segunda-feira, 4 de junho de 2012

Fé cristã e diversidade sexual: algumas reflexões

Foto: Hugo Nogueira


Transcrevemos abaixo a fala de uma integrante do Diversidade Católica e uma das moderadoras do blog, Cristiana Serra, no nosso evento de ontem. A quem esteve com a gente, nossa mais profunda gratidão pela presença e pelo tempo que partilhamos juntos. A quem não pôde estar, vamos postar, ao longo dos próximos dias, alguns conteúdos relacionados ao evento, para poder dividir com todo mundo um pouco do que aconteceu.

Ao contrário dos meus colegas de mesa, não sou teóloga nem religiosa. Sou uma católica leiga, e é desse ponto de vista que gostaria de compartilhar algumas reflexões com vocês aqui, hoje.

Hoje é dia da Santíssima Trindade. A crença cristã na Trindade fala muito sobre a forma como nós, na longa tradição judaico-cristã, chegamos a expressar nossa intuição mais profunda a respeito de Deus. Nós acreditamos em um Deus que é Pai, que ama o Filho, que é amado pelo Pai, e o Espírito Santo é o veículo desse amor. Por isso a gente fala que Deus é Amor; mas, quando dizemos que Deus é amor, que Ele não poderia fazer outra coisas senão amar, isso quer dizer que o mais importante na nossa relação com Ele não é o que a gente pensa sobre Ele.

Jesus não veio fazer tratados ou teorias sobre Deus. Ele encarnou esse amor. Ele se aproximava das pessoas com espírito de total entrega, total abertura, a serviço das pessoas. E isso é um pouco chocante pra gente, pensar num Deus que se ajoelha na nossa frente e nos lava os pés.

Porque a gente tem uma tentação constante que é o desejo de poder Para Mim. Eu ganho, eu fico com isso pra mim, e você fica sem, azar o seu. Tem que ter sempre um que ganha e outro que perde. O efeito disso pras sociedades é que a gente cria, coletivamente, estruturas de poder baseadas na exclusão: cria normas e, se não se enquadrar, fora. É um mecanismo de controle muito eficiente, baseado sempre na ameaça de exclusão.

A mensagem revolucionária de Cristo foi derrubar esses muros de dentro e fora. Quando ele fala que nós somos irmãos que têm de ser amar e servir uns aos outros, ele nos torna todos iguais, sem ninguém em cima e outro embaixo, sem gente dentro e gente fora. As estruturas humanas são verticais. A proposta de Jesus é horizontal: todo mundo junto. Quando derruba muros, isso se torna muito perigoso, porque poe abaixo as estruturas de poder humanas. Isso é insuportável, e a gente escolhe: isso a gente não quer. E manda Cristo pra cruz. Porque ele ousou nos colocar todos como iguais, como irmãos. E a palavra-chave aqui é fraternidade. Guardem essa palavra, que é importante, e vamos voltar a ela já, já.

Daí a gente passa 2 mil anos divididos entre o quase entendimento que a gente tem dessa lógica nova do serviço, de lavar os pés do outro, de um Deus que diz SIM pra gente a ponto de respeitar a nossa escolha quando a gente diz pra ele Não, e coloca ele pra fora; ou tentar enquadrar essa história na lógica do nosso poder humano: então, Deus mandou seu Filho inocente pra morrer por nós. Então, temos uma dívida impagável com ele. E, se ele se sacrificou a esse ponto por nós, a gente tem um Deus que tem o direito de cobrar também da gente um sacrifício. E aí a gente deixa de ter um Deus que se entrega inteiro para nós tal como somos, de graça, sem a gente ter feito nada para merecer isso, e que quer acima de tudo ver a gente feliz AGORA, pra ter um Deus que nos fiscaliza e promete a nossa felicidade pra depois, SE a gente se comportar direitinho.

Então a gente tem, de um lado, a vivência de um Deus que ama a gente de graça, inteiro - e isso é inebriante, é arrebatador, é uma alegria imensa se saber amado assim, do jeito que a gente é. E do outro a gente tem um Deus que impõe uma lista de condições, e uma receita: se você fizer isso você está no bom caminho, tá salvo, tá dentro. Se não fizer, está fora.

A história da Igreja – e quando falo Igreja falo todo o povo de Deus, todos os batizados, todo o corpo de Cristo, do qual todos nós somos membros – é a história dessa divisão. Você vê nomes como Francisco de Assis, como Inácio de Loyola, como Hélder Camara, como Zilda Arns, como Dorothy Stang, como James Alison, como Marcio Retamero, que estão na rua, que estão diante dos seus irmãos e olham para eles não com um monte de afirmações e preconcepções de certo e errado, tentando enquadrar as pessoas nos seus próprios conceitos de bom e mau, mas sim como pessoas que antes de mais nada olham para o outro e perguntam: em que eu posso te ajudar? Como eu posso te servir? E você tem o contrário, o olhar de quem julga e condena de acordo com padrões preconcebidos e quando olha o outro, em vez de ver um irmão amado, mede a pessoa com os seus preconceitos de bom e mau, de certo e errado.

Agora vejam só: quando eu falo isso, parece que eu estou fazendo o que? Dividindo as pessoas em dois grupos: a galera que entendeu, e os que não entenderam. Os que estão no caminho certo, e os que estão no caminho errado. Naturalmente, eu estou do lado que entendeu, o lado certo, claro. Eu, que estou pensando nisso tudo, também faço isso, também caio na mesma esparrela. Por quê? Porque a lógica do nosso pensamento é a comparação, é a criação de dicotomias bom x mau, a divisão em dois lados. Dentro e fora. Incluídos e excluídos. É um aprendizado individual superar essa lógica e simplesmente se abrir para o encontro com o outro. Eu sou eu, você é você e vamos nos conhecer, sem julgamentos, sem categorizações, como pessoas diferentes uma da outra e únicas que somos.

E essas duas lógicas vão sempre conviver dentro da gente, o que cria uma tensão. E a gente vive nessa tensão, entre a abertura para o encontro e para o novo e o fechamento nas preconcepções que a gente usa para organizar o nosso mundo.

Coletivamente também é assim: nas sociedades e nas instituições. Na Igreja é assim. E é preciso entender isso porque hoje em dia existe uma tendência a dizer que gays e religiosos são incompatíveis. Assim como muitos fundamentalistas julgam e condenam os gays, muitos gays julgam e condenam os religiosos.

Ou não, a gente pode dizer simplesmente que a Igreja condena os gays e ponto, mas isso cria alguns problemas. Primeiro: a Igreja não é só a hierarquia. Somos todos nós. Então, qual Igreja condena os gays? O padre que destitui um rapaz das suas atribuições pastorais na paróquia porque ele contou que é gay? Ou o padre que sabe que um cara é gay e mesmo assim o indica para ser Ministro da Eucaristia e lidera da Pastoral da Liturgia da paróquia? Que Igreja condena os gays? O catecismo? Qual parte? A parte que diz que os gays devem ser respeitados como pessoas que são e acolhidos sem discriminação? A parte que diz que a gente tem que ser casto? Mas tem uma parte que diz que "ser casto" é viver a sua vida sexual e afetiva de maneira ordenada, de abertura e encontro com o outro. Ou a parte que, dentro daquela lógica do sacrifício, fala para a gente pegar a nossa cruz, e isso quer dizer entender AQUI, especificamente no caso dos gays, "castidade" como "celibato"? A parte que diz “ame o pecador, mas odeie o pecado” (que é uma coisa meio difícil de entender, porque como é que você separa a pessoa daquilo que ela faz? Cristo é amor. Cristo é ato, é aquilo que ele faz. Deus é Verbo, é ação. Como é que a gente separa quem a gente é, abstratamente, daquilo que a gente faz? Mas isso é outra história)? Qual Igreja condena os gays? O fundamentalista que berra "eu te amo, mas, demônio, sai desse corpo que não te pertence"? Ou a comunidade da minha paróquia, que me recebe junto com a minha mulher de braços abertos, e não dá a mínima se a gente é um casal?

Que Igreja condena os gays? O gay que sabe quem é e se aceita como é, porque se sabe amado e aceito por Deus, ou o que vive um sofrimento dilacerante, porque se sente julgado e excluído pelo próprio Pai?

O que eu quero dizer é que existe um jogo muito complexo de forças em ação nesse corpo coletivo que é a Igreja. Existem pessoas, grupos, religiosos, comunidades, iniciativas, de inclusão de gays. E existem pessoas, grupos, religiosos, leigos, que excluem os gays. E isso está muito além do que a gente escolhe ouvir dos pronunciamentos e dos documentos oficiais. Porque a gente escolhe o que vai escutar dos pronunciamentos e documentos oficiais, também, viu, gente? Tem um enorme recorte aí, a serviço das nossas próprias preconcepções do que é a Igreja e de como ela funciona. Mas a verdade é que, mesmo no que é oficial, com chancela do Vaticano e tal, existem as falas de exclusão e as de inclusão.

Este ano está fazendo 50 anos da convocação do Concílio Vaticano II, que aconteceu entre 1962 e 1965. Esse Concílio representou uma tentativa de transformação da Igreja. Você tinha uma Igreja cheia de vícios de 1950 anos de história, ao longo da qual ela se misturou muito com os poderes mundanos. Houve um longo momento da história em que o Estado, no Ocidente, desapareceu, ficou todo fragmentado, e a Igreja virou a fonte de organização da sociedade. Ela passou a ser o Estado. Mas aí, o tempo passou, as mudanças vieram, o Estado surgiu de novo, quer dizer, voltou a haver uma estrutura pública e, curiosamente, passou a se entender que essa estrutura pública tinha que cuidar e zelar pelo bem-estar dos cidadãos, prestar serviços. Onde antes você tinha os poderosos explorando o povo, e se você era poderoso, muito bem; se você era povo, dane-se – você passou a ter aos poucos, cada vez mais, a noção de cidadania, de direitos para todos. Antes quem tinha direitos era um grupinho, uma elite; aos poucos cada vez mais gente passou a ter direitos: primeiro, os de determinadas linhagens (os nobres); depois, os que tinham dinheiro; depois, os direitos foram estendidos a todos os homens brancos acima de determinada idade; depois, às mulheres, aos negros, e também as crianças e jovens e velhos começaram também a ter seus direitos assegurados e protegidos. Mas isso é uma novidade muito recente na história, coisa de 2-3 séculos para cá. A gente hoje vive num país que diz que todo mundo é igual perante a lei, todo mundo é cidadão, e esquece que nem sempre foi assim.

Então, o Concílio Vaticano II foi uma tentativa da Igreja de entender e se adaptar a esse mundo. De se perguntar: tá, então neste novo mundo, a gente entra onde? Pra que a gente serve? E daí saíram duas conclusões muito importantes: primeiro, a noção de que, para além da imposição de uma lista de certos e errados, o que cada pessoa tem de mais importante, o que torna todo mundo igual, igualmente digno, o que cria uma dignidade humana que é inerente a todas as pessoas e faz com que todas as pessoas sejam portadoras dos mesmos direitos, é a liberdade de consciência.

“A consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser”, diz o parágrafo 16 da Constituição Dogmática Gaudium et Spes. Isso significa que qualquer norma deve ser colocada diante da consciência de cada um. E cada um de nós é responsável por estar atento à própria consciência, e não ir contra ela.

Os documentos do Concílio dizem que a liberdade de consciência, a liberdade de crença, é a mais importante de todas porque é a base de todas as outras e de todos os direitos. E daí veio a segunda conclusão muito importante do Concílio: se existe liberdade de consciência, a gente não tem uma única maneira de perceber a verdade, então não existe só um certo ou só um errado. Porque a verdade, ou o sagrado, não tem como ser inteiramente apreendida por um ser humano ou um grupo. Não existe mais o dono da verdade, e ou você está com ele, ou está contra ele. Ou está do lado certo ou do lado errado, ou dentro, ou fora. Existe um monte de gente e grupos, cada um dentro da sua percepção inevitavelmente limitada da realidade contando pros outros o que está podendo ver dali de onde está.

Como os cegos apalpando o elefante, vocês conhecem essa história? Um pegava no rabo e dizia “ah, o elefante é um animal curto e roliço como um graveto fino”. O outro pegava na tromba e dizia: “Você está louco, o elefante é um animal cilíndrico e flexível, e grosso como um grande galho de árvore”. E um terceiro, apalpando o pé do elefante, exclamava “Vocês estão errados, o elefante é rígido e ereto como um tronco de árvore”.

Então, o Concílio vem falar no pluralismo da sociedade em que a gente vive, e em como é imprescindível a Igreja respeitar as diferenças e se colocar aberta para o diálogo com a diversidade. Vale a pena ler documentos como a Gaudium et Spes ou a Dignitatis Humanae. São lindas.

Aliás, está justamente aí a fundamentação do necessário laicismo do Estado, pois só um Estado Laico pode assegurar essas liberdades individuais mais fundamentais e o direito à diferença. E a própria Igreja, em documentos como esses dois que acabo de citar, reconhece a necessidade imperiosa do Estado Laico.

E aí a gente lê esses documentos de 50 anos atrás e pergunta: onde está essa Igreja? Por que salta muito aos olhos a dificuldade da instituição em colocar essa postura de diálogo aberto em prática, essa maneira de perceber o mundo e as pessoas de uma maneira verdadeiramente fraterna. E olha aí a palavra fraternidade de novo: porque, se você tem um mundo de pessoas igualmente livres nas suas consciências, você tem um mundo de irmãos, que vivem as suas histórias e procuram se ajudar na busca honesta da verdade, cada um com a contribuição única do seu próprio olhar.

E onde está essa Igreja que dialoga? Ela está mudando. Porque é muita gente, é uma estrutura muito pesada, e todas as mudanças ao longo de 2 mil anos de história vieram assim: da mudança das bases, da mentalidade dessa multidão, para o alto. O alto, onde está o poder, resiste, claro, então muda devagar.  Por isso é responsabilidade de cada um de nós estar atento à própria consciência, porque é nesse conjunto da base, de todas as nossas consciências juntas, que sopra o Espírito da Verdade. Porque só juntos a gente enxerga o elefante, e quanto mais forem as pessoas de olhos abertos, melhor visão a gente tem desse elefante. E isso é diálogo. O diálogo está acontecendo aqui, agora. O diálogo acontece quando as pessoas se encontram. Se a gente divide o mundo em estereótipos, seja o estereótipo do gay, seja o estereótipo do religioso, do fundamentalista, não tem pessoas, não tem encontro, não tem diálogo. O encontro e o diálogo acontecem entre pessoas.

Coletivamente, nós, gays, temos uma grande contribuição para dar à Igreja e ao mundo: quando, indo contra todas as normas e preconceitos, a gente está tão em contato com a nossa consciência e com quem a gente é que sabe que não pode se esconder da gente mesmo e tem que ser quem a gente é, a gente está em contato com a nossa verdade. E a nossa verdade mais profunda é um pedacinho da verdade maior. É o nosso pedacinho do elefante.

O Evangelho diz “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. E isso, essa honestidade profunda com a verdade da nossa consciência, é uma dádiva. Essa é a nossa contribuição, é dizer “olha, mesmo contra todas as dificuldades, você tem que ser verdadeiro com você mesmo, porque isso é libertador. Eu estou conseguindo, viu? Experimenta. Isso derruba muros. Incomoda, porque a emancipação exige responsabilidade e maturidade, e é difícil, mas também é tão profundamente libertador”. Essa é a dádiva que os gays oferecem para o mundo.

Domingo passado foi Pentecostes, a festa do Espírito Santo. Que o Espírito da Verdade e do Amor nos inspire para o encontro e a abertura com os irmãos. E que nós possamos, gay e não-gays, religiosos e não religiosos, cada vez mais assumir as nossas responsabilidades perante nós mesmos e nossas consciências, e trabalhar por um mundo melhor, em que a gente possa ser mais irmãos.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

domingo, 3 de junho de 2012

''O verdadeiro problema é a clericalização. Voltemos à colegialidade''


"O verdadeiro problema é a clericalização da Igreja. É o retorno de um mal antigo: o domínio dos clérigos. Há um retorno de individualismo e de clericalismo também entre os jovens padres. É a Igreja hierárquica que se sente dona da verdade e não ao serviço dos outros. O que na Igreja devia ser serviço se fez poder. O uso do poder sagrado por parte dos clérigos: esse é o caruncho. Determinando assim uma reação igual e contrária por parte de quem detinha o poder e agora se sente marginalizado. A Secretaria de Estado não está ao serviço do papa; tornou-se um poder. A resposta é voltar verdadeiramente ao Concílio Vaticano II e à colegialidade."

- Gian Franco Svidercoschi, vaticanista e escritor, comentando os recentes escândalos vaticanos (leia entrevista completa aqui)

Casar homossexuais

- Sou contra o casamento gay.  - Por quê?
- Porque o casamento tradicional é entre um homem e uma mulher. É o que diz a Bíblia.
- Na verdade, o Rei Salomão tinha 700 esposas. E o casamento tradicional, de acordo com o Deuteronômio,
significa que o homem que estuprar uma mulher terá de casar com ela,
então é melhor você repensar seu argumento.
- Tenho nojo dos gays.   - Ah, agora sim.

A cada ano, mais e mais países têm aprovado o casamento entre homossexuais. No Brasil, o casamento civil ainda é sistematicamente confundido com o sacramento católico do matrimônio. Mas se para muitas religiões a homossexualidade ainda é pecado, para o Estado laico é o exercício do direito à livre orientação sexual e não pode ser pretexto para qualquer discriminação.

Por Túlio Vianna, para a Revista Fórum.


O divórcio só foi legalizado no Brasil em 1977. A depender de alguns religiosos da época, o casamento até hoje seria “até que a morte os separe”, pois “o que Deus uniu o homem não separa”. Os moralistas de plantão alegavam que o divórcio seria a degeneração da família e que, por costume, o casamento seria a “união indissolúvel entre o homem e a mulher”. Os filhos de casais separados eram invocados como as grandes vítimas da então nova lei mas, paradoxalmente, eram estigmatizados justamente por quem era contrário ao divórcio.

Passados 33 anos, o mundo não acabou, o Brasil não foi devastado pela ira divina e a emenda constitucional nº66 de julho de 2010 tornou possível o divórcio direto, sem a necessidade de uma prévia separação judicial. Ao contrário do que pregaram alguns profetas, o divórcio foi incorporado à legislação e ao cotidiano dos brasileiros sem maiores traumas.

A celeuma em relação ao casamento agora é outra: podem os homossexuais se casar? Os argumentos do debate continuam os mesmos: “a Bíblia não permite! Está lá no Levítico: 18-22!”, bradam os contrários; mas “o Estado é laico! Está lá na Constituição: 19-1!”, retrucam os defensores.

Do ponto de vista estritamente jurídico, o casamento civil é um contrato entre duas pessoas que deve ser firmado com base no princípio da autonomia da vontade. Se as partes são maiores e capazes, e há um efetivo consenso entre elas, o Direito deveria simplesmente respeitar suas vontades, sem impor qualquer tipo de limitação. Assim, não haveria qualquer óbice ao casamento de pessoas do mesmo sexo.

O casamento civil brasileiro, porém, desde sua criação, vem sendo reiteradamente confundido com o sacramento católico do matrimônio que lhe deu origem. Com a proclamação da República e o advento do Estado laico, uma das consequências imediatas foi a criação do casamento civil, pelo decreto 181/1890. Na prática, porém, o casamento civil emulava o matrimônio religioso e mantinha suas principais características: patriarcal, indissolúvel, monogâmico e heterossexual.

O Código Civil de 1916 manteve estas características, que só começaram a ser alteradas com o advento do Estatuto da Mulher Casada (Lei 4.121/62), quando a esposa deixou de ser relativamente incapaz, e da Lei do Divórcio (Lei 6.515/77), que pôs fim à indissolubilidade do casamento. A Constituição da República de 1988 deu feição bem mais moderna ao Direito de Família, assegurando a igualdade entre homens e mulheres (art.5º, I) e reconhecendo a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar (art.226, §3º). A discriminação por orientação sexual não foi expressamente mencionada no seu art.3º, IV, que proíbe o preconceito, mas foi abarcada pela vedação genérica a “quaisquer outras formas de discriminação”.

Os dogmas católicos da monogamia (art.1566, I) e da heterossexualidade (art.1514) foram mantidos pelo Código Civil de 2002 como características intrínsecas ao contrato de casamento civil, vedando assim os casamentos abertos e entre homossexuais. Estas restrições, na prática, não impedem os casamentos abertos, bastando aos interessados a aceitação do dever de fidelidade recíproca na cerimônia, para logo em seguida o descumprirem de comum acordo na vigência do casamento. O mesmo, porém, não se pode dizer dos casamentos homossexuais, que permanecem inviabilizados por uma inaceitável interferência religiosa no Estado laico.

Na impossibilidade de formalizarem sua união, os casais homossexuais passam a morar juntos, constituem famílias e seguem suas vidas, quase à revelia do Direito. Como em toda família, porém, separações ocorrem, pessoas morrem e questões jurídicas sobre este patrimônio constituído na vida em comum são levadas ao Judiciário.

A jurisprudência dos tribunais estaduais inicialmente solucionava estas questões, tratando a união como “sociedade de fato”, ou seja, como se os companheiros fossem sócios da micro-empresa “Lar Doce Lar”. Se um dos “sócios” morresse, o sobrevivente recebia a cota parte que lhe cabia na sociedade e a cota do falecido era deixada aos seus herdeiros. Atualmente, porém, muitos tribunais já dão sinais da aceitação da união estável homossexual, até para evitar situações absurdas como o companheiro falecido deixar sua herança aos seus irmãos, tios, sobrinhos ou primos que, em muitos casos, o hostilizavam por sua orientação sexual, em detrimento do companheiro sobrevivente que com ele trabalhou para acumular tal patrimônio e muitas vezes acabava por ficar na miséria.

A necessidade do reconhecimento jurídico das relações homossexuais, porém, vai muito além da questão da herança. Uma série de direitos exercidos quase que inconscientemente pelos casais heterossexuais é cotidianamente negada aos homossexuais: direito de adotar o sobrenome do companheiro, de somar renda para aprovar um financiamento ou alugar um imóvel, de inscrever-se como dependente do companheiro na Previdência, no imposto de renda e no plano de saúde, de gozar de licença na morte do companheiro ou quando este tiver filho, de realizar visita íntima ao companheiro preso, dentre muitos outros. Em suma, dá-se um tratamento jurídico de solteiro a um casal, cerceando-lhe direitos por mero preconceito moral e religioso.

Para tentar minimizar esta excrescência jurídica, tramita no STF, desde 2009, sob relatoria da ministra Ellen Gracie, a Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4.277-7 que busca o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo, como entidade familiar. Se provida, o poder judiciário, na prática estará suprindo em parte a omissão do legislativo em legislar sobre a união civil de homossexuais, reduzindo consideravelmente a discriminação jurídica hoje existente.

União estável, porém, não é casamento. Há diferenças jurídicas significativas que vão do uso do sobrenome, somente autorizado aos casados, até o tratamento dado à herança. Para além do direito, falta principalmente à união estável o simbolismo de uma cerimônia perante familiares e amigos reconhecendo a união do casal. Assim, mesmo que o STF admita a união estável homossexual, faz-se necessário que o legislativo aprove uma lei autorizando o casamento ou, ao menos, a união civil de homossexuais.

Em 1995, a então deputada federal Marta Suplicy (PT-SP) apresentou à Câmara dos Deputados o projeto de lei 1.151 propondo a regulamentação da união civil entre pessoas do mesmo sexo no Brasil. O projeto original foi modificado em 2001 por um substitutivo do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) e, desde então, aguarda a boa vontade dos deputados para votá-lo. Mais recentemente um novo projeto de lei (nº 4.914/2009) em sentido semelhante foi proposto pelo deputado federal José Genoino (PT-SP), e atualmente está sendo discutido nas comissões da Câmara.

No Brasil, até o momento, optou-se por projetos de leis que buscam regular a questão como união civil, e não como casamento. Esta união civil, que não deve ser confundida com a mera união estável, seria registrada em cartório e, na prática, geraria efeitos praticamente idênticos ao de um casamento civil. Foi a estratégia política encontrada pelo legislador para tentar minimizar a oposição à lei por parte dos setores conservadores da sociedade.

Este modelo da união civil de homossexuais foi adotado em alguns países europeus (Reino Unido, França, Alemanha etc), mas vem sendo bastante criticado por dar um tratamento jurídico desigual em função da orientação sexual. Muito mais democrático tem sido o reconhecimento por inúmeros países da igualdade jurídica entre uma união heterossexual e uma homossexual. Desde que a Holanda aprovou em 2001 o casamento homossexual, muitos outros países também sancionaram leis no mesmo sentido como Bélgica (2004), Espanha e Canadá (2005), África do Sul (2006), Noruega e Suécia (2009), Portugal e Argentina (2010).

Aqui, não raras vezes ainda se vê políticos de todos os espectros partidários valendo-se de um discurso escancaradamente religioso para rechaçar a aprovação do casamento civil de homossexuais, com base nas restrições do sacramento católico do matrimônio. Os mais cuidadosos procuram disfarçar sua fundamentação religiosa, recorrendo a argumentos do quilate da “tradição” e do “costume”, utilizados no passado para justificar a escravidão, a virgindade e o casamento indissolúvel por toda a vida.

Enquanto o exercício de direitos for negado por questões exclusivamente religiosas não seremos uma sociedade efetivamente democrática. Impressiona a quantidade de pessoas que lutam acirradamente para impedir que casais possam viver uma vida feliz juntos, porque esta relação contraria os dogmas da sua fé. Lutam para que o Direito impeça as pessoas de expressarem seu afeto, seu carinho, seu amor.

Já é hora de aprovar uma lei que permita o casamento dos homossexuais no Brasil. O Direito não pode servir de cão-de-guarda da intolerância religiosa alheia. Que os casais homossexuais também possam se casar e ser felizes para sempre, até que a morte – ou o divórcio – os separe.

Hoje, daqui a pouco: gays cristãos na Igreja Católica - e quem está nos dando a maior força :-)



@CarlosTufvessoncoordenador da CEDS Rio, ontem



Está chegando! Você encontra mais informações aqui - e olha, aí em cima, que super força a gente tem recebido de gente muito, muito boa.

Fora o Vitor Angelo, do Blogay (Folha de S. Paulo), que entrevistou a Cristiana Serra, uma das moderadoras aqui do blog e palestrante no evento de logo mais. Confira a entrevista aqui.

E o Felipe Valença, do DiverCidade Maravilhosa, que também publicou uma nota a respeito, aqui.

A Trindade Santa


Deus não poderia fazer outra coisa senão amar. Fazer discípulos não é recrutar mão de obra ou procurar aderentes. Antes de qualquer coisa, trata-se de ir. O único mandamento é amar!

A reflexão a seguir é de Raymond Gravel, sacerdote de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do Domingo de Pentecostes (3 de junho de 2012). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Referências bíblicas:
1ª leitura: Dt 4,32-34.39-40
2ª leitura: ROM 8,14-17
Evangelho: MT 28,16-20

Cada ano, após Pentecostes, desde o século XIV, nós celebramos a festa da Trindade Santa: a festa de Deus, o Deus único e trino, o Deus em pessoas. Eu lia o comentário de Gérard Sindt na revista Signes d’aujourd’hui, que dizia: “O nosso Deus é um Deus pessoal. Em Cristo, nós descobrimos Deus em pessoas (no plural), que nos ensina a nossa personalidade relacional” e – eu acrescentaria – comunional. De fato, Deus é relação e comunhão com a sua criação, conosco. E por que isso? Simplesmente porque Deus é Amor. No Ângelus do dia 22 de maio de 2005, o Papa Bento XVI convidava as pessoas a reconhecer que Deus é único, que ele é Pai, Filho e Espírito Santo, que ele não é solidão, mas comunhão perfeita, pois Deus é Amor. Eis aí a grande revelação que Cristo nos trouxe: o Ser de Deus é o Amor em estado puro. Então, Deus não poderia fazer outra coisa senão amar. De fato, o amor não existe se não for movimento, reciprocidade, dom, acolhida, relação e comunhão. Na história, Deus não cessou de se revelar e ele continua a fazê-lo hoje, pois se é Deus ele não pode ser e não pode existir mais que como Fonte de Amor, o amor criado que dá a vida, que se multiplica, que se expande e nos faz descobrir sempre mais Deus.

Para falar em Deus, precisamos defini-lo como relação, dom, partilha, comunicação, intercâmbio, comunhão. A única maneira de alcançar a totalidade é necessariamente três pessoas em Deus, porque o Amor tem isto de particular: é preciso que exista um terceiro: “O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês” (Jo 15,12). O Amor não volta àquele que ama; se dá a outro, daí seu crescimento e a sua fecundidade. Também, o Amor não se fusiona; ele estabelece uma relação interpessoal. É o que faz dizer ao padre francês Léon Paillot: “Deus, nosso Deus é essencialmente relação, intercâmbio. Mas é preciso uma terceira pessoa para que todos os Eu se tornem um Nós”.

Não podemos falar de um Deus Pai sem que haja uma relação de amor com um dos filhos gerados por ele. E se não houvesse nada além do que o Pai e o Filho, poderíamos pensar que eles se bastariam a se próprios: o Pai dá a vida e o Filho a recebe... Porém, isso faria um Deus limitado, centrado em si próprio. E, portanto, diz o teólogo Gérard Sindt: “Deus, na Bíblia, tende ao descentramento de si próprio, e é o Espírito que é o operador. Ele é a fecundidade operacional de Deus, a sua feminidade e a sua maternidade. A feminidade, ela própria, é experiência de Deus”. E Gérard Sindt acrescenta: “Quando se fala de pessoas em Deus, é sempre o Espírito que é mais difícil de atingir. Ele representa aqui a terceira pessoa, isto é, nós”. Nós estamos envolvidos, portanto, do mistério de Deus, da Trindade. Também, para que haja comunhão, é preciso três pessoas; se não houvesse mais do que duas, seria simplesmente uma relação. Assim, o Espírito assegura a fecundidade do Amor do Pai ao seu Filho que partilha conosco.

Mas o que nos dizem as três leituras de hoje sobre Deus?

1. Deuteronômio 4,32-40: Estamos no Antigo Testamento, a Antiga Aliança, e o autor do Deuteronômio se maravilha diante deste Deus diferente dos outros deuses; não é uma força escura ou impessoal como os outros deuses: Deus está, juntamente, longe e perto: “Javé é o único Deus, tanto no alto do céu, como aqui em baixo, na terra” (Dt 4,39). Ele fala ao homem (Dt 4,33) e ele se escolheu um povo (Dt 4,34). Essas duas coisas fazem parte da sua singularidade. Poderíamos ter pensado que Deus é incomunicável, que o mundo dos homens e o mundo de Deus não se encontram nunca, que eles não falam a mesma língua... Mas não! É tudo o contrário: com Deus existe uma comunicação possível, uma proximidade admirável, e não morremos! (Dt 4,33). Deus liberou seu povo da escravidão (Dt 4,34), e ele quer a felicidade dos seres humanos que ele escolheu (Dt 4,40).

Esse antigo texto do Deuteronômio não conhecia certamente o Deus Trino tal como o conhecemos hoje e que foi definido pela Igreja do século IV. Mas já podemos entrever sinais da Trindade, nos versículos 35-38, que o lecionário infelizmente cortou na liturgia deste domingo: fala-se da Palavra, do Verbo (segunda pessoa da Trindade), e do Fogo, do Espírito (terceira pessoa da Trindade). É uma antecipação do Deus relação e comunhão, tal como hoje é confessado.

2. Romanos 8,14-17: Na sua carta aos Romanos, São Paulo nomeia as três pessoas em Deus, sem mesmo conhecer o conceito da Trindade. Além do mais, ele nos integra na família trinitária: “Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rom 8,14). É o Espírito que segura o vínculo entre Deus e nós; ele nos tira dos nossos medos e das nossas escravidões, e nos faz reconhecer Deus como Pai (Rom 8,15). Além disso, diz São Paulo, nós somos como Cristo: “E se somos filhos, somos também herdeiros: herdeiros de Deus, herdeiros junto com Cristo” (Rom 8,17). E São Paulo acrescenta: “uma vez que, tendo participado dos seus sofrimentos, também participaremos da sua glória” (Rom 8,17). Mas atenção para não cair na teologia do martírio como necessidade de salvação! O que São Paulo quer dizer é que nas nossas experiências humanas de libertação e de sofrimento, nós somos como Cristo; assemelhamo-nos a ele. Assim como ele, nós também devemos assumir a nossa condição humana até o fim, isto é, até a morte, para ressuscitar como Cristo.

É evidente que no momento em que São Paulo escreve a sua carta, a perseguição cristã fazia parte do programa. Mas, hoje, como não é mais o caso, nós não devemos inventar silícios, como parecem propô-lo algumas correntes conservadoras cristãs. Nós não devemos levar mais do que os silícios que a vida nos impõe: os nossos limites humanos, as nossas capacidades, a doença, o sofrimento e a morte. A Sexta-Feira Santa precede sempre o Domingo de Páscoa. Foi o caso de Jesus de Nazaré e será o caso para nós também.

3. Mateus 28,16-20: Em nenhum lugar da Bíblia nós encontramos uma fórmula trinitária tão explícita e elaborada como no final do Evangelho de Mateus, onde assistimos ao envio missionário dos apóstolos, na noite da Páscoa: “Portanto, vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28,19). Segundo os exegetas, essa fórmula se constituiu na liturgia do batismo, no final do século I. Isso não quer dizer que o evangelista Mateus conhecia o Deus Trino como o conhecemos hoje; ele utiliza simplesmente o nome de Deus, revelado na história, como um Pai, por Jesus Cristo seu Filho, no Espírito de Cristo que nos habita. Devemos salientar que para Mateus o batismo não está reservado a um povo em particular; ele é universal: “todos os povos” (Mt 28,19).

A missão consiste, então, em batizar, em fazer discípulos. Não aderindo a uma doutrina, mas sim entrando numa comunidade de fé que se enraíza em Deus, pelo Espírito Santo que nos habita. É evidente que a pessoa que ensina é importante, mas ele diz respeito aos mandamentos que Cristo nos deu: “ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês” (Mt 28,20)... Porém, de fato, estes mandamentos se resumem num só: “Amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês” (Jo 15,12). O nosso Amor deve ser fecundo, voltado aos outros, para que ele produza frutos, e que ele revele outros rostos do Deus Amor, outras pessoas em Deus, pelo Espírito Santo. Apesar das dúvidas que surgissem e que persistissem sobre Deus, da parte desses próximos (Mt 28,17), Cristo nos confirma a sua presença, pois ele mora em nós pelo seu Espírito: “ensinando-os a observar tudo o que ordenei avocês. Eis que eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20).

Concluindo, eu gostaria simplesmente de propor a vocês esta bela reflexão do exegeta francês Jean Debruynne sobre o evangelho desse domingo: “Trata-se de fazer discípulos e fazer discípulos não é recrutar mão de obra ou procurar aderentes. Antes de qualquer coisa, trata-se de ir. Ir é partir, é sair. É ser livre. Ir é o contrário de estar fechado na verdade, e prisioneiro dos seus princípios. Ir é caminhar para a frente, e não de ré. Ir é um sinal de confiança. Vá! É uma decisão. Trata-se de aprender a guardar os mandamentos e não guardá-los na geladeira. O único mandamento é amar!”.

sábado, 2 de junho de 2012

“É possível ser católico fervoroso e gay praticante"


Uma notinha rápida: vale conferir, aqui, o post do Blogay, da Folha de S. Paulo, sobre nosso evento de amanhã, com uma entrevista com uma das moderadoras aqui do blog.

E o pessoal do DiverCidade Maravilhosa também publicou a respeito, aqui. Estaremos juntos amanhã!

Ficam as dicas. ;-)

Pastor gay critica fundamentalistas e defende teologia inclusiva


Nosso amigo Marcio Retamero é teólogo, historiador e pastor presbiteriano, e participará da nossa mesa-redonda no nosso evento "O Amor de Cristo nos Uniu - Gays Cristãos na Igreja Católica", amanhã, dia 03/06 (saiba mais aqui), falando sobre "Homossexualidade e Bíblia".

(Fonte: Bule Voador)

A Igreja Católica está se reduzindo a uma seita?

Intervenção: Jim Lambie

Se a hierarquia continuar nesse caminho de privação de direitos em massa, o resultado não será uma Igreja menor e mais fiel, mas sim uma seita isolada e contracultural.

A análise é de Jamie L. Manson, teóloga católica e mestre em teologia pela Yale Divinity School. Suas colunas no jornal National Catholic Reporter - NCR - renderam-lhe um prêmio da Catholic Press Association por melhor coluna/comentário regular em 2010. O artigo foi publicado no sítio do jornal NCR, 24-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Muito tem se falado nos últimos meses sobre um anúncio publicado no The New York Times (imagem abaixo) encorajando católicos liberais e nominais a "sair da Igreja", porque ela nunca poderá ser mudada a partir de dentro e porque participar dela é colaborar com o seu sistema opressivo.

O anúncio foi pago por uma organização chamada Freedom from Religion Foundation. Mas, quanto mais eu reflito sobre o anúncio e sobre o comportamento da nossa hierarquia ultimamente, há uma parte de mim que não ficaria surpresa se ficássemos sabendo que o próprio Vaticano secretamente pagou pelo anúncio.

Com os seus ataques contra o casamento homossexual, a batalha contra a prestação de cuidados de saúde adequados às mulheres, o golpe hostil contra a LCWR [Leadership Conference of Women Religious] e a inquisição contra as meninas escoteiras, a hierarquia continua se apresentando como um embaraçoso espetáculo midiático em uma sociedade que há muito tempo se recusa a aceitar o ensino sobre o controle de natalidade, que acredita na igualdade das mulheres e que, cada vez mais, apoia o casamento homossexual.

Mesmo aqueles que não são afetados diretamente por essas batalhas ideológicas acham odioso o fato de que a hierarquia prefere gastar uma quantidade preciosa de dinheiro e de recursos em ações judiciais contra o governo Obama e em bizarras novas campanhas como a Fortnight for Freedom [período de oração e reflexão sobre a liberdade religiosa proposto pela Conferência dos Bispos dos EUA para os dias 21 de junho a 4 de julho].

Os líderes da Igreja parecem obcecados por privar de seus direitos o maior número de leigos possível.

A pergunta é: por quê? Por que a hierarquia está agindo como a nova chefe que, para se livrar da equipe que herdou, torna tudo o mais desconfortável possível para que não permaneçam na organização? As lideranças da Igreja tomaram uma decisão por reduzir seu tamanho? Será que ele perceberam que os 2,2 bilhões de dólares em acordos em torno dos abusos sexuais e o número rapidamente decrescente de padres nos Estados Unidos tornou a Igreja incapaz de prover as necessidades dos 72 milhões de católicos?

Talvez, todas essas batalhas ideológicas – que, dizem, estão fundamentadas no desejo do Papa Bento XVI de uma Igreja menor e mais fiel – tenham realmente tudo a ver com dinheiro, ou com a falta dele. Mais de um comentarista sugeriu que o fim da repressão contra a LCWR poderia estar na recaptura de propriedades, bens e reservas de pensão das comunidades religiosas.

Infelizmente, se a hierarquia continuar nesse caminho de privação de direitos em massa, o resultado não será uma Igreja menor e mais fiel, mas sim uma seita isolada e contracultural.

Em seu livro The Sacred Quest, os estudiosos Lawrence Cunningham e John Kelsay descrevem as características de uma Igreja e de uma seita. Eles contam com o trabalho pioneiro do estudioso alemão Ernst Troeltsch - o primeiro a fazer essa distinção com base em suas observações na Europa -, do início do século XX, quando comunidades religiosas como a Igreja da Inglaterra estavam em contraste com grupos dissidentes, como os quakers, cujas crenças religiosas os excluíram da cultura dominante de seu país.

Cunningham e Kelsay definem uma igreja como "uma comunidade religiosa de alguma posição social que convida todos os membros de uma sociedade a participar de suas atividades, tem uma participação no bem-estar da comunidade social, e afirma ser o guardião da verdade religiosa".

Uma seita, por outro lado, "tende a exigir mais da conformidade em seus membros, é exclusiva, distancia-se das preocupações da sociedade em geral e também afirma ser a portadora da verdade religiosa." Seitas são "exclusivistas, introspectivas e têm algumas tensões com a cultura dominante". Exemplos atuais de seitas seriam os Amish ou os judeus hassídicos.

Enquanto a hierarquia e seus devotos gastam todo o seu tempo e energia exilando os "dissidentes" na Igreja, são eles que estão se tornando dissidentes na sociedade. O chamado de Bento XVI para a obediência radical e a recusa de questionamentos soa mais como a demanda absoluta de uma seita para o conformismo do que o chamado para uma igreja universal.

A recusa da hierarquia em reconhecer a necessidade crucial de contracepção global, bem como um sacerdócio que inclua mulheres e pessoas casadas, é um sinal claro de seu isolamento contínuo com relação às preocupações da sociedade.

Alguns na hierarquia e muitos dos que estão no movimento neoconservador até já se voltaram para a noção pré-Vaticano II de que a salvação só pode vir através da Igreja Católica Romana.

Até mesmo os trajes a Igreja Católica estão se tornando sectaristas. Jovens seminaristas e recém-ordenados tornaram-se notórios por arrastar para fora dos armários da Igreja túnicas amarradas como saias, pluviais e manípulos repletos de traças. E qual leitor do NCR pode se esquecer do galero do cardeal Raymond Burke, ou da exibição da capa magna de 20 metros de comprimento do bispo Edward Slattery James na Basílica do Santuário Nacional da Imaculada Conceição [veja as fotos no post original, aqui]?

Quem pode ficar feliz e em paz na Igreja institucional, exceto aqueles que possuem pontos de vista extremistas e contraculturais? Claro, alguém pode argumentar que o próprio Jesus foi considerado extremista e contracultural em seu tempo. Mas aqui está a diferença: Jesus não tinha medo do mundo.

Jesus nunca permitiu obediência absoluta à lei para trunfar as necessidades pastorais da das pessoas diante dele. Ele desafiou o ritual religioso em prol da cura do sofrimento. Ele chamou todos - coletores de impostos, homens ricos, mulheres, bêbados, prostitutas - para a sua mesa, sem exigir nenhum teste de fidelidade ou confissões.

A Igreja Católica Romana está se tornando rapidamente um refúgio para aqueles que têm medo do mundo. A Igreja que, há 50 anos, chamou a si mesma para imergir no mundo moderno está, em vez de encolhendo, recusando-se a se envolver de uma forma significativa e pastoral com as lutas e necessidades humanas de hoje.

A hierarquia está tão arraigada em ideologias que esqueceu que existem complexas histórias humanas por trás de questões como a contracepção, a ordenação de mulheres e o casamento homossexual. Não é à toa que eles têm tanto medo de mulheres religiosas - que construíram uma Igreja de integridade e credibilidade moral por imersão na realidade da vida humana e pela coragem de se comprometer com um mundo cheio de sofrimento, fissura, imprevisibilidade e paradoxo.

Ao invés de permitir que o ministério da Igreja cresça e evolua com a comunidade humana, a hierarquia parece estar escolhendo o caminho de um grupo religioso dissidente. Ao fazer isso, eles estão abandonando, de bom grado, aqueles que esforçaram-se por décadas para permanecer fiéis à Igreja, mesmo através da desgraça dos abusos sexuais e da rescisão gradual das promessas do Concílio Vaticano II.

E quando essa geração de fiéis morrer, quem entre as novas gerações irá achar vida e sentido nesta Igreja-seita? Aqueles que querem fugir de um mundo em fluxo, com sofrimento, incerteza e luta pela igualdade? Aqueles que querem se recolher em um enclave fundamentalista onde homens europeus e patriarcais afirmam ter a verdade absoluta e inquestionável sobre Deus e sobre o nosso mundo?

Talvez seja uma Igreja mais fraca do que a hierarquia e seus devotos acham que querem. Talvez isso é tudo o que as lideranças sê veem realisticamente capazes de pagar. Quaisquer que sejam as motivações, se eles continuarem nesse caminho, terão que aceitar que deixarão de ser uma Igreja no mundo moderno e, ao contrário, se transformarão em uma seita exclusivista e isolada.

Foi Deus quem mandou?

Do querido Murilo Araújo (em mais um editorial brilhante para o Vestiario.org), que já chegou no Rio de Janeiro e nos dará a alegria de participar do nosso evento amanhã (saiba mais aqui), partilhando conosco seu testemunho de gay cristão:
(...) me deparei com a seguinte notícia, hoje mais cedo: “Pastor diz em sermão que governo deveria matar homossexuais”. Minha primeira reação foi pensar: “como assim? Que ano é hoje? Inquisição, é você? Não, pera… Inquisição era coisa dos católicos, e o cara aí não é padre, é pastor.” Depois de me dar conta de que a história parecia verdadeira mesmo, de que estamos mesmo em 2012, minha segunda reação foi uma mistura de nojo e revolta. A terceira foi vir escrever. 
Sei que a crítica que essa figura precisa receber pode até parecer óbvia, sei que um cara desses merece nada mais que desprezo pela sua suprema imbecilidade, sei até que muita gente deve estar começando a encher o saco de me ver falar sempre dessa questão de religião no debate sobre homofobia. Mas desculpa, eu não consegui ficar na minha. Se me revolto só de pensar que ainda existe gente encarando a homossexualidade dessa maneira, imaginem o tamanho da indignação que me bate quando vejo uma suposta autoridade propagar esse tipo de discurso de ódio, com a mesma tranquilidade (e uma pitada a mais da veemência) com que mandaria as pessoas rezarem antes de dormir. 
E não é o primeiro caso: na semana passada, após Barack Obama ter defendido abertamente o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o pastor Charles Worley, da Carolina do Norte, sugeriu que gays e lésbicas fossem trancados em campos de concentração, rodeados por cercas eletrificadas, como uma forma de se ver livre deles e delas – afinal de contas, isolados do resto do mundo, “eles não podem se reproduzir”. 
Desta vez, no mesmo estado (onde um referendo popular proibiu casamento e união civil entre homossexuais um dia antes da declaração de Obama), foi a vez do pastor Curtis Knapp ir ainda mais longe e defender morte. Assim, direto. Pelo menos teve a decência de esclarecer que a ideia não era dele, e mencionar o suposto autor original, ninguém mais ninguém menos que Ele, o “Todo-Poderoso”: “Você dirá: Oh, eu não posso acreditar, você é horrível. Você é um neanderthal. É disso que você está chamando Deus? Ele é um neanderthal? As Escrituras são a sua palavra ou não? Se é a sua palavra, ele ordenou. É sua ideia, não a minha. E eu não me envergonho disso. Ele disse que os colocará à morte. (…) Você tem uma ideia melhor? Uma ideia melhor do que a de Deus?”. 
E o que me deixa mais curioso nessa história é a apropriação indevida das tais boas ideias de Deus, usadas apenas na hora em que interessa. Duvido muito que estes mesmos pastores que invocaram a citação bíblica de Levítico para destilar sua homofobia deixem de comer moluscos quando queiram (Levítico 11, 10), ou de fazer a barba quando incomodar (Levítico 19, 27; Levítico 21, 5) ou ainda que ordenem que as mulheres de suas igrejas raspem as cabeças se não desejarem usar véus dentro dos templos (Carta de Paulo aos Coríntios 11, 6). Não é estranho ser fundamentalista para algumas coisas, relativizando outras com tanta tranquilidade
Penso na quantidade de fieis presentes dentro destas igrejas, ou até mesmo fora delas, que certamente sairão pelas ruas repetindo este tipo de discurso de ódio, e promovendo todo tipo de violência. Acho que todo mundo tem memórias de algum homofóbico (por menos religioso que seja) afirmando que Deus fez o homem para a mulher, como justificativa para não apoiar a igualdade de direitos. Isso para não falar dos muitos casos de espancamentos a chute, pedra e lâmpada. Ou dos constantes assassinatos – que é exatamente o que o tal pastor está querendo que o governo faça. 
E quem calará a boca destas figuras? Quem, se a sociedade também homofóbica dá a eles o direito de dizer as babaquices que quiserem, sob o suposto princípio da liberdade de expressão? É por essas e outras que ainda escrevo sobre este assunto. Se eles podem dizer aquilo que quiserem, ao menos precisamos nos preocupar em escancarar o preconceito e a intolerância. (...)


Leia também:
Porque nada justifica a homofobia. Nem a Bíblia
Leia o texto do Murilo na íntegra aqui

Deus não pertence a uma religião


A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 28, 16-20 que corresponde ao Domingo da Santíssima Trindade, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


No núcleo da fé cristã num Deus trinitário há uma afirmação essencial. Deus não é um ser tenebroso e impenetrável, encerrado egoisticamente em si mesmo. Deus é Amor e só Amor. Nós cristãos acreditamos que no mistério último da realidade, dando sentido e consistência a tudo, não há senão Amor.

Jesus não escreveu nenhum tratado acerca de Deus. Em nenhum momento o encontramos expondo aos camponeses da Galileia alguma doutrina sobre Ele. Para Jesus, Deus não é um conceito, uma bela teoria, uma definição sublime. Deus é o melhor Amigo do ser humano.

Os investigadores não duvidam de um dado que recolhem dos evangelhos. As pessoas que escutavam Jesus a falar de Deus e o viam atuar em seu nome experimentavam Deus como uma Boa Nova. O que Jesus diz de Deus soa-lhes a algo de novo e bom. A experiência que comunica e contagia parece-lhes a melhor notícia que podem escutar de Deus. Por quê?

Talvez o primeiro que captam é que Deus é de todos, não só dos que se sentem dignos para apresentar-se ante Ele no templo. Deus não está preso a um lugar sagrado. Não pertence a uma religião. Não é uma propriedade dos piedosos que peregrinam a Jerusalém. Segundo Jesus, ele “faz sair o seu sol sobre bons e maus”. Deus não exclui nem discrimina ninguém. Jesus convida todos a confiar Nele: “Quando oreis dizei: Pai!”

Com Jesus eles vão descobrindo que Deus não é só dos que se aproximam dele carregados de méritos. Antes deles, escuta a quem lhe pede compaixão porque se sentem pecadores sem remédio. Segundo Jesus, Deus anda sempre procurando aqueles que vivem perdidos. Por isso se sente tão amigo de pecadores. Por isso lhes diz que Ele “veio procurar e salvar o que estava perdido”.

Também se dão conta de que Deus não é só dos sábios e entendidos. Jesus agradece ao Pai porque gosta de revelar aos pequenos coisas que estão ocultas aos ilustrados. Deus tem menos problemas para entender-se com o povo simples do que com os doutos que acreditam saber tudo.

Sem dúvida, a vida de Jesus foi dedicada em nome de Deus a aliviar o sofrimento dos doentes, libertar os possuídos por espíritos malignos, resgatar leprosos da marginalização, oferecer o perdão a pecadores e prostitutas..., o que os convenceu que Jesus experimentava Deus como o melhor Amigo do ser humano, que só procura o nosso bem e apenas se opõe aos que nos fazem mal. Os seguidores de Jesus nunca puseram em dúvida que o Deus encarnado e revelado em Jesus é Amor e só Amor para todos.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Leonardo Tenório é a nossa cara


Dica do excelente Queer and Politics.

Bullying e homofobia nas escolas

Escultura: Mark Jenkins

Esse assunto tem estado muito em evidência ultimamente, e deve ter gente se perguntando por que há tanta insistência no assunto. Afinal, já não se falou o suficiente? As pessoas já não estão 'carecas' de saber?

Sim, as pessoas sabem que o bullying acontece, mas é só. A solução ainda está longe de ter sido alcançada, e isso porque envolve uma série de fatores.

Bullying em geral já é ruim, mas quando acontece com alguém por motivos que ele ou ela consegue conversar com os pais ainda há uma saída, porque os pais podem ir à escola e conversar com a direção e os professores e tentar achar uma solução. Um trabalho interessante neste sentido foi feito em uma escola em Porto Alegre e pode ser visto aqui. [Não deixe de ler também: Homofobia nas escolas]

No entanto, quando se trata de adolescentes LGBT o panorama muda. Muitas vezes o/a adolescente não pode contar para os pais que sofre bullying na escola pelo simples motivo de que ele não pode contar sobre a sua homossexualidade para os pais. A maioria dos pais não está preparada para lidar com essa realidade, existem inúmeros relatos de jovens LGBT que são obrigados a esconder da família o que são e, portanto, também não podem contar com a ajuda dos pais para tentar uma solução junto à escola. Isso leva a situações como essa descrita em um artigo da Unesco, sobre evasão escolar [aqui]:
"Pesquisas recentes, como o estudo Discriminação em razão da Orientação Sexual e da Identidade de Gênero na Europa, do Conselho da Europa, identificaram que como resultado do estigma e da discriminação na escola, jovens submetidos ao assédio homofóbico são mais propensos a abandonar os estudos. Também são mais predispostos a contemplar a automutilação, cometer suicídio e se engajar em atividades ou comportamentos que apresentam risco à saúde."
Essa situação de isolamento total, na qual o/a jovem não pode contar com ninguém para ajudá-lo pode levar a extremos como o suicídio e outros problemas. Um caso ocorrido no Brasil ilustra o abandono em que se encontram jovens assim:


Mesmo quando não chega a esse ponto, há sérias consequências. Em um estudo feito nos EUA concluiu-se que há uma tendência maior à depressão e ao comportamento de risco e de contrair DSTs [aqui]. (...) No Brasil a situação não é diferente. Conforme um estudo, maioria dos jovens brasileiros discrimina homossexuais [aqui]. (...) E, em uma entrevista feita recentemente com o deputado Jean Wyllys, ele conta um pouco sobre a sua própria experiência como vítima de bullying na escola [aqui]. (...)

A quem cabe resolver o problema? Àquele que tem o poder para isso. Diante de tantas evidências de que o bullying de fato ocorre nas escolas, e considerando que os pais e professores estão sem nenhum preparo para lidar com a situação, fica muito claro que a solução precisa vir das autoridades. O Kit Anti-Homofobia que foi vetado pela presidente Dilma é uma das coisas de que precisamos para mudar o panorama do bullying nas escolas.

A omissão descrita por Jean Wyllys na entrevista parece ser comum. Como se pode ver no vídeo sobre o suicídio ocorrido no Brasil, a professora também se omitiu. Pode-se concluir que muitos professores se omitem possivelmente porque eles mesmos são homofóbicos. Embora não cometam violência eles mesmos, permitem que aconteça. Nas palavras do irmão do menino de 14 anos que se suicidou: "olha aí ó, meu irmão tá apanhando aí, tem uns moleque batendo nele aí. Aí ela [a professora] 'ah, não tenho nada a ver com isso, a briga é de vocês' "
Quando a criança sai do ambiente da família para o ambiente maior que é a escola, em seu processo gradual de se inserir na sociedade, ela precisa ser protegida. Não é correto tratá-la como se fosse uma pessoa adulta, já plenamente capaz de se defender, nem de agressões verbais, muito menos físicas. E muitas vezes a orientação tem que vir de cima: são as autoridades que precisam mandar um recado muito claro de que a omissão diante desse tipo de conduta é inadmissível.

- Åsa Heuser, vice-presidente da LiHS, para o Conselho LGBT da LiHS

(Fonte: LiHS)

Evangélicos e católicos pedem defesa da liberdade religiosa

Arte: Jose Romussi

O movimento Evangélicos e Católicos Juntos (Evangelicals and Catholics Together) alude, em manifestação pública, à urgente necessidade de defender a verdadeira liberdade religiosa e admite que os cristãos fracassaram, com frequência, “em querer viver essa liberdade, perseguindo outras religiões ou fazendo uso de métodos coercitivos de proselitismo”.

A informação é da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC), 10-05-2012, aqui reproduzida via IHU.


O documento insta católicos e evangélicos a trabalharem juntos na busca do respeito às crenças, pela liberdade religiosa, também na América do Norte e na Europa, como parte dos direitos democráticos. A história mostra que as sociedades religiosamente livres são melhores para o povo e mais segurar para o mundo, aponta o texto.

Expressa, ainda, a necessidade de manter a separação real entre Igreja e Estado, garantia legal para a liberdade religiosa. Católicos e evangélicos propõem que o papel dos cidadãos, tanto crente como não crentes, esteja no mesmo plano público, a fim de trabalhar pela construção de um espaço real de liberdade e de debate.

Evangélicos e Católicos Juntos reporta-se também à perseguição que cristãos sofrem nos Estados Unidos por defenderem a religião islâmica e o radicalismo do uso de símbolos religiosos. “Mas a liberdade religiosa também está em perigo em alguns países onde o idioma dos direitos humanos é parte do vocabulário moral público”, mencionando casos de problemas com a legislação norte-americana em relação à objeção de consciência para os médicos que se negam a realizar abortos ou aos ministros religiosos que se opõem aos casais gays.

Ânimo, vocês não estão sozinhos!

Foto via Blue Pueblo

Textos para sua reflexão:
At 2, 1-11, 1Cor 12, 3-7.12.13 e Jo 20, 19-23

Era festa de Pentecostes. Cinqüenta dias haviam se passado desde todos aqueles acontecimentos que cercaram a morte e a ressurreição de Jesus. O Mestre já havia aparecido a eles e, na sua frente, havia ascendido aos céus. Porém, os discípulos ainda encontravam-se fechados e com medo do que poderia lhes acontecer. Ainda que tivessem visto e trouxessem em seus corações a certeza de que o Senhor havia ressuscitado, não sabiam como agir ou que caminhos seguir para levar adiante os ensinamentos do Senhor, já que não viam como enfrentar o resto do povo que não possuía a mesma experiência que a deles. Então, o Espírito Santo veio sobre eles e se manifestou na forma de línguas de fogo sobre suas cabeças (cf At 2,1-11).

Imediatamente, tudo clareou. Não havia mais espaço para o medo, para o limite, para as fronteiras. Era urgente que a mensagem de Jesus Cristo fosse levada a todos os homens e mulheres!

O Espírito prometido por Jesus em diversas ocasiões veio animar aqueles homens que se encontravam fechados, abrindo-lhes as portas do entendimento, enchendo-lhes o peito de coragem, e os impulsionando a ir além e além. E, o que se sucede a partir daquele dia começado no silêncio e na escuridão do Cenáculo, é conhecido: a mensagem de Jesus se espalha pelo mundo, a Igreja se constitui e a humanidade é invadida por uma nova esperança. Onze homens medrosos transformariam a história da humanidade, que nunca mais seria a mesma após receber a mensagem de Cristo.

O Espírito que veio sob a forma de vento e de fogo e permanece a soprar e a aquecer nossos corações com o entendimento e a coragem necessários para que possamos continuar o trabalho dos Onze. Se também temos medo, Ele nos acalma; se os caminhos são tortuosos, Ele os aplaina; se só vemos trevas, Ele faz brilhar as luzes. É ele que nos anima e que nos enche de desejos e sonhos, fazendo com que nossos atos nos ultrapassem. É esse mesmo Espírito que forma o corpo místico de Cristo ao que nos une de forma indelével e eterna, e através do qual formamos uma só família e uma só Igreja.

O Espírito de Deus é o sopro criador, o transformador de realidades, o acalentador de corações. Encher-se desse Espírito é deixar-se invadir pelo próprio amor de Deus, é deixar-se mover pelas cordas impulsionadoras do Pai que nos quer irmãos e irmãs em todo o mundo. É, por fim, abandonar-se à graça e deixar que Deus viva em nós, suplantando-nos de tal modo que sejamos imagem e semelhança Dele e O testemunhemos concretamente.

Que o Espírito que anima a vida da Igreja, garantindo-lhe a alma e o ardor vibrantes, possa também acender essa mesma chama em nossos corações e suscitar-nos o desejo de melhor amar e servir sempre, em qualquer lugar, a qualquer pessoa.

- Gilda Carvalho
Reproduzido via Amai-vos

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O importante é ser uma boa pessoa

Foto via Blue Pueblo

São palavras assim que nos iluminam o caminho e nos fazem cada vez mais acreditar que, sim, um mundo melhor está nascendo, neste exato momento.

Amigas/os,
Parabens pelo seu site!!! Sou uma velha mulher heterosexual, casada, 71 anos. Por um acaso achei o seu site. Está muito bom!
Na minha longa vida encontrei um bom número de gays e lesbicas, colegas, chefes, amigas/os.
Eram todos pessoas maravilhosas, excelentes profissionais, bons chefes ou colegas, fiel amigos. Em regra pessoas muito preocupados com o "social". Ajudavam aos menos favorecidos.
Eu acho que o importante é ser uma boa pessoa, ter bom carater, ser honesto, trabalhar. Se a pessoa prefere viver com uma pessoa do mesmo sexo, ou do sexo oposto é de importância nenhuma. E quem se sente atraido pelo mesmo sexo tem o mesmo direito de amar como uma pessoa que se sente atraído pelo sexo oposto.
Um abraço
Irene Ortlieb

Comentário recebido por e-mail, reproduzido com autorização da autora.


* * *

"Curar gays? Então, curemos cristãos também"


Uma importante e muito bem colocada reflexão de Leonardo Sakamoto em seu blog:

Pior do que algum instituto de pesquisa obscuro revelar que encontrou a cura para a homossexualidade é o fato de nós, jornalistas, darmos espaço acrítico para a divulgação desses milagres científicos. Isso gera audiência e leitura? Ô se dá! Pais aliviados ficam agradecidos, uma vez que isso mostraria que seu filho ou sua filha apenas “padece de uma terrível doença” e seu comportamento “não foi um erro de criação”.

E, ao mesmo tempo, ajuda a reforçar como um desvio o fato de alguém ser atraído por uma pessoa do mesmo sexo. E se é um desvio, pode ser corrigido. Arrumado. Consertado. Curado. Imagine só, você não curte de verdade aquela pessoa. Está apenas dodói.

Uma das primeiras orientações a estudantes de jornalismo é verificar a fonte da informação. E tentar entender quais os interesses por trás dela. Uma pesquisa que encontra algum “gene gay” financiada com recursos de organizações religiosas deve ser tão levada a sério quanto um estudo sobre os benefícios do tabaco bancado pela Souza Cruz ou a Phillip Morris.

E se fosse o contrário? Tempos atrás, me recomendaram o vídeo abaixo, que ironiza a situação. Procurando um argumento para enviar a um colega que tem medo da sexualidade alheia, reencontrei-o.

Todos têm direito a expressar sua fé, como todos deveriam ter direito de ter sua orientação sexual respeitada. Ainda mais porque escolhemos a fé. Não a orientação sexual.

O vídeo serve como provocação para ajudar a percebermos como os argumentos pífios que usamos podem ser ridículos quando voltados contra nós mesmos.


É um absurdo que a essa altura da história nossa sociedade ainda esteja discutindo se deve ou não universalizar direitos. Que, de tempos em tempos, gays e lésbicas sejam espancados e assassinados nas ruas só porque ousaram ser diferentes da maioria. Que seguidores de uma pretensa verdade divina taxem o comportamento alheio de pecado e condenem os diferentes a uma vida de inferno aqui na Terra. E, se não bastasse tudo isso, representantes políticos (que deveriam garantir que direitos fossem válidos a todos os cidadãos) agem não para fazer valer o Estado de Direito, mas sim no intuito de incentivar a intolerância, empurrando a sociedade para o precipício.

Encontro marcado!

Clique na imagem para ampliar.
Mais informações aqui

Não resistimos: olhem que lindo o convite feito por um amigo nosso no Facebook aos seus amigos.
Tae galera, como sempre digo na vida devemos ter equilíbrio... Nesse domingo irei ao encontro promovido pelo grupo Diversidade Católica, a fim de refletir sobre a questão "pessoas que amam pessoas do mesmo sexo e espiritualidade". Como todos sabem eu acredito que em um relacionamento, seja entre dois homens, entre duas mulheres ou entre um homem e uma mulher, pra dar certo tem q ter Deus (o Amor) no meio, pra que ambos sejam fortes diante das adversidades que toda relação enfrenta e construir uma história real de amor, respeito, cumplicidade, fidelidade e felicidade. Portanto, esse fds sairei pra balada na sexta e sábado não irei sair para estar bem disposto no domingo pra participar desse evento q é aberto ao publico e começará as 14h na UNIRIO, Av. Pasteur, 456, Botafogo, Praia Vermelha. Anima ae. Bom e abençoado dia pra todos!!!
Mais informações sobre nosso encontro domingo aqui. ;-)

Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos (3)

Foto: Tony Park

Começamos a publicar há duas semanas (veja a primeira parte aqui e a segunda, aqui), em 6 partes (que você acessa na tag "Homossexualidade e evangelização"), o artigo "Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos", do Pe. Luís Correa Lima, SJ, divulgado pelo Centro Loyola de Fé e Cultura, da PUC-Rio, como uma síntese do curso Diversidade Sexual, Cidadania e Fé Cristã, realizado em 2010 e 2011. O artigo, que sairá sempre às quintas-feiras pela manhã, tem como objetivo fornecer subsídios a religiosos e leigos, agentes de pastoral e outros para entender melhor e encontrar meios de lidar, dentro do contexto da Igreja Católica, com os desafios pastorais da relação e cuidado da população LGBT, no foco do acolhimento respeitoso e amoroso.

A Sagrada Escritura
Com relação à Sagrada Escritura e a homossexualidade, convém ir além da leitura ao pé da letra. Há novas maneiras de se compreender os textos bíblicos, utilizando o método histórico-crítico que os situa em seus respectivos ambientes sócio-culturais, com seus modos de expressão próprios. A Igreja reconhece esta abordagem desde o tempo do papa Pio XII, e a aprofundou com o Concílio Vaticano II, ao mesmo tempo em que busca harmonizá-la com os conteúdos da fé.

A Revelação divina testemunhada na Bíblia é proposta e expressa de modos diversos, através de ‘gêneros literários’ históricos, proféticos, poéticos ou outros. Importa que o intérprete busque o sentido que os autores sagrados em determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu tempo e da sua cultura, pretenderam exprimir servindo-se dos gêneros literários então usados. Para se entender corretamente o que os autores sagrados quiseram afirmar, devem-se levar em conta as maneiras próprias de sentir, dizer ou narrar em uso no tempo deles, como também os modos que se empregavam frequentemente nas relações entre os homens daquela época (Dei verbum, nº12).

No judaísmo antigo, acreditava-se que o homem e a mulher foram criados um para o outro, para se unirem e procriarem. Há uma espécie de heterossexualidade universal que está suposta, expressa no imperativo ‘crescei-vos e multiplicai-vos’. O livro que contem este preceito, o Gênesis (1,28), foi escrito no tempo do exílio judaico na Babilônia. Para o povo de Israel, expulso de sua terra e submetido a uma potência estrangeira, crescer era fundamental para a sobrevivência da nação e da religião. O sêmen do homem supostamente continha o ser humano inteiro em miniatura, e deveria ser colocado no ventre da mulher assim como a semente é depositada na terra. Não se conhecia o óvulo. O sêmen jamais deveria ser desperdiçado, como mostra a história de Onã, fulminado por Deus por causa deste tipo de transgressão (Gên 38,1-10).

É neste contexto que a relação sexual entre dois homens era considerada uma abominação. Israel devia se distinguir das outras nações de várias maneiras, pelo seu culto e por uma série de usos e costumes, segundo o código de santidade do livro do Levítico. Aí se inclui a proibição do homoerotismo (Lv 18,22). Proíbe-se também, e com rigor: trabalhar no sábado, comer carne de porco ou frutos do mar (ou qualquer animal marítimo ou fluvial que não tenha barbatanas e escamas), aparar o cabelo e a barba, tocar em mulher mestruada durante sete dias, usar roupa tecida com duas espécies de fio, semear no campo duas espécies de semente e acasalar animais de espécies diferentes. Quando o cristianismo se expandiu entre os povos não judeus, este código deixou de ser normativo, mas a proibição do homoerotismo permaneceu. A Igreja herdou a visão antropológica da heterossexualidade universal, com suas interdições.

O pecado de Sodoma foi recusar hospitalidade, levando à tentativa de estupro feita aos hóspedes do patriarca Ló. Com freqüência, o estupro era uma forma de humilhação imposta por exércitos vencedores aos vencidos. Originalmente, o delito de Sodoma era visto como “orgulho, alimentação excessiva, tranqüilidade ociosa e desamparo do pobre e do indigente”. Através do Profeta, o Senhor diz: “Tornaram-se arrogantes e cometeram abominações em minha presença” (Ez 16, 49-50). Posteriormente tal pecado foi identificado com o homoerotismo, mas na origem ele nada tem a ver com o amor entre pessoas do mesmo sexo, ou mesmo com as relações sexuais livremente consentidas entre pessoas do mesmo sexo.

Há um relato semelhante ao de Sodoma no livro dos Juízes (cap. 19 e 20). Um levita e sua concubina se hospedaram na cidade de Gabaá, da tribo de Benjamin. Os habitantes da cidade hostilizaram os visitantes e estupraram até a morte a concubina do levita. O Senhor suscitou os israelitas contra aquela cidade, e ela foi completamente destruída. Não se deve, a partir deste relato, condenar a heterossexualidade. O que se condena, tanto em Sodoma quanto em Gabaá, é a falta de hospitalidade e a hostilidade violenta para com a pessoa que vem de fora.

No Novo Testamento, a carta de São Paulo aos Romanos contém uma refutação do politeísmo (1,18-32). Os pagãos não adoravam o Deus único, mas as criaturas. E ainda permitiam o homoerotismo, que era abominação para os judeus. Este comportamento era visto como castigo divino pela prática religiosa errada: “Por tudo isso, Deus os entregou a paixões vergonhosas”. Outros escritos paulinos têm a mesma posição, associando o homoerotismo à idolatria e à irreligião (1 Cor 6, 9-11; 1 Tm 1, 8-11). No contexto judaicocristão da antiguidade, este argumento era compreensível. Não havia o que atualmente se entende por orientação sexual: uma característica constitutiva dos indivíduos que os faz gays ou héteros. É algo que nada a ver com a crença em um ou em vários deuses, ou com qualquer prática religiosa.

Muitas vezes estes textos bíblicos são usados sem a devida contextualização de sua época, sociedade e cultura; e sem a devida compreensão da situação presente, em um forte assédio moral contra pessoas homossexuais. Os norte-americanos chamam isto bible bullets, balas bíblicas. Elas são impiedosamente disparadas e ferem a autoestima das pessoas de modo devastador. A Palavra de Deus, fonte de vida em plenitude, acaba por gerar uma chaga profunda de sofrimento intenso, depressão e morte. É um terrorismo espiritual, face perversa do fundamentalismo religioso.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Todos os homens podem se casar


“Homecoming” é o título do curta-metragem produzido a fim de apoiar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo na Inglaterra e no País de Gales.

De autoria do premiado cineasta Mike Buonaiuto, "Homecoming" retrata um soldado inglês que transforma o seu regresso ao país num pedido de casamento ao seu parceiro. Desde o seu lançamento, em abril último, já teve mais de 750 mil visualizações.

Em 2005 foi concedido aos casais constituídos por pessoas do mesmo sexo acesso à figura jurídica da união civil, mas ainda continua a ser negado o acesso ao casamento civil.

(Fonte: dezanove.pt)

O Parlamento Brasileiro, o PLC 122 e a Diversidade nas Escolas Públicas


Artigo do Rev. Marcio Retamero (que participará da nossa mesa-redonda no nosso evento "O Amor de Cristo nos Uniu - Gays Cristãos na Igreja Católica", no próximo domingo, dia 03/06, falando sobre "Homossexualidade e Bíblia") para o Bule Voador:

No último dia 15 de maio, estive em Brasília participando no Senado Federal e na Câmara dos Deputados de dois eventos comuns à agenda LGBT no Brasil. No primeiro, participei do Congresso LGBT sobre o PLC 122, convocado pela Senadora Marta Suplicy; no segundo, do IX Seminário LGBT, que debatia o ensino sobre a diversidade sexual nas escolas públicas brasileiras.

No Senado, pela manhã, meu objetivo não era defender o governo ou TODOS os artigos do PLC 122, mas falar desde o lugar em que me encontro enquanto teólogo e pastor cristão progressista e inclusivo; cidadão gay e pastor de pessoas que amam pessoas do mesmo sexo, bem como pessoas que amam pessoas do sexo oposto. Fui pontuar as questões urgentes em torno da homofobia e a urgência de uma lei que contemple e tipifique a homofobia como crime de ódio, dentre outras coisas que o PLC 122 advoga.

Muito estardalhaço foi feito no Brasil desde que em 2006, a deputada Iara Bernardes do PT de SP deu início ao Projeto de Lei nº 122/2006. Assim que os setores conservadores e fundamentalistas da religião cristã evangélica no Brasil tomou conhecimento do texto, o Pastor Silas Malafaia se auto-elegeu o maior inimigo da causa gay no Brasil, o paladino contra o PLC 122 e tem vencido com sua verborragia insana e argumentos frágeis de desconstruir. Contudo, tem encontrado eco e a anuência da sociedade brasileira, não apenas entre os evangélicos, diga-se de passagem. Basta ler os comentários que são postados nos sites onde o dito pastor aparece falando sobre o PLC 122, que verificamos ser verdade o que aqui coloco.

Tenho meus “senões” com o PLC 122, eu confesso. Desde que este Projeto nasceu, tenho dito aos líderes do Movimento Homossexual no Brasil que este é um projeto natimorto, infelizmente. O PLC 122 quis, na verdade, como dizemos no popular, “abraçar o mundo com as pernas” e deu no que está dando, ou seja, em nada. No próximo ano, ele será arquivado, certamente, sem ter sido tocado pelos senadores e senadoras, pois é neste estágio que ele está parado, no Senado Federal.

A senadora Marta Suplicy tentou dar uma nova roupagem ao PLC 122, principalmente no que diz respeito à tal “liberdade de expressão” que o tal do maior inimigo da causa gay no Brasil tanto gosta de apontar no tal Projeto. O Movimento Homossexual não gostou da nova roupagem da Marta e retornamos à segunda versão do Projeto, cuja redação é da senadora Fátima Cleide, que acabou não se reelegendo ao Senado por conta, talvez, da sua defesa e trabalho contra a homofobia no Brasil.

O texto do PLC 122 criminaliza alguns atos preconceituosos ou difamatórios contra as pessoas LGBT como p.ex. a agressão verbal ou física em caso de demonstração pública de afeto, o discurso injurioso contra pessoas LGBT, a demissão trabalhista por orientação sexual e o discurso homofóbico, ou seja, o pensamento filosófico contra a homossexualidade. Talvez este seja o ponto mais fraco do PLC 122 que fez com que a sociedade brasileira, em sua maioria, não ficasse ao lado do PLC 122.

No site da ABGLT, Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais do Brasil, podemos consultar no link legislação, todas as leis que já temos em vigor nos municípios e estados da nossa Federação em relação à homofobia, identidade de gênero etc.

O site nos informa, por exemplo, que em mais de uma dezena de municípios e estados da Federação, já existem leis que protegem as pessoas LGBT do preconceito e da agressão verbal ou física em estabelecimentos públicos por demonstrações de afetos publicamente; uma grande parte dessa legislação não tem caráter criminalizador, mas pedagógico, multando o estabelecimento ou a pessoa que agride pessoas LGBT. Aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, temos a Lei 3406 de 15 de maio de 2000 [http://www.abglt.org.br/port/leiest3406.htm], sancionada pelo então governador evangélico, hoje deputado federal, Anthony Garotinho, a redação da Lei foi do então deputado estadual Carlos Minc.

Pela lei carioca, o cidadão ou a cidadã LGBT tem o direito de, assim como os heterossexuais, exprimirem seus afetos publicamente e as sanções são pesadas contra os lesionados pelos estabelecimentos comerciais, associações etc. A penalidade pode ser a multa, perda de função no caso do funcionalismo público e fechamento ao público no caso de estabelecimento comercial. Portanto, a lei carioca não dá cadeia, mas ensina; não criminaliza, mas adota uma função pedagógica.

O PLC 122, para artigo similar, penaliza o réu. Dá cadeia. Assim como demitir alguém por orientação sexual. Está ai, meu desacordo com o PLC 122, ele deveria ser pedagógico e não criminalizador.

Fui para o Senado Federal com os argumentos afiados em relação aos detratores do PLC 122, principalmente a Frente Parlamentar Evangélica. Tentando ser sucinto, me coloquei dizendo:

1 – É preciso diferenciar, cada vez mais e melhor, liberdade de expressão de discurso injurioso. Qual é o limite da liberdade de expressão? Podemos usá-la para ofender e injuriar pessoas? Agredi-las verbalmente com palavras chulas, comparando-as aos párias sociais e toda sorte de gente de má conduta social como fazem os pastores evangélicos em suas pregações?

2 – Tipologizar o crime como homofóbico quando há assassinato e lesão corporal e verbal. Crimes homofóbicos são crimes “assinados”. Nunca são poucas facadas, mas muitas facadas. Nunca são poucos tiros, mas muitos tiros. Os requintes de crueldade são característicos deste tipo de crime, basta compará-los conforme nos informa os jornais, de como a polícia encontra a vítima. Não dá pra comparar um crime homofóbico, assinado como tal, com o assassinato por dívidas com o tráfico ou um assassinato circunstancial de um cidadão no calor da hora de um assalto, por exemplo. A lesão corporal bem como a agressão verbal, também devem ser tipificados como crime, pois ambas lesam e muito, as vítimas. Palavras também ferem e trazem prejuízos à psique humana.

3 – Questões trabalhistas. Não deveria “dar cadeia”, mas multa e uma multa grande aos patrões que demitirem uma babá por ela ser lésbica ou um vendedor de loja por ele ser gay. Não podemos, com base na orientação sexual das pessoas, medir seu caráter, se assim fosse, os heterossexuais, que são a maioria da população estariam em maus lençóis. Demitir alguém por que esse alguém é LGBT ou não admitir no emprego, por questão de orientação sexual e gênero deve ser tipificado na lei como homofobia, mas não criminalizar, na minha opinião, o empregador, antes, fazê-lo entender, onde o ser humano é mais sensível, no bolso, que assim não pode ser.

4 – No caso do discurso injurioso, a mesma coisa. Não deveria “dar cadeia”, mas mexer no bolso daquele que ofende com seu discurso o cidadão ou cidadã homossexual. Aqui entram os pastores que elegeram os LGBT como a “última Geni”, em referência à música de Chico Buarque. Não sei porque, mas os pastores gostam de proferirem em seus púlpitos discursos injuriosos contra homossexuais. Os comparam com toda sorte de coisas ruins e de exemplos ruins na sociedade. Sempre dão um jeito de comparar homossexuais com pedófilos, por exemplo, contrariando as estatísticas, pois sabemos, já que a pedofilia é crime tipificado (o que nos dá dados concretos sobre este tipo de crime), ao contrário da homofobia, que a maioria dos pedófilos são heterossexuais do sexo masculino, cerca de 70%, próximos ao menor de idade alvo, como pais, tios, avós, pastores e padres e que é mínimo a participação de pessoas LGBT neste tipo de crime.

A Bíblia diz muito sobre vários assuntos desde o Velho ao Novo Testamento e ninguém, nenhuma vertente cristã pode se considerar cumpridora do que realmente a Bíblia ordena, uma vez que ela ordena coisas impensáveis hoje como vender a filha para pagar dívidas ou não semear dois tipos de semente na mesma terra ou comer camarão ou matar o filho mentiroso porque ele mentiu.

Usar a Bíblia hoje contra as pessoas LGBT como no passado ela foi usada contra negros, índios e mulheres e toda sorte de pessoas que a Igreja considerava hereges não cabe mais numa sociedade cujo estado é de direito, democrático e laico, ou seja, secular.

Assim como a Bíblia diz que os homossexuais não herdarão o Reino dos Céus (numa leitura “literal” de uma das cartas de Paulo), também diz, numa das Cartas de Paulo, que os judeus mataram Jesus e que a mulher deve ser submissa ao homem, usando véu na Igreja e nada nela falar, somente perguntando em casa, ao macho, o que não entendeu na Igreja.

Assim como a Bíblia diz que os filhos de Cã, identificados com os africanos não são pessoas de boa índole e que são afeitos à toda sorte de males e idolatrias.

A Bíblia diz, em certa altura, no Novo Testamento, que os judeus mataram Jesus e que por isso “o seu sangue deve ser sobre eles”, ou sejam, devem ser mortos.

Muita coisa a Bíblia diz… Contudo, porque hoje os pastores não pregam mais que negros não têm alma, que a mulher deve ser submissa (embora alguns mais radicais ainda acreditem nisso) e que os judeus são dignos de pena de morte porque “mataram o Senhor Jesus?” Porque tais pessoas são protegidas pela Lei.

Então, as pessoas LGBT são a última “Geni” dos religiosos, não sobrara para eles nenhuma outra categoria de pessoas para sentarem a língua com todo tipo de discurso injurioso, que está bem longe da tão advogada liberdade de expressão como querem os evangélicos fundamentalistas.

O Pastor Malafaia gastou dezenas de milhares de reais para espalhar pelo Rio de Janeiro outdoors dizendo: “Por que Deus criou macho e fêmea”. Escreveu nos outdoors o óbvio do óbvio, uma vez que um homossexual masculino não deixa de ser macho, tampouco uma homossexual feminina deixa de ser fêmea, nem mesmo as travestis deixam de ser machos, com exceção das transexuais, que mudam de sexo por uma questão de saúde psíquica e física.

Acredito que a “cruzada” que Malafaia tomou para si, arregimentando quase por completo a parcela evangélica da sociedade e ganhando adeptos entre nem os que crentes são por conta do caráter criminalizador do PLC 122. Caso as questões de injúria e não de liberdade de expressão (os religiosos podem continuar tratando a homossexualidade como pecado, caso assim acreditam, embora haja controvérsias) fosse tratada pelo PLC não como crime, que “dá cadeia”, mas mexendo no bolso deles, ainda que gritassem alto contra o PLC 122, porque eles sabem que seriam atingidos, seu discurso perderia muita força.

Basicamente é isso o que fui dizer ao Senado Federal. Não sei se me ouviram ou se me ouvirão. A participação no 9º Seminário LGBT da Câmara dos Deputados e questão que envolve a diversidade sexual nas escolas, tratarei em outro texto, posto que este já está de bom tamanho.

- Marcio Retamero, teólogo, historiador e pastor presbiteriano, participará da nossa mesa-redonda no nosso evento "O Amor de Cristo nos Uniu - Gays Cristãos na Igreja Católica", no próximo domingo, dia 03/06 (saiba mais aqui), falando sobre "Homossexualidade e Bíblia".
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