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domingo, 8 de junho de 2014

Viver Deus desde dentro



A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 20, 19-23 que corresponde a Festa de Pentecostes, Ciclo A do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Há alguns anos, o grande teólogo alemão Karl Rahner atrevia-se a afirmar que o principal e mais urgente problema da Igreja dos nossos tempos é a sua “mediocridade espiritual”. Estas eram as suas palavras: o verdadeiro problema da Igreja é “continuar com uma resignação e um tédio cada vez maior pelos caminhos habituais de uma mediocridade espiritual”.

O problema não parou de se agravar nestas últimas décadas. De pouco serviram as intenções de reforçar as instituições, salvaguardar a liturgia ou vigiar a ortodoxia. No coração de muitos cristãos está se apagando a experiência interior de Deus.

A sociedade moderna apostou pelo “exterior”. Tudo nos convida a viver a partir de fora. Tudo nos pressiona para nos movermos com rapidez, sem pararmos em nada nem em ninguém. A paz já não encontra resquícios para penetrar até o nosso coração. Vivemos quase sempre na superfície da vida. Estamos esquecendo o que é saborear a vida desde dentro. Para ser humana, à nossa vida falta uma dimensão essencial: a interioridade.

É triste observar que tampouco nas comunidades cristãs sabemos cuidar e promover a vida interior. Muitos não sabem o que é o silêncio do coração, não se ensina a viver a fé a partir de dentro. Privados da experiência interior, sobrevivemos esquecendo a nossa alma: escutando palavras com os ouvidos e pronunciando orações com os lábios, enquanto o nosso coração está ausente.

Na Igreja fala-se muito de Deus, mas onde e quando escutam os crentes a presença silenciosa de Deus no mais fundo do coração? Onde e quando acolhemos o Espírito do Ressuscitado no nosso interior? Quando vivemos em comunhão com o Mistério de Deus desde dentro?

Acolher o Espírito de Deus quer dizer deixar de falar só com um Deus a quem quase sempre colocamos longe e fora de nós, e aprender a escutá-lo no silêncio do coração. Deixar de pensar em Deus apenas com a cabeça, e aprender a percebê-Lo no mais íntimo do nosso ser.

Esta experiência interior de Deus, real e concreta, transforma a nossa fé. A nós surpreende como se pôde viver sem a descobrir antes. Agora sabe por que é possível acreditar inclusive numa cultura secularizada. Agora conhece uma alegria interior nova e diferente. Parece-me muito difícil manter por muito tempo a fé em Deus no meio da agitação e frivolidade da vida moderna, sem conhecer, mesmo que seja de forma humilde e simples, alguma experiência interior do Mistério de Deus. 

Pentecostes: o perdão para recriar o mundo


O Pentecostes é uma festa pascal; ela é o desenvolvimento do mistério da Páscoa. Não é uma festa independente do Espírito Santo; é a festa do Senhor ressuscitado que dá aos discípulos o seu Espírito, que é o Espírito de Deus Pai. É por isso que esta festa se situa, ao mesmo tempo, na noite da Páscoa no evangelho de São João, e 50 dias depois da Páscoa no livro dos Atos dos Apóstolos, inclusive na cruz da Sexta-Feira Santa em todos os evangelistas.

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do Domingo de Pentecostes – Ciclo A do Ano Litúrgico (08 de junho de 2014). A tradução é de André Langer.

Referências bíblicas:
Primeira leitura: At 2,1-11
Segunda leitura: 1 Cor 12,3b-7.12-13
Evangelho: Jo 20,19-23

Eis o texto.


O Pentecostes é uma festa pascal; ela é o desenvolvimento do mistério da Páscoa. Não é uma festa independente do Espírito Santo; é a festa do Senhor ressuscitado que dá aos discípulos o seu Espírito, que é o Espírito de Deus Pai. É por isso que esta festa se situa, ao mesmo tempo, na noite da Páscoa no evangelho de São João, e 50 dias depois da Páscoa no livro dos Atos dos Apóstolos, inclusive na cruz da Sexta-Feira Santa em todos os evangelistas, em particular em João: “Tudo está realizado. E inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19,30).

No mistério pascal, todos os elementos desse mistério – a Morte, a Ressurreição, a Ascensão e o Pentecostes – são tão importantes que os primeiros cristãos fizeram deles acontecimentos distintos separados no tempo: três dias para a Ressurreição, 40 dias para a Ascensão e 50 dias para o Pentecostes. Mas, na realidade, trata-se de um mesmo e único acontecimento teológico que nos fala simultaneamente de Deus, do homem, de Cristo e da Igreja. Não há, portanto, contradições entre os escritos e seus autores; encontramos simplesmente maneiras diferentes de descrever a riqueza do mistério cristão.

Desde o início do tempo pascal, nós lemos os relatos da Páscoa e da Ascensão. Hoje, celebramos o Pentecostes, a festa do Espírito de Cristo, o Espírito de Deus, a festa da Igreja. O que nos dizem os textos bíblicos que a Igreja nos propõe hoje?

1. Atos dos Apóstolos 2,1-11

Neste texto de Lucas, sobre o dom do Espírito Santo dado aos apóstolos reunidos, o autor não procura descrever um acontecimento material e histórico que aconteceu num dado momento da história da Igreja nascente. O fato de que Lucas tenha escolhido compor seu relato por meio de uma série de alusões ao Antigo Testamento, pode desviar a nossa atenção para uma leitura de tipo histórico, que procurasse determinar como as coisas se passaram. Devemos, ao contrário, compreender as mensagens que Lucas quer dar à sua comunidade sobre o papel e a força do Espírito:

1) O Pentecostes judaico celebrava o dom da Lei ao Povo de Israel, o povo da antiga Aliança. O Pentecostes cristão celebra o dom do Espírito ao novo Povo de Deus, a Igreja, o povo da nova Aliança.

2) Assim como Moisés subiu ao Sinai para dar ao povo a Lei de Deus, Cristo subiu ao céu para derramar o Espírito de Deus, o Espírito da nova Aliança.

3) Assim como para Moisés o barulho do trovão e o fogo das luzes acompanham o dom da Lei de Deus, aqui o barulho, o vento e o fogo acompanham a vinda do Espírito Santo.

4) No Sinai, de acordo com tradições judaicas, Deus propôs os mandamentos nas diversas línguas do mundo, mas apenas Israel os aceitou. No livro dos Atos dos Apóstolos, Deus repara esse fracasso: todas as nações compreendem a linguagem do Espírito: “Cheios de espanto e de admiração, diziam: ‘Esses homens que estão falando não são todos galileus? Como é que nós os escutamos na nossa própria língua?’” (At 2,7-8)

5) No Antigo Testamento, as 12 tribos de Israel estão reunidas para ouvir Moisés. Aqui, os 12 povos são chamados para ouvir os 12 apóstolos investidos pelo Espírito do Cristo, proclamar as maravilhas de Deus: “todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua!” (At 2,11b)

Em suma, este relato de Lucas é o inverso de Babel, é a abertura à universalidade e o sopro do Espírito da nova Aliança que abole as fronteiras; não há mais exclusão nem rejeição.

2. 1 Cor 12,3b-7.12-13

Os coríntios acreditavam que o dom do Espírito Santo estava reservado a uma elite. Eles só reconheciam sua presença no sensacional, nos cristãos que tinham o dom de falar em línguas e, particularmente, naqueles que eram eloquentes na animação das assembleias. Paulo quer, aqui, restabelecer a realidade do Espírito Santo:

1) Todo fiel que proclamar que “Jesus é o Senhor” (1 Cor 12,3), é habitado pelo Espírito Santo. Portanto, o mais humilde e o menor dos batizados também recebeu o Espírito Santo.

2) O Espírito, o Senhor e Deus são inseparáveis. Sem mesmo chamá-lo pelo nome, Paulo nos fala da Trindade que se dispensa em carismas: dons da graça, mas o Espírito é o mesmo (v. 4), dons dos serviços na Igreja, mas o Senhor é o mesmo (v. 5) e dons das atividades, mas é o mesmo Deus que as realiza (v. 6). O Espírito põe, portanto, todos os fiéis a agir, cada um segundo seus carismas, em vista do bem de todos (v. 7).

3) Esta unidade na diversidade Paulo a exprime através de uma fábula, conhecida na sua época, sobre o corpo e seus membros, para significar que todos os cristãos, em sua diversidade, pertencem ao mesmo corpo, o Corpo do Cristo ressuscitado. Esta pertença transcende as clivagens étnicas: “De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito” (1 Cor 12,13).

3. João 20,19-23

Para João, é na noite da Páscoa que o Espírito Santo é dado aos discípulos reunidos. Que mensagens podemos tirar dessa passagem bíblica?

1) O medo: os discípulos têm medo, eles são fracos, eles se sentem abandonados. As portas estão trancadas. Apesar disso, Jesus se apresenta a eles (v. 19). É, portanto, na humanidade dos discípulos que Cristo se faz presente.

2) A Paz: duas vezes Cristo oferece a sua paz (vv. 19.21). Mas, por que esta insistência? O sentido bíblico da palavra paz não é a ausência de guerra ou de conflitos; é a plenitude de vida que lembra a presença do Ressuscitado (cf. TOB, Lc 1,79 nota J). É, portanto, a sua Vida de Ressuscitado que Cristo dá aos seus discípulos. É uma promessa de Ressurreição também para eles.

3) A Alegria: João sublinha que o Ressuscitado da Páscoa é o Crucificado da Sexta-Feira Santa: “mostrou-lhes as mãos e o lado” (Jo 20,20a). O evangelista não quer dizer que se trata do cadáver de Jesus reanimado; o Ressuscitado se apresenta como aquele que fica para sempre marcado por sua humanidade, aquele que, pela cruz, testemunhou o Amor infinito de Deus. Do seu lado aberto nasceu a Igreja, ápice do sangue da Vida nova e da água viva do Espírito. Esta é a Alegria pascal experimentada pelos discípulos reunidos na noite da Páscoa.

4) O perdão: o sopro do Cristo sobre os seus discípulos nos remete ao sopro de Deus no Gênesis, sopro que dá a vida ao ser humano. Aqui, o sopro de Cristo significa a Vida nova dada aos discípulos, pelo dom do Espírito Santo, para que advenha um mundo novo. Entretanto, uma coisa é essencial para que nasça esse mundo novo: é o perdão. Deus deve, em primeiro lugar, apagar a nossa história passada, derramando sobre nós o sopro do perdão dos pecados: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20,23). Cabe a nós, portanto, fazer nascer esse mundo novo e é com toda a liberdade que nós podemos fazê-lo ou recusá-lo. Que responsabilidade!

Para terminar, é uma missão que nos é confiada: nós temos a responsabilidade de fazer nascer o mundo novo desejado pelo Cristo da Páscoa. Esta missão é confiada a todos os cristãos em geral e, em particular, aos padres no ministério do perdão. É, portanto, pela nossa abertura ao outro, pela nossa acolhida da sua diferença que nós testemunhamos o Cristo ressuscitado e que nós trabalhamos para fazer nascer esse mundo novo. O Espírito que nos habita não é um Espírito de medo que recusaria a novidade; é um Espírito que nos torna capazes de inventar, criar, decifrar, abrir novos caminhos, a fim de permitir às mulheres e aos homens de hoje encontrar e reconhecer o Cristo sempre vivo através dos seus discípulos. O perdão é fundamental para a recriação do mundo, e o Espírito nos dá a possibilidade de dá-lo ao outro e de recebê-lo do outro, a fim de que nasça esse mundo novo desejado pelo Cristo da Páscoa.

Bom Pentecostes!

Fonte

domingo, 25 de maio de 2014

Líderes de crenças diversas apoiam religiões afro-brasileiras


Representantes e e estudiosos das mais variadas crenças repudiaram a sentença do juiz federal do Rio de Janeiro Eugênio Rosa de Araújo, afirmando que “manifestações religiosas afro-brasileiras não se constituem religião”. Araújo se retratou em relação às religiões afro-brasileiras, mas não retirou os vídeos do YouTube, atitude criticada por líderes religiosos. Presidente da Associação Nacional de Mídia Afro, a candomblecista Márcio Righetti, responsável pela denúncia feita ao Ministério Público Federal, ressalta que a mobilização contra os vídeos não é voltada apenas para os devotos de matrizes afro-brasileiras, mas também pela democracia:

– A sociedade civil tem que mostrar sua capacidade política para que não aconteça novamente. As declarações do juiz foram totalmente infelizes. Mesmo se retratando, ao não retirar os vídeos, mantém institucionalizada a intolerância religiosa. Quero deixar claro que isso não é uma defesa específica da comunidade de terreiro; é uma defesa da democracia.

No ato Independente de escolhas, somente unidos somos fortes, que ocorreu nesta quarta-feira (21) na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Centro do Rio, líderes de diferentes religiões debateram sobre o problema da intolerância religiosa no Brasil. Foram recolhidas assinaturas no abaixo-assinado pedindo a retirada dos vídeos, a ser entregue ao Ministério Público. O babalaô Ivanir dos Santos, presidente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), também não ficou satisfeito com o que chamou de “arrependimento pela metade”:

– Por sermos religiosos, nós aceitamos o arrependimento, mas não pode ser pela metade. O juiz reconhece que são religiões, mas mantém a medida e os vídeos. É contraditório. Estamos pedindo que retirem o vídeo para nos respeitarem. Não queremos punir ninguém. Estamos pedindo respeito e dignidade.

Não apenas as religiões diretamente atacadas pelo juiz Eugênio Rosa participaram do ato contra a intolerância religiosa, que contou com a participação de católicos, muçulmanos e judeus. Representante do arcepisbo do Rio, dom Orani Tempesta, que não pôde comparecer ao ato, o diácono Nelson Águia, secretário da Comissão Arquidiocesana de Diálogo Inter-Religioso, também defendeu a retirada dos vídeos, e ressaltou a importância do encontro entre as religiões:

– Não devemos criar acirramento entre as religiões, uma guerra religiosa. Devemos construir pontes, e não levantar muros. Não viemos para discutir dogmas nem doutrinas, viemos conversar sobre aquilo que nos é comum: a paz e a fraternidade. O que todas as religiões querem é que o homem seja melhor do que ontem. Nós temos mais coisas que nos unem, portanto, para que acentuar aquilo que nos separa? Devemos promover a harmonia. Eu vim representando Dom Orani, que prega a união e a harmonia entre as religiões. A expressão dele é que não devemos deixar ninguém de fora. Nós devemos incluir, e não excluir. Devemos conversar com todos. (ouça as declarações de outros líderes religiosos).

"A sentença é inaceitável para toda a sociedade", diz pesquisadora

A historiadora especialista em pertenças religiosas Denise Fonseca, professora do Departamento de Serviço Social da PUC-Rio e uma das autoras do livro Presença do axé: mapeando terreiros no Rio de Janeiro (Ed. PUC-Rio e Pallas), com a também professora da PUC Sonia Giacomini, questiona a postura do magistrado.

– O juiz jamais poderia emitir um parecer, transformando sua autoridade em verdade, e impor à sociedade brasileira, do lugar de poder que ocupa, uma percepção que parece um tanto pessoal. No espaço público, onde ele se enunciou, não poderia ter feito. Para fazer uma argumentação como aquela, num espaço jurídico, refletindo sobre questões que passam pelos campos da antropologia religiosa, da teologia, ele deveria, minimamente, ter consultado especialistas destas áreas.

Para a professora da PUC, a sentença é inaceitável para toda a sociedade. A defesa da liberdade democrática deve ser debatida por todos, não só pelos adeptos das religiões de matrizes africanas, como se fosse um problema exclusivamente deles.

– Isso reflete também uma vontade política, uma adesão a um projeto intolerante que vem se construindo na sociedade brasileira e que hoje ocupa espaços de poder muito importantes. Por trás, está a vontade que é expressa nos 15 vídeos. Trata-se, sim, de cooptar e aliciar politicamente, explorar economicamente um segmento muito vulnerável – analisa Denise, que completa: – Essa questão é apenas a ponta de um iceberg, de uma questão política que diz respeito a todos nós.

Em carta aberta, Denise defende a livre expressão, “fundamento democrático para a concretização do princípio de dignidade da pessoa humana”, e lembrou que é preciso combater “antigos e odiosos projetos de sociedade nos quais nossas diferenças – de qualquer ordem – são percebidas como equívocos e tratadas com desrespeito”. Citando o estudo sobre o trabalho social desenvolvido nas casas religiosas, ela afirma: “Ali se cuidam de pessoas que buscam na fé um esteio para sobreviver à pobreza com dignidade”. Lançada em março, a publicação é resultado de uma pesquisa que mapeou 847 terreiros no Estado do Rio, em 20 meses de trabalho de campo, contanto com mais de 30 pesquisadores, entre eles líderes religiosos. (Leia também Rio ganha mapa das casas de umbanda e candomblé e assista reportagem de TV).

Padre Hortal: "Caso expõe incompreensão de aspectos religiosos e culturais"

Para o reitor da Universidade Católica de Petrópolis e ex-reitor da PUC-Rio, padre Jesus Hortal Sánchez, o caso mostra uma incompreensão dos aspectos religiosos e culturais que envolvem as religiões de matrizes africanas para além dos cultos nos terreiros.

– Na nossa sociedade, os símbolos da umbanda e do candomblé, sobretudo em algumas regiões, são muito comuns. É um aspecto mais cultural do que religioso. Isso acontece com outras religiões.

Padre Hortal, que foi consultor do Vaticano para o diálogo com o judaísmo por dez anos, ressalta que religiões costumam ser definidas como um conjunto de crenças, que têm um código de conduta e que significam sempre uma relação com a divindade. No entanto, lembra, elas podem ser constituídas de formas diferentes:

– Existem os dois aspectos: o da fé, das crenças, das doutrinas; e o da conduta ética. Há religiões reveladas, como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, que têm escritura. E há também religiões que, na tradição, elaboram suas crenças e condutas.

Denise ainda afirma que as alegações do juiz federal, que se baseiam em três aspectos para considerar uma religião como uma religião – ter um Deus único, uma hierarquia visível e de ter um texto sagrado como referência –, não se sustentam em face a muitas outras religiões. Esta não seria a única maneira de definir religiões. A professora completa que a sentença está em total desacordo com a liberdade de credo e o respeito a diferentes crenças. O fato de o juiz ter voltado atrás “pelo apoio que a sociedade demonstrou”, para ela, foi tão inaceitável quanto a afirmação inicial de que candomblé e umbanda não são religiões:

– Inaceitável em nome da democracia brasileira. A sentença abominável foi mantida. O juiz voltou atrás evocando o direito da livre expressão, fundante do princípio democrático, que garante a liberdade de expressão para tornar concreta a dignidade da pessoa humana, exatamente o que não está feito. A decisão garantiu a manutenção de espaços de violência, de degradação e de desqualificação do outro.

O babalaô Ivanir (foto), porém, vê um lado positivo na discussão sobre intolerância religiosa no Brasil:

– Este tem sido um problema muito grave na sociedade brasileira. O dado novo é que a sociedade está acordando. Não é só o ataque à umbanda e ao candomblé; é o desrespeito com a pessoa que é de uma religião diferente ou até mesmo não tem religião. Se alguém escolhe até não acreditar em Deus, tenho que respeitá-lo.

Fonte

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Para além dos dogmas


A espiritualidade é anterior à institucionalização das crenças e, em vez de respostas, traz perguntas, tolerância, meditação

Participei, de 1º a 4 de maio, do Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora. Reuniu cerca de 400 pessoas em Fortaleza, a maioria com menos de 30 anos. A notícia triste foi a transvivenciação, em Goiânia, dia 2, de Dom Tomás Balduino, bispo dominicano defensor de indígenas e sem-terra.

Há, hoje, uma busca difusa por espiritualidade. Porém, os sedentos não encontram com facilidade o caminho do Poço de Jacó (João 4).

Até o surgimento do cristianismo, as religiões se prendiam a limites étnicos, culturais e territoriais. O apóstolo Paulo universalizou a proposta de Jesus, estendeu-a a todos os povos sem precisarem renunciar a suas identidades culturais.

Por que espiritualidade e não propriamente religião? Espiritualidade e religião se complementam, mas não se confundem. A espiritualidade existe desde que o ser humano irrompeu na natureza. As religiões são recentes, datam de oito mil anos.

A religião é a institucionalização da espiritualidade, como a família o é do amor. Há relações amorosas sem constituir família. Há espiritualidade sem identificação com religião. Há, inclusive, espiritualidade institucionalizada sem ser religião, caso do budismo, uma filosofia de vida.

As religiões, em princípio, deveriam ser fontes de espiritualidade. Em geral, elas se apresentam como catálogos de regras, crenças e proibições, enquanto a espiritualidade é livre e criativa. Na religião, predomina a voz exterior, da autoridade religiosa. Na espiritualidade, a voz interior, o “toque” divino.

A religião é instituição; a espiritualidade, vivência. Na religião há disputa de poder, hierarquia, excomunhões, acusações de heresia. Na espiritualidade predominam a disposição de serviço, a tolerância para com a crença (ou a descrença) alheia, a sabedoria de não transformar o diferente em divergente.

A religião culpabiliza; a espiritualidade induz a aprender com o erro. A religião ameaça; a espiritualidade encoraja. A religião reforça o medo; a espiritualidade, a confiança. A religião traz respostas; a espiritualidade, perguntas. Religiões são causas de divisões e guerras; espiritualidades, de aproximação e respeito.

Na religião se crê; na espiritualidade se vivencia. A religião nutre o ego, uma se considera melhor que a outra. A espiritualidade transcende o ego e valoriza todas as religiões que promovem a vida e o bem. A religião provoca devoção; a espiritualidade, meditação. A religião promete a vida eterna; a espiritualidade a antecipa. Na religião, Deus, por vezes, é um conceito; na espiritualidade, experiência inefável.

Há fiéis que fazem de sua religião um fim. Ora, toda religião, como sugere a etimologia da palavra (religar), é um meio de amar o próximo, a natureza e a Deus. Uma religião que não suscita amorosidade, compaixão, cuidado do meio ambiente e alegria serve para ser lançada ao fogo.

Há que se cuidar para não jogar fora a criança com a água da bacia. O desafio é reduzir a distância entre religião e espiritualidade. E não abraçar uma religião vazia de espiritualidade nem uma espiritualidade solipsista, indiferente às religiões.

Há que fazer das religiões fontes de espiritualidade, amor e justiça. Jesus é exemplo de quem rompeu com a religião esclerosada de seu tempo e vivenciou e anunciou uma nova espiritualidade, alimentada na vida comunitária, centrada na atitude amorosa, na intimidade com Deus, na justiça aos pobres, no perdão. Dela resultou o cristianismo.

Quem pratica os ritos de sua religião, acata os mandamentos e paga o dízimo, mas é intolerante com quem não pensa ou crê como ele, pode ser um ótimo religioso, mas carece de espiritualidade. É como uma família desprovida de amor. A espiritualidade deveria ser a porta de entrada das religiões.

- Frei Betto

Fonte

terça-feira, 6 de maio de 2014

Um Deus pessoal pode ser uma séria responsabilidade


Palestra de Karen Armstrong, considerada a melhor TED de 2008

"(…) O Deus pessoal reflete uma importante intuição religiosa: que nenhum valor supremo pode ser menos que humano. Assim, o personalismo foi um importante e – para muitos – indispensável estágio de desenvolvimento religioso e moral. Os profetas de Israel atribuíram suas próprias emoções e paixões a Deus; budistas e hindus tiveram de incluir uma devoção pessoal a avatares da realidade suprema. O cristianismo fez de uma pessoa humana o centro da vida religiosa, de uma forma única na história da religião: levou ao extremo o personalismo inerente no judaísmo. Talvez sem um certo grau desse tipo de identificação e empatia, a religião não possa deitar raízes.

Contudo, um Deus pessoal pode tornar-se uma séria responsabilidade. Pode ser um mero ídolo esculpido à nossa imagem, uma projeção de nossas limitadas necessidades, temores e desejos. Podemos supor que ele ama o que amamos e odeia o que odiamos, endossando nossos preconceitos em vez de nos obrigar a transcendê-los. Quando ele parece não impedir uma catástrofe, ou mesmo desejar uma tragédia, pode dar a impressão de ser insensível e cruel. Uma fácil crença em que um desastre é a vontade de Deus pode nos fazer aceitar coisas fundamentalmente inaceitáveis. O próprio fato de que, como pessoa, Deus tem um gênero sexual é também limitante: significa que a sexualidade de metade da raça humana é sacralizada à custa do feminino, e pode levar a um desequilíbrio neurótico e inadequado nos costumes sexuais humanos. Um Deus pessoal pode ser perigoso, portanto. Em vez de nos puxar para além de nossas limitações, 'ele' pode nos encorajar a permanecer complacentemente nelas; 'ele' pode nos tornar tão cruéis, insensíveis e auto-satisfeitos quanto 'ele' parece ser. Em vez de inspirar a compaixão que deve caracterizar toda religião avançada, 'ele' pode nos estimular a julgar, condenar e excluir. Aparentemente, portanto, a ideia de um Deus pessoal só pode ser uma etapa em nosso desenvolvimento religioso. (…) "

- Karen Armstrong, em seu livro "Uma História de Deus" (Cia. das Letras)


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Repartir o pão


"O jejum que eu prefiro é este: soltar as amarras do jugo, dar liberdade aos cativos e acabar com qualquer escravidão."

A religião bíblica não é, essencialmente, de dízimos e cobranças, de penitências e exercícios heroicos de ascese e rezas sem limites. Tanto quanto ser fiel a Deus, a pessoa religiosa é instada a ser humana e solidária. Com o mesmo coração que ama a Deus, amar seu irmão. Por isso, disse Jesus: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo", ou seja, dando a ele "o que mais gostarias de comer" ou repartindo com ele o teu pão. Nossa religião é simples e é igualmente para todos. Quanto ao segundo mandamento - amar ao próximo como a si mesmo - os judeus são um exemplo. Nós, cristãos, temos ainda muito que aprender. Reparte o teu pão com o faminto e não dê as costas aos pobres. Poderíamos começar por estas simples ações, porque somos bíblicos e evangélicos.

Abraços e boa semana para todos.

Rosilene Luiza

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Só a bondade é digna de fé


As pessoas “interessam-se mais pelo que disse uma figura eclesiástica, do que por aquilo que disse Jesus”, escreve José María Castillo, teólogo espanhol, em artigo publicado em seu blog “Teologia sin Censura”, 14-09-2012. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A crise econômica, a incompetência dos políticos para resolver essa crise e tantas outras, a independência da Catalunha, o caso Bolinaga, os problemas da educação e da saúde, o desconforto geral sentido na Espanha, todos estes assuntos e muitos outros, que preocupa a todos nós, nos angustiam, nos irritam..., não se resolvem – nem irão se resolver - apenas por modificar o sistema político ou tentar corrigir as mil dores de cabeça que a situação econômica está nos dando.

Para ver se, de uma vez por todas, colocamos na cabeça que esta incrível confusão, de dificuldades e problemas, não é corrigida mudando normas ou retirando alguns governantes para colocar outros. É claro que essas mudanças, se é que são feitas com acerto, poderiam melhorar algumas coisas.

Porém, que fique claro, como solução de fundo, que o decisivo não é a mudança das normas ou de quem administra o cumprimento de tais normas. O que é verdadeiramente decisivo é a mudança das pessoas. Enquanto não mudarmos nossa mentalidade, nossas convicções, nossa forma de ver e valorizar a vida e, sobretudo, a atitude que cada qual adota diante dos demais, podemos ficar seguros de que isto não muda, não saímos da crise e nem encontramos solução.

Compreendo que algumas pessoas, ao ler o que estou dizendo, irão pensar que isto não passa da sabida solução da ingênua “bondade”, que não passa disso: uma ingenuidade bem intencionada, com a qual não se vai a lugar nenhum. E é verdade - e já disse isso - que precisamos de leis justas e de governantes capazes de colocá-las em prática, fazendo-as realizar-se. Isso todos nós sabemos.

Porém, o que não acabamos aceitando é que o principal problema está no coração de cada um de nós. Quando escrevo isto (no dia 13 de setembro de 2012), li e pensei por um bom tempo no texto fundamental do evangelho de Lucas (6, 27-38), que é o centro do sermão da planície, o equivalente ao sermão da montanha no evangelho de Mateus (5, 7). E confesso que senti uma profunda tristeza. Por dois motivos:

1) Quando escrevo algo sobre o Evangelho, dou-me conta de que isso apenas interessa a grande maioria dos leitores.

2) Quando publico algo relativo à Igreja, sua liturgia, suas normas, seus bispos..., os comentários são, não apenas mais abundantes, mas sobretudo (e com certa frequência) de uma acidez e, às vezes, até de má educação, que chego ao fato de que, durante muito tempo, resisti aceitar, mas que percebo que é como é: muitas pessoas se importam mais com a Igreja do que com o Evangelho.

E, portanto, interessam-se mais pelo que disse uma figura eclesiástica, do que por aquilo que disse Jesus. Isto é realmente assim? E se é, não valeria apena analisar a fundo?

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

''É preciso revalorizar certas ênfases do Vaticano II''

Ilustração: Mattias Adolfsson

Há ênfases, perfeitamente fiéis à tradição cristã mais antiga, que, na obra do Vaticano II, apareceram como inovadoras. São aquelas mesmas ênfases que hoje não só se atenuam, mas também desaparecem muito frequentemente das palavras e das práticas de algumas de nossas comunidades.

Para expressar a condição comum dos crentes em Cristo, a Constituição Lumen Gentium coloca a igualdade em primeiro plano: "Reina, porém, igualdade entre todos quanto à dignidade e quanto à atuação, comum a todos os fiéis, em favor da edificação do corpo de Cristo" (n. 32). Fora dessa igualdade, haveria, de outra forma, cristãos de série A e cristãos de série B?

O Concílio não deixa de notar, no mesmo texto, a diferença das funções, e, entre essas funções, a do pastor. Por que falar tão pouco da igualdade e ter tão pouca audácia para vivê-la de maneira mais visível? Sem dúvida, por medo de "fazer desaparecer" os pastores na comunidade. Por uma insuficiente compreensão da verdadeira natureza das diferenças. E, definitivamente, por uma deplorável desvalorização daquele nome comum de "cristão" que os discípulos receberam um dia em Antioquia (Atos 11,26).

Mas o que haveria para nós, acima da honra de ser cristãos, isto é, de Cristo? Já foi dito, mas é preciso repetir: não há "supercristãos". Às vezes, ouvimos dizer: "Os cristãos e os pastores". Enunciar a distinção desse modo não faz nenhum sentido na lógica do cristianismo.

No decreto sobre o ministério e sobre a vida dos presbíteros, o Vaticano II nos lembra como o ministério dos padres é insubstituível: "Juntamente com os fiéis, são discípulos do Senhor (…) Regenerados com todos na fonte do Batismo, os presbíteros são irmãos entre os irmãos, membros de um só e mesmo corpo de Cristo cuja edificação a todos pertence" (n. 9). A relação de fraternidade é a mais fundamental, e, se não fosse visível na vida cotidiana, o aspecto de "paternidade espiritual" que o ministério pastoral comporta se desnaturalizaria perdendo o seu sentido evangélico: "Vocês têm um único Pai, e todos vocês são irmãos".

Durante o Ano Sacerdotal, na abundância das publicações, custamos muito a descobrir traços claros e insistentes desse importante lembrete conciliar. Do que temos medo? Precisamos de vocações para o ministério presbiteral. Acreditamos, talvez, que a valorização urgente dessa vocação pode ser fecunda e principalmente bem compreendida, se não levar seriamente em consideração o "retorno" do ministério do padre ao interior do povo de Deus, como a dinâmica Lumen Gentium lá o inclui?

No decreto sobre o ecumenismo, o Concílio recomenda uma apresentação da fé cristã que coloque no lugar certo, isto é, no centro, o que não está diretamente "em relação com os fundamentos da nossa fé" (n. 11). A esse respeito, fala de uma "hierarquia das verdades". As devoções têm a sua razão de ser. Ilustram às vezes de maneira oportuna um aspecto ou outro do Mistério cristão. Mas, em outros momentos, a excessiva e persistente atenção a certos aspectos acaba ocultando o que está no coração da Revelação de Deus em Jesus Cristo e, consequentemente, o que é comum entre confissões cristãs. A identidade católica manifestada por essas devoções nascidas ao longo dos séculos deve ser subordinada à especificidade cristã no que ela tem de essencial. É ela, acima de tudo, que é preciso fazer com que seja vista.

A Constituição Gaudium et Spes examina a originalidade da Igreja, que não pode ser reduzida a nenhum modelo político. Mas faz isso situando essa particularidade na sociedade em que a Igreja é solidária com todos os protagonistas da vida comum. O Concílio não hesita em apresentar a Igreja e a sociedade em situação de reciprocidade. O que a Igreja dá ao mundo não está desvinculado do que a Igreja recebe do mundo (nn. 41 a 44). É de Cristo mesmo que nós recebemos incessantemente o Evangelho da salvação para propô-lo ao mundo. É "da história e do gênero humano" que a Igreja recebe novas indicações para a sua presença efetiva entre os homens deste tempo. Não podemos usar como pretexto erros individuais e coletivos dos nossos contemporâneos para pôr a Igreja acima de uma sociedade que não teria nada a nos dizer.

A ideia democrática, por exemplo, não se aplica à Igreja do mesmo modo que na sociedade política. Ela pode e deve, no entanto, inspirar os modos de relação dentro da comunidade cristã. Não basta repetir abusivamente que "a Igreja não é uma democracia". Seria melhor mostrar o que um sadio espírito democrático pode oferecer de vivificante na atuação daquele "momento comum" que é a expressão do povo de Deus. Realmente acreditamos nesse "momento comum" em que o próprio Espírito "fala à Igreja"?

Essas ênfases certamente não esgotam a obra do Vaticano II. No entanto, é necessário revivificá-los se a Igreja quer que não se diluam aqueles elementos importantes da renovação desejada pelo Concílio. A verdadeira Tradição eclesial perderia, assim, em parte, o sopro que se manifestou há 50 anos e do qual a comunidade cristã, mais do que nunca, precisa para ser testemunha fiel do Espírito "renova a face da terra".

- Gaston Piétri, padre em Ajaccio, na França.
Artigo publicado no jornal La Croix, 25-08-2012.
Tradução: Moisés Sbardelotto.
Via IHU.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Talvez seja hora, e já passou, de sermos Igreja


Do portal de notícias Gospel+ (acesse e leia na íntegra), via Ide por toda a Web:

A reação de muitos já é bem conhecida, a maioria dos evangélicos encaram isto de forma negativa, se baseando no velho discurso que diz “caridade não salva ninguém, a salvação não é por obras mas pela fé”, o que na minha opinião é o discurso pronto para justificar a nossa indiferença social de forma santa, e, tem ainda uma parcela que chega a ser mais cara de pau e ainda diz, “ahh mas Jesus disse que sempre haverá pobres entre nós”, certo, e por isso tudo bem, cada um cuida do seu e o próximo, bom, eu tenho muito problema, prefiro agir tal como sacerdote e levita, virar o rosto para a miséria, pois, se eu não a vejo significa que não tem e eu não preciso fazer nada certo.

ERRADO!!!

Reino de Deus é formado por Samaritanos, aqueles que desviam do seu caminho para ajudar quem necessita, quem precisa, quem clama por justiça!

Entretanto a ação destas igrejas que optaram por não ter culto no templo para promover ação social choca uma grande maioria, pois, não é de hoje que o domingo para os Cristãos, é, tal como o sábado para os Judeus, e, nele só se deve prestar culto na casa do Senhor, fora disto você é um desviado sem Deus, todavia, para eu acredito que eles não cancelaram culto nenhum, porém, prestaram um tão verdadeiro quanto se estivessem reunidos em um templo.

Como disse um dos pastores destas igrejas, “as igrejas tem a tendência de dizer, “‘ei pessoas venham até nós”‘, eu concordo com ele e ainda faço um adendo, pois, dizemos as pessoas “Ei venham até nós”, porém, raramente vamos até elas.

Jesus disse, “venham a mim os cansados e os sobrecarregados…”, porém, o Senhor nunca deixou de ir ate os cansados e sobrecarregados!

Pense nisto, talvez seja hora, e já passou, de Sermos igreja!!!

Fiquem na paz.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Deus é guerreiro?


“Assim como a ideologia, o ateísmo ou não importa qual convicção humana, o monoteísmo corre o risco a todo o momento de ser apadrinhado pelas violências. Mas Deus não tem nada a ver com isso...”, escreve Jean-Claude Guillebaud em sua coluna na revista francesa La Vie, edição n. 3489, 12 a 18 de julho de 2012. A tradução é do Cepat.

Jean-Claude Guillebaud é jornalista, escritor e ensaísta. É autor de, entre outros livros, A tirania do prazer, A reinvenção do mundo. Um adeus ao século II e A força da convicção. Em que podemos crer, todos publicados pela Bertrand Brasil. Também O princípio de humanidade, editado pela Ideias e Letras.

Eis o artigo, aqui reproduzido via IHU.


Uma ideia retorna incessantemente nos comentários midiáticos: a pretensa vocação dos três monoteísmos (judeu, cristão e muçulmano) para gerar violência. Esta ideia nunca foi tão generalizada quanto hoje. Ela tornou-se o ruído de fundo da época. É em nome desta pretensa violência que se diaboliza o religioso em geral. E o monoteísmo em particular.

Aponto, como prova, a tendência em confessionalizar a maioria dos atuais conflitos. Do Iraque ao Afeganistão, da Palestina à Irlanda do Norte, os homens fazem a guerra em nome de Deus. Aí se encontraria a verdadeira fonte da violência. Ao diabo a religião! Paremos de lhe dar crédito e a paz voltará sobre a terra.

Ora, esta ideia muito na moda não resiste ao exame. Para dizer a verdade, ela é inclusive um pouco tonta. Porque, enfim!, os sangrentos conflitos do século XX relacionavam-se a duas ideologias – stalinismo de um lado, hitlerismo de outro – que tinham em comum o fato de serem ateias. Pode-se afirmar que o conflito entre Israel e Palestina é uma guerra confessional entre o judaísmo e o islamismo? Certamente que não. Quanto aos textos sagrados, se a Bíblia e o Corão estão efetivamente cheios de relatos guerreiros, o mesmo vale para o Upanishad ou a Bhagavad-Gita que fundam não um monoteísmo mas o politeísmo hindu.

Certamente, a religião corre a todo o momento o risco de tornar-se agressiva e guerreira. A ideia de que há um só Deus e uma só verdade pode exacerbar as paixões daqueles que instrumentalizam a religião. Mas esse perigo não é exclusivo do monoteísmo. O politeísmo dos gregos cantado e recantado pelos adversários da tradição bíblica não era pacífico, longe disso. As guerras entre Esparta e Atenas que, de 431 até 404 a.C., assolaram o Peloponeso estão entre as mais selvagens. Tucídides, que venceu essas guerras, conta todo o horror. Quanto à Esparta, ela era tudo menos não violenta.

Publicado em 2009, um livro do historiador alemão das religiões Jan Assman examina essa pretensa ligação entre a violência e o monoteísmo dos povos do Livro. Aí ele responde com uma erudição iluminadora (Violence et monothéisme, Bayard). Vou citar apenas uma frase de sua conclusão: “Atualmente, após mais de 2.000 anos, é importante mostrar claramente que a violência não está absolutamente inscrita no monoteísmo como uma consequência necessária”.

Assim como a ideologia, o ateísmo ou não importa qual convicção humana, o monoteísmo corre o risco a todo o momento de ser apadrinhado pelas violências. Mas Deus não tem nada a ver com isso...

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Setembro, mês da Bíblia: discípulos e missionários a partir do Evangelho de Marcos


O Mês da Bíblia surgiu em 1971, como iniciativa da Arquidiocese de Belo Horizonte e em 1985 a CNBB o estendeu a todas as Dioceses. Desde então, a Palavra se aproximou do nosso povo e o povo católico da Palavra de Deus.

O livro deste Mês da Bíblia é o Evangelho mais antigo, o de Marcos. O tema: Discípulos e missionários a partir do Evangelho de Marcos seguindo Jesus. O lema: Coragem! Levanta-te! Ele te chama (Mc 10,49). Levanta-te, para assumir a missão que Deus lhe confia!

Existe uma diferença entre a Palavra de Deus escrita e a Palavra de Deus revelada, imperativo pessoal de Deus para cada um. Telechea, no seu precioso livro Inácio de Loyola, sozinho e a pé, tem um frase paradigmática: Ele (Inácio de Loyla) é um perpétuo e sensivel ouvinte da Palavra de Deus, de uma palavra interior, rubricada pela alegria e pela paz, muito mais do que pela Palavra material (exterior!) da Bíblia... Sem esta escuta interior a Palavra de Deus na Bíblia fica oca e vazia, e não se concretiza.

Quando acolhemos esta Palavra interior como Boa Nova e a concretizamos, surge logo o conflito... Mas, não tenhas medo! Desse encontro e desencontros nos topamos com o mistério da Cruz, convidando-nos sempre a pôr a nossa fé e esperança no Senhor da Vida; no Senhor e não nas coisas ou pessoas que o rodeiam...

No horizonte, pois, dos 50 anos do Concílio Vaticano II e às portas do Ano da Fé (11/OUT/2012-24/NOV/2013) aproximemo-nos confiantes da Palavra de Deus para que, como discípulos e missionários possamos sempre amar e servir.

Uma pergunta: Somos ouvintes ou apenas leitores da Palavra de Deus?

- Pe. J. Ramón F. de la Cigoña sj, em seu blog Terra Boa

* * *

Oração para antes de ler a Bíblia

Jesus Mestre, que dissestes: “Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, eu aí estarei no meio deles”, ficai conosco, aqui reunidos para melhor meditar e comungar com vossa Palavra.

Sois o Mestre e a Verdade; iluminai-nos, para que melhor compreendamos as Sagradas Escrituras.

Sois o Guia e o Caminho: fazei-nos dóceis ao vosso seguimento. Sois a Vida: transformai nosso coração em terra boa, onde a Palavra de Deus produza frutos abundantes de santidade e de apostolado.

Amém.

(Oração extraída do livro ”O povo em oração”, compilação organizada por Maria Goretti Oliveira e Claudia Zem da Silva. Publicado pelas Edições Paulinas, em 1998. Via Amai-vos)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Enquanto adornas o templo, não desprezes o irmão que sofre


Por ocasião da morte de Carlo Maria Martini, sj (que noticiamos aqui), no último 31 de agosto, um de nossos membros compartilhou com o grupo o texto abaixo, das Homilias sobre Mateus, de São João Crisóstomo, bispo (Hom. 50,3-4: PG 58,508-509 - séc. IV):

Queres honrar o corpo de Cristo? Não o desprezes quando nu; não o honres aqui com vestes de seda e abandones fora no frio e na nudez o aflito. Pois aquele que disse: Isto é o meu corpo (Mt 26,26) e confirmou com o ato a palavra, é o mesmo que falou: Tu me viste faminto e não me alimentaste (cf. Mt 25,35); e: O que não fizeste a um destes mais pequeninos, não o fizeste a mim (cf. Mt 25,45). Este não tem necessidade de vestes, mas de corações puros, aquele, porém, precisa de grande cuidado.

Aprendamos, portanto, a raciocinar e a reverenciar a Cristo como lhe agrada. A honra mais agradável a quem se deseja honrar é aquela que ele prefere, não aquela que julgamos melhor. Pedro, por exemplo, julgava honrá-lo, não permitindo lavar-lhe os pés; mas o que queria não vinha a ser honra, mas exatamente o contrário. Assim, honra-o tu com a honra prescrita em lei, distribuindo tua fortuna com os pobres. Deus não precisa de vasos de ouro, mas de almas de ouro.

Digo isto, não para proibir que haja dádivas, mas que com elas e antes delas se dêem esmolas. Porque ele aceita aquelas, porém, muito mais estas. Daquelas só quem oferece tem lucro; destas, também aquele que recebe. Lá o dom parece ser ocasião de ostentação; aqui só pode ser compaixão e benignidade.

Que proveito haveria, se a mesa de Cristo está coberta de taças de ouro e ele próprio morre de fome? Sacia primeiro o faminto e, depois, do que sobrar, adorna sua mesa. Fazes um cálice de ouro e não dás um copo de água? Que necessidade há de cobrir a mesa com véus tecidos de ouro, se não lhe concederes nem mesmo a coberta necessária? Que lucro haverá? Dize-me: se vês alguém que precisa de alimento e, deixando-o lá, vais rodear a mesa, de ouro, será que te agradecerá ou, ao contrário, se indignará? Que acontecerá se ao vê-lo coberto de andrajos e morto de frio, deixando de dar as vestes, mandas levantar colunas douradas, declarando fazê-lo em sua honra? Não se julgaria isto objeto de zombaria e extrema afronta?

Pensa também isto a respeito de Cristo, quando errante e peregrino vagueia sem teto. Não o recebes como hóspede, mas ornas o pavimento, as paredes e os capitéis das colunas, prendes com cadeias de prata as lâmpadas, e a ele, preso em grilhões no cárcere, nem sequer te atreves a vê-lo. Torno a dizer que não proíbo tais adornos, mas que com eles haja também cuidado pelos outros. Ou melhor, exorto a que se faça isto em primeiro lugar. Daquilo, se alguém não o faz, jamais é acusado; isto porém, se alguém o negligencia, provoca-lhe a geena e fogo inextinguível, suplício com os demônios. Por conseguinte, enquanto adornas a casa, não desprezes o irmão aflito, pois ele é mais precioso que o templo.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Pastor luterano defende a homoafetividade

Fonte: Facebook

Do Rev. Silvio Meincke, no blog Teologia Inclusiva:

No Dia da Igreja em Colônia, na Alemanha, trabalhei como voluntário e fui hospedado em casa particular. Meus hospedeiros eram gentis e atenciosos. Sua casa revela traços da personalidade dos moradores: gostam da beleza simples e prática, sem sofisticações, com critério na escolha e nada de consumismo exagerado. Percebi grande consciência ecológica na organização da casa, no uso de água e energia, na seleção do lixo ou nos cuidados do pequeno jardim. O modo como meus hospedeiros convivem e se comunicam revela atenção carinhosa, respeito e cuidado mútuos, como acontece entre casais que são felizes e se enriquecem mutuamente.

Meus hospedeiros são dois jovens homoafetivos. Prefiro essa palavra. Homoafetividade. O termo homossexualidade soa-me muito restrito à prática sexual física propriamente dita. Homoafetividade sugere uma relação muito mais ampla: homo-convivência, homo-partilha, homo-cuidado, homo-ternura, homo-realização como ser humano.

Os próprios envolvidos devem decidir sobre o termo que querem usar. Eu vou dizer homoafetividade. Também são eles que devem decidir se querem entender a sua homoafetividade como opção ou como condição.

Eu vou dizer que é uma condição humana, porque os jovens e do ensino confirmatório, da juventude evangélica e das escolas secundárias onde lecionei, quando me procuraram como pastor, sempre vieram desesperados ao descobrirem sua homoafetividade, e nenhum deles ou delas optou por isso. Descobriram-na e sofreram. Não contribuíram em nada para que fossem homoafetivos.

Não resta dúvida que cada grupo humano precisa criar regras de convivência, leis de conduta, normas de orientação, para que a vida em comunidade seja possível. Precisa encontrar consensos, escritos ou não, que possibilitam a vida organizada e feliz dentro do seu território, dentro do seu espaço de habitação - para dizê-lo com uma palavra grega, dentro do seu "étos". O conjunto dos regulamentos, costumes convencionados, consensos escritos ou não formam os valores "éticos" de uma sociedade.

Na medida em que os grupos humanos decidem como querem organizar sua convivência, também decidem como não querem viver. Existe até mesmo certa necessidade de distanciar-se dos que são diferentes, para firmar a própria identidade. Por exemplo, o povo de Israel declarou o porco impuro entre outros motivos para se diferenciar de outros povos que o adoravam como animal sagrado.

Infelizmente, essa necessidade de diferenciar-se acontece não raras vezes à custa de minorias numéricas para as quais se cria uma imagem de inimizade. Tal imagem se agiganta e pode adquirir formas de brutal discriminação, perseguição e eliminação.

Pessoas homoafetivas têm experimentado a discriminação no decorrer da história, às vezes, tornando-se bodes expiatórios para insucessos, fracassos e frustrações de todo um povo. Ainda que as pessoas homoafetivas não prejudiquem em nada a feliz convivência no "étos", a sina da discriminação insiste em persegui-los. Meus hospedeiros, por exemplo, em nada prejudicam a possibilidade de vida boa e feliz dos moradores de Colônia.

Seguidores de Jesus Cristo podem conhecer, nos seus ensinamentos e no seu procedimento, grandes exemplos de acolhimento, inclusão e fraternidade com as minorias discriminadas pela sociedade. Amplos setores das igrejas cristãs assimilaram essa mensagem de Jesus e procuram agir dentro do seu propósito de inclusão.

Tanto mais lamentável se mostra a discriminação praticada por certos grupos dentro das comunidades cristãs - geralmente grupos terrivelmente "fortes na fé" e que, por isso, julgam-se pessoas melhores do que as que não aderiram ao seu grupo. Não estariam esses grupos incorrendo no equívoco de criar bodes expiatórios para os seus próprios medos e preconceitos? Não estariam desconhecendo os propósitos de Jesus, em nome do qual alegam agir? Não estariam caindo no equívoco de George Bush que pretende prescrever a Deus quem são os seus inimigos, para destruí-los, em nome de Deus?

No entanto, os nossos inimigos não são os inimigos de Deus; os que nós consideramos merecedores de discriminação, Deus não os discrimina. Nem mesmo precisamos recorrer a alguma piedosa generosidade - aliás, sempre humilhante - e dizer que aceitamos em nosso meio as pessoas homoafetivas em nome do amor cristão. Melhor é tê-las em nosso meio espontaneamente, sem justificativas piedosas, simplesmente como semelhantes, que não trazem mais do que apenas outra condição afetiva. Melhor do que incluí-los generosamente depois de excluí-los primeiro, é nem chegar a excluí-los.

(Silvio Meincke é pastor emérito da Igreja Evangélica da Confissão Luterana Brasileira e reside na Alemanha.)

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Comunidade: quando a correção é fraterna


Hoje, na Igreja, precisamos, mais do que nunca, de correção fraterna, e os pastores da Igreja, que corrigem a comunidade cristã, por sua vez, devem ser corrigidos pela comunidade com respeito e sem contestação, nem, muito menos, desobediência.

A reflexão é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal
Avvenire, dos bispos italianos, 20-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, reproduzido via IHU.


Estamos no tempo pascal, no qual a Igreja nos convida a proclamar a boa notícia por excelência: "Cristo ressuscitou, ressuscitou verdadeiramente". Imersos nessa alegria, podemos olhar para trás, para o caminho quaresmal recém-percorrido, para verificar se foi um caminho de conversão e de crescimento espiritual, ou se não demos um passo para voltar ao Senhor, ou mesmo se acabamos cedendo ainda mais aos ídolos mundanos que sempre nos tentam.

Ao fazer esse exame de consciência, não podemos esquecer que, no início da Quaresma, Bento XVI endereçou à Igreja uma mensagem voltada a fazê-la refletir sobre o fim do seguimento: o amor, a caridade. Por isso, o papa de Roma nos forneceu o rastro de uma busca, de uma reflexão, de um compromisso cotidiano a ser assumido, o que se refere à correção fraterna.

Contaminados como estamos por uma verdadeira doença que é a indiferença uns pelos outros, a falta de proximidade, já não sabemos mais que a correção fraterna é uma das atitudes cristãs mais decisivas para a salvação do indivíduo e para a própria comunidade cristã, a Igreja. Se não nos sentimos protetores, responsáveis pelo irmão, pela irmã, pelo outro (cf. Gn 4, 9: "Por acaso eu sou o guarda do meu irmão?"), então vivemos no próprio autismo, sem olhar para os outros, sem nos aproximarmos do outro, sem praticar o face a face.

Desse modo, nunca nasce a ocasião para a correção recíproca, e, de fato, encoraja-se o crescimento do mal, que sempre será mais disseminado enquanto nunca for julgado. Entre as obras de misericórdia que aprendemos na catequese, havia também "advertir os pecadores", expressão talvez pouco feliz, porque parece pressupor que o cristão não pecador deve advertir quem o seja. Também por isso, provavelmente, essa obra foi esquecida, e assim se perdeu a memória do fato de que a instância subentendida a essa expressão é, na verdade, a da correção fraterna, uma correção sempre recíproca.

A mensagem de Bento XVI para esta Quaresma não me parece ter recebido uma recepção igual à que foi reservada às anteriores, e isso também diz muito sobre as dificuldades que os cristãos já têm com relação à prática da correção fraterna. Assumindo um estilo mundano, às vezes, alguns cristãos oscilam entre a indiferença e uma intervenção imediata violenta, caracterizada por insultos e por palavras que visam a deslegitimar a outra parte.

Com relação a isso, o Papa Bento XVI chegou até a escrever que, infelizmente, hoje, na Igreja, existe um "morder-se e um devorar-se uns aos outros" (cf. Gal 5, 15) que é escandaloso e contradiz gravemente a comunhão eclesial (Carta aos Bispos da Igreja Católica do dia 10 de março de 2009).

Sim, no tecido da vida eclesial, isso parece ser gravemente contraditório com relação ao Evangelho, ao estilo de Jesus, a uma vontade de comunhão que não perde a ocasião de declarar publicamente em palavras, mas que na realidade se desmente de modo persistente com o comportamento cotidiano, com acusações infundadas, com palavras caluniosas.

Porém, a correção fraterna está no coração da vida eclesial, é até indicada como necessária e normalizada pelas palavras de Jesus contidas nos Evangelhos. Como, portanto, ela pode ser praticada?

Acima de tudo, "prestando atenção uns aos outros" (cf. Hb 10, 24, versículo que intitula a mensagem de Bento XVI). O cristão é, por natureza, um vigilante, alguém que presta atenção, que mantém o seu olhar fixo no Senhor (cf. Hb 12, 2). A partir desse exercício de olhar com atenção para o Senhor, tornamo-nos capazes de olhar para os irmãos, para as irmãs e para os eventos da história cotidiana fazendo um discernimento sobre eles, isto é, lendo-os na sua verdade profunda e tentando olhar o outro com um olhar que o próprio Cristo teria voltado para ele.

Só quem assumiu o olhar, os sentimentos, o pensamento de Jesus também pode ver o outro na verdade, pode descobrir o seu mal, a sua culpa que jamais coincide com o outro – e, portanto, pode julgá-la na sua objetiva gravidade. Mas eu o repito – isso deve ser feito olhando para quem cometeu o mal, um homem ou uma mulher que é muito mais do que o pecado cometido: o outro sempre continua sendo uma pessoa, e nenhuma ação malvada por ele cometida pode nos fazer esquecer isso!

Normalmente olhamos o outro e logo vemos um ladrão, um mentiroso, um delinquente, uma prostituta... acabando por identificá-lo com a ação cometida: mas o ser humano é sempre muito mais do que o seu agir eventualmente julgado como negativo.

Portanto, para corrigir o outro é preciso se despojar do preconceito, daquele pensamento que nos habita e nos induz a julgar uma pessoa sobretudo pelo fato de que ele repetiu algumas vezes o seu pecado. Não, precisamos nos esforçar para ver o outro como Jesus o veria. Então, diante de uma mulher adúltera, não teríamos pedras nas mãos para apedrejá-la, mas, como Jesus ensinou, nos perguntaríamos se temos o direito de condenar quem cometeu o pecado, nós que somos pecadores como ela: "Quem de vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra" (Jo 8, 7).

Se somos exercitados a "ter em nós os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo" (cf. Fl 2, 5), a "ter o pensamento de Cristo" (cf. 1 Cor 2, 16), então devemos e podemos praticar a exortação e a correção fraterna com sinceridade e parrésia, franqueza, sem dureza, sem nos colocarmos em posição de superioridade com relação ao outro. Cada um de nós é tentado, em seu próprio subjetivismo, a perder o sentido objetivo das coisas, a não saber mais avaliá-las a justa distância.

Precisamos, portanto, de outros que nos ajudem a voltar novamente à objetividade, que nos inspirem reservas, perguntas as quais devamos responder, se quisermos ser autênticos e permanecer na verdade. Sozinhos, isolados, sem a ajuda de outros e o confronto com eles, fazemos poucos avanços e caímos facilmente.

Corrigir – lembra o papa – "dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal". O próprio Jesus praticou muitas vezes a correção para aqueles que o escutavam ou o seguiam: desse modo, queria justamente exercitar a correção do pecador, e não dar-lhe a condenação ou a morte (cf. Ez 18, 23.32; 33, 11). Jesus usou palavras de reprovação, mas sempre finalizadas a dar a salvação. Ele o fez às vezes também com palavras fortes, de cólera, que relatam o seu pathos, isto é, comportando-se como verdadeiro herdeiro do pathos dos profetas, da sua paixão pelo ser humano e pela sua salvação, pela vida.

Não é por acaso que, no discurso de Jesus sobre a Igreja relatado no capítulo 18 do Evangelho segundo Mateus, se dê tanto espaço à correção fraterna. Nesse texto, registra-se uma indicação de tipo quase processual sobre o desenvolvimento da correção fraterna: "Se o seu irmão pecar, vá e mostre o erro dele, mas em particular, só entre vocês dois. Se ele der ouvidos, você terá ganho o seu irmão. Se ele não lhe der ouvidos, tome com você mais uma ou duas pessoas, para que 'toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas' (Dt 19, 15). Caso ele não dê ouvidos, comunique à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele der ouvidos, seja tratado como se fosse um pagão ou um cobrador de impostos" (Mt 18, 15-17).

A correção deve, portanto, ocorrer em três etapas: a correção pessoal, discreta "só entre vocês dois", para que o irmão se reveja e o seu pecado não seja conhecido por outros. Depois, se necessário, a correção feita em dois ou três, de modo que quem cometeu uma culpa seja induzido a se rever na presença de mais irmãos. Se nem isso for suficiente, como medida extrema, que se faça uso da correção no meio da assembleia, diante de todos. Mas, se essa forma de correção também não tiver sucesso, Jesus pede que se adote contra quem errou a atitude que ele mesmo viveu com relação aos pagãos e aos pecadores. Nos lábios de Jesus, isso equivale a dizer: "Vá encontrá-lo, hospede-se com ele, coma com ele e converta-o com o seu amor e a sua atenção, como eu fiz com Levi, o publicano (cf. Mc 2, 13-17 e par.) e com tantos pecadores que estão no meu seguimento".

Corrigir, advertir é necessário, mas está habilitado a fazê-lo quem nutre o amor pelo irmão: cada um de nós também é responsável pelo outro, quem quer que seja, mas sobretudo de quem é irmão na fé e vive "o mandamento novo" do amor recíproco (cf. Jo 13, 24).

Certamente, "na hora, qualquer correção parece não ser motivo de alegria, mas de tristeza" (Hb 12, 11), porque quem é repreendido se sente humilhado e conhecido no seu próprio pecado. Mas, depois, torna-se verdade que, da correção, podem nascer "frutos de paz e de justiça" (cf. ibid.), e, portanto, podemos nos sentir amados por quem nos corrige.

Na parênese apostólica do Novo Testamento, pede-se mais de uma vez que se pratique a correção fraterna (cf. (cf. Rm 15, 14; 2Cor 2, 6-8; Gal 6, 1; Ef 5, 11; Col 3, 16; 1Ts 5, 12.14; 2Ts 3, 15; Tt 3, 10-11), mas esses ensinamentos já manifestam como a correção é difícil e cansativa, mesmo para quem a faz; indicam que, para corrigir, é preciso humildade e amor sincero; que nunca devemos nos sentir estranhos ao pecado do outro, nunca julgá-lo ou se considerar superior a ele. Enfim, nunca devemos praticar a correção como um inspetor que realiza a sua tarefa friamente: a correção cristã, de fato, não uma vigilância de tipo empresarial!

Na história – sabemo-lo bem –, a correção fraterna foi atestada principalmente nos primeiros séculos cristãos, depois quase desapareceu; ou, melhor, foi relegada aos mosteiros ou delegada à práxis do sacramento da penitência administrado individualmente. Nos mosteiros, que levam uma vida cenobítica, a correção ocorre todas as manhãs durante o capítulo, ou seja, a assembleia diária dos irmãos. Aqui, aquele que preside corrige os erros e os pecados comunitários, mas às vezes também corrige um irmão individual. Mas quem preside, o abade ou o prior, também pode ser corrigido e advertido pelos outros irmãos.

A respeito disso, escrevia Basílio de Cesareia: "Quem preside a comunidade não deve ser o único a não se beneficiar do apoio fraterno da correção recíproca, ele que exerce a função mais pesada" (Regras difusas 27). E o autor da Didaqué não perguntava talvez: "Corrigi-vos reciprocamente, não na ira, mas na paz" (15, 3)?

Na sua mensagem, Bento XVI pede com força o exercício da caridade fraterna na Igreja, na vida eclesial. Aqui, a correção fraterna se torna ainda mais difícil; demonstra-o o fato de que ela é muito pouco realizada, como fica aparece na prevalência da desobediência, da revolta, da divisão dentro da Igreja. Também nesse caso, a história é mestra. No primeiro milênio, a práxis da correção fraterna era bem atestada: há inúmeros exemplos de correção fraterna eclesial entre as Igrejas orientais e a Igreja latina romana (pense-se apenas na de Basílio de Cesareia com relação ao Papa Dâmaso I), e muitas tensões foram resolvidas graças ao diálogo, à escuta recíproca e à correção. No segundo milênio, ao contrário, raros são os casos de correção fraterna praticada pelo simples fiel com relação à autoridade, mesmo a suprema.

Perguntemo-nos com franqueza: se a escuta fosse mais praticada, se fosse aceita a correção recíproca, teríamos sofrido o grande cisma do Ocidente, aquele em que Lutero, de fato, levou trouxe a divisão à Igreja? O grande rabino Tarfon, depois do Holocausto de 70 d.C., defendeu que o povo de Deus havia sofrido a humilhante catástrofe porque não tinha sabido praticar humildemente a correção fraterna...

Mas há algumas exceções, que vale a pena elencar brevemente. Clássica, conhecidíssima e de perene atualidade é a correção praticada pela abade de Claraval, Bernardo, com relação ao Papa Eugênio III, no seu De consideratione (1150 ca.). Bernardo chega até a lembrar ao papa audaciosamente que ele é o sucessor de Pedro, e não de Constantino, e se dirige a ele dizendo: "Mesmo que estejas vestido de púrpura e caminhes coberto de ouro, não há nenhuma razão para que tu, que és o herdeiro do Pastor, tenhas tédio do ministério pastoral e sintas vergonha do Evangelho (cf. Rom 1, 16). Mas, se te dedicares com decidida vontade à evangelização, terás um lugar glorioso entre os apóstolos. Evangelizar significa pastorear. Portanto, faze a evangelização e serás pastor" (IV, 3.6).

Cerca de um século antes, deve ser lembrado Pedro Damião; depois de Bernardo, é a vez de Mechthild de Magdeburgo, depois Catarina de Siena, mulher de fogo, que, ao redor do fim do século XIV, durante o cativeiro de Avignon, criticava o Papa Gregório XI por não estar na sua cátedra de Roma. Mais tarde, viriam Vincenzo Quirini e Paolo Giustiniani; no século XIX, não podemos nos esquecer do Pe. Antonio Rosmini, e, no século passado, Pe. Primo Mazzolari.

No exercício da correção da Igreja por parte das autoridades da própria Igreja, devem ser lembrados ao menos Guillaume Durand, o bispo francês dos inícios do século XIV, que parece ter sido o primeiro a ter utilizado a expressão "reforma (da Igreja) na cabeça e nos membros"; o Papa Adriano VI, que, nos inícios do século XVI, reconheceu corajosamente a decadência da Igreja romana, identificando a sua causa principal nos comportamentos e nas escolhas da corte romana; e, sobretudo, o Papa João Paulo II, que, por ocasião do Jubileu do ano 2000, confessou os pecados dos cristãos na história pedindo perdão a Deus mediante uma solene liturgia pública.

Finalmente, gostaria de salientar que, a propósito da correção, dois conceitos são inseparáveis, embora em uma tensão recíproca nada fácil de resolver: correção fraterna, justamente, e obediência. Para exercer a correção fraterna precisamos ser guiados e iluminados por alguém, por alguma coisa, e, para o cristão, essa luz que dá orientação pode ser apenas o Evangelho que é Jesus Cristo e Jesus Cristo que é o Evangelho. E assim surge o valor da obediência. Sem obediência ao Evangelho e sem escuta a quem recebeu do Senhor a tarefa de ser testemunha do Evangelho, o apóstolo e portanto os seus sucessores, reinam a anarquia e a anomia – diz ainda Basílio – e não pode haver nem reciprocidade (allélon) nem comunhão (koinonia).

Hoje, na Igreja, precisamos, mais do que nunca, de correção fraterna, e os pastores da Igreja, que corrigem a comunidade cristã, por sua vez, devem ser corrigidos pela comunidade com respeito e sem contestação, nem, muito menos, desobediência.

Bento XVI lembrou recentemente na homilia pronunciada durante a Missa Crismal: "Será a desobediência um caminho para renovar a Igreja? (…) Pode-se intuir na desobediência algo da configuração a Cristo?" (5 de abril de 2012).

Não é verdade que a obediência nada mais é do uma virtude: ao contrário, é a virtude cristã por excelência, porque "Cristo Jesus se tornou obediente até à morte, e morte de cruz" (Fl 2, 5.8).


terça-feira, 12 de junho de 2012

A graça da dúvida de si

Foto: Takeshi Suga


O papa e o Vaticano estão cada vez mais defendendo a ideia de uma Igreja remanescente – uma Igreja pequena e pura que se vê muitas vezes em oposição ao mundo ao seu redor. Parece como se as autoridades da Igreja não estão nada preocupadas com aqueles que deixam a Igreja. Qualquer outra organização tomaria medidas fortes para remediar a perda de um terço de seus membros.

A opinião é do teólogo norte-americano Charles E. Curran, professor da cátedra Elizabeth Scurlock de Ética Cristã daSouthern Methodist University. O artigo foi publicado no sítio do jornal National Catholic Reporter, 06-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


A condenação por parte da Congregação para a Doutrina da Fé ao premiado livro da Ir. Margaret Farley, das Irmãs da Misericórdia, Just Love: A Framework for Christian Sexual Ethics, não é nenhuma surpresa. A Congregação insiste que o livro "não pode ser usado como uma expressão válida da doutrina católica" porque discorda do magistério hierárquico sobre masturbação, atos homossexuais, uniões homossexuais, indissolubilidade do casamento, divórcio e segundo casamento.

Há uma longa lista de teólogos morais católicos cujas obras sobre ética sexual, em um veio semelhante, foram condenados ou censurados pela Congregação para a Doutrina da Fé ao longo dos últimos 40 anos. O Papa João Paulo II escreveu a sua encíclica Veritatis splendor, em 1993, por causa da discrepância entre o ensino oficial da Igreja sobre questões morais e o ensino de alguns teólogos morais, até mesmo nos seminários. Segundo o papa, a Igreja está "enfrentando o que certamente é uma crise genuína, que não se trata já de contestações parciais e ocasionais, mas de uma discussão global e sistemática do patrimônio moral".

Todos têm que reconhecer que há uma crise real como essa na Igreja hoje. Mas a crise não é apenas uma crise na teologia moral: ela envolve uma crise na Igreja como um todo e na nossa própria compreensão da Igreja Católica. De acordo com o respeitado Pew Forum on Religion & Public Life, uma em cada três pessoas que foram educadas como católicas romanas nos Estados Unidos já não é mais católica. A segunda maior "denominação" nos EUA é de ex-católicos. Uma em cada 10 pessoas nos EUA é ex-católica. Todos nós temos experiência pessoal daqueles que deixaram a Igreja por causa do ensino sobre questões sexuais. Questões relacionadas, incluindo o papel das mulheres na Igreja, o celibato para o clero e o fracasso das lideranças eclesiais em lidar com o escândalo dos abusos infantis e o seu encobrimento, também foram reconhecidas como razões pelas quais muitas pessoas abandonaram a Igreja Católica.

A reação de papas e bispos até teólogos morais revisionistas é apenas uma parte de uma realidade crescente em nossa Igreja hoje. Há uma ladainha de outras ações similares tomadas pelo Vaticano – as restrições impostas à Leadership Conference of Women Religious (LCWR); o controle sobre as atividades da Caritas Internationalis, a agência da Igreja dedicada à ajuda aos pobres; a reação muito negativa das associações de padres na Áustria e na Irlanda; a remoção de Dom William Morris, bispo de Toowoomba, na Austrália, por ter meramente incentivado a discussão sobre o celibato e o papel das mulheres; a nomeação apenas de clérigos muito seguros como bispos etc. E a lista continua.

O que está acontecendo aqui é que o papa e o Vaticano estão cada vez mais defendendo a ideia de uma Igreja remanescente – uma Igreja pequena e pura que se vê muitas vezes em oposição ao mundo ao seu redor. Parece como se as autoridades da Igreja não estão nada preocupadas com aqueles que deixam a Igreja. Qualquer outra organização tomaria medidas fortes para remediar a perda de um terço de seus membros. Mas a Igreja remanescente se vê como uma Igreja forte de fiéis verdadeiros e, portanto, não está preocupada com essas partidas.

Esse conceito de Igreja opõe-se à melhor compreensão da Igreja Católica. A palavra "católico", em sua própria definição, significa grande e universal. A Igreja abraça tanto santos e pecadores, ricos e pobres, homens e mulheres, e conservadores e liberais políticos. Sim, há limites para o que significa ser católico, mas a compreensão de "católico" com "c" minúsculo insiste na necessidade de ser o mais inclusivo possível. Muitos de nós ficaram profundamente impressionados com os gestos do Papa Bento XVI no início do seu papado, ao ir ao encontro em diálogo com Hans Küng e de Dom Bernard Fellay, chefe do grupo originalmente fundado pelo arcebispo Marcel Lefebvre. Infelizmente, hoje, o diálogo ainda está em andamento com Dom Fellay, mas não com Hans Küng.

O problema básico de tudo isso é a compreensão e o papel da autoridade na Igreja Católica. Essa questão é muito vasta e complicada para ser discutida aqui com detalhes, mas três pontos deveriam orientar qualquer consideração sobre a autoridade na Igreja.

Primeiro, a principal autoridade na Igreja é o Espírito Santo, que fala de diversas maneiras; e todos os outros na Igreja, incluindo os detentores de cargos, devem se esforçar para ouvir e discernir o chamado do Espírito.

Segundo, a Igreja precisa dar corpo à compreensão de Tomás de Aquino de que algo é mandado e ordenado porque é bom, e não o contrário. A autoridade não faz algo certo ou errado. A autoridade deve se conformar ao que é verdadeiro e bom.

Terceiro, o perigo para a autoridade na Igreja é alegar uma certeza muito grande para o seu ensino e propostas.Margaret Farley desenvolveu esse ponto em um ensaio muito significativo, Ethics, Ecclesiology, and the Grace of Self-Doubt [Ética, Eclesiologia, e a Graça da Dúvida de Si]. A pressão por certeza fecha muito facilmente a mente e às vezes também o coração. A graça da dúvida de si permite a humildade epistêmica, condição básica para o discernimento moral comunitário e individual.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Dizer Deus é amor

Foto daqui

Faz-se malabarismo com o texto bíblico. Usam-se versículos para tudo. Capítulos servem, ao mesmo tempo, para abençoar a guerra e semear a paz. Nada como um texto canônico para validar mecanismos opressores que perpetuam a pobreza. Como a sagrada Escritura já serviu para acalmar a revolta dos excluídos!

Um dos textos mais usados, celebrados e repetidos da Bíblia é o capitulo 13 da primeira epístola aos Corintios. Talvez tão celebrado por tratar do amor. Declamado em casamentos. Musicado por diferentes artistas. Seus 13 versículos valem até como cartilha de auto ajuda: “Como aprender a amar bem”.

Geralmente, os três primeiros versículos servem para explicar que amor é mais nobre que dogma, carisma e desempenho religioso:

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine. Ainda que eu tenha o dom de profecia e saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, se não tiver amor, nada serei. Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me valerá”.

A partir do versículo 4, Paulo descreve alguns atributos do amor. Sua descrição é nobre:

“O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.

Belíssimo! repetem até os não religiosos. Acontece que a lista não é receita. Deus é descrito como essencialmente amor. Sendo assim falar de amor é também falar de Deus.

É possível projetar o pensamento de Paulo sobre o amor na percepção de quem Deus é. Se Deus é amor e o amor tudo sofre – Deus sofre. Se Deus é amor e o amor tudo crê – a existência humana é fruto de um acreditar divino. Se Deus é amor e o amor tudo espera – Deus então espera, aguarda, pacientemente por respostas humanas. Se Deus é amor e o amor tudo suporta – o sofrimento que se universalizou produz uma dor incalculável no coração de Deus.

Infelizmente a cristandade ocidental preferiu compreender Deus a partir da onipotência. Caso tivesse prestado mais atenção ao que a revelação do amor indica, com certeza haveria menos ateus no mundo.

Nunca é preciso hesitar: o amor é simultaneamente frágil e avassalador. Jesus chorou sobre a impenitente Jerusalém.Lamentou a partida de um jovem rico. E contou uma parábola usando a figura de um pai abandonado pelo filho para revelar os sentimentos divinos. O amor que vulnerabiliza também salva.

O que é atrativo em Cristo? Que não sejam as descrições de sua majestade, mas de sua humildade. Sua glória foi revelada na cruz em não em tronos; no perdão e não em vingança. O texto diz peremptoriamente que o Pai lhe deu um nome que está acima de todos os nomes porque jamais cobiçou poder, mas viveu para servir. Depois de ressuscitado Jesus não procurou esmagar seus algozes. Para sempre se manteve como cordeiro.

O Deus encarnado expressou, com mansidão e humildade, que não há outra maneira de perceber Deus senão na ternura e na mansidão.

Qualquer deus que tente se impor através do poder ou com apelos mágicos não passa de um ídolo.

Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele… No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo“. [1João 16-18]

Soli Deo Gloria

- Ricardo Gondim, em seu blog

sábado, 9 de junho de 2012

O corpo

Arte: Danny Quirk

Em torno da festa cristã de Corpus Christi, vale lembrar que uma linha vertical divide os seres humanos entre vencedores e vencidos, aliados e inimigos, fiéis e hereges; desce da abstração da linguagem, consubstanciada em ideologias e crenças religiosas, para atingir seu ponto mais cruel: a segregação de corpos.

“Uma rosa é uma rosa é uma rosa”, declamava Gertrude Stein.

Ninguém discorda. No entanto, não há consenso de que “uma pessoa é uma pessoa é uma pessoa”. Nazistas negam a judeus o direito à vida, assim como há judeus que se julgam superiores aos árabes, e árabes que assassinam cristãos que não comungam de suas crenças, e cristãos que excomungam espiritualmente judeus, muçulmanos, comunistas, homossexuais e adeptos do candomblé.

Uma pessoa é o seu corpo. Vive ao nutri-lo e faz dele expressão de amor e gera novos corpos. Morto o corpo, desaparece a pessoa. Contudo, chegamos às portas do terceiro milênio num mundo dominado pela cultura necrófila da glamorização de corpos aquinhoados por fama, beleza e riqueza, e a exclusão de corpos condenados pela pobreza.

Na lista telefônica de Santa Mônica, EUA, consta o número da Fundação Elizabeth Taylor contra a aids. Não há nenhuma fundação contra a fome. Esta mata muito mais que aquela. Por que a Aids mobiliza mais que a fome? Porque não faz distinção de classe. A fome é problema dos oprimidos, e ameaça um terço da humanidade. Os premiados pela loteria biológica, nascidos em famílias que podem se dar ao luxo de comer menos para não engordar, são indiferentes aos famintos ou dedicam-se a iniciativas caridosas, com a devida cautela de não questionar as causas da pobreza.

Clonam-se corpos, não a justiça. Açougues virtuais, as bancas de revistas exaltam a exuberância erótica de corpos, sem que haja igual espaço para ideias, valores, subjetividades, espiritualidades e utopias. Menos livrarias, mais academias de ginástica. Morreremos todos esbeltos e saudáveis; o cadáver, impávido colosso, sem uma celulite.

A política das nações pode ser justamente avaliada pela maneira como a economia lida com a concretude dos corpos, sem exceção. Num mundo em que o requinte dos objetos de luxo merece veneração muito superior ao modo como são tratados milhões de homens e mulheres, o valor do dinheiro se sobrepõe ao de vidas humanas, as guerras funcionam como motor de prosperidade, é hora de nos perguntarmos como é possível corpos tão perfumados com mentalidades e práticas tão hediondas? E por que ideias tão nobres e gestos tão belos floresceram nos corpos assassinados de Jesus, Gandhi, Luther King, Che Guevara e Chico Mendes? O limite do corpo humano não é a pele, é a Terra. Somos células de Gaia. Resta fazer essa certeza implantar-se na consciência, lá onde o espírito adquire densidade e expressão.

- Frei Betto
Publicado no Estado de Minas em 30/05/12. Reproduzido via Conteúdo Livre

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Família, teatro do mundo

Imagem daqui

A libertação do ser humano – o sentido do cristianismo – não pode não libertar também a família; até mesmo de si mesma, se for preciso. E, então, a família pode realmente se tornar um Teatro do Mundo e do universal humano.

A opinião é do escritor italiano Claudio Magris, ex-senador da Itália, ex-professor das universidade de Turim e de Trieste, e prêmio Príncipe de Astúrias de Letras de 2004. O artigo foi publicado no jornal
Corriere della Sera, 03-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


As grandes religiões universais, e especialmente o cristianismo, não são coisa de family day. Cristo veio mudar a vida dos seres humanos e proclamar valores mais altos do que o imediato círculo dos afetos, ou, melhor, a chicotear duramente estes últimos quando regressivamente se opõem a um amor maior. Até mesmo o laço mais forte, o entre o filho e a mãe, é tratado bruscamente quando Maria quer interferir: "Mulher, que há entre mim e ti?", ele lhe diz.

Enquanto está falando para uma multidão, quando lhe vêm dizer que a sua mãe e os seus irmãos o estão procurando, Cristo responde: "Quem é minha mãe? E quem são os meus irmãos?", acrescentando que só é seu irmão quem faz a vontade do Pai.

Se há conflito entre a relação de parentesco e o mandamento, a escolha é clara: ele afirma que veio para separar, onde seja necessário, "o filho do pai, a filha da mãe". O seu próprio nascimento, além disso, escandaloso com relação às regras, certamente não se encaixa no modelo da ordem familiar.

Naturalmente, Cristo não pretende negar o amor entre e pelos esposos, os filhos, os irmãos, os pais. Ele quer potencializá-lo, libertá-lo da sua tão frequente degeneração egoísta, conservadora e redutora que empobrece aqueles laços universais humanos em um fechamento pávido e árido, barrando a porta para a vida e para os outros, entrincheirando-se em um pequeno mundo limpo e decente, mas indiferente à miséria e ao sofrimento, que talvez começam fora da porta barrada.

Há uma colorida expressão vêneta que retrata essa falsa e mesquinha harmonia familiar baseada na rejeição dos outros: "far casetta"."Eu tenho família" é a melhor desculpa para se esquivar perante um dever que nos chama a nos pôr em risco. A esse propósito, Noventa – grande poeta católico, um dos grandes poetas do século XX – respondia no seu dialeto vêneto a quem curva vilmente a cabeça ("son vigliaco" [sou velhaco]), alegando ter os pais idosos, a esposa ainda jovem e os filhos para manter: "Copé la mare, / Copé el pare, /La mugier zóvene / e i fioi — (…) No' saré più vigliachi" [matem o mar, matem o pai, a mulher jovem e os filhos (…) Não serão mais velhacos].

A família certamente é uma realidade histórica, embora de uma duração particular, e como tal está sujeita a transformações e a mutações, nunca tão intensa e confusamente como hoje, em um emaranhado de libertações ora justas, ora grosseiramente ideológicas e estúpidas, conformismos travestidos de transgressão ou de sagrados princípios, exibicionismos arrogantes, em um tumulto de tradições seculares, costumes, valores, formas de agregação familiar.

A família foi e dificilmente poderá deixar de ser uma célula primária do universal humano; o Teatro Mundial em que o indivíduo vem ao mundo, cujas vozes lhe chegaram desde quando ele ainda estava na primeira estação da sua viagem, no ventre da mãe; em que o indivíduo descobre o mundo, faz a experiência fundante do amor ou devastadora do desamor, aprende com os irmãos o jogo, a aventura, a luta, a ambivalência de afeto e rivalidade; em que o pai e a mãe lhe transmitem não só a vida, mas também o seu sentido. Não se equivocava Francesco Ferdinando, o herdeiro do trono de Habsburgo morto em Sarajevo, quando quis que, em seu túmulo, fossem inscritas apenas três datas: do nascimento, do casamento e da morte.

A família pode ser o encantador cenário da descoberta do mundo, como em Guerra e Paz, de Tolstoi, e pode ser tragédia e abjeção, ódio e violência, Caim e Abel, os Átridas e a estirpe de Édipo. Pode ser um lugar de opaca estranheza, de mesquinhos ressentimentos, de violência e de opressão; violência de pais ou de maridos chefes sobre filhos e sobre esposas, sórdida vingança feminina de sufocantes tiranias domésticas, incumbentes clãs parentais que transplantaram a tribo para a civitas e reabsorvem o indivíduo, como escrevia Kafka, na papa informe das origens.

A palavra família já é um Jano bifronte: indica o mundo que nos é mais caro e pode indicar o bestial laço mafioso. Gide podia dizer: "Famílias, quanto vos odeio". As novas formas de família radicalmente diferentes da tradicional, que se anunciam até se acenando com ênfase, podem trazer valores ou desvalores, mas certamente não estão protegidas das degenerações da convivência.

A libertação do ser humano – o sentido do cristianismo – não pode não libertar também a família; até mesmo de si mesma, se for preciso. E, então, a família pode realmente se tornar um Teatro do Mundo e do universal humano: quando, brincando com nossos próprios irmãos e amando-os, damos o primeiro e fundamental passo em direção a uma maior fraternidade, que sem a família não teríamos aprendido a sentir tão fortemente; quando os pais nos fazem entender concretamente o que significa sermos levados pela mão na selva do mundo, por uma mão que continua soerguendo mesmo quando não a aperta mais fisicamente.

Em uma família livre e aberta, o Eros também encontra a sua maior aventura, misteriosa e conturbadora; comer em paz o próprio pão com a mulher amada na juventude, como diz uma passagem bíblica muitas vezes citada por Saba, é uma experiência de grandes amantes. E os filhos, em um universo de relações libertadas do familismo (ansioso, autoritário, fraco, obsessivo, de acordo com os casos), tornam-se realmente a maior paixão que a vida nos faz conhecer.

A civilização grega nos deu Édipo e os Átridas, mas também Heitor, que, sem se preocupar com a própria morte, sobre os muros da Troia sitiada, brinca com o seu filho Astianax, e o seu maior desejo é que este cresça melhor e mais forte do que ele.
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