes. De fato, muitas vezes lhes havia dito que, para viver, era preciso comer a sua carne. Pois agora lhes diz que “a carne não adianta nada”. Ora, com toda evidência, a palavra “carne” não tem aqui o mesmo sentido. Ainda há pouco, aplicava-se a Cristo enquanto homem solidário com a natureza, carregado da argila original (Gn 2,7); agora, a palavra se enche do sentido negativo que vemos em muitos textos: a inaptidão em se alcançar o espírito. Quando Jesus diz que suas palavras não são carne, mas espírito e vida, quer sem dúvida dar-nos a compreender que não se trata de comer materialmente a sua carne, o seu corpo. Hoje, sabemos que isto se realiza através de sinais. Portanto, esta carne que foi entregue não deve ser compreendida de modo carnal.

Ainda os dois discursos. Jesus, na visão de João, a partir de temas completamente diferentes, ensina coisas semelhantes. Apenas um exemplo: em 15,1-8, Ele explica longamente que, para viver, devemos permanecer n’Ele e Ele em nós. Ele é a vinha, nós os ramos; a seiva que vem Dele (pensemos no sangue) deve nos alimentar. Esta interioridade recíproca (Eu em vós, vós em mim) tem qualquer coisa a ver com o ato de comer a carne e beber o sangue. Ela só pode ser compreendida por quem aceitou o primeiro discurso, que nos diz que Cristo vem de Deus, é a presença de Deus. Mas isto, não basta. É preciso admitir ainda o dom da carne e do sangue. Olhemos mais de perto a resposta de Pedro quando Jesus pergunta aos 12 se também eles querem abandoná-lo. “A quem iremos? Só Tu tens palavra de vida eterna!” . Pedro compreende que não existe salvação possível se permanecemos fechados em nós mesmos; é preciso ir a outro, ir para o Outro. Ele, então, permanece com Jesus. Ótimo! Mas ele só havia entendido o primeiro discurso, não o segundo. Assim como em Cesaréia de Filipe (Mt 16,13-23), ele reconhece a origem do Cristo, mas permanece fechado para o futuro pascal. Ao menos, não faz a isso alusão alguma. Em verdade, a recusa ou esquecimento do segundo discurso revela não ter compreendido nem admitido totalmente o primeiro. Será preciso esperar Jo 21 para que Pedro se dirija sem reservas para Cristo. Nesta espera, se Jesus havia escolhido Pedro, Pedro, na verdade, não havia ainda escolhido Jesus. É aí que estamos todos nós.

domingo, 26 de agosto de 2012

Um Deus que se parece conosco


A reflexão é de Raymond Gravel, padre da arquidiocese de Quebec, Canadá, publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 21° Domingo do Tempo Comum (26 de agosto de 2012). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Referências bíblicas:
1ª leitura: Josué 24,1-2.15-18
2ª leitura: Ef 5,21-32
Evangelho: Jo 6,60-69

Hoje temos a conclusão do discurso sobre o Pão da Vida, no evangelho de São João. Especialmente, no final deste discurso, não assistimos somente à oposição dos judeus, isto é, dos que não reconhecem o Cristo, mas também à oposição dos discípulos mesmos, que não aceitam o que se fala sobre comer a carne e beber o sangue: “Depois que ouviram essas coisas, muitos discípulos de Jesus disseram: ‘Esse modo de falar é duro demais. Quem pode continuar ouvindo isso?’'"(Jo 6,60). Quer dizer que para os primeiros cristãos, na comunidade de João pelo menos, não havia unanimidade sobre o conteúdo da fé em Cristo Ressuscitado. Dentre os católicos dessa época havia adeptos ao docetismo, doutrina que ensinava que Cristo parecia ser homem, pois ele era Filho de Deus. Então, as questões que hoje precisamos nos fazer são as seguintes: O que rejeitam os discípulos exatamente? Onde estamos nós hoje, em nossa fé no Cristo da Páscoa?

1. A recusa dos discípulos. O evangelista João há pouco fez a Jesus dizer: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,54). O que quer dizer que é pela sua humanidade assumida até o fim que Jesus se torna Cristo, Senhor, Filho de Deus, e que é vivendo ao modo de sua vida, adotando seus comportamentos e seus valores, em resumo, assumindo a nossa própria humanidade, que nós podemos esperar ressuscitar como ele e tornarmos nós também filhos e filhas de Deus, os cristos ressuscitados.

No fundo, o Cristo do Evangelho nos fala de um Deus que se parece conosco. É difícil de aceitar, simplesmente porque é difícil admitir e crer que nosso Deus só se manifesta através da nossa humanidade, com toda sua fragilidade e finitude. Um Deus tão frágil como nós não nos interessa. Foi isso o que fez dizer Papa Bento XVI em seu livro sobre Jesus: “Não teria sido mais fácil nos elevarmos acima das contingências deste mundo para perceber em uma pacífica contemplação o mistério inefável?”.

Mas não está aí a fé cristã. Deus se fez encontrar e reconhecer através de um homem, Jesus de Nazaré, em uma época e em um momento preciso da história. O Papa continua: “Deus se aproximou tanto de nós que parece deixar de ser Deus por nós”. E ainda é o que faz a riqueza da nossa fé, a grandeza, a beleza e a dignidade dos discípulos de Cristo, no que eles são e no que eles estão chamados a tornar-se. Infelizmente, em todos os tempos, as mulheres e os homens tiveram dificuldade de se assumirem na sua humanidade, daí a recusa de crer na humanidade de Cristo: “A partir desse momento, muitos discípulos voltaram atrás, e não andavam mais com Jesus” (Jo 6,66).

2. Os discípulos de hoje. Onde estamos nós hoje? O que acontece com a nossa fé cristã? Com certeza, hoje, há muitos homens e muitas mulheres que não acreditam em Cristo, nem mesmo em um deus. Estas pessoas têm as suas razões e devem ser respeitadas. Mas os outros, aquelas e aqueles que acreditam, como se situam em relação a esse discurso de São João sobre o Pão da Vida? Às vezes, olhando a nossa Igreja, tenho a impressão de que os cristãos de hoje, como aqueles de ontem, têm dificuldade em aceitar viver a sua humanidade e crer que é através dela que Deus pode ainda falar e se comunicar.

É isso o que Jesus de Nazaré veio nos ensinar, mas preferimos contemplá-lo como Cristo Ressuscitado, Glorificado, Senhor da Glória, fechado nos tabernáculos das nossas igrejas ou exposto no altar em um ostensório dourado, mais do que vê-lo andar na estrada, comer com os pecadores, atender às prostitutas, perdoar e amar incondicionalmente. Temos tanta dificuldade para olhá-lo tal como ele foi na sua humanidade: um revolucionário, um reformador, um libertador, que criamos uma instituição religiosa que é mais parecida com a religião legalista do Antigo Testamento do que com a Igreja primitiva. Quando a doutrina se fixa no cimento e ela não responde mais à realidade humana contemporânea, e quando a regra e a disciplina estão antes que a pessoa humana a qual eles deveriam servir, e que os dirigentes da nossa Igreja se obstinam em não adaptar-se às novas realidades, podemos verdadeiramente dizer que nós nos recusamos, hoje, comer a carne e beber o sangue daquele de quem pretendemos ser seus discípulos e de que afirmamos querer seguir.

3. Reatualizar a mensagem. Na segunda leitura de hoje, nós temos um bonito exemplo de um texto bíblico que devemos reler à luz de nossa realidade contemporânea. Para fazer isso, precisamos situar o texto em nosso contexto histórico, reinterpretá-lo e reatualizá-lo, se nós queremos permanecer fiéis a seu autor e se queremos fazer nascer uma Palavra de Deus hoje. No tempo de São Paulo, a mulher era uma propriedade do seu marido, quase a sua escrava; ela não tinha nenhum direito. É por isso que na carta aos Efésios, quando Paulo faz o paralelo da relação homem/mulher com a relação Cristo/Igreja, ele utiliza a imagem de um casal da sua época. Por outro lado, podemos dizer verdadeiramente que ele estava adiante de seu tempo, pois exortava os homens a amarem sua esposa, o que não era costume na época. Além disso, ele se colocava ao seu serviço, como Cristo fez com a sua Igreja: “Maridos, amem suas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5,25).

Se hoje pedíssemos para as mulheres serem submissas aos maridos, tal proposta seria inaceitável, e nós não seríamos fiéis a São Paulo. É por isso, por questão de fidelidade a São Paulo, que devemos convidar a Igreja a reconhecer a igualdade homem/mulher, o que ele não faz, dois mil anos após ele. Se quisermos respeitar o espírito da carta aos Efésios, se quisermos fazer nascer uma Palavra nova de Deus que corresponda à nossa realidade contemporânea, precisaremos reler São Paulo reinterpretando-o e atualizando-o para o contexto atual. Infelizmente, neste domingo, alguns vão ler esse texto bíblico de forma literária somente, correndo o risco de chocar uma parte da assembleia. E outros vão deixá-lo passar em vez de descobrir a sua novidade e a interpelação que o seu autor sugere à Igreja atual.

Terminando, a questão posta aos Doze no evangelho de hoje: “Vocês também querem ir embora?” (Jo 6,67), à qual Simão Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68) é para nós que ela é dita agora. E não basta responder com uma frase já pronta que seja parecida à de Pedro. Porque aceitar seguir o caminho com Cristo é comer a sua carne e beber o seu sangue, isto é, assumir a nossa própria humanidade até o fim, nos inspirando nela e nos deixando transformar por esse Jesus da história, para nos tornarmos com ele o que ele próprio se tornou na Páscoa: o Cristo, o Senhor, o Filho de Deus.

sábado, 25 de agosto de 2012

Pergunta decisiva


A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 6, 60-69 que corresponde ao XXI Domingo do Tempo Comum, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.

O evangelho de João manteve a lembrança de uma forte crise entre os seguidores de Jesus. Não temos somente dados. Somente disse que aos discípulos resulta-lhes duro demais seu modo de falar. Provavelmente parece-lhes excessiva a adesão que reclama deles. Num determinado momento “muitos discípulos voltaram atrás”. Já não caminhavam com ele.

Pela primeira vez Jesus experimenta que suas palavras não têm a força desejada. No entanto, não se desdiz mas as reafirma ainda mais: “As palavras que eu disse a vocês são espírito e vida. Mas entre vocês há alguns que não acreditam”. Suas palavras parecem duras, mas transmitem vida, fazem viver pois contêm o Espírito de Deus.

Jesus não perde a paz. O fracasso não lhe inquieta. Dirigindo-se aos Doze lhes faz a pergunta decisiva: “Vocês também querem ir embora?”. Não quer retê-los pela força. Deixa-os em liberdade para decidir. Seus discípulos não devem ser servos mas amigos. Se quiserem podem voltar à sua casa.

Uma vez mais Pedro responde em nome de todos. Sua resposta é exemplar. Sincera, humilde, sensata, própria de um discípulo que conhece Jesus suficientemente para abandoná-lo. Sua atitude ainda hoje pode ajudar aqueles que, com uma fé, vacilante pensam prescindir de toda fé.

“A quem iremos Senhor?” Não tem sentido abandonar Jesus de qualquer forma, sem ter encontrado um Mestre melhor e mais convincente. Se eles não seguirem a Jesus, ficarão sem saber a quem seguir. Não devem se precipitar. Não é bom ficar sem luz nem guia na própria vida.

Pedro é mais realista. É bom abandonar Jesus sem ter encontrado uma esperança mais convincente e atrativa? Basta substituí-lo por um estilo de vida rebaixado, sem apenas metas nem horizonte? É melhor viver sem perguntas, sem enfoques, sem busca de nenhum tipo?

Há uma coisa que Pedro não esquece: “Tu tens palavras de vida eterna”. Ele sente que as palavras de Jesus não são vazias nem enganosas. Junto dele descobriram a vida de outra maneira. Sua mensagem lhes abriu para a vida eterna. Com que poderão substituir o Evangelho de Jesus? Onde poderão encontrar uma melhor Notícia de Deus?

Finalmente, Pedro lembra a experiência fundamental. Ao conviver com Jesus, eles descobriram o mistério que vem de Deus. Desde longe, à distância, desde a indiferença ou o desinteresse não se pode reconhecer o mistério que encerra Jesus. Os Doze o trataram de perto. Por isso podem dizer: “Nós cremos e sabemos”. Seguirão junto a Jesus.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Gostaria que, em cada quarteirão, houvesse uma área verde

Charge: Carlos Ruas

De Leonardo Sakamoto, em seu blog:

“Vou preservar todas as igrejas, regularizando a situação delas, e gostaria que, em cada quarteirão, houvesse uma igreja pregando o amor ao próximo”, afirmou Celso Russomanno (PRB), primeiro colocado nas pesquisas de intenção de voto à Prefeitura de São Paulo, durante o ciclo de sabatinas UOL/Folha nesta quarta (22). “As pessoas não matam ou roubam porque a lei proíbe, mas porque têm uma linha religiosa. Existe igreja porque a população é temente a Deus, porque a população acredita.”

Antes de mais nada: defendo o direito ao livre culto, de qualquer crença, sendo contrário a qualquer forma de limitá-la (desde isso não cause danos ao direitos fundamentais de ninguém).

Eu gostaria que em cada quarteirão houvesse uma escola, uma quadra poliesportiva, um telecentro, um parquinho infantil, uma área verde, meia dúzia de maritacas e um casal de vira-latas caramelo ou um par de gatos bem preguiçosos. Quero espaços de convivência, de discussão, de compartilhamento, para poder conhecer o outro, independentemente se ele acredita em algo ou não, e assim entendê-lo.

Igrejas podem assumir esse papel de mediação, é claro. Mas não será necessariamente por sua natureza religiosa, mas por congregar, no mesmo espaço, gente diferente que estiver disposta a depor as armas e conhecer o que o outro tem a dizer.

Tenho visto cada vez mais candidatos pregarem a elevação do número de igrejas e templos como política pública para o combate a alguma coisa. O discurso de paz presente em parte desses locais contribui, é claro. Ao passo que o comportamento tacanho da bancada evangélica, defendendo projetos que levam à discriminação, no Congresso Nacional distancia.

Não é a fé em alguém que vai impedir que barbáries sejam cometidas, mas uma série de processos que incluem a efetividade da Justiça e a diminuição da desigualdade social. Até porque não sou rebanho para estar ungindo um pastor e sim cidadão que escolhe um prefeito.

Agir conforme as regras de convivência social não tem a ver necessariamente com linha religiosa (pelo contrário, roubar está na estrutura de muita gente que perverte religiões, comprando e vendendo o divino como se fosse camarão seco em barraca de feira). Não quero alguém que aja de forma civilizada porque é temente a algo e, por isso, viva com medo. Mas porque acredita que os outros têm os mesmos direitos para serem felizes que ele porque nasceram iguais em dignidade e compartilham da mesma raça humana.

Vale lembrar que, em nome de uma interpretação deturpada do cristianismo, grandes atrocidades têm sido cometidas. Por exemplo, seguidores de uma pretensa verdade divina taxam o comportamento alheio de pecado e condenam os diferentes a uma vida de inferno aqui na Terra.

Pessoas, como o pastor Silas Malafaia, dizem que não incitam a violência com seus sermões. Não é a sua mão que segura a faca, o revólver ou a lâmpada fluorescente, mas é a sobreposicão de seus argumentos ao longo do tempo que distorce o mundo e torna o ato de esfaquear, atirar e atacar banais. Ou, melhor dizendo, “necessários”, quase um pedido do céu. São pessoas assim que alimentam lentamente a intolerância, que depois será consumida pelos malucos que fazem o serviço sujo. A presença de igrejas não resolve o problema por si. É necessário algo mais.

Coloquemos a culpa na herança do patriarcalismo português, no Jardim do Éden e por aí vai. É mais fácil justificar que somos determinados pelo passado do que tentar romper com uma inércia que mantém homens, ricos, brancos, heterossexuais em cima e mulheres, pobres, negras e índias, homossexuais em baixo. A reflexão, aceitar conhecer o outro e entendê-lo, que é o caminho para a tolerância e para a percepção da própria exploração, é difícil para alguns. É mais fácil seguir a manada, ou melhor, o rebanho.

Não importa em quem vocês votam ou o que defendem para o Brasil, participem do debate, exijam de seus candidatos que mostrem as suas propostas políticas, econômicas, sociais sem tergiversar. Nem só de pão vive o homem – mas nem por isso ele deixa de ser importante. Afinal de contas, isso não é um conclave e sim uma eleição municipal.

Quero que se eleja um prefeito, não um pastor, padre ou freira. Que, uma vez eleitos, terão que fazer mais do que ir a culto ou uma missa.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Teólogos propõem uma nova moralidade sexual


"Extraindo percepções da tradição católica, da Escritura, das disciplinas seculares do conhecimento moral e da experiência humana, há seis dimensões fundamentais da antropologia católica renovada no livro A pessoa sexual", explicam os teólogos Todd Salzman e Michael Lawler, professores do departamento de Teologia de Universidade Creighton, nos Estados Unidos. Eles são os autores do livro A pessoa sexual (original inglês: The sexual person), publicado pela Editora Unisinos, 2012.

Em entrevista concedida à revista IHU On-Line (leia na íntegra aqui), os teólogos descrevem as seis dimensões fundamentais da antropologia expostas no livro.

"A primeira e mais fundamental dimensão é a mudança de ênfase na própria tradição católica que passou da pessoa sexual considerada primordialmente como pessoa procriadora para a pessoa sexual considerada primordialmente como pessoa relacional.

A segunda dimensão, que extrai percepções das ciências biológicas e sociais, é uma mudança na percepção da orientação heterossexual como normativa e a orientação homossexual ou bissexual como “objetivamente desordenada” – como ensina o magistério –, que passou para a concepção da orientação sexual – heterossexual, homossexual ou bissexual – como dimensão intrínseca da pessoa sexual e, portanto, “objetivamente ordenada” para a pessoa heterossexual, homossexual ou bissexual, respectivamente.

A terceira dimensão é uma compreensão holística e integrada da pessoa sexual considerada em termos relacionais, físicos, emocionais, psicológicos e espirituais.

A quarta dimensão postula um desejo fundamental das pessoas de estarem em relacionamento, incluindo o relacionamento sexual, com outra pessoa. Esse desejo se realiza num complexo de relacionamentos que o magistério designa como complementaridade. Complementaridade quer dizer que certas realidades formam uma unidade e produzem um todo que nenhuma delas produz sozinha.

Na descrição do magistério, a complementaridade sexual aponta para o matrimônio heterossexual como o relacionamento sexual estável exclusivo entre um homem e uma mulher.

A quinta dimensão expande a descrição da complementaridade sexual por parte do magistério indo além do casamento heterossexual entre homem e mulher e postulando um desejo fundamental de complementaridade holística na pessoa sexual ao integrar a orientação sexual como uma dimensão intrínseca da antropologia sexual. A complementaridade holística inclui a orientação sexual, a complementaridade pessoal e biológica e a integração e manifestação de todas as três na pessoa sexual.

A sexta dimensão postula que “atos sexuais verdadeiramente humanos” realizam as pessoas sexuais. Um ato sexual verdadeiramente humano é um ato em concordância com a orientação sexual de uma pessoa que facilita uma valorização, integração e partilha mais profunda do si-mesmo (self) corporificado da pessoa com outro si-mesmo corporificado tanto em amor como em justiça (amor justo)".

Segundo os teólogos, "a conclusão normativa que se segue dessas seis dimensões antropológicas da pessoa sexual é a seguinte: alguns atos homossexuais e heterossexuais, aqueles que cumprem as exigências de complementaridade holística e amor justo, são verdadeiramente humanos e morais; e alguns atos homossexuais e heterossexuais, aqueles que não cumprem as exigências de complementaridade holística e amor justo, não são verdadeiramente humanos e são imorais".

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Boicote à reza ‘desastrada’ na França





Progressistas se rebelam e se recusam a pregar o sermão anticasamento gay



PARIS — Alguns prelados rebeldes desobedeceram a recomendação da Conferência dos Bispos da França e se recusaram a pregar o sermão anticasamento gay em suas paróquias. Na Igreja Saint-Merri, no bairro de Marais, em Paris, o padre Jacques Mérienne foi um dos que criticaram a iniciativa do cardeal André Vingt-Trois, e preferiu ler um texto redigido a partir de relatos da vida dos paroquianos.

- É uma pena que haja um prejulgamento no debate em torno do casamento homossexual. A prece enviada aos cristãos se tornou um panfleto para os cidadãos. Os homossexuais são acolhidos na nossa igreja da mesma forma que outros grupos, numa perfeita hospitalidade - disse.

Sua paróquia costuma reservar uma sexta-feira por mês para as orações do grupo de homossexuais cristãos David & Jonathan, favorável à união de pessoas de mesmo sexo e à adoção por casais gays. Elisabeth Saint-Guily, dirigente da associação, condenou o “ataque da hierarquia católica” em pleno feriado e defendeu uma estratégia de “diálogo em âmbito local” sobre o tema.

- Promovemos um trabalho de educação e sensibilização. Há muito desconhecimento, então organizamos conferências para informar. É anticristão rejeitar alguém por sua orientação sexual. Na Bíblia, existem muitas maneiras de se formar uma família - disse.

O padre Michel Lelong, que oficia no bairro de Ternes, em Paris, também boicotou a reza por considerá-la “desastrada”.

- Penso que uma oração não é o meio de abordar problemas muito delicados, que provocam debate na França - justificou.

Jacques Gaillot, ex-bispo de Evreux, denunciou uma “cruzada anticasamento homossexual” por parte da Igreja. Na diocese de Saint-Denis, em Seine-Saint-Denis, o padre Bernard Berger revelou seu “desacordo” com o sermão oficial.

- A Igreja está fazendo política, e este não é o seu papel - criticou.
Embora tenha ocorrido sem incidentes, a procissão fluvial no Rio Sena, que abriu as festividades do feriado religioso anteontem após missa celebrada na catedral de Notre-Dame, foi recebida com algumas vaias no percurso.


Fonte:
O Globo



terça-feira, 14 de agosto de 2012

Madonna faz protesto inclusivo na Rússia







Reproduzo o texto abaixo para que fique claro em que contexto Madonna fez esse protesto:

Madonna voltou a aproveitar um concerto na Rússia para criticar as autoridades russas. Desta vez, em São Petersburgo, durante a atuação desta quinta-feira, a cantora apelou à defesa dos direitos dos homossexuais.

«Queremos lutar pelo direito à liberdade», disse Madonna a uma plateia que exibiu braceletes cor-de-rosa entregues à entrada do recinto.

Madonna insurgiu-se contra uma lei recentemente aprovada em São Petersburgo que proíbe a «promoção pública da homossexualidade».

Segundo a agência Reuters, as autoridades russas têm proibido desfiles e manifestações de defesa dos direitos dos gays e lésbicas «por danificar a saúde, a moral e o desenvolvimento espiritual dos menores de idade».

Na prática, esta lei torna clandestino qualquer tipo de demonstração pública de afeto entre casais homossexuais. A homossexualidade era punida com pena prisão durante os tempos da União Soviética, mas foi descriminalizada em 1993 com o fim do regime comunista.

No entanto, a comunidade gay e lésbica na Rússia continua a ser alvo ativo do preconceito numa sociedade onde a igreja ortodoxa, que considera os homossexuais «doentes», tem uma forte influência.

Madonna acaba assim por aproveitar os seus dois concertos na Rússia para chamar a atenção para dois temas que considera essenciais. Na terça-feira, pediu que as três Pussy Riot, acusadas de vandalismo e incitamento ao ódio religioso, fossem libertadas.



Fonte: IOL Música



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...