Mostrando postagens com marcador territórios. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador territórios. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 7 de junho de 2012

"Deus sabe como o amo, e Ele a mim"

Foto: i can read

Nossa amiga Rosilene foi uma das pessoas que compartilharam conosco, no evento que realizamos domingo, um pouco de sua história e vivência como gay e católica. Aproveitamos esta oportunidade para dividir suas reflexões também com vocês.

Tenho 48 anos, sou cristã católica praticante e gay (talvez seja o contrário), mas nem sempre pude me afirmar assim. Desde bem pequena aprendi com meu pai a rezar. Me ensinou o Pai Nosso (que ensinava, naquela época, a rezar “Padre nosso que estais no céu...”), Ave Maria, Oração do Anjo da Guarda... Foi ele quem iniciou a minha formação católica. Aos três anos, como eu já sabia ler e escrever iniciei meus estudos na escola São José, na Vila Militar, no Rio de Janeiro, uma escola católica. Era um ambiente afetuoso e de muita compreensão. As irmãs incentivavam a minha precocidade estudantil e fertilizavam a minha relação com Deus. Foi um tempo excelente! Aos seis anos, com ardente desejo de comungar (mesmo ainda não tendo iniciado o catecismo), aproveitei a distração do meu pai, na missa, na hora da comunhão, e corri como um raio para frente do padre, que gentilmente me deu a comunhão. Nossa! Sinceramente eu senti um estado de céu que nunca mais na vida esquecerei.

Tudo transcorria muito bem. Cresci, e as mudanças comuns ocorriam com naturalidade. Mudei de escola, de paróquia, fiz novos amigos... Participava das diversas atividades da igreja juntamente com minha família. Tios, tias, e primos, todos participávamos na mesma paróquia. Então veio a adolescência e a descoberta da sexualidade que me causava a maior confusão na cabeça. Um dia perguntei a minha mãe “porque é que eu gosto muito das meninas?”. Na maior tranquilidade ela me respondeu “é a sua preferência”. Fiquei satisfeita com a resposta, e minha vida seguia. Não demorou muito até eu me dar conta da minha homossexualidade, e foi aí que começaram os meus problemas. Era um dilema pra mim, pois em casa tudo bem, mas no círculo religioso uma pessoa gay não poderia participar das atividades pastorais comuns, porque seria um mau exemplo de pecado. Que terrível era conviver com aquelas pessoas, sendo considerada pecaminosa e desajustada. Então, plenamente consciente que a minha condição sexual era diferente das demais pessoas de minha família, da escola e da igreja, decidi reprimir minha sexualidade (o que foi uma situação de caos em minha vida). Mas os questionamentos não me abandonavam. Foi então, que passando férias em outra localidade, procurei o pároco e numa confissão, contei-lhe tudo o que se passava comigo. Ele me recomendou muita penitência e que eu me entregasse a contínuas orações e levasse uma vida de castidade. Procurei seguir fielmente as orientações daquele pároco, durante algum tempo. Foi um período sombrio em minha vida, eu tinha 18 anos. Então passei a frequentar as missas de maneira discreta e a me afastar das ações pastorais.

Foi então que conheci uma religiosa que me apresentou ao Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro. Fiquei amiga de um monge que me atendia às vezes em que eu ia ao mosteiro. Então um dia, abri meu coração a ele e contei-lhe tudo o que se passava comigo. Falei-lhe quanto me sentia triste, sobretudo que parecia que Deus vivia a me perguntar “Tu me amas?”, e que Ele não me dava nenhuma esperança a minha resposta “Senhor, Tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo”. Ele me olhou bem profundamente e me perguntou onde é que eu enxergava o Amor de Deus na minha vida. Com toda a convicção respondi “Na Encarnação de Jesus Cristo! ‘No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus... O que foi feito nele era a vida, e a vida era a luz dos homens...’ “. “Então,” disse-me ele, “como você ainda não consegue enxergar esperança de que Deus te ama como você é?!”. Foi a minha libertação! Nada mais me aprisionou. Descobri que minha condição de ser homossexual não impede o amor de Deus, não me impede de praticar este amor, e nem me impede de praticar a religião cristã católica. Acolhi esta libertação como uma graça do Amor de Deus por mim. Retornei a igreja nos trabalhos pastorais com mais ardor, e é claro tive de superar obstáculos. Hoje com fé e confiança declaro como o Apóstolo “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; diversidade de ministérios, mas o Senhor é mesmo; diversos modos de ação, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos”.

Deus, que sabe de tudo, sabe como o amo e Ele a mim. Paz e Bem!

- Rosilene Luiza

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Dicotomias, lutas, fé e amor: gays versus Igreja?

Foto via Facebook

Certa feita, uma amiga comentava sobre as crises possíveis na cabeça de homossexuais religiosos. Se a sociedade diz que a homossexualidade é anormal, a religião diz que é errado, que é pecado...

Todo mundo pode se sentir no direito de fugir da normalidade, se for esse o caso (não é esse o caso). Mas fugir do que é certo tem efeitos piores. A carga do “anormal” pode até ser suportada (quem disse que estou a fim de ser “normal”?), mas a carga do “errado” pesa.

E enquanto seguem essas dicotomias extremistas, esse jeito limitado mesmo de enxergar as coisas, seguem cristãos e homossexuais massacrados dentro de sua própria consciência, sem liberdade, sem vida, sem fé, sem amor. Os paradigmas ainda atrasados que as igrejas oferecem são um grande desafio para a luta LGBT, para as saídas do armário, para o fim da homofobia.

Mas disso, todo mundo sabe. Preciso falar diferente.Se as igrejas ainda erram ao tratar dos gays, o movimento ainda erra ao tratar da igreja. Vício de tantos grupos que se articulam em torno de várias causas, temos a mania de personificar as lutas em torno de um inimigo só. Muitas vezes, o nosso debate sobre homofobia soa como se desejássemos acabar com as religiões (especialmente com o cristianismo) para ter, enfim, tudo muito resolvido.

A matriz religiosa da formação da nossa sociedade meio que já limitou nossa visão de mundo, nessa coisa de céu e inferno, homem e mulher (opostos completos, sem se misturar ou se confundir). A bagunça já está feita. Assim, simplesmente derrubar a instituição não faz com que derrubemos o pensamento discriminador que anda espalhado por aí, influenciando até mesmo quem está fora das igrejas. A mudança tem que proceder no pensamento do povo, não na estrutura, na hierarquia. Muitas vezes, precisamos até mesmo da estrutura para mudar o pensamento.

Digo isso por visualizar um lado (muito forte, por sinal) da igreja e do cristianismo que enxerga um outro Cristo, um carinha que morava lá pelas periferias da Galiléia, carpinteiro, favelado, sofredor... e que por isso entendeu e defendeu na sua mensagem todo um povo que, como ele, sofreu alguma opressão.

Jesus hoje iria na Parada Gay. Mesmo que não gostasse de homens, estaria lá pela causa política, pelo debate, pela luta por visibilidade de uma galera segregada pela falta de amor e respeito pela diferença. Estaria lá, assim como estaria no acampamento dos sem-terra, na ocupação dos atingidos por barragens, no protesto do movimento estudantil. Foi um preso político do seu tempo, defendendo as causas dos oprimidos, fortalecendo as lutas do povo, e cobrando de seus seguidores (até hoje) um posicionamento transformador.

Lá, na multiplicação dos pães, Jesus pede que as pessoas “se sentem” em grupos de cinquenta. O povo que o seguia era um povo de sofridos, de escravos. Nessa época, escravo não comia sentado. Pedir que se sentem, assim, sutilmente, é pedir que se libertem. As pessoas só precisam entender isso, mudar os pensamentos.

E assim, mais do que segregar e desejar um forte “cala a boca, senhor bispo!”, é preciso fazer entender que há um diálogo possivel, pela compreensão de que o amor tem a função primordial de libertar (assim como Jesus o quis)... A missão é fazer com que as pessoas acreditem é direito de todos sentir essa coisa que é o sentimento, coisa doida que deixa mais vivo, que faz lutar pela vida do outro através do cuidado e da afetividade, que pega a gente sem que possamos escolher o alvo... nem homem, nem mulher...

Faço, sim, uma defesa da religião. Faço por entender que, ao contrário do que se imagina, lá dentro a gente também se livra de alienações. Não se trata de uma evangelização cega, mas de um desabafo de cansaço por ouvir os comentários chatos de quem (dicotomicamente, também) acha que gays não podem estar na igreja, e que tudo o que virá dela será prejudicial. Se ainda precisamos que ela mude, a função de quem quer mudança é se inserir para mudar. É necessário postura de quem quer tranformação.

Pode até não parecer possível, mas é cá na minha fé que eu milito. Mais que por qualquer coisa, é por ser muito religioso que eu repito incessantemente o grito de não à Homofobia!

- Murilo Araújo
Jornalista e professor. Homem feminista, católico homossexual, fã de Beyonce e Bethânia. Sem enxergar nenhuma ambiguidade em nada disso.

terça-feira, 20 de março de 2012

Dores e amores da homossexualidade

Foto: i can read

Recebemos de um amigo este lindo depoimento, e é com muita gratidão e sentindo-nos muito honrados que o reproduzimos aqui.

Enquanto homossexual não saberia dizer se a homossexualidade nos faz mais sensíveis. Penso que na condição de seres humanos vivemos num mundo diverso, pronto a ser descoberto na sua riqueza existencial infinita. Por isso, seria importante que estivéssemos sempre sensíveis a tudo que nós rodeia. Sou daqueles que acreditar que sensibilidade também se aprende. Mas, talvez, aqueles que, por algum motivo, não são desejados pela sociedade tentem a criar um mundo particular e, neste mundo, vivem seus sonhos e pesadelos, tentando, de algum modo, encontrar a forma como aparecer no mundo concreto sem precisar sofrer muito.

Enquanto permanecemos no mundo particular ganhamos tempo para nos compreender internamente. Percebo que nesta experiência ganhamos em sensibilidade na medida em que é preciso criar pequenos modos de felicidade. Lembro-me, por exemplo, da minha infância na qual por não poder brincar com bonecas eu pedia aos meus pais lápis de cor e muitas folhas para poder desenhá-las e, assim, me divertir com elas no meu imaginário. Deste modo, eu fui desenvolvendo a sensibilidade para as cores. Também comecei a prestar atenção às bonecas para poder reproduzi-las, em detalhes, no papel. Enquanto as outras crianças já tinham o seu brinquedo pronto, eu era desafiado a aguçar as minhas capacidades perceptivas e criativas. E quanto mais eu desenhava e melhorava o meu traço, apesar de muitos estranhamentos por parte das pessoas por eu só reproduzir bonecas, era muito elogiado por todos. Bom, mas é claro que, por outro lado eu sofria. Sofria porque enquanto criança o mundo era severamente posto de uma forma na qual eu não encontrava um lugar. E, apesar de todos perceberem a minha homossexualidade, era como se ela não existisse. O que existia era uma criança sensível, diferente das demais. Muitas vezes introvertida. Fui crescendo num mundo confuso, entre formas de disciplinamento heterossexuais e a fantástica descoberta da minha sexualidade. A atração pelo mesmo sexo provocava em mim, ao mesmo tempo, prazer e medo. Eu achava curioso o encantamento pelo mesmo sexo. Minha sensibilidade me dizia intimamente que aquela combinação era uma coisa bonita, e isso era muito natural. No entanto, eu não podia imaginar em dizer isso para ninguém. Tinha medo de não ser compreendido e aceito. Parece estranho dizer, mas isso era dolorido e delicioso ao mesmo tempo.

O tempo passou, e eu fui direcionando todas as minhas energias para os estudos. Lembro-me que quando cursava o segundo grau eu me apaixonei por um rapaz. Ele era da minha turma. Como era bom conversar com ele! Mas, com medo de que ele se distanciasse de mim, calei. Foi duro! Acabamos brigando. Foi uma forma que eu encontrei para não sofrer mais. Depois que o ano letivo terminou, eu nunca mais o vi. Entrei na faculdade e comecei a investir pesado nos estudos. Na minha família ninguém cursou uma faculdade, e para mim era um desafio. Concluí a faculdade com boas expectativas. Fui elogiado e incentivado pelos professores a realizar o mestrado e seguir a carreira docente. Embora introvertido, me fascinavam as relações humanas, e via na relação de ensino e aprendizagem a mais bonita forma de diálogo. Esse passou a ser o meu grande projeto. O mestrado foi concluído com sucesso.

Neste percurso não deixei de pensar, sofrer e me alegrar com a minha sexualidade. Mas o fato é que até então eu não havia vivido a minha homossexualidade. Eu não tinha tido uma experiência homossexual. Não tinha amigos gays e nunca havia falado sobre a minha sexualidade para ninguém. Pode-se imaginar como é difícil não poder falar o que se sente? Mas o fato é que eu tinha me tornado um homem inteligente e sensível e, também, bonito. Já não era mais um menino franzino. Faltava apenas que eu me percebesse.

Logo retorno aos estudos para a realização do Doutorado, com 27 anos. E assim continuava a minha trajetória de estudos. Paralelamente a minha sexualidade permanecia oculta para o mundo. Hoje penso que não ter falado sobre a minha condição me afastou da possibilidade de experiências afetivas e sexuais. Mas, se até então eu não havia tido a coragem de revelar a minha sexualidade, as circunstâncias da vida me puseram a prova.

Um colega com o qual eu convivia por aquele período começou a me notar. Mas eu acreditava que me mantinha tão imperceptível do ponto de vista da sexualidade, que não acreditei que ele pudesse ser gay e que estava interessado em mim. O fato é que ele era gay e tinha interesse. A cada encontro nos aproximávamos mais. E quando dei por mim eu já estava apaixonado. Talvez não pelo rapaz, e sim por toda aquela situação que para mim era uma extrema novidade. O fato é que eu lhe despertei o interesse. Neste caso eu me vi percebido por ele. Alguém havia me visto e isso mexeu demais com a minha auto-estima. Bom, custei a entender que o meu colega não estava apaixonado por mim, era apenas uma atração. Claro que eu sofri muito, pois me vi apaixonado e ao mesmo tempo vivendo e descobrindo as possibilidades da minha sexualidade. Parecia que uma represa tinha se rompido dentro de mim. Não sabia o que fazer com todos aqueles sentimentos e descobertas. Era a minha sexualidade me confrontando e me dizendo: como é que você vai querer viver daqui em diante?

Na ocasião eu revelei a situação a uma amiga. A escuta dela foi fundamental. Pela primeira vez eu me via falando sobre a minha sexualidade, ainda com muitos receios, mas eu falava, eu expressava. Esta amiga, na tentativa de me ajudar, apresentou-me a um amigo seu que era gay. Ela fez isso por acreditar que ter um amigo gay iria me ajudar. O rapaz tinha 21 anos e uma cabeça de adolescente. Ele vivia na região serrana, numa cidade pequena e cheia de repressões. Eu percebia que isso havia aflorado a sua rebeldia e ele se expressava de maneira bem intensa, parecendo querer provocar a atenção de todos. Apesar de um tanto assustado, eu comecei a manter contato com ele. Assim nos aproximamos e, após duas semanas de contato, fui conhecê-lo na sua cidade. Comprei um tênis all star, vesti uma bermuda, coloquei um boné e uma mochila nas costas. Segui viagem pela Serra. Essa sensação da viagem foi maravilhosa! Era como se eu estivesse mudando o cenário da minha vida. Dizem que às vezes é preciso viajar, sair de si, para depois retornar à nossa essência. Eu acho que era um pouco isso que estava acontecendo comigo. Trajado do modo como descrevi anteriormente, ali eu era um adolescente. Enfim, eu experimentava a adolescência que não havia vivido! Encontrei-me com o rapaz, juntei-me ao seu grupo de amigos adolescentes e vivi dias maravilhosos. Acordei no dia seguinte com as badaladas do sino da igreja local, que me transmitiam sinais de vida. Retornei para casa com entusiasmo para prosseguir. O namoro com o rapaz não foi adiante, e nem tinha condições de dar certo. Era mais uma experiência que a vida estava me anunciando. O anuncio era: nunca mais deixe as páginas da sua vida em branco, você tem o direito de ser feliz, você é especial.

Nesta experiência acabei me apaixonando pela região serrana. Aquela sensação do ônibus subindo a Serra mexia comigo, me enchia os pulmões e, eu sentia, alargava os meus caminhos de liberdade. Numa dessas subidas conheci outro rapaz. Um homem simples, mas com imensa sabedoria, cultivador de orquídeas na região. Eu sempre gostei de flores e ele me apresentou muitas delas. Passamos um final de semana num lugarejo chamado São Pedro da Serra. Este é um lugar que vai ficar pra sempre na minha memória! Lá pude entrar em contato com muitas cores. Eu precisava de cores, muitas cores! Fiquei encantado com a diversidade da natureza e, nesta experiência, pude compreender a minha própria riqueza e diversidade. No contato com cada flor, com cada fruta, com cada planta que ele me apresentava eu descobria uma sensação nova, um novo sentido! Marcou-me uma experiência em que ele me levou diante do espelho e chamou atenção para a minha aparência, para que eu valorizasse a minha aparência no mundo. Eu não podia mais me esconder, e nem tinha porque fazer isso.

Namorei este rapaz por alguns meses e com ele aprendi muito. A relação afetiva com ele foi fundamental. Com a sua simplicidade e sabedoria ele me mostrou como ser gay podia ser especial, como podia ser maravilhoso o sentimento entre dois homens. Sou-lhe grato por isso e, até hoje, tenho um carinho e uma amizade muito especial por ele.

Assim eu prossegui a minha experiência de vida. Conheci pessoas, namorei, conheci novos lugares, continuei me empenhando nos estudos... apareci para mim e para o mundo, com serenidade e orgulho. Ficou-me a certeza de que eu podia conhecer!

O mais importante dessa história foi que eu pude, entre dores e amores, me apresentar à vida. Apresentar-se a vida é confirmar a nossa existência. Como é que as pessoas saberão quem você é, quais são os seus valores, se você não se apresenta para o mundo? E quanto mais temos orgulho ao nos apresentar, mais as nossas relações afetivas vão se ampliando...maiores são as possibilidades de ser feliz!

E hoje me apresento à vida com grande orgulho de ser gay! Deus me fez especial nesta condição, e como é bom vivê-la sem medo! Embora a minha vida não se resuma a minha sexualidade, ela não seria nada se eu não pudesse expressar e viver as minhas relações sociais e afetivas como gay. Compreendo que a minha riqueza, o que me torna singular e especial neste mundo é a minha condição sexual. Não seria inteligente e justo anular justamente aquilo que me torna especial. Por isso - embora eu compreenda que ser gay não é uma opção - se eu tivesse que optar eu escolheria ser gay sempre! O bom é viver e poder se apresentar à vida, ao mundo! E, sobretudo compreender que não estamos sós. Há uma infinidade de pessoas no mundo e o nosso desafio é construir relações com elas. Quando eu decidi assumir a minha sexualidade eu me perguntei: “que mal há em viver o que somos de modo verdadeiro e digno”? “Ser homossexual não é um crime, então eu não preciso viver em clandestinidade”. “Para quem sobrará o ônus da infelicidade se eu não me assumir”? Mas até chegar a essa compreensão foi um longo caminho. Não é nada simples. As famílias, as instituições, algumas religiões, apesar de toda a mudança ocorrida nos últimos tempos no mundo, ainda não estão preparadas para acolher e respeitar a diversidade. A produção da culpa, da violência, da exclusão infelizmente ainda é recorrente. É preciso esclarecimento, fé, apoio e coragem! Mas o bacana é descobrir a nossa essência, o quanto somos especiais e o quanto é bom defender a nossa auto-estima com vigor. O que nos sustenta e amplia horizontes não são somente as dores, mas, sobretudo os amores. E eu decidi que estou na vida para amar. Eu escolhi amar e por isso sou feliz na minha condição. Nesta minha caminhada, entre dores e amores, ficou um aprendizado: O mais duro não é sofrer por amor...o mais duro é sofrer pelo desamor, pela ausência, por aquilo que não vivemos, ou deixamos de viver. Abraçar a nossa homossexualidade e vivê-la com plenitude, responsabilidade e fé é um ato de amor por si, pelos outros e pelo mundo!

- Bruno Peres

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

''É preciso questionar a nossa ansiedade diante da pluralidade''

Foto: Ward Roberts

A socióloga francesa Danièle Hervieu-Léger analisa a pluralização das nossas sociedades, enfatizando a paradoxal homogeneização contemporânea.

A reportagem é de Élodie Maurot, publicada no jornal La Croix, 06-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista, aqui reproduzida via IHU.


De onde vêm as nossas interrogações recorrentes sobre a pluralização das nossas sociedades?

Leio essa inquietação como uma curiosa inversão dos diagnósticos anteriores – que remontam, grosso modo, aos anos 1960 – que consistia em pôr em discussão o monolitismo da nossa sociedade e em reivindicar a possibilidade de expressar a pluralidade das situações, dos pontos de vista, das identidades que eram anuladas ou limitadas pelas restrições de um sistema. Desejava-se reivindicar o reconhecimento da singularidade e da diversidade.

Hoje, estamos um pouco no extremo oposto! Preocupamo-nos com a manifestação dessas diferenças por serem suscetíveis de ameaçar o viver juntos... Penso que essa inversão deve ser estudada, investigada. Por que hoje temos a sensação de que a pluralidade está em excesso, enquanto há 50 anos achava-se que ela estava faltando? Na verdade, a diversidade é percebida como uma riqueza e uma oportunidade contanto que possa ser ordenada dentro de um projeto comum. Sem um dispositivo de codificação comum, as afirmações dos indivíduos não permitem a leitura da carta do social.

Pode citar alguns fortes indicadores da pluralização?

Podemos dizer coisas banais, considerando que a mundialização, a aceleração da circulação das pessoas e das informações, a rapidez da mudança em todos os âmbitos nos dão a sensação de sermos bombardeados por uma quantidade cada vez maior de novidades e de diversidade. Na incerteza resultante dessa mudança permanente, os julgamentos, as opiniões se dispersam sem poder se confrontar em um debate público produtivo.

Tomemos o exemplo da ciência. Vivemos por muito tempo com um consenso – pelo menos relativo – sobre os benefícios do desenvolvimento da ciência. Hoje, a nossa relação com a ciência é muito mais complexa. Sabemos que mais ciência não é apenas mais capacidade de destruição, mais questões éticas difíceis, mas sobretudo, paradoxalmente, um número ainda maior de problemas não resolvidos, cujos resultados escapam aos cidadãos. Queremos transgênicos ou não? O debate não se traduz em "a favor" ou "contra". Ele é muito mais pluralizado. Não opõe apenas "progressistas" de um lado e "reacionários" de outro.

Durante muito tempo, pôde-se descrever a cena social dividindo-a entre aqueles que queriam ir para o movimento e aqueles que, ao contrário, o rejeitavam e se opunham a ele. Essa simplificação não se sustenta mais hoje. Mesmo no campo religioso, o esquema que opõe "progressistas" e "conservadores" ou "tradicionalistas" simplifica muito e não permite dar um quadro completo da variedade das opiniões religiosas e das opções espirituais.

No seu livro "Catholicisme, la fin d'un monde" ("Catolicismo, o fim de um mundo"), você descreve o colapso – no fundo, recente – da cultura cristã comum...

A diminuição da população católica praticante na França começou há muito tempo, mas esse processo foi por muito tempo compatível com a preservação de uma matriz cultural originária do catolicismo, secularizada. Os indivíduos, embora não fossem de convicção católica, embora estivessem distantes ou fossem hostis ao catolicismo, se inseriam nessa matriz comum, que ajudou a dar forma às instituições seculares (o Estado, a escola, o hospital, a universidade, a família...) e continuou impregnando as mentalidades.

Desse ponto de vista, a França, um país muito secularizado e religiosamente plural de longa data, podia, no entanto, ser chamado de "país de cultura católica". A partir dos anos 1960, observa-se a dissolução dessa matriz cultural com o advento de uma cultura mundializada do indivíduo.

O que poderia substituir hoje essa matriz cultural?

O que eu observo é precisamente que não há nada que possa substituí-la. A ideia de "cultura comum" é uma noção praticamente vazia, e essa é uma das causas do aumento das obsessões comemorativas e patrimoniais que são um modo um pouco desesperado para retomar as rédeas. A nossa sociedade é composta por universos culturais separados, que entram muito pouco em contato uns com os outros.

Essa afirmação pode parecer em contradição com a suposta "homogeneização" de uma cultura mundializada, mas a circulação mundializada de bens culturais não significa a apropriação compartilhada de saberes, de valores, de experiências que poderiam desenvolver uma relação comum com o mundo. Os grandes relatos federadores – nacional, operário, católico, secular – perderam a maior parte da sua capacidade mobilizadora.

Esses grandes relatos, confrontando-se e polemizando entre si, criavam o espaço para uma pluralidade fecunda. A atonia presente do debate público é um indicador da dispersão e da impermeabilidade dos universos culturais uns aos outros, como bolhas flutuantes umas ao lado das outras.

Você propôs, em "O Peregrino e o Convertido" (Ed. Vozes, 2008), uma leitura da crescente diversidade religiosa nas nossas sociedades. Desde então, você tem visto uma evolução na pluralidade religiosa?

Minha opinião não mudou, mas também observo o crescimento de um fenômeno ao qual eu não tinha prestado atenção suficiente naquele momento, que é o do esgotamento do peregrino! Eu associava a figura do peregrino – e a mobilidade que lhe é conexa – a uma espécie de apetite pela descoberta de novos territórios, uma atração espiritual pela alteridade.

O convertido, ao contrário, era como um peregrino que depunha suas malas, suspendia a busca e assumia a sua identidade religiosa como uma escolha pessoal, pronto para ir, depois, de escolha em escolha.

O que constato hoje é que a trajetória do peregrino não chega necessariamente a uma escolha. Ele também pode se esconder, se diluir, quando a busca espiritual é submersa pela dificuldade de ser si mesmo, como diz Ehrenberg. A religiosidade peregrina também pode ser uma forma – que merece atenção – de sair da religião.

O que você diria sobre a qualidade da diversidade religiosa hoje? É real?

A "metáfora do supermercado" foi muito utilizada para descrever a diversidade religiosa contemporânea, com a ideia de que o indivíduo faz as suas "compras" de bens simbólicos e espirituais e coloca em seu carrinho o que quiser. Fora do quadro das instituições, ele compõe, então, o seu pequeno relato crente singular.

Mas essa metáfora também pode ser lida de forma diferente. O supermercado também é o lugar em que se encontram todos os tipos de marcas diferentes que cobrem um produto, no fundo, idêntico. No âmbito dos bens simbólicos e religiosos, assim como em outros âmbitos, a economia ultramoderna produz tanto a padronização da produção, quanto a extrema personalização do consumo. Somos convidados a consumir, "como se nos fossem destinados pessoalmente", produtos absolutamente iguais.

Independentemente das diversas famílias religiosas, constata-se assim uma redução minimalista da mensagem religiosa – do ponto de vista da sua densidade teológica – e uma diversificação da "oferta", apresentada em uma forma que se considera adaptada para responder às expectativas mais imediatas dos consumidores espirituais.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Pagãos no templo


Se você está no "átrio", você é sempre um externo, quase um marginalizado. O "átrio" é, na realidade, um espaço livre, onde o vento corre, o sol brilha e se avista o céu, sem o necessário fechamento e autorreferencialidade que o Templo, sede do sagrado, e o Palácio, sede da laicidade, impõem. A imagem tem, contudo, uma história própria já conhecida por muitos. Agora, buscaremos repropô-la, mas apenas em um detalhe próprio que não é secundário.

A análise é de Gianfranco Ravasi, cardeal presidente do Pontifício Conselho da Cultura, em artigo publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 11-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Para além do diálogo ecumênico e inter-religioso, o grande interesse do Átrio, a nosso ver, é a forte carga simbólica de abertura ao diálogo com tudo o que tradicionalmente tem sido mantido "externo", "estrangeiro", "fora", "excluído" do corpo da Igreja. É uma clara e bela tentativa de entabular uma troca, um diálogo com forças diante das quais historicamente a Igreja recua e se fecha. E que bela a citação final de S. Paulo, reforçando que Cristo veio eliminar toda hostilidade e diferença. S. Paulo ignora as prescrições rituais de exclusão dos gentios e entra no templo com um pagão, pois sabe que 
a Boa Nova de Cristo veio eliminar toda exclusão: agora, não há mais crentes de um lado e pagãos do outro, pois Ele veio "para, dos dois povos, formar em si mesmo um só homem novo".

A esse respeito, aliás, vale a leitura do texto "André e os gregos", do nosso amigo Teleny.

E que neste tempo de renovação nasça um pouquinho mais, em cada um de nós, esse homem novo que não vê no Outro um diferente e um estranho, mas tão-somente seu próximo e seu irmão.

Eis o artigo.


Desde que, por impulso de um discurso de Bento XVI, o Pontifício Conselho para a Cultura deu início à iniciativa do "Átrio dos Gentios" [Leia um testemunho aqui], assistiu-se a um florescimento de iniciativas autônomas em muitas cidades, que muitas vezes surpreendem pela sua originalidade e que tiveram um selo próprio no encontro de Assis de outubro passado com Bento XVI.

De Bucareste a Florença, de Tirana a Barcelona, de Estocolmo a Palermo, de Praga a Marselha, até o Quebec e os Estados Unidos, os encontros se multiplicam. Algumas polêmicas, às vezes, se acendem, porque algumas formas de ateísmo de corte popular e agressivo se sentem excluídas, quase como se o debate ocorresse só em nível intelectual e de "ateus devotos" (estes últimos, por sua vez, se lamentam pelo fato de que se sentem pouco considerados).

Na verdade, também está sendo pensada uma resposta a esse pedido, não raramente provocativo, porque sabemos o quão real é o público que tal ateísmo-agnosticismo-racionalismo suscita, criando interrogações, críticas, dúvidas em muitos.

Sobre isso, no entanto, vou falar no futuro. Desta vez, queremos propor – com base em perguntas de leitores do nosso suplemento – uma questão muito mais marginal e quase "filológica". Ela nasce justamente de algumas objeções sobre a metáfora "Átrio dos Gentios", que, naqueles que não conhecem as ascendências bíblico-judaicas, cria algum embaraço.

De fato, se você está no "átrio", você é sempre um externo, quase um marginalizado. Busca-se, no entanto, recuperar o valor desse símbolo afirmando que o "átrio" é, na realidade, um espaço livre, onde o vento corre, o sol brilha e se avista o céu, sem o necessário fechamento e autorreferencialidade que o Templo, sede do sagrado, e o Palácio, sede da laicidade, impõem. A imagem tem, contudo, uma história própria já conhecida por muitos. Agora, buscaremos repropô-la, mas apenas em um detalhe próprio que não é secundário, porém.

É sabido, de fato, que o templo construído por Herodes, a partir dos anos 20 a.C. e concluído muito tempo depois da sua morte, ocorrida em 4 a.C. (em João 2, 20 fala-se de 46 anos empregados para a construção do edifício), compreendia, além do santuário de verdade, quatro átrios ou pátios: dos sacerdotes, dos israelitas, das mulheres, dos gentios, de acordo com os diversos graus das várias classes rituais. O mais externo era, portanto, reservado aos gentios, às gentes, aos "pagãos", que, aos olhos dos judeus daquela época, eram automaticamente equiparados àqueles que hoje nós chamamos de ateus, embora, na verdade, eles adorassem os seus deuses, como reconhecera o próprio São Paulo atravessando as ruas de Atenas ("Atenienses, em tudo eu vejo que sois extremamente religiosos. Com efeito, observando, ao passar, as vossas imagens sagradas, encontrei até um altar com esta inscrição: 'A um deus desconhecido'", Atos 17, 22-23).

Pois bem, segundo a descrição do historiador Flávio Josefo na sua Guerra Judaica, uma balaustrada com três côvados de altura (cerca de 1,40 m) – mas a Mishná, texto que contém antigas tradições judaicas, a media apenas em dez palmos (0,75 m) – separava esse pátio do resto da área do templo. Sobre ela, escrevia o historiador judeu filoromano, "eram colocadas, em igual distância, placas de pedra (stêlai), algumas em caracteres gregos e outra em latim, as quais declaravam a lei da pureza, isto é, que nenhum estrangeiro entrasse no lugar santo" (V 5,2).

Eis-nos diante do particular sobre o qual nos deteremos brevemente, as "estelas", ou seja, as placas de mármore com a proibição de ultrapassar a balaustrada-fronteira entre sagrado e profano. Em 1871, de fato, o arqueólogo francês Charles Simon Clermont-Ganneau descobriu no setor norte da atual esplanada das mesquitas em Jerusalém uma lajota de calcário com 56 centímetros de altura, 86 de largura e 37 de espessura, com algumas lascas, talvez devido ao ataque das tropas romanas na destruição do Templo ocorrida em 70 d.C.

Agora, a placa está conservada no Museu do Antigo Oriente de Istambul. Em 1935, no lado leste da mesma esplanada, veio à luz uma outra peça fragmentária que confirma a anterior e que está guardada agora no Museu Rockefeller de Jerusalém. Mas voltemos à primeira. Ela contém, sobre sete linhas, esta proibição formulada em grego: "Que nenhum gentio (alloghené) ultrapasse a balaustrada de delimitação do templo. Quem for surpreendido, será causa da sua própria morte que se seguirá".

Curioso é o termo que define o "gentio", alloghenés, desconhecido no grego clássico grego e usado apenas no grego judaico e cristão; tanto é verdade que ele também é encontrado no Evangelho de Lucas (17, 18) para definir o samaritano leproso que volta para agradecer Jesus depois da cura, diferentemente dos outros nove judeus curados. À primeira vista, a severidade da pena em caso de violação destoa da mesma liberalidade da própria Torá que, no Levítico, tem, ao contrário, esta norma: "Que todo israelita ou estrangeiro (gher) que vier morar no meio de vós ofereça um holocausto ou sacrifício e leve a vítima à entrada da Tenda do Encontro" (17, 8-9).

Muitos estudiosos consideram que a proibição tão clara e dura era o fruto do rigor dos escribas judeus do Templo daquela época, preocupados com o excesso de estrangeiros que chegavam a Jerusalém durante a época greco-romana, levando-se em conta também a política herodiana que era muito liberal a esse respeito. Tais proibições, no entanto, também estavam em vigor em outros sistemas templários do Oriente Próximo e da própria Grécia. Nesse ponto, é legítima uma pergunta: as autoridades romanas de ocupação tinham endossado tais práticas que, à primeira vista, lesava a sua jurisdição e o seu próprio interesse?

De acordo com Flávio Josefo, parece que sim, porque ele declara ter lido pessoalmente (sabe-se que o historiador era um "colaboracionista") aos judeus sitiados em Jerusalém essa proclamação de Tito, o comandante do exército romano e futuro imperador: "Não fostes vós que colocastes esta balaustrada diante dos lugares santos? Não fostes vós que colocastes em intervalos as estelas gravadas com letras gregas e nossas, para ordenar que ninguém ultrapassasse esse parapeito? Não fomos nós que vos demos a permissão para levar à morte aqueles que o ultrapassassem, mesmo que se tratasse um romano?" (Guerra Judaica 6,2,4).

Nessas linhas, é evidente a autorização romana para executar a condenação à morte por parte da autoridade templar judaica em caso de violação grave da proibição, através da "polícia" de proteção da área sagrada. Reconhecia-se, portanto, a competência jurídica para emitir uma imediata e automática sentença capital contra aqueles que tivessem atravessado aquele muro de fronteira entre sagrado e profano, um ato que nos parece desproporcional, mas que, na realidade, respondia a uma sensibilidade muito forte naquela época com relação ao tema da pureza ritual. O poder imperial romano queria, além disso, evitar ocasiões de conflito, pelo menos nesse âmbito, com um povo de natureza ferozmente hostil às tropas de ocupação. Flávio Josefo, ainda na mesma obra (II 12,2), menciona o caso da imediata condenação à morte imposta pelo promotor Cumano a um soldado romano que tinha rasgado provocativamente um rolo da Torá. É por isso que a epígrafe era em grego, justamente porque a advertência se referia aos gentios que ignoravam o hebraico e liam ou falavam o grego (que era, na prática, o inglês daquela época).

Tudo o que descrevemos até agora também encontra confirmação no episódio narrado pelos Atos dos Apóstolos, que vê como protagonista São Paulo, acusado de "ter trazido gregos para dentro do templo, profanando este santo lugar", dado que ele estava na companhia de um certo Trófimo de Éfeso e, portanto, suspeito de ter seguido o apóstolo na área sagrada (21, 27-30). Mas a figura de Paulo se torna decisiva para uma concepção bem diferente daquele "átrio", quando, aos cristãos de Éfeso, ele escreve: "Cristo é a nossa paz: de dois povos fez um só povo, em sua carne derrubando o muro da inimizade que os separava, isto é, a inimizade (...), para, dos dois povos, formar em si mesmo um só homem novo" (Efésios 2, 14-15).

A "inimizade" era a realidade implicitamente subentendida às placas daquela balaustrada que dividia pagãos e judeus, uma hostilidade que Cristo tinha anulado. O novo símbolo do "Átrio dos Gentios" gostaria de continuar eliminando essa separação em um encontro de paz, de diálogo, de busca.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Questão de gênero


Recebemos via Facebook a dica deste vídeo que resume muito bem o debate sobre questões de gênero na atualidade. Sério, divertido e instigante - para sorrir, questionar e pensar. :-)

Reproduzido via br gay

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

"Ela é a mesma pessoa que vocês amavam ontem"


Do sempre excelente blog do Tony Goes:

"A luta pelos direitos igualitários já passou pelo teste das urnas mais de 30 vezes, em diversos estados americanos - e perdeu TODAS. Os reaças sempre conseguiram assustar a população mais mal-informada, pregando o fim da civilização e do mundo tal como o conhecemos. É bem provável que o estado do Maine leve o casamento gay à consulta popular no ano que vem. E, já prevendo um embate difícil, organizações LGBT estão tentando uma nova estratégia. Não adianta simplesmente pregar o respeito à diversidade. É preciso apelar para a emoção, contar casos pessoais e, principalmente, lembrar que quase todas as famílias têm um membro gay. Um ano antes das eleições, já está no ar uma nova campanha que fala diretamente às pessoas mais religiosas. O melhor comercial é este acima [em inglês - tradução abaixo*], onde um casal conta a batalha interna que travou para aceitar a filha lésbica. Vamos ver se dá certo. Enquanto isto, aqui ao lado, na Argentina, a luta também continua - e olha que por lá os homossexuais já podem se casar há mais de um ano. Mas o preconceito segue firme, o que motivou uma ótima campanha na província nortenha de Salta. Nessas horas, que se f* a criatividade na propaganda: ideias como estas merecem ser copiadas por aqui."


*Tradução do primeiro vídeo:
- Meu marido e eu estamos casados há 32 anos...
- 42.
- Isso...
- Nós não éramos tão gay-friendly... Nós nem mesmo estávamos abertos a ouvr quando o assunto era discutido.
- Quando descobrimos que nossa filha era lésbica, foi um turbilhão emocional... Fomos conversar com um sacerdote, e nunca vou esquecer a resposta que ele me deu: "Ela é a mesma pessoa que vocês amavam ontem".
- Nós amamos a nossa filha.
- Eu ficaria muito feliz se minha filha mais velha se casasse.



domingo, 25 de dezembro de 2011

A humanidade de Deus e a divindade do Homem

Imagem daqui

Natal é, pois, uma questão de nascimento: a luz, um mundo novo, o Cristo ressuscitado, o nascimento de Deus. Para nós cristãos, Natal é tudo isso... todos esses nascimentos... Mas, de fato, que mensagens podemos reter nesta festa de Natal de 2011?

A reflexão é de Raymond Gravel, sacerdote de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do Domingo da Natividade do Senhor (24-25 de dezembro de 2011). A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Referências Bíblicas:
Noite de Natal:
1ª leitura: Is 9, 1-6
Evangelho: Lc 2, 1-14

Dia de Natal:
1ª leitura: Is 52, 7-10
Evangelho: Jo 1, 1-18

Em cada ano, no mês de dezembro, nós nos preparamos para a festa de Natal. Decoram-se nossas casas, iluminam-se os quarteirões, ouve-se na rádio a música de Natal, vai-se às lojas, compram-se presentes, fazem-se festas no local de trabalho, escrevem-se votos, compartilham-se fantasias de Papai Noel, cestas de Natal, participa-se da Missa, tem-se o coração em festa, fica-se mais sensível à família, à amizade, à pobreza, à paz e ao amor. Natal é a ocasião das partilhas, dos perdões, das reconciliações, das trocas de todo tipo. Isso deveria ser Natal todos os dias! Natal é para todos, pois todo o mundo encontra aí sua parte. Seja-se crente ou não ou ainda de diversas religiões, no Natal pode-se celebrar qualquer coisa.

A origem desta festa é inicialmente natural e pagã. Quer se queira ou não, nesta época do ano, no solstício do inverno, tem-se a impressão que a noite leva vantagem sobre o dia, segundo o eixo de rotação de nossa boa e velha terra. É por isso que, no Império Romano, tinha-se o hábito de celebrar o sol nascente, o solis invecti, na noite de 24 a 25 de dezembro, para significar o renascimento da luz, já que os dias começam a se alongar, e isso até o solstício do verão. Natal é, pois, uma questão de nascimento: a luz, um mundo novo, o Cristo ressuscitado, o nascimento de Deus.

Para nós cristãos, Natal é tudo isso... todos esses nascimentos... Mas, de fato, que mensagens podemos reter nesta festa de Natal de 2011?

1. A luz

“O povo que andava na escuridão viu uma grande luz, para os que habitavam as sombras da morte uma luz resplandeceu” (Is 9,1). Para nós cristãos, esta luz não é o sol, é o Cristo da Páscoa que vem transformar nossas vidas ainda hoje. Ele é a luz sobre a estrada; ele é o sol de nossas vidas. Em seus respectivos evangelhos, Mateus e Lucas compuseram um relato de nascimento para aquele que se tornou Cristo, Senhor, Salvador na Páscoa.

Mas, atenção! Mateus e Lucas não contam o nascimento de Jesus de Nazaré; eles nada sabem a respeito. Em vez disso, o que eles contam é o nascimento do Cristo ressuscitado que foi, segundo a expressão de Paulo, o “primogênito dentre os mortos” (Cl 1, 18). Então, a festa de Natal nasceu após a Páscoa. Foi preciso que Jesus ressuscitasse para que se pudesse celebrar seu nascimento... E, com seu nascimento, ocorre ao mesmo tempo o nascimento de um mundo novo, iniciado na Páscoa e que continua hoje, através dos cristãos de todos os tempos. Em cada ano somos convidados a fazer nascer esta luz em nós e em torno de nós, para expulsar todas as formas de trevas de nossas existências que ainda subsistem hoje.

2. Deus e o Homem

Santo Irineu dizia: “Deus se fez homem para o que o Homem se torne Deus”. A história de Natal é de Deus que vem ao encontro das mulheres e dos homens de todas as épocas para divinizá-los, isto é, ensiná-los a serem mais humanos pela acolhida, pela abertura, pelo respeito de suas diferenças, pela restauração da justiça, da dignidade, da igualdade para todos, pela partilha de suas riquezas, pelo amor incondicional e pelo cuidado dos pobres, dos machucados da vida e dos mais desamparados.

Não é por nada que São Lucas faz nascer o Cristo numa imensa pobreza: num menino, numa criança, em primeiro lugar, com toda a vulnerabilidade, a fraqueza e a fragilidade que comporta esta etapa da vida... Porém, mais do que isso, um bebê pobre, saído de uma família não convencional, que nasce numa manjedoura de animais, porque demasiado pobre para nascer em outro lugar. Além disso, seu nascimento é anunciado em primeiro lugar aos pastores, os excluídos, os marginais, os desprezados da época.

Se não há aí uma mensagem do evangelista, de que o próprio Deus é pobre e que ele escolheu seu campo, o campo dos excluídos, dos rejeitados, dos desprezados da sociedade para nascer, eu me pergunto: O que realmente significa essa história contada por Lucas? E a mensagem que daí decorre é que o mundo novo, que começou na manhã da Páscoa, só pode se realizar se este mundo for construído sobre a dignidade, a justiça e a igualdade das pessoas, seja qual for seu status social, seu sexo, sua religião e sua cultura. Não há aí um olhar a todos os Indignados da terra que se manifestam ao mundo de hoje?

Que não venham me dizer que o Evangelho não é atual! No fundo, são Lucas nos diz que a construção de um mundo melhor não é somente um voto, um desejo piedoso ou um sonho; é uma realidade começada há mais de dois mil anos com o nascimento do Cristo e que deve prosseguir hoje; caso contrário, o Cristo não pode ter nascido... Isso quer dizer que hoje, em nosso mundo, em nossa sociedade, em nossa Igreja, não se pode celebrar o Natal caso se persista em discriminar as mulheres, os pobres, os homossexuais, os divorciados-redesposados, as mulheres que tiveram um aborto, os esquecidos e os feridos da vida.

Como cristãos, todos e todas temos uma responsabilidade. O início do evangelho de João, que se tem na manhã de Natal, nos diz que o Cristo é o logos, o Verbo, a Palavra de Deus, que esta Palavra se tornou humana e que ela é transportada por aqueles e aquelas que a receberam e que creem no Cristo (Jo 1,12). E aí o versículo seguinte é de uma importância capital: “Estes foram gerados não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1,13). Isso quer dizer que do Cristo ressuscitado se é porta-voz, porta-voz de Deus. Que responsabilidade!

3. Uma liberdade responsável

O Cristo de Natal nasce para libertar-nos. Ele nos liberta das trevas que frequentemente se manifestam pela opressão, o ódio, o desprezo, a rejeição, a exclusão, a injustiça, as desigualdades, etc. O Cristo também nos liberta de uma religião opressora, legalista e injusta que procura destruir o cristianismo, entupindo-o com leis e regras discrimatórias, e que quer amordaçar Deus controlando-o e recusando-lhe seu direito de palavra às mulheres e aos homens de hoje.

Os fiéis e os cristãos que tomaram distância em relação à Igreja, não é a Cristo que eles rejeitam, mas à instituição que pretende representá-lo. As pessoas não se tornaram anticristãs; pelo contrário, nossos modos de viver sempre refletem os valores cristãos fundamentais: a justiça, a liberdade, a igualdade, a dignidade das pessoas. O que as pessoas rejeitam são os gurus, os aiatolás, os ditadores religiosos que creem deter a verdade sobre Deus e sobre o mundo e que esmagam os fiéis com interditos, regras e leis que convidam à intolerância, ao ódio e ao desprezo da pessoa humana.

Na história humana, Deus se revela como um Deus de Liberdade... uma liberdade responsável. Ser livre não é fazer não importa o que, nem importa quando; pelo contrário, ser livre é ser exigente. Isso supõe uma aprendizagem no sentido de se viver juntos, tendo em conta os outros, e isso se aprende pela educação. Quando há leis ou interditos com ameaças punitivas conservam-se simplesmente as pessoas no medo de serem descobertas numa falta e isso mantém o infantilismo e a não responsabilidade. Ensinando às pessoas a se tornarem responsáveis para salvaguardar seus valores, para serem felizes, as leis se tornam caducas e inúteis. Não necessito de uma lei sobre o homicídio para não matar alguém. Aprendi a me respeitar e a respeitar aos outros. E, quando se produzem ocorrências trágicas e infelizes, não são as leis e as punições que conseguem evitá-las.... Mas é pela prevenção, pela reabilitação, pela responsabilização que se pode esperar mudar as coisas.

Concluindo, pode-se esperar celebrar o Natal neste ano? Creio que sim, se cremos verdadeiramente que o Cristo só pode nascer em nós através de nós. Desejo a todos esta Liberdade responsável, sendo nós mais humanos, a fim de nos tornarmos mais divinos.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

"Ninguém pode me tirar de junto do Pai"


Percebemos que a ideia de conciliar nossas identidades de gays e católicos muitas vezes causa um certo estranhamento ou mesmo desconforto em algumas pessoas - e, nesse caso, não só os "fundamentalistas", mas também em muitos gays não-religiosos. Em vista disso, iniciamos há algumas semanas uma série de depoimentos aqui no blog, publicados sempre às quintas-feiras, às 15h, de algumas das pessoas que frequentam as reuniões e atividades do Diversidade Católica e que se dispuseram a compartilhar, com os leitores do blog, um pouco de suas histórias e suas vivências como gays e católicos que são.

A série pode ser acessada através da tag "gay e cristão".

A cada um deles, sempre, nosso muito obrigado. :-)


Meu nome é Cristiana, tenho 37 (quase 38) anos, sou psicóloga e psicoterapeuta e casada. Desde que me entendo por gente, Deus é uma presença constante em minha vida, em meus pensamentos e em meu coração. Uma presença muito real, com quem sempre conversei e dividi minhas angústias, minhas alegrias e meus desejos, e cujas respostas sempre ouvi muito concretamente através de pequenos acontecimentos e detalhes do cotidiano. Educada em colégio católico, lembro como se fosse ontem da primeira aula de religião, no antigo C.A. (classe de alfabetização): a Irmã Maria Amélia – pequenina, um pouquinho encurvada, um jeitinho simples e mineiro de falar, levemente dentuça, sempre de saia preta e camisa bege abotoada até o pescoço – fazendo o gesto de discar na palma da mão (começo dos anos 1980, tempos dos telefones cinzentos com fio e de disco da antiga Telerj) e ensinando que “o telefone de Deus” era “a oração: o telefone do coração”. Eu tinha 6 anos, e Deus era o meu “Papai do Céu”, com quem eu ia conversar diariamente na capela do colégio antes das aulas e na hora do recreio. Conversava muito também com a “Mamãe do Céu” – uma Nossa Senhora linda e coroada, que, do altar, Menino Jesus ao colo fazendo um gesto de bênção, me olhava com benevolência e compaixão. Aos seus pés estendia-se um misterioso letreiro em latim, o lema da ordem religiosa da escola: In Sion Firmata Sum, cujo significado sempre foi um enigma para mim.

Cresci com essa relação de afeto e familiaridade com Deus. A partir da Primeira Eucaristia, aos dez anos, passei a frequentar religiosamente (sem trocadilhos) a missa aos domingos com meu pai (minha mãe ficava em casa com minha irmã pequena). Só o que me perturbava um pouco era a noção recém-adquirida, junto com a Confissão que acompanhou a Primeira Eucaristia, de “pecado”, e a necessidade de estar “limpa”, através da confissão, para poder comungar. Resultado: todo domingo eu precisava chegar meia hora antes para entrar na fila da confissão e relatar meus pecadilhos: eu menti, eu impliquei com a minha irmã, eu fiz malcriação para a minha mãe, fui desaforada com meu pai...

Ao longo da adolescência foi nascendo a sexualidade, e começou a confusão. Ouvi dizer que masturbação era pecado – e, bem, toda semana eu ia me confessar e perguntar ao padre por que. Foram muitos padres, muitas explicações diferentes, mas nenhuma me convencia. Não conseguia entender por que aquilo seria “um ato de egoísmo”. Não conseguia entender como eu estaria prejudicando alguém. Eu não indagava num espírito de confronto; simplesmente era algo que não fazia sentido para mim, e queria muito compreender.

Ali começou a surgir uma imagem de um Deus que me poria à prova, perante o qual eu teria de me justificar e comprovar meu valor; um Deus que teria para mim planos que estariam além dos meus desejos mais imediatos e, para adequar-me à sua vontade, eu teria de “purificar” a minha. De filha querida, amada e confiante no colo do Pai, fui me tornando, aos meus próprios olhos, impura. Na tentativa de mostrar-me à altura dele, merecedora de seu afeto, esforcei-me por parar de chamá-lo daquele infantil “Papai do Céu” e “amadurecer”, passando a dirigir-me a Ele como “Deus” – ainda “Pai”, mas, sem que eu percebesse, mais distante, mais severo; um Pai de desígnios misteriosos e arbitrários, que nem sempre faziam sentido para mim e que eu já não compreendia mais.

Quando me dei conta da minha homossexualidade – que sempre, sempre, sempre tinha estado ali, embora eu simplesmente não tivesse olhos para ver –, já aos 18 anos, mergulhei no inferno da dúvida. Por um lado, coisas que nunca tinham feito sentido passaram a fazer, portas e janelas se abriram e uma lufada de ar fresco invadiu meus pulmões quando entendi finalmente que não precisava me obrigar a me interessar por meninos, a flertar com os meninos, a desejar os meninos, a me apaixonar por meninos e um dia a casar com um. O fascínio e o encantamento que as meninas me despertavam (bem, algumas delas) e que desde sempre me haviam levado a escrever poesias e suspirar e ansiar por estar com elas e tocá-las e protegê-las e receber sua atenção – isso era a tal atração, o tal flerte, o tal desejo, a tal paixão, o tal amor. Agora, sim, alguma coisa fazia sentido.

Por outro lado, havia a história do pecado. Se eu estava “em pecado”, não podia comungar. Durante a Eucaristia, chorava a alma, mas, em respeito ao sacramento, “não podia” ir recebê-lo enquanto não chegasse a uma conclusão quanto a ter o direito de fazer isso ou não. E toca a ir a todos os padres que estavam ao meu alcance perguntar por que ser homossexual era pecado, sem querer me dar conta do absurdo da pergunta – desde quando “ser” alguma coisa é pecado? Se eu “sou”, não é uma escolha, não pode ser pecado, assim como não é pecado eu ser, sei lá, destra ou canhota. De novo, recebi as mais diferentes respostas, e absolutamente nenhuma fazia sentido, porque eu tinha aprendido que “pecar” era escolher fazer mal a alguém, e eu não percebia nenhum mal em sentir o que eu sentia. Um dia, depois de ouvir de um padre muito querido todas as respostas que eu já conhecia de cor e salteado, e de retorquir com todos os argumentos que eu também já tinha na ponta da língua, ele, sem ter mais como continuar, jogou a toalha: “Minha filha, você vai ter que conversar com alguém mais esclarecido do que eu. Não sei mais o que dizer a você”. Foi uma luz no fim do túnel. Talvez houvesse sentido no que eu sentia, afinal.

Já na faculdade, já declaradamente fora do armário para família e amigos, mas ainda vivendo apenas paixões platônicas, sem que nada de concreto tivesse acontecido, fui convidada um dia para um retiro de iniciação aos exercícios espirituais de Santo Inácio. Ao final do retiro, antes da celebração eucarística, fui, como sempre, me confessar. E comecei minha ladainha: “Queria saber por que ser homossexual é pecado. Não consigo entender, pois, se é amor, e se todo amor gera vida...” Nesse ponto a voz sempre embargava, e engasguei; o padre entendeu, sorriu e teve a compaixão de me poupar do trabalho de continuar. “Minha filha, você tem toda razão. Todo amor gera vida. Pode ficar em paz.” E fiquei: naquele dia, comunguei em paz, finalmente, depois de alguns anos. Meu coração estava mais livre.

Percorrer o caminho dos exercícios inacianos, de lá para cá, foi um grande aprendizado – a começar pela presença amorosa, paciente e perseverante da minha orientadora, em si mesma uma graça do Pai em minha vida. Tem sido um caminho sinuoso, de longas voltas, de constantes recomeços e reconversões, de eternos retornos. Desde então, passaram-se mais de 15 anos de um contínuo voltar-me e voltar para Deus, e nele passo a passo reencontrar o Pai amoroso da minha infância, em cujo regaço posso repousar com confiança inocente e em paz; meu “Papai do céu”, que, mesmo quando me afasto, me conduz amorosamente por suas veredas, e que, nos momentos mais sombrios, quando me sinto só e brado “Meu Deus, por que me abandonaste?”, me carrega no colo em silêncio e sem que eu perceba, deixando apenas um par de pegadas na areia.

Assim, por meandros quase nunca fáceis mas sempre de graça em graça, cheguei em 2008 ao Diversidade Católica. Aqui descobri que o amor do Pai se faz sentir no amor que recebo dos que me amam e no amor que sinto por eles: meus pais, minha irmã, meus muitos amigos e outros tantos tão queridos. Aqui aprendi a viver em comunidade a graça desse amor radiante, e finalmente entendi o “onde um ou mais estiverem reunidos em meu nome, Eu estarei no meio deles” – porque aqui o amor do Pai, a Boa Nova de Cristo, se fazem sentir concretamente, sempre que estamos juntos eu e meus irmãos.

Aqui também recebi de presente, num dia de aniversário, a mulher ao lado de quem quero caminhar e crescer e com quero dividir todos os dias da minha vida e ter filhos para os quais transmitir os valores que compartilhamos e com os quais também aprender; mulher que admiro e respeito e amo com um amor tão profundo que não cabe em mim, transborda e torna a minha vida mais luminosa e minha caminhada mais leve. A minha família é a família dela, e a família dela é a minha; e minha maior felicidade é sermos família juntas, na certeza de que temos a responsabilidade de servir como agentes de multiplicação da infinidade de graças que recebemos.

Sobretudo, descobri também que Deus não me impõe nada além do que já é a minha própria natureza e vontade, aquela que reverbera no mais fundo do meu coração. Deus, em seu amor, não me pede sacrifícios nem me propõe jogos, testes ou provas. Tudo o que ele quer é que eu seja feliz; para isso ele me preparou, e tudo o que eu devo fazer é me deixar conduzir por ele na realização daquilo que eu sou desde sempre e desde sempre me impulsiona e pulsa no meu ser.

Foi assim, por um desses carinhos sutis com que o Pai nos aconchega e faz sentir o seu amor, que recentemente decifrei um dos maiores mistérios da minha infância: o In Sion Firmata Sum, a inscrição aos pés de Nossa Senhora de Sion, lema gravado no altar que tanto me intrigava em pequena, traduz-se como “Estabeleci-me firmemente em Sião”. Sem que eu soubesse, esse lema esteve desde sempre gravado na minha alma, no meu coração e no meu nome como um sinal. Sim, de pés plantados na rocha da qual ninguém me pode arrancar, “estabeleci-me firmemente em Sião”: ninguém, nem eu mesma, pode me afastar dos sacramentos nem da Igreja dos meus irmãos.;ninguém pode me tirar de junto desse Pai que me ama sem razão nem porquê, com esse amor de uma gratuidade louca e escandalosa, sem que eu nada tenha feito para merecer. Porque, sim, desde o nascimento eu sou o que sou: Cristiana, mulher, gay, cristã, católica e filha amada incondicionalmente, irrestritamente, pelo Pai Infinitamente Amoroso, e por Ele capaz de amar, e refletir e espalhar o seu amor.

E que para sempre seja louvado.

* * *

Com este depoimento, chegamos ao fim da nossa série. Aproveito este espaço para mais uma vez agradecer a todos os que tiveram a generosidade de compartilhar suas histórias conosco e com os leitores do blog, e também para expressar minha mais profunda e sincera gratidão aos meus companheiros de jornada: Rodolfo, minha amada Zu, Marcelo, Mister MM, Hugo, o Inquieto e demais colaboradores do blog, assíduos ou bissextos, antigos ou recentes; a todos os que, de perto ou de longe, nos incentivam com suas palavras ou com sua torcida, com sua participação ou com sua presença, com seus comentários, críticas ou sugestões. A todos vocês, e a todos os meus irmãozinhos do Diversidade, muito obrigada, e que neste Natal a presença viva de Cristo renasça mais uma vez no coração de cada um de nós.

Com amor,

Cris

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Entendendo a fé (3)

Foto: i can read

Continuação do post de 27/10/11...

Ao confundirmos crença e fé, e, assim, perdermos a sua distinção, caímos na armadilha da lei, em meio às coisas que podemos definir, regulamentos que podemos impor, fórmulas específicas de credos, que justificam nossa rejeição aos outros. Mais do que qualquer outra religião, o Cristianismo caiu nas tentações do poder que a uniformidade das crenças cria.

A ortodoxia de culto da crença, o aprendizado exatamente correto das palavras, rituais, externalidades e fórmulas trai o Deus vivente por outro falso que nós mesmos construímos. A diferença precisa ser compreendida à luz da fé, até mesmo nas tradições religiosas. Todas as religiões possuem suas diferenças internas, que levam o nome de diálogo intrarreligioso. Os judeus dizem que caso você tenha três rabinos discutindo um aspecto da lei, você terminará com quatro opiniões diferentes. Sunitas e xiitas, mahayanas e theravadas, católicos e protestantes, todos sustentam convicções diferentes, dentro da mesma tradição de fé.

A crença pode ser heroica. Você pode se recusar a negar suas convicções, e poderá ficar feliz em ser queimado na pira, ou despojado de posição e status, por elas. Muitos crentes se motivaram pelas histórias desses mártires heroicos, que preferiram entregar suas vidas a negar suas convicções. Não deveríamos depreciar o heroísmo da convicção em face da opressão e da perseguição. Necessitamos força e integridade para resistir à força violenta que nos obrigaria a negar nossos princípios e convicções. Todavia, o reino espiritual não gira em torno do heroísmo. A mentalidade heroica do guerreiro, ou do mártir, se rende a um outro tipo de autoconsciência, uma vez que experienciemos a Deus como amor, em lugar de doador de fama ou glória eterna. Aquiles é admirável, mas não é um santo. Thomas More é um herói da liberdade religiosa e da integridade pessoal, mais do que um professor dos mistérios. A fé é mais do que a crença mais heroica. Ela não é apenas uma convicção sustentada apaixonadamente, por mais leal e de autossacrifício que seja essa convicção. A fé é mais do que um conceito, e mais do que um signo do leal pertencer a um grupo específico.

Trata-se do relacionamento com aquilo que acreditamos; com aquilo que acreditamos porque o experienciamos, e com aquilo que experienciamos porque somos simplesmente projetados para isso, e por isso. A fé nos mergulha na ontologia e, interminavelmente, revela toda a extensão dos mistérios do ser.

- D. Laurence Freeman, OSB
Reproduzido via site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil, com grifos nossos

In Laurence Freeman, FIRST SIGHT: The Experience of Faith (London: Continuum, 2011) pg.14-15).
Tradução de Roldano Giuntoli

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

"O amor é a maior força que existe, capaz de vencer qualquer dificuldade, mesmo quando a maior delas é seu próprio medo"

Foto: i can read

Percebemos que a ideia de conciliar nossas identidades de gays e católicos muitas vezes causa um certo estranhamento ou mesmo desconforto em algumas pessoas - e, nesse caso, não só os "fundamentalistas", mas também em muitos gays não-religiosos. Em vista disso, iniciamos há algumas semanas uma série de depoimentos aqui no blog, que serão publicados sempre às quintas-feiras, às 15h, de algumas das pessoas que frequentam as reuniões e atividades do Diversidade Católica e que se dispuseram a compartilhar, com os leitores do blog, um pouco de suas histórias e suas vivências como gays e católicos que são.

A série pode ser acessada através da tag "gay e cristão".

A cada um deles, sempre, nosso muito obrigado. :-)


Sempre acreditei na força dos testemunhos. Era a atividade que mais me comovia nos retiros que eu participava, fossem os retumbantes encontros de jovens, com suas músicas de louvores e exagerada disponibilidade, fossem os introspectos retiros de preparação para a crisma (desses últimos, aliás, eu fui socio contribuinte, não perdia um). Eram esses os momentos nos quais eu mais refletia sobre o meu pecado #1: o de gostar de coisas impuras.

Quem já foi numa igreja barroca sabe que normalmente o altar é escalonado e cada andar tem a imagem de um santo (que normalmente usa uma peruca com cabelo humano – isto é bizarro!). É como uma classificação bem dividida que começa por nós, fiéis, no chão. Depois o padre, no presbitério. Daí vem um anjo, um santo, uma Maria, Jesus e Deus. Isso tem um quê de hierarquia, uma distribuição de poderes bem denifida, assim como no "estava a velha em seu lugar", só que com personagens religiosas. Para mim a Igreja sempre foi exatamente assim: um grande coro de hierarquias encabeçado pelo Papa João de Deus, tão amado pela minha família, cujo retrato afetuoso encimava nossa mesa de jantar. Aliás, acima do papa estava Jesus, não andando ou vestindo suas roupas de época, mas pregado na cruz e olhando de ladinho aqui pra baixo, como quem quisesse dizer alguma coisa. E na minha cabeça, nessa escada estavam presentes também o meu anjo da guarda – o zeloso guardador – e meus antepassados que foram grandes personalidades lá na roça, onde se confiava em Deus e nada mais.

Eu não queria usar uma expressão chavão, pois gosto de ser exclusivo. Mas nada que eu invente daria conta de explicar melhor o fato de que "eu sempre soube". É uma m&%#@, mas é a verdade. As travas da Lapa sempre souberam, mas e daí?, são pecadores! Eu não... não sou igual a eles, devo rezar por eles e pedir forças a Deus para que consiga me livrar deste mal. Nunca acreditei em um inferno quente e péssimo, mas como ninguém prova nada, fica o dito pelo não dito e toda semana eu ia me confessar.

"Meu filho, Deus te ama. Peça forças a ele porque você é um jovem muito bom e vai conseguir se livrar disto."

"De novo né? Quer o que com isso? Hein? Vai conseguir ser pai de família assim?"

"Meu filho, não precisa vir aqui para confessar isso, eu já te falei."

"Ué, fazer o que, né, pecado mortal. Reza para Nossa Senhora te livrar do pecado".

É, nenhum dos mil padres com quem eu me confessava toda semana sabia de fato o que me dizer. Nenhum deles me convencia; aliás, essa enorme variedade de opiniões me deixava mais perdido. Mas Jesus de ladinho era quem mais me amedrontava, não pela relação de temor que eu tentava nutrir, a despeito da minha forte crença de que Deus me amava, mas porque eu nunca estive realmente a sós com ele. Jesus nunca veio falar sozinho comigo, sempre trouxe toda a galera da hierarquia, o papa, os padres e seu pessoal. E sempre quando eu tentava falar com ele, tinha que passar por esses interlocutores bizarros.

A minha vantagem era que eu nunca tinha me apaixonado por um menino. Toda a relação que eu tinha com homens era apenas sexual e isso me fazia acreditar que eu não era gay, mas apenas um cara que sentia tesão por outros caras. E até mesmo esses questionamentos acerca da relação entre a religião e minha sexualidade só aconteciam quando eu tinha alguma experiência sexual homoerótica; no meu dia-a-dia, eu me julgava super hétero e condenava abertamente o "homossexualismo". Dei inúmeras palestras nos grupos de jovens e nas aulas de crisma sobre esse assunto e não tinha medo de me posicionar contra. Não posso dizer que eu era hipócrita, pois no fundo eu realmente acreditava na opinião oficial da Santa Mãe Igreja – e, mesmo que eu sentisse o contrário, o errado era o meu sentir. Eu realmente sofria muito.

Tudo começou a mudar quando Jesus de ladinho saiu da sua cruz. Se desprendeu do madeiro no meu terceiro dia e veio falar pessoalmente comigo. Achei isso formidável, mas eu demorei muito a acreditar que era ele mesmo ali falando comigo, sem as opiniões dos mil padres, sem os antepassados, sem o João de Deus. Eu tinha me acostumado a só ouvir a voz de Jesus através dos outros e era como se ele tentasse falar comigo e imediatamente fosse cortado pelas vozes daquele séquito. Era muito difícil ouvir Jesus falar!

Conheci um menino, diferente de todos os outros, e por ele me apaixonei. Nossa relação durou cinco anos, e com ele aprendi que o amor é a maior força que existe e é capaz de vencer qualquer barreira, mesmo quando o maior obstáculo é você mesmo. O nosso amor venceu meu próprio preconceito, venceu minha própria opinião, me venceu.

Eu conheci um grupo de pessoas, diferente de todos os outros, e por ele me apaixonei. Hoje posso testemunhar porque vi com meus próprios olhos, senti com meu próprio coração, chorei minhas próprias lágrimas. Com esse grupo, que se chama Diversidade Católica, eu aprendi que o amor é a maior força que existe e é capaz de vencer qualquer dificuldade, mesmo quando a maior delas é seu próprio medo. O amor venceu meu rancor, venceu minha dúvida, venceu minha ideia de que encontrar Jesus é subir as escadinhas de um altar barroco.

Hoje eu não vou mais nos retiros de crisma, porque talvez eles tenham medo das pessoas serem o que realmente são. Descobri que os sentimentos não são impuros, nós aqui fora é que os tornamos assim. Ainda gosto de igrejas barrocas, mas as observo como uma marca histórica de um tempo em que se acreditava que Jesus precisava ser protegido do ser humano cruel e sujo e por isso foi elevado e cercado de um monte de santos, anjos e afins. Notícia: foi ele mesmo que escolheu ser um de nós, foi para isso que ele veio ao mundo! Não faz sentido apartá-lo da nossa realidade, deixem ele aqui no chão com a gente, é isso mesmo que ele quer!

(Se você não tem senso de humor, pule o próximo parágrafo e vá direto para "E eu conheci")

Em outras palavras, Jesus chegou para acabar com "estava a velha em seu lugar"! As travas da Lapa e os padres que me confessavam vão se encotrar no céu, juntamente com os santos barrocos que vão tirar suas perucas humanas e descobrir que podem ser felizes com seus próprios cabelos! O João de Deus – que já até morreu, tadinho – vai sair da mesa de jantar da minha família e desmontar aquele sorriso que já dura uns vinte anos, e Jesus de ladinho, ah! Esse sim, vai desentortar seu pescocinho, colocar suas roupitchas de época e virá abraçando todo mundo!

E eu conheci o Jesus, que hoje não fica mais de ladinho, e que é muito diferente da imagem que fazem dele por aí. Eu tenho absoluta certeza de que posso me afirmar filho de Deus pelo amor que ele tem por mim hoje, como eu sou. Foi o amor dele por mim que me deu forças para eu me amar e me aceitar como eu sou, pois se ele me ama como eu sou, eu não posso me amar de maneira diferente. Sim, eu sou gay e me amo como sou, pois Deus me ama como sou!

Beijos,

Pedro!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

"Já sofri muito por ser o que sou. Chega: sou um filho amado de Deus"


Percebemos que a ideia de conciliar nossas identidades de gays e católicos muitas vezes causa um certo estranhamento ou mesmo desconforto em algumas pessoas - e, nesse caso, não só os "fundamentalistas", mas também em muitos gays não-religiosos. Em vista disso, iniciamos há algumas semanas uma série de depoimentos aqui no blog, que serão publicados sempre às quintas-feiras, às 15h, de algumas das pessoas que frequentam as reuniões e atividades do Diversidade Católica e que se dispuseram a compartilhar, com os leitores do blog, um pouco de suas histórias e suas vivências como gays e católicos que são.

O depoimento desta semana tem uma peculiaridade: foi enviado para nós não por um membro do grupo do Rio, mas por um amigo virtual, uma das pessoas que entraram em contato conosco interessadas em iniciar um grupo de católicos gays em Belo Horizonte e nos pediram ajuda para estruturá-lo. Os grifos são do autor.

A série pode ser acessada através da tag "gay e cristão".

A cada um deles, sempre, nosso muito obrigado. :-)


Eu “amei“ em toda a minha vida, até hoje, quatro pessoas. Duas do sexo masculino e duas do sexo feminino. Somente depois de uma longa caminhada, consegui descentrar o amor romântico a fim de buscar o amor real: uma mescla de amor Eros, amor Filia e amor Ágape, além de muito suor e lapidação no cotidiano de uma relação. Tornei-me uma pessoa melhor.

Sou intenso e faço a experiência de Deus da Meditação à Teologia da Libertação. A espiritualidade, o fato de gostar de gente, literatura, música, psicanálise e a paixão por viagens contrapuseram e ressignificaram intensos sofrimentos, perdas, abuso sexual e bullying na infância.

Somente aos 42 anos, encaro a minha orientação sexual não convencional como dom de Deus. Já sofri muito por ser o que sou. Chega: sou um filho amado de Deus: Ele me ama e ponto.

Existem sete bilhões de pessoas no planeta terra. Existem sete bilhões de singularidades. Portanto, existem sete bilhões de sexualidades, porque ninguém é igual a ninguém. Hetero, bi, homo, transexual... São balizamentos importantes, mas essas denominações não podem aprisionar a vastidão do mistério que pulsa em cada coração humano: buscamos sempre Deus no outro, nossa verdadeira sede é Dele e é essa a nossa maior e melhor realidade.

Uma amiga íntima, freira, falou-me um dia: “Marcos, Deus é amor, a pessoa humana é que é um mistério...” Pura sabedoria, verdade verdadeira. Assim...

Aos 07 anos, amei pela primeira vez: uma menina de minha sala, dois anos mais velha que eu. Ela era muito feia, mas eu adorava Gláucia: a menina mais charmosa que já conheci. Ela usava óculos fundo de garrafa, tinha uma pinta preta e grande no rosto e era zarolha. A sua vivacidade, jeito de falar, dançar e ser encantavam-me. E ela levava bombom de cereja para mim e batia nos meninos que me insultavam na escola. Eu andava com a foto dela na minha merendeira e cheguei ao ápice da paixão ao entregar meu ovo de páscoa inteiro para ela, que quase desmaiou de alegria. E eu de tristeza no dia em que, ao chegar à escola, sua carteira estava vazia. E vazia para sempre. A família mudou-se para outro país para aproveitar uma excelente oportunidade de trabalho para seu pai. Ah, que dor eu sofri!

Aos 13 anos, vivi um amor platônico, experiência que todo mundo deveria ter, porque além de ser uma delícia, prepara, delicadamente, o adolescente para o namoro real. Tiago era o nome dele. Ele tinha 16 anos e um dos adolescentes mais bonitos que conheci em minha vida. Ele era o “cara”: quase todas as meninas queriam namorá-lo. E ele namorou muitas garotas, mas, coetaneamente, por uns bons anos e todos os dias, ele quase furou com sua moto, o asfalto da rua onde morava. Eu ficava no jardim, meio que escondido por entre as árvores e o coração disparado. Seus olhos negros atravessaram todas as barreiras de censura e de preconceito existentes em mim e iluminaram meu ser por inteiro. Eu não precisava de mais nada, sentia-me “pleno”, podia morrer. É engraçado: ao rememorar essas cenas, não posso deixar de falar que jamais tive qualquer fantasia sexual genital com ele. O fato de ele existir e o fato de poder todas as manhãs, na escola, vê-lo e ser visto, de ser o seu amor proibido, enchia-me de um tipo de alegria que jamais senti novamente. Nunca comunicamo-nos por palavras. Elas, hoje penso, quebrariam o encanto. Somente sorrisos, olhares e as iniciais de nossos nomes, de maneira clandestina escritos nas árvores de nosso colégio. Ao mesmo tempo, eu era coroinha e amigo do padre do bairro: nós jogávamos peteca em dupla e ele era extremamente amigo: deu-me um belo presépio em um dos natais e ensinou-me que Jesus nasce no coração de todos nós em todos os momentos de nossas vidas. Sinto que Deus enviou-me Tiago e encheu-me de uma pureza de estado de alma, que a turbulência de minha fase posterior, dos 17 aos 21 anos, não conseguiu apagar. Nessa etapa de minha vida, afastei-me da Igreja e experimentei vários namoricos e relacionamentos sexuais - corri sério risco de vida ou de contrair AIDS – até dar-me conta de que não tinha coragem e maturidade de me entregar a ninguém. Eu precisei de mais dois anos para que a homofobia silenciosa e arrasadora começasse a ser transformada em fonte de amor. Eu precisei fazer psicanálise por uns bons anos e essa foi essencial no meu processo de amadurecimento humano. Quanta dor, quanta busca: tocar o dedo nas feridas, enfrentar o inconsciente, as sombras: nossas mestras companheiras, como nos ensinam os padres do deserto dos primeiros séculos de cristianismo: “O céu começa em você “ ensinou-me o passar dos anos e o monge beneditino Anselm Grün, autor do belo livro com esse nome.

Em uma segunda-feira ao meio-dia em ponto, aos 25 anos, conheci a paixão de minha vida: Marco Túlio e três anos de relacionamento que valeram por trinta. Túlio acabava de sair do seminário, onde viveu por muitos anos. Túlio: homem de inteligência viva e ousada, que açulou minha consciência crítica, opção preferencial pelos excluídos, cidadania, direitos humanos. Através dele pude “Beber do próprio poço” com Gustavo Gutierrez; ser atravessado pela obra de Theilhard de Chardin; saborear “Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos”, “Vida para além da morte”, “São Francisco de Assis: ternura e vigor” e tantos outros magníficos livros de Leonardo Boff; tive “Fome de beleza e de pão”, aprendi o “Catecismo Popular” e vivi o “Batismo de Sangue” de um de nossos maiores escritores e profetas modernos, que é Frei Betto. Através desse relacionamento, comecei a participar de pastorais sociais, acompanhei movimentos reivindicativos em portas de fábricas, conheci a realidade dos nossos irmãos das favelas, fiz retiros espirituais com prostitutas e a experiência do sexo como expressão do amor entre dois homens. Nós dormíamos entre livros de Adélia Prado, Clarice Lispector e discos de Maria Bethânia, Almir Sater, Renato Teixeira, Simon e Garfunkel. Nós tocávamos violão e ele tinha uma voz linda. Viajávamos. Fazíamos amor nas estradas desertas e o céu estrelado, íamos a cachoeiras pouco exploradas e festas simples de interior... Como abominar esse amor gerador de tantos frutos e poucos ramos secos? Quem ousa julgar e pisar no solo sagrado de uma relação bem diferente daquilo que o sociólogo polaco Zigmunt Bauman denomina de “amor líquido“ resultado de uma sociedade em que tudo é superficial, artificial, efêmero, “líquido” que se esvai ao se deparar com a concretude do mundo atual de valores distorcidos? Somente a ignorância e o medo, mãe e pai de todo preconceito podem sustentá-lo. E é por isso que precisamos dar testemunho de nossas vidas, buscas e direitos autênticos.

29 a 40 anos
Conheci a mãe de meu maior presente de Deus: meu filho. Uma mulher extraordinária em muitos aspectos, que cuidou de mim com devoção, em momentos delicados de minha vida. E confesso: Marco Túlio, apesar das inúmeras qualidades, jamais teria dado conta de sustentar as barras pelas quais tivemos que enfrentar juntos. Não pelo fato de ser homem, mas devido à sua personalidade imatura para os momentos mais difíceis de um relacionamento. Devido ao fato de eu saber claramente sobre a predominância de minha orientação homossexual, jamais imaginei namorar e me casar com uma mulher... Mas com o desenrolar da psicanálise, minha dimensão heterossexual bloqueada e maciçamente reprimida veio à tona e eu fiquei completamente envolvido por um desejo e por um amor que nunca imaginei que me habitasse. Apavorado e apaixonado, contei tudo para ela, que linda, delicada, sensível e paciente, acolheu-me totalmente. Simplesmente aceitou-me do jeito que sou. Eu não resisti e vivi o mais profundo relacionamento de minha vida: desejo, afinidade, cumplicidade, fidelidade e filho.

Porém, jamais deixei de ser homossexual e sempre, nos sonhos apareciam os desejos e na vida de vigília uma angústia muito forte, um peso excessivo, algo muito ruim que sempre compartilhei com ela. Até que, por fim, ela foi, mais uma vez, um anjo em minha vida ao pedir a separação. Ela com muito sofrimento e de maneira delicada apontou-me que o excesso de peso era o meu ressentimento inconsciente com minha posição subjetiva no mundo: minha posição no casamento convencional. Era verdade. Parte da verdade, pois sofri as piores dores de minha vida. Óbvio que ela também apresentou limitações que ajudaram a colocar fim ao casamento. Mas, cheguei a sentir que não viveria sem ela. Separamo-nos. Isso aconteceu no início de 2009 e por dois anos fiquei muito mal. As orações diárias, a bondade de Deus, o amor de minha família e amigos e o tempo devolveram-me a alegria de viver.

Hoje, aos 42 anos, sinto-me livre para amar novamente e acredito firmemente que será um homem o meu companheiro. Porém, o maior aprendizado que fiz após essas experiências de amor e de vida é, ao mesmo tempo, o meu núcleo gerador de confiança, serenidade e alegria: independentemente do amor que eu for viver, o meu e o nosso maior caso de amor precisa sempre ser com Deus. Jesus é o amado insubstituível. somente Ele é o “cara”. E esse caso de amor é, podemos falar com toda certeza, o que nos sustenta e nos fortalece para que possamos dar o melhor de nós, aconteça o que acontecer.

Experimente desde o raiar do dia, todos os dias, louvar, amar e servir à Trindade. E você vai sentir uma transformação profunda no seu ser e na sua vida.

Com carinho, a todos vocês.

- Marcos, novembro de 2011

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O multiculturalismo fracassou?

Foto: Kees Straver

Fala-se muito do fracasso do multiculturalismo. Uma afirmação que muitos pronunciam com complacência, sem, porém, indicar qual perspectiva o substitui ou deveria substituí-lo. É verdade ou é um estratagema para alimentar temores e intolerâncias a serem instrumentalizadas politicamente? (E aqui, o que nós estamos fazendo - ou não - para promover uma sociedade verdadeiramente plural, em que as diferenças sejam vistas como iguais e não fracionadas por hierarquias e mecanismos de exclusão?)

A análise é da antropóloga italiana Anna Casella Paltrinieri, professora da Università Cattolica del Sacro Cuore, em artigo para a revista Popoli, 14-02-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU, com grifos nossos.


Angela Merkel começou há algum tempo, agora David Cameron, da Inglaterra, lhe faz eco. No meio, houve as revoltas das banlieau parisienses, os "repatriamentos" dos membros da comunidade rom romenos, as fogueiras nos campos nômades. Muitos começam a difundir a ideia: o multiculturalismo fracassou, as sociedades não podem suportar muitas diversidades culturais, a convivência pacífica entre povos e grupos pertence aos contos fabulescos, mas não responde à prova dos fatos. Verdadeiro? Falso? A questão não é acadêmica e não é de pouca importância. Convém pensar acima disso.

Não há a necessidade de ser estudioso de ciências sociais para observar nas nossas cidades, até nas menores, a presença de pessoas que vêm de todas as partes do mundo. As estações, as ruas dos centros históricos, as periferias estão há muito tempo "coloridas". Os nossos filhos têm colegas de escola chineses, africanos, latino-americanos. As cuidadoras dos nossos pais continuam sendo, em grande parte, ucranianas, romenas, russas, as empregadas filipinas, os operários nos canteiros de obras, africanos. O multiculturalismo, portanto, é um "fato", não uma teoria ou uma opção, uma questão de gostos. E, nas nossas sociedades, o multiculturalismo é um "fato" há dezenas de anos.

Então, o que fracassou? Talvez, como diz (a meu ver, justamente) o sociólogo Franco Ferrarotti, não fracassou o multiculturalismo, mas sim as políticas e as teorias sobre o multiculturalismo. Fracassaram aquelas teorias da convivência multiétnica que se revelaram incapazes de compreender e governar as sociedade multicultural. Fracassaram as políticas colocadas em ação pelos Estados para governar (ou mais frequentemente para exorcizar) a presença de pessoas com outras tradições e outros valores.

A visão britânica da sociedade multicultural continua, porém, no esquema do Commonwealth e, assim, pressupõe um pensamento que não coloque em discussão a supremacia política e cultural do mundo inglês, diante do qual as outras culturas só podem ser subalternas e "funcionais". A visão francesa assimilacionista se rege pela necessidade de tornar totalmente privada e individual a pertença cultural. Privadamente, você pode ser árabe, curdo, ganense. Em público, você é um cidadão, anônimo e incolor. Um laicismo abstrato (do qual a França é mestra até naquilo que concerne à pertença religiosa), absolutamente incapaz de compreender o estado de ânimo e a cultura do povo das banlieaux. E a visão alemã, tão radicada no binômio "sangue e solo", pensa em uma inviolabilidade do seu próprio território no qual os "outros" só podem ser hóspedes.

Essas teorias mascaram todas as ideias arcaicas de uma hierarquia das culturas, da qual descendem, como estamos bem vendo, práticas políticas e jurídicas que sustentam a legitimidade de uma hierarquia dos direitos e do acesso aos recursos. Assim, muitas políticas sobre o multiculturalismo (por exemplo na Itália) são pensadas em função da defesa do perigo representado pelos outros.

O medo (Thomas Hobbes ensina) torna-se o critério da vida associada, e o Estado, o protetor da nossa tranquilidade. Na realidade, se olharmos para a história, quando se verificou o conflito entre povos, entre comunidades, não era só por causa da diversidade cultural. Nesse caso, ocorreu porque, sobre essa diversidade, construíram-se projetos políticos que avantajavam alguns e puniam outros, porque as diferenças se radicalizaram e se tornaram intoleráveis, porque se construíram esquemas de pensamento sobre os "outros" e se pretendeu que fossem definitivos, porque se deixou que visões anti-igualitárias, frequentemente racistas, circulassem livremente na opinião pública.

A diversidade cultural é, parece-me, uma das variáveis da diversidade humana (junto com a diversidade de gêneros, de religiões, de capacidades pessoais, de idade...). Assim como as outras, deve ser tratada dentro de um esquema que tenha bem sólidos os princípios da dignidade da pessoa, da justiça, da liberdade e da igualdade. É um desafio democrático, não o fim da democracia.

''Eu ouvi os clamores da Natureza'', diz Deus

Foto: Nick Brandt

"Deus perdoa sempre; os homens, de vez em quando; mas a Natureza não perdoa nunca!", escreve Antonio Cechin, citando Santo Agostinho.

E Irmão Cechin pergunta: "Funcionará o Natal deste ano como o fecho de ouro de um ano em que vivemos melhor alfabetizados ecologicamente? Qual foi a eficiência da nossa Campanha da Fraternidade marca 2011 que termina?"

Segundo ele, "é uma avaliação a fazer sempre em final de ano, a fim de sermos dignos de qualquer Campanha que se preze. Inda mais a nossa devendo ser de fraternidade. Do contrário, teríamos que trocar o nome de Campanha por simples propaganda ou divulgação de um tema importante".

Antonio Cechin, irmão marista e miltante dos movimentos sociais, é autor do livro "Empoderamento Popular. Uma pedagogia de libertação". Porto Alegre: Estef, 2010.

Eis o artigo, aqui reproduzido via IHU.


Eis que o Natal vem aí!... E vem com força!... Com a força que Deus costuma dar ao evento que acontece ao longo de dois mil e onze anos, sem solução de continuidade.

Mas cadê os profetas?... Cadê os Isaías, Jeremias, Malaquias e tantos outros que anunciaram com grande antecedência, ao longo de todo o Antigo Testamento, a vinda do Deus Messias Salvador?...

Cadê hoje, o tonitruante João Batista, do Novo Testamento, Precursor que vinha logo aí, correndo na frente do cortejo real, gritando aos quatro ventos o nome do Justiceiro que, à semelhança de um foguista, estaria a caminho a fim de limpar a sua eira? Cortaria a árvore seca? Tocaria fogo em toda a planta que não desse frutos, a ponto de assustar a muitos que perguntavam: "E daí?... O que devemos fazer para escapar do flagelo iminente?" a que o Batista respondia: "Quem tem dois pães dê um a quem não tem; e quem tem duas túnicas faça o mesmo?"

Mas cadê mesmo os profetas de hoje? Aqueles que têm como Missão ler os sinais dos tempos para o povo, isto é, clarear os acontecimentos em sua significação mais profunda? Cadê os evangelizadores ou transmissores da Boa Nova?... Cadê os Catequistas da Libertação anunciando que o fim do cativeiro está a caminho, uma vez mais, por ocasião do Natal ano 2011, às portas?

Nos tempos que correm e que são os nossos, na falta de autênticos evangelizadores, o Deus-Amor, o Paizinho dos céus nos envia uma vez mais, o seu Filho muito amado. Em seu infinito amor O envia para um povo cada vez mais surdo e cego, sem olhos para ver e sem ouvidos para ouvir. Por isso mesmo, Ele já não fala mais do mesmo jeito que antigamente quando dizia "Eu ouvi os clamores do meu Povo". Em 2011, Ele fala com mais ênfase: "Meu Povo: Eu hoje estou ouvindo berros que são da Mãe Natureza!"

Não esqueçamos que o único Mestre Jesus de Nazaré, de uma feita, soltou a queixa: “se os profetas deixarem de gritar, as pedras falarão!” Pois não é que vivemos tempos de pedra? Já nos alertava o profeta da cidade de Hipona (norte da África) o bispo Agostinho. Ele vivia nos bons tempos chamados "dos Padres da Igreja", por terem sido fundadores de Comunidades ou Igrejas. Na qualidade de Bom Pastor, Agostinho dizia: "Deus perdoa sempre; os homens, de vez em quando; mas a Natureza não perdoa nunca!" É que, a respeito dos bons tempos de antigamente, aqueles de Agostinho, dos padres da Igreja, o escritor clássico português, padre Manuel Bernardes, contemporâneo do Concílio de Trento, em seu livro "A Nova Floresta" nos diz: "Antigamente os cálices eram de pau, mas os padres eram de ouro; hoje, os cálices são de ouro e os padres de pau!" Em tempos de pedra, não deveríamos preparar a chegança de Quem prometeu "trocar coração de pedra por coração de carne"?... Substituir ódios e guerras por amor e paz?...

Neste 2011 o Lite-motiv, isto é "o motivo condutor" da Igreja, no Brasil, é a Natureza. O lema que nos ilumina é a frase de São Paulo: "A Natureza geme em dores de parto enquanto espera a manifestação dos filhos de Deus".

Pois não é que domingo passado iniciou o ano litúrgico com o primeiro domingo do advento ou seja, a primeira das quatro semanas que preparam o Natal? Isso aqui em terra, porque da banda dos céus, o que nos veio, exatamente aqui, na região metropolitana, neste início de advento? Nada menos que um imenso toró, com uma ventania de velocidade superior a 100 quilômetros horários, destelhando centenas de casas, derrubando postes elétricos de cimento armado, pondo por terra árvores e muros, abalroando automóveis e provocando outros desastres similares. Até pouco tempo atrás, cataclismos desse tipo aconteciam como verdadeira raridade. Hoje desastres ditos naturais acontecem com sempre maior freqüência com nomes os mais diversos, tais como: tsunamis, tempestades, desmoronamentos, destelhamentos, demolições, vulcões, maremotos, e quejandos outros designativos.

É a Natureza saída das mãos de Deus que não suporta mais tanta agressão por parte dos "filhos de Deus" ingratos e que não tornam Deus manifesto de jeito nenhum. Ela, a Mãe Natureza não consegue mais suportar as agressões que recebe, de quem tem o dever de tratá-la com respeito e cuidados, como merece a obra de arte tecida pelo artista Criador.

Será que em algum lugar desta região metropolitana se estará lendo "o sinal dos tempos" tão claro como o berro que a natureza deu aqui, inteiramente perceptível para nossos olhos e nossos ouvidos, em nome do único Mestre Jesus de Nazaré?... Será que em alguma sala de aula de religião de alguma escola, ou em alguma catequese em âmbito paroquial, algum profeta, algum evangelista, algum catequista da libertação, ou em alguma homilia de missa dominical ter-se-á ligado o berro da natureza com o grande grito do Homem-Deus pregado no Calvário no instante da morte? Grito e berro naquele instante final de Vida do Mestre por excelência, se deram juntos, numa fusão homem-natureza. O primeiro, o Homem, fazendo parte integrante e inseparável da segunda, a Natureza.

Funcionará o Natal deste ano como o fecho de ouro de um ano em que vivemos melhor alfabetizados ecologicamente? Qual foi a eficiência da nossa Campanha da Fraternidade marca 2011 que termina? É uma avaliação a fazer sempre em final de ano, a fim de sermos dignos de qualquer Campanha que se preze. Inda mais a nossa devendo ser de fraternidade. Do contrário, teríamos que trocar o nome de Campanha por simples propaganda ou divulgação de um tema importante.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...