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terça-feira, 20 de março de 2012

O que é fundamental no casamento


O que redime um casamento não é massagem tântrica, a abertura dos chacras, a dança do ventre, a ioga, aprender passos de salão, curso de sensualidade.

Louvo todas as iniciativas de compreensão mútua e desenvolvimento emocional.

Mas o que é fundamental num relacionamento é saber coçar as costas do outro.

Casal do mal espreme as espinhas de sua companhia. Casal do bem coça as costas.

É uma arte milenar egípcia. Dizem que é invenção do conselheiro do faraó Tutancâmon, Adel Emam Alef, o mesmo criador da pizza. Ao sovar a massa, encontrou a punção ideal.

Coçar as costas depende da exatidão do movimento. Muitos maridos, muitas esposas, desistem de pedir após a terceira tentativa e se recolhem à frustração sexual.

A inabilidade em esfregar o parceiro representa hoje a maior causa do divórcio no país. Superou os tradicionais motivos de desquite como palitar os dentes e ausência de cerveja na geladeira.

Devia constar como item indispensável no curso de noivos. O carinho primitivo libera serotonina e os peptídeos opioides beta-endorfina, meta-encefalina e dinorfina, combatendo depressão e estados de ansiedade.

As unhas não podem estar muito compridas, muito menos sujas. Não vale arranhar, sangrar ou esfoliar a pele. A compressão dos dedos terá o peso de uma esponja, e dura até quatro minutos (acima disso, entra no terreno da bolinação).

A posição ideal do beneficiado é de pé, com a cabeça lançada para frente, naquela inclinação para receber cascudo.

Cuidado com a vontade. Já vi gente coçar, não conter o entusiasmo e ser presa por agressão. Porque coçar é delicioso e insaciável, o coçador tem um prazer semelhante ao do coçado. Facilmente a coçadinha inocente desemboca em chagas de São Francisco de Assis.

O ato se caracteriza pela fricção sensual, de baixo para cima. É descobrir a zona de irritação e não mais levantar a mão. Como um desenho sem largar o lápis.

A cura do desconforto virá com a constância, com a dedicação exclusiva do gesto. Não é permitido coçar e assistir televisão, coçar e ler um livro, coçar e olhar para o lado. Duas ações ao mesmo tempo quebram o ritmo e diminuem a qualidade do serviço.

Coceira em grego significa “cuide de seu amor”. Não vale se distrair. Mergulha-se numa meditação dos dedos, na contemplação messiânica das unhas.

A invasão será superficial, indolor, intermediária entre a picada de mosquito e pontada de acupuntura. Mas o alívio equivale a um início de orgasmo.

Coçar as costas é um socorro amoroso de grande utilidade. Importante estar perto sempre.

Tragédia é quando sua mulher [ou marido] sente a tremedeira nas vértebras e não dispõe de sua companhia.

- Fabricio Carpinejar
Reproduzido via Conteúdo Livre

terça-feira, 6 de março de 2012

O princípio fundamental da relação saudável é a solitude

Arte: Os Gêmeos

O maior dentre vós deve ser aquele que vos serve. Aquele que se exaltar será humilhado, e o que se humilhar será exaltado. (Mat.23, 11,12)

Que ideal ridículo e inviável. Como pode qualquer sistema de governo ou organização operar, verdadeiramente, baseado neste princípio?

Com certeza qualquer um incumbido de poder e autoridade alega estar servindo o povo. Todos nós pretendemos ser mais humildes do que efetivamente somos. Ainda que, em todos relacionamentos haja projeções, papéis, atuações e jogos que as pessoas desempenham com ou contra as outras. Na maioria dos jogos, aliás, as pessoas gostam de ganhar.

Assim, antes de se dar conta do que está acontecendo, o servir se torna uma fachada para manipulação e a humildade se torna uma forma de dominação. As máscaras estão caindo, tanto na Siria, hoje, como na Libia há poucos meses - ou aonde quer que o distorcido amor pelo poder sobre os outros esteja sendo ameaçado. Ainda que sempre se precise de dois para dançar o tango e que décadas podem se passar até que aqueles que estão sendo explorados possam reagir e se rebelar. Famílias, corporações, nações, todos nós jogamos o mesmo jogo do poder.

De onde, então, vem este ensinamento de Jesus e para aonde está apontando?

Relações saudáveis são, com certeza, um processo de mão dupla e a química dos múltiplos relacionamentos tem muitas dimensões. O princípio fundamental da relação saudável, no entanto, é a solitude. Se não podemos encontrar e nos sentarmos no nosso "quarto interno" ou deixarmo-nos 'ser conduzidos ao deserto' não poderemos ter o necessário desprendimento para a boa relação. A solitude é o nosso encontro com a base do ser, que é o chão de todos os relacionamentos. Apenas quando nos tornamos humildes com esta descoberta poderemos compreender que cada relacionamento do ser humano está enraizado neste chão do ser. Toda relação no cosmos objetiva a relação central que é ser si mesma.

Jesus não está apenas nos dizendo como devemos nos comportar. Ele está nos dizendo como Deus é.

- Laurence Freeman, OSB
Mensagem para a terça-feira da Segunda Semana da Quaresma (06/03/12) à Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Ti Sposerò



Ontem, 14/2, foi dia de S. Valentim - dia de celebrar o amor e a amizade. Nada nos pareceu melhor, para marcar a data, do que este lindo vídeo.

Fonte: Instinct Magazine

(Dica do nosso amigo Hugo Nogueira)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

''Com o ágape, o impossível é a medida do amor''

Foto: Amamak

"Ama o teu próximo": o mandamento que ilumina "toda a Lei e os Profetas", segundo Enzo Bianchi e Massimo Cacciari.

A análise é do filósofo italiano Federico Vercellone, professor da Universidade de Turim, em artigo para o jornal La Stampa, 21-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.


Existe um mandamento que resume completamente o ensinamento de Jesus, e é o último: "Ama o teu próximo". O décimo mandamento realiza o mandatum novum, sela o novo pacto entre Deus e o seu povo. Aquilo que assim se configura é um caminho que subverte os limites. Nesse caminho, o cristianismo se configura como religião universal.

Quem nos lembra disso é Enzo Bianchi e Massimo Cacciari, em Ama il prossimo tuo, o magnífico livro dedicado ao décimo mandamento que eles escreveram para a editora Il Mulino. O volume é composto por dois ensaios. O primeiro, de Enzo Bianchi, é intitulado "Fazer-se próximo como amor", e o segundo, de Cacciari, "Dramática da proximidade". Os textos sintetizam o âmbito histórico-religioso, e o teológico e filosófico da questão.

Enzo Bianchi nos guia através da tradição judaica e da cristã. O décimo mandamento é um mandamento que soa sempre como um desafio; e o é, talvez, com ainda mais razão, em uma época como a nossa, que também foi definida como a época da "morte do próximo". O amor, lembra Enzo Bianchi, é um apelo constante a sair de si mesmo. E o mandamento adverte, como já lembrava São Jerônimo, que todo ser humano deve ser considerado com próximo pelo outro ser humano. O ensinamento a amar o próximo como a ti mesmo, no Antigo Testamento, aparece no Levítico: "Não procures vingança nem guardes rancor aos teus compatriotas. Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Levítico 19, 18).

Não estamos diante de uma concepção individualista do amor, porque, como se evidencia do contexto, a intenção da passagem do Levítico é de fazer de Israel uma comunidade justa e solidária entre os seus membros. Isso ocorre, não obstante, no quadro de uma equilibrada interação entre responsabilidade individual e dimensão coletiva.

Além do modo como se pode entender o mandamento na Bíblia judaica, não é possível não perceber novamente como o mandatum novum representa um das grandes rupturas produzidas por Jesus com relação ao judaísmo, um dos pontos em que ele se afasta da religião dos pais para expressar uma nova interpretação da Lei, fundamentada na hermenêutica do amor. Como ensina o Evangelho de Mateus, o décimo mandamento se torna o ponto de vista através do qual deve-se ler a Bíblia, um fogo que ilumina "toda a Lei e os Profetas", um exemplo encarnado por Jesus, que faz da sua vida uma obra-prima do amor. "Nisso", diz o Evangelho de João, "todos saberão que sois meus discípulos".

Tudo isso é absolutamente dramático. Como magistralmente aponta Massimo Cacciari, estamos diante de um sentimento totalmente paradoxal, "com uma compaixão que não conhece ciúmes, e que não tem outro propósito do que libertar o amado". Toda tradução torna-se arriscada com relação ao conteúdo absolutamente paradoxal da mensagem evangélica. Com o décimo mandamento, vai-se muito além do conceito grego de philia, que não exclui que é melhor fazer o bem do que recebê-lo.

Com o cristianismo, estamos diante de um passo que vai decisivamente além de todo amor antigo. O que se anuncia aqui é o ágape, o amor que não tem a ver principalmente com as relações humanas, mas sim com a relação que Deus mantêm consigo mesmo por meio do Filho. Quando o Pai se realiza na unidade com o Filho, estamos diante de um amor que rompe todos os limites, para acolher dentro de si o sofrimento que aflige o amado. É um amor, portanto, que escolhe o impossível como própria medida. E mostra, assim, que o amor é todas as vezes um óbulo infinito que reconhece o outro antes de nós mesmos. Que o atribui à sua singularidade absoluta. Realizando-se o amor do próximo, ele se demonstra, de vez em quando, como o mais poderoso dos impossíveis.

* * *

Façamos um exercício de imaginação: que realidade se pode construir com base em "um amor que rompe todos os limites e acolhe dentro de si o sofrimento que aflige o amado"?

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

"Ela é a mesma pessoa que vocês amavam ontem"


Do sempre excelente blog do Tony Goes:

"A luta pelos direitos igualitários já passou pelo teste das urnas mais de 30 vezes, em diversos estados americanos - e perdeu TODAS. Os reaças sempre conseguiram assustar a população mais mal-informada, pregando o fim da civilização e do mundo tal como o conhecemos. É bem provável que o estado do Maine leve o casamento gay à consulta popular no ano que vem. E, já prevendo um embate difícil, organizações LGBT estão tentando uma nova estratégia. Não adianta simplesmente pregar o respeito à diversidade. É preciso apelar para a emoção, contar casos pessoais e, principalmente, lembrar que quase todas as famílias têm um membro gay. Um ano antes das eleições, já está no ar uma nova campanha que fala diretamente às pessoas mais religiosas. O melhor comercial é este acima [em inglês - tradução abaixo*], onde um casal conta a batalha interna que travou para aceitar a filha lésbica. Vamos ver se dá certo. Enquanto isto, aqui ao lado, na Argentina, a luta também continua - e olha que por lá os homossexuais já podem se casar há mais de um ano. Mas o preconceito segue firme, o que motivou uma ótima campanha na província nortenha de Salta. Nessas horas, que se f* a criatividade na propaganda: ideias como estas merecem ser copiadas por aqui."


*Tradução do primeiro vídeo:
- Meu marido e eu estamos casados há 32 anos...
- 42.
- Isso...
- Nós não éramos tão gay-friendly... Nós nem mesmo estávamos abertos a ouvr quando o assunto era discutido.
- Quando descobrimos que nossa filha era lésbica, foi um turbilhão emocional... Fomos conversar com um sacerdote, e nunca vou esquecer a resposta que ele me deu: "Ela é a mesma pessoa que vocês amavam ontem".
- Nós amamos a nossa filha.
- Eu ficaria muito feliz se minha filha mais velha se casasse.



sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Entendendo a fé (3)

Foto: i can read

Continuação do post de 27/10/11...

Ao confundirmos crença e fé, e, assim, perdermos a sua distinção, caímos na armadilha da lei, em meio às coisas que podemos definir, regulamentos que podemos impor, fórmulas específicas de credos, que justificam nossa rejeição aos outros. Mais do que qualquer outra religião, o Cristianismo caiu nas tentações do poder que a uniformidade das crenças cria.

A ortodoxia de culto da crença, o aprendizado exatamente correto das palavras, rituais, externalidades e fórmulas trai o Deus vivente por outro falso que nós mesmos construímos. A diferença precisa ser compreendida à luz da fé, até mesmo nas tradições religiosas. Todas as religiões possuem suas diferenças internas, que levam o nome de diálogo intrarreligioso. Os judeus dizem que caso você tenha três rabinos discutindo um aspecto da lei, você terminará com quatro opiniões diferentes. Sunitas e xiitas, mahayanas e theravadas, católicos e protestantes, todos sustentam convicções diferentes, dentro da mesma tradição de fé.

A crença pode ser heroica. Você pode se recusar a negar suas convicções, e poderá ficar feliz em ser queimado na pira, ou despojado de posição e status, por elas. Muitos crentes se motivaram pelas histórias desses mártires heroicos, que preferiram entregar suas vidas a negar suas convicções. Não deveríamos depreciar o heroísmo da convicção em face da opressão e da perseguição. Necessitamos força e integridade para resistir à força violenta que nos obrigaria a negar nossos princípios e convicções. Todavia, o reino espiritual não gira em torno do heroísmo. A mentalidade heroica do guerreiro, ou do mártir, se rende a um outro tipo de autoconsciência, uma vez que experienciemos a Deus como amor, em lugar de doador de fama ou glória eterna. Aquiles é admirável, mas não é um santo. Thomas More é um herói da liberdade religiosa e da integridade pessoal, mais do que um professor dos mistérios. A fé é mais do que a crença mais heroica. Ela não é apenas uma convicção sustentada apaixonadamente, por mais leal e de autossacrifício que seja essa convicção. A fé é mais do que um conceito, e mais do que um signo do leal pertencer a um grupo específico.

Trata-se do relacionamento com aquilo que acreditamos; com aquilo que acreditamos porque o experienciamos, e com aquilo que experienciamos porque somos simplesmente projetados para isso, e por isso. A fé nos mergulha na ontologia e, interminavelmente, revela toda a extensão dos mistérios do ser.

- D. Laurence Freeman, OSB
Reproduzido via site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil, com grifos nossos

In Laurence Freeman, FIRST SIGHT: The Experience of Faith (London: Continuum, 2011) pg.14-15).
Tradução de Roldano Giuntoli

sábado, 29 de outubro de 2011

Jesus convida à sua mesa os cristãos divididos

Projeto paisagístico: Visiondivision

A 'hospitalidade eucarística' é abordada por Paolo Ricca. teólogo italiano, em artigo publicado na revista semanal italiana Riforma, 16-09-2011. Riforma é o semanário das Igrejas Evangélicas Batistas, Metodistas e Valdenses da Itália. O teólogo responde à demanda feita pelo movimento ecumênico de Turim, denominado "Instrumentos da Paz", através de pergunta enviada pela leitora Eugenia Ferreri.

A tradução é de Benno Dischinger, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o artigo.

"Pertenço à Igreja valdense de Turim e há alguns anos me ocupo com o ecumenismo, sobre o qual, em âmbito valdense, as opiniões são diversas; há quem seja contrário, quem seja indiferente, quem seja cético, quem gostaria de interromper o diálogo considerado inútil, enquanto outros, afortunadamente compartilham objetivos e razões. No quadro do trabalho ecumênico que se desenvolve em Turim, eu gostaria de falar de uma iniciativa levada em frente pelo grupo ecumênico “Instrumentos de paz”, nascido em 1966 e composto por católicos, evangélicos batistas, valdenses, adventistas e esporadicamente por ortodoxos. A iniciativa consiste num caminho empreendido pelo compartilhamento da eucaristia ou ceia do Senhor.

Para fazer este objetivo chegar aos pastores das várias igrejas evangélicas, a alguns padres e correspondentes paróquias, bem como à comissão diocesana e à evangélica para o ecumenismo, foram enviadas cartas solicitando expressamente que com encontros mensais itinerantes, se possa compartilhar também em igrejas católicas a eucaristia, precisamente como já é possível compartilhar a ceia do Senhor nas igrejas evangélicas. A motivação dada é esta: “Gostaríamos, com este gesto, de responder ao mandamento do Senhor, ao seu convite, ao seu acolher todos. Quereríamos, em suma, ser mulheres e homens do dom e do compartilhamento”.

A iniciativa terá início em outubro. Agora está claro que permanecerão não resolvidas as questões relativas aos diversos significados que católicos e evangélicos dão à Ceia do Senhor. E então a pergunta é: é correto compartilhar um gesto tão importante na divisão das confissões de fé? O que se quer fazer é, por ora, um pequeno passo: o que poderemos ou deveremos fazer para que o pequeno passo possa levar a uma mudança bem mais importante? Como ninguém querer dar um passo para trás no referente à própria teologia, talvez fosse melhor realizar um gesto diferente, para manifestar a comunhão ecumênica já existente. Se sim, qual?"

(Eugenia Ferreri – Turim)

Não é por acaso que a iniciativa do Grupo ecumênico turinense “Instrumentos de paz” de promover, como cristãos de diversas confissões, uma ação comum para chegar a compartilhar a eucaristia (como costumeiramente a chamam os católicos) ou Santa Ceia ou Ceia do Senhor (como costumeiramente a chamam os evangélicos) em cultos públicos, celebrados em paróquias católicas e comunidades evangélicas da cidade – não é por acaso, dizia, que esta iniciativa nasceu neste ano de 2011.

Por que não por acaso? Porque o texto bíblico proposto neste ano às comunidades cristãs de todo o mundo por ocasião da Semana de oração pela unidade dos cristãos, realizada, como a cada ano, de 18 a 25 de janeiro passado, era Atos 2,42, onde se diz que os primeiros cristãos “eram perseverantes na escuta do ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações”.

Partir o pão juntos era, pois, um dos distintivos da primeiríssima comunidade cristã – a que nasceu em Jerusalém no dia de Pentecostes. Como sabemos, esta expressão indica duas coisas distintas, mas na origem estreitamente ligadas entre si.

A primeira é a refeição comum dos cristãos, consumida juntos e chamada ágape; a segunda é a ceia do Senhor, que habitualmente ocorre no quadro do ágape, como sua conclusão e coroamento. Compartilhando o pão e o vinho da ceia do Senhor, os primeiros cristãos manifestavam sua comum pertença a Cristo e sua recíproca fraternidade. Reconhecerem-se como cristãos implicava, entre outras coisas, partirem juntos o pão da Ceia.

Agora, em janeiro deste ano, tocamos com a mão a grande contradição na qual nos encontramos: mesmo pertencendo a igrejas diversas, nos reconhecemos todos como cristãos, mas, não obstante isso, não partimos juntos o pão da Ceia. Este verdadeiro e próprio “apartheid eucarístico” era compreensível quando não nos reconhecíamos como cristãos, mas cada um considerava o outro como herege. Hoje não é mais assim. A própria Igreja católica, que, como sabemos, a seu tempo excomungou a Reforma, os reformadores e seus seguidores, com o Concílio Vaticano II abandonou este juízo, declarando que protestantes e ortodoxos “justificados no batismo da fé, são incorporados a Cristo, e por isso são, com razão, assinalados com o nome de cristãos, e pelos filhos da igreja católica são justamente reconhecidos como irmãos no Senhor” (Concílio Vaticano II, Decreto sobre o ecumenismo, n. 3).

Ora, de duas uma: ou isto não é verdade, isto é, não é verdade que sejamos “irmãos”, embora “separados”, não obstante “assinalados com o nome de cristãos”, se isto, dizia, não é verdade e consequentemente não nos reconhecemos reciprocamente como cristãos, então, sim, é lógico que não partamos juntos o pão da Ceia. Se, ao invés, é verdade que somos “irmãos”, embora “separados”, reconhecendo-nos, pois, reciprocamente como cristãos, mesmo nas diversas pertenças confessionais, então não só podemos, mas devemos partir conjuntamente o pão, porque isto faziam os cristãos quando se encontravam para escutar juntos a Palavra de Deus, para praticar a comunhão fraterna e para orar. Quem faz conjuntamente estas coisas, pode e deve também partir conjuntamente o pão da Ceia.

É esta a proposta do Grupo ecumênico “Instrumentos de paz”. Nossa leitora nos comunica também a motivação: “Queremos com este gesto responder ao mandamento do Senhor, ao seu convite, ao seu acolher todos. Querer-se-ia, em suma, ser mulheres e homens do dom e do compartilhamento”. Esta motivação é mais que suficiente. Jesus celebrou a Ceia até mesmo com Judas, não excluiu nem sequer a ele. Quem tem a coragem e a autoridade de excluir quem quer que seja? O pão e o vinho da Ceia são o dom que Jesus nos concedeu, dando-se a si mesmo: quem tem a coragem e a autoridade de retirar este dom do senhor da mão de um irmão reconhecido como cristão? A proposta, portanto, é boa, evangélica, cristã; é um ato de obediência ao convite de Jesus e de coerência ecumênica, com o qual, por certo – não seria honesto silenciá-lo – se transgride uma lei eclesiástica, mas isto é inevitável caso se queria viver verdadeiramente, neste campo, a liberdade cristã. A lei jamais consegue conter a graça, que transborda de todo lado; por isso Jesus tantas vezes transgrediu a lei do sábado.

Vai por si que, como justamente observa nossa leitura, “permanecerão não resolvidas as questões relativas aos diversos significados que católicos e evangélicos dão à Ceia do Senhor”. Por exemplo, os evangélicos não compartilham a doutrina da transubstanciação, e os católicos (caso sigam a doutrina oficial de sua Igreja) pensam que somente um sacerdote ordenado por um bispo (católico ou ortodoxo) tenha a assim dita potestas consecrandi, isto é, o poder de “consagrar o pão e o vinho de modo a transformá-lo no corpo e sangue de Cristo. Mas, se as diferenças de doutrina entre católicos e evangélicos sobre a Ceia permanecem aquelas anteriores, que sentido tem que eles a celebrem juntos, dado que a compreendem de modo diverso? Celebram verdadeiramente a mesma Ceia, ou não celebram talvez duas Ceias diversas, embora chegando juntos à mesma mesa e compartilhando o mesmo pão e o mesmo vinho?

Mas, se devesse ser assim (duas Ceias diversas celebradas conjuntamente por católicos e evangélicos em torno à mesma mesa), a comunhão realizada em torno àquela mesa seria real ou somente aparente? São estes os interrogativos – muito sérios – que nossa leitora levanta e às quais respondo assim: o que conta na ceia do Senhor são suas palavras (“Tomai, este é o meu corpo”; “Este é o meu sangue, o sangue da aliança...” e os seus dons – o pão e o vinho: Marcos 14, 22-25). Nem o próprio Jesus, que por primeiro celebrou a Ceia, nem o apóstolo Paulo, que narra sua “instituição” (Coríntios 11, 23-25), sentiram a necessidade de explicar, isto é, de interpretar as palavras da Ceia.

Isto, no mínimo, significa duas coisas: a primeira é que a interpretação é livre, isto é, são possíveis diversas interpretações, nenhuma das quais pode, no entanto, pretender ser canônica, porque na Escritura, que é o cânone (isto é, a regra de nossa fé cristã), as palavras de Jesus são aduzidas, mas não interpretadas. A segunda é que, embora a interpretação seja necessária (no sentido que cada um deve saber o que está fazendo quando participa da Ceia), todavia, esta interpretação não é constitutiva da própria Ceia, a qual é a Ceia do Senhor, independentemente das interpretações que nós lhe damos. O que une aqueles que participam da Ceia do Senhor são o pão, o vinho, as palavras de Jesus e a ação invisível do Espírito, e não as nossas explicações das palavras de Jesus e as nossas interpretações dos seus dons.

Embora, quando celebramos a Ceia entre cristãos de diversas confissões, estivéssemos de acordo e déssemos a mesma explicação daquilo que na Ceia acontece (esta unanimidade, entre outros aspectos, não existe sequer quando a celebram cristãos da mesma Igreja; também ali, secretamente, as opiniões divergem!), não seria aquele acordo o vínculo real de nossa comunhão, e sim o seriam as palavras, o pão, o vinho de Jesus e o testemunho interior do Espírito Santo. Eis porque tem sentido que cristãos de diversas igrejas celebrem juntos a Ceia do Senhor, porque é aí que Jesus os convoca, e aí eles se reúnem, aceitando, com alegria e gratidão (“eucaristia” significa em grego “reconhecimento”, “agradecimento”), o seu convite para receberem juntos as suas palavras e os seus dons, independentemente das diversas interpretações que eles possam dar da Ceia. O que nos une a Jesus quando celebramos a Ceia não é esta ou aquela doutrina, mas a fé.

Na linguagem ecumênica, este tipo de celebração se chama “hospitalidade eucarística”: somos todos hóspedes (indignos) do Senhor em sua mesa, e ali, recebendo o pão e o vinho com sua palavra, celebramos conjuntamente a “comunhão com o corpo e o sangue de Cristo”, como diz a Escritura (1 Co 10, 16). Como ocorra esta comunhão a Escritura não o diz, e não temos necessidade de dizê-lo nós. A Escritura diz somente que ela acontece, entende-se na fé, e isto nos deve bastar.

As doutrinas entre si diversas permanecem, e podem continuar a confrontar-se, mas o convite de Jesus deve ter o primado. Nem se pode pensar em cerimônias substitutivas, às quais Jesus não nos convida: ele nos convida à sua mesa, que é única, e não a outras. A iniciativa de ”Instrumentos de paz”, como eu já disse, é boa precisamente porque afirma o primado do dom de Deus acima de nossas interpretações, e este dom é único e o mesmo para todos. Jesus não divide e sequer aceita as nossas divisões, pelo menos à sua mesa. A única condição é a fé nele e a clareza nas relações entre nós. As nossas diferenças na interpretação da Ceia não devem ser caladas ou espezinhadas – aqui se requer total transparência -, mas também não devem ser dogmatizadas a ponto de se tornarem mais importantes do que o convite de Jesus. O Senhor é Ele, e não nós.

Religiões: o diálogo passa pelo bem

"Lendo as entrelinhas": projeto arquitetônico Gijs Van Vaerenbergh

A peregrinação a Assis (entenda do que se trata aqui) não foi desejada para "rezar juntos", mas sim para "estar juntos para rezar". A única coisa que sempre é possível compartilhar com todos é um silêncio adorante vivido uns ao lado dos outros, na certeza de que Deus vê, une, acolhe o que sobe do coração humano como desejo de bondade e de salvação.

A afirmação é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, em sua lectio magistralis proferida nesta quarta-feira, 26, em Assis, na vigília de oração pela paz com o papa. A reflexão foi publicada no jornal La Stampa, 26-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o texto.


Na Jornada de Reflexão, Diálogo e Oração pela Paz e a Justiça no Mundo convocada pelo Papa Bento XVI, pode-se entrever, ao lado de uma substancial continuidade com a iniciativa de João Paulo II em 1986, alguns acentos de novidade. Para esta jornada, de fato, também foram convocadas personalidades do mundo da cultura que não se professam religiosas. Além disso, o encontro está intitulado "Peregrinos da verdade, peregrinos da paz", colocando em relevo, assim, como a busca da verdade é essencial para que possa haver uma busca da paz.

Aqueles que presumem conhecer Bento XVI e, muitas vezes, o apontam como "corretor" dos seus antecessores gritaram a traição, e alguns deles até se dirigiram a ele com cartas que o convidavam a cancelar essa iniciativa. Os tradicionalistas cismáticos expressam a sua condenação, e o mesmo fazem alguns católicos que temem o evento porque o julgam como um encorajamento ao sincretismo ou ao relativismo, segundo o qual todas as religiões se equivalem.

Assim, mais uma vez na nossa Igreja, cada vez mais dividida e conflitual, perfilam-se acusações e contraposições que marcam com desconfiança toda iniciativa e a tornam ocasião para uma negação de quem, longe de ter uma outra fé, simplesmente aparece com diversidade de estilo, de tons, de atitudes pastorais, de modos de se colocar na história e em meio aos homens.

Além das reações também descompostas, a vontade de Bento XVI de assumir o espírito de Assis confirma o caminho de diálogo desejado pelo Vaticano II e mostra como a Igreja Católica tem a consciência de uma missão verdadeiramente universal: isto é, uma missão que se refere a todos no respeito do caminho e das vias religiosas de cada um, na convicção de que todos os homens são irmãos porque são filhos de um único Pai e Criador, e que nenhum deles jamais poderá ser alheio ao mistério pascal de Jesus.

Também deve-se dizer que muitos temores repousam sobre um mal-entendido fundamental: presume-se que o diálogo requer deixar de lado a própria fé e esquecer a verdade. Na realidade, o diálogo implica uma autêntica reciprocidade, pede que se ouça o outro e a sua fé com respeito, mas, ao mesmo tempo, que se fale com parrésia sobre a própria fé. O diálogo inter-religioso exige que cada um dos dois parceiros conheça a sua própria tradição e permaneça fiel a ela, que seja um testemunho da sua própria fé sem a pretensão de impô-la ao outro. O diálogo, se bem compreendido, até faz parte da evangelização, porque só dialogando de modo autêntico é que se assume o estilo de Jesus, o estilo do Evangelho, o dos discípulos enviados entre os povos.

O caminho do diálogo é um percurso coerente com a grande tradição da Igreja. Desde os primeiros séculos, os Padres da Igreja, interrogando-se sobre as diversas tradições religiosas em meio às quais os cristãos eram uma realidade nova e minoritária, discerniam as semina Verbi, ou seja, a presença de "sementes da palavra de Deus", de traços do Espírito Santo, de raios de verdade.

Em todas as realidades, em toda a história, a palavra de Deus sempre trabalhou e, junto com ela, jamais dissociado dele, o Espírito de Deus. Com a Encarnação, depois, é o próprio Deus que se fez homem, carne, e habitou em meio a nós. A Palavra espalhou as suas sementes de vida nas culturas de todos os povos, sementes que inicialmente estão escondidas, mas que depois se desenvolvem e aparecem na história, nas diversas culturas.

Em outras palavras, Cristo é a única verdade, mas raios da sua luz se encontram em cada ser humano, criado por Deus à sua imagem e semelhança. Verdades, estas, jamais desmentidas, que levaram Paulo VI a constatar que "as religiões (...) ensinaram gerações inteiras a rezar", enquanto João Paulo II atestava: "Nós podemos considerar que toda oração autêntica é suscitada pelo Espírito Santo que está misteriosamente presente no coração de todos os homens".

Mas sob quais condições é possível convocar crentes de fé e religião diferentes para rezar pela paz? Quando foi organizado o encontro de 1986, em resposta às diversas contestações levantadas contra a iniciativa papal, afirmou-se insistentemente que a peregrinação a Assis não era desejada para "rezar juntos", mas sim para "estar juntos para rezar". Desse modo, insistiu-se sobre a impossibilidade de uma oração comum, porque está só é possível entre cristãos de diferentes confissões, que reconhecem o Deus trinitário e confessam Jesus Cristo como único salvador. Os cristãos não podem assumir as formulações de oração de outras religiões e, reciprocamente, os outros certamente não gostariam de adotar as orações cristãs.

A oração, eloquência da própria fé, nos pede que rezemos juntos como cristãos que confessam a fé expressa no Credo Apostólico. Pede-nos também que rezemos juntos entre judeus e cristãos (pelo menos através dos Salmos), filhos gêmeos do Antigo Testamento que confessam o mesmo Deus e esperam dele a plena redenção.

Porém, somos impedidos de fazer uma oração comum e pública com crentes de outras religiões: a única coisa que sempre é possível compartilhar com todos é um silêncio adorante vivido uns ao lado dos outros, na certeza de que Deus vê, une, acolhe o que sobe do coração humano como desejo de bondade e de salvação. Deus conhece quem busca o seu rosto: ele certamente vê e cria uma comunhão que nós não podemos nem medir nem reconhecer. No entanto, como lembrava João Paulo II no discurso à Cúria Romana em 1986, consciência e fé nos dizem que "há um só plano divino para todo ser humano que vem a este mundo, um único princípio e fim", porque "as diferenças são um elemento menos importante do que a unidade que, ao contrário, é radical e determinante".

Nós, cristãos, acreditamos que Jesus Cristo é o único salvador, o único mediador e o único Senhor dos homens, e é justamente essa fé nele que nos leva ao encontro dos homens do mundo, das diversas culturas e religiões, com grande simpatia, com o desejo de ouvir o que arde em seus corações, com o desejo de aprender com eles também, no diálogo e no debate franco, livre, capaz de acolhida recíproca.

Nós não somos ingênuos otimistas, mas, ao contrário, é com esforço que buscamos assumir os sentimentos, as atitudes e os pensamentos de Jesus, ele que quis se encontrar com todos: sãos e doentes, justos e pecadores, ricos e pobres, judeus e pertencentes aos povos, pessoas com a fé em Deus ou que não conheciam Deus. Jesus nunca julgou nem condenou ninguém. Até se sentou à mesa dos impuros, dos pecadores e dos malditos: e como poderíamos nós, seus discípulos, nos recusar a aceitar qualquer um dos nossos irmãos e irmãs em humanidade?

Sim, nós, homens e mulheres, somos todos cegos em busca de sermos curados, coxos que se esforçam para seguir em frente, gagos ao falar de Deus, muitas vezes surdos ao ouvi-lo. Somos peregrinos em busca da verdade, da justiça e da paz: todos invocamos e esperamos a salvação, aquela "salvação [que] não está nas religiões enquanto tais, mas está ligada a eles, na medida em que levam o homem ao Bem único, à busca de Deus, à verdade e ao amor".

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O mal existe, mas o bem é maior

Foto: Sarah

Um amigo querido do blog compartilhou conosco, em particular, seu desânimo diante de tanta violência, tanto preconceito e tanta exclusão. É verdade, quem acompanha os veículos LGBT cada vez mais é bombardeado por coisas muito feias e trágicas. Por um lado, isso é efeito direto da nossa maior visibilidade - que provoca uma reação violenta - e, ao mesmo tempo, da nossa maior organização - que faz com que denunciemos com mais vigor a violência. E, nesse contexto, é preciso lembrar duas coisas.

Primeiro, como disse nosso amigo Tony Goes recentemente, num post que reproduzimos aqui, "é super-válido reagirmos aos ataques de Bolsonazis, Malafaias e similares; não podemos deixar barato a mais leve ofensa. Mas é preciso termos um pouco de perspectiva histórica e percebermos que, a médio e longo prazo, os homofóbicos já perderam".

Segundo, acho (opinião inteiramente pessoal) que tem horas que é preciso desligar um pouco. Tem horas que a atrocidade vai tão alem dos limites que, se a gente não fechar os olhos e os ouvidos e se afastar um pouco, a gente surta. Porque é demais, mesmo. E ninguém precisa ser super-homem e ter que dar conta de absorver todas as informações o tempo todo. Senão, acaba acontecendo que a gente fica morando num mundo medonho, violento, hostil, brutal, bárbaro. E o mundo não é só isso. Se a gente esquece que tem também o sol, a praia, os amigos, o amor, o carinho, o prazer, as atrocidades ganham um tamanho muito maior do que já têm. A gente fica impotente diante delas. E não tem nada mais devastador do que a impotência diante do mal.

De vez em quando, é necessário alimentar a nossa fé, a nossa confiança na vida, a nossa certeza de que o mal existe mas o bem é maior. De que a violência acontece e é preciso combatê-la e preveni-la, mas a amizade, o amor, a solidariedade, o afeto, estão aí. Alguns dos maiores presentes que já ganhei vieram em momentos difíceis, sob a forma do apoio, do carinho e da partilha com pessoas que fizeram com que eu me sentisse amada e cuidada quando mais precisava. O amor que nos dão é expressão do amor de Deus por cada um de nós. Mas é preciso que a gente esteja de coração aberto para receber - e receber o amor dado é responsabilidade nossa. Só eu posso fazer isso por mim, mais ninguém.

Isso é mais importante que todo o mal do mundo. A gente não pode se esquecer disso nunca. Senão, se a gente deixa o medo e a dor se instalarem no nosso coração, o mal já ganhou.

Cuidem-se bem, queridos. Respirem um pouco, alimentem seus corações com beleza e amor. Peçam ajuda a quem ama vocês, e se deixem cuidar um pouco. A gente precisa de nutrição pra continuar andando. E, se tem uma coisa de que ninguém precisa agora, é de mártires caídos e almas imoladas.

Beijos e bom fim de semana.

Cris

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Entendendo a fé (2)

Foto: i can read

Continuação do post de ontem...

Uma nova compreensão da fé destrói a prisão da crença. Ela liberta as pessoas religiosas para um mundo de ações compassivas, expressadas na parábola do Bom Samaritano. Ninguém está excluído dessa extensão da experiência de unidade, que surge das profundezas da alma, nas quais as crenças não podem adentrar, porque "conhecemos a Deus não por meio do pensamento, mas por meio do amor". Nos horizontes que a luz da experiência contemplativa revela, não mais identificamos a fé com a crença, ou condenamos as crenças de outras pessoas como sendo deficientes. O contemplativo deveria ser possuidor de uma cortesia mais parecida com a do Cristo, do que isso. E, dentro do risco, sim isso envolve um risco, do encontro com o outro, de encontrar outros crentes nos reinos desconhecidos da diferença, descobrimos a própria natureza da fé. Também seremos reconfortados porque, de fato, nossa própria identidade, que acreditávamos ameaçada, se afirma. [...]

A mera afirmação e defesa de nossas convicções não pode conduzir a uma verdadeira comunidade de fé. Isso faz com que nos tornemos membros de uma seita, uma cabala fundamentalista. Fecha a mente, como um órgão de percepção e da verdade. Caso confundamos a fé com a crença, dessa maneira, e passemos a pensar na fé como doadora de um senso de sermos diferentes ou superiores aos outros, terminaremos como o fariseu que agradecia a Deus por fazê-lo diferente dos outros e ficava satisfeito por ser superiormente diferente. A mente religiosa, nesse estado, pode até se persuadir a si mesma de que isso é humildade. Ao nos identificarmos inteiramente com a crença (o lado esquerdo do cérebro), negando a fé (o lado direito do cérebro), ocupamos um mundo privado só nosso, em lugar do reino de Deus, ou do reino de Cristo, no qual "não há nem judeus, nem gregos, homens ou mulheres, escravos ou libertos". Os religiosos frequentemente têm receio do poder da fé, precisamente porque ela tende a nos dirigir para esse reino indiferenciado do Espírito, no qual desmantelam-se todas as diferenças, que as crenças que colocamos em nosso altar podem controlar minuciosamente, religiosas, sociais e até mesmo de gênero.

A fé é a pista de alta velocidade para o espírito. Todo ato de fé que fazemos é uma descoberta do labirinto do espírito. A crença, quando rompida pela fé, conduz a um labirinto de espelhos, uma série de infinitas regressões, o labirinto do ego. Labirintos levam a becos sem saída e, quanto mais nos perdemos, mais entramos em pânico. Porém, os labirintos só nos pedem para seguirmos fielmente seus volteios e curvas, estranhos, mas afinal simétricos, de modo a sermos conduzidos para casa, ao centro.

- D. Laurence Freeman, OSB
Reproduzido via site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil, com grifos nossos

In Laurence Freeman, FIRST SIGHT: The Experience of Faith (London: Continuum, 2011) pg.9-10).
Tradução de Roldano Giuntoli

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Entendendo a fé (1)


Em lugar de dedos que apontam para a lua, a doutrina ou o dogma viram-se para trás apontando para si mesmos. Tudo aquilo que questiona a crença, é então percebido como ameaçador, e aquilo que ameaça pode exalar um tipo de estranheza ou ameaça que incita o medo.

“Eu sou aquilo que eu acredito” é um princípio tão perigoso quanto “existo porque eu penso”. Então, aquilo que quero, ou tento, acreditar constitui minha identidade, meu eu, e assim, porque acredito nessas doutrinas, eu sou um cristão. Outras pessoas que não acreditam nessas declarações específicas são “não-crentes”. A crença, na verdade, pode ser forte e verdadeira. Podemos ser leais a nossas convicções, e morrer defendendo o sistema do qual elas fazem parte. Todavia, esse tipo de convicção, aquela pela qual poderíamos morrer, deveria surgir a partir da experiência da fé, e não do medo de uma identidade ameaçada e insegura. Por que morrer, ou atacar outras pessoas, apenas com respeito a fórmulas verbais? Enquanto pensamos na fé como sendo constituída por convicção, falta-nos a dimensão completa da mente de Cristo.

Esta é a mente “católica” que, intrinsecamente, busca incluir e integrar, em lugar de excluir e condenar, sempre que se encontra com diferentes expressões de crenças que trazem à tona a incerteza natural em nosso próprio sistema. Percebemos que existem crenças em diferentes caminhos, e que outras pessoas sustentam as suas, tão sinceramente quanto sustentamos as nossas. Sem a fé, isso nos fará sentir dolorosamente ameaçados. Quando reagimos a partir de nossa própria insegurança, nós cristãos frequentemente descrevemos os devotos seguidores de outras religiões como não-crentes, apenas porque eles possuem diferentes crenças.

As diferenças, assim como os opostos, em última análise, resolvem-se apenas em Deus, que é infinitamente simples, o suficiente para contê-las todas. Apenas em Deus podemos encontrar os outros, e é no nível da fé, e não no da crença, que esse encontro ocorre.

- D. Laurence Freeman, OSB
Reproduzido via site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil, com grifos nossos

In Laurence Freeman, FIRST SIGHT: The Experience of Faith (London: Continuum, 2011) pg.9-10).
Tradução de Roldano Giuntoli

* * *

Continua amanhã... :-)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Por que ''o teu próximo'' revolucionou a fé

Foto daqui

Publicamos aqui um trecho do livro de Enzo Bianchi e Massimo Cacciari, Ama Il prossimo tuo (144 páginas), décimo primeiro e último livro da série "Os Mandamentos", publicado pela editora Mulino.

O texto foi publicado no jornal Corriere della Sera, 22-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o texto.

É preciso começar pelos textos decisivos em que ressoa o mandatum novum: "Amarás o Senhor teu Deus com todo O teu coração e toda a tua alma e com todas as tuas forças e toda a tua mente, e amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Lucas 10, 27). O verbo agapán é usado para indicar tanto o amor que se deve ao Theós, quanto aquele ao próximo, plesios. A tradução latina, proximus, também mostra bem a importância do termo: proximus é de fato um superlativo. Não pode se tratar de um simples "vizinho". O plesios enquanto proximus se refere a nós com uma intensidade que nenhuma proximidade, nenhuma contingente contiguidade poderia alcançar. Nem se trata, certamente, de uma voz inexplicavelmente nova, vinda de algum outro lugar misterioso.

Esse mandatum também é um pleroma, não katalysis da Lei, salvação do próprio nomos em sua renovação radical. O preceito do pleno respeito dos direitos do hóspede, assim como do companheiro, do aliado, do amigo havia sido afirmado, de fato, com pleno vigor pelos profetas – porém, o rea' da Primeira Aliança, que a Septuaginta traduz no máximo como plesios, mesmo quando designa o estrangeiro, o concebe sempre como ligado a nós, ou pelo símbolo da hospitalidade, ou das relações de confiança recíproca, garantidos por pactos e arautos de acordos "úteis" às partes.

O timbre do mandatum evangélico "excede" completamente essa dimensão. O fato de combinar imediatamente o amor pelo Senhor ao pelo próximo constituiria verdadeira novitas, mesmo que plesios aqui traduzisse exatamente rea'. O que era mandado, juntamente com outros deveres, aqui completa até a Primeira Palavra! O Logos que serve de fundamento para toda a vida de Israel não se expressaria plenamente, permaneceria imperfeito, se não significasse em si mesmo amor pelo próximo.

É evidente que plesios é chamado, então, neste contexto, a assumir uma pregnância inaudita – mas, ainda mais, é evidente que a própria visão de Deus muda por essa sua extraordinária proximidade ao “plesios.

Só em um ponto, talvez, na Primeira Aliança, se chega a uma intuição análoga – e é do maior significado isso ocorra em Jó. Todo o drama de Jó poderia ser interpretado da seguinte forma: é isto que ele pede: não que lhe sejam poupados os suplícios (no máximo as fofocas dos “advocati Dei”), mas que Deus se mostre a ele como rea', plesios, proximus (16, 21): "como um mortal faz com o seu rea' (plesion autoú)", ele quer encontrá-lo “face a face” e defender o homem diante dEle. Moisés também falava com o Senhor como um homem fala com o seu rea' (Êxodo 3, 11), mas a cena em Jó está radicalmente mudada: no Êxodo, parece evidente a forma do acordo, ou melhor: da aliança eterna; “rea'” expressa aqui uma proximidade atual e incontestável. Para Jó, ao contrário, o Senhor deveria se fazer “rea'”; ele exige que a relação entre o mortal e o seu Deus se torne uma relação entre “próximos”.

Poder-se-ia argumentar que Jó exige a companhia, a amizade, a proximidade de Deus no sentido daquela reciprocidade confiante, que o termo “rea'" expressa substancialmente. Ele quer amar o seu Senhor como o próximo, no aspecto do próximo, mas isso não equivale de fato a amar o próximo como ao Senhor. E se isso ocorre, é evidente que o significado que atribuíamos a rea' e ao plesios dos LXX, é revolucionado.

Foi dito: "Amarás o teu próximo (agapeseis ton plesion soú)" – mas também foi dito: odiarás o inimigo, odiarás quem não está contigo no vínculo das leis da hospitalidade, no sentido mais amplo do termo. Mas talvez os gentios também não sabem disso? "Mas eu porém vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem".

Em Lucas o paradoxo da extrema proximidade entre amor por Deus e amor pelo próximo; em Mateus, o da relação que vem se estabelecer entre plesios e echthrós, entre proximus e inimicus. O inimigo não pode ser amado sob o fundamento de um pacto, nem em vista de qualquer ganho, nem esperando reciprocidade. No entanto, deve ser amado como plesios. Isto é, no termo, deve ser compreendido o máximo afastamento. Próximo, "superlativamente" próximo, é o próprio inimigo (o hospes que não só se declara abertamente hostis, mas até inimicus, echthrós).

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Vivemos melhor sem Deus?


“Cada vez que hoje me perguntam se eu acredito se é melhor ou não acreditar em Deus, costumo responder que isso não tem importância, já que, se Deus existir, o importante é que ele acredite em nós, como Dom Romero me havia dito”.

A opinião é do jornalista, filósofo e teólogo espanhol Juan Arias, correspondente no Brasil do jornal espanhol El País. Anteriormente, havia sido correspondente no Vaticano e fez a cobertura jornalística de algumas sessões do Concílio Vaticano II, tendo também acompanhado muitas das viagens dos papas Paulo VI e João Paulo II.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU, com grifos nossos.


Um amigo me pergunta por que, em tempos de crise, inclusive as econômicas como na atualidade, o ser humano se refugia mais na fé em Deus. Difícil responder a essa pergunta, já que, para mim, se Deus serve para alguma coisa deve ser para os tempos de alegria e de felicidade, não para os tempos do medo.

Os pais do cientista e escritor Leonard Mlodinov se salvaram das garras do Holocausto. Ele mesmo salvou a sua vida no fatídico 11 de setembro, nos porões de uma das Torres Gêmeas em Nova York, quando se afundou. Em uma entrevista recente, perguntaram-lhe no Brasil o que ele sentia ao saber que Deus havia salvado milagrosamente a sua vida e a de seus pais. Ele respondeu: "Não foi Deus, mas sim o acaso". E acrescentou: "Que Deus seria esse que salva meus pais do nazismo e deixa morrer seis milhões de outros judeus?". "Que Deus seria esse que me salva do atentado terrorista de Nova York e deixa morrer outras 3 mil pessoas?".

Difícil encontrar Deus nos escombros da morte.

Leitores que não conheço costumam me perguntar, uns com respeito, outros, menos, se eu penso que, sem Deus, se acaba vivendo melhor. Escrevi há 40 anos um livro intitulado "El Dios em quien no creo" [pdf para download do livro completo em espanhol aqui]. Esse tinha sido o título de um artigo publicado no extinto jornal Pueblo de Madri. Havia passado pelos censores franquistas. Talvez porque pensaram que, se falava de Deus, não poderia ser nada subversivo. E era, para a Espanha católica e fechada de então.

O então arcebispo de Madri, Casimiro Morcillo, me chamou ao seu escritório. Ele me disse que o artigo estava ajudando os espanhóis a se tornarem ateus, porque afirmava, entre outras coisas, que, se Deus existe, não podia haver o inferno e que não podia curar uns e deixar outros morrerem. Mostrei-lhe a carta que eu acabava de receber de um casal jovem, em que me diziam que haviam recortado o artigo e conservado para quando seus dois filhos pequenos fossem maiores. "Nós não somos crentes, mas se um dia nossos filhos quiserem acreditar, gostaríamos que acreditassem nesse Deus irreconciliável com o inferno", diziam.

Não serviu de nada. A partir daquele dia, além da censura franquista, a Igreja de Madri impôs outro censor para a minha coluna do Pueblo, que se intitulava "Las cosas claras". Sobre aquele livro, nascido desse artigo e traduzido hoje para 10 idiomas, duas senhoras bem arrumadas, quando voltavam de trem de Assis, onde ele havia sido publicado, olhando com receio para a capa, me perguntaram: "Esse livro é a favor ou contra?". "Isso depende, senhoras", lhes respondi.

Cada vez que hoje me perguntam se eu acredito se é melhor ou não acreditar em Deus, eu costumo responder que isso não tem importância, já que, se Deus existe, o importante é que ele acredite em nós, como Dom Romero me havia dito, talvez em sua última entrevista antes de ser assassinado a tiros enquanto celebrava a Eucaristia.

Somos mais felizes sem Deus? Depende, senhores. Difícil se sentir livre e realizado com o Deus que os ditadores amam e adoram – com os quais, certamente, a Igreja sempre se entendeu melhor do que com os democratas –; difícil com o Deus absolutista incompatível com a democracia ou com o Deus que desconfia da sexualidade.

É difícil que as pessoas, jovens ou adultas, não tragam consigo a sombra de um Deus castrador, aquele sobre o qual, em um colégio de religiosas, a madre superiora tinha escrito nos banheiros das alunas: "Deus está te olhando".

O famoso poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto, quando estava por morrer, quis falar com um sacerdote da Teologia da Libertação. Confessou-lhe que era ateu, mas que, naquela hora final, atacava-lhe o medo "daquele inferno de que me falaram quando criança na Igreja". O teólogo disse que, além de o inferno não existir, um poeta nunca teria lugar nele. Esse teólogo era Leonardo Boff, condenado ao silêncio pelo então cardeal Ratzinger e hoje Papa Bento XVI.

O Deus do medo é o Deus que não merece existir. O medo é argamassa humana, é a arma de todos os poderes da Terra, não tem nada de divino. É tirano. Só a felicidade é libertadora. O medo é usado e abusado pelas Igrejas institucionais. Jesus nunca impôs medos aos que o seguiam. Ele os tirava. Ele também os teve. Teve medo de morrer, suou sangue perante a iminência de sua morte, pediu explicações a Deus sobre por que deixava que o matassem se era inocente. E dele tiveram medo os hipócritas e os poderosos, nunca os desprezados ou indignados.

Aquele profeta tinha só um “pecado”: não acreditava no sofrimento, nem na dor, nem na morte como armas de redenção. Não suportava ver alguém sofrer. Não gostavam dos mortos e os ressuscitava. Nunca pediu aos seus apóstolos que fizessem jejuns e penitências, nem que fossem heróis ou virgens. Estavam todos casados, como ele.

E ele não foi um profeta fácil: exigiu, com naturalidade, algo que nos parece loucura: devolver o bem pelo mal. Ele sabia que a felicidade – que era a sua única teologia – se engendra na paz e não na guerra, no perdão e não na vingança.

Vivemos melhor sem Deus? "Depende, senhores". Sem aquele que oferecem as igrejas, que não te permite morrer em paz, nem fazer amor sem que te espie como um policial, vivemos melhor. Vivemos melhor sem o Deus que procura se adonar do mais sagrado do ser humano: sua liberdade e sua consciência. Pelo menos, sem ele, vivemos com menos medos, o que não é pouco.

E com o Deus em que Dom Romero acreditava quando o crivaram de balas no altar, por defender os pobres contra o poder, vivemos melhor?, alguns se perguntarão. Vivemos melhor com o Deus que sempre aposta nos que perdem, o Deus daquele Jesus que não só perdoou na cruz aos que blasfemavam contra ele, mas que até os desculpou: "Perdoa-lhes porque não sabem o que fazem", expressão máxima do amor supremo que não humilha nem quando perdoa?

Acredito que como melhor se vive é sendo fiel à voz da consciência, mais severa do que as leis, porque não é possível burlá-la, e que constitui a única fonte de liberdade. O cardeal Newman, convertido do protestantismo ao catolicismo, foi um defensor do primado da consciência sobre a lei. Na Carta ao Duque de Norfolk conta que, se se visse obrigado a fazer um brinde, o faria "primeiro à consciência e depois ao papa". Newman tem uma frase que, ainda hoje, depois de dois séculos, continua deixando os cabelos da Igreja e dos teólogos tradicionais em pé: "Prefiro me equivocar seguindo a minha consciência do que acertar contra ela". A Igreja defende, ao contrário, que a consciência deve ser formada antes. Por ela e com medo, é claro.

Vivemos melhor sem Deus? Depende. Talvez tenhamos, às vezes, a tentação de acreditar em alguém mais do que humano, capaz de exorcizar a crueldade que semeia o planeta com mortos inocentes, que pisoteia os que não têm poder, que exalta os explorados, que discrimina os diferentes, que violenta as crianças, que quer impor o seu Deus, que humilha a liberdade. Mas esse não será, antes, o Deus dos nossos sonhos?

Poderíamos viver melhor só com o Deus – se existir – capaz de tirar de nós, mortais, o medo supremo da morte, sem a qual, curiosamente, as religiões deixariam de existir, como afirmava Saramago. Viveríamos melhor com o Deus que não nos proibisse sonhar. Existe?

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Aos namorados

Foto daqui

Nosso amigo Teleny mais uma vez nos brinda com um de seus comentários perspicazes, e achamos que valia a pena reproduzir aqui.

No dia 11 de setembro deste ano o Papa Bento XVI realizou a sua viagem apostólica à cidade italiana de Ancona. No final da tarde o Papa teve o encontro com os namorados. O assunto principal, evidentemente, era a preparação ao matrimônio (heterossexual, entende-se). Ao ler o seu discurso, pensei: ele não tem como não falar sobre este tema, até porque dirige-se a todos e o namoro heterossexual é uma experiência vivida pela maioria daqueles jovens, reunidos lá, na Praça do Plebiscito. Aliás, seria super-curioso promover por lá um plebiscito sobre a união homoafetiva, mas não foi desta vez. Falando sério, o que chamou a minha atenção no texto (aqui), foi uma consoladora ausência daquelas famosas afirmações indiretas (antigamente mais frequentes) que detonam qualquer ideia sobre o amor entre as pessoas do mesmo sexo. Mesmo falando para a maioria heterossexual, o Papa deixou umas dicas preciosas que servem muito bem – na minha opinião – aos que vivem o amor homossexual. Vejamos algumas frases (os grifos são meus):

"Nunca percais a esperança. Tende coragem, também nas dificuldades, permanecendo firmes na fé. Tende a certeza de que, em todas as circunstâncias, sois amados e protegidos pelo amor de Deus, que é a nossa força. Deus é bom. Por isso é importante que o encontro com Ele, sobretudo na oração pessoal e comunitária, seja constante, fiel, precisamente como o caminho do vosso amor: amar a Deus e sentir que Ele me ama. Nada nos pode separar do amor de Deus! Depois, tende a certeza de que também a Igreja está próxima de vós, vos ampara, não cessa de olhar para vós com grande confiança.

"Como namorados estais a viver uma fase única, que abre para a maravilha do encontro e faz descobrir a beleza de existir e de ser preciosos para alguém, de poder dizer um ao outro: tu és importante para mim. Vivei com intensidade, gradualidade e verdade este caminho. Não renuncieis a perseguir um ideal alto de amor, reflexo e testemunho do amor de Deus!

"Gostaria de vos dizer antes de tudo que eviteis fechar-vos em relações intimistas, falsamente animadoras; fazei antes com que a vossa relação se torne fermento de uma presença ativa e responsável na comunidade. Depois, não vos esqueçais de que para ser autêntico, também o amor exige um caminho de amadurecimento: a partir da atração inicial e do «sentir-se bem» com o outro, educai-vos a «amar» o outro, a «querer o bem» do outro. O amor vive de gratuidade, de sacrifício de si, de perdão e de respeito do outro.

"Queridos amigos, cada amor humano é sinal do Amor eterno que nos criou, e cuja graça santifica a escolha de um homem e de uma mulher de se entregarem reciprocamente a vida no matrimônio. Vivei este tempo do namoro na expectativa confiante desse dom, que deve ser aceite percorrendo um caminho de conhecimento, de respeito, de atenções que nunca deveis perder: só sob esta condição a linguagem do amor permanecerá significativa também com o passar dos anos.

"Gostaria de voltar mais uma vez a falar de um aspecto essencial: a experiência do amor tem no seu interior a propensão para Deus. O verdadeiro amor promete o infinito! Por conseguinte, fazei deste vosso tempo de preparação para o matrimônio um percurso de fé: redescobri para a vossa vida de casal a centralidade de Jesus Cristo e do caminhar na Igreja.

"Também eu gostaria de vos dizer que estou próximo de vós e de todos os que, como vós, vivem este maravilhoso caminho de amor. Abençoo-vos de coração!"

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Carta aos LGBTs: "Eu estou com vocês"

Foto: i can read

Por um feliz acaso, encontramos outro dia este texto no blog de um certo Jeremy Johnson e achamos que valia traduzir e compartilhar com vocês.

Não sei como é ser negro e carregar o peso de anos de opressão e racismo sobre os ombros. Ter de conviver com e superar tamanha opressão. Sentir-se diferente e de menor valor simplesmente por causa da cor da minha pele. Eu sou branco.

Não sei como é ser mulher e carregar o peso da desigualdade e do sexismo sobre os ombros. Andar sozinho pela rua sendo fuzilado por todos aqueles olhares carregados de luxúria. Sentir-se diferente e de menor valor simplesmente por causa do meu gênero. Eu sou homem.

E não sei como é ser gay e carregar o peso do ódio, medo e isolamento sobre os ombros. Ter intensos sentimentos amorosos por alguém do meu próprio gênero. Ter de optar entre reprimir aquilo que sou ou “sair do armário”, sabendo muito bem os conflitos que minha decisão vai causar. Sentir-se diferente e de menos valor simplesmente por causa de minha orientação. Eu sou hétero.

Nunca acordei, numa manhã da minha adolescência, sentindo-me culpado, sujo e assustado porque algo despertou dentro de mim e tenho sentimentos pelos garotos, não pelas garotas. Nunca vi o jeito como as pessoas olham ao passar de mãos dadas com outro cara. Nunca precisei me perguntar por que Deus me fez assim, permitiu que eu me sentisse assim, só para dizer que sou amaldiçoado, abominável e pecador. Nunca pensei em me matar, movido por toda a carga de medo, vergonha e culpa que carrego por causa de um segredo obscuro que levo comigo. Nunca tomei na cara nem apanhei até cair simplesmente por ser gay. Nunca senti a opressão de um país inteiro nem de um corpo inteiro de fieis sobre mim. Nunca soube o que é ter de me sentar com meus pais, olhá-los nos olhos e dizer-lhes que sou gay, só para ver toda a atitude deles em relação a mim mudar instantaneamente. Nunca soube a sensação de ver a pessoa que amo ser rejeitada por quem é muito importante para mim. Nunca senti como é estar no lugar do meu irmão.

Não sou instruído o bastante para saber ou declarar coisas como “O que você sente pelo Marcos é um pecado” ou “Você não foi criado assim” ou “Você escolheu assim, isso não é o que você é” ou “Você tem de negar esses sentimentos e não realizá-los” ou “Deus ama você, mas odeia seus atos e sentimentos gays” ou “Você não serve para Deus por ser gay”.

E, como não sei nem nunca soube, e não sou tão instruído assim, não posso tomar meu assento no júri para julgar e condenar vocês.

Mas posso amar.

Posso dizer que amo vocês tal como são, sem desculpas. Posso dizer que vocês já sofreram o bastante e não foram amados o bastante. Posso dizer que Deus ama vocês, de maneira incondicional, e espera ansioso para que vocês acreditem, e assim se tornem livres para viver e amar. Posso dizer que, sim, serei seu amigo e não os temerei.

E posso pedir perdão.

Perdão por tomar parte de sua opressão e abuso. Perdão pelo meu silêncio, permitindo que se consolidasse a atmosfera que os cercou de medo, ódio e isolamento. Perdão por não me postar entre vocês e seus opressores bradando “Basta!”. Perdão por não permitir que sua história venha a ser também a minha história, a sua dor seja a minha dor, a sua opressão seja a minha opressão. Perdão por não ser a voz do amor de Deus em sua vida. Perdão por não levar o abraço de Deus a vocês quando vocês mais precisavam, limitando-me, em vez disso, a olhar de longe enquanto vocês apanhavam. Perdão por permitir que a Bíblia seja usada como uma metralhadora apontada para vocês, em vez de como uma carta de amor escrita por Deus para cada um de vocês.

Acima de tudo, perdão por representar tão mal a Jesus. O Jesus que se sentava à mesa, curava e abraçava aquelas mesmas pessoas que as ordens estabelecidas em termos culturais e religiosos repeliam, condenavam e amaldiçoavam.

Se Jesus estivesse hoje aqui, seria com vocês que Ele se sentaria à mesa, curaria, abraçaria, amaria e ficaria.

Mas esperem, Jesus está aqui hoje. Perdão por não ter sido Jesus para vocês.

Por favor, me perdoem e tenham paciência comigo, enquanto aprendo a amar como Jesus amou. Daqui por diante, estarei com vocês, de mãos dadas, irmão com irmão, irmão com irmã, como um ser humano com outro ser humano. Partilhamos o mesmo sangue. Nosso Pai é o mesmo. Deus ama a mim tanto quanto ama a vocês. E Seu amor incansável cobre vocês como a mim.

Estou com vocês, seja como for.

Seu irmão, com muito amor,

Jeremy Johnson

(PS: Considerem esta a minha “saída do armário”.)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Mapa revela nações que mais protegem os direitos dos homossexuais

Escultura: Jennifer Collier

Surpreendentemente, países como Argentina, Espanha e África do Sul superam os EUA. Em termos de geopolítica e de casamentos gays, nas ex-ditaduras o "sim" é mais fácil.

A reportagem é de Angelo Aquaro, publicada no jornal La Repubblica, 10-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.


Há uma linha que une os mártires da Praça de Maio e os resistente gays de meio mundo? O que liga a África do Sul de Nelson Mandela ao Massachusetts daquele Mitt Romney que visa à Casa Branca? E Barack Obama realmente tem algo a aprender com o ex-primeiro-ministro português José Sócrates? Tudo o que você pensava saber até agora sobre os casamentos gays é falso. Ou pelo menos discutível.

Não é verdade que o fatídico "sim" aos homossexuais seja uma meta das nações reconhecidas como socialmente mais avançadas. Ao contrário. A geopolítica dos casamentos gays começa em Lisboa. O primeiro colunista abertamente gay do New York Times – Frank Bruni – foi até lá para descobrir por que esse pequeno país à beira do precipício (também econômico) da Europa conseguiu acertar um alvo até agora difícil para um gigante como os EUA, onde Barack Obama brinca com os seus partidários gays ("Encontrei a líder de vocês: Lady Gaga!"), mas ainda não se pronunciou a favor do casamento, fazendo, assim, com que o país escolha desordenadamente: de Massachusetts, em que se casa por decisão da Suprema Corte (e para a raiva do ex-governador mórmon Romney) até Nova York, que neste mês celebrou os primeiros 100 dias do "sim" aos gays.

Mas por que Portugal? Lisboa é a última capital a ter aprovado uma lei no ano passado. E, além do mais, é um país católico, que se poderia imaginar a anos luz daquela Holanda que escolheu a tolerância por princípio de Estado, das vitrines já turísticas aos cafés de maconha. E que, pela primeira vez no mundo, instituiu, há dez anos, o casamento gay. Desde então, só nove foram os Estados em que o casamento gay foi admitido. Mas aqui vêm as outras surpresas.

Os países que, como a Holanda, gozam de uma tradição de tolerância são um quarteto: Noruega, Suécia, Islândia e Canadá. Mas e os outros? África do Sul, Espanha, Portugal e Argentina. A explicação é esboçada pelo estudioso Evan Wolfson, do Freedom for Marry. "Trata-se de países onde a democracia e o respeito pela lei foram negados durante anos. E onde a sociedade civil lutou fortemente para reconquistá-los". Da Argentina da ditadura de Videla à Espanha do pós-Franco. Da África do Sul do apartheid ao Portugal livre da Revolução dos Cravos.

Mas não só. O ex-primeiro-ministro português Sócrates reconhece: "A escolha da Espanha foi muito importante para nós". A primavera (já murcha) de Zapatero teria servido como estímulo para o vizinho de península, mas também para a América Latina, que continua olhando com amor e rivalidade para a pátria-mãe. E não é por acaso que o próximo país na lista do reconhecimento ainda é de marca espanhola: o Uruguai.

A hipótese que cruza países saídos da ditadura e direitos gays é cativante. Mas há quem destaque os seus limites. Uma jurista gay e contracorrente, por exemplo, é Katherine M. Franke. A professora leciona na Universidade de Columbia e em seu livro The politics of same sex marriage politics já havia destacado alguns riscos, além de conquistas civis. Inclinando-se sobre a instituição burguesa do casamento, os homossexuais não só venderiam a sua alma ao diabo do conformismo, mas também sancionaram a enésima desigualdade social. Ou seja, o reconhecimento dos direitos somente sob prévio contrato - eu respeito você como gay – mas se você se casar.

E pensar que as uniões que hoje dividem afundam suas raízes nos séculos. Alan Tullchin, professor da Universidade da Pensilvânia, encontrou na França de 600 anos atrás aqueles contratos de "fraternização" (com a promessa de compartilhar "un pain, un vin et une bourse"), que serviam para repassar a propriedade em caso de morte do companheiro. Sem falar dos piratas da Ilha da Tartaruga, que se casavam entre si para permitir que os marinheiros – matelot – dividissem os tesouros.

A propósito: exatamente de matelot é que vem aquele mate, que, em inglês, designa o parceiro sexual, masculino ou feminino - ou ambos.

* * *

Em tempo: recebemos via twitter na semana passada, de nosso amigo @realfpalhano, o link para um artigo sobre a homossexualidade na Idade Média, na Espanha. E o artigo começa: "Chamavam-se Pedro Díaz e Muño Vandilaz os dois homens que, em 16 de abril de 1061, protagonizaram o primeiro matrimônio homossexual de que se tem registro na Galícia, e um dos primeiros da Europa." Vale a leitura, aqui.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Não só de pão


A mesa jamais é para um só; é para o outro, para os outros, para a fraternidade, o amor, a humanização: e o pão impera sobre ela para ser despedaçado e compartilhado, para nutrir e para nos lembrar que não só de pão vive o ser humano.

A reflexão é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, publicado no jornal La Stampa, 25-09-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o artigo.


Lê-se no livro de Deuteronômio: "[O Senhor] te fez passar fome e, depois, te alimentou com o maná que nem tu, nem teus pais conheciam, para te mostrar que não só de pão vive o ser humano, mas de tudo o que procede da boca do Senhor" (Dt 8,3).

Jesus retoma essas palavras, enquanto se encontra no deserto, atacado pela fome depois de 40 dias de jejum, e é tentado a recorrer ao milagre de transformar em pão as pedras que estavam diante dele. Mas, ao divisor, ele respondeu: "Está escrito: 'Não se vive somente de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus'" (Mt 4.4; cf Lc 4,4).

O pão necessário para viver, sem o qual vamos ao encontro da morte, não basta para fazer viver os seres humanos. É necessário algo mais do que pão, algo do qual o pão é apenas um sinal, algo que, como o pão, saiba trazer vida, mas uma vida outra com respeito à meramente biológica. O ser humano se humanizou no dia em que inventou e fez o pão, mas a sua humanização precisa de algo que transcenda o pão.

Há no ser humano, de fato, uma fome, um desejo, uma busca que não se detém no alimento: o alimento é absolutamente necessário, mas não é suficiente para que um ser humano se humanize. Cada um de nós, saiba ou não disso, por instinto, quer viver e, portanto, busca, ganha pão com o trabalho, mas isso não lhe basta: cada um busca um sentido na vida, porque é habitado por uma fome, a fome de se tornar ser humano.

A humanidade, essa condição de que cada um de nós vive e pela qual é responsável, é uma condição de transição entre a animalidade e a humanidade verdadeira, e o caminho que somos chamados a percorrer é aquele jamais acabado da humanização. O grande etólogo Konrad Lorenz afirmou que "o elo perdido entre o macaco e o homem somos nós": cada um de nós é esse elo, porque a nossa tarefa é a de nos humanizar. O ser humano tem fome de se tornar aquilo que acredita ser, e esse caminho está em suas mãos, está entregue à sua liberdade, às suas fadigas individuais e coletivas, à sua responsabilidade. Tornar-se humano: essa é a grande tarefa que está diante de cada um de nós! O humanismo e o cristianismo convergem para esse objetivo. Essa busca de sentido, isto é:

  • de orientação e direção (Aonde vou?);
  • de significado (O que significa? Eu quero entender!);
  • de ouvir o real (Como eu posso viver com plenitude com os cinco sentidos?);

faz, sim, com que o ser humano se humanize. Esse é o pão do homem para além do pão. É preciso rejeitar a proposição de Jean-Jacques Rousseau, segundo o qual "o homem é naturalmente bom, mas é a sociedade que o deprava, que o torna mau", porque nunca houve um "bom selvagem", mas a humanidade deve ser conquistada dia após dia. A nossa tarefa é a de resistir diante da desumanização, da barbárie, da bestialidade que existe em nós e de nos ativar para que seja possível uma convivência mais humana, uma terra mais habitável, uma sociedade, uma “polis” em que os seres humanos se humanizem sempre mais.

Há um caminho, há opções decisivas para a humanização? Sim, existem muitos caminhos possíveis, mas há um elementar, que resume todos eles. Antes de falar a respeito como conclusão, eu gostaria, porém, de traçar alguns caminhos essenciais, algumas vias de humanização que o cristianismo sempre elaborou e afirmou, mas que o ser humano não munido da fé também soube indicar.

Acima de tudo, há o caminho da liberdade: a liberdade deve ser exercitada; ela não é mendigada nem pedida; ela deve ser exercitada e basta. É indigno do ser humano mendigar a liberdade! No cotidiano, o ser humano sempre pode praticá-la, porque há pelo menos uma ocasião por dia em que ele não é vil, preguiçoso, medroso, mas sim livre. Sabemos bem que o poder político, econômico, ideológico são tentados a espezinhar a liberdade, mas cabe a nós exercê-la diante de tais poderes.

Junto à liberdade, é preciso afirmar a igualdade, não o igualitarismo que desconsidera as diferenças, mas sim a igualdade que requer o reconhecimento dos direitos de cada pessoa e de cada comunidade. A democracia vive se há esse reconhecimento da igualdade de cada pessoa, de cada ser humano, pessoa como eu. O teu próximo é como tu mesmo – diz o mandamento retomado e cumprido por Jesus – e ao teu lado não há mais judeu nem grego (cf. Gal 3,28; Col 3,11), nem marroquino, nem indiano... mas apenas um homem, uma mulher como tu.

Além disso, há o caminho da fraternidade, isto é, da práxis de solidariedade que tece laços fraternos, a capacidade de viver o amor entre todos os seres humanos. Isso requer sair de si mesmo para encontrar o outro, para ouvi-lo, para conhecê-lo, para se comunicar com ele, para criar laços de afeto e de convivência. Esse é o caminho da humanização, que exige responsabilidade e compromisso por parte de cada um de nós: eis do que vive o ser humano, através do que ele se humaniza em profundidade.

No atual contexto social, permito-me, por fim, indicar a necessidade da resistência. Refiro-me à resistência civil, em vista do caminho de humanização, a um comportamento que requer o exercício de muitas responsabilidades: a responsabilidade ecológica, para combater o deserto que avança; a da afirmação da legalidade e da justiça, sem as quais são espezinhadas justamente a liberdade, a igualdade e a fraternidade; a da convivialidade – como definida por Ivan Illich – que significa participação de todos os seres humanos na mesa do mundo, nos recursos da terra; a da beleza, tarefa essencial para combater a feiura que nos invade. Sim, devemos afirmar e exercer o direito à resistência.

A propósito, gostaria de recordar as palavras de Giuseppe Dossetti, que, no dia 21 de novembro de 1946, como membro da assembleia constituinte [italiana], apresentou em comissão esta proposta de artigo: "A resistência individual e coletiva aos atos dos poderes públicos, que violem as liberdades fundamentais e os direitos garantidos pela presente Constituição, é direito e dever de cada cidadão". Essa moção não foi aprovada, mas o que ela exprime ainda é de extrema atualidade.

Gostaria, por fim, de falar brevemente da mesa, o lugar do pão, o lugar essencial da humanização. À mesa, deveríamos convergir para comer como seres humanos, não como animais. Por isso, a mesa sempre foi percebida como o emblema da humanização, o lugar por excelência em que nos humanizamos ao longo da vida, desde que, quando pequenos, fomos admitidos à mesa ainda na "cadeirinha" até a velhice. Nessas duas fases extremas da vida, também estamos à mesa, talvez ajudados por outros, mas estamos para sempre à mesa.

O nosso estar à mesa diz a nossa liberdade: liberdade de filhos em família, liberdade de amigos que se convidam, liberdade de quem serve e qualidade senhoril de quem é servido. Mas, à mesa, também se experimenta a igualdade, uma igualdade ordenada: todos são chamados a comer com os mesmos direitos, velhos e crianças, adultos e jovens, todos podem tomar a palavra, perguntar e responder. À mesa, aprende-se a falar além de comer, aprende-se a ouvir e a intervir na convivialidade. Enfim, à mesa se confraterniza, se compartilha o pão entre companheiros, ou seja, pessoas que comem o mesmo pão, segundo a etimologia dessa palavra (cum-panis). A mesa tem um magistério decisivo para nós e para cada ser humano que vem ao mundo: somos conscientes disso?

À mesa, aprende-se e se verifica que não só de pão que vive o ser humano, porque, quando pequenos, precisamos que alguém nos dê de comer; quando adultos, de alguém que nos prepara o alimento com amor e, com o alimento, expresse o seu amor; precisamos dar graças e entender que o que comemos não é apenas a união de natureza e cultura, mas também é dom que nos é dado.

É à mesa que celebramos o nascimento, o amor nas núpcias, os eventos que nos tornam felizes e que dão sentido à nossa vida. À mesa, nos exercitamos, ou melhor, deveríamos nos exercitar para compartilhar e para fazer da própria mesa um lugar em que acolhemos e convidamos o outro. A mesa jamais é para um só; é para o outro, para os outros, para a fraternidade, o amor, a humanização: e o pão impera sobre ela para ser despedaçado e compartilhado, para nutrir e para nos lembrar que não só de pão vive o ser humano.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Jump for my love

Foto daqui

Porque você entrou na minha vida como um incêndio, e todos os dias agora são de sol, com cheiro de piscina da cor dos seus olhos. Porque eu sinto o tempo todo a tua mão na minha, mesmo quando você está longe. Porque o teu sorriso é o mais lindo e luminoso, e todos os dentes são teus. Porque você tem um J de pintas na barriga e porque carrego sempre um riso por dentro, mesmo quando estou mais séria, porque durmo e acordo ao seu lado. Porque, mesmo depois desse tempo, me dá borboletas no estômago quando sei que você está pra chegar. Porque minha vida inteira até então tinha sido esperando você chegar. Porque eu lembro de tudo, e meu coração bate por cada detalhe. Porque eu nunca sei qual será a próxima surpresa, só sei que sempre haverá alguma. Porque você é a minha garota, e contigo todo dia é dia de rock, bebê.

E ninguém venha me dizer que isso não é sagrado e lindo aos olhos de Deus.

domingo, 9 de outubro de 2011

Lendo o “antigo” Leonardo Boff num domingo de manhã e pensando em teologia, sexualidade, política e economia

Foto: Anna Aden

Do livro “A Trindade e a sociedade”.

“Dois seres totalmente distintos, entre os quais pouco há de comum, dificilmente podem estabelecer laços de comunhão. Entre recíprocos e conaturais vigora certa atração; quanto maior, mais perfeita se apresenta a comunhão; nunca haverá fusão, pois cada parte conserva sua identidade; mas o desejo e o impulso de fusão, de tornar-se um com o outro, caracterizam o nível de profundidade da comunhão”.

“O eu nunca existe sozinho; ele é habitado por muitos, suas raízes penetram os outros, como ele é penetrado pelos outros. Daí podemos dizer que o próprio do humano não é viver, mas con-viver, não é ser mas existir em comunhão com os semelhantes mesmo os mais distantes, é deixar-se penetrar pelos outros e penetrar também os outros”.

“A unidade societária que existe na Trindade funda a unidade humana; esta vem inserida naquela. As pessoas não são anuladas, mas potenciadas. (...) amor que se comunica e estabelece comunhão. (...) É um encontro absoluto e eterno. Mas não é um amor de amantes enclausurados ele se expande”.

“conter um ao outro, inabitar (morar um no outro), estar um no outro. (...) uma pessoa está dentro da outra, envolve a outra por todos os lados (circum), ocupa o mesmo espaço que a outra, enchendo-a com sua presença. (...) interpentração de uma Pessoa na outra e com a outra. (...) cada uma penetre sempre a outra”.

“Esse regime [liberal-capitalista] introduziu as mais radicais divisões que se tem notícia (...). As sociedades sob o regime capitalista contradizem por sua prática e por sua teoria as interpelações e convites da comunhão trinitária”.

“O social não é realizado em todas as dimensões, a partir de baixo, nos relacionamentos pessoais, na constituição de rede de comunidades, a partir das quais se organiza a sociedade civil com seu aparelho de articulação e condução que é o Estado. O social burocraticamente imposto não gera uma sociedade de iguais dentro das diferenças respeitadas, mas a coletivização com traços de massificação”.

“Uma sociedade que se deixa inspirar pela comunhão trinitária não pode tolerar as classes, as dominações a partir de um poder (econômico, sexual ou ideológico) que submete e marginaliza os demais diferentes”.

- André Musskopf
Reproduzido via blog do autor
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