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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Lésbicas: orgulho e visibilidade

Foto: Andy Barter


Com atraso, reproduzimos aqui o texto escrito por nossa amiga Ivone Pita sobre a questão da visibilidade lésbica, a propósito do dia 29/8, que celebra justamente esse tema. Fica a reflexão sobre a violência da invisibilidade...

Somos lésbicas. Somos mulheres que vivem sem homens em um mundo machista e de mentalidade patriarcal.

Somos mulheres que subvertem a ordem do sexo frágil, da dependência e da subserviência. Somos mulheres que não seguem o “manual de boas práticas femininas”, que dita modos de vestir, de agir, de falar, de ser e estar no mundo. Somos revolucionárias na acepção própria da palavra: fazemos uma transformação radical na estrutura da sociedade.

Estamos onde supostamente mulheres não deveriam estar. É ainda espantoso para muitos, por exemplo, aceitar que duas mulheres possam viver sem um homem. Como vão resolver tarefas cotidianas tidas como masculinas? Não irá lhes faltar força? Jeito? Tino? Há ainda as tentativas de ridicularizar, diminuir e não reconhecer nossa sexualidade. Há
uma desqualificação fálica de nosso sexo. Para machistas de carteirinha - e uniforme completo! - lésbicas não trepam de verdade, apenas brincam de se esfregar. Sim, meninas, como se fosse pouco e somente o que fizéssemos. Mas a despeito das agressões e desqualificações, seguimos subvertendo a ordem, desconstruindo certezas e quebrando o que estaria estratificado.

Entretanto, sem orgulho, nada disso é possível. Sem orgulho, nos encolhemos, nos escondemos, deixamos a vida passar. Sem orgulho, não nos fazemos visíveis e sem visibilidade é como se não existíssemos. E, assim, nenhuma revolução acontece, nenhuma revolução é possível. Por outro lado, sem visibilidade não promovemos o orgulho. Somente a partir do momento em que nos tornamos visíveis por sermos nós mesmas, é que somos plenamente orgulhosas de sermos quem somos. E para isso é preciso coragem.

Vivemos em uma sociedade que insiste em dizer qual é o lugar da mulher, como deve ser sua inserção social e como deve se comportar. Sendo lésbica, melhor nem existir, pois não cabemos nos papéis destinados à mulher. E é assim que cotidianamente a sociedade nos diz que deveríamos nos envergonhar de ser quem somos e esconder nosso amor. É assim que a sociedade insiste em nossa invisibilidade, pois o que não se vê, não existe, não incomoda, não subverte.

Quando permanecemos invisíveis, contribuímos com a manutenção da discriminação e da violência, motivos pelos quais muitas mulheres optam por uma vida de anulação e silêncio. Contribuímos com a lesbofobia, pois não dizemos ao mundo que estamos em todos os lugares, em todas as profissões, em todas as famílias, em todos os cargos. Não dizemos que somos mães, filhas, avós, tias, irmãs, empregadas domésticas, médicas, advogadas, professoras e toda sorte de representação e inserção social. Não ajudamos outras mulheres a se revelarem, a se assumirem, a serem plenas. Assinalando nossa existência, derrotamos o medo do desconhecido, a discriminação e o ódio alimentado pela perversidade delirante – e nada inocente - de lésbicas destruidoras de família. Existindo publicamente, abordamos questões que nos são específicas e combatemos o sexismo.

A invisibilidade é uma grande violência contra nós lésbicas. Na mídia, por exemplo, o foco são os homossexuais masculinos. A violência homofóbica é tratada como um fenômeno que atinge somente homens.

Mas nós mulheres, se não estamos nos jornais como vítimas de violência física especificamente por nossa sexualidade, isso ocorre apenas pela violência do silenciamento: seja pela invisibilidade auto-imposta, por medo, seja pela falta de estatística específica. Aliás, não temos dados específicos de coisa alguma e raros registros de nossa história. E daí a imensa importância do coletivo. Para enfrentar os desafios que nos são apresentados e superar tanta opressão, não há como avançar individualmente, a única forma de alterarmos o ciclo perverso de invisibilidade e descaso é pela união de nossas vozes, de nossa força. A única saída possível é nos organizarmos e lutarmos. E isso depende de cada uma de nós, não de agentes externos. Nós temos direito à existência, a uma vida completa, à cidadania plena, à visibilidade. Podemos e devemos ser felizes. Plenamente felizes.

A visibilidade lésbica cotidiana é que derrubará a censura que nos é imposta e o cerceamento de nossos afetos e desejos, portanto, realize algo grandioso: torne-se visível, desafie a opressão e o autoritarismo da normatividade, pois é assim que escreveremos nossa história, uma nova história, e construiremos uma sociedade mais justa, mais solidária, democrática e plural.

- Ivone Pita

 Publicado originalmente no Gay1 (PolíticAtiva)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Três links e um brinde

Instalação: Elise Morin

Rapidinho, três links para baixar trabalhos acadêmicos de qualidade sobre a relação entre homoafetividade e cristianismo:

Via(da)gens teológicas: itinerários para uma Teologia Queer no Brasil (tese de doutorado de André S. Musskopf, Bacharel, Mestre e Doutor em Teologia pela Escola Superior de Teologia. Pesquisador nas áreas de: Estudos Feministas, Teorias de Gênero, Teoria Queer, Masculinidade, Homossexualidade e Diversidade Sexual, na sua relação com Religião e Teologia). Aqui

Homossexualidade, religião e gênero: a influência do catolicismo na construção da auto-imagem de gays e lésbicas (tese de mestrado em teologia de Valéria Melki Busin), aqui

A fé e os afetos: Diversidade Sexual, Catolicismo e Protestantismo em sites de grupos cristãos inclusivos, por Murilo Silva de Araújo e Maurício Caleiro. Trabalho apresentado no Intercom Júnior – IJ 07 – Comunicação, Espaço e Cidadania, do XVI Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste, realizado de 12 a 14 de maio de 2011. (O Diversidade Católica está aqui! ;-)) Aqui

E um brinde:
"A Igreja do Diabo", conto de Machado de Assis. Uma análise atemporal (e deliciosa) sobre ética, vícios, virtudes e humanidade... aqui (RT @Wedge_issue) #ficadica

Com amor,

Cris

terça-feira, 26 de julho de 2011

O que aconteceu com o sexo?

Foto: Sarah

Diante do debate sobre a visibilidade gay na televisão brasileira hoje, achamos pertinente reproduzir aqui este texto do teólogo gay/queer André Musskopf, escrito em 2007 e publicado na G-Magazine e na revista alemã Werkstatt-Schwule Theologie (via blog do autor).

Já faz algum tempo que tenho refletido sobre a importância do sexo na construção da identidade gay. Tive uma fase em afirmar que minha identidade não era construída exclusivamente a partir do meu desejo ou das minhas práticas sexuais, para contrabalançar aqueles e aquelas que me viam apenas como um "ser sexual", ignorando todas as outras variantes que fazem parte da construção (e reconstrução) da minha identidade.

Como gosto de cinema e televisão (também das novelas!), fui levado mais uma vez a esta reflexão, e à minha já quase solidificada constatação, após ler uma entrevista de Gilberto Braga à G-Magazine (Março/2007). Nesta entrevista a respeito da novela Paraíso Tropical o autor afirma que "os meus gays não ocupam um espaço importante na novela ... porque uma história de amor gay pode não interessar à maior parte do público" e "os gays não têm história [em Paraíso Tropical] exatamente porque se eu der uma para eles, vou tirar o espaço de personagens para os quais está prevista uma história. Os gays devem ser bons coadjuvantes". Não tenho por objetivo fazer uma crítica à obra de Gilberto Braga ou ao seu caráter militante. Mas pensar no que tanto incomoda nas relações homossexuais, na dramaturgia bem como no cotidiano.

A reflexão: já fui levado muitas vezes ao cinema ou a locadoras pelos comentários sobre o "aspecto gay" de determinados filmes que chocaram audiências - seguramente com o objetivo de ver os tais "avanços" e, mais subjetivamente, a mim mesmo. Um deles que me recordo foi Alexandre, o Grande. Frustração! Talvez tenha lido os comentários errados, mas os supostos "componentes gays" não passaram de uma cena breve em que se insinua algum contato com um de seus súditos, que ninguém sabe se foram concretizados ao término do filme. O que ninguém deve esquecer é a cena tórrida de sexo de Colin Farrel (Alexandre) com Angelina Jolie (Olímpia). O exemplo mais recente é Brokeback Mountain. Este, que já foi lançado como um "filme gay", não poderia ser mais frustrante para alguém interessado em "sexo gay". Tirando a cena na cabana - e talvez a cena do beijo no reencontro - só consigo lembrar de outras cenas de sexo entre os cowboys e suas esposas. Não é à toa que no Brasil o filme foi lançado como o "segredo" de Brokeback Mountain. Poderia muito bem ser uma estória sobre dois amigos muito íntimos e muito companheiros, como as relações de amor fraternal descritas por inúmeros religiosos celibatários ao longo da história da Igreja Cristã. Como um "bom gay" eu posso imaginar o sexo e ir para casa com a sensação de que os homossexuais agora serão mais bem aceitos pela singeleza e pelo sofrimento expressos no telão. Coitados! Mas como um "bom gay" também quero saber o que aconteceu com o sexo?

Voltando às novelas, o próprio Gilberto Braga menciona as mudanças na abordagem do tema em A próxima vítima e América. Eu mesmo acompanhei e fiquei emocionado - eu confesso - com as histórias dos casais gays nestas novelas. Mas nem um beijinho? Que dirá sexo! Já sexo entre casais heterossexuais... Mesmo em Paraíso Tropical, personagens que eu colocaria no rol de "coadjuvantes", andam fazendo sexo com vontade. Outro dia vi uma cena de Bruno Gagliasso (o mesmo de América) com sua namorada em que ambos estava seminus, ela entrelaçando ele com as pernas, ele chupando os seios dela... ui! Já o casal formado por Sérgio Abreu e Carlos Casagrande... lindos, mas sem beijo e sem sexo, coadjuvantes sexless numa trama cheia de sexo. Defensores da moral e dos bons costumes?

Claro, não é preciso ir ao mundo do cinema ou da televisão para buscar exemplos similares. A própria comunidade gay tem construído suas fobias e mecanismos de ocultamento do sexo. Basta pensar nas reações causadas pelos "exageros" nas Paradas Gays na comunidade e a busca por parceiros/namorados cada vez mais discretos, mais masculinos, mais alinhados... aquele tipo que não causaria suspeita em lugar algum de ser, de fato, gay, e seria um sério candidato ao "genro que toda sogra sonhou". Nenhum vestígio de homossexualidade. O sexo fica no quarto, e os direitos também, é claro. Mas esta discussão já é bem conhecida e não vou me alongar nela, só dizer que suspeito que os motivos destas posições venham do mesmo lugar.

Mais um exemplo, este do mundo das igrejas. Talvez não seja muito conhecida a política de ordenação de homossexuais ao ministério, mas em algumas igrejas protestantes criou-se a "possibilidade" de homossexuais serem ordenados pastores, desde que sejam "não-praticantes". Ora, pressupõe-se que todo mundo saiba o que não se pode "praticar" a fim de que seja aceito como obreiro da igreja. Mas é bom dizê-lo: significa eliminar o sexo. O mesmo princípio regula a Igreja Católica Romana na sua relação com seminaristas e padres homossexuais, mas, neste caso, com o "atenuante" de que isto é exigido de todos, uma vez que o celibato é condição para o sacerdócio, sem exceções. Não vou aqui discutir o que de fato acontece na vida daqueles que se professam celibatários ou não-praticantes - poderíamos encontrar muito sexo aí. A questão é que no nível do discurso e da política eclesiástica parece atuar a mesma idéia que vinha identificando acima: acaba-se com o sexo (pelo menos pública e oficialmente) e as portas se abrem para "homo(já nem tão)sexuais". E também aí sabemos que não é bem assim que funciona.

A constatação: a questão da marginalização, exclusão e discriminação de homossexuais está proporcionalmente relacionada ao sexo. Esconde-se o sexo, a aceitação de homossexuais aumenta. Será? Bonitos, saudáveis, gentis, trabalhadores, sensíveis - tudo bem. Beijos e sexo - nem pensar. Como teólogo penso na histórica "negação ou domesticação" do corpo e da sexualidade, nos discursos sobre eles bem como em qualquer discurso teológico. Elogia-se a ideologia do amor romântico e a caridade fraterna, demoniza-se a materialidade do sexo e do desejo. Como pesquisador na área da sexualidade penso na higienização do sexo e na construção ideológica da família burguesa. Sendo assim, também tenho consciência dos limites e das possibilidades do sexo, em sua forma discursiva, na sua representação e nas práticas. Mas prefiro as possibilidades e o sexo.

Por mais que se questione a banalização do sexo heterossexual patriarcalmente definido (promovido pelas novelas ou qualquer outro meio de comunicação), também banaliza-se o sexo homossexual pela via do silêncio e do ocultamento. Ele já não nos pertence mais! Enquanto se deixa de veicular a mensagem de que o sexo gay é bom e saudável, transmite-se a mensagem de que é tão monstruoso que até mesmo um beijo precisa ser evitado para que, assim, os gays pareçam "normais" - comparados a quem? Tudo para que tenhamos últimos capítulos com muitos casamentos e crianças recém-nascidas ("Quanto maior a família melhor, diria o milionário Aristides de Páginas da Vida). E pobres das criancinhas que são influenciadas por estes meios diabólicos de comunicação: ou crescem e se tornam adultos homofóbicos, ou passam a adolescência tentando lidar com seus desejos, quando não se suicidam antes.

Ergamos nossa voz - pelo direito ao sexo! Nos quartos, nas telas de cinema e na televisão! Seguro, sem culpa e com tesão! Senão continuaremos sendo meros coadjuvantes sem uma história que seja nossa pra contar, e não cidadãos de verdade.

- André S. Musskopf

domingo, 24 de julho de 2011

Sexo: obediência e revelação


"A sexualidade humana é o núcleo de toda a agitação católica que o Papa e o Vaticano ainda se recusam a enfrentar e a discutir de forma realista." A análise é de Richard Sipe, conselheiro em saúde mental clínica, que viveu por 18 anos como monge beneditino e sacerdote. Fez sua formação específica para tratar de padres católicos com problemas de saúde mental. O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 01-06-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, reproduzido via IHU com grifos nossos.


O teólogo Yves Congar disse uma vez: "Na Igreja Católica, muitas vezes pareceu que o pecado da carne era o único pecado, e a obediência, a única virtude". Essa dicotomia dinâmica forma a chave para a estrutura de toda a crise dos abusos sexuais do clero que atualmente envolve a Igreja Católica.

Mas o abuso sexual de menores por clérigos que fizeram o voto do celibato é apenas o sintoma de um sistema desesperadamente necessitado de uma reconsideração fundamental.

A sexualidade humana é o núcleo de toda a agitação católica que o Papa e o Vaticano ainda se recusam a enfrentar e a discutir de forma realista.

Em 1990, um bispo que voltava de Roma me disse que o Papa João Paulo II instruiu pessoalmente cada novo bispo para que "não discutisse em público" o controle de natalidade, o sacerdócio casado, a ordenação de mulheres, o aborto e o conjunto de questões celibato/sexuais que constituem um agenda que os teólogos têm apontado há décadas como sendo precisamente o "emaranhado de questões que entopem" a agenda católica.

As lideranças católicas romanas não conseguiram lidar de forma confiável e transparente com toda a sexualidade humana. William Shea apresentou o desafio de forma mais elegante ainda em 1986, quando listou as questões que precisam ser discutidas: "o divórcio e o recasamento, o sexo pré-marital e extraconjugal, controle de natalidade, aborto, homossexualidade, masturbação, [ordenação de mulheres, celibato mandatório] e o monopólio masculino do liderança". Ele opinou que o medo e talvez o ódio às mulheres podem estar no fundo dos problemas eclesiais.

Seria hipócrita protestar que a Igreja tem discutido essas questões ou convida para o diálogo sobre a sexualidade humana. É verdade, o Vaticano tem feito pronunciamentos e declarações sobre cada um dos itens da lista, mas nenhum deles convida ao diálogo. A observação de Congar se confirma. Sexo é tudo pecado. Virtude é submissão e obediência à autoridade e seus ditames.

Apesar do esforço de quatro anos do Papa João Paulo II para definir uma Teologia do Corpo, ele nunca transcendeu algumas das restrições básicas da doutrina da Igreja de que o sexo é pecado. O sexo continua sendo admissível e sagrado apenas dentro de um casamento válido.

Um problema crônico com os pronunciamentos da Igreja sobre o sexo é o uso da ideia de lei natural, assim como eles o definem e aplicam. O Vaticano apresenta a sua interpretação da natureza sexual humana como uma determinação absoluta. Eles isolam a ideia e impõem-na como um instrumento de controle. A abordagem não reconhece que o direito natural também é o guia prático e razoável inerente à consciência independente da revelação. Muitos católicos usam a lei natural como o mapa para orientar seu comportamento sexual. Por exemplo, a lei natural muitas vezes ultrapassa os ditames da "Humanae Vitae" em matéria de planeamento familiar. Alguns comportamentos tachados pela Igreja como "contrários ao direito natural" (masturbação como um exemplo dentre muitos) devem ser abertos ao exame e ao diálogo nas mentes e nos corações de muitos católicos sérios.

"Intrínseca" é uma palavra da Igreja que impede qualquer possibilidade de conversa. O controle da natalidade é apresentado como intrinsecamente mau; assim como o aborto; e a masturbação. Sexo com uma garota menor de idade, porém, não é considerado intrinsecamente mau, só pecado grave.

Os atos homossexuais são "intrinsecamente desordenados". Um documento de 1986, de autoria do cardeal Joseph Ratzinger, declarou que a orientação homossexual, embora não pecaminosa em si mesma, "é uma tendência mais ou menos forte e ordenada a um mal moral intrínseco; e, portanto, a própria inclinação deve ser vista como uma desordem objetiva". Como se o conceito de Pecado Original não fosse suficiente para abranger todos os seres humanos de qualquer orientação ou inclinação.

A definição de sexo como pecado estabelece e mantém um controle autoritário, porque bispos e padres (apenas) têm o poder de perdoar o pecado mortal. Eles são senhores sobre o território interior da alma onde as violações secretas são armazenadas. Exige-se que os católicos apresentem seus graves pecados na confissão sacramental para a absolvição de um sacerdote pelo menos uma vez por ano. Todos os pecados sexuais, claro, são graves, de acordo com a doutrina católica.

A operação de bispos em toda a crise dos abusos sexuais do clero demonstra sua crença de que o sexo com menores de idade com um clérigo é essencialmente pecaminoso e só secundariamente criminoso. Essa postura clerical levou às revelações do dano monumental além da exposição da arrogância clerical impenitente.

Dentro do sistema clerical, o padre abusador arrependido é facilmente perdoado – repetidamente – pelo poder da absolvição. A criança-vítima inocente é abandonada ao fardo psíquico imerecido de culpa e vergonha. Desde 1946, a Igreja estabeleceu uma série de centros de tratamento para o conforto e para ajudar a controlar o clero abusador. A atitude de desprezo para com as vítimas de abuso como adversários incômodos está em claro contraste com a preocupação protetiva e tolerante para com os clérigos.

Sob uma forte pressão pública desde 2002, a Conferência dos Bispos dos EUA (USCCB) instituiu medidas para educar os funcionários e seus filhos sobre os abusos – toques bons e ruins. Auditorias diocesanas para avaliar a conformidade com a Carta de Dallas, coleta de impressões digitais e protocolos para a contratação de pessoal na Igreja e mais coisas estão agora em vigor. Mas a Igreja realmente alterou qualquer um dos seus entendimentos da dinâmica sexual humana em resposta às evidências de atividade sexual do clero e de pervertidos celibatários? A autoridade da Igreja é transparente e responsável com relação a isso?

Apesar das concessões atuais sobre a denúncia de crimes do clero às autoridades civis, o poder clerical sobre o pecado sexual continua sendo construído e executado com a convicção de que a determinação da Igreja resume o conhecimento do próprio Deus e a lei imutável sobre o sexo humano. Na sua avaliação, os bispos ainda prevalecem como os juízes finais dos comportamentos sexuais, apesar das reverências ao direito e aos tribunais civis que funcionam apenas de acordo com as leis inferiores do homem. Relatórios do Grande Júri e depoimentos de padres e bispos em processos civis de abuso do clero fornecem exemplos berrantes dessa atitude improvisada.

Os representantes da Igreja que já declararam que a crise dos abusos sexuais é "história" e seus representantes de investigação que estimam que o fenômeno foi de tempo limitado e "acabou" não entendem nem a história do celibato religioso, nem as reais dimensões da crise atual. Sua imaturidade faz um grande desserviço à Igreja, aos padres e ao povo.

Entrelaçados dentro das fibras do magistério sexual católico e da operação do celibato estão fatores irresolvidos que tornam o comportamento imoral, as vidas secretas e os padrões sociopatas de ajustamento de personalidade não só comuns, especialmente nos altos escalões do poder, mas também totalmente inevitáveis em inúmeras vidas clericais. As questões irresolvidas formam um sistema doente.

A insistência do Vaticano de que todas as perguntas sobre a sexualidade humana estão resolvidas e fora de discussão – resta à pessoa apenas obedecer e se conformar – leva importantes decisões da vida para fora do domínio da inquisição, da responsabilidade e da decisão moral. A recusa do Papa e do Vaticano de entrar em um diálogo sério sobre a agenda celibato/sexual retirou da Igreja a sua liderança e sua credibilidade moral e tem sido um componente essencial da crise dos abusos sexuais do clero católico em todo o mundo.

É impossível que a autoridade da Igreja restabeleça até mesmo um pouco de respeito e de credibilidade enquanto não puder discutir aberta e honestamente toda a gama de questões sexuais que afetam tão vitalmente o bem-estar humano.

sábado, 9 de julho de 2011

Arnaldo Jabor - Os gays e a paranoia do mundo




Arnaldo Jabor - O Estado de S.Paulo - 05 de julho de 2011

As recentes "paradas gay" surpreendem - nunca pensamos que houvesse tanta gente "dentro do armário". São milhões pelas avenidas, atacados depois por evangélicos e caretas em geral, que criticam a falta de pudor.

Será ilusão ou estatística? Antes, havia três ou quatro homossexuais declarados no Brasil. Diziam: "Fulano é "mulherzinha", ou sicrano é "pederasta" ou ainda beltrano é fresco, fruta, maricas, invertido, perobo, tia e: veado (ou "viado"?) Creio que foi Millôr Fernandes quem escreveu uma vez que "quem escreve "veado" em vez de "viado" é viado. Acho a melhor palavra para definir "homossexual" em português, apesar dos traços pejorativos do nome.

Mas, por que "gay", que também revela sutilmente uma "finesse" falsa, um eufemismo em inglês meio preconceituoso? "Gay" é originalmente "alegre", o que também é uma denegação do sofrimento que tiveram (e têm) de enfrentar.

Viado é uma doce palavra brasileira e devia ser assumida como oficial. "Sexo, por favor?" "Viado", responde a "santa".

Há muito tempo, procurei a origem da palavra que tanto inquieta o macho brasileiro. Cheguei uma vez a telefonar para Antônio Houaiss, que me disse que talvez a origem venha do particípio passado do verbo venari em latim (que significa "caçar", ou seja, venatus, o "caçado").

Esta palavra já descrevia o "corço" desde o século 13, mas o sentido de pederasta passivo surge com o carioca do século 20, talvez, me aventou o Houaiss, pelo fato de que o corço é seduzido pela corça, sendo portanto um macho passivo. Veado é a grafia certa, mas tira da palavra sua conotação sexual. Houaiss me autorizou a usar "viado".

Esta palavra me transtorna desde pequeno.

Lembro-me de que, na rua da infância profunda do Rio, escutei pela primeira vez: "Fulano é viado!" Senti que era um rótulo apavorante e antes mesmo de saber o que era aquilo, era necessário não ser "viado". Era inquietante ver indícios na minha infância: garotinhos que davam atrás do muro, um fremir de medo diante da violência do futebol de rua, uma alvura de nádegas nos cantos de quintal, era o pecado nascente nos subúrbios dos anos 50, quando tudo era pecado - gravidez solteira era uma espécie de doença venérea que as mulheres podiam pegar.

Havia outros palavrões, claro, que íamos descobrindo. "Puta", por exemplo, carregava uma pecha brutal, mas pelo menos tinha contornos visíveis. Puta era supergráfica. Uma mulher era "puta" ou não era. Qualquer uma podia ser, menos a mãe da gente, claro. "Viado", não. "Viado" tinha uma sombra de ambiguidade, um quê de duplo, um desequilíbrio que assustava.

Acho que aprendi da complexidade da vida com a palavra "viado". A palavra dava medo, porque nos fazia perder a identidade; não seríamos nem homem nem mulher. Viado era o ser dividido. Viado era o mistério.

Isso me ensinou que não havia apenas o pai e a mãe; havia uma terceira coisa mais além, mais perigosa. Aprendi que a vida não era simples como pensávamos, que corríamos o risco de cair no mundo terrível de "Amélia", um mendigo viado que fazia trejeitos com os olhos pintados que, diziam, tinha dado mijo à mãe doente que lhe pedira água e, por isso, Deus o castigou. Lendo Proust, vemos que a barra era mais pesada ainda no início do século, quando ele próprio se referia ao homossexualismo como "vício".

Ser viado nos anos 50 era uma permanente tarefa de ocultação.

Os homossexuais tinham de se esgueirar entres dois mundos, o do macho e da fêmea, em vielas e disfarces.

Nos anos 50, os mais corajosos e livres chegavam no máximo à categoria de "bichas loucas", assumidas, mas mantendo uma caricatura de si mesmas, feita de trejeitos autoaviltantes.

Com os anos 60, o gay tornou-se a celebração viva do complexo, do múltiplo, de uma alegre liberdade, num parentesco com o mundo hippie e psicodélico.

Ser gay virou uma força política, a "gay power", um orgulho que só foi ferido com a trágica chegada da aids.

A epidemia virou a desculpa para a ressurreição rancorosa dos "homofóbicos" e conservadores que puseram a culpa nas vítimas da doença que viraram "culpados". A partir daí, a sexualidade sofreu uma mutação sinistra para todos, pois na hora do amor e sexo pensamos no perigo de morte.

Hoje, o crescimento das marchas e bandeiras está assustando os "heteros", com a intensidade ideológica da luta dos gays.

Uma amiga me disse: "Hoje só há três tipos de homem: os casados, os "roubadas" e os viados".

Mas, é verdade que os gays têm uma importância política hoje, pois carregam a lâmina das incertezas. Eles são a prova de que o mundo não é dois. Eles provam que as causas e efeitos não se cruzam tão facilmente e celebram uma ambiguidade muito mais rica que o discurso feminista ou machista radical.

Segundo psicanalistas, o homossexual não entra no "mundo do pai". Fica no estágio mais seguro de um drama edípico não realizado. Fica em uma casa com a mãe imaginária, não sai para a vida da Lei, do mundo real, da diferença sexual, da aceitação dos dois sexos.

Aí, arrisco minha humilde tese esquemática (bem o sei...): o mundo está virando uma barra tão pesada que a saída da casa (mãe) para a rua (pai) está cada vez mais apavorante. Como querer que uma pobre criança vire macho, se os exemplos de macheza são dados pela estupidez terrível dos homens do Poder? O sujeito olha o mundo lá fora, desmunheca e grita: "Nem morta!" E fica na saia da mãe.

A aceitação do homossexualismo ajuda a desenhar a constelação polivalente de hoje, a nebulosa de sentidos, as mil caras das injustiças.

Os viados são os didáticos habitantes deste mundo árido e confuso. São menos lineares, mais coloridos.

Estudando o caso do dr. Schreber, Freud argumentou que a paranoia seria talvez uma forma de defesa contra o homossexualismo latente.

Portanto, seguindo a minha linha simplista, acho que se a paranoia era uma defesa contra a viadagem, a viadagem é hoje uma defesa contra a paranoia.

Fonte: Estadão

quarta-feira, 29 de junho de 2011

"Católico e homossexual, quero viver a minha fé e a minha diferença"


Para viver bem e verdadeiramente em andamento, Jean-Michel Dunand escolheu escrever e contar o seu itinerário, que resultou no livro De la honte à la lumière. (Presses de la Renaissance). Atualmente, animador de pastoral em um grande liceu católico de Montpellier, passou “da vergonha à luz”...

A entrevista é de Elisabeth Marshall e está publicada no sítio da revista francesa La Vie, 31-05-2011. A tradução é do Cepat, aqui reproduzida via IHU com grifos nossos.

Eis a entrevista.


Desde muito cedo você sentiu que não era “semelhante aos outros”. Quando e como você descobriu sua homossexualidade?

Desde quando possa me lembrar eu era sensível ao corpo dos homens. Quando eu tinha seis anos, indo com meus pais para a festa popular, eu descobri que a beleza dos corpos masculinos me fascinava. Eu realmente não entendia e pensava que era o único no mundo a fazer esta experiência. Na minha pequena cidade de Albertville, na Sabóia, eu não tinha nenhum modelo homossexual com quem me identificar. Em almoços de família, às vezes se fazia menção a um primo, com mais de dez anos, exilado em outra cidade e que, segundo eles, tinha “costumes estranhos”, mas eu não sabia que ele e eu compartilhávamos talvez a mesma experiência.

Não se escolhe, você escreve, ser homossexual, assim como não se escolhe ser heterossexual. Isso não está no domínio da liberdade?

Levei um tempo para perceber que eu não tinha feito uma escolha, que eu não podia mudar. Minha homossexualidade se impôs a mim da mesma maneira que a minha estatura ou o meu porte físico. Eu nunca fui afeminado, refinado, mas quando eu jogava, era natural que eu exibisse os trejeitos de uma garota. Atraído pela vida religiosa, eu me imaginava como carmelita seguindo os passos de Teresa. Eu pensava: "Se fosse uma mulher, entraria na ordem." Não estou dizendo que a homossexualidade é inata, mas que ela se inscreve na singularidade de uma história. No entanto, nas mentes e nas igrejas, ainda perdura a ideia de que se pode mudar, de que é uma questão de vontade... Mas quem se exporia voluntariamente à diferença?

É com a escola, como adolescente, que o olhar dos outros começou a pesar.

Eu não disse nada, mas os outros meninos perceberam porque eu não gostava de esportes, futebol, jogos violentos. Eu sempre escondi, com medo de ser descoberto. Mais tarde, muitas vezes pensei que, se nos reconhecemos entre homossexuais é porque podemos ler no olhar do outro esta fadiga de perpetuamente ter que esconder quem se é. E depois houve aquele dia, na quinta, quando cheguei atrasado, eu tive que passar diante de toda a fila e enfrentar os insultos, “bicha”, “marica”... Eu fiz a experiência da vergonha, aquela que joga você vivo em um túmulo.

E depois, outro apelo, o da vida religiosa...

Sim, aos 8-9 anos, eu fui como que tomado por Cristo, eu chorei na Paixão de Jesus, lendo uma vida de santo oferecida por uma catequista. Mais tarde, aos 14 anos, sozinho na Abadia de Tamié, eu experimentei uma presença de amor, uma profunda paz. Eu guardei secretamente este encontro no meu coração e, ao mesmo tempo, eu me construí um personagem, aquele do perfeito cristão, futuro sacerdote que servia a missa, tinha a confiança do padre e ostentava uma grande cruz de madeira bem visível. Era mais fácil ser o aprendiz de santo do que o pequeno homem. Eu preferia que rissem da minha fé do que da minha homossexualidade. Eu levantei, com a religião, uma muralha ao redor de mim para me proteger do olhar dos outros e, principalmente, de mim mesmo, das minhas próprias divagações...

Estas são as páginas mais terríveis de seu livro. Você conta como, aos 14 anos, em Lourdes, você aceita as carícias de um estranho. A sexualidade sem o amor, você diz...

Naquele dia, o chão se abriu sob os meus pés. Senti-me indecente, mas também descobri que fui atraído. Entre 18 e 25 anos, eu vivi um verdadeiro aquartelamento, uma vida dupla, eu era o Dr. Jekyll e o Sr. Hyde. De um lado, no convento das carmelitas, nos grupos de oração e de evangelização, depois no seminário durante alguns anos, eu me apresentava como um modelo de fé, vestido de branco com um manto preto, sandálias nos pés... Do outro, eu me encontrava com homens às escondidas. Recusei-me a me instalar em qualquer relacionamento. Eu pensava que era menos grave, que era a minha única fragilidade e que à base de oração, de confissão, de vida sacramental, eu sairia dessa situação. As poucas vezes que eu me confessei, me falaram de “desvio”. Que me curaria pela oração de libertação. Nesse período, só Cristo não me abandonou.

O que você queria ouvir neste momento?

Olhando para trás, aos 46 anos, eu gostaria de ter sido compreendido em profundidade. Que me levasse de volta à realidade para não mais fugir, mas descobrir a minha humanidade mais profunda, minha afetividade, minha sexualidade, em vez de enterrar tudo sob uma pseudo-espiritualidade. Após ter ouvido muito, constato que não é incomum que as pessoas homossexuais comecem suas relações em ambientes sórdidos. Talvez porque seja proibido viver o amor e a ternura à luz do dia.

O que ajudou você?

Tentaram me curar, me exorcizar de qualquer maneira, queriam me internar para fazer uma sessão de regressão. Eu estava ficando cada vez pior, pensei em suicídio. E eu disse para mim mesmo "basta!". Foi a amizade que me ajudou. A de Patrick, um amigo que me abriu um outro caminho. Comecei a trabalhar como agente de um hospital que me permitiu retomar uma vida normal, uma apreciação adequada de mim mesmo e viver mais verdadeiramente a minha homossexualidade. Eu também encontrei o amor e agora vivo uma relação estável que já dura 20 anos. Finalmente, as pessoas confiam em mim. Sou animador de pastoral em uma escola católica há quase 16 anos graças à confiança que tive, com todo o conhecimento de causa, de um diretor de escola.

O que você está pedindo à Igreja hoje?

Eu não reivindico nada, exceto o direito de viver sem ser amputado de uma parte perdida de mim mesmo. Como católico, eu quero poder viver a minha fé e o desenvolvimento da minha sexualidade e da minha ternura partilhadas com alguém do mesmo sexo. Eu não sou um ativista que lança a bandeira da causa gay. Mas eu não posso aderir a estas certezas segundo as quais "a homossexualidade é contra a natureza e fora do plano de Deus". Isto leva a um impasse. Se eu reivindico algo é uma mudança e uma humildade do olhar. Com as pessoas “homossensíveis” – prefiro falar assim, pois não nos reduz à sexualidade – estamos muitas vezes diante de percursos fraturados, de vidas acidentadas. Mas também de verdadeiras sensibilidades em relação à beleza, à arte, à espiritualidade. Veja o número de homossexuais entre os grandes artistas, designers de moda... Estes são, em todos os casos, vidas singulares que não se pode julgar sem conhecer, nem vasculhar sua intimidade. Diante da mulher adúltera do Evangelho, o que Jesus faz? Ele não a questiona, mas afasta os olhos, inclinando-se ao chão para escrever; ele afasta também os acusadores, pois todos vão se retirando na medida em que ele os faz perceber seu próprio pecado. Não encerremos as pessoas em nossas normas e em nossos olhares inflexíveis.

Você criou, em 2000, em conjunto com mosteiros, a Comunhão Betânia, a serviço de pessoas homossensíveis e transgêneros.

Sim, é uma comunhão contemplativa. Nós nos encontramos duas vezes por ano para um retiro num mosteiro, às vezes na Abadia de Tamié. Mas nós estamos, diariamente, em união de oração através de um pequeno ofício composto de salmos, das bem-aventuranças e de uma oração de intercessão, como uma ponte entre nós. Além do círculo de amigos engajados, há amigos que rezam todas as quintas-feiras em nossa intenção, pais de filhos homossexuais, contemplativos como o carmelo de Mazille, inclusive bispos que se juntam a nós nesta fraternidade espiritual. Nosso objetivo é mudar os olhares, propor também gestos simbólicos como, por exemplo, durante eventos do orgulho gay, propondo uma oração nas igrejas para erguer espiritualmente o caminho das pessoas homossensíveis. Eu acredito que a evolução dos cristãos em relação aos homossexuais se fará pela oração. A militância assusta, os monges não! Ao convidar para a oração, nós convidamos pacificamente a acolher este olhar de Cristo que desloca. A Igreja precisa, em relação a essa questão, de uma cura de silêncio. Eu não peço que reconheça a homossexualidade no mesmo nível da heterossexualidade, mas que olhe as pessoas e proporcione instâncias de encontro e de escuta.

Que mensagem gostaria de deixar aos cristãos?

Antes de arriscar uma palavra, ter tempo para ouvir as pessoas homossexuais. Antes de discutir sobre ideias, conhecer vidas. Foi poder falar e ser ouvido que, pessoalmente, me salvou. No meu trabalho eu sou discreto sobre a minha vida pessoal, mas eu sei que eu tenho a confiança do meu bispo, do meu diretor diocesano, do meu diretor da escola, eu sou franco com eles. Foi Freud quem disse: “Quando alguém fala, é dia!” É talvez justamente por que faça dia que eu escrevi e publiquei este livro.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Cientistas gays isolam gene cristão


Este vídeo é antigo, mas recebi ontem de um amigo, acompanhado de um comentário sobre a falta de diálogo. De fato.

A piada aqui (sim, é um programa humorístico, não um noticiário de verdade) é justamente com o discurso de buscar na genética a origem do "mal" da homossexualidade, com a perigosa implicação da possibilidade de uma eugenia - uma "limpeza étnica": vamos localizar o gene gay, isolá-lo, fazer testes nos fetos e, com isso, riscar do mapa a ameaça de termos filhos gays. É com esse tipo de discurso que o vídeo brinca, mostrando que somos gays, ou somos católicos, ou qualquer outra coisa que sejamos (ou estejamos sendo), por uma conjunção de fatores genéticos, biológicos, culturais, psicológicos, ambientais, sociológicos, antropológicos, e não dá pra reduzir a uma origem só, e muito menos aprisionar num rótulo qualquer, ou atar a uma determinada explicação ou justificativa, seja lá com o intuito que for.

Não adianta. A gente é mais livre que isso. ;-)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Doris Day e o patrulhamento gay



Da capinha do CD, seu sorriso luminoso me acena, solar. Eu sorrio em resposta e me deixo embalar pela voz doce, suave, de dicção impecável e afinação perfeita que escapa das caixas de som e preenche a sala.

Para aqueles que a conhecem, hoje em dia Doris Day é cult, chique, reverenciada como símbolo de uma era de ouro e outros salamaleques mais. Mas nem sempre foi assim. Houve uma época em que gostar de Doris Day era quase que se dizer abertamente comunista, confessar uma perversão inimaginável ou mesmo crer fervorosamente na vinda da cegonha. Houve uma época (principalmente no final dos anos 60) em que a ruptura de paradigmas, a chacoalhada na ordem e o surgimento das ideologias de contestação viram-se quase que no dever de eleger símbolos que representassem tudo contra o qual se deveria lutar, para depois demoli-los impiedosamente.

E assim, estupidamente usada como moeda de troca para justificativas ideológicas, Doris tornou-se careta, cafona, a "eterna virgem do cinema", uma chata de galocha, água-com-açúcar... e, por último, como se já não bastasse, acabou identificada com o universo gay. A partir daí, dessa cristalização do símbolo em torno de um dado pejorativo, deu-se um curioso mecanismo de transferência que imediatamente associava aquele que gostava de Doris Day à homossexualidade. Por outro lado, entre os próprios gays, apreciar Doris significava estar ligado a uma mentalidade conservadora, careta, antiquada.

A lógica cartesiana própria do pensamento humano (de que já falei quando toquei no assunto dos afetos) nos ensina que devemos catalogar e categorizar todos os elementos que apreendemos do universo ao nosso redor. Assim sendo, aos olhos de muita gente, não basta que eu seja apenas humano. Tenho de ser esquartejado, esmiuçado e rotulado de acordo com dados representativos como sexo, cor, idade, prática sexual predominante, local específico onde moro e até mesmo preferências musicais. Com isso, abre-se espaço para um certo controle tácito – vamos chamar patrulhamento – dessas características, a fim de que aquele elemento não se diferencie tanto dos demais integrantes de seu grupo social e, portanto, não se “desgarre”.

Todo e qualquer patrulhamento se apóia em modelos pré-estabelecidos que podem, é claro, ser substituídos tão logo uma nova ordem necessária à manutenção da coesão da estrutura social se estabeleça, em contraposição à antiga ordem vigente. Todo e qualquer desvio às normas prescritas naquela cartilha é imediatamente apontado pelos representantes do modelo como algo no mínimo suspeito e, portanto, não confiável. O patrulhamento induz à formulação de preconceitos e à propagação de verdades aceitas tão somente porque se verificam nas práticas usuais do grupo.

Nós, gays, estamos acostumados no dia-a-dia com esse tipo de situação. Volta e meia somos identificados e criticados pelos mais diversos motivos: a roupa, o modo de andar, o gestual, o grupo de amigos, as músicas que escolhemos para a nossa playlist etc, etc, etc. Isso não é novidade. Mas e quando isso acontece “de dentro”? O que fazer quando o controle parte de alguém inserido no próprio “universo gay”?

Esse tipo de comportamento, por incrível que pareça, é muito comum. Existe um patrulhamento gay que se manifesta de diversas maneiras. A mais freqüente delas é a que tenta “normalizar” a conduta. Namorei um menino que agia assim. O rigor com que ele apontava as falhas ou deslizes nos outros não era menor quando aplicado a si próprio. Eu o via constantemente se torturar ao se cobrar posturas e atitudes “de homem” no modo de vestir, de falar, de cortar o cabelo, até de andar. De pitoresco (e até engraçado), aquilo passou, com o tempo, a me parecer triste, angustiante.

Condicionado por inúmeros fatores e justificado por outros tantos, esse tipo de patrulhamento lida com um certo sentimento de culpa ou inadequação por não se pertencer à regra e força aquele que o adota a procurar comportamentos ajustáveis aos padrões sociais estabelecidos. “Gay? Não! Sou um homem que gosta de homens...” Quantas vezes já não se ouviu essa frase por aí? O contrário, o patrulhamento militante, é igualmente sem sentido, até mesmo travestido de um rancor revanchista. E, por isso, também triste.

A duras penas fui descobrindo que todo patrulhamento é burro. Porque é egoísta. Baseia-se nas suas próprias regras ou apóia-se em pressupostos acessórios que não correspondem a verdades essenciais. Fechado em si mesmo, não dialoga, não coteja outras realidades, não contempla novas possibilidades e, por fim, não se enriquece da experiência da troca de informações e visões de mundo.

Hoje em dia ouço Doris Day com as janelas abertas.

Mr. MM

P.S.: No último dia 3 de abril, Doris completou 89 anos de idade. Está bem de saúde, vive num rancho na Califórnia e dirige a Doris Day Pet Foundation, entidade que se dedica há várias décadas à proteção de animais. Como sempre acontece todos os anos, uma rádio de Baltimore realizou um especial de 3 horas com suas músicas e uma conversa ao vivo com ela.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O afeto é subversivo


Foto: arquivo pessoal

"Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos,
se tiverdes amor uns aos outros." (João 13:35)

É com uma triste frequência que nos deparamos com notícias que dão conta de violência sofrida por casais gays pelo fato de terem demonstrado afeição em público, quer seja através de um simples carinho, um abraço, um beijo ou mesmo andar de mãos dadas.

Eu me pergunto: o que será que mobiliza esse tipo de reação? Que tipo de emoção ou energia represada no íntimo dos seres humanos é emulada a ponto de se manifestar em desrespeito e violência? Na raiz das duas representações, tanto naquela manifesta pelo carinho entre representantes do mesmo sexo quanto na que transborda em agressividade como resposta, reside o mesmo elemento propulsor: o afeto.

No século XXI o pensamento humano ainda está firmemente condicionado à lógica fundada por Descartes, que pensava o mundo através da oposição corpo/alma. O primeiro elemento seria o repositório de todo o caos gerado pelos sentidos, enquanto o segundo estaria destinado a ordenar sob a égide da razão o universo do pensamento e dos conceitos.

Assim sendo, ao corpo caberia lidar desordenadamente com os afetos, pois que se originam do irrealizado do irracional, do incontrolável, obedecendo a esquemas muito mais tarde mapeados pela psicanálise como mecanismos ligados ao inconsciente. Através dessa mesma lógica cartesiana é que a cultura elegeu a psicanálise como o instrumento que, aliado à razão, teria como tarefa primordial desvendar as profundezas insanas da mente humana de forma a ordená-la em paradigmas lógicos.

O afeto está na gênese do ser humano. É uma força tão poderosa e insondável que Freud por diversas vezes em sua obra tangenciou conceituá-la sem obter grandes sucessos, pois que insistia em tematizá-la em termos de uma energia objetivável. É o afeto que mobiliza o homem em direção àquilo que ele considera bom ou útil para a garantia da sua sobrevivência, inicialmente através dos sentidos e, posteriormente, justificado por uma série de esquemas lógicos que compõe o pensamento racional - este último condicionado, obviamente, por todo um processo cognitivo que insere o ser humano em determinados contextos históricos, sociais, culturais, educacionais, familiares etc, etc, etc. Grosso modo significaria dizer que o afeto é a primeira instância que vai dar ao homem as noções do que, mais tarde, ele vai objetivar intelectualmente como "aquilo pelo que é imprescindível lutar."

Dessa forma, podemos pensar tanto os grandes movimentos sociais quanto as piores tragédias da humanidade em termos de mobilização maciça de afeto em prol da união de seres humanos pela defesa de pontos de vista e/ou questões supostamente vitais para a sobrevivência e permânencia da raça. A ansiedade, a angústia com que a experiência dos sentidos comunica ao homem a necessidade de adaptar a ordem estabelecida (porém já obsoleta) às novas necessidades desencadeia o início do processo que vai inquirir, questionar, pensar, desarticular e, por fim, romper com hierarquias e organizações, abrindo campo para a gênese do novo.

O afeto une, congrega, aproxima. O afeto cria laços. O afeto é subversivo.

Também Jesus e os apóstolos foram vistos com imensa desconfiança pelos mantenedores da ordem quando saíam juntos a propagar a doutrina cristã, toda ela firmemente plantada na força propulsora e grandiosa do afeto. Também os primeiros cristãos eram olhados por uns com admiração, por outros com desdém quando deles se dizia: "vede, como se amam..." (Tertuliano. In: Apologético 39,7; 5)

Daí o porquê de um beijo entre dois homens ou duas mulheres mexer tão radicalmente com afetos que ainda não foram organizados de forma a dar lugar ao verdadeiro e profundo sentimento de compreensão de humanidade.

Mr. MM

Você se lembra do homem das cavernas?

Foto: Sociedade Arqueológica Tcheca

Deu no site da Folha: "Cientistas acham provável homem pré-histórico homossexual."

Segundo notícia colhida da BBC de Londres, cientistas tchecos encontraram o esqueleto de um homem que teria sido sepultado de acordo com ritos funerários destinados às mulheres. Uma das hipóteses formuladas para explicar tal procedimento é a de que esse indivíduo teria sido, em seu tempo, eminentemente homossexual ou mesmo transexual.

Acho interessantes essas elocubrações e a avidez com que os arqueólogos buscam evidências de homossexualidade na pré-história do homem. Se isso servir para se constatar (o que, por mim, já é mais do que sabido) que tanto diversidade de noções de gênero quanto prática sexual sempre foram comuns na história da humanidade, beleza. Mais do que isso, se essa constatação servir para modificar os paradigmas de compreensão sócio-cultural acerca da homossexualidade pelos homens de HOJE, melhor ainda.

Agora, se isso servir somente de notícia pitoresca para atrair atenção da mídia e fornecer matéria para as piadinhas ultrapassadas de gente como Jô Soares e cia, eu preferia sinceramente que o "segredo" do moço permanecesse inviolado, ainda que para azar da ciência.

Por falar nisso, vocês se lembram do Homem do Gelo? Um que encontraram, há 20 anos, nas encostas dos Alpes, incrivelmente preservado por ter ficado enterrado numa geleira por uns 5 mil anos? Lembram-se que também aventou-se a possibilidade dele ter sido homossexual? A esse respeito fizeram uma animação que ficou célebre há algum tempo, com narração do Paulo César Pereio.

Para quem estiver interessado na saga de Ötzi, como ficou denominado, eis aqui uma interessante e longa matéria sobre ele, esclarecendo muitos dos mitos que foram divulgados à época.

Mr. MM

terça-feira, 5 de abril de 2011

Carta de um padre católico a um jovem homossexual


Caríssimo,

Que grande privilégio que é, ter a oportunidade de te escrever! Tanto mais que gostaria de saborear a palavra «tu», durante alguns momentos e pedir-te que ponderes sobre a novidade que isso representa, quão aberta é esta forma de trato.

Quantas vezes já foste abordado pela palavra «tu», numa publicação católica? Não me refiro à palavra «tu» no sentido fraco, como quando um anúncio pergunta: «Já consideraste a vocação de seres padre ou freira?», porque estes anúncios não pretendem realmente significar o «tu». Querem, isso sim, significar «alguém que é como tu em todos os aspectos, mas que por acaso não é homossexual, ou que, pelo menos, é bom em escondê-lo». Normalmente, sempre que acontecem discussões acerca de temas envolvendo a homossexualidade, nas publicações católicas, o estilo passa rapidamente a ríspido e um misterioso «eles» aparece. Este «eles» parece habitar um planeta diferente do teu. Quem quer que fale acerca do «eles» está, de facto, noutro planeta, um onde uma estranha falta de oxigénio torna impossível usar pronomes como «eu», «tu», «nós». Se alguém começar a usar esses pronomes rapidamente ficas com a sensação que a única coisa que lhes dá a liberdade de procederem desse modo é o facto de serem heterossexuais e têm a honestidade suficiente de admitirem que não compreendem do que se trata.

Podes ter tentado falar informalmente acerca do facto de seres homossexual católico a um padre, ou mesmo a um Bispo, a quem o teu sexto sentido escolheu como provavelmente sendo da «família» e certamente que já reparaste que, com todo o seu desejo de serem amigáveis, uma necessidade escondida de verificação surge na sua voz. Uma espécie de auto-censura interna significa que quando eles dizem «tu», podes verificar que o «eu» que está a falar, se transformou numa espécie de dissimulação e tornou-se, de algum modo, oficial e o «tu» que fala não se encontra chamado a ser, mas de alguma forma designado como «manusear com extremo cuidado». Há um «mas» flutuando em segundo plano na voz e que fala tão alto como tudo o que dizem, porque o «mas» diz: «tu, mas não como tu és».

Portanto, aqui estamos, lendo uma publicação católica*, parte daquela rede fantástica espalhada pelo mundo e que é uma das alegrias de ser um católico e, de algum modo, é permitido que algo de novo aconteça. Para ti, um católico que por acaso é homossexual (o que quer que isso signifique), se está dirigindo como «tu», por um católico que é capaz de dizer «eu sou um católico, que por acaso é homossexual, o que quer que isso signifique». É-me permitido falar-te, a ti que te encontras no começo de uma história de vida na qual ser homossexual desempenha um papel. E é-me dada a oportunidade de te falar não numa qualquer qualidade oficial, mas como irmão, um irmão com uma história de vida que inclui o facto de ser um homossexual assumido. É-me dada a oportunidade de me dirigir a ti a partir do nível em que te encontras, como alguém que não conhece melhor que tu quem tu és e que não sabe mesmo muito acerca de si próprio. Contudo, algo de novo aconteceu. Tornou-se possível numa publicação católica de referência*, que a palavra «tu» seja pronunciado de um modo completamente aberto, um que espero possa ressoar de forma criativa no teu ser, através de um «eu», cujo tom tenha sido insuflado e dilatado através de uma vida como homem homossexual assumido dentro da Igreja Católica.

Tal como acontece com todos os cobardes, quando me foi oferecido o privilégio de tomar parte nesta comunicação, a minha primeira reacção foi fugir. Pois um privilégio é também uma responsabilidade. E existe algo de particularmente impressionante acerca deste privilégio, uma vez que somente há Um que se pode dirigir a ti como «tu», de tal modo a chamar o teu «eu» sem te deslocar ou importunar. E esse é Nosso Senhor. E ele ganhou essa capacidade, ao passar pela morte de modo a ser capaz de te falar a ti e a mim, fazendo-nos ser e dando-nos um «eu» que não seja governado pela morte e pelo medo dela. Não há nada de rude em ser capaz de tratar o outro por «tu», de tal modo que o chame a ser.

Quando as autoridades doutrinais oficiais da nossa Igreja se recordam – o que normalmente acontece quando estão na defensiva – realçam que o que chamam de «magistério» jamais pode ser um substituto para a consciência, mas somente pode ser uma voz ao lado da tua, ao mesmo nível que a tua, tão sujeito ao sopro de Nosso Senhor como a tua. Uma voz que te incita, te aconselha, que te ajuda a formares a tua consciência e nunca uma voz que te abafa de modo a que assumas a sua voz em vez de te dares ao trabalho árduo de te permitires ter a tua própria voz.

Eles têm absoluta razão nisto. E eu não tenho o direito de ser menos cuidadoso do que o magistério é, quando falo contigo. Repara que a diferença entre a minha tentativa de me dirigir a ti como «tu» e aquela do padre ou do Bispo com a «verificação», o «mas» carrancudo, no fundo da sua voz, não significa que ele seja um hipócrita e eu não, que ele esteja constrangido e eu não. Não, eu sou tão hipócrita quanto ele e eu sinto-me igualmente constrangido. Também existe um «mas» no fundo da minha voz, embora não se aplique a ti. Contudo, seria desonesto da minha parte se eu pretendesse que amar a Igreja, enquanto homossexual masculino não tivesse deixado algo de estranho no fundo da minha voz. As realidades que fazem com que o padre ou o Bispo te falem de um modo tenso e pouco natural, são as mesmas realidades que me obrigam a pensar longa e profundamente sobre o modo como devo falar contigo. E temo só de pensar o quanto inadequado me acharias se pudesses falar-me frente-a-frente, em vez de me encontrares através desta máscara que estou tecendo com palavras, palavras que posso corrigir, editar e alterar antes que cheguem até ti.

Se existe uma diferença entre o tom da minha voz e aquele que estás acostumado a ouvir, isso acontece por acidente, ou graça, dependendo da forma como o interpretas. E sim, terás de o interpretar, terás de decidir se eu que me dirijo a ti como «tu», sou capaz de o fazer somente por causa de algum deslize, alguma falha no sistema, ou, pelo contrário, se há alguma coisa do Pastor nesta voz não autorizada que se dirige a ti; alguma coisa do Pastor cuja voz conheces e ao qual não temes. Não posso pretender em absoluto ser um canal dessa voz dentro de mim. Nenhum de nós pode. Podemos esperar somente ser usados, ou encontrarmo-nos em preparação para sermos usados. Contudo somente aqueles a quem cada um de nós se dirige, podem aperceber-se quem ela é, que mistura de vozes é a que chega cantando através do ar.

Se existe uma diferença, então deixa-me confessar que ela tem origem num acto de teimosia, de desafio da minha parte. Uma recusa em acreditar em algo. Esse é o «mas» no fundo da minha voz. «… mas o Deus que nos é revelado em Jesus não poderia de modo algum tratar aquela pequena porção da humanidade que é homossexual e lésbica com mensagens contraditórias conforme a Igreja o tem feito. Não poderia dizer «Amo-te, mas somente se te transformares noutra coisa qualquer», ou «ama o teu vizinho, mas no teu caso, não como a ti próprio, mas como se fosse outra coisa qualquer», ou «o teu amor é demasiado perigoso e destrutivo, arranja outra coisa para fazeres». E para um católico, um acto de teimosia ou de desafio não aparenta ser um bom ponto de partida. Soa algo de satânico. A menos, claro está, que esta recusa em acreditar algo seja reforçada por um forte sentido da bondade de alguém, a quem saberias de antemão estar seriamente a ofender se os julgasses capazes de agir da maneira que lhes é imputada.

Podes imaginar, como eu, uma esposa a recusar-se a acreditar na culpa imputada ao seu marido, por um tribunal legalmente constituído e um conjunto de jurados, respeitante a alguma desonestidade financeira. Toda a evidência parece apontar na mesma direcção, mas mesmo assim a esposa de forma teimosa e desafiadora recusa a acreditar que o marido pudesse ter feito isso, mesmo quando ele próprio algumas vezes vacila na sua própria defesa, talvez como forma de a aliviar do fardo de ter de o apoiar. Nalgumas histórias este caso terminará com novas provas, ou uma reviravolta nas circunstâncias, que isentarão o marido de qualquer responsabilidade e a esposa será vista em ter tido razão ao recusar que a sua fé na bondade do marido tenha sido contaminada pela calúnia pública. Noutras histórias, não haverá um final feliz e a geração dos mirones considerará a mulher como uma figura patética, desligada da realidade, num estado de negação tão profundo que é incapaz de aceitar que o marido era um sem-vergonha.

Bem, não te quero deitar areia para os olhos! Eu sou aquela esposa teimosa e desafiadora e a história ainda não acabou. Nem eu nem tu sabemos se a minha recusa em acreditar que Deus poderia alguma vez tratar as pessoas homossexuais e lésbicas do modo como os mais idosos da aldeia e o tribunal local dizem que Ele o faz é uma recusa nascida da fé no amor que se revelará verdadeira, ou é somente um sinal do meu voo ilusório para o irreal. Aqueles que te falam com uma necessidade de certificação nas suas vozes, sabem perfeitamente bem que é uma coisa ou outra e eles levam a tua segurança a sério ao não pretenderem embarcar-te numa viagem tão arriscada.

Não, não quero deitar-te areia para os olhos. Convidar-te para o lugar dessa esposa desafiadora e portanto para um lugar de vulnerabilidade e de incerteza até que a história seja levada ao seu fim, não é algo que eu faça de forma leviana. É um lugar assustador, pois não te posso oferecer uma solução. Eu não sei se é um acto de arrogância da minha parte que diz: «é melhor ousar passar pelo medo de que ser homossexual seja somente uma mentira, um modo de auto-engano que não leva a lado nenhum, acreditando que o Espírito de Deus dissipará o medo, revelará o medo como uma miragem, permitir-me-á crescer como uma criança à medida que enfrento o medo. É melhor isso, do que me agarrar à opinião de que o medo é para nossa segurança, protegendo-nos de um abismo de insignificância e, deste modo, permitirmo-nos ser guiados pelo prudente «não» da tradição da nossa Igreja».

Estás a ver, já não desprezo o prudente «não». Costumava fazê-lo. Costumava odiar a cobardia, as duas caras e as mentiras. Mas agora que me apercebo do custo de sair disso, também me dou conta do quanto cuidadoso tenho de ser quando me dirijo a ti. Pois qual de nós pode afirmar se algum desejo petulante de heroísmo não nos pode estar a «puxar os cordelinhos», em vez do espírito do Senhor dizendo “Duc in altum!” - «Faze-te ao largo!» (Lucas 5, 4)? Lá onde os prudentes pensam que não há peixes para serem pescados, nenhuns humanos que mereçam amar com igualdade de coração, mas somente um turbilhão de desejos confusos e irrecuperáveis. O custo de sair do «não» protector, de acreditar que alguém se pode estar a dirigir a mim como «tu» sem aquele horrível «mas», é encontrar-me a mim próprio nu perante o Espírito e mais vulnerável do que nunca ao meu próprio auto-engano. E a única resolução será quando a pescaria começar a chegar e isso pode não acontecer durante o meu tempo de vida, ou mesmo no teu.

Não, não quero ter a pretensão de que ser um católico abertamente homossexual é algo fácil e óbvio. Não o é. Para começar, o simples facto de desejares ler uma carta como esta é um sinal dos muitos obstáculos que já tiveste de ultrapassar. Podes ter enfrentado o ódio e a discriminação no teu próprio país, de membros da família, na escola, às mãos de políticos ansiosos por um punhado de votos, através de títulos gritantes de jornais que dilaceram a tua alma e à luz dos quais ficas sem palavras em tua defesa. E provavelmente já reparaste que na melhor das hipóteses, a Igreja que se intitula, e é, a tua Mãe Santa manteve o silêncio acerca do ódio e do medo. Ainda que, com demasiada frequência, os seus porta-vozes desçam ao nível de políticos de segunda categoria, emprestando a sua voz ao ódio enquanto proclamam que se erguem em defesa do amor. O próprio facto de que, através e no meio de, e apesar de, todas estas vozes carregadas de ódio, teres ouvido a voz do Pastor que te chama a fazeres parte do seu rebanho é já em si um milagre maior do que podes imaginar, que te prepara para um trabalho mais subtil e delicado do que essas vozes jamais poderiam conceber.

Partilharás todo o desprezo que o mundo moderno tem pela Igreja Católica ao te manteres firme na fé que te foi dada – serás visto como tendo pouco que valha a pena para oferecer. E, pela virtude de seres católico, estarás sempre em risco de seres considerado um traidor para qualquer projecto que os teus contemporâneos procurem construir. Não há, porém, nisto qualquer surpresa: as coisas são mesmo assim. Contudo, terás de enfrentar, por acréscimo, algo mais, pois serás visto como um traidor dentro da própria igreja. «Não és bem igual a nós». E certamente não serás alguém que possa representar publicamente a Igreja, que possa ser uma parte visível do sinal que conduz à salvação. E como poderia ser de outra forma? Pois se ser homossexual é um defeito da criação, como é afirmado, então o único sinal de graça associado ao facto de ser homossexual, seria a remoção do ser homossexual daquilo que te faz a ti ou a mim como pessoas.

Não te surpreendas, pois, que sejam considerados leais e dignos de confiança todos os que seguem todas as pistas psicológicas falsas e concebíveis, com o intuito de encontrar apoio científico para o argumento de que ser homossexual é uma patologia. Receberão aprovação como «sinal de contradição», por não terem sucumbido ao espírito da época. Ao mesmo tempo, serás considerado um mau católico, se é que serás considerado mesmo católico de todo. Pois, muito depois dos grupos evangélicos que estiveram na génese da «terapia reparadora» e do movimento dos «ex-homossexuais» terem deixado essas posições e os seus dirigentes terem pedido desculpa por enganar as pessoas, essas ideias encontraram eco e apoio em sectores católicos, pois adulam os actuais ensinamentos da igreja. Contudo, não tenhas medo de tais ideias e não odeies os seus propaladores. Eles são os nossos irmãos. O simples facto desses irmãos compreenderem que se o ensinamento da igreja é verdadeiro, então deve ter alguma base no reino empírico da natureza, significa que, em última instância, o que nos fará livres será a prova do que, nesse âmbito, é verdadeiro. Isso será maior do que tu, ou eu, ou eles podem imaginar, neste momento, e libertar-nos-á a todos.

Mas e quanto ao longo «entretanto»? Para ti, chamado pelo teu nome, tal como para mim, que estou a aprender a receber um «eu», ser católico implica uma vocação a alguma espécie de ministério; alguma espécie de agir criativo; alguma espécie de imitação pública da vida e morte de Nosso Senhor. Portanto não quero fingir: irás encontrar-te desenvolvendo um ministério, tal como eu me encontro a desenvolver um, sem qualquer apoio público da autoridade da igreja. Será como se não existisses. Terás de aprender a viver no silêncio de não seres nem aprovado, nem desaprovado. Cairás fora do campo de visão do homem e, se fores como eu, desesperado por um olhar de relance aprovador, experimentarás isto como uma forma de morte. Pois a cada um de nós é-nos dado sermos o que somos, através do olhar dos outros e respondemos a esse olhar, permitindo que este nos dê quem seremos e comportamo-nos em conformidade. Portanto, cair no chão num local onde não há olhar, não há aprovação, nem mesmo reprimenda, é algo de terrível e arriscado.

Pois naturalmente, eu posso ter caído no chão, no espaço onde não há olhar porque eu me tornei fechado no meu próprio orgulho e auto-engano. Em qualquer dos casos nunca encontrarei um olhar, mas dançarei ao ritmo desse engano, julgando-me muito santo e especial até que a morte chegue. Ou, se estou a ser conduzido pelo Espírito de Deus, o local onde não há olhar pode transformar-se no espaço onde sou encontrado à vista de Deus. E isto será experimentado por mim como um «nada», que me rodeia inteiramente e somente outros se podem aperceber de que existe um «eu» sendo chamado a ser por Um, cujos olhos não posso ver, mas que me podem ver a mim; um sopro que não posso sentir, mas que me sustem. E, claro está, outros não entenderão necessariamente mais do que eu, o que está nascendo.

Em que poderias estar a embarcar? Deixa-me deixar-te uma analogia. Não sei se tens idade suficiente para te lembrares da Guerra Fria? Ou mesmo se a Guerra Fria teve incidência suficiente na tua parte do mundo, de modo a ter deixado marcas em ti à medida que cresceste. Um dos produtos da Guerra Fria foi um género literário e cinematográfico de histórias de espiões, contos de intriga e de vida clandestina protagonizados (no pior dos casos) pelos bons contra os maus e nos casos mais raros, e melhores, por pessoas moralmente ambíguas em ambos os lados da divisória OTAN/ Bloco de Leste.

Tenta imaginar-te um agente de um ou do outro dos lados – da minha perspectiva é mais fácil imaginar-me com um agente do Ocidente profundamente embrenhado em terras comunistas. Agora imagina que há muito tempo atrás tinhas recebido as tuas ordens do chefe da tua agência e que te foram nomeados os «peritos» para a tua missão. Então, confiante de que eras apoiado por eles, mergulhaste no teu trabalho, dando início à construção de pequenos sinais do reino que serves, na comunidade, bem fundo em território inimigo. Depois imagina que algo de estranho acontece, há algo parecido com um golpe dentro da tua agência, uma mudança de política e todas as pessoas que tinham lidado contigo, que te tinham conhecido e preparado, retiram-se calmamente. Portanto, encontraste sem nenhuma linha directa com ninguém na agência. Estás profundamente infiltrado e subitamente sem cobertura, sem apoio, sem recursos, sem mesmo reconhecimento. Tanto mesmo, que até os novos agentes enviados pela agência, desconhecem a tua existência e provavelmente a desaprovariam de forma categórica uma vez que se és quem afirmas ser, então fazes parte de uma abordagem antiga e actualmente desacreditada ao «território inimigo», no qual estás infiltrado há muito tempo.

E, claro está, há pessoas na agência que podem conhecer a tua existência, mas já não se podem dar ao luxo de o afirmar. Pois ser visto a entrar em contacto contigo, poderia colocar em risco a sua própria posição na agência. Resumindo, encontras-te tendo-te tornado uma não-pessoa. «Não existe nos nossos livros, minha senhora”, é a resposta dada a qualquer pergunta efectuada no QG por alguém suficientemente tolo para afirmar que te tinha conhecido. A negação plausível é o óleo lubrificante através do qual a agência trabalha.

Que tens então que fazer? Ainda te manténs lealmente no trabalho, adorando o projecto para o qual foste originalmente enviado. Mas as comunicações tornaram-se seriamente problemáticas. Podes ouvir na rádio as declarações oficiais da agência. Consegues ler nas entrelinhas o «verdadeiro» significado do que está a ser dito, mas não existes, não possuis qualquer linha de comunicação com o QG, és um Zé-ninguém. Portanto, permites que a tua ira e ressentimento devido à forma como foste tratado pela agência façam com que desistas de trabalhar no projecto para o qual foste originalmente chamado e treinado? Ou amas tanto o projecto que estás preparado a amar a agência que agora te odeia confiante de que eventualmente as coisas se irão recompor? Amar a agência quando esta te ama é fácil, mas amá-la mesmo durante o tempo em que ela te renega? Agora surge o dedo de Deus!

É aqui que te instigo, como o faço a mim próprio, muitas vezes com espírito vacilante, a que vejas o privilégio do que temos. Sim, há uma suspensão da comunicação com um QG que somente pode falar acerca de um «eles» e nunca se dirige a «ti». Sim, eles ou não sabem da tua existência, ou necessitam de uma negação plausível para seu próprio bem, mas entretanto aqui, bem fundo no território do inimigo podemos continuar a construção não somente de um pequeno canto de algo defensivo, mas a própria Igreja Católica – a coisa completa, a porção total. E curiosamente, com menos interferências por parte de intrometidos do que aconteceria se as linhas de comunicação funcionassem. Portanto, atrevemo-nos a estender o nosso amor, construindo sem aprovação, enquanto esperamos ansiosamente pelo dia em que algum Muro de Berlim caia e a comunicação seja restaurada? És capaz de assumir essa responsabilidade? És capaz de ser perseverante?

«Vai ser um grande esticão!» - foi o sábio conselho que me foi dado por um dos meus formadores, um dos meus treinadores, que, para além de ser homossexual, é historiador. Ele estava a contar-me, tal como o faço agora a ti, que o processo de ajustamento à verdade nesta esfera, vai levar muito, muito tempo. E somente acontecerá se pessoas como tu e eu estiverem preparadas a amar o projecto e não se incomodarem com a turbulência na agência; se formos generosos em darmos aos treinadores o tempo suficiente para reunirem a valentia de nos procurarem e falar-nos como colaboradores. Uma das coisas que nos manterá a avançar é a de que podemos continuar a regressar àqueles lugares estranhos de encontro da guerra fria, às caixas de comunicação de espião, onde calmamente, a partir de debaixo de textos antigos e através de pão e vinho, o nosso formador original e nosso primeiro treinador, o Único que primeiramente nos deu vida ao projecto, nos infundirá coragem e força e perseverança, enquanto que os actuais rapazes da agência se distraem, criando barulho sem nexo, mas falham em conseguir eliminar o antigo código.

Quem sabe, meu amigo, se esta oportunidade de comunicação se voltará a repetir? Quem sabe se isto é somente um eco no éter, se os bloqueadores das ondas de rádio católicas conseguirão impedir futuras trocas de impressões entre um «eu» católico e um «tu» católico, ambos dos quais acontece serem homossexuais? Ou se não haverá algum degelo no gelo eclesiástico permanente e a troca de impressões se tornará muito, mas muito mais fácil? De qualquer modo, deixa-me dizer-te aquilo que descobri nos meus anos de infiltrado em território inimigo: não estás sozinho e a Sua promessa é verdadeira.

Recebe um grande abraço do teu irmão,

James

O teólogo católico James Alison é padre e escritor inglês. Estudou, viveu e trabalhou no México, Brasil, Bolívia, Chile e Estados Unidos, bem como sua terra natal, a Inglaterra. Obteve o doutorado em Teologia pelas Faculdades Jesuítas de Belo Horizonte. É autor de, entre outros, "Knowing Jesus" (London: SPCK 1992), "Raising Abel" (New York: Crossroad, 1996), "The joy of being wrong" (New York: Crossroad 1998) e "Fé além do ressentimento: fragmentos católicos em voz gay" (São Paulo: É Realizações, 2010). Trabalha atualmente como um pesquisador itinerante, acompanhando uma imensa variedade de públicos, em leituras acadêmicas, seminários de pós-graduação, cursos de catequese para adultos, retiros para padres, e encontros católicos e ecumênicos de gays e lésbicas.

Traduzido para o português pelo Rumos Novos - grupo de gays católicos de Portugal. Grifos nossos.

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*Este artigo foi escrito e publicado na Revista Teológica Católica Internacional Concilium, no número dedicado ao tema “Homossexualidades” (2008/1, sem edição em português).

quinta-feira, 10 de março de 2011

Diversidade sexual e Igreja, um diálogo possível


Ao analisar a forma como a Igreja aborda temas como a diversidade sexual, o padre jesuíta Luís Corrêa Lima disse, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line, que “nós só podemos saber o que a Palavra de Deus significa para nós hoje, e que implicações ela tem, com um suficiente conhecimento da realidade atual, que inclui a visibilização da população LGBT”. Ele relembra uma carta do Vaticano aos bispos, do ano de 1986, mencionando que “nenhum ser humano é mero homossexual ou heterossexual. Ele é, acima de tudo, criatura de Deus e destinatário de Sua graça, que o torna filho Seu e herdeiro da vida eterna”.

O pesquisador destaca, ainda, uma declaração do Papa Bento XVI, dizendo que “o cristianismo não é um conjunto de proibições, mas uma opção positiva”. Segundo ele, o Papa acrescentou “que é muito importante evidenciarmos isso novamente, porque essa consciência hoje quase desapareceu completamente. É muito bom que um Papa tenha reconhecido isto. Há no cristianismo uma tradição multissecular de insistência na proibição, no pecado, na culpa, na condenação e no medo”.

Corrêa Lima frisa que não cabe “encaminhar os gays a terapias de reversão ou a ‘orações de cura’, que frequentemente são formas escamoteadas de exorcismo. No diálogo ecumênico e inter-religioso da Igreja, recomenda-se conhecer o outro como ele quer ser conhecido, e estimá-lo como ele quer ser estimado. O conhecimento e a estima recíprocos são também o melhor caminho para o diálogo entre a Igreja e o mundo gay”.

E completa: “O grande desafio da diversidade sexual é fazer-se compreender pela sociedade, não como uma ameaça, mas como uma pluralidade existente na condição humana que enriquece o mundo. No fundo, as pessoas querem ser elas mesmas, reconhecidas e aceitas pelos outros”.

Formado em Administração, Filosofia e Teologia, Luís Corrêa Lima também é mestre em História Social da Cultura pela PUC-Rio, onde é professor desde 2004, e doutor em História pela Universidade de Brasília – UnB. É autor de "Teologia de Mercado – uma visão da economia mundial no tempo em que os economistas eram teólogos" (Bauru: EDUSC, 2001).

Confira a entrevista.

Qual é a importância de a Igreja abordar temas como a diversidade sexual, nos dias de hoje?
A diversidade sexual é um dado da realidade. No passado, gays, lésbicas e bissexuais viviam no anonimato ou à margem da sociedade. Escondiam-se em uniões heterossexuais e, quando muito, formavam guetos. Hoje, tornam-se visíveis, fazem imensas paradas, junto com travestis e transexuais, exigem respeito e reconhecimento, e reivindicam direitos.

Para a Igreja, a lei de toda a evangelização é pregar a Palavra de Deus de maneira adaptada à realidade dos povos, como lembra o Concílio Vaticano II (Gaudium et Spes, nº 44). Deve haver um intercâmbio vivo e permanente entre a Igreja e as diversas culturas dos diferentes povos. Para viabilizar este intercâmbio – sobretudo hoje, em que tudo muda tão rapidamente, e os modos de pensar variam tanto – ela necessita da ajuda dos que conhecem bem a realidade atual, sejam eles crentes ou não. O laicato, a hierarquia e os teólogos, prossegue o Concílio, precisam saber ouvir e interpretar as várias linguagens ou sinais do nosso tempo, para avaliá-las adequadamente à luz da Palavra de Deus, de modo que a Revelação divina seja melhor compreendida e apresentada de um modo conveniente.

A correta evangelização, portanto, é uma estrada de duas mãos, do intercâmbio entre a Igreja e as culturas contemporâneas. Nós só podemos saber o que a Palavra de Deus significa para nós hoje, e que implicações ela tem, com um suficiente conhecimento da realidade atual, que inclui a visibilização da população LGBT.

Que elementos de discussão a diversidade sexual propõe para setores da sociedade como a família, a igreja e a escola? Quais são os desafios no que se refere à cidadania?
Por muitos séculos, o homoerotismo foi visto no Ocidente como um pecado nefando (que não deve nem ser nomeado) e como um crime gravíssimo que atrai o castigo divino para a sociedade. Igreja e Estado estiveram unidos. Tribunais eclesiásticos julgavam os acusados de “sodomia”, e os culpados eram entregues ao poder civil para serem punidos. Em casos extremos, a punição chegava à pena de morte.

O homoerotismo foi descriminalizado, e a condição homossexual foi despatologizada. Desde o final do século XX, esta condição não é mais considerada doença. Atualmente o Conselho Federal de Psicologia proíbe as terapias de reversão. Ou seja, algumas pessoas são homossexuais e o serão por toda vida. Elas estão em toda parte. Quem não é gay, tem parentes próximos ou distantes que são, bem como vizinhos ou colegas de trabalho que também são, manifesta ou veladamente. Eles compõem a sociedade, visibilizam-se cada vez mais e não aceitam mais serem tratados como doentes ou criaturas abomináveis. Querem ser cidadãos plenos, com os mesmos direitos e deveres dos demais.

O que a fé cristã, na sua opinião, tem a dizer sobre a diversidade sexual?
O mais importante é algo que foi dito numa carta do Vaticano aos bispos, em 1986: nenhum ser humano é mero homossexual ou heterossexual. Ele é, acima de tudo, criatura de Deus e destinatário de Sua graça, que o torna filho Seu e herdeiro da vida eterna. E acrescenta que toda violência física ou verbal contra é deplorável, merecendo a condenação dos pastores da Igreja onde quer que se verifiquem. A oposição doutrinária que possa haver às práticas homoeróticas não elimina esta dignidade fundamental do ser humano. Deus criou a todos. O Cristo veio para todos e oferece o seu jugo leve e o seu fardo suave. Cabe a nós, com fidelidade criativa, conhecermos e darmos a conhecer estes dons divinos.

Como a Igreja, a partir da fé e das ciências, pode dialogar com a diversidade sexual?
Certa vez o Papa Bento XVI afirmou que o cristianismo não é um conjunto de proibições, mas uma opção positiva. E acrescentou que é muito importante evidenciarmos isso novamente, porque essa consciência hoje quase desapareceu completamente. É muito bom que um Papa tenha reconhecido isto. Há no cristianismo uma tradição multissecular de insistência na proibição, no pecado, na culpa, na condenação e no medo. O historiador Jean Delumeau fala de uma “pastoral do medo”, que com veemência culpabiliza e a ameaça de condenação para obter a conversão. Isto não se deu somente no passado distante. Também no presente, alguns interpretam a doutrina da maneira mais restritiva e condenatória possíveis, com obsessão pelo pecado, sobretudo ligado a sexo.

Sem a obsessão pelo pecado, o caminho do diálogo se abre. É preciso também respeitar a autonomia das ciências e da sociedade, como determina o Concílio. Não cabe hoje encaminhar os gays a terapias de reversão ou a “orações de cura”, que frequentemente são formas escamoteadas de exorcismo. No diálogo ecumênico e inter-religioso da Igreja, recomenda-se conhecer o outro como ele quer ser conhecido, e estimá-lo como ele quer ser estimado. O conhecimento e a estima recíprocos são também o melhor caminho para o diálogo entre a Igreja e o mundo gay.

A Igreja, no Brasil, tem, por meio de publicações, cursos, seminários, proposto o diálogo sobre a diversidade sexual. O que isso significa? Há aí um interesse legítimo dos diversos membros da Igreja, ou esta é uma necessidade da Igreja de se inserir em um novo contexto contemporâneo, em que gays e lésbicas ganham mais espaço? Como interpreta a posição da Igreja nesse contexto?
Constata-se que há no Brasil várias publicações, e de qualidade, sobre diversidade sexual feitas por religiosos ou por editoras católicas. Também há cursos e mesas redondas. Pode-se notar que o interesse é crescente, afinal o contexto da sociedade é inevitável. Em vários ambientes católicos, sejam paróquias, escolas ou centros de pastoral, pode-se tratar do assunto com liberdade. De um modo geral, as eventuais resistências não são barreiras intransponíveis.

Os homossexuais já conquistaram o direito de manterem uma união estável no Brasil. Como avalia a luta pela cidadania religiosa no Brasil?
Na verdade, há decisões judiciais que favorecem os conviventes homoafetivos, bem como normas de instituições públicas e privadas no mesmo sentido. Casais homossexuais podem obter em cartório um documento declaratório de convivência homoafetiva. Recentemente o Imposto de Renda e os planos de saúde contemplam estes casais com os mesmos direitos dos casais heterossexuais em união estável. Sobre a cidadania religiosa, nos ambientes religiosos católicos, de um modo geral, muitos gays estão presentes mas não manifestam a sua condição para evitar discriminação. É algo semelhante à escola e ao mundo do trabalho.

O que podemos entender por diversidade sexual? Quais os principais desafios da diversidade sexual?
A visibilização dos homossexuais, e a sua organização como movimento social, já usou diversas siglas: Gay (termo anterior a homossexual, que evoca alegria e autoestima), MHB (Movimento Homossexual Brasileiro), HSH (Homens que fazem sexo com homens – sigla ainda utilizada em saúde pública), GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes – sigla adotada pelo mercado) e LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), a mais recente. Há tendências de se acrescentar o ‘I’, de intersexual, para os hermafroditas. O termo diversidade sexual é uma maneira de englobar esta crescente pluralidade, embora com imprecisão.

O grande desafio da diversidade sexual é fazer-se compreender pela sociedade, não como uma ameaça, mas como uma pluralidade existente na condição humana que enriquece o mundo. No fundo, as pessoas querem ser elas mesmas, reconhecidas e aceitas pelos outros.

Como o senhor avalia o posicionamento da Igreja em relação à diversidade sexual na sociedade contemporânea?
A Igreja, antes de tudo, está alicerçada na milenar tradição judaico-cristã, ao mesmo tempo em que está presente em diversas partes do mundo, interagindo com a cultura ocidental moderna e com culturas não ocidentais. No judaísmo antigo, acreditava-se que o homem e a mulher foram criados um para o outro, para se unirem e procriarem. O homoerotismo era considerado uma abominação. Israel devia se distinguir das outras nações de várias maneiras, inclusive pela proibição do homoerotismo. A Igreja herdou esta visão antropológica com sua interdição.

Alguns conteúdos doutrinais mudam ao longo dos séculos, como é o caso da legitimidade da escravidão e da proibição do empréstimo a juros. Isto mostra que eles não comprometem o núcleo da fé. Outros conteúdos também podem mudar, mas não há como prever. De qualquer maneira, a consciência individual tem um peso decisivo em questões complexas como esta. Este papel não deve ser omitido ou subestimado. O Concílio reconheceu o direito de a pessoa agir segundo a norma reta da sua consciência, e o dever de não agir contra ela. Nela está o “sacrário da pessoa”, onde Deus está presente e se manifesta. A fidelidade à consciência une os cristãos e os outros homens no dever de buscar a verdade, e de nela resolver os problemas morais que surgem na vida individual e social (Gaudium et Spes, nº 16). Nenhuma palavra externa substitui o juízo e a reflexão da própria consciência.

Entre os evangélicos também há discordância em relação à homossexualidade. Entretanto, qual sua opinião sobre a Igreja Cristã Contemporânea, coordenada pelo casal de pastores homossexuais Fábio Inácio de Souza e Marcos Gladstone?
Entre os evangélicos, a oposição à homossexualidade em geral é mais intensa, com práticas frequentes de exorcismo para expulsar o demônio que supostamente toma conta da pessoa. Os que continuam a cometer atos homossexuais são muitas vezes expulsos de suas igrejas, ou sofrem um assédio moral devastador que os faz sair. Como o mundo protestante é fragmentado em diversas denominações, gays evangélicos fundaram igrejas inclusivas para acolherem crentes repelidos por suas igrejas de origem.

As igrejas inclusivas nasceram nos Estados Unidos, na ampla constelação do movimento gay. A Igreja Cristã Contemporânea é um rebento brasileiro com notável difusão no Rio de Janeiro. Os pastores Fábio e Marcos protagonizaram o primeiro casamento público entre dois pastores gays, com grande repercussão na mídia, muita simpatia da militância LGBT e forte execração dos evangélicos tradicionais.

Quais são, no seu entendimento, as razões que dificultam o consentimento das religiões aos homossexuais?
As grandes religiões monoteístas – judaísmo, cristianismo e islamismo – enraízam-se em tradições milenares consignadas em textos sagrados antigos, situados em horizontes socioculturais bem diferentes do nosso. Estas religiões se vincularam a uma suposta heterossexualidade universal, expressa no imperativo “crescei-vos e multiplicai-vos’” do livro de Gênesis. Por outro lado, há religiões de matrizes africanas que aceitam os gays. Na verdade, a heterossexualidade não é universal, nem na espécie humana, nem entre os animais. No mundo animal, já se conhecem atualmente mais de 450 espécies com indivíduos homossexuais.

Certa vez um rabino disse que a tradição não é um bastão de uma corrida de revezamento. O bastão é sempre mesmo, passando de mão em mão. A imagem correta da tradição é uma casa em que vivem sucessivas gerações. Cada uma delas pode dar o seu toque peculiar e até fazer reformas internas. Mas a casa é sempre reconhecível por quem passa na rua. Assim é a tradição: um legado vivo, constantemente enriquecido para ser fiel a si mesmo. O teólogo Yvez Congar afirmou que a única maneira de se dizer a mesma em um contexto que mudou, é dizê-la de modo diferente. A mensagem cristã precisa se reinventar sempre se quiser ser Boa Nova.

As uniões homoafetivas representam uma ameaça à tradição?
Não, pelo contrário. A união entre o homem e a mulher conserva seu valor e função social, e permanece como sinal bíblico do amor entre o Senhor e o seu povo eleito, e do amor entre Cristo e a Igreja. As uniões homoafetivas não ameaçam as uniões heterossexuais, pois estes não são gays enrustidos prestes a debandarem diante da possibilidade de união homossexual. E nem os gays têm obrigação de se “curarem” e de se casarem com pessoas de outro sexo. Até porque, para o direito eclesiástico, este casamento é nulo. Uniões gays e uniões heterossexuais são de naturezas distintas e não concorrem entre si.

Um documento do Vaticano de 2003, sobre o reconhecimento civil da união entre pessoas do mesmo sexo, fez severa oposição à equiparação ou equivalência desta forma de união àquela entre homem e mulher. No entanto, ele afirma que, mesmo assim, podem-se reconhecer direitos decorrentes da convivência homossexual. Este é um passo muito importante. Se não houver nenhum reconhecimento social ou proteção legal às uniões gays, o preconceito homofóbico difuso na sociedade vai pressionar os gays a contraírem uniões heterossexuais. O que já acontece há séculos continuará acontecendo. É lastimável, pois isto traz enorme sofrimento a muitas pessoas.

O que deve fazer parte de uma reflexão moral sobre o amor homossexual?
Antes de tudo, a vocação fundamental do ser humano é amar e ser amado. O amor é a plenitude da lei e da vida em Cristo. E o próprio Cristo ensina que a lei foi feita para o homem, e não o homem para a lei. Para a reflexão moral, convém escutar a Palavra de Deus e buscar uma teologia que supere a leitura ao pé da letra; e que leve em conta a Tradição, o ensinamento da Igreja, os sinais dos tempos e os saberes seculares.

A moral não deve se limitar ao ideal, mas deve estar atenta ao possível, à situação em que cada um se encontra e aos passos que pode dar. O papa tratou recentemente do uso da camisinha, e afirmou que em algumas circunstâncias ele representa o primeiro passo para uma humanização da sexualidade. É preciso buscar sempre os caminhos de humanização.

Deseja acrescentar algo?
Sim. Jesus afirmou que há eunucos de nascença, eunucos feitos pelos homens e eunucos que assim se fizeram pelo Reino dos Céus (Mt 19,12). Esta frase, um tanto estranha, tem um sentido literal e um sentido não literal. No caso de eunucos feitos pelos homens, trata-se de castração. No caso de eunucos pelo Reino dos Céus, trata-se do próprio Jesus e dos que renunciaram ao casamento para se dedicarem inteiramente à obra de Deus. Não há propriamente castração. E quem são os “eunucos de nascença”? Para os primeiros leitores do Evangelho, talvez fossem pessoas com um defeito físico que impossibilita o casamento. Mas para nós, hoje, é indispensável considerar aqueles que por natureza, em razão de sua libido, não se destinam ao casamento tradicional. São os gays. Eles têm seu lugar no plano divino. E também devem tê-lo na sociedade e na Igreja.

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Publicado originalmente na IHU On-Line
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