sábado, 22 de janeiro de 2011
As cores de cada um
O Gay Men's Chorus of Los Angeles surgiu no final da década de 70, em pleno boom do movimento pelos direitos civis dos gays nos EUA, com o compromisso de promover a transformação social através da música.
Em dezembro de 2010, realizaram, na Immanuel Presbyterian Church, uma apresentação em tributo aos jovens que cometeram suicídio devido ao assédio que sofriam por serem gays.*
Assim como o vídeo da Pixar que postamos aqui em novembro, a apresentação faz parte do projeto It Gets Better (algo como "Vai Melhorar"), que procura mostrar a adolescentes e jovens gays atormentados pelo bullying a felicidade que podem encontrar em suas vidas para além das agressões de que são vítimas.
A música escolhida, True Colors, lançada originalmente por Cindy Lauper em 1986, tornou-se um ícone da militância gay americana e deu o título da turnê realizada pela cantora e outros artistas em 2007 em benefício da Human Rights Campaign, campanha pela promoção da igualdade de direitos dos gays.
Um fim de semana de muitas e verdadeiras cores para todos. :-)
*Fonte: Blog Entre Nós Tweet
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Be the change
Foto: Joel Robison
Sejamos nós a mudança que queremos ver no mundo.
- Mahatma Gandhi
Bom fim de semana para todos! :-) Tweet
A água jorrará

Foto: Kevin Day
Em meio ao desencanto crescente e à disseminação da indiferença que corrói os valores mais essenciais neste mundo em que vivemos, vozes dissonantes se fazem ouvir. São vozes de pessoas que acreditam e valorizam a potencialidade do humano, a hospitalidade e cortesia, a solidariedade e a compaixão; acreditam e buscam, sobretudo, a possibilidade de um horizonte de paz.
Sobre isso escreve Faustino Teixeira, professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora em artigo publicado originalmente no site Amai-vos e que reproduzimos parcialmente a seguir.
A crescente atenção para com a espiritualidade não é algo que toca exclusivamente os religiosos (...). A espiritualidade é algo essencial para todos nós, que nos acende para dimensões esquecidas ou adormecidas. Com ela nasce uma renovada alegria no coração, uma fecunda vontade de se abrir à vida, de afirmar a vida, de ouvir as vozes que vêm do Real, de escutar o clamor que vem do outro.
Um desse “amigos de Deus” que precisam ser acolhidos nesse nosso momento atual é Thomas Merton (1915-1968) (...). É difícil encontrar alguém que conseguiu traduzir de forma tão bonita e rica o significado de uma vida espiritual. Para ele, o autêntico contemplativo nunca está desligado do tempo, mas profundamente inserido em seu coração. Trata-se de alguém que assume viver a experiência integral da vida, que acende no coração uma atenção especial para com tudo o que existe, e que vive, simplesmente, a vida em sua profundidade, como o peixe na água. Em seu diário dizia: “A única coisa necessária é uma verdadeira vida interior e espiritual, um crescimento verdadeiro, por minha conta, em profundidade, numa nova direção (...). Minha obrigação é não parar de avançar, crescer interiormente, rezar, livrar-me de apegos e desafiar os medos, aumentar minha fé, que tem sua própria solidão, procurar uma perspectiva inteiramente nova e uma nova dimensão em minha vida” (setembro de 1959).
O radical despertar para o sentido da vida foi se firmando para Merton no aprendizado do silêncio da floresta, sobretudo nos últimos anos de sua vida, enquanto eremita na abadia trapista de Getsêmani. Uma experiência que viveu com todo o seu ser. E curiosamente, quanto mais vivia a unificação interior, mais dilatava o seu coração e sua abertura para os outros e para o universo inteiro. Em certo momento de sua vida, (...) se dá conta que a verdadeira vida contemplativa não pode significar separação do mundo, e que sua solidão vem animada por uma responsabilidade social: que ela não lhe pertence. Nessa ocasião percebeu de forma súbita e iluminada, como se captasse a beleza do coração de todos os seres humanos, que era um com eles. De que não eram seres estranhos à sua vida espiritual, mas que ocupavam nela um lugar central. (...) Foi o ponto de partida para uma nova percepção de Merton, quando então pôde captar a força da presença e gratuidade de Deus no íntimo de cada um.
Ao se aproximar da cavidade secreta do coração, que é o ponto de contato com o divino, Merton viveu uma tal experiência de liberdade interior, que no seu olhar ampliado soube reconhecer o segredo e o valor da alteridade. Na sua relação com a natureza pôde perceber o significado mais profundo do que denominou “ponto virgem” (...), [onde] habita o “paraíso de simplicidade, de autoconsciência – e de esquecimento de si -, liberdade e paz”. É nesse ponto “cego e suave” que se criam as condições para a sabedoria e o conhecimento de si e para a singular acolhida do outro. (...) Esse ponto vazio, que habita o centro de nosso ser, “é o centro de todos os demais amores”. É nele que habita a centelha que está na raiz de toda busca autêntica, e que pertence inteiramente ao Mistério sempre maior, que nós cristãos identificamos como Deus.
Nada mais essencial em nosso tempo sombrio do que saber cultivar o exercício de uma espiritualidade autêntica, de buscar encontrar este pontinho de nada que revela um sentido esquecido e abre portas fundamentais para a percepção do Real. Para além da lógica do mercado, marcada pela competição, pela produtividade, pela vontade de poder, pela ganância e egoísmo, existe um outro horizonte, onde o que é gratuito fala mais forte, e onde o humano pode brilhar com mais autenticidade. Como Merton assinalou, não há programa definido para esta ampliação do olhar, mas há que estar desperto para a sua irrupção. É algo que é dado de graça, e que se revela a cada momento pois está em toda parte. Como assinala Rûmî, um dos grandes místicos sufis, que estaria completando 800 anos neste ano, “Não busques a água; mostra apenas que estás sedento, e a água jorrará ao teu redor”. [Grifo nosso]
Que cada um possa cultivar o seu próprio aprofundamento e crescimento interior, rumo à fonte de água viva que jorra incessante no fundo do seu ser. :-)
Distinção entre os casamentos civil e religioso, união estável e "união civil"
Foto: Anúncio americano por ocasião do Dia de Martin Luther King
(celebrado toda 3ª segunda-feira de janeiro) deste ano nos EUA*
O advogado Carlos Alexandre Neves Lima, autor do blog Direitos Fundamentais LGBT, nos fez a gentileza, nos comentários do post anterior, de sanar nossas dúvidas quanto às diferenças entre casamento civil (salientando a distinção entre este e o casamento religioso), união estável e a dita "união civil".
Os grifos abaixo são nossos, pois também para nós nunca é demais enfatizar que o casamento religioso pertence a uma esfera completamente distinta daquela da lei e do direito. Alimentar a confusão entre ambos tem sido uma das principais armas usadas contra os direitos civis dos gays, e cabe a todos nós dissipá-la. Como bem argumenta o movimento Catholics for Marriage Equality, a lógica que deve valer, no caso do casamento civil entre gays, é a mesma do divórcio, que é concedido pelo Estado ainda que algumas Igrejas se oponham à separação e ao recasamento.
Nosso muito obrigado ao Carlos, cujo blog é referência obrigatória na área do direito homoafetivo. :-)
Para melhor divulgação, tomamos a liberdade de reproduzir seu texto aqui. Segue abaixo.
* * *
Cris Serra e Equipe,
Uma coisa é religião e outra é a lei.
Existe o casamento religioso e o casamento civil.
Quando nos referimos aos direitos civis, evidentemente, não estamos falando de casamento religioso, mas do casamento civil que é disposto no nosso código civil brasileiro.
É muito grave esta confusão que as pessoas são induzidas entre casamento civil e religioso. Por causa dela, muitas pessoas se colocam contra o casamento para homossexuais, acreditanto que desta forma o estado, através de uma lei, estaria interferindo nas religiões.
Mas, vamos combinar, não é dificil perceber que nem todos que se casam no civil, também se casam no religioso e vice-versa. E, como imagino que todos saibam, somente do casamento CIVIL decorre os direitos estabelecidos pela lei CIVIL.
Casamento RELIGIOSO é sacramento, imposto pelas condições da igreja e o Estado não pode interferir.
Casamento CIVIL é um instituto jurídico de manifestação da vontade dos nubentes que, através normas de ordem;pública cogente, estabelecem, direitos e deveres.
Por sua vez, casamento civil e união estável são dois institutos jurídicos distintos e com efeitos diversos.
Em linhas MUITO GERAIS posso dizer que:
- enquanto no casamento o conjuge possui direito real de habitação, independente do regime de bens, sem limitação de tempo, já na união estável esse direito é questionável, e se aplicado, será limitado;
- no direito a herança, o casado, independente do regime de bens, é herdeiro necessário, está na linha do direito sucessorio, já o convivente da união estável só participa da herança na parte que contribuiu para a formação;
- no direito civil e penal, processual civil e penal, todos os inúmeros direitos previstos para os casados não se estendem aos conviventes da união estável;
Do casamento se extrai uma certidão que é um documento que representa uma prova pré existente e inquestionável de todos os direitos. A união estável não possui este documento, e mesmo que seja realizado durante a união, dependerá, obrigatoriamente, ser avaliado e decidido pelo Poder Judiciário sua existência, validade e eficácia.
Embora não seja a hipótese, mas vale lembrar que, o casal heterossexual pode OPTAR pelo casamento civil ou união estável. Este direito o casal homossexual não possui.
O indivíduo que contrai matrimônio pode expor e qualificar seu estado civil de casado, enquanto o convivente possui estado civil de solteiro.
De qualquer forma, as principais distinções são patrimoniais e de direitos e privilégios que decorrem das normas. Mas, ressalto que, para aqueles que não podem exercer o direito de optar por um ou outro instituto, o dano também é moral.
União Civil é um termo não técnico, que é utilizado pela imprensa, políticos e militância que abrange a todas as situações, ou seja, casamento, união estável, parceria civil e outro nome qualquer que queiram dar.
A união civil constava apenas no projeto de lei da Marta Suplicy, que estabelecia a tal parceria civil.
Espero ter contribuído de alguma forma.
Creio, salvo engano, que já falei sobre estas questões em algumas postagens no meu blog, inclusive, quando me referi a união estável da cantora Adriana Calcanhoto e Suzana de Moraes.
Abraços
Carlos Alexandre
* * *
*Créditos da imagem e mais informações aqui.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Católicos pela igualdade matrimonial
Foto: Chris Craymer
Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.
- 1Jo 4, 7-8
O Catholics for marriage equality (Católicos pela igualdade matrimonial) é um grupo americano de católicos de diversas tradições - romana, independente, episcopais, ortodoxos, entre outros - que defendem a igualdade de acesso ao casamento civil. Em seu site, enfatizam que não representam nenhuma Igreja específica: "somos um grupo de pessoas católicas que partilham a crença comum em que o casamento civil não pode ser negado a ninguém em virtude de sua orientação sexual". Um dos argumentos que utilizam é que, assim como o divórcio é concedido pelo Estado ainda que algumas Igrejas se oponham à separação e ao recasamento, do mesmo modo o casamento civil não poderia ser recusado com base em crenças religiosas.
Trata-se, no entender do grupo, de uma questão circunscrita à esfera jurídica e relativa ao Estado, que não diz respeito nem pretende interferir na visão de mundo de nenhuma Igreja em particular. Cabe a cada Igreja decidir que uniões serão reconhecidas e santificadas, ou não, conforme suas próprias crenças e valores. Nos EUA, várias Igrejas já realizaram cerimônias de casamento para casais do mesmo sexo, ao passo que outras não. A Igualdade Matrimonial, um direito civil, não anula nenhum direito religioso.
O grupo defende que os partidários dessa causa escrevam aos legisladores estaduais e federais cobrando inciativas sobre o assunto, e, sobretudo, que conversem com outras pessoas a respeito. "Muitas pessoas se opõem à Igualdade Matrimonial por medo. Ajudem-nas a dar uma face humana ao tema. De maneira respeitosa, compartilhe com elas os seus valores familiares."
Uma bela iniciativa; uma questão de cidadania. :-)
* * *
A questão do casamento gay, aliás, está dando o que falar por aqui nos últimos dias. Anteontem (18/01) foi divulgada a notícia de que o Supremo Tribunal Federal está para votar, em fevereiro, a validade jurídica das uniões homossexuais.
No meio do disse-me-disse, porém, surgiu um ruído na comunicação. No dia seguinte (19), o site Mix Brasil publicou que o "casamento gay" seria aprovado, enquanto, em seu blog, o Superintendente de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos da Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos do RJ, Cláudio Nascimento, publicou um texto similar, com modificações apontadas e analisadas pelo advogado Carlos Alexandre Neves Lima em seu blog.
O próprio Carlos Alexandre aproveitou para desfazer o mal-entendido e esclarecer a questão do ponto de vista jurídico: trata-se, de fato, da união estável entre homossexuais. Não união civil, e muito menos casamento civil - todos institutos jurídicos distintos, com conceitos e consequências diferentes.*
Ainda assim, é mais um passo na nossa caminhada.
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*(Atualização em 21/01: saiba mais no próximo post.)
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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Homofobia e paz
Foto: Mikkel VangO Ministério da Educação anuncia a preparação de uma cartilha sobre homofobia, "diante da constatação de que o assunto incita ódio, a violência e a exclusão, e pode até estimular a evasão escolar". Na mesma semana, a tragédia das chuvas na Região Serrana do Rio acaba trazendo inadvertidamente à tona uma questão controversa: a resolução RDC nº 153 da Anvisa, que regulamenta os procedimentos de hemoterapia no país, estipula que "homens que fizeram sexo com outros homens nos 12 meses que antecedem a triagem clínica devem ser considerados inaptos temporariamente para a doação de sangue".
Coincidentemente, a criação da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC, responsável também por assuntos como a homofobia, data do mesmo ano, 2004, que a resolução da Anvisa. Dois anos depois, em 31 de julho de 2006, a Anvisa emitiu uma nota de esclarecimento do veto à doação de sangue por gays de vida sexual ativa, acompanhada de uma nota técnica que procura justificar a proibição apelando para as "evidências científicas" que fundamentam a medida.
(Entre parênteses: um comentário sobre a nota da Anvisa.)
O Jornal do Brasil publicou, no apagar das luzes de 2010, uma matéria contrapondo os avanços no campo dos direitos civis de gays aos números da violência causada por homofobia no Brasil durante a era Lula, segundo dados do Grupo Gay da Bahia. O antropólogo Luiz Mott, fundador do GGB, salienta o paradoxo vigente na sociedade brasileira contemporânea entre “o lado vermelho-sangue representado pelos assassinatos de homossexuais” e “o lado cor de rosa favorável aos gays”.
Também citado na matéria do JB, Toni Reis, presidente da ABGLT, entende que as contradições da sociedade refletem-se nas diferenças entre os Três Poderes: enquanto Executivo e Judiciário vêm se mobilizando para garantir os direitos dos cidadãos gays, o Legislativo "ainda não aprovou o projeto de lei, em tramitação desde 2001, que define os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, origem, condição de pessoa idosa ou com deficiência, gênero, sexo, orientação sexual ou identidade de gênero". E acrescenta: “o problema no Legislativo é uma questão de fundamentalismo religioso”.
Em meio ao paradoxo, entre os números da violência explícita e o sentimento da discriminação velada, na contradição entre a crueza da homofobia real e a percepção da transformação, seja ela subliminar ou não, e, sobretudo, no fogo cruzado entre fundamentalistas cristãos e anticristãos em geral - o coração humano acalenta um profundo anseio de paz. Ainda que o conflito, o caos, o tumulto teimem em fazer barulho e ocupar espaço, não é a paz que desejamos para nós e nossas relações?
"Sim", sussurra o coração do Homem, "a paz é possível". É possível porque houve Alguém que prometeu: "Felizes os que constroem a paz, porque serão chamados filhos de Deus" (Mt 5, 9). Assim como Sua mansidão não pode ser confundida com passividade, Sua paz consiste "não em ausência de conflitos, em falsa tranquilidade de consciência, em alienação. Mas em dinamicidade que luta e tudo faz para que a justiça aconteça, dando seu fruto maior, que é a verdadeira paz".*
Se a paz verdadeira só nos pode ser dada por Aquele que é o Príncipe da Paz, "ao mesmo tempo, responsabilizemo-nos com Ele a construir essa paz tão desejada por nós e por todos que vêm a este mundo. Ofereçamo-la, sobretudo ao que está próximo a nós. Seremos felizes, bem-aventurados. E chamados filhos de Deus!"*
Que a Paz do Senhor esteja conosco... E que cada um de nós possa ajudar a construí-la, para si mesmo e para o seu próximo. :-)
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Parênteses sobre a nota da Anvisa

(Parênteses do post acima: o problema é que a Anvisa, em sua argumentação, procura associar o homossexual masculino ao maior risco de contaminação pelo HIV e outras DSTs - muito embora, segundo o Boletim Epidemiológico AIDS 2010 do nosso Ministério da Saúde, apenas no período entre 1980 e 1997 os homossexuais masculinos tenham sido maioria nos números da AIDS. Com efeito, desde 1998, este grupo é minoritário em relação aos homens heterossexuais, numa relação de mais de 2 para 1; ou seja, o carro-chefe da argumentação da Anvisa é um dado que, por ocasião da redação da nota, estava quase 10 anos desatualizado.
Ainda assim, para explicar o porquê do "maior risco" dos homossexuais masculinos, a Anvisa argumenta que, "devido à maior freqüência de relações sexuais anais que originam lesões dérmicas, porta de entrada para o vírus", os homossexuais "continuam tendo comportamento de risco acrescido para aquisição de HIV". E enumera uma série de outros "critérios de exclusão associados a diferentes situações de risco acrescido", tais como diabéticos, vítimas de estupro, indivíduos tatuados etc. - "não se restringindo", portanto, "apenas aos HSH , o que denota que não existe discriminação baseada em preconceitos". Nesse o caso, o veto não deveria valer para os aficionados do sexo anal em geral, em vez de para os homossexuais em particular?
Para completar, a Anvisa alega que "os serviços de hemoterapia são muitas vezes procurados para fins de diagnóstico de HIV por pessoas com comportamento de risco acrescido, incrementando desta forma a chance de transmissão". Só não fica claro se essa atitude é prerrogativa dos homossexuais, e se há alguma evidência científica que comprove isso. Fecha parênteses...)
Clique aqui para voltar ao post.
Atualização em 07/02/11
"Ministro da Saúde nomeado no governo Dilma Rousseff, Alexandre Padilha afirmou que pretende rever a proibição de homossexuais doarem sangue, em vigor no Brasil por meio da portaria nº 153, criada em 2004, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)."
Atualização em 17/03/11
"O Conselho Nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) pode entrar com uma ação contra a proibição de gays doarem sangue.
A Comissão Nacional de Estudos Constitucionais da OAB analisará a polêmica Resolução nº 153 da ANVISA e se manifestará se é pertinente o ajuizamento de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade – medida contra leis/ações que desrespeitam a Constituição brasileira."
Essa iniciativa se deu a partir do questionamento do Grupo Matizes, do Piauí, que em fevereiro questionou o Ministro da Saúde sobre o assunto por ocasião de uma visita ao Estado. Isso é atuação cidadã. :-)
Reproduzido via Do Lado.
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Para completar, a Anvisa alega que "os serviços de hemoterapia são muitas vezes procurados para fins de diagnóstico de HIV por pessoas com comportamento de risco acrescido, incrementando desta forma a chance de transmissão". Só não fica claro se essa atitude é prerrogativa dos homossexuais, e se há alguma evidência científica que comprove isso. Fecha parênteses...)
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Atualização em 07/02/11
"Ministro da Saúde nomeado no governo Dilma Rousseff, Alexandre Padilha afirmou que pretende rever a proibição de homossexuais doarem sangue, em vigor no Brasil por meio da portaria nº 153, criada em 2004, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)."
Atualização em 17/03/11
"O Conselho Nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) pode entrar com uma ação contra a proibição de gays doarem sangue.
A Comissão Nacional de Estudos Constitucionais da OAB analisará a polêmica Resolução nº 153 da ANVISA e se manifestará se é pertinente o ajuizamento de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade – medida contra leis/ações que desrespeitam a Constituição brasileira."
Essa iniciativa se deu a partir do questionamento do Grupo Matizes, do Piauí, que em fevereiro questionou o Ministro da Saúde sobre o assunto por ocasião de uma visita ao Estado. Isso é atuação cidadã. :-)
Reproduzido via Do Lado.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
"Quando o filho sai do armário, a mãe entra"
Foto: Julie de Waroquier
Uma frase da pesquisadora, professora e escritora Edith Modesto resume bem a dificuldade dos pais em aceitar um caso de homossexualidade entre a sua prole: “quando o filho sai do armário, a mãe entra”. E foi exatamente essa experiência que Edith viveu quando o seu caçula lhe disse, chorando, que era homossexual.
“Naquela época, meu mundo caiu”, lembra. “Na maioria das vezes, a descoberta da homossexualidade de um filho é vivida como uma tragédia. Por isso, passei por um processo lento de aceitação”. Edith levou anos pesquisando sobre diversidade sexual, após descobrir que não sabia nada sobre o assunto, apesar de ser professora universitária (aposentada), mestra e doutora em Semiótica pela Universidade de São Paulo (USP).
Ela começou acompanhando fóruns de bate-papo na internet sobre homossexualidade. Por muito tempo, a vergonha a impediu de interagir nessas rodas de conversas virtuais; apenas lia os diálogos dos outros integrantes. “Tinha muito preconceito e associava homossexualismo a doença, safadeza, perversão, mas fui me surpreendendo ao ver como os participantes eram cultos, interessantes e com caráter”.
Até que Edith, de 68 anos, teve coragem de se apresentar para todos como uma mãe de gay, que estava apavorada com a descoberta. Ao saberem disso, os interlocutores virtuais ficaram extasiados com o fato de estarem diante de uma mãe que, pela primeira vez, tentava entender esse mundo. Eles a “adotaram” e alguns se tornaram seus amigos.
Após esse primeiro passo, muita coisa mudou. Edith acabou criando o Grupo de Pais de Homossexuais (GPH), iniciativa que já completou doze anos. No começo, ela investia pouco em divulgação, por causa da vergonha de se expor. Mas depois que a pesquisadora “saiu do armário”, a ONG cresceu e passou a oferecer grupo de ajuda mútua, orientação, palestras e materiais educativos, além de seminários para empresas, escolas, etc.
Em 2006, Edith lançou o livro “Vidas em Arco-Íris: Depoimento sobre a Homossexualidade” (Editora Record). A publicação traz entrevistas com homossexuais, por meio de um olhar não acadêmico do mundo gay. O trabalho foi desenvolvido durante dois anos, período em que foram gravadas mais de 200 fitas com relatos sobre os mais diversos assuntos relacionados ao tema.
- Foi a maneira que encontrei para dar a palavra a eles, para que as pessoas pudessem abandonar estereótipos e saber que a homossexualidade é natural, e não uma opção. Quero mostrar também como o preconceito “social” é tão cruel que até mesmo quem é homossexual tende a não se aceitar. Até se assumirem gays, as pessoas passam por um processo tão doloroso quanto os pais.
Sentir-se amado e receber apoio são os desejos de qualquer filho, sobretudo de um homossexual. Segundo Edith, há muitos casos de suicídio e uso de álcool e drogas por jovens homossexuais, cujos pais não aceitam a sua sexualidade. Por isso, o GPH procura oferecer "um ambiente seguro e acolhedor onde pais e mães possam trocar informações e experiências sobre seus filhos". Atualmente, há grupos de acolhimento e ajuda mútua nas cidades de São Paulo e Bragança Paulista, além dos estados de Minas, Rio, Santa Catarina e Paraná.
Para mais informações, acesse o site ou mande um e-mail para o grupo. Ou, se preferir, ligue 011 3031-2106. Tudo o que é conversado entre os integrantes do grupo é estritamente confidencial.
Site: http://www.gph.org.br
E-mail: maes-de-homos@uol.com.br
(Livremente adaptado de matéria de Ciça Vallerio, publicada em 15/10/2006 no jornal Estado de S. Paulo, e baseado em informações contidas no site do GPH.) Tweet
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Fome de espiritualidade
Ilustração: Deanne Cheuk
Reproduzimos abaixo, para reflexão, algumas considerações do teólogo basco Jose Antonio Pagola acerca da necessidade humana de alimentar sua dimensão espiritual. Publicado originalmente no Eclesalia, e reproduzido via Amai-vos.
(...) Na sociedade moderna, não é difícil observar sinais que mostram uma profunda fome de espiritualidade. É crescente o número de pessoas que procuram algo que lhes de força interior para enfrentar a vida de forma diferente. É difícil viver uma vida que não aponta para qualquer objetivo. Também não é suficiente se divertir.
(...) Outros sentem a necessidade de paz interior e de segurança para lidar com os sentimentos de medo e incerteza que surgem dentro deles. Algumas pessoas se sentem mal por dentro, feridas, maltratadas pela vida, desamparadas, com necessidade de cura interior.
(...) São cada vez mais numerosos aqueles que procuram por algo que não seja técnica, nem ciência, nem ideologia religiosa. Querem sentir-se de forma diferente na vida. Precisam sentir uma espécie de "salvação", entrar em contato com o Mistério que intuem dentro deles. [Grifo nosso]
(...) É um erro no interior mesmo da Igreja estar sendo incentivada, com freqüência, uma espiritualidade que tende a marginalizar Jesus como algo irrelevante e de pouca importância. Os seguidores de Jesus não podem viver uma espiritualidade séria, lúcida e responsável, se não for inspirada pelo seu Espírito. Hoje nada é mais importante que oferecer às pessoas ajuda para se encontrarem internamente com Jesus, o nosso Mestre e Senhor.
Como será que cada um de nós tem vivido essa busca e cuidado do Mistério que vive no nosso interior?
Uma semana iluminada e luminosa para todos. :-) Tweet
domingo, 16 de janeiro de 2011
"Eis o Cordeiro de Deus"
Reproduzimos abaixo a bela reflexão de Gilda Carvalho* acerca do Evangelho deste domingo.
Ao aproximar-se de João no rio Jordão a fim de ser batizado, Jesus será chamado pelo Batista de “Cordeiro de Deus”. “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” (Jo 1, 29) – aclamará João ao ver Jesus que se aproxima com humildade para o batismo, querendo desde o início de sua missão fazer-se igual a todo aquele povo que procurava por consolo e conversão.
O cordeiro é um animal manso, pacato, e assim foi Jesus em sua manifestação à humanidade. Sua mansidão não pode ser confundida com passividade. Ao contrário, era uma resposta de não-violência a toda injustiça a que seu povo era submetida. Sua mansidão era a tradução da paz própria daqueles que se encontram em comunhão contínua com Deus Pai e sabem-se fazendo a vontade do Criador. [Grifo nosso]
Até hoje proclamamos as palavras de João Batista em nossas celebrações. A assembléia aclama o Cordeiro de Deus e Lhe pede piedade e paz. Depois, Jesus Eucarístico é elevado à frente da assembléia e apresentado a ela Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e respondemos a esta visão com um pedido de salvação. E, como João, somos também indignos de desatar as correias das sandálias do Salvador...
Se continuarmos a ler o texto evangélico, veremos o relato do diálogo entre Jesus e os dois discípulos de João: “Mestre, onde moras?” e, à resposta de Jesus, permanecem com Ele aquele dia, reconhecendo Nele o verdadeiro Messias, passando a segui-lo e a aprender com Ele o caminho da salvação.
À visão do Cordeiro de Deus Eucarístico devemos, pois, refletir: acreditamos que aquele é realmente o Messias, feito Eucaristia em memória de Cristo e que ainda hoje permanece vivo entre nós? Fazemos da Eucaristia um momento de comunhão com o Senhor de modo que O deixemos transformar nossos corações com sua mansidão? Desejamos firmemente sermos manso como Ele o foi? Desejamos tornarmo-nos também Cordeiros de Deus, ainda que nos seja reservado o sacrifício? A visão do Cordeiro continua, portanto, a nos impelir à transformação, a um novo batismo, tal como João predisse então, tal como os primeiros discípulos que largaram tudo e seguiram Jesus viveram. O Senhor batizará não com a água, mas com o Espírito. Permitamos, pois, que o Espírito do Cordeiro nos faça mansos e diligentes para com a construção da paz.
Para reflexão: Jo 1, 29-34
*Publicado originalmente no site Amai-vos. Tweet
sábado, 15 de janeiro de 2011
A persistência é sua maior arma
Reproduzido do blog Cafeína:
Cena final de An Englishman in New York (2009), em que John Hurt interpreta Quentin Crisp [1908-1999], escritor inglês que desafiou definições de gênero e o patrulhamento ideológico. Claro, pagou caro por isso, cometeu erros e algumas gafes precipitadas. Mas soube dar seu adeus com sábias palavras.
"A persistência é a sua maior arma. É da própria natureza das barreiras que acabem caindo um dia. Não se empenhem em tornar-se iguais aos seus opositores. Vocês carregam o fardo e a grande alegria de estarem à margem. Cada dia que vocês vivem é uma espécie de triunfo: agarrem-se a isso. Não façam esforço para integrar-se à sociedade. Fiquem exatamente onde estão. Dêem seus nomes e número de série e esperem que a sociedade venha formar-se à sua volta - porque ela sem dúvida virá. Não olhem nem para a frente, onde vivem as dúvidas, nem para trás, onde vive o arrependimento. Olhem para dentro, e perguntem-se não se há algo lá fora que vocês desejam, mas se há algo aí dentro que vocês ainda não trouxeram à tona."
- Quentin Crisp
Tweet
Crisp foi uma figura controvertida, independente e imprevisível. Visitado por Sting em 1986, contou-lhe como tinha sido para ele, sendo homossexual, viver na homofóbica Inglaterra entre 1920 e 1960. Sting, impressionado, dedicou-lhe a música An Englishman in New York ("Um Inglês em Nova York"), que inclui os versos:
It takes a man to suffer ignorance and smile,
Be yourself no matter what they say.*
* * *
Um final de semana abençoado para todos. :-)
*"É preciso ser muito homem para ser vítima da ignorância e ainda sorrir / Seja você mesmo, não importa o que digam."
*"É preciso ser muito homem para ser vítima da ignorância e ainda sorrir / Seja você mesmo, não importa o que digam."
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Tragédia na Região Serrana do Rio de Janeiro
O Diversidade Católica se solidariza com as vítimas da chuva na Região Serrana do Rio. Nossos olhos, nossos corações e nossas orações estão com vocês.
"Cristo não veio explicar o mistério do sofrimento, mas veio sofrer conosco; não veio explicar o mistério da morte, mas veio morrer numa cruz. Assim, a vida, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo mostram que a liberdade e a dignidade da pessoa humana, que se empenha com amor para o próximo e edifica assim o Reino de Deus, são mais fortes que todo o poder do mal e da injustiça."
- Pe. Ezequiel Faria, Benguela (Angola)
O governo estadual disponibilizou um mapa com o endereço dos postos de doação. Para saber como ajudar, clique aqui.
Sinais dos tempos
Alguns homens vêem as coisas como são, e dizem "Por quê?"
Eu sonho com as coisas que nunca foram e digo "Por que não?"
Eu sonho com as coisas que nunca foram e digo "Por que não?"
- G. B. Shaw
Quem tem acompanhado o noticiário com atenção talvez esteja pressentindo alguma mudança no ar. Um dos destaques da semana passada foi a nova resolução do Conselho Federal de Medicina concedendo a casais homossexuais e solteiros acesso a técnicas de reprodução assistida, até então prerrogativa de casais heterossexuais casados oficialmente. No último domingo, os leitores de O Globo, do Rio de Janeiro, foram surpreendidos pela matéria de capa da revista encartada semanalmente no jornal - uma reportagem sobre a saga de um casal de mulheres para ter um filho, que vinha sendo maturada desde julho de 2010 e foi oportunamente publicada agora. E, numa nota que talvez tenha passado desapercebida para a maior parte dos leitores, o G1 SP expôs o caso de outro casal de mulheres, que, junto com o filho, escapou de ser soterrado num deslizamento no ABC paulista.
Curiosamente, embora a resolução do CFM envolvesse um amplo conjunto de decisões relativas à aplicação de técnicas de reprodução assistida, afetando um público abrangente, a imprensa optou, em sua maior parte, por enfatizar a questão dos casais homossexuais. A TV Globo, por exemplo, aproveitou o mote para veicular, no Fantástico, uma matéria sobre direitos gays e homofobia, compilando tópicos diversos que têm estado em pauta no noticiário recente. Pode ter sido a escolha da polêmica fácil: uma rápida passada de olhos pelos comentários dos leitores nas matérias sobre o assunto nos veículos de comunicação on-line imediatamente revela o que parece ser um campo de batalha. De um lado, religiosos; de outro, gays. Nos dois casos, ânimos exaltados, agressões de parte a parte, e, salvo raríssimas exceções, nenhum diálogo.
Por trás desse lamentável festival de intolerâncias mútuas, porém, não é difícil constatar que tanto barulho tem uma causa: a resolução do CFM vem refletir uma transformação cultural que vem se consolidando nos últimos 20 anos. O mesmo pode ser dito da recente decisão da Receita Federal autorizando homossexuais a incluir o cônjuge como dependente na declaração de imposto de renda. Tudo indica que o antigo paradigma da família nuclear, restrito à imagem do casal heterossexual com filhos, está mudando. Cada vez mais se normaliza um conceito de família que abrange casais recasados, núcleos familiares com filhos de diversos casamentos, pais e mães solteiros - e casais gays.
Ainda assim, surpreendeu-nos (ou não deveria ser surpresa?) abrir o jornal de domingo e encontrar na capa da revista um casal de lésbicas com um bebê, acima do título "Álbum de família". Ou, dois dias depois, numa nota aparentemente trivial intitulada "Pratos quebram durante deslizamento e salvam mulheres no ABC", ver o jornalista referindo-se a uma das vítimas como "namorada" da outra e ao adolescente de 14 anos como "filho delas". Não seria de se esperar tamanha naturalidade da parte da imprensa?
Sobre o casal Cinthia e Carla e seu filho Illan, cuja história é contada na Revista de O Globo que ilustra este post, a jornalista Fátima Sá conta um episódio que demonstra essa crescente naturalização: logo após o parto, "Cinthia [a mãe biológica] descansava, e Carla admirava o bebê no berçário quando foi surpreendida por uma enfermeira:
- É seu filho, né? É a sua cara."
Sinais dos tempos. Entre os que acham que as mudanças se dão com excessiva lentidão e os que se sobressaltam diante de transformações assustadoramente evidentes, é inegável que passos vão sendo dados. Se pequenos ou grandes, devagar ou rápido demais, depende do ponto de vista ou do gosto do freguês.
Fato é que precisávamos - precisamos - começar por algum lugar. E, caso alguém não tenha ainda notado, sim: nossa jornada rumo a um mundo mais fraterno, onde haja mais diálogo e menos intransigência, mais flexibilidade e menos intolerância, mais amor e menos exclusão, já começou.
Estamos a caminho.
Cris Serra
Coordenadora-geral do Diversidade Católica
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
A experiência de Deus

Foto: Ibai Acevedo
Neste belo artigo, publicado originalmente no site do Centro Cultural de Brasília, Manuel Eduardo Iglesias S.J. reflete sobre a importância da experiência de Deus, do afeto e da vivência da fé para que nossa religiosidade não se reduza a uma racionalidade vazia. Vale a leitura e a reflexão proposta ao final pelo autor.
Vivemos uma mudança de paradigmas na nossa cultura ocidental. É o caso da redescoberta da importância da experiência e do afeto na vida espiritual. David G. Benner é um leigo americano, pai de família, psicólogo, diretor espiritual e orientador de retiros. No seu livro Entrega total ao amor ele relata a sua experiência pessoal de Deus e a de muitas pessoas por ele acompanhadas. Já no capítulo primeiro confessa que, como tantos outros católicos, ele viveu durante muitos anos com uma fé apenas racional, e experimentou como tudo muda quando se passa a ter uma experiência pessoal e direta de Deus. Admira-se do fato de ter vivido tantos anos aceitando idéias sobre Deus sem ter experiência dele. Ser amados por Deus é o cerne da nossa identidade cristã. Cita esta afirmação de Jung: Eu não creio em Deus, eu conheço Deus. No epílogo, enfatiza que a espiritualidade cristã não é um conjunto de crenças, nem uma lista de deveres e mandamentos; não é um programa de auto-ajuda; é uma caminhada para a união com Deus. Antes de tudo, é uma relação!
A predição do teólogo Karl Rahner está se confirmando cada dia mais, a começar pela Europa: O cristão do futuro ou será um místico ou não será cristão. Após séculos de domínio solitário da teologia acadêmica passamos a re-valorizar também a via da experiência e do silêncio meditativo na nossa relação com Deus.*
Entendo por experiência uma modalidade de conhecimento que não se alcança por puro raciocínio. É uma percepção simples, imediata e intuitiva que atinge a pessoa toda, mente, sensibilidade e corpo, e que repercute sobre todo o ser. É conhecida a distinção que se pode fazer entre uma experiência religiosa do sagrado e uma experiência de Deus como Sentido radical. O que caracteriza a experiência de Deus é que nela a pessoa experimenta uma Presença que envolve a vida dentro do Sentido radical. O Sentido radical, como presença onipresente, é rigorosamente transcendente. A experiência cristã de Deus é a presença do Sentido radical revelado na existência histórica de Jesus de Nazaré. Uma experiência de fé, um encontro pessoal.
Vez por outra nos encontramos na prática pastoral com a difícil harmonia entre Religião e Fé. Religião como um conjunto de doutrinas, normas e ritos está a serviço do fundamental: a experiência de fé. Infelizmente, nem sempre acontece assim. A fé pode se apagar e a religiosidade manter uma fachada vazia.
A Igreja vive hoje o desafio da evangelização no nosso tempo. Como construir o Reino sobre o único alicerce que é Jesus Cristo? Como apresentar o rosto de Jesus às novas gerações? Como se manter fiéis ao essencial da nossa fé e abertos ao novo? O Documento de Aparecida é bem consciente dos desafios atuais e nos incentiva a uma caminhada em comunhão criativa e esperançosa. No hoje do nosso continente latino-americano, levanta-se a mesma pergunta cheia de expectativa: “Mestre, onde vives?” (Jo 1,38), onde te encontramos de maneira adequada para pra abrir um autêntico processo de conversão, comunhão e solidariedade? Quais são os lugares, as pessoas, os dons que nos falam de ti, que nos colocam em comunhão contigo e nos permitem ser discípulos e missionários teus?
Manuel Eduardo Iglesias S.J.
Artigo publicado originalmente no site do Centro Cultural de Brasília em 11/03/2010
*Grifo nosso.
* * *
Para refletir:
Como Deus se deixa sentir na sua vida?
Texto para meditar: Sl 139 (Tua mão me guia e me segura)
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Renovações de ano novo

Foto: Jackie Rueda
"(...) Importa no novo ano deixar para trás o que passou e procurar renovar o olhar, a atitude, o pensamento, o agir. Trata-se de mais do que simplesmente uma lista de resoluções sobre perder peso e fazer ginástica. Trata-se de uma renovação profunda e totalizante.
Para que o ano seja novo, há que estar disposto a renovar aquilo que há de mais profundo em nós e que nos faz mais humanos. Por exemplo, parar de continuar a nos autocompreender a partir de nós mesmos e defendendo desordenadamente, com unhas e dentes, um espaço "próprio". É preciso que nosso “lugar” de autocompreensão não seja nós mesmos, mas o outro ou a outra. Um dos baluartes da autocompreensão do ser humano é sua capacidade de êxodo de si mesmo, de êxtase, de saída da mesmice do olhar para si próprio e olhar para a alteridade e a diferença daquele ou daquela que tem frente a si.
E assim fazendo, seu destino não é perder 'seu' lugar para andar errante pela terra, sem ter para onde ir. É descobrir para si nova situação, novo lugar, outra terra, outra pátria, outra paisagem. Para que o ano seja novo, é necessário permitirmos que a solicitude, o amor e a generosidade nos arranquem de nós mesmos para situar-nos no outro, em seu lugar, suas preocupações, seus amores, suas dores, suas penas e glórias e fazer assim possível a descoberta e a vivência de uma nova comunhão.
Na antropologia se reproduzirá então o êxodo do Verbo, o qual, sendo de condição divina, não se aferrou à prerrogativa de ser igual a Deus, mas se fez homem, humilde, servo, obediente, até a morte de cruz (Fil 2,5-11). Reproduz-se, também, o êxodo do próprio Espírito, enviado constantemente pelo Pai e pelo Filho, 'outro' Paráclito que tem a missão de 'recordar' e 'rememorar' as palavras ditas por Jesus de Nazaré e conduzir seus ouvintes a toda a verdade (cf. Jo 16,13; 14,26; 15,26). Assim, à semelhança do êxodo e da 'saída' constante e contínua do próprio Deus de si mesmo, contemplando e experimentando o próprio Filho e o Espírito que saem da inefabilidade da comunhão intra-trinitária em direção ao mundo e à humanidade, o ser humano passará a ser e autocompreender-se como um peregrino, não possuindo aqui lugar onde repousar a cabeça, se encontrando em si mesmo, mas apenas fora de si mesmo, no outro, nos outros. (...)
Eu me situo no outro. Sou, sim, responsável por meu irmão. Respondo por ele, falo em nome dele ou dela quando a palavra lhes seja cassada; ajo em nome dele ou dela quando estiverem de mãos atadas; corro em seu auxílio quando estiverem necessitados. Assim, Aquele que renova todas as coisas será novo também em nós, pois através de nós estará levando a termo o parto da Nova Criação, feita de justiça e de amor."
Fazendo nossas estas belas palavras, desejamos a todos um Ano Novo feliz, e que cada vez mais nos façamos responsáveis pela nossa própria renovação.
Equipe Diversidade Católica
Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia e Decana do Centro de Teologia e Ciencias Humanas da PUC-Rio.
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Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia e Decana do Centro de Teologia e Ciencias Humanas da PUC-Rio.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Artista italiano cria Nossa Senhora dos Homossexuais

Com imagem de Nossa Senhora, artista quer homenagear gays mortos durante regime nazista
O artista divulgou em seu site o retrato da Nossa Senhora dos Homossexuais, pensada para homenagear gays mortos pelas forças de Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial.
Na pintura, Maria é retratada com um leve sorriso no rosto enquanto carrega o pequeno Jesus em uma das mãos e um globo terrestre na outra. De um lado a moldura da imagem traz símbolos do masculino, enquanto os do feminino ficam do lado oposto. Por trás do quadro está o triângulo rosa, usado pelos nazistas para designar homossexuais.
"Maria é protagonista da minha obra, mas eu não quis retratar o significado religioso, mas sua figura histórica de mãe. Escolhi-a como símbolo de imenso amor, o único capaz de aceitar, proteger e apoiar cada indivíduo singularmente, sem reservas ou distinções. Seu olhar afetuoso está dirigido não somente ao filho, mas, contemporaneamente, também àqueles filhos que vivem a condição homossexual, aqui representados pelos símbolos homossexuais masculino e feminino, que o próprio Jesus lhe apresenta", explica Raffaele.
Estima-se que cerca de 54 mil homossexuais foram condenados pelo Terceiro Reich. Sete mil morreram em campos de concentração. Em homenagem a eles foi erguido em Berlim, em 2008, um memorial. O bloco retangular de concreto tem quatro metros de altura e exibe em seu interior a imagem de dois homens se beijando. Tweet
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Homofobia, natureza, religião, direito e ignorância
A homossexualidade é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados. Nesse sentido, não existe aspecto do comportamento humano que se lhe compare.
Não há descrição de civilização alguma, de qualquer época, que não faça referência a mulheres e a homens homossexuais. Apesar de tal constatação, esse comportamento ainda é chamado de antinatural.
Os que assim o julgam partem do princípio de que a natureza (leia-se Deus) criou os órgãos sexuais para a procriação; portanto, qualquer relacionamento que não envolva pênis e vagina vai contra ela (ou Ele).
Se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal entre heterossexuais? E o sexo oral? E o beijo na boca? Deus não teria criado a boca para comer e a língua para articular palavras?
Se a homossexualidade fosse apenas uma perversão humana, não seria encontrada em outros animais. Desde o início do século 20, no entanto, ela tem sido descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos.
Em alguma fase da vida de virtualmente todas as espécies de pássaros, ocorrem interações homossexuais que, pelo menos entre os machos, ocasionalmente terminam em orgasmo e ejaculação.
Comportamento homossexual foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71 espécies de mamíferos, incluindo ratos, camundongos, hamsters, cobaias, coelhos, porcos-espinhos, cães, gatos, cabritos, gado, porcos, antílopes, carneiros, macacos e até leões, os reis da selva.
A homossexualidade entre primatas não humanos está fartamente documentada na literatura científica. Já em 1914, Hamilton publicou no "Journal of Animal Behaviour" um estudo sobre as tendências sexuais em macacos e babuínos, no qual descreveu intercursos com contato vaginal entre as fêmeas e penetração anal entre os machos dessas espécies. Em 1917, Kempf relatou observações semelhantes.
Masturbação mútua e penetração anal estão no repertório sexual de todos os primatas já estudados, inclusive bonobos e chimpanzés, nossos parentes mais próximos.
Considerar contra a natureza as práticas homossexuais da espécie humana é ignorar todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de pesquisas,
Os que se sentem pessoalmente ofendidos pela existência de homossexuais talvez imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por mero capricho. Quer dizer, num belo dia, pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas, como sou sem-vergonha, prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo.
Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros.
A sexualidade não admite opções, simplesmente se impõe. Podemos controlar nosso comportamento; o desejo, jamais. O desejo brota da alma humana, indomável como a água que despenca da cachoeira.
Mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países o fazem com o racismo.
Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais que procurem no âmago das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal aceitam a alheia com respeito e naturalidade.
Negar a pessoas do mesmo sexo permissão para viverem em uniões estáveis com os mesmos direitos das uniões heterossexuais é uma imposição abusiva que vai contra os princípios mais elementares de justiça social.
Os pastores de almas que se opõem ao casamento entre homossexuais têm o direito de recomendar a seus rebanhos que não o façam, mas não podem ser nazistas a ponto de pretender impor sua vontade aos mais esclarecidos.
Afinal, caro leitor, a menos que suas noites sejam atormentadas por fantasias sexuais inconfessáveis, que diferença faz se a colega de escritório é apaixonada por uma mulher? Se o vizinho dorme com outro homem? Se, ao morrer, o apartamento dele será herdado por um sobrinho ou pelo companheiro com quem viveu por 30 anos?
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Publicado na Folha de São Paulo – Ilustrada, 4/12/2010 Tweet
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Minha culpa perante os nossos irmãos e irmãs homossexuais
Foto: Hengki Koentjoro
Eu, pecador e presbítero, peço perdão aos meus irmãos e irmãs homossexuais, em meu nome, em nome de outros, muitos, presbíteros e em nome da Igreja Católica, da qual faço parte desde o meu baptismo. Peço perdão porque não soube apreciar o dom do corpo e da sexualidade; porque coloquei reservas ao prazer e o considerei algo baixo, sujo e desprezível; porque preferi seguir Agostinho de Hipona em vez de fixar os meus olhos em Jesus de Nazaré.
Peço perdão porque me juntei aos que discriminam as pessoas homossexuais, escutei em silêncio e até contei algumas piadas que os degradam. Tolerei que se fale deles com desprezo e sejam catalogados com epítetos humilhantes. Senti medo de ser visto em público acompanhado de alguma pessoa abertamente homossexual.
Peço perdão porque não abri espaços para as pessoas homossexuais, no seio das paróquias onde servi; porque me calei perante seminaristas homossexuais que foram expulsos do seminário somente por essa razão; porque guardei para mim as minhas opiniões sobre encerramento da Igreja no que respeita aos homossexuais, em vez de abrir um debate público que tanta falta faz na comunidade cristã.
Peço perdão porque não soube valorar e apreciar a entrega de tantos catequistas, ministros e servidores homossexuais que há nas nossas igrejas, porque baixei a voz até que esta se transformasse em sussurro de capelinha nas reuniões de presbíteros, quando deveria elevá-la para falar sobre os homossexuais.
Peço perdão porque no sacramento da confissão, não soube dizer uma palavra de alento para os corações dos meus irmãos e irmãs homossexuais, brandi antes sobre eles o chicote do castigo, em vez de lhes abrir os braços e animá-los a serem fiéis a Deus, na orientação sexual que receberam; porque me neguei a benzer as casas daqueles que se haviam atrevido a desafiar a sociedade vivendo juntos e juntas; porque não quis benzer umas alianças que iam simbolizar a sua união fiel e permanente.
Peço perdão porque olhei com desconfiança as pessoas homossexuais e acreditei que a única motivação das suas acções era a busca do sexo; porque permiti que, com ligeireza, se fizesse a identificação entre perversão e homossexualidade, pederastia e homossexualidade, libertinagem e homossexualidade, SIDA e homossexualidade.
Peço perdão porque a afligi muitos pais de família com filhos e filhas homossexuais, em vez de os ajudar a descobrir que essa era uma riqueza que Deus concedia a esse lar para lhes permitir ser casa de amor, de tolerância e de respeito pelas diversidades. Peço perdão porque lhes recomendei que levassem os filhos a terapias psicológicas para que se fizessem «homens» e «mulheres» de verdade.
Peço perdão porque me apoiei na posição discriminatória que a Igreja mantém como posição oficial, em vez de contribuir para o seu desmantelamento, somente para não arriscar o meu prestígio e a minha fama.
Hoje peço perdão a Deus por não ter aprendido a velha lição de amor sem excepções e sem condicionamentos. E peço perdão aos meus irmãos e irmãs homossexuais, porque poderia ter feito muito mais para pugnar pela sua plena participação na vida da Igreja, podia ter derrubado mais barreiras, podia ter sido mais audaz.
Eu, pecador e sacerdote, peço perdão.
Pe. Raúl Lugo Rodríguez
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Depoimento publicado originalmente no site Rumos Novos Tweet
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Lobby cristão e casamento gay
Ilustração: Becca Stadtlander
O Pe. Luís Corrêa Lima, SJ, respondeu a um artigo do psicanalista Contardo Calligaris intitulado Lobby cristão e o casamento gay, publicado tanto na Folha de São Paulo quanto no blog do psicanalista. Confira o artigo abaixo, bem como a resposta esclarecedora do Pe. Luís Corrêa Lima.
Lobby cristão e casamento gay
Contardo Calligaris
As igrejas gostariam de uma sociedade em que seja crime tudo o que, para elas, é pecado.
"Em maio passado, durante uma visita ao santuário de Fátima, o papa Bento XVI declarou que o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo estão entre os mais "insidiosos e perigosos desafios ao bem comum".
Atualmente, quase todas as igrejas cristãs (curiosamente alinhadas com as posições do papa) negociam seu apoio aos candidatos à presidência cobrando posições contra a descriminalização do aborto e contra o casamento gay.
Em 2000, segundo o censo, havia, no Brasil, 125 milhões de católicos, 26 milhões de evangélicos e 12 milhões de sem religião. É lógico que os principais candidatos inventem jeitos de ficar, quanto mais possível, em cima do muro - tentando satisfazer o lobby cristão, mas sem alienar totalmente as simpatias de laicos, agnósticos e livres pensadores (minoritários, mas bastante presentes entre os formadores de opinião).
Adoraria que as campanhas eleitorais fossem mais corajosas, menos preocupadas em não contrariar quem pensa diferente do candidato. Adoraria também que soubéssemos votar sem exigir que nosso candidato pense exatamente como nós. Mas não é esse meu tema de hoje.
Voltemos à declaração do papa, que junta aborto e casamento gay numa mesma condenação e, claro, tenta pressionar os poderes públicos, mundo afora. Para ele, o que é pecado para a igreja deve ser também crime para o Estado.
No fundo, com poucas exceções, as igrejas almejam um Estado confessional, ou seja, querem que o Estado seja regido por leis conformes às normas da religião que elas professam. De novo, as igrejas gostariam de uma sociedade em que seja crime tudo o que, para elas, é pecado: o sonho escondido de qualquer Roma é Teerã ou a Cabul do Talibã.
Há práticas sexuais que você julga escandalosas? Está difícil reprimir sua própria conduta? Nenhum problema, a polícia dos costumes vigiará para que ninguém se dedique ao sexo oral, ao sexo anal ou a transar com camisinha.
Para se defender contra esse pesadelo (que, ele sim, é um "insidioso e perigoso desafio ao bem comum"), em princípio, o Estado laico evita conceber e promulgar leis só porque elas satisfariam os preceitos de uma confissão qualquer. As leis do Estado laico tentam valer por sua racionalidade própria, sem a ajuda de deus algum e de igreja alguma.
Por exemplo, é proibido roubar e matar, mas essa proibição não é justificada pelo fato de que essas condutas são estigmatizadas nas tábuas dos dez mandamentos bíblicos. Para proibir furtos e assassinatos, não é preciso recorrer a Deus, basta notar que esses atos limitam brutalmente a liberdade do outro (o assaltado ou o assassinado).
Agora, imaginemos que você se oponha ao casamento gay invocando a santidade do matrimônio. Se você acha que o casamento é um sacramento divino que só pode ser selado entre um homem e uma mulher, você tem sorte, pois vive numa democracia laica e sua liberdade é total: você poderá não se casar nunca com uma pessoa do mesmo sexo. Ou seja, você poderá manter quanto quiser a santidade e a sacramentalidade de SEU casamento.
Acha pouca coisa? Pense bem: você poderia ser cidadão de uma teocracia gay, na qual o Estado lhe imporia de casar com alguém do mesmo sexo.
Argumento bizarro? Nem tanto: quem ambiciona impor sua moral privada como legislação pública deveria sempre pensar seriamente na hipótese de a legislação pública ser moldada por uma outra moral privada, diferente da dele.
Parêntese: Se você acha que essa história de casamento gay é sem relevância, visto que a união estável já é permitida etc., leia "Histórias de Amor num País sem Lei. A Homoafetividade Vista pelos Tribunais - Casos Reais", de Sylvia Amaral (editora Scortecci).
PS. Sobre a dobradinha sugerida pela declaração do papa: talvez, para o pontífice, aborto e casamento gay sejam unidos na mesma condenação por serem ambos consequências da fraqueza da carne (que, obstinadamente, quer gozar sem se reproduzir).
Mas, numa perspectiva laica, a questão do aborto e de sua descriminalização não tem como ser resolvida pelas mesmas considerações que acabo de fazer para o casamento gay. Ou seja, não há como dizer: se você for contra, não faça, mas deixe abortar quem for a favor. Vou voltar ao assunto, apresentando alguns dilemas que talvez nos ajudem a pensar.
Comentário: Pe. Luís Corrêa Lima
Prezado Contardo Calligaris,
Convém analisar a afirmação do papa em Fátima. A frase toda é:
“As iniciativas que visam tutelar os valores essenciais e primários da vida, desde a sua concepção, e da família, fundada sobre o matrimônio indissolúvel de um homem com uma mulher, ajudam a responder a alguns dos mais insidiosos e perigosos desafios que hoje se colocam ao bem comum”.
Isto não significa que o Estado deva proibir tudo o que a Igreja Católica considera pecado. Santo Tomás de Aquino, já no século 13, dizia que a lei humana não deve proibir todas as coisas más que se fazem, porque eliminaria muitos bens e impediria o proveito do bem comum. Na tradição católica, nem tudo o que é imoral deve ser ilegal. Um belo exemplo recente é a proposta feita na ONU pela descriminalização da homossexualidade em todo mundo. A delegação da Santa Sé se posicionou a favor desta descriminalização, alegando que para a Igreja as relações sexuais livres entre pessoas adultas não devem ser consideradas delito pela autoridade civil.
Sobre o casamento gay, o papa se opõe ao uso do termo ‘matrimônio’ para uniões entre pessoas do mesmo sexo, e mesmo à plena equiparação entre uniões homo e hétero. Entretanto, documentos da Igreja aceitam o reconhecimento de direitos na convivência homossexual. Alguns bispos já se manifestaram publicamente a favor da união civil homoafetiva. Sobre o aborto, o antigo assessor teológico do papa, cardeal Cottier, tem apreço pela posição do governo Obama de manter o aborto legalizado mas, ao mesmo tempo, de buscar alternativas para que o seu número se reduza ao mínimo.
Por tudo isso, Roma não sonha com Teerã. Afirmar o contrário, é fornecer argumento aos segmentos ultraconservadores que querem que nada mude, seja na sociedade, seja na Igreja. Tweet
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