sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Balaio de ódio aderente: LGBTs, baratas e apocalipse.




Em toda comunidade há paradigmas sociais que envolvem comportamento, vestuário, linguagem, regras de convivência, normas jurídicas, questões de estética e muitas outras. Fica, então, estabelecido o conflito: de um lado os que desejam manter as coisas como estão e do outro, os que querem mudá-las. De um lado os conservadores, moralistas defensores de uma idealizada e única moral e de cristalizados bons costumes. De outro os progressistas, defensores de moralidades relativas e plurais e costumes sempre negociáveis e diversificados. De um lado os que entram em pânico com a possiblidade de mudança do que acreditam ser o melhor. De outro, os que, por não apresentarem um comportamento convencional, por serem desviantes de uma norma imposta, sofrem julgamentos irracionais, reações exageradas e são alvos de ações e discursos exasperados e descabidos e ataques falaciosamente justificados por uma ameaça imaginária de destruição. Está estabelecido o pânico moral, que ocorre justamente a partir dos confrontos entre o idealizado, o modelo vigente e as demandas de grupos sociais diversos que não se enquadram no estabelecido e vão provocando alterações nas normas e demais padrões. E é nesta dinâmica que diversos grupos discriminados estiveram e eventualmente voltam a estar em evidência.

Conflitos são sempre esperados, afinal, vivendo em sociedade, é um processo absolutamente inerente ao próprio convívio estarmos sempre negociando o que é ou não tolerável, plenamente aceito ou execrável. No momento, nós LGBTs somos agraciados em três grupos: alguns nos toleram, outros aceitam plenamente e há os nossos maiores algozes, os que nos consideram execráveis. Estes últimos fazendo o possível para promover hostilidade contra nós e tentando nos segregar, eliminar ou tornar invisíveis, a partir do cerceamento dos nossos direitos e mesmo através da criação de leis que nos apartem e nos imobilizem, ainda mais, social e juridicamente. Fazem parecer que os maiores problemas morais são causados justamente pela falta de maior controle de nós transgressores, e diante de uma possível aniquilação da ordem moral conhecida e aceita, todos concordam que alguma coisa deve ser feita e que, portanto, é necessário apertar mais o cerco, ser mais firme, limitar mais nossas ações. Estas pessoas inescrupulosas conseguem fazer de nós a cola que une nossos algozes nos tornando odiosos. Cria-se um ódio comum, um ódio que vai aderindo e fazendo aderir incautos, conservadores e moralistas.

O discurso de ódio destaca nossa sexualidade sobre todas as outras características e como uma sexualidade doentia, descontrolada, perniciosa. Somos a bola da vez, somos o inimigo público número um do momento. E para variar em nada, nadinha mesmo, somos o anúncio do apocalipse. Somos o prenúncio do fim das famílias, da extinção do ser humano, do extermínio da humanidade. E em uma sociedade crédula no fim do mundo por castigo divino, não é necessário nenhum outro motivo para nos temerem. Além disso, inescrupulosamente, nos associam à pedofilia, razão para nos considerarem criaturas repulsivas. E assim vamos sendo feitos de alvo, de pragas a serem exterminadas, odiosas e asquerosas como baratas. Gente, ou melhor, coisas abjetas das quais precisam se livrar. Bichos asquerosos que vão adentrando todos os espaços e que eventualmente tocam os humanos e suas crianças e ainda tentam aliciá-las sexualmente. Pervertidos, pedófilos, zoófilos, sem-caráter, transmissores de doenças. Motivos inventados, mas suficientes e eficazes para que sejamos considerados merecedores de perseguição, aparte e aniquilação.

Fragoroso fracasso. Se por um lado os grupos hegemônicos se promovem, seja financeira, social e moralmente, à custa de nossa comunidade, por outro lado colocam nosso grupo no centro das atenções, sob os holofotes, que mesmo sendo de nossos inquisidores, nos proporciona sermos vistos e ouvidos, nos dando oportunidade de desmenti-los e de mostrarmos outra vida possível, outras formas de existir e, fundamentalmente, de coexistir. Se com nosso avanço e nossa maior visibilidade, nos tornamos o alvo da vez por um lado, por outro também somos, neste momento, o grupo social que fará avançar toda a sociedade em relação a direitos civis. Nossa luta não é exclusivamente individual, é também coletiva, não somente por uma vida melhor ou por nosso próprio grupo, mas por toda uma sociedade e inteiramente mais justa.

Fonte:

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O que significou o beijo lésbico na abertura dos Jogos Olímpicos de Londres

 


Cena do beijo lésbico na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres (Reprodução)


Foram poucos segundos, um átimo, mas o suficiente para causar comoção nas redes sociais do Brasil. Um beijo na boca entre duas mulheres, projetado no meio de outras clássicas cenas de amor, durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, nesta sexta-feira , 27, mostrou o que muita gente quer continuar proibindo os outros de verem: a homossexualidade existe como manifestação de amor.

Percebe-se que a tal polêmica sobre o beijo gay na TV brasileira não tem nada de inócua. Mesmo estando, talvez, muito no terreno das ideologias do que no campo estético, é um claro sinal da mudança das mentalidades.

Mas voltando ao beijo olímpico, o que nos interessa que os ingleses com sua anarquia e ironia, acabaram promovendo uma imagem positiva dos gays que acabou sendo transmitida para muitos países que ainda consideram a homossexualidade um crime ou ainda para o nosso querido Brasil, com um alto índice de agressões homofóbicas e um total descaso com esta situação.
No caso “brasilis”, o mais interessante é que foi a Record, a emissora dos bispos como é conhecida, ligada a um segmento de religiosos intolerantes em relação à homossexualidade que teve que transmitir  ao vivo a anarquia inglesa.

Aliás, foi uma abertura sincronizada com a ideia de civilização, que os britânicos  tanto prezam. O casal de um dos blocos mais pop da cerimônia olímpica era negro – aliás no mesmo que surgiu o beijo gay -, cadeirantes dançavam no meio dos dançarinos e até as junkies protagonistas do seriado Absolutely Fabulous, as  atrizes Jennifer Saunders e Joanna Lumley apareceram. Elas protagonizaram mais um exemplo do chamado humor inglês ao acender um cigarro com a tocha olímpica.

Enfim, foi o exemplo que uma sociedade realmente democrática é inclusiva,  a civilização é sinal de respeito às diversidades de sua população.

Dilma Rousseff na plateia do Estádio Olímpico de Stratford deve ter visto tudo isto. Ela, que tem vetado  sistematicamente políticas de afirmação para os gays, colocado questões importantes para o debate das mulheres como o aborto de lado ou pouco feito para os movimentos sociais, veja o caso de sua omissão criminosa em Pinheirinho, deve entender que um país desenvolvido não é só eliminar a miséria econômica, mas principalmente a educacional e espitirual.

A presidente declarou que fará uma abertura melhor que a de Londres, então é bom ela correr, não só para as obras de infraestruturas e construções, isto é de menos. Os ingleses fizeram uma festa incrível e mostraram o que é civilização, humanismo e tolerância em sua abertura e isto não se paga com os PACs da vida ou com uma macumba para turistas com escola de samba e um punhado de mulatas.

É bom Dilma, que para uma abertura ser melhor que a de Londres, isto é, mais humana, é preciso que se faça um avanço real aos direitos das minorias e para uma verdadeira ideia de civilização afirmativa diversa que ainda estamos longe de sermos.


Fonte:
Blogay

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Diversidade Maravilhosa - Na Cobertura do Nosso Evento


 

Como divulgamos exaustivamente nos meses de Abril e Maio, em Junho realizamos um evento na UniRio chamado O Amor de Cristo nos Uniu, veja aqui.


O site Diversidade Maravilhosa fez a cobertura do evento e entrevistou o nosso grupo pela fala da Cristiana Serra, o James Alison (Padre Católico, teólogo e escritor) e o Pastor Marcio Retamero. 
Confira a entrevista feita pelo site que resume bastante o dia do evento e expõe de forma muito clara o nosso trabalho e pontos de vista:



Abaixo a fala da Cristiana Serra citada na entrevista:


Um excelente dia e muito obrigado ao Diversidade Maravilhosa por nos ajudar a aclarar nossas ideias.

Equipe Diversidade Católica



sexta-feira, 20 de julho de 2012

Em algum lugar depois do arco-íris - Feliz dia do Amig@!



Loucos e Santos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas l utam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.


Oscar Wilde






:)

Bom fim de semana a tod@s os amigos!

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O que que custa acreditar?!




Vivendo num mundo de extremos, de tantos lados, de tantos polos, de tantos certos e errados, de tanto fundamentalismo ou a corda vai arrebentar de vez e tudo que conhecemos vai ruir ou luzes podem surgir pra dissipar tanta distopia. 

Quero só fazer alguns adendos em algumas observações que caberiam bem mais em um papo de boteco do que aqui. Acho que é um senso comum que hoje há um lado falido da democracia, vide os Estados, e outro muito positivo que  é a descentralização dos polos de emissão de informação com o advento das novas tecnologias. Talvez isto tenha permitido pautar alguns assuntos que antes andavam a passos lentos e aos poucos fomentando, por exemplo, um desejo a mais pelo correto, pelo bom ou pelo mais ético. Quando digo ética, me refiro a ciência responsável por regular a moral vigente. Enfim...

Esse lenga, lenga toda...é pra contar que achei A Era do Gelo 4 divertidíssimo e riquíssimo. (Se você não viu e quer ver, pule esse parágrafo).  No filme o CID, fica responsável por sua vovó que é uma “desajustada pior que ele”, os mamutes chamam os gambás de família e dizem que a diferença da família de verdade é a capacidade deles de protegerem uns aos outros num mundo inóspito. Tudo isso pautado na “moral da história” de forma muito sutil. 

A Era do Gelo é só um exemplo, mais há tantos. Sherek e Fiona e seus desajustes e o que dizer da pauta escolar que são os assuntos de Glee, bem diferente de por exemplo, das escolas heteronormativas que estávamos acostumados na nossa infância. 

Talvez seja a mídia que esteja refletindo e interferindo neste namoro entre representação e realidade e esteja projetando uma evolução moral possível a este tempo em que vivemos. Vejam as TVs,  as novelas iniciaram uma discussão, lenta ainda eu sei, sobre preconceitos, cada vez indo um pouquinho mais longe e por aí vai.

Claro que os mais apocalípticos e mais pessimistas vão dizer que os Happy Ends continuam a alienar as massas a enxergar a própria realidade. Sim, isso continua existindo. Mas, seria este levante, digamos, “mais ajustado ao nosso tempo” uma resistência? Note que eu não estou falando da TV e do Cinema ditos mais “alternativos” e fora de circuito. Estou me referindo ao massivo mesmo produzido pelo capitalismo. Talvez seja só o espetáculo se reinventando, porque é conveniente pra ele pautar este assunto. Numa analise mais profunda sem dúvida questões menos rasas que estas minhas de boteco se apresentariam... 

Essas questões a meu ver ou esta maré que escolho acreditar, pode ser uma maré de bom senso que vem banhando muita coisa e ao banhar põe a mostra muitas outras que não “descem mais”, vide mais um casamento sem futuro que é o nosso Estado com o fundamentalismo religioso. Isto não surgiu agora, isso está visível agora. A mesma ideia valeu pro negro, pro escravo, pro judeu e agora pra homofobia e pro fundamentalismo religioso. Alguma coisa em nossa realidade está sendo refletida na grande mídia ou a grande mídia deu vida própria ao que circulava entre nós meio as sombras. O resultado é que simplesmente algumas coisas “não desçam mais...”

Repetindo, há extremos por todos os lados, em algum ponto desta tensão eu escolho acreditar no que pode ser melhor, mais amoroso, mais próximo da ética que escolhi ter pra mim. É uma decisão individual que se une aos diversos coletivos que vem sendo representados por aí. Ou talvez, posso só chamar de um pouco mais de otimismo. 

:)


 Um bom dia e fiquem com o vídeo:



Rodolfo Viana
Equipe Diversidade Católica
 

terça-feira, 17 de julho de 2012

Dom Eugênio Sales e seu apoio à Ditadura






Imagino que você deva estar se perguntando o que o título do artigo tem haver com a capa do livro do Bourdie.

Acho a imagem desta capa interessantíssima e pra quem conhece este autor fica uma boa dica para se aprofundar na reflexão e crítica que reproduzimos abaixo. 

Rodolfo Viana
Equipe DC

 ***

Dom Eugênio Sales era, com todo o respeito, o cardeal da ditadura

JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE, No Blog Bob Fernandes




O tratamento que a mídia deu à morte do cardeal dom Eugenio Sales, ocorrida na última segunda-feira, com direito à pomba branca no velório, me fez lembrar o filme alemão "Uma cidade sem passado", de 1990, dirigido por Michael Verhoven. Os dois casos são exemplos típicos de como o poder manipula as versões sobre a história, promove o esquecimento de fatos vergonhosos, inventa despudoradamente novas lembranças e usa a memória, assim construída, como um instrumento de controle e coerção.

Comecemos pelo filme, que se baseia em fatos históricos. Na década de 1980, o Ministério da Educação da Alemanha realiza um concurso de redação escolar, de âmbito nacional, cujo tema é "Minha cidade natal na época do III Reich". Milhares de estudantes se inscrevem, entre eles a jovem Sônia Rosenberger, que busca reconstituir a história de sua cidade, Pfilzing – como é denominada no filme – considerada até então baluarte da resistência antinazista.

Mas a estudante encontra oposição. As instituições locais de memória – o arquivo municipal, a biblioteca, a igreja e até mesmo o jornal Pfilzinger Morgen – fecham-lhe suas portas, apresentando desculpas esfarrapadas. Ninguém quer que uma "judia e comunista" futuque o passado. Sônia, porém, não desiste. Corre atrás. Busca os documentos orais. Entrevista pessoas próximas, familiares, vizinhos, que sobreviveram ao nazismo. As lembranças, contudo, são fragmentadas, descosturadas, não passam de fiapos sem sentido.

A jovem pesquisadora procura, então, as autoridades locais, que se recusam a falar e ainda consideram sua insistência como uma ameaça à manutenção da memória oficial, que é a garantia da ordem vigente. Por não ter acesso aos documentos, Sônia perde os prazos do concurso. Desconfiada, porém, de que debaixo daquele angu tinha caroço – perdão, de que sob aquele chucrute havia salsicha – resolve continuar pesquisando por conta própria, mesmo depois de formada, casada e com filhos, numa batalha desigual que durou alguns anos.

Hostilizada pelo poder civil e religioso, Sônia recorre ao Judiciário e entra com uma ação na qual reivindica o direito à informação. Ganha o processo e, finalmente, consegue ingressar nos arquivos. Foi aí, no meio da papelada, que ela descobriu, horrorizada, as razões da cortina de silêncio: sua cidade, longe de ter sido um bastião da resistência ao nazismo, havia sediado um campo de concentração. Lá, os nazistas prenderam, torturaram e mataram muita gente, com a cumplicidade ou a omissão de moradores, que tentaram, depois, apagar essa mancha vergonhosa da memória, forjando um passado que nunca existiu.

Os documentos registraram inclusive a prisão de um judeu, denunciado na época por dois padres, que no momento da pesquisa continuavam ainda vivos, vivíssimos, tentando impedir o acesso de Sônia aos registros. No entanto, o mais doloroso, era que aqueles que, ontem, haviam sido carrascos, cúmplices da opressão, posavam, hoje, como heróis da resistência e parceiros da liberdade. Quanto escárnio! Os safados haviam invertido os papéis. Por isso, ocultavam os documentos.

Deus tá vendo

E é aqui que entra a forma como a mídia cobriu a morte do cardeal dom Eugênio Sales, que comandou a Arquidiocese do Rio, com mão forte, ao longo de 30 anos (1971-2001), incluindo os anos de chumbo da ditadura militar. O que aconteceu nesse período? O Brasil já elegeu três presidentes que foram reprimidos pela ditadura, mas até hoje, não temos acesso aos principais documentos da repressão.

Se a Comissão Nacional da Verdade, instalada em maio último pela presidente Dilma Rousseff, pudesse criar, no campo da memória, algo similar à operação "Deus tá vendo", organizada pela Policia Civil do Rio Grande do Sul, talvez encontrássemos a resposta. Na tal operação, a Polícia prendeu na última quinta-feira quatro pastores evangélicos envolvidos em golpes na venda de automóveis. Seria o caso de perguntar: o que foi que Deus viu na época da ditadura militar?

Tem coisas que até Ele duvida. Tive a oportunidade de acompanhar a trajetória do cardeal Eugênio Sales, na qualidade de repórter da ASAPRESS, uma agência nacional de notícias arrendada pela CNBB em 1967. Também, cobri reuniões e assembleias da Conferência dos Bispos para os jornais do Rio – O Sol, O Paiz e Correio da Manhã, quando dom Eugênio era Arcebispo Primaz de Salvador. É a partir desse lugar que posso dar um modesto testemunho. Os bispos que lutavam contra as arbitrariedades eram Helder Câmara, Waldir Calheiros, Cândido Padin, Paulo Evaristo Arns e alguns outros mais que foram vigiados e perseguidos. Mas não dom Eugênio, que jogava no time contrário. Um dos auxiliares de dom Helder, o padre Henrique, foi torturado até a morte em 1969, num crime que continua atravessado na garganta de todos nós e que esperamos seja esclarecido pela Comissão da Verdade. Padres e leigos foram presos e torturados, sem que escutássemos um pio de protesto de dom Eugênio, contrário à teologia da libertação e ao envolvimento da Igreja com os pobres.

O cardeal Eugenio Sales era um homem do poder, que amava a pompa e o rapapé, muito atuante no campo político. Foi ele um dos inspiradores das "candocas" – como Stanislaw Ponte Preta chamava as senhoras da CAMDE, a Campanha da Mulher pela Democracia. As "candocas" desenvolveram trabalhos sociais nas favelas exclusivamente com o objetivo de mobilizar setores pobres para seus objetivos golpistas. Foram elas, as "candocas", que organizaram manifestações de rua contra o governo democraticamente eleito de João Goulart, incluindo a famigerada "Marcha da família com Deus pela liberdade", que apoiou o golpe militar, com financiamento de multinacionais, o que foi muito bem documentado pelo cientista político René Dreifuss, em seu livro "1964: A Conquista do Estado" (Vozes, 1981). Ele teve acesso ao Caixa 2 do IPES/IBAD.

Nós, toda a torcida do Flamengo e Deus que estava vendo tudo, sabíamos que dom Eugênio era, com todo o respeito, o cardeal da ditadura. Se não sofro de amnésia – e não sofro de amnésia ou de qualquer doença neurodegenerativa – posso garantir que na época ele nem disfarçava, ao contrário manifestava publicamente orgulho do livre trânsito que tinha entre os militares e os poderosos.

"Quem tem dúvidas…basta pesquisar os textos assinados por ele no JB e n'O Globo" – escreve a jornalista Hildegard Angel, que foi colunista dos dois jornais e avaliou assim a opção preferencial do cardeal:
"A Igreja Católica, no Rio, sob a égide de dom Eugenio Salles, foi cada vez mais se distanciando dos pobres e se aproximando, cultivando, cortejando as estruturas do poder. Isso não poderia acabar bem. Acabou no menor percentual de católicos no país: 45,8%…"

Portões do Sumaré

Por isso, a jornalista estranhou – e nós também – a forma como o cardeal Eugenio Sales foi retratado no velório pelas autoridades. Ele foi apresentado como um combatente contra a ditadura, que abriu os portões da residência episcopal para abrigar os perseguidos políticos. O prefeito Eduardo Paes, em campanha eleitoral, declarou que o cardeal "defendeu a liberdade e os direitos individuais". O governador Sérgio Cabral e até o presidente do Senado, José Sarney, insistiram no mesmo tema, apresentando dom Eugênio como o campeão "do respeito às pessoas e aos direitos humanos".

Não foram só os políticos. O jornalista e acadêmico Luiz Paulo Horta escreveu que dom Eugênio chegou a abrigar no Rio "uma quantidade enorme de asilados políticos", calculada, por baixo, numa estimativa do Globo, em "mais de quatro mil pessoas perseguidas por regimes militares da América do Sul". Outro jornalista, José Casado, elevou o número para cinco mil. Ou seja, o cardeal era um agente duplo.

Publicamente, apoiava a ditadura e, por baixo dos panos, na clandestinidade, ajudava quem lutava contra. Só faltou arranjarem um codinome para ele, denominado pelo papa Bento XVI como "o intrépido pastor".
Seria possível acreditar nisso, se o jornal tivesse entrevistado um por cento das vítimas. Bastaria 50 perseguidos nos contarem como o cardeal com eles se solidarizou. No entanto, o jornal não dá o nome de uma só – umazinha – dessas cinco mil pessoas. Enquanto isto não acontecer, preferimos ficar com o corajoso depoimento de Hildegard Angel, cujo irmão Stuart, foi torturado e morto pelo Serviço de Inteligência da Aeronáutica. Sua mãe, a estilista Zuzu Angel, procurou o cardeal e bateu com a cara na porta do palácio episcopal.

Segundo Hilde, dom Eugênio "fechou os olhos às maldades cometidas durante a ditadura, fechando seus ouvidos e os portões do Sumaré aos familiares dos jovens ditos "subversivos" que lá iam levar suas súplicas, como fez com minha mãe Zuzu Angel (e isso está documentado)". Ela acha surpreendente que os jornais queiram nos fazer acreditar "que ocorreu justo o contrário!", como no filme "Uma cidade sem passado".
Mas não é tão surpreendente assim. O texto de Hildegard menciona a grande habilidade, em vida, de dom Eugenio, em "manter ótimas relações com os grandes jornais, para os quais contribuiu regularmente com artigos". As azeitadas relações com os donos dos jornais e com alguns jornalistas em postos-chave continuaram depois da morte, como é possível constatar com a cobertura do velório. A defesa de dom Eugênio, na realidade, funciona aqui como uma autodefesa da mídia e do poder.

Os jornais elogiaram, como uma virtude e uma delicadeza, o gesto do cardeal Eugenio Sales que cada vez que ia a Roma levava mamão-papaia para o papa João Paulo II, com o mesmo zelo e unção com que o senador Alfredo Nascimento levava tucumã já descascado para o café da manhã do então governador Amazonino Mendes. São os rituais do poder com seus rapapés.

"Dentro de uma sociedade, assim como os discursos, as memórias são controladas e negociadas entre diferentes grupos e diferentes sistemas de poder. Ainda que não possam ser confundidas com a "verdade", as memórias têm valor social de "verdade" e podem ser difundidas e reproduzidas como se fossem "a verdade" – escreve Teun A. van Dijk, doutor pela Universidade de Amsterdã.

A "verdade" construída pela mídia foi capaz de fotografar até "a presença do Espírito Santo" no funeral. Um voluntário da Cruz Vermelha, Gilberto de Almeida, 59 anos, corretor de imóveis, no caminho ao velório de dom Eugênio, passou pelo abatedouro, no Engenho de Dentro, comprou uma pomba por R$ 25 e a soltou dentro da catedral. A ave voou e posou sobre o caixão: "Foi um sinal de Deus, é a presença do Espírito Santo" – berraram os jornais. Parece que vale tudo para controlar a memória, até mesmo estabelecer preço tão baixo para uma das pessoas da Santíssima Trindade. É muita falta de respeito com a fé das pessoas.
"A mídia deve ser pensada não como um lugar neutro de observação, mas como um agente produtor de imagens, representações e memória" nos diz o citado pesquisador holandês, que estudou o tratamento racista dispensado às minorias étnicas pela imprensa europeia. Para ele, os modos de produção e os meios de produção de uma imagem social sobre o passado são usados no campo da disputa política.

Nessa disputa, a mídia nos forçou a fazer os comentários que você acaba de ler, o que pode parecer indelicadeza num momento como esse de morte, de perda e de dor para os amigos do cardeal. Mas se a gente não falar agora, quando então? Stuart Angel e os que combateram a ditadura merecem que a gente corra o risco de parecer indelicado. É preciso dizer, em respeito à memória deles, que Dom Eugênio tinha suas virtudes, mas uma delas não foi, certamente, a solidariedade aos perseguidos políticos para quem os portões do Sumaré, até prova em contrário, permaneceram fechados. Que ele descanse em paz!

P.S: O jornalista amazonense Fábio Alencar foi quem me repassou o texto de Hildegard Angel, que circulou nas redes sociais. O doutor Geraldo Sá Peixoto Pinheiro, historiador e professor da Universidade Federal do Amazonas, foi quem me indicou, há anos, o filme "Uma cidade sem passado". Quem me permitiu discutir o conceito de memória foram minhas colegas doutoras Jô Gondar e Vera Dodebei, organizadoras do livro "O que é Memória Social" (Rio de Janeiro: Contra Capa/ Programa de Pós- Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2005). Nenhum deles tem qualquer responsabilidade sobre os juízos por mim aqui emitidos.

José Ribamar Bessa Freire e professor, coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ) e pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO)


Fonte:
LN

segunda-feira, 16 de julho de 2012

"Somos tão jovens" - 5 aninhos!



Querid@s amigos virtuais e não virtuais,

nós da Equipe Diversidade Católica queremos agradecer cada felicitação que recebemos nas Redes Sociais.
Dia 14, neste sábado que passou, fizemos 5 anos que nos reunimos e colocamos o nosso site, já conhecido, no ar. Desde aquele momento tivemos um trajetória de amadurecimento de ideias de um grupo bem pequeno, mais de grandes ambições que se formou pelos cafés da tarde aqui do Rio.

 Assim como tudo que nasce meio sem rumo, só com vontades, ideias e desejos o Diversidade, ou DC para os íntimos, se formou...E como crianças contando aos amigos a novidade que tínhamos nas mãos de que a mensagem de Cristo pode sim ser inclusiva ...Chegando a receber cerca de 100 emails/mês, na época, entre insultos, elogios e pedidos de ajuda...Continuamos caminhando nos sentindo tão jovens, com muito que aprender e estudar para que como leigos possamos sempre fazer ecoar o que importa:

Esse amor de Cristo que nos uniu!

Uma excelente semana a todos...



Equipe Diversidade Católica

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Pastor classifica cura gay como “desrespeito” e afirma que homossexualismo “não era um problema para Jesus”. Assista na íntegra

As discussões em torno do debate existente entre religiosos e homossexuais, e o projeto apelidado de “cura gay”, de autoria do deputado federal João Campos (PSDB-GO), presidente da bancada evangélica no Congresso Nacional, foram tema de uma entrevista com o pastor Alexandre Cabral para o programa Conexão Jornalismo.

Alexandre Cabral é pastor presbiteriano e professor de teologia, e afirmou durante a entrevista que o cristianismo não sabe lidar com as questões sexuais: “Nós cristãos não sabemos lidar com o problema sexual, com o problema do prazer”.

O pastor defendeu a “laicidade do Estado” e afirmou que o projeto de “cura gay” demonstra “desrespeito” e que “se assemelha ao nazismo”. Cabral ressaltou ainda que o nazismo foi um movimento que tinha proximidades com o cristianismo protestante.

Cabral citou Martinho Lutero e sua definição do termo “palavra de Deus”, e disse que Jesus não falou sobre a homossexualidade: “Você não tem nenhuma relação, de nenhum texto dos evangelhos de Jesus com padronização dos prazeres sexuais”, e emenda dizendo que “isso mostra que isso não era um problema para Jesus”.

Para o pastor presbiteriano, o projeto de cura gay “é uma forma de tentar legitimar uma padronização moral de uma das religiões que compõem o quadro das religiões no Brasil”.
Confira abaixo a íntegra da entrevista do pastor Alexandre Cabral ao programa “Conexão Jornalismo”:

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A Cura Gay





A imagem que você vê acima é um dispositivo medieval de tortura que fora utilizada em sessões de exorcismo.  

O asco que se sente ao olhá-las hoje não representava, talvez, o mesmo asco do passado. Talvez, fosse comum se saber de sua existência e também tivesse pessoas dentro da própria Igreja que não concordasse com os métodos medievais, até porque eram da Idade chama de Medieval por nós hoje.

Curioso é pensar como os mesmos dispositivos só se atualizaram e acompanharam o tempo e a “evolução” humana, aproveitando-se de tudo que pôde para de alguma maneira continuar existindo, só que com outras roupagens mais atuais. 

Fico muito tranquilo pra afirmar que o “dispositivo” se atualizou pra manter viva uma ideia, uma visão de mundo, um disputa de poder que persiste e infelizmente se mantém imutável. Nem sei dar nome do porque disso...

Mas, passo a palavra para o Contardo Calligaris, psicanalista e doutor em psicologia clinica e reproduzo abaixo o texto de sua coluna na Folha de São Paulo da semana passada.

Rodolfo Viana
 Equipe Diversidade Católica

***

A CURA GAY

Em 1980, a homossexualidade sumiu do "Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais". Em 1990, ela foi retirada da lista de doenças da Organização Mundial da Saúde.

Médicos, psiquiatras e psicólogos não podem oferecer uma cura para uma condição que, em suas disciplinas, não é uma doença, nem um distúrbio, nem um transtorno. Isso foi lembrado por Humberto Verona, presidente do Conselho Federal de Psicologia, numa entrevista à Folha de 29 de junho.
No entanto, o deputado João Campos (PSDB-GO), da bancada evangélica, pede que, por decreto legislativo, os psicólogos sejam autorizados a "curar" os homossexuais que desejem se livrar de sua homossexualidade.

Um pressuposto desse pedido é a ideia de que os psicólogos saberiam como mudar a orientação sexual de alguém (transformá-lo de hétero em homossexual e vice-versa), mas seriam impedidos de exercer essa arte --por razões ideológicas, morais, politicamente corretas etc.

Ora, no estado atual de suas disciplinas, mesmo se eles quisessem, psicólogos e psiquiatras não saberiam modificar a orientação sexual de alguém --tampouco, aliás, eles saberiam modificar a "fantasia sexual" de alguém (ou seja, o cenário, consciente ou inconsciente, com o qual ele alimenta seu desejo).

Claro, ao longo de uma terapia, alguém pode conseguir conviver melhor com seu próprio desejo, mas sem mudar fundamentalmente sua orientação e sua fantasia.

Por via química ou cirúrgica (administração de hormônios ou castração real --todos os horrores já foram tentados), consegue-se diminuir o interesse de alguém na vida sexual em geral, mas não afastá-lo de sua orientação ou de sua fantasia, que permanecem as mesmas, embora impedidas de serem atuadas. A terapia pela palavra (psicodinâmica ou comportamental que seja) tampouco permite mudar radicalmente a orientação ou a fantasia de alguém.

O que acontece, perguntará João Campos, nos casos de homossexualidade com a qual o próprio indivíduo não concorda? Posso ser homossexual e não querer isso para mim: será que ninguém me ajudará?
Sim, é possível curar o sofrimento de quem discorda de sua própria sexualidade (é a dita egodistonia), mas o alívio é no sentido de permitir que o indivíduo aceite sua sexualidade e pare de se condenar e de tentar se reprimir além da conta.

Por exemplo, se eu não concordo com minha homossexualidade (porque ela faz a infelicidade de meus pais, porque sou discriminado por causa dela, porque sou evangélico ou católico), não posso mudar minha orientação para aliviar meu sofrimento, mas posso, isso sim, mudar o ambiente no qual eu vivo e as ideias, conscientes ou inconscientes, que me levam a não admitir minha orientação sexual.

Campos preferiria outro caminho: o terapeuta deveria fortalecer as ideias que, de dentro do paciente, opõem-se à homossexualidade dele. Mas o desejo sexual humano é teimoso: uma psicoterapia que vise reforçar os argumentos (internos ou externos) pelos quais o indivíduo se opõe à sua própria fantasia ou orientação não consegue mudança alguma, mas apenas acirra a contradição da qual o indivíduo sofre. Conclusão, o paciente acaba vivendo na culpa de estar se traindo sempre --traindo quer seja seu desejo, quer seja os princípios em nome dos quais ele queria e não consegue reprimir seu desejo.

Isso vale também e especialmente em casos extremos, em que é absolutamente necessário que o indivíduo controle seu desejo. Se eu fosse terapeuta no Irã, para ajudar meus pacientes homossexuais a evitar a forca, eu não os encorajaria a reprimir seu desejo (que sempre explodiria na hora e do jeito mais perigosos), mas tentaria levá-los, ao contrário, a aceitar seu desejo, primeiro passo para eles conseguirem vivê-lo às escondidas.

O mesmo vale para os indivíduos que são animados por fantasias que a nossa lei reprova e pune. Prometer-lhes uma mudança de fantasia só significa expô-los (e expor a comunidade) a suas recidivas incontroláveis. Levá-los a reconhecer a fantasia da qual eles não têm como se desfazer é o jeito para que eles consigam, eventualmente, controlar seus atos.

Agora, não entendo por que João Campos precisa recorrer à psicologia ou à psiquiatria para prometer sua "cura" da homossexualidade. Ele poderia criar e nomear seus especialistas; que tal "psicopompos"? Ou, então, não é melhor mesmo "exorcistas"?

Fonte:

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Ânimo!!!

O video é um pouquinho velho...

Mas, vale para lembrar que diante de tanta ignorância o que é preciso ser curado mesmo é a falta de Amor.






Amigos, força e esperança. Não vamos desanimar e nem replicar o mesmo ódio.


ps.:

Semana que vem, voltamos firmes e fortes!

:)

Rodolfo Viana

Equipe Diversidade Católica
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