domingo, 2 de setembro de 2012
Uma Palavra que se torna ação
O que quer dizer praticar a fé? Será que é primeiramente ir à missa no domingo? Será fazer preces e devoções? Não! Praticar a própria fé é ajudar aos desprovidos, é acolher os excluídos, é partilhar com os pobres.
A reflexão é de Raymond Gravel, padre da arquidiocese de Quebec, Canadá, publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 22° Domingo do Tempo Comum (2 de setembro de 2012). A tradução é de Susana Rocca.
Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.
Referências bíblicas:
1ª leitura: Dt 4,1-2.6-8
2ª leitura: Jc 1,17-18.21.22.27
Evangelho: Tiago 7,1-8.14-15.21-23
Após a incursão sobre o discurso do Pão da Vida no evangelho de João, voltamos a São Marcos, o evangelista do ano B, que nos convida a refletir sobre o rosto de Deus traçado pelo Cristo da Páscoa. Nós devemos ouvir a Palavra, escutá-la atentamente, interpretá-la e atualizá-la a fim de nos alimentarmos para levá-la à prática. A Palavra deve se tornar Ação, Agir; caso negativo, ela é inútil. Infelizmente, como acontece frequentemente no caso da liturgia, foram cortados os versículos mais importantes do evangelho e da segunda leitura de hoje. São versículos que ilustram muito bem as mensagens que os autores quiseram entregar às suas comunidades.
Que rosto de Deus se desenha através da Palavra deste domingo? Um Deus que quer uma resposta livre da nossa parte, e não uma submissão alienante às regras e às doutrinas de Igreja. O exegeta Gérard Sindt escreve: “O nosso Deus é um Deus que quer homens livres e não escravos, que espera uma resposta filial e não uma submissão alienante. Não é a estrita observância de preceitos duvidáveis o que honra Deus, mas a fidelidade ao mandamento único: Amarás!”
1. Religião/Fé: O padre francês François Varone dizia que sempre devemos passar da religião à fé. Por quê? Porque a religião acaba afogando a fé até fazê-la morrer. Mas existe oposição entre os dois ou há complementaridade? O padre francês Léon Paillot escreve: “Religião ou fé? Eu creio que Jesus indica prioridades: não temos que colocar a carroça na frente dos bois. Certamente, a fé em estado puro não existe: ela se materializa em atitudes, em sentimentos, em gestos, em decisões. Na Igreja há ritos, devoções, formulações dogmáticas, estruturas que podem variar conforme as épocas e os lugares. Isso é normal. Mas o importante é não colocar essas formas que mudam antes do essencial, que é a fé, pois as formas só estão para encarná-la. O aparelho religioso não é o objetivo, e sim um meio que nos indica a direção para ir até o Outro”.
Se eu entendo bem o evangelho de hoje, o que Cristo denuncia é o fato de colocar a religião por baixo da fé. O que é mais importante? Comer com as mãos sujas por ter trabalhado, ajudado, reconfortado? Ou comer com as mãos limpas por não ter feito nada pelos outros? É verdade que podemos sujar as mãos e lavá-las antes de comer. É evidente! Mas não é essa a questão que Marcos levanta. O que o evangelista quer fazer compreender aos seus leitores é que as regras de pureza se tornaram tão importantes que os fariseus e os escribas não ousam fazer mais nada para não contrair uma impureza. É a regra, a religião e seus ritos que ficam por cima da fé e da prática.
O exemplo que São Marcos dá para ilustrar seu pensamento e que está cortado no lecionário deste domingo é o seguinte: Jesus diz aos fariseus e aos escribas: “Vocês são bastante espertos para deixar de lado o mandamento de Deus a fim de guardar as tradições de vocês’” (Mc 7,9). "Com efeito, Moisés ordenou: ‘Honre seu pai e sua mãe’" (Mc 7,10) (o que significa: ocupa-te deles, caso estejam precisando de ajuda). “Mas vocês ensinam que é lícito a alguém dizer a seu pai e à sua mãe: ‘O sustento que vocês poderiam receber de mim é Corbã, isto é, consagrado a Deus’” (Mc 7,11). “E essa pessoa fica dispensada de ajudar seu pai ou sua mãe” (Mc 7,12). “Assim vocês esvaziam a Palavra de Deus com a tradição que vocês transmitem. E vocês fazem muitas outras coisas como essas“ (Mc 7,13). Não é à toa que o Cristo do evangelho trata os fariseus e os escribas como hipócritas citando o profeta Isaias na versão grega dos Setenta: “Este povo me honra com os lábios, mas o coração deles está longe de mim. Não adianta nada eles me prestarem culto, porque ensinam preceitos humanos’"(Mc 7,6-7).
Ainda hoje não fazemos a mesma coisa na nossa Igreja? Anos atrás, um padre do Opus Dei me disse: “Tu, Raymond, tu és importante na Igreja. Tu acolhes os homossexuais, os divorciados casados novamente e todos os marginalizados... Eu lhe perguntei: Mas por que tu não fazes isso? E ele me respondeu: Eu não posso se eu quero permanecer fiel ao Magistério da Igreja”. Isso é horrível: o pároco está isento do mandamento do Amor, com a bênção das autoridades religiosas porque ele pertence ao Opus Dei. É exatamente o que São Marcos denunciava, no final do primeiro século, na sua comunidade cristã. E que dizer da falta de sacerdotes, hoje, para celebrar a Eucaristia? Prefere-se privar as pessoas desse sacramento a mudar as regras da ordenação sacerdotal. Quando fazemos isso, não estamos colocando a regra antes do essencial? E, finalmente, quando negamos às mulheres a plena igualdade com os homens na Igreja, somos culpados de uma grande injustiça que é, no entanto, corrigida por todas as sociedades civis avançadas. Como se faz para se esconder por detrás de uma tradição no intuito de justificar o injustificável? Afinal, o que é o essencial na fé cristã?
2. O essencial. A partir das leituras que nós temos hoje, há três coisas que são essenciais:
2.1. A liberdade: Deus nos quer livres. Ele está perto de nós; ele faz história conosco. A sua Palavra nos faz viver; ela restabelece a justiça. Não é esse o propósito do autor do livro do Deuteronômio? “De fato, que grande nação tem um Deus tão próximo, como Javé nosso Deus, todas as vezes que o invocamos? Que grande nação tem estatutos e normas tão justas como toda esta lei que eu lhes proponho hoje?” (Dt 4,7).
2.2. A prática: Na segunda leitura de hoje, Tiago nos diz que crer é agir antes que falar. “Por isso, deixem de lado qualquer imundície e sinal de malícia, e recebam com docilidade a Palavra que lhes foi plantada no coração e que pode salvá-los” (Tiago 1,21). Mas não podemos somente escutar a Palavra de Deus que germina em nós, precisamos também colocá-la em prática: “Sejam praticantes da Palavra, e não apenas ouvintes, iludindo a si mesmos“ (Tiago 1,22). O que quer dizer praticar a fé? Será que é primeiramente ir à missa no domingo? Será fazer preces e devoções? Não! Praticar a própria fé é ajudar aos desprovidos, é acolher os excluídos, é partilhar com os pobres: “Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo“ (Tiago 1,27). Quem são as viúvas e os órfãos de hoje?
2.3. O Amor: O Cristo do evangelho de Marcos repreende os fariseus e os escribas por não respeitar o mandamento de Deus, que é o mandamento do Amor. O homem é feito para amar e nada pode impedir-lhe de amar, é frequentemente o que sai dele que é contrário ao Amor: “O que vem de fora e entra numa pessoa não a torna impura; as coisas que saem de dentro da pessoa é que a tornam impura“ (Mc 7,15). Como diz Gérard Sindt: “Vale mais ter as mãos sujas do que não ter mãos!” Isso significa que devemos passar da palavra à ação. O exegeta francês Jean Debruynne acrescenta: “É bem fácil transformar regras em guarda-chuvas”. Isso nos protege dos outros, mas nos impede de intervir para acolher, acompanhar, socorrer, devolver a dignidade e restaurar a justiça para aquelas e aqueles que verdadeiramente precisam. Depois, após ter praticado a nossa fé, nós podemos vir celebrar, com as mãos limpas, o Amor que recebemos e partilhamos.
Para terminar, eu gostaria simplesmente de citar uma palavra do século que vem de Santo Antonio de Pádua: “A palavra é viva quando são as ações que falam. Eu vos peço: que as palavras que calem e que as ações nos falem. Estamos cheios de palavras, mas vazios de ações”. Tweet
sábado, 1 de setembro de 2012
A ''dura viela'' da morte, segundo Martini
A reflexão é do cardeal italiano Carlo Maria Martini (15 de fevereiro de 1927 - 31 de agosto de 2012), arcebispo emérito de Milão, falecido nessa sexta-feira.
O texto foi publicado no blog Sperare per Tutti, 31-08-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.
Mais de uma vez eu lamentei com o Senhor pelo fato de que, morrendo, não tirou de nós a necessidade de morrer. Seria tão bonito poder dizer: Jesus também enfrentou a morte em nosso lugar, e, mortos, poderemos ir para o Paraíso por um caminho florido.
Ao invés, Deus quis que passássemos por esta "dura viela" que é a morte e que entrássemos na escuridão que sempre dá um pouco de medo. Eu me pacifiquei novamente com o pensamento de ter que morrer quando compreendi que, sem a morte, nunca chegaríamos a fazer um ato de plena confiança em Deus. De fato, em cada escolha comprometedora, nós sempre temos "saídas de segurança". Ao invés, a morte nos obriga a confiar totalmente em Deus.
O que nos espera depois da morte é um mistério, que requer da nossa parte uma confiança total. Desejamos estar com Jesus, e expressamos esse desejo de olhos fechados, às cegas, colocando-nos totalmente nas suas mãos.
Desejamos também nós gozar daquela paz interior que vence toda ansiedade e se confia a Deus com todo o coração. Tweet
A queixa de Deus
A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 7, 1-8.14-15.21-23 que corresponde ao XXII Domingo do Tempo Comum, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.
Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.
Um grupo de fariseus da Galileia se aproxima de Jesus numa atitude crítica. Eles não estão sozinhos. Estão acompanhados de alguns escribas que vieram
de Jerusalém, preocupados sem dúvida em defender a ortodoxia dos simples camponeses das aldeias. A atuação de Jesus é perigosa. É preciso corrigi-la.
Eles observaram que em alguns aspectos os discípulos de Jesus não seguem a tradição dos mais velhos. A pesar de falar do comportamento dos discípulos, sua pergunta dirige-se a Jesus, pois sabem que ele é quem lhes ensinou a viver aquela liberdade surpreendente. Por quê?
Jesus responde com palavras do profeta Isaias que iluminam muito bem sua mensagem e sua atuação. Estas palavras com as quais Jesus se identifica totalmente é preciso que as escutemos com atenção, pois mexem em algo fundamental da nossa religião. Segundo o profeta, esta é a queixa de Deus.
“Este povo me honra com os lábios, mas o coração deles está longe de mim”. Este é sempre o risco de toda religião: dar culto a Deus com os lábios, repetindo fórmulas, recitando salmos, pronunciando palavras bonitas, enquanto nosso coração está longe dele. Porém, o culto que agrada a Deus nasce do coração, da adesão interior, desse centro íntimo da pessoa de onde brotam nossas decisões e projetos.
“O culto que me oferecem está vazio”. Quando nosso coração está longe de Deus, nosso culto fica sem conteúdo. Falta vida, a escuta sincera da Palavra de Deus, o amor ao próximo. A religião se transforma em algo exterior que se pratica por costume, mas onde faltam os frutos de uma vida fiel a Deus.
“A doutrina que ensinam são preceitos humanos”. Em toda religião há tradições que são “humanas”. Normas, costumes, devoções que nasceram para viver a religiosidade de uma cultura determinada. Podem fazer muito bem. Mas fazem machucar muito quando elas nos distraem e afastam da Palavra de Deus. Nunca hão de ter a primazia.
Ao terminar a citação do profeta Isaias, Jesus resume seu pensamento com palavras fortes: “Vocês abandonam o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens”. Quando nos aferramos cegamente às tradições humanas, corremos o risco de esquecer o mandato do amor e desviar-nos do seguimento de Jesus, Palavra encarnada de Deus.
Na religião cristã o primeiro é sempre Jesus e seu chamado para viver o amor. Somente depois estão nossas tradições humanas por mais que nós as achemos muito importantes. Não podemos esquecer nunca o essencial. Tweet
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
O "Novo Pentecostes" da Igreja
"A Igreja Católica se descobriu, segundo a análise do grande teólogo alemão Karl Rahner, como Igreja no mundo, verdadeira “Igreja mundial”, afirma Dr. Margit Eckholt, professora da Universidade Osnabrück e painelista no Congresso Continental de Teologia, a ser realizado nos dias 7 a 11 de outubro, em São Leopoldo, RS.
Eis o artigo, aqui reproduzido via IHU.
O Concílio Vaticano II tem sido chamado um "Novo Pentecostes" para a Igreja Católica, e necessitamos hoje do aggiornamento [atualização] e da memória viva desse "Novo Pentecostes".
O aggiornamento do Concílio se realiza acima de tudo mediante a Constituição Pastoral Gaudium et Spes. Ao compenetrar-se com a situação da humanidade atual, a Igreja se converte numa instância presente no “hoje”.
Em consequência de sua redescoberta da essencial estrutura encarnatória da fé, descobre a presença divina na luta dos humanos, homens e mulheres, no sentido de desenvolver sua humanidade. Isso se condensa em ler os “sinais do tempo” e nos desafia: a paz que está em perigo, o desequilíbrio norte-sul, os problemas da pobreza cada vez mais agudos, o diálogo, necessário mas também desafiador com os demais: as igrejas cristãs e as outras religiões, e também a questão feminina.
A Igreja define sua nova identidade como Igreja no mundo, opondo-se com a força do Evangelho a tudo aquilo que signifique desamor, morte e lesa-humanidade.
A recepção desse aggiornamento se concretizou, na América Latina, sobretudo na Igreja e na teologia: as conferências gerais do Celam a partir de Medellín, o nascimento da Teologia da Libertação, uma igreja que levou a sério a “opção pelos pobres”, também inscrita na constituição Lumen Gentium do Concílio.
A Igreja católica se descobriu, segundo a análise do grande teólogo alemão Karl Rahner, como Igreja no mundo, verdadeira “Igreja mundial”. Ainda hoje a Igreja está no processo desse descobrimento e, por isso, faz falta a memória viva dos caminhos percorridos na América Latina: o tema do Congresso que ocorrerá na Unisinos não somente toca as Igrejas latino-americanas, mas também a Igreja alemã.
Faz falta desenvolver em comum o que significa hoje em dia ser igreja “encarnada” no mundo, signo de reconciliação e respeito ao outro, o que significa ser cristão, ser cristã num mundo fragmentado, pluricultural, onde estão em diálogo, mas onde também se confrontam as diferentes religiões.
Auditora do Concílio, irmã Mary Luke Tobin escreveu: “the council was a door opened wide – too wide to be closed. Renewal has no end. If it is to continue to be life-giving, it must go on and on” [“o concílio foi uma porta amplamente aberta, demasiado aberta para ser fechada. A renovação não tem fim. Se é para continuar a fim de ser doadora de vida, ela deve ir sempre em frente”]. Este também é meu desejo para nosso tempo: uma análise aprofundada dos textos e novos impulsos do Concílio Vaticano II, o que vai ajudar a deixar abertas as portas da Igreja, em seu serviço ao Evangelho, à humanidade e a toda a criação.
A Igreja ganhará reconhecimento numa sociedade global, muito fragmentada e polarizada, abre fronteiras, constrói pontes e está comprometida na luta pela dignidade dos homens e mulheres, pela paz e cuidado de toda a criação.
Novo Pentecostes significa não perder a esperança que o Espírito e a Sabedoria de Deus vão acompanhar a Igreja também hoje, e conduzi-la para o “novo” que nos falta para ser verdadeiramente testemunhos do Reino de Deus em nossa atualidade. Tweet
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Com todo o coração, acima de todas as coisas: a caridade segundo João Paulo I
Numa palavra: amar significa viajar, correr com o coração para o objeto amado. Diz a Imitação de Cristo: quem ama "currit, volat, laetatur": corre, voa e alegra-se (Imitação de Cristo, 1. III, c. V, n. 4). Amar a Deus é portanto um viajar com o coração para Deus. Viagem belíssima, embora comporte por vezes sacrifícios. Mas estes não nos devem fazer parar. Jesus está na cruz: queres beijá-l'O? Não o podes fazer sem te debruçares sobre a cruz e deixar que te fira algum espinho da coroa, que está na cabeça do Senhor (Cfr. Sales, Oeuvres, Annecy, t. XXI. p. 153). Não podes fazer a figura do bom São Pedro, que foi valente em gritar "Viva Jesus" no monte Tabor, onde havia alegria, mas não deixou sequer que o vissem ao lado de Jesus no monte Calvário, onde havia risco e dor (Ibidem:. t. XV, p. 140). O amor a Deus é também viagem misteriosa: isto é, eu não parto se Deus não toma primeiro a iniciativa. (...)
Com todo o coração. Faço notar, aqui, o adjetivo "todo". O totalitarismo, em política, é feio. Na religião, pelo contrário, um totalitarismo nosso, quanto a Deus, está muitíssimo bem. Foi escrito: Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Estes mandamentos, que hoje te imponho, serão gravados no teu coração. Ensiná-los-ás aos teus filhos e meditá-los-ás quer em tua casa, quer em viagem, quer ao deitar-te ou ao levantar-te. Atá-los-ás, como símbolo, no teu braço, e usá-los-ás como um frontal entre os teus olhos. Escrevê-los-ás sobre os pilares da tua casa e sobre as tuas portas(Deut. 6, 5-9).
Aquele "todo", repetido e levado à prática com tanta insistência, é com toda a verdade a bandeira do maximalismo cristão. E é justo: Deus é demasiado grande, demasiado merece de nós, para que baste deitar-lhe, como a um pobre Lázaro, unicamente algumas migalhas do nosso tempo e do nosso coração. bem infinito e será a nossa felicidade eterna: dinheiro, prazeres e felicidades deste mundo, em comparação com Ele, são apenas fragmentos de bem e momentos fugidios de felicidade. Não seria acertado dar muito de nós a estas coisas e dar pouco a Jesus.
Acima de todas as coisas. Agora entra-se numa comparação direta entre Deus e o homem, entre Deus e o mundo. Não seria justo dizer: "Ou Deus ou o homem". Deve-se amar "não só a Deus mas também o homem"; este último, porém, nunca mais do que Deus ou contra Deus ou tanto como Deus. Por outras palavras: O amor de Deus é certamente dominador, mas não exclusivo. (...)
E por vosso amor amo o meu próximo. Estamos aqui diante de dois amores que são "irmãos gémeos" e inseparáveis. Algumas pessoas é fácil amá-las. Outras, é difícil: não nos são simpáticas, ofenderam-nos e fizeram-nos mal. Só se amo Deus a sério, chego a amá-las a elas, como filhas de Deus e porque Deus mo pede. Jesus fixou também como há de o próximo ser amado: quer dizer, não só com o sentimento, mas com obras. Este é o modo, disse: Perguntar-vos-ei: Tinha fome, e vós destes-me de comer quando assim estava faminto? Visitastes-me quando estava doente? (Cfr. Mt. 25, 34 ss.). O catecismo traduz estas e outras palavras da Bíblia no duplo catálogo das sete obras de misericórdia corporais e sete espirituais. O catálogo não é completo e convinha atualizá-lo. Entre os famintos, por exemplo, hoje não se trata só deste ou aquele indivíduo; são povos inteiros. Todos nos lembramos das notáveis palavras do Papa Paulo VI: "Os povos da fome dirigem-se hoje de modo dramático aos povos da opulência. A Igreja estremece perante este grito de angústia e convida cada um a responder com amor ao apelo do seu irmão" (Populorum Progressio, 3). Neste ponto, à caridade junta-se a justiça, porque — diz ainda Paulo VI — "a propriedade privada não constitui para ninguém um direito incondicional e absoluto. Ninguém tem direito de reservar para seu uso exclusivo aquilo que é supérfluo, quando a outros falta o necessário" (Ibid., 23). Por conseguinte, "torna-se escândalo intolerável... qualquer recurso exagerado aos armamentos" (Ibid., 53).
À luz destas vigorosas expressões vê-se quanto indivíduos e povos estão ainda longe de amar os outros "como a si mesmos", que é mandamento de Jesus.
Outro mandamento: perdôo as ofensas recebidas. A este perdão quase parece que o Senhor dá precedência sobre o culto: Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta (Mt. 5, 23-24).
As últimas palavras da oração são estas: ó Senhor, ame-vos eu cada vez mais. Também aqui há obediência a um mandamento de Deus, que estabeleceu no nosso coração a sede do progresso. Das palafitas, das cavernas e das primeiras cabanas passámos às casas, aos palácios e aos arranha-céus; das viagens a pé, e sobre o dorso de mula ou de camelo, aos carros, aos comboios e aos aviões. E deseja-se progredir ainda com meios cada vez mais rápidos, atingindo metas mais e mais altas: Mas amar a Deus — já o vimos - é também uma viagem: Deus quer que ela seja cada vez mais decidida e perfeita.
- João Paulo I
(Fonte: aqui) Tweet
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
A responsabilidade das católicas latino-americanas
"Nós, mulheres católicas do continente americano, somos conscientes que o fenômeno da pobreza (feminilização da pobreza), o novo 'holocausto ecológico', a violência, a violação aos direitos fundamentais de cada pessoa e tantas outras realidades que afetam discretamente as mulheres, as crianças, as populações indígenas e o meio ambiente, nos mantêm numa situação de escravidão.
Essa realidade nos demanda uma resposta a partir de uma espiritualidade profunda e radical no seguimento de Jesus, capaz de transformar essas realidades. (...)
Há uma urgente necessidade de repensar a espiritualidade a partir do paradigma ecológico e resgatar a tradição dos místicos que desenvolveram uma espiritualidade fundamentada numa teologia da criação. Tal teologia da criação inspira-se na consciência da inabitação trinitária de Deus em todas as realidades do ser humano (homem-mulher) com seu ser de criatura, e não como amo e senhor, pois este conduz a uma lógica de domínio e exploração que impede relações harmônicas de respeito, justiça e reconhecimento da dignidade dos demais seres.
A espiritualidade profética que tem caracterizado a Igreja latino-americana encontra novos modos e paradigmas de expressão em seu caminhar e estes novos caminhos são: uma espiritualidade ética de ecojustiça, a interculturalidade como caminho de diálogo e enriquecimento mútuo das diversas tradições e expressões religiosas, e a inclusão a partir da perspectiva da mulher, entre outros.
Este mundo global, empobrecido e violento, está urgindo por uma espiritualidade ecumênica que una suas forças para responder ao desafio profético cristão que demanda uma mudança de época. A expressão ecumênica da espiritualidade conduzir-nos-á a mantermos a firme esperança de que “outro mundo é possível”. A esperança ativa e comprometida da espiritualidade libertadora evitará cairmos no sem sentido ou no pessimismo apocalíptico próprio da afluência de diversos movimentos espiritualistas."
- Marilú Rojas, doutora em Teologia Sistemática pela Universidade Católica de Lovaina, professora de teologia na Universidade Ibero-Americana em Puebla, México e faz integrande da Associação de Teólogas Itinerantes
(Fonte aqui) Tweet
Pastor luterano defende a homoafetividade
Fonte: Facebook
Do Rev. Silvio Meincke, no blog Teologia Inclusiva:
No Dia da Igreja em Colônia, na Alemanha, trabalhei como voluntário e fui hospedado em casa particular. Meus hospedeiros eram gentis e atenciosos. Sua casa revela traços da personalidade dos moradores: gostam da beleza simples e prática, sem sofisticações, com critério na escolha e nada de consumismo exagerado. Percebi grande consciência ecológica na organização da casa, no uso de água e energia, na seleção do lixo ou nos cuidados do pequeno jardim. O modo como meus hospedeiros convivem e se comunicam revela atenção carinhosa, respeito e cuidado mútuos, como acontece entre casais que são felizes e se enriquecem mutuamente.
Meus hospedeiros são dois jovens homoafetivos. Prefiro essa palavra. Homoafetividade. O termo homossexualidade soa-me muito restrito à prática sexual física propriamente dita. Homoafetividade sugere uma relação muito mais ampla: homo-convivência, homo-partilha, homo-cuidado, homo-ternura, homo-realização como ser humano.
Os próprios envolvidos devem decidir sobre o termo que querem usar. Eu vou dizer homoafetividade. Também são eles que devem decidir se querem entender a sua homoafetividade como opção ou como condição.
Eu vou dizer que é uma condição humana, porque os jovens e do ensino confirmatório, da juventude evangélica e das escolas secundárias onde lecionei, quando me procuraram como pastor, sempre vieram desesperados ao descobrirem sua homoafetividade, e nenhum deles ou delas optou por isso. Descobriram-na e sofreram. Não contribuíram em nada para que fossem homoafetivos.
Não resta dúvida que cada grupo humano precisa criar regras de convivência, leis de conduta, normas de orientação, para que a vida em comunidade seja possível. Precisa encontrar consensos, escritos ou não, que possibilitam a vida organizada e feliz dentro do seu território, dentro do seu espaço de habitação - para dizê-lo com uma palavra grega, dentro do seu "étos". O conjunto dos regulamentos, costumes convencionados, consensos escritos ou não formam os valores "éticos" de uma sociedade.
Na medida em que os grupos humanos decidem como querem organizar sua convivência, também decidem como não querem viver. Existe até mesmo certa necessidade de distanciar-se dos que são diferentes, para firmar a própria identidade. Por exemplo, o povo de Israel declarou o porco impuro entre outros motivos para se diferenciar de outros povos que o adoravam como animal sagrado.
Infelizmente, essa necessidade de diferenciar-se acontece não raras vezes à custa de minorias numéricas para as quais se cria uma imagem de inimizade. Tal imagem se agiganta e pode adquirir formas de brutal discriminação, perseguição e eliminação.
Pessoas homoafetivas têm experimentado a discriminação no decorrer da história, às vezes, tornando-se bodes expiatórios para insucessos, fracassos e frustrações de todo um povo. Ainda que as pessoas homoafetivas não prejudiquem em nada a feliz convivência no "étos", a sina da discriminação insiste em persegui-los. Meus hospedeiros, por exemplo, em nada prejudicam a possibilidade de vida boa e feliz dos moradores de Colônia.
Seguidores de Jesus Cristo podem conhecer, nos seus ensinamentos e no seu procedimento, grandes exemplos de acolhimento, inclusão e fraternidade com as minorias discriminadas pela sociedade. Amplos setores das igrejas cristãs assimilaram essa mensagem de Jesus e procuram agir dentro do seu propósito de inclusão.
Tanto mais lamentável se mostra a discriminação praticada por certos grupos dentro das comunidades cristãs - geralmente grupos terrivelmente "fortes na fé" e que, por isso, julgam-se pessoas melhores do que as que não aderiram ao seu grupo. Não estariam esses grupos incorrendo no equívoco de criar bodes expiatórios para os seus próprios medos e preconceitos? Não estariam desconhecendo os propósitos de Jesus, em nome do qual alegam agir? Não estariam caindo no equívoco de George Bush que pretende prescrever a Deus quem são os seus inimigos, para destruí-los, em nome de Deus?
No entanto, os nossos inimigos não são os inimigos de Deus; os que nós consideramos merecedores de discriminação, Deus não os discrimina. Nem mesmo precisamos recorrer a alguma piedosa generosidade - aliás, sempre humilhante - e dizer que aceitamos em nosso meio as pessoas homoafetivas em nome do amor cristão. Melhor é tê-las em nosso meio espontaneamente, sem justificativas piedosas, simplesmente como semelhantes, que não trazem mais do que apenas outra condição afetiva. Melhor do que incluí-los generosamente depois de excluí-los primeiro, é nem chegar a excluí-los.
(Silvio Meincke é pastor emérito da Igreja Evangélica da Confissão Luterana Brasileira e reside na Alemanha.)
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terça-feira, 28 de agosto de 2012
Católicos americanos cantam por todos nós
Com legendas em português. :'-)
* * *
Como costumamos dizer em nossas reuniões: sejamos nós a Igreja que queremos ver no mundo. O que nos lembra, aliás, João Paulo I, em pronunciamento de setembro de 1978:
"Procuremos melhorar a Igreja, tornando-nos melhores. Cada um de nós, toda a Igreja, poderia rezar a oração que eu costumo rezar: Senhor, aceita-me como sou, com os meus defeitos, com as minhas faltas, mas faz que me torne como tu desejas. (...)"
(Via)
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segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Comer a carne e beber o sangue
A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Notre Dame du Web, comentando as leituras do 21° Domingo do Tempo Comum (26 de agosto de 2012). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara, e José J. Lara.
Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.
Referências bíblicas:
1ª leitura: Josué 24,1-2.15-18
2ª leitura: Ef 5,21-32
Evangelho: Jo 6,60-69
Intolerável, mas necessário. Estamos concluindo hoje a leitura do cap. 6 do evangelho de João ou, mais precisamente, a leitura dos discursos sobre o pão da vida e o dom da carne e do sangue. O pão, aqui, nos é mostrado como prova, da mesma forma que o maná tão presente neste capítulo (Ex 16,2-4). Os ouvintes irão se dividir entre crentes e não crentes. É que a ideia de comer a carne de um homem e beber o seu sangue é intolerável (v. 60). Mas não seria atenuando o texto que se faria um bom negócio. Para dizer a verdade, aquela frase do Sl 14,4 “quando comem seu pão é o meu povo que estão devorando” verifica-se todos os dias. Pessoas abastadas vivem da miséria, da fome e da morte de uma multidão de homens, mulheres e crianças que os nossos sistemas econômicos reduziram ao sofrimento e à míngua, no 3º mundo e em todos os “terceiros estados” ocidentais. E esta antropofagia assassina, velada e dissimulada, é generalizada. Pois esta carne e este sangue que, apesar deles, arrancamos dos homens é que o Cristo voluntariamente nos vem dar. Inútil dizer que isto não resolve o problema de nossas vítimas; isto simplesmente nos vem convocar a entrar na lógica deste dom total. Deus não impõe o amor com base na força; seria algo totalmente contraditório. Ele vem esboçar ante os nossos olhos a imagem desta via estreita, a única capaz de conduzir-nos à vida. Assim sendo, devemos primeiramente tomar a carne e o sangue que ele nos dá e, depois, fazer nosso o amor que comanda este dom.
Comer a carne e beber o sangue. Do mesmo modo que se haviam revoltado quando lhes revelara a sua origem, ao dizer-lhes de onde viera (Jo 6,41-42), também agora os interlocutores de Jesus revoltam-se quando Ele lhes revela para onde vai - quer dizer, para o Pai - mediante a Paixão. Jesus, em substância, lhes diz o seguinte: se ficaram chocados por lhes ter anunciado o dom da carne e do sangue, o que irão dizer então, quando tudo isto efetivamente vier a acontecer, quando virem o Filho do homem subir para onde estava antes? Explicando um pouco mais: o dom da carne e do sangue é para sempre, para todos os instantes, desde o começo. A cruz é disto uma revelação, é a hora em que os tempos se cumpriram. O que não impede que Jesus dirija a seus indignados ouvintes, palavras surpreendentes. De fato, muitas vezes lhes havia dito que, para viver, era preciso comer a sua carne. Pois agora lhes diz que “a carne não adianta nada”. Ora, com toda evidência, a palavra “carne” não tem aqui o mesmo sentido. Ainda há pouco, aplicava-se a Cristo enquanto homem solidário com a natureza, carregado da argila original (Gn 2,7); agora, a palavra se enche do sentido negativo que vemos em muitos textos: a inaptidão em se alcançar o espírito. Quando Jesus diz que suas palavras não são carne, mas espírito e vida, quer sem dúvida dar-nos a compreender que não se trata de comer materialmente a sua carne, o seu corpo. Hoje, sabemos que isto se realiza através de sinais. Portanto, esta carne que foi entregue não deve ser compreendida de modo carnal.
Ainda os dois discursos. Jesus, na visão de João, a partir de temas completamente diferentes, ensina coisas semelhantes. Apenas um exemplo: em 15,1-8, Ele explica longamente que, para viver, devemos permanecer n’Ele e Ele em nós. Ele é a vinha, nós os ramos; a seiva que vem Dele (pensemos no sangue) deve nos alimentar. Esta interioridade recíproca (Eu em vós, vós em mim) tem qualquer coisa a ver com o ato de comer a carne e beber o sangue. Ela só pode ser compreendida por quem aceitou o primeiro discurso, que nos diz que Cristo vem de Deus, é a presença de Deus. Mas isto, não basta. É preciso admitir ainda o dom da carne e do sangue. Olhemos mais de perto a resposta de Pedro quando Jesus pergunta aos 12 se também eles querem abandoná-lo. “A quem iremos? Só Tu tens palavra de vida eterna!” . Pedro compreende que não existe salvação possível se permanecemos fechados em nós mesmos; é preciso ir a outro, ir para o Outro. Ele, então, permanece com Jesus. Ótimo! Mas ele só havia entendido o primeiro discurso, não o segundo. Assim como em Cesaréia de Filipe (Mt 16,13-23), ele reconhece a origem do Cristo, mas permanece fechado para o futuro pascal. Ao menos, não faz a isso alusão alguma. Em verdade, a recusa ou esquecimento do segundo discurso revela não ter compreendido nem admitido totalmente o primeiro. Será preciso esperar Jo 21 para que Pedro se dirija sem reservas para Cristo. Nesta espera, se Jesus havia escolhido Pedro, Pedro, na verdade, não havia ainda escolhido Jesus. É aí que estamos todos nós. Tweet
domingo, 26 de agosto de 2012
Um Deus que se parece conosco
A reflexão é de Raymond Gravel, padre da arquidiocese de Quebec, Canadá, publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 21° Domingo do Tempo Comum (26 de agosto de 2012). A tradução é de Susana Rocca.
Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.
Referências bíblicas:
1ª leitura: Josué 24,1-2.15-18
2ª leitura: Ef 5,21-32
Evangelho: Jo 6,60-69
Hoje temos a conclusão do discurso sobre o Pão da Vida, no evangelho de São João. Especialmente, no final deste discurso, não assistimos somente à oposição dos judeus, isto é, dos que não reconhecem o Cristo, mas também à oposição dos discípulos mesmos, que não aceitam o que se fala sobre comer a carne e beber o sangue: “Depois que ouviram essas coisas, muitos discípulos de Jesus disseram: ‘Esse modo de falar é duro demais. Quem pode continuar ouvindo isso?’'"(Jo 6,60). Quer dizer que para os primeiros cristãos, na comunidade de João pelo menos, não havia unanimidade sobre o conteúdo da fé em Cristo Ressuscitado. Dentre os católicos dessa época havia adeptos ao docetismo, doutrina que ensinava que Cristo parecia ser homem, pois ele era Filho de Deus. Então, as questões que hoje precisamos nos fazer são as seguintes: O que rejeitam os discípulos exatamente? Onde estamos nós hoje, em nossa fé no Cristo da Páscoa?
1. A recusa dos discípulos. O evangelista João há pouco fez a Jesus dizer: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,54). O que quer dizer que é pela sua humanidade assumida até o fim que Jesus se torna Cristo, Senhor, Filho de Deus, e que é vivendo ao modo de sua vida, adotando seus comportamentos e seus valores, em resumo, assumindo a nossa própria humanidade, que nós podemos esperar ressuscitar como ele e tornarmos nós também filhos e filhas de Deus, os cristos ressuscitados.
No fundo, o Cristo do Evangelho nos fala de um Deus que se parece conosco. É difícil de aceitar, simplesmente porque é difícil admitir e crer que nosso Deus só se manifesta através da nossa humanidade, com toda sua fragilidade e finitude. Um Deus tão frágil como nós não nos interessa. Foi isso o que fez dizer Papa Bento XVI em seu livro sobre Jesus: “Não teria sido mais fácil nos elevarmos acima das contingências deste mundo para perceber em uma pacífica contemplação o mistério inefável?”.
Mas não está aí a fé cristã. Deus se fez encontrar e reconhecer através de um homem, Jesus de Nazaré, em uma época e em um momento preciso da história. O Papa continua: “Deus se aproximou tanto de nós que parece deixar de ser Deus por nós”. E ainda é o que faz a riqueza da nossa fé, a grandeza, a beleza e a dignidade dos discípulos de Cristo, no que eles são e no que eles estão chamados a tornar-se. Infelizmente, em todos os tempos, as mulheres e os homens tiveram dificuldade de se assumirem na sua humanidade, daí a recusa de crer na humanidade de Cristo: “A partir desse momento, muitos discípulos voltaram atrás, e não andavam mais com Jesus” (Jo 6,66).
2. Os discípulos de hoje. Onde estamos nós hoje? O que acontece com a nossa fé cristã? Com certeza, hoje, há muitos homens e muitas mulheres que não acreditam em Cristo, nem mesmo em um deus. Estas pessoas têm as suas razões e devem ser respeitadas. Mas os outros, aquelas e aqueles que acreditam, como se situam em relação a esse discurso de São João sobre o Pão da Vida? Às vezes, olhando a nossa Igreja, tenho a impressão de que os cristãos de hoje, como aqueles de ontem, têm dificuldade em aceitar viver a sua humanidade e crer que é através dela que Deus pode ainda falar e se comunicar.
É isso o que Jesus de Nazaré veio nos ensinar, mas preferimos contemplá-lo como Cristo Ressuscitado, Glorificado, Senhor da Glória, fechado nos tabernáculos das nossas igrejas ou exposto no altar em um ostensório dourado, mais do que vê-lo andar na estrada, comer com os pecadores, atender às prostitutas, perdoar e amar incondicionalmente. Temos tanta dificuldade para olhá-lo tal como ele foi na sua humanidade: um revolucionário, um reformador, um libertador, que criamos uma instituição religiosa que é mais parecida com a religião legalista do Antigo Testamento do que com a Igreja primitiva. Quando a doutrina se fixa no cimento e ela não responde mais à realidade humana contemporânea, e quando a regra e a disciplina estão antes que a pessoa humana a qual eles deveriam servir, e que os dirigentes da nossa Igreja se obstinam em não adaptar-se às novas realidades, podemos verdadeiramente dizer que nós nos recusamos, hoje, comer a carne e beber o sangue daquele de quem pretendemos ser seus discípulos e de que afirmamos querer seguir.
3. Reatualizar a mensagem. Na segunda leitura de hoje, nós temos um bonito exemplo de um texto bíblico que devemos reler à luz de nossa realidade contemporânea. Para fazer isso, precisamos situar o texto em nosso contexto histórico, reinterpretá-lo e reatualizá-lo, se nós queremos permanecer fiéis a seu autor e se queremos fazer nascer uma Palavra de Deus hoje. No tempo de São Paulo, a mulher era uma propriedade do seu marido, quase a sua escrava; ela não tinha nenhum direito. É por isso que na carta aos Efésios, quando Paulo faz o paralelo da relação homem/mulher com a relação Cristo/Igreja, ele utiliza a imagem de um casal da sua época. Por outro lado, podemos dizer verdadeiramente que ele estava adiante de seu tempo, pois exortava os homens a amarem sua esposa, o que não era costume na época. Além disso, ele se colocava ao seu serviço, como Cristo fez com a sua Igreja: “Maridos, amem suas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5,25).
Se hoje pedíssemos para as mulheres serem submissas aos maridos, tal proposta seria inaceitável, e nós não seríamos fiéis a São Paulo. É por isso, por questão de fidelidade a São Paulo, que devemos convidar a Igreja a reconhecer a igualdade homem/mulher, o que ele não faz, dois mil anos após ele. Se quisermos respeitar o espírito da carta aos Efésios, se quisermos fazer nascer uma Palavra nova de Deus que corresponda à nossa realidade contemporânea, precisaremos reler São Paulo reinterpretando-o e atualizando-o para o contexto atual. Infelizmente, neste domingo, alguns vão ler esse texto bíblico de forma literária somente, correndo o risco de chocar uma parte da assembleia. E outros vão deixá-lo passar em vez de descobrir a sua novidade e a interpelação que o seu autor sugere à Igreja atual.
Terminando, a questão posta aos Doze no evangelho de hoje: “Vocês também querem ir embora?” (Jo 6,67), à qual Simão Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68) é para nós que ela é dita agora. E não basta responder com uma frase já pronta que seja parecida à de Pedro. Porque aceitar seguir o caminho com Cristo é comer a sua carne e beber o seu sangue, isto é, assumir a nossa própria humanidade até o fim, nos inspirando nela e nos deixando transformar por esse Jesus da história, para nos tornarmos com ele o que ele próprio se tornou na Páscoa: o Cristo, o Senhor, o Filho de Deus. Tweet
sábado, 25 de agosto de 2012
Pergunta decisiva
A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 6, 60-69 que corresponde ao XXI Domingo do Tempo Comum, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.
Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.
O evangelho de João manteve a lembrança de uma forte crise entre os seguidores de Jesus. Não temos somente dados. Somente disse que aos discípulos resulta-lhes duro demais seu modo de falar. Provavelmente parece-lhes excessiva a adesão que reclama deles. Num determinado momento “muitos discípulos voltaram atrás”. Já não caminhavam com ele.
Pela primeira vez Jesus experimenta que suas palavras não têm a força desejada. No entanto, não se desdiz mas as reafirma ainda mais: “As palavras que eu disse a vocês são espírito e vida. Mas entre vocês há alguns que não acreditam”. Suas palavras parecem duras, mas transmitem vida, fazem viver pois contêm o Espírito de Deus.
Jesus não perde a paz. O fracasso não lhe inquieta. Dirigindo-se aos Doze lhes faz a pergunta decisiva: “Vocês também querem ir embora?”. Não quer retê-los pela força. Deixa-os em liberdade para decidir. Seus discípulos não devem ser servos mas amigos. Se quiserem podem voltar à sua casa.
Uma vez mais Pedro responde em nome de todos. Sua resposta é exemplar. Sincera, humilde, sensata, própria de um discípulo que conhece Jesus suficientemente para abandoná-lo. Sua atitude ainda hoje pode ajudar aqueles que, com uma fé, vacilante pensam prescindir de toda fé.
“A quem iremos Senhor?” Não tem sentido abandonar Jesus de qualquer forma, sem ter encontrado um Mestre melhor e mais convincente. Se eles não seguirem a Jesus, ficarão sem saber a quem seguir. Não devem se precipitar. Não é bom ficar sem luz nem guia na própria vida.
Pedro é mais realista. É bom abandonar Jesus sem ter encontrado uma esperança mais convincente e atrativa? Basta substituí-lo por um estilo de vida rebaixado, sem apenas metas nem horizonte? É melhor viver sem perguntas, sem enfoques, sem busca de nenhum tipo?
Há uma coisa que Pedro não esquece: “Tu tens palavras de vida eterna”. Ele sente que as palavras de Jesus não são vazias nem enganosas. Junto dele descobriram a vida de outra maneira. Sua mensagem lhes abriu para a vida eterna. Com que poderão substituir o Evangelho de Jesus? Onde poderão encontrar uma melhor Notícia de Deus?
Finalmente, Pedro lembra a experiência fundamental. Ao conviver com Jesus, eles descobriram o mistério que vem de Deus. Desde longe, à distância, desde a indiferença ou o desinteresse não se pode reconhecer o mistério que encerra Jesus. Os Doze o trataram de perto. Por isso podem dizer: “Nós cremos e sabemos”. Seguirão junto a Jesus. Tweet
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Gostaria que, em cada quarteirão, houvesse uma área verde
Charge: Carlos Ruas
De Leonardo Sakamoto, em seu blog:
“Vou preservar todas as igrejas, regularizando a situação delas, e gostaria que, em cada quarteirão, houvesse uma igreja pregando o amor ao próximo”, afirmou Celso Russomanno (PRB), primeiro colocado nas pesquisas de intenção de voto à Prefeitura de São Paulo, durante o ciclo de sabatinas UOL/Folha nesta quarta (22). “As pessoas não matam ou roubam porque a lei proíbe, mas porque têm uma linha religiosa. Existe igreja porque a população é temente a Deus, porque a população acredita.”
Antes de mais nada: defendo o direito ao livre culto, de qualquer crença, sendo contrário a qualquer forma de limitá-la (desde isso não cause danos ao direitos fundamentais de ninguém).
Eu gostaria que em cada quarteirão houvesse uma escola, uma quadra poliesportiva, um telecentro, um parquinho infantil, uma área verde, meia dúzia de maritacas e um casal de vira-latas caramelo ou um par de gatos bem preguiçosos. Quero espaços de convivência, de discussão, de compartilhamento, para poder conhecer o outro, independentemente se ele acredita em algo ou não, e assim entendê-lo.
Igrejas podem assumir esse papel de mediação, é claro. Mas não será necessariamente por sua natureza religiosa, mas por congregar, no mesmo espaço, gente diferente que estiver disposta a depor as armas e conhecer o que o outro tem a dizer.
Tenho visto cada vez mais candidatos pregarem a elevação do número de igrejas e templos como política pública para o combate a alguma coisa. O discurso de paz presente em parte desses locais contribui, é claro. Ao passo que o comportamento tacanho da bancada evangélica, defendendo projetos que levam à discriminação, no Congresso Nacional distancia.
Não é a fé em alguém que vai impedir que barbáries sejam cometidas, mas uma série de processos que incluem a efetividade da Justiça e a diminuição da desigualdade social. Até porque não sou rebanho para estar ungindo um pastor e sim cidadão que escolhe um prefeito.
Agir conforme as regras de convivência social não tem a ver necessariamente com linha religiosa (pelo contrário, roubar está na estrutura de muita gente que perverte religiões, comprando e vendendo o divino como se fosse camarão seco em barraca de feira). Não quero alguém que aja de forma civilizada porque é temente a algo e, por isso, viva com medo. Mas porque acredita que os outros têm os mesmos direitos para serem felizes que ele porque nasceram iguais em dignidade e compartilham da mesma raça humana.
Vale lembrar que, em nome de uma interpretação deturpada do cristianismo, grandes atrocidades têm sido cometidas. Por exemplo, seguidores de uma pretensa verdade divina taxam o comportamento alheio de pecado e condenam os diferentes a uma vida de inferno aqui na Terra.
Pessoas, como o pastor Silas Malafaia, dizem que não incitam a violência com seus sermões. Não é a sua mão que segura a faca, o revólver ou a lâmpada fluorescente, mas é a sobreposicão de seus argumentos ao longo do tempo que distorce o mundo e torna o ato de esfaquear, atirar e atacar banais. Ou, melhor dizendo, “necessários”, quase um pedido do céu. São pessoas assim que alimentam lentamente a intolerância, que depois será consumida pelos malucos que fazem o serviço sujo. A presença de igrejas não resolve o problema por si. É necessário algo mais.
Coloquemos a culpa na herança do patriarcalismo português, no Jardim do Éden e por aí vai. É mais fácil justificar que somos determinados pelo passado do que tentar romper com uma inércia que mantém homens, ricos, brancos, heterossexuais em cima e mulheres, pobres, negras e índias, homossexuais em baixo. A reflexão, aceitar conhecer o outro e entendê-lo, que é o caminho para a tolerância e para a percepção da própria exploração, é difícil para alguns. É mais fácil seguir a manada, ou melhor, o rebanho.
Não importa em quem vocês votam ou o que defendem para o Brasil, participem do debate, exijam de seus candidatos que mostrem as suas propostas políticas, econômicas, sociais sem tergiversar. Nem só de pão vive o homem – mas nem por isso ele deixa de ser importante. Afinal de contas, isso não é um conclave e sim uma eleição municipal.
Quero que se eleja um prefeito, não um pastor, padre ou freira. Que, uma vez eleitos, terão que fazer mais do que ir a culto ou uma missa. Tweet
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Teólogos propõem uma nova moralidade sexual
Em entrevista concedida à revista IHU On-Line (leia na íntegra aqui), os teólogos descrevem as seis dimensões fundamentais da antropologia expostas no livro.
"A primeira e mais fundamental dimensão é a mudança de ênfase na própria tradição católica que passou da pessoa sexual considerada primordialmente como pessoa procriadora para a pessoa sexual considerada primordialmente como pessoa relacional.
A segunda dimensão, que extrai percepções das ciências biológicas e sociais, é uma mudança na percepção da orientação heterossexual como normativa e a orientação homossexual ou bissexual como “objetivamente desordenada” – como ensina o magistério –, que passou para a concepção da orientação sexual – heterossexual, homossexual ou bissexual – como dimensão intrínseca da pessoa sexual e, portanto, “objetivamente ordenada” para a pessoa heterossexual, homossexual ou bissexual, respectivamente.
A terceira dimensão é uma compreensão holística e integrada da pessoa sexual considerada em termos relacionais, físicos, emocionais, psicológicos e espirituais.
A quarta dimensão postula um desejo fundamental das pessoas de estarem em relacionamento, incluindo o relacionamento sexual, com outra pessoa. Esse desejo se realiza num complexo de relacionamentos que o magistério designa como complementaridade. Complementaridade quer dizer que certas realidades formam uma unidade e produzem um todo que nenhuma delas produz sozinha.
Na descrição do magistério, a complementaridade sexual aponta para o matrimônio heterossexual como o relacionamento sexual estável exclusivo entre um homem e uma mulher.
A quinta dimensão expande a descrição da complementaridade sexual por parte do magistério indo além do casamento heterossexual entre homem e mulher e postulando um desejo fundamental de complementaridade holística na pessoa sexual ao integrar a orientação sexual como uma dimensão intrínseca da antropologia sexual. A complementaridade holística inclui a orientação sexual, a complementaridade pessoal e biológica e a integração e manifestação de todas as três na pessoa sexual.
A sexta dimensão postula que “atos sexuais verdadeiramente humanos” realizam as pessoas sexuais. Um ato sexual verdadeiramente humano é um ato em concordância com a orientação sexual de uma pessoa que facilita uma valorização, integração e partilha mais profunda do si-mesmo (self) corporificado da pessoa com outro si-mesmo corporificado tanto em amor como em justiça (amor justo)".
Segundo os teólogos, "a conclusão normativa que se segue dessas seis dimensões antropológicas da pessoa sexual é a seguinte: alguns atos homossexuais e heterossexuais, aqueles que cumprem as exigências de complementaridade holística e amor justo, são verdadeiramente humanos e morais; e alguns atos homossexuais e heterossexuais, aqueles que não cumprem as exigências de complementaridade holística e amor justo, não são verdadeiramente humanos e são imorais". Tweet
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Boicote à reza ‘desastrada’ na França
Progressistas se rebelam e se recusam a pregar o sermão anticasamento gay
PARIS — Alguns prelados rebeldes desobedeceram a recomendação da Conferência dos Bispos da França e se recusaram a pregar o sermão anticasamento gay em suas paróquias. Na Igreja Saint-Merri, no bairro de Marais, em Paris, o padre Jacques Mérienne foi um dos que criticaram a iniciativa do cardeal André Vingt-Trois, e preferiu ler um texto redigido a partir de relatos da vida dos paroquianos.
- É uma pena que haja um prejulgamento no debate em torno do casamento homossexual. A prece enviada aos cristãos se tornou um panfleto para os cidadãos. Os homossexuais são acolhidos na nossa igreja da mesma forma que outros grupos, numa perfeita hospitalidade - disse.
Sua paróquia costuma reservar uma sexta-feira por mês para as orações do grupo de homossexuais cristãos David & Jonathan, favorável à união de pessoas de mesmo sexo e à adoção por casais gays. Elisabeth Saint-Guily, dirigente da associação, condenou o “ataque da hierarquia católica” em pleno feriado e defendeu uma estratégia de “diálogo em âmbito local” sobre o tema.
- Promovemos um trabalho de educação e sensibilização. Há muito desconhecimento, então organizamos conferências para informar. É anticristão rejeitar alguém por sua orientação sexual. Na Bíblia, existem muitas maneiras de se formar uma família - disse.
O padre Michel Lelong, que oficia no bairro de Ternes, em Paris, também boicotou a reza por considerá-la “desastrada”.
- Penso que uma oração não é o meio de abordar problemas muito delicados, que provocam debate na França - justificou.
Jacques Gaillot, ex-bispo de Evreux, denunciou uma “cruzada anticasamento homossexual” por parte da Igreja. Na diocese de Saint-Denis, em Seine-Saint-Denis, o padre Bernard Berger revelou seu “desacordo” com o sermão oficial.
- A Igreja está fazendo política, e este não é o seu papel - criticou.
Embora tenha ocorrido sem incidentes, a procissão fluvial no Rio Sena, que abriu as festividades do feriado religioso anteontem após missa celebrada na catedral de Notre-Dame, foi recebida com algumas vaias no percurso.
Fonte:
O Globo
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Madonna faz protesto inclusivo na Rússia
Reproduzo o texto abaixo para que fique claro em que contexto Madonna fez esse protesto:
Madonna voltou a aproveitar um concerto na Rússia para criticar as autoridades russas. Desta vez, em São Petersburgo, durante a atuação desta quinta-feira, a cantora apelou à defesa dos direitos dos homossexuais.
«Queremos lutar pelo direito à liberdade», disse Madonna a uma plateia que exibiu braceletes cor-de-rosa entregues à entrada do recinto.
Madonna insurgiu-se contra uma lei recentemente aprovada em São Petersburgo que proíbe a «promoção pública da homossexualidade».
Segundo a agência Reuters, as autoridades russas têm proibido desfiles e manifestações de defesa dos direitos dos gays e lésbicas «por danificar a saúde, a moral e o desenvolvimento espiritual dos menores de idade».
Na prática, esta lei torna clandestino qualquer tipo de demonstração pública de afeto entre casais homossexuais. A homossexualidade era punida com pena prisão durante os tempos da União Soviética, mas foi descriminalizada em 1993 com o fim do regime comunista.
No entanto, a comunidade gay e lésbica na Rússia continua a ser alvo ativo do preconceito numa sociedade onde a igreja ortodoxa, que considera os homossexuais «doentes», tem uma forte influência.
Madonna acaba assim por aproveitar os seus dois concertos na Rússia para chamar a atenção para dois temas que considera essenciais. Na terça-feira, pediu que as três Pussy Riot, acusadas de vandalismo e incitamento ao ódio religioso, fossem libertadas.
Fonte: IOL Música
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quarta-feira, 8 de agosto de 2012
VISÕES ECLESIÁSTICAS DAS UNIÕES HOMOSSEXUAIS
CORREIO MFC BRASIL Nº 291
"Woelki reconheceu que a Igreja vê o relacionamento entre um homem e uma mulher como base para a criação, mas acrescentou que é hora de pensar mais sobre a atitude da Igreja com respeito às relações do mesmo sexo".
Falando na 98º Katholikentag, uma conferência que reuniu 60 mil católicos em Mannheim, Woelki se juntou a um crescente coro de vozes episcopais que estão clamando por uma mudança na recusa tradicionalmente absolutista da hierarquia a reconhecer a bondade moral das relações lésbicas e gays.
Em dezembro passado, o arcebispo Vincent Nichols, de Londres, ganhou as manchetes ao apoiar as uniões civis para casais de lésbicas e gays no Reino Unido. Naquele mesmo mês, o padre Frank Brennan, jesuíta estudioso de Direito na Austrália, também pediu o reconhecimento similar para os relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. Em janeiro, Dom Paolo Urso, bispo de Ragusa, Itália, também pediu o reconhecimento das uniões civis em seu país.
O mês de março de 2012 assistiu a uma explosão de questionamentos de prelados à proibição da hierarquia acerca da igualdade do casamento. No 7º Simpósio Nacional da New Ways Ministry, Dom Geoffrey Robinson, bispo australiano, pediu um total reexame da ética sexual católica para permitir, dentre outras coisas, a aprovação moral dos relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. A diocese de Manchester, em New Hampshire, apoiou um projeto de lei que legaliza as uniões civis (embora como uma medida paliativa para evitar a igualdade com o casamento).
Dom Richard Malone, bispo de Portland, Maine, anunciou que a diocese não assumiria um papel ativo na oposição do próximo referendo do Estado sobre a igualdade do casamento, como havia feito em 2009. Na Itália, o cardeal Carlo Maria Martini, de Milão, afirmou em seu livro Credere e Conoscere (Crer e conhecer), que "eu não compartilho as posições daqueles que, na Igreja, criticam as uniões civis" (homossexuais).
Embora a oposição à igualdade do casamento por parte da hierarquia, especialmente nos EUA, ainda seja grande e forte, é significativo que essas recentes declarações estejam todas desenvolvendo um tema similar de ao menos algum reconhecimento do valor intrínseco das relações lésbicas e gays, assim como da necessidade de proteção civil a elas.
Fonte:
Correio MFC Brasil
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sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Balaio de ódio aderente: LGBTs, baratas e apocalipse.

Em toda comunidade há paradigmas sociais que envolvem comportamento,
vestuário, linguagem, regras de convivência, normas jurídicas, questões
de estética e muitas outras. Fica, então, estabelecido o conflito: de um
lado os que desejam manter as coisas como estão e do outro, os que
querem mudá-las. De um lado os conservadores, moralistas defensores de
uma idealizada e única moral e de cristalizados bons costumes. De outro
os progressistas, defensores de moralidades relativas e plurais e
costumes sempre negociáveis e diversificados. De um lado os que entram
em pânico com a possiblidade de mudança do que acreditam ser o melhor.
De outro, os que, por não apresentarem um comportamento convencional,
por serem desviantes de uma norma imposta, sofrem julgamentos
irracionais, reações exageradas e são alvos de ações e discursos
exasperados e descabidos e ataques falaciosamente justificados por uma
ameaça imaginária de destruição. Está estabelecido o pânico moral, que
ocorre justamente a partir dos confrontos entre o idealizado, o modelo
vigente e as demandas de grupos sociais diversos que não se enquadram no
estabelecido e vão provocando alterações nas normas e demais padrões. E
é nesta dinâmica que diversos grupos discriminados estiveram e
eventualmente voltam a estar em evidência.
Conflitos são sempre esperados, afinal,
vivendo em sociedade, é um processo absolutamente inerente ao próprio
convívio estarmos sempre negociando o que é ou não tolerável, plenamente
aceito ou execrável. No momento, nós LGBTs somos agraciados em três
grupos: alguns nos toleram, outros aceitam plenamente e há os nossos
maiores algozes, os que nos consideram execráveis. Estes últimos fazendo
o possível para promover hostilidade contra nós e tentando nos
segregar, eliminar ou tornar invisíveis, a partir do cerceamento dos
nossos direitos e mesmo através da criação de leis que nos apartem e nos
imobilizem, ainda mais, social e juridicamente. Fazem parecer que os
maiores problemas morais são causados justamente pela falta de maior
controle de nós transgressores, e diante de uma possível aniquilação da
ordem moral conhecida e aceita, todos concordam que alguma coisa deve
ser feita e que, portanto, é necessário apertar mais o cerco, ser mais
firme, limitar mais nossas ações. Estas pessoas inescrupulosas conseguem
fazer de nós a cola que une nossos algozes nos tornando odiosos.
Cria-se um ódio comum, um ódio que vai aderindo e fazendo aderir
incautos, conservadores e moralistas.
O discurso de ódio destaca nossa
sexualidade sobre todas as outras características e como uma sexualidade
doentia, descontrolada, perniciosa. Somos a bola da vez, somos o
inimigo público número um do momento. E para variar em nada, nadinha
mesmo, somos o anúncio do apocalipse. Somos o prenúncio do fim das
famílias, da extinção do ser humano, do extermínio da humanidade. E em
uma sociedade crédula no fim do mundo por castigo divino, não é
necessário nenhum outro motivo para nos temerem. Além disso,
inescrupulosamente, nos associam à pedofilia, razão para nos
considerarem criaturas repulsivas. E assim vamos sendo feitos de alvo,
de pragas a serem exterminadas, odiosas e asquerosas como baratas.
Gente, ou melhor, coisas abjetas das quais precisam se livrar. Bichos
asquerosos que vão adentrando todos os espaços e que eventualmente tocam
os humanos e suas crianças e ainda tentam aliciá-las
sexualmente. Pervertidos, pedófilos, zoófilos, sem-caráter,
transmissores de doenças. Motivos inventados, mas suficientes e eficazes
para que sejamos considerados merecedores de perseguição, aparte e
aniquilação.
Fragoroso fracasso. Se por um lado os
grupos hegemônicos se promovem, seja financeira, social e moralmente, à
custa de nossa comunidade, por outro lado colocam nosso grupo no centro
das atenções, sob os holofotes, que mesmo sendo de nossos inquisidores,
nos proporciona sermos vistos e ouvidos, nos dando oportunidade de
desmenti-los e de mostrarmos outra vida possível, outras formas de
existir e, fundamentalmente, de coexistir. Se com nosso avanço e nossa
maior visibilidade, nos tornamos o alvo da vez por um lado, por outro
também somos, neste momento, o grupo social que fará avançar toda a
sociedade em relação a direitos civis. Nossa luta não é exclusivamente
individual, é também coletiva, não somente por uma vida melhor ou por
nosso próprio grupo, mas por toda uma sociedade e inteiramente mais
justa.
Fonte:
Tweet
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
O que significou o beijo lésbico na abertura dos Jogos Olímpicos de Londres
Cena do beijo lésbico na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres (Reprodução)
Percebe-se que a tal polêmica sobre o beijo gay na TV brasileira não tem nada de inócua. Mesmo estando, talvez, muito no terreno das ideologias do que no campo estético, é um claro sinal da mudança das mentalidades.
Mas voltando ao beijo olímpico, o que nos interessa que os ingleses com sua anarquia e ironia, acabaram promovendo uma imagem positiva dos gays que acabou sendo transmitida para muitos países que ainda consideram a homossexualidade um crime ou ainda para o nosso querido Brasil, com um alto índice de agressões homofóbicas e um total descaso com esta situação.
No caso “brasilis”, o mais interessante é que foi a Record, a emissora dos bispos como é conhecida, ligada a um segmento de religiosos intolerantes em relação à homossexualidade que teve que transmitir ao vivo a anarquia inglesa.
Aliás, foi uma abertura sincronizada com a ideia de civilização, que os britânicos tanto prezam. O casal de um dos blocos mais pop da cerimônia olímpica era negro – aliás no mesmo que surgiu o beijo gay -, cadeirantes dançavam no meio dos dançarinos e até as junkies protagonistas do seriado Absolutely Fabulous, as atrizes Jennifer Saunders e Joanna Lumley apareceram. Elas protagonizaram mais um exemplo do chamado humor inglês ao acender um cigarro com a tocha olímpica.
Enfim, foi o exemplo que uma sociedade realmente democrática é inclusiva, a civilização é sinal de respeito às diversidades de sua população.
Dilma Rousseff na plateia do Estádio Olímpico de Stratford deve ter visto tudo isto. Ela, que tem vetado sistematicamente políticas de afirmação para os gays, colocado questões importantes para o debate das mulheres como o aborto de lado ou pouco feito para os movimentos sociais, veja o caso de sua omissão criminosa em Pinheirinho, deve entender que um país desenvolvido não é só eliminar a miséria econômica, mas principalmente a educacional e espitirual.
A presidente declarou que fará uma abertura melhor que a de Londres, então é bom ela correr, não só para as obras de infraestruturas e construções, isto é de menos. Os ingleses fizeram uma festa incrível e mostraram o que é civilização, humanismo e tolerância em sua abertura e isto não se paga com os PACs da vida ou com uma macumba para turistas com escola de samba e um punhado de mulatas.
É bom Dilma, que para uma abertura ser melhor que a de Londres, isto é, mais humana, é preciso que se faça um avanço real aos direitos das minorias e para uma verdadeira ideia de civilização afirmativa diversa que ainda estamos longe de sermos.
Fonte:
Blogay
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Diversidade Maravilhosa - Na Cobertura do Nosso Evento

Como divulgamos exaustivamente nos meses de Abril e Maio, em
Junho realizamos um evento na UniRio chamado O Amor de Cristo nos Uniu, veja aqui.
O site Diversidade Maravilhosa fez a cobertura do evento e
entrevistou o nosso grupo pela fala da Cristiana Serra, o James Alison (Padre
Católico, teólogo e escritor) e o Pastor Marcio Retamero.
Confira a entrevista feita pelo site que resume bastante o
dia do evento e expõe de forma muito clara o nosso trabalho e pontos de vista:
Abaixo a fala da Cristiana Serra citada na entrevista:
Um excelente dia e muito obrigado ao Diversidade Maravilhosa por nos ajudar a aclarar nossas ideias.
Equipe Diversidade Católica
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