quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Nosso testemunho




Recebemos, em nosso post de 11/02/2011, "Teologia e História: a propósito da divergência", os comentários dos nossos leitores Daniel e Matheus, que deram margem a uma rica e salutar troca de ideias. Diante a importância dos temas abordados, achamos por bem reproduzir aqui nossa resposta, pedindo desde já desculpas pela extensão do texto. :-)

* * *

Prezados Daniel, Matheus e demais leitores,

Diante do comentário tão minucioso do Daniel e da observação do Matheus, que tocaram, ambos, em pontos muito importantes e bastante delicados, achamos por bem tomar um tempo para refletir com calma antes de elaborar uma resposta. Daí a demora para darmos um retorno – mas, de todo modo, pedimos desculpas pelo tempo transcorrido.

Daniel, discordamos de você em alguns pontos da sua leitura dos documentos do Magistério, sobretudo os do Concílio Vaticano II; discordamos, sobretudo, da colocação de que nossa parte pecadora não pertence à Igreja. Pelo contrário, o Catecismo afirma que “a Igreja, reunindo em seu próprio seio os pecadores, ao mesmo tempo santa e sempre necessitada de purificar-se, busca sem cessar a penitência e a renovação. Todos os membros da Igreja, inclusive seus ministros, devem reconhecer-se pecadores. (…) A Igreja reúne, portanto, pecadores alcançados pela Salvação de Cristo, mas ainda em via de santificação” (CIC 827). (Note-se que o termo “Igreja” não se refere somente ao Magistério, mas a todo o corpo de fiéis.)

Portanto, Deus nos acolhe amorosa e incondicionalmente não por nosso merecimento, mas como pecadores que necessariamente sempre somos, e nisso justamente consiste sua Justiça e Misericórdia, e a Gratuidade da nossa Salvação. Nisso somos todos chamados à santidade, vivida através do Amor:

“A Igreja... é, aos olhos da fé, indefectivelmente santa. Pois Cristo, Filho de Deus, que com o Pai e o Espírito Santo é proclamado o 'único Santo', amou a Igreja como sua Esposa. Por ela se entregou com o fim de santificá-la. Uniu-a a si como seu corpo e cumulou-a com o dom do Espírito Santo, para a glória de Deus.” A Igreja é, portanto, “o Povo santo de Deus”, e seus membros são chamados “santos”. [Note-se que o termo “Igreja” não se refere somente ao Magistério, mas a todo o corpo de fiéis.]

(…) “Já na terra a Igreja está ornada de verdadeira santidade, embora imperfeita.” Em seus membros, a santidade perfeita ainda é coisa a adquirir: “Munidos de tantos e tão salutares meios, todos os cristãos, de qualquer condição ou estado, são chamados pelo Senhor, cada um por seu caminho, à perfeição da santidade pela qual é perfeito o próprio Pai”.

A caridade é a alma da santidade à qual todos são chamados. Ela “dirige todos os meios de santificação, dá-lhes forma e os conduz ao fim”:

“Compreendi que a Igreja tinha um corpo, composto de diferentes membros, não lhe faltava o membro mais nobre e mais necessário (o coração). Compreendi que a Igreja tinha um Coração, e que este Coração ARDIA de AMOR. Compreendi que só o amor fazia os membros da Igreja agirem, que, se o Amor viesse a se apagar, os Apóstolos não anunciariam mais o Evangelho, os Mártires se recusariam a derramar seu sangue... Compreendi que O AMOR ENCERRAVA TODAS AS VOCAÇÕES, QUE O AMOR ERA TUDO, QUE ELE ABRAÇAVA TODOS OS TEMPOS E TODOS OS LUGARES... EM UMA PALAVRA, QUE ELE É ETERNO!”
(CIC 823-826)

Contudo, não acreditamos que o debate em torno do significado do primado da consciência, da historicidade da Revelação, de como a Igreja se transformou ao longo dos séculos ou da necessidade de entender o significado da homossexualidade conforme as especificidades de seu contexto histórico e sócio-cultural seja o mais importante aqui. O ponto central, ao que nos parece, é aquele de que você parte em sua explanação: a possibilidade ou não de “uma visão conciliatória entre a prática do ato homossexual e a doutrina da Igreja”.

É ponto pacífico para nós que a atual posição da Igreja é que a homossexualidade constitui uma “paixão desordenada” e, como tal, os atos homossexuais devem ser evitados. Ou seja, a orientação do Magistério, hoje, é de que o homossexual deve procurar viver uma vida de castidade – castidade, aqui, entendida como celibato. Quanto a isso, não há discussão.

Há que se compreender, porém, como o próprio Daniel muito bem apontou, que apenas no caso dos dogmas - o grau máximo a que uma doutrina ou posição moral pode ser elevada, tornando-se definitiva na compreensão da Igreja – a vinculação entre doutrina e acolhimento é total. E cabe aqui enfatizar que o atual entendimento do Magistério a respeito da homossexualidade, assim como sua atual orientação com relação a como os homossexuais devem lidar com sua sexualidade, devem ser ambos entendidos em termos de orientações e recomendações, uma vez que não são dogmas.

Poderíamos ir além e lembrar que a existência de um grau máximo e definitivo de adesão à doutrina indica que nem tudo, na doutrina católica, tem a mesma obrigatoriedade e permanência. Por exemplo, o caso da salvação. Já foi expresso como doutrina que os de fora da Igreja Católica não poderiam se salvar. Foi doutrina, mas não se mostrou definitiva. O Concílio Vaticano II gerou documentos que abrem a perspectiva da salvação para os que crêem em Cristo, mas não na comunhão da Igreja católica; para os que crêem em Deus, mas não no Cristo; e até para os que não crêem em Deus, mas vivem de acordo com os valores retos da sua consciência.

Poderíamos, de fato, sublinhar e insistir na compreensão de que a Igreja se transforma. Isso é expresso na própria Constituição Apostólica Fidei Depositum, mencionada pelo Daniel, a qual não se cansa de salientar a necessidade e importância da “renovação de pensamentos, de atividades, de costumes e de força moral”, e que o catecismo deve oferecer “uma doutrina sã e adaptada à vida atual dos cristãos”. Do mesmo modo, expõe que a doutrina e os costumes morais devem ser discernidos pelo Magistério a partir do

“ensinamento da Sagrada Escritura, da Tradição viva da Igreja e do Magistério autêntico, bem como a herança espiritual dos Padres, dos Santos e das Santas da Igreja, para permitir conhecer melhor o mistério cristão e reavivar a fé do povo de Deus. Deve ter em conta as explicitações da doutrina que, no decurso dos tempos, o Espírito Santo sugeriu à Igreja. É também necessário que ajude a iluminar, com a luz da fé, as novas situações e os problemas que ainda não tinham surgido no passado.

O Catecismo incluirá, portanto, coisas novas e velhas (cf. Mt 13, 52) porque a fé é sempre a mesma e simultaneamente é fonte de luzes sempre novas. (…) Sirva ele para a renovação, à qual o Espírito Santo chama incessantemente a Igreja de Deus, Corpo de Cristo, peregrina rumo à luz sem sombras do Reino!”


Poderíamos seguir essa linha de argumentação, mas, como dissemos, não é o que consideramos mais primordial aqui. Para nós, como gays e católicos que somos e membros inalienáveis da Igreja, é fundamental não perder de vista a mensagem do Evangelho: “Eu vim para que todos tenham vida, e vida em abundância” (Jo 10, 10). Cristo veio para todos. Cristo veio subverter a lógica legalista dos fariseus, segundo a qual a salvação seria derivada do reto e literal cumprimento da Lei, e só aos que a seguissem à risca estaria reservada. “A lei não é já o decisivo para saber o que espera Deus de nós. O primeiro é 'procurar o reino de Deus e a Sua justiça'”, adverte o teólogo basco Jose Antonio Pagola em artigo que recentemente reproduzimos aqui. “Jesus esforça-se por introduzir nos Seus seguidores outro perfil e outro espírito: 'se a vossa justiça não é melhor que a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino de Deus'.” E Pagola conclui:

Nestas pessoas reina a Lei, mas não Deus; são observantes, mas não sabem amar; vivem corretamente, mas não construíram um mundo mais humano.

Temos de escutar bem as palavras de Jesus: «Não vim abolir a Lei e os profetas, mas dar plenitude». Não veio atirar por terra o patrimônio legal e religioso do antigo testamento. Veio para «dar plenitude», a alargar o horizonte do comportamento humano, a libertar a vida dos perigos do legalismo.

O nosso cristianismo será mais humano e evangélico quando aprendermos a viver as leis, normas, preceitos e tradições como os vivia Jesus: procurando esse mundo mais justo e fraterno que quer o Pai.
[A esse respeito, v. CIC 1963]

Esse sempre foi e continua sendo, passados dois milênios, o cerne da doutrina oficial da Igreja: o Amor que a todos vem redimir e salvar.

É por isso que o Diversidade Católica tem por missão “promover e difundir a Boa Nova de Jesus Cristo e a participação no Reino de Deus com a partilha da experiência do amor de Deus junto a todos os fiéis tradicionalmente excluídos do corpo eclesial em virtude de sua identidade e/ou orientação sexual”. Trabalhamos pela conciliação das identidades gay e católica porque nos reconhecemos tão santos e pecadores como qualquer outra pessoa, independente de sua orientação sexual. Longe de atacar a Igreja à qual pertencemos, trabalhamos sempre para salientar que a mensagem dessa Igreja tão incompreendida é difundir a Boa Nova do Amor de Cristo, que a todos acolhe e inclui. Com efeito, como nota o teólogo espanhol José María Castillo, no artigo que publicamos aqui sobre a “escandalosa tolerância de Jesus”,

Se nos atemos ao que contam os Evangelhos, nos surpreendemos com o fato de que Jesus foi escandalosamente tolerante com pessoas e grupos com os quais nenhum homem, reconhecido como observante e exemplar do ponto de vista religioso, podia ser tolerante. Ao mesmo tempo em que se mostrou extremamente crítico com aqueles que se viam a si mesmos como os mais fiéis e os mais exatos em sua religiosidade, Jesus foi tolerante com os publicamos e pecadores, com as mulheres e com os samaritanos, com os estrangeiros, com os endemoniados, com as multidões dos gentios (óchlos), uma palavra dura que designava a “plebe que não conhecia a Lei e era maldita”, no juízo dos sumos sacerdotes e dos fariseus observantes (Jo 7, 49; cf. 7, 45).

E é curioso, mas essa gente é a que aparece constantemente acompanhando a Jesus, escutando-o, buscando-o... Os relatos dos Evangelhos são eloquentes neste ponto concreto e repetem muitas vezes que o “gentio”, a “multidão”... buscava a Jesus, que o ouvia, que estava perto dele. E aquela mistura de Jesus com os “gentios” chegou a ser tão angustiosa, que até a família de Jesus chegou a pensar que ele havia perdido a cabeça (Mc 3, 21). Jesus compartilhava mesa e toalha com os pecadores, o que dava pé a murmurações por causa de semelhante conduta (Lc 15, 1s).


Por isso, Matheus, respeitosamente discordamos de você quanto à homossexualidade ser um “pecado grave, violação do sexto mandamento”. Entendemos que você se referiu a pecar contra a castidade. Mesmo que fizéssemos uma interpretação muito literal e legalista da doutrina – um tipo de leitura da qual, diga-se de passagem, esperamos já ter deixado claro que divergimos – e considerando a atual recomendação do Magistério quanto à observação da continência pelos gays, levando uma vida sexual ativa não estaríamos pecando mais contra a castidade do que pessoas divorciadas, pessoas recasadas, pessoas que têm relações sexuais fora do casamento, pessoas que fazem uso de camisinha ou outros preservativos ou pessoas que utilizam qualquer método anticoncepcional que não a chamada "tabelinha" ou a abstinência, dentro ou fora do casamento. Não estaríamos pecando mais contra a castidade, em última instância, do que qualquer pessoa que faz sexo sem ter a procriação em vista.

Ainda que considerássemos o ato homossexual como desordenado em si mesmo, como sugere o Catecismo, ou mesmo pecaminoso – o que NÃO corresponde à posição do Magistério, visto que “desordenado” e “pecaminoso” são conceitos distintos – há que se levar em consideração, Matheus, o fato de que, consultando o verbete “pecado” no índice do Catecismo, o primeiro subitem citado é “Amor mais forte que o pecado”, que remete ao trecho sobre o perdão:

Não há limite nem medida a esse perdão essencialmente divino. Tratando-se de ofensas (...), de fato somos sempre devedores: “Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mútuo” (Rm 13, 8). A Comunhão da Santíssima Trindade é a fonte e o critério de toda relação. Esta comunhão é vivida na oração, sobretudo na Eucaristia:

Deus não aceita o sacrifício dos que fomentam a desunião; Ele ordena que se afastem do altar para primeiro se reconciliarem com seus irmãos: Deus quer ser pacificado com orações de paz. Para Deus, a mais bela obrigação é nossa paz, nossa concórdia, a unidade no Pai, no Filho e no Espírito Santo de todo o povo fiel.
(CIC 2844-2845)

De todo modo, porém, não é esse em absoluto o nosso entendimento. Primeiramente, levando-se em consideração o fato de que a atual posição do Magistério com relação à homossexualidade não constitui um dogma, como já expusemos, e, portanto, não requer adesão irrestrita para caracterizar-nos como membros da Igreja, necessitamos, para respeitar nossas consciências, dar o nosso sempre respeitoso testemunho de que não vivemos nossa forma de amar como “intrinsecamente desordenada” ou fechada ao dom da vida (CIC 2357). Pelo contrário, observamos justamente que também entre nós “'os atos com os quais os cônjuges se unem íntima e castamente são honestos e dignos. Quando realizados de maneira verdadeiramente humana, significam e favorecem a mútua doação pela qual os esposos se enriquecem com o coração alegre e agradecido.' A sexualidade é fonte de alegria e de prazer” (CIC 2362).

Para respeitar nossas consciências, necessitamos dar nosso testemunho de que vivemos, sim, uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira (CIC 2357). Vivemos, com nossos esposos e esposas, os mesmos desafios e recebemos as mesmas graças de qualquer casal, e nosso testemunho é dado com nossas próprias vidas.

Divergimos nesses pontos não porque pretendamos ir contra a Igreja ou seu Magistério. Nada poderia estar mais longe da verdade. Damos nosso testemunho por amor à Verdade e à Igreja de Cristo, para que através desse testemunho a Igreja possa continuar sua jornada de construção do Reino e, peregrinos com ela, caminhemos juntos.

Segundo, mesmo ainda recomendando o celibato, o Magistério reconhece que “um número não negligenciável de homens e mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente enraizadas. (…) Estas pessoas são chamadas a realizar a vontade de Deus em sua vida” (CIC 2358); ou seja, somos tão chamados à santidade quanto os demais membros da Igreja de Cristo, e não há nenhuma justificativa para que sejamos excluídos da Igreja, da participação na vida de nossas respectivas comunidades e, muito menos, dos sacramentos.

Entretanto, e é este o cerne da nossa atuação, verificamos que a prática muitas vezes se afasta do reto cumprimento das orientações do Magistério no sentido do acolhimento e do respeito aos gays. Infelizmente, Matheus, muitos de nós viveram em suas comunidades situações de exclusão por serem gays. Muitos de nós, mas não todos, receiam revelar-se gays aos seus amigos e familiares por medo da rejeição, e vivem a violência de terem de viver escondidos. Muitos de nós, mas não todos, ao se revelarem gays, foram de fato rechaçados por amigos e familiares, pelo seu pároco e pela comunidade. Alguns de nós viveram situações de humilhação; em alguns casos, publicamente. Alguns de nós, ao se revelarem gays, foram destituídos de suas funções na comunidade, embora até então fossem considerados modelos de conduta e vida cristã. Alguns de nós foram excluídos dos sacramentos, ou se excluem dos sacramentos, por se sentirem julgados e condenados por seus amigos, familiares, párocos e comunidades - ou, pior, pelo próprio Deus; por ouvirem e acreditarem que são irremediáveis pecadores e, por isso, menos merecedores do Amor do Pai. Essa crença é causa de imenso sofrimento para multidões de nós, com efeitos devastadores, que muitas vezes chegam ao absurdo do suicídio. A título de ilustração, remetemos aos casos narrados no documentário “Assim me diz a Bíblia” e no filme “Preces para Bobby”, duas de milhares de histórias tragicamente reais.

Então, sim, Matheus, respondendo sua pergunta, conhecemos muitos casos de homofobia e violência física, psicológica e social justificada por crenças religiosas, sobretudo cristãs. A mais evidente delas, aliás, se traduz no fato de que, no Brasil de hoje, um enorme número de cidadãos tem negada a garantia de seus direitos civis com base em argumentos de cunho religioso. A mistura de religião e política leva a distorções perversas, como a alegação de que o asseguramento dos direitos civis dos gays constituiria uma ameaça à liberdade religiosa. Nada mais falso: somente reforçando a separação entre Igreja e Estado teremos, todos, nossos direitos assegurados, inclusive e sobretudo o direito às liberdades de crença e culto.

Porém, a ameaça mais grave oferecida pela homofobia justificada por argumentos religiosos é justamente a corrupção e distorção dos valores mais caros à doutrina cristã e católica, representados, em última instância, pelos mandamentos maiores: “Amai-vos uns aos outros, e ao próximo como a ti mesmo”.

Esperamos dar testemunho de que, pecador ou não, ninguém deve ser excluído. Esperamos dar testemunho da gratuidade da Salvação e da incondicionalidade do Amor do Pai, independente das faltas e limitações inerentes a todo o humano. É por isso, Daniel, e por isso, Matheus, que trabalhamos.

A paz de Cristo esteja sempre com vocês.

Equipe Diversidade Católica

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A escandalosa tolerância de Jesus

Ilustração: Patrick Hruby

“Se nos atemos ao que contam os Evangelhos, nos surpreendemos com o fato de que Jesus foi escandalosamente tolerante com pessoas e grupos com os quais nenhum homem, reconhecido como observante e exemplar do ponto de vista religioso, podia ser tolerante. Ao mesmo tempo em que se mostrou extremamente crítico com aqueles que se viam a si mesmos como os mais fiéis e os mais exatos em sua religiosidade”, escreve José María Castillo, teólogo espanhol, em seu blog Teología sin Censura, 06-02-2011. A tradução é do Cepat. Reproduzido via IHU.

Eis o artigo.

Se nos atemos ao que contam os Evangelhos, nos surpreendemos com o fato de que Jesus foi escandalosamente tolerante com pessoas e grupos com os quais nenhum homem, reconhecido como observante e exemplar do ponto de vista religioso, podia ser tolerante. Ao mesmo tempo em que se mostrou extremamente crítico com aqueles que se viam a si mesmos como os mais fiéis e os mais exatos em sua religiosidade. Jesus foi tolerante com os publicamos e pecadores, com as mulheres e com os samaritanos, com os estrangeiros, com os endemoniados, com as multidões dos gentios (óchlos), uma palavra dura que designava a “plebe que não conhecia a Lei e era maldita”, no juízo dos sumos sacerdotes e dos fariseus observantes (Jo 7, 49; cf. 7, 45).

E é curioso, mas essa gente é a que aparece constantemente acompanhando a Jesus, escutando-o, buscando-o... Os relatos dos Evangelhos são eloquentes neste ponto concreto e repetem muitas vezes que o “gentio”, a “multidão”... buscava a Jesus, que a ouvia, a que estava perto dele. E aquela mistura de Jesus com os “gentios” chegou a ser tão angustiosa, que até a família de Jesus chegou a pensar que ele havia perdido a cabeça (Mc 3, 21). Jesus compartilhava mesa e toalha com os pecadores, o que dava pé a murmurações por causa de semelhante conduta (Lc 15, 1s).

Jesus sempre defendeu as mulheres, por mais que fossem mulheres pouco exemplares. Até chegar a dizer que os publicanos e as prostitutas entravam antes que os sumos sacerdotes no Reino de Deus (Mt 21, 31). Jesus defendeu uma famosa prostituta em casa de um conhecido fariseu (Lc 7, 36-50). Como defendeu o banho de perfume que Maria vez na ceia de homenagem que fizeram a Jesus (Jo 12, 1-8). Sabemos que, quando ia de povoado em povoado pela Galileia, o acompanhavam não apenas os discípulos e apóstolos, mas também muitas mulheres, entre elas a Madalena, da qual havia expulsado sete demônios (Lc 8, 1-3). Jesus sempre se colocou do lado dos cismáticos e desprezados samaritanos, até colocar como exemplo de humanidade um deles, frente à dureza de coração do sacerdote (Lc 10, 30-35).

Com isso, há elementos suficientes para se ter uma ideia do “escandaloso” que devia ter sido a tolerância de Jesus. Ser tolerante com os que vivem e pensam como cada um vive e pensa, isso não é senão senso comum. O problema está em saber com o que temos que ser tolerantes. E que coisas não se deve tolerar. Evidentemente, tocamos um tema extremamente difícil de precisar e delimitar com exatidão. Por isso, entendo que haja pessoas que entram no blog e expressam seus desacordos com o que eu escrevo. Entendo-os perfeitamente. E me parece que é bom que todo aquele que entrar neste blog se sinta com liberdade para dizer o que pensa, contanto que isso seja feito com argumentos e razões, nunca agredindo ou humilhando a quem não se ajusta com os meus pontos de vista. Mas com isso não tocamos no fundo do problema.

Eu creio que tudo depende daquilo que para cada um é “intocável”. Dado que estamos em um blog de teologia, a questão que, no meu modo de ver, teria que ser enfrentada é a seguinte: do ponto de vista do Evangelho, “o intocável” é “o religioso” ou é “o humano”? Penso que é fundamental, para um crente em Jesus Cristo, ter bem colocada e bem resolvida esta pergunta. Sabemos de sobra que, por salvaguardar os direitos da religião, às vezes, não se respeitam os direitos humanos. Por defender um dogma, se queimou o herege. Como por assegurar um critério moral, se meteu na prisão o homossexual ou se apedreja uma adúltera. É sintomático que os enfrentamentos, que, segundo os Evangelhos, Jesus teve e manteve, foram com pessoas muito religiosas, ao mesmo tempo que se deu bem com os grupos humanos que a religião depreciava ou perseguia. É evidente que, para Jesus, sua relação com o Pai do Céu era a questão central. Mas o que acontece é que Jesus entendia o Pai do Céu de forma que esse Pai não fazia diferenças. E por isso é o Pai que faz brilhar o sol sobre bons e maus; e manda a chuva sobre justos e pecadores (Mt 5, 45). Porque é humano necessitar do sol e necessitar da chuva. Coisas que, pelo visto e a juízo de Jesus, são mais que intocáveis que a “bondade” de uns ou a “maldade” de outros.

Que tudo isto entranha seus perigos? Sem dúvida alguma. Mas, pelo menos, me parece que é muito mais perigoso dividir-nos e enfrentar-nos por motivos religiosos, de forma que tais motivos justifiquem as mil intolerâncias que tornam a vida tão desagradável e até pode ser que cheguem a torná-la simplesmente insuportável. Isso prejudica a todos. E, além disso, faz mal – e muito – à religião. Por que, então a religião se tornou tão odiosa para não poucas pessoas, muitas das quais sabemos que são pessoas honradas? As religiões terão que pensar este assunto. E terão que fazê-lo urgentemente e com toda honestidade, se é que não querem ser atropeladas pela história ou abandonadas nas valetas dos muitos caminhos deste mundo.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Imagem de Deus e Diversidade (3): o dogma cristão evolui ao longo da História


Reproduzo abaixo a terceira parte do artigo Imagem de Deus e Diversidade, publicado originalmente no nosso site. Após abordar o papel da Igreja, da Teologia e da Revelação e a impossibilidade de essas instâncias virem a esgotar Deus (na quarta-feira passada), e a mediação humana e o caráter histórico da Revelação, na sexta, reflito neste trecho sobre a relação entre os fatos e questões contemporâneos e o entendimento humano da Revelação.

Esta pertença intrínseca do divino ao humano e vice-versa, que faz que chamemos a nossa história de “História da Salvação”, não é algo que está presente só no passado, registrado na Sagrada Escritura, mas é ainda hoje uma realidade. Isso nos obriga, enquanto Igreja, a nos debruçarmos sobre todas as realidades humanas e não só nos perguntar: “Como estas realidades podem ser iluminadas por Deus, pelo evangelho?” mas, também: “O que essas experiências nos falam, nos mostram sobre Deus”?

E aqui nos deparamos com mais um vício mental muito comum no nosso cristianismo. De que maneira algo inédito, pode, de fato, nos dizer também algo novo sobre Deus, sobre a vida? Isto pode acontecer?

Uma primeira, e impensada, resposta seria negativa. Não há nada de novo a respeito de Deus. Tudo que precisamos saber sobre ele se encontra na Revelação e esta está encerrada desde a morte do último apóstolo.

O que caberia às gerações subseqüentes à apostólica seria interpretar as novas questões que surgem e buscar uma resposta na Revelação. E este é de fato o processo que mais ocorre. A Igreja se volta para os princípios fundamentais, as verdades básicas contidas na Revelação tanto escrita quanto oral e procura à luz destas, compreender o que surge de novo.

No entanto, considerando a própria história da Igreja, por exemplo, no que diz respeito aos dogmas, não se pode concluir que esta interpretação do contemporâneo a partir dos dados objetivos já conhecidos da Revelação seja a única forma de crescimento no conteúdo da doutrina.

O teólogo alemão contemporâneo Karl Rahner (1904-1984) explica como pode haver uma verdadeira evolução no dogma cristão, sem ser fruto de uma mera aplicação dos dogmas antigos*.

A explicação que ele nos dá parte de uma comparação entre palavra humana e palavra divina. Quando um homem diz algo, a partir do momento em que é dito, quando a mensagem é ouvida por outros, ele já não tem nenhum poder sobre ela. O que foi dito toma rumos, ganha interpretações que não dependem mais da vontade e não estão de nenhuma forma sobre o domínio deste que disse tal palavra.

Com Deus é diferente. Ele é absolutamente consciente dos rumos que sua palavra toma ao longo da história. A palavra de Deus nunca se fecha, nem é “dita totalmente”. Mas, na medida em que novos contextos a provocam, ela se desdobra em sentidos que, se nem mesmo o hagiógrafo (autor sagrado) poderia sabê-los todos, estes não eram desconhecidos por Deus.

É justamente por isso que a Revelação é sempre contemporânea. Não é uma palavra dirigida a uma época, e sim aos homens, que nunca existem em geral, mas sempre inseridos em contextos específicos de cultura que moldam a maneira como pensam e as experiências que possuem da vida. É sempre aos homens de “hoje” a que Deus se dirige, retirando do baú da Revelação coisas novas e velhas (Mt 13,52 ).

Também as questões que hoje nos afligem e questionam, aquelas mais importantes dos nossos tempos, as mudanças na maneira de sentir e viver provocam a palavra de Deus, tanto para se deixar iluminar por elas, por aquilo que já sabemos dessa palavra divina, quanto para trazer à tona esta palavra divina que até agora estava já comunicada na Revelação, mas não ainda escutada por nós, já que ainda não havíamos formulado a pergunta que a desencadearia. Ao dado da Revelação já presente, mas ainda não conhecido, e que aflora num determinado contexto cultural, Rahner chama de dado "comunicado virtualmente". Está lá, ainda que precise a compreensão de uma determinada época para chegar até o nosso conhecimento.

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* Karl Rahner. O Dogma Repensado. São Paulo: Paulinas. 1970.

Volatilidade: interioridade e alteridade no mundo de hoje

Ilustração: Leah Giberson

Reproduzimos abaixo um artigo de Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, publicado originalmente no site do Amai-vos. Os grifos são nossos.

A palavra volátil quer dizer “que voa, que tem asas”. Assim olhada à primeira vista, encanta a imaginação e a sensibilidade. Quem já não desejou voar e ganhar espaços infinitos, dependente apenas de suas asas? No entanto, em seu sentido figurado, a evocação não é tão positiva. Volátil é alguém cuja opinião ou ponto de vista muda com facilidade; inconstante, volúvel; que não é firme ou permanente; inconstante, mutável.

A palavra parece-nos adequada para definir as relações humanas hoje em dia. São, em sua maioria, relações sem firmeza, sem compromissos em longo prazo, sem permanência e portanto, carentes ou vazias de sentido. Mudam com extrema facilidade Voláteis, portanto.

Relações voláteis geram identidades igualmente voláteis. Incertas. Mutantes. Formam-se a partir delas personalidades auto-referenciadas, de uma autonomia não livre, mas compulsiva. São além disso identidades temporárias, que podem ser apagadas e substituídas por outros rótulos. A memória, atrofiada pelo ritmo da vida líquida pós-moderna, ensina que esquecer é o melhor, a fim de poder reescrever na lousa apagada uma nova identidade. Hoje me auto compreendo assim, amanhã já será diferente. São igualmente identidades plurais, abertas, sem escolhas ou decisões que empenhem a vida.

Os vínculos admitidos são aqueles que cabem nas redes, como Facebook, Orkut, etc. Ali não se depende de relações afetivas que pesam e tiram mobilidade. E quando a comunicação não mais interessar, pode-se cortá-la com a ligeireza de um click. E novamente mergulhar na mais profunda solidão e vazio de sentido a que este estado de coisas condena o sujeito pós-moderno. A única relação que não o ameaça é aquela que ele estabelece com o seu eu, convertido no mortal espelho de Narciso. Voltar-se para si mesmo é a única instancia dotada de certa permanência em um mundo complexo, incerto e inevitável.

A interioridade humana hoje vai se convertendo em um novo paradigma emergente. Trata-se, sem dúvida, de uma dimensão constitutiva do ser humano. O que se dá, no entanto, de fato, é um estreitamento da interioridade, que se vive em grande medida pelo fluxo sempre em movimento das sensações que absorvem, não favorecendo o encontro profundo com o próprio eu, e por conseguinte tampouco com o outro.

Por um lado, trata-se de um sintoma extremamente positivo, uma vez que denota o advento da já iniciada recuperação do espiritual como dimensão de importância iniludível na vida humana. Os seres humanos de hoje experimentam, de novo, aquilo que Santo Agostinho escreveu em seu memorável livro das Confissões: “Eu não amava ainda e amava amar: buscava o que poderia amar, amando amar”.

Por outro lado, esse voltar-se para dentro de si mesmo pode incluir e efetivamente inclui a tentação de esconder-se em si mesmo e terminar não conseguindo daí sair . E a conseqüência é o estreitamento da própria interioridade que tem como resultado o fechamento ao outro. E uma terrível e desesperadora solidão.

Os postos instáveis de trabalho nas grandes empresas, a convivência em espaços protegidos pelo medo àquilo que possa chegar desde fora, os espetáculos maciços de diversão, os transportes que levam de um lugar a outro incontáveis pessoas que viajam juntas sem encontrar-se, propiciam conexões funcionais e passageiras, que não deixam rastro na pessoa que se desloca sem pausa pelo mundo líquido.

O vazio que isto gera já é bastante para denunciar que o ser humano é constituído pelo primado da alteridade. Apenas nos olhos do outro vejo quem sou e descubro minha identidade que já não pode dispensar a diferença do outro para autocompreender-se. A intimidade do sujeito humano só existe habitada pela presença de um Mistério.

A volta à interioridade como paradigma não pretende ser, portanto, um ensimesmamento do eu. Mas sim a condição indispensável para o reconhecimento da Presença que habita o humano. E esse reconhecimento, por sua vez, exigirá da pessoa humana um êxodo, uma saída de si, em direção ao outro, humano e divino, em relação com o qual é imperioso entrar para re-encontrar-se e re-conciliar-se com sua identidade perdida. A volatilidade é inimiga desse fundamental encontro marcado desde toda a eternidade.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A propósito do Pai Nosso (2)



Damos hoje continuidade à proposta iniciada no domingo passado de publicar, em partes, a reflexão de Simone Weil sobre a oração do Pai Nosso. Para meditar, orar e, esperamos, aprofundar a fé. Um bom domingo a todos!

Seja feita a vossa vontade
Nós nunca estamos absoluta e infalivelmente certos da vontade de Deus, a não ser em relação ao passado. Todos os acontecimentos já sucedidos, quaisquer tenham sido, estão de acordo com a vontade do pai Todo-Poderoso. Isto está implícito na noção de onipotência. O futuro também, tal como venha a ser, uma vez consumado, o terá sido de acordo com a vontade de Deus. Não podemos acrescentar nem subtrair nada a esta conformidade. Então, após um apelo do desejo (venha a nós o vosso reino) em direção ao possível, uma vez mais pedimos aquilo que é (seja feita a vossa vontade). Mas não mais uma realidade eterna como é a santidade do Verbo. Aqui o objeto de nossa demanda é aquilo que se produz no tempo. Mas pedimos a conformidade infalível e eterna daquilo que se produz no tempo com a vontade divina. Depois de ter, pelo primeiro pedido, arrancado o desejo ao tempo para aplicá-lo ao eterno, e tê-lo assim transformado, nós retomamos este desejo, tornado ele próprio, de certa forma eterno, para aplicá-lo de novo ao tempo. Então nosso desejo rasga o tempo para encontrar atrás a eternidade. É aquilo que se passa quando sabemos fazer de todo acontecimento sucedido, qualquer tenha sido ele, um objeto do desejo. Eis aí algo totalmente diferente da resignação: a palavra aceitação mesma é muito fraca. É preciso desejar que tudo que aconteceu tenha sucedido, e nada além disto. Não porque o que tenha acontecido seja bom aos nossos olhos, mas porque Deus o permitiu, e porque a obediência do curso de acontecimentos a Deus é em si própria um bem absoluto.

Assim na terra como no céu
Esta associação de nosso desejo à vontade toda-poderosa de Deus deve estender-se às coisas espirituais. Nossas ascensões e quedas espirituais e aquelas dos seres que amamos mantém um relacionamento com o outro mundo, mas são também acontecimentos que se produzem aqui embaixo, no tempo. Neste sentido, cada detalhe neste imenso mar de acontecimentos está articulado com o todo de um modo conforme à vontade de Deus. Posto que nossas faltas anteriores já foram cometidas e nós devemos desejar que elas tenham sido cometidas. Devemos estender este desejo ao futuro, considerando o dia em que ele tenha se convertido em passado. Esta é uma correção necessária à demanda de que o reino de Deus venha a nós. Devemos abandonar todos os desejos por aquele da vida eterna, mas precisamos desejar a vida eterna, ela própria, com desprendimento. O apego à salvação é ainda mais perigoso que os outros. É preciso pensar na vida eterna como pensamos na água quando mortos de sede, e ao mesmo tempo desejar para si e para os seres queridos a privação eterna desta água, mais do que estar plenos dela contra a vontade de Deus, se tal coisa fosse concebível. As três demandas precedentes estão relacionadas às três Pessoas da Trindade, o Filho, o Espírito e o Pai, e também às três partes do tempo: o presente, o futuro e o passado. As três demandas seguintes se referem mais diretamente às três partes do tempo em outra ordem, presente, passado, futuro.

_______________
Texto original:

WEIL, Simone. À propos du "Nôtre Père", In Attente de Dieu. Paris: Flamarion, 1996. Tradução de Elisa Cintra.

Tradução publicada originalmente no site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Eu não quero voltar sozinho


Embora esteja rodando na rede desde pelo menos o final de 2010, este curta delicado, produzido pela Lacuna Filmes, foi um dos hits desta semana. Se você ainda não viu, vale a pena.

Bom sábado! :-)

Melhores tweets dos últimos tempos do resto da última quinzena (2)

Ilustração: Betsy Thompson


...E publicamos, enfim, os melhores tweets do resto da última quinzena do @divcatolica, completando a antologia iniciada na quinta-feira. :-)

Homossexuais protestam contra proibição de doar sangue. http://migre.me/3N5hU RT@homorrealidade

Associação Brasileira de LGBTs faz carta aberta pelo desarquivamento de lei contra homofobia: Na terça-feira 1° ... http://bit.ly/fUNAfs RT@paroutudo

RT @freibetto Nove Igrejas evangélicas ocupam em 6 canais de TV 307 horas semanais. A católica ocupa, em 3 canais, 4h40min // o horror... RT@Gilscofield

Homoparentalidade e a história real de uma família "moderna" :-) http://migre.me/3NgRM (em inglês)

Pastores americanos estão exportando intolerância para Uganda, com resultados brutais http://migre.me/3NhoP

[Blog] Download da Revista Íconos da FLACSO com o dossiê chamado “Como se pensa o queer na América Latina?” http://bit.ly/hTdr6P RT@PedagogiaQueer

Relatório Kinsey (1978): 64% dos gays não eram promíscuos, 39% mantinham um vínculo amoroso estável... http://tl.gd/7tipki RT@reginanavarro

Já não era sem tempo: Ministro da Saúde defende fim de portaria que proíbe gays de doarem sangue http://migre.me/3PwBw RT@Mix_Brasil

Tema da parada de São Paulo quer chamar atenção para o conservadorismo religioso http://mixbrasil.uol.com.br/t/0vT4Xh RT@Mix_Brasil

Legislativo retorna ao trabalho em dívida com a comunidade LGBT - texto de George Lima - http://migre.me/3PyBh RT@homorrealidade

MEC vai distribuir seis mil kits "anti-homofobia" para a rede pública - http://migre.me/3PyCV RT@homorrealidade

Governo Federal lançará telefone de denúncia de homofobia, dia 19. http://bit.ly/f7H8tL - #homofobiaNAO RT@homofobiaNAO

Sobre o novo quadro gay da TV Globo: SIM, NÓS (GAYS) TEMOS PINTO! http://migre.me/3PYox RT@paradiversidade

"Priscilla, a Rainha do Deserto" invade a Broadway http://t.co/2qqF9 RT@ACapacombr

Ativistas polemizam sobre uso de tema religioso na 15ª Parada Gay de São Paulo http://t.co/pXPYz RT@ACapacombr

Desarquivado, projeto que criminaliza homofobia volta a tramitar http://migre.me/3Qavv

Igreja Católica nos #TT graças a novo app para iphone q orienta exame de consciência para confissão. http://migre.me/3Qbxr

Igreja Católica nos #TT, graças à Apple! E o povo dá opinião, critica, elogia, sem de ler o artigo todo do novo APP, rs rs... RT@luizkauffman

Quem não é católico e não sabe nem o que é confissão está falando o que? APP simplesmente ajuda no exame de consciência... Igreja católica RT@murilloste

Psicólogos aprovam vídeos contra homofobia nas escolas - (@bloguedosouza) http://migre.me/3Qqi1 RT@M100Globope http://migre.me/3QrhD

E a Cristina Mortágua, hein? http://tonygoes.blogspot.com/2011/02/agua-morta.htm RT@TonyGoes

Leitores da Playboy querem capa com Ariadna http://migre.me/3QrjH

Julgamento dará definição mais clara a direitos de homossexuais http://migre.me/3QSL6

Entidades LGBT solicitam que OAB se posicione qto à portaria da Anvisa sobre doação de sangue por gays http://migre.me/3QTjQ

Conselho Federal de Psicologia deu parecer técnico favorável sobre material educativo do Projeto Escola Sem Homofobia http://migre.me/3QTnW

"Será uma música muito gay", diz Perez Hilton sobre novo single de Lady Gaga acapa.co/?n=12707

Marcio Retamero comenta a escolha do tema religioso p/ a parada gay de SP este ano. Crítico e lúcido, vale a leitura. http://migre.me/3RcG6

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Seja como for

Ilustração: Sarah Ahearn

Não queremos ser diferentes, e, sim, que todo mundo tenha o direito de ser como é.
- Renato Russo

Imagem de Deus e Diversidade (2): a Revelação é um processo


Reproduzo abaixo a segunda parte do artigo Imagem de Deus e Diversidade, publicado originalmente no nosso site e cuja reprodução neste blog começou na quarta-feira. Após abordar o papel da Igreja, da Teologia e da Revelação e a impossibilidade de essas instâncias virem a esgotar Deus, reflito agora sobre a mediação humana e o caráter histórico da Revelação.

Igualmente importante é compreendermos que mesmo o dado objetivo, o conhecimento real que nos vem pela Revelação divina, não está isento de ser também uma palavra humana, ou melhor, de ser uma experiência do “dar-se” amoroso de Deus que se realiza efetivamente por meio de ações e palavras humanas.

Muitas vezes nós temos a romântica compreensão de que a Revelação significaria um rasgo no humano, uma interrupção que poria no meio da transitoriedade do tempo, das variações da cultura, algo eterno, no sentido em que cada palavra ou compreensão ligada à Revelação não estaria subjugada aos ritmos das palavras humanas, que se fazem e modificam ao longo de um processo. Tendemos a achar que, sendo divina, a Revelação nos chega pronta e definitivamente esclarecida e assim permanece para sempre.

No entanto, Deus, querendo se comunicar aos seres humanos, o faz encarnando-se numa dinâmica tipicamente humana. A Revelação não surge como um dado objetivo que rasga a história em um momento privilegiado, mas é fruto de um longo processo no qual, através dos acontecimentos – desde os mais incríveis aos mais ordinários da vida de um povo –, Deus vai costurando um sentido para tudo e por meio da sua inspiração, permite ao ser humano, compreendê-lo e comunicá-lo de forma fidedigna.

Esta historicidade da Revelação, afirmada pelo Concílio Vaticano II de forma tão clara, é importante porque une dois polos aparentemente separados: o tempo e a eternidade, o definitivo e o efêmero. E une não de maneira justaposta, superficial, mas faz com que o humano se torne a mediação do divino, até o ponto de, se no pensamento ainda é possível uma distinção entre ambos, na concretude da vida, jamais. É por isso que olhamos para um judeu do Oriente Médio que viveu algumas poucas décadas e afirmamos a seu respeito: Deus.

Teologia e História: a propósito da divergência

Foto: Wai Leong

Com frequência nos deparamos com opiniões diferentes das nossas. São muito diversos os pontos de vista das pessoas acerca do significado de palavras como "Igreja", "lei", "moral", "dogma". Nem haveria como ser diferente, dado que mesmo no Magistério da Igreja Católica, mesmo entre teólogos - que se dedicam toda a vida a estudar as questões ligadas à Revelação - não existe uma voz única. Mesmo aí, há dissonâncias e dissensões. E nem aí - ou sobretudo não aí - estamos livres de paradoxos e contradições.

Existe, por certo, uma orientação atualizada quanto à postura oficial do Magistério, contida no Catecismo da Igreja Católica. Entretanto, para entendermos a razão das dissensões e paradoxos, é fundamental que não percamos a História de vista. A Revelação não é algo fechado, que já foi dado por Deus ao ser humano e que cabe a este simplesmente compreender. Ela se dá ao longo da História da humanidade, no decurso da qual Deus se vai dando a conhecer ao homem, segundo os desígnios da Sua vontade. Isso explica por que posições do Magistério que já foram oficiais hoje não são mais; por que o Catecismo é periodicamente reeditado, refletindo alterações e atualizações da doutrina; e por que acontece de mesmo dogmas, as mais altas verdades da doutrina católica, eventualmente poderem ser abolidos - vide o dogma da infalibilidade papal, por exemplo, e tantos pedidos de perdão feitos pela Igreja neste século e no anterior.

Com relação à homossexualidade especificamente (já que nosso tema aqui é "como conciliar a dupla identidade gay e cristã?"), a atual orientação oficial do Vaticano com relação a gays, tal como expressa no Catecismo (CIC 2357-59), é que o gay é criado por Deus como tal e - nunca é demais frisar - deve ser objeto de respeito e acolhimento. Porém, o Catecismo diz também que o ato homossexual implica numa "paixão desordenada" e, como tal, deve ser evitado. A classificação como "paixão desordenada" está de acordo com uma determinada definição de "lei natural" que, atualmente, é objeto de muitos questionamentos e críticas, num campo da Teologia - a Teologia Moral - que vive uma grande ebulição, típica dos momentos de transição e mudança.

A Teologia e a expressão da doutrina cristã católica são campos vivos e pujantes, em constante diálogo com seu tempo. Se assim não for, estarão fadadas a deixar de responder aos anseios dos homens, de ajudá-los em sua caminhada em busca de Deus, que é sua função.

* * *

Atualização de 16/02/2011:
A troca de ideias que nasceu nos comentários deste post (abaixo) acabou dando origem a um novo texto nosso, intitulado "Nosso testemunho". Confira e dê sua opinião! :-)

Entender as leis como Jesus


O teólogo basco Jose Antonio Pagola, em artigo reproduzido no Amai-vos, tece algumas considerações sobre a Lei, o legalismo/fundamentalismo e como Cristo entendia a Lei.

Os judeus falavam com orgulho da Lei de Moisés. Era a melhor prenda que tinham recebido de Deus. Em todas as sinagogas guardavam-na com veneração dentro de um cofre depositado num lugar especial. Nessa Lei podiam encontrar tudo quanto necessitavam para ser fiéis a Deus.

Jesus, no entanto, não vive centrado na Lei. Não se dedica a estudá-la nem a explicá-la aos Seus discípulos. Não se O vê nunca preocupado por observá-la de forma escrupulosa. Certamente, não coloca em marcha una campanha contra a Lei, mas esta não ocupa já um lugar central no Seu coração.

Jesus procura a vontade de Deus a partir de outra experiência diferente. Sente Deus tratando de abrir caminho entre os homens para construir com eles um mundo mais justo e fraterno. Isto muda tudo. A lei não é já o decisivo para saber que espera Deus de nós. O primeiro é "procurar o reino de Deus e a Sua justiça".

Os fariseus e os letrados preocupam-se em observar rigorosamente as leis, mas desleixam o amor e a justiça. Jesus esforça-se por introduzir nos Seus seguidores outro perfil e outro espírito: «se a vossa justiça não é melhor que a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino de Deus». Há que superar o legalismo que se contenta com o cumprimento literal das leis e normas.

Quando se procura a vontade do Pai com a paixão com que a procura Jesus, vai-se sempre mais longe do que dizem as leis. Para caminhar para esse mundo mais humano que Deus quer para todos, o importante não é contar com pessoas observantes de leis, mas com homens e mulheres que se pareçam a Ele.

Aquele que não mata, cumpre a Lei, mas se não arranca do seu coração a agressividade para com o Seu irmão, não se parece a Deus. Aquele que não comete adultério, cumpre a Lei, mas se deseja egoisticamente a esposa do seu irmão não se assemelha a Deus. Nestas pessoas reina a Lei, mas não Deus; são observantes, mas não sabem amar; vivem corretamente, mas não construíram um mundo mais humano.

Temos de escutar bem as palavras de Jesus: «Não vim abolir a Lei e os profetas, mas dar plenitude». Não veio atirar por terra o patrimônio legal e religioso do antigo testamento. Veio para «dar plenitude», a alargar o horizonte do comportamento humano, a libertar a vida dos perigos do legalismo.

O nosso cristianismo será mais humano e evangélico quando aprendermos a viver as leis, normas, preceitos e tradições como os vivia Jesus: procurando esse mundo mais justo e fraterno que quer o Pai.


Para refletir: como temos vivido a Lei? Ela tem de fato nos ajudado na construção do Reino?

Um bom fim de semana a todos! :-)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

PLC 122/06, Homofobia e Religião e "nós com isso"?


Uma série de iniciativas este ano vem colaborando para um diálogo produtivo e aproximando partes da sociedade cujo diálogo é de fundamental importância.

Anteontem, a Agência Senado divulgou oficialmente em seu site que:

“(...) o Plenário votou o requerimento que desarquiva o projeto de lei da Câmara (PLC 122/06) que torna crime a discriminação de homossexuais, idosos e deficientes. O PLC, popularmente conhecido como o projeto que criminaliza a homofobia, deixará o arquivo devido a requerimento protocolado nesta segunda-feira (7) pela senadora Marta Suplicy (PT-SP).

O projeto, que chegou ao Senado no final de 2006 e desde então tem suscitado bastante polêmica, já havia sido examinado pela Comissão de Assuntos Sociais (CAS) e será encaminhado agora à Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) e à Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ).”

Além do movimento político para a criminalização da homofobia, há também a imensa contribuição social das entidades militantes, que vêm neste momento oportunamente tocar no assunto e ir ao cerne da questão do preconceito: o campo religioso.

Concretamente, a Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo (APOGLBT), entidade responsável pela organização da atividade, divulgou o tema oficial da 15a Parada Gay. Trata-se de um questionamento  do conservadorismo religioso:

“Amai-vos uns aos outros: basta de homofobia!”

Assim, propõe-se à sociedade uma reflexão acerca da constante oposição de determinadas igrejas aos avanços dos direitos humanos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.

“A ideia é tocar no ponto das Igrejas de uma forma abrangente, universal. Ao dizermos ‘amai-vos uns aos outros’ estamos protestando pela igualdade social entre todos os homens, com um apelo fraterno. Soma-se a isso a valorização e a prática dos direitos humanos”, explica Ideraldo Beltrame, presidente da APOGLBT.

Nosso viés religioso-cristão-católico nos coloca nesta discussão, uma vez que nossa proposta é “ser um núcleo de vivência e aprendizado cristão e um canal permanente de comunicação entre grupos gays e grupos católicos.”

Esperamos, enquanto cristãos, contribuir nestes produtivos diálogos que se desenrolam este ano, com a mesma esperança e fé de que nossa sociedade será mais justa que qualquer outro membro da comunidade LGBT.

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Além da parada gay em si, maior evento da cidade de São Paulo, que tradicionalmente acontece na Avenida Paulista e Rua da Consolação e neste ano será em 26 de junho, a entidade organiza em 2011 a 9ª edição do Ciclo de Debates, a 11ª Feira Cultural LGBT, o 11º Prêmio Cidadania em Respeito à Diversidade e o 11º Gay Day.

Fontes:
APOGLBT
Agência Senado

Melhores tweets dos últimos tempos da última quinzena (1)

Ilustração: Betsy Thompson

Desde a nossa última antologia de tweets do @divcatolica, foram tantas as notícias, escritos e curiosidades dignos de nota que não cabe num post só. :-)

Segue uma seleção de 25 a 31 de janeiro - e continua no sábado! :-)

RT @blogentrenos: Revista gay da Índia provoca revolução http://migre.me/3Qoqy

Atenção, viajantes: nem toda bandeira arco-íris representa LGBTs. http://migre.me/3K2dd RT@homorrealidade

Em tempos de ti-ti-ti por conta de transexuais, homofobia e BBB, uma iniciativa oportuna: http://twitpic.com/3t9xvk

Campanha espalha retratos de famílias gays pela Califórnia p/ estimular gays a ter filhos e desestigmatizar o assunto http://migre.me/3KpRI

Curso: Diversidade Sexual, Cidadania e Fé Cristã, no Centro Loyola (PUC-Rio), abril-junho/2011. Veja o vídeo: http://migre.me/3Kq0g

Que a conversão de Saulo de Tarso, celebrada ontem, inspire nossa conversão diária... Breve e bela reflexão em http://migre.me/3KqTd

O perigo do populismo religioso: por que não escolher os governantes apenas c/ base em sua fé. Pr. Eduardo R. Pedreira http://migre.me/3Krbs

Cataratas do Iguaçu terão seu primeiro Casamento Gay. http://migre.me/3KtKF - Quase Niagara! (http://migre.me/3Ku3o, rs) RT@homorrealidade

Solidariedade: embora hetero, cantor Jason Mraz só se casará qdo casamento homossexual for aprovado. http://migre.me/3KtGa RT@homorrealidade

29/01, sábado, é Dia da Visibilidade Trans. Governo do RJ lança material informativo sobre direitos de travestis e transexuais http://twitpic.com/3tk4gj

"Nenhum americano será proibido de servir ao país que amam por causa de quem eles amam." Barack Obama Presidente dos EUA / Que lástima não vermos isso no nosso país! parabens ao Pres Obama e a Pres Kirchner (segue sobre o disc do Obama) http://bit.ly/f3xNHm RT@CarlosTufvesson

...E a versão brasileira da campanha It Gets Better está quase pronta: http://migre.me/3KTgl

"A segunda transformação de Ariadna" - e o que a derrubou não foi homofobia, por @TonyGoes http://migre.me/3KU98

Transexual brasileira entra na lista de modelos mais importantes do mundo http://migre.me/3KWGT RT@tsitonio

Leia na íntegra o texto de Guacira Louro: Gênero e sexualidade: pedagogias contemporâneas. http://www.scielo.br/pdf/pp/v19n2/a03v19n2.pdf RT@fernandofbali

Filho de Cher lança documentário sobre seu processo de adequação de sexo. Veja cenas. http://migre.me/3L1eT RT@gaybrasil

Revista faz linha do tempo com personagens gays adolescentes de séries americana http://t.co/EsNFV RT@ACapacombr

Márcio Retamero: O autoconhecimento é libertador http://t.co/W08JU RT@ACapacombr

Quem tem medo da laicidade? Artigo de Debora Diniz. http://bit.ly/hKVVlt RT@anis_bioetica

Biografia sobre Sal Mineo, ídolo gay dos anos 50, é lançada nos EUA acapa.co/?n=12608 RT@ACapacombr

"Heterossexualidade presumida e homofobia internalizada" - artigo interessante, vale o clique. :-) http://bit.ly/ejGIM7 RT@mixbrasil

Coral reúne travestis e homossexuais no Centro de São Paulo http://ow.ly/3MeRY #vozesdadiversidade RT@revista_trip @JorgeLeitte

Gays > O Relatório Kinsey sobre a homossexualidade, publicado em 1978, apresenta o resultado de uma pesquisa (cont)http://tl.gd/7tipki RT@reginanavarro

Está faltando comunicação - RT@SanPabloAr http://migre.me/3MzH0 Vale a leitura (em espanhol)

Governo federal entrega prêmio literário a seis travestis http://migre.me/3MDke RT@gaybrasil

Já são 23 as manifestações de visibilidade LGBT agendadas no Brasil neste ano http://mixbrasil.uol.com.br/t/MSdkdf RT@Mix_Brasil

Apple lança livro infantil abordando a diversidade em versão Ipad. Público infantil poderá interagir c/ as ilustrações http://migre.me/3MKdC

Entre Nós: Participe: Assine o manifesto e apóie o kit de combate à homofobia nas escolas... http://migre.me/3QoM3 RT@blogentrenos

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Imagem de Deus e Diversidade (1): Igreja, Teologia e Revelação


Reproduzo abaixo a primeira parte do artigo Imagem de Deus e Diversidade, publicado originalmente no nosso site e que vou postar em partes no blog ao longo do mês de fevereiro. Começo refletindo sobre o papel da Igreja, da Teologia e da Revelação, e a impossibilidade de essas instâncias virem a esgotar Deus.

A Igreja não se pretende uma realidade absoluta, definitiva em si mesma. Ela não é o Reino de Deus, mas o prepara neste mundo, proclamando a palavra que convida todos a ele e iniciando-o e fazendo-o crescer na vida dos fiéis, pela Graça divina, que nela habita.

A função da Igreja – que inclusive fornece uma das denominações do papa – é ser pontífice, ponte, ligação com o Divino Mistério que se comunica para reunir os homens em comunhão definitiva e plena no amor. A reunião preparatória para esta comunhão total, onde “Deus será tudo em todos” (I Cor 15,28), é a Igreja.

Sendo a Igreja referência para um Outro que não ela mesma, deve discernir, em cada época histórica, como fazer com que a experiência salvífica de Jesus Cristo chegue a todos os seres humanos. Ela não anuncia a si mesma, mas a Cristo; não é juíza dos homens e da História, mas procura discernir os espíritos de cada tempo e escutar em cada época a vontade de Deus que, se está presente de forma definitiva na Revelação da qual ela é portadora, não deixa de ser compreendida sempre de maneira nova e mesmo de crescer, graças à constante inspiração do Espírito, na medida em que outras questões surgem na sociedade humana.

Se é a Deus que a Igreja procura estar sempre cada vez mais unida para discernir os tempos, se ela existe na função de congregar os seres humanos na comunhão divina que um dia se dará de forma plena, é de capital importância a compreensão que a Igreja tem a respeito de Deus.

A princípio, esta afirmação pode parecer a mais óbvia e a que suscita menos problemas de qualquer espécie. Se a Igreja é portadora da Revelação, e nela é Deus quem se dá a conhecer, se o Magistério tem em sua formação anos de Teologia e uma série infindável de cursos e retiros, parece certo que aquilo que a Igreja sabe sobre Deus e proclama é o absolutamente certo.

E o é, desde que estejamos atentos às nuances desta afirmação. Em primeiro lugar, a Revelação não significa um esgotamento do mistério divino, que, então, seria totalmente compreensível ao ser humano. Deus revelou aquilo e tudo aquilo que quis, o necessário para a realização de seu plano de salvação, mas jamais é, e nem será, um objeto do nosso conhecimento como outro qualquer.

Esse caráter dialético de Revelação-Mistério, apesar de se aplicar de maneira plena ao ser divino, pode ser observado também em outras realidades, que talvez nos ajudem a entendê-lo melhor. Pensemos sobre a vida, por exemplo. Nós somos seres viventes, refletimos sobre a vida, podemos fazer afirmações muito acertadas sobre ela. Mas jamais a vida pode ser totalmente definida num conceito. Ela não cabe numa única ideia ou mesmo num conjunto imenso delas. Sempre algo fica de fora, não porque foi esquecido, mas por que não há como dizê-la totalmente. É algo sempre aquém das nossas capacidades. O mesmo pode se dizer sobre tantas outras realidades. Este caráter de mistério presente em todas elas aponta, participa do Mistério último de tudo que chamamos simplesmente de “Deus”.

Portanto, nem a Revelação, nem a Teologia podem esgotar Deus. Já os antigos diziam que os estudos teológicos deveriam ser feitos “de joelho”, ou seja, com a consciência de estarmos diante do insondável mistério divino.



Continua na sexta-feira, ao meio-dia. :-)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Masculino e feminino não existem? Um questionamento sobre os estereótipos de gênero


Alguma coisa está fora da ordem. A maioria de nós cresceu sob o signo de determinadas expectativas acerca dos papéis do homem e da mulher na sociedade, apesar da eclosão do feminismo e da luta pela igualdade de direitos das mulheres desde pelo menos o final do século XIX. A maioria de nós cresceu sob o signo da família nuclear composta por pai, mãe e filhos de um casamento monogâmico e vitalício, ainda que o divórcio tenha se disseminado a partir dos anos 60 e sejam cada vez mais raros os nascidos depois de 1980 que ainda tenham os pais vivendo o mesmo relacionamento estável e satisfatório após décadas de união. A maioria de nós anseia pelo encontro da sua cara metade, o/a parceiro/a ideal que nos completará e acompanhará pelo resto da vida - embora as estatísticas apontem para relacionamentos cada vez mais curtos e voláteis. Por que tamanho descompasso entre os fatos concretos e nossos conceitos sobre família, sexualidade e relacionamento amoroso, idealizações cada vez mais distantes da realidade?

A psicanalista Regina Navarro Lins, pesquisadora e autora de livros sobre sexualidade e relacionamento amoroso, vem procurando demonstrar que nossas ideias acerca de sexualidade, família, relações de casal, papéis sociais do homem e da mulher e dos próprios conceitos de masculino e feminino pertencem a um determinado contexto histórico, social e cultural; e, sendo conceitos histórica, social e culturalmente localizados, é natural que se transformem acompanhando a mudança permanente dessas três instâncias.

Natural, mas não fácil, e muito menos tranquilo. Todo sistema resiste à mudança. As crenças de que apenas o homem e a mulher exclusivamente heterossexuais obedecem à ordem ou Lei natural e de que qualquer outra variante do espectro da diversidade sexual é aberrante; de que as mudanças são decorrentes de um afrouxamento da moral ou uma crise dos bons costumes - talvez não passem de uma reação conservadora natural, e violenta, de uma sociedade sacudida pela transformação.

O medo e a raiva naturais diante da mudança exigem a identificação de um culpado e o sacrifício de um bode expiatório. E, nesse sentido, um dos alvos centrais têm sido os gays - os gays, que, por sua própria existência, crescente visibilidade e aceitação que se vai gradualmente disseminando nos diferentes extratos sociais, representam para muitos a grande ameaça aos ideais de casamento e família que parecem hoje ruir.

Em meio à convulsão da mudança e à brutalidade das oposições, exacerbações e radicalismos florescem de parte a parte. Porém, toda defesa extremada de qualquer posição é aprisionante. Converter conceitos próprios de um dado meio, lugar ou época em verdades universais e categorizá-los em certo ou errado, bom ou mau, dificilmente não vai implicar em restringir a liberdade fundamental do ser humano e aviltar sua dignidade. E isso vale para os dois lados de qualquer disputa.

Mudar não é fácil, porque crescer dói.

* * *

Reproduzimos a seguir um interessante texto em que Regina Navarro Lins debate justamente os estereótipos de gênero e aponta para seu atual processo de transformação. Os grifos são nossos.

Masculino e feminino não existem

“A mulher pode ser feminina e ao mesmo tempo ser autônoma?” Fiz essa pergunta para mais de cem pessoas, homens e mulheres com idades variando de 20 a 55 anos. As respostas foram instantâneas e veementes: claro, lógico, óbvio. Em seguida coloquei a segunda questão: O que é uma mulher feminina? O comportamento de todos foi semelhante. Silêncio por algum tempo, como se tivessem sido pegos de surpresa. Hesitantes e confusas, as pessoas tentavam explicar.

Reunindo todas as respostas, surgiu o perfil da mulher feminina: delicada, frágil, sensível, cheirosa, dependente, pouco competitiva, se emociona à toa, chora com facilidade, indecisa, pouco ousada, recatada. Concluí, então, que a mulher considerada feminina é uma mulher estereotipada. Por isso, uma mulher não pode ser autônoma e feminina ao mesmo tempo. Autonomia implica ser você mesma, sem negar ou repudiar aspectos de sua personalidade para se submeter às exigências sociais.

É incrível, mas Vinicius de Moraes, considerado o poeta que amava as mulheres, em Samba da benção mostra a expectativa que se tem delas: “Uma mulher tem que ter qualquer coisa além de beleza, qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade; um molejo de amor machucado, uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e ser só perdão.”

Sem dúvida, na nossa cultura patriarcal, a mulher feminina renuncia a parte de si mesma, na tentativa de corresponder ao que dela se espera. O mesmo ocorre com o homem masculino. Suas características são, certamente, a força, o sucesso, a coragem, a ousadia, e tantas outras do gênero, sem esquecer, claro, aquela cobrança que atormenta todo menino: “Homem não chora.” São todas metas inatingíveis para a maioria e os homens estão esgotados.

Mas de onde surgiu essa diferença tão profunda entre os sexos? É uma antiga e longa história. Quando o sistema patriarcal se estabeleceu entre nós, há 5 mil anos, dividiu a humanidade em duas partes— homens e mulheres— e colocou uma contra a outra. Determinou com clareza o que era masculino e feminino, subordinando ambos os sexos a esses conceitos. E ao fazer isso, dividiu cada indivíduo contra si próprio, porque para corresponder ao ideal masculino ou feminino da nossa cultura, cada um tem que rejeitar uma parte de si, de alguma forma, se mutilando.

Tanto é assim, que a primeira coisa que se quer saber quando um casal vai ter um filho é o sexo da criança. Mesmo antes do nascimento o papel social que ela deverá desempenhar está claramente definido: masculino ou feminino. Os padrões de comportamento são distintos e determinados para cada um dos sexos. Os meninos são presenteados com carrinhos, revólveres e bolas, enquanto as meninas recebem bonecas, panelinhas e mamadeiras. E isso é só o início. A expectativa da sociedade é de que as pessoas cumpram seu papel sexual, que sofre variações de acordo com a época e o lugar. Até algumas décadas atrás, não se admitia que um homem usasse cabelo comprido e muito menos brinco. Eram coisas femininas. As mulheres, por sua vez, não sonhavam usar calças, nem dirigir automóveis. Era masculino.

Na realidade, a diferença entre os sexos é anatômica e fisiológica, o resto é produto de cada cultura ou grupo social. Tanto o homem como a mulher podem ser fortes e fracos, corajosos e medrosos, agressivos e dóceis, passivos e ativos, dependendo do momento e das características que predominam em cada um, independente do sexo. Insistir em manter os conceitos de feminino e masculino é prejudicial a ambos os sexos por limitar as pessoas, aprisionando-as a estereótipos.

E você, o que acha de tudo isso? Deixe suas opiniões nos comentários! :-)
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Reproduzido com autorização da autora. Publicado originalmente via twitter @reginanavarro

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O Cristianismo: uma religião ou a saída da religião?

Foto: Kenji Aoki

Reproduzimos abaixo um artigo de Maria Clara Bingemer,  professora do Departamento de Teologia e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, publicado originalmente no site do CCB (Centro Cultural de Brasília). Os grifos são nossos.

Sempre nos pareceu muito evidente afirmar que o Cristianismo é uma religião. Pois na verdade isso não é tão claro assim. Cada vez mais a teologia se inclina por afirmar que o Cristianismo não pode ser definido como uma religião.O que significa isso? Na verdade, muitas coisas e que, se pensarmos bem, não irão nos parecer tão estranhas. Comecemos do começo. Ou melhor: comecemos por Jesus de Nazaré. Será que podemos afirmar que Jesus queria fundar uma religião?

Achamos que não. Jesus já tinha uma religião e não pensava em escolher outra. Era um judeu piedoso e fiel. O que o incomodava, justamente, era aquilo que os especialistas da religião haviam feito com a fé de Israel. Ao ler os quatro evangelhos, vemos claramente que a disputa de Jesus com os mandatários de sua religião se centra na distorção ou deturpação da imagem de Deus que os que se acreditavam donos da religião, do templo e da lei haviam feito. Haviam posto sobre os ombros do povo um peso tão absolutamente insuportável que era impossível de carregar. Um sem número de rubricas, ritos, prescrições.

Uma severidade implacável para com o cumprimento de todas essas mínimas normas e uma crueldade com as pessoas mais simples e humildes que não conseguiam cumpri-las por não terem condições de fazê-las. Jesus percebia que segmentos inteiros do povo eram declarados sem Deus: doentes, leprosos, pecadores. E que várias categorias de pessoas eram tratadas como cidadãos de segunda categoria dentro deste mesmo povo: mulheres, crianças.

A esses então Jesus anuncia uma boa notícia, um Evangelho: o projeto do Pai, o Reino é para eles também. Mais ainda: eles serão os primeiros a entrar, pois são humildes, se reconhecem pecadores, se sabem necessitados de misericórdia e perdão e não se acham donos inexpugnáveis e sobranceiros do dom de Deus que ninguém pode se arvorar em possuir.

Ao fazer isso, Jesus não queria atacar nem agredir a religião de seus pais, na qual havia nascido e a qual amava. Desejava apenas que a pureza do ideal da Aliança que sustentou a história e a caminhada de Israel pudesse continuar e crescer em toda a sua pureza. Porém por isso mesmo foi considerado blasfemo. Acusaram-no de agir contra a religião, de colocar em perigo a religião vigente que emanava do Templo de Jerusalém.

E por isso fazem um complô para matá-lo. E efetivamente o matam. É algo que deve fazer-nos pensar que quem matou Jesus não foi um grupo de bandidos e fora da Lei. Pelo contrário, foram homens considerados de bem, guardiães da ordem e da religião. Por crê-lo inimigo da religião de Israel, acreditaram dever eliminá-lo. Temiam que ele quisesse acabar com a religião e trazer uma nova religião. Na verdade a proposta de Jesus não é a de uma religião, e sim de um caminho: o caminho do amor, da justiça, da fraternidade.

O caminho da experiência de ser filhos de um Deus que é Pai bondoso, amoroso, misericordioso. E por isso, ser irmãos uns dos outros. Assim fazendo, Jesus desloca o eixo da presença de Deus do Templo para o ser humano. Anuncia que quando alguém está ferido à beira do caminho há que deter-se e socorrê-lo, atendê-lo, com todo o amor e desvelo possíveis. E não ir correndo para o templo porque se está atrasado para a celebração.


Quem se detém e pratica o amor para com o próximo ferido e desamparado, encontra a Deus. Mesmo que seja um idólatra, como o samaritano do capítulo 10 do evangelho de Lucas. Mesmo que esse Deus se revele fora do Templo e das rubricas da Lei. Com a morte de Jesus e a experiência de sua ressurreição, seus seguidores começaram a anunciar seu nome e um movimento de fé começou a criar-se em torno dele. E essa fé necessitava de uma religião para expressar-se. Por isso tomou os ritos do judaísmo e acrescentou outros.

O Cristianismo nascente tentou ficar dentro da sinagoga. Não foi possível e o próprio Paulo - judeu filho de judeus, circuncidado ao oitavo dia, da tribo de Benjamin, formado aos pés de Gamaliel -, com muita dor na alma, foi quem chefiou o movimento de ruptura e ida aos gentios. Espalhou-se pelo mundo a nova proposta, cresceu e configurou todo o ocidente. Aquilo que começara humildemente em Nazaré da Galiléia, com o carpinteiro fazedor de milagres que chamava Deus de "Abba" (Paizinho) tornava-se, sobretudo depois do século IV, a religião mais poderosa e hegemônica do mundo.

Foi preciso que houvesse a virada da modernidade, o declínio do mundo teocêntrico medieval, que o Cristianismo perdesse o poder que tinha de instância normativa dentro da sociedade para que aparecesse a verdade inicial em toda a sua pureza. O Cristianismo não é uma religião. Ou, se for, é uma religião da saída da religião. É um caminho de fé que opera pelo amor, um estilo de viver, nas pegadas de Jesus de Nazaré, que passou pelo mundo fazendo o bem. O que isso quer dizer para nós hoje? Que tudo que é religioso é mau? De forma alguma.

Os gestos, os rituais, as normas, as formulas religiosas são boas desde que enunciem a verdade de uma fé, de um sentido de vida que se expressa na abertura a Deus e ao outro. E por isso são relativas. Pode ser que algumas expressões religiosas que foram muito adequadas a determinada época histórica sejam extremamente inadequadas a outra ou outras. O único absoluto é Deus. O resto... é resto mesmo. Isso é que, hoje como ontem, o Cristianismo é chamado a proclamar diante do mundo.

Para reflexão: em que medida o movimento de inclusão dos tradicionalmente excluídos (inclusive em virtude de sua orientação sexual, mas não só eles) nos diferentes segmentos do cristianismo não poderia contribuir para a passagem humana de uma vivência agrilhoante da Lei para a libertação proclamada pela Boa Nova, a Lei do Amor?

Boa semana a todos!

domingo, 6 de fevereiro de 2011

A propósito do Pai Nosso (1)


Publicamos aqui, a partir de hoje e pelos próximos 4 domingos, a linda reflexão de Simone Weil sobre a oração do Pai Nosso. Para meditar, orar e, esperamos, aprofundar a fé. Um bom domingo a todos!

Pai-nosso que estais nos céus
Ele é nosso Pai, não há nada de real em nós que não proceda dele. Nós pertencemos a ele. Ele nos ama, posto que ama a si próprio e que pertencemos a ele. No entanto é o Pai que está nos céus. E não em outra parte. Se acreditássemos ter um Pai aqui em baixo, seria um falso Deus (um ídolo ou ideal ). Não podemos dar um único passo em direção a Deus. Pois não sabemos caminhar verticalmente. Não podemos dirigir a ele a não ser o nosso olhar. A questão, portanto não é sair em sua busca, mas apenas mudar a direção do olhar. É tarefa dele, vir atrás de nós. É preciso alegrar-se por saber que ele está infinitamente além de nosso alcance. Sabemos então que o mal em nós, mesmo se puder nele submergir todo o nosso ser, não poderá de maneira alguma manchar a pureza, a felicidade e a perfeição divinas.

Santificado seja o teu Nome
Somente Deus tem o poder de se nomear a si próprio. O seu nome é impronunciável para os lábios humanos. O nome dele é a Palavra. É o Verbo. (É o Logos). O nome dos seres em geral é uma ponte entre o espírito humano e aquele ser, o único caminho por onde o espírito humano pode captar alguma coisa daquele ser quando está ausente. Deus está ausente, está nos céus. Seu nome é para o homem a única possibilidade de ter acesso a ele. É o Mediador. (É Cristo, o Amor Misericordioso). O homem tem acesso ao nome, embora ele também seja transcendente. Este nome – é o Logos eterno que brilha na beleza e na ordem do mundo e na luz interior da alma humana. Este nome é santidade, ela própria, não há nenhuma santidade fora dele, não há nada nele a ser santificado. Quando imploramos a sua santificação, imploramos por aquilo que é eternamente com uma plenitude de realidade à qual não se pode acrescentar ou retirar nem uma ínfima parcela. Invocar aquilo que é, que é real, infalível, eternamente, de uma maneira independente de nossa vontade, esta é a perfeição da demanda. Não podemos impedir-nos de desejar, nós somos desejo; mas este desejo que nos aprisiona ao imaginário, ao tempo ao egoísmo, nós podemos, se o fizermos passar todo inteiro através desta demanda, fazer dele uma alavanca que nos arranca do imaginário para o real, do tempo para a eternidade e para fora de toda prisão do eu.

Venha a nós o vosso reino
Trata-se agora de algo que deve vir (advir), que ainda não está lá. O reino de Deus é o Espírito Santo, preenchendo completamente toda a alma das criaturas inteligentes. Para nós, só é possível invocá-lo. É preciso não deter o pensamento em um modo particular de invocá-lo. Que pensar nele seja um apelo e um grito. Da mesma maneira que quando estamos no limite da sede, quando estamos doentes de sede, não representamos mais o ato de beber referido a nós próprios, nem mesmo o ato de beber em geral. Representamos apenas a água, a água em si mesma, mas esta imagem da água é como um grito de todo o ser.

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Texto original:

WEIL, Simone. À propos du "Nôtre Père", In Attente de Dieu. Paris: Flamarion, 1996. Tradução de Elisa Cintra.

Tradução publicada originalmente no site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Como o Messias


...cada um deve agir como se fosse o Messias. O Messianismo não é a certeza da vinda de um homem que detém a História. É meu poder de responsabilizar-me por todos.

- Emmanuel Levinas

Bom fim de semana para todos... :-)

Gays não devem discutir sobre a Bíblia? Ou sim?

Foto: Kenji Aoki

O post de ontem levantou nos seus comentários argumentos muito pertinentes quanto a envolver-nos ou não em discussões sobre as diferentes interpretações de trechos das Escrituras que costumam ser usados contra os gays  (como se o texto sagrado, sagrado justamente por ser portador da mensagem de amor de Deus por nós, pudesse ou devesse ser usado contra quem quer que seja. Triste, mas enfim).

O Rev. Marcio Retamero, por exemplo, observou que se interessa "mais pelas pessoas excluídas que ouvirão/lerão o debate do que com o fundamentalista arraigado nas suas fósseis opiniões". Um ponto crucial, sem dúvida, sobretudo para quem desenvolve um trabalho pastoral junto ao público gay.

O curioso é que cheguei ao artigo da Rev. Candace Chellew-Hodge justamente através de outro artigo, publicado no site da revista Religion Dispatches, em que Jay Michaelson, fundador do Nehirim (revista de cultura e espiritualidade judaicas LGBT) e doutorando em Pensamento Judaico na Hebrew University, e a própria Rev. Chellew-Hodge dialogam a respeito do tema.

Michaelson defende uma estratégia não de tentar "vencer" na discussão sobre os versículos mais comumente "usados contra" os gays, mas de apenas buscar o "empate"; isto é, adotando a mesma lógica de uma leitura literal do texto bíblico, mostrar que o significado das palavras no texto original não era exatamente o que costuma ser interpretado pelos "fundamentalistas" de hoje. Desse modo, ficaríamos diante de duas interpretações igualmente coerentes desses versículos - daí o empate. A vitória, argumenta ele, viria a partir do momento em que, para "desempatar", ou seja, para solucionar a ambiguidade e escolher uma das duas interpretações, seria preciso recorrer ao contexto mais amplo e à mensagem geral da Sagrada Escritura: o amor incondicional de Deus, sua infinita misericórdia e compaixão. Nesse caso, como optar pela leitura que defende que pessoas sejam penalizadas por um traço involuntário? "Assim", entende ele, "entre duas leituras igualmente válidas, aquela que mantém nossos valores fundamentais de amor, companheirismo, justiça, honestidade e dignidade humana vence."

Para ele, não há nada de errado em ser literalista. Pelo contrário: a seu ver, a partir do momento em que se admite que é possível fazer uma leitura literal distinta daquela dos fundamentalistas e tão em voga hoje em dia, "aí podemos conversar sobre o mais importante: como a graça de Deus opera nas vidas dos gays, como o amor entre gays é um caminho para a santidade, e dar nosso testemunho da verdade contida na experiência gay: a diversidade sexual existe. E podemos falar a partir da nossa própria experiência e testemunho".

A Rev. Chellew-Hodge responde que sua experiência pessoal, depois de muitos anos aproveitando toda oportunidade para engajar-se nesse tipo de discussão, é que o "empate" esperado por Michaelson é inatingível porque "quem desaprova a homossexualidade, por mais compaixão que possa sentir pelos gays (...), e aqueles que mais se apegam à certeza de sua interpretação das Escrituras não têm o menor interesse em admitir qualquer 'falta de clareza' nos versículos usados contra os gays. Não existe um ponto de partida comum a partir do qual construir tal redefinição".

"Discutir sobre as Escrituras (...)", diz ela, "só frustra os envolvidos no debate e continua a obscurecer a verdadeira questão de que a Bíblia nos convida a preferir a graça ao julgamento, a aceitação à rejeição e o amor ao ódio. Por isso deixei de discutir sobre as Escrituras" [grifo nosso].

E ela conclui:

"Isso não significa que eu não esteja aberta ao diálogo sobre a Bíblia (...). Se encontro alguém que esteja honestamente em busca do que as Escrituras podem ou não ter a dizer sobre a questão da homossexualidade, e se ambos estivermos dispostos a ser abertos e honestos quanto às nossas leituras do texto, se nos dispusermos a expor um ao outro nossas fragilidades na conversa, aí estou totalmente disposta a conversar. Contudo, recuso-me a discutir. Não vou jogar para ver quem ganha.

"Em suma, uma vez que estejam claras para você as questões da Bíblia e da homossexualidade, você nunca mais terá necessidade de discutir sobre esses versículos outra vez. Por quê? Porque você não precisa se justificar perante nenhum ser humano. Não é a aprovação de uma pessoa que você busca, mas a de Deus. Uma vez que você sinta que se entendeu com Ele, que sua orientação sexual é um dom de Deus a ser usado a serviço da Sua glória, todas as discussões perdem o sentido. Sua fé se torna inabalável, e nenhum inimigo a vencerá."

E você? O que você acha? :-)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Gays não devem discutir sobre a Bíblia?


O jornal americano The Huffington Post publicou recentemente em seu site um interessante artigo da Reverenda Candace Chellew-Hodge, fundadora e editora do Whosoever, uma revista online para cristãos GLBT. A propósito do nosso post recente sobre o filme Assim me diz a Bíblia, achamos oportuno traduzir alguns trechos:


Há vários motivos por que gays e lésbicas não deveriam discutir sobre a Bíblia. Em primeiro lugar, porque é inútil, e ninguém ganha nada com isso. As pessoas antigay valem-se das suas próprias referências e interpretações das escrituras, assim como os simpatizantes dos gays. Ninguém ganha uma discussão dessas porque ninguém vai acreditar nos estudiosos do outro lado, qualquer que sejam os argumentos utilizados.

Segundo, discutir sobre as escrituras apenas leva ao endurecimento das opiniões de um lado e de outro. Nenhum lado está disposto a ceder. Não se trata de um verdadeiro diálogo, mas de uma mera disputa para ver quem consegue sustentar o bate-boca mais tempo, e geralmente falando mais alto. Ninguém se deixa convencer, e os dois lados acabam mais irritados e agarrados às suas próprias ideias. Não ocorre nenhum esclarecimento, e muito pouca, ou nenhuma, compaixão.

Terceiro, os debatedores dos dois lados nunca começam do mesmo ponto de partida: os antigay tendem a ver a Bíblia como a infalível "Palavra de Deus", (...) diretamente inspirada por Ele e jamais passível de contestação. (Ainda que a Bíblia seja repleta de contradições, a maioria das quais ignoramos sem nenhum problema.[...])

Os defensores do lado gay tendem a ver a Biblia como inspirada por Deus, mas (...) mostram-se mais abertos a diferentes interpretações e abordagens da Escritura. Os que consideram a Bíblia a "palavra literal de Deus" conhecem apenas uma maneira de ler cada passagem, e em geral optam por aquela que justifica suas crenças atuais sobre Deus, homossexualidade ou qualquer outro tópico.

O motivo mais importante pelo qual os gays não deveriam nunca discutir sobre as Escrituras é que a Bíblia nada tem a dizer sobre homossexualidade. Precisamos lembrar que é um livro antigo, escrito nos tempos em que as pessoas acreditavam que o mundo era plano e a Terra situava-se no centro de um universo dividido em três planos, com o céu acima e o inferno abaixo; (...) que toda a reprodução humana estava contida no esperma e a mulher não passava de uma incubadora. As mulheres, aliás, eram tidas como gado - propriedade a ser transmitida do pai para o marido, deste para seu irmão e assim por diante. Tempos em que a escravidão era entendida como tendo sido ordenada por Deus e os pecados eram lavados mediante o sacrifício de animais.

Em suma, não podemos extrair ideias modernas de um livro antigo. Os autores da Bíblia não sabiam sobre  homossexualidade mais do que sabiam sobre uma Terra esférica girando ao redor do sol.  No máximo fizeram comentários sobre comportamentos sexuais homoeróticos em situações de luxúria e abuso, mas nada disseram - nem a favor, nem contra - o moderno conceito de orientação sexual. Se não aceitamos o que a Bíblia diz sobre a Terra ser plana e as mulheres serem meras incubadoras (...), por que tomá-la por uma autoridade em orientação sexual?

A Bíblia é um livro sagrado porque descreve a jornada humana junto a Deus, e não o contrário. Se acompanha a nossa jornada junto a Deus, deve acompanhar a evolução do nosso entendimento acerca da atuação do Sagrado neste mundo. A humanidade deixou de ver Deus como um juiz e legislador severo e aprendeu a ver Deus como pleno de graça, misericórdia e amor.

Não vamos entender Deus escrutinando detalhes do livro e proclamando-os uma verdade eterna. Pelo contrário, a Bíblia nos põe em contato com Deus quando reconhecemos sua mensagem geral, que pode ser sintetizada por 1 João 4:7-8: "Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor".

Gays não deveriam jamais discutir sobre as Escrituras não só porque estas não condenam a homossexualidade, mas também porque esse tipo de debate não produz nada além de discórdia, dissensão e ódio, e tudo aquilo que não produz amor não vem de Deus. Em vez de discutir, amemo-nos uns aos outros, mesmo àqueles de quem discordamos. Essa é a mensagem de Deus para nós. Nada mais importa.

O que você acha? Deixe sua opinião nos nossos comentários e ajude-nos a enriquecer o debate. :-)
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