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quinta-feira, 26 de abril de 2012
Dicotomias, lutas, fé e amor: gays versus Igreja?
Certa feita, uma amiga comentava sobre as crises possíveis na cabeça de homossexuais religiosos. Se a sociedade diz que a homossexualidade é anormal, a religião diz que é errado, que é pecado...
Todo mundo pode se sentir no direito de fugir da normalidade, se for esse o caso (não é esse o caso). Mas fugir do que é certo tem efeitos piores. A carga do “anormal” pode até ser suportada (quem disse que estou a fim de ser “normal”?), mas a carga do “errado” pesa.
E enquanto seguem essas dicotomias extremistas, esse jeito limitado mesmo de enxergar as coisas, seguem cristãos e homossexuais massacrados dentro de sua própria consciência, sem liberdade, sem vida, sem fé, sem amor. Os paradigmas ainda atrasados que as igrejas oferecem são um grande desafio para a luta LGBT, para as saídas do armário, para o fim da homofobia.
Mas disso, todo mundo sabe. Preciso falar diferente.Se as igrejas ainda erram ao tratar dos gays, o movimento ainda erra ao tratar da igreja. Vício de tantos grupos que se articulam em torno de várias causas, temos a mania de personificar as lutas em torno de um inimigo só. Muitas vezes, o nosso debate sobre homofobia soa como se desejássemos acabar com as religiões (especialmente com o cristianismo) para ter, enfim, tudo muito resolvido.
A matriz religiosa da formação da nossa sociedade meio que já limitou nossa visão de mundo, nessa coisa de céu e inferno, homem e mulher (opostos completos, sem se misturar ou se confundir). A bagunça já está feita. Assim, simplesmente derrubar a instituição não faz com que derrubemos o pensamento discriminador que anda espalhado por aí, influenciando até mesmo quem está fora das igrejas. A mudança tem que proceder no pensamento do povo, não na estrutura, na hierarquia. Muitas vezes, precisamos até mesmo da estrutura para mudar o pensamento.
Digo isso por visualizar um lado (muito forte, por sinal) da igreja e do cristianismo que enxerga um outro Cristo, um carinha que morava lá pelas periferias da Galiléia, carpinteiro, favelado, sofredor... e que por isso entendeu e defendeu na sua mensagem todo um povo que, como ele, sofreu alguma opressão.
Jesus hoje iria na Parada Gay. Mesmo que não gostasse de homens, estaria lá pela causa política, pelo debate, pela luta por visibilidade de uma galera segregada pela falta de amor e respeito pela diferença. Estaria lá, assim como estaria no acampamento dos sem-terra, na ocupação dos atingidos por barragens, no protesto do movimento estudantil. Foi um preso político do seu tempo, defendendo as causas dos oprimidos, fortalecendo as lutas do povo, e cobrando de seus seguidores (até hoje) um posicionamento transformador.
Lá, na multiplicação dos pães, Jesus pede que as pessoas “se sentem” em grupos de cinquenta. O povo que o seguia era um povo de sofridos, de escravos. Nessa época, escravo não comia sentado. Pedir que se sentem, assim, sutilmente, é pedir que se libertem. As pessoas só precisam entender isso, mudar os pensamentos.
E assim, mais do que segregar e desejar um forte “cala a boca, senhor bispo!”, é preciso fazer entender que há um diálogo possivel, pela compreensão de que o amor tem a função primordial de libertar (assim como Jesus o quis)... A missão é fazer com que as pessoas acreditem é direito de todos sentir essa coisa que é o sentimento, coisa doida que deixa mais vivo, que faz lutar pela vida do outro através do cuidado e da afetividade, que pega a gente sem que possamos escolher o alvo... nem homem, nem mulher...
Faço, sim, uma defesa da religião. Faço por entender que, ao contrário do que se imagina, lá dentro a gente também se livra de alienações. Não se trata de uma evangelização cega, mas de um desabafo de cansaço por ouvir os comentários chatos de quem (dicotomicamente, também) acha que gays não podem estar na igreja, e que tudo o que virá dela será prejudicial. Se ainda precisamos que ela mude, a função de quem quer mudança é se inserir para mudar. É necessário postura de quem quer tranformação.
Pode até não parecer possível, mas é cá na minha fé que eu milito. Mais que por qualquer coisa, é por ser muito religioso que eu repito incessantemente o grito de não à Homofobia!
- Murilo Araújo
Jornalista e professor. Homem feminista, católico homossexual, fã de Beyonce e Bethânia. Sem enxergar nenhuma ambiguidade em nada disso. Tweet
terça-feira, 24 de abril de 2012
Uma teologia pastoral que nasça de um ''convite para almoçar''
Publicamos aqui o editorial do jornal National Catholic Reporter, 09-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.
Seria, talvez, apenas um sinal dos tempos que os católicos ficassem abalados ao ler que um cardeal, enfrentando uma situação pastoral difícil, reconhecesse publicamente que se perguntou "Como Jesus agiria"?
Essa é a pergunta que o cardeal Christoph Schönborn, de Viena, Áustria, fez ao considerar se ele deveria manter uma decisão de um pároco de proibir um homem gay, em uma união doméstica registrada, servir em um conselho paroquial.
Em março, Florian Stangl, 26 anos, foi eleito com ampla maioria para o cargo, recebendo 96 dos 142 votos expressos pelos membros da paróquia. O pároco, Pe. Gerhard Swierzek, líder da pequena paróquia, interveio e, sustentando a lei da Igreja contra as uniões homossexuais, pediu-lhe para renunciar à posição e também, de acordo com as reportagens, pediu que Stangl não recebesse a Eucaristia.
A arquidiocese, no início, sustentou a regra. Então, Schönborn fez a si mesmo aquela pergunta. E Stangl pediu para falar com o cardeal.
Schönborn aparentemente decidiu que uma coisa que Jesus faria, seria convidar Stangl e seu parceiro para almoçar.
O que ele descobriu durante o almoço, disse ele mais tarde, é que ele ficou "profundamente impressionado com a disposição fiel [de Stangl], com a sua humildade e com a forma pela qual ele vive o seu compromisso com o serviço. Por isso, eu posso entender", disse o cardeal, "porque os moradores de Stützenhofen votaram tão decididamente pela sua participação no conselho paroquial".
E então Schönborn indicou que a arquidiocese iria tentar refazer as regras para as eleições pastorais, que atualmente exigem que os candidatos assinem uma declaração de que eles apoiam todos os ensinamentos da Igreja.
Em uma declaração explicando a sua decisão, Schönborn disse: "Há muitos conselheiros paroquiais cujo estilo de vida não está completamente em conformidade com os ideais da Igreja. Em vista do testemunho de vida que cada um deles dá, tomados em conjunto, e o seu compromisso com a tentativa de viver uma vida de fé, a Igreja se alegra com os seus esforços".
É interessante que, na mesma semana, circularam notícias amplamente na Internet e em outros lugares sobre a opinião do cardeal Carlo Maria Martini, expressas no livro "Crer e conhecer", de que, embora a sociedade deva defender e apoiar a vida familiar, "não é ruim que duas pessoas tenham alguma estabilidade ao invés de relações homossexuais ocasionais, e, nesse contexto, o Estado também poderia favorecê-las".
Seria demais sugerir que Martini e Schönborn poderiam ser a vanguarda de uma mudança no pensamento hierárquico? Afinal, essa é a primeira geração de prelados que tiveram que se confrontar com a realidade de que gays e lésbicas não continuarão mais sendo um "problema" oculto. Eles abertamente fazem parte das nossas vidas, das nossas culturas, das nossas comunidades de fé e continuarão sendo. Eles já não são uma abstração sobre a qual se pronunciar, sem desafio, como alguma curiosidade teológica ou ética.
A outra coisa que Schönborn fez, foi falar publicamente sobre a sua luta com essa questão, discutindo a respeito durante uma entrevista de uma hora na televisão austríaca na noite do Domingo de Ramos. Essas questões fazem parte do discurso público, e ele demonstrou que a Igreja pode fazer parte desse discurso.
Schönborn revisitou essa questão em uma homilia dirigida aos padres da arquidiocese durante a Missa do Crisma na Terça-Feira Santa e a situou na questão mais ampla do cuidado pastoral para os católicos cujos estilos de vida não "estão em plena conformidade com os ideiais da Igreja". Ao invés de lançar invectivas contra pessoas em uniões homossexuais, contra católicos heterossexuais coabitantes e contra divorciados católicos em segunda união, Schönborn disse que a Igreja precisa abraçá-los em sua jornada de fé.
A abordagem de Schönborn atraiu muitas notícias, é claro, porque ela é muito notavelmente diferente de grande parte do policiamento confrontacional de fronteiras que existe na Igreja nos dias de hoje. Ela não sobrecarrega os leigos com uma exigência diante da qual a hierarquia, como sabemos, falharia miseravelmente enquanto classe – que todos sejam perfeitos em todos os detalhes.
E se, por exemplo, os bispos norte-americanos decidissem convidar a teóloga e irmã de São José Elizabeth Johnson para um almoço – ou mesmo para um jantar – para discutir a sua obra antes de condená-la imediatamente? E se Dom Robert McManus, de Worcester, Massachusetts, tivesse convidado Victoria Kennedy para almoçar e para conversar sobre qualquer objeção que ele pudesse ter contra ela como paraninfa do Anna Maria College? E se essas lideranças dos Estados Unidos tivessem levado em consideração o "testemunho de vida" dessas mulheres como um todo? Ambos os episódios poderiam ter tido finais mais civis, ou mesmo racionais.
Passar o tempo com alguém, especialmente partindo o pão com esse alguém, tende a suavizar as arestas duras. Isso não nega o princípio, mas pode fazer com que hesitemos, ou mesmo repensemos, antes de condenar alguém publicamente.
Os guerreiros da cultura entre nós podem recusar essa estratégia. À distância, as linhas sempre parecem mais nítidas e mais definidas. É difícil continuar guerreando contra alguém que você conhece um pouco mais e contra quem você percebe como alguém razoável e bem intencionado.
Talvez os seminários devessem levar em consideração o fato de pôr uma ênfase muito maior no desenvolvimento do "convite para almoçar" como parte integrante dos programas de teologia pastoral. Tweet
segunda-feira, 23 de abril de 2012
São Jorge, rogai por nós!
"A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro se movimenta para a comemoração da festa de São Jorge", relata D. Orani Tempesta, Arcebispo do Rio de Janeiro. "O antigo feriado municipal, agora transformado também em estadual, isso a pedido do povo e da sua tradição, demonstra o carinho e a importância dessa festa. Desde a madrugada do dia até o anoitecer as comemorações se sucedem em todas as regiões desta cidade e do Estado."
Jorge é santo da Igreja Católica, "mas traz também o apreço de inúmeras outras pessoas e grupos, que o têm em grande consideração", assinala D. Orani. "São Jorge é patrono da Inglaterra, Portugal, Geórgia, Catalunha, Aragão, Lituânia, da cidade de Moscou e de muitos outros locais e entidades."
"Aprendamos com São Jorge a ter este mesmo zelo e amor por Nosso Senhor Jesus Cristo e não nos calarmos diante das injustiças que saltam aos nossos olhos, mas, ter a coragem necessária para denunciar e fazer o melhor para Deus e para o bem do próximo. A Igreja sempre sofreu perseguições no decorrer de sua história. São Jorge é um exemplo de fortaleza de um guerreiro na constância da fé, e nos dá o exemplo de coragem para enfrentarmos as dificuldades que hoje nós temos por sermos cristãos e católicos", como bem recorda D. Orani, e acrescentamos: e também cristãos, católicos ou não, e gays. :-)
Parafraseando nosso bispo em seu belo texto sobre esta data festiva, "peçamos que, a exemplo de São Jorge, possamos lutar contra o dragão do mal para sermos vencedores nesta batalha" contra as exclusões, as segregações, o ódio, os preconceitos, os julgamentos, a violência. "Que com a mesma coragem professemos esta nossa fé neste tempo de tantas questões e problemas e que com o coração aberto vivamos como irmãos e irmãs que em Cristo se amam. E que, pela intercessão de São Jorge, possam recair sobre as nossas vidas muitas bênçãos de Deus!"
E Gilda Carvalho, cujos textos com tanta frequência nos inspiram aqui, traz, a partir da história de São Jorge, a bela reflexão que reproduzimos abaixo.
Nascido na Capadócia, Jorge trocou a Turquia pela Palestina onde ingressou no exército do imperador Diocleciano, no qual teve uma carreira de sucesso, chegando a ocupar o posto de tribuno militar. Quando as perseguições aos cristãos recomeçaram, Jorge, já convertido, não quis negar sua fé e o imperador, sentindo-se traído, ordenou que o então amigo fosse submetido a pesadas torturas. A todas Jorge sobreviveu com firmeza: enfrentou as lanças dos soldados, o peso de pedras, navalhadas, queimaduras. A cada vitória, convertia mais e mais soldados. O imperador mandou, então, chamar um mago que lhe deu para beber duas poções venenosas. O "filho da Capadócia" resistiu a ambas e ainda alcançou a conversão do próprio mago e da esposa do imperador, que não admitiu este acontecimento e mandou degolar o soldado. A Jorge atribui-se também, a lenda de que haveria matada um dragão que ameaçava a filha do rei de Selena e dos habitantes desta cidade que fica na Síria.
Essa curta biografia tem sua origem mais na tradição que em registros históricos. Sobre a existência de São Jorge, só se têm os registros de seu martírio. Contudo, a devoção do povo ao santo guerreiro é tão grande que alcança as Igrejas do Oriente. Ainda na Idade Média, peregrinações já acorriam ao seu sepulcro, em Lida, na Palestina; ao longo dos séculos, sua história foi repetida inúmeras vezes e provocou a conversão de milhares de fiéis. Contudo, o que são Jorge nos diz, hoje?
Jorge, o santo, nos fala da coragem do testemunho. Lenda ou não, sua história nos revela a força da fé que se sobrepõe aos sucessos mundanos que provavelmente teria obtido junto ao Governo Romano. Jorge foi fiel a Jesus e, por isso, sofreu os martírios próprios de sua época. Também hoje aquele que assume sua fé, que a vive com firmeza, se opõe às certezas mundanas e, ainda que os martírios não sejam mais os físicos, as conseqüências da vivência de uma fé coerente ainda são frequentes.
Jorge, o guerreiro, continua presente no imaginário popular, como símbolo da coragem. Coragem de enfrentar o mal – que na linguagem bíblica é representado pelo dragão – coragem de vencer os caminhos do mundo para ser fiel só ao seu Senhor. E, sua coragem nos desinstala a enfrentar os medos, as angústias e toda a sorte de adversidade.
E, se a devoção e o culto a São Jorge ultrapassa séculos e distâncias, sua figura guerreira também transcende o universo cristão. Cultuado pelas religiões afro-descendentes, Jorge não perde naquelas as suas características de poder e de coragem. E, em um país tão marcado pelo sincretismo religioso como o Brasil, fiéis de várias denominações se irmanam diante da memória de um homem que um dia ousou ser fiel à sua fé e, com ela, vencer o mal, desejo maior do ser humano.
Portanto, celebrar São Jorge é um chamado à reflexão sobre a santidade que se revela em ensinamentos bastante propícios a todos nós hoje: ser fiel... ser corajoso ... ser irmão. Que possamos experimentar através da figura de São Jorge a fraternidade possível quando nos sabemos filhos do mesmo Pai. E que possamos, com a graça do Senhor, viver a fé com a força e fidelidade de Jorge.
- Gilda Carvalho
Reproduzido via Amai-vos (com informações daqui e daqui)
* * *
Oração a São Jorge:
Ó Deus onipotente, que nos protegeis pelos méritos e bênçãos de S. Jorge, fazei que este grande mártir, com sua couraça, sua espada e seu escudo que representam a fé, a esperança e a caridade, esclareça a nossa inteligência, ilumine os nossos caminhos, fortaleça o nosso ânimo nas lutas da vida, dê firmeza à nossa vontade contra as tramas do maligno, para que, vencendo na terra como S. Jorge venceu, possamos triunfar no céu convosco e participar das eternas alegrias. Amém. Tweet
domingo, 22 de abril de 2012
Intolerância religiosa
Foto: David Stephenson
SOU ATEU e mereço o mesmo respeito que tenho pelos religiosos.
A humanidade inteira segue uma religião ou crê em algum ser ou fenômeno transcendental que dê sentido à existência. Os que não sentem necessidade de teorias para explicar a que viemos e para onde iremos são tão poucos que parecem extraterrestres.
Dono de um cérebro com capacidade de processamento de dados incomparável na escala animal, ao que tudo indica só o homem faz conjecturas sobre o destino depois da morte. A possibilidade de que a última batida do coração decrete o fim do espetáculo é aterradora. Do medo e do inconformismo gerado por ela, nasce a tendência a acreditar que somos eternos, caso único entre os seres vivos.
Todos os povos que deixaram registros manifestaram a crença de que sobreviveriam à decomposição de seus corpos. Para atender esse desejo, o imaginário humano criou uma infinidade de deuses e paraísos celestiais. Jamais faltaram, entretanto, mulheres e homens avessos a interferências mágicas em assuntos terrenos. Perseguidos e assassinados no passado, para eles a vida eterna não faz sentido.
Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar.
Os religiosos que têm dificuldade para entender como alguém pode discordar de sua cosmovisão devem pensar que eles também são ateus quando confrontados com crenças alheias.
Que sentido tem para um protestante a reverência que o hindu faz diante da estátua de uma vaca dourada? Ou a oração do muçulmano voltado para Meca? Ou o espírita que afirma ser a reencarnação de Alexandre, o Grande? Para hindus, muçulmanos e espíritas esse cristão não seria ateu?
Na realidade, a religião do próximo não passa de um amontoado de falsidades e superstições. Não é o que pensa o evangélico na encruzilhada quando vê as velas e o galo preto? Ou o judeu quando encontra um católico ajoelhado aos pés da virgem imaculada que teria dado à luz ao filho do Senhor? Ou o politeísta ao ouvir que não há milhares, mas um único Deus?
Quantas tragédias foram desencadeadas pela intolerância dos que não admitem princípios religiosos diferentes dos seus? Quantos acusados de hereges ou infiéis perderam a vida?
O ateu desperta a ira dos fanáticos, porque aceitá-lo como ser pensante obriga-os a questionar suas próprias convicções. Não é outra a razão que os fez apropriar-se indevidamente das melhores qualidades humanas e atribuir as demais às tentações do Diabo. Generosidade, solidariedade, compaixão e amor ao próximo constituem reserva de mercado dos tementes a Deus, embora em nome Dele sejam cometidas as piores atrocidades.
Os pastores milagreiros da TV que tomam dinheiro dos pobres são tolerados porque o fazem em nome de Cristo. O menino que explode com a bomba no supermercado desperta admiração entre seus pares porque obedeceria aos desígnios do Profeta. Fossem ateus, seriam considerados mensageiros de Satanás.
Ajudamos um estranho caído na rua, damos gorjetas em restaurantes aos quais nunca voltaremos e fazemos doações para crianças desconhecidas, não para agradar a Deus, mas porque cooperação mútua e altruísmo recíproco fazem parte do repertório comportamental não apenas do homem, mas de gorilas, hienas, leoas, formigas e muitos outros, como demonstraram os etologistas.
O fervor religioso é uma arma assustadora, sempre disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso. Em vez de unir, ele divide a sociedade -quando não semeia o ódio que leva às perseguições e aos massacres.
Para o crente, os ateus são desprezíveis, desprovidos de princípios morais, materialistas, incapazes de um gesto de compaixão, preconceito que explica por que tantos fingem crer no que julgam absurdo.
Fui educado para respeitar as crenças de todos, por mais bizarras que a mim pareçam. Se a religião ajuda uma pessoa a enfrentar suas contradições existenciais, seja bem-vinda, desde que não a torne intolerante, autoritária ou violenta.
Quanto aos religiosos, leitor, não os considero iluminados nem crédulos, superiores ou inferiores, os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam.
- Drauzio Varella
Reproduzido via Conteúdo Livre Tweet
sábado, 21 de abril de 2012
O céu é dos diferentes
Arte: Silas Kopf
O pecado maior que a Igreja de Jesus pode cometer é fechar-se em si mesma, negar-se ao diferente, propor uma identidade cristã homogênea e de rígidas exigências, a não ser naquilo que decorre necessariamente do mandamento do amor.
Isto porque Jesus fez e propôs a experiência de um Deus profundamente libertador. Que deixa as noventa e nove ovelhas sadias e homogêneas e vai buscar à margem, a diferente. Ele mesmo nos disse que, no banquete celeste, nos surpreenderíamos por ver sentados aqueles que não imaginamos, os que julgávamos “de fora”.
Bom critério para avaliarmos nossa maturidade humana, nossa caminhada cristã, nosso seguimento de Jesus é refletirmos como lidamos com o diferente de nós. O mesmo é fácil, cômodo, um amor auto-centrado e sem horizonte. O difícil e belo é o outro, que, na sua diferença, revela tanto a nós mesmos, em nossa singularidade, quanto ao amor de Deus, em suas multiformes maneiras de ser origem e senhor de toda a vida.
“Se o céu é profundamente humano, então é um radical encontro. Bem entendida, esta categoria poderia, melhor do que qualquer outra imagem, nos fazer vislumbrar a realidade plenificante e dinâmica do céu. Encontro significa a capacidade de ser-nos-outros sem perder a própria identidade. O encontro supõe o vigor de aceitar o diferente como diferente, acolhê-lo e deixar-se enriquecer por ele. Com isso rompemos o mundo do nosso ‘eu’ e permitimos a surpresa, a aventura e mesmo o risco. Todo encontro é um risco, porque se dá numa abertura para o imprevisível e para a liberdade. Onde há liberdade tudo é possível: céu e inferno. O céu como encontro significa que o homem, quanto mais se abre para novos horizontes divinos e humanos, mais se encontra consigo mesmo e forma com quem se encontra uma comunhão vital”. (Boff, Leonardo. Vida para além da morte. Ed. Vozes. p. 70) Tweet
sexta-feira, 20 de abril de 2012
"Aceitar meu filho incondicionalmente me fez uma pessoa mais feliz"
Receber a notícia de que o filho é homossexual é um acontecimento que pode abalar as estruturas de uma família, por mais que ela se considere aberta às diferenças. É mais fácil lidar com as piadinhas maldosas quando tudo não passa de suspeita e falatório. Mas o cenário muda depois de um irrefutável: "Pai, eu sou gay".
Para o industriário Ricardo Reder, 48 anos, de Santana do Parnaíba (SP), o fato de Victor ter admitido ser homossexual, há cerca de dois anos, caiu como uma bomba. "Pertenço a uma família tradicional do interior de Minas Gerais, de uma cidadezinha pequena. Imagine, para mim, o que essa descoberta causou", admite. O garoto, hoje com 18 anos, ficou tão perturbado com a reação dos pais que decidiu buscar abrigo na casa da avó. "Você nunca acha que tem preconceito, até a realidade tomar conta da sua vida", diz Ricardo.
Ele e a mulher, a analista de faturamento Suerda, de 42 anos, descobriram o Grupo de Pais de Homossexuais (GPH) na internet e encontraram na figura de Edith Modesto, sua fundadora, o apoio de que precisavam. "Ela nos disse algumas verdades", confessa Ricardo, que um mês após a declaração do filho resolveu trazê-lo de volta para casa. Edith chamou a atenção do casal para o fato de que uma relação não é feita só de sexo. "Em vez de ficar imaginando seu filho na cama com outro homem, pensa que ele vai ter alguém pra cuidar dele quando estiver doente", ela disse para Ricardo. Essa visão amorosa fez com que ele repensasse alguns conceitos. "Nunca deixei de amá-lo. E me coloquei no lugar dele, tentando compreender o seu sofrimento."
Da rejeição inicial até hoje, o relacionamento da família só melhorou. "Fui para a casa da minha avó porque fiquei muito chateado com a reação dos meus pais", conta Victor. O jovem quis dar um tempo para Suerda e Ricardo, e também para si mesmo. "Queria que sentissem a minha falta", completa. Ele conta que uma das maiores emoções da vida dele foi quando o pai foi buscá-lo: "Me senti amado, acolhido. Nossa relação, que até então era um pouco distante, melhorou muito. Ele passou a me ver como pessoa, como ser humano. Hoje somos muito unidos".
O grupo de Edith, pesquisadora e especialista em diversidade sexual, surgiu a partir de uma experiência pessoal. Mãe de sete filhos, ela e o marido passaram pela mesma situação de Ricardo e Suerda quando seu caçula, Marcello, assumiu ser homossexual. "Fiquei muito surpreso quando soube, há vários anos", conta o professor universitário aposentado Lauro, 81. "Nunca percebi, porque ele não tinha nenhuma característica. O que me importa é que ele é um professor da USP, com doutorado nos Estados Unidos, inteligente, trabalhador e meu amigo", afirma.
Militar e evangélico, Antonio Aparecido dos Santos, 51 anos, de São Paulo, é um exemplo para muita gente que se considera de mente aberta e moderna. Sobre a homossexualidade, ele é objetivo em seu argumento: "Quem somos nós para julgar a natureza alheia?”. Após sempre ter desconfiado que o filho, Airon Wisniewski, de 22 anos, fosse gay, Antonio não se surpreendeu com a confirmação. "Não me choquei nem um pouco e aceitei numa boa”, afirma. O filho se orgulha de ter uma relação de companheirismo com o pai. “Nunca vou me esquecer do momento em que decidi ‘sair do armário’. Ele tirou os óculos, colocou a mão no meu ombro e disse que, independente de qualquer coisa, continuaria a ser meu pai e a me amar muito”, revela, emocionado.
Foi com a mesma convicção que Laurindo Pissioli, de 61 anos, de Frutal (MG), apoiou a filha, a analista de testes Cristiane, 35 anos. “Quando ela era pequena, todo mundo a achava diferente", lembra. Cristiane diverte-se ao contar que o pai sempre apresenta suas namoradas aos amigos como noras. "O pessoal questionava: ‘Laurindo, como você pode ter uma nora se só tem filhas?' E ele: ‘É nora porque é mulher da minha filha, oras!’. Todo mundo ria”, afirma Cristiane.
Agir com naturalidade é a resposta do militar Antonio para quem tenta atingi-lo com preconceitos. Quando alguém diz que o filho dele é "bicha", sabe o que ele diz? “É bicha, sim. Tem saúde e me dá muita alegria. E aí?", conta Antonio, que considera o namorado de Airon um filho. “Gosto tanto do Anderson que até dou bronca de pai nele”, diverte-se ele, que, no quartel, aconselha um amigo de trabalho a aceitar a filha homossexual.
Para Ricardo Reder, o caminho da aceitação foi mais doloroso. Hoje ele até permite que Victor leve o namorado para dormir em casa. "Eu achava que fazia de tudo por meu filho e descobri que estava errado. Hoje posso afirmar que aceitá-lo plena e incondicionalmente me transformou numa pessoa mais feliz e completa."
- Heloísa Noronha
Colaboração para o UOL Tweet
Para o industriário Ricardo Reder, 48 anos, de Santana do Parnaíba (SP), o fato de Victor ter admitido ser homossexual, há cerca de dois anos, caiu como uma bomba. "Pertenço a uma família tradicional do interior de Minas Gerais, de uma cidadezinha pequena. Imagine, para mim, o que essa descoberta causou", admite. O garoto, hoje com 18 anos, ficou tão perturbado com a reação dos pais que decidiu buscar abrigo na casa da avó. "Você nunca acha que tem preconceito, até a realidade tomar conta da sua vida", diz Ricardo.
Ele e a mulher, a analista de faturamento Suerda, de 42 anos, descobriram o Grupo de Pais de Homossexuais (GPH) na internet e encontraram na figura de Edith Modesto, sua fundadora, o apoio de que precisavam. "Ela nos disse algumas verdades", confessa Ricardo, que um mês após a declaração do filho resolveu trazê-lo de volta para casa. Edith chamou a atenção do casal para o fato de que uma relação não é feita só de sexo. "Em vez de ficar imaginando seu filho na cama com outro homem, pensa que ele vai ter alguém pra cuidar dele quando estiver doente", ela disse para Ricardo. Essa visão amorosa fez com que ele repensasse alguns conceitos. "Nunca deixei de amá-lo. E me coloquei no lugar dele, tentando compreender o seu sofrimento."
Da rejeição inicial até hoje, o relacionamento da família só melhorou. "Fui para a casa da minha avó porque fiquei muito chateado com a reação dos meus pais", conta Victor. O jovem quis dar um tempo para Suerda e Ricardo, e também para si mesmo. "Queria que sentissem a minha falta", completa. Ele conta que uma das maiores emoções da vida dele foi quando o pai foi buscá-lo: "Me senti amado, acolhido. Nossa relação, que até então era um pouco distante, melhorou muito. Ele passou a me ver como pessoa, como ser humano. Hoje somos muito unidos".
O grupo de Edith, pesquisadora e especialista em diversidade sexual, surgiu a partir de uma experiência pessoal. Mãe de sete filhos, ela e o marido passaram pela mesma situação de Ricardo e Suerda quando seu caçula, Marcello, assumiu ser homossexual. "Fiquei muito surpreso quando soube, há vários anos", conta o professor universitário aposentado Lauro, 81. "Nunca percebi, porque ele não tinha nenhuma característica. O que me importa é que ele é um professor da USP, com doutorado nos Estados Unidos, inteligente, trabalhador e meu amigo", afirma.
Militar e evangélico, Antonio Aparecido dos Santos, 51 anos, de São Paulo, é um exemplo para muita gente que se considera de mente aberta e moderna. Sobre a homossexualidade, ele é objetivo em seu argumento: "Quem somos nós para julgar a natureza alheia?”. Após sempre ter desconfiado que o filho, Airon Wisniewski, de 22 anos, fosse gay, Antonio não se surpreendeu com a confirmação. "Não me choquei nem um pouco e aceitei numa boa”, afirma. O filho se orgulha de ter uma relação de companheirismo com o pai. “Nunca vou me esquecer do momento em que decidi ‘sair do armário’. Ele tirou os óculos, colocou a mão no meu ombro e disse que, independente de qualquer coisa, continuaria a ser meu pai e a me amar muito”, revela, emocionado.
Foi com a mesma convicção que Laurindo Pissioli, de 61 anos, de Frutal (MG), apoiou a filha, a analista de testes Cristiane, 35 anos. “Quando ela era pequena, todo mundo a achava diferente", lembra. Cristiane diverte-se ao contar que o pai sempre apresenta suas namoradas aos amigos como noras. "O pessoal questionava: ‘Laurindo, como você pode ter uma nora se só tem filhas?' E ele: ‘É nora porque é mulher da minha filha, oras!’. Todo mundo ria”, afirma Cristiane.
Agir com naturalidade é a resposta do militar Antonio para quem tenta atingi-lo com preconceitos. Quando alguém diz que o filho dele é "bicha", sabe o que ele diz? “É bicha, sim. Tem saúde e me dá muita alegria. E aí?", conta Antonio, que considera o namorado de Airon um filho. “Gosto tanto do Anderson que até dou bronca de pai nele”, diverte-se ele, que, no quartel, aconselha um amigo de trabalho a aceitar a filha homossexual.
Para Ricardo Reder, o caminho da aceitação foi mais doloroso. Hoje ele até permite que Victor leve o namorado para dormir em casa. "Eu achava que fazia de tudo por meu filho e descobri que estava errado. Hoje posso afirmar que aceitá-lo plena e incondicionalmente me transformou numa pessoa mais feliz e completa."
- Heloísa Noronha
Colaboração para o UOL Tweet
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Entre a cruz e o arco-íris
Bordado daqui
Ainda sobre o episódio do cartaz da parada LGBT de Maringá e seu diálogo com a arquidiocese local: nosso amigo Murilo Araújo escreveu um brilhante editorial no Vestiário.org, que vale muito a pena ler (aqui). Achamos tão pertinente a sua reflexão, que resolvemos reproduzir um trechinho aqui:
(...) Vamos fazer um esforço de repensar: em vez de ficar reproduzindo a mania de perseguição, afirmando um eterno embate entre religiosos e militantes, alguém parou para pensar no significado bonito que esse cartaz carrega?
De certo modo, ele representa a igreja com que eu sonho cotidianamente. Trata-se de um sonho muito particular, porque quem tem outra fé (ou não tem nenhuma) tem todo o direito de discordar desse meu pensamento, ou de apenas não se preocupar com isso. Mas, se substituíssemos a Catedral de Nossa Senhora da Glória por uma escola, ou por um prédio do governo, o cartaz continuaria representando a minha utopia: uma instituição que transforma uma só cor em várias, e que gera a diversidade, em vez de anulá-la.
(...) [O arcebispo, D. Anuar] Batistti afirmou que a preocupação maior da Igreja deve ser contra a violência e não contra o movimento, e apontou caminhos para a criação de uma espécie de “pastoral da diversidade” na Arquidiocese. Se a iniciativa é válida ou não, a discussão é outra, mas eu, talvez inocentemente, vejo pelo menos o esforço de diálogo como um sinal de esperança. Continuar na briga desmedida é fazer mais do mesmo. E acho que não queremos ser todos um bando de fundamentalistas, mesmo que cada um ao seu modo.
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Orientação espiritual para crianças
Foto: Alex Ruiz
Com certeza, você esbarra em amigos e vizinhos no shopping, no cinema, em restaurantes e barzinhos, mas hoje dificilmente conhece alguém próximo que sai de casa para ir à missa aos domingos. O que antes era uma obrigação a cumprir, uma espécie de ritual familiar, com direito a roupa nova, hoje nada mais é do que uma cena do passado distante.
Os pais não se sentem mais à vontade em impor uma religião às crianças, como há 50 anos, quando a doutrina passava de pais para filhos. Sem querer obrigá-los os filhos a seguir os mesmos passos, os pais – em sua maioria criados na religião católica – não sabem mais como agir. (...)
Para responder a essa inquietação dos pais, especialistas explicam por que continua sendo imprescindível transmitir aos filhos conceitos de fé, amor e respeito. O teólogo e escritor Leonardo Boff é um dos que ensinam aos pais como apresentar o sagrado às crianças. “Nunca passar a ideia de um Deus vigiador e castigador. Isso gera medo. E o que se opõe à fé não é a não fé, mas o medo. A criança com medo tem dificuldades de crer, de confiar, de se entregar a alguém.”
Emerson Pedersoli, psicólogo com formação clínica e especialista em psicologia da educação, sempre envolvido com casais e famílias, confirma: “Os pais estão realmente perdidos. Vieram de uma educação rígida, mas não conseguiram achar o meio do caminho. Saíram do extremo da rigidez para a liberdade em excesso.”
Nos cursos e palestras que ministra, Pedersoli conversa muito com os pais e percebe que, hoje, eles tendem a deixar a orientação espiritual para o futuro, quando os filhos estiverem crescidos. “Mas a ideia de deixá-los crescer sem apresentar nenhum parâmetro já é deixá-los perdidos”, assegura. Aí, pode ser tarde, “porque eles não terão como decidir, porque não foram orientados”.
Ele acredita que em tempos de grande liberdade de escolha, dar aos filhos orientação espiritual é “fundamental”, mas avisa: “Costumo dizer que é preciso associar a fé ao raciocínio. E não ter uma fé cega, do tipo acreditar porque estão dizendo. Ao contrário: acredito porque pesquiso, estudo e aprofundo”.
Compreensão do mundo
Nem sempre pais e filhos têm a mesma opinião quando o tema é espiritualidade. Especialistas sugerem que os adultos não rotulem ou usem juízos de valor para tratar do assunto com as crianças Nem a rigidez de antes nem a liberdade excessiva. Como os pais podem encontrar o meio do caminho e apresentar o sagrado às crianças? Quem responde é Leonardo Boff (...). Depois de abandonar suas funções de frade franciscano (...), Boff vive atualmente no Jardim Araras, região campestre ecológica do município de Petrópolis (RJ), e compartilha vida e sonhos com a educadora Márcia Maria Monteiro de Miranda.
“Creio que devemos entrar pela porta certa, que é a inteligência emocional. A criança não entende conceitos que não passam por alguma experiência ou metáfora. Deus é uma realidade grande demais para ela fazer uma representação”, observa.
Ele crê que os pais devem primeiro mostrar à criança o sagrado. “Ela é sensível ao sagrado. A gente faz isso entrando numa igreja. Ela percebe que lá é outra lógica, diferente da rua, do mercado, dos shoppings. Na igreja há silêncio ou se fala baixinho, há espaços altos, as figuras, os altares. Dessa experiência nasce o respeito, a veneração: estamos diante de algo importante. É preciso dizer que Deus mora ali. Mas Ele gosta mesmo de morar no coração da criança, protegendo-a, iluminando-a, fazendo-a querida para as outras pessoas.”
Outra experiência importante do sagrado, segundo o teólogo, é mostrar as estrelas. “Sempre há noites estreladas, mesmo nas grandes cidades. E perguntar: ‘Quem se esconde atrás daquelas estrelas?’, ‘Quem faz com que elas se movimentem?’, ‘Quem criou aquele céu todo?’. E aí dizer: ‘Foi Deus quem quis embelezar nossas noites e alegrar nossos olhos. Todos nós nascemos das estrelas, porque tudo o que está no nosso corpo veio delas, especialmente do Sol. Todos nós queremos brilhar. E com razão. Porque devemos ser como as estrelas: nascemos para brilhar.’”
Ele aponta outra experiência importante – o nascimento de um bebê. “A criança logo se interessa: ‘De onde veio?’. Sabe que veio da mãe. E a mãe veio de onde? De quem ela recebeu a criança? E daí explicar que há no céu um pai carinhoso e uma mãe bondosa que nos amam e nos mandam essas crianças. Cada criança é um sinal de amor de Deus. Enquanto nascerem crianças é prova de que Deus ainda nos ama e ama o mundo.” O contato com o mar também fala do sagrado: “É a experiência da majestade e da grandeza, que inspira respeito e cuidado. Deus tem majestade. É um mar de amor e de vida”.
Outra forma é despertar a criança para a beleza da natureza: “De uma flor, de um gatinho que nasce, de um cachorrinho, de um pássaro ou mesmo o descortinar de uma paisagem a partir de um lugar alto. Aí emerge o mistério da vida e da beleza. Deus é aquele que dá vida e faz tudo belo neste mundo”.
Por fim, o teólogo constata: “A criança é muito sensível à oração. À noite, antes de deitar, os pais podem ensinar pequenas orações, como ‘Com Deus me deito, com Deus me levanto, com o Pai, o Filho e o Espírito Santo’. Há tantas fórmulas… Cada família tem a sua. Conheço pais que são ateus e as crianças pedem à mãe para rezar. E aí é importante encenar a oração: fazer silêncio, juntar as mãos, pensar no mais alto do céu, nas estrelas e num grande pai bom ou numa grande mãe bondosa. E só quando estiverem concentrados, então fazer a oração. Geralmente, pedem para repetir. Mas não troquem as fórmulas de oração. As crianças querem sempre a mesma fórmula”.
Estado de Alma
Professora do Instituto de Ciências Humanas da PUC Minas e mestre em ciências da religião, Luzia Werneck acha importante que os pais trabalhem com as crianças a compreensão do mundo: “Se você trilha o caminho da espiritualidade, tudo fica mais leve”.
Para Luzia, a questão da espiritualidade, da fé e da religião não deve ser uma imposição. “Os pais devem pegar a criança pelas mãos e trilhar esse caminho da compreensão do mundo. Conheço pais que são ateus, mas ensinam valores humanos. Será que posso afirmar que não há espiritualidade ali, mesmo que eles sejam ateus?”
Espiritualidade, para Luzia, é “olhar o mundo como se fosse a primeira vez. Não viciar o olhar. Até para conversar sobre a existência de Deus você não pode impor sua opinião. Se você fizer isso, impede o outro de compreender o mundo a partir da própria vivência”. Ela cita uma letra de um canto gregoriano dos monges trapistas, que diz o seguinte: ‘O mundo é um grande berço e nós temos que pensar que mãos vão embalar esse berço. Quando um filho nasce, o lar é um grande berço. E devemos saber que mãos vão conduzir esse sujeito e qual a espiritualidade que vai permear a vida. Para mim, espiritualidade é um estado de alma’”.
Sem filhos, Luzia, no entanto, tem sete sobrinhos. “Converso muito com eles e a espiritualidade acontece em qualquer hora e lugar. Outro dia, passeando num sítio para olhar as árvores e os pássaros, nos deparamos com um ninho onde a fêmea tomava conta dos filhotes. Paramos para observar e conversar sobre o saber cuidar, que não é só da condição humana.”
- Déa Januzzi, para o Estado de Minas
Leia na íntegra no Conteúdo Livre
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terça-feira, 17 de abril de 2012
Incontrolável compaixão...
Foto: Kevin Coffey
“Muita gente pequena, em lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, pode mudar o mundo...”
Tempo atrás, os meios de comunicação noticiaram turistas socorrendo 88 refugiados africanos chegando exaustos às mais badaladas praias das Ilhas Canárias. Os surpreendidos banhistas ajudaram, espontaneamente, os imigrantes clandestinos a descer das canoas, os cobriram com suas toalhas e lhes deram comida. Diante da pergunta dos jornalistas de por que reagiram assim, os improvisados samaritanos responderam: como não ajudá-los? Quê outra coisa poderíamos fazer?
Diante do sofrimento reagimos espontaneamente com compaixão. Quando vemos o sofrimento de alguém, a compaixão é a reação imediata. A compaixão não se reduz à mera empatia, mas ação para aliviar o sofrimento do outro.
Na parábola do Bom Samaritano, Lucas descreve uma série de ações: o samaritano se compadece, se aproxima, enfaixa as feridas, coloca o ferido no seu animal, o conduz à hospedaria, o cuida... Ações de ajuda, diferenciando-se de outras propostas retóricas ou descomprometidas.
Todos sabemos da importância dos relacionamentos para o desenvolvimento e a saúde das pessoas. Na parábola, o samaritano se aproxima do homem ferido, o toca, o abraça, lava suas feridas e o faz subir em sua cavalgadura... Contato físico, toque, carinho... Só depois é que usa o azeite e o vinho, como instrumentos de assepsia.
Diante da visão do homem ferido, o samaritano “se compadece”. O termo grego significa abraçar visceralmente a situação do outro.
Não confundir compaixão com lástima ou pena. A compaixão compartilha o sofrimento do outro: padece-com. A compaixão derruba as diferenças entre ajudador-ajudado e prevê reciprocidade: “hoje por ti, amanhã por mim!” A lástima, pelo contrário, interpõe distância entre a pessoa e o sofredor. A lástima não se coloca no lugar do compadecido, pois a relação estabelecida é de cima para baixo e tal desigualdade não é rompida pelos gestos de ajuda; só há sentimento, o que é muito pouco!
Nossa sociedade é muito lastimosa e pouco compassiva. Há situações que requerem ajuda imediata; o perigo é permanecer nessa visão alienante de lástima. A compaixão pergunta pelos desajustes estruturais que estão por detrás de cada desgraça e nos coloca do lado das vítimas; lê o drama da injustiça e da opressão. A “compaixão” se perverte quando faz do sofrimento um espetáculo televisivo e não se detém em analisar as causas estruturais que ocasionaram tamanha desgraça.
A compaixão começa pela capacidade de fixar o olhar no rosto do necessitado, desmontando preconceitos e perguntar por sua vida, sonhos, preocupações e dor. Acolhe, sem interpretar ou julgar. Escutar é fundamental! A compaixão permite colocar-se no lugar e na perspectiva do outro.
O samaritano conduz o animal para a pousada, como um servo. Desçamos, pois, dos nossos “jumentos” (privilégios, preconceitos...) e nos aproximemos fraternalmente dos necessitados.
Uma pergunta: Você apenas lastima ou é mesmo compassivo?
- Pe. J. Ramón F. de la Cigoña SJ
Reproduzido do blog Terra Boa Tweet
Uma questão de justiça: os LGBTs de Maringá e a Catedral
Arte: Elisa Riemer
Desde a divulgação dos cartazes da Parada do Orgulho LGBT de Maringá, no Paraná, começou a polêmica. Como a arte de um deles (imagem acima) mostra a Catedral Basílica Menor de Nossa Senhora da Glória, construção-símbolo da cidade, atingida por um raio de luz e "explodindo" em um arco-íris, a assessoria de imprensa da Arquidiocese de Maringá informou, no final da manhã desta segunda-feira (16), que o departamento jurídico da cúria arquidiocesana foi acionado e tomaria providências jurídicas sobre o caso. Em nota a respeito do caso, a arquidiocese reiterou que "a Igreja Católica não tem a pretensão de Domesticar a sociedade, impondo-lhe seus princípios e valores", mas que o cartaz "confrontou opinião religiosa da parcela maior da comunidade maringaense".
"A ideia de fazer esse convite veio justamente, como se pode reparar na imagem, do conceito da catedral como um prisma em que, ao ser injetado um foco de luz solar de um lado, do outro desponta em todas as cores possíveis", disse Luiz Modesto, representante do movimento gay da cidade e editor do site Maringay. "Como a catedral é o primeiro símbolo de Maringá, é um convite a chamar para o diálogo todas as pessoas, para maior aceitação e respeito. Nós aprovamos e gostamos do conceito".
A inspiração veio da capa do álbum "The Dark Side of the Moon", da banda de rock britânica Pink Floyd. A autora dos cartazes polêmicos (há também uma segunda versão, mais próxima da referência original do disco), Elisa Riemer, justificou sua escolha: "Nada melhor que esse símbolo para usar como se fosse o prisma. O prisma tem vários lados e jogando uma luz conseguimos ver todos os caminhos. As sete cores. Imagine que para cada problema você tem sete respostas ou caminhos a tomar e se um estiver bloqueado... Procure a outra cor que lhe indicará outra coisa".
"Não estou ofendendo a religião de ninguém e jamais foi essa a intenção", continuou ela. "Que símbolo usar para definir Maringá? Poderia ter sido usado pra qualquer outra coisa, poderia ter sido usado pra uma campanha de alguma rádio, de alguma banda, de qualquer outro segmento. Mas o que pegou foi justamente isso, foi porque foi usada pra uma campanha LGBT. Não vejo problema algum, e muito menos falta de respeito".
Segundo Elisa, o uso da catedral se deu exclusivamente pela similaridade com o prisma: "Se as pessoas observassem bem, veriam o quanto escureci a catedral e retirei a cruz - para nada, exatamente nada, estar ligado à religião. Não tive a intenção de polemizar e sim de fazer as pessoas pensarem, refletirem". De todo modo, porém, ressaltou Modesto, "este nunca foi o cartaz de divulgação da Parada Gay. O oficial, que usaremos para publicação, é bem mais simples e pode ser visto na Fan Page do evento, no Facebook".
Ainda assim, o arcebispo de Maringá, Dom Anuar Battisti, ontem, no seu blog, lamentou “o uso dado ao cartaz, que confronta com o pensamento e a opinião religiosa da parcela maior da comunidade maringaense”. Diante da polêmica, Luiz Modesto contou ter recebido um convite para tomar café com o arcebispo nesta terça-feira (17). A reunião, segundo ele, foi amigável; o arcebispo teria entendido que o cartaz visava a ampliar o diálogo sobre a homofobia. Levantamentos feitos pelo movimento gay de Maringá registram 38 agressões contra GLBTs nos últimos 12 meses, sendo duas delas assassinatos de travestis.
“Levei alguns dados de suicídio entre adolescentes gays, de violência contra LGBT e assassinato de travestis nos municípios da arquidiocese. O arcebispo comoveu-se. Concordamos que direcionar as atenções para os casos de violência contra o ser humano é muito mais relevante que a polêmica causada pelo cartaz. O foco agora é outro, a criação da Pastoral da Diversidade em Maringá e o indicativo de uma Pastoral Nacional da Diversidade pela CNBB”, relatou Modesto. A proposta, segundo ele, seria de uma pastoral que congregasse os católicos homossexuais: “É necessário divulgar a ideia de que Deus não é ódio e punição, mas amor e acolhimento. Embora a posição da Igreja seja contrária à homossexualidade, deve existir um braço dentro dela que nos proteja da violência e nos acolha da forma como somos, sem deixar-nos desamparados espiritualmente”.
“Estamos abertos à discussão e dispostos a falar dos problemas enfrentados por eles”, disse Dom Anuar, que segundo Modesto teria afirmado também que a preocupação maior deve ser contra a violência, e não contra o movimento.
Caso a pastoral seja criada, será a primeira iniciativa oficial da Igreja Católica para trabalhar diretamente no combate à homofobia. “Para as pessoas que entenderam o cartaz como provocação, eu peço desculpas sinceras. O objetivo maior era criar um diálogo sobre o assunto. E conseguimos”, concluiu Modesto.
O que pode ter contribuído para a má recepção do cartaz - que, para os segmentos mais conservadores de Maringá, provavelmente já seria impactante pela mera associação entre LGBTs e Igreja - foi a saída das sete cores do arco-íris cercada de estilhaços, uma imagem que talvez tenha parecido agressiva. Porém, pode-se entender também a sugestão de explosão como uma referência à urgentíssima necessidade de uma mudança, na sociedade brasileira hoje, com relação à violência sofrida pelos LGBTs. E à importância e responsabilidade da Igreja como foco de transformação da atual situação - afinal, ela é o prisma que transforma a luz. Ou, como tão bem comentou nosso amigo Murilo Araújo em seu editorial brilhante para o Vestiário (leia na íntegra aqui):
De certo modo, [o cartaz] representa a igreja com que eu sonho cotidianamente. Trata-se de um sonho muito particular, porque quem tem outra fé (ou não tem nenhuma) tem todo o direito de discordar desse meu pensamento, ou de apenas não se preocupar com isso. Mas, se substituíssemos a Catedral de Nossa Senhora da Glória por uma escola, ou por um prédio do governo, o cartaz continuaria representando a minha utopia: uma instituição que transforma uma só cor em várias, e que gera a diversidade, em vez de anulá-la.Mais tarde, ainda na terça-feira, a assessoria de imprensa da Arquidiocese veio a público informar, segundo O Diário, que as palavras de Dom Anuar sobre a Pastoral da Diversidade foram: “Acolho a proposta no coração e a respeito. Vamos encaminhá-la na medida do possível, mas não há indicativo momentâneo de sua criação”. A assessoria informou ainda que Dom Anuar participaria nesta quarta-feira (18) da 50ª Assembleia Geral da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Aparecida (SP), e a criação da Pastoral da Diversidade provavelmente seria discutida, por conta da repercussão nacional do caso de Maringá, embora não estivesse na pauta oficial do evento.
É bom saber da própria assessoria de imprensa da Arquidiocese, oficialmente, o que foi dito pelo Arcebispo. Mesmo não havendo "indicativo momentâneo de sua criação", a postura de diálogo e abertura sinalizada foi um primeiro passo; a CNBB estar ciente e discutir a repercussão do ocorrido é outro. O terceiro... bem, o que nós, católicos, gays e não-gays, faremos agora?
De fato, antes mesmo de qualquer discussão sobre a doutrina vigente da Igreja Católica a respeito da homossexualidade, uma coisa é certa: a Igreja - e, como sempre, por "Igreja" referimo-nos não só ao Magistério, mas a todos os batizados - precisa assumir seu papel histórico de mediadora e pacificadora, que tantas vezes desempenhou com mérito, e, também na questão da homofobia, atuar como a defensora da justiça social, contrária a toda forma de violência, que é.
Parafraseando o Fórum Europeu de Grupos Cristãos de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros em sua carta aberta ao papa Bento XVI ano passado, a Igreja Católica no Brasil precisa, como aconteceu no Chile, posicionar-se explicitamente contra os atos de violência contra a população LGBT. “O silêncio, neste contexto, pode ser perigosamente interpretado pelos perpetradores de atos de violência, tortura e assassinato como um parecer favorável às suas ações”, como bem sublinhou o referido Fórum.
Trata-se, aqui, de uma questão de justiça: justiça perante o direito dos LGBTs de serem respeitados e acolhidos no seio não só da Igreja, mas da sociedade mais ampla; e justiça com o papel histórico da Igreja Católica de defensora da vida e da dignidade da pessoa humana.
Portanto, urge que os católicos, gays ou não, comuniquemos à CNBB que a postura que esperamos da nossa Igreja é de abertura, acolhimento, inclusão e respeito à vida, às diferenças e à dignidade dos LGBTs. Os católicos americanos já se organizaram para transmitir ao respectivo Magistério seu desejo nesse sentido. Os europeus, também. E nós, leigos católicos aqui no Brasil?
Fica a pergunta para a nossa reflexão. De todos nós.
(Com informações do UOL, Folha de S. Paulo, O Diário [aqui e aqui], Maringay, Vestiário e Arquidiocese de Maringá e a colaboração dos amigos @MarkosOliveira, @realfpalhano, @wrighini e @murilo17)
* * *
Atualização em 18/04/12:
Veja aqui a repercussão da notícia no Jornal Hoje, da Rede Globo, que não chega a falar no desfecho da reunião e traz a informação errônea de que a imagem que foi pivô do conflito seria o cartaz oficial da Parada; e, no SBT, já trazendo a referência a uma possível Pastoral da Diversidade. Colaboração do sempre atento @MarkosOliveira. :-) Tweet
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Os jovens e a construção da autonomia: um desafio
Ilustração: Marumiyan
“A juventude quer vivência grupal. Nunca houve tanta busca dessa vivência como nos dias de hoje. Por outro lado, a essência da Igreja é ser comunidade (ecclesia). Não se entende uma Igreja que não seja e não promova a comunidade, o grupo. Por isso a juventude espera acolhida”, diz padre jesuíta.
A Igreja precisa possibilitar e incentivar a construção da autonomia. É a partir dessa percepção que Pe. Hilário Dick critica as práticas da Igreja e sua relação com a juventude. Para ele, a Jornada Mundial da Juventude – JMJ, evento católico que reúne o maior número de jovens em todo o mundo desde 1980, tem uma pedagogia que não conduz “à transformação social” e tampouco possibilita o protagonismo juvenil na Igreja. “Não se nega que um e outro jovem mude de valores, se ‘converta’, que descubra Jesus Cristo etc., mas poucos são os dados que fazem que o jovem descubra mais a realidade social ou, até mesmo, a própria realidade juvenil em termos mais amplos”. E complementa: “A maior prova disso está na observação de quem é o protagonista das Jornadas: quem fala? Quem decide? Quem ocupa o palco? De forma um tanto dura podemos dizer que a juventude das JMJ é uma massa de manobra da Igreja-Instituição”, provoca, em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail.
Em contato com a juventude há mais de 40 anos, ele assegura que, apesar das limitações, “a Igreja e a juventude se encontram: a Igreja naquilo que ela deveria ser e a juventude naquilo que ela sonha com uma instituição como a Igreja”. E explica: “A juventude quer vivência grupal. Nunca houve tanta busca dessa vivência como nos dias de hoje. É falso dizer que a juventude não quer viver em grupo. Por outro lado, a essência da Igreja é ser comunidade (ecclesia). Não se entende uma Igreja que não seja e não promova a comunidade, o grupo. Por isso a juventude espera acolhida”. Para que esta aproximação seja possível, sugere, o trabalho pastoral com os jovens deve ser entendido como um processo, “que acontece no dia a dia, nos pequenos grupos que se encontram para relacionar-se, viver, estudar, enfrentar questões comuns, celebrar etc.”.
Hilário Dick é graduado em Teologia pela Pontifícia Faculdade do Colégio Máximo Cristo Rei, e em Filosofia e em Letras pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Mestre e doutor, também em Letras, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, é coordenador do Observatório Juvenil do Vale/Unisinos. Entre seus vários livros publicados, citamos Gritos silenciados, mas evidentes: jovens construindo juventude na história (São Paulo: Loyola, 2003) e Cartas a neotéfilo – Conversas sobre assessoria para grupos de jovens (São Paulo: Loyola, 2005). Junto de Carmem Lucia Teixeira e Lourival Rodrigues da Silva publicou Juventude: acompanhamento e construção de autonomia. É autor do Cadernos IHU número 18, intitulado Discursos à Beira dos Sinos. A emergência de novos valores na juventude: o caso de São Leopoldo.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Como o senhor avalia a trajetória da Jornada Mundial da Juventude – JMJ? A JMJ é uma apresentação da Igreja para os jovens ou revela o engajamento e a relação da juventude com a Igreja?
Hilário Dick – Quando é que podemos falar de “trajetória” de um evento? Basta ver as datas, o número de participantes, os locais, a reação da sociedade, a repercussão na Igreja, o preço do evento? Qualquer “movimentação” se caracteriza pelas preocupações que manifesta, pelas ideias que defende, pelas propostas que carrega. É mais do que um ajuntamento de datas, de número de participantes, de número de discursos ou “sermões” que se fizeram, de tipos de hinos que foram cantados etc. Por isso, somente com um estudo em profundidade poder-se-á falar de uma possível trajetória das JMJ.
Quanto à segunda parte da pergunta, as Jornadas Mundiais estão provando que elas são muito mais uma apresentação da Igreja para os jovens do que um engajamento dos jovens com a Igreja. A maior prova disso está na observação de quem é o protagonista das Jornadas: Quem fala? Quem decide? Quem ocupa o palco? De forma um tanto dura podemos dizer que a juventude das JMJ é uma massa de manobra da Igreja-Instituição. Assim como não se fala de Reino para esta juventude, insiste-se muito no amor à Igreja. Não podemos dizer que o seguimento de Jesus não é desenvolvido, mas não é o que as juventudes enxergam e ouvem de forma mais significativa.
IHU On-Line – Como explicar a receptividade da Jornada por parte dos jovens? Qual o significado desses eventos massivos? A JMJ tem um viés transformador?
Hilário Dick – Todo jovem gosta de viajar e de participar de um evento em que se encontram muitos jovens. Isso vale para dentro e fora da Igreja. O Papa João Paulo II, além de seu carisma no relacionamento com os jovens, foi transformado num “Papa Pop” como até cantam os Engenheiros do Havaí. Pelo caráter que tinham e têm as JMJ, os meios de comunicação não tiveram nem têm dificuldade em assumi-las.
Existem dois modos de trabalhar pastoralmente com os jovens: ou priorizando uma pastoral de eventos, de grandes concentrações, de movimentos massivos com muito marketing, muita visualidade etc., ou priorizando uma pastoral de processos, essa que acontece no dia a dia, nos pequenos grupos que se encontram para se relacionar, viver, estudar, enfrentar questões comuns, celebrar etc. A Igreja Católica está priorizando, nesse momento, de muitas formas, a pastoral de eventos. É em tal geografia que se situam as JMJ.
Pela pedagogia que se usa nas JMJ pode-se dizer que elas não levam à transformação social. Não se nega que um e outro jovem mude de valores, se “converta”, descobre Jesus Cristo etc., mas poucos são os dados que fazem que o jovem descubra mais a realidade social ou, até mesmo, a própria realidade juvenil em termos mais amplos. Basta recordar o significado que tiveram as mobilizações juvenis na Jornada Mundial de Madrid. A juventude fora da Igreja parece que não existe...
IHU On-Line – Como construir, a partir dos movimentos de grupos, das pastorais da juventude, a autonomia dos jovens que participam da Igreja?
Hilário Dick – Critico a pedagogia, porque as JMJ não garantem a participação da juventude. Se houvesse e se possibilitasse real participação, haveria protagonismo juvenil. Só se constrói autonomia, personalidade, identidade numa boa participação, e uma boa participação significa uma boa organização, onde o protagonismo juvenil seja o exercício da autonomia etc. Podemos dizer que a autonomia é o tendão de Aquiles da Igreja porque se trata do exercício do poder. E a Igreja Católica, hoje e na história, tem muita dificuldade na vivência evangélica do poder. Isso vale para todos, também para o povo de Deus, em geral, e de modo especial para a juventude que vive a descoberta da liberdade (saindo do mundo da dependência), da participação e da autonomia. Esse aspecto fica evidente na forma como são vivenciadas as JMJ. Apesar disso, na teoria, o paradigma que a Igreja defende (assume?) é o da construção da autonomia. Uma das coisas que mais afasta a juventude da Igreja é a esquizofrenia, afirmando uma coisa e fazendo outra, na prática.
IHU On-Line – Em que consiste o projeto de revitalização da Pastoral da Juventude Latino-Americana? Em que medida é preciso revitalizar a ação pastoral?
Hilário Dick – É um atestado de sanidade e de saúde para qualquer instituição o fato de ter vontade de sempre se renovar. Ora, a Pastoral Juvenil Latino-Americana tem uma caminhada de 30 anos, fundamentada na construção da Civilização do Amor. As diretrizes dessa caminhada já mereceram várias reelaborações. A grande decisão da revitalização, falada e sonhada há mais tempo, foi a proposta assumida no 3º Congresso Latino-Americano, em 2010, na Venezuela. Trata-se de reforçar o espírito missionário da juventude, seguindo uma inspiração bíblica. A novidade foi a escolha dos lugares bíblicos alimentando essa revitalização, isto é, impulsionada por aquilo que é mais de Deus: o Evangelho. Vai sair, por isso, em breve, nova edição da obra Civilização do Amor com o subtítulo Projeto e Missão. A Conferência de Aparecida, embora não tenha dito algo novo neste campo da evangelização da juventude, não deixou de reforçar o que já se vinha fazendo, embora dificultando um aspecto fundamental: a articulação, considerada como o melhor instrumento para suscitar a formação de jovens caminhando para o empoderamento, a autonomia ou, então, o protagonismo. A revitalização é uma exigência da vida; também o é da ação pastoral. Uma das formas de sempre se renovar é saber alimentar-se da Palavra de Deus.
IHU On-Line – Na sua avaliação, a juventude está mais consciente do seu papel como ator social?
Hilário Dick – Toda a humanidade e também toda a juventude, com o decorrer da história, cresce em consciência social. Assim como se descobrem e se conquistam novos direitos, também vão-se conquistando e descobrindo novos deveres. É arriscado dizer que a juventude, hoje, tem mais consciência. A juventude atual não é melhor nem pior que a juventude de outrora: ela é diferente. Assim como nos anos 1960 a juventude tentou fazer tudo o que fez sem TV, sem celular, sem internet, etc., a juventude de 2012 deve tentar fazer tudo o que pode com os auxílios que a técnica e a comunicação oferecem. Nos últimos tempos estamos vendo manifestações juvenis significativas em várias partes do mundo. Poderiam ser mais? Poderiam ser melhores? Ser ator social nem sempre é fácil. Assim como também não foi. O mundo dos adultos não quer e nem pode entregar, nas mãos da juventude, o protagonismo e a autonomia. Isso sempre será conquista e sempre será conflitivo.
IHU On-Line – Quais os limites e desafios da Igreja diante da Juventude?
Hilário Dick – O documento 85 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, desenvolvendo sua doutrina sobre a evangelização da juventude, chama-se Desafios e Perspectivas da Evangelização da Juventude. Não vou repetir o que está exposto nesse documento. Você faz, no entanto, outra pergunta, dizendo: "O que a juventude procura na Igreja e o que a Igreja tem para oferecer a esta juventude". Eu gostaria de responder às duas questões numa só resposta. Pensando bem, a Igreja e a juventude se encontram: a Igreja naquilo que ela deveria ser e a juventude naquilo que ela sonha com uma instituição como a Igreja. Acentuaria cinco aspectos:
1) a juventude quer vivência grupal. Nunca houve tanta busca dessa vivência como nos dias de hoje. É falso dizer que a juventude não quer viver em grupo. Por outro lado, a essência da Igreja é ser comunidade (ecclesia). Não se entende uma Igreja que não seja e não promova a comunidade, o grupo. Por isso a juventude espera acolhida;
2) a juventude espera ser reconhecida em sua realidade concreta. A Igreja, por sua vez, que não se encarna nas diferentes realidades onde deseja anunciar a Boa Nova, não é a Igreja de Jesus Cristo que se encarnou. É nessa inserção que nasce o profetismo e a juventude deseja uma Igreja profética;
3) a juventude quer ser ela mesma, quer deixar de ser massa para ser povo, isto é, um segmento organizado. Por outro lado, na Igreja, a pastoral orgânica e a colegialidade episcopal fazem parte de seu ser. É só na organização que a juventude vai construir a sua autonomia e seu protagonismo. Não há outro instrumento;
4) a Igreja tem consciência de que ela, como Deus, deve ser acompanhante. Nas últimas Diretrizes Gerais da CNBB, os bispos até dizem que a Igreja é a casa da iniciação cristã. A juventude não quer caminhar sozinha; ela sonha com a presença de alguém que saiba ser “companheiro”, alguém que, com ela, coma do mesmo pão. Portanto, as duas vocações se encontram;
5) a juventude sonha com uma formação que seja integral, que a ajude em todas as suas dimensões. Um dos maiores vazios que ela sente é a ausência destes/as companheiros. Por outro lado, a Igreja diz nas suas Diretrizes que ela é e deseja ser uma Igreja a serviço da vida plena para todos. Por isso que afirmamos que não é grande a distância entre a Igreja e a juventude.
Voltando às JMJ, devemos ter presente essas realidades por parte da Igreja (instituição) e por parte da juventude. Se for grande a distância entre os sonhos e as vocações, o diálogo será mais difícil.
IHU On-Line – Quais os desafios de passar de uma igreja episcopal para uma igreja ministerial?
Hilário Dick – A pergunta é simples e complexa. Suponho que a pergunta pense “igreja episcopal” como aquela onde os bispos “mandam” demais, esquecendo-se que também fazem parte do “povo de Deus”. Infelizmente estas contradições também acontecem na Igreja: esquecer-se de sua identidade... A reflexão que desejaria fazer refere-se a uma das doenças de nossa Igreja: o clericalismo. No clericalismo o “leigo” está de um lado, na parte que não decide, que recebe ordens; quem decide é o clero. Um dualismo que não tem sentido, mas que é muito forte em toda a parte, também no trabalho com a juventude. Parece que se tem medo de estar próximo, de perder a autoridade. Isso pode ser visto igualmente nas JMJ. Nem o padre nem o bispo deixam de ser o que são se forem capazes de se misturarem com a juventude, nem quando deixam que a juventude entre no “comando” das grandes plenárias, das grandes concentrações etc. Clero e pastores devem convencer-se de que, embora a “autoridade” seja algo que venha de “fora”, antes de tudo ela é algo que vem de “dentro”, onde todos são “povo de Deus”. É muito estranho que o discurso da “aparência” esteja tão forte em nossa Igreja. É preciso voltar à simplicidade que aprendemos com Jesus de Nazaré.
O triste é que a ostentação reforça o clericalismo; ela não aproxima. Além disso, esmaga, oprime, provoca uma cisão. É um “encanto” perigoso. Saber ser próximo da juventude e do povo é uma graça, mas é igualmente uma conquista, fruto de estudo, leitura, presença, pesquisa, observação, abertura à novidade. As JMJ serão ações de aproximação quando o espírito de Jesus de Nazaré se manifestar, também, nestas grandes concentrações.
IHU On-Line – O que espera da visita do Papa ao Brasil no próximo ano, quando participará da Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro?
Hilário Dick – Deixemo-lo primeiramente vir. Claro que é bem-vindo. O povo brasileiro e a juventude brasileira vão estar de festa. Depois, talvez, possamos fazer uma avaliação. Sonhamos, contudo, que nosso Papa não deixe de estimular a juventude do mundo para que sejam uma novidade no seguimento a Jesus Cristo, indo além das sacristias e dos templos, proclamando o Reino de Deus e não só incentivando o amor à Igreja.
Fonte: Unisinos, via Amai-vos Tweet
Primavera cristã: uma esperança mundial
Charge: El Roto
É hora de aliar-se com o humanismo secular e com os mundos diferentes do europeu.
"Cristo é a força que deve transformar a história. E a Igreja deve falar mais de Cristo. Senão, ela se comporta como um treinador que tem na equipe Maradona e Messi e mantêm ambos no banco". Dom Vincenzo Paglia, bispo de Terni e assistente da Comunidade de Santo Egídio sorri. Seu novo livro, Cercando Gesù [Buscando Jesus] (Ed. Piemme), escrito com o presidente da Rai Cinema, Franco Scaglia, se abre e se fecha em Jerusalém, é fortemente marcado pela atmosfera da Semana Santa e da Páscoa, tem acentos dolorosos, até mesmo dramáticos, que relembram os calvários medievais e A Paixão de Cristo de Mel Gibson. Mas, no fundo, traz uma mensagem de alegria.
"Na era do primado da ciência, do aparente domínio da tecnologia, a Igreja tem realmente uma chance formidável: a aliança entre cristianismo e humanismo", diz Dom Paglia. "Depois de três séculos de primado da razão sem Deus, sintetizados por De Lubac com a fórmula do 'drama do humanismo ateu', se abre uma era completamente diferente. Se Nietzsche anunciava a morte de Deus, e se nos massacres dos totalitários e nos excessos do capitalismo morreu também o ser humano, Deus e ser humano renascem juntos em uma só pessoa: Jesus. Mas muitas vezes os homens da Igreja falam de outras coisas. Perdem-se em questões de poder. Dão um peso muito excessivo à razão. A razão pode sustentar a fé no caminho para Deus, não pode substituí-la. O [Giovanni] Papini de Un uomo finito, que se rende à impossibilidade de elevar o ser humano à divindade, me lembra a busca de Agostinho: a consciência dos nossos limites não é o fim, mas sim o início; o ser humano parte da razão, mas não chega ao fim sem a fé".
Sobre o papa, o livro de Paglia tem palavras de grande admiração e afeto, define como extraordinária a escolha de um pontífice para liberar a escrivaninha e a agenda para escrever um livro sobre Jesus, que deve completar a trilogia dedicada por Bento XVI à figura de Cristo; assim como reconhece que, sobre a tragédia da pedofilia, o papa impôs uma linha clara e corajosa.
Mas também é verdade que, segundo Paglia, "não poucos homens da Igreja não captam plenamente o seu grande potencial de falar ao mundo moderno e de orientá-lo. Por isso, Bento XVI faz bem ao insistir sobre uma 'nova' evangelização".
"Um ano atrás, tivemos a primavera árabe. Por que não temos a primavera cristã? Por que, da América do Sul, não surge uma figura carismática como a de Dom Romero? Por que a energia liberada pelo Concílio como que se dispersou? Devemos recomeçar da figura de Cristo que transforma a história. E a transformação é eficaz se se tornar cultura, se conseguir fazer uma aliança com mundos diferentes do nosso. Como não ver que a Europa, curvada pela crise financeira e social, pode ter na a Igreja uma força em defesa do ser humano e uma aliada para construir um novo humanismo? E o alfabeto do humanismo são as Escrituras, particularmente o Evangelho. Muitas vezes, foi assim no passado".
No seu livro anterior, o best-seller In cerca dell'anima [Em busca da alma], os dois coautores identificaram o mal que consumia a Itália na inércia. Desde então, o cenário mudou, o espírito de Todi contribuiu para abrir uma nova temporada político-cultural, marcada por um compromisso direto dos católicos. Em Cercando Gesù, um padre atento ao social como Dom Paglia investiga uma dimensão nova, teológica, ligada também às sugestões literárias dos Evangelhos.
São interessantes as páginas sobre a natureza diferente da ressurreição de Lázaro, que volta milagrosamente à vida de homem e que, portanto, morrerá de novo, e a de Cristo, que renasce à vida do espírito e que, por isso, nunca morrerá mais, marcando o início de um novo mundo. É inesquecível a imagem de João Paulo II, que, durante a viagem à Terra Santa por ocasião do Jubileu do ano 2000, visitou o Santo Sepulcro, mas, por prudência, foi mantido longe da escada que sobe ao Gólgota, no temor de que a doença lhe negasse as forças para subi-la. Mas Wojtyla não quis deixar Jerusalém sem beijar, uma última vez, a rocha que acolheu a cruz de Jesus. Assim, à tarde, voltou de repente ao Sepulcro. Os religiosos tiveram que suspender as funções, os turistas foram literalmente postos para fora, e o papa fica por um longo tempo com o rosto e as mãos estendidas: "Naquele momento, consciente de que o cristianismo começava a partir dali, de onde o madeiro da cruz foi plantado e se elevou ao céu, João Paulo II tocava as alturas dos místicos".
O que resta hoje dos ensinamentos de Jesus, da sua indignação, da sua caridade, do seu sacrifício? Hoje, Jesus vive nos pobres, responde Dom Paglia, citando a Elsa Morante de La storia: "Eu jamais fui embora de vocês. São vocês que, todos os dias, me lincham, passam por mim sem me ver. Eu, todos os dias, passo perto de vocês mil vezes, me multiplico por tantos quantos vocês são, os meus sinais preenchem cada centímetro do universo, e vocês não os reconhecem...".
Por isso – sintetiza Dom Paglia – "Jesus não é um professor de moral, e o cristianismo não é apenas um sistema de valores. É a síntese entre ser humano e Deus, é o encontro com uma Pessoa que desorganiza o universo como o conhecemos e faz novas todas as coisas. O mundo de amanhã não espera nada mais além de que a Igreja anuncie a sua palavra".
- Aldo Cazzullo, para o jornal Corriere della Sera, 19-03-2012. Tradução: Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU. Tweet
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Sociedade cristã x mentalidade cristã
Foto: Isaac Cordal
Admiravelmente lúcido o Fabrício Cunha na reflexão que publicou hoje em seu blog. Dando prosseguimento à nossa reflexão sobre a sociedade brasileira e o Estado laico, reproduzimos em parte aqui (para ler na íntegra, clique aqui):
Quando pequeno, lembro-me bem de um adesivo colado no vidro traseiro do Kadet preto de nossa família. Dizia o seguinte: “O Brasil é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso!”
Orávamos por líderes evangélicos envolvidos em posições estratégicas na política de forma que nos beneficiassem pelo fato de estarem no poder. Nos beneficiassem não, beneficiassem a fé cristã evangélica e os seus propósitos.
(...) Enfim… Desde a época da formação do povo de Israel ou, de forma mais patente, da época de Jesus Cristo, nossa expectativa e propósitos se baseiam mais na formação de uma sociedade cristã do que de uma mentalidade cristã para a sociedade como um todo.
Quem quer formar uma sociedade cristã, tem um projeto de poder. Queremos conquistar espaços estratégicos e pessoas estratégicas de forma que, ocupando tais posições, tenhamos os nossos interesses garantidos. (...) E quem de nós nunca ouviu a afirmação política: irmão vota em irmão”?! Mesmo que tais interesses sejam a priori bons, vivemos numa sociedade múltipla, formada por todo tipo de gente que precisa ter seus direitos e liberdade resguardadas assim como nós mesmos queremos que nossos direitos e liberdade o sejam. Assim, um projeto de tomada de poder não parece ser a melhor expressão que o corpo de Cristo pode tomar aqui na terra.
O projeto de Jesus de Nazaré nada tem a ver com tomada de poder, mas com a formação de uma nova mentalidade baseada numa outra cosmovisão, que têm o amor como fonte de motivação e propósito final. É por isso que em várias de suas palavras, Ele inverte as lógicas do pensamento corrente, propondo uma nova forma de ver, pensar e agir. Vemos isso, por exemplo, em todo o Sermão da Montanha, onde os protagonistas são os fracos e irrelevantes; em sua conversa com a samaritana, onde rompe todos os paradigmas sociais para declarar-se Messias a uma mulher; no “lava-pés” ao quebrar a hierarquia e colocar-se de joelhos para servir aos discípulos; em Mt 25. 35, onde estabelece a solidariedade como caminho para a glória; em sua declaração messiânica em Lc 4. 18-19, onde, de tantos textos gloriosos sobre o Messias, escolhe um que enfatiza a sua identidade mais simples.
O projeto de Jesus não é de poder. Aliás, Filipenses 2. 5-11 nos diz claramente que seu projeto é abrir mão do poder, em vistas do amor. E Paulo começa esse texto dizendo: “seja a atitude de vocês a mesma de Cristo.”
Portanto, estamos comprometidos não em tomar a sociedade de assalto, implementando nela um projeto cristão "goela abaixo", mas em servir a sociedade, influenciando-a por meio de uma mentalidade que é contra-cultural tantas vezes, rejeitada outras tantas, mas que ganha legalidade não pelo poder que requer, mas pela humildade constrangedora e inspiradora de quem se ajoelha, toma a toalha e a bacia e lava os pés de toda gente, sem querer nada em troca.
Assim, quando perguntados porque somos, pensamos e agimos dessa forma, teremos legitimidade e espaço de fato para “darmos a razão de nossa fé”. Então essa revolução de amor ganhará mais e mais proporção, fazendo do Brasil não o país do Senhor Jesus, mas um país onde se vê mais e mais a face de Cristo no meio do povo. Tweet
Efetivar o Estado laico
Charge: Paixão
Aproveitando todo o debate gerado ontem acerca da laicidade do Estado brasileiro, suscitado pelo julgamento, pelo STF, da legalidade da interrupção da gravidez de fetos anencéfalos (a esse respeito, recomendamos o excelente guest post sobre o tema no blog Escreva Lola Escreva e este artigo publicado na Carta Maior), reproduzimos o artigo a seguir, de Tulio Viana, publicado originalmente na Revista Fórum.
O monoteísmo não é nada democrático. A crença em um deus único pressupõe a negação da existência do deus do vizinho. Pior: pressupõe que os mandamentos do seu deus são mais justos que os do deus do vizinho. E é natural que todos aqueles que se arroguem o direito de falar em nome deste deus único e todo-poderoso não primem muito pelo pluralismo. Quem ousaria contestar alguém que fala em nome de um deus onipotente, onipresente e onisciente?
A história está repleta de casos de políticos que sustentaram seu poder em nome de Deus. A teoria do “Direito Divino dos Reis”, em voga no século XVII, deu a Luiz XIV a necessária fundamentação ideológica para tornar-se o maior monarca absolutista da França: “L`État c`est moi” (O Estado sou eu) é a frase que melhor sintetiza o poder do mandatário de Deus na Terra.
No século seguinte, a mão de Deus não evitou que as cabeças de seus representantes na Terra rolassem e só então os ideais iluministas de separação entre direito e religião começaram a prevalecer. Nascia, assim, a concepção de um Estado laico que viria a nortear as democracias ocidentais até hoje.
No Brasil, durante todo o Império, o catolicismo continuou sendo a religião oficial, e as demais eram apenas toleradas (art.5º da Constituição de 1824). Como Estado confessional, o imperador antes de ser aclamado jurava manter aquela religião (art.103) e cabia a ele nomear os bispos (art.102, XIV). Somente com a proclamação da República, o Brasil se tornou um Estado laico, garantindo assim a separação entre Estado e religião (art.72, §3º a 7º da Constituição de 1891).
A atual Constituição brasileira de 1988 não deixa dúvidas quanto ao caráter laico de nosso Estado, garantindo expressamente a liberdade de crença, a liberdade de culto e a liberdade de organização religiosa (art. 5, VI da CR) e estabelecendo claramente a separação entre Estado e religião (art.19, I, da CR).
E “nunca antes na história deste país” esta separação entre direito e religião foi tão importante. Com a expansão das religiões neo-pentecostais nos últimos anos, o catolicismo, que sempre foi francamente majoritário no Brasil, começou a perder espaço e os brasileiros começaram a deparar com os problemas típicos do pluralismo religioso.
Divergências de crenças de um povo 90% cristão
Pesquisa Datafolha de maio de 2007 mostrou que 64% dos brasileiros se declaram católicos, 17% evangélicos pentecostais ou neo-pentecostais, 5% protestantes não pentecostais, 3% espíritas kardecistas, 1% umbandistas, 3% outra religião e 7% sem religião.
Poderíamos simplificar estes números e afirmar que o Brasil é um país 90% cristão, mas, na verdade, estas religiões divergem sobre pontos significativos de suas doutrinas, a começar por católicos e protestantes. Para os protestantes, a Bíblia é a única fonte de revelação de Deus e eles tendem a interpretá-la em sentido mais literal. Já os católicos acreditam também na Sagrada Tradição, isto é, nos ensinamentos orais transmitidos pelos cristãos ao longo dos séculos, como complementares ao texto bíblico. Daí surgem diferenças importantes: católicos adoram os santos e Maria, mãe de Cristo; os protestantes, não. Os católicos reconhecem o Papa como líder espiritual e acreditam nos sete sacramentos como instrumento para sua salvação; os protestantes creem que somente a fé em Jesus é capaz de salvá-los. Católicos interpretam o livro do Gênesis, que narra a história de Adão e Eva, como uma metáfora; alguns protestantes o interpretam literalmente e defendem o ensino do criacionismo na escola.
Mas há diferenças significativas também entre as Igrejas Protestantes históricas (Batistas, Luteranos, Presbiterianos, Metodistas e outras) e as Pentecostais (conhecidas no Brasil como evangélicas). A principal delas é a de que os pentecostais acreditam que o Espírito Santo continua a se manifestar nos dias de hoje, por meio das práticas de curas milagrosas, profecias e exorcismos, entre outras.
Há diferenças substanciais também entre o Pentecostalismo Clássico (Assembleia de Deus, Congregações Cristãs, Deus é Amor e outras) e o Movimento Neo-Pentecostal (Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Renascer em Cristo e outras). A primeira delas é visível: os pentecostais clássicos se vestem com roupas bastante formais por imposição das Igrejas: homens de terno; mulheres de saias longas e cabelos compridos. Outros usos e costumes rígidos normalmente são impostos aos fiéis, como por exemplo, não assistir à TV e não praticar esportes e, para as mulheres, não se depilar ou usar anticonceptivos. O conservadorismo é a tônica da doutrina pentecostal clássica, que se baseia no ascetismo e no sectarismo. Já os neo-pentecostais são bem mais liberais, não se vestem de forma determinada e têm como principal foco a Teologia da Prosperidade, que propugna que os fiéis têm o direito de desfrutar uma vida terrena com saúde e riquezas materiais. Para tanto, precisam demonstrar sua devoção a Deus doando suas economias de modo a se tornarem credores de Deus em uma dívida que será paga com a concessão das dádivas divinas. O sacrifício ascético do corpo é substituído por um sacrifício econômico em honra de Deus.
Finalmente, os neo-pentecostais têm uma divergência inconciliável com os espíritas. Ambos creem em manifestações sobrenaturais na vida cotidiana. Os espíritas acreditam na reencarnação e creem que estas manifestações são causadas por espíritos de pessoas comuns que faleceram e ainda não reencarnaram. Já os neo-pentecostais não acreditam em reencarnação e nem na possibilidade de os mortos se comunicarem com os vivos. Para eles, estes espíritos são na verdade manifestações do demônio e, portanto, precisam ser combatidos. Daí o motivo de tanta hostilidade entre evangélicos e espíritas: enquanto estes creem na possibilidade de conversar com os espíritos de parentes e amigos já falecidos, aqueles os acusam de conversar com demônios.
Neste contexto fervilhante de crenças, nada mais natural que se retomem as discussões sobre a importância do Estado laico. Enquanto o Brasil era um país com população quase que exclusivamente católica, a maioria simplesmente impunha suas crenças sobre a minoria que, de tão pequena, não levantava sua voz para lutar pelo Estado laico.
Basta ver os crucifixos afixados nas paredes dos tribunais e órgãos públicos brasileiros. Se até então o símbolo do predomínio católico em nossos tribunais só incomodava à pequena minoria não-cristã da população, atualmente muitos protestantes já se insurgem contra ele. Infelizmente, em 2007, o Conselho Nacional de Justiça decidiu que os crucifixos nos tribunais não violam o princípio constitucional da laicidade, por se tratar de um costume já arraigado na tradição brasileira. Com este simplório argumento, os conselheiros do CNJ justificariam até mesmo a escravatura que, quando foi abolida em 1888, ainda era costume no Brasil. Se costume fosse fundamento jurídico para justificar o próprio costume, as mulheres ainda teriam que se casar virgens, não haveria o divórcio e o adultério ainda seria crime. Fato é que tribunais e órgãos públicos são mantidos com dinheiro público e não devem expressar as crenças pessoais de seus dirigentes. Os crucifixos não são, pois, apenas um símbolo do predomínio católico, mas antes de tudo de uma apropriação privada da coisa pública para a manifestação de crenças pessoais.
Ensino religioso nas escolas públicas
A questão atualmente mais polêmica que decorre do princípio constitucional da laicidade é a do ensino religioso, de matrícula facultativa, nas escolas públicas, previsto expressamente no art.210, §1º, da Constituição Brasileira.
O Acordo Brasil-Vaticano (Decreto 7.107/10) que em seu art.11, §1º, prevê “o ensino religioso, católico e de outras confissões religiosas” provocou imediata reação da sociedade civil ao colocar em risco a igualdade de tratamento entre as religiões. A constitucionalidade do dispositivo está sendo contestada atualmente no Supremo Tribunal Federal (ADI 4.439) pela Procuradoria-Geral da República, que defende corretamente que o ensino religioso no Brasil deva ser não-confessional, limitando-se, pois a um apanhado teórico da diversidade de religiões existentes em nosso país.
Melhor seria, porém, que o Estado deixasse cada família decidir sobre a melhor formação religiosa de seus filhos, matriculando-os em cursos fornecidos pelas próprias Igrejas e outras instituições religiosas. Uma emenda constitucional que abolisse o ensino religioso nas escolas públicas resolveria de vez a controvérsia relegando a formação religiosa para a esfera exclusivamente privada.
A meta do Estado laico
O Estado laico ainda é uma meta a ser perseguida pelo Direito brasileiro. Se na questão dos crucifixos e do ensino religioso, a manifestação de cristãos não-católicos tem sido decisiva para colocar em pauta os debates, as violações do princípio da laicidade tendem a ser menosprezadas quando há consenso entre católicos e protestantes.
Veja-se, por exemplo, o art.79, §1º, do Regimento Interno da Câmara dos Deputados, que prevê que “a Bíblia Sagrada deverá ficar, durante todo o tempo da sessão, sobre a mesa, à disposição de quem dela quiser fazer uso”. Se o Estado é de fato laico e a religião não deve ser fundamento da elaboração das leis, qual sentido há neste dispositivo? Se o deputado é cristão, que compre sua própria Bíblia e a leve consigo.
O nome do deus monoteísta tem sido usado sem maiores pudores na esfera pública, sob o argumento de que contemplaria todas as religiões. Alega-se que o preâmbulo da Constituição de 1988 se refere expressamente à “proteção de Deus” e, portanto, o ateísmo estaria excluído da liberdade de crença. Trata-se de um falso fundamento jurídico, já que o preâmbulo, por sua própria definição, é o texto que antecede a norma e, portanto, não faz parte dela. Em suma: não tem qualquer valor normativo.
A liberdade constitucional de crença é também uma liberdade de descrença, e ateus e agnósticos também são cidadãos brasileiros que devem ter seus direitos constitucionais respeitados. O mesmo se diga em relação aos politeístas, que acreditam em vários deuses e não aceitam a ideia de um deus onipotente, onisciente e onipresente.
Um bom exemplo do uso do nome de Deus com violação do princípio da laicidade é a expressão “Deus seja louvado” no dinheiro brasileiro. Como não incomoda à maioria da população, acaba sendo negligenciada em detrimento dos direitos constitucionais dos ateus, agnósticos e politeístas, que ainda não são bem representados no Brasil. Já se vê, porém, algumas destas expressões riscadas à caneta nas notas brasileiras, o que é uma clara manifestação de descontentamento com o desrespeito à descrença alheia.
O paradoxal desta menção de Deus no dinheiro brasileiro é que a Bíblia narra (Mateus: 22, 21) uma passagem na qual Jesus rechaça uma tentativa de uso político de seus ensinamentos e reconhece a importância do Estado laico, referindo-se justamente à moeda romana: “Dai o que é de César a César, e o que é de Deus, a Deus”. Das duas, uma: ou o Deus cristão mudou de ideia nestes últimos dois mil anos ou seus representantes na Terra andam excedendo os limites da procuração por Ele outorgada.
- Túlio Vianna
Reproduzido via Revista Fórum Tweet
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