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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Três links e um brinde

Instalação: Elise Morin

Rapidinho, três links para baixar trabalhos acadêmicos de qualidade sobre a relação entre homoafetividade e cristianismo:

Via(da)gens teológicas: itinerários para uma Teologia Queer no Brasil (tese de doutorado de André S. Musskopf, Bacharel, Mestre e Doutor em Teologia pela Escola Superior de Teologia. Pesquisador nas áreas de: Estudos Feministas, Teorias de Gênero, Teoria Queer, Masculinidade, Homossexualidade e Diversidade Sexual, na sua relação com Religião e Teologia). Aqui

Homossexualidade, religião e gênero: a influência do catolicismo na construção da auto-imagem de gays e lésbicas (tese de mestrado em teologia de Valéria Melki Busin), aqui

A fé e os afetos: Diversidade Sexual, Catolicismo e Protestantismo em sites de grupos cristãos inclusivos, por Murilo Silva de Araújo e Maurício Caleiro. Trabalho apresentado no Intercom Júnior – IJ 07 – Comunicação, Espaço e Cidadania, do XVI Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste, realizado de 12 a 14 de maio de 2011. (O Diversidade Católica está aqui! ;-)) Aqui

E um brinde:
"A Igreja do Diabo", conto de Machado de Assis. Uma análise atemporal (e deliciosa) sobre ética, vícios, virtudes e humanidade... aqui (RT @Wedge_issue) #ficadica

Com amor,

Cris

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Manter viva a chama interior, desafio do cristianismo


Em dezembro de 2006, a Revista IHU On-line teve como tema a pergunta "Por que ainda ser cristão?", respondida em forma de depoimentos e testemunhos, que reproduziremos aqui espaçadamente. Esperamos com isso convidar também você, leitor, a refletir sobre a importância da fé e do cristianismo, qualquer que seja o lugar por eles ocupado em sua vida. Um forte abraço! :-)

* * *

Leonardo Boff foi um dos criadores da Teologia da Libertação e, em 1984, em razão de suas teses a ela ligadas e apresentadas no livro "Igreja: carisma e poder – ensaios de eclesiologia militante" 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1982, foi submetido a um processo pela ex-Inquisição em Roma, na pessoa do cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI. Em 1985, foi condenado a um ano de "silêncio obsequioso" e deposto de todas as suas funções. Dada a pressão mundial sobre o Vaticano, retornou a elas em 1986. Em l992, sendo outra vez pressionado com novo "silêncio obsequioso" pelas autoridades de Roma, renunciou às suas atividades de padre. Continuou como teólogo da libertação, escritor e assessor das comunidades eclesiais de base e de movimentos sociais. Desde 1993, é professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É autor de mais de 60 livros nas áreas de teologia, espiritualidade, filosofia, antropologia e mística, entre os quais citamos "Ética da Vida" (Rio de Janeiro, Sextante, 2006); "Igreja: carisma e poder. Ensaios de uma eclesiologia militante" (São Paulo: Record, 2006); e "Virtudes para outro mundo possivel II: convivência, respeito e tolerância" (Petrópolis: Vozes, 2006). Eis o que Boff falou à IHU On-Line, por e-mail, sobre o cristianismo hoje. (Grifos nossos)

O cristianismo, bem como as religiões, não quer substituir a ciência e a técnica. Estas atendem a necessidades nossas, mas são mudas e cegas quando se trata de definir o sentido da vida. O cristianismo nisso é forte. Ele afirma que estamos na palma da mão de Deus. A vida é chamada para a vida e não para a morte. Mas não qualquer vida, senão a vida transfigurada e ressuscitada, permitindo-nos viver numa profunda comunhão com Deus. Como dizem os místicos: seremos também Deus por participação.

A crença em Jesus
Jesus é uma antecipação, uma pequena miniatura daquilo que será realidade para todos na plenitude dos tempos. Nele aconteceu uma revolução no processo de evolução. A ressurreição o transfigurou totalmente e o levou ao ponto ômega da história. Como ele é nosso irmão, participaremos também deste destino.

Os valores do cristianismo
O Cristianismo nos oferece um outro olhar sobre toda a realidade. Não a vê como algo morto e sem sentido. Mas como uma criatura que nasceu do coração do Criador. Tudo é sacramento, fala de Deus, remete a Deus, vem penetrado de Deus. Assim tudo se faz templo sagrado, a formiga do caminho, o pobre da esquina, o Papa em Roma e cada um de nós. Esse olhar nos convida a sentirmo-nos filhos e filhas do Pai e Mãe celestes e irmãos e irmãs uns dos outros. Devemos tratar os outros como se Deus estivesse nascendo de dentro deles.

As relações entre fé, razão e o discurso da ciência
A ciência diz como o mundo é. A fé se admira pelo fato de que existe mundo e não o nada. A ciência traz utilidades, atende a demandas da vida e da razão. A fé responde às questões que sempre estão na agenda das pessoas. Pouco importa sua idade: de onde venho? Para onde vou? Qual o meu lugar neste mundo, no conjunto dos seres? Que posso esperar depois desta vida? A fé se especializou na resposta a estas questões para as quais a ciência tem pouco a dizer. E responde positivamente. Nós temos futuro, a vida continua e a eternidade nos espera, caindo nos braços do Deus, que é Pai e Mãe de infinita ternura.

Paulo de Tarso e os ensinamentos de Jesus Cristo
Paulo é o maior gênio teológico do cristianismo. Ele fez a ruptura necessária da matriz hebraica e criou a matriz helênica. Hoje vivemos destas duas heranças. Ele atualizou para o mundo moderno daquele tempo a mensagem de Jesus, criando uma teologia que vai muito mais longe do que é dito nos evangelhos. Por isso, ele é o príncipe da liberdade e da criatividade cristã.

Os desafios do cristianismo no século XXI
O primeiro desafio é a (des)ocidentalização do Cristianismo. Mais e mais o Ocidente é um acidente na história mundial. O cristianismo não pode ligar seu destino apenas ao Ocidente. Ele deve poder ser assimilado pelas culturas mundiais a partir de suas matrizes próprias, fazendo suas sínteses como nós fizemos.

O segundo desafio é de ordem organizacional. O cristianismo de versão católica é ainda tributário a usos e costumes medievais e das cortes européias. Ele não incorporou os valores da experiência democrática da modernidade que supõe pessoas participativas, livres, adultas. Ele ainda infantiliza demais os fiéis, marginaliza as mulheres e rebaixa os leigos. Esse é um dos motivos por que tantos estão emigrando da Igreja Católica.

Entretanto, o maior desafio é como conseguir que os seres humanos mantenham viva a chama interior, sagrada, da presença de Deus, da sacralidade de cada coisa que existe, da veneração pela grandiosidade e complexidade do universo e de respeito pelo mistério de cada pessoa humana. Se perdemos esta dimensão, corremos o risco de afundar e de se perverter o que existe de mais importante no ser humano: sua dignidade e sua capacidade de transcendência.

domingo, 31 de julho de 2011

O problema do mal


“Você acredita em Deus?” Com essa pergunta, a jornalista terminava uma longa entrevista com um conhecido esportista nacional. A resposta que ele lhe deu chamou minha atenção, porque expressa o que muita gente pensa a respeito do problema do mal. O drama e a angústia do esportista são a angústia e o drama de inúmeras pessoas, em situações, épocas e lugares diferentes: “É difícil dizer que acredito em Deus. Quanto mais desgraças vejo na vida, menos acredito em Deus. É uma confusão na minha cabeça; não encontro explicação para o que acontece. Por que é que meu filho nasce em berço de ouro, enquanto outro, infeliz, nasce para sofrer, morrer de doença, e há tudo isso de triste que a gente vê na vida? É uma coisa que não entendo e, como não tenho explicação, é difícil de acreditar em um Ser superior.”

O mal, o sofrimento e a doença fazem parte de nosso cotidiano. As injustiças, a fome e a dor são tão frequentes em nosso mundo que parecem ser normais e obrigatórias. Fôssemos colocar em uma biblioteca todos os livros já escritos para tentar explicar o porquê dessa realidade, ficaríamos surpresos com sua quantidade.

Para o cristão, mais do que um culpado, o mal tem uma causa: a liberdade. Fomos criados livres, com a possibilidade de escolher nossos caminhos. Podemos, pois, fazer tanto o bem quanto o mal. Se não tivéssemos inteligência e vontade, não existiria o mal no mundo; se fossemos meros robôs, também não. Por outro lado, sem liberdade não haveria o bem e nem saberíamos o que é um gesto de amor. Também não conheceríamos o sentido de palavras como gratidão, amizade, solidariedade e lealdade.

O mal nasce do abuso da liberdade ou da falta de amor. Nem sempre ele é feito consciente ou voluntariamente. Quanto sofrimento acontece por imprudência! Poderíamos recordar os motoristas que abusam da velocidade ou que dirigem embriagados, e acabam mutilando e matando pessoas inocentes. Não é da vontade de Deus que isso aconteça. Mas Ele não vai corrigir cada um de nossos erros e descuidos. Não impedirá, por exemplo, que o gás que ficou ligado na casa fechada asfixie o idoso que ali dorme. Repito: Deus não intervém a todo momento para modificar as leis da natureza ou para corrigir os erros humanos.

O que mais nos angustia, talvez pela gravidade das consequências, é o mal causado pela violência, pelo ódio e egoísmo. Os assassinatos e roubos, os sequestros e acidentes, as guerras e destruições são como que pegadas da passagem do homem pelo mundo. O mal acontece porque usamos de forma errada nossa liberdade ou não aceitamos o plano de Deus, expresso nos mandamentos. Quando nos deixamos levar pelo egoísmo e seguimos nossas próprias ideias, construímos o nosso mundo, não o mundo desejado por Deus para nós.

Outro imenso campo de sofrimento é o das injustiças. Quantos se aproveitam de sua posição e de seu poder para se enriquecer sempre mais, à custa da miséria dos fracos e do sofrimento dos indefesos! Terrível poder o nosso: podemos fechar-nos em nosso próprio mundo e contemplar, indiferentes, a desgraça dos outros.

Não se pode, também, esquecer o mal causado pela natureza, quando suas leis não são respeitadas. Com muita propriedade, o povo diz: “Deus perdoa sempre; o homem, nem sempre; a natureza, nunca!” A devastação das florestas e a contaminação das águas fluviais trazem consequências inevitáveis, permanentes e dolorosas para a vida da humanidade. Culpa de Deus?...

Diante do mal, não podemos ter uma atitude de mera resignação. Cristo nos ensina a lutar, combatendo o mal em suas causas. O bom uso da liberdade e a prática do bem nos ajudarão a construir o mundo que o Pai sonhou para nós. Descobriremos, então, que somos muito mais responsáveis por nossos atos do que imaginamos. Fugir dessa responsabilidade, procurando fora de nós a culpa de nossos erros é uma atitude cômoda, ineficiente e incoerente. Assumirmos a própria história, colocando nossas capacidades a serviço dos outros, é uma tarefa exigente, sim, mas que nos dignifica e nos realiza como seres humanos e filhos de Deus.

- Dom Murilo Krieger
Reproduzido via Amai-vos, com grifos nossos

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Os cristãos do futuro: místicos e inter-religiosos

Foto: R. Sanque

Se "a fidelidade à Bíblia e ao magistério da Igreja não é principalmente uma questão de palavras" – isto é, se a ortopraxia é verdadeiramente mais importante do que a ortodoxia –, então é altamente provável que uma nova definição de uma verdade de fé tradicional, capaz de permitir uma adesão mais profunda ao Evangelho, possa ser considerada como uma "reinterpretação" fiel, ortodoxa, daquela verdade da fé, "independentemente da diferença no plano terminológico". E também independentemente do fato de que essa nova definição possa nascer do diálogo com uma outra tradição religiosa.

A reportagem é de Claudia Fanti, publicada na revista Adista Documenti, nº 52, 27-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.


Está aqui, na "tentativa de distinguir entre uma nova concepção da fé, entendida como reinterpretação, ou, ao contrário, como rejeição da própria fé", que se desenvolve a aventura espiritual do teólogo norte-americano Paul Knitter, um dos maiores representantes da Teologia do Pluralismo Religioso, assim como ele mesmo a relata no livro "Senza Buddha non potrei essere cristiano" [Sem Buda não poderia ser cristão], recém-publicado pela editora Fazi (Roma, 2011, 320 páginas), a segunda publicação da coleção de livre pesquisa espiritual "Campo dei Fiori", dirigida por Elido Fazi, junto com Vito Mancuso (e inaugurada pela obra-prima do ex-frei dominicano Matthew Fox "In principio era la gioia").

Trata-se do testemunho pessoal e convincente de quem atravessou a fronteira do budismo para abraçá-lo e depois a atravessou novamente para voltar à própria religião: "O meu diálogo com o budismo – pergunta-se o autor – tornou-se um cristão budista? Ou um budista cristão? Sou um cristão que compreendeu mais profundamente sua própria identidade com a ajuda do budismo? Ou me tornei um budista que ainda conserva vestígios cristãos?".

Na realidade, como o Pe. Luciano Mazzocchi, missionário xaveriano e animador do movimento Vangelo e Zen, enfatiza na “Introdução", "quando duas tradições religiosas se fundem ao ponto de se tornarem a única energia que faz viver, então não há mais filiação alguma. Há apenas o homem que caminha".

E, no caso de Knitter, um homem que, ressalta Mazzocchi, "deu um passo até agora tentado só por poucos: vestido pela sua fé católica, emitiu o voto budista do Bodhisattva, ou seja, prometeu não querer entrar na paz do nirvana até que todos os seres não tenham lá entrado".

O caminho que leva a enriquecer a própria espiritualidade mediante o diálogo com as outras fés é, em sentido, inevitável: "O homem de hoje – continua Mazzocchi – é maior, mais vasto, mais profundo, mais complexo, mais maduro do que as tradicionais respostas religiosas e os sistemas teológicos em que estas foram encaixotadas", chegando a "experimentar a verdade como o seu modo de se relacionar com a alma que tudo pervade", consciente de que nenhuma religião é um ponto de chegada, mas só uma sinalização preciosa "ao longo do caminho da história humana".

É nesse quadro que se coloca a luta interior conduzida por Knitter com relação às "interrogações desconcertantes e desestabilizantes" sobre a natureza de Deus, o papel de Jesus, o significado da salvação: "Acredito realmente naquilo que eu digo acreditar, ou naquilo que eu deveria acreditar como membro da comunidade cristã?".

E é justamente olhando "para além das fronteiras tradicionais do cristianismo" que o teólogo é capaz de encontrar respostas mais satisfatórias e frutíferas às suas perguntas: só depois de ter "começado a levar a sério e a explorar as Escrituras de outras religiões" é que ele foi capaz de compreender mais adequadamente "o que significa a mensagem de Jesus no mundo contemporâneo".

E, entre as religiões, foi o budismo que constituiu um dos dois recursos mais úteis (o outro é a teologia da libertação), que lhe permitiram continuar desenvolvendo a sua tarefa pessoal de cristão e de teólogo, permitindo-lhe rever, reinterpretar e reafirmar as doutrinas cristãs sobre Deus (capítulos 1-3), sobre a vida após a morte (capítulo 4), sobre Cristo como Filho único de Deus e Salvador (capítulo 5), sobre a oração e o culto (capítulo 6) e sobre o compromisso para conduzir o mundo rumo à paz e à justiça do Reino de Deus (capítulo 7), na consciência de que, como admite o teólogo na Conclusão, "no final da jornada, a casa para onde eu volto é Jesus".

E se, olhando para trás, para toda a sua vida, Knitter não consegue se imaginar "como cristão sem esse envolvimento com o budismo", é claro, porém, que a sua "preocupação principal" é que "os genes teológicos que eu transmito sejam ainda cristãos, que a minha reinterpretação do credo cristão, embora verdadeiramente diferente, não seja totalmente diferente daquilo que era antes dela". Que, portanto, "este livro contribua para uma boa teologia cristã".

E, junto com essa preocupação, uma convicção e uma esperança: "Acredito e espero justamente que, se Karl Rahner tem razão ao dizer que os cristãos do futuro deverão ser místicos, eles também deverão ser místicos inter-religiosos".

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Ler a Palavra pode ser perigoso


Nunca se sabe com antecedência onde a aventura da leitura nos levará, pelo menos se aceitamos nos abrir à viagem, ao desconhecido, à descoberta, em vez de ler agarrando-nos covardemente a um monte de certezas adquiridas sempre. Ler não é dispor de um livro. O leitor se expõe ao texto e, de certo modo, é ele que está à disposição do texto e da sua palavra.

A análise é do teólogo e biblista suíço Daniel Marguerat. Foi pastor da Igreja Evangélica Reformada de 1984 a 2008 e lecionou Novo Testamento na Faculdade Teológica da Universidade de Lausanne, na Suíça.

O artigo que segue é um trecho do seu livro "Le Dieu des premiers chrétiens" (Ed. Labor et Fides, 2011, p. 249-252), publicado no sítio Garrigues et Sentiers, 14-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU com grifos nossos.

Eis o texto.


Martinho Lutero, convocado pelo imperador Carlos V para se explicar, compareceu diante da Dieta de Worms no dia 14 de abril de 1521. Tendo-lhe sido exigido que se retratasse de seus escritos que haviam sido depostos diante dele, ele respondeu com um discurso em latim, que lhe foi pedido para repetir em alemão. Ele o fez dele, em pé, no meio da assembleia, perante o imperador:

"Estou dominado pelas Sagradas Escrituras que eu citei, e a minha consciência está prisioneira da Palavra de Deus. Não posso nem quero me retratar de nada, porque não é nem sábio nem prudente agir contra a própria consciência". E ao oficial que lhe respondeu: "Abandona a tua consciência, frei Martinho. A única atitude sem perigo consiste em te submeteres à autoridade", Lutero rebateu e persistiu: "Aqui estou, não posso fazer outra coisa. Que Deus me ajude".

Curiosamente, Martinho Lutero reivindica a sua liberdade usando uma linguagem de cativeiro: estou dominado, a minha consciência está prisioneira, não posso fazer outra coisa. Não vejo nisso uma astúcia para se inocentar, porque o monge de Wittenberg não recorre a tais estratégias lamentáveis de defesa. Vejo a confissão de que ele havia embarcado em uma aventura que o arrastou inteiramente: a leitura da Palavra. E, nessa aventura, o leitor não é o mestre, mas sim a Escritura que dele se apossa. Depois de Worms, Lutero se encerrará em Wartburg: cativeiro desejado, deliberado, sinal do cativeiro da leitura.

Ler, portanto, não é sem perigo. Nunca se sabe com antecedência onde a aventura da leitura nos levará, pelo menos se aceitamos nos abrir à viagem, ao desconhecido, à descoberta, em vez de ler agarrando-nos covardemente a um monte de certezas adquiridas desde sempre. Ler não é dispor de um livro. O leitor se expõe ao texto e, de certo modo, é ele que está à disposição do texto e da sua palavra. Ler pode ser perigoso.

Parece que dos relatos de milagre à linguagem do julgamento, de Lucas a Paulo, dos Atos dos Apóstolos ao Apocalipse, as imagens de Deus são infinitamente mais diferentes do que se pensava. O Novo Testamento não abriga uma doutrina, mas expõe diversas abordagens de Deus, ou mais exatamente reúne diversas tentativas de dizer o mistério de Deus. Ler é arriscado. O risco aqui é de volatizar a unidade do Novo Testamento. Ainda é possível falar de “um” Deus dos primitivos cristãos?

Avaliemos a extensão dessa constatação. Essas diversas imagens de Deus, exumadas pela leitura, não são simplesmente adicionáveis umas às outras, como se, acumulando os autores do Novo Testamento, sobrepondo suas percepções de Deus, se obtivesse assim um retrato completo do Deus dos primeiros cristãos.

Constatou-se que os seus discursos não podem ser colocados simplesmente um depois do outro de ponta a ponta. O apóstolo Paulo tem um modo de significar a graça, com a sua convicção poderosa de que a barreira da Lei caiu, que não concorda imediatamente com a teologia de Mateus, para a qual o Reino é uma fenda, uma porta estreita através da qual devemos passar. Lucas se obstina em perceber Deus na espessura da história social e política do seu tempo, enquanto que o Apocalipse vive da convicção de que Deus se ausentou do mundo.

Gálatas 3, 28, perpetuando o gesto libertador de Jesus, abole toda prerrogativa do homem sobre a mulher, mas, na outra ponta do Novo Testamento, as epístolas pastorais delineiam o retrato de uma mulher destinada ao silêncio, convocada a se submeter ao homem e responsabilizada pela queda (1 Timóteo 2, 9-15; 5, 3-16). A unidade do Novo Testamento não se fará por adição.

É preciso, então, se resignar à constatação de uma Escritura dividida em posições teológicas irreconciliáveis? O Deus dos primeiros cristãos seria o emblema de teologias disparatadas? Eu diria que devemos admitir a irredutível diversidade das imagens de Deus no Novo Testamento, e que esse consentimento passa por um luto: o luto da uniformidade. Só a renúncia à utopia da identidade nos faz acolher a pluralidade como um fato positivo, e não como uma ameaça. A unidade do Novo Testamento não é suspensa pelas semelhanças que se encontrariam nos seus autores inspirados. Ela está na “sua comum vontade de dar conta do evento do Cristo”. Jesus de Nazaré, pelo fato de todos os relatos e os discursos tenderem a ele, cimenta a unidade do Novo Testamento.

Mas atenção. Essa unidade está em tensão. Os primeiros cristãos, cada um à sua maneira, acolheram e atualizaram na sua situação a memória de Jesus. A sua diversidade indicaria que alguns preservaram fielmente a mensagem do Nazareno, enquanto outros a teriam distorcido?

Desconfiemos desses termos, porque a "fidelidade à tradição de Jesus" que consiste em fixá-la para transmiti-la palavra por palavra é, na realidade, uma infidelidade fundamental. Ela faz da palavra de Jesus um objeto de museu, uma palavra a ser incensada assim como incensamos os mortos. Os primeiros cristãos não tinham essa visão fixa da tradição. A palavra de Jesus, por ser a palavra do Senhor presente na Igreja, devia ser atualizada. Para eles, “ser fiel a uma tradição impõe que ela evolua e se desenvolva”. Prova disso é que a escritura dos Evangelhos não esgotou o fluxo das tradições orais, sinal de que até essa imponente cristalização literária não havia esgotado a memória de Jesus. A Igreja antiga, além disso, manteve só uma parte dos escritos cristãos para fazer a sua seleção normativa da sua fé. Muitos outros, que nós conhecemos em parte, foram descartados e ainda amplificam consideravelmente a diversidade da qual falamos. Mas essa é uma outra história.

Os primeiros cristãos engajaram a sua fidelidade a Cristo por vias teológicas diferentes, e o Novo Testamento vive da reunião dessas fidelidades. Paulo é fiel à memória de Jesus quando afirma que a dignidade do homem lhe vem apenas de Deus e que a salvação não é uma performance religiosa. Mateus é fiel à memória de Jesus quando repete obstinadamente que a fé se concretiza por meio do gesto e da palavra, senão não existe. Lucas é fiel à memória de Jesus quando vê o Espírito de Deus em ação nas peripécias da missão. O autor do Apocalipse também é fiel quando defende que os poderes opressivos já foram vencidos na cruz, e que o seu julgamento é apenas uma questão de tempo.

O Novo Testamento vive da acolhida dessas fidelidades, cuja diversidade chega até o desacordo, e as mantém unidas. Ele pode fazer isso, porque os testemunhos e os sistemas teológicos que ele reúne não convidam a adotar um princípio, uma norma, uma doutrina, mas sim a seguir alguém, Jesus de Nazaré, o Cristo, Parábola de Deus. A fidelidade a uma pessoa não se satisfaz com uma uniformidade, e o Espírito se encarregou de fazer com que os primeiros cristãos compreendessem isso.

Gerir a sua herança hoje é resistir ao fantasma totalitário do discurso único e arriscar, ao mesmo tempo, uma palavra. Uma palavra que deverá se submeter humildemente ao testemunho das Escrituras, para saber se elas têm lugar, e como, no espaço das fidelidades a Cristo. Mas uma palavra que – e justamente se se afastar do discurso majoritário – talvez poderá não ser totalmente a nossa, porque nela fala uma Outra Palavra, que faz dizer: não posso fazer outra coisa...

domingo, 24 de julho de 2011

Sexo: obediência e revelação


"A sexualidade humana é o núcleo de toda a agitação católica que o Papa e o Vaticano ainda se recusam a enfrentar e a discutir de forma realista." A análise é de Richard Sipe, conselheiro em saúde mental clínica, que viveu por 18 anos como monge beneditino e sacerdote. Fez sua formação específica para tratar de padres católicos com problemas de saúde mental. O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 01-06-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, reproduzido via IHU com grifos nossos.


O teólogo Yves Congar disse uma vez: "Na Igreja Católica, muitas vezes pareceu que o pecado da carne era o único pecado, e a obediência, a única virtude". Essa dicotomia dinâmica forma a chave para a estrutura de toda a crise dos abusos sexuais do clero que atualmente envolve a Igreja Católica.

Mas o abuso sexual de menores por clérigos que fizeram o voto do celibato é apenas o sintoma de um sistema desesperadamente necessitado de uma reconsideração fundamental.

A sexualidade humana é o núcleo de toda a agitação católica que o Papa e o Vaticano ainda se recusam a enfrentar e a discutir de forma realista.

Em 1990, um bispo que voltava de Roma me disse que o Papa João Paulo II instruiu pessoalmente cada novo bispo para que "não discutisse em público" o controle de natalidade, o sacerdócio casado, a ordenação de mulheres, o aborto e o conjunto de questões celibato/sexuais que constituem um agenda que os teólogos têm apontado há décadas como sendo precisamente o "emaranhado de questões que entopem" a agenda católica.

As lideranças católicas romanas não conseguiram lidar de forma confiável e transparente com toda a sexualidade humana. William Shea apresentou o desafio de forma mais elegante ainda em 1986, quando listou as questões que precisam ser discutidas: "o divórcio e o recasamento, o sexo pré-marital e extraconjugal, controle de natalidade, aborto, homossexualidade, masturbação, [ordenação de mulheres, celibato mandatório] e o monopólio masculino do liderança". Ele opinou que o medo e talvez o ódio às mulheres podem estar no fundo dos problemas eclesiais.

Seria hipócrita protestar que a Igreja tem discutido essas questões ou convida para o diálogo sobre a sexualidade humana. É verdade, o Vaticano tem feito pronunciamentos e declarações sobre cada um dos itens da lista, mas nenhum deles convida ao diálogo. A observação de Congar se confirma. Sexo é tudo pecado. Virtude é submissão e obediência à autoridade e seus ditames.

Apesar do esforço de quatro anos do Papa João Paulo II para definir uma Teologia do Corpo, ele nunca transcendeu algumas das restrições básicas da doutrina da Igreja de que o sexo é pecado. O sexo continua sendo admissível e sagrado apenas dentro de um casamento válido.

Um problema crônico com os pronunciamentos da Igreja sobre o sexo é o uso da ideia de lei natural, assim como eles o definem e aplicam. O Vaticano apresenta a sua interpretação da natureza sexual humana como uma determinação absoluta. Eles isolam a ideia e impõem-na como um instrumento de controle. A abordagem não reconhece que o direito natural também é o guia prático e razoável inerente à consciência independente da revelação. Muitos católicos usam a lei natural como o mapa para orientar seu comportamento sexual. Por exemplo, a lei natural muitas vezes ultrapassa os ditames da "Humanae Vitae" em matéria de planeamento familiar. Alguns comportamentos tachados pela Igreja como "contrários ao direito natural" (masturbação como um exemplo dentre muitos) devem ser abertos ao exame e ao diálogo nas mentes e nos corações de muitos católicos sérios.

"Intrínseca" é uma palavra da Igreja que impede qualquer possibilidade de conversa. O controle da natalidade é apresentado como intrinsecamente mau; assim como o aborto; e a masturbação. Sexo com uma garota menor de idade, porém, não é considerado intrinsecamente mau, só pecado grave.

Os atos homossexuais são "intrinsecamente desordenados". Um documento de 1986, de autoria do cardeal Joseph Ratzinger, declarou que a orientação homossexual, embora não pecaminosa em si mesma, "é uma tendência mais ou menos forte e ordenada a um mal moral intrínseco; e, portanto, a própria inclinação deve ser vista como uma desordem objetiva". Como se o conceito de Pecado Original não fosse suficiente para abranger todos os seres humanos de qualquer orientação ou inclinação.

A definição de sexo como pecado estabelece e mantém um controle autoritário, porque bispos e padres (apenas) têm o poder de perdoar o pecado mortal. Eles são senhores sobre o território interior da alma onde as violações secretas são armazenadas. Exige-se que os católicos apresentem seus graves pecados na confissão sacramental para a absolvição de um sacerdote pelo menos uma vez por ano. Todos os pecados sexuais, claro, são graves, de acordo com a doutrina católica.

A operação de bispos em toda a crise dos abusos sexuais do clero demonstra sua crença de que o sexo com menores de idade com um clérigo é essencialmente pecaminoso e só secundariamente criminoso. Essa postura clerical levou às revelações do dano monumental além da exposição da arrogância clerical impenitente.

Dentro do sistema clerical, o padre abusador arrependido é facilmente perdoado – repetidamente – pelo poder da absolvição. A criança-vítima inocente é abandonada ao fardo psíquico imerecido de culpa e vergonha. Desde 1946, a Igreja estabeleceu uma série de centros de tratamento para o conforto e para ajudar a controlar o clero abusador. A atitude de desprezo para com as vítimas de abuso como adversários incômodos está em claro contraste com a preocupação protetiva e tolerante para com os clérigos.

Sob uma forte pressão pública desde 2002, a Conferência dos Bispos dos EUA (USCCB) instituiu medidas para educar os funcionários e seus filhos sobre os abusos – toques bons e ruins. Auditorias diocesanas para avaliar a conformidade com a Carta de Dallas, coleta de impressões digitais e protocolos para a contratação de pessoal na Igreja e mais coisas estão agora em vigor. Mas a Igreja realmente alterou qualquer um dos seus entendimentos da dinâmica sexual humana em resposta às evidências de atividade sexual do clero e de pervertidos celibatários? A autoridade da Igreja é transparente e responsável com relação a isso?

Apesar das concessões atuais sobre a denúncia de crimes do clero às autoridades civis, o poder clerical sobre o pecado sexual continua sendo construído e executado com a convicção de que a determinação da Igreja resume o conhecimento do próprio Deus e a lei imutável sobre o sexo humano. Na sua avaliação, os bispos ainda prevalecem como os juízes finais dos comportamentos sexuais, apesar das reverências ao direito e aos tribunais civis que funcionam apenas de acordo com as leis inferiores do homem. Relatórios do Grande Júri e depoimentos de padres e bispos em processos civis de abuso do clero fornecem exemplos berrantes dessa atitude improvisada.

Os representantes da Igreja que já declararam que a crise dos abusos sexuais é "história" e seus representantes de investigação que estimam que o fenômeno foi de tempo limitado e "acabou" não entendem nem a história do celibato religioso, nem as reais dimensões da crise atual. Sua imaturidade faz um grande desserviço à Igreja, aos padres e ao povo.

Entrelaçados dentro das fibras do magistério sexual católico e da operação do celibato estão fatores irresolvidos que tornam o comportamento imoral, as vidas secretas e os padrões sociopatas de ajustamento de personalidade não só comuns, especialmente nos altos escalões do poder, mas também totalmente inevitáveis em inúmeras vidas clericais. As questões irresolvidas formam um sistema doente.

A insistência do Vaticano de que todas as perguntas sobre a sexualidade humana estão resolvidas e fora de discussão – resta à pessoa apenas obedecer e se conformar – leva importantes decisões da vida para fora do domínio da inquisição, da responsabilidade e da decisão moral. A recusa do Papa e do Vaticano de entrar em um diálogo sério sobre a agenda celibato/sexual retirou da Igreja a sua liderança e sua credibilidade moral e tem sido um componente essencial da crise dos abusos sexuais do clero católico em todo o mundo.

É impossível que a autoridade da Igreja restabeleça até mesmo um pouco de respeito e de credibilidade enquanto não puder discutir aberta e honestamente toda a gama de questões sexuais que afetam tão vitalmente o bem-estar humano.

“A fé é a entrega radical a Deus”

Foto: Jeff Clow

Em dezembro de 2006, a Revista IHU On-line teve como tema a pergunta "Por que ainda ser cristão?", respondida em forma de depoimentos e testemunhos, que reproduziremos aqui espaçadamente. Esperamos com isso convidar também você, leitor, a refletir sobre a importância da fé e do cristianismo, qualquer que seja o lugar por eles ocupado em sua vida. Um forte abraço! :-)

Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, em Letras Neolatinas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), em Teologia pela Hochschule Sankt Georgen, em Frankfurt, Alemanha, o João Batista Libânio, SJ, é também mestre e doutor em Teologia, tendo cursado o seu Doutorado na Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG) de Roma. Libânio leciona Teologia no Instituto Santo Inácio de Belo Horizonte, e é autor de diversos livros publicados.

A relevância de Jesus e sua mensagem
A epístola aos hebreus manifestou certeza impressionante ao afirmar que “Jesus Cristo ontem e hoje é o mesmo também pelos séculos” (Hb 13, 8). O autor ousou dizer logo no início do cristianismo que Jesus tinha valor e significado permanentes. E vinte séculos depois fazemo-nos a mesma pergunta e damo-nos a mesma resposta. Se Cristo permanece até hoje com extrema significação, ser seu seguidor participa da mesma relevância. E por quê? Distingo três níveis de relevância de Jesus e, por conseguinte, de adesão à sua mensagem.

Em nível puramente sociocultural. A proposta de sociedade feita por Jesus conserva enorme atualidade e permanece ainda no nível da utopia, tão grandiosa fora. Depois de dois milênios os humanos não conseguiram, embora tivessem tentado de várias formas, realizar o projeto humano de convivência imaginado por Jesus. Os princípios básicos são extremamente simples na formulação. Indicarei alguns deles. A lei fundamental da relação humana define-se pelo mandamento novo de que nos amemos uns aos outros, assim como o Senhor nos amou (Jo 13, 34). E como ele nos amou? Até o perdão dos inimigos: “Pois eu vos digo: Amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, para serdes filhos de vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 44s). E no sermão escatológico teceu a página do amor anônimo: dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, acolher os estrangeiros, vestir os nus, visitar os doentes e encarcerados (Mt 25, 35). Imaginemos uma sociedade construída sobre esse alicerce do amor radical e preferencialmente pelos segregados sociais. Se muitos consideraram o saldo positivo maior do primeiro mandato do Governo Lula a bolsa família, que pensar de toda a sociedade estruturar-se em torno da proposta de Jesus e não simplesmente um programa periférico? Vale a pena socioculturalmente empenhar-se em tal utopia. O sonho socialista hauriu muito da proposta de Jesus. Mas fracassou porque esqueceu um ingrediente necessário para Jesus: tal opção pelo amor não vem imposta, mas nasce da conversão do coração. S. Paulo usa a expressão de “homem novo” em contraste com o homem velho, feito de egoísmo, da autopromoção, altamente cultivado na sociedade capitalista.

Alcance universal
A sociedade moderna da técnica e da ciência permanece fundamentalmente no nível dos meios, dos instrumentos. Não atinge os valores. E a proposta de Jesus ultrapassa tal patamar. O alcance universal lhe vem precisamente por não se deter na imediateidade instrumental, que está sempre a variar, mas em falar à dimensão última do ser humano enquanto pessoa e sociedade. Por isso guarda valor definitivo e não presas a conjunturas geoistóricas.

A proposta de Jesus vai além do projeto histórico-social. Afeta a visão e a compreensão de Deus. É religioso. Aqui também mantém atualidade e relevância única. A imagem de Deus nas culturas oscila entre dois extremos. As tradicionais alimentam a onipotência e a arbitrariedade de um Ser Supremo que os ritos administrados pelos sacerdotes apaziguam. Daí vem o poder sacerdotal até às raias do despótico. Dele o povo simples, temeroso depende e a ele se submete. A cultura moderna lançou fora tal domínio de Deus. No primeiro momento, pensou-se que foi libertação. No entanto, ao defender o ateísmo, ela gestou vida sem sentido e sociedade sem fundamento ético. O preço não foi menor. Em vez do poder clerical, outros assumiram-lhe o bastão não menos severo e ameaçador. A relevância da proposta cristã manifesta-se precisamente em contraposição aos extremos. Liberta-nos das carrancas divinas, do poder totalitário da religião ao anunciar um Deus Pai. O amor é-lhe a natureza do próprio ser. Logo tudo o que se opuser ao amor contradiz a figura do Deus cristão. Em resposta ao secularismo ocidental, oferece fundamento absoluto para a ética: Deus amor. Ela não se tece de mero consenso, laboriosamente construído entre nós, mas decorre da exigência do amor ao irmão, fundado no amor de e a Deus. O amor é a única realidade que consegue vincular internamente a liberdade sem ser opressão. Paulo formulou-o com clareza ao dizer que a única coisa que nos obriga é o dever da caridade. “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, a não ser o amor com que deveis amar-vos uns aos outros. Porque quem ama o próximo, cumpriu a Lei” (Rm 13, 8). O anúncio de um Deus que é Pai e amor guarda enorme atualidade.

Mais profundamente, ser cristão permanece ainda mais claramente válido. Ser cristão significa seguir a Jesus Cristo, filho de Deus. Deus nunca é transitório. Não se pode crer em Deus por um tempo. Já não seria crer. Tudo que afeta a Deus é absoluto, definitivo. As mudanças culturais tocam unicamente maneiras concretas de expressar a condição cristã, mas não põem em questão o fato de ser cristão. Enquanto Deus for Deus, ser cristão, aderindo a ele na pessoa do Filho, manterá sentido. A realidade cristã se desfaria se o último sentido da realidade humana fosse o nada, o absurdo. Mas se for o Ser, o Sentido, vale a pena entregar-se àquele que é a palavra escatológica de Deus na história: Jesus Cristo.

“A fé não é racional, mas razoável”
Antes de tudo, a fé não se dependura no final de um raciocínio. Isso é filosofia. Nem se baseia na evidência de fatos constatáveis. Deixemo-lo para as ciências. A fé existe primeiro como dom de Deus. A iniciativa vem de cima. Aí está o conteúdo central da conversa de Jesus com Nicodemos. Faz-se mister nascer do alto, da água e do Espírito, para ver o Reino de Deus, isto é, para seguir a Jesus, ser cristão (Jo 3, 3). Tudo começa com o primeiro toque de Deus. J. Alfaro, nas pegadas de Santo Tomás, usa a bela expressão que a fé se inicia no coração humano por meio da “atração da Verdade primeira”. De dentro da fé, buscamos razões de credibilidade que nos permitem justificar a nós mesmos e a outros que o peçam a “razoabilidade” da fé em Cristo, do fato de ser cristão. Há duas palavras parecidas, mas de sentidos bem diferentes a respeito da reflexão em curso. A fé não é racional, mas razoável. Não é racional, como dissemos acima porque não se conclui com evidência de nenhum argumento racional. Crer ou não crer não resulta de ser inteligente ou rude, intelectual ou iletrado. A fé não se deixa reduzir totalmente às categorias da racionalidade humana de alguma filosofia. No entanto, é razoável. Significa que não renunciamos a racionalidade de ser humano para crer. Portanto, é dolorosamente falsa a afirmação repetida por alguns que se julgam heróis na fé: “creio porque é absurdo”. No absurdo, não se pode crer. A fé é entrega radical a Deus. E o cristão reconhece em Jesus o Filho, o enviado, o mensageiro escatológico de Deus. E por isso crê nele. Para tal encontra mil sinais de credibilidade, de razoabilidade por meio do testemunho dos discípulos e da longa Tradição de dois mil anos de fé cristã. As mudanças culturais pedem contínuas reinterpretações da maneira de ser cristão e do conteúdo fundamental dessa fé.

Trindade, ressurreição e parusia
Agora falarei sobre esses três pontos importantes: Trindade, ressurreição e parusia ou vinda gloriosa final de Jesus. De cada uma indicarei um elemento de razoabilidade para a cultura moderna. Para a Trindade, basta citar a bela frase de L. Boff: “No princípio está a comunhão dos Três e não a solidão do Um”. Confessar a Trindade significa, entre outras coisas, dizer que o último fundamento do ser humano é a comunhão com os outros e com o Outro, e não a solidão egoísta. Imaginem as conseqüências de asserção tão densa e profunda para uma economia, política e cultura da comunhão. A ressurreição afirma que nada do ser humano de bondade e de justiça se perde e que ele, na totalidade – isso significa corpo e alma –, viverá da e para a eternidade de Deus. Somos cidadãos eternos.

A parusia afirma a glorificação geral da história e do cosmos, passando pelo ato purificador e recriador de Deus. Tais verdades da fé cristã apontam valores que ajudam a conviver melhor com os outros seres humanos, com os animais e com a natureza. Na base da convivência, está a comunhão. Se o cristão se convence de que se origina da comunhão trinitária e anuncia-a aos outros, resulta-lhe a necessidade de antecipar nas sociedades terrestres a comunidade que será o convívio eterno. A ressurreição e a parusia mostram a raiz última e profunda do respeito na relação com as coisas. Não se trata unicamente do argumento centrado no ser humano de que o ecocídio nos destrói a nós também, mas avança-se a uma sacralidade transcendente. Base para a mística ecológica.

Fé e razão – incompatíveis ou complementares?

Tal foi o tema central da luminosa encíclica de João Paulo II Fides et ratio. Funda-se na lídima tradição tomista. Deus é o principio de ambas. A revelação é autocomunicação de Deus ao ser humano em vista de sua salvação. O fiel, que crê, estriba-se nela. Acolhe-a como fundamento último de sua existência e salvação. A razão humana é criada por Deus como a faculdade feita para a verdade. Deus é a verdade no ser e os conhecimentos humanos participam de tal verdade. Qualquer choque vem de falsa intelecção de uma das duas realidades ou de ambas. Portanto, cabe dialogar para elucidá-lo. Na imagem de João Paulo II, fé e razão são as duas asas para voarmos até Deus. Seguindo ainda o itinerário do Papa, quando fé e razão se divorciam, ambas sofrem detrimento. A fé perde a necessidade de buscar razoabilidade e razões que a ajudem a perceber que ela é um ato do ser humano. Cai facilmente em emocionalismo, fanatismo, fundamentalismo, perigosos pela inerente irracionalidade. A razão, ao afastar-se da fé e ao arvorar-se em última instância de verdade e de bem, corre o risco do desvario orgulhoso, da autonomia absoluta, que, quando se percebe frágil e ameaçada pelo erro, arrisca viver no provisório sem horizontes de transcendência. E assim abdica da dignidade de chegar à Verdade para a qual foi criada, contentando-se com o regime de verdades fracamente relativas, sem garantia de universalidade e definitividade.
Se parece tão simples a relação entre fé e razão, por que tantos problemas, não só no passado, mas até hoje? A revelação de Deus, absoluta e fundamento da fé, é transmitida no interior da cultura humana passageira e limitada. Confundir tal condição do conhecimento humano com a incapacidade de atingir a Deus abre espaço para negar qualquer valor e verdade absolutos. Do lado da fé, importa ter lucidez para distinguir aspectos relativos próprios de toda linguagem humana e a realidade absoluta do Deus que se revela a si e o desígnio salvífico que são absolutos. E do lado da ciência, cabe também distinguir em que ela tem palavra a dizer sobre aspectos equivocados da linguagem da Revelação, e nisso purificar os conhecimentos religiosos, e em que ela pretende ultrapassar o próprio horizonte de saber, querendo negar o Absoluto da revelação. Portanto, resta um só caminho: lúcido, corajoso e livre diálogo com a consciência dos limites do próprio saber e da originalidade e peculiaridade do outro.

O cristianismo no século XXI
No livro Qual o futuro do Cristianismo. São Paulo: Paulus, 2006, apontei alguns deles. Os tempos pós-modernos em que vivemos caracteriza-se por doentio presentismo, corroendo a esperança e as utopias. E como o presente favorece os países, classes e indivíduos ricos, a cultura pós-moderna acaba por ser politicamente reacionária. Conseqüentemente acentuam-se os traços hedonistas e consumistas. O cristianismo, ao encarnar-se na história humana, em profunda comunhão com as classes desprezadas, foi embalado, desde o início, por perspectiva de esperança e por traços escatológicos. E nisso alimentou a história da utopia no Ocidente (J. Servier, Histoire de l’utopie. Paris: Gallimard, 1967). Com o triunfo da Cristandade, ele julgou ilusoriamente ter realizado o projeto do Reino de Deus e sedou a ânsia utópica. Hoje vivenciamos barbáries não menores que as piores vistas na história. Implantou-se terrível situação de injustiça social para os pobres. E, mais uma vez, o cristianismo é provocado a empunhar a bandeira utópica da libertação dos pobres, da civilização do amor, da sociedade das bem-aventuranças. Tarefa hercúlea.

A secularização vem amadurecendo a ponto de estar já produzindo o fruto sazonado do secularismo ateu. Em tal situação extrema, encontra-se o cristianismo diante do dilema do silêncio da teologia da morte de Deus ou do anúncio profético de Deus. Mas não de qualquer Deus. E sim do Deus do amor. E isso continua válido onde o secularismo se impõe. Nessa linha, tem escrito com enorme pertinência o teólogo espanhol Andrés Torres Queiruga.

Paradoxalmente assistimos ao reverso do fenômeno: a explosão religiosa. Então o desafio é outro. Com as grandes tradições religiosas não-cristãs impõe-se o lúcido diálogo inter-religioso em que a clareza das próprias identidades se confronta com a positividade das alteridades de modo que no final todos saiam enriquecidos. Entre as denominações cristãs, o diálogo ecumênico faz-se ainda mais imperioso. Nalguns casos já vai avançado e em outros esbarra com problemas no campo dos ministérios e dos sacramentos. E diante da atmosfera religiosa que se carrega de tanto magnetismo difuso de denominações pentecostais e neopentecostais, Nova Era e expressões religiosas altamente exóticas, cabe ao cristianismo a tarefa de verdadeira evangelização. Anunciar, como fez no Império Romano, para dentro do pânteon a originalidade de Jesus Cristo que converte e assume de modo que surja um cristianismo com novos rostos.

Crise ética
O mundo moderno vive gigantesca crise ética que afeta grandemente a convivência humana, a política e a relação com a natureza. A proposta cristã orienta-se na linha de uma ética do cuidado (L. Boff, Saber cuidar: ética do humano - compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes, 1999) que atinge o conjunto das relações, da ética na política que se contrapõe a tsulama atual e uma ética ecológica que cria nova concepção de ser humano em face da natureza.

Na limitação do espaço, indico mais um desafio para finalizar. O cristianismo iniciou a carreira histórica sob o impacto da ordem de Jesus: “Ide, pois, fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo quanto vos mandei. Eis que eu estou convosco, todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 19-20). E tentou fazê-lo geograficamente, ao levar a todas as regiões do mundo a mensagem já pronta. Hoje é impensável impor uma cultura às outras. Desafia-nos, portanto, a inculturação em profundidade, sobretudo nas culturas do Oriente, da África e em regiões da Ameríndia. Mas o mais grave é que se constrói no próprio Ocidente de alta tecnologia nova subjetividade devedora a nenhuma cultura exótica, mas fabricada pela tecnociência. A pretensão é plasmar artificialmente o sujeito humano por meio da biotecnologia já acessível. E isso transforma a consciência ocidental, não só daquele que será fabricado de outra maneira diferente da do amor conjugal humano, mas, sobretudo, daquele que se julga doravante ser criador e senhor também da vida humana de modo que nunca tinha sido. Próximo para não dizer igual ao do Criador. Como anunciar o evangelho à cultura da biotecnologia? Tornando mais complexa a situação de tal novo sujeito, à biotecnologia avançada soma-se a tecnologia da comunicação transformada em nova cultura. Nesse universo novo, altamente artificial e produzido pela fábrica humana, cabe ser cristão e testemunhar aquele que se fez pobre entre os pobres, pequeno entre os pequenos. Contraste fabuloso. Na sociedade por excelência do conhecimento, desafia-nos testemunhar o Logos divino, que, ao fazer-se carne e história, não optou por escrever nem por deixar obras folhudas, nem por trilhar o caminho dos poderosos e intelectuais, mas pregou na linguagem simples e pobre do povo. É o paradoxo de um Paulo anunciando no areópago o Cristo morto e ressuscitado alheio à cultura grega. No imenso palco da sociedade dos avanços tecnológicos e científicos, anunciamos o camponês e artesão da Galiléia de parábolas rurais e ribeirinhas. Eis o desafio!

sábado, 23 de julho de 2011

Sobre a ordenação de mulheres


Nas últimas duas semanas, a ordenação de mulheres alcançou grande relevo nos meios de comunicação, por causa de declarações inesperadas do cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo. Numa entrevista publicada no Boletim da Ordem dos Advogados, declarara que "teologicamente não há nenhum obstáculo fundamental" à ordenação de mulheres (aqui). A recusa está baseada apenas na tradição.

A declaração teve eco em importantes órgãos de informação estrangeiros. Tanto mais quanto aparecia pouco tempo depois de um bispo australiano ter sido demitido devido à mesma abordagem do tema, e o vaticanista Andrea Tornelli fez notar que a declaração ia contra a doutrina afirmada por João Paulo II e Bento XVI.

Como seria de prever, choveram os protestos, provindos, segundo se diz, sobretudo do Opus Dei e do próprio Vaticano. As reacções, algumas de "indignação", obrigaram o patriarca a um esclarecimento, recuando. Nele, confessa a necessidade de "olhar para o tema com mais cuidado", acrescentando: "Verifiquei que, sobretudo por não ter tido na devida conta as últimas declarações do Magistério sobre o tema, dei azo a essas reacções." E reproduz a carta Ordinatio Sacerdotalis, de João Paulo II: "Declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja."

Quando se pensa, vê-se aqui a tipificação do que é na Igreja o respeito pelo direito de opinião e expressão. Depois, não se atende à vontade de tantos bispos a quem não só não repugnaria como até gostariam de ordenar mulheres. Ficou famosa a afirmação de D. Eurico Nogueira, então arcebispo de Braga: "Gostava de ver uma mulher no meu lugar".

As mulheres têm motivos para estar zangadas com a Igreja, que as discrimina. Jesus, porém, não só não as discriminou como foi um autêntico revolucionário na sua dignificação, até ao escândalo: veja-se a estranheza dos discípulos ao encontrar Jesus com a samaritana, que tudo tinha contra si: mulher, estrangeira, herética, com o sexto marido. Condenou a desigualdade de tratamento de homens e mulheres quanto ao divórcio. Fez-se acompanhar - coisa inédita na época - por discípulos e discípulas. Acabou com o tabu da impureza ritual. Estabeleceu relações de verdadeira amizade com algumas. Maria Madalena constitui um caso especial nesta amizade: ela acompanhou-o desde o início até à morte e foi ela que primeiro teve a intuição e convicção de fé de que Jesus crucificado não fora entregue à morte, pois é o Vivente em Deus.

Santo Agostinho, apesar da sua misogenia, declarou-a apóstola dos apóstolos, devido ao seu papel fundamental na convocação dos outros discípulos para a fé na Ressurreição. Aliás, já São Paulo na Carta ao Romanos pede que saúdem Júnia, "apóstola exímia".

Evidentemente, os opositores vêm sempre com aquela dos Doze Apóstolos, entre os quais não consta nenhuma mulher. Esquecem que na instituição dos Doze se trata de uma acção simbólica, para indicar que começava o novo povo de Deus. Como as mulheres e as crianças na altura não contavam, o símbolo perderia a sua eficácia, se se falasse também de mulheres entre os Doze.

E também se diz que na Última Ceia não houve mulheres. Ora, esta afirmação é contestada por grandes exegetas. Depois, o famoso biblista Herbert Haag, da Universidade de Tübingen, com quem tive o privilégio de privar, ironizou: como eram só judeus os presentes, então a Igreja só devia ordenar homens judeus.

Sobretudo: é sabido que as primeiras comunidades cristãs se reuniam na casa de cristãos mais abastados, e quem presidia era o dono ou a dona da casa. Então, se já foi possível mulheres presidirem à Eucaristia...

A questão tem, pois, de ser revista. Para não ferir este princípio fundamental do Concílio Vaticano II: "Toda a forma de discriminação nos direitos fundamentais da pessoa por razão de sexo deve ser vencida e eliminada, por ser contrária ao plano divino."

- Anselmo Borges, teólogo e fílósofo, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Artigo publicado no jornal Diário de Notícias, 16-07-2011, e aqui reproduzido via IHU, com grifos nossos.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

A necessidade de Deus


Deus é, sim, desejável, mas também é devastador. Porque o homem só pode se realizar aceitando ser devastado nas suas falaciosas seguranças.

A opinião é de Gaston Piétri, padre francês de Ajaccio, publicada no jornal La Croix, 03-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o texto.


Em outubro de 2010, os "estados gerais do cristianismo", por iniciativa da revista La Vie, colocavam esta pergunta: "A nossa época tem necessidade de Deus?". Voltava-me à mente a afirmação de Dietrich Bonhoeffer: "O Deus que nos deixa viver no mundo sem a hipótese de trabalho 'Deus' é aquele diante do qual nós estamos continuamente. Diante de Deus e com Deus vivemos sem Deus".

Podemos entender dessas palavras que Bonhoeffer nos adverte a não ter que esperar "injeções" de poder sobrenatural nos campos onde somos chamados sobretudo a fazer o nosso trabalho de homens responsáveis. Essa necessidade só poderia nos enganar tanto sobre Deus, quanto sobre a nossa vocação de homens. Certamente, a palavra "necessidade" é ambígua. Não podemos esperar respostas peremptórias da parte de Deus só para nos dispensar de procurá-las. Mas é verdade que há situações em que, para chegar ao fundo, experimentamos como a humanidade tem o fòlego curto. Incontestavelmente, a nossa época sente isso mais do que outras, quando deplora o desaparecimento de pontos de referência, quando toca com o dedo a falta de certezas.

A política, no mesmo momento em que vê se restringir a sua capacidade de decisão com relação à economia, engloba, no seu próprio âmbito, a causa do poder que nos foi dado por extraordinários progressos tecnológicos, problemas que, até as últimas décadas, pouco tinham a ver com os responsáveis políticos. De fato, trata-se da vida humana. O seu início e o seu fim estão, mais do que nunca, em nossas mãos. Como padronizar os instrumentos excepcionais que nos são fornecidos? Quem poderia dar ao homem a sabedoria e a lucidez suficientes para decidir nesses campos, sem comprometer gravemente o futuro da nossa sociedade? O que fazer, para continuarmos dignos da condição humana, quando se pode decidir em detalhes sobre as modalidades da vinda ao mundo, sobre as condições do prolongamento ou da abreviação da vida deteriorada pela doença?

Desenvolver instrumentos tão aperfeiçoados é uma coisa, que, além disso, compete legitimamente ao poder do homem mediante a pesquisa científica. Utilizá-los segundo o verdadeiro bem do homem é outra coisa. Independentemente da confiança que possamos ter na razão humana, como não como admitir que, sobre tais assuntos, a razão está colocada a uma dura prova? Diante de desafios tão cruciais, o recurso de Deus volta a nos aparecer como uma íntima necessidade. Quem ousaria tratar com leviandade essa necessidade do homem posto diante dos seus próprios limites? Mesmo que devamos, segundo a recomendação de Dietrich Bonhoeffer, guardar-nos, a todos os custos, de fazer de Deus o "tapa-buracos" das nossas insuficiências.

Encarregamo-nos de nós mesmos e ir até o extremos dos nossos recursos é, ao mesmo tempo, a nossa honra de homens e a expectativa de Deus com relação a nós. Se ele se cala, ele que nos disse tudo em seu Filho, é para não tomar a palavra no nosso lugar. Mas o convite a "viver sem Deus", como entendia o crente Dietrich Bonhoeffer, é acompanhado por uma surda inquietação quando os problemas de hoje se tornam tremendos. Os fiéis são então obrigados a ouvir a voz de alguns daqueles que apagaram Deus decisivamente do seu horizonte ou jamais sequer imaginaram encontrá-lo. Não fogem da inquietação ou não buscam acalmá-la por meio de Deus.

A advertência de Nietzsche merece ser ouvida: "Se não fazemos da morte de Deus uma renúncia grandiosa e uma contínua vitória sobre nós mesmos, deveremos pagar caro por essa perda". É porque Nietzsche via que a sombra de Deus permanecia nas mentes que deveriam se dar conta da sua morte. Mais perto de nós, Marcel Gauchet, no final do seu livro "O desencantamento do mundo" (1985) escrevia, como em confidência: "O declínio da religião se paga com a dificuldade de ser nós mesmos". Ele definia as nossas sociedades como "psiquicamente estressantes". A seus olhos, o compromisso grave é ter que elaborar as respostas por nossa conta, enquanto a fé podia fornecê-las no interior de um sistema tranquilizador.

Somos crentes, mas não dispomos de um manual com as soluções. O desconforto também faça parte do nosso destino. Então, qual é a nossa consolação? Essa palavra é mais ambígua que existe, mesmo que pertence à nossa tradição espiritual. Na nossa felicidade de acreditar, há a experiência de uma mensagem que, segundo a expressão do Concílio Vaticano II, está "em harmonia com as aspirações mais secretas do coração humano" (Gaudium et Spes, n. 21). Como eco à aspiração que sobe da melhor parte do nosso espírito, há a certeza de uma nobreza inalienável do nosso destino. Deus é, sim, desejável, mas também é devastador. Porque o homem só pode se realizar aceitando ser devastado nas suas falaciosas seguranças.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Carta aberta do Fórum Europeu LGBT ao Papa Bento XVI


Publicamos aqui a Carta Aberta do Fórum Europeu de Grupos Cristãos de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros, com sede em Berlim, a Bento XVI para que preste atenção aos direitos humanos dos LGBTs.

Conforme postamos no início da semana, o texto da carta foi aprovado em Berlim, no dia 7 de maio de 2011, na conferência anual dos delegados do Fórum, e foi entregue no Palácio Apostólico, no Vaticano, no dia 10 de junho.

Eis o texto, reproduzido via IHU com grifos nossos.

Santo Padre, apelamos ao senhor para pedir uma condenação dos atos de violência contra Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros (LGBT) e pedimos a colaboração de Vossa Santidade para a descriminalização dos atos homossexuais em nível mundial.

O silêncio de Vossa Santidade é muitas vezes interpretado pelas pessoas que cometem atos de violência, tortura e assassinato como um parecer favorável às suas ações.

Por exemplo, em janeiro deste ano, David Kato, um ativista na luta pelos direitos das pessoas LGBT, foi brutalmente assassinado na Uganda.

Episódios de violência, torturas e assassinatos contra as pessoas LGBT são verificados frequentemente em diversas partes do mundo, e quem as põe em prática está muitas vezes convicto de sua conformidade à vontade da Igreja Católica.

Esse convencimento é reforçado pelo fato de que, em dezembro de 2008, a Santa Sé ter se recusado a apoiar a Declaração das Nações Unidas sobre a orientação sexual e a identidade de gênero.

A declaração contém um parágrafo que exorta a todos os Estados a assegurar que a orientação sexual ou a identidade de gênero não possam ser, em nenhuma circunstância, a base para a aplicação de penas criminais, particularmente de execuções, prisões ou detenções.

Além disso, apelamos à Vossa Santidade para que sejam fornecidas a todos os cristãos informações claras a respeito das passagens da Bíblia que são usadas para justificar esses atos aberrantes.

Assim como as passagens em favor da escravidão, os versículos que apoiam o assassinato de pessoas que praticam atividades sexuais com pessoas do mesmo sexo não devem ser interpretadas literalmente.

Existe ainda uma forma de pressão por parte de alguns expoentes do clero da Igreja Católica Romana sobre os cristãos LGBT para se submetam a "terapias reparadoras" para modificar sua própria orientação sexual. Essa estratégia da Igreja e o pedido às pessoas LGBT que vivam a condição da castidade são causa de muitas tragédias, incluindo suicídios e graves estados de depressão, entre aqueles que tentam observar e seguir heroicamente os ensinamentos da Igreja.

Por outro lado, segundo estudos mais recentes de psiquiatria e de psicologia, a orientação sexual não pode ser modificada, e essas tentativas, por isso, muitas vezes têm como consequência graves danos psicológicos. Além disso, uma vida de castidade não pode ser exigida a quem não sente dentro de si essa vocação.

Aos cristãos LGBT, não pode ser negado o direito fundamental a uma relação afetiva, independentemente do gênero da pessoa amada. Como a ciência demonstrou que a homossexualidade é uma variante da sexualidade, apelamos para que essa evidência científica seja incluída nos ensinamentos da Igreja.

Em consequência, pedimos a Vossa Santidade que não se dê mais como indicação que as pessoas homossexuais devam se submeter a terapias, mas que, ao contrário, tenham direito a uma vida que preveja também uma relação afetiva no sinal da fidelidade.

Os benefícios sociais e pessoais disso são: uma vida feliz, saúde mental, capacidade de dar o melhor de si no trabalho e no apoio aos outros.

De outra forma, a vida muitas vezes se transforma em uma triste existência com uma série de inúteis terapias psicológicas e psiquiátricas, perda da fé em Deus, de humanidade e amor, como bem testemunham as frequentes cartas e testemunhos de cristãos LGBT.

Em todo o mundo, muitas lésbicas, gays e transgêneros vivem relações baseadas no amor, na fidelidade e na assistência recíproca. Assim como nas relações heterossexuais maduras, o amor é sobretudo uma experiência espiritual e depois também física. Infelizmente, por causa do preconceito e da desinformação, muitas pessoas associam o conceito de homossexualidade só ao amor físico.

Com referência à declaração de Vossa Santidade de dezembro de 2008 sobre a necessidade de proteger a humanidade como o ecossistema de uma floresta tropical, seguindo a mesma metáfora, podemos dizer que as pessoas LGBT representam uma espécie menos numerosa, mas que se encontra constantemente no ecossistema e, como sabemos, toda espécie é importante e necessária para garantir o equilíbrio criado por Deus.

Apelamos ao senhor para que reconsidere a posição da Igreja sobre as relações entre pessoas tanto do mesmo sexo, quanto transexuais, apoiando também a aceitação e a bênção dessas relações no interior da Igreja.

Apelamos a Vossa Santidade para que se cesse de pressionar os católicos a votarem contra leis que autorizem relações entre pessoas do mesmo sexo.

As relações tanto entre pessoas tanto do mesmo sexo, quanto transexuais, não constituem um perigo para a existência da família tradicional, mas, na realidade, sustentam e elevam os valores da família e do matrimônio. As pessoas LGBT representam só um pequeno percentual de toda a população, percentual que permanece constante.

A experiência de não aceitação dos jovens homossexuais e transgêneros, por parte de suas famílias e da Igreja, quase sempre gera problemas no desenvolvimento das suas personalidades. As consequências são muitas vezes dramáticas e podem se concretizar, por exemplo, em tentativas desesperadas de contrair matrimônios heterossexuais, em mascarar sua própria orientação sexual ou em escolher a vida religiosa, mesmo na ausência de vocação.

Das motivações que expusemos, deduz-se como o fato de criar uma atmosfera segura e acolhedora, que permita que as pessoas LGBT sejam elas mesmas, é importante para toda sociedade.

O Catecismo da Igreja Católica afirma que as pessoas homossexuais devem ser tratadas com respeito, compaixão e sensibilidade. Respeito e sensibilidade deveriam ser concedidos a todos, independentemente da orientação sexual ou da identidade de gênero. Se fosse verdadeiramente assim, a compaixão não seria necessária.

Os comportamentos e as opiniões homofóbicas são particularmente dolorosos quando feitos por quem se declara cristão, seja leigo ou religioso, e não são certamente uma forma de respeito.

Deus abençoe Vossa Santidade.

Berlim, 7 de maio de 2011

Diane Xuereb (Holanda/Malta)
Dr. Michael Brinkschröder (Alemanha)
(Copresidentes do Fórum Europeu dos Grupos de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros Cristãos, em nome dos grupos membros)

Grupos membros do Fórum Europeu dos Grupos Cristãos LGBT (em junho de 2011):
Armênia - We For Civil Equality NGO
Áustria - Homosexuelle und Glaube (HUG)
Bélgica - La Communauté du Christ Libérateur
Estônia - Geikristlaste Kogu (Associação de Gays Cristãos)
Finlândia - Arcus
França - Davi & Jônatas
Alemanha - AG (Arbeitsgemeinschaft) Schwule Theologie e.V. / Labrystheia, Netzwerk Lesbischen Theologinnen in und nach der Ausbildung / Lesben und Kirche (LuK) / Maria und Martha Netzwerk / Netzwerk Katholischer Lesben / Projekt Schwul und Katholisch in der Gemeinde Maria Hilf (PSK Maria Hilf Frankfurt) / Ökumenische Arbeitsgruppe Homosexuelle und Kirche (HuK)
Itália - Gruppo del Guado / Gionata / Gruppo Varco / Nuova Proposta
Letônia - Adverta Evangeliska Draudze/Congregação Evangélica Aberta
Malta - Drachma
Moldávia - HomoDiversus
Holanda - Landelijk KoördinatiePunt groepen kerk en homoseksualiteit (LKP) / Netwerk Mirre / Werkverband van Homotheologen (WHT) / Werkverband van Katholieke Homo-Pastores (WKHP) / Åpen Kirkegruppe / Wiara i Tęcza (Faith and Rainbow) / MCC Bucharest (Igreja Comunitária Metropolitana, Região 5)
Rússia - Light of the World (Moscou)
Eslováquia - Ganymedes
Espanha - Associació Cristiana de Gais i Lesbianes (ACGIL) / Federación Estatal de Lesbianas, Gays, Transexuales y Bisexuales - FELGBT)
Suécia - EKHO Sweden
Suíça - 'C+H' (The Lesbian and Gay Christian Group of Geneva) / CooL (Christliche Organisation von Lesben)
Lesbische und Schwule Basiskirche / Basel
Ucrânia - Church of St Cornelius
Reino Unido - Changing Attitude / Evangelical Fellowship for Lesbian and Gay Christians / Lesbian and Gay Clergy Consultation / Lesbian and Gay Christian Movement / Quest / Roman Catholic Caucus in the LGCM / Courage

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Estamos procurando Deus nos lugares errados

Escultura: Maarten Baas

Publicamos agora o final do discurso do teólogo espanhol José María Castillo, cuja primeira parte publicamos aqui.

Quero destacar que, na minha maneira de ver as coisas, a Igreja terá futuro e a teologia poderá subsistir na medida em que ambas – Igreja e Teologia – forem capazes de tomar um rumo diferente ao que seguiram até agora. Durante séculos, a teologia se viu a si mesma como a “regina scientiarum”, o centro de todos os saberes e o poder normativo para todas as condutas. Hoje, esta posição preponderante da Igreja e de sua teologia se tornou insustentável. Porque perdeu sua falsa consistência. O progresso da ciência e o avanço irresistível das tecnologias vão colocando as religiões no seu devido lugar. Como sabemos, as religiões resistem às mudanças e, com frequência, ficam presas à fidelidade a tradições de um passado que nunca mais será determinante na vida dos indivíduos e dos povos. O que explica o desajuste crescente entre teologia e ciência, entre teologia e sociedade.

Com frequência, se pretende atribuir este desajuste à prepotência e ao afã de comando dos dirigentes das religiões. Sem dúvida, isso pode ter uma determinada influência na atual crise religiosa. Mas o fundo da questão – segundo creio – não é essa. É a teoria sobre Deus que está falhando. E, por isso, de uma equivocada teoria sobre Deus (e sobre onde e como encontrar Deus), se costumam deduzir consequências desastrosas, sobretudo, para as pessoas, para as instituições e para a sociedade. De modo geral, são muitas as pessoas que imaginam que encontram Deus em um “Tu” transcendente, que nos é imposto a partir de um poder inapelável. Mas insisto no fato de que essa “representação de Deus” está na base e na explicação da atual crise da fé, a crise da religião e a crise da Igreja. Porque quem acredita em semelhante “Deus” e pretende representá-lo ou falar em seu nome, o que faz, na realidade, é ir na contracorrente.

Porque cada dia é mais escasso o número de pessoas que se atrevem a seguir crendo nesse Deus contraditório e perigoso. Por isso insisti em que só podemos encontrar Deus em nossa imanência, no laico, no secular, no civil, no humano. Não excluo a importância que tem, para o homo religiosus, a oração, o louvor, a celebração sacramental e simbólica das próprias convicções religiosas. Nesta ordem de “mediações”, cada religião deve ser fiel à sua própria história, aos seus costumes e às suas práticas, contanto que tudo isso não fomente a exclusão dos outros, a separação dos povos e culturas, a intolerância e o fanatismo. Porque o importante não é a religião, mas Deus, ao qual só podemos encontrar em nossa imanência e em nossa humanidade.

Pois bem, se este é o conceito e a experiência de Deus, a teologia, enquanto saber que se ocupa do tema desse Deus que encontramos no verdadeiramente humano – se é que a teologia deve seguir existindo no futuro –, terá que ser, antes que um saber superior que ensina os outros saberes, deverá ser um sujeito humilde e modesto que sempre terá que se apresentar, desde essa humildade e modéstia, como um saber que aprende dos outros saberes o que necessita assimilar deles para conhecer melhor o humano, para interpretar a partir das ciências humanas o significado e as consequências que pode ter (e terá) a presença do Deus humanizado entre os seres humanos. Porque é no humano, e somente no imanente e humano, onde os humanos podem encontrar Deus.

Não faltará razão a Karl Rahner [um dos maiores teólogos católicos do século XX, perito no Concílio Vaticano II] quando disse que: “se a teologia ainda deve continuar a existir no futuro, esta não será certamente uma teologia que se instala simplesmente e a priori 'junto a' ou 'por cima de' o mundo secular ou o mundo laico... É preciso, evidentemente, dizer que a ansiosa pergunta dos teólogos sobre o futuro da teologia não pode receber senão a resposta afirmativa que exige uma única condição: a aptidão da teologia para falar de Deus em um mundo secular”. E hoje, 60 anos depois que Rahner disse estas coisas, as aceleradas mudanças das últimas décadas nos empurram a ter que afirmar, com liberdade e audácia, que, daqui em diante, somente terá sentido e futuro a teologia que for capaz de trazer algum sentido à vida. E assim, potenciar a melhor resposta que podemos dar aos nossos desejos de humanidade. Quero dizer, os desejos que buscam uma forma de vida que, por ser mais plenamente humana, seja também mais plenamente feliz.

Deus não está na fé, mas na ética

Almofadas: Stephanie Marin

O presente texto é um extrato do discurso lido por José María Castillo na solenidade em que recebeu o Doutorado Honoris Causa da Universidade de Granada, da Espanha.

José María Castillo, teólogo espanhol, é autor de uma importante obra teológica. Vários dos seus livros foram traduzidos para o português.

O texto está publicado no sítio Rebelión Digital, 13-05-2011. A tradução é do Cepat. Reproduzimos via IHU, com grifos nossos, e dividido, para melhor apreciação, em duas partes

Eis o discurso: após uma breve introdução, Castillo se propõe a refletir sobre como se pode pensar em Deus e falar de Deus em um espaço secular. E ele começa a responder a questão apontando uma contradição na capacidade do ser humano pensar em Deus, e buscando uma forma de superá-la:

(...) Deus é o Transcendente. Ao dizer isto, estamos afirmando que Deus está para além dos limites de nosso conhecimento experimental e demonstrável. Ou seja, quando falamos de Deus, na realidade estamos nos referindo à sua realidade que não conhecemos. Por isso, quando as religiões nos falam de Deus, realmente não falam, nem podem falar, de Deus em si, mas nos falam das representações de Deus que os humanos se fazem. Porque, desde a nossa imanência [a realidade material, a natureza, em sua concretude], tudo quanto podemos pensar e dizer é sempre imanente. Nunca pode ser o transcendente.

Por essa razão, a representação de Deus, que nos fizemos, é inevitavelmente projetiva. Quer dizer, nossa representação de Deus é uma projeção de nossos desejos mais fortes: o poder, a bondade, a felicidade... E assim, apareceu um Deus infinitamente poderoso e infinitamente bom. Mas, ao fazer isso, não caímos na conta de que o resultado foi um Deus contraditório e um Deus perigoso. Um Deus contraditório, porque o poder sem limites e a bondade sem limites não são compatíveis com o mal que há no mundo (se é que Deus tem algo a ver com este mundo). E um Deus perigoso, porque todo Deus monoteísta é, por isso mesmo, um Deus excludente. Por esta razão, inevitavelmente, é também um Deus violento.

Quer isto dizer que o Deus, que os humanos representaram para si, é um Deus condenado inevitavelmente ao fracasso? (...) Por esse caminho desembocamos em uma contradição insolúvel. Mas sabemos que o ser humano não age, nem só nem principalmente a partir da contribuição do discurso racional. O mais determinante em nossas vidas não são as verdades, que brotam de conteúdos mentais. O mais determinante são as convicções, que se traduzem em formas de conduta e em hábitos de vida.

Isto posto, a afirmação capital da minha reflexão se centra em que, segundo a tradição cristã, o Transcendente se torna presente em nossa imanência. Isto é, definitivamente, o que representa e o que significa Jesus de Nazaré. Quando a teologia afirma que Jesus é a encarnação de Deus, o que na realidade está dizendo é que Jesus é a humanização de Deus. Por isso, o “Senhor da Glória”, assim como se humanizou em Jesus, pôde dizer e deixou como sentença a afirmação decisiva: “O que fizestes a um destes, foi a mim que fizestes” (Mt 25, 31-46). Nessa sentença definitiva, já não se levará em conta nem a fé, nem a religião. Só ficará em pé o humano, o que cada ser humano tiver feito com os outros seres humanos.

A consequência que, em sã lógica, se segue do que acabo de dizer é que o projeto cristão não pode ser um projeto religioso ou sagrado de divinização, mas um projeto profano e laico de humanização. Deus não se encarnou no sagrado e seus privilégios, nem no religioso e seus poderes. Deus se mesclou com o humano. Portanto, encontramos Deus, sobretudo, no profano, no laico, no secular, no que é comum a todos os humanos e no que nos une aos demais seres humanos, sejam quais forem suas crenças e suas tradições religiosas. Porque o determinante, para encontrar Deus, não é a fé, mas a ética, que se traduz em respeito, tolerância, estima e misericórdia.


(Continua)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Decisão do STF é uma “boa nova”, dizem batistas


Entendendo como um de seus principais papéis enfrentar a intolerância presente no tecido social brasileiro, a Aliança de Batistas do Brasil aplaudiu a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que concede direitos civis a pessoas do mesmo sexo vivendo em situação estável.

A notícia é da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC), 23-05-2011.

A decisão do STF ajuda a reparar injustiças históricas e representa uma ruptura histórica frente aos modos de constituição das formas jurídicas que regulam a sociedade brasileira. A Aliança “compreende como uma ‘boa nova’ o fato de que as pessoas identificadas sob a rubrica LGBTS (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transsexuais e Simpatizantes) estejam sendo incluídas no ideal de equidade social defendido pela Constituição Federal Brasileira”, diz documento dos batistas, assinada pela presidente da instituição, pastora Odja Barros.

A Aliança de Batistas do Brasil não encara o reconhecimento de direitos civis a pessoas do mesmo sexo vivendo em união estável como uma “onda de imoralidade”, mas afirma tratar-se de uma reparação a uma minoria historicamente tratada como pessoas de segunda categoria, estigmatizadas e sem uso pleno da cidadania.

O reconhecimento dos direitos civis a LGBTS está em consonância com os princípios evangélicos da vida em abundância, da dignidade humana e da justiça, defendidos pelas Sagradas Escrituras, frisa o documento dos batistas. “Não defendemos essas ideias por mera sofisticação cultural, muito menos para sermos fiéis à cultura presente, mas a defendemos como conseqüência de nossa leitura do Evangelho de Jesus Cristo e de nossa relação com a herança batista da qual fazemos parte”, escreveu Odja Barros.

A sede da Aliança fica em Maceió e está presente em Pernambuco, Alagoas, Bahia e Rio de Janeiro.


Reproduzido via IHU, com grifos nossos.

Os gays e a Bíblia


Reproduzimos abaixo, com grifos nossos, o comentário de Frei Betto* acerca da recente decisão do STF, da criminalização da homofobia e do posicionamento da CNBB.

É no mínimo surpreendente constatar as pressões sobre o Senado para evitar a lei que criminaliza a homofobia. Sofrem de amnésia os que insistem em segregar, discriminar, satanizar e condenar os casais homoafetivos. No tempo de Jesus, os segregados eram os pagãos, os doentes, os que exerciam determinadas atividades profissionais, como açougueiros e fiscais de renda. Com todos esses Jesus teve uma atitude inclusiva. Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as “pessoas diferenciadas”...).

Relações entre pessoas do mesmo sexo ainda são ilegais em mais de 80 nações. Em alguns países islâmicos elas são punidas com castigos físicos ou pena de morte (Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Nigéria etc). No 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, 27 países-membros da União Europeia assinaram resolução à ONU pela “despenalização universal da homossexualidade”.

A Igreja Católica deu um pequeno passo adiante ao incluir no seu catecismo a exigência de se evitar qualquer discriminação a homossexuais. No entanto, silenciam as autoridades eclesiásticas quando se trata de se pronunciar contra a homofobia. E, no entanto, se escutou sua discordância à decisão do STF ao aprovar o direito de união civil dos homoafetivos.

Ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. A pessoa nasce assim. E, à luz do Evangelho, a Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hetero, e sim como filho de Deus, chamado à comunhão com Ele e com o próximo, destinatário da graça divina.

São alarmantes os índices de agressões e assassinatos de homossexuais no Brasil. A urgência de uma lei contra a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização.

A Igreja Católica já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem o seu amor por pessoas do mesmo sexo. Ora, todo amor não decorre de Deus? Não diz a Carta de João (1,7) que “quem ama conhece a Deus” (observe que João não diz que quem conhece a Deus ama...).

Por que fingir ignorar que o amor exige união e querer que essa união permaneça à margem da lei? No matrimônio são os noivos os verdadeiros ministros. E não o padre, como muitos imaginam. Pode a teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo?

Ora, direis, ouvir a Bíblia! Sim, no contexto patriarcal em que foi escrita seria estranho aprovar o homossexualismo. Mas muitas passagens o subtendem, como o amor entre Davi por Jônatas (I Samuel 18), o centurião romano interessado na cura de seu servo (Lucas 7) e os “eunucos de nascença” (Mateus 19). E a tomar a Bíblia literalmente, teríamos que passar ao fio da espada todos que professam crenças diferentes da nossa e odiar pai e mãe para verdadeiramente seguir a Jesus.

Há que passar da hermenêutica singularizadora para a hermenêutica pluralizadora. Ontem, a Igreja Católica acusava os judeus de assassinos de Jesus; condenava ao limbo crianças mortas sem batismo; considerava legítima a escravidão; e censurava o empréstimo a juros. Por que excluir casais homoafetivos de direitos civis e religiosos?

Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados. A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei.


- Frei Betto

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*Publicado no jornal O Globo de hoje. Como não encontramos o link, reproduzimos via Gospel LGBT e Conteúdo Livre.
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