quinta-feira, 17 de maio de 2012

"Eu trabalho para que as coisas fiquem melhores"


"Eu trabalho para que as coisas fiquem melhores", dizem, nos respectivos idiomas, os cerca de 50 políticos e líderes de instituições europeias que participam num novo vídeo inspirado na campanha It Gets Better, que pretende ajudar os jovens LGBT a vencer o isolamento e a combater as tentativas de suicídio devido à discriminação.

Os políticos mostram a cara num vídeo divulgado a propósito do Dia de Combate à Homofobia e Transfobia, que marca a data de hoje, 17 de maio. Martin Schulz (presidente do Parlamento Europeu) e Herman van Rompuy (presidente do Conselho Europeu) também participam.

Será que algum dia veremos também os nossos políticos tirando a sua solidariedade do armário? E nossos amigos e familiares, colegas e conhecidos? E cada um de nós?

Que também aqui a homofobia não tenha mais lugar.

(Fonte: dezanove.pt)

Dividindo o mundo em caixinhas

Foto daqui

Da querida Kamila Oliveira, do Minoria é a Mãe (o blog que volta e meia diz tudo o que a gente queria dizer, mas não sabia como). Perfeito para, no dia internacional de combate à homofobia, nos lembrarmos de combater os preconceitos embutidos nos rótulos que nós mesmos construímos para classificar o mundo, as coisas e as pessoas:

Rótulos são facas de dois gumes. Quando precisamos falar de um movimento, de um grupo de pessoas, ou coisas do tipo, rotular é útil. Definir para as pessoas que existem gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros ajuda, porque o ser humano têm essa necessidade de dividir tudo em coisas muito específicas para poder simplesmente começar a pensar sobre o assunto. O problema é que, como talvez você já tenha percebido na frase acima, existem muitos outros conceitos entre esses poucos que eu citei, mas são esses poucos que formam a sigla do movimento LGBT+.

Há alguns anos, a única sigla que eu conhecia era GLS - gays, lésbicas e simpatizantes. Depois eu vi GLBS - agora incluindo bissexuais. Um tempo depois o S saiu e entrou o T, e uma decisão recente da ABLGBT colocou o L na frente pra chamar mais atenção para a causa lésbica. Esse é só um exemplo de como definir pessoas pode ajudar outras a entender do que se trata um movimento.

Eu gosto de fazer uma analogia com caixas pra tentar explicar o que é um rótulo. É como se dentro da cabeça de todo mundo houvesse várias caixinhas, geralmente em pares. Em cima de cada caixinha dessas existe um rótulo: homossexual (essa se desdobra pra outras duas: gay e lésbica), heterossexual, gordo, magro, negro, branco, bonito, feio, rico, pobre, etc. A divisão é quase sempre binária. Dentro de cada uma dessas caixinhas está um pensamento pré-definido - um julgamento. O que acontece é que, quando uma pessoa te acha feio, por exemplo, ela automaticamente pega o pensamento que tá dentro da caixinha “feio” e aplica a você. São como primeiras impressões enlatadas - o problema é que não são primeiras impressões de verdade, pois já estavam lá bem antes de você.

Se você diz que é bissexual, você confunde as caixinhas. Porque é como se você fosse hetero e homo “ao mesmo tempo”, e não pode, só dá pra usar uma caixinha por vez. Se você é transgênero, as pessoas não sabem se te colocam na caixinha “homem” ou “mulher”, não sabem se te colocam em “homossexual” ou “heterossexual”, porque acham que é alguma coisa no meio, e nos pré-julgamentos não existe meio termo. Ou é isso ou é aquilo, e toda característica acaba caindo nessa armadilha; algumas, como as que eu citei, mais do que outras.

Todos os dias novos termos e conceitos aparecem. No mundo ideal eles provavelmente não seriam necessários, mas hoje em dia são. Isso acontece porque em determinados grupos as pessoas não precisam explicar e definir para as outras se gostam disso, daquilo, se são assim ou assado. Mas, de modo geral, é fácil perceber que isso é muito pontual e fora desse grupo de repente a necessidade de definição se torna tão necessária que você praticamente não existe em sociedade se não puder ser colocado em alguma caixa.

Talvez um dia seja tão desnecessário explicar a sexualidade queer quanto hoje é desnecessário explicar a heterossexualidade - a grande maioria das pessoas nunca realmente pára pra pensar por que é hetero, ou se escolheu ser hetero, ou em que momento da vida percebeu ser hetero. Talvez um dia a identidade de gênero não seja mais confundida com a sexualidade. Apesar de tudo que se vê por aí e apesar de muitas vezes pensar que está piorando, eu costumo ser otimista e pensar que, mais dia menos dia, as mudanças acontecem.

- Kamila Oliveira

Tortura nunca mais?!

Sobre o ato na Cinelândia, mais informações aqui

Hoje celebramos o Dia Internacional de Combate à Homofobia. Nesta data, em 1990, a Assembleia Geral da Organização Mundial de Saúde retirou de maneira técnica e científica, a Homossexualidade do Código Internacional de Doenças, impossibilitando qualquer interpretação de cunho moral e preconceituoso, e vedando a qualquer profissional, seja de área saúde ou afins, o tratamento (vulga "cura") ou correção da orientação sexual.

Há 17 anos luto pelo respeito aos direitos humanos e civis de qualquer cidadão, independente de sua raça, credo, gênero ou orientação sexual. Comecei minha atuação na área de prevenção de HIV/AIDS e outras DSTs, aprofundando, em seguida, a questão do combate ao preconceito, que impeça a cada um de nós exercer de forma plena nossa cidadania.

No entanto, o dia de hoje - além de ser um marco para toda a comunidade LGBT - deve ser também de profunda reflexão. Digo isso, pois fico alarmado com o requinte de violência nos crimes de ódio cometidos contra cidadãos LGBT em nosso país. Se antes esses atos vinham disfarçados de assaltos - como na época do “Boa Noite Cinderela" - hoje vemos corpos carbonizados, olhos e membros arrancados, e sinais de tortura física e psicológica.

Se traçarmos um gráfico entre o aumento desses crimes com a crescente manifestação de incitação ao ódio por parte de parlamentares e pessoas públicas, veremos que isso não é apenas uma coincidência.

Não sei o que faz um ser humano sair de casa e que, ao invés de levar a namorada ao cinema, prefere “bater nos viados”. Ou uma pessoa se sentir incomodada diante da demonstração de afeto entre duas pessoas do mesmo sexo que se amam! Não posso achar que isso não tenha um processo de deformação mental chamado também de homofobia. Mas o respeito que garante a liberdade do outro é o mesmo que nos garante o exercício de nossos direitos civis. Não peço a aceitação, mas sim respeito. Afinal, nosso código penal e civil nos garante isso.

Quando em 2011 criamos na Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual (CEDS) o programa RIO SEM PRECONCEITO, demos um enorme passo na direção do diálogo: uma política pública de combate a todo e qualquer tipo de preconceito, pois nos igualamos na dor dos que sofrem e já sofreram por serem apenas “diferentes” na raça, na religião, na altura, tipo físico do padrão estabelecido como “normal” por essa sociedade.

O Brasil passou de sétima para sexta economia mundial. Evoluiu em índices sociais e hoje, dialoga, em pé de igualdade com grandes potências. Pois nesse mesmo Brasil, onde nossa presidente foi torturada nos porões da ditadura e centenas de jovens morreram em busca da democracia, cidadãos continuam sendo barbaramente torturados por terem uma orientação sexual diferente do considerado padrão. E esses crimes não são declarados como o que realmente são: crimes hediondos!

Quando nos tornamos indiferentes a uma cena como a do garoto levando um golpe de lâmpada no rosto em plena Avenida Paulista, ou a do menino de 14 anos, morador de São Gonçalo, mantido em cárcere privado e cujo corpo foi abandonado numa vala, por achar que esse problema “não é nosso”, me questiono que tipo de sociedade entregaremos às próximas gerações.

Até cidadãos não homossexuais sofrem por crime de homofobia como foi o caso do pai, no interior de São Paulo, que teve sua orelha decepada por estar abraçado com o filho. A “justificativa”: “acharam que eles eram namorados”.

Vivemos um período onde a instrumentalização da informação incita a segregação contra minorias. No caso a bola da vez são os homossexuais. Nada de novo, pois métodos semelhantes foram utilizados por populistas como Hitler, Mussolini, os Talibãs, os Xiitas etc. E agora como antes é tudo apenas parte de um projeto de poder, não importa qual massa tenha de ser manipulada.

Mas se o mundo muda, o Poder Público tem o dever de acompanhá-lo. É preciso discutir de forma técnica, aos olhos da Lei e não de acordo com as regras de uma ou outra religião, pois essas são de opção de cada cidadão, temas pertinentes aos dias de hoje. Por mais que se negue, homossexuais são mortos apenas por serem homossexuais.

Quando o sentimento se torna maior, temos de nos questionar. Que tipo de representação queremos? Que sociedade construímos? Mais do que nunca, hoje é um dia para o cidadão LGBT lembrar que ele é cidadão desse país e que seu direito só será exercido através da denúncia, da cobrança e, principalmente, do conhecimento dos direitos que já possui no código civil ou penal, ainda que estes não sejam plenos e igualitários aos conferidos aos heterossexuais e as demais minorias.

- Carlos Tufvesson
Publicado hoje no site do jornal O Globo. Reproduzido via Conteúdo Livre

Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos (1)

Foto: Tony Park

Publicamos a partir de hoje, em 6 partes, sempre às quintas-feiras pela manhã, o artigo "Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos", do Pe. Luís Correa Lima, SJ, divulgado pelo Centro Loyola de Fé e Cultura, da PUC-Rio, como uma síntese do curso Diversidade Sexual, Cidadania e Fé Cristã, realizado em 2010 e 2011. O artigo tem como objetivo fornecer subsídios a religiosos e leigos, agentes de pastoral e outros para entender melhor e encontrar meios de lidar, dentro do contexto da Igreja Católica, com os desafios pastorais da relação e cuidado da população LGBT, no foco do acolhimento respeitoso e amoroso.

Um novo quadro e sua história
Um importante sinal dos tempos atuais é a visibilização da população homossexual. No passado, gays, lésbicas e bissexuais viviam no anonimato ou à margem da sociedade. Escondiam-se em casamentos tradicionais e, quando muito, formavam guetos, que são espaços de convivência bem isolados. Hoje, fazem imensas paradas, junto com travestis e transexuais, estão presentes nas telenovelas, exigem respeito e reconhecimento, e reivindicam direitos. Esta população está em toda parte. Quem não é gay, tem parentes próximos ou distantes que são, bem como vizinhos ou colegas de trabalho que também são, velada ou manifestamente. Eles compõem a sociedade, visibilizam-se cada vez mais, e querem ser cidadãos plenos, com os mesmos direitos e deveres dos demais.

A visibilização desta população também manifesta os problemas que a afligem. Há uma aversão a pessoas homossexuais, chamada homofobia, que produz diversas formas de violência física, verbal e simbólica contra estas pessoas. No Brasil são freqüentes os homicídios, sobretudo de travestis. Há também o suicídio de muitos adolescentes que se descobrem gays, e mesmo de adultos. Eles chegam a esta atitude extrema por pressentirem a rejeição hostil da própria família e da sociedade. Há pais que já disseram: ‘prefiro um filho morto que um filho gay’. Esta hostilidade gera inúmeras formas de discriminação, e, mesmo que não leve à morte, traz freqüentemente tristeza profunda ou depressão.

Tamanha repulsa tem raízes históricas. Por muitos séculos, as relações entre pessoas do mesmo sexo foram consideradas como o pecado de Sodoma, que resultou no castigo divino destruidor (Gên 19). Este pecado foi a tentativa de estupro feita aos hóspedes do patriarca Ló. No Brasil do século 18, por exemplo, então colônia de Portugal, as leis eclesiásticas consideravam a sodomia ‘tão péssimo e horrendo crime’ que “provoca tanto a ira de Deus, que por ele vêm tempestades, terremotos, pestes e fomes, e se abrasaram e subverteram cinco cidades, duas delas somente por serem vizinhas de outras onde ele se cometia”. Era um pecado indigno de ser nomeado, por isso chamava-se ‘pecado nefando’, do qual não se pode falar, muito menos se cometer [VIDE, D. Sebastião Monteiro. Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia (1707). Brasília: Senado Federal, 2007, p. 331-332]. Tribunais eclesiásticos, como a inquisição, julgavam os acusados de sodomia e entregavam os culpados ao poder civil para serem punidos, até mesmo com a morte.

Esta aversão ao homoerotismo é mantida no Brasil independente. O seu primeiro Código Penal, de 1823, determinava que “toda pessoa, de qualquer qualidade que seja, que pecado de sodomia por qualquer maneira cometer, seja queimado, e feito por fogo em pó, para que nunca de seu corpo e sepultura possa haver memória, e todos seus bens sejam confiscados para a Coroa de nosso Reino, posto que tenha descendentes; pelo mesmo caso seus filhos e netos ficarão inábeis e infames, assim como os daqueles que cometeram crime de Lesa Majestade (traição) [TREVISAN, João Silvério. Devassos no paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. Rio de Janeiro: Record, 2004, p.164].

O advento do Iluminismo trouxe importantes mudanças. A razão autônoma, independente da Revelação e do ensinamento da Igreja, deve governar a sociedade e conduzir seus dirigentes. Para os iluministas a prática sexual, se exercida sem violência ou indecência pública, não devia absolutamente cair sob o domínio da lei. Por isso julgavam uma atrocidade punir a sodomia com a morte. O código napoleônico em 1810 retirou o delito de sodomia da legislação penal. Por sua influência, muitos países latinos fizeram o mesmo décadas depois, inclusive o Brasil.

A secularização impulsionada pelo Iluminismo vai modificar a própria compreensão do homoerotismo. Em 1869, o escritor austro-húngaro Karol Maria Benkert criou o termo ‘homossexualidade’, um neologismo greco-latino que formou um conceito de diversidade psicofísica para substituir a sodomia. Este termo teve ampla difusão, e o homoerotismo se deslocou do âmbito religioso e moral para o âmbito biológico. Não era mais uma abominação, mas se tornou uma doença. Houve uma patologização, que permaneceu por muitas décadas. Na primeira metade do século 20, foram feitas no Brasil internações de pessoas por homossexualidade. Alguns médicos chegaram até a sugerir o tratamento com choque elétrico.

A partir do anos 1970, houve uma crescente despatologização da homossexualidade. O movimento político-social da população LGBT [Sigla que significa: lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Também se usa o termo gay de modo genérico, para as diversas formas de homossexualidade] trouxe uma sensilibidade maior à sua realidade. A Associação Psiquiátrica Americana retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais. Na década seguinte, no Brasil, o Conselho Federal de Medicina retirou a homossexualidade da lista de desvios e transtornos sexuais. Em 1990, a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da lista de doenças. Em 1999, o Conselho Federal de Psicologia afirmou que a homossexualidade não é doença, nem distúrbio, nem perversão; e proibiu os psicólogos de colaborarem em serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades. Isto significa que, definitivamente, algumas pessoas são homossexuais e o serão por toda a vida. De maneira alguma se trata opção, mas de condição ou orientação.

A homossexualidade também se encontra entre os animais. Desde o início do século 20, ela é descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos. O comportamento homoerótico foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71 espécies de mamíferos, incluindo coelhos, cães, gatos, antílopes, carneiros e leões. A homossexualidade entre primatas não humanos já está amplamente documentada na literatura científica, incluindo macacos bonobos e chimpanzés, os parentes mais próximos do homem na cadeia evolutiva [VARELLA, Dráuzio. “Violência contra homossexuais”, 4 dez. 2010]. Não se pode de modo algum atribuir a sua causa ao pecado original.

Continua na próxima quinta-feira, 24/5/12

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O sândalo e o machado

Imagem daqui

Do Pastor Ricardo Gondim, via PavaBlog:

Doces lembranças me ligam à casa da vovó. Mergulho nos porões mais remotos da infância e lá, na pequena casa de vila, encontro meu natal colorido, minhas inquietações adolescentes, minhas viagens juvenis. Numa estreita moradia de Fortaleza, meia parede, experimentei o carinho de tios e tias. No bairro de nome doce, Gentilândia, acordei para a vida. Estranho, sempre chamei casa da vovó, nunca casa do vovô.

Amei minha avó materna. Ela me embalava na rede para dormir, contava histórias de fadas; por suas mãos, fui levado ao mundo corajoso dos cangaceiros. Vovó me encantou; conhecia os seres que povoam o mundo mágico do matuto cearense. Sem exagero: Vovó Maria Cristina Sales Gondim foi a mulher mais doce e, ao mesmo tempo, mais determinada e firme que já conheci.

Sua casa era pequena, mínima: sala de visita e jantar juntas; dois quartos para o lado esquerdo de quem entra; no fundo, cozinha e banheiro diminutos. Quando a ditadura militar prendeu papai, nos vimos obrigados a morar nesse aperto.

Só havia duas camas na casa – e somávamos 13 almas. Eu dormia de rede. Depois que todos se acomodavam, pendurava os punhos nos ganchos que atravessavam a sala, e procurava apagar.

Sempre que alguém se mexia, ouvia o ranger doloroso das outras redes. As caladas da madrugada me metiam medo. Aquele barulho, que mais parecia um choro, amedrontaria qualquer insônia. Repousávamos amontoados – as redes se entrelaçavam, umas por cima das outras. Com o tempo, aprendi a reconhecer o fôlego de todos. De portas fechadas, com uma janela apenas, a casa esquentava. Eu ressentia, naquele calor, o forje do amor. A sala era forno e nos fundiamos uns nos outros. Viramos uma grande família.

Depois de vários anos, visitei vovó. Ela já não morava na mesma vila. Idosa e cansada, vivia com uma tia. Vovó gostava de conversar comigo. Por vezes implorava por minha companhia. E eu, absurdamente idiotizado pelo idealismo religioso, esquecia; varava semanas sem aparecer.

Numa tarde, fui ver-lhe. Péssimo dia para visitar uma pessoa querida; eu estava com raiva. Fora traído por pessoas mesquinhas há pouco. Sem me dar conta, comecei a despejar um rancor bolorento na vovó.

Como eu estava amargo! Havia esquecido que ódio guardado apodrece, vira amargura. Falei para ela do quanto desejava uma vingança divina. Enquanto debulhava ira, me desfigurava. Rancor deforma. Eu esquecera de escalar um sentinela para os lábios; e vomitei toda a ira que trouxe comigo.

Sem me repreender, ela perguntou:

–Você se lembra do quadro que ficava pendurado no quarto lá de casa?
– Claro – respondi. Ele é uma das boas recordações daqueles dias.

Um quadro tridimensional bem pequeno ficava pendurado no primeiro cômodo da casa. Nele, havia a miniatura de uma tora de árvore. Um machado cravado, feria o caule. Por cima, a frase: “Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere”.

Vovó não disse mais nada. Eu me calei. Dei-lhe um beijo na testa e parti. Nunca mais fui o mesmo.

Passados tantos anos, ganhei uma talha de madeira que virou sacramento de uma verdade, que espero reproduzir na vida dos meus netos. A talha se parece com o quadro, e tem a mesma inscrição: “Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere”.

“Abençoem aqueles que os perseguem; abençoem, e não os amaldiçoem… Não retribuam a ninguém mal por mal”. – [Romanos 12.14 e 17]

Soli Deo Gloria

Comprometidos com a dignidade humana

Foto via Blue Pueblo

Pouco mais de um ano depois, reproduzimos a nota abaixo, emitida no dia 11/05/11 pelo primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), tanto para marcar o primeiro aniversário da decisão do STF em prol da união civil homoafetiva, como para assinalar que nem tudo é fundamentalismo entre os religiosos e, sim, é possível uma leitura das Escrituras e dos acontecimentos no mundo mais próxima do olhar amoroso e inclusivo de Cristo.

“... o que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com teu Deus.” Miqueias 6. 8.

Recebemos com serenidade a recente decisão unânime do STF sobre o reconhecimento jurídico das uniões estáveis de pessoas homoafetivas. Tal aprovação representa um importante avanço em nossa sociedade na busca pela superação de todas as formas de preconceito e um aperfeiçoamento no conceito de igualdade e cidadania numa sociedade marcada pela pluralidade, mas também por profundas desigualdades e discriminações;

Nosso reconhecimento é feito com base em sólida tradição de defesa da separação entre igreja e estado (e entre religiões e estado), que não significa a sujeição de um campo ao outro, nem a substituição de um pelo outro, mas a necessária junção da autonomia institucional e legal com a liberdade de expressão e o pluralismo. Ou seja, a IEAB sente-se perfeitamente à vontade para expressar sua posição porque sua prática a recomenda e porque entende que o estado deve ser continuamente acompanhado em suas decisões, em qualquer esfera de poder, aprovando-o ou questionando-o em suas ações; - A decisão do STF levanta sérios desafios a todos os cristãos de todas as igrejas, pois requer abertura para reconhecer que as relações homoafetivas são parte do jeito de ser da sociedade e do próprio ser humano. A partir de agora, os direitos desse grupo tornaram-se iguais aos de todas as outras pessoas. Reconhecemos que há ainda muito que fazer nesse campo, pastoral e socialmente, para afirmar a dignidade da pessoa humana e seus direitos. Sabemos que um profundo e longo debate deve acontecer na sociedade brasileira a este respeito, e a IEAB não está isenta de nele participar, com profunda seriedade e compromisso de entender as implicações do evangelho de Jesus Cristo em nosso tempo e lugar; - Reconhecemos que tal decisão é resposta à prece que sempre fazemos em nossos ritos de Oração Matutina/Vespertina: “Ó Senhor, que nos governas... ao teu misericordioso cuidado encomendamos nossa Pátria... concede a todas as Autoridades, sabedoria e força para conhecer e praticar a tua vontade. Enche-os de amor à verdade e à justiça...” (Livro de Oração Comum, pg. 38). Assim, afirmamos nosso compromisso pastoral para com essas pessoas. Cremos que a promessa declarada no rito do batismo: “És de Cristo para sempre!” (Livro de Oração Comum pag. 169) repousa sobre todos nós e, portanto, não nos cabe decidir quem pertence ou não a Deus.

Neste momento de mudança, reafirmamos nosso compromisso de ser uma Igreja que Acolhe e Serve, reconhecendo o sensus fidelium declarado na última CONFELIDER: defender os Direitos Humanos e o Direito à Cidadania plena. Entendemos que esse compromisso é decorrência dos votos que fazemos perante o altar em nossa confirmação: "Defenderás a justiça e a paz para todos, respeitando a dignidade de todo ser humano" (Livro de Oração Comum pg 179);

Louvamos a Deus pelos avanços conquistados, entendendo que fazem parte da sutil e gradativa inspiração do Espírito Santo para transformar nossa sociedade. Conclamamos todos os anglicanos e as anglicanas a acolher as pessoas que nos buscam, a orar por elas e acompanhá-las pastoralmente, entendendo que a Igreja é um edifício ainda em construção e que a totalidade de sua membresia só é conhecida pelo próprio Cristo, Senhor da Igreja.

No amor inclusivo de Jesus Cristo, nosso Senhor e Rei e supremo juiz dos vivos e mortos,

Dom Maurício José Araújo de Andrade
Bispo Primaz

Meus pais e eu

Foto daqui

Comentário do Tony Goes em seu blog:

"Como é bom começar o dia lendo boas notícias no jornal, né não? A de hoje foi saber que Ana Karolina Lannes - que faz a Ágata, filha da Carminha, na novela 'Avenida Brasil' - tem dois pais e está muito feliz com isto. A nota na coluna da Mônica Bergamo (aqui) me levou à matéria no site da revista 'Contigo!' (aqui). Se não me engano, Ana Karolina é a primeira mini-celebridade a assumir em público que é criada por um casal gay, e está obviamente tão bem ajustada que serve de contra-exemplo para (...) [as bobagens que] proferem por aí. Aliás, já estava mais do que na hora de uma novela dessas retratar uma situação parecida: não a luta pela guarda da criança nem os problemas clichês, mas a atmosfera sadia que muitos pais do mesmo sexo conseguem criar para seus filhos. Isto sim é o que vai quebrar com tudo."

Leia também:
4 mitos sobre filhos de pais gays
Por que casais homossexuais podem ser excelentes pais
Feliz dia das mães! :-)

Uma carta do papa em 2020

Foto daqui

No livro The content of faith, do teólogo jesuíta Karl Rahner (1904-1984), organizado a partir de seus escritos, consta o trecho abaixo, intitulado "Uma carta do papa em 2020". Expressa-se nele a profecia do pensamento de Rahner, em um artigo que oferece um vislumbre de esperança de que, um dia, algum papa será suficientemente corajoso para enviar tal carta à Igreja e ao mundo.

Este breve ensaio parece ser particularmente relevante neste momento na história, em que as rodas parecem estar caindo do carro institucional mais seriamente do que em qualquer momento anterior. O que Karl Rahner escreve aqui se encaixa muito bem com os muitos pensamentos já publicados nos últimos tempos, incluindo os de Dom Geoffrey Robinson.

O artigo foi publicado no sítio australiano
Catholica, 03-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Embora eu não atribua a nenhum dos meus antecessores, ou ao menos aos meus predecessores imediatos, uma falta de humildade e de modéstia, parece-me que hoje um papa [no ano 2020] pode, até mesmo publicamente, fazer esta autoavaliação crítica mais claramente do que costumava ser feita. Pessoas importantes na história do mundo e da Igreja costumaram ter a ideia de que a sua autoridade legítima se colocaria em risco se deixassem seus "súditos" ver que eles também eram apenas seres humanos que cometiam erros. Era somente após a sua morte que os historiadores da Igreja eram autorizados a descobrir falhas, erros ou hesitações em um papa.

Mas, se eu estou convencido de que, mesmo como papa, eu continuo sendo um ser humano que irá cometer falhas, talvez até mesmo graves, por que não me seria permitido reconhecer isso mesmo durante a minha vida? Será que a mentalidade de pessoas que realmente não importam tanto hoje é a de que a autoridade não sofre danos, mas ao contrário lucra quando o seu portador admite abertamente as limitações de um pobre e pecador ser humano, e não tem medo de reconhecê-los? Por enquanto, ao menos, estou disposto a ouvir discussões públicas em minha presença, eventualmente para aprender com os outros e para reconhecer que eu aprendi.

Mesmo como papa, eu gostaria de continuar aprendendo. Deixe que as pessoas percebam que um papa pode errar, cometer equívocos, estar mal informado e escolher o tipo errado de assistentes. Tudo isso é evidente, e eu acredito que nenhum papa recente duvidou seriamente disso. Mas por que tal evidência deve permanecer oculta e encoberta? Pedro permitiu que Paulo o confrontasse frente a frente, e eu suponho que Pedro reconheceu que Paulo estava certo. Mesmo hoje, um papa pode se permitir algo desse tipo. Eu, pessoalmente, reivindico esse direito e estou disposto, se necessário, a permitir que a minha autoridade sofra uma perda, o que seria meu dever aceitar.

Eu não deverei ser um grande papa. Eu não tenho os meios para isso. Portanto, não vou ter um complexo de inferioridade se eu parecer bastante modesto em comparação com os grandes papas do século XX. Para mim, isso parece ser providencial. Tenho a sensação de que, através da sua grandeza, esses papas tiveram uma influência na Igreja que provavelmente nunca pretenderam ter e que teve seu lado questionável, uma influência que eu vou tentar compensar com o meu pontificado mais modesto.

Não é verdade? Esses papas não fomentaram involuntariamente uma mentalidade na Igreja que superestima a função apropriada do papa, de acordo com o dogma e de como ela foi na maior parte da história dos papas? Essa mentalidade não implica que um papa deva ser, em todos os aspectos, o maior da Igreja, um ponto de referência para todos os impulsos, um mestre superior a todos os pensadores e teólogos, um santo e um profeta, um homem que conquista todos os corações com a sua personalidade fascinante, um grande líder que molda o seu século e empalidece estadistas e outras grandes personalidades na insignificância, um pontífice a quem todos os bispos se referem respeitosamente, como pequenos oficiais pernate o seu rei, a fim de ouvir obedientemente as suas palavras e ordens ?

Eu não vou me tornar um papa desses e não considero necessário isso a todos. O papa tem uma tarefa na Igreja que é estritamente limitada, apesar da jurisdição universal e da plenitude da autoridade de ensino mencionada pelo Concílio Vaticano Primeiro. Vou exercer essa plenitude de poder, mas dentro dos limites impostos sobre mim pelas limitações da minha própria natureza. Isso e nada mais.

Eu não vou ser o mais santo da Igreja. Perante Deus, eu sou menos do que os santos que vivem hoje na Igreja, aqueles que rezam em silêncio, aqueles que são misticamente arrebatados, aqueles que perecem por causa de sua fé nas prisões dos inimigos de Cristo e da Igreja, aqueles que amam altruisticamente, como Teresa de Calcutá, todos os heróis desconhecidos e não recompensados do dever e da abnegação cotidianos.

Ninguém pode negar que até mesmo um Inocêncio III empalidece diante de Francisco de Assis, e que os papas Pio dos dois últimos séculos são menos importantes do que um Cura d'Ars ou do que uma Santa Teresinha de Lisieux. Você podem dizer, é claro, que eu estou comparando realidades que não podem ser comparadas. No entanto, na vida da Igreja e diante do tribunal eterno de Deus, santos e grandes teólogos como um Tomás de Aquino ou um John Henry Newman são mais importantes do que a maioria dos papas, e sobretudo mais importante do que jamais vou ser.

Há muitos carismas na Igreja, e o papa não tem todos em si mesmo. Se é verdade que podemos realmente compreender apenas os nossos próprios carismas, então até mesmo um papa deve dizer a si mesmo que ele não pode avaliar tudo o que vive na Igreja, e que só Deus, e não o papa, se encontra onde tudo o que é bom e santo na Igreja se funde em uma sinfonia perfeita.

É por isso que nenhum dano será feito se o meu pontificado corrigir, em certa medida, a mentalidade dos cristãos piedosos que equivocadamente esperam dos papas aquilo que eles podem receber apenas dos santos e das grandes mentes da Igreja e, possivelmente, de si mesmos.

Será que há cristãos, e talvez papas, que se lembram de que, ao rezar o Pai Nosso com esperança impaciente pela vinda do reino eterno de Deus, eles estão rezando também pelo fim do papado?

terça-feira, 15 de maio de 2012

Amanhã, 16/5: III Marcha Nacional contra a Homofobia


Por Paulo Tavares Mariante, advogado, filiado ao PT em Campinas, militante pelos direitos humanos, Coordenador de Direitos Humanos do Identidade – Grupo de Luta Pela Diversidade Sexual, e Conselheiro Municipal de Saúde de Campinas – SP:

No próximo dia 16 de maio acontecerá em Brasília a III Marcha Nacional Contra a Homofobia, convocada pela ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, que reúne mais de 200 organizações de base por todo o território nacional) e com o apoio de outras redes e associações nacionais do movimento LGBT. Precisamos refletir sobre o momento em que vivemos no Brasil, do ponto de vista do reconhecimento dos direitos da diversidade sexual e dos enfrentamentos com o campo conservador (em especial o fundamentalismo religioso), a conjuntura e a correlação de forças. (...)

Em décadas de atuação do movimento LGBT e da diversidade sexual, travamos muitas lutas, e obtivemos algumas conquistas isoladas, como leis municipais e estaduais punindo a discriminação de caráter homofóbico, e algumas ações pontuais em políticas públicas municipais, estaduais e federais. E a presença de um Presidente da República – Lula – na abertura da I Conferência Nacional LGBT, em junho de 2010, dava a impressão de que outros avanços estavam por vir.

A campanha eleitoral de 2010, quando as três candidaturas de maior expressão eleitoral – Dilma, Serra e Marina – se submeteram às chantagens dos grupos religiosos conservadores, em temas e debates fundamentais para os direitos das mulheres e pela diversidade sexual – como aborto e casamento homossexual – e comprometendo gravemente o princípio da laicidade do estado – separação entre estado e religião – em seus discursos, foi a senha para que o fundamentalismo religioso desequilibrasse a balança a seu favor.

A desastrosa decisão da Presidenta Dilma Rousseff de suspender a distribuição dos materiais didáticos e pedagógicos do Projeto Escola Sem Homofobia – denominado por seus detratores como “kit gay” – pela pressão das bancadas fundamentalistas religiosas pôs mais combustível no motor do ódio. Rifar os direitos LGBT pela pressão dos conservadores religiosos não era em si nenhuma novidade – o Governo de Fernando Henrique Cardoso fez isso duas vezes, em Janeiro de 1999 e Maio de 2001 – mas a maior autoridade pública da Nação ir a frente às câmeras de TV e fazer uma fala lamentável – “de que seu governo não iria fazer ‘propaganda’ de ‘opções sexuais’(sic) – teve um peso considerável em todos os desatinos da homofobia religiosa que estariam por vir.

O fundamentalismo religioso é um fenômeno que merece uma análise mais cuidadosa por parte daquelas e daqueles que afirmam lutar pela democracia e pela igualdade de direitos. A questão vai muito além da homofobia e da negação de direitos à população LGBT, ou do rechaço aos direitos sexuais e reprodutivos, o que por si só já seria motivo de preocupação. Recentemente, um município importante na Bahia aprovou uma lei que torna obrigatório, em todas as escolas da rede pública municipal de ensino, que seja rezado no começo do dia a oração cristã conhecida como “Pai Nosso”. E professores de escolas públicas estaduais de diferentes estados constrangeram e intimidaram alunos adolescentes que não queriam participar de uma “oração” em sala de aula! Se olharmos o que vem ocorrendo por todo o Brasil perceberemos que o avanço do fundamentalismo religioso é uma ameaça concreta à própria democracia.

As decisões do Supremo Tribunal Federal que reconheceram a legitimidade jurídica das uniões entre pessoas do mesmo sexo e sua equiparação às uniões estáveis heterossexuais, bem como autorizando a realização do aborto nos casos de fetos anencéfalos, e ainda a constitucionalidade das cotas raciais nas universidades, têm sua importância numa espécie de contraponto à onda fundamentalista religiosa que acovarda o governo federal e o Congresso Nacional. Mas não podemos ter a ilusão de que isso é de fato uma garantia de que o quadro atual não possa piorar.

O fundamentalismo religioso está cada vez mais organizado, com peso considerável em espaços de mídia e de grupos econômicos, e a recente aliança com os ruralistas apenas evidencia qual a sua verdadeira opção política, que é pela direita. Este setor não tem qualquer dúvida quanto ao seu lado nas disputas sociais, inclusive nas que dizem respeito à classe trabalhadora, mesmo que faça isso de forma subliminar.

O movimento LGBT e pela diversidade sexual precisa de um esforço para superar a visão – equivocada, em nosso ponto de vista – de que podemos avançar em nossas lutas sem uma aliança estratégica com os demais segmentos oprimidos, discriminados e excluídos de nossa sociedade. Nenhuma opressão ou discriminação será superada enquanto outras coexistirem.

A construção de uma frente nacional pela igualdade de direitos, que aglutine militantes dos movimentos negros, feministas, LGBT e da diversidade sexual, da juventude, das pessoas com deficiência, idosos, trabalhadoras e trabalhadores, bem como sem terra, sem teto, e pela efetividade dos direitos sociais, para nós é tarefa essencial a ser desenvolvida e embora não seja simples ou fácil exige um esforço de unidade e de priorização.

Que a mobilização para a III Marcha Nacional Contra a Homofobia, na qual estaremos juntas e juntos gritando por nossos direitos em Brasília, seja também um momento para aprofundarmos essa reflexão, na perspectiva de construção de uma sociedade diferente, sem qualquer forma de opressão.

(Fonte: Fora do Armário)

Leia também:
Programação da Semana Nacional contra a Homofobia
Quando Deus pauta a política

Deputado gay na universidade católica

Foto daqui

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), assumidamente homossexual, defende no Congresso Nacional a criminalização da homofobia e o casamento gay. Ele esteve em duas universidades católicas participando de debates: em Recife, onde se realizou um congresso sobre direito homoafetivo, e no Rio de Janeiro, tratando da agenda LGBT no legislativo. Pode-se perguntar por que estas instituições católicas promovem eventos dessa natureza. As aspirações e as reivindicações do movimento gay não divergem dos ensinamentos da Igreja?

Antes de tudo, a universidade católica é uma ‘universidade’, isto é, um universo de encontro dos saberes, da diversidade de pontos de vista, da pesquisa e do ensino que passam pelo debate aberto e respeitoso. O simples fato de ser universidade já justifica plenamente um evento assim. Além disso, o humanismo de inspiração cristã deve permear esta instituição, sem diminuir em nada a sua competência acadêmica.

Não se pode ficar alheio à realidade da população LGBT, que carrega um estigma milenar de uma dura discriminação e é vítima de uma brutal hostilidade: a homofobia. Não se pode ficar alheio ao seu anseio destas pessoas por segurança, liberdade e igualdade. O Concílio Vaticano II, iniciado há 50 anos, afirma que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e das mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e dos que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração (GS,1).

Por isso, a universidade católica faz uma reflexão séria e um debate qualificado sobre a cidadania da população LGBT. Assim, ela pode fomentar ideias inovadoras que beneficiam a sociedade e a vida política, arejam os ambientes cristãos e alavancam as transformações tão necessárias ao nosso tempo. Fica ainda a questão: como podem os fieis católicos lidar com a oposição da alta hierarquia ao reconhecimento do casamento gay, considerado por ela uma ameaça à família tradicional e nocivo a um reto progresso da sociedade?

O conceito de ‘cristão adulto’, sobre o qual refletiu o teólogo Karl Rahner, pode contribuir bastante neste debate. No início do século 20, o magistério da Igreja rechaçava a teoria da evolução, ensinando que os primeiros capítulos da Bíblia, que narram a criação do homem, tinham que ser entendidos de maneira literal. Se nessa época um paleontólogo estivesse plenamente convencido do vínculo entre o ser humano e o mundo animal, como ele deveria proceder? Neste caso, tal cientista não deveria rejeitar toda a fé da Igreja e nem toda a sua doutrina, mas discernir entre o que é fundamental e o que não é. Ele deve saber quais são as convicções de sua fé realmente centrais e existencialmente significativas, para nelas se aprofundar sempre mais; e por fim rejeitar o que se mostra irremediavelmente inaceitável.

Não se deve colocar todas as coisas em termos de tudo ou nada. O Concílio Vaticano II diz que há uma ‘hierarquia de verdades’, isto é, uma ordem de importância dos ensinamentos da Igreja segundo o seu nexo com o fundamento da fé cristã (UR,11). Este nexo pode ser maior ou menor. Há ensinamentos de mais relevância, e outros de menos relevância. Isto contribui para o discernimento. O cristão adulto, diz Rahner, é um fiel que vive conflitos semelhantes ao daquele paleontólogo. Ele precisa tomar decisões em assuntos importantes, colocando-se diante de Deus e de sua consciência, e enfrentar as consequências, sem ter necessariamente o respaldo institucional e eclesial desejado.

Muitas pessoas hoje estão plenamente convencidas de que o casamento gay é legítimo e deve ser reconhecido pelo Estado. Entre elas, o presidente norte-americano Barack Obama. A união homo e a união hétero se destinam a pessoas diferentes. É cada vez mais evidente que não há concorrência entre estas formas de união, e nem ameaça à família ou à sociedade. Muitos cristãos pensam assim. Sabem que Deus é amor e compreensão, e que Ele quer a felicidade dos seus filhos. Estes cristãos devem ser encorajados a dar testemunho desta fé inclusiva, tão necessária ao nosso tempo, mesmo que eles não tenham o devido respaldo de suas igrejas. Isto é ser cristão adulto. Os eventos promovidos por estas universidades católicas ajudam a trilhar este caminho, que é belo e humanizante.

Equipe Diversidade Católica

* * *

Atualização em 22/05/12:
Leia aqui a nota publicada no jornal da PUC (de circulação no campus) sobre a visita do deputado à universidade. :-)

Filha de Raúl Castro diz que pai é a favor da união gay

Foto daqui

HAVANA - Filha do presidente cubano Raúl Castro, a sexóloga Mariela Castro disse neste sábado (12/05/12) que seu pai é a favor da união civil entre homossexuais e orientou que toda a forma de descriminação contra minorias seja banida da ilha.

A diretora do Centro Nacional de Educação Sexual (Cenesex), que se destacou como um defensora da diversidade sexual, liderou uma marcha contra a homofobia, que reuniu cerca de 400 cubanos, entre homossexuais, travestis e transexuais.

— Tenho entendido que o presidente cubano se manifestou em várias ocasiões sobre o tema) — disse Mariela Castro. — Mas não fez isso em público. Certamente é parte de suas tática e estratégia. É seu estilo. Eu não vou pressioná-lo (Raúl Castro) a fazê-lo publicamente, porque me importa mais que se trabalhe em ações específicas que em palavras — disse ela.

Os gays têm sido depreciados e por vezes reprimidos desde os primeiros anos da revolução de 1959, que levou o ex-ditador Fidel Castro ao poder. Homossexuais e transexuais foram enviados em 1960 a campos de trabalhos forçados, em uma sociedade com fortes doses de machismo.

As declarações de Mariela Castro, que dançou na passeata ao ritmo de conga pelas ruas de Havana, veio logo após o presidente Barack Obama apoiar o casamento gay nos Estados Unidos.

— Saúdo o presidente Obama por sua mensagem humana de entendimento (...) a favor do casamento, da união livre de pessoas do mesmo sexo — reiterou. — Ele (Raul) tem falado sobre a necessidade de avançar nas questões dos direitos de orientação sexual e identidade de gênero e de superar todos os preconceitos — disse a sexóloga ao responder a uma pergunta da Reuters sobre se seu pai apoiava uniões civis de cubanos do mesmo sexo.

A diretora do Cenesex, cujos avanços em direitos incluem cerca de 15 cirurgias gratuitas de mudança de sexo desde 2008, apresenta desde 2006 ao Parlamento uma emenda que procura formas de alterar o Código da Família, em vigor desde 1975, sobre assuntos relacionados à transexualidade e à homossexualidade no país. A Primeira Conferência Nacional do Partido Comunista em janeiro decidiu rejeitar todas as formas de discriminação, incluindo a orientação sexual.

(Fonte: O Globo. Colaboração do amigo @Lucas_Vazzz)

Não temos medo de pensar. Temos medo de não amar.

Foto: David Talley

Texto escrito a quatro mãos por Lucas Lujan e Suênio Alves e publicado no extraordinário blog Fora da Zona de Conforto em 4 de agosto de 2009. Fica para reflexão... :-)

Não temos medo de (re)pensar conceitos sobre Deus. Temos medo de não (re)amar como Cristo, quem na realidade não amamos: os mendigos, os pobres, os excluídos, os marginalizados, as crianças africanas, os homens e mulheres de Darfur.

Não temos medo de incertezas. Temos medo que nosso Amor deixe de ser nossa bandeira do Reino de Deus.

Não temos medo de não saber. Temos medo das certezas que prendem Deus a um esquema.

Não temos medo de questionar dogmas. Temos medo de que os dogmas impeçam a transformação de vidas.

Não temos medo do inferno. Temos medo de que nossas mãos se fechem, e não possam ajudar o nosso próximo a sair de sua existência-inferno. Ou pior, que as nossas próprias mãos sejam as quais o empurra para esta existência-inferno.

Não temos medo de devanear teorias loucas. Temos medo que a loucura desse mundo violento cegue nossos olhos a ponto de sempre que pararmos num farol, nesta cidade-sombria, fechemos nossos vidros para a sinceridade dos filhos da injustiça.

Não entendemos como problema sair do molde da teologia sistemática. Temos medo de sistematizar Deus e modela-lo a algum padrão.

Nós não temos medo de chorar por nós mesmos. Nós temos medo de que não mais choremos o choro dos outros.

Não sentimos culpas pelas nossas dúvidas. Mas pedimos que nos lembre sempre de amar como Cristo.

Não temos medo ter uma fé cheia de espelhos em enigmas e despedaçada, que não tem a precisão de uma fé “face a face”. Temos medo de perder o que existe de mais precioso: Amar.

Não temos medo de balançar alicerces religiosos construídos por pensamentos humanos. Temos medo de perder a doçura e a simplicidade de Jesus.

Não temos medo de sermos rejeitados pela instituição. Temos medo da hipocrisia religiosa.

Não temos medo de sermos chamados de hereges. Temos medo de compactuar com o sistema religioso e seus interesses, e esquecermos de amar pessoas.

Não temos a pretensão que nossos argumentos tenham todos os versículos a favor, e assim entrarmos numa guerra de versículos. Temos medo que nós não cumpramos aquilo que Cristo chamou de o resumo da lei e dos profetas: Amar a Deus e ao próximo.

Não temos medo de nos manifestar a favor de alguém. Desde que esse alguém não se esqueça que o conceito central do cristianismo é o amor.

Aprendemos que não podemos ficar presos às amarras da religião e da instituição.

Aprendemos que Deus está acima da religião.

Aprendemos que no Reino não importa o que se pensa, importa o que se ama.

Aprendemos a olhar pessoas como “filhos de Deus”, e amá-las incondicionalmente.

Aprendemos que qualquer um que tenta abrir os olhos de pessoas encabrestadas pela religião, acaba sendo queimado na fogueira da instituição.

Estamos seguros que o Verdadeiro Amor lança fora todo medo, e por isso não temos medo de caminhar com alguém que nos ensina a lidar responsavelmente com a liberdade do amor.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

17 de maio, Dia Internacional de Combate à Homofobia e Transfobia. Participe!

O resgate dos direitos humanos

Escultura: Paige Bradley

"Engravidei duas vezes, e os dois bebês tinham o mesmo problema: anencefalia. Na primeira vez, era uma gravidez programada, desejada. Soube aos 3 meses de gestação que o bebê era anencéfalo. Foi muito triste. Optei pelo aborto legal, mas enfrentei muita burocracia. Se você não tem condições financeiras de contratar um advogado para acompanhar o processo, não consegue. (...), eu só tive a autorização judicial para interromper a gravidez com 7 meses e meio de gestação. (...) Fiz aborto numa época já de risco. (...) Só os pais sabem a dor que é viver este processo. Interromper a gravidez aos 3 meses poderia evitar tanto sofrimento." (Depoimento de Vanessa Oliveira no jornal O Estado de S. Paulo, em 11 de abril de 2012)

Se não houvesse obtido autorização judicial para interromper a gravidez, Vanessa Oliveira, em tese, estaria a responder criminalmente pela prática de aborto, sujeita a pena de detenção de 1 a 3 anos (artigo 124 do Código Penal). No Brasil, o aborto só não é punido se não houver outro meio de salvar a vida da gestante ou se a gravidez resultar de estupro. O aborto constitui um grave problema de saúde pública, sendo a 4ª causa de morte materna no Brasil. A ilegalidade do aborto leva à sua clandestinidade, que, por sua vez, leva à sua realização em condições inseguras, gerando um evitável e desnecessário desperdício de vidas de mulheres, sobretudo das mais vulneráveis.

Após 8 anos de polêmica, este foi o cerne do histórico julgamento do STF, ao autorizar a interrupção da gravidez em caso de anencefalia fetal, em 12 de abril último. A partir da decisão - que tem efeitos gerais, imediatos e vinculantes relativamente a todo Poder Judiciário e à administração pública -, a rede pública de saúde terá que assegurar à mulher que decidir pela interrupção o abortamento legal. Para a ciência, a anencefalia é uma anomalia fetal grave e incurável, incompatível com a vida, amparada por um diagnóstico 100% seguro.

Três são os principais impactos do mais importante julgamento do STF. O primeiro deles atém-se à afirmação dos direitos humanos das mulheres, ao assegurar-lhes a liberdade de prosseguir ou não na gravidez de fetos anencefálicos, à luz de suas convicções morais. Louva a autonomia das mulheres, sua dignidade e seu direito à saúde física e psíquica. Para o STF, obrigar a mulher a manter a gravidez em hipótese de patologia que torna absolutamente inviável a vida extrauterina significa submetê-la a um tratamento cruel, desumano e degradante, equiparável à tortura. Seria desproporcional proteger o feto que não sobreviverá em detrimento da saúde mental da mulher. Na luta pelos direitos das mulheres, a este caso emblemático se soma a relevante decisão do STF pela constitucionalidade da Lei Maria da Penha (em fevereiro de 2012).

O segundo impacto corresponde à observância da laicidade estatal. Defendeu o STF a separação entre os dogmas religiosos de domínio privado e a razão pública e secular, que há de guiar o Estado. Para o STF, a ordem jurídica em um Estado Democrático de Direito não pode se converter na voz exclusiva da moral de qualquer religião. A interpretação constitucional deve primar pelo respeito à principiologia e racionalidade constitucional, conferindo força normativa à Constituição. Uma vez mais, o STF se lançou como veículo da razão pública, reforçando o princípio da laicidade estatal já destacado nos casos concernentes ao uso de células-tronco embrionárias para fins de pesquisa científica (em maio de 2008) e à proteção constitucional às uniões homoafetivas (em maio de 2011).

Finalmente, o terceiro impacto relaciona-se à consolidação do STF como órgão guardião da Constituição, com a especial vocação de proteger direitos fundamentais. As Cortes Constitucionais têm assumido a especial missão de fomentar a cultura e a consciência de direitos e a supremacia constitucional, tendo seus julgados o impacto de transformar legislação e políticas públicas, contribuindo para o avanço na proteção de direitos. Como lembra o ministro Celso de Mello: "O Poder Judiciário constitui o instrumento concretizador das liberdades constitucionais e dos direitos fundamentais. (...) É dever dos órgãos do Poder Público - e notadamente dos juízes e dos Tribunais - respeitar e promover a efetivação dos direitos humanos."

A emblemática decisão do STF simboliza, assim, o triunfo dos direitos humanos, sob a perspectiva da saúde e da justiça social.

- Flavia Piovesan, procuradora do Estado de São Paulo
Publicado originalmente no site do jornal O Globo, 03/05/2012, e reproduzido via Conteúdo Livre

Lamento dos afro-descendentes: 13 de maio

Imagem daqui

De Leonardo Boff, em seu blog (aqui):

Ontem, 13 de maio, foi o dia das mães. Mas não esqueçamos a mães negras, especialmente as “amas-de-leite”, as mucamas. Quantas crianças brancas não foram por elas amamentadas e salvas?

Agora, finalmente a Justiça fez justiça aos afrodescentendes, pagando uma dívida histórica que pesava em nossa consciência branca coletiva. Foram-lhes concedidas as cotas de acesso às universidades federais. Mas a nossa dívida começou apenas a ser paga. Há tantas reparações e compensações ainda por fazer.

Enquanto isso a Paixão de Cristo continua pelos tempos afora no corpo destes crucificados. Jesus agonizará até o fim do mundo, enquanto houver um único destes seus irmãos e irmãs que estejam ainda pendendo de alguma cruz.

Assim pensa também o budismo tibetano. O bodhisattwa (o iluminado) pára no umbral do Nirvana e suplica retornar ao mundo da dor – samsara – para viver solidariamente com quem sofre no reino humano, animal e vegetal. Nesta mesma convicção, a Igreja Católica, na liturgia da Sexta-feira Santa, coloca na boca do Cristo estas palavras pungentes:

”Que te fiz, meu povo eleito? Dize em que te contristei! Que mais podia ter feito, em que foi que te faltei? Eu te fiz sair do Egito e com maná de alimentei. Preparei-te bela terrra, e tu, a cruz para o teu rei”.

Rememorando a abolição da escravatura a 13 de maio, nos damos conta de que ela não foi completada ainda. A paixão de Cristo continua na paixão do povo afrodescendente. Falta a segunda abolição, da miséria e da fome, como postula o senador Cristovam Buarque. Ouvem-se ainda os ecos dos lamentos de cativeiro e de libertação, vindos das senzalas, hoje das favelas ao redor de nossas cidades:

“Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu te inspirei a música carregada de banzo e o ritmo contagiante. Eu te ensinei como usar o bumbo, a cuíca e o atabaque. Fui eu que te dei o rock e a ginga do samba. E tu tomaste do que era meu, fizeste nome e renome, acumulaste dinheiro com tuas composições e nada me devolveste.

Eu desci os morros, te mostrei um mundo de sonhos, de uma fraternidade sem barreiras. Eu criei mil fantasias multicores e te preparei a maior festa do mundo: dancei o carnaval para ti. E tu te alegraste e me aplaudiste de pé. Mas logo, logo, me esqueceste, reenviando-me ao morro, à favela, à realidade nua e crua do desemprego, da fome e da opressão.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu te dei em herança o prato do dia-a-dia, o feijão e o arroz. Dos restos que recebia, fiz a feijoada, o vatapá, o efó e o acarajé: a cozinha típica da Bahia. E tu me deixas passar fome. E permites que minhas crianças morram famintas ou que seus cérebros sejam irremediavelmente afetados, infantilizando-as para sempre.

Eu fui arrancado violentamente de minha pátria africana. Conheci o navio-fantasma dos negreiros. Fui feito coisa, “peça”, escravo. Fui a mãe-preta para teus filhos e filhas. Cultivei os campos, plantei o fumo para o cigarro e a cana para o açúcar. Fiz todos os trabalhos. E tu me chamas de preguiçoso e me prendes por vadiagem. Por causa da cor da minha pele me discriminas e me tratas ainda como se continuasse escravo.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu soube resistir, consegui fugir e fundar quilombos: sociedades fraternais, sem escravos, de gente pobre mas livre, negros, mestiços e brancos. Eu transmiti, apesar do açoite em minhas costas, a cordialidade e a doçura à alma brasileira. E tu me caçaste como bicho, arrasaste meus quilombos e ainda hoje impedes que a abolição da miséria que escraviza, continue como realidade cotidiana e efetiva.

Eu te mostrei o que significa ser templo vivo de Deus. E, por isso, como sentir Deus no corpo cheio de axé e celebrá-lo no ritmo, na dança e nas comidas sagradas. E tu reprimiste minhas religiões chamando-as de ritos afro-brasileiros ou de simples folclore. Não raro, fizeste da macumba caso de polícia.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Quando com muito esforço e sacrifício consegui ascender um pouco na vida, ganhando um salário suado, comprando minha casinha, educando meus filhos e filhas, cantando o meu samba, torcendo pelo meu time de estimação e podendo tomar no fim de semana uma cervejinha com os amigos, tu dizes que sou um negro de alma branca, diminuindo assim o valor de nossa alma de negros, dignos e trabalhadores. E nos concursos em igual condição quase sempre tu me preteres em favor de um branco. Porque sou negro.

E quando se pensaram políticas públicas para reparar a perversidade histórica, permitindo-me o que sempre me negaste, estudar e me formar nas universidades e assim melhorar minha vida e de minha família, a maioria dos teus grita: é contra a constituição, é uma discriminação, é uma injustiça social. Mas finalmente a Justiça agora nos fez justiça e nos abriu as portas das universidades federais.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: Que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!”

“Responde-me, por favor”.

E nós brancos, os que dispomos do ter, do saber e do poder, geralmente calamos, envergonhados e cabisbaixos. É hora de escutar o lamento destes nossos irmãos e irmãs afro-descendentes, somar forças com eles e construir juntos uma sociedade inclusiva, pluralista, mestiça, fraterna, cordial onde nunca mais haverá, como ainda continua havendo no campo, pessoas que se atrevem a escravizar outras pessoas.

Oxalá possamos gritar: “escravidão nunca mais”. E enxugando as lágrimas podemos dizer como no Apocalipse:”Tudo isso passou”.

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Cardeal apela por uma Igreja aberta à diversidade e ao amor ao próximo

Imagem daqui

O cardeal D. Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, propôs esta noite [ontem] no Santuário de Fátima um modelo de Igreja assente na abertura à diferença e no amor ao próximo.

Na homilia da missa, enviada ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, o prelado italiano recordou o excerto da Bíblia onde se narra a primeira conversão de um pagão ao cristianismo.


O especialista em estudos bíblicos apelou à superação de «distâncias e diversidades» e convidou as dezenas de milhares de fiéis a abraçarem o amor que penetra «nos caminhos obscuros da história, no subsolo do mal e do vício, no espaço do desespero e do ódio».

«Com ele [amor], entremos no horizonte gélido e sombrio do sofrimento dos nossos irmãos e das nossas irmãs, para aí acender a luz e o calor do amor que conforta e salva», disse.

D. Gianfranco Ravasi referiu-se também à Virgem Maria: «É ela que nos convida a acender a pequena vela do amor, em vez de pararmos a maldizer a noite do mal e do ódio que invade o mundo».

Segue a homilia na íntegra, aqui reproduzida via Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Portugal).


Caros irmãos e irmãs,

Através da Palavra de Deus, que ressoou nesta noite de oração e neste recinto sagrado, faremos agora uma outra viagem espiritual, mais longa do que a procissão que realizámos guiados por Maria. Três são as cidades do espírito onde juntos vamos parar: ali escutaremos três diferentes vozes, todas porém assinaladas pela mesma mensagem.

A primeira cidade debruça-se sobre o Mediterrâneo ao longo da costa da Terra Santa: é Cesareia Marítima, a sede do governador imperial da Palestina no tempo de Jesus. Entramos num dos palácios, na residência de um oficial romano, o centurião Cornélio. Ele é o primeiro pagão que entrará na nova fé cristã. Diante dele apresenta-se são Pedro que está para batizar aquele soldado de bom coração e justo bem como a sua família. As palavras do apóstolo são simples e essenciais mas abrem um horizonte que hoje se alarga até nós, vindos de povos e nações diferentes: "Deus não faz acepção de pessoas, mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável" (Atos 10, 34-35).

O olhar amoroso de Deus estende-se sobre todas as criaturas porque, como se lê no livro da Sabedoria, "Tu, Senhor, amas tudo quanto existe e não detestas nada do que fizeste ... Tu és indulgente com todos, porque todos são teus, ó Senhor, amante da vida!" (11,24.26). Então, na casa daquele centurião, numa cidade elegante e mundana, sopra o vento do Espírito Santo: de facto, "o Espírito desceu sobre todos os que estavam a ouvir a Palavra" (Atos 10,44). É o "Pentecostes dos pagãos" que abate "o muro de separação que os dividia" dos hebreus, como acontecia no templo de Jerusalém e como recordava o apóstolo Paulo escrevendo aos cristãos de Éfeso (2,14). Com Cristo, portanto, "não há mais Grego ou Judeu, circunciso ou incircunciso, bárbaro ou cita, escravo ou livre, o que há é Cristo, que é tudo e está em todos" (Co/. 4,11).
A nossa viagem conduz-nos, agora, à segunda cidade: talvez seja mesmo a esplêndida Éfeso onde Paulo tinha vivido momentos árduos da sua missão apostólica. A voz que agora ressoa é a de um outro apóstolo, João, no fragmento da sua admirável Primeira Carta proposto pela liturgia deste domingo pascal. Em Efeso e nas outras fascinantes cidades, que constelavam a costa mediterrânica da atual Turquia, tinha feito resplandecer o verdadeiro rosto de Deus naquela inesquecível definição que acabou de ser proclamada: " Deus é ágape, amor".

É um amor que irradia penetrando também nos caminhos obscuros da história, no subsolo do mal e do vicio, no espaço do desespero e do ódio. É um amor que se manifestou em Cristo, o Filho, que atravessou aquele mundo tenebroso de morte " para que tivéssemos a vida por meio dele", como diz são João. E porque Deus é amor, também nós "amemo-nos uns aos outros", superando distâncias e diversidades, como faremos daqui a pouco quando nos saudarmos no abraço da paz. Como ele, entremos no horizonte gélido e sombrio do sofrimento dos nossos irmãos e das nossas irmãs, para aí acender a luz e o calor do amor que conforta e salva.

E eis-nos chegados à última etapa, à cidade santa, Jerusalém. Subamos ao "andar superior" de uma casa, entremos numa "grande sala, preparada, já pronta" (Marcos 14,15). Estamos no Cenáculo. E a última noite da vida terrena de Jesus. Ele está a falar longamente com os discípulos durante a sua última ceia, a primeira da eucaristia. Também nos seus lábios ressoa repetidamente a palavra "amor" que nos acompanhou já em Cesareia e em Éfeso, mas agora brilha de uma forma total e absoluta.

Deixemo-la ecoar no nosso coração, enquanto somos envolvidos no silêncio desta noite. Connosco a escutar estas palavras está Maria, a estrela que preanuncia a aurora depois das horas noturnas do mal, do medo e da dor. Como recordava Lúcia nas suas Memórias, a Senhora de Fátima "difunde luz mais clara e intensa do que um copo de cristal, pleno de água cristalina, através dos raios do sol mais ardente". É ela que nos convida a acender a pequena vela do amor, em vez de pararmos a maldizer a noite do mal e do ódio que invade o mundo. Jesus fala-nos agora e repete: "Como o Pai me amou, também eu vos amei. Permanecei no meu amor... é este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos... O que vos mando é que vos ameis uns aos outros" (João 15, 9. 12-12.17).

- D. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura

domingo, 13 de maio de 2012

Feliz dia das mães! :-)


"Vídeo da campanha em homenagem aos Dia das Mães do Hospital Israelita Albert Einsten.

Que mais empresas tenham a iniciativa de reconhecer nossas famílias, fico muito feliz quando um trabalho sério reafirma a realidade: somos uma família como qualquer outra.

Obrigada Caroline Naumann, responsável pela presença do hospital na redes sociais, por auxiliar na realização deste projeto.

(...) Mais histórias da campanha podem ser assistidas no link do Especial Dia das Mães, famílias lindas e cada uma delas com suas particularidades e muito amor!"

(Fonte: Maternidade Lésbica)

"Eu tenho orgulho do meu filho gay"

Imagem via Facebook

Há pouco menos de dois meses a professora aposentada Luci de Carvalho se submeteu a uma cirurgia para implantar uma prótese no joelho. Durante o período pré e pós cirúrgico foi assistida por sua nora, Aline, que é enfermeira e chegou a integrar a equipe cirúrgica. As duas ficaram amigas desde que a enfermeira começou a namorar a filha mais velha de Luci, a promoter de eventos Aline Carvalho.

Quando o bailarino Wesley Batista separou-se de seu primeiro companheiro, Moisés, depois de quatro anos e meio morando juntos, sua mãe, a manicure Eliane Batista, foi quem mais sentiu o baque. “Eu chorei mais que Wesley (risos). Era muito apegada ao Moisés e via ele sofrendo daquele jeito... Ele foi uma pessoa muito importante na vida do Wesley, o primeiro namorado, era um porto seguro. Fiz de tudo para que o casamento deles voltasse, mas não deu certo”, lembra Eliane.

Já a gerente de loja Rocélia Melo foi mais prática. Ao ver o DJ Victor Wesley, seu primogênito, insône pela casa, deprimido por conta do fim do namoro com Rafael, ela se dispôs a levar o então adolescente de 17 anos à casa do ex-namorado para tentar uma reconciliação. “Comprei uma caixa de bombons e um cartão para o Victor escrever e fui bater na casa do Rafael com ele. Não dava mais para ver meu filho sofrendo tanto e não fazer nada. Como ele não dirigia, peguei o carro e eu mesma fui”, conta Rocélia.

Aceitação
A comerciária, a professora e a manicure não se conhecem, mas as três partilham de uma mesma atitude. Todas elas lidam tranquilamente com a homossexualidade de seus filhos.

Por causa destas mulheres, nestas três famílias, a diversidade sexual não é razão para distanciamento. “Não tem porque ser diferente. Ser homossexual não é desvio de caráter. Meu filho é gay, não é drogado nem marginal. Amo meu filho agora mais que nunca”, declara Eliane.

Luci não fica atrás. Segundo ela, a família ficou muito mais unida depois que passou a conviver harmoniosamente com a homossexualidade de Aline. “Ela é minha filha, não faz diferença se é hétero ou não”, pontua.

Rocélia aponta vantagens no jogo aberto em sua casa. “Somos uma família feliz. A gente sabe onde ele anda, o que está fazendo, sem a preocupação de antes”.

Reação materna inicial foi de resistência
Hoje, pode até parecer fácil. Mas não foi sempre assim na relação de Wesley e Eliane e Luci e Aline. Quando os filhos saíram do armário (expressão comumente usada para definir o ato de assumir a homossexualidade), enfrentaram a resistência inicial das mães.

Recém-chegada do Rio de Janeiro, onde Aline nasceu e cresceu, Luci mandou a filha estudar em Manaus (AM), Natal (RN), João Pessoa (PB) e até de volta à capital fluminense na ilusão que a distância de Fortaleza iria “reverter sua homossexualidade”.

“Eu namorava com homens no Rio, vim me entender (como homossexual) aqui. Quando falei para minha mãe, ela me mandou estudar fora para ver se ‘passava a vontade’. Claro que não adiantou”, ri-se Aline, que, quando voltou para Fortaleza, ainda foi encaminhada a um psicólogo - que tinha a mesma missão (impossível) dos estudos distantes.

Já Eliane Batista caiu em depressão quando seu filho Wesley se assumiu gay, apesar de já ter suas desconfianças sobre a sexualidade do rapaz. “Mãe já sabe, né? Só não quer acreditar. Nenhuma mãe se engana a respeito disso”, garante. “Mas ele tinha namoradas, era muito bonito... Na verdade, eu fiquei apavorada. Sofri pelo preconceito que ele iria enfrentar“.

Passado o choque inicial, ambas asseguram que as dores do processo de aceitação da homossexualidade dos filhos (que chega a levar anos) é recompensada pela qualidade de relacionamento que eles ganham com o correr do tempo.

Histórias da hora de "sair do armário"
No dia seguinte à primeira vez que beijou um rapaz na boca, Victor Wesley, então com 16 anos, chegou para a mãe e sem rodeios disparou: “Mãe, eu sou gay”. Rocélia olhou para o filho, sorriu e respondeu: “Eu já sabia”. Minutos antes, o adolescente tinha dito a mesma frase para a avó, com quem era mais apegado. “Minha avó disse que tinha mulher demais no mundo para eu virar gay (risos). Mas, recentemente teve um primo que saiu do armário e a mãe dele não aceitou. Quando a avó soube foi lá conversar com ela”, conta o DJ.

Aline Carvalho contou primeiro para o pai, que ganhou a incumbência de “amaciar” a mãe. “Até então eu tinha muito mais intimidade com ele, depois que ele falou com ela foi que eu cheguei junto e me assumi para a mamãe”,a firma.

Quando Wesley, aos 17 anos, mostrou a foto de Moisés para Eliane e disse que era seu namorado, a manicure caiu na gargalhada, achando ser uma brincadeira. “Demorou um pouco para ela entender que eu estava falando sério”, conta o bailarino.

A seguir, os vídeos com os depoimentos das três mães:






Fonte: Jornal O Povo (aqui, aqui, aqui e aqui)

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Maria, mãe de Jesus

Imagem daqui

A primeira comunidade de Jerusalém era formada por judeus que aceitaram Jesus como Messias. Como bons judeus, eles cumpriam a Lei de Moisés, guardavam o sábado e participavam do Templo, mas também se reuniam no sábado à noite para a fração do Pão e cantar a Cristo como Senhor e Salvador. Isso trouxe perseguições dos mais fanáticos e, logo os de língua grega tiveram que fugir para outros lugares.

No início, os primeiros cristãos foram considerados uma seita do povo judeu, como eram também os fariseus e os saduceus. Quando a pequena comunidade de Jerusalém, Igreja mãe, se abre em Pentecostes aos pagãos, surge um novo estilo de viver a fé em Jesus.

O Evangelho de Mateus expressa a experiência cristã dos que eram de origem judaica: a fé se expressa na Torá, na caridade e no culto. Esta comunidade de Jerusalém manifesta uma cultura e costumes judaicos, com a supremacia do varão sobre a mulher. Com a revolta judaica (70 DC), muito judeus cristãos tiveram que sair de Jerusalém. É o caso da comunidade de Mateus, rejeitada pelos judeus ortodoxos e desprezada pelos pagãos.

Entendemos, agora, a presença calada e silenciosa de Maria em Mateus. Ela não pronuncia uma palavra, como é próprio das mulheres judias, mas está sempre próxima e ativa. Entendemos, também, porque é José quem recebe o anuncio do anjo, forma própria do Deus do AT oferecer uma missão a alguém.

Maria aparece em dois momentos no Evangelho de Mateus: nos relatos de infância e no ministério público de Jesus. Lembra quando a mãe de Jesus pergunta por ele, desejando lhe falar? Os que estão sentados, ouvindo o Senhor, são seus discípulos e Ele os assiná-la com a mão. Ser discípulo é cumprir a vontade do Pai. Mateus suprime a referência à pouca monta que Jesus recebe dos seus próprios parentes! Contuso, Maria está sempre unida ao seu Filho nos momentos fundamentais da sua vida e ministério.

(...) Maria, como a primeira discípula, está com seu filho desde a concepção até a Cruz.

Não há Jesus sem Maria nem Maria sem Jesus! (...)

- Pe. J. Ramón F. de la Cigoña, no blog Terra Boa

Amar!

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Amar o outro, todo outro, gratuitamente. Como poderíamos excluir alguém por Amor? Isso seria uma contradição nos termos e uma incompreensão da missão que nos foi confiada. O Amor não é reciprocidade; ele é continuidade, fecundidade e gratuidade.

A reflexão a seguir é de Raymond Gravel, sacerdote de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do 6º Domingo de Páscoa (13 de maio de 2012). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Referências Bíblicas:
1ª leitura: At 10,25-26.34-35.44-48
2ª leitura: 1 Jo 4,7-10
Evangelho: Jo 15,9-17

A uma semana da Ascensão, a segunda face da Páscoa, São João na segunda leitura e no evangelho de hoje nos lembra da essência do que nós nos tornamos por causa de Cristo: amor, e o essencial da fé cristã que é amar. O Pai ama o Filho, o Filho nos ama comunicando a nós o amor do Pai. Esse amor nos impulsiona a nos amarmos uns aos outros. Existe um vínculo tão íntimo entre Deus, Cristo e nós, que nós somos todos da mesma família.

1. Deus é Amor – Deus se define com uma só palavra: amor. Que bela definição de Deus dada por São João. Tudo começa aí... Deus primeiramente ama; ele é o fundamento de todo o Amor. O nosso se origina nele. Nós não existimos por nada... mas, por causa de Deus, nós somos capazes de nos tornar, nós também, todo Amor: “E o amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou” (1 Jo 4,10). O Amor de Deus se manifesta por Cristo: “Nisto se tornou visível o amor de Deus entre nós: Deus enviou o seu Filho único a este mundo, para dar-nos a vida por meio dele” (1 Jo 4,9). São João nos faz ver também quem nós somos e quem é Deus: “Todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus” (1 Jo 4,7)

2. Permanecer no Amor – No evangelho de São João, o verbo permanecer (demeurer) é muito importante. Ele significa: viver, ficar, partilhar, estar na intimidade daquele que ama. São João fala a todos os crentes de ontem e de hoje da fidelidade a um nome que é um lugar: uma moradia (demeure), e um rosto: o Amor. No fundo, nós cristãos, devemos ser moradias de Amor, e é o que Cristo veio nos ensinar na sua passagem, isto é, na sua Páscoa: a festa da passagem. O exegeta francês Jean Debruynne escreveu: “Jesus passa todos os dias deste mundo ao seu Pai e, porém, ao mesmo tempo Jesus fica (demeure). Trata-se, ao mesmo tempo, de ficar na passagem e de uma passagem que fica. Jesus não tem outra moradia (demeure) senão a passagem. Jesus fica passando porque, doravante, o único mandamento e a única fidelidade é amar. Deus não procura servidores ou empregados que não sejam importantes para ele. Deus procura amigos. Se Deus se faz homem, não é nem por interesse nem por benefício, mas é por paixão, é por Amor”.

3. Um Amor fecundidade – O Amor de Deus manifestado em Cristo não é primeiramente reciprocidade. Jesus não diz: Amem-me como eu amei vocês. Ele diz:
“Amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês” (Jo 15,12). O que quer dizer que nós devemos amar ao outro não para que ele nos ame, mas para que, por sua vez, ele possa amar mais alguém. Assim, o Amor não se merece, não se compra, não se ganha. O Amor se recebe para ser dado gratuitamente: “Não foram vocês que me escolheram, mas fui eu que escolhi vocês. Eu os destinei para ir e dar fruto, e para que o fruto de vocês permaneça” (Jo 15,16). Não é um amor recíproco, interessado, mas sim um Amor gratuito, fecundo, que não cessa de crescer e de aumentar.
Santo Agostinho, no século IV, tinha compreendido isso. Ele distinguia três graus no ato de amor. Primeiro grau: “Amar ser amado”. É o grau mais baixo. Quem não gosta disso? Precisaríamos ser marionetes para pretender o contrário. Estamos todos incluídos nisso. É o amor narcisista. Segundo grau: “Amar amar”. É gostar de amar os outros. Nós esquecemos um pouco de nós mesmos; tornamo-nos generosos, altruístas. Fazemos a nossa boa ação, nos preocupamos com os outros, mas isso é gratificante, de maneira que um excesso nessa forma de amar pode se converter, às vezes, em uma forma megalômana de amor de si próprio. Terceiro grau: “Amar!”. Só isso. Amar simplesmente, amar o outro por ele mesmo, não para lhe fazer bem nem para fazer crescer as nossas virtudes... Não! Amar sem esperar nenhum retorno. Não amamos para... alguém ou algo. Amamos e ponto, só isso. É o topo da gratuidade. É o fruto que devemos dar como cristãos e que permanece.

4. Um Amor liberdade – Na primeira leitura de hoje, nós temos um belo exemplo do Amor do nosso Deus que se expressa com total liberdade. A Igreja do século I o experimentou com Pedro como cabeça. Anunciando a Palavra, a Boa Nova da Ressurreição de Cristo aos pagãos, Pedro teve que reconhecer a igualdade entre os humanos: “De fato, estou compreendendo que Deus não faz diferença entre as pessoas” (At 10,34). Até mais, seu Espírito está sempre antes. De maneira que Pedro rapidamente compreendeu que Deus era livre de agir sem que ele ou a Igreja tivesse que decidir: “Pedro ainda estava falando, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a Palavra” (At 10,44). Todo o mundo ficou admirado de que os pagãos não batizados recebessem o dom do Espírito de Pentecostes (At 10,45). Pedro deve, então, render-se perante a evidência de que Deus não pertence à Igreja. É um Deus de liberdade: “Será que podemos negar a água do batismo a estas pessoas que receberam o Espírito Santo, da mesma forma que nós recebemos?” (At 10,47).

Se eu atualizo, hoje, a mensagem que se tira do livro dos Atos dos Apóstolos, me parece que há ali um convite e uma interpelação que se dirige a todo cristão, mas mais ainda aos dirigentes, de demonstrar humildade no exercício das suas funções. Cada vez que uma pessoa é rejeitada, condenada ou excluída da Igreja, deveríamos nos perguntar se nós somos fiéis ao Amor de Deus que se manifesta em Cristo e que nos convida a amar ao outro, a todo mundo, gratuitamente. Como poderíamos excluir alguém por Amor? Lá há uma contradição nos termos e uma incompreensão da missão que nos foi confiada. O Amor não é reciprocidade; ele é continuidade, fecundidade e gratuidade. O Espírito Santo age ainda hoje com toda liberdade. O resultado não nos pertence. É preciso que nós nos digamos e redigamos isso seguidamente...
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