quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Parênteses sobre a nota da Anvisa



(Parênteses do post acima: o problema é que a Anvisa, em sua argumentação, procura associar o homossexual masculino ao maior risco de contaminação pelo HIV e outras DSTs - muito embora, segundo o Boletim Epidemiológico AIDS 2010 do nosso Ministério da Saúde, apenas no período entre 1980 e 1997 os homossexuais masculinos tenham sido maioria nos números da AIDS. Com efeito, desde 1998, este grupo é minoritário em relação aos homens heterossexuais, numa relação de mais de 2 para 1; ou seja, o carro-chefe da argumentação da Anvisa é um dado que, por ocasião da redação da nota, estava quase 10 anos desatualizado.

Ainda assim, para explicar o porquê do "maior risco" dos homossexuais masculinos, a Anvisa argumenta que, "devido à maior freqüência de relações sexuais anais que originam lesões dérmicas, porta de entrada para o vírus", os homossexuais "continuam tendo comportamento de risco acrescido para aquisição de HIV". E enumera uma série de outros "critérios de exclusão associados a diferentes situações de risco acrescido", tais como diabéticos, vítimas de estupro, indivíduos tatuados etc. - "não se restringindo", portanto, "apenas aos HSH , o que denota que não existe discriminação baseada em preconceitos". Nesse o caso, o veto não deveria valer para os aficionados do sexo anal em geral, em vez de para os homossexuais em particular?

Para completar, a Anvisa alega que "os serviços de hemoterapia são muitas vezes procurados para fins de diagnóstico de HIV por pessoas com comportamento de risco acrescido, incrementando desta forma a chance de transmissão". Só não fica claro se essa atitude é prerrogativa dos homossexuais, e se há alguma evidência científica que comprove isso. Fecha parênteses...)

Clique aqui para voltar ao post.

* * *

Atualização em 07/02/11
"Ministro da Saúde nomeado no governo Dilma Rousseff, Alexandre Padilha afirmou que pretende rever a proibição de homossexuais doarem sangue, em vigor no Brasil por meio da portaria nº 153, criada em 2004, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)."

Atualização em 17/03/11
"O Conselho Nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) pode entrar com uma ação contra a proibição de gays doarem sangue.

A Comissão Nacional de Estudos Constitucionais da OAB analisará a polêmica Resolução nº 153 da ANVISA e se manifestará se é pertinente o ajuizamento de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade – medida contra leis/ações que desrespeitam a Constituição brasileira."

Essa iniciativa se deu a partir do questionamento do Grupo Matizes, do Piauí, que em fevereiro questionou o Ministro da Saúde sobre o assunto por ocasião de uma visita ao Estado. Isso é atuação cidadã. :-)

Reproduzido via Do Lado.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

"Quando o filho sai do armário, a mãe entra"


Uma frase da pesquisadora, professora e escritora Edith Modesto resume bem a dificuldade dos pais em aceitar um caso de homossexualidade entre a sua prole: “quando o filho sai do armário, a mãe entra”. E foi exatamente essa experiência que Edith viveu quando o seu caçula lhe disse, chorando, que era homossexual.

“Naquela época, meu mundo caiu”, lembra. “Na maioria das vezes, a descoberta da homossexualidade de um filho é vivida como uma tragédia. Por isso, passei por um processo lento de aceitação”. Edith levou anos pesquisando sobre diversidade sexual, após descobrir que não sabia nada sobre o assunto, apesar de ser professora universitária (aposentada), mestra e doutora em Semiótica pela Universidade de São Paulo (USP).

Ela começou acompanhando fóruns de bate-papo na internet sobre homossexualidade. Por muito tempo, a vergonha a impediu de interagir nessas rodas de conversas virtuais; apenas lia os diálogos dos outros integrantes. “Tinha muito preconceito e associava homossexualismo a doença, safadeza, perversão, mas fui me surpreendendo ao ver como os participantes eram cultos, interessantes e com caráter”.

Até que Edith, de 68 anos, teve coragem de se apresentar para todos como uma mãe de gay, que estava apavorada com a descoberta. Ao saberem disso, os interlocutores virtuais ficaram extasiados com o fato de estarem diante de uma mãe que, pela primeira vez, tentava entender esse mundo. Eles a “adotaram” e alguns se tornaram seus amigos.

Após esse primeiro passo, muita coisa mudou. Edith acabou criando o Grupo de Pais de Homossexuais (GPH), iniciativa que já completou doze anos. No começo, ela investia pouco em divulgação, por causa da vergonha de se expor. Mas depois que a pesquisadora “saiu do armário”, a ONG cresceu e passou a oferecer grupo de ajuda mútua, orientação, palestras e materiais educativos, além de seminários para empresas, escolas, etc.

Em 2006, Edith lançou o livro “Vidas em Arco-Íris: Depoimento sobre a Homossexualidade” (Editora Record). A publicação traz entrevistas com homossexuais, por meio de um olhar não acadêmico do mundo gay. O trabalho foi desenvolvido durante dois anos, período em que foram gravadas mais de 200 fitas com relatos sobre os mais diversos assuntos relacionados ao tema.

- Foi a maneira que encontrei para dar a palavra a eles, para que as pessoas pudessem abandonar estereótipos e saber que a homossexualidade é natural, e não uma opção. Quero mostrar também como o preconceito “social” é tão cruel que até mesmo quem é homossexual tende a não se aceitar. Até se assumirem gays, as pessoas passam por um processo tão doloroso quanto os pais.

Sentir-se amado e receber apoio são os desejos de qualquer filho, sobretudo de um homossexual. Segundo Edith, há muitos casos de suicídio e uso de álcool e drogas por jovens homossexuais, cujos pais não aceitam a sua sexualidade. Por isso, o GPH procura oferecer "um ambiente seguro e acolhedor onde pais e mães possam trocar informações e experiências sobre seus filhos". Atualmente, há grupos de acolhimento e ajuda mútua nas cidades de São Paulo e Bragança Paulista, além dos estados de Minas, Rio, Santa Catarina e Paraná.

Para mais informações, acesse o site ou mande um e-mail para o grupo. Ou, se preferir, ligue 011 3031-2106. Tudo o que é conversado entre os integrantes do grupo é estritamente confidencial.

Site: http://www.gph.org.br
E-mail: maes-de-homos@uol.com.br

(Livremente adaptado de matéria de Ciça Vallerio, publicada em 15/10/2006 no jornal Estado de S. Paulo, e baseado em informações contidas no site do GPH.)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Fome de espiritualidade

Ilustração: Deanne Cheuk

Reproduzimos abaixo, para reflexão, algumas considerações do teólogo basco Jose Antonio Pagola acerca da necessidade humana de alimentar sua dimensão espiritual. Publicado originalmente no Eclesalia, e reproduzido via Amai-vos.

(...) Na sociedade moderna, não é difícil observar sinais que mostram uma profunda fome de espiritualidade. É crescente o número de pessoas que procuram algo que lhes de força interior para enfrentar a vida de forma diferente. É difícil viver uma vida que não aponta para qualquer objetivo. Também não é suficiente se divertir.

(...) Outros sentem a necessidade de paz interior e de segurança para lidar com os sentimentos de medo e incerteza que surgem dentro deles. Algumas pessoas se sentem mal por dentro, feridas, maltratadas pela vida, desamparadas, com necessidade de cura interior.


(...) São cada vez mais numerosos aqueles que procuram por algo que não seja técnica, nem ciência, nem ideologia religiosa. Querem sentir-se de forma diferente na vida. Precisam sentir uma espécie de "salvação", entrar em contato com o Mistério que intuem dentro deles. [Grifo nosso]

(...) É um erro no interior mesmo da Igreja estar sendo incentivada, com freqüência, uma espiritualidade que tende a marginalizar Jesus como algo irrelevante e de pouca importância. Os seguidores de Jesus não podem viver uma espiritualidade séria, lúcida e responsável, se não for  inspirada pelo seu Espírito. Hoje nada é mais importante que oferecer às pessoas ajuda para se encontrarem internamente com Jesus, o nosso Mestre e Senhor.

Como será que cada um de nós tem vivido essa busca e cuidado do Mistério que vive no nosso interior?

Uma semana iluminada e luminosa para todos. :-)

domingo, 16 de janeiro de 2011

"Eis o Cordeiro de Deus"


Reproduzimos abaixo a bela reflexão de Gilda Carvalho* acerca do Evangelho deste domingo.

Ao aproximar-se de João no rio Jordão a fim de ser batizado, Jesus será chamado pelo Batista de “Cordeiro de Deus”. “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” (Jo 1, 29) – aclamará João ao ver Jesus que se aproxima com humildade para o batismo, querendo desde o início de sua missão fazer-se igual a todo aquele povo que procurava por consolo e conversão.

O cordeiro é um animal manso, pacato, e assim foi Jesus em sua manifestação à humanidade. Sua mansidão não pode ser confundida com passividade. Ao contrário, era uma resposta de não-violência a toda injustiça a que seu povo era submetida. Sua mansidão era a tradução da paz própria daqueles que se encontram em comunhão contínua com Deus Pai e sabem-se fazendo a vontade do Criador. [Grifo nosso]

Até hoje proclamamos as palavras de João Batista em nossas celebrações. A assembléia aclama o Cordeiro de Deus e Lhe pede piedade e paz. Depois, Jesus Eucarístico é elevado à frente da assembléia e apresentado a ela Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e respondemos a esta visão com um pedido de salvação. E, como João, somos também indignos de desatar as correias das sandálias do Salvador...

 Se continuarmos a ler o texto evangélico, veremos o relato do diálogo entre Jesus e os dois discípulos de João: “Mestre, onde moras?” e, à resposta de Jesus, permanecem com Ele aquele dia, reconhecendo Nele o verdadeiro Messias, passando a segui-lo e a aprender com Ele o caminho da salvação.

À visão do Cordeiro de Deus Eucarístico devemos, pois, refletir: acreditamos que aquele é realmente o Messias, feito Eucaristia em memória de Cristo e que ainda hoje permanece vivo entre nós? Fazemos da Eucaristia um momento de comunhão com o Senhor de modo que O deixemos transformar nossos corações com sua mansidão? Desejamos firmemente sermos manso como Ele o foi? Desejamos tornarmo-nos também Cordeiros de Deus, ainda que nos seja reservado o sacrifício? A visão do Cordeiro continua, portanto, a nos impelir à transformação, a um novo batismo, tal como João predisse então, tal como os primeiros discípulos que largaram tudo e seguiram Jesus viveram. O Senhor batizará não com a água, mas com o Espírito. Permitamos, pois, que o Espírito do Cordeiro nos faça mansos e diligentes para com a construção da paz.


Para reflexão: Jo 1, 29-34

*Publicado originalmente no site Amai-vos.

sábado, 15 de janeiro de 2011

A persistência é sua maior arma



Reproduzido do blog Cafeína:
Cena final de An Englishman in New York (2009), em que John Hurt interpreta Quentin Crisp [1908-1999], escritor inglês que desafiou definições de gênero e o patrulhamento ideológico. Claro, pagou caro por isso, cometeu erros e algumas gafes precipitadas. Mas soube dar seu adeus com sábias palavras.

"A persistência é a sua maior arma. É da própria natureza das barreiras que acabem caindo um dia. Não se empenhem em tornar-se iguais aos seus opositores. Vocês carregam o fardo e a grande alegria de estarem à margem. Cada dia que vocês vivem é uma espécie de triunfo: agarrem-se a isso. Não façam esforço para integrar-se à sociedade. Fiquem exatamente onde estão. Dêem seus nomes e número de série e esperem que a sociedade venha formar-se à sua volta - porque ela sem dúvida virá. Não olhem nem para a frente, onde vivem as dúvidas, nem para trás, onde vive o arrependimento. Olhem para dentro, e perguntem-se não se há algo lá fora que vocês desejam, mas se há algo aí dentro que vocês ainda não trouxeram à tona."
- Quentin Crisp

Crisp foi uma figura controvertida, independente e imprevisível. Visitado por Sting em 1986, contou-lhe como tinha sido para ele, sendo homossexual, viver na homofóbica Inglaterra entre 1920 e 1960. Sting, impressionado, dedicou-lhe a música An Englishman in New York ("Um Inglês em Nova York"), que inclui os versos:

It takes a man to suffer ignorance and smile,
Be yourself no matter what they say.*

* * *

Um final de semana abençoado para todos. :-)

*"É preciso ser muito homem para ser vítima da ignorância e ainda sorrir / Seja você mesmo, não importa o que digam."

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Tragédia na Região Serrana do Rio de Janeiro

O Diversidade Católica se solidariza com as vítimas da chuva na Região Serrana do Rio. Nossos olhos, nossos corações e nossas orações estão com vocês.

"Cristo não veio explicar o mistério do sofrimento, mas veio sofrer conosco; não veio explicar o mistério da morte, mas veio morrer numa cruz. Assim, a vida, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo mostram que a liberdade e a dignidade da pessoa humana, que se empenha com amor para o próximo e edifica assim o Reino de Deus, são mais fortes que todo o poder do mal e da injustiça." 
- Pe. Ezequiel Faria, Benguela (Angola)

O governo estadual disponibilizou um mapa com o endereço dos postos de doação. Para saber como ajudar, clique aqui.

Sinais dos tempos


Alguns homens vêem as coisas como são, e dizem "Por quê?"
Eu sonho com as coisas que nunca foram e digo "Por que não?"
- G. B. Shaw

Quem tem acompanhado o noticiário com atenção talvez esteja pressentindo alguma mudança no ar. Um dos destaques da semana passada foi a nova resolução do Conselho Federal de Medicina concedendo a casais homossexuais e solteiros acesso a técnicas de reprodução assistida, até então prerrogativa de casais heterossexuais casados oficialmente. No último domingo, os leitores de O Globo, do Rio de Janeiro, foram surpreendidos pela matéria de capa da revista encartada semanalmente no jornal - uma reportagem sobre a saga de um casal de mulheres para ter um filho, que vinha sendo maturada desde julho de 2010 e foi oportunamente publicada agora. E, numa nota que talvez tenha passado desapercebida para a maior parte dos leitores, o G1 SP expôs o caso de outro casal de mulheres, que, junto com o filho, escapou de ser soterrado num deslizamento no ABC paulista.

Curiosamente, embora a resolução do CFM envolvesse um amplo conjunto de decisões relativas à aplicação de técnicas de reprodução assistida, afetando um público abrangente, a imprensa optou, em sua maior parte, por enfatizar a questão dos casais homossexuais. A TV Globo, por exemplo, aproveitou o mote para veicular, no Fantástico, uma matéria sobre direitos gays e homofobia, compilando tópicos diversos que têm estado em pauta no noticiário recente. Pode ter sido a escolha da polêmica fácil: uma rápida passada de olhos pelos comentários dos leitores nas matérias sobre o assunto nos veículos de comunicação on-line imediatamente revela o que parece ser um campo de batalha. De um lado, religiosos; de outro, gays. Nos dois casos, ânimos exaltados, agressões de parte a parte, e, salvo raríssimas exceções, nenhum diálogo.

Por trás desse lamentável festival de intolerâncias mútuas, porém, não é difícil constatar que tanto barulho tem uma causa: a resolução do CFM vem refletir uma transformação cultural que vem se consolidando nos últimos 20 anos. O mesmo pode ser dito da recente decisão da Receita Federal autorizando homossexuais a incluir o cônjuge como dependente na declaração de imposto de renda. Tudo indica que o antigo paradigma da família nuclear, restrito à imagem do casal heterossexual com filhos, está mudando. Cada vez mais se normaliza um conceito de família que abrange casais recasados, núcleos familiares com filhos de diversos casamentos, pais e mães solteiros - e casais gays.

Ainda assim, surpreendeu-nos (ou não deveria ser surpresa?) abrir o jornal de domingo e encontrar na capa da revista um casal de lésbicas com um bebê, acima do título "Álbum de família". Ou, dois dias depois, numa nota aparentemente trivial intitulada "Pratos quebram durante deslizamento e salvam mulheres no ABC", ver o jornalista referindo-se a uma das vítimas como "namorada" da outra e ao adolescente de 14 anos como "filho delas". Não seria de se esperar tamanha naturalidade da parte da imprensa?

Sobre o casal Cinthia e Carla e seu filho Illan, cuja história é contada na Revista de O Globo que ilustra este post, a jornalista Fátima Sá conta um episódio que demonstra essa crescente naturalização: logo após o parto, "Cinthia [a mãe biológica] descansava, e Carla admirava o bebê no berçário quando foi surpreendida por uma enfermeira:

- É seu filho, né? É a sua cara."

Sinais dos tempos. Entre os que acham que as mudanças se dão com excessiva lentidão e os que se sobressaltam diante de transformações assustadoramente evidentes, é inegável que passos vão sendo dados. Se pequenos ou grandes, devagar ou rápido demais, depende do ponto de vista ou do gosto do freguês.

Fato é que precisávamos - precisamos - começar por algum lugar. E, caso alguém não tenha ainda notado, sim: nossa jornada rumo a um mundo mais fraterno, onde haja mais diálogo e menos intransigência, mais flexibilidade e menos intolerância, mais amor e menos exclusão, já começou.

Estamos a caminho.

Cris Serra
Coordenadora-geral do Diversidade Católica

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A experiência de Deus



Neste belo artigo, publicado originalmente no site do Centro Cultural de Brasília, Manuel Eduardo Iglesias S.J. reflete sobre a importância da experiência de Deus, do afeto e da vivência da fé para que nossa religiosidade não se reduza a uma racionalidade vazia. Vale a leitura e a reflexão proposta ao final pelo autor.


Vivemos uma mudança de paradigmas na nossa cultura ocidental. É o caso da redescoberta da importância da experiência e do afeto na vida espiritual. David G. Benner é um leigo americano, pai de família, psicólogo, diretor espiritual e orientador de retiros. No seu livro Entrega total ao amor ele relata a sua experiência pessoal de Deus e a de muitas pessoas por ele acompanhadas. Já no capítulo primeiro confessa que, como tantos outros católicos, ele viveu durante muitos anos com uma fé apenas racional, e experimentou como tudo muda quando se passa a ter uma experiência pessoal e direta de Deus. Admira-se do fato de ter vivido tantos anos aceitando idéias sobre Deus sem ter experiência dele. Ser amados por Deus é o cerne da nossa identidade cristã. Cita esta afirmação de Jung: Eu não creio em Deus, eu conheço Deus. No epílogo, enfatiza que a espiritualidade cristã não é um conjunto de crenças, nem uma lista de deveres e mandamentos; não é um programa de auto-ajuda; é uma caminhada para a união com Deus. Antes de tudo, é uma relação!

A predição do teólogo Karl Rahner está se confirmando cada dia mais, a começar pela Europa: O cristão do futuro ou será um místico ou não será cristão. Após séculos de domínio solitário da teologia acadêmica passamos a re-valorizar também a via da experiência e do silêncio meditativo na nossa relação com Deus.*
Entendo por experiência uma modalidade de conhecimento que não se alcança por puro raciocínio. É uma percepção simples, imediata e intuitiva que atinge a pessoa toda, mente, sensibilidade e corpo, e que repercute sobre todo o ser. É conhecida a distinção que se pode fazer entre uma experiência religiosa do sagrado e uma experiência de Deus como Sentido radical. O que caracteriza a experiência de Deus é que nela a pessoa experimenta uma Presença que envolve a vida dentro do Sentido radical. O Sentido radical, como presença onipresente, é rigorosamente transcendente. A experiência cristã de Deus é a presença do Sentido radical revelado na existência histórica de Jesus de Nazaré. Uma experiência de fé, um encontro pessoal.

Vez por outra nos encontramos na prática pastoral com a difícil harmonia entre Religião e Fé. Religião como um conjunto de doutrinas, normas e ritos está a serviço do fundamental: a experiência de fé. Infelizmente, nem sempre acontece assim. A fé pode se apagar e a religiosidade manter uma fachada vazia.

A Igreja vive hoje o desafio da evangelização no nosso tempo. Como construir o Reino sobre o único alicerce que é Jesus Cristo? Como apresentar o rosto de Jesus às novas gerações? Como se manter fiéis ao essencial da nossa fé e abertos ao novo? O Documento de Aparecida é bem consciente dos desafios atuais e nos incentiva a uma caminhada em comunhão criativa e esperançosa. No hoje do nosso continente latino-americano, levanta-se a mesma pergunta cheia de expectativa: “Mestre, onde vives?” (Jo 1,38), onde te encontramos de maneira adequada para pra abrir um autêntico processo de conversão, comunhão e solidariedade? Quais são os lugares, as pessoas, os dons que nos falam de ti, que nos colocam em comunhão contigo e nos permitem ser discípulos e missionários teus?


Manuel Eduardo Iglesias S.J.
Artigo publicado originalmente no site do Centro Cultural de Brasília em 11/03/2010
*Grifo nosso.

* * *

Para refletir:

Como Deus se deixa sentir na sua vida?

Texto para meditar: Sl 139 (Tua mão me guia e me segura)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Renovações de ano novo




Terminado o ano de 2010, fechamos aquele momento de balanço, em que avaliamos o que o ano passado nos trouxe de perdas e ganhos e escolhemos tanto o que levaremos conosco para o novo ano quanto o que deixaremos para trás. É hora de deixar 2011 começar. E, em busca de inspiração para essa tarefa, reproduzimos aqui parte do artigo de Maria Clara Bingemer sobre esta passagem de ano, publicado originalmente no site Amai-vos.

"(...) Importa no novo ano deixar para trás o que passou e procurar renovar o olhar, a atitude, o pensamento, o agir. Trata-se de mais do que simplesmente uma lista de resoluções sobre perder peso e fazer ginástica. Trata-se de uma renovação profunda e totalizante.

Para que o ano seja novo, há que estar disposto a renovar aquilo que há de mais profundo em nós e que nos faz mais humanos. Por exemplo, parar de continuar a nos autocompreender a partir de nós mesmos e defendendo desordenadamente, com unhas e dentes, um espaço "próprio". É preciso que nosso “lugar” de autocompreensão não seja nós mesmos, mas o outro ou a outra. Um dos baluartes da autocompreensão do ser humano é sua capacidade de êxodo de si mesmo, de êxtase, de saída da mesmice do olhar para si próprio e olhar para a alteridade e a diferença daquele ou daquela que tem frente a si.

E assim fazendo, seu destino não é perder 'seu' lugar para andar errante pela terra, sem ter para onde ir. É descobrir para si nova situação, novo lugar, outra terra, outra pátria, outra paisagem. Para que o ano seja novo, é necessário permitirmos que a solicitude, o amor e a generosidade nos arranquem de nós mesmos para situar-nos no outro, em seu lugar, suas preocupações, seus amores, suas dores, suas penas e glórias e fazer assim possível a descoberta e a vivência de uma nova comunhão.

Na antropologia se reproduzirá então o êxodo do Verbo, o qual, sendo de condição divina, não se aferrou à prerrogativa de ser igual a Deus, mas se fez homem, humilde, servo, obediente, até a morte de cruz (Fil 2,5-11). Reproduz-se, também, o êxodo do próprio Espírito, enviado constantemente pelo Pai e pelo Filho, 'outro' Paráclito que tem a missão de 'recordar' e 'rememorar' as palavras ditas por Jesus de Nazaré e conduzir seus ouvintes a toda a verdade (cf. Jo 16,13; 14,26; 15,26). Assim, à semelhança do êxodo e da 'saída' constante e contínua do próprio Deus de si mesmo, contemplando e experimentando o próprio Filho e o Espírito que saem da inefabilidade da comunhão intra-trinitária em direção ao mundo e à humanidade, o ser humano passará a ser e autocompreender-se como um peregrino, não possuindo aqui lugar onde repousar a cabeça, se encontrando em si mesmo, mas apenas fora de si mesmo, no outro, nos outros. (...)

Eu me situo no outro. Sou, sim, responsável por meu irmão. Respondo por ele, falo em nome dele ou dela quando a palavra lhes seja cassada; ajo em nome dele ou dela quando estiverem de mãos atadas; corro em seu auxílio quando estiverem necessitados. Assim, Aquele que renova todas as coisas será novo também em nós, pois através de nós estará levando a termo o parto da Nova Criação, feita de justiça e de amor."

Fazendo nossas estas belas palavras, desejamos a todos um Ano Novo feliz, e que cada vez mais nos façamos responsáveis pela nossa própria renovação.

Equipe Diversidade Católica

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia e Decana do Centro de Teologia e Ciencias Humanas da PUC-Rio.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Artista italiano cria Nossa Senhora dos Homossexuais



Com imagem de Nossa Senhora, artista quer homenagear gays mortos durante regime nazista
O artista divulgou em seu site o retrato da Nossa Senhora dos Homossexuais, pensada para homenagear gays mortos pelas forças de Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial.

Na pintura, Maria é retratada com um leve sorriso no rosto enquanto carrega o pequeno Jesus em uma das mãos e um globo terrestre na outra. De um lado a moldura da imagem traz símbolos do masculino, enquanto os do feminino ficam do lado oposto. Por trás do quadro está o triângulo rosa, usado pelos nazistas para designar homossexuais.

"Maria é protagonista da minha obra, mas eu não quis retratar o significado religioso, mas sua figura histórica de mãe. Escolhi-a como símbolo de imenso amor, o único capaz de aceitar, proteger e apoiar cada indivíduo singularmente, sem reservas ou distinções. Seu olhar afetuoso está dirigido não somente ao filho, mas, contemporaneamente, também àqueles filhos que vivem a condição homossexual, aqui representados pelos símbolos homossexuais masculino e feminino, que o próprio Jesus lhe apresenta", explica Raffaele.

Estima-se que cerca de 54 mil homossexuais foram condenados pelo Terceiro Reich. Sete mil morreram em campos de concentração. Em homenagem a eles foi erguido em Berlim, em 2008, um memorial. O bloco retangular de concreto tem quatro metros de altura e exibe em seu interior a imagem de dois homens se beijando.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Homofobia, natureza, religião, direito e ignorância


Por Drauzio Varella

A homossexualidade é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados. Nesse sentido, não existe aspecto do comportamento humano que se lhe compare.

Não há descrição de civilização alguma, de qualquer época, que não faça referência a mulheres e a homens homossexuais. Apesar de tal constatação, esse comportamento ainda é chamado de antinatural.

Os que assim o julgam partem do princípio de que a natureza (leia-se Deus) criou os órgãos sexuais para a procriação; portanto, qualquer relacionamento que não envolva pênis e vagina vai contra ela (ou Ele).

Se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal entre heterossexuais? E o sexo oral? E o beijo na boca? Deus não teria criado a boca para comer e a língua para articular palavras?

Se a homossexualidade fosse apenas uma perversão humana, não seria encontrada em outros animais. Desde o início do século 20, no entanto, ela tem sido descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos.

Em alguma fase da vida de virtualmente todas as espécies de pássaros, ocorrem interações homossexuais que, pelo menos entre os machos, ocasionalmente terminam em orgasmo e ejaculação.

Comportamento homossexual foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71 espécies de mamíferos, incluindo ratos, camundongos, hamsters, cobaias, coelhos, porcos-espinhos, cães, gatos, cabritos, gado, porcos, antílopes, carneiros, macacos e até leões, os reis da selva.

A homossexualidade entre primatas não humanos está fartamente documentada na literatura científica. Já em 1914, Hamilton publicou no "Journal of Animal Behaviour" um estudo sobre as tendências sexuais em macacos e babuínos, no qual descreveu intercursos com contato vaginal entre as fêmeas e penetração anal entre os machos dessas espécies. Em 1917, Kempf relatou observações semelhantes.

Masturbação mútua e penetração anal estão no repertório sexual de todos os primatas já estudados, inclusive bonobos e chimpanzés, nossos parentes mais próximos.

Considerar contra a natureza as práticas homossexuais da espécie humana é ignorar todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de pesquisas,

Os que se sentem pessoalmente ofendidos pela existência de homossexuais talvez imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por mero capricho. Quer dizer, num belo dia, pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas, como sou sem-vergonha, prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo.

Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros.

A sexualidade não admite opções, simplesmente se impõe. Podemos controlar nosso comportamento; o desejo, jamais. O desejo brota da alma humana, indomável como a água que despenca da cachoeira.

Mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países o fazem com o racismo.

Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais que procurem no âmago das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal aceitam a alheia com respeito e naturalidade.

Negar a pessoas do mesmo sexo permissão para viverem em uniões estáveis com os mesmos direitos das uniões heterossexuais é uma imposição abusiva que vai contra os princípios mais elementares de justiça social.

Os pastores de almas que se opõem ao casamento entre homossexuais têm o direito de recomendar a seus rebanhos que não o façam, mas não podem ser nazistas a ponto de pretender impor sua vontade aos mais esclarecidos.

Afinal, caro leitor, a menos que suas noites sejam atormentadas por fantasias sexuais inconfessáveis, que diferença faz se a colega de escritório é apaixonada por uma mulher? Se o vizinho dorme com outro homem? Se, ao morrer, o apartamento dele será herdado por um sobrinho ou pelo companheiro com quem viveu por 30 anos?

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Publicado na Folha de São Paulo – Ilustrada, 4/12/2010

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

"It Gets Better"



Vídeo gravado por profissionais da Pixar para a campanha It Gets Better.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Minha culpa perante os nossos irmãos e irmãs homossexuais


Eu, pecador e presbítero, peço perdão aos meus irmãos e irmãs homossexuais, em meu nome, em nome de outros, muitos, presbíteros e em nome da Igreja Católica, da qual faço parte desde o meu baptismo. Peço perdão porque não soube apreciar o dom do corpo e da sexualidade; porque coloquei reservas ao prazer e o considerei algo baixo, sujo e desprezível; porque preferi seguir Agostinho de Hipona em vez de fixar os meus olhos em Jesus de Nazaré.

Peço perdão porque me juntei aos que discriminam as pessoas homossexuais, escutei em silêncio e até contei algumas piadas que os degradam. Tolerei que se fale deles com desprezo e sejam catalogados com epítetos humilhantes. Senti medo de ser visto em público acompanhado de alguma pessoa abertamente homossexual.

Peço perdão porque não abri espaços para as pessoas homossexuais, no seio das paróquias onde servi; porque me calei perante seminaristas homossexuais que foram expulsos do seminário somente por essa razão; porque guardei para mim as minhas opiniões sobre encerramento da Igreja no que respeita aos homossexuais, em vez de abrir um debate público que tanta falta faz na comunidade cristã.

Peço perdão porque não soube valorar e apreciar a entrega de tantos catequistas, ministros e servidores homossexuais que há nas nossas igrejas, porque baixei a voz até que esta se transformasse em sussurro de capelinha nas reuniões de presbíteros, quando deveria elevá-la para falar sobre os homossexuais.

Peço perdão porque no sacramento da confissão, não soube dizer uma palavra de alento para os corações dos meus irmãos e irmãs homossexuais, brandi antes sobre eles o chicote do castigo, em vez de lhes abrir os braços e animá-los a serem fiéis a Deus, na orientação sexual que receberam; porque me neguei a benzer as casas daqueles que se haviam atrevido a desafiar a sociedade vivendo juntos e juntas; porque não quis benzer umas alianças que iam simbolizar a sua união fiel e permanente.

Peço perdão porque olhei com desconfiança as pessoas homossexuais e acreditei que a única motivação das suas acções era a busca do sexo; porque permiti que, com ligeireza, se fizesse a identificação entre perversão e homossexualidade, pederastia e homossexualidade, libertinagem e homossexualidade, SIDA e homossexualidade.

Peço perdão porque a afligi muitos pais de família com filhos e filhas homossexuais, em vez de os ajudar a descobrir que essa era uma riqueza que Deus concedia a esse lar para lhes permitir ser casa de amor, de tolerância e de respeito pelas diversidades. Peço perdão porque lhes recomendei que levassem os filhos a terapias psicológicas para que se fizessem «homens» e «mulheres» de verdade.

Peço perdão porque me apoiei na posição discriminatória que a Igreja mantém como posição oficial, em vez de contribuir para o seu desmantelamento, somente para não arriscar o meu prestígio e a minha fama.

Hoje peço perdão a Deus por não ter aprendido a velha lição de amor sem excepções e sem condicionamentos. E peço perdão aos meus irmãos e irmãs homossexuais, porque poderia ter feito muito mais para pugnar pela sua plena participação na vida da Igreja, podia ter derrubado mais barreiras, podia ter sido mais audaz.

Eu, pecador e sacerdote, peço perdão.

Pe. Raúl Lugo Rodríguez

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Depoimento publicado originalmente no site Rumos Novos

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Lobby cristão e casamento gay

Ilustração: Becca Stadtlander

O Pe. Luís Corrêa Lima, SJ, respondeu a um artigo do psicanalista Contardo Calligaris intitulado Lobby cristão e o casamento gay, publicado tanto na Folha de São Paulo quanto no blog do psicanalista. Confira o artigo abaixo, bem como a resposta esclarecedora do Pe. Luís Corrêa Lima.

Lobby cristão e casamento gay
Contardo Calligaris

As igrejas gostariam de uma sociedade em que seja crime tudo o que, para elas, é pecado.

"Em maio passado, durante uma visita ao santuário de Fátima, o papa Bento XVI declarou que o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo estão entre os mais "insidiosos e perigosos desafios ao bem comum".

Atualmente, quase todas as igrejas cristãs (curiosamente alinhadas com as posições do papa) negociam seu apoio aos candidatos à presidência cobrando posições contra a descriminalização do aborto e contra o casamento gay.

Em 2000, segundo o censo, havia, no Brasil, 125 milhões de católicos, 26 milhões de evangélicos e 12 milhões de sem religião. É lógico que os principais candidatos inventem jeitos de ficar, quanto mais possível, em cima do muro - tentando satisfazer o lobby cristão, mas sem alienar totalmente as simpatias de laicos, agnósticos e livres pensadores (minoritários, mas bastante presentes entre os formadores de opinião).

Adoraria que as campanhas eleitorais fossem mais corajosas, menos preocupadas em não contrariar quem pensa diferente do candidato. Adoraria também que soubéssemos votar sem exigir que nosso candidato pense exatamente como nós. Mas não é esse meu tema de hoje.

Voltemos à declaração do papa, que junta aborto e casamento gay numa mesma condenação e, claro, tenta pressionar os poderes públicos, mundo afora. Para ele, o que é pecado para a igreja deve ser também crime para o Estado.

No fundo, com poucas exceções, as igrejas almejam um Estado confessional, ou seja, querem que o Estado seja regido por leis conformes às normas da religião que elas professam. De novo, as igrejas gostariam de uma sociedade em que seja crime tudo o que, para elas, é pecado: o sonho escondido de qualquer Roma é Teerã ou a Cabul do Talibã.

Há práticas sexuais que você julga escandalosas? Está difícil reprimir sua própria conduta? Nenhum problema, a polícia dos costumes vigiará para que ninguém se dedique ao sexo oral, ao sexo anal ou a transar com camisinha.

Para se defender contra esse pesadelo (que, ele sim, é um "insidioso e perigoso desafio ao bem comum"), em princípio, o Estado laico evita conceber e promulgar leis só porque elas satisfariam os preceitos de uma confissão qualquer. As leis do Estado laico tentam valer por sua racionalidade própria, sem a ajuda de deus algum e de igreja alguma.

Por exemplo, é proibido roubar e matar, mas essa proibição não é justificada pelo fato de que essas condutas são estigmatizadas nas tábuas dos dez mandamentos bíblicos. Para proibir furtos e assassinatos, não é preciso recorrer a Deus, basta notar que esses atos limitam brutalmente a liberdade do outro (o assaltado ou o assassinado).

Agora, imaginemos que você se oponha ao casamento gay invocando a santidade do matrimônio. Se você acha que o casamento é um sacramento divino que só pode ser selado entre um homem e uma mulher, você tem sorte, pois vive numa democracia laica e sua liberdade é total: você poderá não se casar nunca com uma pessoa do mesmo sexo. Ou seja, você poderá manter quanto quiser a santidade e a sacramentalidade de SEU casamento.

Acha pouca coisa? Pense bem: você poderia ser cidadão de uma teocracia gay, na qual o Estado lhe imporia de casar com alguém do mesmo sexo.

Argumento bizarro? Nem tanto: quem ambiciona impor sua moral privada como legislação pública deveria sempre pensar seriamente na hipótese de a legislação pública ser moldada por uma outra moral privada, diferente da dele.

Parêntese: Se você acha que essa história de casamento gay é sem relevância, visto que a união estável já é permitida etc., leia "Histórias de Amor num País sem Lei. A Homoafetividade Vista pelos Tribunais - Casos Reais", de Sylvia Amaral (editora Scortecci).

PS. Sobre a dobradinha sugerida pela declaração do papa: talvez, para o pontífice, aborto e casamento gay sejam unidos na mesma condenação por serem ambos consequências da fraqueza da carne (que, obstinadamente, quer gozar sem se reproduzir).

Mas, numa perspectiva laica, a questão do aborto e de sua descriminalização não tem como ser resolvida pelas mesmas considerações que acabo de fazer para o casamento gay. Ou seja, não há como dizer: se você for contra, não faça, mas deixe abortar quem for a favor. Vou voltar ao assunto, apresentando alguns dilemas que talvez nos ajudem a pensar.


Comentário: Pe. Luís Corrêa Lima


Prezado Contardo Calligaris,

Convém analisar a afirmação do papa em Fátima. A frase toda é:

“As iniciativas que visam tutelar os valores essenciais e primários da vida, desde a sua concepção, e da família, fundada sobre o matrimônio indissolúvel de um homem com uma mulher, ajudam a responder a alguns dos mais insidiosos e perigosos desafios que hoje se colocam ao bem comum”.

Isto não significa que o Estado deva proibir tudo o que a Igreja Católica considera pecado. Santo Tomás de Aquino, já no século 13, dizia que a lei humana não deve proibir todas as coisas más que se fazem, porque eliminaria muitos bens e impediria o proveito do bem comum. Na tradição católica, nem tudo o que é imoral deve ser ilegal. Um belo exemplo recente é a proposta feita na ONU pela descriminalização da homossexualidade em todo mundo. A delegação da Santa Sé se posicionou a favor desta descriminalização, alegando que para a Igreja as relações sexuais livres entre pessoas adultas não devem ser consideradas delito pela autoridade civil.

Sobre o casamento gay, o papa se opõe ao uso do termo ‘matrimônio’ para uniões entre pessoas do mesmo sexo, e mesmo à plena equiparação entre uniões homo e hétero. Entretanto, documentos da Igreja aceitam o reconhecimento de direitos na convivência homossexual. Alguns bispos já se manifestaram publicamente a favor da união civil homoafetiva. Sobre o aborto, o antigo assessor teológico do papa, cardeal Cottier, tem apreço pela posição do governo Obama de manter o aborto legalizado mas, ao mesmo tempo, de buscar alternativas para que o seu número se reduza ao mínimo.

Por tudo isso, Roma não sonha com Teerã. Afirmar o contrário, é fornecer argumento aos segmentos ultraconservadores que querem que nada mude, seja na sociedade, seja na Igreja.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

"Deus criou os homossexuais"


Padre Jesuíta defende o baptismo das crianças de casais compostos por pessoas do mesmo sexo e que homoafectividade levará a Igreja Católica a reformular concepções de família. Luís Corrêa Lima trabalha com grupos de católicos homossexuais e acredita que Deus quando fez o Mundo não criou só o universo heterossexual.

A relação da Igreja Católica com os novos modelos de famílias, onde impera a homoafectividade, é apenas um dos seus temas de estudo. Docente da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Luís Corrêa Lima viaja pelo mundo propalando a mensagem de aceitação da comunidade católica LGBT (lésbica, gay, bissexual e transgénero) e de que nenhum ser humano é mero hetero ou homossexual, mas antes uma criatura divina.

Ou não fosse este padre da Companhia de Jesus que no Brasil desenvolve um trabalho com católicos homossexuais. Numa breve ponte por Portugal não deixou de admitir, ao JN, que tal postura já lhe trouxe alguns dissabores.

Se a Igreja Católica surgiu há 2000 anos com um pensamento vanguardista à época, não é menos verdade que teve tantos outros até corrigir com o Concílio Vaticano II graves discriminações. Quanto anos levará então, na sua perspectiva, a adaptar-se à diversidade sexual?

Sinto e vejo a mudança. Mas é difícil saber quanto tempo vai levar. Porque na história as coisas são imprevisíveis. E a mudança é irreversível. Devo de admitir que não esperava que o líder de uma grande Conferência Episcopal, como a alemã, se manifestasse a favor da União Civil homossexual. Não esperava que a Santa Sé se posicionasse a favor da discriminalização da homossexualidade em todo o mundo. Isso aconteceu, agora, por isso outras mudanças podem acontecer. Só que são desiguais, porque a Igreja é heterogénea.

Mas na Alemanha discute-se entre o casamento e a União Civil, existente desde 2002, e aí a Igreja opta pela segunda. Em Portugal, discutia-se o nada e o casamento. E a Igreja defendeu o nada. Isto é, a postura é ou não sempre a do arrastamento e a que causa menos transtornos?

(Silêncio) Temos um exemplo de um grupo de sacerdotes da Argentina que se manifestou a favor do casamento gay. A Igreja é tudo isso.

O 'tudo isso' inclui o Cardeal Bertone (secretário de Estado do Vaticano) comparar a homossexualidade com a pedofilia?

Em 2008, o Papa deu uma entrevista na imprensa e sobre pedofilia vincou que não se trata de homossexualidade. É outra coisa. Após essa entrevista, o padre Federico Lombardi (porta-voz do Vaticano) salientou que não cabe à autoridade religiosa se pronunciar sobre psicologia.

E quando a Igreja considera um homossexual menos apto para o sacerdócio?

Na senda do debate da pedofilia havia esse debate acolorado. Um documento de 2005, sobre candidatos com tendências homossexuais, dizia que não são desejáveis no sacerdócio pessoas que apresentam tendências homossexuais enraizadas. E que cabe ao bispo local aprovar o candidato. A intenção é que o sacerdote tenha uma relação sadia com os fiéis. Onde possa surgir uma paternidade espiritual. E, assim, há coisas que atrapalham. Ou seja, as tendências homossexuais. É claro que alguns dizem o seguinte: o sujeito pode ter as tendências e não prejudicar a relação com os seus fiéis, desde que tenha maturidade. Então, o documento tem essa dualidade de quem interpreta. O padre Timothy Radcliffe considera que é menos importante saber se o candidato ama ou não. Importante é saber se ele odeia alguém. Isso é que deveria ser um preceito. Se o sujeito é homofóbico, se é machista, se é racista, então isso é que deveria ser empecilho. Mas há um documento mais recente, de 2008, sobre esse candidato, que refere que se enfrentarem de maneira realista as suas tendências homossexuais profundamente enraizadas, então não deve ser vetado.

Defende o baptismo das crianças de casais homossexuais?

Esse tema se colocou nos Estados Unidos. Em 2006, um documento dos bispos americanos, sobre a Pastoral para os homossexuais, se coloca contra a adopção de crianças por homossexuais. Mas diz que é permitido o baptismo dessas crianças, se houver uma promessa de que elas venham a ser baptizadas na fé cristã. Lá (nos Estados Unidos) muitas dessas crianças estudam em escolas católicas. Têm uma conduta igual às outras crianças. São aceites pelos colegas e outras famílias. São poucas as reclamações. Recentemente, a Diocese de Boston posicionou-se a favor do acolhimento de crianças de casais homossexuais em escolas católicas.

Sim. Mas qual é a sua opinião sobre o assunto?

Não vejo que haja evidência de que essas crianças sejam diferentes. Porque se fala muito do risco dos casais homossexuais e do que isso pode originar para elas. Mas uma universidade alemã já fez uma pesquisa com 2400 crianças e não notou qualquer diferença. Enquanto não houver uma evidencia que há um dano...

Já teve problemas devido à sua posição?

Na universidade tive longos meses de negociação, para que as barreiras fossem diluídas. As coisas tiveram uma evolução positiva. Tenho o apoio da Companhia de Jesus e superiores, graças a Deus. Tomo o cuidado de não ser hostil e ter uma posição apaziguadora. E avançar por onde só posso avançar. Mas é caminhar no fio da navalha.

Ajuda, enquanto padre, pertencer à Companhia de Jesus?

Muito. Até pela sua génese e pela missão que os Papas têm confiando à Companhia. Paulo VI disse que, sempre que na Igreja há conflito entre as legítimas aspirações humanas e a verdade evangélica, aí estão os jesuítas, nos campos mais difíceis e nas trincheiras sociais. A função da Companhia é o trabalho apostólico de fronteira. O Papa Bento XVI confirmou isso e desenvolveu esse trabalho de fronteira. Ver os jesuítas estarem onde os outros não estão, de estabelecerem pontes de compressão e dialogo.

Deus criou o homem e a mulher, heterossexuais. E os homossexuais, foram criados por quem? Por Deus?

Claro. Não tenho dúvidas disso. Deus criou todo mundo. Se Deus criou todo o mundo, Deus criou os homossexuais. A sociedade é diversa, na cultura, nas raças e diversidade sexual. Temos inclusive diversidade sexual no mundo animal. Fala-se de 400 espécies de animais que têm indivíduos homossexuais. E a Humana também tem. É importante que a Igreja aprenda a viver com a diversidade sexual.

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Entrevista publicada originalmente no site do Jornal de Notícias, em 12/09/2010

sábado, 11 de setembro de 2010

Igreja católica no centro de Londres lança missa para gays


Enquanto o Reino Unido se prepara para a primeira visita do papa Bento 16 - líder de uma igreja que para muitos é tida como intolerante em relação aos homossexuais -, os católicos de Londres já podem assistir a uma “missa gay”, realizada com o aval do Vaticano.

Paul Brown não ia à igreja desde o funeral de sua mãe, em 2002. Agora ele está de volta ao templo, graças à missa para fieis homossexuais, a única do gênero no país.

“Eu procurei uma missa com uma mensagem positiva sobre coisa que as pessoas devem fazer, e não alguém me dizendo coisas que eu não devo”, diz.

Usando uma jaqueta de motoqueiro de couro preto, Brown é um fieis que mudaram a cara da igreja Our Lady of the Assumption and St. Gregory (Nossa Senhora da Assunção e São Gregório), em Soho, na região central de Londres.

Lá, os fieis cantam hinos com toda a força de suas vozes. Muitos têm menos de 30 anos, e alguns têm os cabelos pintados. De uma hora para outra, o catolicismo parece estar na moda nesta área de Londres.

Se você acha isto um pouco estranho – bem, é mesmo. Afinal, a orientação da Igreja Católica para homossexuais é rígida. Gays e lésbicas são chamados à castidade.

Além disso, a única expressão sexual permitida pelo Vaticano é “casamento”, na qual todos os atos são dirigidos para a transmissão de uma nova vida, ou seja, para a proibição da contracepção artificial.

Então, como pôde surgir uma “missa gay” (Embora ela seja aberta a todos, foi assim que ela acabou sendo chamada)?

“As pessoas estavam acostumadas a se encontrar na igreja anglicana de St. Anne, que é próxima, e havia o sentimento de que era a hora de encontrar um local católico”, diz o monsenhor Seamus O'Boyle, o padre da paróquia.

Por meio de esboços de documentos, cardeais da arquidiocese católica de Westminster e autoridades do Vaticano negociaram para chegar a um acordo sobre algumas regras básicas da missa gay.

O que o Vaticano queria era a garantia de que as missas não se tornariam uma plataforma para se contestar os preceitos católicos. Assim, um dos “princípios básicos” desses serviços religiosos é: “Informações sobre a missa devem respeitar o fato de que a sua celebração não deve ser usada para promover qualquer mudança ou ambiguidade em relação aos ensinamentos da Igreja”.

"Estilo de vida homossexual"

Os integrantes do Conselho Pastoral de Missas de Soho, que organiza os serviços religiosos, não têm problemas em aceitar estas condições. “Este não é um lugar que oferece uma plataforma para se criticar a doutrina da Igreja”, diz o presidente do conselho, Joe Stanley.

“A ênfase é no cuidado com os fieis. Às vezes, as pessoas chegam aqui com lágrimas nos olhos, porque, pela primeira vez, duas partes realmente importantes das suas vidas se encontraram: sua fé católica e sua identidade sexual”, diz.

“Minha vida sem a missa em Soho seria mais desanimada, solitária e menos alegre”, diz a fiel Renate Rothwell.

Questionado pela BBC se há alguma razão que impeça a realização de missas semelhantes em outras partes do Reino Unido, o arcebispo Vincent Nichols, líder da Igreja Católica na Inglaterra e no País de Gales, diz: “Acho que esta é uma decisão a ser tomada por um bispo, e é uma decisão em resposta a uma necessidade dos fieis”.

Em outras palavras, se outros católicos gays pedirem pelo mesmo em outras regiões do país, isto pode ser levado em consideração.

Mas nem todos estão felizes no seio da família católica. Duas vezes por mês, um pequeno grupo de tradicionalistas se reúnem do outro lado da rua da igreja. Eles rezam com o rosário em suas mãos, cantam hinos e já pediram à arquidiocese de Westminster para acabar com a missa gay.

Eles são apoiados por um ex-editor do jornal Catholic Herald, William Oddie, que acusa líderes da Igreja de defenderem pessoas engajadas no que ele chama de “estilo de vida homossexual”.

“A ficção que justifica o apoio da arquidiocese para as missas do Soho é que elas são celebradas em benefício de gays que aceitam os ensinamentos da Igreja e, portanto, se afastam de qualquer forma de atividade sexual”, escreveu Oddie em seu blog.

Transformação

No entanto, o arcebispo Nichols diz que continuará a apoiar a missa. “Esta é uma missa paroquial para a qual todos estão convidados, mas ela tem um apelo particular a pessoas de uma mesma orientação sexual – não para distingui-las do resto da congregação, mas para dizer que elas podem se sentir em casa aqui”, afirma.

“Eu acho que esta é a coisa certa, porque ela oferece lentamente, e isto é lento, uma chance para aqueles que se sentem sob uma grande pressão de identidade a talvez relaxar um pouco e dizer ‘não, antes de tudo eu sou um católico e, como um católico, eu quero ir à missa’”, diz o arcebispo.

Em uma resposta dura aos críticos da missa gay, ele diz que “qualquer pessoa que tente julgar as pessoas que se apresentam para a comunhão realmente deve aprender a ficar quieta”.

Em 1982, na última visita papal ao Reino Unido, uma missa deste tipo só poderia existir no mundo da fantasia. No entanto, desde então, a Igreja Católica britânica passou por uma transformação bastante abrangente.

Seja a imigração do Leste Europeu, a onda crescente do secularismo, a imagem pública de padres e da hierarquia depois dos escândalos de pedofila ou a aceitação de anglicanos casados entre as fileiras do clero: isto é uma comunidade de fieis que faz parte de um grande caldeirão religioso.

Alguns veem isto como uma oportunidade, enquanto outros resistem a mudanças. Às vésperas da visita de Bento 16 (entre 16 e 19 de setembro), é isto que faz os 4,5 milhões de católicos britânicos serem tão fascinantes.

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Publicado originalmente no site da BBC Brasil

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A Bíblia diz assim?

Ilustração: Becca Stadtlander

Para meu espanto, sempre que abordo casamento civil para pessoas do mesmo sexo, deparo-me com aqueles que rebatem citando o livro de Gênesis para dizer que “Deus criou o homem e a mulher”.

Pois estamos inteiramente de acordo! Não acredito na existência de um terceiro sexo! O fato de um homem amar outro homem não o faz menos homem; assim como com uma mulher que ama outra.

Hoje, criou-se fenômeno em que cada pessoa pega um trecho da Bíblia e a interpreta a seu modo, sem o devido preparo. Assim como usam o Livro Sagrado até para coisas mais simplórias, esquecendo o mandamento “não usai o Santo nome em vão”.

Nome esse, aliás, presente em adesivos, camisetas e todo o tipo de produto comercializado por quem esqueceu que Jesus expulsou mercadores do Templo a chicotadas.

Também vejo com maus olhos estudiosos da Bíblia pleitearem sua interpretação ao pé da letra e não de acordo com o período em que foi escrito.

Como justificar, então, que a palavra de Deus exclua da comunhão seus filhos “com deformidades”: Levíticos 21, 18-21 - “Desse modo, serão excluídos todos aqueles que tiverem uma deformidade: cegos, coxos, mutilados (...) Sendo vítima de uma deformidade, não poderá apresentar-se para oferecer o pão de seu Deus”.

Existe algo de cristão na citação acima? Por isso, cabe ao Magistério das Igrejas a interpretação dos trechos da Bíblia.*

Como ativista de direitos humanos, acredito e respeito as regras de cada religião. Creio que cabe a cada cidadão decidir viver dentro delas ou não fazer parte e procurar outra que esteja de acordo com sua vida. Mas, insisto, uma coisa é religião, outra são os assuntos de Estado. Num país com várias religiões não tem como ser diferente.

Carlos Tufvesson, Estilista
Artigo publicado originalmente no jornal O Dia.

* * *

Atualização em 29/03/11:
*No caso da Igreja católica, na verdade, desde o Concílio Vaticano II reconhece-se que cada ser humano deve antepor qualquer dever ou lei à sua própria consciência. “A consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser”, diz o parágrafo 16 da Constituição Dogmática Gaudium et Spes , um documento deveras importante do Concílio – o próprio título “Constituição Dogmática” já mostra a importância do texto.

O documento citado indica que a mediação plena para a ação do homem é a sua consciência. Obedecer à consciência é o que se pode fazer de melhor para agradar a Deus.

Para se aprofundar neste tema, você encontra mais informações aqui e aqui.

Leia também: "Diversidade sexual e Igreja, um diálogo possível"

- Equipe Diversidade Católica

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O Estado é laico



Sofismar com o texto da Bíblia e usar o nome de Deus em vão são pecados

Ainda hoje me surpreendo que, quando abordamos o assunto homossexualidade, venham sempre as mesmas argumentações: 1 - Deus criou o homem e a mulher; 2 - o Levítico.

Fica ridículo querer impor e regras de uma religião a quem não a segue. Numa sociedade plurirreligiosa, chega a ser patético! Seria a mesma coisa que judeus tentarem impor a proibição de comer carne de porco.

Como religioso, fico indignado por ver atitudes raivosas, pouco cristãs e nada a ver com o mandamento maior de toda religião: o amor!

1 - Deus criou o homem e a mulher. Certo. O fato de gostar de outro homem não me faz menos homem. Nasci homem e assim morrerei! A palavra homossexualidade vem daí. Homo quer dizer igual. Não há terceiro sexo. A não ser no caso das trans, que discutiremos em outro artigo.

2 - Levítico - a citação preferida. Antes de tudo, não se deve usar o texto da Bíblia assim, distorcendo o conteúdo e adaptando de acordo com a conveniência, desconhecendo o conceito histórico de quando foi escrito.

Mas como pode uma pessoa citar um trecho do Levítico quando basta lê-lo para ver que ele permite também que um homem compre escravos, desde que de outro país (25:44). Ou não permite a cegos, coxos, mutilados ou pessoas com “defeitos” receber a comunhão (22:17). Ou permite a pena de morte (24:17) tão condenada pela Igreja.

Estaria isso de acordo com os conceitos cristãos de hoje? Então por que apenas um trecho? No catecismo, aprendi que sofismar com a Sagrada Escritura e usar Seu Santo nome em vão era pecado mortal.

Para melhor compreensão deste trecho e do Livro Sagrado vejam o documentário "Como diz a Bíblia" (For the Bible tells me so)* – feito por teólogos, inclusive de diversas religiões, sem fanatismos fundamentalistas, razões das guerras desde séculos passados, no tempo das Cruzadas.

Carlos Tufvesson, Estilista
Publicado originalmente no jornal O Dia.

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*Para fazer download do filme, clique aqui.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Homossexualidade: A sociedade vai mudar e a Igreja também


O optimismo é do padre jesuíta Luís Corrêa Lima, que participou numa conferência, esta quinta-feira à noite em Lisboa, e ouviu muitos desabafos.

Ricardo é jovem. Faz questão de sublinhar que não é católico, mas marcou presença, esta quinta-feira à noite, na conferência «A Igreja e os Homossexuais», que o grupo Rumos Novos organizou em Lisboa. Ricardo é homossexual «assumido» e não resiste a soltar um desabafo forte diante do orador desta conferência, o padre jesuíta Luís Corrêa Lima.

«Não compreendo uma Igreja que separa o maior amor de todos, o amor entre pais e filhos, incutindo nos pais que os filhos homossexuais estão errados, jogando os pais contra os filhos», disse o jovem.

O padre Luís Corrêa Lima quase encolhe os ombros e sublinha a mensagem de força e optimismo que ali veio deixar. «É preciso buscar aliados, na Igreja e na sociedade. É preciso produzir um discurso contra-hegemónico e fazer eco dele. Se não, as coisas não mudam», disse.

Ricardo era um dos cerca de 20 participantes na conferência. Foram para ouvir o padre jesuíta; contudo, foram mais os desabafos que partiram da plateia. Luís Corrêa Lima procurou incutir uma mensagem de optimismo.

Luís Corrêa Lima considera que já foi percorrido um longo caminho. «A Igreja é um microcosmos dentro da sociedade. Quando a sociedade muda, a Igreja acaba mudando», disse o padre jesuíta.

«Olho para o futuro com esperança. Há sempre passos que podem ser dados. Há sempre brechas que podem ser apresentadas», acrescentou o sacerdote.

«A sociedade vai mudar e a Igreja também», acrescenta o padre.

José, outro participante da conferência, não se conforma que as mudanças na Igreja «venham sempre por arrasto», quase «por favor», e considera que há um longo caminho a percorrer no combate ao «medo».

O padre Luís repete a mensagem: «A Igreja, em parte, é a gente que a faz. (...) Como se combate o medo homofóbico? Mostrando que os homossexuais não são uma ameaça à sociedade!».

Publicado originalmente no site da TVI (Portugal).
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