sexta-feira, 4 de março de 2011

Modernizar o catolicismo com amor ao próximo e solidariedade

Escultura: Daniel Firman

Para o padre Antônio Trasferetti, “a questão da união civil, como vida familiar, aceita no interior da Igreja Católica, bem como adoção de crianças, reprodução assistida, e outros temas, constituem um desafio para a teologia moral nos próximos anos”. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ele afirma que “os homossexuais são filhos de Deus, pagam seus impostos, trabalham, vão ao shopping, estudam como qualquer outra pessoa e merecem respeito e cidadania. Devemos combater o preconceito social que mata com palavras, olhares e balas de revólveres”.

Doutor em Teologia Moral, pela Pontifícia Universidade Lateranense, e em Filosofia, pela Pontifícia Universidade Gregoriana, atualmente o padre Transferetti é diretor do Curso de Filosofia da PUC-Campinas e presidente da Sociedade Brasileira de Teologia Moral (SBTM). É autor de vários livros, entre os quais citamos "Teologia na pós-modernidade" (São Paulo: Paulinas, 2003), "CNBB, Aids e governo" (Campinas: Átomo, 2005), "Filosofia, ética e mídia"(2. ed. Campinas: Alínea, 2007) e "Teologia, ética e mídia" (Rio de Janeiro: Sotese, 2007).


Como a união civil entre pessoas do mesmo sexo é vista do ponto de vista da teologia moral?
Penso que a união civil entre pessoas do mesmo sexo é uma questão social e jurídica. Depende do congresso nacional aprovar leis regulamentando a vida social. Existem projetos de leis nesse sentido em discussão. Vai depender do debate no congresso e as possíveis determinações jurídicas. A teologia moral respeita a diversidade cultural e as diversas formas de relacionamento amoroso e social em nossa sociedade. Entretanto, ela encaminha seu pensamento para a constituição da família nuclear, compreendendo a necessidade da procriação dentro do contexto da lei moral natural.


Na sua opinião, por que a Igreja tem dificuldades em mudar sua posição em relação ao homossexualismo? Acredita que ela contribua no sentido de ser fraterna com os excluídos? Como conciliar a doutrina católica com a cidadania dos homossexuais?
A Igreja Católica, por meio do seu magistério, tem contribuído no sentido de promover a inclusão social. Muitos homossexuais estão inseridos em nossos trabalhos sociais e pastorais. Existe uma compreensão bastante ampla no sentido de promover a cidadania homossexual. O magistério eclesiástico pede solidariedade com as pessoas homossexuais, combate à discriminação e à violência. Os documentos “Declaração Persona Humana” (1975), “Carta aos bispos da Igreja Católica” (1986), “Considerações sobre propostas de leis não discriminatórias” (1992) e “Considerações sobre as uniões entre pessoas homossexuais” (2003) abordam a temática de um modo geral, colocando o posicionamento teológico e social do magistério. Entretanto, a Igreja tem dificuldades, no sentido de que ela não aprova as relações homoeróticas como forma de vida familiar, porque não constitui família (nuclear) e nem procria. A questão da “união civil”, como vida familiar aceita no interior da Igreja Católica, bem como adoção de crianças e a reprodução assistida, entre outros temas, constituem evidentemente um desafio para a teologia moral nos próximos anos.

Em que o senhor se baseia pela defesa da modernização do catolicismo? Como se daria essa modernização, considerando a trajetória de conservadorismo da Igreja Católica?
Penso que nossas paróquias e os milhares de movimentos sociais e pastorais devam acolher as pessoas homossexuais como acolhem qualquer pessoa. Não devemos permitir que se faça qualquer tipo de discriminação. Todas as pessoas são bem-vindas, independente da sua cor ou da sua orientação sexual. O evangelho do amor é para todos. Numa sociedade pluralista, a diversidade de vidas deve ser respeitada no seio da Igreja. Os homossexuais são filhos de Deus, pagam seus impostos, trabalham, vão ao shopping, estudam como qualquer outra pessoa e merecem respeito e cidadania. Devemos combater o preconceito social que mata com palavras, olhares e balas de revólveres. A modernização do catolicismo se baseia numa ordem social e pastoral nova que devemos construir, tendo inclusive os homossexuais como protagonistas, mantendo, evidentemente, os princípios éticos do amor ao próximo e da solidariedade social como pilares da vida social.

Para o senhor, como a mídia tem tratado a questão da união homossexual?
Penso que a mídia, de modo geral, tem contribuído com a cidadania homossexual. Há uns 15 ou 10 anos, era impossível qualquer diálogo sobre esse assunto. Hoje, já podemos conversar, vemos cenas de novelas envolvendo pessoas homossexuais, programas de auditório relatando histórias de pessoas homossexuais, cantores, atores, e as pessoas em geral compreendem melhor. A imprensa escrita tem denunciado cenas de violência ou de preconceito envolvendo pessoas homossexuais. Vejo avanço também nas questões sociais. Em muitas cidades brasileiras, existem grupos organizados de homossexuais e outros, prefeituras realizando trabalhos de cidadania envolvendo homossexuais. Ainda existe preconceito e violência, mas penso que, de um modo geral, ocorreram avanços significativos nos últimos anos.

E a sociedade ainda vê com preconceito a união civil entre homossexuais?
A sociedade ainda vê a questão da homossexualidade com preconceito. Um preconceito gerado em grande parte pela ignorância em relação ao tema. Nem todos os homossexuais conseguem ser o que são em seus ambientes de trabalho ou de estudo, por exemplo. Precisam camuflar sua verdadeira identidade sexual. Mesmo nos ambientes familiares, as pessoas homossexuais muitas vezes são desprezados por seus pais, parentes e amigos. Partidos políticos e outras organizações sociais também têm demonstrado preconceito. A cultura machista ainda reina em muitos ambientes. É preciso um trabalho árduo, em termos de mudança cultural, social e teológica para que o pequeno avanço que foi conquistado adquira maturidade. Penso que os próprios homossexuais precisam trabalhar mais no sentido de criar seus espaços e ampliar sua dignidade. A própria teologia precisa ter como protagonistas teólogos que realmente façam teologia a partir da sua condição de homossexual (masculino e feminino).

O que o senhor lembra como experiências marcantes na Pastoral Homossexual, que fundou em Campinas?
Foram muitas as experiências e as recordações. Muitas estão escritas no meu livro "Pastoral com homossexuais" (Petrópolis: Vozes, 1998). De modo especial, recordo as muitas cartas que recebi de pessoas homossexuais que eram discriminadas em suas famílias. Pessoas que possuíam muita fé em Deus foram batizadas, crismadas, mas expulsas do seio de suas famílias por causa da sua orientação sexual. É muito triste quando um pai ou uma mãe não sabe compreender seu filho (a) adolescente que está descobrindo a sua condição sexual. Essas pessoas precisam de carinho, amor, afeto e não de ofensas e/ou agressões.

Como os gays, lésbicas e transexuais católicos se sentem em sua Igreja?
Realizei uma experiência maravilhosa na Paróquia de São Geraldo Magela (periferia de Campinas), entre os anos 1994 a 1999. Além de acolhê-los, preparei moralmente a comunidade para o conhecimento dessa realidade. Acolhi não somente homossexuais e travestis, mas também seus pais, irmãos e amigos. Precisamos olhar com carinho não somente o homossexual, mas também a sua família. A partir de 2000, assumi outra paróquia e o meu trabalho com pessoas homossexuais tem sido menor. De todo modo, são e serão sempre bem acolhidos.

Considerando a união entre duas pessoas do mesmo sexo, como fica o conceito e o modelo de família pregado pela doutrina da Igreja?
O conceito e o modelo de família ensinados pela Igreja Católica continuarão sendo os mesmos, ou seja, a “família nuclear”. No futuro próximo, certamente teremos que conviver em harmonia com outras formas de vida “familiar”. A família pós-industrial (pós-moderna, pós-nuclear) do momento atual caracteriza-se por não ter uma única organização. Há muitas maneiras de entender e viver a realidade familiar. Fala-se em “lares sem filhos”, “lares uni-pessoais”, “lugares agregados” e tantas outras. Essas e outras formas apresentam-se como alternativas à instituição matrimonial. São sinais da tendência “desinstitucionalizadora” do mundo atual. É preciso abertura de mente e de coração para dialogarmos com maturidade com todas estas realidades desafiantes que se apresentam em nosso meio.

Publicado originalmente na Revista IHU Online em 7 de abril de 2008 ("Uniões homoafetivas. A luta pela cidadania civil e religiosa")
Texto: Graziela Wolfart
Os grifos são nossos.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Parábolas: as surpresas da linguagem de Jesus



Jesus falava em parábolas. Basta folhear as páginas dos Evangelhos para ter a prova disso. E devemos presumir que ele não fazia isso raramente, a se julgar pelo número de parábolas que os evangelistas nos transmitiram. Algumas passagens até levam a pensar que Jesus não falava às pessoas de outros modos, a não ser em parábolas. Tem-se a impressão de que Jesus considerava esse modo de se expressar como o mais adequado à capacidade de compreensão dos ouvintes e, assim, o mais adaptado para transmitir eficazmente a sua mensagem.

Mas por que privilegiar esse tipo de linguagem? Por qual razão preferi-lo à linguagem direta e explícita? E quais são as suas características específicas? Quais os objetivos que permite alcançar? Quem são, enfim, os destinatários desse falar por semelhanças?

Interrogações como essas abrem caminho para uma reflexão amplamente exaustiva. Nós nos limitaremos a sugerir algumas considerações de caráter geral, à luz dos textos evangélicos. Uma coisa, em todo o caso, é oportuno especificar desde agora: a questão que abordamos não é simplesmente uma questão exegética. O que está em jogo é bem mais alto. Por trás da pergunta "Por que Jesus falava em parábolas?" está, de fato, uma questão atualíssima e gravíssima: a da "linguagem religiosa", do como falar adequadamente de Deus hoje.

O mundo ocidental sente fortemente essa fadiga. Frequentemente, a linguagem usada para falar de Deus é difícil e fraca, às vezes embaraçosa, às vezes genérica; divide-se facilmente em verticalistas e horizontalistas, tradicionalistas e progressistas; formulam-se julgamentos que, à luz do Evangelho, são pelo menos inadequados. Por isso, a necessidade de aprofundar, de se colocar na escola de Jesus, de se deixar guiar por ele na busca de uma linguagem capaz de "dizer Deus".

Como, portanto, Jesus falava de Deus? E por que frequentemente falava dele em parábolas? O fim último do ministério de Jesus foi o anúncio do evangelho do Reino, a manifestação eficaz da benéfica soberania de Deus, anunciada pelas Escrituras, preparada pela história de eleição de Israel e destinada a todos os povos. "Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo; convertei-vos e crede no Evangelho" (Mc 1,15): com essas palavras, o Messias de Deus se apresenta publicamente a Israel e ao mundo. Esperamos nesse ponto uma descrição clara, acurada, aberta, luminosa do reino de Deus e de Deus mesmo. Como não hipotetizar uma pregação de Jesus explícita, ordenada, estruturada e justamente por isso convincente? A leitura dos textos evangélicos não desmente essas expectativas, mas nem as satisfaz plenamente. O modo com que Jesus proclama o evangelho aos homens nos reserva algumas surpresas. Sobretudo, a figura de Jesus aparece caracterizada principalmente pelo agir.

Em primeiro plano, estão as ações de Jesus, o seu agir eficaz, poderoso, carismático: pensemos principalmente nas curas, nos exorcismos, nas intervenções extraordinárias em favor de pessoas em dificuldades. O falar de Jesus acompanha o seu agir e o interpreta: o senhorio de Deus é demonstrado por meio das obras e ilustrado através das palavras. Quanto à verdadeira pregação, ela não é sempre direta e clara; ao contrário, não raramente aparece como velada. O passo mais desconcertante com relação a isso certamente é o de Mc 4,11-12, em que Jesus justifica o seu falar em parábolas justamente com a necessidade de esconder a revelação do Reino, de impedir a aproximação imediata e direta. Mais de uma vez Jesus falou de modo alusivo e enigmático, "não abertamente", por meio do véu das semelhanças: ele dizia e não dizia, revelava e escondia, manifestava e ocultava.

Esse é precisamente o ponto que nos interessa: por que Jesus usava tal linguagem? Por que ele não era mais explícito, não dizia abertamente e cuidadosamente tudo o que sabia? Pode parecer estranho, mas, para anunciar autenticamente o Evangelho, é necessário, de alguma forma, velá-lo. A constatação de que Jesus não fazia seguir a explicação às parábolas (só os discípulos eram, em alguns casos, beneficiados com ela, mas sempre privadamente) nos impede de considerar as parábolas instrumentos didáticos, exemplos que conduzem o ouvinte a um ensinamento manifestado depois em termos mais conceituais. A parábola de Jesus não desemboca em uma explicação plana e explícita, talvez introduzida pela fórmula "Esse conto nos ensina que...". A parábola de Jesus mantém toda sua carga de enigma, deixa ao ouvinte a tarefa de compreendê-la, o interpela e o obriga a interrogar-se, o envolve em primeira pessoa e o empenha na busca do sentido.

A exortação que frequentemente ressoa, de fato, é a seguinte: "Quem tem ouvidos para entender, entenda", isto é, "quem é capaz de compreender, busque compreender". Jesus conta parábolas certamente não obedecendo a esquemas prefixados, mas, ao contrário, na onda da sua emoção interior, impelido pela necessidade de comunicar o mistério de Deus àqueles que estão diante dele. As parábolas surgem do coração de Cristo, da sua paixão por Deus e do seu amor pelo homem, da necessidade imperiosa de revelar adequadamente o rosto do Pai, o segredo da sua obra de salvação, o poder do seu Reino e as consequências para a vida dos homens.

Assim, tocamos o ponto essencial. A peculiaridade da linguagem parabólica aparece fortemente ligada à própria pessoa de Jesus. Especificando melhor, diríamos que tal peculiaridade deriva do conhecimento de Deus que Jesus possui e da sua atenção pelo homem. Ninguém mais do que ele está habilitado a revelar o rosto de Deus, o seu poder, a sua vontade. Mas como não levar em conta as disposições de ânimo de quem ouve, da situação pessoal dos ouvintes, da sua dificuldade de entender, da sua tendência a compreender mal?

Quando consideramos as circunstâncias em que Jesus conta as parábolas, nos damos conta de como ele é atento aos seus ouvintes. De um lado, portanto, as parábolas são um verdadeiro ensinamento: elas falam de Deus, da sua obra, das consequências para a vida dos homens, da resposta que Deus espera; de outro lado, as parábolas são um ato de cortesia, de respeito pela liberdade dos homens, de condescendência, quase de ternura. Jesus é um verdadeiro mestre também por isso. Ele conhece o coração dos homens e, por isso, não tem pressa, sabe adequar-se ao passo do ouvinte, aceita também que este custe a entender, espera que mude de opinião e reveja algumas posições.

Enquanto isso, ele se esforça para oferecer um ensinamento que, pelo menos, suscite interrogações, que deixe brechas em corações endurecidos e que dê uma orientação segura aos corações incertos e perdidos; um ensinamento, enfim, que permite dar um primeiro passo e disponha a um caminho sucessivo. Os ritmos do conhecimento que provêm da fé são lentos. Por isso, a revelação também deve ser escondida, velada. A liberdade do homem não é capaz de reger todo o peso da revelação de Deus. Assim, as parábolas brotam do coração de Jesus sob o impulso iminente da urgência do evangelho; elas são espontâneas, não artificiais, nascem da própria vida.

As parábolas são, nessa perspectiva, um dos frutos mais belos do mistério da encarnação, a fronteira a qual a linguagem é impelida pelo Filho de Deus, para que torne-se apta a comunicar o mistério do Reino no respeito da situação concreta do homem.


Carlo Maria Martini, cardeal italiano e arcebispo emérito de Milão
Publicado originalmente no jornal dos bispos italianos, Avvenire, em 27-02-2011, e reproduzido via IHU
Tradução: Moisés Sbardelotto

quarta-feira, 2 de março de 2011

Sobre fé, razão e saudade


Em junho de 2009, a teóloga Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, publicou no Amai-vos um comentário sobre o avanço da secularização e a nostalgia do sagrado e da transcendência, que reproduzimos a seguir, propondo uma reflexão sobre o sentido e o espaço ocupado pelo sagrado e pela espiritualidade, hoje, na vida de cada um de nós. :-)

Em meio a uma secularização que não parece recuar, mas sim avançar, sobretudo na Europa, berço do cristianismo, causa espanto ver que a discussão sobre Deus ganha cada vez mais centralidade e importância. Que o diga o grande filósofo Jürgen Habermas, que em 2009 celebrou 80 anos de idade, cujo novo livro, "An awareness of what is missing" (Consciência do que está faltando), tenta pensar o lugar da religião numa sociedade democrática, em debate com teólogos jesuítas.

Pelo visto, Deus não morreu, pelo menos no pensar humano do século XXI, que parece ter saudades dele e reflete sobre o que está faltando ao ser humano de hoje. Se sua volta pode ser qualificada de prodigiosa, é porque ele andava desaparecido de todas as finalidades úteis e eficazes das filosofias marcantes desde a segunda metade do século XIX.

O processo parece situar-se a partir dos anos 80. Aí Deus começou a ensaiar uma tímida volta, sobretudo nos escritos do filósofo judeu Levinas, seguido de perto por outros como Jean Luc Marion, Michel Henry, Remi Brague. Essa volta amplificou-se no decurso dos anos 90, logo após a queda do socialismo real e sua metafísica da secularização, entendida como o final de uma representação de um divino separado do humano e o divino inscrevendo-se no mundo sob a forma racional do Estado moderno, trazendo então o chamado fim da história.

A partir daí muitos pensadores importantes recomeçaram a falar de Deus, entre outros Habermas, Derrida, Vattimo. No entanto, este retorno de Deus não é unanimemente feito em nome da razão. É visto por alguns pensadores pós-modernos como uma conseqüência do fim da modernidade e da fé na razão. Se a modernidade repousa sobre a razão e a ciência erigidas em mitos, seu fim nos obrigaria a recolocar em questão o julgamento que ela fazia sobre a religião como uma superstição da qual a modernidade deve nos libertar.

Na verdade a secularização que se sente avançar impávida e iniludível sobre o mundo antes chamado cristão, a parte ocidental do globo terrestre, choca quando se vê países como a Irlanda, que exportou missionários para o mundo inteiro e onde a capital, Dublin, já não possui catedral como templo religioso. Este foi vendido e agora está transformada em um mercado que vende quinquilharias e monumento aberto à visita de turistas de várias nacionalidades que ali passeiam em total indiferença ao mistério tantas vezes abrigado e celebrado entre suas paredes.

Na verdade, a noção mesma de secularização encontra sua origem na religião, no seio do cristianismo institucional, que separa a esfera sagrada da secular. E a separação começa a fazer-se mais visível e maior na medida em que a autonomia da razão humana salta clamando por sua existência e preponderância.

O fato é que o reinado absoluto desta razão parece não satisfazer o ser humano, que sente saudade e nostalgia da Transcendência e começa a expressar esta saudade a plenos pulmões.

O grande teólogo Karl Rahner, na primeira metade do século XX, já dizia com muito acerto. Se um dia a palavra Deus fosse banida do horizonte humano a ponto de não restar nem a memória do que ela um dia significou e de seu sentido para os seres humanos não seria Deus na verdade quem teria desaparecido, mas sim o próprio ser humano.

Ser em continua auto transcendência, negar a Deus no fundo é negar a própria humanidade de corpo animado por um espírito que ele mesmo não pode se dar, o ser humano parece ter identificado sua carência. Oxalá as religiões ainda sejam capazes de responder a essa carência de maneira adequada e fecunda. É o que pensadores como Eagleton e Habermas parecem querer dizer com sua ciência e seu pensar.

terça-feira, 1 de março de 2011

O silêncio da alma


Um motivo pelo qual o silêncio nos é tão perturbador é este: assim que começamos a nos tornar silentes, experimentamos a relatividade de nossa mente comum cotidiana. Com essa mente medimos nossas coordenadas de espaço e de tempo,calculamos as probabilidades e contabilizamos nossos erros e acertos. Trata-se de um nível de consciência muito útil e importante. É um estado mental tão útil e familiar que, facilmente, acreditamos seja tudo o que somos: a totalidade de nossa mente, nosso verdadeiro eu, nossa inteira significação.

A vida, o amor e a morte, frequentemente nos ensinam o contrário. Nos encontramos inesperadamente com o silêncio, em muitas reviravoltas inesperadas da estrada da vida, de maneiras imprevisíveis, em pessoas improváveis. Sua saudação possui um efeito que é, ao mesmo tempo, emocionante, pleno de maravilhamento, ainda que, frequentemente apavorante.

A cada momento, nossos pensamentos, medos, fantasias, esperanças, raivas e atrações, estão todos surgindo e desaparecendo. Nos identificamos, automaticamente, com esses estados, sejam eles passageiros ou, compulsivamente recorrentes, sem pensar o que pensamos. Quando o silêncio nos ensina o quão transitórios e, portanto pouco confiáveis, na verdade, são esses estados, confrontamo-nos com o terrível questionamento de quem somos nós. No silêncio precisamos lutar com a terrível possibilidade de nossa própria irrealidade.

O pensamento budista faz dessa experiência, denominada
anatman ou o “não eu”, um dos principais pilares de sabedoria em seu caminho de libertação do sofrimento e, um de seus meios de iluminação essenciais. Incentiva-se o praticante budista a buscar essa experiência da transitoriedade interior e, em vez de fugir dela, mergulhar nela de cabeça, assim como fizeram, Mestre Eckhart e os grandes místicos cristãos.

É compreensível que
anatman seja a idéia budista que representa o maior problema para as outras pessoas. Tão absurdo, tão terrível, tão sacrílego dizer que eu não existo. De fato, muito do antagonismo cristão ao anatman é infundado ou, fundamentado em interpretação errônea. Não quer dizer que não existimos, mas, que não existimos em autônoma independência, que é o tipo de existência que o ego gosta de imaginar que tem; o tipo de fantasia de ser Deus, com que a serpente tentou Eva. Trata-se da arrogância que, frequentemente, acomete as pessoas religiosas.

Não existo independentemente, pois Deus é o fundamento de meu ser. À luz desse entendimento, lemos as palavras de Jesus no Novo Testamento, com percepção aprofundada: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me..., mas, o que perder a sua vida por causa de mim, a salvará” (Lc 9, 23-24).

Caso, através do silêncio, possamos abraçar esta verdade do anatman, faremos importantes descobertas acerca da natureza da consciência. Descobriremos que a consciência, a alma, é mais do que o fantástico sistema cerebral que computa, calcula e, julga. Somos mais do que aquilo que pensamos.


- Dom Laurence Freeman, OSB

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Tradução de Roldano Giuntoli.
Publicado originalmente no site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Imagem de Deus e Diversidade (9): o desafio da Igreja diante da diversidade do próprio Deus


Reproduzo abaixo a nona e última parte do artigo Imagem de Deus e Diversidade, publicado originalmente no nosso site. Após abordar o papel da Igreja, da Teologia e da Revelação e a impossibilidade de essas instâncias virem a esgotar Deus, na primeira parte; a mediação humana e o caráter histórico da Revelação, na segunda; a relação entre os fatos e questões contemporâneos e o entendimento humano da Revelação, na terceira; a atual relação da sociedade e da Igreja com os temas da sexualidade e da homoafetividade, na quarta; a pluralidade de visões no seio da Igreja católica e o próprio significado de “ser católico”, na quinta; a unicidade e o dinamismo de Deus, em seu caráter trinitário, na sexta;o dinamismo e a atualidade da Trindade, na sétima; e, na oitava, as consequências, para a Igreja, da sua compreensão dinâmica do Deus trinitário, concluo neste último post com uma reflexão acerca das possibilidades e desafios que se abrem para a Igreja a partir da diversidade do próprio Deus.

Assim como o Pai e o Filho sendo diversos são um no amor, também a Igreja tem como sustentáculo a comunhão, não entendida como a reunião do mesmo, do igual. Comunhão, na entrega e no acolhimento, se faz com o outro, com todo tipo de diverso. Uma comunhão que só admitisse o igual não seria comunhão, mas narcisismo.

E aqui eu quero, a partir da reflexão trinitária, tocar em mais um ponto controverso. Uma das objeções ao “amor gay” é que, sendo o amor ao "igual", seria fechado em si mesmo, uma atitude meramente egocêntrica e, por isso, merecedora da linda expressão cunhada tantas vezes nos documentos oficiais: um ato intrinsecamente desordenado.

Aqui a principal questão é a maneira como se compreende o ser humano. Dissemos que a noção de Deus como um princípio homogêneo, absoluto e, no fundo, sempre igual a si mesmo constrói um mundo de objetividades, muito claro e preciso.

Assim, poderíamos dizer o que o ser humano é, explicá-lo a partir daquilo que o constitui: ser homem, ser mulher, ser racional. Com base nestas informações e em tantas outras é que se definiam antigamente os papéis, a missão de alguém no mundo. Por exemplo, na Idade Média, se você fosse homem e o primogênito cabia a você a herança paterna, se fosse primogênita, sendo mulher, deveria se casar antes de suas irmãs mais novas. Ou seja, as características de cada pessoa definiriam sua missão e identidade no mundo. É mais ou menos esta concepção que está por trás da chamada “lei natural”, visão fixista do ser humano que serve de base para os juízos morais da Igreja. Haveria determinadas características no ser humano que definiriam para ele as atitudes a tomar, a maneira de viver. Este “agir de acordo com aquilo que se é” (e o que se é está definido na lei natural) não pode ser “negociável”, mas precisa ser acolhido como algo definitivo, como, por exemplo, a identidade sexual masculina ou feminina, Se você é homem, é feito para uma mulher e o contrário, no caso da mulher, simples e ingênuo assim.

Com novas formas de compreender o ser humano e a vida, como por exemplo, o inconsciente de Freud – que nos mostrou não sermos o reino da objetividade racional que supúnhamos – e com o aparecer de outras culturas que pensam a realidade de forma bastante diversa da ocidental-cristã, fomos nos dando conta que talvez muitas das afirmações que constituem a nossa visão de mundo, não são absolutas, mas foram sendo construídas por uma série de processos históricos. Vamos nos dando conta que o que significa ser homem ou mulher não está armazenado, marcado de forma definitiva e natural em cada um de nós, mas é a conseqüência de um acúmulo de compreensões que, por uma razão ou outra, prevaleceram sobre as demais. Isto nos ajuda a tomar certa distância dos “absolutos” quando estes são muitos detalhados e rigidamente definidos.

Além disso, será que o fato de partilharmos algumas características em comum que nos identificam como ser humano do sexo masculino e feminino nos torna realmente iguais? Esta compreensão pressupõe uma maneira de pensar ainda muito ligada a definições. Se um ser humano é do sexo masculino e se chama João ou Carlos, ou do sexo feminino, chamando-se Patrícia ou Clara, o que eles têm em comum, ser humano de determinado gênero sexual, é o bastante para defini-los como iguais?

Dissemos antes que as pessoas divinas não podem ser compreendidas como núcleos isolados que em um segundo momento se relacionam. Guardadas as devidas proporções, bem desproporcionais quando “comparamos” Deus e o ser humano, o mesmo se pode afirmar a nosso respeito. Há sim, determinadas características que nos são comuns, mas jamais seriam suficientes para nos tornar iguais. As experiências por que passamos, as múltiplas relações que experimentamos durante a vida e a maneira como internamente recebemos tudo isto formam muito mais a nossa identidade específica do que definições gerais. Não há um ser humano igual a qualquer outro. A história das nossas relações nos forja de maneira única e irrepetível. Por isso, só alguém, pessoa ou instituição, que não estivesse atenta à dinâmica da vida poderia entender o “amor gay” como um fechamento egoísta no igual, no “em si mesmo”.

Mas o melhor de tudo é que não nos pomos a desconfiar do quão carregado de pré-definições e acúmulos meramente históricos é essa tal de “lei natural” por estarmos perdendo a fé, ou nos afastando da Igreja, ou por uma rebeldia infantil. A nossa fé adulta em Deus nos recorda que, antes de ter uma identidade fixa de “Pai” ou de “Filho” ou “Espírito”, cada uma das pessoas é ela própria porque se abriu, se pôs em relação com o diverso de si mesma. Ou seja, se a comunhão pressupõe a diversidade, esta só se realiza quando não despejamos uma série de pré-definições (pré-conceitos?) sobre aquilo que aparece como diferente, mas temos uma postura humilde diante de Deus, de, pelo menos, ouvir este “diverso de mim” que se propõe a dialogar.

Até bem pouco tempo atrás, a humanidade era pensada como sendo toda heterossexual. Esta era a regra. Não queremos que a Igreja acolha uma mudança tão abrupta e que ainda está se fazendo à base de muita luta e tantos conflitos. Seria desejar demais. Queremos apenas que ela não se negue ao diálogo, não rejeite a diversidade só porque não é o mesmo, o igual. Justamente porque, sendo um no amor, Deus é uma unicidade heterogênea que se realiza na diferença do Pai e do Filho.

Aqui penso Igreja não só, e nem principalmente como Magistério, mas em cada um que segue a Jesus Cristo e procura viver aqui na terra esta comunhão amorosa com os outros, cuja plenitude esperamos ser o céu. Penso no rosto de cada um pessoalmente, a face verdadeira da Igreja. Na época de Jesus, quem diria que o rosto dos leprosos, prostitutas e pecadores públicos (uma espécie de gente “intrinsecamente má”) seria o mais procurado por Deus? Quem da instituição religiosa contemporânea a Jesus perceberia que seriam essas pessoas o sinal do amor gratuito e universal do Pai que se constitui na grande boa-nova do reino? E, hoje? Que faces e rostos? De que excluídos e marginalizados Deus hoje está à procura?

Pássaros no céu, lírios no campo

Foto: Dana-Kate

Continuando a pregação na montanha registrada por Mateus nos capítulos 5 e 6 de seu Evangelho, Jesus toca na nossa preocupação excessiva com as coisas do dia-a-dia, que acabam por nos fazer esquecer de coisas mais essenciais à manutenção da vida e das relações com aqueles que nos cercam.

Assim, o Mestre convida a multidão – e a nós, hoje! – a olhar os pássaros no céu e os lírios do campo. Que esforço fazem para ser o que são? Que preocupações ocupam seu viver? Óbvio que não se trata de um convite à irresponsabilidade, mas à confiança no cuidado do Pai para com seus filhos.

Confiança talvez seja, aqui, a palavra-chave. Confiar é entregar-se à certeza de que o Senhor irá prover aquilo de melhor para cada um de nós, ainda que por algumas vezes não consigamos enxergar Seus desígnios, ou entender para onde estamos sendo levados. Se cremos em um Deus que quer o melhor para cada um de nós, podemos viver como Santo Inácio nos ensinou fazendo tudo como se dependêssemos somente dos nossos esforços, mas esperando tudo como se tudo dependêssemos apenas de Deus. Esse é o verdadeiro significado da confiança.

Não é fácil a proposta do Senhor, pois indica que muitas vezes abrir mão de coisas que nos dão segurança. Por isso, o tênue limite entre confiança e irresponsabilidade. O cuidado de Deus para conosco não significa que tudo nos será proporcionado sem qualquer limite; ao contrário, a preocupação com a manutenção da vida é necessária. O alimento não chega à boca do pássaro: ele tem que fazer o esforço de buscá-lo e dividi-lo com seus filhotes. Também o lírio precisa sugar a água da terra, lançar suas raízes, enfim, esforçar-se para manter-se vivo. Cabe ao homem cuidar da vida que recebeu e esforçar-se para mantê-la com qualidade. O resto, cabe a Deus, é graça que Dele recebemos.

Portanto, possamos nos ocupar não com aquilo que o tempo corrói, mas com aquilo que possa ter um efeito definitivo na nossa vida e na de nossos irmãos: o reino de Deus e sua justiça.

Texto para reflexão: Mateus 6, 24-34


Artigo de Gilda Carvalho, publicado originalmente no Amai-vos. Boa semana a todos! :-)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

A propósito do Pai Nosso (4)


Damos hoje continuidade à proposta iniciada no três domingos atrás de publicar, em partes*, a reflexão de Simone Weil sobre a oração do Pai Nosso. Para meditar, orar e, esperamos, aprofundar a fé. Um bom domingo a todos!

Perdoai as nossas ofensas (dívidas) assim como perdoamos a quem nos tem ofendido (a nossos devedores)
No momento de dizer estas palavras, será preciso já ter perdoado todas as dívidas. Não é somente o perdão das ofensas que nós pensamos ter sofrido. É também o reconhecimento do bem que pensamos ter feito, e de uma maneira geral tudo que esperamos da parte dos seres e das coisas, tudo aquilo que acreditamos ser nosso direito, tudo aquilo cuja ausência nos daria o sentimento de ter sido frustrados. São todos aqueles direitos que acreditamos que o passado nos dá sobre o futuro. Acima de tudo, o direito a uma certa permanência. Quando pudemos fruir de alguma coisa durante certo tempo, acreditamos ser nosso objeto e que o destino nos dá o direito de continuar fruindo daquilo. Depois pensamos ter o direito a uma compensação por cada esforço, qualquer tenha sido sua natureza: trabalho, sofrimento, ou desejo. Todas as vezes que um esforço sai de nós e que o equivalente disto não retorna a nós sob a forma de um fruto visível, temos o sentimento de desequilíbrio, de vazio, que nos faz crer que fomos roubados. O esforço de suportar uma ofensa nos faz esperar o castigo ou as desculpas daquele que se beneficiou, mas estes são apenas casos particulares de uma lei universal de nossa alma. Todas as vezes que alguma coisa sai de nós, temos necessidade de que pelo menos o equivalente daquilo volte a nós, e por que temos esta necessidade acreditamos ter um direito. Nossos devedores são todos os seres, todas as coisas, o universo inteiro. Acreditamos sempre ter um crédito e que todas as coisas nos são devedoras relativamente a todos os créditos sobre os quais julgamos ter direito, trata-se no mundo, sempre de um crédito imaginário do passado sobre o futuro. É a isto que é preciso renunciar. Ter perdoado a nossos devedores é ter renunciado em bloco a todo o passado, (com seus créditos imaginários). Aceitar que o futuro seja ainda virgem e intacto, rigorosamente ligado ao passado, por laços que ignoramos, mas completamente livre dos laços que nossa imaginação quer impor a ele. Aceitar a possibilidade de que qualquer coisa possa nos acontecer, e que o dia de amanhã faça de nossa vida uma coisa estéril e vã. Renunciando de um só golpe a todos os frutos do passado sem exceção, podemos pedir a Deus que nossos pecados não gerem em nossa alma seus miseráveis frutos de mal e de erro. Enquanto nos apegamos ao passado, Deus, ele próprio não pode impedir em nós esta horrível frutificação. Não podemos nos apegar ao passado sem nos agarrar a nossos crimes, pois o que é mais essencialmente mau em nós nos é desconhecido. O principal crédito que pensamos ter sobre o universo é a continuidade de nossa personalidade. Este crédito está implícito em todos os outros. O instinto de conservação nos faz sentir esta continuidade como uma necessidade e acreditamos que uma necessidade seja um direito. Como o mendigo dizia a Talleyrand: "Senhor, é preciso que eu viva; e a quem Talleyrand respondia: "Não vejo esta necessidade". Nossa personalidade depende inteiramente das circunstâncias exteriores, que têm um poder ilimitado para arrasá-la. mas preferimos morrer do que reconhecer isto. O equilíbrio do mundo é sempre para nós uma seqüência de circunstâncias tal que nossa personalidade fique intacta e pareça pertencer-nos. Todas as circunstâncias passadas que feriram nossa personalidade nos parecem rupturas do equilíbrio que, mais dia menos dia, deveriam ser infalivelmente compensadas por fenômenos em sentido contrário. Vivemos à espera destas compensações. A aproximação iminente da morte é horrível sobretudo por que nos obriga a descobrir que estas compensações não se produzirão. O perdão das dívidas é a renúncia à nossa própria personalidade. Renunciar a tudo que chamo "eu" . Sem nenhuma exceção. Saber que naquilo que chamo "eu" não há nada, nenhum elemento psicológico que as circunstâncias externas não possam fazer desaparecer. Aceitar isto. Estar feliz de que seja assim. A palavra: "seja feita a tua vontade", se nós a pronunciamos de coração inteiro, pressupõe esta aceitação. É por isso que podemos dizer em seguida: "Assim como perdoamos a nossos devedores". Perdoar as dívidas é a pobreza espiritual, a nudez espiritual, a morte. Se aceitamos completamente a morte, podemos pedir a Deus que nos faça reviver, purificados do mal que está em nós. Pois pedir-lhe que perdoe nossas dívidas, é pedir-lhe que apague o mal que está em nós. O perdão é a purificação. O mal está em nós e que aí permanece, Deus ele próprio não tem o poder de perdoá-lo. Deus perdoará nossas dívidas quando nos colocar no estado de perfeição. Até lá, Deus nos perdoará as ofensas parcialmente, na medida em que pudermos perdoar nossos devedores.

*Parte 1: 6 de fevereiro; parte 2: 13 de fevereiro; parte 3: 20 de fevereiro

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Texto original:

WEIL, Simone. À propos du "Nôtre Père", In Attente de Dieu. Paris: Flamarion, 1996. Tradução de Elisa Cintra.

Tradução publicada originalmente no site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Destaques da semana na terra dos tuítes

Ilustração: Tom Yacovella

Nosso resumo do que de melhor rolou no @divcatolica esta semana. Pra ler ou reler com calma. :-)

Bom humor e alta dose política marcam Marcha contra Homofobia em São Paulo http://migre.me/3VKTT

Coletivo punk/skinhead antifascista participou da Marcha contra Homofobia http://migre.me/3VL6i

Lea T fala ao Fantástico sobre as dificuldades de ser transexual http://migre.me/3VKXE

Cardeal defende transparência nas finanças da Igreja http://ow.ly/3Z930 RT@Amaivos

UNESCO aprova os materiais educativos do projeto Escola Sem Homofobia. http://migre.me/3UeDE

Travesti conquista mudança de nome na certidão de nascimento http://migre.me/3UeEy

Educação sem Homofobia http://migre.me/3UeFi via tantas noticias

Debate sobre o tema da Parada LGBT de São Paulo de 2011: Amor ao próximo: princípio cristão ou humano? http://migre.me/3UeHA

Rio já tem casal gay na espera para barriga de aluguel http://migre.me/3VL40

Filme argentino "Ausente" leva prêmio gay do Festival de Berlim http://migre.me/3VL5e

Leonardo Boff: "Faço, sim, teologia pura, mas me ocupo também de outros temas exatamente porque sou teólogo" http://bit.ly/fhB7XE RT@_ihu

Qual deveria ser a condição da mulher na Igreja para interromper o declínio e devolver esperança para o seu futuro? http://bit.ly/gZlenD RT@_ihu

STF decide hoje se equipara casal gay a família http://migre.me/3VKAX

Projeto It Gets Better vira livro http://migre.me/3VKRE

Conheça as entidades do conselho nacional de direitos LGBT http://migre.me/3VKYR

Como vive o homem que contraiu Aids há 22 anos, passou por 19 cirurgias e virou um arquivo vivo de combate à doença http://migre.me/3VL3v

Dados da AIDS no Brasil, dezembro de 2010 http://migre.me/3VL4H

A frente gay no paredão do Congresso http://migre.me/3VL6U

Precisamos de colaboradores para o blog Gay Expression. Interessados, enviem material para hug.horizonte@gmail.com RT@expressaogay

Melhor longa do Festival Mixbrasil de 2010, Contracorrente chega às telonas brasileiras http://mixbrasil.uol.com.br/t/8Z5z1w

Um site que analisa documentos e declarações da Igreja à luz da mensagem de inclusão e justiça de Cristo (em inglês) http://nihilobstat.info/

Entre Nós: Deputado evangélico quer criar a lei "anti-heterofobia" http://t.co/w0xaQrI RT@blogentrenos

STJ julga hj se casal gay pode ter união estável. O advogado Lauro Schuch tira dúvidas sobre o assunto. http://migre.me/3VRCr (Globo News)

Acredite: Exército vai pagar pensão a companheiro de um capitão em MG. http://glo.bo/epB3a2 Sinal dos (bons) tempos... RT@gerivaldo

União homoafetiva: julgamento é interrompido com quatro votos favoráveis e dois contrários http://goo.gl/fb/3xcDM (via @STJnoticias ) RT@homofobiaNAO

A diferença entre união estável, união civil, casamento civil e casamento religioso. http://3.ly/hvpy (via @MarkosOliveira) RT@homofobiaNAO

Ministra Maria do Rosário (Direitos Humanos) lança campanha por um Brasil "Livre de Homofobia" http://bit.ly/eB5ifA RT@homofobiaNAO

União homossexual é mantida no Programa de Direitos Humanos http://migre.me/3Wa5V via @dolado

União homossexual: cresce o apoio no Brasil http://migre.me/3Wa6q via@dolado

Amor homossexual: um olhar teológico-pastoral. Entrevista c/ Pe. James Alison sobre a inclusão gay na Igreja católica. http://migre.me/3Wacr

Obama abre caminho para liberação de união homossexual http://migre.me/3WaeQ via @_ihu

Qual é a imagem da fé cristã hoje prevalente? http://bit.ly/hiJBaG RT@_ihu

Metade da população brasileira será cristã evangélica até 2020 http://migre.me/3WAQq via @_ihu

Capitão do Exército, o deputado não reconhece a legitimidade da discussão sobre direitos dos homossexuais http://migre.me/3WBnm

Homofobia, racismo e Machismo na campanha de carnaval 2011 http://migre.me/3WBoD

CONVITE: Lançamento Campanha Contra AIDS – Carnaval 2011 http://migre.me/3WBpb

Solicitação de posicionamento do Ministério da Justiça - não veiculação de cenas de afeto entre pessoas do mesmo sexo http://migre.me/3WBpN

O que você fez hoje para ter orgulho de ser gay? Entidade aponta dezesseis ações simples para o combate a homofobia http://migre.me/3WBqh

Documentário "Bailão", sobre a memória dos gays idosos: http://migre.me/3WBs1

Falta 1 voto de 3 restantes p/ a 2a + alta Corte do Judiciário estender a gays direitos previstos em lei aos héteros. http://migre.me/3WBtY

Justiça no RS aplica Lei Maria da Penha a relação entre dois homens http://migre.me/3WW8A

Se Deus existe, ele é mau?


O comercial acima fez parte de uma campanha da Macedônia celebrando a retomada do ensino religioso nas escolas, após décadas banido em virtude da política socialista. Independente da questão do ensino religioso em si, é uma linda resposta ao mistério do Mal. Em tempos de propagação do ceticismo e do secularismo, é significativo que tenha sido dada por um homem de ciência desse porte.

Bom fim de semana a todos! :-)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A mosca e o elefante


Uma mosca atrapalha mais um elefante que um elefante uma mosca. Por isso, embora pequenos, não receemos os grandes problemas. Enfrentemo-los.

- Leonardo Boff

Imagem de Deus e Diversidade (8): consequências, para a Igreja, do dinamismo da Trindade


Reproduzo abaixo a oitava e penúltima parte do artigo Imagem de Deus e Diversidade, publicado originalmente no nosso site. Após abordar o papel da Igreja, da Teologia e da Revelação e a impossibilidade de essas instâncias virem a esgotar Deus, na primeira parte; a mediação humana e o caráter histórico da Revelação, na segunda; a relação entre os fatos e questões contemporâneos e o entendimento humano da Revelação, na terceira; a atual relação da sociedade e da Igreja com os temas da sexualidade e da homoafetividade, na quarta; a pluralidade de visões no seio da Igreja católica e o próprio significado de “ser católico”, na quinta; a unicidade e o dinamismo de Deus, em seu caráter trinitário, na sexta; e, na sétima, o dinamismo e a atualidade da Trindade, reflito, aqui, sobre as consequências, para a Igreja, da sua compreensão dinâmica do Deus trinitário.

E que consequências pode ter para nós esta compreensão dinâmica de Deus como comunhão a partir de diferentes pessoas trinitárias e não como um ser solitário e homogêneo?

Quando pensamos em Deus como um absoluto monarca, só em seu trono, é fácil termos uma postura diante da vida – incluindo aqui uma compreensão de Igreja – que compreenda o diferente como erro, como perigo. Um só Deus no céu, uma só verdade na terra que provém desse Deus para aqueles que são suas autoridades aqui embaixo e uma só compreensão diante do ser humano e do mundo. O diverso disso é sempre um equívoco, uma heresia, uma ameaça. Pois há um único princípio que sustenta e estrutura toda a realidade, e que se constitui chave de compreensão absoluta para esta.

Em um primeiro momento, pode parecer forçada a consequência desta forma de pensar a unicidade divina. Mas basta olharmos para a história para vermos as suas confirmações. Por que, politicamente, a Igreja se opôs à democracia? Porque se Deus é único, decorreria daí também a existência de uma única autoridade espiritual (o Papa) e mundana, governamental (o rei). A partir deste princípio percebemos também a dificuldade do diálogo inter-religioso, pois cada religião é uma visão de mundo tão absoluta que se excluem umas às outras. Em uma compreensão não suficientemente trinitária da unicidade divina, há uma só autoridade, uma só verdade, uma só natureza humana e interpretação dos fatos que não admite variações. O diverso é sempre errado.

Já se compreendemos a unicidade de Deus a partir do específico da comunhão trinitária, percebemos que este atributo divino surge do acolhimento amoroso do diverso. Não se tem um princípio homogêneo do qual brotem todas as certezas que devem ser impostas aos outros, mas a verdade surge de um sair de si mesmo e abraçar o outro em sua diferença, surge quando se acolhe o outro naquilo que ele tem de mais específico. A diferença não ameaça a unidade, a realiza.

E é claro que a Igreja sabe disso. Desde o Concílio Vaticano II se tem insistido, ainda que com frutos ainda escassos, na maior participação do colégio dos bispos nas decisões eclesiais, se tem revalorizado a importância leiga e a consciência do seu ”ser Igreja”. Este sinal, dentre outros, aponta que a Igreja é consciente de que a pluralidade de carismas, vocações e a diversidade humana e cristã a tornam verdadeiro ícone trinitário, a imagem de Deus para o mundo. Ela deve ser diversa, múltipla e, nessa comunhão amorosa, espelhar a diversidade que é o próprio Deus.

O Primeiro

Fotografia: Beto Figueirôa

Reproduzimos abaixo o belo comentário do teólogo basco Jose Antonio Pagola sobre o capítulo 6 do Evangelho de S. Mateus. Publicado originalmente no Eclesalia, via Amai-vos. Os grifos são nossos.

Sobretudo, procurai o reino de Deus e a Sua justiça; o resto ser-vos-á dado por acrescento. As palavras de Jesus não podem ser mais claras. O primeiro que têm de procurar os Seus seguidores é "o reino de Deus e a Sua justiça"; o resto vem depois. Vivemos, os cristãos de hoje, inclinados para construir um mundo mais humano, tal como o quer Deus, ou estamos a gastar as nossas energias em coisas secundárias e acidentais?

Não é uma pergunta mais. É decisivo saber se estamos a ser fiéis ao objectivo prioritário marcado por Jesus, ou estamos a desenvolver uma religiosidade que nos está a desviar da paixão que Ele levava no Seu coração. Não temos de corrigir a direção e centrar o nosso cristianismo com mais fidelidade no projeto do reino de Deus?

A atitude de Jesus é diáfana. Basta ler os evangelhos. Ao mesmo tempo que vive no meio das pessoas trabalhando por uma Galileia mais sã, mais justa e fraterna, mais atenta aos últimos e mais acolhedora aos excluídos, não hesita em criticar uma religião que observa o sábado e cuida do culto enquanto esquece que Deus quer misericórdia em vez de sacrifícios.

O cristianismo não é uma religião mais, que oferece uns serviços para responder à necessidade de Deus que tem o ser humano. É uma religião profética nascida de Jesus para humanizar a vida segundo o projecto de Deus. Podemos "funcionar" como comunidades religiosas reunidas em torno do culto, mas se não contagiarmos compaixão nem exigirmos justiça, se não defendermos os esquecidos nem atendermos os últimos, onde fica o projecto que animou a vida inteira de Jesus?

Talvez, a forma mais prática de reorientar as nossas comunidades para o reino de Deus e a sua justiça seja começar por cuidar mais o acolhimento. Não se trata de descuidar a celebração do culto, mas de desenvolver muito mais o acolhimento, a escuta e o acompanhamento das pessoas nos seus problemas, trabalhos e esperanças. Partilhar o sofrimento das pessoas pode-nos ajudar a compreender melhor o nosso objectivo: contribuir a partir do Evangelho para um mundo mais humano.

Na sua primeira encíclica, João Paulo II, recolhendo uma ideia importante do Concilio Vaticano II, recordou-nos, aos cristãos, como devemos entender a Igreja. Fez de de uma forma clara. "A Igreja não é ela mesma o seu próprio fim, pois está orientada para o reino de Deus do qual é germe, sinal e instrumento". O primeiro não é a Igreja, mas o reino de Deus. Se queremos uma Igreja mais evangélica é porque procuramos contribuir a partir dela a procurar um mundo mais humano.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O amor homossexual: um olhar teológico-pastoral


Reproduzimos abaixo trechos da entrevista concedida pelo padre e escritor inglês James Alison à IHU Online, originalmente publicada na edição 253 da revista, de 07-04-2008, cujo tema de capa foi "Uniões homoafetivas. A luta pela cidadania civil e religiosa". Os grifos são nossos.

O teólogo católico James Alison é padre e escritor inglês. Estudou, viveu e trabalhou no México, Brasil, Bolívia, Chile e Estados Unidos, bem como sua terra natal, a Inglaterra. Obteve o doutorado em Teologia pelas Faculdades Jesuítas de Belo Horizonte. É autor de, entre outros, "Knowing Jesus" (London: SPCK 1992), "Raising Abel" (New York: Crossroad, 1996), "The joy of being wrong" (New York: Crossroad 1998) e "Fé além do ressentimento: fragmentos católicos em voz gay" (São Paulo: É Realizações, 2010). Trabalha atualmente como um pesquisador itinerante, acompanhando uma imensa variedade de públicos, em leituras acadêmicas, seminários de pós-graduação, cursos de catequese para adultos, retiros para padres, e encontros católicos e ecumênicos de gays e lésbicas. (...) Confira, a seguir, a entrevista que ele concedeu por telefone para a IHU On-Line, quando falou sobre sua concepção acerca da homossexualidade, principalmente relacionada à Igreja.

Como entender a relação homossexual a partir da compreensão não violenta do desejo, com base no pensamento de René Girard? 
O pensamento de Girard  com relação à questão do desejo se explica pelo fato de que o desejo de todos nós é mimético, ou seja, aprendemos a desejar segundo o desejo do outro/da outra. A partir do nosso nascimento, nos encontramos no desejo de outra pessoa, ou seja, dos nossos pais, guardiões, professores, e todos aqueles que nos ensinam a ficarmos “viáveis” como seres humanos. Isso significa que o desejo, em si, é algo bom. Se não fosse por ele, não chegaríamos à categoria de seres humanos. Porém, como ocorre com todos, começamos a receber esse desejo de forma distorcida. Recebemos tanto a capacidade de desejar sem obstáculos quanto o desejo cheio de rivalidades. Por exemplo, se dermos várias bolas vermelhas para duas crianças brincarem, dentro de pouco tempo, apenas uma dessas bolas será desejada, embora as outras sejam idênticas. Elas terão menos prestígio, menos valor, do que aquela bola que ficou sendo cobiçada pelo grupo de crianças. Em outras palavras, aprendemos a desejar segundo o desejo do outro, e isso nos leva a uma rivalidade. Neste momento, vamos trazer isso para a questão gay. Todos aprendemos a desejar o outro sexual a partir da nossa imitação, daquilo que nos é parecido. Ou seja, a partir da imitação das pessoas do mesmo sexo, aprendemos a desejar as pessoas do outro sexo. Segundo a maneira tradicional de pensar, algumas pessoas considerariam o desejo homossexual como uma distorção disso, em que pessoas do mesmo sexo não apenas aprendem a desejar segundo o desejo do próprio sexo, o qual é totalmente normal, mas de, alguma forma, aquele desejo é fixado no rival. Ou seja, ao invés de desejar o objeto apontado como rival, eu começo a desejar o próprio rival. Essa é uma explicação que as pessoas têm usado para afirmar que o desejo homossexual é intrinsecamente desordenado. A contribuição de Girard em toda essa área é para mostrar que, na verdade, o desejo é mimético, independentemente do objeto. Tanto que uma pessoa heterossexual pode desejar uma pessoa do outro sexo de maneira rivalística como também pode aprender a desejar de maneira não rivalística, aprendendo a “segurar” essa pessoa não como objeto a ser “preso”, mas para fazer crescer, frutificar. O mesmo é possível para pessoas gays. É possível para uma pessoa gay amar outra do mesmo sexo, não só como “presa” para olhos cobiçosos, mas de maneira pacífica, de forma a querer o bem dela, a fim de que ela frutifique. Essa é a importância do pensamento de Girard: distinguir entre o desejo possessivo/rivalístico, por um lado, e o desejo pacífico/criador, por outro.

A partir das suas experiências no campo acadêmico e pastoral, como podemos pensar na elaboração de uma nova relação entre criação e salvação? O que fazer dentro da teologia moral para que o ser humano homossexual se sinta tão amado por Deus quanto aquele de orientação heterossexual? 
No atual estado da teologia católica, esta é a pergunta-chave. O ensino tradicional da Igreja católica, com respeito à relação entre natureza e graça, indica que a natureza humana é boa e que Deus, ao salvar-nos, não estava abolindo a natureza humana, mas abrindo a possibilidade de que ela chegasse à sua perfeição. Lembramos, aqui, a frase de São Tomás de Aquino  “A graça aperfeiçoa a natureza”. Isso significa que é impossível considerar que uma pessoa humana tenha, em uma parte de si, um desejo que seja intrinsecamente perverso. O desejo de todos nós é, em si, a princípio, uma coisa boa, mesmo que todos vivamos numa distorção e desordem muito grande. Há uma grande diferença entre dizer a uma pessoa “Olha, eu te amo, você vai crescer a partir de quem você é, para chegar a ser ainda maior do que você possa imaginar”, ou dizer a essa mesma pessoa “Você é radicalmente depravado. Do jeito que você é não vai a lugar nenhum. Eu vou precisar fingir que você é outra coisa, para te aperfeiçoar a partir de algo que você não é. Dessa forma, vou te salvar. Mas o custo é que você precisa abolir tudo o que é originalmente seu”. Há muita diferença entre essas duas posições. Curiosamente, a posição da Igreja Católica é a primeira. O olhar de Deus diz isso: “Eu te quero e, a partir de quem você é, você é capaz de chegar a ser algo que ainda não é, em harmonia orgânica com aquilo que faz parte de você de forma ainda bagunçada, por enquanto”. Porém, o atual ensino da Igreja, nessa matéria, tende a sugerir que o desejo homossexual é uma desordem objetiva. Na medida em que esse ensino insiste na depravação radical do desejo pelo mesmo sexo, ele está caindo numa heresia, a partir do ensino tradicional do ponto de vista da graça e da natureza. É importante que recuperemos o ensino mais tradicional nessa matéria. Por exemplo, será que o desejo homossexual pode ser considerado como um desvio parecido com o fato de ter canhotos e não sermos todos os humanos destros? Aprendemos que há uma considerável proporção da humanidade que é canhota, e isso não é nenhum empecilho ao desenvolvimento dessas pessoas. Será que a homossexualidade é um tipo de “anomalia” como o fato de ser canhoto, ou uma patologia, como o alcoolismo ou a cleptomania, que consideramos como desordens objetivas e que fazem as pessoas se autodestruírem? Assim como é verdade que a graça aperfeiçoa a natureza, é verdade que ser gay e lésbica é uma anomalia, e não uma patologia. Então, o crescimento moral e humano das pessoas passa pelo reconhecimento disso de forma íntegra, honesta e sem medo.

Como o senhor vê a postura do Vaticano em não admitir homens gays no exercício do sacerdócio? O que orientação sexual tem a ver com a vocação? Um padre gay pode não ser um “bom exemplo” para a moral a ser pregada pela Igreja? 
Sobre esse tema, escrevi um artigo chamado “Carta a um jovem católico gay”. A melhor e mais suave leitura possível do documento da Igreja sobre o assunto é a de que o próprio Vaticano sabe que, por enquanto, não está preparado para falar a verdade em relação à questão gay. Ele não ousa reconhecer a verdade e vai demorar um certo tempo até que este assunto da vivência não patológica do ser gay seja tão evidente que até o Vaticano possa aceitá-lo. Sendo assim, podemos ler o documento como se fosse uma maneira de dizer: “Olha só, por favor, enquanto nós não conseguirmos falar a verdade sobre esse assunto, é imoral tentar convencer pessoas gays honestas a entrar no sacerdócio, pois sendo pessoas honestas não vão encontrar uma moradia sadia para a sua vivência, pois serão obrigadas a viver num mundo onde há muita caça de bruxas, muita hipocrisia, muitas pessoas que são doentes patologicamente, ou seja, gays que só conseguem perseguir outros gays”. Por outro lado, pode-se fazer uma interpretação fantasiosa do documento. Porque, se eles pensam que esse decreto terá alguma função verdadeira, estão enganados. Eu não acredito que, de repente, todos os seminaristas são heterossexuais. Seria muito extraordinário se assim fosse. Conheço vários seminaristas, em diversas partes do mundo, que são gays, e simplesmente foram obrigados a viver com mais duplicidade do que antes diante das situações. Muitos bispos que, em tese, dizem ao público que defendem o ensino da Igreja, na verdade, no âmbito privado, dizem sim ao ingresso de um seminarista gay. Contanto que o cara seja uma pessoa mais ou menos estável, não se quer saber se ele é heterossexual ou não. Muitos bispos e cardeais no mundo driblaram o referido decreto.

Podemos pensar na possibilidade de pessoas do mesmo sexo se unirem com a benção de Deus e da Igreja? Elas poderiam receber o sacramento do matrimônio?
É evidente que podemos pensar na possibilidade de pessoas do mesmo sexo se unirem com a benção de Deus e da Igreja. Isso já acontece em alguns lugares. No entanto, é importante fazer uma distinção aqui. Todos os movimentos civis que têm acontecido, seja na Espanha, na Holanda, na Bélgica, nos Estados Unidos, no Estado de Massachusetts, são para exigir uniões civis. Não confundamos as coisas. A união civil e o sacramento do matrimônio não são a mesma coisa. Existem muitas pessoas, nesses países, que, além de terem feito o matrimônio civil, também têm procurado fazer algum tipo de celebração religiosa para festejar a ocasião. Eu tenho participado dessas festas. Não há nada, absolutamente, que impeça duas pessoas em se unirem civilmente, numa parceria, reconhecida pelo estado, realizando, depois disso, uma liturgia de celebração com a presença de amigos, pessoas da família, padres etc. E isso acontece muito, porém de forma mais discreta. No entanto, isso é diferente da questão do matrimônio como sacramento. Este, no pensamento da Igreja Católica, é visto como a celebração feita pelos próprios noivos, que são duas pessoas batizadas, de sexo oposto, com três elementos básicos: fé, a possibilidade de ter filhos e a unidade de autodoação até que a morte as separe. Veremos ainda de que forma a Igreja vai celebrar publicamente a união entre pessoas do mesmo sexo. Evidentemente, seriam duas pessoas batizadas, que estão fazendo sua autodoação até que a morte os separe, mas sem a abertura à possibilidade de poder procriar, evidentemente. É muito interessante ver que os casais do mesmo sexo que organizam liturgias para receber a benção de Deus para suas uniões estão inventando diferentes formas de liturgia, porque ainda estamos em fase de descobrimento de que tipo de testemunha de vida divina essas uniões vão dar para a Igreja.
  
Quais dilemas e dificuldades um homossexual católico (homem ou mulher) costuma enfrentar? Que tipo de conflito interno e de fé aparece aí? Como um jovem católico gay se sente em sua Igreja? Como ele é recebido?
Isso é curioso e varia muito de país para país, de cultura para cultura. Pessoas que vivem em países católicos de tradição abrangente e liberal têm pouca dificuldade em relação a isso. Há pessoas assim, e o importante é que floresçam como são. Há outras que crescem em ambientes ideológicos muito fechados, nos quais a maior tragédia que poderia acontecer para os pais é ter um filho gay. Então, ouvimos aquelas frases famosas, como “prefiro ter um filho drogado do que gay”. Vai depender totalmente em qual desses mundos a pessoa cresce. Não há nem uma tragédia universal, nem uma benção universal. O que eu tenho notado é que nos países de tradição católica, no universo mais jovem, a mudança com relação à aceitação e a auto-aceitação da homossexualidade é muito grande. É enorme a aceitação pacífica desta realidade entre as pessoas de 40 anos para baixo. Mas quando a Igreja não aceita é triste, porque há pessoas que seriam ótimas atuando nela e se sentem rejeitadas. Também há aquela que são muito sensíveis ao ensino da Igreja e o assunto é recebido de maneira muito trágica, porque sentem no fundo do coração o ódio transmitido pelas palavras oficiais, como se fossem palavras de Deus. E isso é terrível. É escandalizar os pequenos.

Como a mensagem de amor pregada por Jesus Cristo pode ser associada na defesa pela luta da união entre pessoas do mesmo sexo?
Jesus não diz nada nem a favor nem contra essa matéria. Não sou muito a favor de instrumentalizar Jesus. Acho importante usá-lo nem como arma de defesa de valores conservadores, nem como arma de defesa de valores liberais. Sendo Jesus o próprio Deus, tendo aparecido no meio de nós para nos perdoar e abrindo a possibilidade de nos descobrirmos como filhos de Deus, precisamos ter muito respeito em relação a Ele. Porém, não tenho dúvida de que pessoas vão tratar de utilizar a fé, a religião, a Igreja, como arma para combater a possibilidade de pessoas gays se casarem. A fé católica é uma religião da presença de Jesus. Onde está Jesus: nas pessoas que atiram pedras ou nas pessoas que lutam para construir um mundo melhor?

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Imagem de Deus e Diversidade (7): dinamismo e atualidade da Trindade


Reproduzo abaixo a sétima parte do artigo Imagem de Deus e Diversidade, publicado originalmente no nosso site. Após abordar o papel da Igreja, da Teologia e da Revelação e a impossibilidade de essas instâncias virem a esgotar Deus, na primeira parte; a mediação humana e o caráter histórico da Revelação, na segunda; a relação entre os fatos e questões contemporâneos e o entendimento humano da Revelação, na terceira; a atual relação da sociedade e da Igreja com os temas da sexualidade e da homoafetividade, na quarta; a pluralidade de visões no seio da Igreja católica e o próprio significado de “ser católico”, na quinta; e, na sexta, a unicidade e o dinamismo de Deus, em seu caráter trinitário, reflito, desta vez, sobre o dinamismo e a atualidade da Trindade.

Para entendermos toda a riqueza trinitária é preciso inverter uma forma muito característica de pensarmos. Quando pensamos nas pessoas, homens e mulheres, esta ideia expressa a noção de pessoa como sendo um centro individual, consciente, um “eu-Fulano”, “eu-Sicrano”. E a relação humana começaria justamente quando dois desses “eus” se encontram. Existem dois indivíduos, duas pessoas e por isso, pode se estabelecer uma relação.

Quando aplicamos este conceito de pessoa a Deus, estamos, sem dúvida muito acertadamente, querendo dizer que Deus é um ser consciente, livre e não uma força, uma energia, algo sem inteligência e vontade próprias. Neste sentido é correto aplicarmos esta noção de pessoa a Deus.

Mas quando dizemos que Deus é uma comunhão de pessoas, uma comunidade de pessoas divinas, as coisas complicam, porque pensamos: “Ah, existe o Pai que entra em relação com o Filho e com o Espírito e assim acontece o mesmo, a partir de cada uma das pessoas trinitárias”. Primeiro a pessoa e então esta pessoa se relaciona.

Com o mistério do Deus trino é diferente. Pensemos na Primeira pessoa da Trindade: “Pai” não é nome próprio, como Valéria, Arnaldo, Elizah. “Pai” e “Mãe”, porque Deus é espírito gerador, expressa uma relação. Só é pai quem tem um filho, quem está em relação com o filho. Um homem é pai, trabalhador, flamenguista e mangueirense. Deus é Pai; o específico da sua identidade é estar “em relação com”, é gerar o Filho e assim fazendo-o, amá-lo, dar-se inteiramente. O Filho – que não é o Pai, pois não gerou, mas foi gerado – é totalmente acolhido por ele.

O mesmo acontece com o Filho. Só pode denominar-se filho quem está numa relação com pai/ mãe. O Filho divino não é filho e carioca e funkeiro; o Filho é Filho, sua identidade, sua plenitude está toda na sua relação com o Pai, está toda em ser gerado, em receber o seu ser do Pai e, em alegre gratidão e entrega, dar-se totalmente a ele. Não sendo o Pai, pois foi gerado por ele, abre-se plenamente ao divino abraço deste em comunhão eterna que se chama Trindade.

Este dinamismo da entrega e acolhida do Pai ao Filho e deste ao Pai é o Espírito que une a ambos, o amor recíproco do Pai e do Filho. E como o Pai não pode dar-se ao Filho a não ser totalmente, porque essa é a medida das coisas em Deus, da mesma forma faz o Filho em relação ao Pai. Por isso, o Pai está todo no Filho e este todo no Pai e ambos no Espírito. Sendo três pessoas são um único Deus pela plenitude de seu amor e comunhão.

Quando isto aconteceu? No princípio, antes de Deus criar todas as coisas? Não, isto não aconteceu. Acontece, Deus é esse dinamismo do eterno dar-se e acolher-se, é este que sempre sai totalmente de si mesmo para entregar-se em absoluto ao outro, a uma outra divina pessoa na Trindade e no mundo, aos seres humanos. E a duração desta comunhão dinâmica dos três divinos (Pai, Filho e Espírito) que são um só não se mede em minutos ou séculos, chama-se eternidade. Se fosse possível dizê-la em palavras, e aqui cabe uma ousadia, seria algo bem parecido com um eterno “já”, um sempre agora, o tempo que, contrariando a sua própria natureza, não passa, mas, se encontra todo presente, sem antes nem depois.

"O amor, como a água, sempre tende a descer até onde estão a carência, a marginalização e o sofrimento"

Ilustração: Meghan Voss

Para o teólogo espanhol Andrés Torres Queiruga, ao olharmos Jesus, reconhecemos o melhor de nós mesmos enquanto criaturas criadas, sustentadas e habitadas por Deus. Por Graziela Wolfart e Cleusa Andreatta, originalmente publicado no IHU Online. Os grifos são nossos.

Desafiado a definir quem foi Jesus, o teólogo espanhol Andrés Torres Queiruga responde que foi “aquele que conseguiu a culminação insuperável da acolhida de Deus na história humana (...) e que conseguiu revelar e viver para Deus como amor infinito e perdão incondicional, preocupado apenas com nosso bem e nossa salvação, convocando-nos a colaborar com Ele para que isto seja possível para todos”. (...) Na entrevista que segue, concedida, por e-mail, à IHU On-Line, ele ainda fala sobre as transformações que a Teologia vem sofrendo em nossa sociedade. E afirma: “É uma teologia que progrediu e fez muitas mudanças, mas que, no entanto, não tem tocado nas questões de fundo. Foram feitas reformas, mas, em questões fundamentais, é preciso uma ‘mudança de paradigma’”.

Andrés Torres Queiruga é professor da Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha. É licenciado em Filosofia e Teologia pela Universidade de Comillas, Espanha, doutor em Filosofia pela Universidade de Santiago de Compostela, Espanha, e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Itália. Entre suas obras publicadas em português, citamos "Creio em Deus Pai. O Deus de Jesus como afirmação plena do humano" (São Paulo: Paulinas, 1993); "O cristianismo no mundo de hoje" (São Paulo: Paulus, 1994); "A revelação de Deus na realização humana" (São Paulo: Paulus, 1995); e "Repensar a ressurreição" (São Paulo: Edições Paulinas, 2004). (...)

Confira a entrevista.

Como entender a grande atração provocada pela pessoa de Jesus?
Como disse o Concílio: em seu mistério se revela nosso mistério; olhando Ele, reconhecemos o melhor de nós mesmos enquanto criaturas criadas, sustentadas e habitadas por Deus, que nos chama à confiança n’Ele e na radical fraternidade com as outras pessoas.

Como explicitar o lugar decisivo dado à compaixão na missão histórica de Jesus?
Porque o amor, como a água, sempre tende a descer até onde estão a carência, a marginalização e o sofrimento: os “pobres”, no íntimo e amplo sentido evangélico.

Qual é a singularidade da intimidade filial de Jesus com Deus?
Nunca o saberemos completamente. Adivinhamos seu mistério na transparência total à presença do seu
Abba ("papaizinho"); em seu viver radical e sem fissuras “a partir de Deus”, como de seu pão de cada dia; em sua disponibilidade plena ao chamado que constitui seu ser enquanto saído do Pai, até o ponto em que podemos dizer que ver e escutar Ele é ver e escutar o Pai.

Como nós, hoje, no século XXI, podemos entender de forma racional a pessoa de Jesus?
Tudo o que foi dito no ponto anterior vale, em diferente, mas real medida, para nós: nosso ser “ressoa” em seu encontro e podemos “imitá-lo” e “segui-lo”. Por isso, a melhor maneira de compreendê-lo é reconhecer que n'Ele se realiza o melhor de nós, aquilo a que aspiramos sem alcançar totalmente. (...) Definitivamente, Jesus é “igual a nós, mas diferente; diferente, mas igual”. Por algum motivo, nos convida a orar como ele: “Pai nosso”.

Como o senhor responde hoje à pergunta: quem foi Jesus?
Aquele que conseguiu a culminação insuperável da acolhida de Deus na história humana, aprendendo dela (sobretudo através do Antigo Testamento e das culturas e religiões presentes em seu gênesis, assim como também das culturas de seu tempo, helenista e romano), mas a levando à radicalidade insuperável desde sua própria experiência que lhe permitiu romper o último “muro”. Em síntese: Aquele que conseguiu revelar e viver para Deus como amor infinito e perdão incondicional, preocupado apenas com nosso bem e nossa salvação, convocando-nos a colaborar com Ele para que isto seja possível para todos. Não é possível pensar uma meta maior e sempre poderemos estar caminhando até ela.

Como o senhor avalia a situação da Teologia diante das grandes mudanças que caracterizam o contexto atual?
É uma teologia que progrediu e fez muitas mudanças, mas que, no entanto, não tem tocado nas questões de fundo. Foram feitas reformas, mas, em questões fundamentais, é preciso uma “mudança de paradigma”.

Quais as principais questões colocadas à Teologia pelo pluralismo cultural, religioso e de valores vigentes em nossa sociedade?
No aspecto teórico, uma nova concepção da revelação: o amor infinito de Deus manifestando-se o máximo possível em todos os homens e mulheres, em todas as culturas e religiões; só limitado pelo respeito divino à liberdade humana e pela limitação inevitável de nossas capacidades. No campo prático, uma maior, mais fraterna e igualitária, participação de todos — homens e mulheres sem nenhum tipo de discriminação — na vida da Igreja: neste sentido, uma “democratização” radical: os primeiros, últimos; o que manda, serve.

O que se entende hoje como uma “teologia pluralista”?
Na visão do interior da Igreja, é o respeito às diferentes teologias na comunhão da fé comum. Do ponto de vista das demais religiões, é o reconhecimento da presença salvadora e reveladora de Deus nas distintas medidas de sua acolhida histórica. Isso não impede confessar que em Cristo se alcançou a culminação insuperável em si mesma, ainda que perfectível em nossa responsabilidade de atualizá-la no caminho da história. Aí as demais religiões podem ajudar também, na medida em que nós lhes oferecemos o que foi conquistado em Cristo.

Como as demandas de uma teologia pluralista impactam na teologia da revelação?
Tornando-a mais aberta, humilde e fraternal como atitude; nada literalista na interpretação da Bíblia e da tradição; mais teocêntrica desde Deus tal como se revelou em Jesus, o Cristo.


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Caso queira ler mais, Andrés Torres Queiruga concedeu outra entrevistas à IHU On-Line sobre "Teologia e modernidade: a busca de novos paradigmas".

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O sagrado fala aos homens de todas as gerações

Ilustração: Claudio Pastro

Em 2007, a propósito da visita do Papa Bento XVI ao Brasil, a agência ZENIT entrevistou o artista plástico brasileiro Cláudio Pastro, responsável pelo projeto artístico do interior da capela de Bento XVI em seu aposento no Seminário Bom Jesus em Aparecida.

Cláudio Pastro, um dos mais renomados nomes da arte sacra no Brasil, trabalhou na construção de cerca de 200 igrejas nos últimos 30 anos. É também o responsável por toda parte de arte que está sendo realizada no interior da Basílica do Santuário de Nossa Senhora Aparecida.
Indagado sobre "como fazer um trabalho em arte sacra que preserve a riqueza da Igreja e também capte os sinais dos tempos e das linguagens?", Pastro deu a resposta abaixo, que encontramos aqui.

O tempo passa sempre. O sagrado, que está ligado à eternidade, fala aos homens de todas as gerações. Uma imagem, uma pintura, uma escultura, um gesto de beleza que está ligado ao sagrado é uma linguagem universal que toca o mais íntimo de cada ser humano, que não nos cabe. Fazer arte sacra não é como encomendar uma peça de automóvel. Infelizmente, quem tem menos conhecimento disso hoje é o clero. Vê-se que os leigos estão buscando isso. Buscando uma vivência cristã profunda que permite o sagrado entrar na vida. É o sagrado que nos educa, não somos nós, com nossos interesses e nem com as nossas forças. E o que é o sagrado? É a presença do próprio Deus. Dando um exemplo, neste contexto de sagrado, o silêncio é fundamental. Na Basílica de Aparecida está escrito: "Silêncio, estamos orando". Eu disse para mudarmos essa placa e escrever: "O silêncio é oração". Quando você faz silêncio, você dá espaço para Deus falar. Quando tem só o essencial, você dá espaço para Deus entrar. Se você começa a encher com florzinhas, uma estátua aqui e outra ali, uma cortina acolá, não sobra espaço para Deus. A Igreja tem um jeito de ser e existir desde Jesus que se impõe no tempo e no espaço. Quando eu faço uma obra de arte, eu nunca penso nas pessoas, em como as pessoas vêem isso, mas eu estou interessado numa fidelidade, numa profundidade e numa espiritualidade séria. Depois é o Cristo que vai falar.

- Cláudio Pastro

Que a beleza e a simplicidade que cruzem nossos caminhos hoje nos sirvam de pontes para encontrar a Deus. Bom dia! :-)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Imagem de Deus e Diversidade (6): unicidade, dinamismo e caráter trinitário de Deus


Reproduzo abaixo a sexta parte do artigo Imagem de Deus e Diversidade, publicado originalmente no nosso site. Após abordar o papel da Igreja, da Teologia e da Revelação e a impossibilidade de essas instâncias virem a esgotar Deus (na primeira parte); a mediação humana e o caráter histórico da Revelação, na segunda; a relação entre os fatos e questões contemporâneos e o entendimento humano da Revelação, na terceira; a atual relação da sociedade e da Igreja com os temas da sexualidade e da homoafetividade, na quarta; e, na quinta, a pluralidade de visões no seio da Igreja católica e o próprio significado de “ser católico”, reflito neste trecho sobre a unicidade e o dinamismo de Deus, em seu caráter trinitário.

O problema é que, com o passar do tempo, em muitos aspectos foi se esmaecendo a riqueza e especificidade da Revelação sobre Deus de diversas formas. É justamente por causa disso que o Concílio Vaticano II bradou um “retorno às fontes” para auferir da sagrada Escritura e da Tradição o mais próprio da fé cristã.

Se o encontro do Deus bíblico com as categorias do pensamento grego foi importante para a evangelização do mundo – já que ofereceu categorias racionais para se estudar e divulgar a Revelação –, também fez com que, progressivamente, Deus fosse identificado com um ser eterno, onisciente, imutável, que, “lá de cima”, coordena todas as coisas com sua vontade onipotente. Um só Deus que reina sobre todas as coisas, assim como uma só e suprema ideia era a mais importante no pensamento platônico (A Ideia do Bem) e no esquema aristotélico no qual todas as coisas que se moviam, as do mundo, o faziam em direção a uma única e imóvel: “o motor imóvel”.

É bem verdade que podemos admirar com espanto como a ideia da unidade de Deus esteve presente em alguns sistemas filosóficos, tendo sido também um dado específico da Revelação Judaico-cristã. No entanto, se não estivermos atentos às nuances de cada maneira de compreender a este ser supremo, poderemos deixar passar as grandes diferenças existentes nesses sistemas de pensamento, mesmo em relação a este atributo, a unidade.

Se o mundo em que vivemos é tão cheio de movimento e transformações, o ser humano sempre entendeu, quer na religião, quer na Filosofia, que a causa responsável pelo dinamismo da vida, pelas transformações todas e de qualquer espécie que vemos, essa não poderia ela mesma se mover, mudar. Há um eixo central para o mundo, um imóvel que assegure o movimento , enfim algo seguro e estável em uma existência que está constantemente ameaçada por tantas mudanças. Não é muitas vezes sentindo tais transformações que parecem tão ameaçadoras que redescobrimos a Deus como porto seguro, refúgio e sustentáculo? Não é quando as ondas agitam a nossa vida, frágil embarcação, que recorremos àquele que pode, com uma ordem, fazer tudo voltar à calmaria, cessando o movimento ?

Esse princípio seguro, único e sustentador do universo, aquele que se encontra “por trás” do movimento, foi chamado de “Ser”, do “Uno”, entre tantos outros nomes dados a ele na Filosofia e pela religião denominado “Deus”.

Precisamos que ele assim seja. Que fique eternamente parado, estável, imutável, a fim de que nos segure nas mudanças da vida. A religião – que, como diz a própria etimologia da palavra, nos “religa” a esse fundamento – por conseguinte também deve ser desta mesma forma. Tudo pode mudar, menos ela, porque é na fé que nos agarramos quando as outras coisas se transformam.

E de fato, Deus não muda, é eternamente o mesmo, e no entanto, de uma mesmice muito diferente do tédio e da falta de movimento. A eternidade dinâmica de Deus chama-se Trindade.

O Ocidente, o pensamento, a religião têm se esquecido desse caráter trinitário. Não teoricamente, pois seria uma heresia, mas carrega muitas vezes em sua práxis a concepção de um “Deus-bloco-monolítico”, sempre sentado em seu trono a legislar coisas definitivas para os pobres mortais.

Caritas In Veritate In Re Sociali


Reproduzimos abaixo um artigo* de Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, a respeito da primeira encíclica social de Bento XVI, Caritas in veritate. Publicado em 29 de junho de 2009, o documento surpreendeu ao fazer não uma análise da realidade social, explica a autora, mas sim elucidar o conceito de caridade.

Embora não seja atual, julgamos oportuno publicar aqui esta breve análise a fim de contribuir para o debate acerca da questão do amor na doutrina católica corrente e sua aplicação tanto à realidade social quanto ao compromisso social da Igreja. Os grifos são nossos.

Muito esperada era a primeira encíclica social de Bento XVI, onde o Papa exporia seu olhar sobre a realidade, a coisa social (re sociali). Encerrando o Ano Paulino e citando a carta do apóstolo aos Romanos, quando exorta a comunidade de Roma a uma caridade verdadeira, que não seja uma farsa (Rom 12, 9-10), Bento XVI enfim entrega sua encíclica, na festa de São Pedro e São Paulo, a 29 de junho.

Os que esperavam um documento com agudas análises sociológicas seguramente estão defraudados. A preocupação do Papa teólogo é clarificar, dentro do conjunto da revelação cristã, o conceito de caridade. E o faz desde o início da encíclica, quando sublinha a origem divina e gratuita da caridade, amor que é - antes que ação transformadora e compromisso social - graça. Graça cuja origem é o amor trinitário, que o Pai revela pelo Filho, Verbo Encarnado, e experimentamos como Espírito derramado em nossos corações (nº 5).

Este e não outro, frisa a encíclica, é o amor que se encontra no centro da Doutrina Social da Igreja (DSI), e que só tem compromisso com a Verdade. E se a fé cristã professa e proclama que a Verdade se encontra em Jesus Cristo, há que assumir nos dois elementos fundamentais dessa doutrina – a justiça e o bem comum – a concepção que preside o Evangelho do mesmo Jesus: caridade que supõe e inclui a justiça, mas a supera na lógica da entrega e do perdão (nº 6); caridade que atua em favor do bem comum em qualitativa diferença ao bem meramente secular e político, preparando a felicidade definitiva pela qual o ser humano anseia (nº7).

A preocupação do Papa se explicita mais claramente nos nº 9 e 10, quando procura diferenciar o serviço de caridade que a Igreja pode e deve oferecer ao mundo globalizado de outras instituições. “O risco de nosso tempo é que a interdependência de fato entre os homens e os povos não encontre correspondência com a interação ética da consciência e o intelecto, da qual possa resultar um desenvolvimento realmente humano” (nº 9). A missão da Igreja na sociedade, segundo o Papa, não é oferecer soluções técnicas e políticas “strictu sensu”. Mas sim apresentar a verdade única a poder construir uma sociedade na medida da vocação e da dignidade do ser humano tal como o cristianismo a entende. (nº 10)

Em seguida, ao longo de todo o Cap. I, o texto comenta a encíclica
Populorum Progressio, do Papa Paulo VI, a quem chama de “venerado predecessor” (nº 8) para, no capítulo II, descrever como entende o desenvolvimento humano em nosso tempo, quarenta anos depois. Permanece válida a proposta de Paulo VI, com os acréscimos que respondem às novas exigências que os novos tempos trazem. Tudo isso prepara aquilo que no Cap. III o pontífice dirá sobre a antropologia fundada sobre o dom e não sobre o mérito (nº 34).

A verdade e a caridade são dadas por Deus ao ser humano e precedem qualquer ato ou iniciativa sua. E é esse fundamento que permitirá orientar a globalização da humanidade em termos de relacionalidade, comunhão e participação gratuitas (nº 43), único antídoto contra a solidão, pobreza maior de todos os tempos (nº 53). O desenvolvimento verdadeiro, portanto, segundo a encíclica, consistirá na “inclusão relacional de todas as pessoas e todos os povos na única comunidade da família humana...em solidariedade sobre a base dos valores fundamentais da justiça e da paz.“ (nº 53).

Sob esta luz é que o Papa comenta, então, os grandes temas sociais de hoje, tais como migrações, meio ambiente, bioética, técnica, situando-os sob a definição de temas antropológicos (nº 75). A problemática social é, na verdade, antropológica, dirá a encíclica quando caminha para sua conclusão. E deve, portanto, não conceber o desenvolvimento apenas como problema material, mas também espiritual e moral (nº 77). O cristão é chamado a comprometer-se na transformação social sem deixar de lado a oração e a primazia de Deus sobre todas as coisas.

Parece ser intenção da nova encíclica reafirmar que a caridade iluminada pela verdade deve incluir necessariamente a dimensão transcendente e espiritual, para não se transformar em mais uma ideologia. E para isso parte do princípio de que a tarefa da transformação social antes de tudo é dom de Deus e não mero esforço humano. (nº 79)

Além de admitir que se trata de afirmação da maior importância, é de se desejar ardentemente que a nova encíclica de Bento XVI não sirva de pretexto para cair em uma visão alienada e espiritualista dos problemas sociais. Isto, a nosso ver, seria tão daninho à verdade como os perigos reais e sérios que o Papa aponta em seu belo e profundo texto.

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*Publicado originalmente no site do Amai-vos.
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