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terça-feira, 13 de agosto de 2013

Papa e homossexualidade: por que nos admiramos?

 

Por que se admirar com uma aberta manifestação de simpatia e de respeito do papa, respondendo de improviso, no avião que o trazia de volta a Roma de retorno do Brasil, sobre o tema muito vivo dos gays? O papa não queria fazer uma reflexão complicada sobre o modo de ser da nossa sexualidade; mas, como grande pai espiritual, sabe como algumas pessoas, adolescentes, jovens, homens e mulheres, sentem amor sincero por pessoas do mesmo sexo e alimentam, ao mesmo tempo, um profundo amor por Deus.

Certamente, no conformismo moralista que perdura há séculos no mundo e na Igreja, a resposta do papa parece revolucionária: finalmente, com espírito evangélico, o papa olha para uma realidade que já nos é conhecida sem usar palavras de condenação .

E, como sempre, quem fingiu se escandalizar não foram aqueles que são "puros de coração" (Mt 5, 8), mas sim aqueles que, não tendo em si mesmos a pureza do coração e a caridade, gritam o escândalo pelo delineamento de uma "nova moral"; estes, como muitas vezes acontece, olham para fora de si mesmos, antes de avaliar a si mesmos e os seus comportamentos.

O que disse o papa? "Se uma pessoa é gay e busca o Senhor com boa vontade, quem sou eu para julgá-la?". Quero lembrar que, no Evangelho de João, o verbo "julgar" também significa "condenar". Por isso, o papa diz: "Quem sou eu para condenar?". Há séculos, a Igreja tem visto a sexualidade como fonte de problemas, apesar do fato de existirmos enquanto produtos de fatores naturais sexuais.

Quase como se o Evangelho não tivesse feito nada mais do que falar de sexo! O Evangelho, creio eu, é uma síntese de graça, de esperança, de bem-aventurança, porque, nas palavras de Jesus, há a suprema tentativa de nos falar de Deus que é Pai. Assim também era no primeiro Testamento da bíblia hebraica. O que foi, na história, essa tentativa de obrigar a Palavra a ser insuportável e inaceitável?

O tema do sexo que se refere aos gays deve ser considerado à luz do valor irrepetível de cada pessoa, da própria dignidade, sem julgar uma parte da pessoa humana. Cada um de nós é sexualidade, é pensamento, é vontade, é criatividade e é sobretudo pessoa única e irrepetível na história do mundo.

É o mistério da nossa existência que importa, e não uma parte do nosso ser que conta pelo todo. O papa, portanto, "não julga". Finalmente, cada um de nós está diante de Deus com a sua liberdade e com o valor da própria consciência. E isso mesmo quando fazemos parte da Igreja, a "nossa mãe".

- Enrico Ghezzi, pároco romano e especialista no Evangelho de João. Artigo publicado no jornal L'Unità, 07-08-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto, via IHU.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Nova série de vídeos sobre gays católicos


O Papa Francisco não foi o único jesuíta a, nesta semana, ser notícia no que concerne às declarações positivas relacionadas com temas respeitantes às pessoas de orientação homossexual.

Também a Ignatian News Network, uma companhia de produções dos jesuítas da California, lançou um video no YouTube, que é o primeiro de uma série sobre homossexuais católicos e a igreja e intitulado "Quem Somos Nós Para Julgar?".

Este primeiro episódio contém entrevistas com o padre jesuíta James Martins, autor espiritual de renome, e com o padre jesuíta Matt Malone, editor-chefe da America Magazine, uma revista católica americana. O episódio contém ainda uma entrevista com Arthur Fitzmaurice, um homossexual católico que é diretor de recursos da Catholic Association for Lesbian and Gay Ministry. Todos falam de forma positiva sobre os esforços de evangelização que muitas pessoas dentro da igreja católica estão a realizar com as pessoas LGBT.

O pessoal do Rumos Novos (Portugal) legendou o vídeo e o compartilhou aqui.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Teólogos propõem uma nova moralidade sexual


"Extraindo percepções da tradição católica, da Escritura, das disciplinas seculares do conhecimento moral e da experiência humana, há seis dimensões fundamentais da antropologia católica renovada no livro A pessoa sexual", explicam os teólogos Todd Salzman e Michael Lawler, professores do departamento de Teologia de Universidade Creighton, nos Estados Unidos. Eles são os autores do livro A pessoa sexual (original inglês: The sexual person), publicado pela Editora Unisinos, 2012.

Em entrevista concedida à revista IHU On-Line (leia na íntegra aqui), os teólogos descrevem as seis dimensões fundamentais da antropologia expostas no livro.

"A primeira e mais fundamental dimensão é a mudança de ênfase na própria tradição católica que passou da pessoa sexual considerada primordialmente como pessoa procriadora para a pessoa sexual considerada primordialmente como pessoa relacional.

A segunda dimensão, que extrai percepções das ciências biológicas e sociais, é uma mudança na percepção da orientação heterossexual como normativa e a orientação homossexual ou bissexual como “objetivamente desordenada” – como ensina o magistério –, que passou para a concepção da orientação sexual – heterossexual, homossexual ou bissexual – como dimensão intrínseca da pessoa sexual e, portanto, “objetivamente ordenada” para a pessoa heterossexual, homossexual ou bissexual, respectivamente.

A terceira dimensão é uma compreensão holística e integrada da pessoa sexual considerada em termos relacionais, físicos, emocionais, psicológicos e espirituais.

A quarta dimensão postula um desejo fundamental das pessoas de estarem em relacionamento, incluindo o relacionamento sexual, com outra pessoa. Esse desejo se realiza num complexo de relacionamentos que o magistério designa como complementaridade. Complementaridade quer dizer que certas realidades formam uma unidade e produzem um todo que nenhuma delas produz sozinha.

Na descrição do magistério, a complementaridade sexual aponta para o matrimônio heterossexual como o relacionamento sexual estável exclusivo entre um homem e uma mulher.

A quinta dimensão expande a descrição da complementaridade sexual por parte do magistério indo além do casamento heterossexual entre homem e mulher e postulando um desejo fundamental de complementaridade holística na pessoa sexual ao integrar a orientação sexual como uma dimensão intrínseca da antropologia sexual. A complementaridade holística inclui a orientação sexual, a complementaridade pessoal e biológica e a integração e manifestação de todas as três na pessoa sexual.

A sexta dimensão postula que “atos sexuais verdadeiramente humanos” realizam as pessoas sexuais. Um ato sexual verdadeiramente humano é um ato em concordância com a orientação sexual de uma pessoa que facilita uma valorização, integração e partilha mais profunda do si-mesmo (self) corporificado da pessoa com outro si-mesmo corporificado tanto em amor como em justiça (amor justo)".

Segundo os teólogos, "a conclusão normativa que se segue dessas seis dimensões antropológicas da pessoa sexual é a seguinte: alguns atos homossexuais e heterossexuais, aqueles que cumprem as exigências de complementaridade holística e amor justo, são verdadeiramente humanos e morais; e alguns atos homossexuais e heterossexuais, aqueles que não cumprem as exigências de complementaridade holística e amor justo, não são verdadeiramente humanos e são imorais".

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Qual o Valor da Vida de Nossos Filhos e Filhas?

Junte-se às "Mães pela Igualdade" no Brasil, aqui

"A sociedade tratou dois meninos assassinados de modo desigual, mas a morte violenta os igualou."


Em 2006, no auge da comoção pública ocorrida em razão da morte do menino João Hélio, publiquei artigo de opinião no Congresso em Foco [aqui: "Há várias formas de matar uma criança"] em que questionava não apenas a exploração da dor pela mídia convencional, como também os discursos inflamados pela diminuição da maioridade penal, que mais uma vez surgiam ante um fato exaustivamente exposto nas TVs, jornais e rádios brasileiras.

Na mesma semana, um adolescente de 17 anos fora torturado, violado e morto, com requintes de crueldade na vizinha cidade de Anápolis, a segunda mais importante no estado de Goiás. Não foi publicada sequer uma linha nos jornais do Distrito Federal ou do país, e, mesmo em Goiás, apenas um pequeno jornal semanário (Jornal Opção) deu a notícia com pouco mais de 200 caracteres, quase num pé de página.

Qual a diferença entre João Hélio, o menino de seis anos, morto em razão de um assalto mal sucedido e o garoto sem nome, de 17 anos, torturado, violado e assassinado em Goiás? Por que os defensores da diminuição da maioridade penal, os paladinos da pena de morte, do movimento lei e ordem, nada falaram sobre o caso? O que motivou os editores de telejornais, jornais e rádios do país a sequer se preocuparem em dar a notícia? Por que não houve clamor popular, comoção pública, debates em torno da crescente violência que assola o país?
Tantas perguntas, uma única resposta. O que diferencia o garoto sem nome de João Hélio é que aquele causara rebuliço na família seis meses antes, por que revelara que era homossexual. E por que era homossexual, foi torturado, violado e friamente assassinado.
Retrato de uma sociedade adoecida em que a vida, a integridade física e emocional são valores relativos. Uma cultura que pune cruelmente todo aquele que não reza pela cartilha da maioria, que não realiza as expectativas identitárias, em especial e principalmente, que ousa desobedecer o código da heteronormatividade e das identidades de gênero binárias.
O que têm em comum João Hélio e o garoto sem nome? Eles têm mãe. Mas poderiam ter tantas outras coisas em comum, qualidades que jamais saberemos por que ambos foram vítimas da violência.
Ainda assim, para João Hélio, cuja identidade sexual e de gênero ainda não estava plenamente expressa, a sociedade bradou por justiça, os meios de comunicação inflaram o debate em torno da segurança pública, os políticos de plantão levantaram suas bandeiras de tolerância zero. Enquanto repousa anônimo o garoto torturado, violado e assassinado em Anápolis, e ninguém, exceto a própria mãe, clamou por justiça. A sociedade os tratou de modo desigual, mas a morte violenta os igualou.
É preciso que nossos filhos e filhas tenham direitos iguais. É necessário que a vida, a integridade física e emocional sejam valores absolutos em nossa sociedade. Respeitar e garantir os direitos civis de brasileiros e brasileiras sem qualquer distinção, inclusive a de orientação sexual, é garantir o estado democrático de direito.
- Maria Cláudia Cabral é advogada, blogueira e faz parte do movimento Mães pela Igualdade.
Publicado originalmente no site Congresso em Foco. Reproduzido via blog das Mães pela Igualdade.

domingo, 10 de junho de 2012

O mundo não é preto e branco, e sim colorido. Vamos falar de sexo?

Foto: Takeshi Suga

Do blog do Leonardo Sakamoto:

Na época da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo sempre aumenta a minha percepção do quanto nós somos desinformados sobre a nossa própria sexualidade. E terreno sem informação é fértil para o brotar o preconceito e a discriminação, principalmente entre aqueles que acham que a vida é um preto e branco maniqueísta, homem e mulher, macho e fêmea e o resto é doença. Ignoram que há outras cores no meio do caminho que, por sua vez, podem ser tão específicas que apresentem tonalidades únicas e individuais. Sim, na prática, cada um tem sua própria cor. Assustador e maravilhoso isso, não?

Por isso, pedi para Claudio Picazio, psicólogo especialista em sexualidade, um texto que fosse didático para ajudar aos leitores deste blog a entenderem a questão. Ele não encerra o tema, claro. Muito pelo contrário, é um bom ponto de partida.


Para entendermos a sexualidade e por uma questão didática, vamos analisá-la sob quatro aspectos diferentes e interligados: Sexo Biológico, Identidade Sexual, Papeis Sexuais e Orientação Sexual do Desejo. Repito essa divisão é didática, pois todos os aspectos se entremeiam, formando dentro de nós aquilo que chamamos identidade de gênero.

Sexo Biológico: Biologicamente falando quantos sexos existem? Dois, masculino ou feminino. Quando nascemos pelas características que nosso corpo possui, somos registrados como macho ou fêmea. Essa afirmação parece simplista e óbvia, mas não é bem assim, quando falamos de sexo masculino ou feminino estamos nos referindo às características dos órgãos sexuais e a predominância que este tem no nosso corpo.

Muitas pessoas nos anos 70, por uma questão de distinção ou até modismo, começou a chamar a homossexualidade de terceiro sexo. Isto não é verdade, só confundiu. Biologicamente falando, homens hetero, bi e homossexuais não têm a menor diferença, assim como as mulheres hetero, bi e homossexuais. Portanto, quando uma pessoa fala popularmente que um gay não é homem, esta incorreto, o gay é tão homem quanto qualquer outro, a única variação é por quem o seu desejo sexual se orienta. Há exceções, é claro. Por exemplo, uma pessoa hermafrodita nasce com uma dupla formação de características dos seus órgãos sexuais masculinos e femininos.

Identidade Sexual: Vamos definir como sendo o aspecto de onde guardamos a nossa certeza do que somos. Quando nascemos, somos registrados como menino ou menina. A partir daí somos tratados como tal e incoporamos a sensação de pertencemos a um gênero. Acreditamos que somos menina ou menino: a forma de como somos tratados é tão importante como o nosso sexo biológico para a formação da nossa identidade sexual. Mas a nossa identidade sexual não depende tanto do nosso corpo para se manter. Ele é importante para seu desenvolvimento, mas a sensação de quem somos é muito maior, e muito mais profunda do que o nosso corpo pode dizer.

Papeis Sexuais: Vamos entender como papeis sexuais, todos os comportamentos definidos como maneirismos, atitudes e expressões daquilo que chamamos de masculino e feminino. Papeis sexuais são variados de cultura para cultura de sociedade para sociedade e estão em constante transformação. Aquilo que era considerado há 20 anos como exclusivamente ao papel feminino, hoje também pode ser considerado do masculino. As mudanças sociais e econômicas, o movimento feminista permitiu uma flexibilidade e mudança das posturas rígidas de ser masculino ou feminino. Um exemplo: o uso de brincos por homens.

Ainda temos muito enraizado em nós os papeis sexuais e a análise que fazemos destes para julgar o outro. Uma mulher que não se identifique muito com os papeis femininos típicos, tenderá a ser “diagnosticada” pelos outros como lésbica. Mas papeis sexuais não determinam desejo erótico e sim ações e atitudes que incorporamos. Um garoto que não goste de futebol e de nenhum esporte violento, será interpretado como “mulherzinha, gay”. Pensando nesse exemplo, estamos dizendo que um homem heterossexual de verdade tem que ser violento assim como uma mulher heterossexual de verdade tem que ser passiva e meiga. Já estamos estabelecendo uma divisão entre os gêneros complicada, porque incentivamos um comportamento na criança que mais tarde brigaremos muito para retirar. Na verdade encontramos homens heterossexuais e gays violentos, assim como encontramos homens heterossexuais e homossexuais que não são violentos e nem se adaptam a essa postura.

Orientação Sexual do Desejo: Muita gente utiliza “opção sexual”, o que não é nada correto quando falamos da sexualidade. Quando falo em “opção” estamos falando em escolha e para ser considerada uma escolha teríamos que ter duas ou mais coisas de igual significado ou valor para quem escolhe. Se desejo erótico fosse opção teríamos que sentir desejos tanto por homens quanto por mulheres da mesma forma. Isso não acontece por ninguém. Nenhum de nós parou um certo dia, para pensar quem desejaria. Acredito que muitos gostariam que assim o fosse, por que isso o permitiria flexibilizar, variar, e não sofrer julgamentos e preconceitos tão doídos de serem combatidos. Dizemos Orientação Sexual do Desejo pois nosso desejo se orienta para um determinado objeto amoroso. Não optamos e sim percebemos o nosso desejo erótico, descobrimos algo que já parece instalado em nós.

O desejo erótico não é influenciável como se imagina ser. Se o fosse não existiram gays e lésbicas. A nossa sociedade é heteronormativa. Tudo que existe nela é feito pensando na heterossexualidade. Pais e mães educam seus filhos para a heterossexualidade. O preconceito social, a homofobia e as religiões ainda são muitos fortes na sua postura contra a homossexualidade. E mesmo com tudo isso os homossexuais não se influenciam pela heterossexualidade.

“Desejo sexual” é parte fundamental da orientação afetivo sexual, ao passo que uma “atitude sexual” pode existir interdependentemente da orientação do desejo. Por exemplo, na época da Segunda Grande Guerra muitas mulheres tinham relações sexuais entre si, assim como muitos homens, no campo de batalha. Estas mulheres sentiam falta de seus companheiros, a orientação de seu desejo era claramente voltada para homens, mas relacionavam-se sexualmente com outras mulheres. As mulheres motivadas por um desejo de descarregar a sua energia sexual. Com a volta de seus companheiros, essa atitude automaticamente deixava de existir.

Em muitos casos, homossexuais que não querem viver a sua orientação, vão à procura de igrejas, e/ou profissionais que estimulam atitude sexual desses homossexuais. Esses gays tentam viver anulando o seu desejo erótico e tendo somente atitudes sexuais heterossexuais. A dor psíquica é muito grande.

Muitos meninos têm uma relação que se chama “troca-troca” que está longe de ser considerada homossexualidade. Um dos motivos é porque para a maioria o objeto desejado internamente é uma pessoa do outro sexo. O que há é um exercício de sexualidade, um descarrego de energia que está vibrando nos corpos com toda a sua força e é vivido com um(a) colega. Em suma, todo ser humano pode ter uma atitude sexual com qualquer dos sexos, mas seu desejo interno, a libido, é o determinante de uma conduta homo, hetero ou bissexual.

O que seria então a bissexualidade? A bissexualidade não é termos uma atitude sexual por uma pessoa e um desejo erótico por outra. A bissexualidade é um fenômeno que algumas pessoas têm de desejar afetiva e sexualmente tanto homens como mulheres. Não podemos falar que um bissexual optou por homens ou por mulheres. Não escolhemos, conscientemente, por quem nos apaixonamos, assim como não escolhemos por que vamos desejar eroticamente.
Concluindo: podemos dizer que o desejo erótico, ou ele é homo, por uma pessoa do mesmo sexo que o nosso, hetero por uma pessoa do sexo diferente do nosso, ou bissexual que é o desejo erótico pela pessoa do mesmo sexo ou do sexo oposto.

E a Travestilidade e a Transexualidade, como se comportam? Uma pessoa hetero ou homossexual tem a sua identidade sexual correspondente ao seu sexo biológico. Uma travesti tem a sua identidade dupla, ou seja, ela se sente homem e mulher ao mesmo tempo. O leitor deve se lembrar quando falamos de identidade sexual? A sensação de pertencimento à identidade sexual feminina e masculina da travesti é o que lhe garante mais do que o desejo, a necessidade de adequar o seu corpo aos dois sexos que sente pertencer.

A Travestilidade também não é opção, muitas pessoas crêem erroneamente que a travesti é um gay muito afeminado que resolveu virar mulher. Além de simplista esta afirmação esta recheada de equívocos. Uma travesti diferente do gay tem uma identidade dupla: masculina e feminina. Uma travesti pode ter papeis sexuais tanto masculino como feminino, pois como já dissemos anteriormente esse é um processo de identificação com valores e costumes da sociedade. Quanto ao desejo erótico, uma travesti pode ser homo, hetero, ou bissexual.

A maioria delas se intitula homossexuais, mas não é bem assim. Quase a unanimidade dessas travestis sente-se mulher. Na grande maioria do tempo, elas não desejam eroticamente o seu amigo gay, elas desejam um homem típico heterossexual. Portanto se uma pessoa se identifica, sente-se mulher e sente atração por um homem, o seu desejo é heterossexual. Portanto a maioria das travestis tem o desejo heterossexual. Uma relação homossexual de uma travesti seria com uma outra travesti.

A Transexualidade, caracteriza se pela identidade sexual ser oposta ao sexo biológico é como se a sua “alma” fosse do sexo oposto do que o seu corpo a condena. A necessidade de correção do corpo para a identidade sentida se faz urgente. Muitos Transexuais se mutilam para poder fazer a cirurgia de adaptação genital. A força da identidade sexual é a tônica na construção da nossa identidade de gênero. Uma transexual também pode ser homo, hetero ou bissexual.

Para quiser se aprofundar, sugiro o livro “Uma outra verdade – Perguntas e respostas para pais e educadores sobre homossexualidade na adolescência”, de Claudio Picazio pela Editora Summus. A leitura é fundamental. Talvez com informação possamos inverter uma lógica perversa. Quando alguns pais “descobrem” que o filho é gay ou a filha lésbica, recebem suporte emocional de parentes e amigos. Mas deixam sozinhos seus filhos, que têm que passar sozinhos pela fase de sua própria descoberta. Isso é justo?

sábado, 9 de junho de 2012

A escola deve ser um lugar seguro para todas as crianças, sem exceção


Extensa e excelente análise publicada por Luiz Henrique Coletto  nas Notas Públicas da LiHS  no início de maio. Apesar do atraso, reproduzimos em vista da relevância da discussão em pauta, aproveitando o ensejo da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, amanhã.

Maio é um mês bastante movimentado na agenda do movimento LGBT nacional. Em meados do mês, ocorrerão em Brasília a 3ª edição da Marcha Nacional Contra a Homofobia, o 9º Seminário LGBT no Congresso Nacional e uma Audiência Pública para tratar da criminalização da homofobia e da violência homofóbica. Esses eventos, nos dias 15 e 16, marcam a passagem do Dia Internacional Contra a Homofobia (17 de maio).

A Marcha Nacional chega à terceira edição e consolida-se como a manifestação política mais proeminente do movimento em âmbito nacional se considerarmos as Paradas do Orgulho LGBT como eventos não exclusivamente políticos, como avaliam alguns. O tom da Marcha é, até mesmo por sua realização no centro político do país, mais característico da ideia clássica de uma manifestação política. Os eventos desse ano, entretanto, trazem algumas singularidades interessantes, e vou apenas mencionar uma delas para tratar mais detidamente de uma outra.

A Audiência Pública será mais uma das várias que já foram feitas para discutir a criminalização da homofobia. O fato é que o PLC 122 está emperrado no Senado Federal, e de audiência em audiência, não se votou o projeto em plenário ainda. Esta edição tem um grande mérito, entretanto, ao dar cara e voz mais explícitas ao objeto deste projeto e desta demanda histórica do movimento. A meu ver, as histórias de vítimas da homo/les/transfobia são o elemento central neste momento, porque as discussões de legalidades e tecnicalidades já foram exaustivamente feitas. É preciso compartilhar estas histórias de violências físicas, psicológicas e morais que atingiram jovens e adultos gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais; que atingiram as mães e os pais destes LGBTs, bem como seus amigos e colegas.

A terceira mesa prevista para a Audiência trará testemunhos de homofobia. Se eu vejo esta mesa como o ponto central, creio, infelizmente, que a mesa seguinte (e final) é que terá maior destaque: a recente e intensa polarização entre Toni Reis, presidente da ABGLT, e Silas Malafaia, pastor televangelista, tem atraído a atenção não só do movimento como também da mídia. Por alguma razão de outra ordem que não a competência, a mesa “A criminalização da homofobia: aspectos constitucionais e legais” terá a presença do pastor Silas Malafaia junto de três advogados. Os três têm competência para tratar de aspectos legais e constitucionais sobre a criminalização da homofobia. Vários outros juristas que não querem o PLC 122 aprovado poderiam estar na mesa para contrapor os argumentos jurídicos dos três primeiros. Aparentemente, eles não têm interesse em ir na Audiência ou nem estão sabendo do debate. Só Silas Malafaia, cuja formação é em Psicologia e a “especialização” é em retórica, adquirida em décadas de televisão. Enfim, não vou me alongar sobre o pastor Malafaia.

A singularidade que mais me interessou este ano é a temática do 9º Seminário LGBT no Congresso Nacional (“Infância e Sexualidade”), sob organização da Frente Parlamentar Mista pela Cidadania LGBT. Considero bastante corajoso endereçar o tema da sexualidade na infância. Isso implica mover certa parede moral que joga a sexualidade para “algum momento da adolescência” e ignora a sexualidade das crianças. Este tema claramente dialoga com a problemática da homofobia nas escolas, afinal, ambiente essencialmente infantil e juvenil. É corajosa a discussão também porque este assunto está num espécie de limbo político desde o veto que Dilma deu ao material pedagógico que trataria da diversidade sexual na escola. Aliás, só lá no Ensino Médio, período em que a maioria dos jovens já iniciou ou está iniciando a vida sexual; que a maioria das crianças que fogem aos padrões de gênero e performance viril/feminina já sofreram bullying e, por fim, em que muitas das concepções machistas, homo, les e transfóbicas já estão primariamente enraizadas.

Ao focalizar a infância, o Seminário só reverbera uma espécie de consenso acadêmico - refletido não só em posições teóricas, mas também em relatos colidos in loco sobre bullying homofóbico, bem como estatísticas de violência e mesmo suicídio - sobre a necessidade de abordar a diversidade sexual com as crianças. Eu creio que uma leitura mais calma de diversos desdobramentos desta questão ajude a clarificar ainda mais a urgência pela mudança do modo como tratamos (ou ignoramos) a questão nas escolas. Um exemplo sobre o qual tentei discorrer em A Propaganda Heterossexual é justamente o mecanismo perverso que oculta a onipresença da heterossexualidade na vida das crianças, em todas as suas “ambiências”, ao passo em que aponta uma “doutrinação” (sic) na mera tentativa de falar sobre diversidade sexual.

Mas, mais uma vez, penso que compartilhar histórias seja fundamental para trazer a realidade que as pesquisas, estatísticas e teorias retratam. Em março deste ano, o caso de agressão a um adolescente de 15 anos do interior do Rio Grande do Sul ganhou destaque na imprensa. No dia 23 de março, o jovem deu seu depoimento no programa Mais Você, da Rede Globo. Você pode ouvir os 5min em que ele fala sobre o que está passando neste link (entre 4’55’’ e 9’45’’).

Já o jovem Iago não chegou a contar sua história. Só sabemos da homofobia que ele sofria na escola pelos relatos tristes de seus familiares. Na edição de 19 de maio de 2009 do Profissão Repórter, também da Rede Globo, o tema era escola de periferia, e o caso do Iago, de 14 anos, surge por acaso [já havíamos visto este vídeo aqui, mas vale repetir]:


A violência que estes dois adolescentes sofreram por causa de sua real ou suposta homossexualidade não é exceção ou acidente no cotidiano escolar. Nem mesmo na sociedade. Nem mesmo no Brasil. Na edição de 24 de março do New York Times, o marroquino Abdellah Taïa contou sobre sua infância como um garoto afeminado em Salé, no noroeste do Marrocos. O ano era 1973. Em 1988, quando tinha 25 anos, Taïa exilou-se na França.
No Marrocos dos anos 80, onde a homossexualidade não existia, é claro, eu era um pequeno garoto afeminado, um garoto a ser sacrificado, um corpo humilhado sobre o qual recaia toda a hipocrisia, todos os não ditos. Quando tinha 10 anos, embora ninguém falasse sobre isso, eu sabia o que acontecia aos meninos como eu em nossa sociedade empobrecida; éramos vítimas designadas para sermos usadas, com a benção de todos, como simples objetos sexuais de homens frustrados. E eu sabia que ninguém me salvaria - nem mesmo meus pais, que certamente me amavam. Para eles também, eu era vergonha, sujeira. Um “gay”. [...] Como é para uma criança que ama seus pais, seus muitos irmãos, sua cultura operária, sua religião - o Islã - como é que ela pode sobreviver a este trauma? Ser ferido e molestado por causa de algo que outros viram em mim - alguma coisa no modo como movo minhas mãos, as minhas inflexões. Um jeito de andar, o meu comportamento. [...] Não me recordo mais da criança, do adolescente que fui. Sei que era afeminado e tinha consciência de que ser tão explicitamente “daquele jeito” era errado. 
[...] Nunca mais fui o mesmo Abdellah Taïa depois daquela noite [em que vários homens da vizinhança queriam fazer sexo com ele]. Para me salvar, eu me matei. Foi isso que fiz. Comecei a manter minha cabeça baixa todo o tempo. Eu cortei todas as relações com as crianças da vizinhança. Mudei meu comportamento. Eu me mantinha vigilante: nada mais de gestos femininos, nada mais de andar com as mulheres. Nada de mais nada. Eu tive que inventar um Abdellah inteiramente novo. Eu me empenhei nisso com grande determinação, e com a compreensão de que aquele mundo não era mais meu mundo. Cedo ou tarde, eu deixaria aquilo para trás. Eu crescercia e encontraria a liberdade em algum outro lugar. Mas até lá, eu me tornaria alguém forte. Muito forte.
A história de Abdellah ilustra bem o quanto crianças, na mais tenra idade, podem sofrer terríveis violências por não se comportarem como é esperado delas. Por não serem como se espera. Uma violência brutal que atinge jovens travestis, transexuais, gays e lésbicas. É urgente que a sexualidade - enquanto conjunto de manifestações de gênero, identidade e desejos - e a infância sejam harmonizadas. Não seria nem mesmo preciso recorrer a isso se nos recordarmos duma premissa essencial da educação: a escola deve ser um ambiente seguro e saudável para todas as crianças. Para todas elas, sem exceção.

- Luiz Henrique Coletto, Membro do Conselho LGBT da LiHS
Publicado nas Notas Públicas da LiHS 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

"Somos todos iguais. Ou não?"


Safo foi uma pensadora, considerada por Platão a décima musa. Mas então por que ela não foi reconhecida como tal na Grécia Antiga? Mulher não tinha vez. Seu único papel social era de reprodutora e “cuidadora” do lar. Trocando em miúdos, um bibelô dos homens. Ela se rebela, cria uma escola só para mulheres, em Mitilene, capital da Ilha de Lesbos, com ensinamentos de poesia, dança e música. Tal foi o preconceito quanto ao talento e às atitudes vanguardistas de Safo que precisaram lhe incutir algum “defeito”. Claro, corruptora de mulheres! Já que vivia cercada delas. A força dessa “medalha” foi tamanha que até hoje se define como “lésbica” a mulher que se relaciona sexualmente com outra. E se, em 1476, Leonardo da Vinci tivesse sido condenado à fogueira no Tribunal de Florença por crimes sodomitas (nome dado a homens que mantinham relações com outros homens)? O que a Humanidade teria perdido de obras artísticas, científicas e culturais?

Apenas dois exemplos, aparentemente distantes no tempo, para ilustrar esta caminhada. Por que permanece acesa essa fogueira da inquisição até o século XXI? Obama reconheceu. Que se apague esse fogo! O fogo do preconceito, que fique claro, mas que a chama da liberdade, do amor e da pluralidade arda incessantemente! Por falar em pluralidade, ela tem duas outras companheiras também regidas pela Constituição Federal: a dignidade e a igualdade. Se somos iguais perante a lei, por que a união de pessoas do mesmo sexo deve ser diferente?

Não estamos tratando de religião, como a palavra casamento pode soar aos nossos ouvidos. Tratamos aqui de um contrato especial de direito de família. Simples assim: vamos nos casar? Vamos ao cartório selar esta comunhão. Mas, até hoje, mesmo com alguns avanços jurídicos, não é bem assim. A união estável tem profundas diferenças do casamento civil. Neste, existe mudança do estado civil para casado, a intenção primordial da formação de família e direitos de proteção do cônjuge em caso de morte ou separação. Na união estável, trata-se de uma decisão judicial com exigência de que o casal recorra à justiça para tal reconhecimento.

Fundamentalistas se baseiam na ideia da existência exclusiva da formação de casal somente entre homem e mulher para condenar a aprovação do casamento igualitário. Só para lembrar, o casamento homossexual foi proibido pela primeira vez apenas no ano de 342 d.C. por um decreto romano. Até então era permitido. Ora, a escravidão era permitida legalmente até que a Lei Áurea foi assinada. Ora, as mulheres não tinham direito a voto até 1932. Hoje, elas chegam ao topo do poder de grandes nações. E imaginar que a gente nem votava há exatos 80 anos parece um completo absurdo! O mundo muda, as famílias mudaram, e as leis têm obrigação social de acompanhar essa evolução.

Até os contos de fadas sofreram mudanças e atualizações. Chapeuzinho Vermelho se transformou em “A Garota da Capa Vermelha”, uma versão noir da clássica neta e mocinha. Rapunzel virou animação bem-humorada em “Enrolados”, e “A Bela e a Fera” passou por uma profunda repaginada para se atualizar aos desejos deste público moderno.

Fiz a minha parte. Compus um conto de fadas com direito a castelo, dragão, duelos e cavaleiros, permeados por um amor capaz de vencer todos os obstáculos. É a história de “A Imperatriz e a Princesa”. Canção que encerra “Eu Raio X”, meu último álbum, e que, espero, traga a todos a inclusão que questiono aqui: dignidade, pluralidade e igualdade para que sejamos TODOS “tão felizes para sempre”!

- Isabella Taviani é cantora
Publicado originalmente no jornal O Globo. Reproduzido via Conteúdo Livre

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Eu só queria que vocês soubessem


Não é incomum que eu seja abordado ou receba emails de pessoas que leram coisas que escrevi ou me ouviram em algum espaço falando sobre suas experiências e de que forma o meu trabalho de alguma forma ressoa nessas experiências. Foi assim, inclusive, que conheci o meu namorado. Guardo com muito carinho e respeito todas essas confissões, em geral carregadas de muita dor e sofrimento, mas também há alegria e satisfação. Elas acontecem (pessoal ou virtualmente) num espaço que eu chamaria de sagrado e sempre me emocionam, fazendo com que me sinta ao mesmo tempo privilegiado e responsável diante de tamanha confiança. Essas experiências e os seus sujeitos, sem dúvida, são incorporadas no trabalho que desenvolvo e na defesa das coisas nas quais acredito e pelas quais procuro lutar.

Recentemente tive mais uma dessas experiências e que me marcou profundamente. Fui abordado por um rapaz que disse que queria conversar comigo. Percebi que ele tinha me esperado, e esperado a oportunidade em que pudesse falar comigo privadamente. Naquela ocasião, não consegui dar atenção a ele e ficamos de conversar em outro momento. Acabei esquecendo e quando o vi novamente disse que ainda conversaríamos. Ele disse que não era nada importante e apenas algum tempo depois a conversa aconteceu. Achei que ele queria comentar algo sobre meu trabalho, perguntar alguma coisa, tirar uma dúvida. Ele era bastante tímido e a conversa foi curta, talvez mais curta do que deveria ter sido.

Em poucas palavras ele me disse: “Eu queria te dizer que meus pais me mandaram para um desses programas para ex-gays. Eu fique lá durante um período longo e no último dia em que eu estive nesse lugar eu fui abusado sexualmente pelo diretor. Foi então que eu tive certeza de que não havia nada de errado comigo. Eu só queria que você soubesse”. Ou mais ou menos isso, porque de repente eu já nem consegui mais prestar atenção aos detalhes, embora ele falasse com uma serenidade que ainda agora me espanta. Ainda falamos de algumas outras questões. Eu disse que era importante que ele se cuidasse, especialmente agora que estava explorando com liberdade o fato de ser homossexual.

Foi apenas o tempo de eu me afastar um pouco, ficar sozinho, e começar a chorar quase sem me dar conta. Chorei por sentir uma profunda tristeza, de não ter dito tudo o que eu poderia ter dito para que ele ficasse bem e para que as suas feridas, se não fossem curadas, fossem aliviadas. Chorei de raiva, por imaginar que essas histórias são tão reais e tão presentes e continuamos permitindo que elas se repitam em nome de sei lá o que. Chorei por imaginar todas as coisas que foram feitas com esse rapaz e com tantos outros nesse lugar e chorei por causa da minha sensação de impotência, por pensar que eu não pude fazer nada para que isso não acontecesse, para que ele não tivesse que passar pelo que passou. Chorei por tantos outros motivos e todas as vezes que lembro dessa história choro de novo. E, provavelmente, todas essas questões são mais minhas do que dele, pois o seu olhar expressava exatamente o que ele me dizia: “Eu só queria que você soubesse”.
Queria pegar ele no colo, dizer que tudo ia ficar bem e que ninguém mais faria mal a ele – algo que infelizmente eu não posso fazer, nem garantir. Ainda tive uma última oportunidade de abraçá-lo e, olhando em seus olhos, que nesse momento também se encheram de lágrimas disse: “Você é lindo, Deus te ama e não deixa ninguém dizer o contrário”. Uma tentativa de bênção para quem tão generosamente me buscou em confissão e compartilhou algo tão íntimo e pessoal.

Fiquei pensando no que fez com que eu fosse, naquele momento, a pessoa escolhida para ouvir essa confissão. Penso, e só consigo escutar ele dizendo que “queria que eu soubesse”. Talvez como prova definitiva de que os tais ministérios para ex-gays são efetivamente uma violação do direito humano de auto-determinação no âmbito do gênero e da sexualidade e uso abusivo da religião para manutenção de estruturas, padrões e relações de poder desiguais. Talvez o fato de contar para alguém também fosse parte de um processo de cura através da verbalização e do reconhecimento da violência sofrida.

Na verdade não sei. Mas a firmeza, a simplicidade e a serenidade com a qual ele me contou essa experiência me fazem pensar que, de alguma forma, o fato de ele falar e o fato de eu saber pudessem fazer com que outras pessoas não tenham que passar por essa mesma experiência, fazendo da confissão uma denúncia. Por isso, talvez arbitrariamente, eu escrevo esse texto pois, assim como esse rapaz, eu queria que vocês soubessem!

E sabendo, fizessem alguma coisa para que impedir que histórias como essas se repitam, marcando profunda e irremediavelmente a vida de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais.

- André S. Musskopf, bacharel, mestre e doutor em teologia pela Escola Superior de Teologia
Reproduzido via blog do autor

domingo, 27 de maio de 2012

Os gays também são vadias


"Olhando as belas de todas as idades se colocando contra o pior do sexismo, aquele que quer colocar limites e um lugar para mulher,  é impossível não pensar que se tem uma luta que se assemelha ao dos homossexuais e transgêneros é a da mulher.

A condenação da promiscuidade dos gays se assemelha ao caso das mulheres e não ao dos homens héteros que 'quanto mais rodados melhor'. A questão moral e asséptica em relação ao sexo é um fardo para a vida tanto das mulheres quanto dos gays que desejam ter liberdade, sexual inclusive. (...)


Este fato de internalizar o discurso do oponente ocorre com muita frequência com os gays como também entre as mulheres, principalmente com aquelas tristes mulheres que odeiam, não tem amizade e criticam as outras mulheres. As que não vadeiam.

Vendo as faixas da manifestação em São Paulo foi que vi como  as mulheres e gays estavam na mesma esfera de opressão. Basta trocarem algumas palavras que o sentido é o mesmo. A única que não podemos trocar é que somos todas vadias, com muito orgulho."

- Vitor Angelo, no Blogay (leia na íntegra aqui)



"Já atravessamos uma revolução sexual. Podemos fazer sexo de forma mais livre e com menos culpa que antes. Mas expressar nossos sentimentos é algo longe de acontecer livremente. (...) Chegou a hora de [os homens] passarmos por uma transformação afetiva, começar a entender que tem direito ao afeto, às emoções, a sentir. Passar a ser homem e não macho. Em outras palavras, o homem hetero precisa fazer sua revolução masculina.

Com isso, talvez entendessemos melhor o outro. Hoje, bater em 'vadia' e 'bicha' pode. Assim como em índio e 'mendigo'. E, na maioria das vezes, a culpa recai sobre a própria vítima. Afinal de contas, quem são eles para não se encaixarem? Quem são eles para acharem que podem ser melhores do eu, sendo diferentes do que aprendemos como o 'certo'? Bem-feito. Vestida assim, ela estava pedindo."

- Leonardo Sakamoto, em seu blog (leia na íntegra aqui)

Leia também:
10 vadias "históricas" do Brasil, por Xico Sá (aqui)

sábado, 26 de maio de 2012

Como combater a homofobia na escola

Foto daqui

Do aluno que desmunheca ao grupinho de meninas que brinca de beijar na boca, a escola convive diariamente com situações que colocam a orientação sexual dos alunos em discussão. Os jovens que apresentam comportamentos heterossexuais, condizentes com o sexo biológico, não preocupam. Meninos se comportam dentro das regras para o gênero masculino e meninas seguem o jeito predefinido das garotas.

O termo heteronormatividade resume esse conjunto de atitudes preconceituosas e compulsórias. "O conceito embasa a ideia de que a heterossexualidade é a sexualidade natural", diz Maria Cristina Cavaleiro, pedagoga do Grupo de Estudos de Gênero, Educação e Cultura Sexual da Universidade de São Paulo (USP).

Nesse cenário, a homossexualidade e a bissexualidade são consideradas desvios da norma. Uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo publicada em 2009 mostra que, quando perguntados sobre pessoas que menos gostam de encontrar, os entrevistados classificaram em quarto lugar os homossexuais (16%). Foram deixados para trás somente por usuários de drogas, pessoas que não acreditam em Deus e ex-presidiários.

Quando o olhar se volta para a escola, o panorama não é diferente. Outro estudo, divulgado em 2004 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), revela que quase 40% dos alunos entrevistados não gostariam de ter homossexuais como colegas e mais de 35% dos pais não gostariam de tê-los como amigos dos filhos.

Antes de tudo, o que deve ficar claro para todos é que ninguém escolhe ser gay. "Essa orientação tem relação direta com o desejo, a atração física por alguém do mesmo sexo. E não é premeditado. Ocorre espontaneamente", diz o professor Luiz Ramires Neto, mestre em Educação pela USP e um dos diretores da organização não-governamental Cidadania, Orgulho, Respeito, Solidariedade e Amor (Corsa), de São Paulo.

Segundo ele, até hoje não há análises conclusivas sobre o assunto, nem no campo da genética nem nos estudos sobre o impacto do ambiente social (leia as dúvidas respondidas nos destaques desta reportagem). O fato é que, no ambiente escolar, comportamentos desviantes da norma muitas vezes são encarados como problemas. "O professor tem de entender que não vai mudar a orientação sexual de um jovem, mas tem como despertar na turma o respeito pela diversidade sexual", aconselha Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan, especializado em Educação e sexualidade. "O educador pode debater com base na história de homossexuais que desempenham funções de destaque ou aproveitar um debate sobre a família para tratar de tipos de arranjo, especialmente os que vão além de pai, mãe e filhos."

Preconceito contra alunos, parentes e educadores
No dia a dia da escola, uma das situações mais incômodas é a manifestação exagerada da homossexualidade. "Assumir uma postura de enfrentamento é uma tática de reação muito comum do jovem, que pode se dar por meio de atitudes como afinar a voz, rebolar (se menino) ou agir de maneira bem agressiva e engrossar a fala (se menina)", descreve Lúcia Facco, doutora em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e estudiosa do assunto. "Quem chama a atenção dessa forma está defendendo seu jeito de ser, da mesma maneira que o faria um aluno esquerdista que vai à aula vestindo uma camiseta com a estampa de Che Guevara", diz Ramirez Neto, da ONG Corsa.

Mas nem todos extravasam os sentimentos. Alguns ficam quietos. São esses os que mais sofrem. "Desenvolvem depressão e até abandonam a escola", comenta a professora e pesquisadora de diversidade de gênero Edith Modesto. Angela Moysés Nogueira Rodrigues, de Brasília, observou que a sua filha mais velha, Thaís, parecia ser muito tímida. Enquanto todos brincavam no pátio da escola de Ensino Fundamental em que estudava aos 13 anos, ela se sentava num canto para ler. Até que, com o tempo, numa conversa franca, a menina assumiu ser lésbica. Não havia política na escola sobre o tema, mas, com a ajuda dela, a direção passou a orientar os professores para trabalhar a temática.

E quando os pais de alunos são homossexuais? Jéssica Gutierrez e Carina Ramires, da capital paulista, criam juntas as filhas biológicas de outros casamentos, uma de 8 anos e outra de 10. "Hoje, as duas não enfrentam dificuldades. Todos sabem que elas têm duas mães", fala Jéssica. O casal de mulheres participa de reuniões e de eventos sem constrangimentos. Uma vez, uma das professoras perguntou qual era a formatação da família, pois precisava preparar atividades para o dia dos pais. "Explicamos naturalmente e todos entenderam", lembra Jéssica.

Pena que a clareza e o entendimento nem sempre dão o tom. Há casos em que manter a discrição sobre a homossexualidade poupa sofrimento - e, em última instância, garante o emprego. Renato*, professor do Ensino Fundamental da rede estadual paulista, é gay e procura deixar esquecer isso na escola. "Nem todos os alunos sabem. A maioria gosta de estar comigo. E os jovens podem se afastar ao saber. Não vejo professores homossexuais assumidos sendo abraçados pelos alunos com carinho ou afetividade", diz.

Levar uma vida de fingimento, porém, é cansativo. No tempo livre com os colegas, por exemplo, Renato se vê obrigado a passar por situações constrangedoras, como omitir detalhes do seu último fim de semana. Em pesquisas sobre o tema, a escritora Lúcia Facco presenciou casos semelhantes e orienta: "Primeiramente, o gay precisa entender que não é nenhum ser especial. Além disso, cabe a ele buscar apoio na direção, já que um trabalho isolado pode ser mal entendido e visto como uma espécie de apologia. É vital saber que essas atitudes funcionam e vão ajudar outras pessoas".

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Como lidar com uma aluna gay assumida?
Pergunta do leitor A. S., São Luis, MA
Ao iniciar qualquer diálogo, o professor deve aceitar a autodefinição da aluna, sem a questionar. A estudante tem o direito de proteção a reações hostis para se ver e se julgar pela sinceridade dos seus desejos, sem preconceitos. Outros estudantes poderão reagir negativamente à presença de um gay na sala de aula, mas lembre-se de que eles também estão preocupados em tentar construir a própria identidade (e pode ser perturbador observar esse confronto com alguém que não siga o caminho da maioria). Grande parte dos homossexuais descobre seu desejo sexual na idade escolar, como acontece com os heterossexuais. Durante a adolescência, jovens podem ter experiências com colegas do mesmo sexo, o que não é a comprovação irrefutável da orientação de alguém. Pode ser um meio de buscar conhecer certas formas de satisfação. Mas pode também ser o momento de uma descoberta, caso o jovem se sinta confortável com a experiência. O problema não é o aluno ser declaradamente gay, mas como podemos aprender (e também ensinar) que são múltiplas as formas de vivenciar os afetos e a sexualidade. A Educação deve desmontar estereótipos, veicular conhecimentos objetivos e fomentar nos jovens a capacidade de defender a si próprios de forma não violenta.

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A mãe de uma aluna é lésbica. O que faço?
Pergunta da leitora B. P., Ilhéus, BA
Primeiramente, trate essa família como qualquer outra. A maioria das escolas ainda só entende uma organização: a heteropatriarcal, em que há o pai, a mãe e os filhos. A questão é que hoje existem várias configurações possíveis na sociedade: mães solteiras ou separadas que criam os filhos sozinhas, avós que cuidam dos netos integralmente, homens e mulheres separados que se casam novamente e passam a criar juntos os filhos de outros casamentos, casais homossexuais que se unem e, juntos, cuidam dos filhos de relacionamentos heterossexuais que tiveram e assim por diante. Essas diferentes constituições de família, aos poucos, vão sendo assimiladas por diretores, coordenadores pedagógicos e professores. Esse movimento, porém, se dá de fora para dentro e, muitas vezes, ocorre lentamente. É só pensar que, há 30 anos, ninguém ousava comentar nas unidades de ensino quando uma criança era filha de pais divorciados. Aos poucos, a comunidade escolar vai se acostumar com a condição da aluna que tem duas mães, por exemplo. Uma das formas de auxiliar esse processo é abordar a questão. Sempre que houver oportunidade de falar sobre a família e suas possíveis constituições, inicie um debate sem preconceito nem viés religioso. A reunião de pais é outra oportunidade de a escola conhecer quem são os responsáveis por cada criança e saber que tipos de arranjo familiar existem naquele momento.

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Como deve se portar um professor gay?
Pergunta do leitor P. N., Guajara-Mirim, RO
Nada pode forçá-lo a manifestar seus desejos e nada o obriga a calar sobre as próprias vontades. Decidir como se posicionar, contando ou não sobre sua orientação sexual, vai depender de uma série de fatores. Um deles é o contexto. Às vezes, assumir a homossexualidade acarreta consequências reais, como o preconceito aberto e a perseguição por parte de algum integrante da equipe. Fora isso, é possível que os adolescentes sejam invasivos ao fazer perguntas muito pessoais. O educador decide se entra no assunto ou não. Quanto mais a escola lida abertamente com a questão da sexualidade, mais condição o professor tem de responder francamente às colocações da turma, mesmo as mais ousadas. A não discriminação sexual é garantida pela Constituição, mas em um ambiente homofóbico esse direito fica prejudicado. Nesse caso, autoridades como promotores de Justiça e até a polícia devem ser acionadas. Por outro lado, o docente que se sentir confortável pode assumir sua opção sexual. É recomendado que se busque apoio na direção ou na coordenação pedagógica, já que um trabalho isolado corre o risco de ser visto como apologia. Em todas as situações, o educador precisa ter consciência de que, quanto maior a visibilidade das ações, mais avanços se conquistam.

Questões repondidas por: Maria Cristina Cavaleiro, da USP, e Luiz Ramires Neto, da ONG Corsa.
* O nome foi trocado para preservar o personagem.

(Fonte: Nova Escola)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Famoso psiquiatra pede desculpas por estudo sobre "cura" para gays

Foto via Blue Pueblo

O fato foi simplesmente que ele fez tudo errado, e ao final de uma longa e revolucionária carreira, não importava com quanta frequência estivesse certo, o quão poderoso tinha sido ou o que isso significaria para seu legado.

O dr. Robert L. Spitzer, considerado por alguns como o pai da psiquiatria moderna, que completa 80 anos nesta semana, acordou recentemente às 4 horas da madrugada ciente de que tinha que fazer algo que não é natural para ele.

Ele se esforçou e andou cambaleando no escuro. Sua mesa parecia impossivelmente distante; Spitzer sofre de mal de Parkinson e tem dificuldade para caminhar, se sentar e até mesmo manter sua cabeça ereta.

A palavra que ele às vezes usa para descrever essas limitações – patéticas – é a mesma que empregou por décadas como um machado, para atacar ideias tolas, teorias vazias e estudos sem valor.

Agora, ali estava ele diante de seu computador, pronto para se retratar de um estudo que realizou, uma investigação mal concebida de 2003 que apoiava o uso da chamada terapia reparativa para “cura” da homossexualidade, voltada para pessoas fortemente motivadas a mudar.

O que dizer? A questão do casamento gay estava sacudindo novamente a política nacional. O Legislativo da Califórnia estava debatendo um projeto de lei proibindo a terapia como sendo perigosa. Um jornalista de revista que se submeteu à terapia na adolescência, o visitou recentemente em sua casa, para explicar quão miseravelmente desorientadora foi a experiência.

E ele soube posteriormente que um relatório da Organização Mundial de Saúde, divulgado na quinta-feira (17), considera a terapia “uma séria ameaça à saúde e bem-estar – até mesmo à vida – das pessoas afetadas”.

Os dedos de Spitzer tremiam sobre as teclas, não confiáveis, como se sufocassem com as palavras. E então estava feito: uma breve carta a ser publicada neste mês, na mesma revista onde o estudo original apareceu.

“Eu acredito que devo desculpas à comunidade gay”, conclui o texto.

Perturbador da paz
A ideia de estudar a terapia reparadora foi toda de Spitzer, dizem aqueles que o conhecem, um esforço de uma ortodoxia que ele mesmo ajudou a estabelecer.

No final dos anos 90 como hoje, o establishment psiquiátrico considerava a terapia sem valor. Poucos terapeutas consideravam a homossexualidade uma desordem.

Nem sempre foi assim. Até os anos 70, o manual de diagnóstico do campo classificava a homossexualidade como uma doença, a chamando de “transtorno de personalidade sociopática”. Muitos terapeutas ofereciam tratamento, incluindo os analistas freudianos que dominavam o campo na época.

Os defensores dos gays fizeram objeção furiosamente e, em 1970, um ano após os protestos de Stonewall para impedir as batidas policiais em um bar de Nova York, um grupo de manifestantes dos direitos dos gays confrontou um encontro de terapeutas comportamentais em Nova York para discutir o assunto. O encontro foi encerrado, mas não antes de um jovem professor da Universidade de Columbia sentar-se com os manifestantes para ouvir seus argumentos.

“Eu sempre fui atraído por controvérsia e o que eu ouvi fazia sentido”, disse Spitzer, em uma entrevista em sua casa na semana passada. “E eu comecei a pensar, bem, se é uma desordem mental, então o que a faz assim?”

Ele comparou a homossexualidade com outras condições definidas como transtornos, tais como depressão e dependência de álcool, e viu imediatamente que as últimas causavam angústia acentuada e dano, enquanto a homossexualidade frequentemente não.

Ele também viu uma oportunidade de fazer algo a respeito. Spitzer era na época membro de um comitê da Associação Americana de Psiquiatria, que estava ajudando a atualizar o manual de diagnóstico da área, e organizou prontamente um simpósio para discutir o lugar da homossexualidade.

A iniciativa provocou uma série de debates amargos, colocando Spitzer contra dois importantes psiquiatras influentes que não cediam. No final, a associação psiquiátrica ficou ao lado de Spitzer em 1973, decidindo remover a homossexualidade de seu manual e substituí-la pela alternativa dele, “transtorno de orientação sexual”, para identificar as pessoas cuja orientação sexual, gay ou hétero, lhes causava angústia.

Apesar da linguagem arcana, a homossexualidade não era mais um “transtorno”. Spitzer conseguiu um avanço nos direitos civis em tempo recorde.

“Eu não diria que Robert Spitzer se tornou um nome popular entre o movimento gay mais amplo, mas a retirada da homossexualidade foi amplamente celebrada como uma vitória”, disse Ronald Bayer, do Centro para História e Ética da Saúde Pública, em Columbia. “‘Não Mais Doente’ foi a manchete em alguns jornais gays.”

Em parte como resultado, Spitzer se encarregou da tarefa de atualizar o manual de diagnóstico. Juntamente com uma colega, a dra. Janet Williams, atualmente sua esposa, ele deu início ao trabalho. A um ponto ainda não amplamente apreciado, seu pensamento sobre essa única questão – a homossexualidade – provocou uma reconsideração mais ampla sobre o que é doença mental, sobre onde traçar a linha entre normal e não.

O novo manual, um calhamaço de 567 páginas lançado em 1980, se transformou em um best seller improvável, tanto nos Estados Unidos quanto no exterior. Ele estabeleceu instantaneamente o padrão para futuros manuais psiquiátricos e elevou seu principal arquiteto, então próximo dos 50 anos, ao pináculo de seu campo.

Ele era o protetor do livro, parte diretor, parte embaixador e parte clérigo intratável, rosnando ao telefone para cientistas, jornalistas e autores de políticas que considerava equivocados. Ele assumiu o papel como se tivesse nascido para ele, disseram colegas, ajudando a trazer ordem para um canto historicamente caótico da ciência.

Mas o poder tem seu próprio tipo de confinamento. Spitzer ainda podia perturbar a paz, mas não mais pelos flancos, como um rebelde. Agora ele era o establishment. E no final dos anos 90, disseram amigos, ele permanecia tão inquieto como sempre, ávido em contestar as suposições comuns.

Foi quando se deparou com outro grupo de manifestantes, no encontro anual da associação psiquiátrica em 1999: os autodescritos ex-gays. Como os manifestantes homossexuais em 1973, eles também se sentiam ultrajados por a psiquiatria estar negando a experiência deles –e qualquer terapia que pudesse ajudar.

A terapia reparativa
A terapia reparativa, às vezes chamada de terapia de “conversão” ou “reorientação sexual”, é enraizada na ideia de Freud de que as pessoas nascem bissexuais e podem se mover ao longo de um contínuo de um extremo ao outro. Alguns terapeutas nunca abandonaram a teoria e um dos principais rivais de Spitzer no debate de 1973, o dr. Charles W. Socarides, fundou uma organização chamada Associação Nacional para Pesquisa e Terapia da Homossexualidade (Narth, na sigla em inglês), no sul da Califórnia, para promovê-la.

Em 1998, a Narth formou alianças com grupos de defesa socialmente conservadores e juntos eles iniciaram uma campanha agressiva, publicando anúncios de página inteira em grandes jornais para divulgar histórias de sucesso.

“Pessoas com uma visão de mundo compartilhada basicamente se uniram e criaram seu próprio grupo de especialistas, para oferecer visões alternativas de políticas”, disse o dr. Jack Drescher, psiquiatra em Nova York e coeditor de “Ex-Gay Research: Analyzing the Spitzer Study and Its Relation to Science, Religion, Politics, and Culture”.

Para Spitzer, a pergunta científica no mínimo valia a pena ser feita: qual era o efeito da terapia, se é que havia algum? Estudos anteriores tinham sido tendenciosos e inconclusivos.

“As pessoas me diziam na época: ‘Bob, você vai arruinar sua carreira, não faça isso’”, disse Spitzer. “Mas eu não me sentia vulnerável.”

Ele recrutou 200 homens e mulheres, dos centros que realizavam a terapia, incluindo o Exodus International, com sede na Flórida, e da Narth. Ele entrevistou cada um profundamente por telefone, perguntando sobre seus impulsos sexuais, sentimentos, comportamentos antes e depois da terapia, classificando as respostas em uma escala.

Spitzer então comparou os resultados de seu questionário, antes e depois da terapia. “A maioria dos participantes relatou mudança de uma orientação predominante ou exclusivamente homossexual antes da terapia, para uma orientação predominante ou exclusivamente heterossexual no ano passado”, concluiu seu estudo.

O estudo –apresentado em um encontro de psiquiatria em 2001, antes da publicação– tornou-se imediatamente uma sensação e grupos de ex-gays o apontaram como evidência sólida de seu caso. Afinal aquele era Spitzer, o homem que sozinho removeu a homossexualidade do manual de transtornos mentais. Ninguém poderia acusá-lo de tendencioso.

Mas líderes gays o acusaram de traição e tinham suas razões.

O estudo apresentava problemas sérios. Ele se baseava no que as pessoas se lembravam de sentir anos antes – uma lembrança às vezes vaga. Ele incluía alguns defensores ex-gays, que eram politicamente ativos. E não testava uma terapia em particular; apenas metade dos participantes se tratou com terapeutas, enquanto outros trabalharam com conselheiros pastorais ou em grupos independentes de estudos da Bíblia.

Vários colegas tentaram impedir o estudo e pediram para que ele não o publicasse, disse Spitzer.

Mas altamente empenhado após todo o trabalho, ele recorreu a um amigo e ex-colaborador, o dr. Kenneth J. Zucker, psicólogo-chefe do Centro para Vício e Saúde Mental, em Toronto, e editor do “Archives of Sexual Behavior”, outra revista influente.

“Eu conhecia o Bob e a qualidade do seu trabalho, e concordei em publicá-lo”, disse Zucker em uma entrevista na semana passada.

O artigo não passou pelo habitual processo de revisão por pares, no qual especialistas anônimos avaliam o artigo antes da publicação.

“Mas eu lhe disse que o faria apenas se também publicasse os comentários” de resposta de outros cientistas para acompanhar o estudo, disse Zucker.

Esses comentários, com poucas exceções, foram impiedosos. Um citou o Código de Nuremberg de ética para condenar o estudo não apenas como falho, mas também moralmente errado.

“Nós tememos as repercussões desse estudo, incluindo o aumento do sofrimento, do preconceito e da discriminação”, concluiu um grupo de 15 pesquisadores do Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova York, do qual Spitzer era afiliado.

Spitzer não deixou implícito no estudo que ser gay era uma opção, ou que era possível para qualquer um que quisesse mudar fazê-lo com terapia. Mas isso não impediu grupos socialmente conservadores de citarem o estudo em apoio a esses pontos, segundo Wayne Besen, diretor executivo da Truth Wins Out, uma organização sem fins lucrativos que combate o preconceito contra os gays.

Em uma ocasião, um político da Finlândia apresentou o estudo no Parlamento para argumentar contra as uniões civis, segundo Drescher.

“Precisa ser dito que quando este estudo foi mal utilizado para fins políticos, para dizer que os gays deviam ser curados –como ocorreu muitas vezes. Bob respondia imediatamente, para corrigir as percepções equivocadas”, disse Drescher, que é gay.

Mas Spitzer não conseguiu controlar a forma como seu estudo era interpretado por cada um e não conseguiu apagar o maior erro científico de todos, claramente atacado em muitos dos comentários: simplesmente perguntar para as pessoas se elas mudaram não é evidência de mudança real. As pessoas mentem, para si mesmas e para os outros. Elas mudam continuamente suas histórias, para atender suas necessidades e humores.

Resumindo, segundo quase qualquer medição, o estudo fracassou no teste do rigor científico que o próprio Spitzer foi tão importante em exigir por muitos anos.

“Ao ler esses comentários, eu sabia que era um problema, um grande problema, e um que eu não podia responder”, disse Spitzer. “Como você sabe que alguém realmente mudou?”

Reconhecimento
Foram necessários 11 anos para ele reconhecer publicamente.

Inicialmente ele se agarrou à ideia de que o estudo era exploratório, uma tentativa de levar os cientistas a pensarem duas vezes antes de descartar uma terapia de cara. Então ele se refugiou na posição de que o estudo se concentrava menos na eficácia da terapia e mais em como as pessoas tratadas com ele descreviam mudanças na orientação sexual.

“Não é um pergunta muito interessante”, ele disse. “Mas por muito tempo eu pensei que talvez não tivesse que enfrentar o problema maior, sobre a medição da mudança.”

Após se aposentar em 2003, ele permaneceu ativo em muitas frentes, mas o estudo da terapia reparativa permaneceu um elemento importante das guerras culturais e um arrependimento pessoal que não o deixava em paz. Os sintomas de Parkinson pioraram no ano passado, o esgotando física e mentalmente, tornando ainda mais difícil para ele lutar contra as dores do remorso.

E, em um dia em março, Spitzer recebeu um visitante. Gabriel Arana, um jornalista da revista “The American Prospect”, entrevistou Spitzer sobre o estudo sobre terapia reparativa. Aquela não era uma entrevista qualquer; Arana se submeteu à terapia reparativa na adolescência e o terapeuta dele recrutou o jovem para o estudo de Spitzer (Arana não participou).

“Eu perguntei a ele sobre todos os seus críticos e ele disse: ‘Eu acho que eles estão certos’”, disse Arana, que escreveu sobre suas próprias experiências no mês passado. Arana disse que a terapia reparativa acabou adiando sua autoaceitação e lhe induziu a pensamentos de suicídio. “Mas na época que fui recrutado para o estudo de Spitzer, eu era considerado uma história de sucesso. Eu teria dito que estava fazendo progressos.”

Aquilo foi o que faltava. O estudo que na época parecia uma mera nota de rodapé em uma grande vida estava se transformando em um capítulo. E precisava de um final apropriado –uma forte correção, diretamente por seu autor, não por um jornalista ou colega.

Um esboço da carta já vazou online e foi divulgado.

“Você sabe, é o único arrependimento que tenho; o único profissional”, disse Spitzer sobre o estudo, perto do final de uma longa entrevista. “E eu acho que, na história da psiquiatria, eu não creio que tenha visto um cientista escrever uma carta dizendo que os dados estavam lá, mas foram interpretados erroneamente. Que tenha admitido isso e pedido desculpas aos seus leitores.”

Ele desviou o olhar e então voltou de novo, com seus olhos grandes cheios de emoção. “Isso é alguma coisa, você não acha?”

- Benedict Carey, para o The New York Times (original aqui)
Tradução de George El Khouri Andolfato, para o UOL Internacional

OPAS/OMS condena tratamentos para ‘curar’ homossexualidade


Serviços que se propõem a “curar” homossexuais carecem de justificativa médica e representam uma grave ameaça à saúde e ao bem-estar das pessoas afetadas, afirma a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS) em comunicado divulgado no último dia 17/05, Dia Internacional contra a Homofobia.

“A homossexualidade não é um transtorno nem requer cura. Em consequência, não existe indicação médica para a mudança de orientação sexual”, observou a Diretora da OPAS/OMS, Mirta Roses Periago.

O comunicado destaca que há consenso profissional de que homossexualidade é uma variação natural da sexualidade humana e não pode ser considerado como condição patológica. Contudo, vários órgãos das Nações Unidas constataram a existência de “clínicas” e “terapeutas” que promovem tratamentos que pretendem mudar a orientação sexual de não heterossexuais. Não há estudos científicos que demonstrem eficiência de esforços nesse sentido.

Entretanto, há muitos testemunhos sobre graves danos à saúde mental e física que tais serviços podem causar. A repressão da orientação sexual vem sendo associada a sentimentos de culpa, vergonha, depressão, ansiedade e até mesmo suicídio. Como agravante, há um crescente número de relatos de tratamentos degradantes e de violência física e sexual como parte da “terapia”, geralmente oferecida ilegalmente.

O documento faz um apelo para que governos, instituições acadêmicas, associações profissionais e imprensa exponham essas práticas e promovam o respeito à diversidade. “As práticas devem ser denunciadas e sujeitas a sanções dentro da legislação nacional”, observou Roses.

Para enfrentar socialmente este problema, a OPAS/OMS apresenta uma série de recomendações que podem ser acessadas no posicionamento técnico, aqui (em espanhol).

(Fonte: ONU)

sábado, 19 de maio de 2012

História da homossexualidade




Como derrubar preconceitos históricos? Ao longo dos séculos, a homossexualidade já foi entendida de várias formas e, mesmo com a evolução em tantos campos, o assunto ainda gera polêmica, e até violência. Uma entrevista com Luis Correia Lima, padre jesuíta e historiador, concedida ao Canal Saúde, da Fiocruz, em 28/06/11 (postagem original aqui).

Leia também: 
Diversidade sexual e Igreja, um diálogo possível
Homossexualidade e Contra-hegemonia no Catolicismo

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Dividindo o mundo em caixinhas

Foto daqui

Da querida Kamila Oliveira, do Minoria é a Mãe (o blog que volta e meia diz tudo o que a gente queria dizer, mas não sabia como). Perfeito para, no dia internacional de combate à homofobia, nos lembrarmos de combater os preconceitos embutidos nos rótulos que nós mesmos construímos para classificar o mundo, as coisas e as pessoas:

Rótulos são facas de dois gumes. Quando precisamos falar de um movimento, de um grupo de pessoas, ou coisas do tipo, rotular é útil. Definir para as pessoas que existem gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros ajuda, porque o ser humano têm essa necessidade de dividir tudo em coisas muito específicas para poder simplesmente começar a pensar sobre o assunto. O problema é que, como talvez você já tenha percebido na frase acima, existem muitos outros conceitos entre esses poucos que eu citei, mas são esses poucos que formam a sigla do movimento LGBT+.

Há alguns anos, a única sigla que eu conhecia era GLS - gays, lésbicas e simpatizantes. Depois eu vi GLBS - agora incluindo bissexuais. Um tempo depois o S saiu e entrou o T, e uma decisão recente da ABLGBT colocou o L na frente pra chamar mais atenção para a causa lésbica. Esse é só um exemplo de como definir pessoas pode ajudar outras a entender do que se trata um movimento.

Eu gosto de fazer uma analogia com caixas pra tentar explicar o que é um rótulo. É como se dentro da cabeça de todo mundo houvesse várias caixinhas, geralmente em pares. Em cima de cada caixinha dessas existe um rótulo: homossexual (essa se desdobra pra outras duas: gay e lésbica), heterossexual, gordo, magro, negro, branco, bonito, feio, rico, pobre, etc. A divisão é quase sempre binária. Dentro de cada uma dessas caixinhas está um pensamento pré-definido - um julgamento. O que acontece é que, quando uma pessoa te acha feio, por exemplo, ela automaticamente pega o pensamento que tá dentro da caixinha “feio” e aplica a você. São como primeiras impressões enlatadas - o problema é que não são primeiras impressões de verdade, pois já estavam lá bem antes de você.

Se você diz que é bissexual, você confunde as caixinhas. Porque é como se você fosse hetero e homo “ao mesmo tempo”, e não pode, só dá pra usar uma caixinha por vez. Se você é transgênero, as pessoas não sabem se te colocam na caixinha “homem” ou “mulher”, não sabem se te colocam em “homossexual” ou “heterossexual”, porque acham que é alguma coisa no meio, e nos pré-julgamentos não existe meio termo. Ou é isso ou é aquilo, e toda característica acaba caindo nessa armadilha; algumas, como as que eu citei, mais do que outras.

Todos os dias novos termos e conceitos aparecem. No mundo ideal eles provavelmente não seriam necessários, mas hoje em dia são. Isso acontece porque em determinados grupos as pessoas não precisam explicar e definir para as outras se gostam disso, daquilo, se são assim ou assado. Mas, de modo geral, é fácil perceber que isso é muito pontual e fora desse grupo de repente a necessidade de definição se torna tão necessária que você praticamente não existe em sociedade se não puder ser colocado em alguma caixa.

Talvez um dia seja tão desnecessário explicar a sexualidade queer quanto hoje é desnecessário explicar a heterossexualidade - a grande maioria das pessoas nunca realmente pára pra pensar por que é hetero, ou se escolheu ser hetero, ou em que momento da vida percebeu ser hetero. Talvez um dia a identidade de gênero não seja mais confundida com a sexualidade. Apesar de tudo que se vê por aí e apesar de muitas vezes pensar que está piorando, eu costumo ser otimista e pensar que, mais dia menos dia, as mudanças acontecem.

- Kamila Oliveira

sexta-feira, 11 de maio de 2012

"Por uma nova linguagem: teológica e erótica"

Foto: Herb Ritts

Compartilhamos aqui, há alguns dias, um belo texto publicado por Isaac Palma em seu blog, Ide por toda a Web. Nele, Isaac conclamava os cristãos a uma "espiritualidade cheia de Tesão". Seu apelo era dirigido aos evangélicos, meio a que pertence, mas aplica-se perfeitamente aos católicos, por que não? :-) O autor conseguiu expressar em palavras simples e diretas um anseio ardente e sincero por encontrar a Deus no seu tempo, no seu mundo, no seu coração – não em algum lugar distante e imaterial que pouco tem a ver com a realidade dos homens e mulheres de hoje. E, no entanto, foi aqui que Ele nos mandou buscá-lo, não foi? No pobre, no faminto, no sedento, no ferido, no exilado que estão do nosso lado, aqui e agora – é aí que Ele está. E não só no pobre de dinheiro, no faminto de comida, no sedento de água, no exilado de sua pátria, mas no pobre de alma, no faminto e no sedento de Deus, no exilado do Amor. Concordamos com Isaac: para tocar esse próximo é preciso que falemos palavras de hoje.

Em vista disso, reproduzimos hoje a continuação daquele primeiro texto, escrito a partir do debate por ele suscitado. De novo, embora ele dirija suas observações e comentários à realidade das Igrejas Evangélicas, em muitos (ainda que não em todos) segmentos católicos, em meios tanto religiosos quanto leigos, não encontramos situação muito diferente com relação à sexualidade humana e à expressão e vivência do desejo. Está mais que na hora de redimir Eros, como vimos recentemente no apelo do Bispo G. Robinson



Segue o texto, com grifos nossos.

A moral evangélica é casta, e seu objetivo é manter o “cabaço” alheio. E isso não apenas sexualmente, mas o status evangélico nos deixa bem longe de sermos fecundos na prática do Reino de Deus. Meu último texto, Por uma espiritualidade cheia de Tesão, pipocou na internet não pela profundidade daquilo que falei, mas principalmente pelas palavras que usei, ao fazer um paralelo entre a sexualidade e a vida cristã. Utilizei uma linguagem “profana” que não é sacralizada e nem muito comum nos corredores das igrejas. O mais interessante é o espanto que isso causa, porque toca na ferida. A igreja é mal resolvida sexualmente, prova disso é o medo de falar sobre sexo; só se fala disso quando sob o controle dos lideres. Somos levados a acreditar em qualquer baboseira “espiritual” para justificar uma opressão com desculpa de (pseudo)Santidade. Negamos o sexo porque negamos o corpo, na dicotomia grega que não conseguimos largar, porque se o corpo é mau, os seus desejos são ruins; portanto, o sexo, expressão máxima do corpo, só pode ser ruim. Se falar de sexo fora desses moldes é ruim, imagine falar de Deus a partir dessa linguagem.

Deus está para além do que os nossos discursos possam captar ou expressar; tudo o que conseguimos é, a partir de nossas experiências, dar significado a elas e interpretá-las à luz daquilo que chamamos de Deus. As nossas linguagens partem, ou deveriam partir, da nossa experiência humana; soa no mínimo estranho expressarmos Deus a partir de uma linguagem que não seja nossa. E é isso que fazemos pegamos emprestado de outras culturas e tradições uma determinada linguagem de espiritualidade, de determinado período histórico, que fazia sentido para aquele povo específico, e tornamos universal e eterno algo que é local e passageiro.

O mais estranho é que santificamos aquela cultura e forma de falar de Deus, e impedimos as novas linguagens e novas formas de falar de Deus. Assim, negamos o corpo, o sexo e as novas linguagens. Alguns devem se perguntar : “Mas por que a linguagem erótica?” e eu devolvo a pergunta : “Mas por que não a linguagem erótica?”. Já que é uma linguagem legítima e humana, por que não usá-la?

É muito comum vermos nas igrejas referências à vida cristã a partir do imaginário da guerra; usamos palavras como ‘batalha, guerra, vitória, inimigo, General etc”, fazemos diversas referências na nossa linguagem à experiência da guerra. Dentro disso, duas coisas me chamam a atenção: primeiro, nós não vivemos a experiência da guerra, o imaginário construído em torno dessa linguagem não faz parte do nosso cotidiano, falamos dessa experiência mas a mesma está distante de nós, copiamos isso das páginas da Bíblia, que é um texto cultural e temporal. Segundo, a mensagem de Jesus é uma mensagem de paz, e não de guerra. Na verdade Cristo vai contra a violência e a guerra, basta ler o sermão da montanha pra perceber isso. A ética da não-violência, que depois foi propagada por homens como Gandhi, Martin Luther King e Tolstoi, é uma proposta que nasceu em Jesus. Tal ética é totalmente anti-guerra; como então é mais cristão usar a linguagem de guerra do que a erótica? Já que, além de não fazer parte do nosso cotidiano, remete a um imaginário contrario à mensagem do Mestre a quem dizemos seguir? Ou Cristo era contra o sexo? Ou o prazer é algo “mundano”?

É preciso repensar e recriar as maneiras de falar; por isso proponho novas linguagens, mas que sejam nossas, que falem dos nossos anseios, que sejam humanas e por isso divinas. É preciso ainda ir além e ler as entrelinhas. É preciso sentir na carne antes de sistematizar, e que nossa sistematizações sejam, assim como nós, frágeis e passageiras, só assim poderemos anunciar o que é Eterno.

Que nossa expectativa pelo inaudito, pelo inédito e por tudo aquilo que ainda não foi feito esteja sempre direcionada pelo Espirito de Deus, que é Aquele que faz o que quer e onde quer, em detrimento das nossas vãs expectativas religiosas; afinal, sopra como vento, e quem saberá de onde vem ou para onde vai? Que nossa linguagem denuncie e renuncie aos males da religião, nos excite, e nos encha de Tesão. Que nossa virgindade espiritual e existencial fique pra trás. Que possamos entrar de cabeça em tudo aquilo que acreditamos. Que tudo o que falarmos seja sentido na carne; esse é o apelo de Jesus - e que seja o nosso, constantemente.

- Isaac Palma, no Ide por toda a Web (via PavaBlog)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Respeito à diversidade se aprende na infância


No dia 15 de maio, será realizado o 9º Seminário LGBT do Congresso Nacional. Este ano, o tema em discussão será “Sexualidade, Papéis de Gênero e Educação na Infância e na Adolescência”, com o lema: “Respeito à diversidade se aprende na infância”.

O evento será realizado pela Comissão de Legislação Participativa, a Comissão de Educação e Cultura e a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, em parceria com a Frente Parlamentar LGBT e a Frente em Defesa dos Direitos Humanos da Criança e do Adolescente, e trará especialistas em direito, psicologia, cultura, educação, sexualidade para debater a infância e adolescência de meninos e meninas que sofrem bullying por não se enquadrarem nos papeis de gênero definidos pela sociedade. O 9º Seminário LGBT do Congresso Nacional acontecerá nos plenários da Câmara dos Deputados, das 9h às 17h30.

(Fonte: Dep. Jean Wyllys, no Facebook)

terça-feira, 8 de maio de 2012

Perua ou o Esquadrão do siga as regras


Rebeca Duarte, no Minoria é a Mãe:

Um dos piores tipos de sexismo é aquele disfarçado. É o pior porque normalmente quem vê não percebe, acaba achando que aquilo ali é o correto, e que todas as pessoas devem agir assim. Recentemente um programa de TV tem atraído minha atenção de uma forma negativa. Não vou falar o nome dele para não dar mais audiência (haha), porém, percebo que ele não é o primeiro, e definitivamente não será o último, programa disposto a ajudar as pessoas a mudarem de vida. Essa mudança de vida é estética, é a mudança daquilo que os outros vêem e os incomodam naquela pessoa que está sob os cuidados dos profissionais da atração.

Vi um episódio em que uma garota teve que renovar o guarda-roupa porque ela usava roupas masculinas e prezava demais pelo conforto. A garota era hétero, tinha um noivo há anos, tinha amigos, PORÉM, alguns amigos achavam necessário que ela mudasse sua forma de vestir para uma mais feminina. Outro episódio era estrelado por uma garota que algumas pessoas chamam de pirigótica. A mudança dela era de estilo de vida. Ela tinha que ser menos exagerada para poder manter um namorado, pois seu estilo extravagante assustava os garotos.

Devo assumir que não consegui ver até o final nenhum desses programas, pois assim que anunciavam nas chamadas a mudança e elogiavam a menina por ter se submetido aos desejos dos amigos nascia uma revolta amarga em minha garganta. E quando apareciam os amigos dizendo "Agora sim!" dava vontade de dar uns tabefes pra ver se esse povo acorda pra vida.

Esse programa quer mudar a vida das pessoas (pois também tem garotos, apenas nunca vi) para que elas sejam aceitas pelos seus amigos, ou arrumem um namoro. A mensagem subliminar é: você não está certo desse jeito que você é, você deve se encaixar nesses padrões senão você não satisfará as pessoas - e você precisa satisfazer as pessoas. É mais uma mostra de quão rasa é nossa sociedade, que por um lado prega a igualdade das diferenças e pelo mesmo lado prega que você pode ser diferente, mas não muito. Só se pode ter algo para te fazer uma pessoa diferenciada, não fora dos padrões, pois estar fora dos padrões é caminho certo para a solidão. E ninguém quer estar só.

Tenho pena dessas meninas que submetem a esse tipo de programa, se sujeitam a mudar quem são para satisfazer outras pessoas. Nós sempre estamos mudando, evoluindo ou regredindo, mas em constante mudança, porém, qualquer mudança forçada por um fator exterior tende a ser desprezada assim que esse fator exterior não existe mais. Amigos podem deixar de ser amigos, namorados podem deixar de ser namorados, mas você não deveria deixar de ser você. Principalmente para satisfazer os outros.

O Renato Russo fez uns versos que gosto muito, são esses: "Tem gente que está do mesmo lado que você, mas deveria estar do lado de lá". Ensinam que você deve mudar para ser aceito, quando deveriam era ensinar aos outros para te aceitarem do jeito que você é. E maquiam tudo de uma forma tão moderna que parece que eles estão te ensinando a ser descolado, a ser a última bolacha do pacote, quando estão te fazendo ser mais uma bolacha numa fábrica de biscoito.

Pena.

domingo, 6 de maio de 2012

"Sexualidade e Condição Homossexual na Moral Cristã"


É com grande alegria que publicamos aqui a resenha elaborada para nós pelo leitor Jônatas de Davi, após uma rica troca de ideias nos comentários de um post aqui no blog.

Interessante notar que o livro aqui apresentado por Jônatas foi cassado na Argentina, enquanto no Brasil não houve nada. Essa diferença de tratamento pode ter sido motivada, em primeiro lugar, pela capa escolhida para a edição de lá - no Brasil, é Adão e Eva nus; na Argentina, era um casal vestido, mas gay - o que pode ter chamado mais a atenção. Além disso, a censura lá ocorreu logo depois da proibição de um outro livro (este aqui), e pode ter sido influenciada pela necessidade política de apaziguar os ânimos conservadores mais exaltados por lá.

De todo modo, é um livro riquíssimo, que merece ser lido e discutido - jamais silenciado.


O livro Sexualidade e Condição Homossexual na Moral Cristã está na terceira edição brasileira publicada pela Editora Santuário. Trata-se de uma obra escrita por um influente catedrático de Teologia Moral da Universidade Pontifícia Comillas (Madrid) que revela por meio de repasses bibliográficos as interferências culturais nas revelações bíblicas, como a influência estoica, doutrina patrística, pensamento agostiniano, neoplatonismo, movimentos extremistas e teologia escolástica. Esses pontos de partida resultaram numa compreensão antropológica pessimista, construções míticas, travas tabuísticas e/ou tabus sexuais de uma moral ascética e abstencionista.

Preciso no método científico, o acadêmico é, por consequência, rigoroso ao evitar o “pecado” do anacronismo, embora não se detenha sobre todos os recortes bíblicos que denotem alguma brecha para interpretações fundamentalistas. Ainda assim, ao fazer uma abordagem sistêmica sobre a moral sexual, o teólogo expõe posições críticas de outros teólogos que apontam a necessidade de renová-la de forma que o modelo moral para o comportamento afetivo-sexual possa ser efetivamente inclusivo sem, contudo, comprometer a vivência segundo o Evangelho. A compreensão sobre essa renovação não deixa margens para a consagração do hedonismo, justificativa usada por aqueles que são contrários à afirmação da totalidade da pessoa, pois a união permanente com outro ser humano impede a clausura no próprio eu, favorece a capacidade de amor e a oblatividade do espírito, assim como o desnarcizamento das alegrias da carne. Os repasses incluem a conclusão de que a maturidade pessoal e a personalidade sadia devem estar integradas a uma sociedade aberta e pluralista.

Marciano Vidal acompanha a evolução teológica-moral da doutrina católica oficial relativa à ação pastoral e compreensão da homossexualidade. As reformulações deixam latentes uma notável crise de credibilidade de publicações precedentes face ao avanço metodológico acerca da compreensão da condição sexual que considera, entre outras, a concepção holística da complementariedade humana, o diálogo, os dados antropológicos, as urgências pastorais e dados da psicologia. Assim, face à cosmovisão cristã sobre a dignidade de toda pessoa e da indissolubilidade do selo pessoal, vários teólogos propõem um novo alcance dos afetos relacional e agápico, a fim de ampliar a fecundidade no Senhor e a vivência eclesial. Não deixa de ser menos importante que bispos americanos considerem que a extensão de direitos civis aos homossexuais contempla a dignidade intrínseca de toda pessoa.

A linguagem acadêmica utilizada com sensibilidade é uma particular surpresa deste livro atualizado e bem fundamentado.

- Jônatas de Davi, leitor do blog
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