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domingo, 27 de maio de 2012

Uma fé para além do ressentimento


“Como teólogo, penso que as contribuições de Girard são múltiplas. Uma das maiores é que ele permite uma nova maneira de conceitualizar nossos discursos sobre Deus, tirando qualquer violência dele”, reflete James Alison [que participará da mesa-redonda em nosso evento no dia 3/6, aqui no Rio de Janeiro - mais informações aqui] na entrevista exclusiva que concedeu por telefone à IHU On-Line. Ele analisa a possibilidade de uma fé para além do ressentimento. Em sua opinião, isso é possível “quando você está disposto a ocupar o lugar vitimário sem se pensar heroico, mas simplesmente estando lá sem ter necessidade de se contrastar com ninguém”. E frisa: “Nenhuma catequese ou evangelização que não estejam dispostas a ir ao encontro das pessoas podem ser consideradas algo diferente de uma maquiagem”.

Outro tema da conversa com Alison foi a questão do desejo rivalístico. James explica que o desejo não nasce em nós, mas nos outros. “Assim, nossos desejos são ‘emprestados’”. E pondera: “Nossa capacidade de desejo, como vem do outro, sempre traz consigo o risco de ser um desejo rivalístico”.

James Alison (Londres, 1959) é teólogo católico, sacerdote e escritor. Com estudos em Oxford, é doutor pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE, de Belo Horizonte. É considerado um dos principais expositores da vertente teológica do pensamento de René Girard. Atualmente é Fellow da Fundação Imitatio, instituição que apoia a divulgação da teoria mimética. Há mais de 15 anos é um dos raros padres e teólogos católicos assumidamente gays. Seu trabalho é respeitado em todo o mundo pelo caminho rigoroso e matizado que tem aberto nesse campo minado da vida eclesiástica. Seus sete livros já foram traduzidos para o espanhol, italiano, francês, holandês e russo. Em português podem ser lidos Uma fé além do ressentimento: fragmentos católicos numa chave gay (São Paulo: É Realizações, 2010 com introdução de João Batista Libânio, SJ [leia aqui]) e O pecado original à luz da ressurreição (São Paulo: É Realizações, 2011). Seu trabalho mais recente é A vítima que perdoa – uma introdução para a fe cristá para adultos em doze sessões. A versão em língua inglesa será lançada em texto e vídeo ainda em 2012 com a possibilidade de versões em outros idiomas em andamento. James Alison reside em São Paulo, onde está iniciando uma pastoral católica gay e viaja pelo mundo inteiro dando conferências, palestras e retiros. Textos seus podem ser encontrados no site www.jamesalison.co.uk. Mais detalhes sobre a Fundação Imitatio encontram-se disponíveis aqui.

Confira a entrevista, aqui reproduzida via IHU.


IHU On-Line – Por que o dogma do pecado original sempre foi alvo de críticas?
James Alison – O pecado original tem sido alvo de dois tipos de críticas. A primeira delas é porque vem sendo associado, há muito tempo, com uma visão muito primitiva da antropologia ou das origens humanas em termos de paleontologia, ou seja, aquilo que já se sabe sobre as origens. À medida que as pessoas imaginam que a doutrina do pecado original tem a ver com Adão e Eva no Jardim do Éden (e tudo fica em torno dessa questão) parece que, na mente popular, a doutrina está vinculada a uma visão ultrapassada das origens humanas. Acrescento que, na verdade, trata-se de uma falsa caracterização da doutrina essa associação de Adão e Eva no Jardim. O segundo motivo é porque desde o Iluminismo o pensamento ocidental não tem gostado muito da ideia de que a nossa razão seria, digamos, viciada. O mundo da ilustração gosta de pensar que somos “inocentes”, e que o mal está nos outros, que nascemos inocentes e estruturas sociais ruins fazem com que a vida seja difícil. Procuram, assim, salvar a suposta inocência da humanidade e acham que a doutrina do pecado original é uma acusação provinda de um deus cruel e vingativo. Essa segunda crítica é muito menos ouvida ultimamente. Nos últimos 50 anos ouve-se falar no colapso da mente ilustrada como um crescente entendimento de como somos violentos desde os nossos começos. É muito menos difícil agora pensar os seres humanos como não inocentes do que era há umas cinco décadas atrás.

IHU On-Line – Em que aspectos o pecado original é a base indispensável de toda a doutrina da salvação?
James Alison – Não é a base indispensável, porque a base é de onde começa. O pecado original é uma das conclusões de toda a doutrina da salvação. A doutrina do pecado original é uma visão retrospectiva, ou seja, no centro da fé cristã está a vivência entre nós, da morte, da paixão e da ressurreição de Jesus. A partir da ressurreição como dom do Espírito Santo é que o grupo apostólico começa a poder olhar para trás, pensando que imaginávamos como era a vida e agora podemos encará-la de outra forma. Jesus abriu nossos olhos sobre que tipo de pessoa o ser humano é capaz de ser: um ser humano não fadado à morte, não necessariamente movido pelas violências que estão na base de toda a comunidade humana. A partir desse momento em que se olha retrospectivamente, percebe-se que desde o início da humanidade (e a palavra Adão é uma espécie de atalho para se refletir os começos de toda humanidade) a cultura humana tem sido, de alguma maneira, desenvolvida na morte. Agora estamos entendendo essa cultura como contingente, e não necessária. Não fomos feitos para isso, mas para outra coisa. A doutrina não é a base, mas a visão retrospectiva a partir da ressurreição, e algo necessário. É o sinal de quanta diferença fez Jesus.

IHU On-Line – Em que sentido a salvação conseguida por Cristo é a superação de toda religião sacrificial?
James Alison – Essa é a proposta de Girard, e eu a compartilho. Na base de toda a forma de cultura humana existe aquilo que ele chama de bode expiatório. Temos a tendência de criar uma unidade entre nós por contraste com um outro ruim, que é “jogado fora”, seja sacrificado, expelido ou banido, mas que, desde o começo, dos nossos antepassados mais próximos aos macacos, quando os antropoides estavam desenvolvendo uma capacidade de imitação cada vez maior, começou a haver as possibilidades de uma cultura humana com base neste mecanismo sacrificial de construir unidade e distinguir quem está dentro, e quem está fora. Segundo Girard, o que Jesus teria feito é voltar diretamente ao cerne de um assunto do passado, ocupando o lugar da vítima de maneira voluntária, não porque Deus precisa castigar alguém, mas para abrir os nossos olhos para nossa necessidade de castigar alguém. O típico de nossa vivência humana é imaginar que dependemos de um outro julgado ruim, perigoso, contaminante, vergonhoso para mantermos a nossa própria unidade e bondade no sentido de comunidade. Ao ocupar voluntariamente este lugar, Jesus estaria explodindo a partir de dentro o mecanismo de manutenção da ordem, da lei e bondade de toda cultura humana. Por isso poder-se-ia falar na morte de Jesus como sendo precisamente a superação de toda religião sacrificial. A partir disso, não faz mais sentido o sacrifício.

IHU On-Line – Como a hipótese mimética de René Girard ajuda a compreender esse dogma?
James Alison – Quero enfatizar a importância do que é uma visão retrospectiva no sentido daquilo que o pensamento de Girard nos permite fazer, e entender melhor essa visão restrospectiva. A partir da ressurreição, quando se percebe como os humanos podem ser, olhamos para trás e nos damos conta de que pensávamos algo como normal, e depois nos espantamos com isso. O que parecia destino era, na verdade, contingência. Não somos seres fadados à morte, mas à vida. Isso altera todas as relações entre nós.

IHU On-Line – A partir do pensamento de Girard, como é possível distinguir entre o desejo possessivo/rivalístico e o desejo pacífico/criador?
James Alison – O centro do pensamento de Girard é que desejamos segundo o desejo do outro. O desejo não nasce em nós, mas no outro. Isso nos incita a desejar. Assim, nossos desejos são “emprestados”. Isso significa que tipicamente nos achamos dentro de rivalidades antes mesmo de nos darmos conta de que isso está acontecendo. Para que haja um desejo, em primeiro lugar, este precisa ser pacífico. É o caso da criança desejante. Muito do que ela quer é incitado pelos próprios pais. É interessante notar o quanto o desejo tende a ser rivalístico inclusive nas crianças pequenas. Desde cedo, os pequenos podem ficar com raiva se percebem que outras crianças ao seu lado estão sendo atendidas primeiro. Não pensemos que somos inocentes durante muito tempo e que depois não o somos mais. Nossa capacidade de desejo, como vem do outro, sempre traz consigo o risco de ser um desejo rivalístico. Ninguém de nós consegue viver sem rivalidade, inclusive para construir nossa identidade por contraste com os outros. Em nosso caso, esse desejo possessivo ou rivalístico é o normal, tal como se apresenta em nossa vida. É o que mais há, e aquilo que todas agências de publicidade conhecem muito bem. Se você quer vender algo, você tem que dar a impressão à pessoa de que ela precisa daquilo. Quando uma modelo aparece vendendo alguma coisa, tem-se a impressão de que, se adquirirmos aquilo, seremos como ela. O difícil em todos os casos é voltarmos a descobrir aquilo que é possível dentro do nosso desejo, que é a possibilidade de uma emulação, uma imitação não rivalística. Quando recebemos o que vem do outro sem a necessidade de “agarrar” esse desejo. É o sentido saudável, e o que chamo de desejo pacífico. Girard fala em desejo mimético sobretudo para a versão mais negativa do desejo. Em princípio, existe o desejo apropriativo, que aparece “agarrando”. E há o desejo pacífico, aquele que é de imitação sem essa necessidade de “agarrar”.

IHU On-Line – O pensamento de Girard oferece subsídios para pensarmos uma fé para além do ressentimento?
James Alison – O que é interessante no pensamento de Girard é que ele aceita o desafio de Nietzsche, o pensador que acusou o cristianismo de ser ressentido e dependente desse sentimento. Alguns dos textos mais bonitos de Girard são, justamente, textos em que ele discute Nietzsche. Descobri que Girard, ao desmascarar o mecanismo do bode expiatório, da vitimização que há na base da sociedade, também nos oferece a possibilidade de pensar de forma não vitimária. Essa é a grande novidade para mim. Em vez de se pensar o herói ou vítima, que na verdade são a mesma pessoa, trata-se de reconhecer a cumplicidade dentro daqueles mecanismos sem ser levado por eles. Isso é a possibilidade da fé além do ressentimento. É dar-se conta de que se é partícipe de um mundo no qual a vitimização está por todas as partes. Mas estou disposto a aprender a amar mesmo dentro de toda essa confusão. Isso Nietzsche não entendeu no cristianismo, mesmo que chegou muito próximo disso, segundo Girard. Mesmo que Nietzsche tenha optado por Dionísio em lugar do Crucificado.
Uma fé além do ressentimento é quando você está disposto a ocupar o lugar vitimário sem se pensar heroico, mas simplesmente estando lá sem ter necessidade de se contrastar com ninguém. Em termos de vivência pessoal, isso é o mais fundamental: como deixar de se considerar vítima ou herói. Como perder o ressentimento e chegar a desenvolver o papel de irmão, ou irmã em vez de vítima ou herói, um processo de humanização. É o que busco elaborar.

IHU On-Line – O pensamento de Girard oferece subsídios para uma melhor compreensão da questão gay em nossa sociedade?
James Alison – Sim, oferece, mesmo que a questão gay não seja um dos interesses principais de sua obra. É possível vermos como Girard entende os mecanismos violentos de exclusão que os diferentes grupos humanos fazem com uma série de grupos considerados perigosos, contaminantes, diferentes. A partir disso, chegam a ser bem compreensíveis os mecanismos irracionais que levam à exclusão e tratamento indigno das pessoas gays e lésbicas em nossa sociedade precisamente porque chegam a ser portadores de acusações estereotipadas, como se estivessem causando o colapso da sociedade, da família e da moral.

Essas acusações são feitas contra alguém que é “dispensável”, que você quer convenientemente jogar fora, sem ter que olhar para as causas reais do que está acontecendo. Dizer que os gays estão provocando o colapso da família é uma declaração que só pode partir de uma pessoa que não quer prestar atenção nas dinâmicas reais das famílias modernas. Atribuem esse poder maléfico aos gays, que são um grupo muito pequeno para uma realidade social grande, que são as mudanças na maneira de ser família. Isso é ridículo, especialmente em se considerando que os próprios gays são membros de famílias. Chega-se a dizer que deixar os gays casarem irá provocar o colapso do matrimônio.

O que, na verdade, provoca o colapso do matrimônio é o comportamento dos heterossexuais em seus relacionamentos matrimoniais. Já é muito para nós, pessoas gays ou pessoas heterossexuais, arcar com os fracassos de nossos próprios relacionamentos! Para a mentalidade sacra, contudo, esses argumentos não importam. O que importa é poder desenhar o mal, e, uma vez que este fique desenhado, torna-se possível construir uma falsa bondade às costas da vítima. Esse é o mecanismo que Girard desvela. Nossas sociedades são, sim, sacrificiais, seguindo padrões arcaicos, nos pensando modernos e ilustrados.

IHU On-Line – Quais são as maiores contribuições de Girard para a filosofia e a teologia no século XXI?
James Alison – Suas maiores contribuições são um desafio de uma antropologia nova, entendendo a maneira como os “bichos” humanos, que se comportam de maneira imitativa, se comportam e como constroem suas sociedades, sem recorrer para ideias muito idealistas. Precisamos nos fixar num entendimento de mecanismos muito humanos na construção da sociedade. Isso é a insistência girardiana.

Como teólogo, penso que as contribuições de Girard são múltiplas. Uma das maiores é que ele permite uma nova maneira de conceitualizar nossos discursos sobre Deus, tirando qualquer violência dele.

Sabe-se que grande parte do discurso sobre Deus tem sido viciado pela atribuição de violência para poder entender a morte de Jesus de maneira salvífica. Várias teorias da salvação, expiação e redenção pensam assim. Então, pela primeira vez em muitos séculos, Girard nos permite entender de uma nova forma a maneira pela qual a morte de Jesus é salvífica sem que isso atribua qualquer tipo de violência a Deus. Essa é uma questão fundamental.

Outra área na qual Girard faz muita diferença na Teologia é na questão da leitura bíblica. Isso porque Girard é um leitor de textos a partir de sua intuição mimética. E é como leitor de textos que nos ajuda a ler o Antigo e Novo Testamento e mostrar, pela primeira vez em séculos, uma maneira de perceber como o Novo Testamento se aninha dentro do Antigo. Isso nos permite avançar além daquelas tendências do cristianismo que não prestam atenção ao Antigo Testamento porque é demasiado violento, ou aquela posição fundamentalista de deixar que o Novo Testamento seja totalmente dominado pelo Antigo.

IHU On-Line – Em que medida suas ideias podem ajudar a “arejar” a Igreja Católica?
James Alison – Na verdade, só o Espírito Santo poderia arejar a Igreja Católica, uma vez que ela ainda é muito resistente... Girard nos permite elaborar um novo paradigma da fé, entender de novo a fé cristã. Em vez da explicação da fé que recebíamos nos catecismos antigos, muito moralistas, chega a ser possível agora entender a fé de maneira orgânica, como boa nova, com o pensamento de Girard como catalizador. Esse é o dom fundamental que esse autor nos oferece.

É a possibilidade de uma nova evangelização que seja autenticamente boa nova, e não o moralismo antiquado disfarçado de alta tecnologia moderna, muito chique e atual, mas que ao ter seu véu retirado, mostra a mesma incapacidade de tratar com questões como a relativa aos gays, por exemplo. Nenhuma catequese ou evangelização que não estejam dispostas a ir ao encontro das pessoas podem ser consideradas algo diferente de uma maquiagem.

Em segundo lugar, destaco que ao nos desvelar o mecanismo do bode expiatório, Girard nos oferece a possibilidade de fazer uma autocrítica institucional constante. Isso em termos eclesiásticos talvez seja a contribuição mais interessante, se é que estamos dispostos a fazê-lo. A partir do Cristo ressuscitado, da vítima que está no nosso meio, começarmos a ser autocríticos com os posicionamentos vitimários de nossos mecanismos eclesiásticos. Mesmo fora do âmbito da igreja isso é algo de fundamental importância.

Na sociedade moderna nos damos conta do quanto pesam as instituições sobre nós. Como seres humanos dependemos fatalmente das instituições. Ao mesmo tempo, nos damos conta de que elas nos movem fora do nosso controle. É difícil tomarmos responsabilidade por nossa vida institucional. As vozes dissonantes são as de pessoas “jogadas fora”, que passam a protestar e se colocar contra essas instituições. Por isso a possibilidade de uma vivência autocrítica, que não tem necessidade de recorrer a estes jogos vitimários, seria um dom muito, muito grande para nós todos.

sábado, 26 de maio de 2012

Hoje, mesa-redonda "Diversidade sexual e diversidade religiosa na perspectiva do Estado Laico"


* * *

Atualização em 28/05/12:
Nosso amigo e colega de mesa Sergio Viula conta, em seu blog, como foi o debate. Leia aqui.

Vem Espírito Santo e ensina-nos a viver


A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 20, 19-23 que corresponde ao Domingo de Pentecostes, ciclo B do Ano Litúrgico.

O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Pouco a pouco aprendemos a viver sem interioridade. Já não precisamos estar em contato com aquilo que há de melhor em nosso coração. É suficiente para vivermos distraídos nas nossas ocupações. Contentamo-nos com funcionar sem alma e nos alimentarmos somente de pão. Não gostamos de nos expor na busca da verdade. Vem Espírito e liberta-nos do vazio interior.

Já não sabemos viver sem raízes e sem metas. É suficiente nos deixarmos programar externamente. Movemo-nos e agitamo-nos sem cessar, mas não sabemos o que desejamos e para onde vamos. Estamos cada vez melhor informados, mas sentimo-nos mais perdidos que nunca. Vem Espírito e liberta-nos da desorientação.

Quase não nos interessam as grandes questões da existência. Não nos preocupa ficarmos sem luz para enfrentarmos à vida. Transformamos-nos em pessoas céticas e ao mesmo tempo mais frágeis e inseguras. Queremos ser inteligentes e lúcidos. Por que não encontramos sossego e paz? Por que a tristeza nos visita tão seguidamente? Vem Espírito Santo e liberta-nos da escuridão interior.

Queremos viver mais, viver melhor, viver sem tempo. Mas viver o quê? Queremos nos sentir bem; buscamos nos sentir melhor. Mas para que? Procuramos desfrutar intensamente da vida, tirar proveito ao máximo, mas nos contentamos somente com passar bem. Realizamos aquilo que gostamos. Apenas há algumas proibições ou terrenos vetados. Por que desejamos alguma coisa diferente? Vem Espírito Santo e ensina-nos a viver.

Queremos ser livres e independentes e nos encontramos cada vez mais a sós. Necessitamos viver em grupo, mas às vezes nos fechamos no nosso pequeno mundo. Necessitamos nos sentir queridos e não sabemos criar contatos vivos e amistosos. O sexo é nomeado “amor” e o prazer “felicidade”. Mas quem saciará nossa sede? Vem Espírito Santo e ensina-nos a amar.

Na nossa vida já não há espaço para Deus. Sua presença ficou reprimida ou atrofiada dentro de nós mesmos. Cheios de ruídos interiores, já não conseguimos escutar sua voz. Dedicados a milhares de desejos e sensações, não conseguimos perceber sua proximidade. Sabemos dialogar com todo o mundo, menos com ele. Temos aprendido a viver de costas ao Mistério. Vem Espírito Santo e ensina-nos a acreditar.

Sejamos crentes ou não crentes, pouco a pouco vamos virando poucos crentes e maus crentes e assim peregrinamos muitas vezes pela vida. Na festa cristã do Espírito Santo Jesus disse para todos nós aquilo que um dia falou para seus discípulos exalando seu espírito sobre eles: “Recebam o Espírito Santo”. Esse Espírito que sustenta nossas pobres vidas e anima nossa débil fé pode entrar em nós por caminhos que somente ele conhece.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

A polarização não interessa a ninguém

Da esquerda para a direita: Steve e Maria Newnum, Luiz Modesto, Luiz Silva, 
Pr. Célio Camargo, Arnaldo Adnet, D. Anuar Batisti e Pe. Rildo. 
Foto enviada pelo Pr. Célio, via Facebook

Conforme havíamos comentado aqui, após a repercussão deste texto do blog um dos fundadores do Diversidade Católica viajou a Maringá, a convite dos organizadores da Parada LGBT local, para participar dos eventos previstos na programação da semana, entre eles um encontro entre representantes de grupos religiosos da região e do movimento LGBT. Foi um momento de encontro entre pessoas que se abriram para a troca e o diálogo franco e honesto, que já começou a gerar frutos - alguns bem notórios, como este; outros, talvez mais importantes, menos visíveis. Haverá outros, haverá muitos (como o evento que realizaremos no próximo dia 03/06 no Rio de Janeiro - mais informações aqui). É por isso que trabalhamos.


Nosso querido Arnaldo conta como foi o encontro. 

Na sala de reuniões da Arquidiocese de Maringá, Paraná, dia 18 de maio, às 17h, o arcebispo Dom Anuar Battisti recebeu o organizador da Parada LGBT de Maringá e representantes religiosos ligados ao movimento gay [conforme contamos aqui].

Ao lado do Arcebispo, seu secretário e um padre, Rildo.

Entre os religiosos estávamos eu, Arnaldo Adnet - representando o movimento Diversidade Católica - do Rio de Janeiro, um pastor luterano de Maringá e sua esposa, também teóloga, que ressaltaram estar ali em seus nomes pessoais e não representarem a Igreja; além do Pr. Célio Camargo, da Igreja da Comunidade Metropolitana de Maringá, com seu companheiro.

Luiz Modesto, o organizador da Parada, abriu a reunião lembrando o primeiro encontro entre ele o o Bispo, a respeito do que teria sido uma provocação dos gays contra a Igreja de Maringá, ao usarem uma imagem estilizada da Catedral no cartaz da Parada LGBT que aconteceu dia 20 [história que contamos aqui]. No primeiro encontro, Luiz desculpou-se e negou qualquer intenção de ofensa ou provocação, mas aproveitou a ocasião para apresentar ao Bispo os números referentes às vitimas da homofobia nas cidades de sua Arquidiocese. Dom Anuar mostrou-se sensibilizado e acolheu a proposta de desenvolver um trabalho pastoral no sentido de frear a violência. Foi quando decidiram convidar religiosos que já trabalhassem a questão da diversidade sexual para um encontro.

O Pastor Célio, da ICM, contou como transformou sua casa de madeira em uma igreja que abriga jovens expulsos de suas famílias, entre eles travestis, soropositivos, que não freqüentavam escola nem vislumbravam qualquer possibilidade de inserção social. Falou-nos dos rapazes que já deixaram sua casa com um emprego e educação em curso. Mas disse também que alguns pais acreditam que ele influencie seus filhos, induzindo-os à homossexualidade, e ameaçam processá-lo. Alguns dos presentes se surpreenderam quando o pastor Célio contou que rezavam para Nossa Senhora, e que muitos dos membros de sua comunidade eram de formação católica.

Todos quiseram saber quem eram os membros do Diversidade Católica e como eram nossas relações com a Igreja. Contei-lhes um pouco da minha história, de nascido família católica com um tio frei e 2 tias freiras. Contei como havia recebido educação religiosa, passando por colégio religioso, que fiz Primeira Comunhão; fui líder de grupo jovem e catequista, fui coordenador da Pastoral da Juventude, que recebi o Papa, na visita de 1980, até decidir deixar de evitar minha vocação homoafetiva e fazer a escolha que parecia inevitável: seguir fiel aos valores e princípios segundo os quais havia sido educado e que mais tarde abraçara por escolha própria, ou ser fiel a mim mesmo, aos meus sentimentos e desejos, ainda que para tal tivesse que abrir mão daqueles valores. Disse que foi preciso um longo, duro e tortuoso caminho para chegar até este momento.

Perguntado sobre nossa relação com o Magistério da Igreja Católica, contei-lhes que contamos com a orientação espiritual de um sacerdote e que individualmente estávamos cada um inserido em suas próprias paróquias. As relações variam caso a caso; entre nós há desde um Ministro da Eucaristia - investido pelo pároco, que o conhece e sabe de sua orientação sexual e sua inserção no DC - até o jovem que foi destituído de suas funções de coordenador da Crisma e da Pastoral da Juventude após ter aberto em confissão ao pároco sua orientação sexual. Mas esse mesmo jovem, na Jornada Mundial da Juventude em Madrid, interpelou o Arcebispo do Rio de Janeiro sobre a relação da Igreja com os gays, e Dom Orani respondeu que a Igreja precisava voltar novo olhar para esta questão [como o próprio rapaz relatou aqui]. Lembrei que o pároco da minha Igreja – a Paróquia da Ressurreição – me convidara a falar para toda a comunidade sobre homossexualidade e fé católica. Contei também que canto no Coral da Igreja e que frequento a missa com minha mãe e meu companheiro. Disse que, assim como estes padres, vários outros podem até não se pronunciar publicamente sobre a questão, mas não hesitam em abrir os braços para receber-nos sem julgamento, no puro exercício do amor cristão.

Disse também que posso até sonhar com a aprovação do clero às uniões homoafetivas, mas que não alimento ilusões de imediato e que não é isso o que me preocupa. O que não é aceitável são os crimes de ódio aos gays, crimes que vão muito além das estatísticas oficiais de assassinatos e agressões cruéis, mas que começam nas casas de famílias ditas religiosas. Ainda mais inaceitável é o fato de que muitos desses crimes sejam praticados com argumentos religiosos. Todos se lembraram então de casos diversos de ataques covardes de agressores de rua ou de abandonos, não menos covardes, por parte de pais envergonhados de seus filhos travestis, transexuais, transgêneros, lésbicas e gays.

Falamos também dos pais que transformaram vergonha em orgulho e até em razão de viver - alguns deles após atos de violência que levaram seus filhos a agressões e até à morte.

Sensibilizado neste momento, Dom Anuar contou que no sábado viajaria justamente para uma reunião de bispos sobre violência contra jovens e adolescentes, em Foz do Iguaçu. Pediu-nos um documento com dados oficiais sobre vitimas da homofobia em seu Estado e disse que estaria tudo sob o mesmo guarda-chuva.

Agradecemos sua disponibilidade, mas ressaltamos que não se tratava da mesma coisa. Que era preciso dar nome aos bois. Lembramos de como Oscar Wilde chamava o amor entre iguais de “o amor que não ousa dizer seu nome”, e de como os gays viveram séculos à sombra da História, sujeitos ocultos ou inexistentes aos olhos gerais. Choveram exemplos e razões para que esta violência específica fosse nomeada e citada explicitamente.

Falei de como recusamos a oposição entre gays e Igreja e quão pouco interessante esta polarização é para ambas as partes. Lembrei de como a imprensa já antecipa a tradicional polêmica confrontando opiniões de lado a lado - como no episódio da aprovação da união estável entre pessoas do mesmo sexo pelo STF. Na ocasião, a cada manifestação favorável, os jornalistas procuravam representantes da posição contrária na CNBB [e, no entanto, como mostramos aqui, não foram poucas as vozes a favor, mas que não chegaram ao grande público]. Como se a garantia de legítimos direitos civis sem qualquer conotação religiosa pudesse abalar valores cristãos [como discutimos aqui]. Falamos muito sobre a armadilha implícita neste tradicional antagonismo: aos gays é vetada associação a uma vida espiritual e à Igreja é imputado o lugar de fonte geradora de toda a homofobia.

O pastor luterano Robert Stephen e sua esposa, Maria Newnum, expressaram a emoção de todos diante do relato do Pastor Célio e propuseram um pacto de solidariedade, ao exemplo de cristianismo verdadeiro, comparando os abrigados da ICMos excluídos de nossos dias – aos samaritanos, leprosos e os excluídos do tempo de Jesus, que Ele insistia em amar. O Bispo recomendou os serviços da Casa de Emaús, que o Pastor Célio disse ser exatamente onde eles obtinham medicamentos e cestas básicas.

O Padre Rildo, então, pediu a Dom Anuar que desse permissão para que ele fosse visitar a casa. Passado algum tempo de reflexão e após outras intervenções, o Bispo autorizou-o a visitar a ICM.

Esclarecemos a dúvida do Bispo sobre a lei que garante aos trans o uso de nome condizente a seu gênero, como forma de evitar evasão escolar e de tratamentos de saúde. Entreguei ao Bispo uma cópia que havia levado do artigo "Homossexualidade e Evangelização" [que estamos publicando aqui no blog, em partes, às quintas-feiras - e você pode acessar pela tag "homossexualidade e evangelização", aqui]. O padre Rildo fez questão de fazer uma cópia, na hora.

Ao final da reunião o Bispo convocou-nos a formular em conjunto um release único sobre o encontro. Ele mesmo sugeriu que falássemos da necessidade de abalar a tal polarização Igreja vs. gays. Nem os gays devem ser privados de sua vocação espiritual, nem a Igreja deve ser confundida como foco de ódio aos gays ou como fornecedora de munição ou justificativa para ataques homofóbicos. Comprometemo-nos todos a trabalhar pelo enfraquecimento deste antagonismo.

- Arnaldo Adnet

Nota da equipe do blog:
No dia seguinte ao encontro relatado acima pelo Arnaldo, D. Anuar deu à Rádio CBN de Maringá uma entrevista em que defendeu uma mudança de postura da Igreja em relação aos homoafetivos. Se você ainda não ouviu, vale ouvir aqui.

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Todos, cristãos e não-cristãos, gays e não gays, estão convidados para o evento "O Amor de Cristo nos Uniu - Gays cristãos na Igreja Católica", que realizaremos no dia 3/6, na UNIRIO. Vamos debater e refletir sobre as possibilidades de conciliação, encontro e diálogo entre fé cristã e diversidade sexual - e mostrar que há mais pontos de convergência do que estamos habituados a perceber.

Estamos esperando vocês!

Mais informações aqui

O Concílio Vaticano II e a liberdade religiosa


De acordo com Philippe Chenaux, Diretor do Centro de Estudos sobre o Concílio Vaticano da Pontifícia Universidade Lateranense, a declaração Dignitatis Humanae (DH) sobre a liberdade religiosa, é um documento de importância histórica "dos maiores documentos do Concílio".

Falando no dia 3 de maio para o ciclo de conferências organizado pelo Centro de Estudos e Pesquisas sobre o Concílio Vaticano II da Lateranense em colaboração com o Centre Culturel Saint Louis de France sobre o tema "Revisar o Concílio, Historiadores e teólogos confrontando-se", o professor de História da Igreja Moderna e Contemporânea contou o trabalho que deu esta declaração e como os padres conciliares embora partindo de posições diferentes e em alguns casos opostas chegaram a votar com grande maioria a Dignitatis Humanae.

A declaração sobre a liberdade religiosa era considerada pelo Papa Paulo VI como um dos grandes documentos do Concílio, não tanto pelo seu tamanho (trata-se de um dos textos mais curtos), e nem sequer pela forma (é uma declaração simples), mas sim pelo seu conteúdo.

Para o prof. Chenaux a DH "resolvia dois dos problemas mais difíceis com que a Igreja se enfrentava há pelo menos dois séculos: o problema da relação entre liberdade e verdade, a nível teórico ou teológico, e aquele das relações entre a Igreja e o Estado moderno, a nível político-eclesiástico”.

O debate sobre a liberdade religiosa tem sido controverso, porque "apesar da Igreja sempre ter afirmado a liberdade do ato de fé", ou seja, que "ninguém pode ser forçado a abraçar a fé contra a sua vontade", era necessário superar o legado da aliança institucional dos poderes espirituais e temporais, da intolerância religiosa subsequente à reforma e contrareforma e uma certa intransigência durante o século XIX.

O professor da Lateranense explicou que "A tese intransigente do Estado Católico tinha permanecido oficial pela Igreja, pelo menos, até o final do pontificado de Pio XII" quando "A dolorosa experiência dos totalitarismos (o comunismo, o nazismo, o fascismo) tinham contribuído para uma redescoberta pelo Magistério da Igreja da eminente dignidade da pessoa humana e dos seus direitos fundamentais".

Em mensagens de rádio no tempo de guerra, em Natal de 1942 e no Natal de 1944, Pio XII enfatizou a dignidade da pessoa humana e a importância de uma democracia saudável.

Para Chenaux já antes da Segunda Guerra Mundial, a Igreja era incapaz de conformar os poderes do Estado com o reconhecimento de Deus e da Igreja. Nos Pactos de Latrão com a Itália fascista (1929); o Reichskonkordat com a Alemanha nazista (1933); e o Concordato com a Espanha de Franco, em '53, a Igreja adotou uma política de defender o "mal menor", a fim de garantir a liberdade da Igreja, do clero, dos católicos e de todos os cidadãos.

No concílio as duas posições, a mais ortodoxa e a outra que abria para o mundo tendo em conta a mudança dos tempos, se confrontaram, ao ponto de que a elaboração da DH "foi até o último momento trabalhosa e difícil".

Chenaux disse que, mesmo em maio de '64 "O debate entre apoiantes e opositores do texto (da DH) foi muito amargo". Os bispos norte-americanos e muitos bispos da Europa do Leste (especialmente poloneses) "afirmaram a necessidade de reconhecer um direito com base na natureza da pessoa humana. Os segundos, ou seja, os adversários, expressaram a convicção de que não se podia separar a liberdade religiosa da verdade e dos seus direitos".

No debate interveio o então Arcebispo de Cracóvia, monsenhor Karol Wojtyla, que propôs preparar duas declarações: "uma dirigida aos cristãos não-católicos com um espírito ecumênico, para dizer que a verdade cristã nos torna livres, e outro dirigida aos governos, uma declaração ad Extra, que servia aos interesses da Igreja nos países comunistas".

Em dezembro de 1964, a pedido do Papa Paulo VI, também foi consultado o filósofo Jacques Maritain, que em um memorando entregue ao papa em março de 1965, lembrou com vigor que "a liberdade religiosa deve ser proclamada e mantida como um dos direitos humanos fundamentais da pessoa humana".

Acontece assim que no dia 7 de dezembro de 1965, com 2308 placet e 70 non placet, a declaração DH foi aprovada e promulgada pelo Papa Paulo VI.

A DH diz: "Este Concílio declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa, esta liberdade consiste no fato de que todos os homens devem estar livres de coação por parte de indivíduos e grupos sociais e de todo poder humano para que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a sua consciência, nem impedido dentro dos devidos limites a agir de acordo com sua consciência, em particular, publicamente, sozinho ou associados com outros".

O jesuíta José Leclerc, professor de eclesiologia no Institut Catholique de Paris e autor de uma obra sobre a história da tolerância na idade moderna, escreveu na revista Etudes em abril de 1966, que foi um "acontecimento extraordinário" na história dos Concílios.

- Antonio Gaspari
Tradução: Thácio Siqueira. Reproduzido via Zenit

quinta-feira, 24 de maio de 2012

“O Amor de Cristo nos uniu”: Gays cristãos na Igreja Católica


É com grande alegria que convidamos a todos para o evento que vamos realizar no dia 3 de junho próximo aqui no Rio de Janeiro, para refletirmos juntos sobre como viver a fé cristã e ser gay. A programação inclui uma mesa-redonda e alguns depoimentos de gays cristãos, que compartilharão suas histórias pessoais. A entrada é franca e receberemos com prazer todos - gays e não-gays, cristãos e não-cristãos - para conversarmos sobre as possibilidades de encontro e diálogo, para que nos enriqueçamos e cresçamos juntos.

A programação é a seguinte:

14h     Abertura: A história do Diversidade Católica, desde 2007 (Arnaldo Adnet e Valéria Wilke)
14h30  Mesa-redonda: Fé cristã e diversidade sexual
1. “A verdade que emerge” (James Alison, padre católico, teólogo e escritor)
2. “Panorama bíblico sobre a homossexualidade” (Marcio Retamero, mestre em História Moderna/UFF e pastor da Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo e da Igreja da Comunidade Metropolitana Betel do RJ)
3. “Diversidade sexual e fé católica dentro de um Estado Laico” (Cristiana Serra, psicóloga e católica leiga)
16h30  Coffee break
16h45  Gay e cristão: depoimentos pessoais
17h45  Encerramento

O evento acontecerá no Auditório do CCET da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro/UNIRIO - Av. Pasteur, 456 - Botafogo/Praia Vermelha (veja o mapa para chegar a partir da rodoviária aqui e a partir do Aeroporto Santos Dumont, aqui). 

Atenção para dois detalhes: Há na região duas universidades vizinhas, a UFRJ e a UNIRIO. Nosso evento  será na UNIRIO. Além disso, o prédio da UNIRIO em que será realizado o encontro fica depois do Instituto Benjamin Constant. Portanto, NÃO é o prédio da reitoria colado à UFRJ, e sim o do campus do final da av. Pasteur, mais próximo ao bondinho do Pão de Açúcar. Para quem for de ônibus, peça ao motorista pra descer no ponto mais próximo ao Pão de Açúcar, que é exatamente ao lado da entrada do estacionamento do campus da UNIRIO onde ocorrerá o evento. As linhas que circulam na Urca são 107 (Central), 511, 512 e 513 (circulares da Zona Sul). Além disso, há um micro-ônibus que faz integração na estação de metrô Botafogo. Para quem for de carro, o estacionamento do campus estará liberado no dia.

Clique na imagem para ampliar

O portão do campus, bem ao lado do último ponto de ônibus da Av. Pasteur, 
antes do bondinho do Pão de Açúcar

Do portão até o auditório, é só atravessar o estacionamento

Aproveitem para acompanhar a página do evento no Facebook, aqui, onde vocês também podem aproveitar para tirar qualquer dúvida que tenham (bem como pelo e-mail contato@diversidadecatolica.com.br)

Para quem quiser nos ajudar a divulgar, segue abaixo um panfleto com a programação e demais informações.

Clique na imagem para vê-la e fazer download em tamanho maior



Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos (2)

Foto: Tony Park

Começamos a publicar na quinta-feira passada, em 6 partes (que você acessa na tag "Homossexualidade e evangelização"), o artigo "Homossexualidade e evangelização: desafios contemporâneos", do Pe. Luís Correa Lima, SJ, divulgado pelo Centro Loyola de Fé e Cultura, da PUC-Rio, como uma síntese do curso Diversidade Sexual, Cidadania e Fé Cristã, realizado em 2010 e 2011. O artigo, que sairá sempre às quintas-feiras pela manhã, tem como objetivo fornecer subsídios a religiosos e leigos, agentes de pastoral e outros para entender melhor e encontrar meios de lidar, dentro do contexto da Igreja Católica, com os desafios pastorais da relação e cuidado da população LGBT, no foco do acolhimento respeitoso e amoroso.

Evangelizar neste contexto
Para a Igreja, a lei de toda a evangelização é pregar a Palavra de Deus de maneira adaptada à realidade dos povos, como lembra o Concílio Vaticano II. Deve haver um intercâmbio vivo e permanente entre a Igreja e as diversas culturas dos diferentes povos. Para viabilizar este intercâmbio – sobretudo hoje, em que tudo muda tão rapidamente, e os modos de pensar variam tanto – ela necessita da ajuda dos que conhecem bem a realidade atual, sejam eles crentes ou não. O laicato, a hierarquia e os teólogos precisam saber ouvir e interpretar as várias linguagens ou sinais do nosso tempo, para avaliá-los adequadamente à luz da Palavra de Deus, de modo que a Revelação divina seja melhor compreendida e apresentada de um modo conveniente (Gaudium et spes, nº44).

A correta evangelização, portanto, é uma estrada de duas mãos, do intercâmbio entre a Igreja e as culturas contemporâneas. Só se pode saber o que a Palavra de Deus significa hoje, e que implicações ela tem, com um suficiente conhecimento da realidade atual, que inclui a visibilização da população LGBT e os seus direitos humanos.

Certa vez o papa Bento XVI afirmou que o cristianismo não é um conjunto de proibições, mas uma opção positiva. E acrescentou que é muito importante evidenciar isso novamente, porque essa consciência hoje quase desapareceu completamente [Entrevista, Agência Zenit, 16 ago. 2006]. É muito bom que um Papa tenha reconhecido isto. Há no cristianismo uma tradição multissecular de insistência na proibição, no pecado, na culpa, na condenação e no medo. O historiador Jean Delumeau fala de uma ‘pastoral do medo’, que com veemência culpabiliza e ameaça de condenação eterna para obter a conversão. Isto não se deu somente no passado. Também hoje, em diversas igrejas e ambientes cristãos, muitos interpretam a doutrina de maneira extremamente restritiva e condenatória, com obsessão pelo pecado, sobretudo ligado a sexo.

Sem obsessão pelo pecado, o caminho do diálogo se abre. É preciso também respeitar a autonomia das ciências e da sociedade, como determina o Concílio (Gaudium et spes, nº36). Não cabe hoje encaminhar os gays a terapias de reversão ou a ‘orações de cura e libertação’, que frequentemente são formas escamoteadas de exorcismo. No diálogo ecumênico e inter-religioso da Igreja, recomenda-se conhecer o outro como ele quer ser conhecido, e estimá-lo como ele quer ser estimado. O conhecimento e a estima recíprocos são também o melhor caminho para o diálogo entre a Igreja e o mundo gay.

Neste diálogo, os ensinamentos da Igreja devem ser vistos não a partir da proibição, mas a partir da opção positiva contida na mensagem cristã, como sublinhou o papa. Uma carta da Cúria Romana aos bispos, de 1986, afirma: nenhum ser humano é um mero homossexual ou heterossexual. Ele é, acima de tudo, criatura de Deus e destinatário de Sua graça, que o torna filho Seu e herdeiro da vida eterna. E acrescenta que toda violência física ou verbal contra pessoas homossexuais é deplorável, merecendo a condenação dos pastores da Igreja onde quer que se verifiquem (Homosexualitatis problema, nos16 e 10). A oposição doutrinária às práticas homoeróticas não elimina esta dignidade fundamental do ser humano. Deus criou a todos. O Cristo veio para todos, e oferece o seu jugo leve e o seu fardo suave. Cabe a nós, com fidelidade criativa, conhecermos e darmos a conhecer estes dons divinos.

A posição da moral católica, segundo a carta, baseia-se na razão humana iluminada pela fé, e guiada conscientemente pela intenção de fazer a vontade de Deus, nosso Pai. Esta posição encontra apoio também nos resultados seguros das ciências humanas, que possuem objeto e método próprios e gozam de legítima autonomia. São dignas de admiração a particular solicitude e a boa vontade demonstradas por muitos sacerdotes e religiosos, no atendimento espiritual às pessoas homossexuais. A Congregação para a Doutrina da Fé deseja que tal solicitude e boa vontade não diminuam. Um programa espiritual amplo ajudará as pessoas homossexuais em todos os níveis da sua vida de fé, mediante os sacramentos, incluindo o da penitência, como também através da oração, do testemunho, do aconselhamento e da atenção individual. Desta forma, a comunidade cristã na sua totalidade pode reconhecer sua vocação de assistir estes seus irmãos e irmãs, evitando que se produza neles tanto a desilusão como o isolamento (Homosexualitatis problema, nos2, 13 e 15).

Sobre a condição e as relações homossexuais, um documento anterior da Igreja (Persona humana, de 1975) é frequentemente reiterado. Algumas pessoas são homossexuais por uma espécie de instinto inato ou uma constituição própria incurável, de modo que a sua condição é definitiva. As relações homossexuais, porém, contrariam a ordem moral objetiva [são contrárias à lei natural, como dirá depois o Catecismo da Igreja Católica (§2357)]. Elas são condenadas na Sagrada Escritura como graves depravações, e apresentadas como uma triste conseqüência da rejeição de Deus. Os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados e não podem receber qualquer aprovação. Porém, na atividade pastoral as pessoas homossexuais hão de ser acolhidas com compreensão e apoiadas na esperança de superar as suas próprias dificuldades. A sua culpabilidade deve ser julgada com prudência (Persona humana, nº8).

Sobre a culpabilidade, reconhecem-se certos casos em que a tendência homossexual não é fruto de opção deliberada da pessoa, e que esta não tem outra alternativa, mas é compelida a se comportar de modo homossexual. Por conseguinte, em tal situação ela agiria sem culpa. Sobre isto, a tradição moral da Igreja alerta para o risco de generalizações a partir do julgamento de casos individuais. Mas, de fato, em uma determinada situação podem existir circunstâncias que reduzem ou até mesmo eliminam a culpa da pessoa (Homosexualitatis problema, nº11). Portanto, não se pode afirmar que todos os que praticam atos homossexuais estão em pecado mortal, e devem se afastar dos sacramentos.

Além dos ensinamentos do papa e da Cúria Romana, há interessantes iniciativas e proposições feitas pelos bispos em suas igrejas locais, ou mesmo através de conferências episcopais. Nos Estados Unidos, por exemplo, os bispos escreveram em 1997 uma bela carta aos pais de pessoas homossexuais. O título dela é oportuno e profético: Sempre Nossos Filhos [Always our children, USCCB, 10 set. 1997]. Eles afirmam que Deus não ama menos uma pessoa por ela ser gay ou lésbica. A aids pode não ser castigo divino. Deus é muito mais poderoso, mais compassivo e, se for preciso, mais capaz de perdoar do que qualquer pessoa neste mundo. Os bispos exortam os pais a amarem a si mesmos e a não se culparem pela orientação sexual de seus filhos, nem por suas escolhas. Os pais não são obrigados a encaminhar seus filhos a terapias de reversão para torná-los héteros. Os pais são encorajados, sim, a lhes demonstrar amor incondicional. E dependendo da situação dos filhos, observam os bispos, o apoio da família é ainda mais necessário.

Há muitas famílias que têm filhos gays e sofrem imensamente com isto. Os pais frequentemente culpam a si mesmos e não sabem o que fazer. Esta mensagem é muito oportuna também em nossa realidade social e eclesial. Um novo pronunciamento dos bispos norte-americanos foi feito em 2006, sobre o ministério junto a pessoas com inclinação homossexual. Neste trabalho, os ministros religiosos são convidados a ouvir as experiências, as necessidades e as esperanças das pessoas homossexuais. Assim se manifesta o respeito à dignidade inata e à consciência do outro. Gays e lésbicas podem, dependendo das circunstâncias, revelar a sua condição a familiares e amigos e crescer na vida cristã [Ministry to persons with a homosexual inclination: guidelines for pastoral care. Washington, DC, 2006].

A atitude de humildade e de escuta do ministro religioso é muito importante. Gays e lésbicas são filhos de Deus, e o Espírito divino também age neles. Não se deve jamais desqualificar previamente suas vivências, necessidades e esperanças simplesmente por causa de sua orientação sexual. O fiel homossexual pode ‘sair do armário' sem sair da Igreja. Isto só é possível fomentando nas comunidades cristãs um ambiente que não seja homofóbico e nem hostil.

Continua na próxima quinta-feira, 31/5/12

quarta-feira, 23 de maio de 2012

"O Bom Samaritano" ou "O Bom Travesti"

Escultura: Nic Joly

E perguntaram a Jesus: "Quem é o meu próximo?" E ele lhes contou a seguinte parábola:

Voltava para sua casa, de madrugada, caminhando por uma rua escura, um garçom que trabalhara até tarde num restaurante. Ia cansado e triste. A vida de garçom é muito dura, trabalha-se muito e ganha-se pouco. Naquela mesma rua dois assaltantes estavam de tocaia, à espera de uma vítima. Vendo o homem assim tão indefeso saltaram sobre ele com armas na mão e disseram: "Vá passando a carteira". O garçom não resistiu. Deu-lhes a carteira. Mas o dinheiro era pouco e por isso, por ter tão pouco dinheiro na carteira, os assaltantes o espancaram brutalmente, deixando-o desacordado no chão.

Às primeiras horas da manhã passava por aquela mesma rua um padre no seu carro, a caminho da igreja onde celebraria a missa. Vendo aquele homem caído, ele se compadeceu, parou o caro, foi até ele e o consolou com palavras religiosas: "Meu irmão, é assim mesmo. Esse mundo é um vale de lágrimas. Mas console-se: Jesus Cristo sofreu mais que você." Ditas estas palavras ele o benzeu com o sinal da cruz e fez-lhe um gesto sacerdotal de absolvição de pecados: "Ego te absolvo..." Levantou-se então, voltou para o carro e guiou para a missa, feliz por ter consolado aquele homem com as palavras da religião.

Passados alguns minutos, passava por aquela mesma rua um pastor evangélico, a caminho da sua igreja, onde iria dirigir uma reunião de oração matutina. Vendo o homem caído, que nesse momento se mexia e gemia, parou o seu carro, desceu, foi até ele e lhe perguntou, baixinho: "Você já tem Cristo no seu coração? Isso que lhe aconteceu foi enviado por Deus! Tudo o que acontece é pela vontade de Deus! Você não vai à igreja. Pois, por meio dessa provação, Deus o está chamando ao arrependimento. Sem Cristo no coração sua alma irá para o inferno. Arrependa-se dos seus pecados. Aceite Cristo como seu salvador e seus problemas serão resolvidos!" O homem gemeu mais uma vez e o pastor interpretou o seu gemido como a aceitação do Cristo no coração. Disse, então, "aleluia!" e voltou para o carro feliz por Deus lhe ter permitido salvar mais uma alma.

Uma hora depois passava por aquela rua um líder espírita que, vendo o homem caído, aproximou-se dele e lhe disse: "Isso que lhe aconteceu não aconteceu por acidente. Nada acontece por acidente. A vida humana é regida pela lei do karma: as dívidas que se contraem numa encarnação têm de ser pagas na outra. Você está pagando por algo que você fez numa encarnação passada. Pode ser, mesmo, que você tenha feito a alguém aquilo que os ladrões lhe fizeram.

Mas agora sua dívida está paga. Seja, portanto, agradecido aos ladrões: eles lhe fizeram um bem. Seu espírito está agora livre dessa dívida e você poderá continuar a evoluir." Colocou suas mãos na cabeça do ferido, deu-lhe um passe, levantou-se, voltou para o carro, maravilhado da justiça da lei do karma.

O sol já ia alto quanto por ali passou um travesti, cabelo louro, brincos nas orelhas, pulseiras nos braços, boca pintada de batom. Vendo o homem caído, parou sua motocicleta, foi até ele e sem dizer uma única palavra tomou-o nos seus braços, colocou-o na motocicleta e o levou para o pronto socorro de um hospital, entregando-o aos cuidados médicos. E enquanto os médicos e enfermeiras estavam distraídos, tirou do seu próprio bolso todo o dinheiro que tinha e o colocou no bolso do homem ferido.

Terminada a estória, Jesus se voltou para seus ouvintes. Eles o olhavam com ódio. Jesus os olhou com amor e lhes perguntou: "Quem foi o próximo do homem ferido?"

- Rubem Alves
Fonte: A fé absurda

terça-feira, 22 de maio de 2012

Acreditar é humano; duvidar é divino

Foto: Martin Zalba

Acho muito interessante a frase do meu amigo Peter Rollins : “To believe is human; to doubt divine” – Acreditar é humano; duvidar é divino. Ou seja, onde não houver espaço para a dúvida, também não haverá espaço para especular sobre o que a fé, no sentido mais amplo, significa – Basta analisar a realidade dos personagens bíblicos.

A fé é nostalgia. É um nó na garganta. A fé é mais um passo adiante do que uma posição, mais um pressentimento do que uma certeza.

A fé é espera. Ela está caminhando no tempo e no espaço.

Portanto, se alguém se achega a mim e me pede ( o que acontece com frequência) para falar sobre minha fé, é exatamente sobre essa jornada no tempo e no espaço que falo. Os altos e baixos das lágrimas, os sonhos, os momentos particulares, as intuições. Falo sobre a sensação ocasional que tenho de que a vida não é uma sequência de eventos que gera outros eventos tão a esmo, quanto uma tacada no jogo de bilhar faz que as bolas se afastem em diferentes direções, mas que a vida tem um roteiro, assim como num romance – aqueles eventos que, de algum modo, nos levam a algum lugar.

Embora passe a vida à busca de Deus, com frequência sinto que Deus está na próxima curva do caminho, ali atrás da próxima árvore na floresta. Continuo andando porque gosto de onde a jornada me levou até agora, pois outros caminhos parecem ainda mais problemáticos do que o meu próprio e porque anseio pela conclusão do plano. Conheço pouco das tragédias da vida. Provei sua comédia. Continuo andando porque creio no conto de fadas de que um Deus forte e sábio o suficiente para criar um mundo marcado por tal beleza e bondade será fiel em restaurar sua aparência original. Quero me esforçar para cooperar nesse projeto, e coloco todas as minhas fichas na firme promessa de Cristo, de que, no final , tudo sairá bem. Tanto para mim quanto para todos!

- Nelson Costa Jr.
(Fonte: A fé absurda)

Disseminar a homofobia: a igreja precisa recusar esse papel

Imagem daqui

A Semana Maringaense de Combate a Homofobia antecedeu a Parada LGBT programada para o dia 20 de maio. Entre as personalidades convidadas para as conferências estava o leigo católico Arnaldo Adnet, que integra o grupo Diversidade Católica do Rio de Janeiro [conforme havíamos publicado aqui].

Adnet, juntamente com integrantes do movimento GLBT de Maringá, reuniu-se com o Arcebispo da Arquidiocese de Maringá, pastores e leigos evangélicos para relatar a experiência pastoral experimentada no Rio, onde o grupo recebe o amparo espiritual necessário para o enfrentamento diário das dificuldades sofridas por causa da homossexualidade.

[Leia também: Arcebispo de Maringá defende mudança de postura do clero em relação aos homossexuais]

“Quando me descobri gay, eu mesmo me julguei e me penalizei com a auto-exclusão da igreja católica. Isso provocou um vazio imensurável em minha vida e quase me destruiu. Foi através desse grupo, assessorado por um pároco católico, que regressei a fé. Hoje me sinto íntegro, feliz e sustentado pelo dom infindo do amor de Jesus e da minha igreja. Tenho prazer em afirmar que sou gay e católico”; conclui Adnet.

Para Adnet, mesmo inadvertidamente, a mídia tem colocado as igrejas e os gays em posições antagônicas. Basta um olhar cuidadoso para verificar a procedência dessa afirmação. Historicamente, igrejas e fiéis foram seduzidos e tornaram-se reféns de objetivos díspares da justiça e da paz. Em nome de Deus e na suposta defesa da fé cristã, muito sangue foi derramado nessa terra. Terra esta, onde, ao final, todos os corpos serão recebidos de igual modo e sem acepções de crença ou de sexo.

Havemos, portanto e enquanto o Espírito Santo nos sopra o fôlego da vida, empenhar todas as forças para ajudar nossas igrejas a olharem para cruz e para a mesa; onde, antes de ascender aos céus, Jesus repartiu o pão e o vinho a todos os seus discípulos.

Experiências como as do grupo da Diversidade Católica, demonstram que há mais amor entre cristãos e gays, do que o ódio que a mídia ou pequenos grupos religiosos querem propagar. Abaixo algumas afirmações dos líderes cristãos:

“Não devemos considerar os homossexuais mais pecadores do que alguns que estão dentro da igreja, que são mentirosos, maldizentes, injustos, como bem classificou o Apóstolo Paulo (I Co 6.9-10). A Igreja tem a tendência de considerar um/a adúltero/a um/a pecador/a mais aceitável do que um homossexual” – (A Igreja e a questão do homossexualismo: uma Orientação Pastoral – Colégio Episcopal da Igreja metodista, 2000)

“É legítima a reivindicação dos homossexuais de viver na sociedade sendo respeitados em suas diferenças, sem discriminações ou perseguições que os oprimam”. – Cardeal Dom Geraldo Majella Agnelo, então presidente da CNBB, em depoimento à revista Época (10/1/2005).

“São dignas de admiração a particular solicitude e a boa vontade demonstrada por muitos sacerdotes e religiosos, no atendimento pastoral às pessoas homossexuais; esta Congregação [da Doutrina da Fé] espera que tal solicitude e boa vontade não diminuam”. – Cardeal Joseph Ratzinger, no documento Carta aos bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral de pessoas homossexuais (Roma, 1986, número13).

“A consciência é a intimidade secreta, o sacrário da pessoa, em que se encontra a sós com Deus e onde lhe ouve intimamente a voz. Na consciência revela-se, de modo admirável, a lei que consiste em amar a Deus e ao próximo. A fidelidade à própria consciência é o laço mais profundo que une todos os seres humanos entre si, inclusive os cristãos, na busca da verdade e de uma solução autêntica para os problemas morais que surgem na vida de cada um e na relação de uns com os outros, na sociedade… Ninguém seja levado a agir contra a consciência nem impedido de agir de acordo com ela”. – Documentos do Concílio Vaticano II (1965): constituição pastoral Gaudim et Spes (número 16) e declaração Dignitatis Humanae (número 2).

É tempo de assumirmos, como cristãos e como igreja a posição de autores principais nas cenas cotidianas de compaixão pelas vidas humanas, ao invés de prestarmo-nos ao papel de coadjuvantes disseminadores da homofobia. Que os Anjos e Santos digam amém!

- Maria Newnum, pedagoga e teóloga metodista, em seu blog

Fontes:
Igreja e a Questão do Homossexualismo – Uma Orientação Pastoral
Sob a perspectiva da Igreja

A homossexualidade é o novo comunismo?

Marcha da Família com Deus pela Liberdade, 
em 19 de março de 1964, São Paulo (Folha Imagem)

Vitor Angelo, para o Blogay - e nesta ele se superou: :-)

Para uma certa classe média brasileira, o novo inimigo público do país são os homossexuais. Eles são os novos comunistas. E com o mesmo método de deturpação que foi usado pelos reacionários dos anos 60 para apoiar o golpe de 64 e implantar a ditadura militar, eles costumam espalhar falácias, medos aos mais desinformados. Se o comunista antes comia criancinha, o homossexual é hoje quem o faz. Se os comunistas queriam invadir a sua casa conquistada com o suor de seu trabalho, os homossexuais querem invadir as escolas e transformar jovens em gays, estes jovens que foram educados com tanto suor por seus pais. Enfim, a boçalidade não mudou, só mudou para quem ela está sendo direcionada.

Eles são liderados pelos religiosos fundamentalistas e deram o exemplo que o alvo de seu ódio são os gays na Marcha para Jesus 2012, que aconteceu no sábado, 19.

O pastor Silas Malafaia disse: “Quero que os homossexuais sejam livres para fazer o que quiserem. Eles que querem amordaçar a gente”. Na frente de faixas escritas: “Homossexualismo (sic) é pecado”.

Ele também condenou as igrejas inclusivas, aquelas que aceitam os gays. “Não considero essas igrejas evangélicas. É uma tentativa de dar legalidade a um comportamento que a bíblia condena”. Este é o discurso básico dos fundamentalistas, que são chamados letristas, ou aqueles que seguem ao pé da letra. Sua correlação no islamismo são com os chamados xiitas. Não há espaço para metáforas ou parábolas em suas leituras religiosas.

Nestas aspas dadas à reportagem da Folha, o pastor mostra uma grande soberba e prepotência como se sua leitura da Bíblia fosse a única aceita. Se assim fosse, não teríamos tantas vertentes do cristianismo e muito menos tantas igrejas pentecostais, cada uma seguindo a orientação de seu líder.

No Twitter, o cartunista Carlos Latuff escreveu: “Voltei hoje da ‘Marcha pra Jesus’ com a seguinte impressão: Papai do céu é heterossexual. Tivemos hoje uma reedição da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Ao invés do comunismo, o inimigo agora é o homossexualismo. O Brasil, em algum momento, deverá escolher qual livro seguir. A Constituição ou a Bíblia”.

A descrição é certeira e o militante Willian Righini de Souza [nosso amigo e colaborador assíduo @wrighini] observou: “’Marcha da Família com Deus pela Liberdade’ foi uma marcha religiosa na década de 60 que deu apoio ao Golpe Militar. As igrejas bradavam contra o perigo do comunismo. Hoje o inimigo é a homossexualidade”.

Pois bem: a homossexualidade é o novo comunismo!

Quem desobedece a quem?


A infalibilidade papal não pode legitimar o argumento da autoridade. Mesmo com a voz mais doce e o espírito mais humilde que ninguém contesta a Bento XVI, pode ser que nos encontremos diante de um abuso de poder.

A opinião é do sacerdote francês Patrick Royannais, da diocese de Lyon, em artigo publicado no jornal católico
La Croix, 13-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Durante a última Missa Crismal, Bento XVI se referiu ao apelo lançado por mais de 300 padres austríacos há um ano acerca da urgência das reformas na Igreja: "Recentemente, em um país europeu, um grupo de sacerdotes publicou um apelo à desobediência, referindo ao mesmo tempo também exemplos concretos de como exprimir essa desobediência, que deveria ignorar até mesmo decisões definitivas do Magistério, como, por exemplo, na questão relativa à Ordenação das mulheres, a propósito da qual o beato Papa João Paulo II declarou de maneira irrevogável que a Igreja não recebeu, da parte do Senhor, qualquer autorização para o fazer".

Bento XVI reconhece que esses padres querem servir a Igreja, mas se interroga sobre a pertinência dessa desobediência, e o podemos compreender. Mas desobediência a quem? A Cristo? Não parece se tratar disso. Certamente – de maneira falaz ou por falta de rigor – o papa opõe a "configuração a Cristo, que é o pressuposto para toda a verdadeira renovação", e o "impulso desesperado de fazer qualquer coisa, de transformar a Igreja segundo os nossos desejos e as nossas ideias". Desobediência à Igreja? Isso não é dito. A polêmica diria respeito a apenas um ponto, além disso discutido, do ensinamento de João Paulo II.

O que diz a Igreja? Quem não é fiel? Em quê? Em que âmbito cultural ou intelectual é preciso que nos encontremos para pensar que, dado que o chefe falou, o que ele disse é automaticamente verdadeiro? Nenhum grupo, nenhuma pessoa, nem mesmo o chefe, pode pretender ter a última palavra da verdade. Somos entregues ao conflito das interpretações, não que se possa dizer qualquer coisa ou que a verdade seja subjetiva, mas nada garante de maneira definitiva qualquer interpretação. Fragilidade recentemente reconhecida, mas não nova, da verdade expressa em linguagem humana.

Além disso, será que é preciso lembrar que o chefe da Igreja Católica não é o papa, mas Cristo? Isso evita fazer do governo do papa um regime político mundano e permite ressaltar, com o último Concílio, que todo discípulo está à escuta da Revelação, à qual, incluindo o magistério, quer obedecer.

"O magistério não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente" (Dei Verbum, n. 10).

O papa e os padres austríacos ouvem a palavra do Senhor, mas não compreendem a mesma coisa, pelo menos em pontos muito periféricos, embora decisivos no comportamento da Igreja. Não pode ser posto em causa o seu apego comum de Cristo que revela no Espírito a paternidade de Deus; ou o seu apego à Igreja, que recebe a missão de fazer ressoar a palavra de Jesus e de louvar ao Pai pelos sinais do Reino que germinam no mundo; ou o seu apego à forma histórica da Igreja Católica, em particular na sua estruturação sacramental do ministério.

O conflito das interpretações deriva do contragolpe criado pela secularização e pela crise das instâncias de verdade ou, em outros termos, da conscientização da historicidade da verdade. Para ser fiel ao ensinamento da Igreja, não basta repetir sempre a mesma coisa. Com o tempo, as mesmas palavras, as mesmas práticas têm sentidos diferentes, de modo que aqueles que se limitam a repetir tornam-se inevitavelmente inféis.

Por isso, é preciso comentar continuamente as Escrituras, comentar o Credo, reinterpretar a Tradição da Igreja, reinventar a ação pastoral. A Igreja sempre inovou para ser fiel à sua tradição e à sua missão.

Portanto, há interpretações diferentes ou conflitantes entre esses padres e o papa. Mas quando quem tem a autoridade fala de desobediência passa de um conflito de interpretações à denúncia e à exclusão de uma posição. Bento XVI pretende encerrar o debate, recorrendo de facto ao argumento da autoridade que a grande tradição sempre contestou: "Acima do papa como expressão da autoridade eclesial, existe a consciência, à qual é preciso obedecer acima de tudo, se necessário até contra as exigências da autoridade da Igreja" (Joseph Ratzinger).

Falar de desobediência, em vez de admitir a contingência, o conflito indefinido de interpretações, significa confiscar a autoridade e a verdade. A infalibilidade papal não pode legitimar o argumento da autoridade. Mesmo com a voz mais doce e o espírito mais humilde que ninguém contesta a Bento XVI, pode ser que nos encontremos diante de um abuso de poder. Quem desobedece a quem?

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Terra


Morreram com sete anos e um dia de diferença: Dorothy Stang, missionária norte-americana na região amazônica, que adotou o Brasil como sua própria terra, foi assassinada por seis disparos em 12 de fevereiro de 2005; Dom Ladislao Biernaski, Bispo de San José dos Pinhais e presidente da Comissão Pastoral da Terra ou CPT, organização da Igreja brasileira, morreu de câncer em 13 de fevereiro de 2012.

Dorothy Stang, conhecida localmente como Irmã Dorothy, tornou-se famosa depois de seu trágico final. Vivia em Anapu (uma cidade do Pará), onde promovia um projeto de desenvolvimento sustentável que fomentava a produção familiar cuidando do meio ambiente. Foi assassinada porque seu projeto entorpecia os interesses de proprietários de terras locais. Embora tanto os assassinos como os instigadores do assassinato tenham sido condenados, a irmã Dorothy não estaria contente hoje: O Código Florestal, em caminho de ser aprovado em Brasília, e as controvérsias ao redor da barragem de Belo Monte (terceiro maior complexo hidrelétrico do mundo) abrirá ainda mais as feridas na Amazônia e de seus habitantes indígenas, sem mencionar os danos causados por monocultivos de plantação de agronegócios.

Ladislau Biernaski era uma pessoa apaixonada pela terra, como Jelson Oliveira, membro da CPT escreveu na página web da Comissão: “Com as mãos cheias de calos e as unhas escuras desfrutava orgulhoso mostrando aos visitantes o jardim que ele pessoalmente se encarregara de cuidar, ao lado da singela casa onde vivia. Esta paixão pela terra, herdada de sua família de imigrantes polacos, levou-o a transformar a ‘terra’ numa causa evangélica e política. Com esta motivação, passou anos visitando os acampamentos e assentamentos da comunidade. Com frequência deixava de lado a mitra e outros símbolos episcopais para unir-se solidariamente ao povo, comemorando este compromisso profético pela justiça. Dom Ladislau tinha aprendido a compreender e a explicar a missão pastoral da Igreja aos pobres. Inspirado por essa clareza, participou de inúmeras manifestações dos pobres no Paraná, tanto no campo como na cidade”.

Estas duas testemunhas nos recordam duas coisas. A primeira é que a terra não é uma simples mercadoria ou um ativo financeiro —em contraste com o que os abutres que “açambarcam a propriedade das terras” fazem-nos crer: as multinacionais e os estados que numa década açambarcaram uma superfície que cobre oito vezes o Reino Unido—.

A terra, pelo contrário, é um valor de proteção especial, uma condição essencial para a afirmação da dignidade humana, e também é o “primeiro elemento” da cultura de uma comunidade e sua identidade. Inclusive quando a economia global atual é em grande parte subcontratada, a agricultura se transformou em objeto da lógica da bolsa de valores, e nossa vida cotidiana é cada vez mais mediada pela tecnologia. No entanto, a terra continua sendo especificamente o fator que constitui a base da universalidade dos direitos, já que nos chamamos seres humanos, e nascemos numa só terra (humus).

A segunda mensagem de Irmã Dorothy e Dom Ladislau é principalmente para aqueles que ainda repetem o estribilho de que a Igreja deve abster-se da política para dedicar-se às coisas do céu: O verdadeiro cristão é aquele que se esforça com todas suas forças para tornar o mundo, e de fato a terra, mais habitável.

- Stefano Femminis
Fonte: Mirada Global. Reproduzido via Amai-vos.

domingo, 20 de maio de 2012

"'A videira é Cristo"


Tem-se medo "do significado dado pelo Concílio Vaticano II ao que significa ser católico", da "liberdade de expressão que isso implica". Consequentemente, também existe o medo de permitir que "as vozes críticas sejam ouvidas, porque algumas delas poderiam legitimamente levar à mudança". Uma mudança que gera o temor de perder "poder e controle".

A entrevista é de Ludovica Eugenio, publicada na revista
Adista, nº. 19, 14-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nessa chave de leitura, as irmãs norte-americanas, postas na mira pelo Vaticano com o comissariamento do seu órgão de coordenação mais importante, a
Leadership Conference of Women Religious (LCWR), tornam-se perigosas "porque, talvez, sejam o último grupo organizado a refletir o espírito conciliar do que realmente significa ser Igreja". (Saiba mais sobre o caso aqui)

A Ir. Jeannine Gramick é muito decidida: desde 2001, membro da congregação das Irmãs de Loretto, desde sempre dedicada ao ministério voltado às minorias sexuais e, nesse âmbito, cofundadora, juntamente com o Pe. Robert Nugent, da associação New Ways Ministry, empenhada com a busca da justiça social para gays e lésbicas.

A Ir. Gramick aceitou compartilhar com Adista as suas opiniões e o seu ponto de vista sobre a medida tomada recentemente pelo Vaticano e sobre o futuro da LCWR.

Eis a entrevista, aqui reproduzida via IHU.


Com o Vaticano II, a Igreja, povo de Deus, foi chamada a estar mais perto do mundo. As religiosas norte-americanas encarnaram esse apelo em uma ampla variedade de ministérios, vivendo profundamente no mundo e ouvindo as pessoas que, de diversos modos, se encontram em dificuldades. Pode nos dizer que tipos de ministérios vocês têm desenvolvido?
Antes do início dos anos 1960, as religiosas desenvolviam o seu papel principalmente como professoras nas escolas, ou como enfermeiras ou administradoras nos hospitais. Depois do Concílio Vaticano II, se comprometeram com inúmeras novas formas de ministério. Por exemplo, em atividades relacionadas à justiça e à paz, para mudar as políticas e as estruturas da sociedade e da Igreja, em benefício dos pobres e dos marginalizados. Esse papel foi levado adiante em um ministério de tipo político, que visava à educação e à pressão política, trabalhando com a mídia, com a rádio, com a TV e através de um ministério que se ocupa da ecologia e do cuidado com a terra. Muitas religiosas começaram a defender as pessoas gays e lésbicas e uma participação mais plena das mulheres em todas as formas de ministério eclesial, incluindo a ordenação. Além do tradicional ministério de serviço social, as irmãs foram ao encontro dos divorciados em segunda união, das prostitutas, dos presos, dos sem-teto e das mulheres maltratadas.

O Vaticano aceitou positivamente essa proximidade com o mundo e com as pessoas?
O Vaticano não objetou ao fato de que as irmãs se fizessem mais próximas do mundo e das pessoas, mas contestou as implicações dessa proximidade nos ministérios não tradicionais que se ocupam de política, de sexualidade, ou de ambos. Por exemplo, em 1983, o Vaticano obrigou a Ir. Agnes Mary Mansour a renunciar à congregação das Irmãs da Misericórdia por causa do seu cargo como diretora do Departamento de Serviço Social do Estado de Michigan, que financiava o aborto a mulheres pobres. No meu caso, em 1999, o Vaticano me ordenou a interromper o meu ministério pastoral voltado aos católicos gays e lésbicas, porque eu optara por afirmar que eu não compartilhava a posição tradicional sobre a moralidade da homossexualidade.

Houve inúmeros casos menos conhecidos em que bispos diocesanos puseram em prática as posições vaticanas. Por exemplo, as religiosas receberam a ordem de renunciar à direção de órgãos que tivessem relação com o HIV-Aids, porque promoviam o uso dos preservativos. Algumas religiosas foram demitidas dos seus cargos paroquiais ou diocesanos porque apoiavam a ordenação sacerdotal feminina.

A atual avaliação doutrinal da LCWR pela Congregação para a Doutrina da Fé constitui mais um exemplo disso. As duas objeções concretas citadas pela Congregação foram a posição da LCWR sobre a homossexualidade e sobre a ordenação feminina.

O seu ministério levou a sua congregação, a das Irmãs Escolares de Notre Dame, a excluí-la porque a senhora tinha optado por não obedecer ao silêncio imposto e, em 2001, entrou na Congregação das Irmãs de Loretto que, ao contrário, a apoiaram em seu ministério. Desde então, não teve mais problemas com o Vaticano?
Entre 2001 e 2009, o Vaticano enviou nove cartas à presidente das Irmãs de Loretto referentes ao meu ministério. Em cada uma delas, substancialmente, se afirmava que eu tinha que interromper o meu ministério em favor das pessoas LGBTQ ou seria afastada da vida religiosa. As minhas coirmãs optaram por não me afastar e, neste momento, nem o Vaticano o fez.

Desde 1956, a LCWR representa a maioria das congregações religiosas femininas dos EUA. Quais foram as suas maiores conquistas, atividades e interesses?
A LCWR oferece uma vasta gama de atividades e de programas que são de apoio às superioras e visam a reforçar as relações entre os componentes da LCWR com os outros grupos importantes. Entre essas atividades, há uma oficina anual, que inclui um retiro, para as novas líderes e um manual que ajuda a desenvolver as competências importantes para a Leadership. Ela também produz regularmente materiais escritos, como uma publicação trimestral sobre justiça social, um livrinho de oração e reflexão, um jornal chamado Occasional Papers e e informações sobre justiça e paz.

Acredito que a conquista mais importante da LCWR foi a de ter conscientizado todas as religiosas que a ela aderem, mas também a um público mais amplo, de todos os tipo de temas que envolvem a justiça. Ela oferece reflexões teológicas, análises sociais e sugestões para a ação sobre muitas questões, como a justiça econômica, a defensa dos pobres, o diálogo com o Islã e inter-religioso, a pena de morte, a reforma das políticas de imigração, as mudanças climáticas e as questões ambientais, a reforma da saúde, as armas nucleares, o testemunho contra a tortura, o cancelamento da dívida para os países empobrecidos, o tráfico de órgãos e a militarização do espaço, e muitos outros assuntos ligados à justiça. A lista é praticamente inesgotável.

Nos últimos anos, as religiosas estiveram no alvo do Vaticano. Além de casos individuais, as congregações religiosas femininas sofreram uma visitação apostólica. O mesmo aconteceu com a LCWR. Há uma relação entre as duas visitas apostólicas? Do que Roma tem medo?
Eu não fui demitida porque a Congregação para a Doutrina da Fé não é a minha chefe e nunca me apoiou financeiramente nesse ministério. A Congregação, em 1999, afirmou que eu não deveria me envolver nesse ministério, mas, depois de um discernimento aprofundado, eu concluí que Deus continuava me chamando a ele, e então decidi não cooperar com a opressão do silêncio. Eu continuo me ocupando das pessoas gays e lésbicas.

Quanto ao resto, sim, acredito que haja uma ligação entre as visitas às congregações religiosas individuais e a avaliação doutrinal (ou inquisição doutrinal) da LCWR, ambas iniciadas no início de 2009. Muitas pessoas consideram que ambos os projetos de investigação foram iniciados para eliminar a discordância e varrer os últimos vestígios da renovação trazida pelo Vaticano II. No documento que apresenta o processo da visitação, uma das perguntas feitas às líderes das comunidades era: "Qual é o processo posto em prática para responder às coirmãs que expressam pública ou privadamente a sua discordância com relação ao ensino de autoridade da Igreja?".

A meu ver, a Cúria vaticana e o Papa Bento XVI têm medo do significado dado pelo Concílio Vaticano II ao que significa ser católico. Eles têm medo da liberdade de expressão que isso implica. Eles tem medo de permitir que vozes críticas sejam ouvidas, porque algumas dessas vozes poderiam legitimamente levar à mudança. As personalidades autoritárias têm medo da mudança e de perder poder e controle.

Ken Briggs, autor de Double Crossed: Uncovering the Catholic Church’s Betrayal of American Nuns [Traídas: Revelando a traição das irmãs norte-americanas pela Igreja Católica], considera que as irmãs conservaram, mais do que qualquer outro grupo da Igreja, a ética e o espírito conciliar, apesar da vigorosa oposição dos últimos dois papas. As irmãs norte-americanas são perigosas porque são, talvez, o último grupo organizado a refletir o espírito conciliar do que realmente significa ser Igreja.

Como a senhora vê o futuro da LCWR à luz da nomeação de um comissário que irá rever seus estatutos e programas?
Penso que a LCWR tem duas opções: submeter-se ao controle do Vaticano ou dissolver a LCWR e reconstituí-la como órgão sem vínculos com o Vaticano. Acredito que a primeira escolha seria um repúdio dos mais de 40 anos de renovação nos quais as comunidades religiosas se comprometeram. Precisamos lembrar que foi pedido que as religiosas reavaliassem e atualizassem as suas comunidades para atender às exigências dos tempos. As religiosas levaram a sério esse pedido, e agora os resultados não agradam ao Vaticano. O Vaticano quer que as irmãs voltem à vida religiosa do passado.

A história tem demonstrado que a política de apaziguamento de Neville Chamberlain [primeiro-ministro do Reino Unido de 1937 a 1940] não satisfez os desejos de um ditador como Hitler. A Igreja Católica institucional, da forma como é atualmente, é um Estado totalitário religioso que, desde a época do papado de Pio IX, viveu uma centralização sempre crescente. O Concílio Vaticano II tentou trazer a Igreja de volta aos trilhos de uma comunidade de fiéis no caminho de Cristo, mas as forças curiais tentaram desviar a renovação nos últimos 30 anos ou mais.

A segunda opção, acredito eu, respeitaria a honra e a integridade das congregações religiosas que tentaram, com a sua fidelidade, manter vivos os valores de uma Igreja como comunidade de discípulos fiéis de Cristo. A reconstituição da LCWR como órgão que respeita o Vaticano, mas não abandona nada da sua autonomia, representaria uma aplicação do valor conciliar da subsidiariedade. Essa reconstituição seria uma vantagem para as religiosas, mas também para a Igreja como um todo. Isso afirmaria a necessidade de abandonar uma atitude de obediência cega em favor de uma capacidade de decisão moral moral.

Desde o Papa Pio IX, a Igreja deu provas de uma atmosfera de infalibilidade crescente, por força da qual se partia do pressuposto de que toda decisão, por parte de qualquer líder, aceita muitas vezes como infalível, devia ser obedecida sem discussão. O Vaticano II tentou mudar essa atitude, enfatizando a liberdade de consciência. Uma reconstituição mostraria que a Igreja consiste em muitos ramos enxertados em Cristo, a videira. O Vaticano é um dos ramos. As dioceses, congregações religiosas apostólicas, ordens monásticas e contemplativas, e movimentos leigos individuais são outros ramos. Devemos sempre nos lembrar de que Cristo, e não o Vaticano, é a videira.

Não sei por qual escolha a LCWR vai optar. Ela já cooperou com a Congregação para a Doutrina da Fé na sua investigação doutrinal, portanto não sei se a organização vai continuar colaborando na sua opressão, ao invés de resistir à tomada de posse por parte do Vaticano. Eu continuo alimentando a esperança de que as novas lideranças da LCWR sejam mais realista ao constatar que tudo isso tem a ver com o totalitarismo religioso e que rejeitarão a medida como invasão indevida e como afronta à natureza profética da vida religiosa.

Em que medida esse passo do Vaticano vai tocar na vida, no ministério e no papel das religiosas na Igreja dos EUA no futuro?
A intervenção vaticana terá efeitos enormes sobre a vida, o ministério e o papel das religiosas dos EUA e da Igreja mundial. Os efeitos irão depender do curso que a LCWR irá optar por tomar. Eu gostaria de ser otimista e acreditar que a decisão da LCWR irá fortalecer não só as religiosas, mas também a Igreja inteira. Rejeitar gentilmente o fato de serem dominadas por um sistema patriarcal que não compreende a natureza comunitária da Igreja será demonstrar que um cristão maduro não obedecem cegamente aos homens, mas segue o chamado de Deus na oração.

Essa escolha significará que não há necessidade de pessoas controladoras da ortodoxia ou de inquisições. Essa escolha significará que Cristo, e não o Vaticano, é a videira, e nós somos os ramos. Essa escolha significará que o Espírito de Deus guia a Igreja e que, com esse guia, não temos medo. Com esse guia, temos fé e confiança.
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