segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Prece



Clarice Lispector, sempre visceral:

Alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.

- Clarice Lispector

Celebremos o mistério. Boa semana a todos. :-)

domingo, 30 de janeiro de 2011

Lugar sagrado



Você conhece o Sacred Space ("Lugar Sagrado")? É um site inspirado no método de oração de Santo Inácio de Loyola que convida a reservar alguns minutos à oração diária. Para isso, a cada dia o site propõe uma reflexão a partir de um determinado texto das Escrituras e vai orientando  passo-a-passo o leitor nas etapas da oração. 

O site tem versão para o português - de Portugal, o que faz com que a linguagem possa talvez causar algum estranhamento no visitante brasileiro, mas nada que chegue a atrapalhar o processo. :-)

Vale o clique. :-)

sábado, 29 de janeiro de 2011

Tudo se transforma



Cada uno da lo que recibe
Luego recibe lo que da
Nada es más simple
No hay otra norma
Nada se pierde
Todo se transforma

- Jorge Drexler

Um fim de semana transformador, para todos... :-)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Uma xícara


Foto: Kari Herer

A medida do amor é não ter medida.
- Sto. Agostinho

Um fim de semana pleno de amor, sem medidas!,  para todos. :-)

Baseado no Don't Touch (...).

Quem tem medo dos gays?


Prezadas famílias de comercial de margarina, células fundamentais da nossa sociedade, núcleos familiares formados por um pai provedor-bonachão-de-bigodes, mãe-de-avental-fazendo-bolinhos-de-chuva-no-Domingo-de-tarde e crianças-loiras-e-sapecas-comendo-seus-sucrilhos-no-café-da-manhã: Nós os gays, também chamados de bichas, viados, boyolas existimos!

Talvez vocês não tenham reparado, mas aquele tio solteirão, o primo que raramente comparece às festas de família e sempre que vai, leva um amigo, sãos gays. Desculpem-me avisá-los assim, mas há entre nós senhores de respeitável aparência e família solidamente formada e mulheres eternamente insatisfeitas com os maridos que, uma única vez, numa Quinta à noite tocaram suas amigas por sobre a blusa. Isto e pegações em lugares escuros, encontros fortuitos e uma psique destroçada era todo o possível para nós, as bichas, até algumas décadas atrás.

Felizmente hoje, nós temos maior visibilidade e aceitação social. A sensação que se tem de que a “ameaça gay” está se alastrando é só isso: uma impressão. O que acontece é que homens e mulheres gays deixaram de constituir famílias heterossexuais que seriam infelizes e não precisam se esconder tanto, ainda que não seja fácil assumir-se em muitas instâncias sociais. Mas fiquem tranqüilos: estatisticamente não estamos nos multiplicando.

O pânico que despertamos nos setores conservadores da sociedade supõe que a humanidade inteira é composta por bissexuais e que se estes descobrirem o terrível e fascinante segredo de que o sexo entre os que tem o mesmo sexo é muito mais prazeroso, a espécie humana estará terminada. Apesar de concordar com vocês que o sexo com outro homem é bem mais interessante do que com mulheres, minhas amigas lésbicas aqui discordarão, devo lhes dizer que há homens que gostam de mulher de verdade. É sério! Gostam de beijar-lhes, ternamente, o seio, passar a língua no bico intumescido e descobrir-lhes o quente e úmido do entre as pernas enquanto aspiram ao perfume que, em ondas, emana de seus cabelos É estranho, mas é verdade, existem homens que gostam de mulheres e vice-versa. Ou seja, o pânico de que, se reconhecerem nosso modo de amar como legítimo, a humanidade findará é só uma imensa bobagem.

Outra novidade: crianças criadas por casais gays não se tornam necessariamente homossexuais. A imensa maioria dos gays que conheço e eu próprio fomos criados em lares heterossexuais, numa escola heteronormativa, numa sociedade heterosexista e somos viados. Ou seja, há algo muito forte e real na forma como cada ser humano ama e deseja, capaz de contradizer as instâncias mais fundamentais da vida social. Seu filho, sua linda filha de maria-chiquinha e vestido florido não vão “virar” gay por ver um casal de homens com seu filho na capa de uma revista, nem duas mulheres se acarinhando românticas à luz do dia, pelo contrário, talvez isto os ajude a se tornar seres humanos melhores: mais plurais, humanamente fraternos e capazes de reconhecer o brilho da vida em toda a parte em que ele refulge.

Pra dizer a verdade, os gays não são uma ameaça à família ou a humanidade em geral. O que corrói estas sagradas instâncias é a falta de amor, de interesse no outro, de diálogo e partilha e estes males não tem gênero, nem orientação sexual definida. Lamento informá-los, mas nós não somos os monstros que se pensa, procure-os dentro de vocês. Eu sei dos meus e mantenho-os vigiados, sem deixar que se projetem no outro só porque esse é diferente de mim.

Carta aos pais de homossexuais


Em 3 de agosto de 2007, o Pe. Luís Corrêa Lima, S.J. enviou a carta abaixo aos membros do Grupo de Pais de Homossexuais (GPH), de que já falamos aqui num outro post.

Prezados pais,

Os seus filhos são um presente de Deus criador a vocês e à humanidade, assim como a vida de todo ser humano. E vocês são para eles um instrumento da Providência divina para tenham vida, afeto, educação e valores.

Nós chamamos a Deus de ‘Pai’, conforme a nossa tradição judaico-cristã. Usamos a nossa linguagem e experiência humanas para nos dirigirmos a alguém que ultrapassa os limites do mundo e da nossa vivência. Também reconhecemos nele os traços da ternura materna. A experiência do amor incondicional, que os pais proporcionam, é fundamental para o despertar da fé e para uma sadia relação com Deus.

Ter filhos homossexuais lhes remete à complexa realidade da diversidade sexual. Ao longo da história e em diferentes culturas, esta questão foi tratada de vários modos.

A nossa tradição de séculos longínquos e recentes já considerou a relação entre pessoas do mesmo sexo uma abominação e uma séria doença, impondo um pesado fardo a gays e lésbicas. No entanto, há mudanças que não podem ser negligenciadas, como a evolução dos direitos humanos, a superação da leitura da Bíblia ao pé da letra e, nos anos 1990, a supressão da homossexualidade da lista de doenças da Organização Mundial de Saúde. Trata-se de uma condição, e não de opção, que alguns carregam por toda a vida.

A sociedade e as famílias estão por aprender uma nova maneira de lidar com a homoafetividade; a Igreja Católica, que é parte da sociedade, também. Ao se falar da Igreja, freqüentemente se pensa em proibições e condenações. Este não é um ponto de partida adequado.
A Igreja ensina que ninguém é um mero homo ou heterossexual, mas antes de tudo um ser humano, criatura de Deus e, pela graça divina, filho Seu e destinado à vida eterna. E acrescenta que os homossexuais devem ser tratados com respeito e delicadeza. Deve-se evitar para com eles toda forma de discriminação injusta.


No nível local, há mudanças importantes acontecendo na Igreja. Em 1997, os bispos católicos norte-americanos escreveram uma bela carta pastoral aos pais dos homossexuais. O título é: Always our children (Sempre Nossos Filhos). Segundo eles, Deus não ama menos uma pessoa por ela ser gay ou lésbica. A Aids não é castigo divino. Deus é muito mais poderoso, mais compassivo e, se for preciso, mais capaz de perdoar do que qualquer pessoa neste mundo. Os bispos exortam os pais a amarem a si mesmos e a não se culparem pela orientação sexual dos filhos, nem por suas escolhas. Os pais de homossexuais não são obrigados a encaminhar seus filhos a terapias de reversão para torná-los heteros. Os pais são encorajados, sim, a lhes demonstrar amor incondicional. E dependendo da situação dos filhos, observam os bispos, o apoio da família é ainda mais necessário.

Prezados pais, os seus filhos serão sempre seus filhos. Vocês não fracassaram e nem erraram por causa da orientação sexual deles. O estigma de infâmia e de doença ligado à homossexualidade precisa ser vencido. A aceitação da condição de seus filhos torna a vida de ambos muito melhor e mais feliz. Esta tarefa não é fácil, mas também não é impossível. A prova disso é o depoimento de tantos pais que já conseguiram, ainda que tenham levado alguns anos.

A confiança no bom Deus, fonte de todo o bem e do amor incondicional, há de tornar este caminho mais suave e exitoso.

Cordialmente,

Pe. Luís Corrêa Lima, S.J.

Texto publicado originalmente no site do Diversidade Católica.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

...E por falar em "It Gets Better"


E por falar em defesa da igualdade e na campanha "It Gets Better", que tanto deu o que falar alguns meses atrás por conta da participação de um vídeo da Pixar, o Tony, do blog Tony Goes, comentou há alguns dias que a versão brasileira da campanha está quase pronta para sair do forno - embora nos comentários do post a informação tenha sido atualizada: o vídeo ainda levará pouco mais de um mês para ser finalizado.

Tudo começou no final de novembro, quando a agência digital Grïngo decidiu criar uma adaptação verde-e-amarela do projeto americano. Como disse o próprio Tony na época, divulgando a ideia e convocando voluntários a participar do vídeo,

"Não se trata de uma simples tradução: afinal, os casos de suicídio de gays adolescentes provocados por bullying ainda são raros por aqui, ou pelo menos abafados. Mas é importante que essa garotada espalhada Brasil afora, muitas vezes isolada em rincões do interior, saiba que não tem nada de errado com ela. Que ser homossexual é mais do que normal - é absolutamente fabuloso. (...) A imensa maioria dos brasileiros ainda acha que bichas, lésbicas e trans são seres de outro planeta, ou que estamos condenados a uma vida de sofrimento e a uma eternidade no inferno. É só mostrando a cara (e, muitas vezes, dando-a a tapa) que vamos conseguir melhorar alguma coisa. Quem se candidata?"

No convite aberto feito pela agência em seu blog, o objetivo expresso é mostrar que ser gay é normal - “normal” é ser você mesmo, ter idéias, saber onde você se encontra na sua vida, ter consciência do que passou e ter uma relação com a vida que é otimista, entusiasmada, feliz ou triste, mas real - e que quem está se descobrindo gay saiba que não está sozinho, que tem alguém que já passou pela mesma coisa e que venceu.

Que você, adolescente assustado com o que pode vir a acontecer, veja que nada de terrível realmente acontece. Que sua vida continua, que tudo na verdade melhora. Que você vai arranjar um emprego, namorar, amar, sofrer, ser acolhido num ambiente que te ama, e ter uma vida NORMAL. Que gays são iguais a todos, são ricos, pobres, feios, bonitos, têm empregos chatos, incríveis, rodam o mundo, rodam o bairro.

A proposta é digna de todo o aplauso e da mais ampla divulgação - que é exatamente o objetivo dos caras: criar outro vídeo viral. Estamos atentos para postar o vídeo aqui no blog assim que for publicado, e contribuir para concretizar essa meta.  ;-)

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Atualização às 12h04:
Como muito bem lembrou o Rodolfo nos comentários, entre as diversas iniciativas que podem ser encontradas na web de pessoas comuns "simplesmente falando da normalidade e da diversidade do 'ser gay'", a que segue abaixo, bastante bem feita e bem-humorada, é digna de nota. Espero que gostem. :-)


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Atualização em 23/04/11:
...E finalmente sairá a versão brasileira! Você encontra o trailer e uma entrevista com o diretor aqui.
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...e obrigada ao queridíssimo Rafa pela dica. ;-)

"You = Me": Ricky Martin e a defesa da igualdade


Primeiro foi seu novo clipe, The Best Thing About Me Is You, em que aparece com o símbolo da Human Rights Campaign - projeto americano que defende a igualdade de direitos para o público gay, célebre por ter "ressuscitado" a música True Colors - tatuado no peito. Agora, Ricky Martin voltou a chamar a atenção por aqui graças à sua entrevista para a Revista Veja desta semana. Nela, o cantor falou muito abertamente sobre o reconhecimento de sua homossexualidade, a decisão de se assumir publicamente, o medo de perder os fãs e a relação com os filhos, segundo ele os grandes motivadores de sua saída do armário. Confira a seguir alguns trechos da entrevista:

A decisão de sair do armário
Eu não aguentava mais me esconder e fingir ser quem não era. Sou uma boa pessoa e tento fazer o bem ao próximo, mas algo me faltava. O que virou a mesa foi a paternidade. Um dia, olhei nos olhos dos meus filhos e pensei: "Se quero que eles sejam felizes, eu tenho de viver com transparência". Nesse mesmo dia, coloquei no meu site uma carta revelando que sou gay. Se não fizesse isso, poderia dizer quem sou na minha casa? Ou será que eu iria mandar meus filhos mentir a meu respeito na escola? Nada disso. Quero mais é que eles falem aos seus amigos: "Meu pai é gay e ele é muito legal - Seu pai não é gay. Triste o seu caso". Quero que eles sintam orgulho em fazer parte de uma família moderna.

O medo de perder a popularidade
Essas questões passaram, sim, pela minha cabeça. Será que o público vai me largar, por preconceito? Será que os fãs não vão se sentir enganados pelo tempo em que deixei que acreditassem que eu era heterossexual? Mas o fato é que eu precisava ser feliz. Precisava me sentir completo, com o coração cheio. E as pessoas estão respondendo muito positivamente. Já ouvi gente dizendo que não vai mais ouvir minha música. Mas vejo muito mais gente falando "hoje eu amo o Ricky Martin". Durante anos senti medo, mas ele existia apenas na minha cabeça.

O segredo quanto à sua orientação sexual
Era horrível. Eu vivia em um mundo glamouroso, com muitas viagens, suítes de hotel de luxo e jatinhos particulares. No palco, sentia-me forte. Mas, quando o show terminava, corria para casa para me isolar e me desligar de tudo. A maioria das pessoas não imagina que é possível estar com milhares de pessoas e ainda assim se sentir só. Eu sabia que havia algo errado comigo por dentro, mas tinha esperança de que uma hora essa sensação desaparecesse. Não desapareceu. Quando acabou a loucura de Livin' la Vida Loca, eu sentia apenas cansaço e tristeza. Não tinha vontade para nada.

A certeza de ser gay
Acho que a pessoa sempre sabe. Existe uma coisa que se chama atração, algo diferente que você sente, desde pequenino mas não sabe como definir. São coisas que os adultos reprimem. Dizem "isso não é certo, isso é errado". Quando você é garotinho e seus pais o levam ao parque, alguém logo diz: "Olha que bonita aquela garota! Que graça! Você gostou dela?". Somos levados a sentir atração pelo sexo oposto, e isso provoca uma confusão enorme quando se sente algo diferente. A pressão é toda para sermos como os outros: é mais fácil. Hoje sinto que os outros é que são diferentes, não eu.

A declaração, em seu site, de que "a homossexualidade é um dom"
Falei isso pela necessidade de viver com dignidade, respeito e autoestima. Queria que o mundo entendesse que amar do jeito que eu amo não é revolucionário, é natural. Não quero agredir ninguém por amar como amo. Minha natureza me faz assim. (...) Todo gay nasce gay. A vida social às vezes se opõe a essa natureza, e aí começa o conflito.

(...) Lembro quando falei para meus pais sobre minha sexualidade, há muitos anos. Eles me abraçaram e disseram: "Nós só queremos que você seja feliz". Minha mãe chorou. Depois eu disse: "Isso não é uma preferência, não foi uma decisão que tomei. Nasci assim". Não pense que ontem fui de um jeito e agora decidi ser isso. Um dia desses, li a história de uma mãe que tem 2 filhos: um é gay e o outro é um criminoso que matou 3 pessoas. Essa mãe vai visitar na cadeia o criminoso todos os domingos, porque ama seu filho e não se importa que ele seja um assassino. Com o outro filho, que é gay, ela não quer nem falar. É loucura! (...) Esse tipo de discriminação e de ignorância acontece no mundo todo.


Auto-aceitação
A pessoa tem de passar por um processo espiritual para que possa se aceitar. Quando não está pronta, não adianta, ninguém pode forçar. Por isso, tem gente que sai do armário aos 18, outros aos 30 e outros ainda que morrem sem assumir a homossexualidade.

A relação com os filhos
Todo mundo muda depois dos filhos. Tudo é diferente agora. Todas as decisões têm a ver com eles. O jeito como dirijo meu carro é diferente. Sou muito mais precavido. Antes, era mais louco. Agora penso: "Tenho dois filhos para criar". Antes eu ia dormir às cinco da manhã. Hoje, acordo às 7 e meia (...).

A barriga de aluguel e a ausência da figura materna
Direi que queria muito tê-los e que, com a ajuda de Deus, tudo se alinhou para que eles fizessem parte da minha vida. Mostrarei fotos da mãe, mas não quero contato deles com ela. Fizemos um acordo similar ao que rege os processos de adoção, para proteger a privacidade da mãe. Para mim, o fundamental é eles entenderem que nem todas as famílias são iguais. Elas são diferentes. Algumas famílias são formadas por uma mãe e 5 filhos, outras têm duas mães e dois filhos: e há também as que consistem em duas pessoas que se amam mas não têm filhos. Nossa família é formada por eles e por mim.

E você? O que achou dos pontos de vista defendidos pelo cantor? Compartilhe sua opinião conosco. Comente, divulgue, participe! :-)

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Atualização em 03/02/11:

Em entrevista concedida ao Fantástico, da Rede Globo, em 30/01/11, Ricky Martin expôs, com muita tranquilidade, seus pontos de vista sobre carreira, sair do armário, paternidade e a relação com os filhos. Acrescentamos o vídeo abaixo. :-)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Curso "Diversidade Sexual, Cidadania e Fé Cristã", no Centro Loyola (PUC-Rio)


Já estão abertas as inscrições para o curso Diversidade Sexual, Cidadania e Fé Cristã, no Centro Loyola de Fé e Cultura (PUC-Rio) de 7 de abril a 9 de junho - todas as quintas-feiras, em Botafogo.

A proposta é abordar a questão da diversidade sexual e sua visibilidade no mundo contemporâneo, com as respectivas implicações para os indivíduos, as famílias, a sociedade, a educação e as igrejas. Além disso, o objetivo é de buscar as perspectivas de compreensão e ação, bem como o diálogo da tradição religiosa cristã com as ciências e os agentes sociais em vista da construção da cidadania.

Professores:

  • Pe. Luis Corrêa Lima, SJ (líder do Grupo de Pesquisa Diversidade Sexual, Cidadania e Religião da PUC-Rio)
  • Ana Maria Bontempo (Assistente Social e vice-presidente da BENFAM)
  • Maria Cristina S. Furtado (Psicóloga e Mestre em Teologia / PUC-Rio)


Local: Residência João XXIII (R. Bambina, 115 - Botafogo)
Data: Todas as quintas-feiras, de 07 de abril a 09 de junho de 2011
Horário: 19h às 21h
Investimento mensal: R$ 75,00

As inscrições devem ser realizadas previamente pelo telefone (21) 3527-2010, pelo e-mail scursosloyola@puc-rio.br ou pelo site do Centro Loyola. Atenção: a inscrição só será considerada após o pagamento do boleto bancário, que será enviado por e-mail ao participante.

Serão conferidos certificados ao final do curso.

Os cristãos e o seguimento de Cristo


A propósito do Evangelho do último domingo (3º Domingo do Tempo Comum, Mt 4, 12-23), o teólogo basco Jose Antonio Pagola tece algumas considerações sobre o que significa ser cristão e seguir Cristo.
Artigo publicado originalmente no Eclesalia, e reproduzido via Amai-vos.


Quando Jesus soube que o Batista tinha sido preso, abandonou a sua aldeia de Nazaré e foi para as margens do lago da Galiléia iniciar a sua missão. A sua primeira afirmação não tem nada espetacular. Não realiza um milagre. Simplesmente chama alguns pescadores que respondem imediatamente à sua voz: "Sigam-me."

Assim começa o movimento de seguidores de Jesus. Aqui está o germe humilde do que um dia será a sua Igreja. Aqui é manifestada pela primeira vez a relação que deve se manter sempre viva entre Jesus e aqueles que acreditam nele. O cristianismo é, acima de tudo, o seguimento de Jesus Cristo.

Isto significa que a fé cristã não é apenas a adesão doutrinária, mas a conduta e a vida marcada pela nossa vinculação com Jesus. Acreditar em Jesus Cristo é viver o seu estilo de vida, animados pelo seu Espírito, colaborando em seu projeto do Reino de Deus e carregando a sua cruz para compartilhar a sua ressurreição.

A nossa tentação é sempre querer ser cristãos sem seguir Jesus, reduzindo a nossa fé a uma afirmação dogmática ou a um culto a Jesus como Senhor e Filho de Deus. No entanto, o critério para verificar se cremos em Jesus como o Filho encarnado de Deus é só verificar se o seguimos.

A adesão a Jesus não é apenas admirá-lo como homem ou adorá-lo como Deus. Quem o admira ou o adora, ficando pessoalmente fora, sem descobrir Nele a exigência para lhe seguir de perto, não vive a fé cristã de maneira integral. Somente aquele que segue Jesus se coloca na verdadeira perspectiva para compreender e viver autenticamente a experiência cristã.

No cristianismo hoje vivemos em uma situação paradoxal. Pertencem à Igreja não apenas aqueles que seguem ou tentam seguir Jesus, mas também aqueles que não se preocupam em absoluto de caminhar trás os seus passos. Basta ser batizado e não quebrar a comunhão com a instituição para pertencer oficialmente à Igreja de Jesus, mesmo sem jamais ter se proposto o seu seguimento.

A primeira coisa que devemos escutar de Jesus nesta Igreja é o seu convite a segui-lo sem reservas, libertando-nos das ataduras, covardias e desvios que nos impedem de caminhar atrás dele. Estes tempos de crise podem ser a melhor oportunidade para corrigir o cristianismo e mover a Igreja na direção de Jesus.

Devemos aprender a viver nas nossas comunidades e grupos cristãos de forma dinâmica, com os olhos fixos Nele, seguindo os seus passos e colaborando com Ele na humanização da vida. Iremos curtir a nossa Fé de uma nova maneira.


(Eclesalia Informativo autoriza e recomenda a divulgação dos seus artigos, desde que indicada a sua procedência.)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Os 12 melhores tweets dos últimos tempos da última semana

Como esse começo de ano está sendo movimentado, fizemos uma seleção dos 12 melhores tweets do @divcatolica nos últimos dias, pra relembrar. ;-)


1. Para jornal inglês The Guardian, novela Insensato Coração quer combater preconceito contra homossexuais no Brasil: http://migre.me/3Kh9C

2. Lista de indicados ao Oscar tem dois longas com temática lésbica como melhor filme: http://migre.me/3Kha6

3. Em tempos de ti-ti-ti por conta de transexuais, homofobia e BBB, uma iniciativa oportuna: http://twitpic.com/3t9xvk

4. Atenção, viajantes: nem toda bandeira arco-íris representa LGBTs: http://migre.me/3K2dd

5. Marta Suplicy tentará desarquivar o PLC122/06, projeto de lei que criminaliza homofobia: http://migre.me/3JZPX

6. Morrer como passado e nascer como futuro, para gerar a si próprio. Bonito, isso: http://bit.ly/dRcGXu

7. DVD dos "Dzi Croquettes" chega ao mercado com extras raros: http://migre.me/3Khkg

8 .Homofobias explícitas e implícitas: as pedras nossas de cada dia. Uma bela reflexão: http://migre.me/3IdsR

9 .Um ponto de vista interessante sobre preconceitos, privilégios e "doenças sociais". Vale a reflexão: http://bit.ly/hk462U

10. O que vai ser votado pelo STF é a UNIÃO ESTÁVEL entre gays, não casamento. Vejam http://migre.me/3I4Hq e links. Mas é, sim, uma evolução.

11. Confira alguns indicados a prêmio de mídia do GLAAD Awards, entidade LGBT dos EUA: http://migre.me/3IaF3

12. Seminário do Metropolitan Museum, de Nova York, discute como lidar com arte sacra nas instituições profanas que são os museus: http://migre.me/3KgUW

Ser gay e ser católico: sobre a inclusão dos gays na Igreja


Nosso post de ontem gerou um debate muito prolífico nos comentários. Reproduzimos aqui nossas considerações a respeito, por ser um tema de crucial importância para nós e a razão de ser mesma do Diversidade Católica:

Acreditamos firmemente na incondicionalidade do amor de Deus por cada um de seus filhos. Acreditamos também que a Boa Nova de Cristo foi, sim, que Ele veio para todos, sem distinção, e que a todos ama igualmente. Acreditamos que Cristo veio também para os excluídos, para os oprimidos, para os incompreendidos, para os perseguidos por serem aquilo que são.

Acreditamos na Santa Igreja Católica - a qual é não apenas o Magistério (a hierarquia do Papa e dos bispos), mas sim o corpo do povo de Deus que crê em Jesus Cristo e procura viver de acordo com Ele. Acreditamos que as posições do Magistério no decorrer de dois mil anos de história já passaram por inúmeras transformações e estão em constante mudança. E é preciso que seja assim, porque a revelação de Deus para nós se dá ao longo da História.

Esclarecemos que a posição oficial do Vaticano hoje, tal como expressa no Catecismo da Igreja Católica, não é de que a homossexualidade deve ser "combatida"; pelo contrário, a Igreja reconhece que os homossexuais foram criados por Deus tal como são e "devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á para com eles todo sinal de discriminação injusta" (Catecismo da Igreja Católica, 2358).

Do mesmo modo, a Igreja tampouco atribui ao papa ou à hierarquia do clero a primazia de detentores da Verdade. Com efeito, desde o Concílio Vaticano II e tal como expresso também no Catecismo da Igreja, esta reconhece o primado da consciência individual em sua relação com Deus.

O Vaticano II reconhece que cada ser humano deve antepor qualquer dever ou lei à sua própria consciência. “A consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser”, diz o parágrafo 16 da Constituição Dogmática Gaudium et Spes.

O documento citado indica que a mediação plena para a ação do homem é a sua consciência. Obedecer à consciência é o que se pode fazer de melhor para agradar a Deus.

Para quem quiser se aprofundar no tema, indicamos a leitura das perguntas frequentes no nosso site -sobretudo a resposta a "Se a Igreja condena a homossexualidade, como é possível uma pessoa gay ser católica?".

Caso você tenha qualquer dúvida ou divergência e queira conversar, caro leitor, será sempre bem-vindo para uma saudável troca de idéias. Acreditamos que só com respeito às diferenças, tolerância e diálogo fraterno podemos efetivamente crescer no amor de Deus e cumprir a missão de ajudar na construção do Reino do Pai, que é também de cada um de nós.

Nosso forte e caloroso abraço.

Equipe Diversidade Católica

Assim me diz a Bíblia


O documentário americano “For the Bible Tells me So” (Assim me diz a Bíblia), é uma emocionante e bem fundamentada discussão a respeito do significado real das palavras da Bíblia naquilo que se refere à homossexualidade.

O filme conta com o depoimento de vários teólogos, pastores, do bispo anglicano Desmond Tutu, além de um rabino. Por meio destas participações se põe em questão o que realmente as passagens da Sagrada Escritura que se referem à relação entre pessoas do mesmo sexo querem dizer e se é justo, para com o sentido original do texto, usá-las como prerrogativa de condenação absoluta ao inferno para gays e lésbicas.

A interpretação literal do texto bíblico é desconstruída gradativamente à medida que se contextualiza a situação cultural, a mentalidade presente na época retratada pelos textos.  Numa linguagem fácil, os diversos depoimentos vão nos fazendo perceber que, assim como a Bíblia foi, e às vezes, ainda é, usada para justificar a submissão ideológica das mulheres em relação aos homens ou a discriminação racial, hoje o alvo dos fundamentalistas bíblicos é os homossexuais.

O filme não é, no entanto, uma discussão teológica entre especialistas. Na verdade, a contextualização original das passagens bíblicas se justifica na medida em que o público-alvo do documentário são as famílias, especialmente as de origem ou tradição cristã.  Os idealizadores são um casal heterossexual, Robin e Bruce, e a idéia desde o início era criar uma identificação com os telespectadores - e quem não tem um parente ou um amigo gay? Por isso, o filme é centrado na história de cinco famílias cristãs com algum membro homossexual. Acompanhamos no filme os diferentes caminhos que cada família trilhou ao se deparar com a notícia de que um dos seus era homossexual. Histórias distintas, mas que produziram em cada família uma profunda, e muitas vezes dramática, reflexão sobre o que a Bíblia realmente diz sobre a homossexualidade - e, acima de tudo, sobre a incondicionalidade do amor divino e humano.

As famílias foram muito bem selecionadas e têm histórias muito significativas; vale ressaltar, porém, a da família Robinson. São entrevistados os pais e a ex-mulher de Gene Robinson, o primeiro bispo anglicano assumidamente gay da história. Ele se converte num símbolo importantíssimo da possibilidade real de conciliação entre as identidades gay e cristã, e não há como não se emocionar, no filme, com as cenas de sua consagração episcopal.

“Assim me diz a Bíblia” expressa de maneira muito clara que há uma ideologia perversa por trás do uso de passagens isoladas da Sagrada Escritura para justificar em termos religiosos o ódio aos homossexuais; e nos mostra, concretamente, por meio da história de cinco famílias cristãs, os caminhos reais trilhados por pessoas que souberam resignificar em suas vidas o que realmente a Bíblia nos diz de mais importante e central: o amor verdadeiro e incondicional a todos.

O filme não foi lançado comercialmente no Brasil, tendo sido exibido em alguns festivais e, recentemente, no canal GNT.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Para conhecê-lO melhor e mais crescermos na Sua amizade


É com imensa alegria que, atendendo a pedidos dos membros do Diversidade Católica, organizamos um curso de Introdução à Teologia. As aulas serão ministradas por Rafael Morello, mestre em teologia, sempre com foco no amor incondicional de Deus por cada um de nós.

Para quem quer entender melhor os fundamentos da nossa fé para aprofundá-la e enriquecer sua espiritualidade, a hora é essa. :-)

Ementa: 
A fé cristã baseia-se numa premissa fundamental: Deus nos amou e quis estabelecer um compromisso de amor, um pacto de vida, uma aliança conosco. A Revelação é a história desta relação entre Deus e os seres humanos. Através dela sabemos que Deus é amor, que criou todas as coisas boas e nos escolheu, como povo consagrado, para sermos dele.

A teologia fundamental reflete sobre esta relação de Deus com o mundo. Ajuda-nos a entender melhor o Deus em quem cremos, para, então, amá-lo mais. Se Deus é bom, por que existe o mal? Por que Deus escolheu especificamente um povo para se revelar? Como é possível que a bíblia nos traga imagens de Deus tão diversas, especialmente comparando o Antigo e o Novo Testamento? Neste curso, refletiremos sobre todas essas questões.


Bibliografia:
QUEIRUGA, André Torres. Do terror de Isaac ao abbá de Jesus: Por uma nova imagem de Deus. Paulinas. São Paulo. 2001.
O livro, de autoria de um dos mais proeminentes teólogos católicos da atualidade, servirá de base para as apostilas, que serão o material diretamente utilizado nos encontros.

As aulas serão semanais, com início em fevereiro e duração de um semestre.

Que o Senhor nos abençoe e ilumine nesta nova empreitada, para que possamos seguir promovendo e difundindo a Boa Nova de Cristo! :-)

O valor da solidão: o silêncio diz nossos desejos mais autênticos



Eugenio Borgna, psiquiatra italiano e catedrático da Universidade de Milão, em seu livro La solitudine dell´anima (Ed. Feltrinelli, 198 páginas - "A Solidão da Alma", inédito no Brasil), faz um elogio da solidão e do silêncio, fundamentos da criatividade humana e via de encontro do indivíduo consigo mesmo.

Em entrevista concedida ao jornal La Republica em 18 de janeiro último, traduzida por Moisés Sbardelotto para o Instituto Humanitas Unisinos e parcialmente reproduzida a seguir*, distinguiu solidão de isolamento e falou sobre o valor da solidão como experiência indispensável para qualquer transformação individual e social.

Estar sozinho não quer dizer sentir-se sozinho, mas separar-se temporariamente do mundo das pessoas e das coisas, das ocupações cotidianas, para entrar novamente na própria interioridade e na própria imaginação – sem perder o desejo e a nostalgia da relação com os outros: com as pessoas amadas e com as tarefas que a vida nos confiou.

Estamos isolados, ao contrário, quando nos fechamos em nós mesmos, porque os outros nos rejeitam ou mais frequentemente no rastro da nossa própria indiferença, de um egoísmo tétrico que é o efeito de um coração árido ou seco.

Na solidão, tão rica de vida interior, o silêncio tem um eros e uma linguagem próprios: diz as nossas melancolias, as angústias, as esperanças não expressadas, os temores, as expectativas. Diz os nossos desejos mais autênticos. O silêncio tem mil modos de manifestar alguma coisa e de escondê-la, de indicar e de aludir, de se aproximar e de se afastar, de fascinar e de intimidar.

Ao contrário, quando estamos isolados, separados do mundo, mônadas de portas e janelas fechadas, não temos pensamentos e emoções a serem transmitidos aos outros. Sem mais palavras, aprofundamo-nos em um mutismo que tem uma única dimensão: a da insignificância.

Um aspecto emblemático da condição humana de hoje e da juvenil em particular é a tendência aos contatos "desemocionalizados", que respondem às necessidades do momento e se incineram sem deixar rastro no coração e na memória. Não há dúvida de que hoje a solidão é sempre mais difícil de ser salva e de ser vivida, porque somos arrastados por um redemoinho de sensações exteriores que não nos dão nem mais o tempo para pensar em nós mesmos, para nos confrontar com os nossos segredos, com (...) as emoções que estão em nós, com as coisas que não queremos lembrar e voltam à memória, com a autenticidade ou a inautenticidade das relações que temos com os outros: no fundo, com o mistério do viver e do morrer.

A solidão, como eu a entendo, não é só uma experiência interior de poucos eleitos, mas, ao contrário, é uma matriz ideal de mudança relacional e cultural, política e social e, em última instância, razão de vida historicamente significativa.

É indispensável reencontrar os valores inalienáveis da reflexão crítica e da solidariedade, do empenho ético na política, do respeito radical das pessoas e das suas diferenças – transferindo a consciência desses valores para aquela que é a ação cotidiana, o testemunho pessoal de cada um de nós.

Uma reflexão neste começo de semana: quanto espaço temos aberto para o silêncio e a solidão frutuosa em nossas vidas?

Boa semana para todos. :-)

Atualização às 12h31:
Certas coincidências são engraçadas. Acabei de receber um link muito interessante: Do Nothing for 2 Minutes (algo como "2 Minutos sem Fazer Nada").

Um bom exercício para cada um avaliar como anda a sua capacidade de silenciar. :-)

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*Leia o artigo na íntegra aqui.


domingo, 23 de janeiro de 2011

Deus é vazio


Foto: Tom Storm

Isso a que nos referimos pelo nome de Deus é assim mesmo: um grande, enorme Vazio que contém toda a beleza do universo. Se o vaso não fosse vazio, nele não se plantariam as flores. Se o copo não fosse vazio, com ele não se beberia a água. Se a boca não fosse vazia, com ela não se comeria o fruto. Se o útero não fosse vazio, nele não cresceria a vida. Se o céu não fosse vazio, nele não voariam os pássaros, nem as nuvens, nem as pipas...

(...) Deus tem de existir. Tem beleza demais no universo, e beleza não pode ser perdida.

- Rubem Alves, "O Deus que conheço"

Simone Weil talvez dissesse (adaptando suas palavras à linguagem de R. Alves), que Deus é o verdadeiramente "Cheio/completo" que se reduz, se faz Vazio. Um desfazer-se, desapoderar-se, reduzir-se, para encontrar e encher o que está vazio.

Padre Antônio Vieira escreveu um belíssimo sermão, Sermão de Nossa Senhora do Ó, em que, num português antigo e um pouco estranho, escreve sobre como Deus, o Infinito que tudo abraça, adentrou no limitado e finito círculo da criação:

"O primeiro círculo, que é o mundo, contém dentro em si todas as coisas criadas; o segundo, incriado e infinito, que é Deus, contém dentro em si o mundo; e este terceiro, que hoje nos revela a fé,* contém dentro em si ao mesmo Deus."

Que lindo e louco Deus, esse que por amor se esvazia de Si mesmo. :-)

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*O terceiro círculo é o ventre de Maria.

sábado, 22 de janeiro de 2011

As cores de cada um


O Gay Men's Chorus of Los Angeles surgiu no final da década de 70, em pleno boom do movimento pelos direitos civis dos gays nos EUA, com o compromisso de promover a transformação social através da música.
Em dezembro de 2010, realizaram, na Immanuel Presbyterian Church, uma apresentação em tributo aos jovens que cometeram suicídio devido ao assédio que sofriam por serem gays.*

Assim como o vídeo da Pixar que postamos aqui em novembro, a apresentação faz parte do projeto It Gets Better (algo como "Vai Melhorar"), que procura mostrar a adolescentes e jovens gays atormentados pelo bullying a felicidade que podem encontrar em suas vidas para além das agressões de que são vítimas.

A música escolhida, True Colors, lançada originalmente por Cindy Lauper em 1986, tornou-se um ícone da militância gay americana e deu o título da turnê realizada pela cantora e outros artistas em 2007 em benefício da Human Rights Campaign, campanha pela promoção da igualdade de direitos dos gays.

Um fim de semana de muitas e verdadeiras cores para todos. :-)

*Fonte: Blog Entre Nós

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Be the change


Sejamos nós a mudança que queremos ver no mundo.
- Mahatma Gandhi

Bom fim de semana para todos! :-)

A água jorrará


Foto: Kevin Day

Em meio ao desencanto crescente e à disseminação da indiferença que corrói os valores mais essenciais neste mundo em que vivemos, vozes dissonantes se fazem ouvir. São vozes de pessoas que acreditam e valorizam a potencialidade do humano, a hospitalidade e cortesia, a solidariedade e a compaixão; acreditam e buscam, sobretudo, a possibilidade de um horizonte de paz.

Sobre isso escreve Faustino Teixeira, professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora em artigo publicado originalmente no site Amai-vos e que reproduzimos parcialmente a seguir.

A crescente atenção para com a espiritualidade não é algo que toca exclusivamente os religiosos (...). A espiritualidade é algo essencial para todos nós, que nos acende para dimensões esquecidas ou adormecidas. Com ela nasce uma renovada alegria no coração, uma fecunda vontade de se abrir à vida, de afirmar a vida, de ouvir as vozes que vêm do Real, de escutar o clamor que vem do outro.

Um desse “amigos de Deus” que precisam ser acolhidos nesse nosso momento atual é Thomas Merton (1915-1968) (...). É difícil encontrar alguém que conseguiu traduzir de forma tão bonita e rica o significado de uma vida espiritual. Para ele, o autêntico contemplativo nunca está desligado do tempo, mas profundamente inserido em seu coração. Trata-se de alguém que assume viver a experiência integral da vida, que acende no coração uma atenção especial para com tudo o que existe, e que vive, simplesmente, a vida em sua profundidade, como o peixe na água. Em seu diário dizia: “A única coisa necessária é uma verdadeira vida interior e espiritual, um crescimento verdadeiro, por minha conta, em profundidade, numa nova direção (...). Minha obrigação é não parar de avançar, crescer interiormente, rezar, livrar-me de apegos e desafiar os medos, aumentar minha fé, que tem sua própria solidão, procurar uma perspectiva inteiramente nova e uma nova dimensão em minha vida” (setembro de 1959).

O radical despertar para o sentido da vida foi se firmando para Merton no aprendizado do silêncio da floresta, sobretudo nos últimos anos de sua vida, enquanto eremita na abadia trapista de Getsêmani. Uma experiência que viveu com todo o seu ser. E curiosamente, quanto mais vivia a unificação interior, mais dilatava o seu coração e sua abertura para os outros e para o universo inteiro. Em certo momento de sua vida, (...) se dá conta que a verdadeira vida contemplativa não pode significar separação do mundo, e que sua solidão vem animada por uma responsabilidade social: que ela não lhe pertence. Nessa ocasião percebeu de forma súbita e iluminada, como se captasse a beleza do coração de todos os seres humanos, que era um com eles. De que não eram seres estranhos à sua vida espiritual, mas que ocupavam nela um lugar central. (...) Foi o ponto de partida para uma nova percepção de Merton, quando então pôde captar a força da presença e gratuidade de Deus no íntimo de cada um.

Ao se aproximar da cavidade secreta do coração, que é o ponto de contato com o divino, Merton viveu uma tal experiência de liberdade interior, que no seu olhar ampliado soube reconhecer o segredo e o valor da alteridade. Na sua relação com a natureza pôde perceber o significado mais profundo do que denominou “ponto virgem” (...), [onde] habita o “paraíso de simplicidade, de autoconsciência – e de esquecimento de si -, liberdade e paz”. É nesse ponto “cego e suave” que se criam as condições para a sabedoria e o conhecimento de si e para a singular acolhida do outro. (...) Esse ponto vazio, que habita o centro de nosso ser, “é o centro de todos os demais amores”. É nele que habita a centelha que está na raiz de toda busca autêntica, e que pertence inteiramente ao Mistério sempre maior, que nós cristãos identificamos como Deus.

Nada mais essencial em nosso tempo sombrio do que saber cultivar o exercício de uma espiritualidade autêntica, de buscar encontrar este pontinho de nada que revela um sentido esquecido e abre portas fundamentais para a percepção do Real. Para além da lógica do mercado, marcada pela competição, pela produtividade, pela vontade de poder, pela ganância e egoísmo, existe um outro horizonte, onde o que é gratuito fala mais forte, e onde o humano pode brilhar com mais autenticidade. Como Merton assinalou, não há programa definido para esta ampliação do olhar, mas há que estar desperto para a sua irrupção. É algo que é dado de graça, e que se revela a cada momento pois está em toda parte. Como assinala Rûmî, um dos grandes místicos sufis, que estaria completando 800 anos neste ano, “Não busques a água; mostra apenas que estás sedento, e a água jorrará ao teu redor”. [Grifo nosso]

Que cada um possa cultivar o seu próprio aprofundamento e crescimento interior, rumo à fonte de água viva que jorra incessante no fundo do seu ser. :-)

Distinção entre os casamentos civil e religioso, união estável e "união civil"

Foto: Anúncio americano por ocasião do Dia de Martin Luther King 
(celebrado toda 3ª segunda-feira de janeiro) deste ano nos EUA*

O advogado Carlos Alexandre Neves Lima, autor do blog Direitos Fundamentais LGBT, nos fez a gentileza, nos comentários do post anterior, de sanar nossas dúvidas quanto às diferenças entre casamento civil (salientando a distinção entre este e o casamento religioso), união estável e a dita "união civil".

Os grifos abaixo são nossos, pois também para nós nunca é demais enfatizar que o casamento religioso pertence a uma esfera completamente distinta daquela da lei e do direito. Alimentar a confusão entre ambos tem sido uma das principais armas usadas contra os direitos civis dos gays, e cabe a todos nós dissipá-la. Como bem argumenta o movimento Catholics for Marriage Equality, a lógica que deve valer, no caso do casamento civil entre gays, é a mesma do divórcio, que é concedido pelo Estado ainda que algumas Igrejas se oponham à separação e ao recasamento.

Nosso muito obrigado ao Carlos, cujo blog é referência obrigatória na área do direito homoafetivo. :-)

Para melhor divulgação, tomamos a liberdade de reproduzir seu texto aqui. Segue abaixo.

* * *

Cris Serra e Equipe,

Uma coisa é religião e outra é a lei.

Existe o casamento religioso e o casamento civil.

Quando nos referimos aos direitos civis, evidentemente, não estamos falando de casamento religioso, mas do casamento civil que é disposto no nosso código civil brasileiro.

É muito grave esta confusão que as pessoas são induzidas entre casamento civil e religioso. Por causa dela, muitas pessoas se colocam contra o casamento para homossexuais, acreditanto que desta forma o estado, através de uma lei, estaria interferindo nas religiões.

Mas, vamos combinar, não é dificil perceber que nem todos que se casam no civil, também se casam no religioso e vice-versa. E, como imagino que todos saibam, somente do casamento CIVIL decorre os direitos estabelecidos pela lei CIVIL.

Casamento RELIGIOSO é sacramento, imposto pelas condições da igreja e o Estado não pode interferir.

Casamento CIVIL é um instituto jurídico de manifestação da vontade dos nubentes que, através normas de ordem;pública cogente, estabelecem, direitos e deveres.

Por sua vez, casamento civil e união estável são dois institutos jurídicos distintos e com efeitos diversos.

Em linhas MUITO GERAIS posso dizer que:
- enquanto no casamento o conjuge possui direito real de habitação, independente do regime de bens, sem limitação de tempo, já na união estável esse direito é questionável, e se aplicado, será limitado;
- no direito a herança, o casado, independente do regime de bens, é herdeiro necessário, está na linha do direito sucessorio, já o convivente da união estável só participa da herança na parte que contribuiu para a formação;
- no direito civil e penal, processual civil e penal, todos os inúmeros direitos previstos para os casados não se estendem aos conviventes da união estável;

Do casamento se extrai uma certidão que é um documento que representa uma prova pré existente e inquestionável de todos os direitos. A união estável não possui este documento, e mesmo que seja realizado durante a união, dependerá, obrigatoriamente, ser avaliado e decidido pelo Poder Judiciário sua existência, validade e eficácia.

Embora não seja a hipótese, mas vale lembrar que, o casal heterossexual pode OPTAR pelo casamento civil ou união estável. Este direito o casal homossexual não possui.

O indivíduo que contrai matrimônio pode expor e qualificar seu estado civil de casado, enquanto o convivente possui estado civil de solteiro.

De qualquer forma, as principais distinções são patrimoniais e de direitos e privilégios que decorrem das normas. Mas, ressalto que, para aqueles que não podem exercer o direito de optar por um ou outro instituto, o dano também é moral.

União Civil é um termo não técnico, que é utilizado pela imprensa, políticos e militância que abrange a todas as situações, ou seja, casamento, união estável, parceria civil e outro nome qualquer que queiram dar.

A união civil constava apenas no projeto de lei da Marta Suplicy, que estabelecia a tal parceria civil.

Espero ter contribuído de alguma forma.

Creio, salvo engano, que já falei sobre estas questões em algumas postagens no meu blog, inclusive, quando me referi a união estável da cantora Adriana Calcanhoto e Suzana de Moraes.

Abraços

Carlos Alexandre

* * *

*Créditos da imagem e mais informações aqui.

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