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quarta-feira, 7 de março de 2012

"Vocês não estão sozinhos": a ONU discute a violência homofóbica


"Àqueles que são lésbicas, gays, bissexuais ou transgêneros, eu digo: vocês não estão sozinhos. Sua luta pelo fim da violência e discriminação é compartilhada por muitos. Qualquer ataque a vocês é também um ataque aos valores universais que as Nações Unidas e eu juramos defender e resguardar. Hoje, estou com vocês (...) e convoco todos os países e povos a colocarem-se comigo ao seu lado."

- Ban Ki-moon, Secretário-Geral da ONU, na abertura, hoje, do primeiro debate intergovernamental oficial da Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas sobre a violência e a discriminação contra as pessoas LGBT.

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O painel de discussão, presidido pela África do Sul e Brasil (sic), foi moderado pelo Embaixador da África do Sul e contou com palestrantes do Brasil, Paquistão, Suécia e Estados Unidos.

O painel surgiu da resolução 17/19 (junho 2011) da Comissão dos Direitos Humanos da ONU, que expressa "grande preocupação" com relação aos atos de violência e discriminação com base na orientação sexual e identidade de gênero. A Comissão solicitou ao Alto Comissariado para os Direitos Humanos a elaboração de um relatório sobre "como as leis internacionais de direitos humanos podem ser usadas para acabar com a violência e violações de direitos humanos relacionadas, baseadas na orientação sexual e identidade de gênero", e solicitou um painel de discussão nesta sessão (19ª) da Comissão dos Direitos Humanos para discutir as conclusões do relatório em um "diálogo construtivo, esclarecido e transparente."

Caso se interesse, assista ao painel de discussão da ONU aqui, e baixe o relatório "Discriminatory laws and practices and acts of violence against individuals based on their sexual orientation and gender identity" (pdf em inglês) aqui

(Fonte: lgbtSr, com a colaboração do amigo Hugo Nogueira)

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Leia também:
"Países islâmicos abandonam debate na ONU sobre liberdade sexual"
"Os países da OIC (Organização da Cooperação Islâmica) abandonaram nesta quarta-feira a reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU em protesto contra a realização de uma sessão especial sobre os direitos de homossexuais e transexuais."

Ao menos 76 países têm leis que criminalizam a homossexualidade
"Atualmente em pelo menos cinco países é possível aplicar a pena de morte àqueles que forem declarados culpados de delitos de conduta homossexual. (...) A Comissão dos Direitos Humanos confirmou que o uso da pena de morte na punição de crimes não violentos, incluindo as relações sexuais entre pessoas adultas do mesmo sexo, 'constitui uma violação da lei internacional sobre direitos humanos'".

ONU discute violência contra LGBTs e painelista brasileira é criticada por ativistas nacionais
Para uns, a painelista brasileira saiu-se muito bem. Para outros, sua fala foi "apenas burocrática" [... ,] parecendo querer "proteger a imagem internacional do governo e as [suas] relações [...] com os fundamentalistas"

Mensagem da Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos sobre a homofobia e a transfobia em todo o mundo (em vídeo, aqui)

Sobre a compaixão e a pena


"E, vendo as multidões, teve grande compaixão delas, porque andavam cansadas e desgarradas, como ovelhas que não têm pastor" (Mateus 9:36).

Não sou um escritor renomado, um filósofo ou um parlador de sucesso, mas sou seguidor de Jesus de Nazaré. E, com Ele, tenho aprendido que a compaixão é um dos sentimentos mais relevantes que podemos carregar e, principalmente, espalhar por aí.

É por meio dela, a compaixão, que conseguimos oferecer algo novo a alguém que se assemelha a uma ovelha que não tem pastor, desesperada e desorientada. Com Ele (Jesus), tenho aprendido que no sofrimento de alguém, não devemos descarregar nossas filosofias, teologias ou políticas. Devemos apenas estender a mão.

Compaixão é diferente de pena.

Tenho compaixão por quem vive na escuridão, com pouquíssima oportunidade de enxergar alguma luz.

Tenho pena de quem vive na luz e poderia usar isso pra ajudar aqueles da escuridão. Em vez disso, alguns optam por usar a luz pra mostrar seu dedo em riste, cheio de julgamentos e ódios, de maneira bem visível.

Que Deus fortaleça e encontre espaços para a compaixão no coração de muitos. E que o ódio de (infelizmente) tantos outros não prevaleça.

- Fredy Cunha
Reproduzido do blog de Fabrício Cunha

sexta-feira, 2 de março de 2012

A passagem de Deus pela América Latina

Escultura: Oscar Niemeyer (aqui)

“Como será a passagem de Deus pela América Latina e com quem passará, está por se ver, e em suma é coisa de Deus. Mas é coisa nossa desejá-la, trabalhar para isso, e aprender de como aconteceu no passado em torno de Medellín”, escreve Jon Sobrino, em artigo publicado no sítio espanhol Eclesalia, 23-02-2012. A tradução é do Cepat.

Jon Sobrino é teólogo espanhol radicado em El Salvador, sobrevivente da chacina que, em novembro de 1989, dizimou a vida de seis jesuítas e duas funcionárias da Universidade Centro-Americana (UCA). É autor de vários livros, entre os quais, Fora dos pobres não há salvação (Paulinas, 2008), Cristologia a partir da América Latina (Vozes, 1983); Jesus, o Libertador: a história de Jesus de Nazaré (Vozes, 1994).

Eis o artigo, aqui reproduzido via IHU.


Os dez anos que se passaram entre Medellín (1968) e Puebla (1979) foram únicos na época moderna da Igreja católica na América Latina. Depois começou um declive ao qual Aparecida (2007) quis colocar um freio, embora até agora reste muito a ser feito.

Ao fazer este juízo, não nos fixamos na Igreja assim como é analisada pelos sociólogos, mas na “passagem de Deus”. Sem dúvida, é mais difícil calibrar, mas toca a dimensão mais profunda da Igreja, e a serviço de que deve estar. Em suma, qual a sua contribuição para os seres humanos e para o mundo como um todo. E, obviamente, é preciso se perguntar “que Deus” é que passa pela história em um dado momento.

Medellín
Foi um salto qualitativo. Irromperam os pobres, e neles irrompeu Deus. Foi um fato fundante que penetrou na fé de muitos e configurou a Igreja.

Surpreendentemente, para a assembleia dos bispos a prioridade não era a Igreja em si mesma, mas o mundo de pobres e vítimas, isto é, a criação de Deus. Suas primeiras palavras proclamam a realidade do continente: “uma pobreza em massa fruto da injustiça”. Os bispos agiram, sobretudo, como seres humanos, e deixaram falar a realidade que clamava ao céu. São os clamores que Deus escutou no êxodo que o fizeram sair de si mesmo e entrar decididamente na história. De igual modo, com Medellín Deus entrou na história latino-americana.

A partir desta irrupção dos pobres, e de Deus neles, Medellín pensou o que é ser Igreja, qual é a sua identidade e missão fundamental, e qual deve ser seu modo de estar em um mundo de pobres. A resposta foi “uma Igreja dos pobres”, semelhante à ilusão que teve João XXIII e o cardeal Lercaro. No Concílio não prosperou, em Medellín sim. A Igreja sentiu compaixão pelos oprimidos e decidiu trabalhar por sua libertação. Por muitos, com maior ou menor consciência explícita, foi acolhida como bênção. Por outros, foi percebida, com razão, como grave perigo.

Cedo o poder reagiu. Em 1968, Nelson Rockefeller escreveu um relatório sobre o que estava acontecendo, e essa Igreja, nova e perigosa, tinha que ser fragilizada e freada, e o mesmo aconteceu no início da Administração Reagan. Oligarquias com o capital, exércitos, esquadrões da morte, desencadearam uma perseguição contra a Igreja, desconhecida na história da América Latina. A perseguição, e o manter-se firme nela, deixou claro o novo e evangélico que estava acontecendo: a Igreja de Medellín estava com o povo pobre e perseguido, e correu sua própria sorte. Milhares foram assassinados, entre eles meia dúzia de bispos, dezenas de sacerdotes, religiosos e religiosas, e uma multidão de leigos, mulheres e homens. Com limitações, erros e pecados, era uma Igreja muito mais casta que meretriz, muito mais evangélica que mundana.

Na Igreja católica, Paulo VI propiciou e animou esta nova Igreja, mas altos personagens da cúria romana, e de outras cúrias locais, a desqualificaram, trataram mal e injustamente os seus representantes, inclusive bispos, e construíram uma Igreja alternativa, diferente e mesmo contrária, mais devocional, intimista, de movimentos, submissos aos defensores da hierarquia. E o que havia que evitar era que a Igreja voltasse a entrar em conflito com os poderosos. A Igreja popular, nascida em torno de Medellín, crente e lúcida, de comunidades de base, que vivia a pobreza do continente, sofreu a dupla perseguição do mundo opressor, e, com alguma frequência, da própria Igreja.

Uma Igreja assim foi testemunha e seguidora de Jesus de Nazaré. Encarnada, defensora e companheira dos pobres, carregava a cruz e com frequência morria nela. Anunciou uma Boa Nova como Jesus na sinagoga de Nazaré. Teve seus “doze apóstolos”, os Padres da Igreja latino-americana com dom Hélder Câmara um dos pioneiros, com Enrique Angelelli, dom Sergio Mendez Arceo, Leonidas Proaño, com dom Romero, pastor e mártir do continente, e outros. Chegou a ser ekklesia, na qual mulheres e varões, religiosas e leigos, latino-americanos e vindos de fora, chegaram a formar corpo eclesial, uma grande comunidade de vida e missão. Entre os de casa e os de longe se gerou uma solidariedade nunca vista: se fortaleciam mutuamente. Cresceu a esperança e a alegria. E do amor dos mártires nasceu uma brisa de ressurreição, alheia a toda alienação, que remetia novamente à história para viver nela como ressuscitados.

Nessa Igreja soprava o Espírito, o espírito de Jesus e o espírito dos pobres. Esse espírito inspirava oração, liturgia, música, arte. E também inspirava homilias proféticas, cartas pastorais lúcidas, textos teológicos de casa, não textos simplesmente importados que não passaram pelo crisol de Medellín.

No centro de tudo estava o evangelho de Jesus. Lucas 4, 16: “Eu vim para anunciar a boa nova aos pobres, para libertar os presos”. Mateus 25, 36-41: “Tive fome e destes de comer”. João 15, 13: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos irmãos”. E Jesus de Nazaré, o crucificado ressuscitado, Atos dos Apóstolos 2, 23-24: “Aquele que vocês mataram Deus o devolveu à vida”.

E agora?
Pesquisas, estudos sociológicos e antropológicos, econômicos e políticos, oferecem dados e explicações sobre a Igreja católica e outras Igrejas cristãs. Dizem-nos se aumentamos ou diminuímos em número e em influxo na sociedade. Desde essa perspectiva nada tenho a acrescentar. E estritamente falando, também não é a minha maior preocupação qual será o futuro do que chamamos “Igreja”, embora nela tenha vivido e vivo, e me acostumei a pertencer à família.

O que me interessa, e me alegra, é que “Deus passe por este mundo”. E a razão é simples. O mundo está “gravemente enfermo”, dizia Ellacuría, “enfermo de morte”, disse Jean Ziegler. Isto é, necessita de salvação e cura. Por isso, como crente e como ser humano, desejo que “Deus passe por este mundo”, pois essa passagem sempre traz salvação às pessoas e ao mundo em seu conjunto. Tivemos a sorte de sentir essa passagem de Deus com Medellín, com dom Romero, com muitas comunidades populares. Com muitas pessoas boas, simples em sua maioria. Com uma plêiade de mártires. E também, embora isso só se possa sentir “em um difícil ato de fé”, como dizia Ellacuría ao explicar a salvação trazida pelo servo sofredor de Isaías, com o povo crucificado.

Como estamos atualmente? Seria cometer um grave erro cair em simplismos em coisas tão sérias. Seria injusto não ver o bom que, de muitas formas, existe nas Igrejas. E seria arrogante não tentar descobri-lo, embora às vezes se esconda atrás de uma crosta que não remete claramente a Jesus de Nazaré. Em todo o caso, a passagem de “Deus” sempre será mistério inescrutável, e só na ponta dos pés e com máximo respeito a todos os seres humanos podemos falar sobre isso. Mas com todas estas cautelas algo se pode dizer. Mencionaremos as realidades dos fiéis e suas comunidades, mas temos em mente sobretudo as instâncias, altas em hierarquia, historicamente muito responsáveis pelo que acontece, e às quais não se pode pedir conta com eficácia. Com simplicidade dou minha visão pessoal.

De diversas formas abunda o pentecostalismo, como forma de Igreja diferente dos problemas reais de vida e morte das maiorias, embora traga coragem e consolo aos pobres, o que não é desdenhar quando não têm onde se agarrar para que sua vida tenha sentido – diferente é a situação de classes mais acomodadas. Prolifera um grande número de movimentos, dezenas deles, proliferam os meios de comunicação das Igrejas, emissoras de rádio e televisão, excessivamente submissos a ideais e normas que provêm de cúrias, sem dar sensação de liberdade para tomar eles mesmos em suas mãos um evangelho que anuncia a boa nova para os pobres, em forma de justiça, e sem suspeitar da necessidade de um estudo, reflexivo, minimamente científico, da Palavra de Deus, e em geral da teologia propiciada pelo Vaticano II e Medellín. Proliferam devoções de todo tipo, as de antes e as de agora. Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e morreu crucificado, é deixado de lado com facilidade a favor do menino Jesus, seja de Atocha, de Praga, o Deus menino, dito com grande respeito. Com facilidade se dilui o Jesus vigoroso da Galileia, do Jordão, o profeta de denúncias do templo de Jerusalém, a favor de devoções, baseadas em aparições com um transfundo sentimental e excessivamente melífluo. Para dizer com simplicidade, a divina providência pode atrair mais que o Pai de Jesus, o Filho que é Jesus de Nazaré, o Espírito Santo, que é Senhor e dador de vida, e Pai dos pobres, como se canta no hino do Pentecostes.

Em seu conjunto custa hoje encontrar na Igreja a liberdade dos filhos e filhas de Deus, a liberdade diante do poder, que não por ser sagrado deixa de ser poder. Nota-se excessivo servilismo e submissão em relação a tudo o que seja hierarquia, o que chega a se converter em medo paralisante. Desde as instâncias de poder eclesial aponta o triunfalismo, e o que chamei de a pastoral da apoteose, de multidões, midiática. Em muitos seminários a discussão e a arte de pensar são substituídas pela memorização. Nas reuniões do clero, pelo que sabemos, as perguntas, a discussão e o debate são substituídas pelo silêncio. As cartas pastorais dos anos 1970 e 1980 – verdadeiro orgulho das Igrejas, que reverdecem em ocasiões, na Guatemala, por exemplo – são substituídas por breves mensagens, recatadas e comedidas, com argumentos tomados das últimas encíclicas do papa. O centro institucional já não parece estar na América Latina, mas na distante Roma. Tudo isto é dito com respeito.

Como será a passagem de Deus pela América Latina e com quem passará, está por se ver, e em suma é coisa de Deus. Mas é coisa nossa desejá-la, trabalhar para isso, e aprender de como aconteceu no passado em torno de Medellín.

Bom é saber e analisar os vaivens dos adeptos e o influxo das Igrejas na sociedade. Pelo que dizem os dados, em ambas as coisas a Igreja católica vai mal. Mas é preciso ter mais presente as raízes de cuja seiva viveu a passagem de Deus. E regá-la humildemente, com águas vivas.

O que acontecerá à nossa Igreja, e a todas as Igrejas, está por se ver. Meu desejo é que, aconteça o que acontecer no exterior, se coloque a serviço da passagem de Deus por este mundo, o Deus de Jesus, compassivo, profeta e crucificado. E o Deus dador de esperança.

Estas são perguntas que podemos sempre fazer. Mas talvez seja bom fazê-las no começo da quaresma. Este tempo exige de nós fortaleza para caminhar para Jerusalém. E nos oferece esperança de nos encontrar ali com o Jesus crucificado e ressuscitado.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Na Quarta-feira de Cinzas tudo volta ao normal


"A fantasia nova era seu orgulho. E ele, o orgulho dos pais. Espada de plástico, calça, colete, botas e lenço na cabeça – sem esquecer de um indefectível tapa-olho – faziam do menino um pirata no carnaval de rua daquela cidadezinha do interior. A mãe municiava seu pequeno corsário de confete, com o qual ele atacava, sem cerimônias, os transeuntes. Enquanto isso, o pai registrava tudo com uma câmera de vídeo digital – para a posteridade. Sabe como é, os filhos crescem rápido demais.

"Sem que fosse sua intenção, um dos ataques de bolinhas de papel acertou em cheio um outro menino, fantasiado de catador de latinhas de alumínio. Fantasia sem graça aquela, feita por uma camiseta esburacada, bermuda encardida e pés descalços. Ao invés de uma reluzente cimitarra de plástico, cinco ou seis latinhas de cerveja carregadas na improvisada bacia formada pelos braços. O tamanho dos dois era o mesmo, tiquinhos de gente de seis anos, no máximo.

"O menino fantasiado de catador de latinhas, que seguia em uma marcha firme, se detém. Sem dizerem nada, por um instante, se olham. O pirata deve ter pensado que fantasia estranha era aquela, cheirando a cerveja. Não seria melhor deixar aquelas latinhas ali e vir brincar com ele? Havia confete para todo mundo no saco da mamãe. E a rua era grande o suficiente.

"O olhar do outro parou em misto de inveja e resignação – apesar dele não ter idade para entender o que é inveja, muito menos resignação. Ter um fantasia bonita e colorida como aquela seria bom demais. Não ter que trabalhar na noite de domingo, poder brincar com os pais, melhor ainda. Mas o tempo corria – o tempo sempre corre. Tinha que procurar mais latinhas porque a concorrência estava alta e a festa, como a infância, não ia durar muito mais tempo.

"Virou o rosto para frente, continuou sua marcha e se perdeu na multidão. O outro ainda ficou parado um instante. Depois, enfiou a mão no saco de confetes e jogou novamente para cima, formando uma chuva de papel.

"Afinal de contas, é carnaval. Na Quarta-feira de Cinzas tudo volta ao normal."

PS: Isso não é um conto, mas gostaria que fosse. Presenciei a cena há alguns anos e já a trouxe aqui. Não quero ser (mais) chato do que sou, adoro esta época do ano. Mas me lembro sempre daquele garotinho. Porque, assim como as festas de Carnaval no Brasil, situações como essa parecem não ter hora para acabar.

- Leonardo Sakamoto, do Blog do Sakamoto, aqui

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Os novos malditos e as novas segregações: da lepra ao crack

Imagem daqui

Uma gravura que reproduz um ser humano, na IDADE MÉDIA, com o rosto marcado por feridas, que representariam seu contágio pelo Bacilo de Hansen, e que as tornava portadores de um estigma: eram os "leprosos". Esta vestido com uma túnica vermelha que cobre todo o seu corpo, assim com um chapéu que o caracteriza como portador de um mal. Nessa gravura reproduzida em uma parede está um sino que era obrigatório portarem os ditos leprosos para que todos fossem avisados, nas cidades, de sua chegada. Em seguida, geralmente eram expulsos e segregados para além dos limites da cidade. Na foto aparece um desses sinos que esperamos nunca mais tenhamos de ouvir em nossas mentes, ou seja que possamos vencer e inverter o temor de sermos tocados por outros seres humanos, principalmente os que denominarmos de "malditos".

LEPRA, a palavra foi banida. O preconceito ainda nos habita e se reorganiza. O contágio torna o Brasil o segundo do Mundo globalizado e hipercapitalista, em suas múltiplas convulsões sócio-econômicas. Somos quem sabe também os campeões nos neo-preconceitos?

Houve um tempo em que estar "leproso" nos levava para fora dos muros das cidades. Estivemos recentemente relembrando estas formas instituídas de segregação sanitária e biopolítica.

No dia 29 de janeiro foi comemorado o Dia internacional de Combate à Hanseníase. Nome em homenagem ao descobridor do bacilo: Hansen. Eis o novo termo que devemos utilizar. Embora ao pesquisar em língua espanhola o termo Lepra e Leprosos ainda persista. Minimamente nas notícias e na mídia. Bem como ainda habita e prolifera no âmago de muitos inconscientes.

Ao ser afetado pelas inúmeras matérias que difundi pelo Twitter e pelo Facebook, principalmente por uma, me lembrei de como eram tratados estes sujeitos hansenianos lá em MG. Na cidade próxima a minha, Três Corações, fora de sua periferia, existiu um "leprosário". Um asilo. Era de lá que chegavam as minhas primeiras memórias sobre a hanseníase.

De lá vinham as cartas, de lá vinham essas missivas que deveriam ser queimadas após sua leitura. Eram contagiosas. Elas traziam os relatos breves de pessoas lá internadas, com letra de forma batida a máquina, e que pediam (ou melhor, suplicavam) a ajuda financeira e outras caridades para os que lá "apodreciam". Esta é a imagem que nos ensinavam à época, quiçá uns 40, 50 ou mais anos atrás.

Estes velhos, amedrontadores, contagiantes e, segregadamente, miseráveis retornam hoje à minha mente. O que me trouxe essa memória? Trouxe-me o quanto, apesar dos muitos anos, ainda temos um modelo de medo e repulsa associado às doenças consideradas "malditas". O temor que se projete em um corpo anômalo, anormal, marginalizado e doentio. Uma vida nua.

Uma vida nua que foi aplicada, por exemplo, à existência de um homem no Mato Grosso. O idoso José Garcia da Cruz, de 106 anos, viveu essa realidade. “Temos registros da chegada dele no São Julião em 1941, poucos dias depois da inauguração do local. Ele foi o 6º paciente a ser internado e vive aqui há pouco mais de 70 anos”, confirma o diretor do Hospital São Julião. Setenta anos de reclusão e isolamento para o “bem” da sociedade. Seria ele um Lázaro que resiste à Vida?

Ele me lembrou, também, das cartas contagiantes de MG: “Quando eu ia ao mercado era um problema, principalmente na hora de pagar, porque as pessoas não queriam pegar o dinheiro porque tinham medo de encostar em mim. Elas tinham medo de pegar a doença”, contou ele. A reportagem finaliza com um alívio para as boas consciências: “Em 2007, Cruz passou a receber uma pensão especial vitalícia do governo federal. Ele foi o primeiro brasileiro a receber o benefício”.

Por isso temos de nos indagar com mais seriedade ética e responsabilidade bioética das novas práticas de internamento e reclusão. Voltamos aos séculos anteriores, ou pior regredimos à época da Nau dos Insesatos? Que tempo e era é essa que estamos imersos até o pescoço?

Estamos no tempo dos que biopoliticamente se tornaram motivo de "internações compulsórias e involuntárias". O leprosários estão sendo protagonizados hoje, institucionalmente, pelos asilos, pelas comunidades de tratamento ou pelos hospitais que deverão internar e re-internar a nova epidemia: o Crack.

Tomando como plataforma política o Estado e a cidade de São Paulo resolveram tratar uma de suas muitas ‘’chagas’’ sociais: a Cracolândia. Esqueceram, porém, que, como no Pinheirinho, apesar da miséria ou da pobreza, estavam lá e ali aglutinados muitos corpos humanos contagiantes. Para além de suas desfiliações sociais eram e são apenas seres humanos...

Estes corpos e vidas nuas não transmitem hoje apenas doenças infectocontagiosas. Eles transmitem ao nosso povo, dito maioria, e seus governantes um sentimento profundo de repulsa misturado com medo. E nessa hora o melhor é expulsá-los do coração da cidade...

São os excluídos a serem incluídos pelo seu abrigamento, isolamento e ‘’tratamento humanizado’’. Mesmo que precisemos usar nossas forças policiais e a velha repressão dos tempos da Ditadura...

Quantas vezes pensamos que estas ações repressivas são a melhor forma de lidar e resolver estas chagas que nós próprios alimentamos? A aprovação de uma internação compulsória tornou-se estatisticamente um desejo, com toda certeza, de uma maioria, diz o DataFolha de mais de 54%. Mas anunciaram como uma maioria que: “No Brasil, 90% aprovam internação involuntária de viciados...”.

Isso mesmo: viciados. Era assim também que lá nos anos 60 estereotipavam quem usasse cabelos compridos, falasse em paz, rock ou fumasse maconha, caminhando e cantando dentro de alguma calça jeans. Devem ser agora estes o motivo de algum saudosismo ou desejo de torná-los os ‘’bichos de sete cabeças’’, como o foi o jovem Carrano. E a Rita Lee tem de se despedir deles rumo a uma nova ‘’acareação’’ com as novas formas de reprimir.

Nem mesmo atualizam o termo para dependências químicas ou a drogadição. São os perniciosos fumantes de crack ou de outras rocks (sem roll) que classificamos higienisticamente, são os neo-portadores de um velho estigma: são os novos malditos, os novos leprosos...

Vamos então aplaudir as iniciativas governamentais de erradicação das drogas. Mas, por favor, não tomemos a máxima popular de "cortar o mal pela raiz". Assim pensavam os velhos fascistas e alguns nacional socialistas. A erradicação dessa nova "epidemia" não é a eliminação dos corpos contagiados por ela. Muito menos a criação de novos mini-cômios.

Levamos alguns séculos para compreender o quanto estigmatizamos os que foram chamados de leprosos. Quantos séculos serão necessários para entender que os "viciados" são uma questão da saúde, das políticas públicas, dos direitos humanos e, principalmente, hoje, das indústrias farmacêuticas e das biotecnologias. Podemos dizer que a verdadeira maioria dos dependentes é sim uma questão da Bioética.

Ao buscarmos “curas" radicais, negando a autonomia e os direitos fundamentais do sujeito, nos mostra a História que criamos quase sempre os Estados de Exceção, os Campos de concentração ou extermínio, os Manicômios, os Leprosários, os Asilos e todas as outras formas institucionalizadas de disciplina ou controle dos corpos humanos.

Os discursos competentes que elaboramos datam de muito tempo atrás. Algumas pessoas colocam ainda estes "viciados" como perturbação da tranquilidade comercial e econômica das cidades. Estes ‘’desocupados’’ devem desocupar os territórios produtivos hipercapitalizados. E, se possível devem ir para campo dos refugiados, afinal eles são uma "mancha" improdutiva para a Sociedade do consumo na Idade Mídia.

Vamos, então, como na época dos tratamentos "morais" e "asilares", tão bem dissecados e estudados em sua genealogia por Foucault, providenciar novos ‘’panópticos’’ que possam abrigar essa gente, ou essa ralé (segundo a visão do programa Mulheres Ricas). E, talvez, isolando-os também nos livramos de suas incomodas presenças em nossas cidades, ou será que apenas em nossos “ castelos”?

EM TEMPO, lhes anuncio que o meu corpo, aparentemente não contagiante, foi submetido recentemente a uma biópsia, em meu braço esquerdo, no trajeto do nervo cubital, para um possível diagnóstico diferencial com a hanseníase (uma lembrança/estigma da Saúde Mental).

Se me for dado o positivo serei eu também mais um proscrito? Em qual asilo encontrarei, longe de todos vocês, a proteção para o meu maior risco: ser tão mortal, tão carnal, tão vivo, tão frágil, tão desassossegado e tão humanamente contagiante como todos nós?

E nossos prédios ou nossos Titanics modernos também caem ou afundam... Os muros invisíveis é que se reconstroem e reinstitucionalizam, incessantemente.

- Jorge Márcio Pereira de Andrade
Médico Psiquiatra; formado em Medicina, com especialização em Psiquiatria, exercendo atividades no campo da Saúde Mental, em Psicanálise e Psicoterapia, tendo como parte de sua formação a Análise Institucional. Site, blog, contato

Publicado originalmente aqui (aproveite para ver referências bibliográficas e indicações de leitura)

Vamos a outros lugares

Foto daqui

Em seus escritos evangélicos, São Marcos nos apresenta a figura de Jesus como alguém constantemente em movimento e em ação. Denotativo disto é que bem no início de seus relatos está o Batismo de Jesus por João e, logo em seguida, o chamado aos primeiros discípulos e, daí para adiante, o trabalho do Mestre em Missão.

É interessante perceber em sua "movimentação" que Jesus atendia a todos, sem distinções. Um dos primeiros relatos de Marcos nos conta que estava o Mestre em casa de André e Simão Pedro, onde havia curado a sogra do último, vítima de uma febre. Imediatamente, a cidade se reúne à porta da casa e ali, Ele cura e atende a todos. Depois, já entrada a noite, retira-Se para outro local a fim de rezar. E, já ao amanhecer, convida os discípulos para seguir com Ele a outras cidades e lugares, ampliando sua ação.

Não temos relatos de descanso do Mestre. Sempre o encontraremos em ação, em Missão. Suas noites são dedicadas à oração, encontrando-Se com o Pai e alimentando-Se espiritualmente. Como imitá-Lo? Como viver como Ele viveu em nossos dias? É possível isso?

Talvez hoje o que mais nos faça falta é termos reservado em nosso dia um momento de oração, de encontro a sós com o Senhor. Corremos daqui para ali, trabalhamos intensamente e, muitas vezes, dedicamo-nos incansavelmente a ações nobres e de cuidado com os outros. Mas, esquecemo-nos de rezar, de colocar diante do Pai tudo aquilo que recolhemos ao longo do dia, de entregar a Ele nossos caminhos e sentimentos. Este encontro tem que ser a fonte de toda a nossa ação, pois sem a presença de Deus, ela será sempre vã. E, com certeza, se temos 24 horas do dia para nos dedicar a tanta coisa, conseguiremos ter 5, 10 minutos para encontro com Deus. Muito já se falou sobre isso e ainda assim, continuamos a não ter tempo para o essencial...

Por outro lado, aquele que tem uma vida de oração e discernimento, consegue ao longo do dia estar atento à necessidade alheia. É como se mantivesse um canal aberto entre si mesmo e o Senhor, estando, assim, com o olhar desperto para ver além das aparências e atuar para além daquelas. Isso nos permite a seguir com o Mestre para outras cidades e outros lugares, tal qual o convite que Ele fez aos seus primeiros seguidores, ainda que não saiamos de nossas casas e não deixemos de lado nossas vidas. O olhar moldado pela oração vê além e levam nossos passos para adiante.

Possamos, então, imitar Jesus em seu equilíbrio de serviço e oração, pois assim estaremos sendo efetivamente testemunhas Dele e faremos diferença em nossos cotidianos.

Texto para reflexão: Mc 1, 29-39

- Gilda Carvalho
Reproduzido via Amai-vos

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Para gays, preconceito torna velhice ainda mais difícil

Foto daqui

O preconceito e a falta de direitos civis, que são problemas para todas as idades, acentuam as consequências do envelhecimento para os homossexuais. Esse é o resultado de uma pesquisa feita pela ONG inglesa Stonewall com gays, lésbicas, bissexuais e heterossexuais maiores de 55 anos no Reino Unido.

O estudo, divulgado em setembro, revela que 34% dos gays e bissexuais homens foram diagnosticados com depressão e 29% com ansiedade, o dobro em relação aos heterossexuais da mesma faixa etária. Nas mulheres, as diferenças entre os dois grupos são menores, mas os percentuais ainda são maiores entre as lésbicas (40% e 33% contra 33% e 26%).

O número de homossexuais idosos que consomem drogas é quatro vezes maior que entre os heterossexuais (9% contra 2%), assim como é maior o consumo de álcool e cigarro.

De acordo com pessoas entrevistadas pela reportagem, a realidade é parecida no Brasil, apesar de não haver dados e pesquisa semelhante para comparar.

"O gay velho é muito mal visto na sociedade, até entre os próprios gays", afirma o funcionário público Mário Tatsumoto, 50.

"Aqui no Brasil, os homossexuais não saem mais de casa quando passam de 30. Na Europa, o que você vê na rua são os gays de 40 a 60 anos", concorda o baiano Antônio Almínio, 55, que mora em São Paulo há mais de 30 anos.


DIFERENÇAS NA SAÚDE

O preconceito em relação à orientação sexual acaba afetando a qualidade do atendimento público de saúde para esse grupo. Em 14% dos casos pesquisados no Reino Unido, os parceiros de homossexuais não puderam opinar sobre tratamentos para seu companheiro e 25% presenciaram algum tipo de discriminação pela orientação sexual.

A pesquisa da ONG Stonewall também aponta que o atendimento em asilos e residências para idosos é feito por profissionais que não são treinados para lidar com gays, lésbicas e bissexuais.

Uma das alternativas para tentar driblar o preconceito é criação de residências exclusivas para homossexuais, que já existem na Europa, nos Estados Unidos e na Argentina.

"A criação desse tipo de casa é vista por muita gente como uma volta ao gueto, mas é uma oportunidade de socialização para os gays de baixa renda", afirma o técnico em informática Regis Cardoso, 52, criador do blog e do site "Grisalhos", que fala sobre saúde e relacionamentos com gays maduros.

O escritor João Silvério Trevisan, 66, que deu auxílio a gays idosos em dificuldades financeiras e com problemas de saúde, critica esse tipo de iniciativa. "Por que, em vez de fazer asilos, a sociedade não pode criar grupos para ajudar esses gays da terceira idade?"

Pesquisador do Núcleo de Identidade de Gênero e Subjetividades da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Fernando Pocahy, 40, diz que é preciso oferecer atendimento aos idosos de forma indiscriminada. Ele sugere a organização de residências coletivas entre grupos de amigos gays.

"É uma alternativa para essas pessoas viverem melhor, construindo vínculos com seus pares, e envelhecerem juntos."

- Diego Zerbato
Publicado originalmente na Folha de S. Paulo. Reproduzido via X1

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O armário número 24


"Se eu pudesse dizer que ele não precisa se esconder..." 

Ele resolveu fazer esportes, voltar a ter uma vida saudável. Mas ele sempre sofria com o ambiente de vestiário, desde a época que era esportista e atlético. Sempre foi para ele meio esquisito os caras seminus querendo provar para cada um deles que era mais homem que o outro, elencando as mulheres comíveis, as que já comeram e as que nunca comeriam. Entendia como cultural – assim como os ingleses que têm adoração por falar do clima – o assunto recorrente sempre ser o futebol. Em alguns, ele percebia uma paixão genuína pela modalidade esportiva que nos transformou em uma pátria de chuteiras, mas em outros, ele enxergava algo meio forçado, apenas para poder ter a carteirinha do clube da masculinidade. Ele não gostava de futebol, apesar de ter time e de acompanhar à distância os campeonatos estaduais e brasileiro.

Ele ria - meio tímido – de certas piadas. Ele sabia que a vida era bem mais dinâmica que as teorias e teses, assim como os olhares que todos lançavam discretíssimos para os pênis dos outros colegas de vestiário. Sim, alguns eram homossexuais, mas ele sabia que muitos ali estavam - no melhor estilo do macho competitivo – apenas fazendo comparações. Não via naquilo o que a moçada do vestiário certamente chamaria de viadagem. Ele ria – meio sem graça – de certos comentários mais pejorativos contra os gays.

Ele voltou a fazer esporte e retornou ao ambiente dos vestiários, mas algo ainda o incomodava muito. Um garoto, muito feminino, muito frágil, era constantemente alvo de um silêncio e um desdém malicioso. Quando o jovem entrava na área dos chuveiros, todos faziam questão de tentar sair o mais rápido possível. Era como se um leproso fosse contaminar todo o clima de masculidade reinante. O moleque também era tímido e não reagia, não sabia como se comportar, o que responder, apesar de ser clara a vontade de excluí-lo do vestiário.

Ele lembrou de um artigo de Duílio Ferronato, na antiga coluna GLS da Revista da Folha de São Paulo que contava que ao fazer capoeira e escutar piadinhas contra gays, o colunista logo de cara rebateu: “Eu sou viado”. E todos começaram a respeitá-lo. Mas aquele pobre garoto não poderia fazer isso pois nada era direto, a agressão era silenciosa.

Ele, de repente, percebeu que um desses machinhos começou a dizer que o armário de número 24 – que sempre estava vazio - era do tal garoto. E essa brincadeira começou a ficar constante. O garoto talvez nunca tenha escutado, mas não demorou muito e nunca mais viram o jovem que sumiu para alívio das testosteronas exacerbadas.

Ele tinha que fazer algo, ele se irmanava com a timidez e com uma certa liberdade de não ter que seguir condutas e regras para poder ser homem. Enfim, no dia que o vestiário estava cheio de "cuecas", todos rindo, fazendo o seu velho e sempre ritual de afirmação da macheza, ele sem mais nem menos se trocou e colocou a roupa no armário de número 24. aquele que estava sempre vazio.

Ele percebeu que rolaram olhares estranhos, mas ninguém mexeu com ele nem fez piadinhas e assim ele fez durante todas as vezes que ia ao vestiário. Ele fazia questão de colocar suas roupas no armário de número 24. Era sua resposta sem barulho para uma agressão que o perturbou. Ele, heterossexual, mas deslocado do discurso de afirmação de uma certa forma de masculinidade, não precisava sair do armário, mas colocar lá dentro de forma trancafiada o desprezo e a ignorância de seus colegas de vestiário.

- Vitor Angelo
Publicado originalmente no Blogay

* * *

O vídeo acima faz parte da campanha "Pink Dot", de Cingapura, cujos organizadores sabem que o preconceito e a discriminação não vão acabar de uma hora para outra e convidam todos a mostrar que os LGBTx não estão sozinhos. A cada situação mostrada, os personagens dizem "Se ao menos eu tivesse coragem de defendê-lo..."; "Se eu pudesse dizer que ele não precisa se esconder...";
"Se pudesse dizer a elas que seu amor uma pela outra também é bonito..."; "Se eu pudesse mostrar a ela o quanto ela é importante para mim..."; "Se as pessoas gays pudessem parar de se sentir culpadas por serem diferentes..."; "Ah, se o mundo pudesse ver o que eu vejo".

domingo, 29 de janeiro de 2012

Amorfobia


Recebemos da leitora Rosinha Tricolor (@RosinhaTricolor) um comentário aqui que acabou levando-a a produzir o pequeno texto abaixo, que reproduzimos com sua permissão. Vale a reflexão: recebemos muitos dons, e o que fazemos e construímos com eles? Que mundo é gerado a cada pequena escolha e cada uma de nossas atitudes?

Num mundo onde há guerras e que até mesmo crianças vão à luta (literalmente); onde se mata em nome de Deu$, onde crianças morrem de fome, são agredidas e violentadas; onde há inúmeros preconceitos; onde os idosos são maltratados; onde não se tem o menor respeito ao próximo, não pode haver amor...

Num mundo onde se profere o nome de Deus em vão, alimentando o preconceito e o ódio entre as pessoas em Seu nome; onde prevalece a força do dinheiro (que compra almas), enganando-se, matando-se por ele; onde pessoas se odeiam, se agridem, se matam por uma partida de futebol, não pode haver amor...

Num mundo onde se faz qualquer coisa pelo poder; onde se deixa um semelhante passar necessidade, morrer no corredor de um hospital; onde se nega o direito à boa educação e à boa saúde; onde há exploração da fé e exploração da boa-fé, não pode haver amor...

E é nesse mundo que vivemos...

É esse o mundo que estamos deixando às nossas futuras gerações: um mundo preconceituoso, hipócrita, de falsas morais, de falsos dogmas; de pessoas que têm a necessidade de ver o outro infeliz, para baixo e que riem da desgraça alheia; que se incomodam pelo fato de alguém amar outro alguém, independente do sexo, da cor, da religião, da idade, da condição física ou da condição social...

Um mundo onde criamos termos e mais termos para cada vez mais nos desassociarmos (inutilmente) do outro (tão humano e tão imperfeito quanto nós)... E nesse mundo de pessoas tão iguais e tão diferentes, não há homofobia ou heterofobia, na verdade. O Ser (des)Humano sofre mesmo é de Amorfobia: aversão ao Amor...

O alento é saber que sempre, a cada momento, podemos fazer escolhas novas - e com elas começar a criar um outro mundo, um Reino novo. Que mundo você escolhe construir? :-)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

"Desculpem pelo modo como a Igreja tem tratado vocês"


Acabamos de receber via twitter, e não resistimos. Taí uma ideia que merecia se espalhar:

Grupo de cristãos aparece em uma Parada do Orgulho Gay de Chicago com cartazes pedindo desculpas, inclusive um "Desculpem pelo modo como a Igreja tem tratado vocês". (link original aqui)

Obrigado, @thrgomes!

* * *

Caso se interesse:
Por que os cristãos devem defender os direitos dos homossexuais
"Caro Santo Padre, diga algo contra a homofobia"
Carta aberta do Fórum Europeu LGBT ao Papa Bento XVI

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sacerdote católico australiano busca apoio dos cidadãos para condenar a homofobia

Imagem daqui

Cada país com seus próprios problemas. Pelo menos tem alguém fazendo a sua parte...

Paul Kelly, padre católico da região australiana de Queensland, criou uma petição cidadã com o objetivo de garantir que os tribunais nacionais não aceitem o "pânico de gays" alegado por réus em casos de agressões a LGBTs como atenuante que permite reduzir a pena dos condenados.

O padre australiano criou uma petição cidadã com este objetivo, condenando o suposto pânico que é invocado por agressores e assassinos de homossexuais e transexuais, a fim de reduzir suas penas.

"É simplesmente intolerável que alguém possa aceitar uma defesa ou uma justificativa baseada no medo da homossexualidade. Isso de nenhuma maneira diminui a violência que leva à morte", disse o padre.

A petição cidadã criada pelo líder religioso da região australiana ocorreu depois que, em 2009, um homem gay foi assassinado em uma briga homofóbica perto da igreja dirigida pelo padre em Marlborough.

Paul Kelly recentemente criticou o fato de que o julgamento do assassino possa acabar aceitando um suposto "medo da homossexualidade", diminuindo assim a sentença.

"As leis que defendem um suposto pânico de gays são uma parte crucial do processo de legitimar e reforçar uma cultura de ódio que faz com que 73% dos gays e lésbicas em Queensland estejam sujeitos a abuso verbal e violência física por sua sexualidade", defendeu o padre.

Kelly disse que "Queensland é um dos poucos estados que defendem a idéia de que uma pessoa pode ter um acesso de pânico perante pessoas homossexuais, permitindo-lhes justificar assim graves agressões que levam à morte".

Fonte: universo gay

Dica do amigo @MarkosOliveira

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sobre a chuva, o choro e um lugar chamado Pinheirinho

Foto: G1

Do excelente blog do Fabrício Cunha, nos chega este pungente testemunho. Que a indignação perante a injustiça nos motive a prosseguir, como diz o autor, "lutando pelo que vale a pena". Para que episódios como esse não aconteçam mais.

As crianças sabem muito da vida. Tenho três aqui em casa.

Quando chove muito, costumam dizer que Deus está triste e chora suas lágrimas sobre a terra.

Têm razão.

Foi assim hoje.

Deus olhou aqui para São José dos Campos, onde moro, e viu aquela gente simples, pequena, pobre, sem voz, ser escorraçada do Pinheirinho, uma ocupação que abriga aproximadamente 8 mil pessoas desde 2004. (Clique aqui para saber mais).

Já fui lá muitas vezes. Hoje, pela última.

Andei, conversei, levei água e abraços pra alguns conhecidos e muitos desconhecidos. Senti-me completamente impotente diante da desgraça humana.

Minha amiga Loide, foi lá mais cedo. Viu uma senhora saindo da ocupação ainda muito desnorteada. Loide foi em sua direção e a abraçou em silêncio. A senhora dizia e repetia: “é a vida, minha filha, é a vida”. Não, minha senhora, não era pra ser assim. Seu pedacinho de terra deveria ser garantido pelo Estado, que deveria protegê-la, mas não. Junto dela, um sem número de gente levando o pouco que lhe restou em sacos de supermercado, mochilas velhas, malas esgarçadas, expressão de sua vida.

Ninguém me contou. Eu vi!

Quando esse tipo de interpretação do conceito de propriedade privada sobrepõe a dignidade humana, há algo de muito errado em nossa sociedade.

Quando uma prefeitura finge que não vê um número tão grande de pessoas e não as considera em sua gestão, há algo de muito errado com a política.

Quando um prefeito lava as mãos em silêncio diante de um fato que acontece debaixo de seus olhos, há algo de muito errado com um líder.

E quem sofre mais uma vez? O pobre, a viúva, o estrangeiro, as crianças, como bem nos disseram os profetas e o Messias.

Já vi muita coisa linda na vida, mas são as feias que não saem de minha cabeça, que insistem em gritar dentro de mim que algo vai mal, que algo está errado e que não posso dormir tranquilo.

Chore sim, Senhor. Chore muito. O choro de um pai que vê seus filhos sendo despachados novamente ao exílio, ao exílio da dignidade, da inclusão, da humanidade, de seu chão.

Chore sim, Senhor e que seu choro esconda o nosso, nos alivie a dor e nos motive a continuar lutando pelo que vale a pena.

Que seu choro amoleça a terra do Pinheirinho, tanto tempo infrutífera, e que do juntar do sangue e do suor ali derramados com as suas lágrimas de dor, a esperança nasça e renasça apontando a vida.

Mas hoje é dia de lamentar a morte.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

''Paulo também viu situações de separação de casais''

Escultura: Kyle Kirkpatrick

O livro "Parejas y sexualidad en la comunidad de Corinto", do pastor metodista argentino Pablo Manuel Ferrer, foi recentemente censurado pela Congregação para a Doutrina da Fé. Nesta entrevista, concedida ainda em 2010, é possível compreender um pouco mais de seu pensamento.

A reportagem é de Adrian Hernandez, publicada no sítio da editora argentina San Pablo, 04-09-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O pastor da Igreja Argentina Metodista, Pablo Manuel Ferrer, 38 anos, apresentou seu livro Parejas y sexualidad en la comunidad de Corinto no espaço de reflexão criado por ocasião do Mês da Bíblia [setembro de 2010], na sede da editora San Pablo, em Buenos Aires. Na apresentação, o pastor metodista desenvolveu o tema da diversidade no amor, como introdução à sua obra, acompanhado pelo padre Aldo Ranieri, que dará continuidade aos encontros de formação bíblica.

Pablo Ferrer é professor de Novo Testamento no Instituto Universitário ISEDET, onde doutorou-se em teologia. Além disso, leciona em institutos católicos, na Escola Bíblica Nuestra Señora de Sión e na Congregação do Divino Mestre de San Isidro.

Ferrer concordou em responder por telefone a esta entrevista do seu escritório da Paróquia Evangélica Emanuel, no bairro La Paternal. Ao ser consultado sobre a importância do fato de seu livro ser publicado em uma editora católica, ele explicou que "o conhecimento e a busca bíblica podem transcender fronteiras denominacionais, tanto de um lado, quanto de outro. Eu me nutro com irmãos e irmãs católicos também. Não é conhecimento católico ou conhecimento metodista. Faz parte do ecumenismo que ajuda a crescer no conhecimento bíblico".

Eis a entrevista, aqui reproduzida via IHU.


Esse conhecimento da Bíblia apaga a fronteira implícita que propõe a divisão entre "um lado" e "o outro"?

Não acredito que haja a ideia de apagar, mas sim de respeitar. É bom saber que há pessoas que têm outra tradição, outra forma de compreender, de celebrar e de entender a divindade. É bom compartilhar e que o outro continue vivendo a sua crença e que isso lhe permita viver a sua própria religião.

Na comunidade de Corinto, qual é o fim do matrimônio?

Na realidade, não há um fim. O matrimônio não tem um fim. Eu proponho que Deus nos chama para a vida em paz e para uma vida em sociedade. Para algumas posições, essa é uma decisão que será tomada através do matrimônio. Para outras, não será assim. Essa é a grandeza de Paulo. Enquanto algumas posições descartam todo contato de casal, e outras insistem que é determinante o fato de se estar casado, Paulo relativiza o matrimônio, a viuvez, o fato de estar solteiro, o fato de estar separado ou junto com outra pessoa de comum acordo.

Em seu livro, você defende que "se o projeto de casal unido por mútuo acordo não tiver resultado, então não se deve perder de vista o chamado à paz". O que isso significa?

Em Corinto, há pessoas que não estão unidas pelo casamento formal, mas sim por uniões de fato, por mútuo acordo, que Paulo considerada válidas também. Ele lhes outorga um valor salvífico para a pessoa não crente (e integrante do casal). Evidentemente, Paulo vê situações de separação. O mandamento é "não se separem", e imediatamente depois diz: "Mas, se se separarem"... Isto é, ele começa a relativizar os mandamentos que são muito duros e leva em conta as situações que se vivem por lá. Esse é o valor para o nosso tempo: pôr mandatos estritos acaba, às vezes, destruindo as pessoas. Paulo anuncia que Deus não nos chamou para cumprir mandamentos, mas sim para a paz.

Qual é a diferença entre um mandato e um conselho de Paulo?

Para algumas coisas, Paulo impõe um mandamento que ele compreende como um mandamento de Jesus. Em outros casos, anima-se a dar um conselho: "Isto sou eu que digo, não o Senhor". O que acontece? Com o tempo, com a tradição – para nós –, o conselho de Paulo, assim como o mandamento de Jesus, ficou como um novo mandamento. Eu estou em uma corrente de interpretação bíblica em que entendemos os conselhos de Paulo como conselhos para esse momento e que ele entende que é o melhor para essa situação. O problema é quando nós o transformamos em um mandamento. É um assunto para se refletir nestes tempos.

Como você chega à ideia de corrupção sexual?

Eu proponho repensar a ideia de porneia [devassidão, libertinagem]. A minha ideia é traduzir, como corrupção, algo que corrompe a natureza humana em seu aspecto individual e social, e tirar da porneia a ideia de imoralidade que envolve um cumprimento de normas. Em contrapartida, a corrupção tem a ver com a relação entre os seres humanos. A corrupção sexual é o desejo desenfreado que governa os demais desejos. Em nosso tempo, isso é evidente nos meios de comunicação de massa, que propõem que o desejo sexual soluciona toda uma outra série de desejos. É como o desejo por excelência a ser alcançado.

E a resposta de Paulo?

Ele se opõe ao grupo que defende que "não se deve tocar em mulher", desejo zero. Paulo contesta que isso é impossível, a menos que se trate de um carisma de Deus. Ele sugere que cada homem tenha sua mulher, e que cada mulher, seu homem; que o desejo sexual não deve ser reprimido suprimir nem tentar controlá-lo, mas sim canalizá-lo. Paulo não coloca os filhos como o produto que deve ser obtido do desejo. Ele mantém o desejo como um fim em si mesmo. Na nossa tradição, pietista ou ocidental e cristã, proibimo-nos o desfrute do desejo em si mesmo. Consequentemente, deve haver uma utilidade: os filhos.

Por que você defende que Paulo dá uma resposta inclusiva sobre a mulher considerada "impura"?

Na comunidade de Corinto, um grupo encontra na mulher o perigo de cair em pecado. Em 1 Coríntios, Paulo envolve tanto o homem quanto a mulher na decisão. Ele reconhece que há desejo em ambos os sexos, em oposição ao mandamento que Paulo recebe de "não tocar em mulher", que significa que a mulher não tem decisão: desejo para tocar o homem.

Paulo recolhe o debate de Corinto entre o poder e o desejo. Qual é a resposta?

Paulo democratiza o poder, um poder compartilhado. Deve se produzido de mútuo acordo: "Que não se neguem entre si". A negação não leva a lugar algum. Em um matrimônio, isso acontece muito. Uma das partes tira o seu corpo ou obriga o outro quando não sente vontade ou não quer. Na realidade, há uma posse compartilhada, e ambos devem estar de mútuo acordo.

Outro assunto do seu livro é o desejo e o carisma de Deus. Como você o interpreta?

O desejo existe, afirma Paulo. Lutar com isso não faz sentido. É preciso desfrutá-lo. Paulo admite que, em si mesmo, há um carisma (nos perguntaríamos: ele apagou o desejo ou colocou o desejo sexual em outra coisa?). Não é uma decisão de Paulo não tocar em uma mulher para melhorar certa coisa. O carisma é algo concedido por Deus a uma pessoa, não para benefício próprio, mas sim para o benefício da comunidade. Se o carisma de abstinência sexual é o mais importante, aqueles que gozam dele podem governar a comunidade; os demais, não. O capítulo 13 expressa que o único carisma e o mais importante é o amor. Ali, havia uma guerra de carismas. Paulo está fendendo a ideia de hierarquia de carismas e, portanto, a hierarquia daqueles que possuem esses carismas. Atualmente, acredito que podemos perceber isso também.

O carisma é importante em uma comunidade?

Paulo trabalha isso em 1 Coríntios, capítulo 14. Ele escreve que prefere o carisma profético. Uma pessoa fala, e isso para a edificação da comunidade. Esse é um critério que Paulo usa para determinar quando há um carisma e quando há uma característica de uma pessoa. Deus não deu um carisma a Moisés para que ele se convertesse em um super-herói, mas sim para libertar o seu povo. Eu me permito perguntar a uma pessoa: "Se isto é um carisma seu, como você beneficia o seu próximo?".

No livro, você atribui ao autor bíblico um conhecimento sobre o matrimônio ideal e o possível. Como é o casamento possível?

Paulo dirá que o ideal é que todos sejam como eu; se não for assim, há outros que estão vivendo outras realidades possíveis, não a ideal, mas sim a que foi possível viver. Entendo que Paulo enfatiza que a minha realidade – que eu entendo como ideal –, assim como a outra – que eu entendo como possível – são iguais frente aos olhos de Deus. O carisma de abstinência sexual, o casado, o separado, o juntado são diferentes possibilidades que têm o mesmo valor perante os olhos de Deus. Isso não dá nem tira uma maior aproximação a Deus.

Quais são os desafios a partir do olhar de Paulo e que, hoje, estão ocultos na comunidade?

Quanto ao âmbito sexual, certas situações ficam solapadas. Uma delas é a homossexualidade. Por exemplo, pessoas que eu conheço, que integram a comunidade e que têm tendência homossexual que não é declarada, não são eleitas como presidente ou membro de um conselho paroquial. Todos sabemos disso, no entanto, não o trazemos à tona. Na nossa Igreja [metodista], uma pessoa separada não é algo que deve ser oculto; concebemo-lo como algo que pode acontecer.

Na sua Igreja, como vocês trabalham pastoralmente a situação de pessoas separados e que voltaram a se casar?

É válido voltar a formar uma família, um casal, ou decidir ficar sozinho. Quando se rompe um projeto matrimonial, realiza-se uma revisão. Pastoralmente, eu acompanho cada um desses projetos, tentando que sejam o mais possível saudáveis, verdadeiros, tentando que não se repitam algumas experiências.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Jesus diria sim ao PLC 122 e ainda faria mais

Ilustração: Thales Lima

Fazendo um pouco da retrospectiva de fim de ano em meio das celebrações do Natal, não dá pra não comentar um dos assuntos mais abordados ao longo de 2011 no Brasil: o crescimento da homofobia, da violência contra homossexuais e do protagonismo pentecostal na luta contra os direitos LGBTT.

Então... neste Natal, convivi com a seguinte pergunta: Qual seria a posição de Jesus perante o PLC 122 e a luta pelos direitos LGBTT no Brasil?

Comparando com outras situações que Jesus enfrentou ao longo de sua vida, narrada nos Evangelhos, me parece claro que ele apoiaria a implementação do PLC 122, em sua integridade, sem mediações com a bancada fundamentalista. Duas são as justificativas:

1) Jesus sempre defendeu o amor acima da lei:
O Antigo Testamento, base da religião judaica, tem nos seus livros iniciais, o Pentateuco, a base das leis que regem a comunidade. Estas leis foram escritas no processo de transição da escravidão egípcia para a terra sagrada (Ex, 34). Era um povo nômade, com muita garra, que enfrentaria diversos outros povos, mas que dependia da vida em comunidade (e da fé em Deus e no Pastor Moisés) para seguir seu caminho. Longo caminho por sinal, durando uma geração até a chegada à terra prometida (Dt, 1).

Neste sentido, as leis do Antigo Testamento mesclavam os princípios de Deus com regras comunitárias que, para serem cumpridas, precisavam ser ditas como sagradas. Estas regras comunitárias eram fundamentais para que o grupo caminhasse firme e unido. Eram, portanto regras que levariam o povo â promessa de Deus, mas obviamente estavam adaptadas ao povo nomade, fugindo da escravidão de alguns milhares de anos atrás.

Passados parte destes milhares de anos, Jesus questiona ao longo de toda a sua vida pública a aplicação literal das leis comunitárias da Bíblia (Mt 12, 1 – 4) no Israel de sua época. Sua mensagem é clara: o projeto de Deus é o projeto da vida no Amor, no respeito, na partilha, na comunhão. “Quero Misericórdia, e não Sacrifício” (Mt 12, 7). Em diversas situações Jesus contrapôs-se a regra literal colocando em primeiro lugar a pessoa, a vida comunitária e a construção do Reino de igualdade e fraternidade (Lc 7, 37-48; Lc 18, 10-14; Mt 5, 1 – 11).

Hoje, boa parte das leis escritas na Bíblia, já não são mais tratadas como verdade absoluta por serem fenômenos biológicos ou da natureza. As mais famosas são a exclusão da mulher durante a menstruação (Lv 15, 19) (uma questão de saúde pública para o povo nômade do Egito) e a condenação de exclusão em virtude da lepra (Lv 13). Afinal, hoje os sacerdotes não precisam ser médicos!!! Ou seja, não é mais necessário a religião para explicar estas questões e orientar o povo. A religião fica mais livre para atingir seu fim: orientar os princípios de uma vida na sua integridade.

Do mesmo modo, se vivesse nos dias de hoje, ao perceber que a sociedade busca excluir pessoas, grupos sociais de seus direitos, se justificando em interpretações literais e pré-conceitos que fogem do projeto de Deus, Jesus não teria dúvidas na defesa do PLC 122 e da condenação da hipocrisia dos principais defensores da homofobia.

Mas, insistem alguns, e as condenações explícitas à homossexualidade escritas na Bíblia? Muitas delas inclusive no Novo Testamento, ou seja, após Jesus Cristo?

Não é possível entrar em muitos detalhes da exegese bíblica neste momento. Porém de forma resumida, podemos dizer que:

a) O povo de Deus do Antigo Testamento (aquele povo nomade de milhares de anos atrás) ainda convivia com regras comunitárias bem distintas das de hoje: aceitava a escravidão (Ex 20, 17; Dt 5, 21), a mulher deveria ser submissa ao homem, a poligamia masculina era aceitável (Dt 21, 15 - 17), mas a feminina não (Dt 22, 16), etc. Se hoje negamos a muitas destas "leis", porque não negar também a homofobia? Onde há conflito com a Lei e o amor de Deus aí ao defender a criminalização da homofobia?

b) No Novo Testamento, as passagens estão restritas às cartas de São Paulo, sendo a única inferência direta o texto aos Romanos (Rm 1, 18-32), o mesmo que mostrou a Pedro e outros discípulos que a mensagem cristã não deveria ficar restrita aos judeus, mas a todos os povos. Ao sair para evangelizar especialmente nos territórios dominados por Roma, Paulo buscou dialogar com os trabalhadores e o povo pobre escravizado. As condenações morais que faziam, diziam respeito à prática da elite grega e romana. E sabemos que o homossexualismo era até mais que aceito na Roma dos patrícios. Assim, ao condenar o homossexualismo, Paulo condenava na verdade a vida opressora dos patrícios e líderes romanos, que largavam seu povo. É uma condenação semelhante a que fazemos hoje ao consumismo, ao hedonismo e a concentração de riqueza.

Se boa parte das religiões superou o atrito com as ciências biológicas e os fenômenos da natureza, muitas delas ainda precisam se livrar dos dogmas morais, escritos em outras época, para entender o importante significado da mensagem cristã na atualidade.

2) Jesus sempre esteve ao lado dos oprimidos pelo sistema:
Assim como condenava as leituras literais da Bíblia que justificavam a opressão e o ódio, Jesus também sempre tomou partido quanto as situações de Morte provocadas pelo contexto social, político e econômico que vivia seu povo (Mc 11, 15; Mc 12, 14-17). Não era a toa que procuravam matá-lo. E Jesus, ao tomar partido desta situação, colocava-se ao lado daqueles que sempre eram os oprimidos do sistema. (Lc 5, 27-31; Jo 8, 1- 9). Não existia, por parte de Jesus, nenhuma condenação moral, mas sim um trabalho para promover a vida, a dignidade e a luta conjunta.

Neste ano de 2011, vimos o crescimento da violência fruto do ódio, do pré-conceito e da ganância humana. Indígenas e homossexuais foram vítimas crescentes do processo de arrogância e ódio ao diferente. Os fatos, há muito, já deixaram de ser isolados e tornaram-se um problema social. Neste sentido, assim como com todos os(as) excluídos(as) de sua época Jesus se colocaria ao lado da luta indígena e LGBTT, por entender que é assim que mudamos a face e o mundo onde vivemos. Jesus entenderia que demarcar as terras indígenas, e aprovar o PLC 122 são elementos fundamentais para combater o pré-conceito, as situações de morte, de ódio e de ganância e, assim, promover a vida.

3) Outras ações:
Porém, com mais certeza ainda, Jesus não limitaria sua atuação a uma simples mudança nas leis. Ele, mais que ninguém, sabe como é necessário valorizar cada ser humano em especial. Assim, sua atuação iria para além do PLC 122. Destaco ao menos duas ações que imagino que Ele nos desafia:

a) Respeito com todas as crenças e formas de diálogo com Deus: Deus não está inscrito em uma religião. Ele dialogo com cada povo conforme sua cultura e cada ser conforme sua própria individualidade. O sentido deste diálogo não é outro senão a promoção da vida, em sua integralidade, individual, comunitária, coletiva e social (Jo 10, 10). Assim, o respeito às diversas manifestações culturais e religiosas de promoção da vida, é fundamental numa sociedade laica e que preza pela diversidade, igualdade e respeito.

Nesta mesma linha, Jesus jamais alcunharia com termos excludentes os fiéis pentecostais. Ele sabe que, assim como nos terreiros do Camdoblé e da Ubanda, onde se utiliza da tradições afros para dialogar com seu povo, Deus também promove a vida e resgata a dignidade de milhares de pessoas nos cultos e missas pentecostais.

Mas, Jesus com certeza condenaria padres, bispos, pastores, líderes de qualquer religião que, ao usar o nome de Deus, pregue o ódio, a exclusão e a ausência de amor. Se Jesus fez isto em seu tempo (Mt 23), também faria hoje. Mas sempre respeitando a religiosidade e a cultura popular. Assim, Jesus defenderia que o PLC 122 tem que valer também para dentro das Igrejas, pois a homofobia em nada tem a ver com a religião e, quanto mais elas se afastarem, melhor será para a própria religião.

b) Relações humanas e de amor, ao invés de pré-conceitos: Jesus inovou e quebrou os pré-conceitos de sua época ao expressar seu amor e afeto às pessoas que o cercam. Tirou a mulher de sua condição submissa e não se intimidou inclusive em demonstrar maior ligação e afeto a um discípulo que a outro (Jo 21, 20). Ao condenar os líderes religiosos e políticos da época, Jesus voltou-se para o povo, buscou entender a vida e os sentimentos de cada um(a). Era assim, ao promover o amor e misericórdia, que realizava seus milagres. Quando ele mesmo errava, reconhecia o erro e aprendia com o povo (Mt 15, 22 –28)

Jesus sempre soube que de nada adianta leis sem a prática e a vivência cotidiana. Foi um dos primeiros educadores populares da história. Como educador popular sabe que a verdade não se encontra nos livros estancados para interpretação de poucos, mas sim, e ainda que orientado pelos livros, na vivência cotidiana e comunitária para a promoção da vida, da justiça e da igualdade.

Na época de Jesus não existia a escola formal de hoje. Em vivendo hoje, por ser um educador, Jesus com certeza entenderia o papel da Escola como educadora e produtora da vida. Saberia da importância da educação na transmissão de valores e princípios. Assim, ao defender que as relações humanas se prezem pelo amor, e não pelo pré-conceitos, Jesus defenderia sem sombra de dúvidas o desenvolvimento de diversas iniciativas visando o respeito às diferenças ao invés de se impor uma verdade absoluta, a busca de relações afetivas livres ao invés das relações que prezam pelo ódio, pelo orgulho e sentimento de posse. É com leis e com a prática que se combate a homofobia e o conjunto de pré-conceitoe e formas de opressão. Esta prática tem que ser vivenciada nas escolas, nas igrejas, em cada espaço de nossa sociedade. Uns chamam isto de Kit-anti homofobia. Mas, com certeza, Jesus, nos dia de hoje, iria além.

Que o Grande Espírito, o Deus da Vida ilumine os povos em luta por justiça, respeito e igualdade neste ano de 2012. Amém, Axé, Awiri. Aleluia!

- Francisco Carneiro De Filippo (Chico)
Cristão, economista e militante do PSOL.
Reproduzido via O Miraculoso

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

LGBTs e envelhecimento: planejamento e prevenção x descaso

Foto: Isa Leshko

É notório o nosso traço cultural de não sermos afeitos a postura preventiva; ao planejamento do futuro; à cultura da poupança... Por igual a ausência do hábito de nos envolvermos de forma ativa, pragmática, com as questões coletivas.

Não faz parte de nossa "marca" enquanto povo o hábito de construção e/ou manutenção coletiva de instituições sociais - escolas, creches, abrigos, hospitais, clubes de lazer, fundos de ensino e pesquisa etc.

Estes foram traços que estiveram presentes até aproximadamente os anos 20 do século passado, época em que vigoraram as Sociedades de Socorro Mútuo, as Caixas de Assistência e Pecúlio, as Associações Beneficentes, de Amparo etc., instituídas seja por grupos nacionais (portugueses, italianos, espanhóis); irmandades religiosas e filosóficas (católicas, protestantes, espíritas, maçônicas etc.); ou por corporações de ofícios - legais ou não (Ourives, Prostitutas judias, marítimos, músicos, operários etc.).

Com o advento da previdência estatal e o crescente individualismo, perdeu-se, entre nós, a cultura de construção coletiva de respostas aos desafios sociais, numa perspectiva mutualista. Sobretudo pela dificuldade na permanência de características como cooperação e lealdade enquanto valores a serem cultivados.

Tornados cada vez mais estranhos à essa nova conjuntura, mas também sob a influência da característica jovem de sua população, iniciativas desses tipos de sociedades foram se tornando cada vez mais escassas.

Hoje, com o acelerado envelhecimento da população, observa-se igualmente o envelhecimento do segmento mais atomizado dentre ela: os indivíduos homossexuais, travestis e transexuais, cujos vínculos familiares foram costumeiramente rompidos, por conta do preconceito e estigmatização de que ainda tem sido objetos.

Pior do que a violência, que graças à iniciativa precurssora do Grupo Gay da Bahia, se dispõe desde os anos 80 do século passado de alguma estimativa, nem o Estado, nem os movimentos LGBTTs dispõem de qualquer mensuração sobre as características do envelhecimento desse grupo populacional - número de indivíduos, níveis de renda, redes de apoio, graus de escolarização etc.

O grupo "homossexual" mais antigo que se tem notícia - A Turma OK, no Rio de Janeiro -, na atualidade enfrenta uma situação bizarra que espelha a situação social desse coletivo. Devido à ausência de condições de acessibilidade (o imóvel onde a TOK encontra-se instalada não dispõe de elevador), seus sócios fundadores e de maior faixa etária encontram-se impossibilitados de continuar frequentando o espaço que ajudaram a criar; de desfrutar do convívio social com seus pares - seja da mesma seja de outras gerações, o que seria fundamental para a manutenção de sua saúde biopsíquica.

Assim, verifica-se o mais absoluto processo de invizibilização de idosos e idosas LGBTTs. Ninguém sabe onde estão, quantos são, como vivem.

Tenho procurado sensibilizar este segmento, com os recursos de que disponho - a rede mundial de computadores; a participação na I Conferência Nacional de Políticas Públicas para LGBT.

Entretanto, dado que a imensa maioria dos atores engajados no ativismo pertencem a gerações marcadamente mais jovens e/ou desfrutam de redes de proteção familiar, torna-se difícil conseguir obter a sensibilização necessária à construção - por estes sujeitos, em um movimento mutualista, cooperativo - de quaisquer mecanismos de proteção social para essa faixa etária - espaços de convivência, grupos de apoio, casas-lares etc.

Não consegui saber de nenhum ativista LGBTT que tivesse participado da Conferência Nacional da Pessoa Idosa, realizada em 2011, como igualmente não soube de nenhuma deliberaração voltada a este segmento geracional, na II Conferência Nacional de Políticas Públicas para LGBT.

Diante dessa aparente desmobilização, vejo que os movimentos LGBTTs não demandaram nenhuma cota para a população LGBTT no Programa Minha Casa, Minha Vida, por exemplo, como existe para idoso em geral e para o deficiente físico.

Perdeu-se e perde-se, por exemplo, uma excepcional conjuntura favorável existente tanto no governo federal, comm a destinação de linha de financiamento específica, quanto no Estado do Rio de Janeiro, que dispõe de organismos de defesa LGBT estadual e municipal, já tendo inclusive o Estado do Rio inaugurado um projeto de condomínio geriátrico assemelhado ao que venho daqui defendendo, lamentavelmente sem que contasse com nenhuma cota para o segmento LGBT - os beneficiários, inclusive, segundo noticiado, seriam escolhidos por sorteio, o que a mim me afigura enorme perversidade.

Teria sido, de meu ponto de vista, uma importante conquista social para gays, travestis, transexuais e lésbicas em condições de vulnerabilidade social.

Na única reunião a que fui convidada a participar junto à CEDS-Rio abordei este tema. Foi dito que os órgãos de assistência social juntamente com a Coordenadoria tentariam dimensionar o público-alvo.

Como nenhum informe é repassado aos membros do Conselho - nem mesmo os seus nomes figuram na página da Coordenadoria -, tampouco se verificou a convocação a qualquer outra reunião, fica-se sem saber a quantas anda a questão no nível de governo municipal. - A se examinar a página oficial da CEDS-Rio, fica-se com a impressão que a Coordenadoria apenas tem se dedicado à promoção de festas e algumas campanhas publicitárias contra a homofobia, o que é lamentável.

No governo estadual, levou-se seis anos para a inauguração do Disque-Denúncia e dos Centros de Referência (três, se não me engano).

Este ano de 2012 teremos eleições municipais. É provável que o atual prefeito se candidate à reeleição... Bem que o segmento LGBTT do Rio poderia inserir esta reivindicação - o compromisso com a criação de espaço de socialização e moradia que contemple a população LGBT - a ser apresentada a todos os candidatos, não?

- Rita Colaço
Reproduzido via Boteco Comer de Matula

(Dica do amigo Ricardo Rocha Aguieiras)

* * *

Referências:


 COLAÇO, Rita. Os efeitos da estigmatização e a importância estratégica de incentivo à formação de grupos de convivialidade como geradores de proteção social e valores comunitários, a partir do depoimento de uma ex-fundadora do GAAG. II Encontro Nacional Universitário sobre Diversidade Sexual (ENUDS), UFPE, 03 a 07 de setembro de 2004.


_________. Poder, Gênero, Resistência, Proteção Social e Memória: aspectos da socialização de “lésbicas” e “gays” em torno de um reservado em São João de Meriti, no início da década de 1980 [dissertação de mestrado]. Niterói: UFF/ESS–PPGPS, 2006. Disponível em: http://www.bdtd.ndc.uff.br/;


SILVA JR., Adhemar Lourenço da. As sociedades de socorros mútuos: estratégias privadas e públicas (estudo centrado no Rio Grande do Sul–Brasil, 1854-1940). Tese [Doutorado em História]. PUC-RS, FFCH Disponível aqui.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Da condenação à conversão

Grafite: Bansky

Uma noite, ao tentar fugir da polícia, um jovem de 19 anos perdeu o controle de um Cadillac roubado, bateu contra um ponto de ônibus e matou quatro pessoas. Foi preso e condenado por quase-delito de homicídio e outros delitos, tendo sido condenado a 47 anos de presídio. Este incidente não foi a única tragédia que presenciara em sua relativamente curta existência. Abandonado por seu pai e criado por uma mãe alcoólica, o jovem nunca teve infância. Durante a adolescência, seus amigos usavam e traficavam drogas em carros roubados. Agora, aos 30 anos, sairá finalmente da prisão. Embora seja tarde demais para consertar o dano causado por seus atos, o tipo de pessoa que será quando estiver novamente nas ruas de Wisconsin ainda é uma pergunta sem resolver.

Atualmente há 2,3 milhões de homens e mulheres nas prisões americanas, a proporção de encarceramento mais alta do mundo. Três de cada 100 adultos americanos estão em liberdade condicional, em prisão ou em liberdade sob palavra. Segundo o Ministério da Justiça dos EUA, a cada ano quase 650.000 pessoas saem das prisões estatais ou federais, e muitas mais dos cárceres locais. A reinserção com freqüência falha; a metade dos presos em cárceres estatais voltarão à prisão dentro dos três anos seguintes a sua libertação.

Os cidadãos querem que os culpados de crimes graves sejam castigados para manter o estado de direito, como método de dissuasão para cometer mais delitos e para assegurar-se de que os criminosos “paguem sua dívida com a sociedade”. Estigmatizar a criminosos e exigir condenações mais severas rende bons dividendos eleitorais. Mas, como as taxas de reincidência demonstram, as políticas resultantes não propiciam a reabilitação.

Há uma afirmação fundamental do cristianismo, é que Deus ama todos os seres humanos. A forte defesa que o cristianismo faz da pessoa, fundamentado na crença de que todo ser humano foi feito à imagem e semelhança de Deus, abrange homens e mulheres em nossos cárceres da mesma maneira que aqueles que estão por nascer e os idosos. Isso nós encontramos nas Escrituras, onde visitar os que estão na prisão é uma das demonstrações físicas de compaixão e caridade que se equiparam com o amor a Cristo. Um dos últimos atos de Jesus, antes de sua morte no Calvário, foi a de estender sua misericórdia ao criminoso arrependido (e a seus próprios verdugos impenitentes). A mensagem de Cristo se expressa poderosamente em suas próprias palavras: ”Os sãos não necessitam de médico, mas sim os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores” (Mc 2,17).

Privar de liberdade às vezes é necessário para proteger a sociedade dos criminosos perigosos. Mas tornar um infrator responsável não é o mesmo que defini-lo pelo pior que tiver feito. Da mesma maneira, a privação de liberdade não precisa equiparar-se com o desterro moral entre os homens. Recordar a dignidade humana básica do infrator pode reforçar as esperanças de reabilitação. Isto muda o foco desde a condenação para a conversão, brindando a possibilidade de reconciliação na comunidade de vítimas e condenados.

Um tipo diferente de justiça
Uma iniciativa da qual participei pode servir de exemplo já que envolve homens e mulheres em todo o país que trabalharam a favor da justiça restaurativa.

Janine Geske, anteriormente juíza da Suprema Corte de Justiça de Wisconsin, é diretora de Restorative Justice Initiative da Escola de Direito de Marquette University. Parte de seu trabalho consiste em estabelecer oficinas de justiça restaurativa em prisões de máxima segurança duas vezes por ano. Ao ter realizado investigação sobre a justiça restaurativa e ter trabalhado como voluntário no sistema carcerário de Massachusetts, fui convidado a participar numa destas oficinas de três dias em Green Bay Correctional Institution, em abril passado.

O processo da juíza Geske está centrado na reflexão circular, uma adaptação de uma prática dos nativos americanos que procura provocar uma compreensão transformadora, através da conversa entre os participantes, conversa honrada e livre de julgamentos. Nesta oficina participaram 25 presos, várias mulheres cujas vidas mudaram irrevogavelmente por causa de um crime e de alguns estudantes de direito de Marquette.

No primeiro dia, os líderes da oficina definiram e explicaram o conceito de justiça restaurativa; depois grupos menores discutiram a onda de efeitos daninhos que um ato criminoso provoca. O foco não estava só nas conseqüências negativas de nossos atos, mas também na responsabilidade que nos cabe por eles. Os participantes ouviram três vítimas: uma mãe cujo filho foi morto por um motorista que manejava ébrio; a viúva de um oficial da polícia assassinado em ato de serviço, e uma esposa e mãe que foi raptada e violada a ponta de navalha. Estas participantes preferiram chamar-se vítimas sobreviventes, para deixar estabelecido que não se limitaram ao papel passivo de serem ‘só’ vítimas. Através de seus relatos estas mulheres expressaram algo do dano que elas e seus seres queridos tinham sofrido na mão de outros. Enquanto os presos escutavam completamente concentrados, alguns se emocionaram até as lágrimas, horrorizados com o que estavam escutando. Suas emoções variavam da fúria contra os culpados até a culpa e profundo arrependimento pelos efeitos que seus próprios crimes tiveram sobre pessoas inocentes.

O dia final abriu com uma mesa redonda de discussão sobre as revelações que os reclusos ouviram no dia anterior. As revelações foram depois expressas através da arte, da música e da narração. Os participantes fizeram representações em grupos, com retratos imaginativos (às vezes humorísticos) de como indivíduos encerrados em modelos de conduta destrutiva podem contribuir com formas de vida mais construtiva. Apesar de os reclusos terem lutado com a culpa e o perdão, expressaram esperança futura e fizeram compromissos práticos tendo em vista mudanças comportamentais. Inclusive aqueles que não tinham esperança de sair “sob palavra” estiveram de acordo em fazer mudanças positivas em sua relação com os outros presos, pessoal administrativo e suas famílias, e da maneira como viam a si mesmos.

Após as oficinas
As oficinas de justiça restaurativa podem conseguir várias coisas. Primeiro, são atividades importantes para as vítimas sobrevivientes. Falar para a uma sala cheia de perpetradores com frequência abre as avenidas da cura, tanto para eles como para os reclusos presentes. As três oradoras na oficina de Green Bay disseram que é vivificante não estar reduzidas ao silêncio ou se retorcer em seu sofrimento e ressentimento. A cura funciona em ambos sentidos: “quero que saibam que há pessoas lá fora, na comunidade, que se preocupam por vocês” —disse uma oradora aos reclusos—. Sua maneira respeitosa, por outro lado, foi importante para as vítimas sobreviventes, que manifestaram esperança de que os presos pudessem ver o profundo efeito de seus crimes e portanto que fosse menos provável que os repetissem a futuro. “Se o que eu falo impede que no futuro uma pessoa se transforme na vítima de um crime violento, meu esforço terá valido a pena”, disse uma das vítimas sobreviventes.

Em segundo lugar, para a maioria dos detentos este oficina foi a primeira que escutaram sobre a atual cifra de crimes de boca de uma vítima real falando em primeira pessoa. Pedir aos delinquentes, homens defendendo-se de qualquer demonstração de vulnerabilidade ou falta de confiança em si mesmos, que refletissem sobre seus atos e que compartilhassem seus pensamentos com os demais também produziu uma mudança significativa. Para eles, a parte mais difícil foi prestar atenção nos relatos sobre o sofrimento dos inocentes.

Dado que o processo da justiça criminosa se enfoca muito especialmente no crime como a violação da lei, é fácil que se perca perspectiva da vítima. A natureza contenciosa do processo legal também diminui as probabilidades de que os delinquentes percebam o que suas vítimas tiveram que suportar e o que deverão continuar sofrendo. Inclusive quando as vítimas falam numa vista de sentença, seu depoimento com frequência é usado para justificar o castigo ao delinquente, não para reparar o dano causado à vítima.

Em contraste, os depoimentos das vítimas sobrevivientes ajudam os detentos a verem os efeitos em cascata que têm seus atos. No decorrer da oficina, muitos delinquentes admitiram que nunca tinham considerado seriamente os impactos humanos de seus crimes. Isto pode parecer esquisito, mas devemos perguntar-nos com que frequência a maioria de nós sabe (ou quer saber) sobre o impacto negativo de nossos erros? O mesmo é certo para aqueles que são condenados por roubo à mão armada, violação ou homicídio.

Terceiro; a oficina ofereceu um fórum para que os presos pudessem falar de suas próprias origens problemáticas. A dor das vítimas dos crimes trouxe de volta suas próprias dores: um jovem adolescente severamente golpeado por membros de uma liga que controlava seu bairro; um menino de 5 anos que via como sua mãe era agredida e estuprada; um homem que aos 9 anos de idade foi estuprado com a ponta de navalha por seu professor favorito e depois ameaçado de morte para que guardasse silêncio; um menino de 13 anos cuja irmã se prostituiu para poder pagar o craque que consumia, morrendo assassinada na rua.

É inegável que os que causam dano a outros com freqüência eles próprios também foram punidos. Isto provocou compaixão tanto nos presos como também nas vítimas sobreviventes. No entanto, nem um dos dos detentos invocou traumas da infância para exonerar-se ou para mitigar sua responsabilidade. O relato destas histórias também não se transformou numa ocasião para comparar sofrimentos; foi mais uma libertação catártica de energia emocional provocada por presos internalizando-se, ainda que brevemente, no sofrimento do outro. O compartilhar mudou a maneira como estes ofensores viram a si mesmos e os demais. “Você me permitiu enfrentar meus demônios”, disse um dos presos a uma vítima. “Agradeço-lhe por ter-me devolvido minha humanidade”, disse outro. O depoimento dos sobreviventes liberaram os homens para que pudessem reconhecer suas próprias ondas de frustração e repugnância, seu agastamento e ira, sua culpa e vergonha. A compaixão que sentiram pelas vítimas sobreviventes e por seus companheiros, além da pena para uma nova determinação e responsabilidade.

Para mim, o comentário que definiu a oficina foi feito no último dia: “o que aprendi nesta semana” disse um deles, “é que estamos todos quebrantados, mas não estamos sozinhos”. Este homem, aos trinta e poucos anos, está enrolado numa cultura carcerária que vê a vulnerabilidade como uma debilidade e um convite aos problemas. Entretanto, ele percebe que foi debilitado por sua educação e por suas próprias más decisões, não precisando fazer crer que é diferente. Percebeu que o fato de se encontrar debilitado é condição humana comum. Suas palavras expressaram o que muitos tinham descoberto: um novo sentido de solidariedade entre aqueles marcados pela vida e uma nova capacidade de amizade para com os demais.

A dimensão da redenção
A oficina da justiça reparadora não foi uma atividade religiosa em si. Porém, muitos dos detentos expressaram sua fé em Deus e o desejo de viver corretamente. Longe de procurar um “perdão barato”, confessaram que merecem estar encarcerados, e uns poucos inclusive declararam que “não merecem ser perdoados”. Além disso, outros expressaram a esperança que algum dia sejam considerados pelo divino médico que veio curar os doentes, não os sãos. Nas palavras de um detento: “Quando não nos resta nada mais, Deus está fazendo alguma coisa”.

A oficina ajudou os presos a reconhecer que estão quebrantados para poder começar a viver vidas regidas pelo amor, em vez do medo e da vergonha. Nas palavras de Jean Vanier e Stanley Hauerwas em Living Gently in a Violent Word, “não podemos estabelecer uma relação com pessoas que estão fraturadas a não ser que de alguma maneira nós nos encarreguemos de nossas próprias transgressões”. Ao enfrentar suas trnasgressões, os reclusos entram em contato com seu desejo de cura, não só para suas vítimas, mas também para si mesmos.

A crença cristã sustenta que inclusive os erros do passado não podem ser refugos ou esquecidos, podem ser redimidos. Tal redenção, se for verdadeira, tem que começar aqui e agora, num contexto de comunidade. Tal como observou Thomas Merton, O.C.S.O., “Nenhum homem vai sozinho para o céu”. Reconhecer que “estamos todos fraturados, mas não estamos sozinhos” está a tom com a Eucaristia na qual se parte Cristo e é repartido num grande ato de redenção. Esta verdade se aplica não só aos reclusos dos cárceres de alta segurança, mas a cada um de nós: quebrantados e pecadores, no entanto, amados e chamados por Deus a um futuro de esperança, promessa e reconciliação.

- Stephen J. Pope
Reproduzido via Amai-vos
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