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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Contra o ódio


A empresa italiana Benetton lançou nesta quarta-feira uma campanha contra o ódio e o preconceito com cartazes espalhados pelas cidades de Roma e Milão que trazem fotomontagens de líderes mundiais se beijando. O objetivo da campanha, que faz parte das ações da fundação Unhate ("Deixe de odiar"), criada e patrocinada pela Benetton, é protestar contra a "cultura do ódio" (conheça o site da Unhate Foundation aqui).

Entre os líderes retratados estão o presidente americano, Barack Obama, que aparece numa das fotomontagens beijando o líder chinês, Hu Jintao e, em outra, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez; o presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina) aparece beijando o premiê israelense, Binyamin Netanyahu; e a chanceler alemã, Angela Merkel, é retratada beijando o presidente francês, Nicolas Sarkozy (veja algumas das imagens aqui).

Já o papa Bento 16 dá um beijo no Imã do Cairo, Safwad Hagazi (a autoridade muçulmana do Egito). Uma faixa com essa montagem foi estendida na Ponte dell'Angelo, em Roma, localizada nas proximidades do Vaticano. O site oficial da fundação Unhate divulgou as montagens na manhã da última quarta-feira, mas antes do lançamento oficial pedestres curiosos já haviam fotografado as faixas espalhadas por Roma e Milão e as imagens foram divulgadas pela mídia italiana.

A repercussão foi tamanha que, no mesmo dia, a Benetton anunciou a decisão de retirar de circulação a fotomontagem com o papa e o imã sunita, dizendo-se "desolada com o fato de a utilização da imagem ter chocado tanto a sensibilidade dos fiéis". "Lembramos que o sentido desta campanha era exclusivamente combater a cultura do ódio sob todas as formas", comentou, em um comunicado, o porta-voz do grupo.

Minha opinião pessoal: é uma pena que a gente ainda viva em um mundo em que a imagem de duas pessoas se beijando, seja quem for, choque mais que tantas outras, de violência brutal, com que somos bombardeados diariamente - tanto na mídia quanto nas ruas. Mas, enfim... Achei a campanha, e o filme, lindos.

Um fim de semana de muitos beijos e muito amor para todos. :-)


Com informações da Folha de S. Paulo (aqui e aqui) e do Terra (aqui).

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

“A natureza é perfeita graças à nossa imperfeição”


Percebemos que a ideia de conciliar nossas identidades de gays e católicos muitas vezes causa um certo estranhamento ou mesmo desconforto em algumas pessoas - e, nesse caso, não só os "fundamentalistas", mas também em muitos gays não-religiosos. Em vista disso, iniciamos há algumas semanas uma série de depoimentos aqui no blog, que serão publicados sempre às quintas-feiras, às 15h, de algumas das pessoas que frequentam as reuniões e atividades do Diversidade Católica e que se dispuseram a compartilhar, com os leitores do blog, um pouco de suas histórias e suas vivências como gays e católicos que são.

A série pode ser acessada através da tag "gay e cristão".

A cada um deles, sempre, nosso muito obrigado. :-)


Aproveitando essa abertura que o Blog nos dá, vou abusar aqui desse contato e dar meu depoimento também... hehe! Sem pretensão e espero que possa ser útil a alguém!

Minha educação sempre teve como base os conceitos da religião católica, tanto na escola como em minha casa. Infelizmente era um conceito de um “Deus” formatado como severo e austero, eu cresci temendo ser castigado pelos meus atos anti-heterossexuais e como sofri e custei a me livrar desse “Deus”.

Foi então que na minha adolescência, entre a década de 1970 e 1980, que descobri o mundo através dos grandes jornais. Eu comprava aos domingos e devorava as reportagens sobre tudo que eu achava interessante, principalmente no que dizia respeito a comportamento humano (religião, psicologia e sociologia). Pois meu pai só comprava jornais populares, daqueles que se espremesse saía sangue.

A partir daí tive consciência que os meus problemas eram parecidos com os de todo mundo, tanto para homossexuais ou heterossexuais. Quando me dei conta, na adolescência, eu estava gostando de ficar juntinho de algum amigo que me dava mais atenção e carinho “inocentemente”. Acho que por sorte ou por simpatia, sei lá... só sei que eu sempre fui correspondido por algum colega ou amigo do meu circulo de amizade, pois na fase da minha adolescência atos de homossexualismo não eram muito explícitos e compreendidos.

Trocar carinho e ficar pertinho era normal entre a gente (eu e o amigo). Lembro-me muito bem dos gestos afetuosos de algum amigo que queria ficar perto mim tanto na amizade de colégio ou nas outras amizades. Hoje eles são chefes de família, me parece então que são heteros...! Talvez sim. Nunca tive amizade ou contato com um gay (assumido ou não) nessa fase da minha vida, meu círculo de amizade sempre foi com pessoas aparentemente heterossexuais até onde eu sabia. Percebi que eu era diferente deles apenas no interesse afetivo e erótico. Por quê?

Porque percebi que os outros hábitos que eu tinha eram parecidos com os de todos, éramos adolescentes alegres e saudáveis que gostávamos de esportes, festas... etc... por isso nunca me senti tão diferente assim, talvez por ter descoberto o mundo através da leitura e nem por isso me isolei de ninguém mesmo preferindo os meninos em vez das meninas pra trocar carícias... não sou assumido publicamente, não sei se por medo, covardia ou por achar que não tem necessidade, pois nunca vi héteros saindo por aí dizendo que são héteros, exceto quando são questionados.

Talvez não sentisse e ainda não sinto essa necessidade de ter que assumir a minha preferência sexual publicamente, acho que isso só diz respeito à pessoa que está envolvida comigo, procuro não fazer disso um drama e nem o fim do mundo, apesar do meu terapeuta achar que seria bom informar a minha preferência sexual aos mais chegados a mim (família, amigos).

Não é fácil crescer com dúvidas e crises existenciais do tipo “quem eu sou, porque Deus me fez assim?" etc. Sei que passei por todo esse processo e sobrevivi saudável e mais esclarecido graças a minha vontade de saber mais e ao meu terapeuta, principalmente em relação a ver qual é o Deus que convive comigo.

Hoje estou vivendo uma experiência inusitada aos olhos do mundo convencional. Pasmem, mas estou morando há seis meses com um rapaz hétero convicto... como assim?! Temos um conhecido em comum, e foi através dessa pessoa que eu o conheci e uma semana depois estava morando comigo. Sei que devem estar se perguntando porque um hetrero resolveu morar comigo (um gay)!

Doidera mesmo! Mas deu certo... Confesso que quando fomos apresentados fiquei impressionado com sua beleza, aliás normal para uma observação de um cara homossexual, certo? Mas tive o cuidado de transparecer que também curti a pessoa dele e por incrível que pareça essa impressão foi recíproca, pois o tal amigo em comum já tinha falado da minha pessoa pra ele e vice-versa. Daí surgiu a curiosidade de sermos apresentados.

Desde o primeiro dia dessa nova relação sempre houve uma convivência harmoniosa em casa. Ele me admira e me vê como um grande amigo que surgiu na sua vida num momento em que estava passando por graves problemas e eu também passava por problemas parecidos. Ele veio estudar aqui no Rio de Janeiro e procurava um lugar pra se hospedar durante os estudos.

A convivência está sendo tão prazerosa para ambos que agora não é mais hóspede e sim um amigo e companheiro. Às vezes ele fica surpreso por sermos tão diferentes um do outro e mesmo assim declara seu amor de amigo por mim e não faz a menor cerimônia de dizer que sente saudade de mim na minha ausência e que gosta da minha companhia. Acho isso muito bonito da parte dele sendo um hetero convicto. Apesar dessa admiração e carinho que sente por mim ele não se conforma de eu ser homossexual e diferente dele. E sempre digo a ele que foi graças a essa diferença que a vida nos uniu e ele sorri e acaba confessando que realmente é verdade. Estou lendo um livro que diz que a natureza é perfeita por causa da imperfeição e da diversidade, parece que isso se aplica a minha situação.

Claro que na maioria das vezes a “mulherada” rouba a atenção dele e o arrasta para as noitadas e eu tenho as vezes que ficar em casa sozinho, mas isso está tranqüilo de resolver, pois passei no teste do ciúme... hehehe! Descobri que esse ciúme era de atenção e não de paixão platônica (que, aliás, seria normal na minha situação, um gay, sendo ele um gatão sarado... hehe), mas não é o caso, pois também tenho meus fãs e fico feliz quando ele retorna contando suas aventuras com a “mulherada” e ficamos rindo e depois vamos comer pizza. Ele agora faz parte da minha vida e eu da dele. Ele confessa que tem sim preconceito com outros “gays” e superou as suas suspeitas a minha pessoa com a convivência. Acho que preconceito sempre vai existir tanto de heteros para gays e o contrario também por causa do julgamento sem convivência. Acho isso normal, não somos perfeitos.

A conclusão que tiro dessa experiência com meu novo amigo é que o Deus que descobri que existe dentro de mim é o mesmo do meu companheiro hetero. Jesus sempre mostrou que o respeito, a caridade e o amor ao próximo é que nos faz sentir em conexão com Deus. Devemos sempre conviver em harmonia, pois somos iguais acima de tudo como seres humanos e não deveria ser diferente por causa das preferências sexuais. Sendo assim eu e meu amigo e companheiro estamos vivendo segundo a vontade de Deus!

Chamo-me Roby, sou um ser humano católico praticante, com interesse em amar sempre outro ser humano.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Homofobia e homossexualidade


Desde o fim do ano passado, em São Paulo, assistimos a uma série de ataques brutais contra homossexuais ou homens que seriam homossexuais aos olhos de seus agressores.

No fim de 2010, por decreto da Presidência da República, foi estabelecida a finalidade do Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (parte da Secretaria de Direitos Humanos).

Mais recentemente, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a união entre pessoas do mesmo sexo como unidade familiar. Não me surpreende que uma explosão de homofobia aconteça logo agora, pois, em geral, o ódio discriminatório aumenta de maneira diretamente proporcional aos avanços da tolerância.

Funciona assim: quanto mais sou forçado a aceitar o outro como igual a mim, tanto mais, num âmago que mal reprimo, eu o odeio e quero acabar com ele. Mas por que eu preferiria que o outro se mantivesse diferente de mim? Por que não quero reconhecê-lo como igual? O termo de homofobia, inventado no fim dos 1960, designa, mais que um preconceito, uma reação emocional à presença de homossexuais (ou presumidos homossexuais), num leque que vai do desconforto à ansiedade, ao medo e, por fim, à raiva e à agressão.

Numa entrevista na "Trip" de outubro (aqui), apresentei a explicação clássica da homofobia do ponto de vista da psicanálise: "Quando as minhas reações são excessivas, deslocadas e difíceis de serem justificadas é porque emanam de um conflito interno. Por que afinal me incomodaria meu vizinho ser homossexual e beijar outro homem na boca? De forma simples, o que acontece é: 'Estou com dificuldades de conter a minha própria homossexualidade, então acho mais fácil tentar reprimir a homossexualidade dos outros, ou seja, condená-la, persegui-la e reprimi-la, se possível até fisicamente, porque isso me ajuda a conter a minha'".

Exemplo: se eu sinto (e não quero sentir) atração por um colega de classe do mesmo sexo, o jeito, para me convencer que não sinto atração alguma, é chamar esse colega de veado, juntar um grupo que, como eu, odeie homossexuais e esperar o colega na saída da escola para enchê-lo de porradas.

Um amigo me perguntou se essa interpretação da homofobia não era sobretudo uma forma de vingança: você gosta de agredir homossexuais pelas ruas da cidade? Olhe o que isso significa: você mesmo é homossexual. Gostou? O amigo continuou: "Isso não é bonito demais para ser verdade?".

Pois bem, anos atrás, pesquisadores da Universidade da Georgia selecionaram 64 homens que (na escala Kinsey) se apresentavam como sendo exclusivamente heterossexuais. Todos foram testados por uma entrevista (clássica, o IHP) que estabelece o índice de homofobia, de 0 a 100. Com isso, foram compostos dois grupos: os não homofóbicos (IHP de 0 a 50) e os homofóbicos (IHP de 50 a 100).

Nota: chama-se pletismógrafo um instrumento com o qual se registram as modificações de tamanho de uma parte do corpo. Pois bem, todos vestiram um pletismógrafo peniano, graças ao qual qualquer ereção, até incipiente e mínima, seria medida e registrada. Depois disso, todos os 64 foram expostos a vídeos pornográficos de quatro minutos mostrando atividade sexual consensual entre adultos heterossexuais, homossexuais masculinos e homossexuais femininos.

À diferença do que aconteceu com o grupo de controle (ou seja, com os não homofóbicos), a maioria dos homofóbicos teve tumescência e ereção significativas diante dos vídeos de sexo entre homossexuais masculinos. Confirmando a interpretação da psicologia dinâmica: indivíduos homofóbicos demonstram excitação sexual diante de estímulos homossexuais.

Existe a possibilidade de que a excitação manifestada pelos homofóbicos seja efeito, por exemplo, de sua vontade de quebrar a cabeça dos protagonistas dos vídeos - existe, mas é remota (porque os 64 indivíduos da amostra passaram todos por um questionário que mede a agressividade, e ninguém se mostrou especialmente agressivo).

Para quem quiser conferir, a pesquisa, de Henry E. Adams e outros, foi publicada no "Journal of Abnormal Psychology" (1996, vol. 105, n.3), com o título "Is Homophobia Associated with Homosexual Arousal?" (a homofobia é associada à excitação homossexual?) e é acessível na internet.

- Contardo Calligaris
Reproduzido via Amai-vos

O desafio da diferença: o diálogo como única forma de compartilhar a fé

Moses bridge: RO & AD Architect

Superar as diferenças entre culturas, entre religiões, entre gerações, diferenças sempre crescentes entre ricos e pobres só será possível por meio do “diálogo inteligente e da razão caridosa”, afirma o ex-mestre geral dos dominicanos, Timothy Radcliffe


Como uma árvore, a Igreja precisa de uma “interação dinâmica” com seu meio ambiente: a chuva, o sol, o vento e até o pássaro ocasional. Senão, “encerrada em si mesma, ela morreria”. Por isso, a fé cristã precisa de “uma cultura que nos capacite a debater com a sociedade, em vez de ficarmos na defensiva”. Para Timothy Radcliffe, teólogo e padre dominicano, único inglês a ser eleito para o superior geral de sua ordem desde sua fundação, em 1216, a Igreja tem uma longa tradição de lidar com a diferença, como demonstram os quatro Evangelhos e as demais tradições teológicas da vida católica. Porém, hoje, além de adotar a “tolerância contemporânea”, precisamos oferecer mais, “um envolvimento com as outras pessoas que leve a sério o que elas dizem, para dialogar com elas na crença de que juntos podemos nos aproximar mais da verdade”, afirma, em entrevista concedida, por e-mail, à IHU On-Line.

E esse diálogo – considerado por ele como a única forma de pregar, como demonstrou Jesus, que “se tornou humano na forma de um homem do diálogo” – também se refere a questões internas da Igreja (como a ordenação de homens casados, “uma bênção”, e do celibato, “exigente, mas belo, se vivido com generosidade”), com outros credos (“se eu dialogo com um muçulmano, espero que ambos sejamos convertidos”) e com relação ao mundo (“o tempo está pronto para que a Igreja ofereça uma nova visão moral”).

Nascido na Inglaterra, Timothy Radcliffe é teólogo e padre dominicano. Em 1992, foi eleito Mestre Geral da Ordem dos Pregadores [Dominicanos]. Antes disso, havia sido capelão do Imperial College London, prior provincial da Inglaterra e presidente da Conferência dos Superiores Religiosos de Inglaterra e Gales, tendo lecionado Sagrada Escritura na Universidade de Oxford. Em 2001, após deixar o cargo de mestre geral da ordem, voltou a lecionar na universidade.

Atualmente, é membro da comunidade dominicana de Blackfriars, Oxford, na Inglaterra. Presidente do International Young Leaders Network, Racdliffe foi um dos fundadores do Las Casas Institute, que aborda questões referentes à ética, política e justiça social, ambos desenvolvidos na Universidade de Oxford. Em 2007, seu livro What is the point of being a Christian?” [Qual é o sentido de ser cristão?] (Ed. Burns & Oates, 2005) recebeu o prêmio Michael Ramsey de Escritos Teológicos, criado pelo primaz da Igreja Anglicana e arcebispo de Canterbury, Dr. Rowan Williams, para encorajar as obras teológicas mais promissoras. Radcliffe também é autor de diversos livros sobre espiritualidade, como I Call You Friends [Chamo-lhes amigos] (Ed. Continuum, 2001), Seven Last Words [As últimas sete palavras] (Ed. Burns & Oates, 2004) e Why Go to Church? The Drama of the Eucharist [Por que ir à Igreja? O drama da Eucaristia] (Ed. Continuum, 2008).

Confira a entrevista, aqui reproduzida via IHU On-line.


IHU On-Line – Qual a sua opinião sobre os rumos da Igreja nesta primeira década do século XXI, sob o papado de Bento XVI?

Timothy Radcliffe –
Os papas deveriam se concentrar em fazer o que melhor sabem fazer. O Papa Bento XVI é um professor, e é isso que ele oferece muito bem à Igreja. Muitas pessoas esperavam que ele se preocupasse, sobretudo, com a disciplina e o combate à modernidade, por causa de sua reputação na época em que ele era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Mas ele está determinado a escapar dessa imagem de disciplinador, que detestava, e, assim, suas encíclicas vêm tentando nos levar de volta aos aspectos essenciais de nossa fé, começando com o amor. Como acadêmico, ele gosta do debate e queria que seu livro sobre Jesus de Nazaré provocasse discussão. Essa é possivelmente a primeira vez que um Papa tenha escrito, buscando uma reação intelectual ativa de outros teólogos. Um grupo de teólogos norte-americanos e britânicos aceitou o desafio e ofereceu uma resposta que é positiva e crítica. Portanto, todo esse aspecto de seu papado é muito positivo.

Entretanto, tem havido dificuldades em sua comunicação com a mídia, como, por exemplo, a revogação da excomunhão do bispo lefebvriano que parecia negar o Holocausto, as observações do Papa a jornalistas sobre preservativos em sua viagem à África etc. Essas coisas provocaram alvoroço, e o Vaticano parece não ter condições ou disposição para se relacionar com a mídia de forma profissional. Isso talvez está ligado às profundas divisões existentes dentro do Vaticano, que estão enfraquecendo seu papel de serviço à Igreja universal.

O cardeal Basil Hume percebeu claramente que necessitamos de uma reforma do governo da Igreja, em que o Vaticano sirva por meio do Papa e dos bispos, em vez de os bispos serem, muitas vezes, vistos como servos do Vaticano. Este é um desafio central, e não se poderia esperar que o atual Papa, com a idade que tem e, não obstante, todos os seus dons e sua inteligência, o empreendesse.

IHU On-Line – Questões éticas em torno da vida e da morte (como os casos de Terry Schiavo e Eluana Englaro) e questões culturais (como os crucifixos em salas de aula na Itália e na Espanha) têm suscitado uma reação do Vaticano. Isso é a demonstração de um certo conservadorismo nesses debates por parte da Igreja ou é apenas uma tentativa de normatização de uma instituição histórica? Essa é uma luta da Igreja para defender sua identidade em uma sociedade plural?

Timothy Radcliffe –
Uma fé cristã precisa de uma cultura cristã que a sustente. A fé em Cristo significa que veremos o mundo de uma forma diferente das pessoas que estão enredadas no mundo do mercado e na cultura contemporânea do consumismo. Veremos o mundo em termos de bênçãos, gratidão e indícios de transcendência. Essa percepção da realidade precisa ser sustentada por uma cultura, que está necessariamente em tensão com a cultura secular global de nosso planeta. A tentação para os cristãos é tentar sustentar essa cultura simplesmente lutando contra a modernidade e seus pressupostos. Isso poderia levar a Igreja a um gueto que estaria muito distante da hospitalidade aberta de Jesus. Precisamos de uma cultura cristã que, ao mesmo tempo em que tenha autoconfiança, também esteja aberta para ser alimentada por nossos contemporâneos, independentemente de eles crerem ou não. Em outras palavras: precisamos de uma cultura que nos capacite a debater com a sociedade, em vez de ficarmos na defensiva. A imagem que gosto de usar neste sentido é a de uma árvore, que é uma imagem bíblica tradicional. É claro que a árvore é ela mesma, mas só pode florescer se tiver uma interação dinâmica com seu meio ambiente – a chuva, o sol, o vento e até um pássaro. Encerrada em si mesma, ela morreria.

Portanto, esses debates a respeito de várias questões culturais são formas pelas quais estamos negociando que espécie de interação temos com a sociedade. Às vezes, a Igreja é tentada a ficar nervosa e defensiva demais, mas precisamos nos envolver mais positivamente com as pessoas mais criativas e imaginativas de nossa época. Em vez dessas discordâncias serem conflitos de poder, elas requerem um envolvimento inteligente com nossa sociedade, suas esperanças e seus temores.

IHU On-Line – Como o senhor analisa as recentes negociações da Igreja com os lefebvrianos, os anglicanos conservadores e os ortodoxos? O que isso indica para o futuro do ecumenismo no século XXI?

Timothy Radcliffe –
O Papa tem uma percepção profunda da necessidade de reunir os cristãos em unidade. A unidade cristã é um aspecto necessário e profundo do chamado que Cristo nos dirige. Depois da ressurreição, os discípulos dispersos foram reunidos, e, assim, a unidade visível em Cristo é uma parte intrínseca da maneira como somos o Corpo de Cristo. Assim, a cura da divisão precisa ser uma prioridade, e ela está por trás de muitas das iniciativas do Papa. Está claro que ele fez muito progresso na cura da mais antiga das divisões, que é com os ortodoxos. Eles o respeitam como um homem que tem uma visão teológica profunda, arraigada no evangelho e nos mesmos teólogos antigos do Oriente que eles também reverenciam.

A iniciativa do Papa de ir ao encontro dos anglicanos que estão descontentes com mudanças recentes em sua Igreja também faz parte desse desejo de curar as feridas do passado. É claro que ela também é uma iniciativa arriscada na medida em que poderia, ao mesmo tempo, debilitar a crescente amizade entre as Igrejas Católica e Anglicana. Penso que o Papa tentou manter um equilíbrio oferecendo um lugar em nossa Igreja a esses anglicanos descontentes e, ao mesmo tempo, dando ao arcebispo de Canterbury [Rowan Williams ] uma cruz episcopal, o que é um sinal de respeito e amizade.

Sua iniciativa de ir ao encontro dos anglicanos criou muita ansiedade na Grã-Bretanha. Isso se deve em parte a um medo de que sejamos inundados por anglicanos tradicionalistas que atrapalharão nossa própria evolução na Igreja Católica. É importante entender que muitos dos anglicanos que se tornaram católicos em anos recentes de modo algum são tradicionalistas misóginos mesquinhos. Muitos não são contra a ordenação de mulheres como tal, mas creem que certas decisões só podem ser tomadas pela Igreja universal e que, ao fazer isso sozinha, a Comunhão Anglicana está perdendo todas as possíveis reivindicações de ser membro dessa Igreja universal. Infelizmente, a questão foi mal encaminhada pelo Vaticano, sem uma consulta adequada junto aos bispos católicos ou anglicanos nesse país ou até junto a outras partes do próprio Vaticano.

É claro que o mesmo desejo de curar a divisão e trazer as pessoas de volta para a unidade do corpo de Cristo está presente na iniciativa do Papa de ir ao encontro dos lefebvrianos. Espero que a Igreja mostre a mesma abertura e vá da mesma maneira ao encontro das pessoas que se afastaram da Igreja por causa de opiniões que são mais progressistas!

IHU On-Line – Outro problema que a Igreja enfrenta é a redução do número de novos padres. Já foram indicadas algumas possíveis soluções, radicais demais para o Vaticano, como a ordenação de homens casados (os chamados “viri probati”), o fim do celibato e a ordenação de mulheres. Como o senhor analisa isso? O celibato é o principal problema?

Timothy Radcliffe –
Não creio que o celibato seja o principal problema. Muitas Igrejas que têm clérigos casados também têm problemas semelhantes. Isso acontece em parte porque, muitas vezes, os jovens percebem os sacerdotes como empresários excessivamente ocupados, com pouco tempo para a vida “real”. Como podemos ser sinais do Deus de vida abundante se estamos correndo para lá e para cá, como se fôssemos os salvadores do mundo? Os jovens dizem a seus pais: “vivam!”. E nós precisamos mostrar que ser sacerdote ou religioso é realmente uma forma de estar vivo, imaginativa, emocional e humanamente vivo!

Creio, entretanto, que precisamos pensar sobre a ordenação de homens casados. Perderíamos muito se o celibato deixasse de fazer parte da vida de nossos sacerdotes. Ela é uma vida que só faz sentido como um sinal do Reino. Ele é exigente, mas belo, se vivido com generosidade. Mas se tivéssemos sacerdotes casados, também ganharíamos muito. Eles trariam sua experiência do casamento e da criação de filhos para nossa pregação, e isso seria uma bênção. Assim, temos de discutir isso como Igreja, e, já que o sacerdote é o servo de todo o povo de Deus, precisamos saber o que os leigos pensam e querem. Eles estariam, por exemplo, dispostos a arcar com a considerável despesa adicional de manter uma família no presbitério?

IHU On-Line – Como a Igreja pode lidar com o mundo contemporâneo em um tempo de crise, “líquido”, incerto?

Timothy Radcliffe –
Um dos desafios com que nos deparamos hoje, mais do que nunca, é nos defrontar com a diferença: diferenças entre culturas, entre religiões, entre gerações, diferenças sempre crescentes entre ricos e pobres. Isso só pode ser feito com o diálogo inteligente e a razão caridosa. A Igreja deveria ser capaz de oferecer um modelo disso. Papas recentes, especialmente Bento XVI, acentuaram que nós cremos na razão. Temos uma longa tradição em lidar com a diferença, desde os quatro Evangelhos, até as múltiplas tradições teológicas que fazem parte de nossa vida católica. Assim, deveríamos ter condições de oferecer um bom modelo de envolvimento com a diferença. Para nossa cultura contemporânea, o modelo usual é o da tolerância. Isso é excelente, e é maravilhoso que vivamos numa sociedade que é imensamente mais tolerante. Mas tolerância não basta. A mera tolerância pode ser uma forma de deixar de se envolver com as pessoas e de levar a sério no que elas creem. “Se você quer acreditar que Deus é um alienígena do espaço sideral, se você se sente bem assim, não há qualquer problema”. Como Igreja, certamente precisamos adotar a tolerância contemporânea, mas oferecer mais, que é um envolvimento com as outras pessoas que leve suficientemente a sério o que elas dizem, para dialogar com elas na crença de que juntos podemos nos aproximar mais da verdade. Isso quer dizer que precisamos descobrir, na Igreja, não apenas como crer na razão teoricamente, mas nos envolver num diálogo mais caridoso e inteligente.

IHU On-Line – É possível praticar o diálogo inter-religioso sem que as Igrejas percam sua identidade? Nesse sentido, quais são os desafios para o futuro da Igreja Católica?

Timothy Radcliffe –
O diálogo é a única forma de compartilhar nossa fé. Nós cremos na Trindade, a conversa eterna e amorosa do Pai e do Filho que é o Espírito Santo. Essa é a razão pela qual Deus se tornou humano na forma de um homem do diálogo. Todo o Evangelho de João consiste numa série de conversas: Jesus conversa com Nicodemos à noite ; ele conversa com a mulher junto ao poço , para escândalo dos discípulos que se perguntavam por que ele haveria de falar com uma mulher de má reputação; conversa com o cego de nascença, ao passo que todas as outras pessoas só falam sobre ele . Toda a Última Ceia é uma longa conversa . Ele conversa com Pilatos até que este põe fim à conversa dizendo: “O que é a verdade?” . E na manhã de Páscoa, o diálogo ressuscita dentre os mortos quando ele dirige a palavra a Maria Madalena no jardim: “Maria”; “Rabunni!” .

Essa é uma doutrina que só podemos compartilhar com outras pessoas numa conversa. Não é coincidência que São Domingos tenha fundado a Ordem dos Pregadores [Dominicanos] num bar! Ele conversou a noite toda com o dono da taverna, e, como disse um de meus irmãos, ele não pode ter passado a noite inteira dizendo: “Você está errado, você está errado!”.

Há um certo nervosismo em relação a essa equiparação da pregação com o diálogo. No Sínodo dos Bispos Asiáticos em Roma, os “lineamenta” [“estado da arte” sobre determinado tema] insistiram inicialmente que precisamos pregar o Evangelho. Se acentuássemos o diálogo demasiadamente, isso poderia levar ao relativismo, como se uma religião fosse tão válida quanto a outra. Mas isso é uma dicotomia errônea. A única forma de proclamar a boa nova do Deus Trino é através da conversa. O meio é a mensagem. Agir de outra forma seria como espancar as pessoas para que elas se tornassem pacifistas. O diálogo não é uma alternativa à pregação. Ele é a única forma de pregar. Isso é algo que o Papa Bento XVI entende bem. Em sua última encíclica, “Caritas in Veritate”, ele afirma: “Com efeito, a verdade é 'lógos' que cria 'diá-logos' e, consequentemente, comunicação e comunhão”. Toda conversa verdadeira leva à conversão, mas para todo mundo! Se eu dialogo com um muçulmano, espero que ambos sejamos convertidos. Que forma essa conversão vai assumir é algo que está nas mãos de Deus.

IHU On-Line – A encíclica “Caritas in Veritate” faz referência indiretamente ao humanismo cristão, como um critério orientador de ação moral. Em sua opinião, como a Igreja pode ser fonte de ensinamentos morais em um mundo secularizado?

Timothy Radcliffe –
Em “Secular Age” , Charles Taylor demonstrou brilhantemente como o Iluminismo esteve na raiz do que ele chama de “cultura do controle”. Vemos a ascensão de monarcas absolutos, o desenvolvimento do poder do Estado centralizado, a escravidão, que é o maior exercício de controle na história da humanidade, o imperialismo. Tudo isso estava ao menos em parte arraigado numa compreensão do mundo como um mecanismo que pode ser ajustado e manipulado. Depois de deixarmos de crer no governo providencial do mundo por parte de Deus, nós tínhamos de assumir as coisas e dirigir tudo por conta própria! Isso é ateísmo prático. E essa mesma cultura de controle acabou infectando a Igreja também, que, em parte tentando manter sua liberdade face ao poder crescente do Estado, tornou-se cada vez mais parecida com aquilo a que se opunha. Tudo isso levou a uma compreensão da moralidade como controle de nossas ações. Tínhamos de nos submeter à vontade arbitrária do Estado e de Deus. Isso é a moralidade como obediência a coações externas. Isso não pode sustentar uma sociedade humana. Assim, o tempo está pronto para que a Igreja ofereça uma nova visão moral.

Os Dez Mandamentos eram um convite para estabelecer uma relação pessoal com Deus. “Eu sou o Senhor teu Deus que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo 20,2s.). Os Dez Mandamentos não são a vontade arbitrária de Deus. Eles significam compartilhar da amizade e liberdade de Deus. Eles foram dados a Moisés, com quem Deus falava como se fala com um amigo. São um aprendizado na liberdade da amizade.

O mesmo ocorre no caso de Jesus. Ele revela seu novo mandamento aos discípulos na noite anterior à sua morte, no exato momento em que os chamou de amigos. “[...] vos chamo amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai vos dei a conhecer” (João 15,15). Na Bíblia, os mandamentos não são a submissão da vontade, mas o estabelecimento de amizade com Deus e uns com os outros.

Creio que o recente renascimento do interesse na ética das virtudes é muito empolgante. Mas isso tem a ver com se tornar alguém que é verdadeiramente um agente moral, alguém capaz de veracidade e justiça, alguém que tem maturidade moral e, em última análise, encontra a felicidade na amizade com Deus. Se pudermos compartilhar essa visão moral com nossa sociedade, as pessoas descobrirão que não estamos colocando fardos pesados sobre seus ombros, mas oferecendo amizade umas com as outras e com Deus. A amizade pode ser exigente, mas não é um fardo.

sábado, 12 de novembro de 2011

Encontro de Assis: uma ''viagem fraterna'' rumo a um horizonte maior

Foto daqui

Uma peregrinação "pela verdade e pela paz". Foi com esse propósito que Bento XVI e diversos outros líderes religiosos de todo o mundo estiveram reunidos em Assis, na Itália, entre 27 e 28 de outubro. Uma data e um encontro histórico, a 25 anos da primeira Jornada de Oração pela Paz, convocada por João Paulo II em 1986, para uma oração comum pela paz em um período histórico marcado pela Guerra Fria.

Na opinião do teólogo Faustino Teixeira, a iniciativa de João Paulo II “deixou importantes rastros no âmbito do diálogo inter-religioso, sobretudo um ‘espírito’ novidadeiro de respeito e abertura aos outros”. Por isso superou as críticas – inclusive as do atual papa, naquela época cardeal e presidente da Congregação para a Doutrina da fé – e recebeu uma nova edição, em 2002, após os atentados do 11 de setembro.

Nesta terceira edição, relembra Teixeira, em entrevista por e-mail à IHU On-Line, retorna a “linda imagem” utilizada por João Paulo II para expressar aquele momento inaugural: “uma ‘viagem fraterna’ em que uns acompanham os outros visando a meta misteriosa e transcendente que Deus estabeleceu para todos”.

Nos últimos anos, no papado de Bento XVI, “não houve nenhum documento ou gesto concreto que modificasse a nítida perspectiva teológica que eu nomeio como teologia do acabamento, pois traduz a ideia de que todas as religiões encontram sua realização na Igreja católico-romana”, pondera Teixeira.

Mas revela: “O novo encontro de Assis situa-se nessa perspectiva, mas pode favorecer novos sinais dialogais. É o que esperamos todos”. Ou seja, uma “possibilidade de transmitir a essencial vocação de acolhida e de busca da paz, sem as quais não poderá haver um futuro amoroso para o nosso tempo”.

Faustino Teixeira é professor do programa de pós-graduação em ciência da religião da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF, pesquisador do CNPQ e consultor do ISER-Assessoria. É pós-doutor em teologia pela Pontificia Universidade Gregoriana. Entre suas últimas publicações, encontram-se Catolicismo Plural: Dinâmicas contemporâneas (Ed. Vozes, 2009) e Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso (Ed. Santuário, 2008).

Confira a entrevista, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.


O que significou o gesto de João Paulo II, há 25 anos, ao convocar uma Jornada Mundial de Oração pela Paz junto aos grandes líderes religiosos mundiais?

Foi um dos mais significativos gestos de João Paulo II em seu pontificado. Foi um encontro paradigmático, na medida em que facultou uma profunda ruptura no posicionamento tradicional da Igreja Católica Apostólica Romana – ICAR no campo do diálogo inter-religioso. O próprio Papa João Paulo II se expressou a propósito em seu discurso natalício aos membros da cúria romana, em 22 de dezembro de 1986: “O acontecimento de Assis pode ser considerado uma demonstração visível (…) daquilo que pressupõe e significa o esforço ecumênico e o esforço pelo diálogo inter-religioso recomendado e promovido pelo Concílio Vaticano II”.

Foi um evento grandioso e deixou importantes rastros no âmbito do diálogo inter-religioso, sobretudo um “espírito” novidadeiro de respeito e abertura aos outros. E também a convicção firmada de que a oração de todos, no respeito às suas diferenças, é fundamental para a paz entre as nações. E, quando é autêntica, traduz um significativo fruto do Espírito.

Houve resistências a essa iniciativa?

Foi um evento que suscitou muitas reservas, sobretudo entre os tradicionalistas lefebvrianos, mas também entre cardeais da cúria romana, que manifestavam temor pelo risco de sincretismo. Marcel Lefebvre identificou o evento como um escândalo e uma “blasfêmia pública”. Mesmo o cardeal Ratzinger, na ocasião, não manifestou grande entusiasmo pela iniciativa, preferindo manter uma “reserva mais que morna”, para utilizar a expressão do historiador Alberto Melloni.

Apesar das resistências, prevaleceu a ousadia dialogal de João Paulo II, que soube reconhecer que o desafio da paz é mais amplo e urgente do que as diferenças religiosas. E dizia: “Ou aprendemos a caminhar juntos em paz e harmonia, ou nos desconhecemos mutuamente e nos destruímos a nós mesmos e aos outros”. E linda foi a imagem que utilizou para expressar aquele momento: uma “viagem fraterna” em que uns acompanham os outros visando a meta misteriosa e transcendente que Deus estabeleceu para todos.

Na preparação ao primeiro encontro, na década de 1980, grupos mais tradicionais da Igreja criticaram as tendências relativistas ou sincretistas do encontro, como os lefebvrianos. E as críticas retornam nessa nova edição. Que desafios o diálogo inter-religioso apresenta à Igreja?

De fato, os lefebvrianos continuam em sua rígida oposição. O superior atual do grupo lefebvriano, D. Bernard Fellay, reagiu de forma dura ao saber das intenções de Bento XVI em retomar o curso dos eventos de Assis. Ele comenta: “Todos os deuses pagãos são demônios e Assis estará cheia de demônios”. Sem comentários…

As maiores dificuldades, já no primeiro evento, estavam relacionadas ao tema da “oração comum”. Houve então uma preocupação permanente dos idealizadores de evitar o risco de sincretismo religioso, e isso se manifestava na fórmula escolhida para o encontro: “juntos para rezar” e não “rezar juntos”. Evitou-se fazer qualquer tipo de oração comum, mas as orações foram realizadas com muita liberdade, expressando assim os caminhos diversos, mas nobres, de relação amorosa com o Mistério Absoluto. E elas aconteceram no interior da Basílica inferior de São Francisco, em sucessão contínua, com a assistência reverencial de todos. Isso será modificado nos eventos sucessivos. Não se pode, porém, descartar a plausibilidade de eventos pontuados pela presença de uma oração comum, e isso não significa necessariamente recair no sincretismo. É o que expressou tão bem, Marcello Zago, em texto publicado no L'Osservatore Romano de outubro de 1986: “Estar junto para rezar, e às vezes rezar junto, é reconhecer este fato essencial da relação de todos os homens com Deus”.

O rico documento do então Secretariado para os não Cristãos, Diálogo e Missão (1984) – assinado também pelo então secretário, Marcello Zago – ressaltava como o nível mais profundo do diálogo a “partilha das experiências de oração, contemplação e fé” (DM 35). Infelizmente a dinâmica dos eventos sofreu mudanças substantivas nesse campo.

Desde 1986, houve algumas mudanças a partir do título: de “Jornada Mundial de Oração pela Paz” passou-se a “Jornada de Reflexão, Diálogo e Oração pela Paz e a Justiça no Mundo”. Como podemos entender essas novas ênfases?

A nova jornada de Assis, em comemoração ao 25º aniversário do primeiro evento, realizado em 1986, muda de fato o seu tom. De uma jornada de oração passa a ser, sobretudo, uma jornada de reflexão. Isso não significa a inexistência de um momento específico de oração silenciosa individual, que também ocorrerá. Mas o traço substantivo será de índole reflexiva, em favor da paz mundial. Como expressou o cardeal [Jean-Louis Pierre] Tauran, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, “no mundo tão precário e cheio de muros de separação físicas e morais, me parece mais do que nunca oportuno que as religiões, apesar de suas diferenças, promovam juntas a paz. O diálogo entre as religiões é sempre um chamado de Deus a redescobrir suas próprias raízes espirituais”.

De forma bem curiosa, o Papa Bento XVI, antes resistente aos eventos desta natureza, se vê agora diante de sua urgência e inevitabilidade. Redescobre, assim, o valor da intuição de João Paulo II. Mas a perspectiva agora é diferente, marcada por um controle doutrinal mais decisivo e com a ênfase voltada mais para a dimensão cultural do diálogo. A ausência premeditada de momentos públicos de oração comum é uma forma precisa de evitar o risco de um binômio que acompanha as lides desse pontificado: relativismo/sincretismo.

Quanto à novidade de estender o convite aos não crentes, julgo a ideia bem pertinente. O diálogo inter-religioso deve envolver, igualmente, as distintas opções espirituais, religiosas ou não. É uma ideia que vem corroborar o projeto ratzingeriano de transformar o diálogo inter-religioso num diálogo mais cultural.

Qual o significado e o valor da oração inter-religiosa? Ou, em outros termos, qual o medo da Igreja de rezar junto com as demais religiões?

Num belo livro em que recolhe seus sermões, "Passion de l’homme passion de Dieu" (1991), o teólogo Claude Geffré trabalha de forma magnífica a ideia da oração como “mistério de gratuidade”. Ele sinaliza que a oração é a “atitude fundamental do homem religioso, mais universal do que a fé explícita num Deus pessoal”. Há uma dimensão universal da oração que ultrapassa a dinâmica particular e restrita das religiões.

Na visão de Geffré, com a qual concordo plenamente, o primeiro encontro de Assis fez eclodir um “ecumenismo planetário”, pontuado pelo alcance universal da oração. A oração suscita, antes de tudo, um descentramento de si e um recentramento no outro, um grande aprendizado de gratuidade, de abertura e conversão do coração. Grandes momentos dialogais foram e são vividos pontuados pela oração em comum: veja os importantes exemplos dos monges de Tibhirine (Argélia) e dos religiosos da Comunidade de Mar Musa (Síria), no diálogo com os muçulmanos e outros tantos exemplos nessa linha.

Não sem razão, sublinha Jacques Dupuis: “A oração comum se apresenta como a alma do diálogo inter-religioso, mas também como a expressão mais profunda do diálogo e, ao mesmo tempo, como a garantia de uma conversão comum mais profunda a Deus e aos outros”.

O tema deste ano é Peregrinos da verdade. Peregrinos da paz. E a peregrinação dos líderes religiosos será também um ponto forte do encontro, seja de trem (do Vaticano até Assis) ou a pé (para a entrada na Basílica de São Francisco). Como essa imagem do “caminhar juntos” pode inspirar o diálogo inter-religioso?

Em editorial da revista Concilium, cujo tema versava sobre as peregrinações (1996/4), Christian Duquoc e Vigil Elizondo sublinhavam que o senso da peregrinação parece responder a uma profunda necessidade que o ser humano tem de ir além dos limites da experiência ordinária e entrar no misterioso reino do além”. De fato, há algo de ousado na experiência das peregrinações, sobretudo a disposição de “expor-se a novas paisagens” e arriscar-se a ampliar as possibilidades. E as religiões, como fragmentos, estão desafiadas a fazer essa travessia. Volto aqui à bela imagem de João Paulo II, de uma “viagem fraternal” pontuada pelo mútuo aprendizado e pela troca de dons, rumo a um horizonte maior, ainda inominado.

A inclusão de não crentes no debate inter-religioso por parte do Vaticano também remete à proposta do “Átrio dos Gentios”, impulsionado pelo cardeal Gianfranco Ravasi. Qual a contribuição dos ateus e dos não crentes para o diálogo entre os que creem?

A proposta é interessante, mas a imagem ainda é precária. Falar em “Átrio dos Gentios”, tomando a metáfora de Bento XVI, é ainda realçar a disparidade entre aqueles que detêm a verdade e os “outros” que se encontram no pórtico exterior. É uma imagem que pressupõe, ainda que não intencionalmente, a apropriação da verdade por parte de alguns em detrimento de outros. Sobre isso chamou a atenção o sociólogo Peter Berger, sendo retomado por Marco Politi em sua recente obra sobre o papado de Joseph Ratzinger ("Joseph Ratzinger. Crisi di un papato" – 2011).

Não há dúvida, porém, da importância dessas novas presenças no evento de Assis, entre as quais [a filósofa e psicanalista búlgara-francesa] Julia Kristeva e [o filósofo italiano] Remo Bodei. Esse último autor, filósofo e professor na Universidade da Califórnia, acolheu prontamente o convite feito pelo cardeal Ravasi e sublinhou o significado dessa florescente consciência: “Se os dogmas religiosos entram em contato com as ideias do mundo e saem de sua clausura, isso se torna um fato positivo também para os ‘laicos’, isto é, aqueles não crentes que não querem viver na banalidade”. Também a Igreja vem enriquecida por essa pars paganorum, essa parte de paganidade, esse “lugar fora de sua residência”, capaz de favorecer a ampliação do olhar e a abertura atenta para as coisas deste mundo. Como indicou o teólogo belga Adolphe Gesché, “o Evangelho não é suficiente para tudo, não diz tudo sobre o ser humano”.

No livro "Joseph Ratzinger, Crisi di un papato" (Ed. Laterza), o vaticanista Marco Politi, como aponta o título, delineia uma forte crítica ao pontificado de Bento XVI em seus seis anos de pontificado. Como o evento de Assis se encaixa nessa análise? Que continuidades ou rupturas se apresentam nesse fato?

Vou aqui me fixar nos traços específicos do livro que tratam da questão das religiões, e em particular ao evento de Assis. Trata-se de um livro precioso, recheado de uma “impecável documentação” sobre o percurso do pontificado de Bento XVI. O diagnóstico feito por Politi é sombrio, apontando “sinais de incerteza” na condução estratégica do pontificado em vários âmbitos. Um deles é justamente o do ecumenismo e do diálogo inter-religioso.

Com precisão certeira, Politi sinaliza que a lógica que marca o itinerário do pontificado é tecida por uma “mecânica de passos em falso”. Atuações problemáticas são depois corrigidas por “intervenções de socorro”, que buscam amenizar o impacto das controvérsias. E são tantas as que podem ser nomeadas, como o fez brilhantemente Marco Politi em seu livro e não vem ao caso aqui retomá-las. O autor fala na presença de uma “mão invisível” a suscitar novas e previsíveis polêmicas.

Nesses seis anos de pontificado, seguindo a argumentação de Politi, o “lobby pró-Ratzinger”, que o impulsiona adiante, não apresenta um “projeto de respiro para o futuro da Igreja”. O que se verifica é uma dinâmica marcada pelo traço defensivo, de reação ao mundo contemporâneo, frágil para anunciar a alegria de um Deus misericordioso e atento aos sussurros do plural. Para muitos das novas gerações, como indica Politi, é um papa que “não transmite esperança”, que não suscita atração. Fala nele mais o homem das palavras, o teólogo racional, distante da possibilidade de mostrar uma “Igreja de misericórdia”.

Com respeito às religiões, os desencontros são inúmeros. A tensão com o mundo protestante vem acirrada desde a década de 1990, com a minoração eclesial das Igrejas protestantes, reduzidas a partilharem apenas “elementos da Igreja de Cristo”. Nesse período, estava na direção da Congregação para a Doutrina da Fé o cardeal Ratzinger, que defendia firmemente tal posição, que depois veio reiterada na Declaração Dominus Iesus, de 2000. Em sua obra "Igreja: carisma e poder" (na edição revista de 2005), Leonardo Boff relata com detalhes a tensão que marcou seu colóquio com o cardeal Ratzinger em torno da interpretação da passagem da Lumen Gentium 8, que trata da questão do subsistit in, ou seja, da forma de subsistência da Igreja de Cristo na Igreja Católica.

Para Boff, a Igreja de Cristo ganha sua forma na Igreja Católica, embora se concretize igualmente, de um modo particular, nas demais Igrejas, portadoras da herança de Jesus. Para Ratzinger, diversamente, a Igreja romano-católica é a “única Igreja de Cristo”, enquanto as demais têm apenas “elementos eclesiais”. Essa posição veio confirmada na Dominus Iesus. A relação com os judeus vem também tensionada nos últimos anos e isso se deve a certas atitudes como a liberação do rito tridentino e o motu proprio, summorum pontificum (de julho de 2007), que resgata a oração da sexta-feira santa, que fala dos “pérfidos judeus”; a reabilitação de quatro bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, criada por Marcel Lefebvre, sendo que um deles, o bispo Richard Williamson, chegou a colocar em dúvida a existência do Holocausto. Acrescentam-se os percalços da viagem papal à Polônia, em maio de 2006. Mais recentemente, reacende-se a polêmica quando o cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos, publica um artigo no L'Osservatore Romano (07-07-2011) assinalando que a cruz de Jesus é para os cristãos o permanente e universal Yom Kippur. O artigo provocou duras reações do rabino de Roma, Di Segni.

Com respeito ao islã, há uma certa “desconfiança de fundo” que acompanha boa parte do pontificado de Bento XVI. O ponto culminante foi o discurso na universidade de Regensburg, em setembro de 2006. Marco Politi fala na “catástrofe de Regensburg”, que joga ao chão 20 anos da política wojtyaliana nos confrontos do islã. Como sempre ocorre nesse pontificado, depois do desfeito sucedem-se as tentativas de reparo, e isso ocorreu com as declarações reparadoras do secretário de estado, cardeal Bertone, e também do próprio papa. Em suas viagens à Turquia e Terra Santa a tonalidade já foi outra, embora saliente com razão Politi, não se abriu em seguida novas páginas na relação com islã.

Um estranho episódio que diz respeito ao diálogo com o islã foi a destituição do antigo presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, Michael Fitzgerald, e seu encaminhamento para o “exílio” no Cairo. O seu dicastério funde-se com o Pontifício Conselho para a Cultura em março de 2006. A decisão mostra-se problemática já no ano seguinte, dada a importância estratégica da relação com o islã. E o processo vem refeito, em junho de 2007, com a nomeação do cardeal Jean-Louis Tauran para presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso. Como ex-ministro do exterior do Vaticano era um homem de diálogo e bom conhecedor do mundo árabe, como Fitzgerald.

Com respeito às outras religiões, fica ainda registrado na memória aquela infeliz expressão da Dominus Iesus, que indica que elas encontram-se numa “situação gravemente deficitária, se comparada com a daqueles que na Igreja têm a plenitude dos meios de salvação” (DI 22). Não houve nenhum documento ou gesto concreto nesse atual pontificado que modificasse essa nítida perspectiva teológica, que eu nomeio como teologia do acabamento, pois traduz a ideia de que todas as religiões encontram sua realização na Igreja católico-romana. O novo encontro de Assis situa-se nessa perspectiva, mas pode favorecer novos sinais dialogais. É o que esperamos todos.

Assis também tem um imenso legado religioso por ser a terra de Clara e Francisco. Como esse legado pode inspirar, hoje, o diálogo inter-religioso, especialmente por parte de seus herdeiros “diretos”, ou seja, os cristãos católicos?

Não foi sem razão que João Paulo II escolheu Assis para a realização da primeira Jornada Mundial de Oração pela Paz. É, antes de tudo, um símbolo fundamental para o diálogo e entendimento entre as religiões. E dois nomes, como bem lembrou Wojtyla, estão intimamente ligados na lembrança dessa cidade: Francisco e Clara – “Dois nomes, duas vocações, que recordam os valores evangélicos da caridade, da pobreza, da pureza, da amizade espiritual, da oração e da paz”.

A imagem de Francisco, em particular, traz a singular marca do amor cortês, de um amor intenso e generoso para com os outros, de delicadeza única para com toda a criação. Como bem assinala Chiara Frugoni em sua bela biografia sobre Francisco ("Vida de um homem: Francisco de Assis", 2011), ele “está muito distante daqueles rostos tristes da espiritualidade monástica tradicional”. É dessa alegria e dessa esperança que tanto necessitamos hoje em dia, de uma alegria que possa reaquecer nossas energias vitais para fazer frente ao desencanto crescente.

E aqui me vem também à mente o lindo livro de [José Antonio] Pagola sobre Jesus. Não é fortuito o fato desse livro estar em sua quarta edição no Brasil. É um livro que traduz uma linda imagem de Jesus, como alguém que transmite alegria, saúde e vida. E um amor apaixonado à vida que se soma à sua impressionante capacidade de acolhida do outro. Acredito que é esse “espírito” que deve animar o encontro de Assis, que agora se inicia. Antes de tudo, a possibilidade de transmitir essa essencial vocação de acolhida e de busca da paz, sem as quais não poderá haver um futuro amoroso para o nosso tempo.

(Por Moisés Sbardelotto)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Crentes em luta contra a ''rejeição'' das religiões

Hanging sculpture @Guggenheim: Maurizio Cattelan

Está aí um tema que dá um belo debate: a intolerância contra os religiosos. Temos observado por aqui, cada vez mais, manifestações de intolerância com relação às religiões em geral, e ao cristianismo (sobretudo católico) em particular. Já ouvimos que ser "gay católico" é tão paradoxal quanto ser "judeu nazista". Noutra ocasião, ouvimos de um antirreligioso: "vocês, gays católicos, precisam de ajuda para deixar de ser católicos, pois isso faz mal para vocês". (Leia nossa resposta aqui.) Não é assustador ouvir, invertido, o mesmo discurso intolerante que justifica as chamadas "terapias de reversão" da homossexualidade?

Entende-se que houve uma posição de poder ocupada pela Igreja Católica durante séculos da história ocidental e que, a partir do momento em que esse poder se vê abalado, é natural que grupos tradicionalmente oprimidos por esse poder se insurjam - mas até onde a radicalização e a inversão da situação (isto é, a mesma demonização e repressão agora usada contra os religiosos) é de fato necessária politicamente? A partir de onde a denúncia do uso da religião como instrumento de poder e exclusão adquire feições de uma violência injustificável e contra-producente? Por que adotar uma postura extremista que apenas serve para promover e aguçar segregações e violências fundamentalistas de parte a parte?

Curiosamente, por algum motivo desconhecido um dos posts mais lidos aqui no blog nos últimos 7 dias foi um texto sobre a querela entre jovens católicos e manifestantes (em sua maioria, ligados ao movimento LGBT espanhol) por ocasião da Jornada Mundial da Juventude e da visita do Papa a Madri, em agosto passado (leia aqui). A propósito dessa questão, pois, reproduzimos a seguir uma interessante reportagem a respeito da intolerância contra os religiosos na Europa.


Cristianofobia, islamofobia, blasfêmia. Essas palavras, novas ou retomadas do passado, parecem encontrar novamente um efeito raramente igualável. Desejo das religiões de estabelecer "fronteiras 'intransponíveis' e de responder golpe contra golpe", como sugere o antropólogo das religiões Malek Chebel? Sintoma do estado de ânimo de grupos minoritários? Discriminações reais, ou percebidas, dos crentes? Enrijecimento vitimista ou visualização identitária diante de uma secularização inédita? Hipóteses não faltam para explicar as atitudes, mais ou menos espetaculares, assumidas pelos crentes há algum tempo.

Por julgarem-na "blasfema", às vezes até mesmo sem tê-la visto, integristas católicos perturbam há semanas a representação de um espetáculo teatral em Paris. Por ter anunciado a publicação de um número com a imagem do profeta Maomé, o jornal Charlie Hebdo viu o seu site ser hackeado em nome de Alá, e as suas instalações serem incendiadas, na quarta-feira, 2 de novembro. A investigação vai esclarecer as motivações dos incendiários, mas a nova provocação da revista satírica foi a oportunidade para que os muçulmanos lembrassem que a representação do profeta do Islã é considerada pela maioria deles como uma ofensa a Deus, uma blasfêmia.

"Para a maior parte dos crentes, o profeta, mensageiro de Deus, se beneficia por derivação da sacralização outorgada a Deus. Mas não está escrito em nenhum lugar do Alcorão que a sua representação é proibida", lembra Chebel, tradutor do Alcorão. Em sua opinião, o grito de blasfêmia também é "um grito de adesão das pessoas que se sentem minoritárias ou anatematizadas". Mas ele aposta na "maturidade dos muçulmanos" franceses "para encontrar o justo equilíbrio entre o ridículo e a blasfêmia".

"A reabilitação da noção de blasfêmia pode parecer anacrônica para os não crentes, cada vez mais numerosos, enquanto historicamente o blasfemo era necessariamente um fiel", explica o sociólogo das religiões Olivier Bobineau. "Hoje, denunciar uma blasfêmia é um meio para que os crentes recordem, aos olhos, a importância do sagrado. Isso também pode ser interpretado como um sobressalto de fé em uma sociedade desconfessionalizada".

As violências provocadas por obras ou por palavras julgadas blasfemas por crentes não são uma novidade. Em 1988, integristas católicos tinham incendiado o cinema Saint-Michel, em Paris, que projetava A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese, ferindo 13 pessoas. Mas esses modos de ação violentos, executados por grupos ultraminoritários, são geralmente rejeitados pelos seus correligionários.

Em compensação, o que parece ser mais novo é que o sentimento de difamação da religião denunciado por esses militantes exaltados é amplamente compartilhado pelo resto dos crentes. "Tendo se tornado uma minoria na sociedade francesa, os católicos não aceitam mais sofrer diante de um denegrimento que era suportável quando eles eram uma maioria mais sólida", analisa Herve-Pierre Grosjean. Este jovem padre provocou um debate na blogosfera católica, distanciando-se dos integristas que se manifestam contra a peça de Romeo Castellucci.

Diante da percepção de serem "os malvistos" de uma sociedade em grande parte indiferente, os católicos buscam novas formas para se fazerem ouvir. Sinal dessa preocupação é o colóquio previsto para o dia 9 de novembro em Paris, intitulado "O cristianismo ainda terá lugar na Europa?". Organizado pelo movimento Aide à l'Eglise en Détresse (AED) [Ajuda à Igreja que Sofre, em português], reconhecido pelo Vaticano e fundado para apoiar os cristãos perseguidos, especialmente nos países de maioria muçulmana, esse dia de reflexão pretende denunciar "as discriminações contra os cristãos e a rejeição do cristianismo na Europa, onde a fé cristã e a Igreja são regularmente ridicularizadas ou ostracizadas".

"Trata-se de promover a liberdade religiosa", afirma Marc Fromager, diretor nacional da AED, que constata "um movimento de fundo de renegação da nossa cultura". "A cristianofobia também toca ao Ocidente", considera, citando o exemplo da "cultura ou do ambiente da saúde em que as equipes encontram cada vez mais dificuldades para afirmar a objeção de consciência".

Denunciado pelo papa, cujos colaboradores falam abertamente de "cristianofobia", o risco de "marginalização do cristianismo" na Europa tem suscitado a criação de um Observatório Europeu da Intolerância e da Discriminação contra os Cristãos, apoiado pelo Vaticano. Ele pretende chamar a atenção para a "retirada dos símbolos religiosos do espaço público, os estereótipos negativos na mídia" ou as profanações de igrejas e de cemitérios, que os católicos consideram ser insuficientemente denunciados pelos poderes públicos e pela mídia com relação aos mesmos atos cometidos contra lugares judeus ou muçulmanos.

Empenhada na denúncia das discriminações que se presumem estar relacionadas à religião, a comunidade muçulmana também elevou o tom nos últimos anos. Organizado pelo Coletivo contra a Islamofobia na França (CCIF), um congresso também reuniu centenas de pessoas no dia 30 de outubro, com o objetivo de "decretar o estado de emergência perante atos islamofóbicos".

O Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM) promete para dezembro um balanço desses atos e denuncia regularmente um "clima antimuçulmano".

Por capilaridade, uma mesma evolução parece se delinear dentro dos grupos religiosos para defender a visibilidade das religiões no espaço público, revivificar a noção de "sagrado" e (re) estabelecer seus "valores inegociáveis".

- Stéphanie le Bars
Reproduzido via Amai-vos

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

"Sou eu inteiro, teoria e prática"


Percebemos que a ideia de conciliar nossas identidades de gays e católicos muitas vezes causa um certo estranhamento ou mesmo desconforto em algumas pessoas - e, nesse caso, não só os "fundamentalistas", mas também em muitos gays não-religiosos. Em vista disso, iniciamos há algumas semanas uma série de depoimentos aqui no blog, que serão publicados sempre às quintas-feiras, às 15h, de algumas das pessoas que frequentam as reuniões e atividades do Diversidade Católica e que se dispuseram a compartilhar, com os leitores do blog, um pouco de suas histórias e suas vivências como gays e católicos que são.

A série pode ser acessada através da tag "gay e cristão".

A cada um deles, sempre, nosso muito obrigado. :-)


Meus Queridos,

Tenho um grande amigo que adora fórmula 1, acorda de madrugada, assiste a todas as provas, entende de tudo, mas... nunca aprendeu a dirigir. Não sei porque pensei imediatamente nele quando li o depoimento de um gay ortodoxo. Fui muito tempo um gay não praticante, tanto quanto fui um católico não praticante. De certa forma o "não praticar", seja lá o que fosse, me foi sempre um lugar muito seguro. Também já fui um "super praticante", tanto como gay quanto como católico, e da mesma forma que a "não prática", o "excesso" era também uma forma de defesa, uma forma de não fazer contato com minha inteireza. Hoje acredito cada vez mais que é pelo outro que sou nutrido, que é através do outro que Deus se manifesta a mim. Assim não praticar, seja ser gay ou ser católico, é impossibilitar o encontro com Deus, é cortar Sua palavra, é fechar os olhos ao Seu amor divino. Hoje pela graça de Deus sou praticante, tanto como gay, quanto como católico, e me sinto extremamente confortável com isto, pois sou eu inteiro, teoria e prática.

Paz e Bem

R., Rio de Janeiro

Este depoimento foi publicado originalmente no site do Diversidade Católica, aqui.

domingo, 6 de novembro de 2011

A religião dos cristãos deve ser continuamente purificada


"(...) também houve na história uma violência exercida pelos cristãos em nome de Deus. O Papa Ratzinger reconheceu isso com 'vergonha', quase como um convite aos outros líderes religiosos a fazerem o mesmo. 'Mas – pontualiza – foi uma utilização abusiva da fé cristã, em evidente contraste com a sua verdadeira natureza'. A religião dos cristãos deve ser continuamente 'purificada', para que seja 'verdadeiramente instrumento da paz de Deus no mundo'."

Sobre o Papa Bento XVI em Assis, aqui

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Das tecelãs da minha história...

500 autorretratos: Tieman Rapati

Li o texto que segue hoje (30-10-11) cedo - com voz bastante embargada - na missa celebrada por ocasião do Dia Nacional da Juventude (DNJ), em Ponte Nova, Minas Gerais. Para os que não conhecem a festa, trata-se de uma das atividades organizadas anualmente pelas Pastorais da Juventude do Brasil, e que este ano propôs suas reflexões a partir do tema "Juventude e Protagonismo Feminino" e do lema "Jovens Mulheres tecendo relações de vida".

O texto é uma grande memória e uma grande oração, nascida dos sentimentos mais sinceros e profundos deste homem feminista, cristão homossexual (sem nenhuma ambiguidade em nada disto), que tanto aprendeu com as mulheres que o cercaram e cercam, e que, além de ser solidário a elas pela violência que sofrem, se sente também todos os dias violentado pelas opressões decorrentes da desigualdade de gênero.

Publico aqui para outros possam juntar as suas orações à minha, e para que ela fique num registro mais permanente, ainda que sem a carga de emoção e de lágrimas que partilhei com a linda juventude da Região Leste da Arquidiocese de Mariana neste 30 de outubro.


* * *

Ê, Mamãe, abraça eu, Mamãe,
Embala eu, Mamãe,
Tem dó de mim...


Salve juventude! Bom dia a todas! Bom dia a todos!

Quando o pessoal daqui de Ponte Nova me pediu para escrever esta mensagem, a primeira coisa que me passou pela cabeça foi a seguinte: não estamos falando de protagonismo feminino? Então por que não pedir a uma de nossas jovens que produzisse um texto para encerrar a missa do nosso DNJ? Mas para não parecer que estava fugindo da tarefa, aceitei. E aceitei também porque achei que não tinha nada a ver, né? Querer o protagonismo feminino não significa que vamos fazer os homens todos correrem das igrejas e dos grupos de jovens, querendo que as mulheres tomem a frente de tudo. Há espaço para todos e todas por aqui. É o bonito de ser juventude. Homens também podem ser grandes protagonistas femininos.

E sei lá, acho que eu também não queria perder a oportunidade de falar sobre isso, não... A primeira coisa que me passou pela cabeça foi a de escrever uma mensagem bonita, poética... Mas pensei que tudo o que eu andei até hoje, só andei nesta vida graças às mulheres protagonistas por quem estive cercado. Então, se for pra falar de Protagonismo Feminino, tenho que contar algumas histórias. Peço um pouquinho do tempo e da atenção de vocês pra falar dessas mulheres:

Cassiana, Dona Cassi, benzedeira - minha bisavó. A mulher que teve uma filha "roubada", entregue de presente a um compadre, porque o marido já não queria mais filhas mulheres na família – queria um varão. Anos depois foi que conseguiu correr atrás da filha, e tê-la de volta, principalmente por saber que, aos 12 anos, a menina ainda não tinha sido alfabetizada.

Maria - nome forte, nome da minha avó. Avó que casou jovem e separou-se jovem, perdeu a guarda dos filhos, casou-se novamente, e teve seu marido assassinado. Mudando-se para outra cidade, para trabalhar de empregada doméstica em casa de família rica, engravidou do filho da patroa, e teve que voltar fugida para a sua cidade pequena, com medo de ter o seu filho roubado também.

Neide, minha mãe, que engravidou – de mim – aos 18 anos de idade, e negada pelo namorado, teve que assumir o peso de terminar os estudos, cuidar de um menino recém-nascido (e eu dava muito trabalho), e ainda ver uma cidade inteira lhe virar a cara nas ruas por ser mãe solteira tão cedo.

Rosimeire, minha tia, a ovelha negra da família, mas talvez a única pessoa que tenha me compreendido verdadeiramente até hoje. Dependente química, mulher prostituída, envolvida com tráfico de drogas, brutalmente assassinada por policiais aos 27 anos de idade.

E eu não tenho problema nenhum em contar nenhuma destas histórias.
Porque essas mulheres me amaram, me deram carinho, e me ensinaram a sempre lutar muito na vida para conquistar os meus sonhos. Elas me mostraram o quanto a luta, a garra, a força e a esperança são fundamentais para quem tem desejos e utopias de transformação.

Se hoje eu sou protagonista em alguma coisa, devo isso a estas mulheres.

Se sou protagonista em alguma coisa hoje, é porque não quero que outras tantas mulheres continuem tendo os seus filhos roubados, não quero que tantas outras mulheres sofram sob os desmandos de seus maridos, não quero que outras tantas mulheres sejam vítimas das drogas, que outras tantas mulheres sejam vítimas da violência e do extermínio.

Se sou protagonista hoje, é porque quero continuar a ver sorrisos livres no rosto de cada Maria, Meire, Cassiana, Neide, Dinalva, Flor, Antônia, Lina, Elizabete, Aparecida, Mônica, Yasmin, Janine, Kátia, Fernanda, Lucilene, Iara, Natália, Mirele, Mariana, Franciele, Thaís, Bruna, Daniela...

E eu poderia ficar horas aqui falando de tantas outras, que tanto me ensinaram, de tantas outras jovens mulheres que seguem seu caminho sempre tecendo relações de vida. Mas a gente ainda tem muito DNJ pela frente ainda, não é?

Assim, a mensagem que fica neste dia é que todos e todas podemos ser protagonistas, inspirados no exemplo de tantas jovens mulheres que tanto lutam pela transformação de suas realidades. Jovens mulheres marcadas pelas feridas do machismo, do sexismo, que ainda as expulsa do mundo do trabalho, que ainda explora seus corpos como se fossem mercadoria, que ainda lhes impõe padrões de beleza, que ainda lhes rouba tantas liberdades.

A mensagem que fica neste DNJ é um sonho de transformação, o sonho de um mundo mais igual onde mulheres e homens, negras e negros, povos indígenas, todos e todas tenhamos igual direito à Vida e à liberdade.

Que possamos cantar ao Deus-Pai-Mãe a nossa festa, o nossa sonho e o nosso louvor neste dia!

Por que este dia é nosso, Juventude!

- Murilo Araújo
Ponte Nova, Minas Gerais, 30 de outubro de 2011
Dia Nacional da Juventude
Reproduzido via blog do autor

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

"O Deus de amor não condena nenhum de seus filhos"


Percebemos que a ideia de conciliar nossas identidades de gays e católicos muitas vezes causa um certo estranhamento ou mesmo desconforto em algumas pessoas - e, nesse caso, não só os "fundamentalistas", mas também em muitos gays não-religiosos. Em vista disso, iniciamos há algumas semanas uma série de depoimentos aqui no blog, que serão publicados sempre às quintas-feiras, às 15h, de algumas das pessoas que frequentam as reuniões e atividades do Diversidade Católica e que se dispuseram a compartilhar, com os leitores do blog, um pouco de suas histórias e suas vivências como gays e católicos que são.

A série pode ser acessada através da tag "gay e cristão".

A cada um deles, sempre, nosso muito obrigado. :-)


Nasci católica, numa cultura católica, onde o universo todo também era católico. Fui apresentada, muito cedo, pelo meu avô materno - obviamente católico - a um Deus que não pune, que não frita gente num inferno escaldante, que não se vinga ou sente raiva. Esse Deus do vô João nos protege ao mesmo tempo que nos permite escolher a vida que quisermos ter, com todas as consequências. Ele não é responsável pelo mal mas não nos nega a experiência do mal. Ele não nos nega experiência alguma. E é essa a liberdade linda e divina Dele.

Aos 21 anos, já bem crescida e sabendo bem escolher os frutos do Bem e do Mal, me dei conta de que sou óbvia e intrinsecamente gay. Sempre fui; não virei gay. Antes eu tivesse passado por baixo do arco-íris; teria explicado muita coisa no começo. Mas eu entrei no arco-íris e, como não poderia deixar de ser, com o gênio que tenho, aceitei viver inteiramente o que sou com as consequências que isso pudesse ter. Passei a ser católica e gay, na mesma intensidade, de forma tão primitivamente enraizada na minha personalidade que nunca escolhi ser ou deixar de ser nenhuma delas. Apenas sou.

Graças ao meu vô João, meu Deus de amor foi maior que o inferno que o homem teima em pintar em nome de Deus. Minha criação foi forte o bastante para fazer viver em mim uma semente de fé no que ainda estaria por vir. Me cansei do folclore dos grupos de oração por uns tempos e passei a me aquietar no último banco da igreja, onde ninguém poderia me ver. Isso durou um bom tempo (bom em quantidade. Péssimo em qualidade). Aí sim, virei alguma coisa: um bonsai católico que rezava conforme um folheto de missa, acreditava na mágica da religião mas não vivia a religião profunda e verdadeiramente. Que achava que padres eram homens feitos de outra matéria, muito mais divina, e que sofrer e me resignar me trariam crescimento. Fiz tudo conforme a cartilha, menos me entregar de coração e me religar a Deus.

Um dia, fazendo as unhas e assistindo ao Jornal Nacional, ouvi que o Papa havia comparado o comportamento gay ao desmatamento da Amazônia. Que gays eram uma ameaça tão grave à sociedade como o desmatamento é para o meio ambiente. Que eu, gay por princípio, não por escolha, católica conforme a cartilha, cordeirinho de entrar e sair da igreja sem falar nada, era destrutiva à sociedade. Esta fala do Papa destruiu o meu Natal e eu enviei um e-mail à Arquidiocese do Rio de Janeiro, exigindo uma explicação sobre isso. Dizendo que sou gay e que não tenho problema algum em ser gay, mas que, se a Igreja me criaria problemas em ser católica, que eu deixasse, então, de ser aquilo que já era antes de nascer e que abandonaria por uma restrição da própria Igreja.

Mais uma vez, o Deus que é puro amor mostrou que estava presente na minha vida e que me acompanha sempre, e recebi uma resposta mais do que amorosa. E é neste amor que vivo até hoje.

Ser gay e católica não é um desafio, é um prazer. É ocupar um lugar que é meu por direito e que não há quem possa me tirar dele. Não discuto dogmas, acredito neles. Professo a fé de meus pais como qualquer judaico-cristão faria. Mas não me venham discutir, de humano para humano, o que o meu Deus de amor, que acolhe e recebe a todos, aceita ou repele.

Meu vô João há muito tempo me ensinou que o Deus de amor não condena nenhum de seus filhos.

- Juliana Luvizaro, 31 anos, Padeira Confeiteira.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A ostensiva onipresença da homofobia

Foto daqui

A violência homofóbica está em todos os lugares. Em nossas próprias casas, em nossas famílias, na escola, no trabalho, na rua, pode estar em um ônibus, no cinema, no teatro, na praia ou em uma caminhada pelo calçadão. A violência homofóbica tem muitas formas e graus de expressão e não tem alvo certo. Como toda violência, torna-se descontrolada e, incontrolável, atinge qualquer um, em qualquer lugar e sob qualquer circunstância. A homofobia é um monstro cruel e de muitas faces - uma criatura implacável, de muitos braços, muitas pernas e muitas cabeças – vazias ou cheias de questões mal resolvidas, de ordem sexual, psicológica e social, perpassa todas as classes, todas as instâncias, tem muitas habilidades e acha até que pode ficar invisível, passar despercebida. Não, não fica. Ela passa despercebida apenas aos mais desavisados. Para nós, seus alvos preferidos, mas não exclusivos, ela é bem chamativa, feia e assustadora.

E, sim, temos medo. Muito medo. Não um medo infundado, paranóico, inventado ou apenas suposto. Nosso medo é muito concreto e nos chega através de palavras violentas, cerceamentos, sangue, dentes arrancados, carne rasgada, órgãos esmagados e ossos quebrados, quando não com a cara da morte. Mas depois tudo se transforma em estatística. E eu quero rostos, quero vozes, quero histórias. Eu quero ver a gente que só quer amar. Quero ver as pessoas que por ousarem ser quem são, foram agredidas, apanharam e sobreviveram. Quero ver como carregam suas dores. Quero ver como andam pelo mundo, como caminham entre as gentes. Como olham para o mundo, o que pensam. Quero que nos digam por quais transformações passaram. Quero que venham a público falarem de seu enfrentamento cotidiano do medo, do rancor, do constrangimento, da vergonha, da raiva, da sensação de impotência. Todas essas coisas que ninguém quer ver, das quais ninguém quer saber.

A violência que sofremos nos chega sob tantas formas e por tanto tempo. Quando cada caso de agressão, de desrespeito, de morte, de ofensa de negação de direitos termina em apenas um apanhado de números. Quando anúncios espalhados em outdoors dizem que não deveríamos existir. Quando todos nos dizem quem podemos ou não amar. Quando por toda nossa infância, adolescência e juventude nos cobram a respeito de quem namoramos. Quando não podemos ser quem somos no trabalho. Quando temos de esconder quem somos na escola. Quando somos perseguidos na vizinhança, na família, no colégio, na faculdade. Quando procuram e propõem nossa cura. Quando não podemos beijar livremente quem amamos nas ruas. Quando andar de mãos dadas se torna uma temeridade. Quando mesmo um falar ao telefone precisa ser cercado de cuidados e disfarces. Quando nos apontam por nossas roupas, quando somos as personagens principais de piadas caricaturais, ofensivas, que ridicularizam e estigmatizam.

Em todos os modelos de vida e janelas para o mundo, seja na TV, em filmes, revistas ou qualquer outro meio, se não somos estigmatizados ou esmagados pela heteronormatividade, sofremos, no mínimo, omissão. Desde muito cedo, de lembranças imemoriais, nos ensinam que somos um erro, um pecado, uma doença, uma abominação, uma aberração, uma perversão ou quaisquer outros dos tantos nomes com os quais se esmeram em nos rotular. Por tudo isso, é surpreendente que resistamos tanto a tantas intimidações, sem nos tornarmos pessoas absolutamente inseguras, vulneráveis e de baixíssima auto-estima. É incrível superarmos tanta estigmatização e não aceitarmos viver segregados. É de uma força admirável que consigamos construir relações afetivas saudáveis, vidas profissionais de sucesso, carreiras sólidas, amizades duradouras e constituir família. É fantástico não enlouquecermos, não sucumbirmos à opressão que nos é imposta desde nossa mais tenra idade, sem data para término e por todos os dias de nossas vidas. É absolutamente admirável nosso enfrentamento diário e mais ainda por se dar entre risos, danças, amores, alegria e uma inabalável crença em um futuro melhor. Sim, termine de ler este texto, corra para o espelho, se olhe bem nos olhos, olhe bem mesmo, fixamente, e vá lá, você tem todo o direito de dizer: eu sou foda!

- Ivone Pita
Reproduzido via Politicativa, no Gay1

O Supremo e a Igreja

Foto: STJ

Pegando carona na aprovação do casamento civil pelo STJ para um casal de gaúchas na semana passada (saiba mais aqui), aproveitamos para reproduzir um artigo de Luís Correa Lima, S.J., acerca da decisão do STF, em maio deste ano, a favor da união estável homoafetiva.

De agora em diante, a união homoafetiva é família no direito brasileiro. Esta é a decisão do Supremo Tribunal Federal, desde que sejam atendidos os requisitos exigidos para a formação da união estável entre homem e mulher. Os mesmos direitos e deveres dos companheiros nas uniões estáveis, estendem-se aos companheiros nas uniões entre pessoas do mesmo sexo. Isto repercute na vida das pessoas e das instituições, encorajando a visibilização da condição homossexual.

Dentre os que se manifestaram contra esta decisão, está a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). A entidade considera a família monogâmica, fundada na união entre o homem e a mulher, como um princípio fundamental de direito natural. Equiparar as uniões entre pessoas do mesmo sexo à família, descaracterizaria a sua identidade e ameaçaria a estabilidade da mesma.

Pode parecer que o pronunciamento da CNBB apenas repete a histórica oposição da Igreja Católica ao movimento LGBT. Ao contrário do senso comum, existem elementos de convergência entre a decisão do Supremo e a doutrina da Igreja. Um documento do Vaticano, de 2003, trata do reconhecimento civil da união entre pessoas do mesmo sexo. Ele se opõe à equiparação desta forma de união àquela entre homem e mulher, bem como a mudanças no direito familiar neste sentido. No entanto, o Vaticano afirma que se podem reconhecer direitos decorrentes da convivência homossexual. Alguns bispos brasileiros se manifestaram individualmente a favor destes direitos, mas frisando que não se deve considerar a convivência homoafetiva como família.

Este passo é muito importante. Se não houver nenhum reconhecimento social ou proteção legal às uniões homoafetivas, a homofobia presente na sociedade vai pressionar os gays a contraírem uniões héteros, para fugirem de um preconceito que é muito forte. Isto já acontece há séculos, traz muito sofrimento e precisa parar. O sacramento do matrimônio nestas circunstâncias é inválido. É preciso que os fiéis saibam disto. O casamento tradicional não é, de modo algum, solução para a pessoa homossexual.

Convém recordar que a família tem mudado bastante ao longo da história. Na Antiguidade romana, ela era o conjunto das propriedades de alguém, incluindo escravos e parentes. Família vem de ‘famulus’, que significa escravo doméstico. No mundo bíblico, a mulher era propriedade do marido ou do pai, assim como a casa, o escravo e o jumento (Êxodo, 20). O casamento era um acordo entre chefes de família, prescindindo do consentimento dos cônjuges. O homem podia ter mais de uma esposa, e a função dela era gerar descendentes para a família do marido. Caso a esposa ficasse viúva e sem filhos, ela teria que se casar com o cunhado para cumprir esta função.

Por volta do século XII, a cristandade ocidental introduziu o consentimento conjugal como condição necessária para a validade do casamento. No Brasil colonial, a idade mínima para o casamento era de 12 anos para as mulheres e de 14 anos para os homens. Isto hoje é inadmissível. O modelo patriarcal de família declinou em todo o mundo no século passado. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948, estabeleceu o livre consentimento dos cônjuges e também a igualdade de seus direitos no casamento. A Igreja Católica, desde o Concílio Vaticano II, louva as nações que promovem a igualdade de direitos do homem e da mulher na sociedade. A CNBB promoveu em 1990 uma Campanha da Fraternidade voltada para a igualdade de gênero, com o lema “mulher e homem: imagem de Deus”.

No longo prazo, portanto, é muito grande a mudança na configuração familiar e no papel de seus membros. Este processo continua. Na sociedade civil está se ressignificando o conceito de família, de modo a incluir as uniões homoafetivas. O casamento religioso, por sua vez, continua fortemente enraizado na heteronormatividade da tradição judaico-cristã. Mas em países escandinavos e em regiões onde as uniões homoafetivas são comuns, Igrejas como a Anglicana e a Luterana realizam bênçãos para estes conviventes, embora distinguindo estas uniões do casamento. As mudanças na tradição não são impossíveis de acontecer, trazendo novas compreensões e a aplicações da chamada lei natural. Mas é difícil saber o que vai permanecer, o que vai mudar e quanto tempo vai levar.

Uma nova questão vai surgir para as igrejas no Brasil: lidar com as crianças criadas por casais homoafetivos. O número delas deve aumentar devido ao crescente reconhecimento destas uniões. Os bispos católicos norte-americanos se depararam com esta questão em 2006. Eles se posicionaram contra a homoparentalidade. Mas aceitam que as crianças sejam batizadas desde que possam ser educadas na fé da Igreja. Convém considerar sempre o que for melhor para a criança.

- Luís Corrêa Lima
Padre jesuíta, historiador e professor da PUC-Rio.
Artigo publicado originalmente no site do CLAM (Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos), em 02-06-11.

sábado, 29 de outubro de 2011

Jesus convida à sua mesa os cristãos divididos

Projeto paisagístico: Visiondivision

A 'hospitalidade eucarística' é abordada por Paolo Ricca. teólogo italiano, em artigo publicado na revista semanal italiana Riforma, 16-09-2011. Riforma é o semanário das Igrejas Evangélicas Batistas, Metodistas e Valdenses da Itália. O teólogo responde à demanda feita pelo movimento ecumênico de Turim, denominado "Instrumentos da Paz", através de pergunta enviada pela leitora Eugenia Ferreri.

A tradução é de Benno Dischinger, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o artigo.

"Pertenço à Igreja valdense de Turim e há alguns anos me ocupo com o ecumenismo, sobre o qual, em âmbito valdense, as opiniões são diversas; há quem seja contrário, quem seja indiferente, quem seja cético, quem gostaria de interromper o diálogo considerado inútil, enquanto outros, afortunadamente compartilham objetivos e razões. No quadro do trabalho ecumênico que se desenvolve em Turim, eu gostaria de falar de uma iniciativa levada em frente pelo grupo ecumênico “Instrumentos de paz”, nascido em 1966 e composto por católicos, evangélicos batistas, valdenses, adventistas e esporadicamente por ortodoxos. A iniciativa consiste num caminho empreendido pelo compartilhamento da eucaristia ou ceia do Senhor.

Para fazer este objetivo chegar aos pastores das várias igrejas evangélicas, a alguns padres e correspondentes paróquias, bem como à comissão diocesana e à evangélica para o ecumenismo, foram enviadas cartas solicitando expressamente que com encontros mensais itinerantes, se possa compartilhar também em igrejas católicas a eucaristia, precisamente como já é possível compartilhar a ceia do Senhor nas igrejas evangélicas. A motivação dada é esta: “Gostaríamos, com este gesto, de responder ao mandamento do Senhor, ao seu convite, ao seu acolher todos. Quereríamos, em suma, ser mulheres e homens do dom e do compartilhamento”.

A iniciativa terá início em outubro. Agora está claro que permanecerão não resolvidas as questões relativas aos diversos significados que católicos e evangélicos dão à Ceia do Senhor. E então a pergunta é: é correto compartilhar um gesto tão importante na divisão das confissões de fé? O que se quer fazer é, por ora, um pequeno passo: o que poderemos ou deveremos fazer para que o pequeno passo possa levar a uma mudança bem mais importante? Como ninguém querer dar um passo para trás no referente à própria teologia, talvez fosse melhor realizar um gesto diferente, para manifestar a comunhão ecumênica já existente. Se sim, qual?"

(Eugenia Ferreri – Turim)

Não é por acaso que a iniciativa do Grupo ecumênico turinense “Instrumentos de paz” de promover, como cristãos de diversas confissões, uma ação comum para chegar a compartilhar a eucaristia (como costumeiramente a chamam os católicos) ou Santa Ceia ou Ceia do Senhor (como costumeiramente a chamam os evangélicos) em cultos públicos, celebrados em paróquias católicas e comunidades evangélicas da cidade – não é por acaso, dizia, que esta iniciativa nasceu neste ano de 2011.

Por que não por acaso? Porque o texto bíblico proposto neste ano às comunidades cristãs de todo o mundo por ocasião da Semana de oração pela unidade dos cristãos, realizada, como a cada ano, de 18 a 25 de janeiro passado, era Atos 2,42, onde se diz que os primeiros cristãos “eram perseverantes na escuta do ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações”.

Partir o pão juntos era, pois, um dos distintivos da primeiríssima comunidade cristã – a que nasceu em Jerusalém no dia de Pentecostes. Como sabemos, esta expressão indica duas coisas distintas, mas na origem estreitamente ligadas entre si.

A primeira é a refeição comum dos cristãos, consumida juntos e chamada ágape; a segunda é a ceia do Senhor, que habitualmente ocorre no quadro do ágape, como sua conclusão e coroamento. Compartilhando o pão e o vinho da ceia do Senhor, os primeiros cristãos manifestavam sua comum pertença a Cristo e sua recíproca fraternidade. Reconhecerem-se como cristãos implicava, entre outras coisas, partirem juntos o pão da Ceia.

Agora, em janeiro deste ano, tocamos com a mão a grande contradição na qual nos encontramos: mesmo pertencendo a igrejas diversas, nos reconhecemos todos como cristãos, mas, não obstante isso, não partimos juntos o pão da Ceia. Este verdadeiro e próprio “apartheid eucarístico” era compreensível quando não nos reconhecíamos como cristãos, mas cada um considerava o outro como herege. Hoje não é mais assim. A própria Igreja católica, que, como sabemos, a seu tempo excomungou a Reforma, os reformadores e seus seguidores, com o Concílio Vaticano II abandonou este juízo, declarando que protestantes e ortodoxos “justificados no batismo da fé, são incorporados a Cristo, e por isso são, com razão, assinalados com o nome de cristãos, e pelos filhos da igreja católica são justamente reconhecidos como irmãos no Senhor” (Concílio Vaticano II, Decreto sobre o ecumenismo, n. 3).

Ora, de duas uma: ou isto não é verdade, isto é, não é verdade que sejamos “irmãos”, embora “separados”, não obstante “assinalados com o nome de cristãos”, se isto, dizia, não é verdade e consequentemente não nos reconhecemos reciprocamente como cristãos, então, sim, é lógico que não partamos juntos o pão da Ceia. Se, ao invés, é verdade que somos “irmãos”, embora “separados”, reconhecendo-nos, pois, reciprocamente como cristãos, mesmo nas diversas pertenças confessionais, então não só podemos, mas devemos partir conjuntamente o pão, porque isto faziam os cristãos quando se encontravam para escutar juntos a Palavra de Deus, para praticar a comunhão fraterna e para orar. Quem faz conjuntamente estas coisas, pode e deve também partir conjuntamente o pão da Ceia.

É esta a proposta do Grupo ecumênico “Instrumentos de paz”. Nossa leitora nos comunica também a motivação: “Queremos com este gesto responder ao mandamento do Senhor, ao seu convite, ao seu acolher todos. Querer-se-ia, em suma, ser mulheres e homens do dom e do compartilhamento”. Esta motivação é mais que suficiente. Jesus celebrou a Ceia até mesmo com Judas, não excluiu nem sequer a ele. Quem tem a coragem e a autoridade de excluir quem quer que seja? O pão e o vinho da Ceia são o dom que Jesus nos concedeu, dando-se a si mesmo: quem tem a coragem e a autoridade de retirar este dom do senhor da mão de um irmão reconhecido como cristão? A proposta, portanto, é boa, evangélica, cristã; é um ato de obediência ao convite de Jesus e de coerência ecumênica, com o qual, por certo – não seria honesto silenciá-lo – se transgride uma lei eclesiástica, mas isto é inevitável caso se queria viver verdadeiramente, neste campo, a liberdade cristã. A lei jamais consegue conter a graça, que transborda de todo lado; por isso Jesus tantas vezes transgrediu a lei do sábado.

Vai por si que, como justamente observa nossa leitura, “permanecerão não resolvidas as questões relativas aos diversos significados que católicos e evangélicos dão à Ceia do Senhor”. Por exemplo, os evangélicos não compartilham a doutrina da transubstanciação, e os católicos (caso sigam a doutrina oficial de sua Igreja) pensam que somente um sacerdote ordenado por um bispo (católico ou ortodoxo) tenha a assim dita potestas consecrandi, isto é, o poder de “consagrar o pão e o vinho de modo a transformá-lo no corpo e sangue de Cristo. Mas, se as diferenças de doutrina entre católicos e evangélicos sobre a Ceia permanecem aquelas anteriores, que sentido tem que eles a celebrem juntos, dado que a compreendem de modo diverso? Celebram verdadeiramente a mesma Ceia, ou não celebram talvez duas Ceias diversas, embora chegando juntos à mesma mesa e compartilhando o mesmo pão e o mesmo vinho?

Mas, se devesse ser assim (duas Ceias diversas celebradas conjuntamente por católicos e evangélicos em torno à mesma mesa), a comunhão realizada em torno àquela mesa seria real ou somente aparente? São estes os interrogativos – muito sérios – que nossa leitora levanta e às quais respondo assim: o que conta na ceia do Senhor são suas palavras (“Tomai, este é o meu corpo”; “Este é o meu sangue, o sangue da aliança...” e os seus dons – o pão e o vinho: Marcos 14, 22-25). Nem o próprio Jesus, que por primeiro celebrou a Ceia, nem o apóstolo Paulo, que narra sua “instituição” (Coríntios 11, 23-25), sentiram a necessidade de explicar, isto é, de interpretar as palavras da Ceia.

Isto, no mínimo, significa duas coisas: a primeira é que a interpretação é livre, isto é, são possíveis diversas interpretações, nenhuma das quais pode, no entanto, pretender ser canônica, porque na Escritura, que é o cânone (isto é, a regra de nossa fé cristã), as palavras de Jesus são aduzidas, mas não interpretadas. A segunda é que, embora a interpretação seja necessária (no sentido que cada um deve saber o que está fazendo quando participa da Ceia), todavia, esta interpretação não é constitutiva da própria Ceia, a qual é a Ceia do Senhor, independentemente das interpretações que nós lhe damos. O que une aqueles que participam da Ceia do Senhor são o pão, o vinho, as palavras de Jesus e a ação invisível do Espírito, e não as nossas explicações das palavras de Jesus e as nossas interpretações dos seus dons.

Embora, quando celebramos a Ceia entre cristãos de diversas confissões, estivéssemos de acordo e déssemos a mesma explicação daquilo que na Ceia acontece (esta unanimidade, entre outros aspectos, não existe sequer quando a celebram cristãos da mesma Igreja; também ali, secretamente, as opiniões divergem!), não seria aquele acordo o vínculo real de nossa comunhão, e sim o seriam as palavras, o pão, o vinho de Jesus e o testemunho interior do Espírito Santo. Eis porque tem sentido que cristãos de diversas igrejas celebrem juntos a Ceia do Senhor, porque é aí que Jesus os convoca, e aí eles se reúnem, aceitando, com alegria e gratidão (“eucaristia” significa em grego “reconhecimento”, “agradecimento”), o seu convite para receberem juntos as suas palavras e os seus dons, independentemente das diversas interpretações que eles possam dar da Ceia. O que nos une a Jesus quando celebramos a Ceia não é esta ou aquela doutrina, mas a fé.

Na linguagem ecumênica, este tipo de celebração se chama “hospitalidade eucarística”: somos todos hóspedes (indignos) do Senhor em sua mesa, e ali, recebendo o pão e o vinho com sua palavra, celebramos conjuntamente a “comunhão com o corpo e o sangue de Cristo”, como diz a Escritura (1 Co 10, 16). Como ocorra esta comunhão a Escritura não o diz, e não temos necessidade de dizê-lo nós. A Escritura diz somente que ela acontece, entende-se na fé, e isto nos deve bastar.

As doutrinas entre si diversas permanecem, e podem continuar a confrontar-se, mas o convite de Jesus deve ter o primado. Nem se pode pensar em cerimônias substitutivas, às quais Jesus não nos convida: ele nos convida à sua mesa, que é única, e não a outras. A iniciativa de ”Instrumentos de paz”, como eu já disse, é boa precisamente porque afirma o primado do dom de Deus acima de nossas interpretações, e este dom é único e o mesmo para todos. Jesus não divide e sequer aceita as nossas divisões, pelo menos à sua mesa. A única condição é a fé nele e a clareza nas relações entre nós. As nossas diferenças na interpretação da Ceia não devem ser caladas ou espezinhadas – aqui se requer total transparência -, mas também não devem ser dogmatizadas a ponto de se tornarem mais importantes do que o convite de Jesus. O Senhor é Ele, e não nós.
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