sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Imagem de Deus e Diversidade (8): consequências, para a Igreja, do dinamismo da Trindade


Reproduzo abaixo a oitava e penúltima parte do artigo Imagem de Deus e Diversidade, publicado originalmente no nosso site. Após abordar o papel da Igreja, da Teologia e da Revelação e a impossibilidade de essas instâncias virem a esgotar Deus, na primeira parte; a mediação humana e o caráter histórico da Revelação, na segunda; a relação entre os fatos e questões contemporâneos e o entendimento humano da Revelação, na terceira; a atual relação da sociedade e da Igreja com os temas da sexualidade e da homoafetividade, na quarta; a pluralidade de visões no seio da Igreja católica e o próprio significado de “ser católico”, na quinta; a unicidade e o dinamismo de Deus, em seu caráter trinitário, na sexta; e, na sétima, o dinamismo e a atualidade da Trindade, reflito, aqui, sobre as consequências, para a Igreja, da sua compreensão dinâmica do Deus trinitário.

E que consequências pode ter para nós esta compreensão dinâmica de Deus como comunhão a partir de diferentes pessoas trinitárias e não como um ser solitário e homogêneo?

Quando pensamos em Deus como um absoluto monarca, só em seu trono, é fácil termos uma postura diante da vida – incluindo aqui uma compreensão de Igreja – que compreenda o diferente como erro, como perigo. Um só Deus no céu, uma só verdade na terra que provém desse Deus para aqueles que são suas autoridades aqui embaixo e uma só compreensão diante do ser humano e do mundo. O diverso disso é sempre um equívoco, uma heresia, uma ameaça. Pois há um único princípio que sustenta e estrutura toda a realidade, e que se constitui chave de compreensão absoluta para esta.

Em um primeiro momento, pode parecer forçada a consequência desta forma de pensar a unicidade divina. Mas basta olharmos para a história para vermos as suas confirmações. Por que, politicamente, a Igreja se opôs à democracia? Porque se Deus é único, decorreria daí também a existência de uma única autoridade espiritual (o Papa) e mundana, governamental (o rei). A partir deste princípio percebemos também a dificuldade do diálogo inter-religioso, pois cada religião é uma visão de mundo tão absoluta que se excluem umas às outras. Em uma compreensão não suficientemente trinitária da unicidade divina, há uma só autoridade, uma só verdade, uma só natureza humana e interpretação dos fatos que não admite variações. O diverso é sempre errado.

Já se compreendemos a unicidade de Deus a partir do específico da comunhão trinitária, percebemos que este atributo divino surge do acolhimento amoroso do diverso. Não se tem um princípio homogêneo do qual brotem todas as certezas que devem ser impostas aos outros, mas a verdade surge de um sair de si mesmo e abraçar o outro em sua diferença, surge quando se acolhe o outro naquilo que ele tem de mais específico. A diferença não ameaça a unidade, a realiza.

E é claro que a Igreja sabe disso. Desde o Concílio Vaticano II se tem insistido, ainda que com frutos ainda escassos, na maior participação do colégio dos bispos nas decisões eclesiais, se tem revalorizado a importância leiga e a consciência do seu ”ser Igreja”. Este sinal, dentre outros, aponta que a Igreja é consciente de que a pluralidade de carismas, vocações e a diversidade humana e cristã a tornam verdadeiro ícone trinitário, a imagem de Deus para o mundo. Ela deve ser diversa, múltipla e, nessa comunhão amorosa, espelhar a diversidade que é o próprio Deus.

O Primeiro

Fotografia: Beto Figueirôa

Reproduzimos abaixo o belo comentário do teólogo basco Jose Antonio Pagola sobre o capítulo 6 do Evangelho de S. Mateus. Publicado originalmente no Eclesalia, via Amai-vos. Os grifos são nossos.

Sobretudo, procurai o reino de Deus e a Sua justiça; o resto ser-vos-á dado por acrescento. As palavras de Jesus não podem ser mais claras. O primeiro que têm de procurar os Seus seguidores é "o reino de Deus e a Sua justiça"; o resto vem depois. Vivemos, os cristãos de hoje, inclinados para construir um mundo mais humano, tal como o quer Deus, ou estamos a gastar as nossas energias em coisas secundárias e acidentais?

Não é uma pergunta mais. É decisivo saber se estamos a ser fiéis ao objectivo prioritário marcado por Jesus, ou estamos a desenvolver uma religiosidade que nos está a desviar da paixão que Ele levava no Seu coração. Não temos de corrigir a direção e centrar o nosso cristianismo com mais fidelidade no projeto do reino de Deus?

A atitude de Jesus é diáfana. Basta ler os evangelhos. Ao mesmo tempo que vive no meio das pessoas trabalhando por uma Galileia mais sã, mais justa e fraterna, mais atenta aos últimos e mais acolhedora aos excluídos, não hesita em criticar uma religião que observa o sábado e cuida do culto enquanto esquece que Deus quer misericórdia em vez de sacrifícios.

O cristianismo não é uma religião mais, que oferece uns serviços para responder à necessidade de Deus que tem o ser humano. É uma religião profética nascida de Jesus para humanizar a vida segundo o projecto de Deus. Podemos "funcionar" como comunidades religiosas reunidas em torno do culto, mas se não contagiarmos compaixão nem exigirmos justiça, se não defendermos os esquecidos nem atendermos os últimos, onde fica o projecto que animou a vida inteira de Jesus?

Talvez, a forma mais prática de reorientar as nossas comunidades para o reino de Deus e a sua justiça seja começar por cuidar mais o acolhimento. Não se trata de descuidar a celebração do culto, mas de desenvolver muito mais o acolhimento, a escuta e o acompanhamento das pessoas nos seus problemas, trabalhos e esperanças. Partilhar o sofrimento das pessoas pode-nos ajudar a compreender melhor o nosso objectivo: contribuir a partir do Evangelho para um mundo mais humano.

Na sua primeira encíclica, João Paulo II, recolhendo uma ideia importante do Concilio Vaticano II, recordou-nos, aos cristãos, como devemos entender a Igreja. Fez de de uma forma clara. "A Igreja não é ela mesma o seu próprio fim, pois está orientada para o reino de Deus do qual é germe, sinal e instrumento". O primeiro não é a Igreja, mas o reino de Deus. Se queremos uma Igreja mais evangélica é porque procuramos contribuir a partir dela a procurar um mundo mais humano.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O amor homossexual: um olhar teológico-pastoral


Reproduzimos abaixo trechos da entrevista concedida pelo padre e escritor inglês James Alison à IHU Online, originalmente publicada na edição 253 da revista, de 07-04-2008, cujo tema de capa foi "Uniões homoafetivas. A luta pela cidadania civil e religiosa". Os grifos são nossos.

O teólogo católico James Alison é padre e escritor inglês. Estudou, viveu e trabalhou no México, Brasil, Bolívia, Chile e Estados Unidos, bem como sua terra natal, a Inglaterra. Obteve o doutorado em Teologia pelas Faculdades Jesuítas de Belo Horizonte. É autor de, entre outros, "Knowing Jesus" (London: SPCK 1992), "Raising Abel" (New York: Crossroad, 1996), "The joy of being wrong" (New York: Crossroad 1998) e "Fé além do ressentimento: fragmentos católicos em voz gay" (São Paulo: É Realizações, 2010). Trabalha atualmente como um pesquisador itinerante, acompanhando uma imensa variedade de públicos, em leituras acadêmicas, seminários de pós-graduação, cursos de catequese para adultos, retiros para padres, e encontros católicos e ecumênicos de gays e lésbicas. (...) Confira, a seguir, a entrevista que ele concedeu por telefone para a IHU On-Line, quando falou sobre sua concepção acerca da homossexualidade, principalmente relacionada à Igreja.

Como entender a relação homossexual a partir da compreensão não violenta do desejo, com base no pensamento de René Girard? 
O pensamento de Girard  com relação à questão do desejo se explica pelo fato de que o desejo de todos nós é mimético, ou seja, aprendemos a desejar segundo o desejo do outro/da outra. A partir do nosso nascimento, nos encontramos no desejo de outra pessoa, ou seja, dos nossos pais, guardiões, professores, e todos aqueles que nos ensinam a ficarmos “viáveis” como seres humanos. Isso significa que o desejo, em si, é algo bom. Se não fosse por ele, não chegaríamos à categoria de seres humanos. Porém, como ocorre com todos, começamos a receber esse desejo de forma distorcida. Recebemos tanto a capacidade de desejar sem obstáculos quanto o desejo cheio de rivalidades. Por exemplo, se dermos várias bolas vermelhas para duas crianças brincarem, dentro de pouco tempo, apenas uma dessas bolas será desejada, embora as outras sejam idênticas. Elas terão menos prestígio, menos valor, do que aquela bola que ficou sendo cobiçada pelo grupo de crianças. Em outras palavras, aprendemos a desejar segundo o desejo do outro, e isso nos leva a uma rivalidade. Neste momento, vamos trazer isso para a questão gay. Todos aprendemos a desejar o outro sexual a partir da nossa imitação, daquilo que nos é parecido. Ou seja, a partir da imitação das pessoas do mesmo sexo, aprendemos a desejar as pessoas do outro sexo. Segundo a maneira tradicional de pensar, algumas pessoas considerariam o desejo homossexual como uma distorção disso, em que pessoas do mesmo sexo não apenas aprendem a desejar segundo o desejo do próprio sexo, o qual é totalmente normal, mas de, alguma forma, aquele desejo é fixado no rival. Ou seja, ao invés de desejar o objeto apontado como rival, eu começo a desejar o próprio rival. Essa é uma explicação que as pessoas têm usado para afirmar que o desejo homossexual é intrinsecamente desordenado. A contribuição de Girard em toda essa área é para mostrar que, na verdade, o desejo é mimético, independentemente do objeto. Tanto que uma pessoa heterossexual pode desejar uma pessoa do outro sexo de maneira rivalística como também pode aprender a desejar de maneira não rivalística, aprendendo a “segurar” essa pessoa não como objeto a ser “preso”, mas para fazer crescer, frutificar. O mesmo é possível para pessoas gays. É possível para uma pessoa gay amar outra do mesmo sexo, não só como “presa” para olhos cobiçosos, mas de maneira pacífica, de forma a querer o bem dela, a fim de que ela frutifique. Essa é a importância do pensamento de Girard: distinguir entre o desejo possessivo/rivalístico, por um lado, e o desejo pacífico/criador, por outro.

A partir das suas experiências no campo acadêmico e pastoral, como podemos pensar na elaboração de uma nova relação entre criação e salvação? O que fazer dentro da teologia moral para que o ser humano homossexual se sinta tão amado por Deus quanto aquele de orientação heterossexual? 
No atual estado da teologia católica, esta é a pergunta-chave. O ensino tradicional da Igreja católica, com respeito à relação entre natureza e graça, indica que a natureza humana é boa e que Deus, ao salvar-nos, não estava abolindo a natureza humana, mas abrindo a possibilidade de que ela chegasse à sua perfeição. Lembramos, aqui, a frase de São Tomás de Aquino  “A graça aperfeiçoa a natureza”. Isso significa que é impossível considerar que uma pessoa humana tenha, em uma parte de si, um desejo que seja intrinsecamente perverso. O desejo de todos nós é, em si, a princípio, uma coisa boa, mesmo que todos vivamos numa distorção e desordem muito grande. Há uma grande diferença entre dizer a uma pessoa “Olha, eu te amo, você vai crescer a partir de quem você é, para chegar a ser ainda maior do que você possa imaginar”, ou dizer a essa mesma pessoa “Você é radicalmente depravado. Do jeito que você é não vai a lugar nenhum. Eu vou precisar fingir que você é outra coisa, para te aperfeiçoar a partir de algo que você não é. Dessa forma, vou te salvar. Mas o custo é que você precisa abolir tudo o que é originalmente seu”. Há muita diferença entre essas duas posições. Curiosamente, a posição da Igreja Católica é a primeira. O olhar de Deus diz isso: “Eu te quero e, a partir de quem você é, você é capaz de chegar a ser algo que ainda não é, em harmonia orgânica com aquilo que faz parte de você de forma ainda bagunçada, por enquanto”. Porém, o atual ensino da Igreja, nessa matéria, tende a sugerir que o desejo homossexual é uma desordem objetiva. Na medida em que esse ensino insiste na depravação radical do desejo pelo mesmo sexo, ele está caindo numa heresia, a partir do ensino tradicional do ponto de vista da graça e da natureza. É importante que recuperemos o ensino mais tradicional nessa matéria. Por exemplo, será que o desejo homossexual pode ser considerado como um desvio parecido com o fato de ter canhotos e não sermos todos os humanos destros? Aprendemos que há uma considerável proporção da humanidade que é canhota, e isso não é nenhum empecilho ao desenvolvimento dessas pessoas. Será que a homossexualidade é um tipo de “anomalia” como o fato de ser canhoto, ou uma patologia, como o alcoolismo ou a cleptomania, que consideramos como desordens objetivas e que fazem as pessoas se autodestruírem? Assim como é verdade que a graça aperfeiçoa a natureza, é verdade que ser gay e lésbica é uma anomalia, e não uma patologia. Então, o crescimento moral e humano das pessoas passa pelo reconhecimento disso de forma íntegra, honesta e sem medo.

Como o senhor vê a postura do Vaticano em não admitir homens gays no exercício do sacerdócio? O que orientação sexual tem a ver com a vocação? Um padre gay pode não ser um “bom exemplo” para a moral a ser pregada pela Igreja? 
Sobre esse tema, escrevi um artigo chamado “Carta a um jovem católico gay”. A melhor e mais suave leitura possível do documento da Igreja sobre o assunto é a de que o próprio Vaticano sabe que, por enquanto, não está preparado para falar a verdade em relação à questão gay. Ele não ousa reconhecer a verdade e vai demorar um certo tempo até que este assunto da vivência não patológica do ser gay seja tão evidente que até o Vaticano possa aceitá-lo. Sendo assim, podemos ler o documento como se fosse uma maneira de dizer: “Olha só, por favor, enquanto nós não conseguirmos falar a verdade sobre esse assunto, é imoral tentar convencer pessoas gays honestas a entrar no sacerdócio, pois sendo pessoas honestas não vão encontrar uma moradia sadia para a sua vivência, pois serão obrigadas a viver num mundo onde há muita caça de bruxas, muita hipocrisia, muitas pessoas que são doentes patologicamente, ou seja, gays que só conseguem perseguir outros gays”. Por outro lado, pode-se fazer uma interpretação fantasiosa do documento. Porque, se eles pensam que esse decreto terá alguma função verdadeira, estão enganados. Eu não acredito que, de repente, todos os seminaristas são heterossexuais. Seria muito extraordinário se assim fosse. Conheço vários seminaristas, em diversas partes do mundo, que são gays, e simplesmente foram obrigados a viver com mais duplicidade do que antes diante das situações. Muitos bispos que, em tese, dizem ao público que defendem o ensino da Igreja, na verdade, no âmbito privado, dizem sim ao ingresso de um seminarista gay. Contanto que o cara seja uma pessoa mais ou menos estável, não se quer saber se ele é heterossexual ou não. Muitos bispos e cardeais no mundo driblaram o referido decreto.

Podemos pensar na possibilidade de pessoas do mesmo sexo se unirem com a benção de Deus e da Igreja? Elas poderiam receber o sacramento do matrimônio?
É evidente que podemos pensar na possibilidade de pessoas do mesmo sexo se unirem com a benção de Deus e da Igreja. Isso já acontece em alguns lugares. No entanto, é importante fazer uma distinção aqui. Todos os movimentos civis que têm acontecido, seja na Espanha, na Holanda, na Bélgica, nos Estados Unidos, no Estado de Massachusetts, são para exigir uniões civis. Não confundamos as coisas. A união civil e o sacramento do matrimônio não são a mesma coisa. Existem muitas pessoas, nesses países, que, além de terem feito o matrimônio civil, também têm procurado fazer algum tipo de celebração religiosa para festejar a ocasião. Eu tenho participado dessas festas. Não há nada, absolutamente, que impeça duas pessoas em se unirem civilmente, numa parceria, reconhecida pelo estado, realizando, depois disso, uma liturgia de celebração com a presença de amigos, pessoas da família, padres etc. E isso acontece muito, porém de forma mais discreta. No entanto, isso é diferente da questão do matrimônio como sacramento. Este, no pensamento da Igreja Católica, é visto como a celebração feita pelos próprios noivos, que são duas pessoas batizadas, de sexo oposto, com três elementos básicos: fé, a possibilidade de ter filhos e a unidade de autodoação até que a morte as separe. Veremos ainda de que forma a Igreja vai celebrar publicamente a união entre pessoas do mesmo sexo. Evidentemente, seriam duas pessoas batizadas, que estão fazendo sua autodoação até que a morte os separe, mas sem a abertura à possibilidade de poder procriar, evidentemente. É muito interessante ver que os casais do mesmo sexo que organizam liturgias para receber a benção de Deus para suas uniões estão inventando diferentes formas de liturgia, porque ainda estamos em fase de descobrimento de que tipo de testemunha de vida divina essas uniões vão dar para a Igreja.
  
Quais dilemas e dificuldades um homossexual católico (homem ou mulher) costuma enfrentar? Que tipo de conflito interno e de fé aparece aí? Como um jovem católico gay se sente em sua Igreja? Como ele é recebido?
Isso é curioso e varia muito de país para país, de cultura para cultura. Pessoas que vivem em países católicos de tradição abrangente e liberal têm pouca dificuldade em relação a isso. Há pessoas assim, e o importante é que floresçam como são. Há outras que crescem em ambientes ideológicos muito fechados, nos quais a maior tragédia que poderia acontecer para os pais é ter um filho gay. Então, ouvimos aquelas frases famosas, como “prefiro ter um filho drogado do que gay”. Vai depender totalmente em qual desses mundos a pessoa cresce. Não há nem uma tragédia universal, nem uma benção universal. O que eu tenho notado é que nos países de tradição católica, no universo mais jovem, a mudança com relação à aceitação e a auto-aceitação da homossexualidade é muito grande. É enorme a aceitação pacífica desta realidade entre as pessoas de 40 anos para baixo. Mas quando a Igreja não aceita é triste, porque há pessoas que seriam ótimas atuando nela e se sentem rejeitadas. Também há aquela que são muito sensíveis ao ensino da Igreja e o assunto é recebido de maneira muito trágica, porque sentem no fundo do coração o ódio transmitido pelas palavras oficiais, como se fossem palavras de Deus. E isso é terrível. É escandalizar os pequenos.

Como a mensagem de amor pregada por Jesus Cristo pode ser associada na defesa pela luta da união entre pessoas do mesmo sexo?
Jesus não diz nada nem a favor nem contra essa matéria. Não sou muito a favor de instrumentalizar Jesus. Acho importante usá-lo nem como arma de defesa de valores conservadores, nem como arma de defesa de valores liberais. Sendo Jesus o próprio Deus, tendo aparecido no meio de nós para nos perdoar e abrindo a possibilidade de nos descobrirmos como filhos de Deus, precisamos ter muito respeito em relação a Ele. Porém, não tenho dúvida de que pessoas vão tratar de utilizar a fé, a religião, a Igreja, como arma para combater a possibilidade de pessoas gays se casarem. A fé católica é uma religião da presença de Jesus. Onde está Jesus: nas pessoas que atiram pedras ou nas pessoas que lutam para construir um mundo melhor?

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Imagem de Deus e Diversidade (7): dinamismo e atualidade da Trindade


Reproduzo abaixo a sétima parte do artigo Imagem de Deus e Diversidade, publicado originalmente no nosso site. Após abordar o papel da Igreja, da Teologia e da Revelação e a impossibilidade de essas instâncias virem a esgotar Deus, na primeira parte; a mediação humana e o caráter histórico da Revelação, na segunda; a relação entre os fatos e questões contemporâneos e o entendimento humano da Revelação, na terceira; a atual relação da sociedade e da Igreja com os temas da sexualidade e da homoafetividade, na quarta; a pluralidade de visões no seio da Igreja católica e o próprio significado de “ser católico”, na quinta; e, na sexta, a unicidade e o dinamismo de Deus, em seu caráter trinitário, reflito, desta vez, sobre o dinamismo e a atualidade da Trindade.

Para entendermos toda a riqueza trinitária é preciso inverter uma forma muito característica de pensarmos. Quando pensamos nas pessoas, homens e mulheres, esta ideia expressa a noção de pessoa como sendo um centro individual, consciente, um “eu-Fulano”, “eu-Sicrano”. E a relação humana começaria justamente quando dois desses “eus” se encontram. Existem dois indivíduos, duas pessoas e por isso, pode se estabelecer uma relação.

Quando aplicamos este conceito de pessoa a Deus, estamos, sem dúvida muito acertadamente, querendo dizer que Deus é um ser consciente, livre e não uma força, uma energia, algo sem inteligência e vontade próprias. Neste sentido é correto aplicarmos esta noção de pessoa a Deus.

Mas quando dizemos que Deus é uma comunhão de pessoas, uma comunidade de pessoas divinas, as coisas complicam, porque pensamos: “Ah, existe o Pai que entra em relação com o Filho e com o Espírito e assim acontece o mesmo, a partir de cada uma das pessoas trinitárias”. Primeiro a pessoa e então esta pessoa se relaciona.

Com o mistério do Deus trino é diferente. Pensemos na Primeira pessoa da Trindade: “Pai” não é nome próprio, como Valéria, Arnaldo, Elizah. “Pai” e “Mãe”, porque Deus é espírito gerador, expressa uma relação. Só é pai quem tem um filho, quem está em relação com o filho. Um homem é pai, trabalhador, flamenguista e mangueirense. Deus é Pai; o específico da sua identidade é estar “em relação com”, é gerar o Filho e assim fazendo-o, amá-lo, dar-se inteiramente. O Filho – que não é o Pai, pois não gerou, mas foi gerado – é totalmente acolhido por ele.

O mesmo acontece com o Filho. Só pode denominar-se filho quem está numa relação com pai/ mãe. O Filho divino não é filho e carioca e funkeiro; o Filho é Filho, sua identidade, sua plenitude está toda na sua relação com o Pai, está toda em ser gerado, em receber o seu ser do Pai e, em alegre gratidão e entrega, dar-se totalmente a ele. Não sendo o Pai, pois foi gerado por ele, abre-se plenamente ao divino abraço deste em comunhão eterna que se chama Trindade.

Este dinamismo da entrega e acolhida do Pai ao Filho e deste ao Pai é o Espírito que une a ambos, o amor recíproco do Pai e do Filho. E como o Pai não pode dar-se ao Filho a não ser totalmente, porque essa é a medida das coisas em Deus, da mesma forma faz o Filho em relação ao Pai. Por isso, o Pai está todo no Filho e este todo no Pai e ambos no Espírito. Sendo três pessoas são um único Deus pela plenitude de seu amor e comunhão.

Quando isto aconteceu? No princípio, antes de Deus criar todas as coisas? Não, isto não aconteceu. Acontece, Deus é esse dinamismo do eterno dar-se e acolher-se, é este que sempre sai totalmente de si mesmo para entregar-se em absoluto ao outro, a uma outra divina pessoa na Trindade e no mundo, aos seres humanos. E a duração desta comunhão dinâmica dos três divinos (Pai, Filho e Espírito) que são um só não se mede em minutos ou séculos, chama-se eternidade. Se fosse possível dizê-la em palavras, e aqui cabe uma ousadia, seria algo bem parecido com um eterno “já”, um sempre agora, o tempo que, contrariando a sua própria natureza, não passa, mas, se encontra todo presente, sem antes nem depois.

"O amor, como a água, sempre tende a descer até onde estão a carência, a marginalização e o sofrimento"

Ilustração: Meghan Voss

Para o teólogo espanhol Andrés Torres Queiruga, ao olharmos Jesus, reconhecemos o melhor de nós mesmos enquanto criaturas criadas, sustentadas e habitadas por Deus. Por Graziela Wolfart e Cleusa Andreatta, originalmente publicado no IHU Online. Os grifos são nossos.

Desafiado a definir quem foi Jesus, o teólogo espanhol Andrés Torres Queiruga responde que foi “aquele que conseguiu a culminação insuperável da acolhida de Deus na história humana (...) e que conseguiu revelar e viver para Deus como amor infinito e perdão incondicional, preocupado apenas com nosso bem e nossa salvação, convocando-nos a colaborar com Ele para que isto seja possível para todos”. (...) Na entrevista que segue, concedida, por e-mail, à IHU On-Line, ele ainda fala sobre as transformações que a Teologia vem sofrendo em nossa sociedade. E afirma: “É uma teologia que progrediu e fez muitas mudanças, mas que, no entanto, não tem tocado nas questões de fundo. Foram feitas reformas, mas, em questões fundamentais, é preciso uma ‘mudança de paradigma’”.

Andrés Torres Queiruga é professor da Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha. É licenciado em Filosofia e Teologia pela Universidade de Comillas, Espanha, doutor em Filosofia pela Universidade de Santiago de Compostela, Espanha, e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Itália. Entre suas obras publicadas em português, citamos "Creio em Deus Pai. O Deus de Jesus como afirmação plena do humano" (São Paulo: Paulinas, 1993); "O cristianismo no mundo de hoje" (São Paulo: Paulus, 1994); "A revelação de Deus na realização humana" (São Paulo: Paulus, 1995); e "Repensar a ressurreição" (São Paulo: Edições Paulinas, 2004). (...)

Confira a entrevista.

Como entender a grande atração provocada pela pessoa de Jesus?
Como disse o Concílio: em seu mistério se revela nosso mistério; olhando Ele, reconhecemos o melhor de nós mesmos enquanto criaturas criadas, sustentadas e habitadas por Deus, que nos chama à confiança n’Ele e na radical fraternidade com as outras pessoas.

Como explicitar o lugar decisivo dado à compaixão na missão histórica de Jesus?
Porque o amor, como a água, sempre tende a descer até onde estão a carência, a marginalização e o sofrimento: os “pobres”, no íntimo e amplo sentido evangélico.

Qual é a singularidade da intimidade filial de Jesus com Deus?
Nunca o saberemos completamente. Adivinhamos seu mistério na transparência total à presença do seu
Abba ("papaizinho"); em seu viver radical e sem fissuras “a partir de Deus”, como de seu pão de cada dia; em sua disponibilidade plena ao chamado que constitui seu ser enquanto saído do Pai, até o ponto em que podemos dizer que ver e escutar Ele é ver e escutar o Pai.

Como nós, hoje, no século XXI, podemos entender de forma racional a pessoa de Jesus?
Tudo o que foi dito no ponto anterior vale, em diferente, mas real medida, para nós: nosso ser “ressoa” em seu encontro e podemos “imitá-lo” e “segui-lo”. Por isso, a melhor maneira de compreendê-lo é reconhecer que n'Ele se realiza o melhor de nós, aquilo a que aspiramos sem alcançar totalmente. (...) Definitivamente, Jesus é “igual a nós, mas diferente; diferente, mas igual”. Por algum motivo, nos convida a orar como ele: “Pai nosso”.

Como o senhor responde hoje à pergunta: quem foi Jesus?
Aquele que conseguiu a culminação insuperável da acolhida de Deus na história humana, aprendendo dela (sobretudo através do Antigo Testamento e das culturas e religiões presentes em seu gênesis, assim como também das culturas de seu tempo, helenista e romano), mas a levando à radicalidade insuperável desde sua própria experiência que lhe permitiu romper o último “muro”. Em síntese: Aquele que conseguiu revelar e viver para Deus como amor infinito e perdão incondicional, preocupado apenas com nosso bem e nossa salvação, convocando-nos a colaborar com Ele para que isto seja possível para todos. Não é possível pensar uma meta maior e sempre poderemos estar caminhando até ela.

Como o senhor avalia a situação da Teologia diante das grandes mudanças que caracterizam o contexto atual?
É uma teologia que progrediu e fez muitas mudanças, mas que, no entanto, não tem tocado nas questões de fundo. Foram feitas reformas, mas, em questões fundamentais, é preciso uma “mudança de paradigma”.

Quais as principais questões colocadas à Teologia pelo pluralismo cultural, religioso e de valores vigentes em nossa sociedade?
No aspecto teórico, uma nova concepção da revelação: o amor infinito de Deus manifestando-se o máximo possível em todos os homens e mulheres, em todas as culturas e religiões; só limitado pelo respeito divino à liberdade humana e pela limitação inevitável de nossas capacidades. No campo prático, uma maior, mais fraterna e igualitária, participação de todos — homens e mulheres sem nenhum tipo de discriminação — na vida da Igreja: neste sentido, uma “democratização” radical: os primeiros, últimos; o que manda, serve.

O que se entende hoje como uma “teologia pluralista”?
Na visão do interior da Igreja, é o respeito às diferentes teologias na comunhão da fé comum. Do ponto de vista das demais religiões, é o reconhecimento da presença salvadora e reveladora de Deus nas distintas medidas de sua acolhida histórica. Isso não impede confessar que em Cristo se alcançou a culminação insuperável em si mesma, ainda que perfectível em nossa responsabilidade de atualizá-la no caminho da história. Aí as demais religiões podem ajudar também, na medida em que nós lhes oferecemos o que foi conquistado em Cristo.

Como as demandas de uma teologia pluralista impactam na teologia da revelação?
Tornando-a mais aberta, humilde e fraternal como atitude; nada literalista na interpretação da Bíblia e da tradição; mais teocêntrica desde Deus tal como se revelou em Jesus, o Cristo.


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Caso queira ler mais, Andrés Torres Queiruga concedeu outra entrevistas à IHU On-Line sobre "Teologia e modernidade: a busca de novos paradigmas".

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O sagrado fala aos homens de todas as gerações

Ilustração: Claudio Pastro

Em 2007, a propósito da visita do Papa Bento XVI ao Brasil, a agência ZENIT entrevistou o artista plástico brasileiro Cláudio Pastro, responsável pelo projeto artístico do interior da capela de Bento XVI em seu aposento no Seminário Bom Jesus em Aparecida.

Cláudio Pastro, um dos mais renomados nomes da arte sacra no Brasil, trabalhou na construção de cerca de 200 igrejas nos últimos 30 anos. É também o responsável por toda parte de arte que está sendo realizada no interior da Basílica do Santuário de Nossa Senhora Aparecida.
Indagado sobre "como fazer um trabalho em arte sacra que preserve a riqueza da Igreja e também capte os sinais dos tempos e das linguagens?", Pastro deu a resposta abaixo, que encontramos aqui.

O tempo passa sempre. O sagrado, que está ligado à eternidade, fala aos homens de todas as gerações. Uma imagem, uma pintura, uma escultura, um gesto de beleza que está ligado ao sagrado é uma linguagem universal que toca o mais íntimo de cada ser humano, que não nos cabe. Fazer arte sacra não é como encomendar uma peça de automóvel. Infelizmente, quem tem menos conhecimento disso hoje é o clero. Vê-se que os leigos estão buscando isso. Buscando uma vivência cristã profunda que permite o sagrado entrar na vida. É o sagrado que nos educa, não somos nós, com nossos interesses e nem com as nossas forças. E o que é o sagrado? É a presença do próprio Deus. Dando um exemplo, neste contexto de sagrado, o silêncio é fundamental. Na Basílica de Aparecida está escrito: "Silêncio, estamos orando". Eu disse para mudarmos essa placa e escrever: "O silêncio é oração". Quando você faz silêncio, você dá espaço para Deus falar. Quando tem só o essencial, você dá espaço para Deus entrar. Se você começa a encher com florzinhas, uma estátua aqui e outra ali, uma cortina acolá, não sobra espaço para Deus. A Igreja tem um jeito de ser e existir desde Jesus que se impõe no tempo e no espaço. Quando eu faço uma obra de arte, eu nunca penso nas pessoas, em como as pessoas vêem isso, mas eu estou interessado numa fidelidade, numa profundidade e numa espiritualidade séria. Depois é o Cristo que vai falar.

- Cláudio Pastro

Que a beleza e a simplicidade que cruzem nossos caminhos hoje nos sirvam de pontes para encontrar a Deus. Bom dia! :-)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Imagem de Deus e Diversidade (6): unicidade, dinamismo e caráter trinitário de Deus


Reproduzo abaixo a sexta parte do artigo Imagem de Deus e Diversidade, publicado originalmente no nosso site. Após abordar o papel da Igreja, da Teologia e da Revelação e a impossibilidade de essas instâncias virem a esgotar Deus (na primeira parte); a mediação humana e o caráter histórico da Revelação, na segunda; a relação entre os fatos e questões contemporâneos e o entendimento humano da Revelação, na terceira; a atual relação da sociedade e da Igreja com os temas da sexualidade e da homoafetividade, na quarta; e, na quinta, a pluralidade de visões no seio da Igreja católica e o próprio significado de “ser católico”, reflito neste trecho sobre a unicidade e o dinamismo de Deus, em seu caráter trinitário.

O problema é que, com o passar do tempo, em muitos aspectos foi se esmaecendo a riqueza e especificidade da Revelação sobre Deus de diversas formas. É justamente por causa disso que o Concílio Vaticano II bradou um “retorno às fontes” para auferir da sagrada Escritura e da Tradição o mais próprio da fé cristã.

Se o encontro do Deus bíblico com as categorias do pensamento grego foi importante para a evangelização do mundo – já que ofereceu categorias racionais para se estudar e divulgar a Revelação –, também fez com que, progressivamente, Deus fosse identificado com um ser eterno, onisciente, imutável, que, “lá de cima”, coordena todas as coisas com sua vontade onipotente. Um só Deus que reina sobre todas as coisas, assim como uma só e suprema ideia era a mais importante no pensamento platônico (A Ideia do Bem) e no esquema aristotélico no qual todas as coisas que se moviam, as do mundo, o faziam em direção a uma única e imóvel: “o motor imóvel”.

É bem verdade que podemos admirar com espanto como a ideia da unidade de Deus esteve presente em alguns sistemas filosóficos, tendo sido também um dado específico da Revelação Judaico-cristã. No entanto, se não estivermos atentos às nuances de cada maneira de compreender a este ser supremo, poderemos deixar passar as grandes diferenças existentes nesses sistemas de pensamento, mesmo em relação a este atributo, a unidade.

Se o mundo em que vivemos é tão cheio de movimento e transformações, o ser humano sempre entendeu, quer na religião, quer na Filosofia, que a causa responsável pelo dinamismo da vida, pelas transformações todas e de qualquer espécie que vemos, essa não poderia ela mesma se mover, mudar. Há um eixo central para o mundo, um imóvel que assegure o movimento , enfim algo seguro e estável em uma existência que está constantemente ameaçada por tantas mudanças. Não é muitas vezes sentindo tais transformações que parecem tão ameaçadoras que redescobrimos a Deus como porto seguro, refúgio e sustentáculo? Não é quando as ondas agitam a nossa vida, frágil embarcação, que recorremos àquele que pode, com uma ordem, fazer tudo voltar à calmaria, cessando o movimento ?

Esse princípio seguro, único e sustentador do universo, aquele que se encontra “por trás” do movimento, foi chamado de “Ser”, do “Uno”, entre tantos outros nomes dados a ele na Filosofia e pela religião denominado “Deus”.

Precisamos que ele assim seja. Que fique eternamente parado, estável, imutável, a fim de que nos segure nas mudanças da vida. A religião – que, como diz a própria etimologia da palavra, nos “religa” a esse fundamento – por conseguinte também deve ser desta mesma forma. Tudo pode mudar, menos ela, porque é na fé que nos agarramos quando as outras coisas se transformam.

E de fato, Deus não muda, é eternamente o mesmo, e no entanto, de uma mesmice muito diferente do tédio e da falta de movimento. A eternidade dinâmica de Deus chama-se Trindade.

O Ocidente, o pensamento, a religião têm se esquecido desse caráter trinitário. Não teoricamente, pois seria uma heresia, mas carrega muitas vezes em sua práxis a concepção de um “Deus-bloco-monolítico”, sempre sentado em seu trono a legislar coisas definitivas para os pobres mortais.

Caritas In Veritate In Re Sociali


Reproduzimos abaixo um artigo* de Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, a respeito da primeira encíclica social de Bento XVI, Caritas in veritate. Publicado em 29 de junho de 2009, o documento surpreendeu ao fazer não uma análise da realidade social, explica a autora, mas sim elucidar o conceito de caridade.

Embora não seja atual, julgamos oportuno publicar aqui esta breve análise a fim de contribuir para o debate acerca da questão do amor na doutrina católica corrente e sua aplicação tanto à realidade social quanto ao compromisso social da Igreja. Os grifos são nossos.

Muito esperada era a primeira encíclica social de Bento XVI, onde o Papa exporia seu olhar sobre a realidade, a coisa social (re sociali). Encerrando o Ano Paulino e citando a carta do apóstolo aos Romanos, quando exorta a comunidade de Roma a uma caridade verdadeira, que não seja uma farsa (Rom 12, 9-10), Bento XVI enfim entrega sua encíclica, na festa de São Pedro e São Paulo, a 29 de junho.

Os que esperavam um documento com agudas análises sociológicas seguramente estão defraudados. A preocupação do Papa teólogo é clarificar, dentro do conjunto da revelação cristã, o conceito de caridade. E o faz desde o início da encíclica, quando sublinha a origem divina e gratuita da caridade, amor que é - antes que ação transformadora e compromisso social - graça. Graça cuja origem é o amor trinitário, que o Pai revela pelo Filho, Verbo Encarnado, e experimentamos como Espírito derramado em nossos corações (nº 5).

Este e não outro, frisa a encíclica, é o amor que se encontra no centro da Doutrina Social da Igreja (DSI), e que só tem compromisso com a Verdade. E se a fé cristã professa e proclama que a Verdade se encontra em Jesus Cristo, há que assumir nos dois elementos fundamentais dessa doutrina – a justiça e o bem comum – a concepção que preside o Evangelho do mesmo Jesus: caridade que supõe e inclui a justiça, mas a supera na lógica da entrega e do perdão (nº 6); caridade que atua em favor do bem comum em qualitativa diferença ao bem meramente secular e político, preparando a felicidade definitiva pela qual o ser humano anseia (nº7).

A preocupação do Papa se explicita mais claramente nos nº 9 e 10, quando procura diferenciar o serviço de caridade que a Igreja pode e deve oferecer ao mundo globalizado de outras instituições. “O risco de nosso tempo é que a interdependência de fato entre os homens e os povos não encontre correspondência com a interação ética da consciência e o intelecto, da qual possa resultar um desenvolvimento realmente humano” (nº 9). A missão da Igreja na sociedade, segundo o Papa, não é oferecer soluções técnicas e políticas “strictu sensu”. Mas sim apresentar a verdade única a poder construir uma sociedade na medida da vocação e da dignidade do ser humano tal como o cristianismo a entende. (nº 10)

Em seguida, ao longo de todo o Cap. I, o texto comenta a encíclica
Populorum Progressio, do Papa Paulo VI, a quem chama de “venerado predecessor” (nº 8) para, no capítulo II, descrever como entende o desenvolvimento humano em nosso tempo, quarenta anos depois. Permanece válida a proposta de Paulo VI, com os acréscimos que respondem às novas exigências que os novos tempos trazem. Tudo isso prepara aquilo que no Cap. III o pontífice dirá sobre a antropologia fundada sobre o dom e não sobre o mérito (nº 34).

A verdade e a caridade são dadas por Deus ao ser humano e precedem qualquer ato ou iniciativa sua. E é esse fundamento que permitirá orientar a globalização da humanidade em termos de relacionalidade, comunhão e participação gratuitas (nº 43), único antídoto contra a solidão, pobreza maior de todos os tempos (nº 53). O desenvolvimento verdadeiro, portanto, segundo a encíclica, consistirá na “inclusão relacional de todas as pessoas e todos os povos na única comunidade da família humana...em solidariedade sobre a base dos valores fundamentais da justiça e da paz.“ (nº 53).

Sob esta luz é que o Papa comenta, então, os grandes temas sociais de hoje, tais como migrações, meio ambiente, bioética, técnica, situando-os sob a definição de temas antropológicos (nº 75). A problemática social é, na verdade, antropológica, dirá a encíclica quando caminha para sua conclusão. E deve, portanto, não conceber o desenvolvimento apenas como problema material, mas também espiritual e moral (nº 77). O cristão é chamado a comprometer-se na transformação social sem deixar de lado a oração e a primazia de Deus sobre todas as coisas.

Parece ser intenção da nova encíclica reafirmar que a caridade iluminada pela verdade deve incluir necessariamente a dimensão transcendente e espiritual, para não se transformar em mais uma ideologia. E para isso parte do princípio de que a tarefa da transformação social antes de tudo é dom de Deus e não mero esforço humano. (nº 79)

Além de admitir que se trata de afirmação da maior importância, é de se desejar ardentemente que a nova encíclica de Bento XVI não sirva de pretexto para cair em uma visão alienada e espiritualista dos problemas sociais. Isto, a nosso ver, seria tão daninho à verdade como os perigos reais e sérios que o Papa aponta em seu belo e profundo texto.

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*Publicado originalmente no site do Amai-vos.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

A propósito do Pai Nosso (3)


Damos hoje continuidade à proposta iniciada no domingo retrasado de publicar, em partes*, a reflexão de Simone Weil sobre a oração do Pai Nosso. Para meditar, orar e, esperamos, aprofundar a fé. Um bom domingo a todos!

O pão nosso de cada dia, aquele que é sobrenatural, nos dai hoje
O Cristo é nosso pão. Nós não podemos pedir pela sua presença a não ser para este instante. Pois ele está sempre lá, à porta de nossa alma, e querendo entrar, mas ele não viola o nosso consentimento. Se consentirmos que entre, ele entra; desde que não o queiramos mais, ele parte. Não podemos vincular nossa vontade de hoje, estendendo-a para amanhã, fazer hoje um pacto com ele para que amanhã esteja em nós apesar de nós mesmos. Nosso consentimento com relação à sua presença é o mesmo que a sua presença. O consentimento é um ato, e só pode ser atual. Ele não nos concedeu uma vontade que possa se aplicar ao futuro. Tudo aquilo que não é eficaz em nossa vontade é imaginário. A parte eficaz da vontade é eficaz de forma imediata, sua eficácia não é diferente dela própria. A parte eficaz da vontade não é o esforço que se dirige para o futuro. É o consentimento, o sim do casamento. Um "sim" pronunciado no instante presente para o instante presente, mas pronunciado como uma palavra eterna, pois é o consentimento à união de Cristo com a parte eterna de nossa alma. Precisamos de pão. Somos seres que continuamente retiramos nossa energia do ambiente, pois à medida que a recebemos, a despendemos em nossos esforços. Se nossa energia não é quotidianamente renovada, ficamos sem força e incapazes de movimento. Para além do alimento propriamente dito, no sentido literal do termo, todos os estimulantes são para nós fontes de energia. O dinheiro, as promoções, a consideração, as condecorações, a celebridade, o poder, os seres amados, tudo que nos dá força para agir é equivalente ao pão. Se um destes apegos penetra muito profundamente em nós, até as raízes vitais de nossa existência carnal, a privação pode nos destruir e até mesmo nos fazer morrer. Chamamos isto de morrer de desgosto (chagrin). É como morrer de fome. Todos estes objetos de apego, constituem, junto com o alimento propriamente dito, o pão daqui de baixo. Depende inteiramente das circunstâncias o concedê-lo ou recusá-lo a nós. Não devemos questionar nada com relação às circunstâncias, a não ser admitir que estão em conformidade com a vontade de Deus. Não devemos pedir pelo pão daqui de baixo. Há uma energia transcendente, cuja fonte está no céu, que flui em nossa direção desde que a desejemos. É verdadeiramente uma energia, ela executa ações por intermédio de nossa alma e de nosso corpo. Nós devemos pedir este alimento. Quando o pedimos e pelo próprio fato de pedi-lo, sabemos que Deus quer dá-lo a nós. Não devemos suportar um só dia sem ele. Pois quando somente as energias terrestres, submetidas às necessidades daqui de baixo alimentam nossos atos, só podemos fazer o mal. "Deus viu que o mal-feito dos homens se multiplicava sobre a terra, e que o fruto do pensamento de seu coração era persistente e inteiramente mau". A necessidade que nos constrange ao mal governa tudo em nós, salvo a energia do alto no momento que entra em nós. Mas não podemos armazená-la.

*Parte 1: 6 de fevereiro; parte 2: 13 de fevereiro

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Texto original:

WEIL, Simone. À propos du "Nôtre Père", In Attente de Dieu. Paris: Flamarion, 1996. Tradução de Elisa Cintra.

Tradução publicada originalmente no site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Os melhores tweets da semana

Ilustração: Mark Howell

Cultivar a “beleza interior” custa mais caro, mostra pesquisa da FGV http://migre.me/3RcW

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Sobre o dia do amor: http://migre.me/3SEaY

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Comercial de campanha do movimento gay israelense: "tamanho não é documento: um país pequeno, mas de grande orgulho" http://migre.me/3SGef

Sem-teto gays de SP andam juntos para se proteger http://migre.me/3SGwX

Documentário sobre a vida dos moradores de rua LGBT de São Paulo: http://migre.me/3SGzr

Lady Gaga garante que Madonna adorou a nova música dela, Born This Way http://mixbrasil.uol.com.br/t/s487Nh

"Não é a vida + q o alimento,e o corpo + do q a roupa?" (Mt 6:25) Sobre o medo d abandonar a ansiedade e ficar em paz http://migre.me/3SGU0

Criamos mitos diante do que é incompreensível no momento. Sobre os mitos da sexualidade: http://bit.ly/e7sJMI RT@reginanavarro

Depois de muita polêmica, Playboy vai fazer edição especial para a transexual Ariadna http://mixbrasil.uol.com.br/t/uC2CHd

Disque 100 da Secr.Dir.Humanos tem serviço LGBT. É demorado, mas profissional, gentil e convence. http://migre.me/3QrnF RT@Andre_fischer

Disque Homofobia do Rio é capenga e não diz a que veio. Olhe só... http://migre.me/3Q3dm RT@Andre_Fischer

Polêmica na militância lgbt sobre o grau de bichice do #Gayme de #AmorSexo.Qual problema mostrar gays afeminados na tv? RT@Andre_Fischer

Radicalizar é preciso? Os LGBTs brasileiros têm de ir às ruas p/ não perder de vez sua razão de ser? http://migre.me/3NK3L RT@Andre_Fischer

Matéria de capa da Época sobre lésbicas no Brasil... em 2002. :-) http://migre.me/3SJ9C

Ato contra a homofobia e pelo PLC-122/06 em SP, dia 19/2, lança vídeo de divulgação http://migre.me/3SJak RT@gaybrasil

Congresso Nacional de Direito Homoafetivo acontece em março http://migre.me/3SJnK via@dolado

Testemunho da gratuidade da Salvação e da incondicionalidade do Amor do Pai, e a defesa da inclusão dos gays na Igreja http://migre.me/3T6qW

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Querem saber a reação do público da conservadora Copacabana,quando dois gays se beijaram na boca, ontem,no Roxy? Leia: http://bit.ly/ftc09h RT@Hilde_Angel

“O que aconteceria se acabassem os sacerdotes na Igreja?”, pergunta o teólogo espanhol José María Castillo http://migre.me/3TPeU

"O declínio das vocações é a forma de Deus 'desclericalizar' a Igreja". http://migre.me/3TPfB

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Papa diz que suas palavras sobre o preservativo não precisam de correção http://migre.me/3TPoR

Revista dos jesuítas americanos propõe que leigos participem do Colégio dos Cardeais http://migre.me/3TXf2

"A bênção original". Um livro polêmico. Entrevista com Matthew Fox. http://bit.ly/fa5Gnh RT@_ihu

Leia "Igreja 2011: uma virada necessária'' – Manifesto dos teólogos alemães, suíços e austríacos de 03-02-2011 http://migre.me/3TZkL

"Igreja mergulha em longo processo neoconservador": entrevista c/ J.B. Libânio a propósito do recente manifesto alemão http://migre.me/3TYnr

O que estamos aprendendo com as revoluções do século XXI http://bit.ly/f1vMkl RT@_ihu

Maior evento LGBT do governo federal e do movimento já tem data: novembro http://migre.me/3U6Nn RT@gaybrasil

Pelo fim dos rótulos. Pelo fim do estigma. http://migre.me/3U8qf

O mito da necessidade de família, composta de pai e mãe vivendo juntos, na formação sadia do indivíduo caiu, quase definitivamente. RT@reginanavarro

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Frei Betto, os sonhos de Kepler e a falta de tempo http://ow.ly/3Zb6P RT@Amaivos

Cardeal defende transparência nas finanças da Igreja http://ow.ly/3Z930 RT@Amaivos

Senado começa analisar PLC122/06 semana que vem. Peça sua aprovação ao senador(a) do seu estado: http://migre.me/3Uamb

Marcha contra a homofobia e pelo PLC-122/06 hoje em São Paulo, às 15h

Segui-lO aonde quer que vá


Porque mesmo quando o julgamento humano vê alguém como um marginal, como alguém carregado de pecados mais graves que a maioria, ou como alguém menos merecedor do Amor do Pai - tal como o irmão mais velho da parábola (Lc 15, 11-32) - Ele veio para que todos tenham vida, e vida em abundância (Jo 10, 10). E essa é a fonte maior de alegria, e por tudo Lhe damos graças. :-)

Eu O seguirei
Seguirei aonde quer que Ele vá
Perto dEle sempre estarei
Pois nada pode me afastar
Ele é o meu destino.

Eu O seguirei
Desde o momento em que Ele tocou meu coração eu soube
Não há oceano fundo demais
Nem montanha tão alta, capaz
De me afastar do Seu amor.

Eu O amo, Eu O amo, Eu O amo,
E aonde Ele for
Eu O seguirei.
Ele será sempre meu verdadeiro amor
Desde agora, e para sempre.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Vida e criação



A vida não é para você encontrar a si mesmo. É para você criar a si mesmo.
- George Bernard Shaw

Imagem de Deus e Diversidade (5): pluralidade, diversidade e o significado de “ser católico”


Reproduzo abaixo a quinta parte do artigo Imagem de Deus e Diversidade, publicado originalmente no nosso site. Após abordar o papel da Igreja, da Teologia e da Revelação e a impossibilidade de essas instâncias virem a esgotar Deus (na primeira parte); a mediação humana e o caráter histórico da Revelação, na segunda; a relação entre os fatos e questões contemporâneos e o entendimento humano da Revelação, na terceira; e a atual relação da sociedade e da Igreja com os temas da sexualidade e da homoafetividade, na quarta, reflito aqui sobre a pluralidade de visões no seio da Igreja católica e o próprio significado de “ser católico”.

No entanto, se em nível das declarações oficiais a questão homossexual permanece inalterada, com pequenos avanços ainda não satisfatórios para quem se sabe gay e deseja viver a plenitude da pertença à Cristo na Igreja Católica, em outros níveis eclesiais timidamente começa a haver uma mudança. Há muitos leigos e leigas que, apesar do avanço de movimentos conservadores nas últimas décadas, individualmente percebem haver um equívoco em determinadas posições eclesiais. Sem contar iniciativas organizadas e sólidas de reflexão e atuação GLS católica, como a comunidade norte-americana Dignity.

Isto mostra existir outras posições além da oficial que se consideram também católicas, também inseridas na comunidade fundada por Jesus Cristo. Será que tais pessoas, comunidades, mentalidades podem de fato ser consideradas Igreja Católica?

A resposta vai depender do que significa “ser católico” para cada um. Se pertencer ao catolicismo significa adentrar nas fileiras uniformes sob o comando da mentalidade única do papa, poucos o conseguirão fazer, se forem sinceros. Mas se, assim fosse, haveria ainda catolicismo no sentido mais original do termo, ou seja, o chamado a ser Igreja seria de fato para todos os seres humanos?

Um chamado para todos os seres humanos desde que eles caibam em uma estrutura fixa e rígida e não ajam de acordo com o que são (já que a sexualidade é muito mais do que uma questão do gênero sexual da pessoa por quem um indivíduo se sente atraído) é ainda um chamado à liberdade? É ainda um chamado feito na gratuidade? A pergunta que está por trás ao se refletir não só sobre a pertença eclesial dos gays, mas de todos os outros que se encontram à margem do discurso oficial, não é sobre a moral católica, mas sobre eclesiologia, sobre a compreensão do que é a Igreja. É possível a diversidade de pensamentos, vivências, visões de mundo no catolicismo?

Se esta pergunta nos provoca, nos constrange de alguma forma, nos amedronta porque parece ameaçar o reino das verdades definitivas ao qual me agarro para ter segurança, mesmo que não consiga viver ou mesmo explicar o porquê das coisas serem assim me contentando com o argumento de que “Roma dixit” (“Roma disse”, ou seja, não há mais o que conversar) a resposta será: “não, é impossível”. Está resolvido. A Igreja é uma realidade monolítica e homogênea, guiada por autoridade não apenas central, mas centralizadora e que tem bem definida as mínimas configurações para quem deseja fazer parte dela. Quem não puder, tente, se arrependa, tente de novo, ainda que passe a vida angustiado e tenha a sua auto-estima esfacelada pela luta interna contra si mesmo, tenha a esperança de ser feliz, um dia, no céu, quando tudo se acabar. Mas cuidado, pode ser que ao chegar ao banquete eterno encontremos à mesa muita gente diferente, aparentemente não convidada (Mt 8,11).

Mas se a nossa opção for levar a sério a vocação católica/universal da Igreja? Sobre que base é possível experimentar um catolicismo plural, diverso e absolutamente autêntico?

Já disse que, antes de perguntarmos à moral sobre os gays, precisamos perguntar à eclesiologia sobre a compreensão do que é a Igreja. Mas, ainda há uma questão anterior, mais primordial para entendermos a comunidade eclesial: qual Deus se revela na Igreja, na comunidade de fé?

O Concílio Vaticano II pôs em primeiro plano uma característica da Revelação divina que se deve ao contexto judaico em que se deu a revelação: ela é uma experiência, feita através de atos e palavras, e não um conjunto de verdades comunicadas do intelecto divino ao humano. O judeu semita não era um teórico como o grego, mas precisava de imagens para compreender. Talvez por isso a insistência de Jesus nas parábolas que, de forma prática, transmitiam os ensinamentos da Nova Aliança.

O cristianismo ganharia uma conceituação mais elaborada quando entrou em contato com o mundo greco-romano, iniciado através de São Paulo, e prosseguido pelas gerações seguintes. Então foi preciso dialogar com as diversas correntes filosóficas e explicar “racionalmente”, de acordo com o pensamento grego, a fé vivida originariamente nas comunidades advindas do judaísmo. Desse encontro surge a Teologia, na forma como a conhecemos e toda explicação racional que procure “dizer” a experiência da Revelação.

Esta inculturação (a fé vivida no contexto de determinada cultura) foi extremamente importante para a Igreja. Ela, de certa forma, abriu as portas para a evangelização de todo o Ocidente então conhecido, dominado politicamente pelo Império Romano e influenciado culturalmente pela herança grega.

Este encontro entre fé cristã e racionalidade ocidental atingiu o seu momento de maior comprometimento mútuo durante a Idade Média, quando toda a produção de conhecimento se dava em vistas da religião, a máxima “Filosofia, serva da Teologia” sintetiza bem esse momento.

Pode-se elencar muitas contribuições que este encontro entre fé cristã e pensamento grego gerou, uma das mais importantes é o conceito de pessoa humana. Porém, se a Teologia influenciou o conhecimento que hoje denominaríamos “laico”, também o contrário se deu.

Muitas vezes a Teologia não apenas serviu-se da Filosofia enquanto instrumental para a sua reflexão a partir dos dados específicos da fé cristã, mas também foi influenciada por esta mesma Filosofia ao refletir sobre Deus.

Não que isso signifique um erro, mas a palavra final sobre Deus é, sem dúvida, a da Revelação que, mesmo quando concorda com os atributos descobertos pela luz natural da razão, os reformula em muitos âmbitos.

Desta maneira, a Revelação pode e deve contar com os auxílios humanos que a Graça também inspirou, a partir da capacidade racional dos grandes filósofos. Mas quem tem em si, de acordo com a nossa fé, a prerrogativa única de ser a própria auto-compreensão divina, é a Revelação.

"Igreja mergulha em longo processo neoconservador": entrevista com J.B. Libânio


Reproduzimos parcialmente a entrevista com o teólogo João Batista Libânio publicada originalmente no site do IHU, a propósito do recente manifesto de teólogos alemães, suíços e austríacos pedindo por renovação da Igreja.

Recentemente, teólogos e teólogas alemães, suíços e austríacos lançaram um manifesto propondo reformas para a Igreja em 2011. A convite da IHU On-Line, o teólogo João Batista Libânio leu o documento e analisou as propostas, concedendo por e-mail a entrevista a seguir. Resumindo, ele é enfático: “A tônica do projeto do Papa e a do manifesto divergem”.

Com a experiência de quem presenciou “nítidos momentos no processo eclesiástico” da Igreja nas últimas décadas, Libânio ressalta que o manifesto “alude ao fato de que em 2010 ‘tantos cristãos, o que jamais ocorrera antes, deixaram a Igreja e apresentaram à autoridade da Igreja a desistência de sua pertença ou privatizaram sua vida de fé para defendê-la da instituição’”. A constatação do êxodo cristão, entretanto, “não abala a convicção do projeto de manter uma Igreja, embora minoritária, mas fiel aos ensinamentos dogmáticos, morais e à prática disciplinar eclesiástica”, assinala.

Para ele, Roma reforça a autoridade sobre as igrejas locais porque elas a solicitam. “A geração profética do porte de Dom Helder deixou-nos ou já está envelhecida. E a nova safra eclesiástica revela outro corte”, lamenta. (...)


João Batista Libânio é padre jesuíta, escritor e teólogo. É doutor em Teologia, pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG) de Roma. Atualmente, leciona na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia e é Membro do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais. É autor de inúmeros livros, dentre os quais "Teologia da revelação a partir da Modernidade" (5. ed. Rio de Janeiro: Loyola, 2005), "Qual o caminho entre o crer e o amar?" (2. ed. São Paulo: Paulus, 2005) e "Qual o futuro do Cristianismo?" (2. ed. São Paulo: Paulus, 2008).

Confira a entrevista.


Qual sua reação ao manifesto que propõe reformas para a Igreja em 2011, elaborado por teólogos alemães, suíços e austríacos?
Impressiona, logo à primeira vista, o conjunto de assinaturas de teólogos da mais alta competência e responsabilidade. Portanto, não subscreveriam nenhum manifesto superficial, imprudente. Concordemos ou não com as proposições, ele merece séria consideração e detida atenção.

Parte do inegável mal-estar que afetou não só a Igreja Católica alemã e de alguns países por causa do escândalo da pedofilia, mas de toda a Igreja por ver-se nele a ponta de um iceberg de maior amplitude: a falta de liberdade e de transparência no interior da Igreja devido ao cerceamento das instâncias de poder eclesiástico. Por isso, o manifesto bate forte na tecla das estruturas de governo da Igreja Católica.

A partir da sua trajetória sacerdotal, o senhor também concorda que a Igreja precisa ser reformada? Quais seriam as reformas urgentes?
Os anos me permitem perceber três nítidos momentos no processo eclesiástico das últimas décadas. Ainda conheci estruturas hieráticas no pontificado de Pio XII, que lançava a imagem do poder eclesiástico onisciente e onipotente. Roma pronunciava-se sobre os mais diversos assuntos e com a consciência de dizer verdades inquestionáveis. Não se percebia sinal de dúvida ou perplexidade. Isso acontecia com duplo efeito. Positivamente, oferecia aos católicos fieis enorme segurança sobre temas desde a astronomia até a intimidade da vida conjugal. Para aqueles que já tinham recebido o impacto da modernidade liberal, democrática, marcada pela subjetividade, autonomia das pessoas, consciência história, práxis transformadora, tais declarações romanas produziam enormes dificuldades e mal-estar.

Veio então João XXIII. Convoca o Concílio Vaticano II que inicia, com certa coragem, o diálogo da Igreja com a modernidade. Usando a imagem da música “andante ma non troppo”, a Igreja caminha em direção ao repensamento doutrinal e pastoral, provocado pelos questionamentos teóricos e práticos levantados nos últimos séculos. No entanto, o tempo de aggiornamento não durou muito. Já no próprio Pontificado de Paulo VI, a partir de 1968, despontam sinais de contenção e retrocesso. E depois a Igreja Católica mergulha em longo processo neoconservador que dura até hoje. As inovações iniciadas no Vaticano II se interromperam e outras não surgiram, exceto em um ou outro gesto ousado de João Paulo II, como a Oração pela Paz em Assis com os líderes das diferentes religiões do mundo. Ainda que o clima geral não fala de abertura, entretanto percebe-se-lhe a necessidade.

O manifesto também propõe uma reconversão da Igreja. O que o senhor entende por esta proposta?
A Igreja tem a enorme graça de pôr como referência última, principal, insuperável a pessoa de Jesus Cristo. E quanto mais se conhece o Jesus histórico, mais se percebe a força revolucionária de sua pessoa. Ele não deixa nenhuma estrutura esclerosar-se, sem que lhe seja acicate de mudança. Menciono de passagem o maravilhoso livro de J. Pagola, Jesus: aproximação histórica (Petrópolis: Vozes, 2010), que nos descreve e narra um Jesus colado à realidade no projeto maior de devolver às pessoas a dignidade.

Diante dessa figura de Jesus, muitas estruturas eclesiásticas sofrem terrível crítica. A partir dele, cabe falar de contínua reconversão da Igreja. Basta comparar a figura de Jesus andarilho, de Pedro pescador e crucificado em Roma com certas aparências poderosas clericais para ver a gigantesca distância e a força crítica de Jesus. Santo Inácio de Loyola apostava na força de conversão da contemplação dos mistérios de Jesus. Isso vale em nível pessoal, comunitário e eclesiástico. Em confronto com a pessoa de Jesus, a Igreja se vê questionada continuamente a assumir formas de humildade, simplicidade, pobreza, abandonando o luxo, o esplendor, a arrogância triunfante. (...)


É possível a Igreja romper com tradições, se renovar sem perder seus princípios básicos?
Não se trata nem de romper nem de engessar a Tradição, ou mais corretamente as tradições. Na polêmica com Mgr. Lefebvre, que defendia a literalidade da Tradição e das tradições, Paulo VI insistia na necessidade de interpretá-la(s). Eis a questão! Os princípios permanecem no nível universal, abstrato. Importa ver como eles são entendidos nas situações concretas. E aí está o problema. O trabalho interpretativo tem exigências. Implica esforço da inteligência de captar três coisas. O significado da questão no contexto primeiro em que ela foi formulada e respondida. Esta mesma questão como se entende hoje. E, então, como o significado de ontem se reinterpreta para hoje. Por exemplo, a usura, cobrar mais do que se emprestava, até o nascimento do capitalismo se considerava roubo, portanto eticamente condenável. Hoje, ela se chama juros e ninguém os considera imorais. Então, como se fez a transposição de um princípio ético no pré-capitalismo para o capitalismo?

Numa economia estável sem circulação monetária parecia injusto receber mais do que se emprestava. Nisso consistia a injustiça. Numa sociedade em que o dinheiro se tornou fonte de renda, se considera injustiça só quando as taxas de juros superam de muito a força de rentabilidade. Recebe o nome de agiotagem. Mas cobrar taxas razoáveis não contradiz o princípio ético pré-capitalista no significado, embora materialmente pareça opor-se a ele (usura). Problemas semelhantes se levantam em muitos campos.

O documento também chama a atenção para a necessidade de reconhecer a liberdade de consciência individual, referindo-se também a opção sexual dos indivíduos. Entretanto, observa que “a alta consideração da Igreja pelo matrimônio e pela força de vida sem matrimônio está fora de discussão”. Parece algo contraditório?
A consideração anterior que fiz no campo das finanças vale no campo da sexualidade. Os ensinamentos morais da Igreja sobre o matrimônio permanecem válidos na linha dos princípios. E cabe perguntar-nos pelo seu significado profundo que diz respeito à dignidade humana, ao respeito das relações afetivas. Que significam o respeito e a dignidade nas relações humanas na união homoafetiva? Não se responde em abstrato, mas a partir das experiências que se fazem no concreto da vida. Tanto nas relações matrimoniais como nas homoafetivas existem tanto dignidade, respeito como o oposto. E as considerações éticas descem ao concreto de tais relações para aí interpretar o princípio fundamental da dignidade humana, do respeito entre as pessoas, o projeto de amor de Deus.

O que significam os casos de pedofilia na Igreja?
Revelam a face pecadora dos homens e mulheres de Igreja em todos os níveis: do simples fiel até pessoas da alta hierarquia. Em face do pecado, cabem, em primeiro lugar, a conversão e o perdão de Deus. Quando o direito de outras pessoas é lesado, como no caso da pedofilia que fere gravemente a criança envolvida, entram fatores de reparação desde a econômica até a judicial. Nada justifica o ocultamento, mas importa tomar as medidas concretas para evitar outros casos, sanear o acontecido, reparar o estrago feito.

Evidentemente, não tem sentido entrar no sensacionalismo da mídia. Está em jogo algo sério demais para ser simplesmente assunto de folha policial em ocasião para jogar pedras na Igreja. Não se pensa em acabar com a família, embora nela aconteça a imensa maioria dos casos de pedofilia. A mesma mídia que divulga, “escandalizada” casos de pedofilia, termina sendo uma das causas importantes da decadência moral da sociedade com a enxurrada de programas de banalização do amor, de sexualização das crianças, de exibicionismo e voyeurismo sexual, da perda de senso de responsabilidade social. A luta contra a pedofilia exige programa complexo de purificação das fantasias, de presença maior de educação sadia, de melhoria de cultura veiculada pela mídia.

Quais são as perspectivas e os desafios da Igreja para esta segunda década do século XXI?
Distingamos os níveis. No momento, em nível das estruturas internas da Igreja não se veem perspectivas animadoras. Durante o longo pontificado de João Paulo II, a Igreja Católica viveu o paradoxo, de um lado, de rasgos de abertura na prática do diálogo inter-religioso, na defesa dos direitos humanos, na oposição a toda guerra enfrentando, inclusive, as pretensões americanas, na proximidade com o mundo dos pobres e, de outro, de enrijecimento doutrinal e disciplinar interno. No horizonte, não se percebe que a Igreja enfrentará os novos desafios da cultura contemporânea por meio de mudanças internas, como fez, em parte, logo depois do Concílio Vaticano II. Falta o clima de abertura, de otimismo e de profetismo para lançar-se em transformações profundas. Em termo de hierarquia, reina antes momento de silêncio, de prudência sem muita inspiração e lanço de coragem inovadora. A geração profética do porte de Dom Helder deixou-nos ou já está envelhecida. E a nova safra eclesiástica revela outro corte.

No universo dos leigos há sinais de esperança nas comunidades de base, na crescente participação consciente e ativa das mulheres, no maior desejo de espiritualidade e teologia, na vitalidade de novos ministérios, na criatividade litúrgica, no acesso amplo às Escrituras pela via da leitura orante. Em algumas igrejas particulares a Assembleia do povo de Deus anuncia algo de novo, desde que a clericalização não a prejudique.

O senhor concorda com a tese de que o Vaticano está enquadrando a Igreja no Brasil?
Cícero chamou a história “mestra da vida”. Lancemos um olhar para os últimos séculos a fim de entender a relação entre o Vaticano e as igrejas locais. Gregório VII, no século XI, deu a decisiva guinada da autonomia das igrejas locais para crescente poder de Roma. Ele pautou o governo pontifício pelo dictatus papae, que ressuda centralismo, autoritarismo desmedido. Esse longo processo de quase mil anos marcou uma linha de comportamento em que Roma exerce imensa influência sobre as Igrejas particulares ou regionais. O Concílio Vaticano II, com a colegialidade, tentou diminuir tal tendência, mas com pouco resultado. Faz parte, portanto, da consciência comum eclesiástica a dependência em relação a Roma. E a dialética de dependência de uma parte pede o exercício de domínio da outra.

A criança que pergunta a mãe que meia vai usar pede uma mãe cada vez mais absorvente que termina ditando-lhe tudo. Assim na Igreja. Roma responde com autoridade e a reforça porque as próprias igrejas locais a solicitam e ficam à espera. A liberdade se entende como relação entre duas liberdades. Não há liberdade de um lado só. Que o diga Erich Fromm no magistral livro "Medo da liberdade". As análises que lá faz, baseadas em sua experiência do nazismo, valem para toda relação de submissão e de autoritarismo, onde ela se dê. No dia, porém, em que as igrejas locais tomarem maior consciência de outra eclesiologia, então a Igreja de Roma também lentamente afinar-se-á com ela. O processo se institui de ambas as partes simultaneamente em mútua relação e influência.

Quanto mais a Igreja do Brasil marcar a originalidade, a liberdade, a autonomia, tanto mais Roma a reconhecerá. Se ela, porém, está a esperar para cada palavra que disser um sorriso aprobatório de Roma, a liberdade se encurtará e a autonomia se dissolverá. Quem age sob o olhar de um outro, termina condicionando-se de tal modo que perde a própria identidade. (...)


Como vê a atual internacionalização da Cúria Romana? Como propõe o manifesto, a sociedade deveria ajudar a escolher os representantes?
A internacionalização traz vantagens. Mas não decide por si mesma. Acontece que a cor internacional desaparece facilmente por homogeneização ideológica por força da instituição. Se cada nação levasse para dentro da Cúria Romana a própria originalidade e a conservasse em contínuo diálogo com a predominante cultura europeia e romana, então a internacionalização causaria outro efeito.

Bispos latino-americanos, africanos ou asiáticos que arribam a Roma se romanizam a ponto de não se distinguir muito dos outros. Outra coisa significaria se as igrejas locais se fizessem presentes em Roma por meio de seus representantes, escolhendo-os e eles fazendo-se porta-voz delas. Mais: se elas mesmas decidissem na escolha dos ministros que as servem ou vetassem aqueles que não as satisfizessem. Assim evitaríamos casos desastrosos que tivemos de bispos, párocos ou pessoas em outras funções que durante décadas exerceram funções com detrimento da vida eclesial em vez de construí-la e os fieis tiveram de suportá-los calados e sem poder de mudança. Certos aspectos da sociedade democrática não contradizem, teologalmente falando, a maneira de designar membros da hierarquia. A escolha pode ser democrática, embora a conferição se faça pela graça do sacramento. (...)


Está em curso a consolidação do programa ratzingeriano para a Igreja do Brasil?
Teríamos que conhecer de antemão o programa do Papa. Os papas, em geral, não fazem discursos programáticos, mas dogmáticos. E supõe-se arguta análise para perceber sob as afirmações doutrinais que tipo de prática de governo subjaz. Aventuraria dizer que Bento XVI atribui relevância especial à qualidade da pertença à Igreja e não se impressiona tanto com a diminuição estatística. O manifesto dos teólogos alude ao fato de que em 2010 “tantos cristãos, o que jamais ocorrera antes, deixaram a Igreja e apresentaram à autoridade da Igreja a desistência de sua pertença ou privatizaram sua vida de fé para defendê-la da instituição”. Enquanto percebo, tal constatação não abala a convicção do projeto de manter uma Igreja, embora minoritária, mas fiel aos ensinamentos dogmáticos, morais e à prática disciplinar eclesiástica.

No projeto de Igreja em curso, a fidelidade, a exatidão doutrinal e a coerência prática disciplinar merecem relevo preponderante mesmo que à custa de êxodo de católicos.

O manifesto pondera a questão do isolamento da Igreja em relação à sociedade. Tal fato, porém, não se entende na percepção pontifícia de modo negativo, enquanto fechamento, mas como exigência de coerência com a própria mensagem a despeito da incompreensão por parte da mentalidade moderna.

Outra coisa, como parece supor o manifesto, tal aspecto implicaria incongruência com o projeto salvífico de Jesus. A questão teológica se desloca. Até onde tal programa eclesiástico afasta-se do reino anunciado por Jesus? Acusação grave que precisa ser bem pensada e discutida de ambos os lados. A tônica do projeto do Papa e a do manifesto são divergentes. No primeiro caso, volta-se para a Igreja e quer mantê-la na sua atual estrutura e, a partir daí, cumprir melhor sua função. No outro, propõe-se o projeto de Jesus e se pergunta como adequar as estruturas da Igreja a ele. Pontos divergentes que geram leituras diferenciadas. Só o diálogo mostra o limite e a positividade de cada perspectiva. O manifesto acentua: primeiro a liberdade individual e de consciência e a partir dela a fidelidade. A atual disciplina eclesiástica: primeiro a fidelidade à doutrina e à prática e aí dentro a liberdade.

O mesmo vale de outros pontos acentuados pelo manifesto: participação dos fiéis, comunidade de partilha, reconciliação dos pecadores e celebração ativa, enquanto o projeto eclesiástico em curso entende tais demandas a partir dos quadros jurídicos traçados para a participação, para a vida de comunidade, para a reconciliação e celebração e não à sua revelia ou à exigência da sua mudança. Nessa tensão consiste, segundo minha leitura, a divergência maior entre o manifesto e o que está em curso atualmente no seio da Igreja Católica.

Dois pais

Após a divulgação de um livro infantil holandês que aborda a questão da homossexualidade - no caso, a história, contada do ponto de vista de um menino, de um pai que se separa da mãe e casa-se com outro homem - e, mais recentemente, de uma campanha espalhar retratos de famílias gays pela Califórnia para estimular gays a ter filhos e desestigmatizar o assunto, lembrei de um vídeo velhinho, mas ainda tão atual.

Trata-se de um garoto que se apresenta num programa infantil da TV holandesa (sempre os holandeses) cantando uma música sobre seus dois pais. Eu, particularmente, sempre me emociono... Me faz sonhar com um mundo de menos exclusões e segregações.


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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Amar a quem nos faz mal


O teólogo basco Jose Antonio Pagola, em artigo reproduzido no Amai-vos, tece algumas considerações sobre o convite de Jesus a que amemos aqueles que nos fazem mal.

A chamada para amar é sedutora. Seguramente, muitos escutavam com agrado o convite de Jesus a viver numa atitude aberta de amizade e generosidade para com todos. O que menos se podiam esperar era ouvi-Lo falar de amor aos inimigos.

Só um louco lhes podia dizer com aquela convicção algo tão absurdo e impensável: «Amai os vossos inimigos, rezai pelos que vos perseguem, perdoai setenta vezes sete... » Sabe Jesus o que está dizendo? É isso o que quer Deus?

Os que O ouviam, escutavam-No escandalizados. Esquecia Jesus que o seu povo vive submetido a Roma? Esqueceu os estragos cometidos pelas suas legiões? Não conhece a exploração dos camponeses da Galileia, indefesos ante os abusos dos poderosos latifundiários? Como pode falar de perdão aos inimigos, se tudo os está convidando ao ódio e à vingança?

Jesus não lhes fala arbitrariamente. O Seu convite nasce da Sua experiência de Deus. O Pai de todos não é violento mas compassivo. Não procura a vingança nem conhece o ódio. O Seu amor é incondicional para com todos: «Ele faz sair o Seu sol sobre bons e maus, manda a chuva a justos e injustos». Não discrimina ninguém. Não ama só àqueles que lhe são fiéis. O Seu amor está aberto a todos.

Este Deus que não exclui a ninguém do seu amor atrai-nos a viver como Ele. Esta é em síntese a chamada de Jesus. "Parecei-vos a Deus. Não sejais inimigos de ninguém, nem sequer de quem são vossos inimigos. Amai-os para que sejais dignos do vosso Pai do céu".

Jesus não está a pensar em que os queiramos com o afecto e o carinho que sentimos pelos nossos seres mais queridos. Amar o inimigo é, simplesmente, não nos vingarmos, não fazer-lhe mal. Pensar, mais no que pode ser bom para ele. Trata-lo como queríamos que nos tratassem a nós.

É possível amar o inimigo? Jesus não impõe uma lei universal. Convida os seus seguidores a parecer-nos com Deus para ir fazendo desaparecer o ódio e a inimizade entre os seus filhos. Só quem vive tratando de identificar-se com Jesus chega a amar a quem lhe quer mal.

Atraídos por Ele, aprendemos a não alimentar o ódio contra ninguém, a superar o ressentimento, a fazer o bem a todos. Jesus convida-nos a «rezar pelos que nos perseguem», seguramente, para ir transformando pouco a pouco o nosso coração. Amar a quem nos faz mal não é fácil, mas é o que melhor nos identifica com aquele que morreu rezando por quem O estava a crucificar: "Pai, perdoa-os porque não sabem o que fazem".
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