quarta-feira, 9 de maio de 2012

Uma agenda em comum

"Todas as famílias merecem a igualdade"

Nosso amigo Rev. Marcio Retamero estará, dia 15 de maio, em uma audiência no Senado Federal, expondo temas pertinentes à comunidade LGBT. Neste texto, escrito para o Bule Voador, um site (excelente, por sinal) dedicado ao humanismo secular, ele conclama diferentes grupos progressistas a se unirem em prol dos direitos humanos e no combate à instalação de um Estado teocrático no Brasil.

Não faz muito tempo que ateus e cristãos formavam um par binário de opostos. Quando muito, a questão girava em torno do debate se Deus existe ou não; se a religião é alienante ou não; se o criacionismo era uma teoria válida ou puro mito (e é mito!). Geralmente tais debates descambavam para enquetes bem rasas e ingênuas do tipo: você crê que Deus criou o mundo em sete dias ou crê na teoria do Big Bang?

Enfim, não havia diálogo, mas apenas embates infrutíferos, tal como continua acontecendo entre ateus e cristãos fundamentalistas, aqueles cujos representantes estão no Congresso Nacional e que não abrem mão de lutar pela imposição de sua cosmovisão à sociedade como um todo. Aqui no Rio de Janeiro temos até uma campanha que lemos nos carros: “Bíblia sim, Constituição não!”

Cristãos fundamentalistas não se abrem ao debate, eles elegem certas passagens da Bíblia e as leem literalmente, enquanto deixam intocadas outras ou relativizam muitas, o que desvela a desonestidade intelectual deles em relação às Escrituras Cristãs, o Antigo e o Novo Testamentos. São fechadíssimos ao debate e tomam como “verdade literal” o que selecionam na Bíblia deles.

Cristãos fundamentalistas possuem um projeto sólido de poder político, um verdadeiro assalto ao Estado Laico que tem sido desvendado diante dos nossos olhos, desde os anos 90, eleições após eleições. Crescem em progressão geométrica e, segundo dados da revista Veja, já são 25% da população brasileira, ou seja, um grupo social que decide qualquer pleito eleitoral seja no nível municipal, estadual ou federal.

As últimas eleições para o Palácio do Planalto revelou aos brasileiros e brasileiras a importância, em nossos dias, do voto evangélico. Os dois candidatos com reais condições de vencer as eleições buscaram nos caciques das Igrejas Cristãs Fundamentalistas apoio e compromisso. Cartas foram publicadas, como a então candidata Dilma Rousseff publicou a “Carta ao Povo de Deus”, comprometendo-se, enquanto presidente, a jamais sancionar nada que fosse contra os valores da família brasileira e do cristianismo (qual cristianismo?).

José Serra, apoiado pelo midiático pastor assembleiano Silas Malafaia, não levou a melhor. Dilma conseguiu construir alianças mais largas com o povo evangélico de vertente fundamentalista e levou a melhor. A outra candidata, vista por muitos como “a via média”, também é evangélica de vertente fundamentalista (Marina Silva é afiliada à Assembleia de Deus) e sua agenda descartava, por exemplo, o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, porque segundo a então candidata, casamento é sacramento (uma mentira deslavada, pois nenhuma igreja evangélica fundamentalista tem em sua doutrina o conceito sacramental de casamento, mas somente a Igreja Católica Romana). Na esteira de Marina Silva, sempre que os outros dois candidatos eram confrontados com perguntas sobre os direitos não concedidos à população LGBT, principalmente o casamento civil, saíam pela tangente, dizendo que casamento era coisa de Igreja (?!). Ou seja, ignoravam o Código Civil Brasileiro que não tem no *casamento civil* uma base teológica sacramental. Claro que eles não são ingênuos e sabem disso, mas tal discurso agradava aos evangélicos da vertente fundamentalista.

Neste ano de 2012 teremos eleições municipais e nas principais capitais do país a luta cerrada pela conquista do voto evangélico já começou. Aqui no Rio de Janeiro, o atual prefeito Eduardo Paes (PMDB/RJ) que tenta a reeleição, já apareceu nas capas dos principais jornais sendo “abençoado” por caciques das Igrejas Universal do Reino de Deus e da Assembleia de Deus, esta, a maior denominação evangélica brasileira, de vertente fundamentalista. O par Rodrigo Maia (DEM/RJ) e Clarissa Garotinho (PR/RJ) formam uma tentativa de equilibrar de um lado o “progressismo” de um deputado federal, que enquanto atuava na Câmara dos Deputados apoiava as questões mais prementes de direitos humanos, inclusive a agenda LGBT, integrando a Frente Parlamentar LGBT daquela Casa. Sua candidata a vice, por outro, representa o lado mais conservador, com amplo apoio entre as igrejas cristãs, desde as históricas, como a Igreja Batista, às neopentecostais, como a Renascer em Cristo e congêneres.

Fato é que o mesmo tem acontecido em São Paulo. Hadadd, candidato pelo PT à prefeitura, já declarou que não é o responsável pelo kit Escola Sem Homofobia, projeto abortado pela Presidenta Dilma Rousseff, quando os deputados federais e senadores da Frente Parlamentar Evangélica (FPE) bateram no Planalto “cobrando” a dívida de apoio nas eleições. Conseguiram. Hadadd aproxima-se do eleitorado paulistano evangélico, buscando apoio neste setor, pois sabe que Gabriel Chalita (PMDB/SP) tem amplo apoio dos católicos carismáticos, quantitativamente majoritários em relação aos evangélicos de cunho fundamentalista.

Toda essa equação política nos dá a certeza que o voto evangélico vem sendo disputado acirradamente entre os candidatos, seja no nível municipal, estadual ou federal. Os políticos e políticas já sabem a importância e o peso do voto evangélico de vertente fundamentalista e buscam se adequar à agenda política de tais grupos, prometendo lutar pelos “valores cristãos e da família brasileira”.

É preciso refletir sobre o atual fenômeno político com muita seriedade. Por isso desejo com este texto chamar atenção dos ateus e dos cristãos que chamo de progressistas para o perigo que nos ronda em pleno século 21: o obscurantismo e o assalto ao Estado Laico pelo fundamentalismo religioso.

Cristãos Progressistas encontramos tanto na Igreja Católica Romana (são os católicos e católicas herdeiros da Teologia da Libertação que ainda não está morta), quanto nas Igrejas Evangélicas, como as Igrejas Inclusivas (abertas ao público LGBT) e históricas em alguns setores, pois geralmente não há unanimidade entre as históricas (como as Igrejas Presbiterianas e as Metodistas). Entre os Batistas temos uma ala abertamente de esquerda, a Aliança Nacional de Batistas do Brasil, da qual sou membro.

Os Cristãos Progressistas são o avesso dos cristãos fundamentalistas: são engajados socialmente; preocupam-se com o atual rumo da política e do exercício da política no Brasil; são defensores do Estado Laico, ou seja, a total separação entre Igreja e Estado; apoiam as agendas dos Direitos Humanos, inclusive a agenda LGBT e não tomam a Bíblia como paradigma para a criação de leis; relativizam valores de acordo com o atual contexto histórico, principalmente o de família (tão cara aos fundamentalistas) e o de Igreja, sendo esta vista como “consciência do Estado”, ou seja, como aquela que vigia o Estado e o denuncia quando não cumpre seu papel de promover o bem estar social e o avanço da cidadania dos seus cidadãos.
Creio que podemos enxergar entre a agenda política dos Cristãos Progressistas e dos Ateus uma convergência de propósitos: inclusive o apoio da retirada de símbolos religiosos cristãos dos espaços públicos dos três poderes constituídos da nossa nação, bem como de todo e qualquer estabelecimento público; a retirada da frase “Deus seja Louvado” das cédulas do Real e a laicidade do Estado.

Existe uma agenda em comum entre Ateus e Cristãos Progressistas que ultrapassam os velhos debates pseudo-teológicos sobre a existência ou não de um Deus Soberano e Criador, prevalecendo uma dimensão histórica, do chão da vida, da nossa existência enquanto cidadãos de um país cada vez mais “cristão”, mas fundamentalista cristão.

Creio que essa agenda pode ser ampliada, não apenas enlaçando Ateus e Cristãos Progressistas, mas todas as outras minorias que sofrem e sofreriam quando este país se tornar um teocracia republicana, se é que existe ou seja possível existir tal conceito. Falo das prostitutas, das travestis, dos homossexuais e lésbicas e bissexuais, do “povo de santo (candomblé e umbanda), ciganos, dentre outras muitas minorias que coexistem neste país continental.

A ameaça cristã fundamentalista é real. O avanço deles ao poder é real, basta ver que um dos representantes desta ala, o bispo Marcelo Crivella já chegou ao Executivo; o crescimento deles, segundo os dados oficiais que dão conta dos números também são reais. Eles detém concessões públicas de TV e Rádios (tanto católicos fundamentalistas quanto evangélicos fundamentalistas), possuem muito dinheiro advindo das doações dos fiéis através dos dízimos e ofertas; vendem milhares de exemplares de revistas e jornais deste segmento e são vorazes proselitistas, lançando mão de todo o tipo de mídia para conquistar o cidadão e a cidadã.

Os políticos já demonstraram que estão cada vez mais dispostos a conquistarem os votos dessa gente e adotarem sua agenda conservadora e que ameaça à laicidade do Estado, criando leis que obrigam, por exemplo, o ensino religioso confessional nas escolas municipais e estaduais, dentre outras coisas bem sérias, como aconteceu na suspensão do kit Escola Sem Homofobia.
Nós precisamos construir uma ampla frente apartidária e política, apesar das nossas convicções religiosas ou não, apesar das nossas afiliações partidárias ou não e acima dos nossos preconceitos se quisermos parar o assalto do cristianismo de vertente fundamentalista ao Estado Laico. Todos nós, Ateus, Cristãos Progressistas e demais minorias temos muito a perder se o Brasil continuar caminhando para esse abismo que é o casamento do Trono, no nosso caso os Poderes Legislativos, Executivos e o altar e o púlpito. Nuvens obscurantistas pairam sobre nossas cabeças e, antes que elas vertam suas águas que matam e ferem, é melhor nos unirmos, construirmos uma agenda em comum e começarmos a botar os nossos pés nas ruas, clamando contra o atual estado de coisas em nosso país.

- Rev. Marcio Retamero, teólogo e historiador.
Mestre em História Moderna/Uff e pastor da Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo e da Igreja da Comunidade Metropolitana Betel do RJ.

(Fonte: Bule Voador)

* * *

Leia também:
Por uma Frente Ampla em Garantia do Estado Republicano, Democrático e Constitucional
As igrejas e os direitos de todos

Declaração de vice-presidente americano a favor do casamento gay leva movimentos LGBT a pressionar Obama

Foto daqui

Seja fruto de uma gafe ou de um cálculo político, a declaração do vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em favor do casamento gay, botou o presidente Barack Obama na berlinda. Movimentos de defesa dos direitos dos homossexuais voltaram a cobrar de Obama uma definição, e seu porta-voz, Jay Carney, escorregou com a afirmação de que a opinião do presidente sobre o tema “está em evolução”.

Em entrevista no domingo ao programa “Meet the press”, da NBC, Biden, que é católico, disse que se sente “absolutamente confortável” com o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em declaração que surpreendeu os jornalistas que cobrem a Casa Branca.

Quase imediatamente após a divulgação da declaração do vice-presidente, David Axelrod, um dos principais estrategistas da campanha de Obama, usou o Twitter para reiterar a posição de que, para o presidente, “todas as pessoas casadas (e casais) devem ter os mesmos direitos”.

Mas os militantes da igualdade de direitos não compraram a versão de que não havia divergência entre as duas posições, e agora cobram mais clareza de Obama.

— Não sei se era um balão de ensaio. Não sei se o vice-presidente estava apenas falando livremente sobre como se sente. Mas não é possível voltar atrás — disse Winnie Stachelberg, vice-presidente da ONG Center for American Progress.

Joe Solmonese, presidente do grupo Human Rights Campaign, disse que as palavras de Biden correspondem a um apoio ao casamento gay, e pediu a Obama um compromisso mais claro com a causa.

— Agora é a hora de o presidente Obama falar claramente a favor da igualdade absoluta para os casais do mesmo sexo — disse Solmonese.

Diversos apresentadores e comentaristas de TV criticaram Obama por ficar em cima do muro, evitando assumir uma posição clara em um ano eleitoral. Pesquisas recentes mostram que tem oscilado o nível de apoio dos americanos ao casamento gay. Uma sondagem divulgada ontem pelo Instituto Gallup mostrou que 50% dos entrevistados nos EUA apoiam a proposta, enquanto 48% se opõem à união entre homossexuais. Mesmo a marca de 50% representa uma queda no índice de apoio, que havia chegado a 53% no ano passado.

O tema voltou aos destaques do noticiário também por causa do referendo realizado ontem na Carolina do Norte, que se tornou o 30º estado americano a aprovar uma emenda à Constituição estadual definindo o casamento exclusivamente como uma união de pessoas de sexos opostos.

Fonte: O Globo

Pelo direito de cada um a ser quem é

Imagem daqui

A aprovação do casamento igualitário traz consequências... HOJE, o Senado argentino aprovará uma lei de identidad de gênero que reconhece o direito à identidade e à livre determinação sobre o corpo de travestis e transexuais. Na Câmara dos Deputados, a lei passou por 167 votos contra 17 e é muito provável que no Senado a votação também seja quase unânime. Antes da aprovação do casamento igualitário, uma lei como essa seria impossível, mas hoje é tão políticamente incorreto ser contra que até os políticos mais conservadores já se manifestaram a favor. Saiba mais aqui.

Via Eu sou a favor do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo no Brasil, no Facebook

Carne e ossos

Foto: Eva Patikian

O homem moderno acredita mais nas coisas que nas ideias. A gente é concreta, empírica e carnal. Nós gostamos mais da solidez do dado científico que das noções ilusórias da filosofia, da poesia e do sentimento. Assim, se tem forjado o império deste mundo. Qualquer pode constatar as glórias arquitetônicas das nossas cidades, o milagre das comunicações eletrônicas e a maravilha da medicina moderna.

Mas, assim com tudo, se vive carente. Falta um elemento. Todos o sabem, mas muitos optam por ignorá-lo. Trata-se da essência mesma, da faísca da vida, da energia do amor difundida no planeta, como pequenas gotas dum licor concentrado, animando nossa aridez com seu alento de sentido.

O problema, no entanto, não é que sejamos concretos, mas que, ao distanciar a essência espiritual do discurso cotidiano, transforma-se aquela num refúgio alienante para quem não se atrever enfrentar a vida de carne e ossos que a gente tem que vivenciar aqui e agora. A transcendência mística, quando é tratada como coisa de cada um, deixa de ser o mistério partilhado que une com laços profundos. Os fantasmas pessoais, ademais, muitas vezes, são falsos, efêmeros e vingativos.

O Ressuscitado não é um sentimento. Não é um espírito. Não é uma fantasia. Quem acreditar nisso, vai morar nas nuvens. Decola-se do mundo real, e termina mais amigo dos passarinhos na sua própria cabeça que do próximo que está ao seu lado. Sua religião é de muita superstição e pouca fé. Pretende manipular o destino com ritos e encantamentos, mas sem se envolver no amor nem na vida.

O Senhor vem aos seus discípulos na carne e no osso. Ele é. Está ai para que eles o toquem, para que o vejam. O seguimento de Cristo é um compromisso com a substância concreta da vida eterna. Não é uma formalidade para fantasmas. É plenitude à qual aspira toda a criação. É de abraços e suor, trabalho e pão, águas frescas e vinho concentrado. A ressurreição é o matrimônio entre a realidade material e a transcendência poética, porque o amor se põe mais nas obras que nas palavras; porque se disser amar a Deus, e não amar ao seu irmão, a gente mente.

Aqueles que ficarem somente com suas fórmulas catequéticas traíram ao Senhor de carne e osso. Seu amor não é uma finura da metafísica, mas uma obra testemunhal, um gesto compassivo, a palavra precisa que transforma o entorno decaído num anúncio dos céus novos e das terras novas.

A religião espiritualista do além-mundo, aquela que flutuar arriba das nuvens, não tem muito a ver com Jesus. A vida no espírito não deve se confundir com a alienação. A santidade em nada parece à frialdade esotérica. A superstição pagã fantasiada de devoção é uma piedade vazia que faz mais dano ao Reino de Deus que a inocente ignorância de quem não tem conhecido a Boa Notícia. Atrevamos-nos a vivenciar a ressurreição na carne e no osso, como fez Jesus.

- Nathan Stone
Fonte: Mirada Global, via Amai-vos

terça-feira, 8 de maio de 2012

Viver a verdade


Recebemos ontem por e-mail este vídeo-depoimento, com um pedido do autor para que fosse compartilhado com os demais leitores do blog. É um belo depoimento e um testemunho da força da consciência. Realmente, não dá para negar aquilo que a gente sente, no mais íntimo do nosso ser e com a convicção que só a verdade dá, sobre quem a gente realmente é. Sentimos muito por ele ter se optado por afastar-se das suas tarefas na sua paróquia, mas claro que cada um sabe quais são os seus limites, o que é e o que não é possível para cada um - e sabemos bem como a pressão pode ser grande... Por outro lado, que bom que ele chegou a conversar com duas pessoas e que o diálogo foi possível; que bom que, mesmo não mudando sua maneira de ver, elas puderam mudar sua maneira de agir, respeitá-lo e acolhê-lo - mesmo sem compreender, e que grande mérito há aí! Esse é o primeiro passo.

Torcemos para que essa experiência de troca lhe dê forças para continuar buscando o diálogo, que é um processo muito trabalhoso e árduo, mas necessário - tanto para cada um de nós, em nossa busca de viver com honestidade, quanto para a comunidade, a sociedade, a Igreja, o Corpo de Cristo, que precisa da verdade de que os gays existimos e não, não somos monstros: somos pessoas com fragilidades, virtudes, forças, fraquezas como quaisquer outras.

Muito obrigado ao leitor, mais uma vez, pela confiança e pela partilha generosa conosco e com os demais leitores do blog.

E, sim: palavras inspiradas pela verdade e pelo amor serão sempre cristãs. ;-)

* * *

Leia também:
Perguntas frequentes: "Se a Igreja condena a homossexualidade, como é possível uma pessoa gay ser católica?"

Perua ou o Esquadrão do siga as regras


Rebeca Duarte, no Minoria é a Mãe:

Um dos piores tipos de sexismo é aquele disfarçado. É o pior porque normalmente quem vê não percebe, acaba achando que aquilo ali é o correto, e que todas as pessoas devem agir assim. Recentemente um programa de TV tem atraído minha atenção de uma forma negativa. Não vou falar o nome dele para não dar mais audiência (haha), porém, percebo que ele não é o primeiro, e definitivamente não será o último, programa disposto a ajudar as pessoas a mudarem de vida. Essa mudança de vida é estética, é a mudança daquilo que os outros vêem e os incomodam naquela pessoa que está sob os cuidados dos profissionais da atração.

Vi um episódio em que uma garota teve que renovar o guarda-roupa porque ela usava roupas masculinas e prezava demais pelo conforto. A garota era hétero, tinha um noivo há anos, tinha amigos, PORÉM, alguns amigos achavam necessário que ela mudasse sua forma de vestir para uma mais feminina. Outro episódio era estrelado por uma garota que algumas pessoas chamam de pirigótica. A mudança dela era de estilo de vida. Ela tinha que ser menos exagerada para poder manter um namorado, pois seu estilo extravagante assustava os garotos.

Devo assumir que não consegui ver até o final nenhum desses programas, pois assim que anunciavam nas chamadas a mudança e elogiavam a menina por ter se submetido aos desejos dos amigos nascia uma revolta amarga em minha garganta. E quando apareciam os amigos dizendo "Agora sim!" dava vontade de dar uns tabefes pra ver se esse povo acorda pra vida.

Esse programa quer mudar a vida das pessoas (pois também tem garotos, apenas nunca vi) para que elas sejam aceitas pelos seus amigos, ou arrumem um namoro. A mensagem subliminar é: você não está certo desse jeito que você é, você deve se encaixar nesses padrões senão você não satisfará as pessoas - e você precisa satisfazer as pessoas. É mais uma mostra de quão rasa é nossa sociedade, que por um lado prega a igualdade das diferenças e pelo mesmo lado prega que você pode ser diferente, mas não muito. Só se pode ter algo para te fazer uma pessoa diferenciada, não fora dos padrões, pois estar fora dos padrões é caminho certo para a solidão. E ninguém quer estar só.

Tenho pena dessas meninas que submetem a esse tipo de programa, se sujeitam a mudar quem são para satisfazer outras pessoas. Nós sempre estamos mudando, evoluindo ou regredindo, mas em constante mudança, porém, qualquer mudança forçada por um fator exterior tende a ser desprezada assim que esse fator exterior não existe mais. Amigos podem deixar de ser amigos, namorados podem deixar de ser namorados, mas você não deveria deixar de ser você. Principalmente para satisfazer os outros.

O Renato Russo fez uns versos que gosto muito, são esses: "Tem gente que está do mesmo lado que você, mas deveria estar do lado de lá". Ensinam que você deve mudar para ser aceito, quando deveriam era ensinar aos outros para te aceitarem do jeito que você é. E maquiam tudo de uma forma tão moderna que parece que eles estão te ensinando a ser descolado, a ser a última bolacha do pacote, quando estão te fazendo ser mais uma bolacha numa fábrica de biscoito.

Pena.

Pessoas menos religiosas tendem a ser mais generosas, diz estudo


Um alerta para que estejamos atentos e não deixemos que nosso apego à doutrina e às prescrições nos feche o coração, em vez de ajudar a abri-lo. :-)

Um estudo da Universidade da Califórnia que envolveu 1.600 adultos nos EUA revelou que os menos religiosos baseiam o sentimento de generosidade na ligação emocional que estabelecem com os outros. Os religiosos, por outro lado, são mais ligados à doutrina e às relações de reputação e identidade com a comunidade.

“A pesquisa sugere que embora pessoas menos religiosas tendam a ser menos confiáveis nos Estados Unidos, quando sentem compaixão, elas podem estar mais abertas a ajudar estranhos do que pessoas mais religiosas”, comentou Robb Willer, psicólogo da Universidade de Berkeley - observação que já estava presente na parábola evangélica do Bom Samaritano.

E, de fato, o estudo sugere que crentes podem não ser tão “bons samaritanos” quanto ateus e agnósticos. Publicado no periódico Social Psychological and Personality Science, o artigo afirma que pessoas menos religiosas tendem a ser mais sensíveis às necessidades de um estranho.

O experimento foi realizado em três etapas. Na primeira, os cientistas analisaram dados de uma enquete americana de 2004 entre 1.300 adultos. A análise mostrou que as pessoas menos religiosas eram mais caridosas do que os mais crentes.

No segundo experimento, 101 adultos americanos assistiram a imagens de crianças muito pobres. Em seguida, os participantes receberam moedas falsas e foram instruídos a doar uma quantidade qualquer a um estranho. Novamente, os menos religiosos mostraram-se mais caridosos e doaram valores maiores.

“As imagens tiveram um grande efeito na generosidade dos menos crentes”, disse o psicólogo Robb Willer, da Universidade de Berkley, coautor do estudo. “Mas não modificou de maneira significativa a generosidade dos participantes mais religiosos.”

No último experimento, mais de 200 alunos universitários tinham que dizer quão compassivos estavam se sentindo no momento. Em seguida, participaram de jogos em que precisavam decidir se compartilhariam dinheiro com um estranho ou se guardariam para si.

Em uma rodada, os jogadores eram informados que haviam recebido doação de outro participante. Os agraciados tinham liberdade para decidir se recompensariam o doador devolvendo parte do dinheiro. Aqueles que haviam declarado baixa religiosidade e alta compaixão estiveram mais propensos a devolver parte do dinheiro recebido por um estranho do que os outros participantes do estudo.

De acordo com os autores, os menos religiosos apoiam a generosidade e a caridade na força da ligação emocional que estabelecem com um estranho. Já os mais religiosos parecem basear a generosidade menos na emoção e mais na doutrina e na identificação com a comunidade.

(Fonte: PavaBlog)

Discordar em nome da fé

Instalação: Lee Eunyeol

Quando a discordância nasce da escuta prolongada e atenta à Palavra de Deus e das alegrias e das angústias humanas, a fé ajuda a progredir, a se reformar. Nasce da exigência de amar a Deus e ao próximo, de uma preocupação de fidelidade ao que é irrenunciável e mais importante.

A opinião é do cientista político e leigo católico italiano Christian Albini, em nota publicada no blog Sperare per Tutti, 02-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Há espaço na Igreja Católica para a discordância, ou ela é uma realidade a ser condenada e rejeitada por ser incompatível com a autêntica fé?

Esse é um assunto que foi reproposto por Bento XVI na sua homilia da Missa Crismal da Quinta-Feira Santa, no rastro da qual muitos se puseram, incluindo Andrea Tornielli, em um artigo publicado no sítio Vatican Insider [disponível aqui em italiano].

O motivo dessa atenção à discordância católica é a duradoura ressonância, até mesmo internacional, que está tendo o Apelo à desobediência assinado por centenas de padres austríacos que pedem mudanças substanciais na pastoral da Igreja e pretendem implementá-los. Entre as suas reivindicações: a Eucaristia aos divorciados em segunda união, o direito de pregação dos leigos, a presença de moderadores nas paróquias sem clero...

A modalidade de manifestar opiniões e necessidades à hierarquia eclesial através de posicionamentos públicos não é nova. Há vários exemplos, muitos dos quais documentados pelo sítio Viandanti na seção Lettere alle chiese. Vale a pena conhecê-las para descobrir uma Igreja Católica muito mais plural.

Voltando agora ao artigo de Tornielli, o jornalista reconhece a existência de desconfortos profundos que não correspondem à imagem de uma Igreja sempre triunfante, que muitos querem propor a todo custo, beirando a formas de propaganda. É uma realidade que, em muitos ambientes católicos, não se quer admitir.

Encontro-me, no entanto, menos em sintonia quando o jornalista recorre a outras afirmações de Joseph Ratzinger, que remontam a quando ele ainda era arcebispo de Munique.

"O magistério eclesial protege a fé dos simples, daqueles que não escrevem livros, que não falam na televisão e não podem escrever editoriais nos jornais: essa é a sua tarefa democrática. Ele deve dar voz àqueles que não têm voz".

"Não são os doutos – dizia ele em uma homilia pronunciada em dezembro de 1979 – que determinam o que é verdade na fé batismal, mas sim a fé batismal que determina o que é válido nas interpretações doutas. Não são os intelectuais que medem os simples, mas sim os simples que medem os intelectuais. Não são as explicações intelectuais a medida da profissão de fé batismal, mas sim a profissão de fé batismal, na sua ingênua literalidade, que é a medida de toda a teologia. O batizado, aquele que está na fé do batismo, não precisa ser ensinado. Ele recebeu a verdade decisiva e a traz consigo com a própria fé...".

Tornielli retira daí, como conclusão, que o anúncio da Igreja Católica deve se concentrar no essencial da fé, ao qual foi dedicado justamente um ano pastoral, deixando que os leigos intervenham nas questões políticas e econômicas.

É uma posição que eu compartilho, mas, apresentada dessa forma, desvia a atenção daquilo que importa na questão da discordância. As palavras de Ratzinger põem uma dicotomia: de um lado, há os intelectuais, que se baseiam nos livros e nos seus raciocínios, e, de outro, há os simples, que contam apenas com a própria fé. O magistério garante estes últimos.

Trata-se de um raciocínio simples, mas também simplista, porque generaliza e estabelece a priori que toda discordância vem dos intelectuais e dos seus livros. Mas com base em que se diz isso? Por princípio? Seria preciso, ao contrário, entrar no mérito dos casos individuais e das questões individuais.

Concordo que há um risco de intelectualismo ao se lidar com problemas religiosos, mas isso não significa negar o exercício da razão crítica, que é um serviço à fé. Ele ajuda, por exemplo, a identificar superstições e preconceitos. Também estou convicto de que o novo pelo novo não é um valor, razão pela qual a posição mais correta não está necessariamente sempre do lado da mudança. Mas isso não significa enrijecer-se no imobilismo.

Quando a discordância nasce da escuta prolongada e atenta à Palavra de Deus e das alegrias e das angústias humanas, a fé ajuda a progredir, a se reformar. Nasce da exigência de amar a Deus e ao próximo, de uma preocupação de fidelidade ao que é irrenunciável e mais importante. Assim, discorda-se em nome da fé, e não contra a fé ou fora dela. É uma discordância que não tem nada a ver com ser intelectual. Não é uma discordância fácil, barata. Ela provém de um amadurecimento interior sofrido, mas sincero.

Tornam-se, então, indispensável a escuta e o diálogo como normalidade da vida eclesial. Quem são os simples? Aqueles que vivem o peso da condição do divórcio, por exemplo, não pertencem a essa categoria? Olhar para o essencial da fé não significa também ver as situações com um olhar de misericórdia, que é a primeira verdade, e discernir quando é o momento de não absolutizar práticas e situações que parecem consolidadas?

segunda-feira, 7 de maio de 2012

"Eu vos declaro": famílias LGBT unidas por laços de amor


Caiu esta semana na rede o trailer do documentário "Eu Vos Declaro", de Alberto Pereira Jr., sobre quatro casais gays de São Paulo. Alberto está inscrevendo este filme de 40 minutos em festivais e negociando a exibição com alguns canais de TV; também deve acontecer em breve uma sessão numa sala de cinema. Dá para saber mais detalhes aqui, no blog "Eu Vos Declaro".

(Fonte: Tony Goes, em seu blog)

Carta aos parlamentares sobre o livro "A Estratégia"

Foto: Vinciane P

Compartilhamos aqui a carta da Cia Revolucionária do Triângulo Rosa enviada a todo(a)s o(a)s parlamentares do Congresso Nacional na semana passada:

Senhores e Senhoras Parlamentares,

Em 1897, apareceu na Rússia um documento intitulado "Os Protocolos dos Sábios de Sião”, de autoria da polícia secreta do Czar Nicolau II. O documento, falso, acusava os judeus de armarem uma conspiração para ter o domínio mundial. Mais tarde, o documento foi instrumentalizado por Hitler para justificar o extermínio de judeus. Como é possível perceber, um documento falso utilizado para reforçar posições políticas pode ter uma utilização ainda mais espúria: justificar genocídios.

Pois, surpresos, soubemos que cada parlamentar recebeu um exemplar do falacioso livro “A Estratégia – O Plano dos homossexuais para transformar a sociedade”, do Pastor Louis Sheldon, aonde se forja uma suposta conspiração homossexual para o domínio do mundo. Ou como disse outro senador, montar um “império homossexual”.

Mas como montar um império homossexual se a organização dos sexodiversos é muitas vezes mais frágil do que tantos outros setores da sociedade? Ora, querer que o mundo seja menos intolerante é querer o domínio do mundo? Lutar pelo direito a indiferença é querer implantar uma “ditadura gay”? Querer uma sociedade mais inclusiva, onde o gênero, orientação sexual e identidade de gênero não sejam motivos para discriminação, para a diminuição cívica e violência é querer o domínio do mundo? Por que tanta energia gasta por parte dos fundamentalistas religiosos em combater o que seres humanos fazem, consensualmente, em suas camas e com seus corpos? Porque não concentram seus esforços em diminuir a desigualdade social, por exemplo?

Diante da imensa responsabilidade que os (as) parlamentares têm diante do Brasil e da proteção a Constituição Federal, é importante que atentem para mais essa tentativa de manipulação por parte dos fundamentalistas religiosos (e outros representantes do poder publico aliados a esses) da questão da homofobia no Brasil. O livro “A Estratégia”, afirma que a homossexualidade é “perigoso distúrbio emocional” – quando a OMS e o Conselho Nacional de Psicologia não a considera doença, sequer perigosa. Compara lgbts a terroristas, que propalam um “discurso violento vindo das profundezas do inferno”. A Organização das Nações Unidas não estaria preocupada com a condição vulnerável dos homoafetivos se fossemos terroristas. O livro ainda afirma que os “promotores do plano homossexual são pessoas cheias de ressentimento e ódio, misturados com autorrejeição e vergonha” (sem apresentar nenhum dado empírico que comprove o argumento) e que tem o “cristianismo como verdadeiro inimigo” (onde ficam as diversas igrejas cristãs inclusivas nesse argumento?).

O livro claramente alimenta o ódio contra os sexodiversos e não deveria ser levado a sério por nenhum (a) defensor da Democracia e dos Direitos Humanos. Vale a pena lembrar que a liberdade de expressão não é absoluta, pois há prevalência dos princípios da dignidade da pessoa humana e da igualdade jurídica e que, em um Estado Democrático de Direito, o respeito pelos princípios que garantem os Direitos Humanos deve ser intransigente e constante. Acreditamos que um livro que acusa irresponsavelmente e que incita o ódio e a discriminação, fere o ordenamento jurídico de nosso país.

Como militantes sexodiversos afirmamos que cristãos não são nossos inimigos. Pelo contrário: os que têm o amor como orientação maior de suas vidas e seguem as palavras de Cristo (que dedicou sua vida à defesa dos explorados e oprimidos) são nossos aliados. Nossos inimigos são sim aqueles que exploram a fé do povo pobre e crédulo para construir verdadeiras fortunas, isentas de impostos, e elegem bancadas parlamentares com um discurso fundamentalista que impõe a toda sociedade padrões de comportamento que deveriam dizer respeito somente às suas igrejas. E para alcançar esse fim alimentam o ódio
contra minorias da nossa sociedade.

Unimo-nos a Cristo no combate aos hipócritas.

Universidade católica de Brasília vai dedicar dia ao combate à homofobia


No Dia Mundial de Combate à Homofobia, 17 de Maio, a Universidade Católica de Brasília vai realizar das 15h às 21h30 uma programação inteiramente dedicada ao tema da diversidade sexual, incluindo exibição do filme sobre o ícone do movimento militante Harvey Milk e um manifesto contra a intolerância em forma de beijaço. A realização é do DIV’GÊ.

(Fonte: Mix Brasil, com a colaboração do amigo @MarkosOliveira)

O bom pastor não faz distinção entre as pessoas

Ainda no ciclo de comentários ao texto do Bom Pastor, de semana passada, não podíamos deixar passar a oportunidade de publicar ainda este último texto, que tanto enfatiza que o Pastor veio para todos. Sem exceção, sem distinções. :-)

Texto sugerido para oração: Jo 10, 27-30

Jesus Cristo se apresenta à humanidade como o Bom Pastor, aquele que conhece seu rebanho e dá a vida por ele. As atitudes do Bom Pastor revelam um conhecimento e amor profundos por seu rebanho: eu os conheço e eles conhecem a minha voz – dirá Jesus.

Viver essa relação de intimidade é a proposta de Jesus Cristo para a humanidade: no meio dela Ele veio fazer morada, instalar-se para, fazendo-se homem, fazer com que este creia que é possível viver a dimensão de semelhança à Deus.

O bom pastor zela por suas ovelhas – propõem-lhes o cuidado, promete-lhes não perdê-las e não deixá-las ser roubadas por invasores estranhos. E em sendo dóceis as ovelhas, confiantes no seguimento de seu pastor poderão, assim, alcançar Sua promessa maior – a vida eterna.

Ao se colocar como o bom pastor, Jesus rememora o cuidado que o Pai tem com seus filhos. Mais: traz para próximo dos filhos o Pai, fazendo-lhes ver com os olhos do mundo, naquilo que é para cada um uma situação cotidiana (era bastante comum a atividade do pastoreio no tempo de Jesus) a forma como o Pai age. Jesus e o Pai são um e em Jesus podemos ver como o Pai pastoreia cuidadosamente seu rebanho – não deixando que nenhuma ovelha se perca, cuidando individualmente de cada uma, conhecendo-a pelo nome, pelo modo de ser, pelo que é.

Assim, o Mestre afirma: “conheço minhas ovelhas e elas me conhecem” (Jo 10, 14) em uma alusão à relação que deseja ter com cada um de nós – a intimidade daqueles que se (re)conhecem e se entendem mutuamente.

O pastor sabe quais são as suas ovelhas, ainda que seja chamado a também cuidar de outras, como Ele próprio afirmará no mesmo texto (“Tenho outras ovelhas que não são desse redil: também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só Pastor” – Jo 10, 16). Jesus vem para todos, sem distinção. E, de todos se dispõe a cuidar, a dar a vida, a se entregar.

Esforcemo-nos, também por nos tornarmos pastores, bons cuidadores e condutores das vidas que o Senhor coloca em nossos caminhos. Esforcemo-nos para, como Jesus, não fazermos distinção entre as pessoas: a mensagem de Deus é para todos! Assim, estaremos testemunhando o Pai diante da humanidade, como o Filho um dia o fez.

- Gilda Carvalho
Reproduzido via Amai-vos

Leia também:
O amor de Jesus às pessoas não tem limites
A vocação: um chamado à dignidade
O Bom Pastor
“Ele chama as ovelhas pelo nome” (Jo 10, 1-10)
Eu dou vida em abundância para TODOS

domingo, 6 de maio de 2012

“Santíssimo deus”

Foto via Blue Pueblo

...E não foi exatamente atendendo ao convite abaixo e na intenção expressa por seu autor que Cristo encarnou entre nós? :-)

Não posso generalizar, mas nos meus trinta e um anos de vida pus o pé em uma grande quantidade de templos. Lembro-me, inclusive, que quando tinha nove anos fui “um menino pregador” e isso me permitiu colocar o pé “nos altares” de uma grande quantidade de templos. Mas eu não posso generalizar: eu fui em alguns nos quais se permite pensar, onde a pessoa pode se expressar, nos quais a interação é real e não conveniente. No entanto, segue sendo maior a quantidade de templos nos quais a liberdade é só um conceito conveniente que escraviza.

Não só a liberdade é um conceito conveniente; em muitos lugares e pelos lábios de muitas pessoas, “deus” continua sendo uma ideia, um instrumento, um método e até uma credencial que dá crédito a seus portadores para validar as doutrinas mais retorcidas que fomentam desigualdades e conflitos sociais…

Se hoje eu tivesse que começar minha oração com uma frase como “santíssimo deus”, como condicionam em alguns templos, seria para dizer ao deus desses templos:

“Santíssimo deus, deixe as tuas vestes santas no teu céu e vem aqui. Venha disposto a se sujar enquanto jogamos futebol em alguma cancha abandonada com os adolescentes do meu bairro ou em algum terreno coberto de ervas. Venha jogar com eles que, desesperados e em silêncio, anelam por um futuro melhor…

Venha e experimente nossa versão do céu. Experimenta o que há de melhor e fique aqui conosco. Sai dos templos um pouquinho, veja-os de fora, contempla a majestade desses santuários e compara-os com as malocas improvisadas nesses lugares que, com desprezo, muitos dos que entram nos templos chamam de “invasões”. Se te enches de ira ao comparar o luxo desses templos e a pobre condição de muitos habitantes das invasões, prometo não julgar-te. Não poderia porque conheço a ira e também a impotência. Mas se desceres dos céus e saíres dos limites dos templos, passa aqui uns dias e passeia pelas ruas da América Latina. Assim poderás ver como o mundo está girando; talvez escutes os gritos dos que dizem estar ofendidos, mas não te confundas: ofende-os o fato de que já não poderão continuar abusando das terras que não são suas, da liberdade que não pode continuar sendo administrada…

Desça dos céus, e talvez consigamos seduzi-lo com o futuro que vemos. Venha e converte-te conosco em prisioneiro de esperanças…

Por um pouco veste-te de identidade latina e fica em nossas terras escutando a chuva debaixo dos telhados de zinco. Fica escutando nossos idosos falando “daqueles tempos”. Fica e observa como o mundo vai girando e nossas terras latinas vão libertando-se dos grilhões e rastros do colonialismo… A propósito, observa como vamos silenciando a voz daqueles que dizem falar em teu nome e que em teu nome estão saqueando os bairros, as famílias. Venha conosco silenciar a estes que estão roubando com palavras santas o sustento das famílias, o salário que com tanto trabalho alguns ganham…

Venha e vê quão absurdas se tornam essas escatologias que proferem em teu nome… Talvez termines brindando conosco enquanto rimos de quão cruéis foram aqueles que desenharam teu rosto… Conheço lugares onde se pode ficar tranquilo, onde não importa se és um deus ou um mortal. Não importa a tua cor de pele. Não são templos, mas podes sorrir e conversar até o amanhecer… Senta-te um pouco em uma das nossas praças e admira quão grandioso é o ser humano, embora muitos persistam em desconhecer tal grandeza.

Venha e denunciemos juntos. Acompanha-nos na sabotagem do jogo daqueles que deveriam fomentar o bem-estar comum e, em vez disso, se aproveitam de suas posições para explorar e colonizar…”

Essa seria a minha oração e definitivamente não a pronunciaria dentro de um templo, porque às vezes penso que neles deus está obrigado a ficar em silêncio ou a responder de forma conveniente.

- Gusmar Sosa, em La Vida no es Corta
Tradução de Gustavo K-fé Frederico para o PavaBlog

Da missa tridentina à reforma litúrgica do Vaticano II (parte 2)

Imagem daqui

Publicamos aqui a segunda e última parte da análise do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose (leia a primeira parte, publicada ontem à tarde, aqui), sobre a passagem da missa tridentina para a nova forma da missa, após o Concílio Vaticano II. O artigo foi publicado na Revista do Clero Italiano, n°. 3, de março de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


A missa tridentina – As primeiras reformas
Além da missa dos dias de semana e da missa dominical, gostaria também de lembrar uma outra missa muito solene, que era celebrada por ocasião de funerais ou missas de sufrágio, mas somente para pessoas ricas ou nobres. Sim, os ricos podiam pagar não só a missa "dita" pelo pároco, a ordinária, ao alcance das pessoas comuns, mas também a chamada "missa grande levítica".

Nessa ocasião, vinham de fora outros dois padres, que revestiam o papel levítico do diácono e do subdiácono: estes últimos vestiam a dalmática e assistiam o pároco durante a missa. Era uma missa que admirava pela solenidade (devida sobretudo à presença simultânea de três padres), pelo canto (executado pelo coro), pela presença de um catafalco altíssimo e ornado com inúmeras velas, diferente do dos pobres, montado especialmente para acolher o caixão, ou, no caso de missas em memória do falecido, para fingir que ali estava o caixão (até se incensava o catafalco vazio...).

Mas então, ninguém pensava que este era uma farsa ou que na liturgia era necessária a verdade, não a simulação. Nas cidades pequenas como a minha, a "missa grande levítica" era um evento raro de se ver, e o sentimento predominante era a maravilha pelo seu caráter solene, grandioso, espetacular.

Para mim, a missa de então era a única missa, e eu não tinha nenhum problema com relação à forma da sua celebração. Eu entendia o latim, tinha o messalino [pequeno missal popular] e era um cristão muito convicto. Não por acaso, aos 11 anos, contra a vontade do meu pai (a minha mãe havia morrido há três anos), eu quis ir para o seminário para me tornar padre, principalmente – dizia eu – para poder celebrar a missa.

Além do serviço cotidiano como coroinha no altar, era um exercício à liturgia e dava uma subjetividade cristã certamente nada fraca, mas convicta. Eu confesso que, de toda a celebração da missa, para além da consagração, para mim era importantíssima a meditação sobre a [oração da] coleta da missa do dia, em particular o domingo. A coleta da tradição latina, de fato, muitas vezes é uma "pérola", uma verdadeira síntese da oração cristã, um esboço para quem quer rezar segundo o coração da Igreja. Por isso, eu conhecia de cor muitas coletas, de modo que eu podia rezá-las em ocasiões diversas, sem recorrer à leitura do messalino.

Um evento muito significativo foi, depois, a reforma da Semana Santa desejada por por Pio XII no início dos anos 1950. Para mim que tinha dez anos se tratava de aprender novos ritos junto com o pároco: a introdução do lava-pés na Quinta-Feira Santa, a vigília pascal na noite entre sábado e o domingo apareciam como novidades que requeriam empenho e dedicação. Sim, porque até 1954 – perdoe-se e compreenda-se a expressão popular de então – "Jesus Cristo ressuscitava no sábado de manhã".

A liturgia pascal, de fato, ocorria por volta das 9h da manhã, em uma igreja obscurecida por cortinas, de modo a poder celebrar a luz da ressurreição. Na igreja, éramos muito poucos, menos do que em uma missa de semana em que participavam os parentes do falecido pelo qual se celebrava o sufrágio.

Por volta das 10h30, ouvia-se o som dos sinos, soltos na leitura do Gloria in excelsis Deo, depois de terem sido amarrados na Quinta-Feira Santa à noite, e as pessoas que ficavam em casa corriam para os córregos para se lavar o rosto.

Essa era, na época, a celebração da ressurreição de Jesus. Não foi fácil, portanto, aceitar essa primeira reforma litúrgica. Eu, o pároco, as freiras e alguns dos cristãos mais instruídos aprendíamos a compreender a grandeza do mistério das ressurreições. Para outros, ao invés, o comentário era: "Mudam até a nossa Páscoa!".

Uma reação não muito diferente daquela suscitada pela reforma litúrgica posterior, do Vaticano II, quando a exclamação era: "Mudam até a nossa missa!".

A missa pós-conciliar
Com Pio XII, a dinâmica da mudança já havia entrado na liturgia, e João XXIII, ele também, simplificaria alguns ritos e mudaria algumas fórmulas. Certamente, teria sido necessário explicar mais às pessoas o porquê da reforma, despertar nas pessoas um interesse pela "nova missa", iniciá-las à escuta das Sagradas Escrituras.

Foi feito muito pouco, mas posso dizer que, na minha cidadezinha, o pároco fez muito, todo o possível, eu acredito. Mas já haviam chegado os anos do boom econômico, as pessoas haviam mudado: o sábado e o domingo haviam se tornado ocasiões para ir ao mar ou – se dizia – para "dar uma volta". Era a televisão que dava lições no lugar dos padres. Os jovens andavam por aí para dançar...

Quanto a mim, tendo chegado a Turim para a universidade, ia sempre todos os dias à missa, mas não mais como coroinha. Aqui, lembro-me de missas ditas às pressas, tantas missas em diversos altares simultaneamente, ao menos na igreja mais perto do meu alojamento, o Santuário della Consolata.

Mas o Concílio já havia começado e estávamos cada vez mais convencidos de que, para chegar a uma reforma da vida do cristão e de toda a Igreja, era preciso dar vida a um caminho de reforma acima de tudo do ponto de vista litúrgico. Sentia-se a necessidade dela e ela também era esperada, nesse sentido, por parte das pessoas comuns.

Assim, pouco a pouco, chegavam "novidades". As novidades realmente existiam, mas – infelizmente – eram introduzidas aos trancos e barrancos, porque os presbíteros acabavam anunciando antes da missa: "A partir de hoje, na missa, muda-se isto... Esta parte da missa não é mais em latim, mas sim em italiano... Não se faz mais como se fazia, mas se faz de forma diferente...".

Essa modalidade, talvez, não era a mais adequada para fazer com que os cristãos comuns entendessem a intenção da reforma, e poucos presbíteros explicavam com paciência e competência as mudanças. Não houve revolta por parte das pessoas, mas, ao contrário, uma acolhida passiva. E a exclamação "Mudam até a nossa missa!" não tinha amargura, era quase uma piada, naquela hora em que a Itália do boom econômico estava mudando tudo. Porém, precisamente porque mudava a vida dos cristãos, também devia mudar a forma da liturgia.

Pouco a pouco, a reforma litúrgica mudou profundamente o modo de ir à missa. Podemos sintetizar essa mudança através de uma eloquente mudança de linguagem: "do tomar missa (ou assistir à missa)" para "participar da missa". Em primeiro lugar, todos ficaram agradecidos pela introdução da língua italiana, porque, finalmente, podiam compreender palavras que, até aquele momento, pareciam monopólio do presbítero e do coroinha.

O que o presbítero fazia ao altar não era mais obscuro, secreto, mágico para alguns, mas era algo compreensível e cada vez mais referido ao que Jesus fizera e dissera. Pense-se, depois, na maior riqueza de leituras na missa. Para dar só um exemplo, se, antes, no conjunto das missas dominicais e festivas, ouviam-se (ou, melhor, eram lidos em latim) cinco trechos do Antigo Testamento e dez do evangelho segundo Marcos, com o novo lecionário, os trechos do Antigo Testamento proclamados eram cerca de 240, e os de Marcos, quase 40.

As pessoas ouviam pela primeira vez páginas jamais ouvidas, das quais a pregação podia se tornar uma explicação e um comentário. Depois de um longo exílio, a palavra de Deus voltava ao coração do povo de Deus, e, acima de tudo, os evangelhos eram conhecidos quase na sua inteireza.

Além disso, começou-se a responder às palavras do padre. Teve-se verdadeiramente aquela "missa dialogada", como se dizia na hora do Concílio, tão desejada pelos párocos e pelos fiéis. Desapareceu o uso de conjugar a missa de semana com a missa "de morto": nessas liturgias, as leituras escriturísticas também eram variadas e abundantes.

Em suma, deve-se confessar – e por isso também é preciso agradecer ao Senhor – que se voltava verdadeiramente a uma comunidade, a uma assembleia celebrante, mesmo que as pessoas não tinham plena consciência disso.

Além disso, o presbítero, ao presidir a liturgia, aparecia mais claramente como sinal de Cristo para a assembleia e como sinal da assembleia para com Deus.

Não digo que não foi cansativo aceitar todas as mudanças introduzidas, mas a consciência de uma renovação necessária da liturgia me fez participar a partir de dentro dessa reforma, até por causa da minha amizade e assiduidade com os especialistas liturgistas que, em Turim, no centro litúrgico da Elle Di Ci de Leumann, trabalhavam para fazer uma contribuição de qualidade para toda a Igreja italiana.

A convicção e a determinação do cardeal Michele Pellegrino e a frequentação dos mosteiros beneditinos e trapistas franceses me ajudaram muito a acolher a reforma dentro da minha comunidade, que, desde 1968, já tinha feito da liturgia a “opus Dei” sobre a qual se podia construir a sua vida monástica.

A única tristeza, diante da qual eu senti toda a minha e a nossa impotência, foi a introdução de cantos e músicas cuja feiúra e banalidade, e cujo caráter ideológico muitas vezes deturpavam a liturgia. Compreendi que, nas paróquias, não se podia cantar o gregoriano (de fato, desapareciam os coros e eram introduzidas as bandas juvenis), mas se podia buscar, esperar e não ceder às novas modas musicais.

De nossa parte, enraizando-nos na liturgia monástica, fomos preservados dessa contaminação, e o nosso canto permaneceu em continuidade com a grande tradição latina, embora em língua italiana. Nenhuma alteração, mas sim um progresso, um crescimento da liturgia em si mesma.

Conclusão
Então, a missa mudou? Sim, mudou na sua forma, como sempre mudou nas diversas épocas da história da Igreja. Ao mesmo tempo, porém, a missa é a mesma em uma continuidade bem mais profunda do que a língua ou os gestos com os quais é executada.

Na verdade, para quem vive uma fé autenticamente cristã e eclesial, a liturgia da Palavra não mudou desde a da assembleia presidida por Esdras no retorno do exílio (cf. Ne 8), e a liturgia eucarística é sempre a mesma, desde o partir do pão da comunidade de Jerusalém na hora da Páscoa até hoje.

No meu coração, há, portanto, uma enorme gratidão ao Vaticano II e a Paulo VI, que atuaram pela reforma em fidelidade à tradição, à grande tradição cristã, mas não tenho sentimentos depressivos, muito menos negativos, lembrando a missa como era celebrada antes da reforma conciliar.

Há 40 anos, eu recolhia na reforma litúrgica principalmente as novidades. Hoje, reconheço sobretudo a continuidade, a tradição que se acresce e se renova para não morrer ou decair, mas que sempre sabe conservar a mesma missa, a mesma celebração da aliança entre Deus e o seu povo.

Ha 40 anos, a missa era, para mim, o sacrifício da cruz: hoje, ainda é o sacrifício da cruz, que tem como êxito a ressurreição, a vitória de Cristo sobre o mal e sobre a morte. Hoje, na missa, eu vivo com mais consciência o mistério pascal, renovo a aliança com o Senhor, ofereço a minha vida, o meu corpo em sacrifício (cf. Rm 12,1), oferece toda a criação com uma epiclese, invocação ao Espírito Santo, para que transfigure essa criação em reino dos céus.

E continuo convencido de que haverá outros desenvolvimentos, outros acréscimos e mudanças na liturgia, porque a liturgia, assim como a Igreja, é semper reformanda. Tudo isso, porém, em uma continuidade que tem como referência a grande tradição do Oriente e do Ocidente, e que completará o que faltar, corrigirá o que for necessário, enriquecerá o que parecer mísero.

"Sexualidade e Condição Homossexual na Moral Cristã"


É com grande alegria que publicamos aqui a resenha elaborada para nós pelo leitor Jônatas de Davi, após uma rica troca de ideias nos comentários de um post aqui no blog.

Interessante notar que o livro aqui apresentado por Jônatas foi cassado na Argentina, enquanto no Brasil não houve nada. Essa diferença de tratamento pode ter sido motivada, em primeiro lugar, pela capa escolhida para a edição de lá - no Brasil, é Adão e Eva nus; na Argentina, era um casal vestido, mas gay - o que pode ter chamado mais a atenção. Além disso, a censura lá ocorreu logo depois da proibição de um outro livro (este aqui), e pode ter sido influenciada pela necessidade política de apaziguar os ânimos conservadores mais exaltados por lá.

De todo modo, é um livro riquíssimo, que merece ser lido e discutido - jamais silenciado.


O livro Sexualidade e Condição Homossexual na Moral Cristã está na terceira edição brasileira publicada pela Editora Santuário. Trata-se de uma obra escrita por um influente catedrático de Teologia Moral da Universidade Pontifícia Comillas (Madrid) que revela por meio de repasses bibliográficos as interferências culturais nas revelações bíblicas, como a influência estoica, doutrina patrística, pensamento agostiniano, neoplatonismo, movimentos extremistas e teologia escolástica. Esses pontos de partida resultaram numa compreensão antropológica pessimista, construções míticas, travas tabuísticas e/ou tabus sexuais de uma moral ascética e abstencionista.

Preciso no método científico, o acadêmico é, por consequência, rigoroso ao evitar o “pecado” do anacronismo, embora não se detenha sobre todos os recortes bíblicos que denotem alguma brecha para interpretações fundamentalistas. Ainda assim, ao fazer uma abordagem sistêmica sobre a moral sexual, o teólogo expõe posições críticas de outros teólogos que apontam a necessidade de renová-la de forma que o modelo moral para o comportamento afetivo-sexual possa ser efetivamente inclusivo sem, contudo, comprometer a vivência segundo o Evangelho. A compreensão sobre essa renovação não deixa margens para a consagração do hedonismo, justificativa usada por aqueles que são contrários à afirmação da totalidade da pessoa, pois a união permanente com outro ser humano impede a clausura no próprio eu, favorece a capacidade de amor e a oblatividade do espírito, assim como o desnarcizamento das alegrias da carne. Os repasses incluem a conclusão de que a maturidade pessoal e a personalidade sadia devem estar integradas a uma sociedade aberta e pluralista.

Marciano Vidal acompanha a evolução teológica-moral da doutrina católica oficial relativa à ação pastoral e compreensão da homossexualidade. As reformulações deixam latentes uma notável crise de credibilidade de publicações precedentes face ao avanço metodológico acerca da compreensão da condição sexual que considera, entre outras, a concepção holística da complementariedade humana, o diálogo, os dados antropológicos, as urgências pastorais e dados da psicologia. Assim, face à cosmovisão cristã sobre a dignidade de toda pessoa e da indissolubilidade do selo pessoal, vários teólogos propõem um novo alcance dos afetos relacional e agápico, a fim de ampliar a fecundidade no Senhor e a vivência eclesial. Não deixa de ser menos importante que bispos americanos considerem que a extensão de direitos civis aos homossexuais contempla a dignidade intrínseca de toda pessoa.

A linguagem acadêmica utilizada com sensibilidade é uma particular surpresa deste livro atualizado e bem fundamentado.

- Jônatas de Davi, leitor do blog

“Não é porque eu seja um velho pomar que eu dou velhas maçãs”


Quem fica em Cristo e em quem fica Cristo? A resposta é simples: aquele e aquela que produz frutos em abundância... Não esqueçamos, sobretudo, que o Amor nunca condena, não rejeita nunca e não nega o perdão a ninguém. O Amor de Cristo é incondicional; ele dá a vida e produz frutos em abundância.

A reflexão a seguir de Raymond Gravel, sacerdote de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do 5º Domingo de Páscoa (6 de maio de 2012). A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Referências bíblicas:
1ª leitura: At 9,26-31
2ª leitura: 1Jo 3,18-24
Evangelho: Jo 15,1-8

Justo antes da Ascensão, estamos agora por dois domingos com o evangelista João, no discurso de despedida de Jesus de seus discípulos. Na noite da Quinta-Feira Santa, na Ceia, Jesus dá recomendações a eles. É uma forma de testamento espiritual dado por aquele que, no dia seguinte, seria preso, julgado, condenado e crucificado. Mas, de fato, será verdadeiramente um discurso pronunciado por Jesus de Nazaré, nas vésperas de sua morte? A resposta é evidentemente que não! Este discurso foi escrito vários anos depois da morte de Jesus, no seio de uma comunidade para a ele nunca foi um grande desaparecido. É por isso que esse discurso de despedida que o evangelista João coloca na boca do Nazareno, antes da sua morte, é, de fato, a Palavra que o Cristo sempre vivo dirige aos discípulos da primeira hora e àqueles dos dias de hoje. É um discurso que se dirige aos cristãos de todos os tempos. Hoje, o que podemos resgatar de tudo isso?

1. A Igreja que nós somos: Escrutando os textos bíblicos deste domingo, lendo os comentários dos últimos anos, a pergunta que eu me faço é a seguinte: Onde está a Igreja em tudo isso? A Igreja que nós conhecemos e a qual nós pertencemos, a Igreja que nós somos se terá tornado estéril como a vinha do Antigo Testamento, que correspondia ao povo de Israel? Quando olhamos para a Igreja de hoje que, nos seus dirigentes, se distancia cada vez mais do verdadeiro mundo e se distancia frequentemente da mensagem de amor dos evangelhos (o amor que é feito de abertura, acolhida incondicional, de tolerância, de misericórdia, de perdão e de esperança), impondo regras e doutrinas que não estão mais vinculadas às realidades do mundo atual, nós temos o direito de perguntar se a nossa Igreja pode estar ainda podada ou se ela está completamente desmembrada do tronco, isto é, desconectada do Cristo da Páscoa... este Cristo sempre vivo através dos homens e das mulheres de hoje. Os ramos da nossa Igreja estão todos secos? Será que a Igreja permite ainda a seus membros, a seus ramos, dar frutos?

Às vezes, tenho a impressão que a Igreja atual se considera, ao mesmo tempo, a videira e o agricultor... E, portanto, o evangelho nos lembra, e é Cristo Ressuscitado que fala: “Eu sou a verdadeira videira, e meu Pai é o agricultor” (Jo 15,1). Isso significa que todos os que estão unidos à videira, a Cristo, dão frutos, e esses frutos provêm de lugares diferentes, de ambientes diversos e múltiplos. Até existem alguns que não possuem nenhuma pertença religiosa. O teólogo Charles Wackenheim escreveu em 1994: “Todos nós conhecemos homens e mulheres que não se valem de Cristo e que se dedicam de corpo e de alma aos mais pobres, aos oprimidos e aos abandonados. Até acontece que essas pessoas recusam toda referência religiosa que lhes aparece com álibi tão inútil quanto suspeito. Mas o evangelho de João não mede os comportamentos de uns e de outros. Ele se dirige aos crentes que o foram enxertados em Cristo pelo batismo. Tanto melhor se os não cristãos dão frutos comparáveis!

2. “Fiquem unidos a mim, e eu ficarei unido a vocês” (Jo 15,4): O verbo ficar aparece sete vezes no texto do evangelho que nós temos hoje. Que dizer? O verbo ficar no evangelho de João tem um sentido teológico forte: ele serve para descrever não somente a permanência divina em relação à precariedade humana, mas também a intimidade de Deus e do homem que se expressa através da intimidade do Pai e do Filho. Jesus disse a Felipe: “Você não acredita que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim?” (Jo 14,10). Da mesma forma, nós devemos crer que Cristo fica em nós se nós somos enxertados nele, se nós ficamos com ele: “Fiquem unidos a mim, e eu ficarei unido a vocês. O ramo que não fica unido à videira não pode dar fruto. Vocês também não poderão dar fruto, se não ficarem unidos a mim” (Jo 15,4).

A pergunta totalmente legítima que podemos nos fazer: Quem fica em Cristo e em quem fica Cristo? A resposta é simples: aquele e aquela que produz frutos em abundância: “Eu sou a videira, e vocês são os ramos. Quem fica unido a mim, e eu a ele, dará muito fruto, porque sem mim vocês não podem fazer nada” (Jo 15,5). E para ficarmos em Cristo, precisamos amar como ele. O trecho da primeira carta de São João, que nós temos na segunda leitura de hoje, nos diz o seguinte: “Filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras e de verdade” (1Jo 3,18). É por nossa fidelidade aos seus mandamentos que nós permanecemos em Deus e Deus em nós (1Jo 3,24). Por outro lado, esses mandamentos se resumem em um só: “E o seu mandamento é este: que tenhamos fé no nome do seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, conforme ele nos mandou” (1Jo 3,23). Não esqueçamos, sobretudo, que o Amor nunca condena, não rejeita nunca e não nega o perdão a ninguém. O Amor de Cristo é incondicional; ele dá a vida e produz frutos em abundância.

Concluindo, na primeira leitura de hoje, nesse trecho do livro dos Atos dos Apóstolos, o autor nos narra a dificuldade que São Paulo teve para integrar-se na comunidade de Jerusalém após sua conversão. Esse trecho nos faz tomar consciência de que não é fácil mudar a opinião das pessoas sobre nós, principalmente quando éramos o contrário do que nós nos tornamos agora. Os preconceitos se mantêm, mas a fé – que é também confiança – deveria ter mais força. Para São Paulo, deveria ter existido um Barnabé para introduzi-lo junto dos apóstolos, mas ele teve que fugir para Tarso, sua cidade natal, para se salvar da morte. Um pouco mais tarde, o mesmo Barnabé vai julgar as opções apostólicas de Paulo muito aventureiras. Ele vai preferir seguir a Pedro, e Paulo vai escolher outros companheiros de grupo. Isso significa que sempre é preciso a coragem de um Barnabé (filho da consolação) para lançar um Paulo assim como a sabedoria desse mesmo Barnabé de se saber ultrapassado por aquele que ele fez conhecer. Se foi verdadeiro no século I da Igreja, deve também sê-lo no século XXI de nossa Igreja. Quando haverá um Barnabé corajoso e sábio que saiba impulsionar um novo Paulo e retirar-se logo, reconhecendo-o mais importante do que ele?

sábado, 5 de maio de 2012

"Meninos de Rosa, Meninas de Azul": minidoc sobre homofobia e bullying homofóbico


O minidocumentário começa com uma propaganda do serviço do Governo Federal Disque 100, que desde o início do ano passado recebe denúncias de casos de preconceito e discriminação. Logo depois vem o desabafo pessoal do jovem Matheus Rodrigues, seguido por explicações do psicólogo Claudio Picazio e de Carla Cristina Garcia, professora de Antropologia da PUC-SP.

(Fonte: Elos LGBT DF. Dica do @wrighini, sempre mostrando coisas incríveis para nós. ;-)))

Leia também:
Homofobia nas Escolas, um artigo imperdível discutindo o uso da expressão bullying e a homofobia no contexto escolar
"Bully", o filme que mostra que está na hora de tomar uma atitude

Da missa tridentina à reforma litúrgica do Vaticano II (parte 1)

Imagem daqui

Com uma forte marca autobiográfica, o prior de Bose relata como viveu a missa nos anos anteriores à reforma litúrgica. Palavras densas de memória e ricas de sugestões, que transparecem todo o afeto para com uma forma litúrgica que foi alimento espiritual imprescindível na primeira parte da sua vida. E, na passagem para a nova forma da missa, posterior ao Vaticano II, os seus inegáveis enriquecimentos – em particular a língua e o lecionário – e alguns defeitos – no canto litúrgico. Na reforma, enfim, reside "a continuidade, a tradição que cresce e se renova para não morrer ou decair, mas que sempre sabe conservar a si mesma, a mesma aliança entre Deus e seu povo".

Publicamos aqui a primeira parte da análise do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose. O artigo foi publicado na Revista do Clero Italiano, n°. 3, de março de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Introdução
Há muito tempo, eu sentia o dever de contar como eu vivi a missa por 20 anos, antes da reforma litúrgica desejada pelo Concílio Vaticano II. Eu sinto esse dever por diversas razões. Acima de tudo, porque em mim a recordação dessa missa permanece muito viva: dos meus seis aos 24 anos, ela foi, para mim, a missa cotidiana, uma missa em que eu "servia" como coroinha.

Essa missa era a principal fonte da minha vida espiritual, era a missa que me moldava todos os dias, era a liturgia de comunhão com o Senhor, na qual eu crescia e fazia discernimento sobre a minha vida e sobre a minha vocação.

Mas também há uma outra razão pela qual eu sinto esse dever de memória. Muitos dos que têm a minha idade ou são ainda mais velhos e, portanto, viveram como eu ou mais do que eu essa forma litúrgica, parecem não lembrar, não sabem mais falar a respeito, nem sabem lê-la: eu constatei isso mais de uma vez, ficando perturbado muitas vezes com tanto desmemoriamento...

Não se trata, porém, da transcrição de recordações pessoais, como se fossem minhas memórias, nem de nostalgia por parte de um senescente: é uma comparação entre duas formas de celebração, entre dois ritos capazes de celebrar o mistério de Cristo, mas um derivado do outro e gerado pelo mais antigo, na continuidade do crescimento da fé e da eloquência da fé que é a liturgia católica.

Ao escrever este testemunho, eu espero apenas ser verídico, honesto comigo mesmo dentro do possível, porque é verdade que a experiência da missa reformada pelo Concílio Vaticano II também me moldou, ou, melhor, muito mais, já que é a "minha" missa há mais de 40 anos, é a missa que eu vivo na minha comunidade, como monge que tenta ser cristão.

Espero não ferir ninguém e prestar um serviço àqueles que querem um testemunho sobre essa missa que hoje pode ser celebrada como rito extraordinário, concedido por Bento XVI àqueles que se sentem ligados e afeiçoados a essa forma pré-conciliar.

O leitor poderá, portanto, fazer uma comparação, poderá compreender ainda mais a continuidade entre os dois ritos e, ao mesmo tempo, discernir a "graça" que a reforma litúrgica contribuiu para a vida de toda a Igreja.

A missa tridentina
Comecemos dizendo alguma coisa sobre o tempo e sobre o espaço dessa liturgia. Nas cidades do interior, como a minha, a missa dos dias de semana era celebrada às 6h da manhã: um horário que ia ao encontro das necessidades das pessoas, em particular das mulheres, que, mais tarde, deviam trabalhar em casa.

Às 6h, eu estava na sacristia e ajudava o pároco a se vestir: ele, depois de tê-lo beijado, vestia o amito sobre as costas e ao redor do pescoço, depois vestia a alva, tomava o cíngulo e a estola que eu lhe estendia, depois vestia a casula, e eu lhe amarrava o manípulo.

Nesse ponto, o padre estava pronto e, depois de fazer uma reverência para a cruz colocada sobre a credência, nos aproximávamos à igreja, enquanto eu, na frente dele, portava o missal apoiado no peito, com a abertura junto ao coração. Quando passávamos pela porta, o sacristão dava um toque de sineta: e, então, estávamos na igreja.

Nos primeiros bancos, havia duas ou três irmãs, a governanta do padre, algumas senhoras idosas. Nos bancos do outro lado da igreja, estava uma família mais ou menos numerosa, aquela que havia "ordenado", ou seja, feito celebrar a missa para o seu querido falecido no aniversário ou no 30º dia da sua morte. No fundo da igreja, havia algumas mulheres e alguns homens que gostavam daquele lugar distante, fora dos bancos: com uma certa ironia, eram chamados de "aqueles da soleira".

No total, eram entre 10 e 15 pessoas, não mais. Porém, principalmente naquele hora, muitas vezes ainda no escuro, pelo menos eu e o meu pároco tínhamos a consciência de estar coram Domino por todos os cristãos da cidade e em comunhão com toda a Igreja.

Tendo chegado ao altar, depois da genuflexão, se subia até ele para levar até lá o cálice e a patena, cobertos pelo véu, e para colocar o missal sobre o suporte. Depois, se descia, e a missa tinha início. "Introibo ad altare Dei", dizia o padre em voz baixa, e eu respondia: "Ad Deum quilaetificat iuventutem meam".

Então, eu e o padre rezávamos o Salmo 41 (42). Era um salmo com o qual eu me identificava de modo particular, porque a minha vida era dura e marcada também pelo sofrimento. "Quare tristis incedo?" (Sl 41 [42], 2), eu dizia a Deus e esperava nele apenas para que alegrasse a minha juventude.

Seguia-se a confissão dos pecados. O padre a fazia primeiro: "Confiteor Deo omnipotenti", e eu o absolvia: "Misereatur tui omnipotens Deus et, dimissis peccatistuis, perducat te ad vitam aeternam. Amen". Depois, eu me confessava, e ele me absolvia ou, melhor, absolvia todos os presentes: mas eles não podiam ouvir, porque esse diálogo ocorria em voz baixa e parecia se referir apenas a nós dois, o padre e eu. Nós dois éramos os protagonistas.

Nesse sentido, também é preciso dizer que, quando um padre vinha de fora para dizer missa na minha cidade, ele chamava a mim, que morava na frente da igreja e, assim, podia satisfazer a obrigação, porque era proibido de celebrar a missa sozinho (segundo a norma do cânone 813 § 1 do Código de Direito Canônico de 1917: "Sacerdos missam ne celebretsine ministro qui eidem inserviat et respondeat").

O padre me explicava: "As pessoas não sabem o latim, portanto não podem entender. Às pessoas basta 'assistir à missa' e rezar como sabem, com o rosário ou com outras orações". Na verdade, nem sequer se ousaria pensar no conceito de "assembleia", muito menos considerar que as pessoas ("povo de Deus" era uma expressão inconveniente) entendida como assembleia era sujeito da celebração.

Os fiéis, de fato, eram pensados e tratados como "presentes ausentes". Nem mesmo as fidelíssimas freiras tinham um messalino [pequeno missal] para seguir a celebração, enquanto eu tinha orgulho de possuir e de poder usar o do Caronti [referência ao monge beneditino Emanuele Caronti (1882-1966)], que me foi presenteado no dia da primeira comunhão.

Para a minha geração, o pequeno missal ainda era um livro decisivo para a formação cristã. Aprendia-se a missa, as vésperas, o ano litúrgico com esse precioso livro que sempre estava sempre em cima do criado-mudo, também como fonte das orações da manhã e da noite, além das várias orações para as diversas necessidades e devoções dos fiéis.

Havia um pequeno missal para todas as idades: depois do Caronti, aos 12 anos me foi presentado o Lefebvre [referência ao monge beneditino Gaspar Lefebvre (1880-1966)] e depois, aos 15, o Feder [referência ao padre jesuíta G. Feder]. Ainda hoje, ao lado da minha cama, à espera de um pequeno missal latim-italiano posterior à reforma litúrgica, conservo o do Feder para a oração pessoal.

A missa tridentina - Consagração e comunhão
Naqueles anos, estava presente um movimento litúrgico muito reconhecido pelo meu pároco. Principalmente depois que Pio XII, na encíclica Mediator Dei (1947), falara das crianças como ministrantes, coroinhas, estas haviam se tornado uma presença e um serviço ao qual se prestava muita atenção.

Todas as semanas, havia duas horas de ensino litúrgico e de provas para aprender a como servir a missa e as outras liturgias: o pároco era muito exigente, e devia-se aprender a postura, o modo de caminhar, de manter as mãos, de fazer a genuflexão, de se inclinar...

Esse ensinamento e o exercício cotidiano me davam uma consciência profunda e uma forte convicção do serviço ao altar, quase como se a missa fosse coisa do padre e minha: nós dois éramos os protagonistas, porque, como coroinha, eu era, de fato, um concelebrante. Ainda mais que o que podia ser cantado pelas pessoas era irrelevante para a validade da missa: só o padre era celebrante, e o que importava era que ele e o coroinha seguissem o rito segundo as rubricas e validamente (riteet valide). Os cantos ou as eventuais respostas do povo eram decorativos, mas não necessários.

O coroinha de então tinha que ser um rubricista especialista, um atento conhecedor das regras e das normas litúrgicas, um rapaz consciente e valoroso do seu serviço ao altar. A sua presença e as suas respostas ao padre eram essenciais para a celebração: era uma espécie de clérigo virtual.

Também não devemos esquecer que esse serviço estava consentido apenas aos homens, enquanto as mulheres absolutamente não podiam entrar no presbitério, muito menos colaborar com o desenvolvimento da celebração. O coroinha era, portanto, educado no espírito litúrgico e à execução ordenada, elegante, séria das funções litúrgicas das quais era investido.

Quando o padre subia ao altar, ele o beijava e, depois, invocava a piedade do Senhor: "Kyrie eleison", dizia ele, e eu respondia. Cruzavam-se assim, entre mim e ele, as invocações de piedade. Depois, havia a oração da coleta do dia, sempre em latim, seguida pela leitura da epístola. Todas as manhãs, sendo a missa "de morto", a leitura da epístola era a mesma, 1Ts 4, 13-18, que iniciava com as palavras: "Fratres, nolumus vosignorare de dormientibus…", assim como a leitura posterior retirada do evangelho segundo João (Jo 11, 21-27).

Eu estudei e aprendi muito cedo o latim, ainda aos oito anos, graças a quem me educou de modo tão refinado, especialmente depois da morte da minha mãe, e assim pude seguir todas as palavras sussurradas pelo padre. Eu também ouvia, porém, por trás das costas, o burburinho das pessoas que recitavam o rosário. De vez em quando, o padre se virava para as pessoas dizendo: "Dominus vobiscum", mas eu só eu que respondia: "Et cum spiritu tuo".

No entanto, em um certo ponto, quando, depois do prefácio às vezes cantado, eu proclamava o Sanctus e tocava três toques de sineta, eis que o burburinho da oração das pessoas cessava, e todos, ajoelhados, olhavam para o padre que, no altar, inclinado sobre a hóstia e sobre o cálice, pronunciava em voz baixíssima as palavras da consagração. Todos sabiam, em uma total obediência à "disciplina do arcano", que aquele era o momento culminante da missa, um momento que infundia temor: era o "santíssimo" da missa, em que absolutamente era preciso calar e prestar atenção. Era o fascinosum et tremendum, que se impunha também para o povo rude do interior!

Todos os olhares estavam fixos na coluna inclinada do padre, à espera de que aparecessem, por cima da sua cabeça, elevados ao alto pelas suas mãos, a hóstia e depois o cálice. Aqui também a sineta ritmava os movimentos do padre que se ajoelhava depois das elevações. Um toque contínuo da sineta que eu fazia girar com arte indicava o fim da consagração, do momento mais alto, do ápice da missa.

Ver a hóstia e o cálice, para muitos, era o elemento decisivo da missa, a máxima comunhão possível com o Senhor, porque quase ninguém, depois, acedia à comunhão do corpo do Senhor. A comunhão sacramental, de fato, era praticada por pouquíssimos. Era necessário comungar ao menos uma vez por ano – recitava o preceito da Igreja –, e ninguém, à parte das freiras e eu, sentiam a necessidade de comungar cotidianamente.

Também devemos dizer que a comunhão não era feita durante a missa: no momento da comunhão, só o padre comungava, depois a missa acabava. Depois de entrar novamente na sacristia e de ter deposto a casula, o padre, em alva e estola, voltava ao sacrário do altar, o abria, e nós comungávamos, ajoelhados no parapeito. Depois, fechava-se o tabernáculo sussurrando: "O sacrumconvivium…".

Essa era a missa dos dias de semana e cotidiana, que durava entre 20 e 25 minutos, no centro da qual havia "o silêncio canônico", o santíssimo momento da consagração e da elevação, um tempo em que o celebrante se imergia, mais ou menos de acordo com a sua devoção, em uma ação temorosa, adorante, mistérica. E com ele eu também, que, de perto, apenas três degraus mais abaixo, escutava e, assim, podia acompanhar as suas palavras sussurradas.

A missa tridentina – A pregação
É verdade que as pessoas "assistiam" e que essa era a sua participação: o que importava era a devoção, o exercício dos afetos, a atenção à presença de Deus, o temor pelo que acontecia sobre o altar. Não era dada a palavra do Senhor: o Antigo Testamento, durante a semana, era lido pouquíssimas vezes, as leituras da epístola e do evangelho eram – como se disse – sempre as mesmas, em ainda em latim (mais em geral, nas missas não "de morto", as leituras bíblicas eram muito escassas: textos quase que unicamente do evangelho segundo Mateus e admoestações tiradas do apóstolo Paulo).

Eu também me lembro que o meu pároco, considerado um inovador na liturgia e às vezes por isso criticado pelo bispo, a partir de 1951, me fazia ler em italiano, do parapeito, as leituras que ele, simultaneamente, lia em voz baixa em latim no altar. Então, as pessoas faziam silêncio, ouviam, como na elevação: eram os únicos momentos em que se suspendiam as devoções realizadas paralelamente com o desdobramento da missa.

No domingo, ao invés, as missas eram três: às 6h para as mulheres, que depois tinham que ir para casa para preparar o almoço; às 8h para os meninos, à qual se seguia a hora de catecismo; às 11h, a "missa grande", principalmente para os homens e os jovens.

Nessa última missa, em particular, havia os cantos: o coro da cidade executava em gregoriano a Missa de angelis. No início e no fim, cantavam-se hinos que eu recordo com verdadeira tristeza, por serem composições feias, com palavras carregadas de sentimentalismo, às vezes contendo elementos dramáticos.

Mas as pessoas – deve-se reconhecer – consideravam-nos como seus e os cantavam com paixão. Na "missa grande", não faltava a pregação, adaptada para o auditório: no primeiro pós-guerra, vinha um "josefino" de Asti ou um frei passionista do santuário das Rocche e, para não tornar a missa muito longa, ele pregava durante o desdobramento do rito.

Ele só parava no momento do Sanctus, ele também se ajoelhava na direção do altar e retomava o sermão depois do toque de sineta que se seguia à consagração. Tratava-se de pregações, não de homilias: era a ocasião para lembrar e repassar durante o ano a ética cristã, os mandamentos de Deus, os preceitos da Igreja.

Nos anos 1950 e 1960 do século passado, a pregação era uma oportunidade para a defesa da Igreja, para a luta contra o ateísmo, o comunismo e o desaparecimento da rigorosa moral sexual, em uma sociedade que perdia os seus parâmetros e conhecia uma nova cultura, cada vez menos tradicional e cada vez mais embebida de individualismo e de liberdade.

Muitos homens, durante a pregação, ficavam do lado de fora, formando pequenos grupos, e eu tinha que sair para forçá-los a entrar antes do ofertório, advertindo-os que, caso contrário, para eles, a missa não seria válida. O pároco me disse: "Vamos, força! Compelle intrare, faça-os entrar (Lc 14, 23)". Aqueles que entravam, saíam de novo para o pátio da igreja depois do Pai Nosso, dizendo com alívio: "Acabou!", e se queixavam da pregação resmungando.

(Continua amanhã à tarde)

Podem me chamar de gay à vontade

Dica do @wrighini

Parece até o Carpinejar, PC! ;-)
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Essa é a fonte daquilo que hão de beber

Imagem via Blue Pueblo

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 15, -8 que corresponde ao Domingo 5º da Páscoa, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Segundo o relato evangélico de João nas vésperas de sua morte, Jesus revela a seus discípulos seu desejo mais profundo: “Permanecei em mim”. Conhece sua covardia e mediocridade. Em muitos momentos tem-lhes recriminado sua pouca fé. Se não permanecerem vitalmente unidos a ele, no conseguirão subsistir.

As palavras de Jesus não podem ser mais claras e expressivas: “Assim como o ramo que não fica unido à videira não pode dar fruto, vocês também não poderão dar fruto, se não ficarem unidos a mim”. Se vocês não permanecerem firmes naquilo que têm aprendido e vivido junto a ele, sua vida será estéril. Se eles não vivem de seu Espírito, o que foi iniciado por ele se extinguirá.

Jesus utiliza uma linguagem clara: “Eu sou a videira e vocês são os ramos”. Nos discípulos deve correr a seiva que vem de Jesus. Eles jamais devem esquecer isso. Aquele que permanece em mim e eu nele, esse vai dar fruto abundante porque sem mim não podem fazer nada. Separados de Jesus os discípulos não podem fazer nada.

Jesus não somente pede-lhes que permaneçam nele, ele disse-lhes também que “suas palavras permaneçam neles”. Que eles não as esqueçam. Que vivam do seu Evangelho. Essa é a fonte daquilo que hão de beber. Já foi dito em outra ocasião: “As palavras que eu os digo são espírito e vida”.

O Espírito do Ressuscitado permanece hoje vivo e operante na sua Igreja de múltiplas formas. Mas sua presença invisível e calada toma rasgos visíveis e voz concreta graças à lembrança guardada nos relatos evangélicos por aqueles que o conheceram de perto e o seguiram. Nos evangelhos entramos em contato com sua mensagem, seu estilo de vida e seu projeto do Reino de Deus.

Por isso, nos evangelhos encerra-se a força mais poderosa que possuem as comunidades cristãs para regenerar sua vida. A energia de que necessitamos para recuperar nossa identidade de seguidores de Jesus. O Evangelho de Jesus é a ferramenta pastoral mais importante para renovar hoje a Igreja.

Muitos bons cristãos de nossas comunidades somente conhecem os evangelhos “de segunda mão”. Tudo o que eles sabem sobre Jesus e sua mensagem provém daquilo que eles conseguiram reconstruir a partir das palavras dos predicadores e dos catequistas. Eles vivem sua fé sem ter um contato pessoal com as “palavras de Jesus”.

É difícil imaginar uma nova evangelização sem favorecer às pessoas um contato mais direto e imediato com os evangelhos. Não há força evangelizadora mais forte do que a experiência de escutar juntos o Evangelho de Jesus a partir de perguntas, dos problemas, dos sofrimentos e das esperanças de nosso tempo.
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