domingo, 26 de agosto de 2012

Um Deus que se parece conosco


A reflexão é de Raymond Gravel, padre da arquidiocese de Quebec, Canadá, publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 21° Domingo do Tempo Comum (26 de agosto de 2012). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Referências bíblicas:
1ª leitura: Josué 24,1-2.15-18
2ª leitura: Ef 5,21-32
Evangelho: Jo 6,60-69

Hoje temos a conclusão do discurso sobre o Pão da Vida, no evangelho de São João. Especialmente, no final deste discurso, não assistimos somente à oposição dos judeus, isto é, dos que não reconhecem o Cristo, mas também à oposição dos discípulos mesmos, que não aceitam o que se fala sobre comer a carne e beber o sangue: “Depois que ouviram essas coisas, muitos discípulos de Jesus disseram: ‘Esse modo de falar é duro demais. Quem pode continuar ouvindo isso?’'"(Jo 6,60). Quer dizer que para os primeiros cristãos, na comunidade de João pelo menos, não havia unanimidade sobre o conteúdo da fé em Cristo Ressuscitado. Dentre os católicos dessa época havia adeptos ao docetismo, doutrina que ensinava que Cristo parecia ser homem, pois ele era Filho de Deus. Então, as questões que hoje precisamos nos fazer são as seguintes: O que rejeitam os discípulos exatamente? Onde estamos nós hoje, em nossa fé no Cristo da Páscoa?

1. A recusa dos discípulos. O evangelista João há pouco fez a Jesus dizer: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,54). O que quer dizer que é pela sua humanidade assumida até o fim que Jesus se torna Cristo, Senhor, Filho de Deus, e que é vivendo ao modo de sua vida, adotando seus comportamentos e seus valores, em resumo, assumindo a nossa própria humanidade, que nós podemos esperar ressuscitar como ele e tornarmos nós também filhos e filhas de Deus, os cristos ressuscitados.

No fundo, o Cristo do Evangelho nos fala de um Deus que se parece conosco. É difícil de aceitar, simplesmente porque é difícil admitir e crer que nosso Deus só se manifesta através da nossa humanidade, com toda sua fragilidade e finitude. Um Deus tão frágil como nós não nos interessa. Foi isso o que fez dizer Papa Bento XVI em seu livro sobre Jesus: “Não teria sido mais fácil nos elevarmos acima das contingências deste mundo para perceber em uma pacífica contemplação o mistério inefável?”.

Mas não está aí a fé cristã. Deus se fez encontrar e reconhecer através de um homem, Jesus de Nazaré, em uma época e em um momento preciso da história. O Papa continua: “Deus se aproximou tanto de nós que parece deixar de ser Deus por nós”. E ainda é o que faz a riqueza da nossa fé, a grandeza, a beleza e a dignidade dos discípulos de Cristo, no que eles são e no que eles estão chamados a tornar-se. Infelizmente, em todos os tempos, as mulheres e os homens tiveram dificuldade de se assumirem na sua humanidade, daí a recusa de crer na humanidade de Cristo: “A partir desse momento, muitos discípulos voltaram atrás, e não andavam mais com Jesus” (Jo 6,66).

2. Os discípulos de hoje. Onde estamos nós hoje? O que acontece com a nossa fé cristã? Com certeza, hoje, há muitos homens e muitas mulheres que não acreditam em Cristo, nem mesmo em um deus. Estas pessoas têm as suas razões e devem ser respeitadas. Mas os outros, aquelas e aqueles que acreditam, como se situam em relação a esse discurso de São João sobre o Pão da Vida? Às vezes, olhando a nossa Igreja, tenho a impressão de que os cristãos de hoje, como aqueles de ontem, têm dificuldade em aceitar viver a sua humanidade e crer que é através dela que Deus pode ainda falar e se comunicar.

É isso o que Jesus de Nazaré veio nos ensinar, mas preferimos contemplá-lo como Cristo Ressuscitado, Glorificado, Senhor da Glória, fechado nos tabernáculos das nossas igrejas ou exposto no altar em um ostensório dourado, mais do que vê-lo andar na estrada, comer com os pecadores, atender às prostitutas, perdoar e amar incondicionalmente. Temos tanta dificuldade para olhá-lo tal como ele foi na sua humanidade: um revolucionário, um reformador, um libertador, que criamos uma instituição religiosa que é mais parecida com a religião legalista do Antigo Testamento do que com a Igreja primitiva. Quando a doutrina se fixa no cimento e ela não responde mais à realidade humana contemporânea, e quando a regra e a disciplina estão antes que a pessoa humana a qual eles deveriam servir, e que os dirigentes da nossa Igreja se obstinam em não adaptar-se às novas realidades, podemos verdadeiramente dizer que nós nos recusamos, hoje, comer a carne e beber o sangue daquele de quem pretendemos ser seus discípulos e de que afirmamos querer seguir.

3. Reatualizar a mensagem. Na segunda leitura de hoje, nós temos um bonito exemplo de um texto bíblico que devemos reler à luz de nossa realidade contemporânea. Para fazer isso, precisamos situar o texto em nosso contexto histórico, reinterpretá-lo e reatualizá-lo, se nós queremos permanecer fiéis a seu autor e se queremos fazer nascer uma Palavra de Deus hoje. No tempo de São Paulo, a mulher era uma propriedade do seu marido, quase a sua escrava; ela não tinha nenhum direito. É por isso que na carta aos Efésios, quando Paulo faz o paralelo da relação homem/mulher com a relação Cristo/Igreja, ele utiliza a imagem de um casal da sua época. Por outro lado, podemos dizer verdadeiramente que ele estava adiante de seu tempo, pois exortava os homens a amarem sua esposa, o que não era costume na época. Além disso, ele se colocava ao seu serviço, como Cristo fez com a sua Igreja: “Maridos, amem suas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5,25).

Se hoje pedíssemos para as mulheres serem submissas aos maridos, tal proposta seria inaceitável, e nós não seríamos fiéis a São Paulo. É por isso, por questão de fidelidade a São Paulo, que devemos convidar a Igreja a reconhecer a igualdade homem/mulher, o que ele não faz, dois mil anos após ele. Se quisermos respeitar o espírito da carta aos Efésios, se quisermos fazer nascer uma Palavra nova de Deus que corresponda à nossa realidade contemporânea, precisaremos reler São Paulo reinterpretando-o e atualizando-o para o contexto atual. Infelizmente, neste domingo, alguns vão ler esse texto bíblico de forma literária somente, correndo o risco de chocar uma parte da assembleia. E outros vão deixá-lo passar em vez de descobrir a sua novidade e a interpelação que o seu autor sugere à Igreja atual.

Terminando, a questão posta aos Doze no evangelho de hoje: “Vocês também querem ir embora?” (Jo 6,67), à qual Simão Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68) é para nós que ela é dita agora. E não basta responder com uma frase já pronta que seja parecida à de Pedro. Porque aceitar seguir o caminho com Cristo é comer a sua carne e beber o seu sangue, isto é, assumir a nossa própria humanidade até o fim, nos inspirando nela e nos deixando transformar por esse Jesus da história, para nos tornarmos com ele o que ele próprio se tornou na Páscoa: o Cristo, o Senhor, o Filho de Deus.

sábado, 25 de agosto de 2012

Pergunta decisiva


A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 6, 60-69 que corresponde ao XXI Domingo do Tempo Comum, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.

O evangelho de João manteve a lembrança de uma forte crise entre os seguidores de Jesus. Não temos somente dados. Somente disse que aos discípulos resulta-lhes duro demais seu modo de falar. Provavelmente parece-lhes excessiva a adesão que reclama deles. Num determinado momento “muitos discípulos voltaram atrás”. Já não caminhavam com ele.

Pela primeira vez Jesus experimenta que suas palavras não têm a força desejada. No entanto, não se desdiz mas as reafirma ainda mais: “As palavras que eu disse a vocês são espírito e vida. Mas entre vocês há alguns que não acreditam”. Suas palavras parecem duras, mas transmitem vida, fazem viver pois contêm o Espírito de Deus.

Jesus não perde a paz. O fracasso não lhe inquieta. Dirigindo-se aos Doze lhes faz a pergunta decisiva: “Vocês também querem ir embora?”. Não quer retê-los pela força. Deixa-os em liberdade para decidir. Seus discípulos não devem ser servos mas amigos. Se quiserem podem voltar à sua casa.

Uma vez mais Pedro responde em nome de todos. Sua resposta é exemplar. Sincera, humilde, sensata, própria de um discípulo que conhece Jesus suficientemente para abandoná-lo. Sua atitude ainda hoje pode ajudar aqueles que, com uma fé, vacilante pensam prescindir de toda fé.

“A quem iremos Senhor?” Não tem sentido abandonar Jesus de qualquer forma, sem ter encontrado um Mestre melhor e mais convincente. Se eles não seguirem a Jesus, ficarão sem saber a quem seguir. Não devem se precipitar. Não é bom ficar sem luz nem guia na própria vida.

Pedro é mais realista. É bom abandonar Jesus sem ter encontrado uma esperança mais convincente e atrativa? Basta substituí-lo por um estilo de vida rebaixado, sem apenas metas nem horizonte? É melhor viver sem perguntas, sem enfoques, sem busca de nenhum tipo?

Há uma coisa que Pedro não esquece: “Tu tens palavras de vida eterna”. Ele sente que as palavras de Jesus não são vazias nem enganosas. Junto dele descobriram a vida de outra maneira. Sua mensagem lhes abriu para a vida eterna. Com que poderão substituir o Evangelho de Jesus? Onde poderão encontrar uma melhor Notícia de Deus?

Finalmente, Pedro lembra a experiência fundamental. Ao conviver com Jesus, eles descobriram o mistério que vem de Deus. Desde longe, à distância, desde a indiferença ou o desinteresse não se pode reconhecer o mistério que encerra Jesus. Os Doze o trataram de perto. Por isso podem dizer: “Nós cremos e sabemos”. Seguirão junto a Jesus.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Gostaria que, em cada quarteirão, houvesse uma área verde

Charge: Carlos Ruas

De Leonardo Sakamoto, em seu blog:

“Vou preservar todas as igrejas, regularizando a situação delas, e gostaria que, em cada quarteirão, houvesse uma igreja pregando o amor ao próximo”, afirmou Celso Russomanno (PRB), primeiro colocado nas pesquisas de intenção de voto à Prefeitura de São Paulo, durante o ciclo de sabatinas UOL/Folha nesta quarta (22). “As pessoas não matam ou roubam porque a lei proíbe, mas porque têm uma linha religiosa. Existe igreja porque a população é temente a Deus, porque a população acredita.”

Antes de mais nada: defendo o direito ao livre culto, de qualquer crença, sendo contrário a qualquer forma de limitá-la (desde isso não cause danos ao direitos fundamentais de ninguém).

Eu gostaria que em cada quarteirão houvesse uma escola, uma quadra poliesportiva, um telecentro, um parquinho infantil, uma área verde, meia dúzia de maritacas e um casal de vira-latas caramelo ou um par de gatos bem preguiçosos. Quero espaços de convivência, de discussão, de compartilhamento, para poder conhecer o outro, independentemente se ele acredita em algo ou não, e assim entendê-lo.

Igrejas podem assumir esse papel de mediação, é claro. Mas não será necessariamente por sua natureza religiosa, mas por congregar, no mesmo espaço, gente diferente que estiver disposta a depor as armas e conhecer o que o outro tem a dizer.

Tenho visto cada vez mais candidatos pregarem a elevação do número de igrejas e templos como política pública para o combate a alguma coisa. O discurso de paz presente em parte desses locais contribui, é claro. Ao passo que o comportamento tacanho da bancada evangélica, defendendo projetos que levam à discriminação, no Congresso Nacional distancia.

Não é a fé em alguém que vai impedir que barbáries sejam cometidas, mas uma série de processos que incluem a efetividade da Justiça e a diminuição da desigualdade social. Até porque não sou rebanho para estar ungindo um pastor e sim cidadão que escolhe um prefeito.

Agir conforme as regras de convivência social não tem a ver necessariamente com linha religiosa (pelo contrário, roubar está na estrutura de muita gente que perverte religiões, comprando e vendendo o divino como se fosse camarão seco em barraca de feira). Não quero alguém que aja de forma civilizada porque é temente a algo e, por isso, viva com medo. Mas porque acredita que os outros têm os mesmos direitos para serem felizes que ele porque nasceram iguais em dignidade e compartilham da mesma raça humana.

Vale lembrar que, em nome de uma interpretação deturpada do cristianismo, grandes atrocidades têm sido cometidas. Por exemplo, seguidores de uma pretensa verdade divina taxam o comportamento alheio de pecado e condenam os diferentes a uma vida de inferno aqui na Terra.

Pessoas, como o pastor Silas Malafaia, dizem que não incitam a violência com seus sermões. Não é a sua mão que segura a faca, o revólver ou a lâmpada fluorescente, mas é a sobreposicão de seus argumentos ao longo do tempo que distorce o mundo e torna o ato de esfaquear, atirar e atacar banais. Ou, melhor dizendo, “necessários”, quase um pedido do céu. São pessoas assim que alimentam lentamente a intolerância, que depois será consumida pelos malucos que fazem o serviço sujo. A presença de igrejas não resolve o problema por si. É necessário algo mais.

Coloquemos a culpa na herança do patriarcalismo português, no Jardim do Éden e por aí vai. É mais fácil justificar que somos determinados pelo passado do que tentar romper com uma inércia que mantém homens, ricos, brancos, heterossexuais em cima e mulheres, pobres, negras e índias, homossexuais em baixo. A reflexão, aceitar conhecer o outro e entendê-lo, que é o caminho para a tolerância e para a percepção da própria exploração, é difícil para alguns. É mais fácil seguir a manada, ou melhor, o rebanho.

Não importa em quem vocês votam ou o que defendem para o Brasil, participem do debate, exijam de seus candidatos que mostrem as suas propostas políticas, econômicas, sociais sem tergiversar. Nem só de pão vive o homem – mas nem por isso ele deixa de ser importante. Afinal de contas, isso não é um conclave e sim uma eleição municipal.

Quero que se eleja um prefeito, não um pastor, padre ou freira. Que, uma vez eleitos, terão que fazer mais do que ir a culto ou uma missa.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Teólogos propõem uma nova moralidade sexual


"Extraindo percepções da tradição católica, da Escritura, das disciplinas seculares do conhecimento moral e da experiência humana, há seis dimensões fundamentais da antropologia católica renovada no livro A pessoa sexual", explicam os teólogos Todd Salzman e Michael Lawler, professores do departamento de Teologia de Universidade Creighton, nos Estados Unidos. Eles são os autores do livro A pessoa sexual (original inglês: The sexual person), publicado pela Editora Unisinos, 2012.

Em entrevista concedida à revista IHU On-Line (leia na íntegra aqui), os teólogos descrevem as seis dimensões fundamentais da antropologia expostas no livro.

"A primeira e mais fundamental dimensão é a mudança de ênfase na própria tradição católica que passou da pessoa sexual considerada primordialmente como pessoa procriadora para a pessoa sexual considerada primordialmente como pessoa relacional.

A segunda dimensão, que extrai percepções das ciências biológicas e sociais, é uma mudança na percepção da orientação heterossexual como normativa e a orientação homossexual ou bissexual como “objetivamente desordenada” – como ensina o magistério –, que passou para a concepção da orientação sexual – heterossexual, homossexual ou bissexual – como dimensão intrínseca da pessoa sexual e, portanto, “objetivamente ordenada” para a pessoa heterossexual, homossexual ou bissexual, respectivamente.

A terceira dimensão é uma compreensão holística e integrada da pessoa sexual considerada em termos relacionais, físicos, emocionais, psicológicos e espirituais.

A quarta dimensão postula um desejo fundamental das pessoas de estarem em relacionamento, incluindo o relacionamento sexual, com outra pessoa. Esse desejo se realiza num complexo de relacionamentos que o magistério designa como complementaridade. Complementaridade quer dizer que certas realidades formam uma unidade e produzem um todo que nenhuma delas produz sozinha.

Na descrição do magistério, a complementaridade sexual aponta para o matrimônio heterossexual como o relacionamento sexual estável exclusivo entre um homem e uma mulher.

A quinta dimensão expande a descrição da complementaridade sexual por parte do magistério indo além do casamento heterossexual entre homem e mulher e postulando um desejo fundamental de complementaridade holística na pessoa sexual ao integrar a orientação sexual como uma dimensão intrínseca da antropologia sexual. A complementaridade holística inclui a orientação sexual, a complementaridade pessoal e biológica e a integração e manifestação de todas as três na pessoa sexual.

A sexta dimensão postula que “atos sexuais verdadeiramente humanos” realizam as pessoas sexuais. Um ato sexual verdadeiramente humano é um ato em concordância com a orientação sexual de uma pessoa que facilita uma valorização, integração e partilha mais profunda do si-mesmo (self) corporificado da pessoa com outro si-mesmo corporificado tanto em amor como em justiça (amor justo)".

Segundo os teólogos, "a conclusão normativa que se segue dessas seis dimensões antropológicas da pessoa sexual é a seguinte: alguns atos homossexuais e heterossexuais, aqueles que cumprem as exigências de complementaridade holística e amor justo, são verdadeiramente humanos e morais; e alguns atos homossexuais e heterossexuais, aqueles que não cumprem as exigências de complementaridade holística e amor justo, não são verdadeiramente humanos e são imorais".

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Boicote à reza ‘desastrada’ na França





Progressistas se rebelam e se recusam a pregar o sermão anticasamento gay



PARIS — Alguns prelados rebeldes desobedeceram a recomendação da Conferência dos Bispos da França e se recusaram a pregar o sermão anticasamento gay em suas paróquias. Na Igreja Saint-Merri, no bairro de Marais, em Paris, o padre Jacques Mérienne foi um dos que criticaram a iniciativa do cardeal André Vingt-Trois, e preferiu ler um texto redigido a partir de relatos da vida dos paroquianos.

- É uma pena que haja um prejulgamento no debate em torno do casamento homossexual. A prece enviada aos cristãos se tornou um panfleto para os cidadãos. Os homossexuais são acolhidos na nossa igreja da mesma forma que outros grupos, numa perfeita hospitalidade - disse.

Sua paróquia costuma reservar uma sexta-feira por mês para as orações do grupo de homossexuais cristãos David & Jonathan, favorável à união de pessoas de mesmo sexo e à adoção por casais gays. Elisabeth Saint-Guily, dirigente da associação, condenou o “ataque da hierarquia católica” em pleno feriado e defendeu uma estratégia de “diálogo em âmbito local” sobre o tema.

- Promovemos um trabalho de educação e sensibilização. Há muito desconhecimento, então organizamos conferências para informar. É anticristão rejeitar alguém por sua orientação sexual. Na Bíblia, existem muitas maneiras de se formar uma família - disse.

O padre Michel Lelong, que oficia no bairro de Ternes, em Paris, também boicotou a reza por considerá-la “desastrada”.

- Penso que uma oração não é o meio de abordar problemas muito delicados, que provocam debate na França - justificou.

Jacques Gaillot, ex-bispo de Evreux, denunciou uma “cruzada anticasamento homossexual” por parte da Igreja. Na diocese de Saint-Denis, em Seine-Saint-Denis, o padre Bernard Berger revelou seu “desacordo” com o sermão oficial.

- A Igreja está fazendo política, e este não é o seu papel - criticou.
Embora tenha ocorrido sem incidentes, a procissão fluvial no Rio Sena, que abriu as festividades do feriado religioso anteontem após missa celebrada na catedral de Notre-Dame, foi recebida com algumas vaias no percurso.


Fonte:
O Globo



terça-feira, 14 de agosto de 2012

Madonna faz protesto inclusivo na Rússia







Reproduzo o texto abaixo para que fique claro em que contexto Madonna fez esse protesto:

Madonna voltou a aproveitar um concerto na Rússia para criticar as autoridades russas. Desta vez, em São Petersburgo, durante a atuação desta quinta-feira, a cantora apelou à defesa dos direitos dos homossexuais.

«Queremos lutar pelo direito à liberdade», disse Madonna a uma plateia que exibiu braceletes cor-de-rosa entregues à entrada do recinto.

Madonna insurgiu-se contra uma lei recentemente aprovada em São Petersburgo que proíbe a «promoção pública da homossexualidade».

Segundo a agência Reuters, as autoridades russas têm proibido desfiles e manifestações de defesa dos direitos dos gays e lésbicas «por danificar a saúde, a moral e o desenvolvimento espiritual dos menores de idade».

Na prática, esta lei torna clandestino qualquer tipo de demonstração pública de afeto entre casais homossexuais. A homossexualidade era punida com pena prisão durante os tempos da União Soviética, mas foi descriminalizada em 1993 com o fim do regime comunista.

No entanto, a comunidade gay e lésbica na Rússia continua a ser alvo ativo do preconceito numa sociedade onde a igreja ortodoxa, que considera os homossexuais «doentes», tem uma forte influência.

Madonna acaba assim por aproveitar os seus dois concertos na Rússia para chamar a atenção para dois temas que considera essenciais. Na terça-feira, pediu que as três Pussy Riot, acusadas de vandalismo e incitamento ao ódio religioso, fossem libertadas.



Fonte: IOL Música



quarta-feira, 8 de agosto de 2012

VISÕES ECLESIÁSTICAS DAS UNIÕES HOMOSSEXUAIS


CORREIO MFC BRASIL Nº 291


 Interpelações novas. O cardeal de Berlim, Rainer Maria Woelki disse a uma multidão na quinta-feira, 17 de maio, numa importante conferência católica na Alemanha, o Katholikentag, que a Igreja deveria ver, a longo prazo, as relações homossexuais fiéis assim como fazem com as heterossexuais. “Quando dois homossexuais assumem a responsabilidade um pelo outro, se eles se relacionam uns com os outros de uma forma fiel e a longo prazo, então você tem que ver isso da mesma forma como as relações heterossexuais”, disse Woelki a uma multidão estupefata, de acordo com uma notícia do jornal Tagesspiegel.

"Woelki reconheceu que a Igreja vê o relacionamento entre um homem e uma mulher como base para a criação, mas acrescentou que é hora de pensar mais sobre a atitude da Igreja com respeito às relações do mesmo sexo".



Falando na 98º Katholikentag, uma conferência que reuniu 60 mil católicos em Mannheim, Woelki se juntou a um crescente coro de vozes episcopais que estão clamando por uma mudança na recusa tradicionalmente absolutista da hierarquia a reconhecer a bondade moral das relações lésbicas e gays.

Em dezembro passado, o arcebispo Vincent Nichols, de Londres, ganhou as manchetes ao apoiar as uniões civis para casais de lésbicas e gays no Reino Unido. Naquele mesmo mês, o padre Frank Brennan, jesuíta estudioso de Direito na Austrália, também pediu o reconhecimento similar para os relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. Em janeiro, Dom Paolo Urso, bispo de Ragusa, Itália, também pediu o reconhecimento das uniões civis em seu país.

O mês de março de 2012 assistiu a uma explosão de questionamentos de prelados à proibição da hierarquia acerca da igualdade do casamento. No 7º Simpósio Nacional da New Ways Ministry, Dom Geoffrey Robinson, bispo australiano, pediu um total reexame da ética sexual católica para permitir, dentre outras coisas, a aprovação moral dos relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. A diocese de Manchester, em New Hampshire, apoiou um projeto de lei que legaliza as uniões civis (embora como uma medida paliativa para evitar a igualdade com o casamento).

Dom Richard Malone, bispo de Portland, Maine, anunciou que a diocese não assumiria um papel ativo na oposição do próximo referendo do Estado sobre a igualdade do casamento, como havia feito em 2009. Na Itália, o cardeal Carlo Maria Martini, de Milão, afirmou em seu livro Credere e Conoscere (Crer e conhecer), que "eu não compartilho as posições daqueles que, na Igreja, criticam as uniões civis" (homossexuais).

Embora a oposição à igualdade do casamento por parte da hierarquia, especialmente nos EUA, ainda seja grande e forte, é significativo que essas recentes declarações estejam todas desenvolvendo um tema similar de ao menos algum reconhecimento do valor intrínseco das relações lésbicas e gays, assim como da necessidade de proteção civil a elas.


 Fonte:

Correio MFC Brasil





sexta-feira, 3 de agosto de 2012

PARANÁ NO AR | Igreja acolhe homossexuais abandonados pelos familiares




Uma notícia inclusiva para quem precisa...


Um ótimo fim de semana!

Balaio de ódio aderente: LGBTs, baratas e apocalipse.




Em toda comunidade há paradigmas sociais que envolvem comportamento, vestuário, linguagem, regras de convivência, normas jurídicas, questões de estética e muitas outras. Fica, então, estabelecido o conflito: de um lado os que desejam manter as coisas como estão e do outro, os que querem mudá-las. De um lado os conservadores, moralistas defensores de uma idealizada e única moral e de cristalizados bons costumes. De outro os progressistas, defensores de moralidades relativas e plurais e costumes sempre negociáveis e diversificados. De um lado os que entram em pânico com a possiblidade de mudança do que acreditam ser o melhor. De outro, os que, por não apresentarem um comportamento convencional, por serem desviantes de uma norma imposta, sofrem julgamentos irracionais, reações exageradas e são alvos de ações e discursos exasperados e descabidos e ataques falaciosamente justificados por uma ameaça imaginária de destruição. Está estabelecido o pânico moral, que ocorre justamente a partir dos confrontos entre o idealizado, o modelo vigente e as demandas de grupos sociais diversos que não se enquadram no estabelecido e vão provocando alterações nas normas e demais padrões. E é nesta dinâmica que diversos grupos discriminados estiveram e eventualmente voltam a estar em evidência.

Conflitos são sempre esperados, afinal, vivendo em sociedade, é um processo absolutamente inerente ao próprio convívio estarmos sempre negociando o que é ou não tolerável, plenamente aceito ou execrável. No momento, nós LGBTs somos agraciados em três grupos: alguns nos toleram, outros aceitam plenamente e há os nossos maiores algozes, os que nos consideram execráveis. Estes últimos fazendo o possível para promover hostilidade contra nós e tentando nos segregar, eliminar ou tornar invisíveis, a partir do cerceamento dos nossos direitos e mesmo através da criação de leis que nos apartem e nos imobilizem, ainda mais, social e juridicamente. Fazem parecer que os maiores problemas morais são causados justamente pela falta de maior controle de nós transgressores, e diante de uma possível aniquilação da ordem moral conhecida e aceita, todos concordam que alguma coisa deve ser feita e que, portanto, é necessário apertar mais o cerco, ser mais firme, limitar mais nossas ações. Estas pessoas inescrupulosas conseguem fazer de nós a cola que une nossos algozes nos tornando odiosos. Cria-se um ódio comum, um ódio que vai aderindo e fazendo aderir incautos, conservadores e moralistas.

O discurso de ódio destaca nossa sexualidade sobre todas as outras características e como uma sexualidade doentia, descontrolada, perniciosa. Somos a bola da vez, somos o inimigo público número um do momento. E para variar em nada, nadinha mesmo, somos o anúncio do apocalipse. Somos o prenúncio do fim das famílias, da extinção do ser humano, do extermínio da humanidade. E em uma sociedade crédula no fim do mundo por castigo divino, não é necessário nenhum outro motivo para nos temerem. Além disso, inescrupulosamente, nos associam à pedofilia, razão para nos considerarem criaturas repulsivas. E assim vamos sendo feitos de alvo, de pragas a serem exterminadas, odiosas e asquerosas como baratas. Gente, ou melhor, coisas abjetas das quais precisam se livrar. Bichos asquerosos que vão adentrando todos os espaços e que eventualmente tocam os humanos e suas crianças e ainda tentam aliciá-las sexualmente. Pervertidos, pedófilos, zoófilos, sem-caráter, transmissores de doenças. Motivos inventados, mas suficientes e eficazes para que sejamos considerados merecedores de perseguição, aparte e aniquilação.

Fragoroso fracasso. Se por um lado os grupos hegemônicos se promovem, seja financeira, social e moralmente, à custa de nossa comunidade, por outro lado colocam nosso grupo no centro das atenções, sob os holofotes, que mesmo sendo de nossos inquisidores, nos proporciona sermos vistos e ouvidos, nos dando oportunidade de desmenti-los e de mostrarmos outra vida possível, outras formas de existir e, fundamentalmente, de coexistir. Se com nosso avanço e nossa maior visibilidade, nos tornamos o alvo da vez por um lado, por outro também somos, neste momento, o grupo social que fará avançar toda a sociedade em relação a direitos civis. Nossa luta não é exclusivamente individual, é também coletiva, não somente por uma vida melhor ou por nosso próprio grupo, mas por toda uma sociedade e inteiramente mais justa.

Fonte:

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O que significou o beijo lésbico na abertura dos Jogos Olímpicos de Londres

 


Cena do beijo lésbico na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres (Reprodução)


Foram poucos segundos, um átimo, mas o suficiente para causar comoção nas redes sociais do Brasil. Um beijo na boca entre duas mulheres, projetado no meio de outras clássicas cenas de amor, durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, nesta sexta-feira , 27, mostrou o que muita gente quer continuar proibindo os outros de verem: a homossexualidade existe como manifestação de amor.

Percebe-se que a tal polêmica sobre o beijo gay na TV brasileira não tem nada de inócua. Mesmo estando, talvez, muito no terreno das ideologias do que no campo estético, é um claro sinal da mudança das mentalidades.

Mas voltando ao beijo olímpico, o que nos interessa que os ingleses com sua anarquia e ironia, acabaram promovendo uma imagem positiva dos gays que acabou sendo transmitida para muitos países que ainda consideram a homossexualidade um crime ou ainda para o nosso querido Brasil, com um alto índice de agressões homofóbicas e um total descaso com esta situação.
No caso “brasilis”, o mais interessante é que foi a Record, a emissora dos bispos como é conhecida, ligada a um segmento de religiosos intolerantes em relação à homossexualidade que teve que transmitir  ao vivo a anarquia inglesa.

Aliás, foi uma abertura sincronizada com a ideia de civilização, que os britânicos  tanto prezam. O casal de um dos blocos mais pop da cerimônia olímpica era negro – aliás no mesmo que surgiu o beijo gay -, cadeirantes dançavam no meio dos dançarinos e até as junkies protagonistas do seriado Absolutely Fabulous, as  atrizes Jennifer Saunders e Joanna Lumley apareceram. Elas protagonizaram mais um exemplo do chamado humor inglês ao acender um cigarro com a tocha olímpica.

Enfim, foi o exemplo que uma sociedade realmente democrática é inclusiva,  a civilização é sinal de respeito às diversidades de sua população.

Dilma Rousseff na plateia do Estádio Olímpico de Stratford deve ter visto tudo isto. Ela, que tem vetado  sistematicamente políticas de afirmação para os gays, colocado questões importantes para o debate das mulheres como o aborto de lado ou pouco feito para os movimentos sociais, veja o caso de sua omissão criminosa em Pinheirinho, deve entender que um país desenvolvido não é só eliminar a miséria econômica, mas principalmente a educacional e espitirual.

A presidente declarou que fará uma abertura melhor que a de Londres, então é bom ela correr, não só para as obras de infraestruturas e construções, isto é de menos. Os ingleses fizeram uma festa incrível e mostraram o que é civilização, humanismo e tolerância em sua abertura e isto não se paga com os PACs da vida ou com uma macumba para turistas com escola de samba e um punhado de mulatas.

É bom Dilma, que para uma abertura ser melhor que a de Londres, isto é, mais humana, é preciso que se faça um avanço real aos direitos das minorias e para uma verdadeira ideia de civilização afirmativa diversa que ainda estamos longe de sermos.


Fonte:
Blogay

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Diversidade Maravilhosa - Na Cobertura do Nosso Evento


 

Como divulgamos exaustivamente nos meses de Abril e Maio, em Junho realizamos um evento na UniRio chamado O Amor de Cristo nos Uniu, veja aqui.


O site Diversidade Maravilhosa fez a cobertura do evento e entrevistou o nosso grupo pela fala da Cristiana Serra, o James Alison (Padre Católico, teólogo e escritor) e o Pastor Marcio Retamero. 
Confira a entrevista feita pelo site que resume bastante o dia do evento e expõe de forma muito clara o nosso trabalho e pontos de vista:



Abaixo a fala da Cristiana Serra citada na entrevista:


Um excelente dia e muito obrigado ao Diversidade Maravilhosa por nos ajudar a aclarar nossas ideias.

Equipe Diversidade Católica



sexta-feira, 20 de julho de 2012

Em algum lugar depois do arco-íris - Feliz dia do Amig@!



Loucos e Santos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas l utam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.


Oscar Wilde






:)

Bom fim de semana a tod@s os amigos!

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O que que custa acreditar?!




Vivendo num mundo de extremos, de tantos lados, de tantos polos, de tantos certos e errados, de tanto fundamentalismo ou a corda vai arrebentar de vez e tudo que conhecemos vai ruir ou luzes podem surgir pra dissipar tanta distopia. 

Quero só fazer alguns adendos em algumas observações que caberiam bem mais em um papo de boteco do que aqui. Acho que é um senso comum que hoje há um lado falido da democracia, vide os Estados, e outro muito positivo que  é a descentralização dos polos de emissão de informação com o advento das novas tecnologias. Talvez isto tenha permitido pautar alguns assuntos que antes andavam a passos lentos e aos poucos fomentando, por exemplo, um desejo a mais pelo correto, pelo bom ou pelo mais ético. Quando digo ética, me refiro a ciência responsável por regular a moral vigente. Enfim...

Esse lenga, lenga toda...é pra contar que achei A Era do Gelo 4 divertidíssimo e riquíssimo. (Se você não viu e quer ver, pule esse parágrafo).  No filme o CID, fica responsável por sua vovó que é uma “desajustada pior que ele”, os mamutes chamam os gambás de família e dizem que a diferença da família de verdade é a capacidade deles de protegerem uns aos outros num mundo inóspito. Tudo isso pautado na “moral da história” de forma muito sutil. 

A Era do Gelo é só um exemplo, mais há tantos. Sherek e Fiona e seus desajustes e o que dizer da pauta escolar que são os assuntos de Glee, bem diferente de por exemplo, das escolas heteronormativas que estávamos acostumados na nossa infância. 

Talvez seja a mídia que esteja refletindo e interferindo neste namoro entre representação e realidade e esteja projetando uma evolução moral possível a este tempo em que vivemos. Vejam as TVs,  as novelas iniciaram uma discussão, lenta ainda eu sei, sobre preconceitos, cada vez indo um pouquinho mais longe e por aí vai.

Claro que os mais apocalípticos e mais pessimistas vão dizer que os Happy Ends continuam a alienar as massas a enxergar a própria realidade. Sim, isso continua existindo. Mas, seria este levante, digamos, “mais ajustado ao nosso tempo” uma resistência? Note que eu não estou falando da TV e do Cinema ditos mais “alternativos” e fora de circuito. Estou me referindo ao massivo mesmo produzido pelo capitalismo. Talvez seja só o espetáculo se reinventando, porque é conveniente pra ele pautar este assunto. Numa analise mais profunda sem dúvida questões menos rasas que estas minhas de boteco se apresentariam... 

Essas questões a meu ver ou esta maré que escolho acreditar, pode ser uma maré de bom senso que vem banhando muita coisa e ao banhar põe a mostra muitas outras que não “descem mais”, vide mais um casamento sem futuro que é o nosso Estado com o fundamentalismo religioso. Isto não surgiu agora, isso está visível agora. A mesma ideia valeu pro negro, pro escravo, pro judeu e agora pra homofobia e pro fundamentalismo religioso. Alguma coisa em nossa realidade está sendo refletida na grande mídia ou a grande mídia deu vida própria ao que circulava entre nós meio as sombras. O resultado é que simplesmente algumas coisas “não desçam mais...”

Repetindo, há extremos por todos os lados, em algum ponto desta tensão eu escolho acreditar no que pode ser melhor, mais amoroso, mais próximo da ética que escolhi ter pra mim. É uma decisão individual que se une aos diversos coletivos que vem sendo representados por aí. Ou talvez, posso só chamar de um pouco mais de otimismo. 

:)


 Um bom dia e fiquem com o vídeo:



Rodolfo Viana
Equipe Diversidade Católica
 

terça-feira, 17 de julho de 2012

Dom Eugênio Sales e seu apoio à Ditadura






Imagino que você deva estar se perguntando o que o título do artigo tem haver com a capa do livro do Bourdie.

Acho a imagem desta capa interessantíssima e pra quem conhece este autor fica uma boa dica para se aprofundar na reflexão e crítica que reproduzimos abaixo. 

Rodolfo Viana
Equipe DC

 ***

Dom Eugênio Sales era, com todo o respeito, o cardeal da ditadura

JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE, No Blog Bob Fernandes




O tratamento que a mídia deu à morte do cardeal dom Eugenio Sales, ocorrida na última segunda-feira, com direito à pomba branca no velório, me fez lembrar o filme alemão "Uma cidade sem passado", de 1990, dirigido por Michael Verhoven. Os dois casos são exemplos típicos de como o poder manipula as versões sobre a história, promove o esquecimento de fatos vergonhosos, inventa despudoradamente novas lembranças e usa a memória, assim construída, como um instrumento de controle e coerção.

Comecemos pelo filme, que se baseia em fatos históricos. Na década de 1980, o Ministério da Educação da Alemanha realiza um concurso de redação escolar, de âmbito nacional, cujo tema é "Minha cidade natal na época do III Reich". Milhares de estudantes se inscrevem, entre eles a jovem Sônia Rosenberger, que busca reconstituir a história de sua cidade, Pfilzing – como é denominada no filme – considerada até então baluarte da resistência antinazista.

Mas a estudante encontra oposição. As instituições locais de memória – o arquivo municipal, a biblioteca, a igreja e até mesmo o jornal Pfilzinger Morgen – fecham-lhe suas portas, apresentando desculpas esfarrapadas. Ninguém quer que uma "judia e comunista" futuque o passado. Sônia, porém, não desiste. Corre atrás. Busca os documentos orais. Entrevista pessoas próximas, familiares, vizinhos, que sobreviveram ao nazismo. As lembranças, contudo, são fragmentadas, descosturadas, não passam de fiapos sem sentido.

A jovem pesquisadora procura, então, as autoridades locais, que se recusam a falar e ainda consideram sua insistência como uma ameaça à manutenção da memória oficial, que é a garantia da ordem vigente. Por não ter acesso aos documentos, Sônia perde os prazos do concurso. Desconfiada, porém, de que debaixo daquele angu tinha caroço – perdão, de que sob aquele chucrute havia salsicha – resolve continuar pesquisando por conta própria, mesmo depois de formada, casada e com filhos, numa batalha desigual que durou alguns anos.

Hostilizada pelo poder civil e religioso, Sônia recorre ao Judiciário e entra com uma ação na qual reivindica o direito à informação. Ganha o processo e, finalmente, consegue ingressar nos arquivos. Foi aí, no meio da papelada, que ela descobriu, horrorizada, as razões da cortina de silêncio: sua cidade, longe de ter sido um bastião da resistência ao nazismo, havia sediado um campo de concentração. Lá, os nazistas prenderam, torturaram e mataram muita gente, com a cumplicidade ou a omissão de moradores, que tentaram, depois, apagar essa mancha vergonhosa da memória, forjando um passado que nunca existiu.

Os documentos registraram inclusive a prisão de um judeu, denunciado na época por dois padres, que no momento da pesquisa continuavam ainda vivos, vivíssimos, tentando impedir o acesso de Sônia aos registros. No entanto, o mais doloroso, era que aqueles que, ontem, haviam sido carrascos, cúmplices da opressão, posavam, hoje, como heróis da resistência e parceiros da liberdade. Quanto escárnio! Os safados haviam invertido os papéis. Por isso, ocultavam os documentos.

Deus tá vendo

E é aqui que entra a forma como a mídia cobriu a morte do cardeal dom Eugênio Sales, que comandou a Arquidiocese do Rio, com mão forte, ao longo de 30 anos (1971-2001), incluindo os anos de chumbo da ditadura militar. O que aconteceu nesse período? O Brasil já elegeu três presidentes que foram reprimidos pela ditadura, mas até hoje, não temos acesso aos principais documentos da repressão.

Se a Comissão Nacional da Verdade, instalada em maio último pela presidente Dilma Rousseff, pudesse criar, no campo da memória, algo similar à operação "Deus tá vendo", organizada pela Policia Civil do Rio Grande do Sul, talvez encontrássemos a resposta. Na tal operação, a Polícia prendeu na última quinta-feira quatro pastores evangélicos envolvidos em golpes na venda de automóveis. Seria o caso de perguntar: o que foi que Deus viu na época da ditadura militar?

Tem coisas que até Ele duvida. Tive a oportunidade de acompanhar a trajetória do cardeal Eugênio Sales, na qualidade de repórter da ASAPRESS, uma agência nacional de notícias arrendada pela CNBB em 1967. Também, cobri reuniões e assembleias da Conferência dos Bispos para os jornais do Rio – O Sol, O Paiz e Correio da Manhã, quando dom Eugênio era Arcebispo Primaz de Salvador. É a partir desse lugar que posso dar um modesto testemunho. Os bispos que lutavam contra as arbitrariedades eram Helder Câmara, Waldir Calheiros, Cândido Padin, Paulo Evaristo Arns e alguns outros mais que foram vigiados e perseguidos. Mas não dom Eugênio, que jogava no time contrário. Um dos auxiliares de dom Helder, o padre Henrique, foi torturado até a morte em 1969, num crime que continua atravessado na garganta de todos nós e que esperamos seja esclarecido pela Comissão da Verdade. Padres e leigos foram presos e torturados, sem que escutássemos um pio de protesto de dom Eugênio, contrário à teologia da libertação e ao envolvimento da Igreja com os pobres.

O cardeal Eugenio Sales era um homem do poder, que amava a pompa e o rapapé, muito atuante no campo político. Foi ele um dos inspiradores das "candocas" – como Stanislaw Ponte Preta chamava as senhoras da CAMDE, a Campanha da Mulher pela Democracia. As "candocas" desenvolveram trabalhos sociais nas favelas exclusivamente com o objetivo de mobilizar setores pobres para seus objetivos golpistas. Foram elas, as "candocas", que organizaram manifestações de rua contra o governo democraticamente eleito de João Goulart, incluindo a famigerada "Marcha da família com Deus pela liberdade", que apoiou o golpe militar, com financiamento de multinacionais, o que foi muito bem documentado pelo cientista político René Dreifuss, em seu livro "1964: A Conquista do Estado" (Vozes, 1981). Ele teve acesso ao Caixa 2 do IPES/IBAD.

Nós, toda a torcida do Flamengo e Deus que estava vendo tudo, sabíamos que dom Eugênio era, com todo o respeito, o cardeal da ditadura. Se não sofro de amnésia – e não sofro de amnésia ou de qualquer doença neurodegenerativa – posso garantir que na época ele nem disfarçava, ao contrário manifestava publicamente orgulho do livre trânsito que tinha entre os militares e os poderosos.

"Quem tem dúvidas…basta pesquisar os textos assinados por ele no JB e n'O Globo" – escreve a jornalista Hildegard Angel, que foi colunista dos dois jornais e avaliou assim a opção preferencial do cardeal:
"A Igreja Católica, no Rio, sob a égide de dom Eugenio Salles, foi cada vez mais se distanciando dos pobres e se aproximando, cultivando, cortejando as estruturas do poder. Isso não poderia acabar bem. Acabou no menor percentual de católicos no país: 45,8%…"

Portões do Sumaré

Por isso, a jornalista estranhou – e nós também – a forma como o cardeal Eugenio Sales foi retratado no velório pelas autoridades. Ele foi apresentado como um combatente contra a ditadura, que abriu os portões da residência episcopal para abrigar os perseguidos políticos. O prefeito Eduardo Paes, em campanha eleitoral, declarou que o cardeal "defendeu a liberdade e os direitos individuais". O governador Sérgio Cabral e até o presidente do Senado, José Sarney, insistiram no mesmo tema, apresentando dom Eugênio como o campeão "do respeito às pessoas e aos direitos humanos".

Não foram só os políticos. O jornalista e acadêmico Luiz Paulo Horta escreveu que dom Eugênio chegou a abrigar no Rio "uma quantidade enorme de asilados políticos", calculada, por baixo, numa estimativa do Globo, em "mais de quatro mil pessoas perseguidas por regimes militares da América do Sul". Outro jornalista, José Casado, elevou o número para cinco mil. Ou seja, o cardeal era um agente duplo.

Publicamente, apoiava a ditadura e, por baixo dos panos, na clandestinidade, ajudava quem lutava contra. Só faltou arranjarem um codinome para ele, denominado pelo papa Bento XVI como "o intrépido pastor".
Seria possível acreditar nisso, se o jornal tivesse entrevistado um por cento das vítimas. Bastaria 50 perseguidos nos contarem como o cardeal com eles se solidarizou. No entanto, o jornal não dá o nome de uma só – umazinha – dessas cinco mil pessoas. Enquanto isto não acontecer, preferimos ficar com o corajoso depoimento de Hildegard Angel, cujo irmão Stuart, foi torturado e morto pelo Serviço de Inteligência da Aeronáutica. Sua mãe, a estilista Zuzu Angel, procurou o cardeal e bateu com a cara na porta do palácio episcopal.

Segundo Hilde, dom Eugênio "fechou os olhos às maldades cometidas durante a ditadura, fechando seus ouvidos e os portões do Sumaré aos familiares dos jovens ditos "subversivos" que lá iam levar suas súplicas, como fez com minha mãe Zuzu Angel (e isso está documentado)". Ela acha surpreendente que os jornais queiram nos fazer acreditar "que ocorreu justo o contrário!", como no filme "Uma cidade sem passado".
Mas não é tão surpreendente assim. O texto de Hildegard menciona a grande habilidade, em vida, de dom Eugenio, em "manter ótimas relações com os grandes jornais, para os quais contribuiu regularmente com artigos". As azeitadas relações com os donos dos jornais e com alguns jornalistas em postos-chave continuaram depois da morte, como é possível constatar com a cobertura do velório. A defesa de dom Eugênio, na realidade, funciona aqui como uma autodefesa da mídia e do poder.

Os jornais elogiaram, como uma virtude e uma delicadeza, o gesto do cardeal Eugenio Sales que cada vez que ia a Roma levava mamão-papaia para o papa João Paulo II, com o mesmo zelo e unção com que o senador Alfredo Nascimento levava tucumã já descascado para o café da manhã do então governador Amazonino Mendes. São os rituais do poder com seus rapapés.

"Dentro de uma sociedade, assim como os discursos, as memórias são controladas e negociadas entre diferentes grupos e diferentes sistemas de poder. Ainda que não possam ser confundidas com a "verdade", as memórias têm valor social de "verdade" e podem ser difundidas e reproduzidas como se fossem "a verdade" – escreve Teun A. van Dijk, doutor pela Universidade de Amsterdã.

A "verdade" construída pela mídia foi capaz de fotografar até "a presença do Espírito Santo" no funeral. Um voluntário da Cruz Vermelha, Gilberto de Almeida, 59 anos, corretor de imóveis, no caminho ao velório de dom Eugênio, passou pelo abatedouro, no Engenho de Dentro, comprou uma pomba por R$ 25 e a soltou dentro da catedral. A ave voou e posou sobre o caixão: "Foi um sinal de Deus, é a presença do Espírito Santo" – berraram os jornais. Parece que vale tudo para controlar a memória, até mesmo estabelecer preço tão baixo para uma das pessoas da Santíssima Trindade. É muita falta de respeito com a fé das pessoas.
"A mídia deve ser pensada não como um lugar neutro de observação, mas como um agente produtor de imagens, representações e memória" nos diz o citado pesquisador holandês, que estudou o tratamento racista dispensado às minorias étnicas pela imprensa europeia. Para ele, os modos de produção e os meios de produção de uma imagem social sobre o passado são usados no campo da disputa política.

Nessa disputa, a mídia nos forçou a fazer os comentários que você acaba de ler, o que pode parecer indelicadeza num momento como esse de morte, de perda e de dor para os amigos do cardeal. Mas se a gente não falar agora, quando então? Stuart Angel e os que combateram a ditadura merecem que a gente corra o risco de parecer indelicado. É preciso dizer, em respeito à memória deles, que Dom Eugênio tinha suas virtudes, mas uma delas não foi, certamente, a solidariedade aos perseguidos políticos para quem os portões do Sumaré, até prova em contrário, permaneceram fechados. Que ele descanse em paz!

P.S: O jornalista amazonense Fábio Alencar foi quem me repassou o texto de Hildegard Angel, que circulou nas redes sociais. O doutor Geraldo Sá Peixoto Pinheiro, historiador e professor da Universidade Federal do Amazonas, foi quem me indicou, há anos, o filme "Uma cidade sem passado". Quem me permitiu discutir o conceito de memória foram minhas colegas doutoras Jô Gondar e Vera Dodebei, organizadoras do livro "O que é Memória Social" (Rio de Janeiro: Contra Capa/ Programa de Pós- Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2005). Nenhum deles tem qualquer responsabilidade sobre os juízos por mim aqui emitidos.

José Ribamar Bessa Freire e professor, coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ) e pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO)


Fonte:
LN

segunda-feira, 16 de julho de 2012

"Somos tão jovens" - 5 aninhos!



Querid@s amigos virtuais e não virtuais,

nós da Equipe Diversidade Católica queremos agradecer cada felicitação que recebemos nas Redes Sociais.
Dia 14, neste sábado que passou, fizemos 5 anos que nos reunimos e colocamos o nosso site, já conhecido, no ar. Desde aquele momento tivemos um trajetória de amadurecimento de ideias de um grupo bem pequeno, mais de grandes ambições que se formou pelos cafés da tarde aqui do Rio.

 Assim como tudo que nasce meio sem rumo, só com vontades, ideias e desejos o Diversidade, ou DC para os íntimos, se formou...E como crianças contando aos amigos a novidade que tínhamos nas mãos de que a mensagem de Cristo pode sim ser inclusiva ...Chegando a receber cerca de 100 emails/mês, na época, entre insultos, elogios e pedidos de ajuda...Continuamos caminhando nos sentindo tão jovens, com muito que aprender e estudar para que como leigos possamos sempre fazer ecoar o que importa:

Esse amor de Cristo que nos uniu!

Uma excelente semana a todos...



Equipe Diversidade Católica
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