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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O mal existe, mas o bem é maior

Foto: Sarah

Um amigo querido do blog compartilhou conosco, em particular, seu desânimo diante de tanta violência, tanto preconceito e tanta exclusão. É verdade, quem acompanha os veículos LGBT cada vez mais é bombardeado por coisas muito feias e trágicas. Por um lado, isso é efeito direto da nossa maior visibilidade - que provoca uma reação violenta - e, ao mesmo tempo, da nossa maior organização - que faz com que denunciemos com mais vigor a violência. E, nesse contexto, é preciso lembrar duas coisas.

Primeiro, como disse nosso amigo Tony Goes recentemente, num post que reproduzimos aqui, "é super-válido reagirmos aos ataques de Bolsonazis, Malafaias e similares; não podemos deixar barato a mais leve ofensa. Mas é preciso termos um pouco de perspectiva histórica e percebermos que, a médio e longo prazo, os homofóbicos já perderam".

Segundo, acho (opinião inteiramente pessoal) que tem horas que é preciso desligar um pouco. Tem horas que a atrocidade vai tão alem dos limites que, se a gente não fechar os olhos e os ouvidos e se afastar um pouco, a gente surta. Porque é demais, mesmo. E ninguém precisa ser super-homem e ter que dar conta de absorver todas as informações o tempo todo. Senão, acaba acontecendo que a gente fica morando num mundo medonho, violento, hostil, brutal, bárbaro. E o mundo não é só isso. Se a gente esquece que tem também o sol, a praia, os amigos, o amor, o carinho, o prazer, as atrocidades ganham um tamanho muito maior do que já têm. A gente fica impotente diante delas. E não tem nada mais devastador do que a impotência diante do mal.

De vez em quando, é necessário alimentar a nossa fé, a nossa confiança na vida, a nossa certeza de que o mal existe mas o bem é maior. De que a violência acontece e é preciso combatê-la e preveni-la, mas a amizade, o amor, a solidariedade, o afeto, estão aí. Alguns dos maiores presentes que já ganhei vieram em momentos difíceis, sob a forma do apoio, do carinho e da partilha com pessoas que fizeram com que eu me sentisse amada e cuidada quando mais precisava. O amor que nos dão é expressão do amor de Deus por cada um de nós. Mas é preciso que a gente esteja de coração aberto para receber - e receber o amor dado é responsabilidade nossa. Só eu posso fazer isso por mim, mais ninguém.

Isso é mais importante que todo o mal do mundo. A gente não pode se esquecer disso nunca. Senão, se a gente deixa o medo e a dor se instalarem no nosso coração, o mal já ganhou.

Cuidem-se bem, queridos. Respirem um pouco, alimentem seus corações com beleza e amor. Peçam ajuda a quem ama vocês, e se deixem cuidar um pouco. A gente precisa de nutrição pra continuar andando. E, se tem uma coisa de que ninguém precisa agora, é de mártires caídos e almas imoladas.

Beijos e bom fim de semana.

Cris

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Mães pela igualdade: Áurea Lúcia


"Sou mãe de sete filhos. A primeira é Jandira, gerada em mim. Falou, andou, cresceu e floresceu. Parceira querida e generosa. Certa vez, a vida até nos permitiu ser mães juntas – eu, pela sexta vez; ela, estreando. Fizemos barriga e enxoval juntas e amamentamos nossas crias em venturosa cumplicidade.

Daí floresceu a mãe e a mulher adulta viçosa, valente, determinada do talento criativo e da disposição para viver a vida com responsabilidade. Floresceu a profissional competente e a cidadã solidária da liberdade e da coragem de olhar com honestidade para si mesma, amar-se e revelar-se lésbica.

Floresceu a universalidade do amor em nosso lar, em nossa família, e de meu desejo de compartilhar esta felicidade, integro-me às Mães pela igualdade."

Áurea Lúcia
Brasília, DF / Olhos D'água, Goiás, Brasil.

Reproduzido via X1

* * *

Junte-se às Mães pela Igualdade no Brasil. Divulgue, convide, participe! Mais informações aqui.

sábado, 22 de outubro de 2011

Vida fraterna, antídoto a uma Igreja deprimida


O prior de Bose reflete sobre a vida da sua comunidade: "Ela se tornou uma realidade maior do que eu pensava". Sobre a vida religiosa: "Hoje, é mais difícil a perseverança do que a vocação". E sobre a Igreja: "Vivi a falsidade na minha pele". Mas continua sereno: "O Senhor me enviou muitas pessoas de valor. Posso voltar à minha solidão".

A reportagem é de Vittoria Prisciandaro, publicada na revista italiana Jesus, setembro de 2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.


O prior chega a pé por entre os caminhos entre as árvores. Ou de carro, se tem algo para trazer consigo. Reza com os irmãos, encontra-se com alguns hóspedes que subiram até aqui para lhe encontrar, cumprimenta os congressistas da vez, retira o correio e, depois, assim que pode, escapa e retorna ao seu jardim e à sua cela entre as árvores, um pouco mais escondida do que os outros edifícios da Comunidade, "refúgio e possibilidade de quietude" para um homem que, com seus 68 anos, atravessou as mais entusiasmantes e, ao mesmo tempo, as mais tempestuosas estações da história recente da Igreja: Concílio, pós-Concílio, refluxo.

Enzo Bianchi, o monge que muitos não-crentes consideram com respeito, que padres e leigos estimam, que alguns monsenhores ainda olham com desconfiança, que os editores cortejam e os amigos apreciam pela sua simpatia e pelo refino da arte culinária ("a cozinha é uma forma de dar algo de si mesmo aos outros"), tornou-se nas últimas décadas uma das raras vozes católicas "significativas" no panorama italiano. Os talk-shows fazem de tudo para recebê-lo em seus estúdios, os pedidos de entrevistas e conferências se estragam.

Mas Enzo tenta saborear a sua presença: "Há alguns anos, decidi fazer um máximo de duas aparições na televisão por ano. Mas gostaria de estar ainda mais escondido. Na rua, já me pararam dizendo: 'Eu já lhe vi, o senhor é o padre Bose'. Enfim, tenho medo de que, na televisão, o meu rosto conte mais do que o aquilo que eu digo. Eu prefiro o rádio e a mídia impressa".

"Além de alguns compromissos aos quais eu sou fiel – continua –, como Jesus, alguma intervenção no La Stampa, e, na França, no Panorama, eu tento não estar muito presente. Tenho medo do 'personagem'. Se eu quisesse ter 'sucesso', bastaria que eu aceitasse ser ordenado sacerdote e poderia ter feito carreira eclesiástica. Quando eu decidi ser um simples monge, eu escolhi não fazer carreira...".

Ele saiu sozinho, há pouco mais de 40 anos. Hoje, ele se encontra com uma comunidade de 80 monges, à que deu vida a outras fundações e é considerada, sem dúvida, como um ponto de referência na Igreja italiana e no exterior. Como ele vive essa situação? "A reação inicial, quando eu penso nisso, é de estupor, quase de surpresa. Mas também devo dizer que me sinto afortunado, porque se realizou o que eu já entrevia claramente na minha mente há mais do que 40 anos: uma comunidade monástica que tivesse no coração a Palavra de Deus em tudo, na liturgia, na nossa vida com a 'lectio divina', na proposta para os hóspedes. Assim como ela é hoje, efetivamente".

E continua: "A surpresa vem, entretanto, do fato de que Bose se tornou uma realidade muito maior do que eu pensava. Eu rezava frequentemente, sobretudo entre 1966 e 1968, para que o Senhor me concedesse algum irmão: 'Seis-sete são mais do que o suficiente', eu pensava. Eu usava uma fórmula emprestada do Pe. Colombàs, um monge que tinha escrito um pequeno panfleto intitulado Por um mosteiro simples e atual. Na minha ingenuidade, eu pensava em um mosteiro simples, que fosse fiel à tradição nos conteúdos e que respondesse à novidade do Concílio Vaticano II. Era a nossa vida como nós a fazíamos então, mas eu não supunha a sua dimensão, hoje muito maior do que aquela que eu pensava e queria. De um lado, há, assim, uma confirmação da intuição inicial; de outro lado, a surpresa, mas também o medo. Às vezes, no meu íntimo, quase não reconheço a Comunidade e me pergunto se, no futuro, conseguiremos permanecer fiéis a algumas coisas que escolhemos e que até agora se confirmaram: a vida simples entre nós, a acolhido simples aos hóspedes, uma vida de trabalho que ainda o fazemos... Conhece bastante a história do monaquismo para alimentar esses medos".

Eis a entrevista.

Bose é uma experiência monástica nova, mas profundamente ligada à história da Igreja. Em quais fontes ela se inspirou?

Aos sinais dos tempos e à tradição: com essa vontade, seguimos em frente e, às vezes, também pagamos um preço alto. Poucos se lembram, mas, entre 1965 e os anos 1980, houve uma forte contestação do celibato: "Vocês que podem, por que fazem uma escolha desse tipo?", alguns presbíteros nos diziam. E havia aqueles que queriam jogar fora a oração dos Salmos e que criticavam a nossa fidelidade à Liturgia das Horas. Resistimos, também porque eu tive algumas graças na vida. A primeira delas é a minha formação "tridentina doc", amadurecida na Igreja de antes do Concílio. Ensinaram-me latim aos 7 anos, fiz um percurso clássico: coroinha, paróquia, Ação Católica, das Fiamme Bianche [Chamas Brancas, grupo voluntário de crianças e jovens recrutas] até a FUCI [Federação Universitária Católica Italiana].

O meu pároco era um refinado liturgista: por exemplo, me fazia ler o Evangelho em italiano, quando a missa era em latim, e as pessoas não entendiam nada. Uma outra graça que eu tive durante os anos da universidade foi a proximidade do cardeal Pellegrino, que eu pude conhecer ainda antes de se tornar bispo, como estimado professor universitário de Patrística, o que também me permitiu aprofundar a minha afinidade com os Padres da Igreja e com o monaquismo antigo.

Aos 14 anos, comecei a ler as Regras de São Basílio, um livro que marcou a minha juventude, juntamente com a Imitação de Cristo. Eu não conhecia mosteiros reais quando vim para Bose.

O primeiro ao qual eu fui quando ainda estava sozinho, em 1967, foi o mosteiro trapista de Tamié, onde fiquei por três meses. Depois, vivi uma forte proximidade com Pierre-qui-Vire, um grande mosteiro beneditino francês. Senti a necessidade de que a vida da nossa Comunidade fosse enxertada na grande tradição monástica. Não posso esquecer, por exemplo, que o abade do mosteiro de Bellefontaine um dia me deu o hábito trapista, que vestimos ainda hoje no coro. Em suma, eu tive essa gerança, recebi o "manto de Elias" dos monges. É significativo que Bose seja um dos poucos mosteiros do Ocidente onde os monges ortodoxos do Athos vão com prazer. Os reformados se sentem em casa aqui.

Os beneditinos e os trapistas nos veem, a nós de Bose, quase como uma comunidade sua. Mesmo com os monges mais tradicionalistas temos bons contatos. Temos uma grande dívida para com os beneditinos e os trapistas franceses: foram próximos a nós e nos entenderam até quando havia alguma desconfiança contra nós por parte de outros. Tudo isso nos permitiu ser enxertados na tradição monástica com uma grande liberdade: uma vez que você tem os conteúdos, você entende que pode mudar as formas de acordo com os tempos e as exigências das pessoas. Não pode haver apenas uma escuta do passado. Um monge francês, que é um grande teólogo e amigo nosso, Ghislain Lafont, nos disse: "Vocês são o primeiro monaquismo da sociedade secular". Ele repetiu várias vezes: "É como se vocês tivessem aprendido a lição de Bonhoeffer". Eu acho que isso é verdade.

Mas o senhor, em seu último livro intitulado Una lotta per la vita (Ed. San Paolo), escreve que Bose e tudo o resto, talvez, não teriam existido se o senhor tivesse conhecido antes aquela falsidade que, nos últimos anos, lhe feriu muito. Uma afirmação forte...

Sim, isso também foi uma graça: conhecer a falsidade muito tarde. Se eu a tivesse provado antes, não sei se eu teria tido a possibilidade de ter tanta confiança nos outros. Desde pequeno, eu aprendi, graças à minha professora da escola primária, como é importante que alguém tenha confiança em nós. Ao contrário, nos últimos anos, tive a experiência da falsidade, principalmente na Igreja. Para que fique claro: desde o início, eu também tive inimizades e vivi incompreensões, sabe-se que não fomos muito aceitos. Mas, mais recentemente, aconteceu que alguém me sorria e depois espalhava calúnias sobre mim. Isso me fez um mal terrível. Foi um personagem da Igreja que me fez conhecer uma falsidade que eu não esperava.

Depois, também houve falsidade aqui entre nós, não para mim em particular, mas para toda a Comunidade. Eu não pensava que eu poderia viver, passados os 60 anos, uma tal desestabilização interior a ponto de ficar, em alguns momentos, profundamente confuso. Eu nunca tinha provado essa experiência: a maldade sim, é possível entendê-la. Mas a falsidade não está no meu horizonte. Foi a prova mais dura que eu sofri na minha vida na Igreja e na vida monástica.

O que requer a fidelidade do "para sempre" em uma comunidade monástica?

É realmente difícil. E eu me admiro, por enquanto, do percentual de perseverança que ainda há em nossa Comunidade, onde atualmente, de quatro pessoas que iniciam o caminho monástico, perde-se um pouco mais de um, com um percentual de 35-36%. Hoje somos 79 e, no noviciado, passamos para 112-115 pessoas.

A fidelidade tornou-se mais difícil do que as vocações. No passado, o problema era a falta de vocações; agora é a perseverança: ou seja, são muitos mais aqueles que vão embora do que aqueles que entram normalmente em toda a vida religiosa. É uma mudança antropológica e cultural: nessa situação de precariedade, a vida se prolongou, e, ao longo dos anos, com as mudanças, a fidelidade é difícil, no casamento assim como na vida monástica.

Além disso, a nossa Comunidade é aberta, não há clausura, ela faz parte da sociedade, sem isenções. Vejo o esforço também sobre mim. A nossa Comunidade começou com 3-4 pessoas, depois, por um longo tempo, éramos poucos mais que do que uma dezena. De lá para cá, a nossa vida mudou, não nos conteúdos, mas na forma: de uma unidade sociológica primária, 12 pessoas, para 80; de mil hóspedes por ano para mais de 17 mil; de ser praticamente quase desconhecida à notoriedade.

Quanto à minha própria experiência pessoal, tempos atrás eu tinha muitas hostilidades, eu era incompreendido. Agora há alguns que não falam bem de mim, mas muitos outros me dão sinais de reconhecimento. Nessa mudança, a perseverança se torna difícil, a tal ponto que, às vezes, eu seria quase tentado não a retroceder, mas a buscar uma vida mais apropriada para o que eu sentia por dentro. Mas, aqui também, trata-se de prestar obediência à realidade: crescemos, nos tornamos uma família, se começa com dois, depois, em certo ponto, há filhos e a família não é mais aquela de antes. Na vida, você muda de trabalho, de situações de vida... É preciso fazer um verdadeiro exercício e uma disciplina para a perserverança. E, nos momentos de crise – isso eu digo a mim mesmo e também para muitos casais que me encontram em momentos difíceis – é preciso permanecer firmes, não se mover e manter os pés firmes, esperar que o nevoeiro passe. Porque, se nos movemos nesse momento de escuridão interior, ocorrem desastres, são dados passos dos quais não se pode voltar para trás.

Hoje, a lealdade tem um preço alto. A ideologia reinante do efêmero, da mudança, da soma de experiências influencia a todos, não só a sociedade: nós, Igreja, nós também, monges, estamos dentro da sociedade. Não podemos ser aqueles que olham para a cidade como Abraão olhava para Sodoma, do alto. Nós habitamos Sodoma e Gomorra, estamos dentro delas, compartilhamos as fadigas de todos os homens e as mulheres do nosso tempo.

Como é a Igreja vista de Bose?

A Igreja toda vive em um estado de depressão, em que as convicções fortes aparecem só quando são contra os outros, em uma guerra de facções contínua. Por outro lado, parece que ninguém está convencido de nada. O mais grave é que o coração de todo esse conflito é a Eucaristia: os servos da comunhão fazem dela um lugar de divisão. Quanto à Igreja italiana, em particular, vejo dois males. O primeiro é a afonia do laicato: os cristãos na política é como se não existissem mais; frequentemente, houve uma forma de ultrapassamento, pela qual a voz que lhes cabia foi assumida por alguns bispos.

Tudo isso provocou nos últimos 20 anos uma situação um pouco desoladora, não há mais subjetividade laical. Talvez hoje se entreveja um renascimento. Espero que haja um novo começo depois de um tempo de depressão. Outra coisa é que eu gostaria que se entendesse que há urgências muito fortes. É significativo que se tenha escolhido falar sobre a educação nas Orientações Pastorais da década. A meu ver, porém, é inútil pensar em transmitir uma fé às futuras gerações sem lhes fornecer uma gramática humana: elas precisam saber o que a fé lhes diz no cotidiano, na vida, nos afetos, nas histórias de amor, no trabalho, no encontro com os outros.

Dessas duas urgências depende o futuro. Devemos parar de pensar que temos um catolicismo popular que sustenta. A Igreja na Bélgica tinha essa situação 20 anos atrás e é agora é o país mais descristianizado da Europa. Devemos ser menos seguros, menos autogarantidos, menos autorreferenciais.

A comunidade de Bose sempre jogou na aposta evangélica da unidade dos cristãos. Há alguns anos, porém, o ecumenismo está em crise. Mas essa continua sendo a aposta do futuro. Como o senhor vê essa questão neste momento?

Desde o início, eu entendi uma coisa: eu não queria, como alguns sugeriram, que o ecumenismo fosse uma espécie de quarto voto da Comunidade. Nós não celebramos a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, porque sempre dissemos que ou ela é vivida todos os dias, ou não vale a pena. Jesus pediu a unidade: portanto, ou o cristão vive o ecumenismo, ou contradiz Jesus Cristo.

Hoje não há coragem. Todas as igrejas não acreditam muito no ecumenismo. E, na Igreja Católica, há quem trabalhe contra o ecumenismo, atacando o Concílio, propondo o retorno a uma identidade católica fechada, dura, autorreferencial. Quer-se o "retorno dos irmãos separados", como se dizia antes do Concílio. Na Igreja, não se quer a unidade. Quando se continua dizendo que ela vai acontecer "quando o Espírito quiser", então isso significa que não se quer assumir a responsabilidade aqui e agora, e não se quer dar passos de comunhão.

Mudando de assunto: às vezes, parece que o risco de identificação entre Enzo Bianchi e Bose é forte. Hoje, quanto a Comunidade é "sua" e quanto, ao contrário, ela é fruto daquilo que "trouxeram" os outros irmãos e irmãs que vieram depois do senhor?

A Comunidade, na realidade, é muito autônoma de mim. Eu comecei toda a história, mas hoje faço realmente muito pouco. Nos últimos anos, tenho estado sempre fora. Quero que a Comunidade ande por conta própria. Temos um capítulo pela manhã, quando se decidem as coisas, e eu, há cinco ou seis anos, não vou, justamente para que se acostumem a decidir por eles, a medir o seu cotidiano.

O Senhor me mandou tantas pessoas de valor, de grande qualidade intelectual, humano, organizativa. Enquanto a Comunidade estava nas minhas mãos, até 1992-1993, eu nunca organizei um congresso. Eles foram possíveis desde que há um irmão, especialmente, que sabe fazer isso muito bem. E, em nível intelectual, há pessoas mais refinadas do que eu. Muitas coisas vão em frente como se eu não existisse. Eu não determino mais muitas coisas. Nos capítulos, as decisões são tomadas com a votação da maioria, e há pessoas que podem me substituir no priorado. Assim que eu apresentar a renúncia, o vice-prior reunirá o capítulo. Em 40 dias, haverá a eleição do novo prior que guiará a Comunidade por dois anos. Depois disso, se exigirá uma outra votação: se for positiva, o prior continua por 12 anos, caso contrário será escolhido um outro. Enfim, quando eu me for, a Comunidade continuará muito bem. Eu não tenho temores com relação a isso.

Das suas palavras parece transparecer quase uma vontade de ermo...

Não, eu não tenho vocação eremítica. Mas a vontade de voltar para uma certa solidão, isso sim. Além disso, eu já vivo sozinho agora, no meio da floresta.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Carta aos LGBTs: "Eu estou com vocês"

Foto: i can read

Por um feliz acaso, encontramos outro dia este texto no blog de um certo Jeremy Johnson e achamos que valia traduzir e compartilhar com vocês.

Não sei como é ser negro e carregar o peso de anos de opressão e racismo sobre os ombros. Ter de conviver com e superar tamanha opressão. Sentir-se diferente e de menor valor simplesmente por causa da cor da minha pele. Eu sou branco.

Não sei como é ser mulher e carregar o peso da desigualdade e do sexismo sobre os ombros. Andar sozinho pela rua sendo fuzilado por todos aqueles olhares carregados de luxúria. Sentir-se diferente e de menor valor simplesmente por causa do meu gênero. Eu sou homem.

E não sei como é ser gay e carregar o peso do ódio, medo e isolamento sobre os ombros. Ter intensos sentimentos amorosos por alguém do meu próprio gênero. Ter de optar entre reprimir aquilo que sou ou “sair do armário”, sabendo muito bem os conflitos que minha decisão vai causar. Sentir-se diferente e de menos valor simplesmente por causa de minha orientação. Eu sou hétero.

Nunca acordei, numa manhã da minha adolescência, sentindo-me culpado, sujo e assustado porque algo despertou dentro de mim e tenho sentimentos pelos garotos, não pelas garotas. Nunca vi o jeito como as pessoas olham ao passar de mãos dadas com outro cara. Nunca precisei me perguntar por que Deus me fez assim, permitiu que eu me sentisse assim, só para dizer que sou amaldiçoado, abominável e pecador. Nunca pensei em me matar, movido por toda a carga de medo, vergonha e culpa que carrego por causa de um segredo obscuro que levo comigo. Nunca tomei na cara nem apanhei até cair simplesmente por ser gay. Nunca senti a opressão de um país inteiro nem de um corpo inteiro de fieis sobre mim. Nunca soube o que é ter de me sentar com meus pais, olhá-los nos olhos e dizer-lhes que sou gay, só para ver toda a atitude deles em relação a mim mudar instantaneamente. Nunca soube a sensação de ver a pessoa que amo ser rejeitada por quem é muito importante para mim. Nunca senti como é estar no lugar do meu irmão.

Não sou instruído o bastante para saber ou declarar coisas como “O que você sente pelo Marcos é um pecado” ou “Você não foi criado assim” ou “Você escolheu assim, isso não é o que você é” ou “Você tem de negar esses sentimentos e não realizá-los” ou “Deus ama você, mas odeia seus atos e sentimentos gays” ou “Você não serve para Deus por ser gay”.

E, como não sei nem nunca soube, e não sou tão instruído assim, não posso tomar meu assento no júri para julgar e condenar vocês.

Mas posso amar.

Posso dizer que amo vocês tal como são, sem desculpas. Posso dizer que vocês já sofreram o bastante e não foram amados o bastante. Posso dizer que Deus ama vocês, de maneira incondicional, e espera ansioso para que vocês acreditem, e assim se tornem livres para viver e amar. Posso dizer que, sim, serei seu amigo e não os temerei.

E posso pedir perdão.

Perdão por tomar parte de sua opressão e abuso. Perdão pelo meu silêncio, permitindo que se consolidasse a atmosfera que os cercou de medo, ódio e isolamento. Perdão por não me postar entre vocês e seus opressores bradando “Basta!”. Perdão por não permitir que sua história venha a ser também a minha história, a sua dor seja a minha dor, a sua opressão seja a minha opressão. Perdão por não ser a voz do amor de Deus em sua vida. Perdão por não levar o abraço de Deus a vocês quando vocês mais precisavam, limitando-me, em vez disso, a olhar de longe enquanto vocês apanhavam. Perdão por permitir que a Bíblia seja usada como uma metralhadora apontada para vocês, em vez de como uma carta de amor escrita por Deus para cada um de vocês.

Acima de tudo, perdão por representar tão mal a Jesus. O Jesus que se sentava à mesa, curava e abraçava aquelas mesmas pessoas que as ordens estabelecidas em termos culturais e religiosos repeliam, condenavam e amaldiçoavam.

Se Jesus estivesse hoje aqui, seria com vocês que Ele se sentaria à mesa, curaria, abraçaria, amaria e ficaria.

Mas esperem, Jesus está aqui hoje. Perdão por não ter sido Jesus para vocês.

Por favor, me perdoem e tenham paciência comigo, enquanto aprendo a amar como Jesus amou. Daqui por diante, estarei com vocês, de mãos dadas, irmão com irmão, irmão com irmã, como um ser humano com outro ser humano. Partilhamos o mesmo sangue. Nosso Pai é o mesmo. Deus ama a mim tanto quanto ama a vocês. E Seu amor incansável cobre vocês como a mim.

Estou com vocês, seja como for.

Seu irmão, com muito amor,

Jeremy Johnson

(PS: Considerem esta a minha “saída do armário”.)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Em defesa das famílias homoparentais


Zach Wahls, um estudante de engenharia de 19 anos, falou sobre a força de sua família durante uma discussão pública sobre a Resolução Conjunta Nº 6 na Assembléia Legislativa de Iowa. Wahls tem duas mães, e falou contra a Resolução, que pretendia eliminar as uniões civis homoafetivas do Estado americano de Iowa. Um belo testemunho.

Além de ser uma boa resposta ao nosso Partido Social Cristão. (Não entendeu? Clique aqui.) ;-)

* * *

Veja este e outros vídeos legais no nosso canal no You Tube, aqui. :-)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Porque eu não posso parar.


Fomos brindados, ontem, com este lindo testemunho do nosso amigo William Delucca (@delucca). Comungamos todos do mesmo senso de solidariedade e responsabilidade pessoal por todos os irmãos que sofrem, e fazemos nossas suas palavras.

Eu não vou parar.
Eu nunca pensei em entrar, mas agora que eu entrei, não há deus, diabo, ou lâmpada fluorescente explodindo na minha cara que me fará sair.
Eu não vou parar. Eu não posso.
Não posso parar porque a próxima cara no asfalto cheia de sangue pode ser a minha, pode ser a cara do meu namorado, pode ser a cara de um amigo meu, pode ser a cara do meu pai.
Eu não posso parar porque outros já pararam.
Eu não posso parar porque muitos nem sabem que deviam ter começado.
E há tanto a se conquistar, tanto a se corrigir, tanto a se equiparar.
Ninguém deveria lutar pelo o que é seu de direito.
Ninguém deveria ser obrigado a se sentir menos humano, menos brasileiro, menos gente, menor.
Ninguém deveria ter o casamento negado, o compartilhar negado, os direitos negados, liberdade negada, a vida, enfim, negada.
Mas isso acontece.
Tem gente que é impedida de ser feliz.
Tem gente que é impedida de viver.
E isso me incomoda profundamente.
É por conta disso, desse incômodo, que eu não posso parar.
É por conta dos que pararam de lutar e pelos que ainda não começaram a batalha.
É pelo Alexandre Ivo e pelos moleques sem nome que morreram por serem como eram.
É por conta dos ‘viadinhos’, ‘bichinhas’, ‘travecos’, ‘mulheres-macho’, ‘sapatonas’.
É por conta de mim mesmo. E é por conta de todo mundo que precisa e por conta de quem nem sabe que precisa.
É por quem quer casar, por quem quer andar junto na rua, de mãos dadas, por quem quer dizer que é gay sem medo, é por quem quer, enfim, ser feliz.
O que dói nessas pessoas dói em mim.
Cada osso quebrado é um osso meu.
Cada ofensa é dirigida a mim.
Cada dia sem sossego desassossega a mim.
Não é pedir muito.
É pedir o justo.
É pedir o mínimo.
Não me sinto justiceiro de nada, nem me sinto bastião de uma causa.
Não quero fama, não quero dinheiro, não quero poder.
Quero paz. Pra mim e pros meus iguais.
Faço o pouco que faço, e farei até quando puder.
Faço o que posso na esperança de outros fazerem também,
E pra que um dia, eu olhe pro lado,
Veja um casal gay, despreocupado de tudo,
E preocupado apenas em ser feliz.
Até lá,
Eu não vou parar.

- William Delucca
Reproduzido via blog do autor

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Reverendo lança crônicas gays no Rio de Janeiro

Já tivemos o orgulhos de partilhar boas experiências com nossos amigos da Comunidade Betel ICM do Rio de Janeiro.

Repassamos a divulgação do livro de um excelente pastor que sem dúvida tem muito a nós dizer também.









Crônicas de um pastor gay é o novo livro de Márcio Retamero, com lançamento dia 13


Depois de lançar o bem recebido "Pode a Bíblia Incluir? Por um olhar inclusivo das Sagradas Escrituras" (Editora Metanoia), o pastor Márcio Retamero volta às prateleiras das livrarias brasileiras com “Crônicas de um pastor gay” (Editora Metanoia). A obra ganha lançamento no próximo dia 13, a partir das 19h, no Rio de Janeiro, na Livraria da Travessa de Ipanema.

Autor ainda de “Banquete dos Excluídos”, o reverendo da Comunidade Betel ICM do Rio de Janeiro e da Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo faz nessas novas 160 páginas uma reunião de crônicas publicadas sobre assuntos como teologia política, combate ao fundamentalismo religioso e os diversos tipos de homofobia – inclusive a religiosa.

Ainda teólogo e historiador, Márcio Retamero estará recebendo os leitores no dia 13, a partir das 19h para quem quiser conhecer mais da obra. A Livraria da Travessa de Ipanema fica na Rua Visconde de Pirajá, 572, em Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro. A entrada é gratuita.

Fonte:
Mix Brasil

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A esperança como atitude crítica

Foto: Anna Aden

A esperança é uma das três virtudes teologais, ao lado da fé e do amor. Rima com confiança, termo que deriva de fé: quem acredita, espera; e quem espera, acredita. Esperar é confiar.

Vivemos um momento novo da história da América Latina. Com a eleição de governos democrático-populares, a esperança dá sinais de se transformar em realidade. Há esperança de que se priorizem as questões sociais e se reduzam significativamente as desigualdades que caracterizam o Continente.

Para Jesus, a esperança se coloca lá na frente, no Reino de Deus, que marca o fim e a plenitude da história, e não lá em cima, enquanto postura verticalista de quem ignora a existência deste mundo ou a rejeita. Hoje, a expressão Reino de Deus possui conotação vaga, metafórica. Pode-se, porém, imaginar o que significava falar disso em pleno reino de César... Não há dúvida da ressonância política do termo, pois Jesus ousou anunciar um outro Reino que não o de César e, por isso, pagou com a vida.

Hoje, a esperança tem conotação secular - a utopia. É curioso observar que, antes do Renascimento, não se falava em utopia. Esta resultou da dessacralização do mundo, da morte dos deuses e, portanto, da necessidade de projetar ou visualizar o mundo futuro. Na medida em que o ser humano, com o advento da modernidade, começou a dominar os recursos técnicos e científicos que interferem no curso da natureza e aprimoram a nossa convivência social, surge a necessidade de antever o modelo ideal, assim como o artista que faz a escultura traz na cabeça ou no papel o desenho da obra terminada. Como afirmou Ernst Bloch, a razão não pode florescer sem esperanças, e a esperança não pode falar sem razão (Karl Marx, Bolonha, 1972, 60).

O marxismo foi a primeira grande religião secular, capaz de traduzir a esperança em sociedade ideal. Ele introduziu na cultura ocidental a consciência histórica, a percepção do tempo como processo histórico, a tal ponto que o ser humano passou a prefigurar sua existência, não mais em referência aos valores subjetivos, mas ao devir, lutando contra os obstáculos que, no ainda-não, impedem a realização do que se espera como ideal libertador.

Para o cristão, a utopia do Reino supera as utopias seculares, sejam elas políticas, técnicas ou científicas. Espera-se, neste mundo, a realização plena das promessas de Deus o que plenifica e transfigura o mundo. Assim, à luz dessas promessas elencadas na Bíblia, o cristão mantém sempre uma postura crítica frente a toda realização histórica, bem como diante dos modelos utópicos. O homem novo e o mundo novo são resultados do esforço humano através do dom de Deus que, em última instância, os conduzem ao ápice. Em outras palavras, quem espera em Cristo não absolutiza jamais uma situação adquirida ou a ser conquistada. Toda progressão é relativa e, portanto, passível de aperfeiçoamento, até que a Criação retorne ao seio do Criador. Pois Deus realiza progressivamente, na história humana, a sua salvação.

A esperança se baseia na memória. Quem espera, rememora e comemora. Nosso Deus não é um qualquer do Olimpo politeísta. É um Deus que tem história e faz memória: Javé, o Deus de Abraão, Isaac e Jacó. É essa memória que alimenta a consciência crítica, consciência da diferença, da inadequação, ao ainda-não. Pois a utopia cristã sustenta-se na promessa de Deus. Por isso, a esperança cristã não teme o negativo, as vicissitudes históricas, o fracasso. É uma esperança crucificada, que se abre à perspectiva da ressurreição.

Na esperança, nós já fomos salvos. Ver o que se espera já não é esperar: como se pode esperar o que já se vê? Mas, se esperamos o que não vemos, é na perseverança que o aguardamos (Romanos 8, 24-25). Como diz a Carta aos Hebreus, a fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se veem (11, 1). Se a fé vê o que existe, a esperança vê o que existirá, dizia Péguy. E acrescentava: o amor só ama o que existe, mas a esperança ama o que existirá... no tempo e por toda a eternidade.

A esperança é o caminhar na fé para o seu objeto. A fé nos dá a certeza de que Jesus venceu a morte; a esperança, o alento de que venceremos os sinais de morte: a injustiça, o opressão, o preconceito etc. Esse processo não é contínuo, pois somos prisioneiros da finitude, embora trazendo a Infinitude em nossos corações. Por isso, o caminhar é entrecortado de dúvidas e dores, conquistas e alegrias, mas sabe que, se trilha as sendas do amor, tem Deus como guia.

- Frei Betto
Reproduzido via Amai-vos

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Festa da exaltação da cruz de Cristo

Foto via don't touch

A cruz de Jesus Cristo é o símbolo máximo do Cristianismo. Muitas vezes a associamos ao sofrimento e a dor e nos parece difícil pensar nela como instrumento de vitória e superação. Jesus Cristo não tinha que morrer na cruz para nos salvar, não era a morte a sua maior missão, mas o doar a vida pela remissão humana. A cruz aparece em sua vida apenas por coerência com a missão que assumiu.

Na época de Jesus, pessoas que denunciavam as injustiças eram consideradas conspiradores contra a ordem estabelecida e a pena aplicada a este "crime" era a morte e, em alguns casos julgados mais graves, a morte por crucifixão.

Jesus faz da sua vida pública um constante denunciar o que havia de errado e um contínuo anúncio de um novo estado possível de coisas, onde o amor fosse a essência e a justiça a norteadora das relações entre as pessoas. Por isso, não foi entendido pelos seus pares, sobretudo aqueles que se sentiam agredidos por suas palavras. Por isso, foi levado à morte. Por isso, encontrou-Se com a cruz.

O sofrimento de Jesus nos impulsiona a ir além. Ele, homem como nós, mostrou que é possível transformar e que a vida sempre vence apesar do ódio, do mal e do não querer. Sobretudo mostrou-nos que a cruz não é o fim. Portanto, crer em Jesus Cristo é crer em alguém que vence o sofrimento, é encher-se de esperança. Crer em Jesus Cristo é saber que as cruzes estarão em nossos caminhos como conseqüência de uma vida coerente com o chamado de Deus Pai. Crer em Jesus Cristo é acreditar que existe um Deus que nos promete a vida e não a morte.

Nesta Festa da Exaltação da Santa Cruz, celebrada a 14 de setembro, possamos olhar para as cruzes que encontramos não com medo, com pena ou com dor, mas com vigor, com esperança e com a certeza de que é no enfrentamento da cruz que nos fortalecemos em Deus, a quem iremos encontrar em todos os momentos em que a vida se celebra através de nós.

Texto para reflexão:
Jo 3, 13-17

- Gilda Carvalho
Reproduzido via Amai-vos

* * *


Leia também:
"Escândalo e loucura"
"A Cruz: suplício ou esperança?"

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Existe um céu para Amy



Estava demorando.

Consegui passar pela enxurrada da morte da Amy Winehouse com alguma dignidade, apesar dos meus pontos em comum com a história e a personalidade dela. Por uma sorte do destino e muito trabalho interior, eu continuo caminhando neste mundo; ela ficou no tempo. Falar sobre compulsão num mundo compulsivo é chover no molhado. Todo mundo está mais do que careca de saber que excesso não dá boa coisa. Excesso de compras dá endividamento, excesso de chatice dá solidão, excesso de drogas dá overdose. A grande questão é frear a primeira pedra do “quem usa drogas sabe que vai morrer” ou do “só podia dar nisso mesmo”. Não é totalmente verdade e nem precisaria ser se os nossos tempos muito doidos não exigissem holocaustos humanos aos nossos deuses do excesso. A máquina de moer personalidades nunca esteve tão ligada e com as atenções tão voltadas a ela. A lista dos gênios que morrem aos 27 precisa ser atualizada com urgência porque as pessoas querem ter a segurança de que os maus vão mesmo ter um final trágico. Porque quem é mau precisa ir para o inferno num vôo sem escalas e sem banheiro.

Vou jogar uma bomba, agora: NÃO EXISTE INFERNO! Aquilo que chamamos de inferno, o lugar escaldante onde os julgados maus sofrerão a danação eterna é muito bonito na Divina Comédia de Dante mas não tem nada a ver nem com o Deus dos nossos pais – Aquele mesmo, que é puro Amor e Acolhimento – nem com o olhar assustado da pobre Amy Jade – aquela mesma, que virou Winehouse e não conseguiu sair mais dela. Condenar aquela história de solidão e sofrimento da garota inglesa “tagged” com a etiqueta PROBLEMA é tão eficaz quanto mandar uma ovelha para o supletivo. O que precisa ser feito mesmo é parar de sacrificar pessoas para fortalecer o pressuposto do “quem é mau vai pro inferno”. E a omissão talvez seja nosso pecado mais grave.

A Divindade que vive dentro de nós não deveria ser convidada a condenar maus e aplaudir bons – até porque a gente nem sabe quem é realmente bom e quem é realmente mau – mas a ser divina em sua essência e acolher, agregar, restaurar, AMAR.

Sinto pela garota inglesa que não encontrou a saída. Agradeço por ter tido a chance de continuar caminhando e olhar pra tragédia como um passado. Agora, é minha responsabilidade multiplicar o bem que um dia foi feito na minha vida.

Com amor,
Zu.
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