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terça-feira, 13 de maio de 2014

Reconhecimento mútuo


E, nesta semana de dia das mães (e poucos dias depois de uma postagem aqui no blog sobre o casal "Clarina"), deixo registrados aqui meus parabéns ao autor da novela das 21h, Manoel Carlos, pela cena de ontem entre mãe (Chica/Natália do Valle) e filha (Clara/Giovanna Antonelli) - que, apesar de casada há dez anos com um homem, com quem tem um filho, vem se descobrindo apaixonada por outra mulher, a fotógrafa Marina (Tainá Müller).
"Eu já desconfiava disso. (...) Eu queria conversar com você. Eu desconfiei, eu queria falar, mas eu não encontrava as palavras, sabe? Eu queria dizer alguma coisa, mas só me vinha à cabeça o discurso do preconceito. E esse eu não queria, porque... eu TENHO preconceito. Eu não queria ter. Eu tenho vergonha... Eu tenho vergonha de ter preconceito, mas eu tenho. Quem sabe agora, começando pela minha família, quem sabe eu consigo ficar livre mais rápido, mais fácil, desse preconceito.
Me dá um abraço?"
Quanta dor seria evitada, quantas almas e famílias seriam poupadas de se dilacerar, se esse reconhecimento (mútuo) honesto e franco pudesse ser feito e acolhido com mais frequência.

Assista à cena no site da novela, aqui.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Instruções para os dias ruins


Os dias ruins existem mesmo. Calma. Relaxe os punhos. Devagarzinho, vá abrindo as suas mãos. Solte. Confie. Saiba que agora é só um momento - e, se hoje não podia ser pior, entenda que amanhã este dia já terá terminado. Seja gentil. Aceite as mãos estendidas para você, se oferecendo para tirá-lo deste lugar de onde você não está conseguindo escapar. Seja diligente. Esfregue o céu cinzento até limpá-lo. Perceba que cada nuvem escura não passa de uma cortina de fumaça que nos deixa cegos para a verdade - e a verdade é que, quer os vejamos ou não, o sol e a lua continuam no mesmo lugar, e a luz continua existindo... sempre.

Seja objetivo. Apesar da tentação de dizer "está tudo bem, eu estou bem", seja honesto. Diga como está se sentindo sem medo nem culpa, sem remorso nem complicação. Seja lúcido na sua explicação, seja cristalino em sua exposição. Se lhe passar pela cabeça, por um segundo que seja, que ninguém mais sabe o que você está passando, aceite o fato de que você está enganado: todo mundo é assaltado de vez em quando pela respiração ofegante do desespero; a dor faz parte da condição humana, e só esse fato basta para torná-lo membro de uma multidão.

Nós, azarões famintos; nós, que acordamos ao nascer do sol; nós, que driblamos as dificuldades - nós vamos nos ancorar em nossa própria serenidade. Vamos fincar pé no chão e nos preparar para a batalha. A vida virá te enfrentar armada com tempos difíceis e escolhas penosas, mas sua voz é sua arma e suas ideias, munição. Não há reforços sobrando; não perca de vista que, assim que este instante passar, deixará de ser presente para tornar-se passado. Portanto, seja um espelho e reflita sua própria imagem, e mantenha acesa a lembrança de quando você achava que isto tudo seria difícil demais e você jamais conseguiria. Lembre-se de quando você poderia ter desistido - mas escolheu continuar.

Disponha-se a perdoar. Viver com o fardo da raiva não é viver. Manter seu foco na ira só vai alienar você de suas reais necessidades. Tanto o amor quanto o ódio são feras selvagens, e a que você alimentar é que vai crescer. Seja persistente. Seja a graminha que brota na fenda do piso - e é linda simplesmente por não saber que não deveria crescer ali. Seja resoluto. Declare o que para você é a verdade de uma maneira que traduza a firmeza com que você a vive.

Se você estiver em um bom dia, tenha consideração. Um simples sorriso pode ser o kit de primeiros socorros de que alguém mais precisa. Se você acreditar, com total sinceridade, que está fazendo tudo o que está ao seu alcance - faça mais.

Os dias ruins existem - aqueles dias em que o mundo pesa nos seus ombros por tanto tempo que você começa a procurar alguma saída fácil. Há os momentos em que a sede de alegria parece implacável. Quando você se pegar fingindo que está tudo bem, quando evidentemente não está, dê uma olhada no seu ponto cego - e veja que o amor ainda está ali. Seja paciente. Todo pesadelo tem um começo, mas todo mau dia tem um fim. Ignore o que os outros disseram de você. Eu digo que você é meu amigo. Ajude-nos compreender a urgência da sua crise. O silêncio só gera mais silêncio.

Portanto, fale e se faça ouvir. Uma palavra de cada vez, se expresse, diga o que está acontecendo na sua vida. Se ninguém prestar atenção, fale mais alto. Faça barulho. Fique de pé e se abra. A esperança, nesses casos, não basta. Você vai precisar de alguém em quem se escorar. Na improvável eventualidade de você não ter ninguém, olhe bem. Todos temos o dom da escuta. Os surdos o ouvirão com seus olhos. Os cegos o verão com as mãos. Exponha seu coração nas bancas de jornais, permita que leiam suas manchetes. Admita que os dias ruins existem, que existem as noites impossíveis. Ouça os relatos de quem já esteve lá, mas conseguiu voltar. Estes lhe dirão que você pode erguer montanhas de sofrimento, pode ir embora, pode sumir, pode até vestir-se de luto e tristeza - mas, quando chegar amanhã, troque de roupa.

Todo mundo conhece a dor, mas ninguém deve carregá-la para sempre. Ninguém deve se aferrar a ela. Assim, tenha a certeza de que, qualquer que seja a dor de agora, ela logo ficará para trás. E, quando alguém perguntar se está tudo bem, saiba que, para alguns de nós, é a única maneira que conhecemos de dizer:

"Calma. Relaxe os punhos. Devagarzinho, vá abrindo as suas mãos. Solte..."

Shane Koyczanvia

Vídeo compílado por Jon Goodgion com imagens do documentário "Life in a Day", de Kevin Macdonald.
Tradução: Cris, originalmente aqui

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Ninguém nasce homofóbico


Recentemente, um vídeo com a reação de crianças ao verem dois pedidos de casamento entre pessoas do mesmo sexo tornou-se viral e comoveu vári@s usuári@s nas redes:


O programa 'Encontro Com Fátima Bernardes' desta quinta, 14, debateu a diversidade sexual no ambiente familiar e exibiu para um grupo de crianças de uma escola e seus pais/mães/responsáveis um flashmob realizado em Maringá com um pedido de  entre um casal gay. Confiram suas reações aqui.

"O legal foi que eles se casaram, ficaram felizes e pronto!", disse uma das crianças. Simples assim!

Ninguém nasce preconceituoso, ninguém nasce odiando o diferente. Se, infelizmente, ensina-se crianças a serem preconceituosas, também podemos ensinar o respeito e a igualdade para que tenhamos uma geração de adultos que respeite a diversidade.

A Educação é o melhor caminho para desconstruirmos o preconceito sócio-cultural contra pessoas LGBTs.

Assista na íntegra o debate sobre diversidade sexual no ambiente familiar no programa Encontro aqui.

Fonte: Eu sou a favor do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo no Brasil

quinta-feira, 18 de julho de 2013

IBGE: 47% dos casais homossexuais se declaram católicos



A notícia é do ano passado; mas, em tempos de Jornada Mundial da Juventude, quando a questão da inclusão dos jovens - e, no nosso caso, especialmente dos jovens LGBT - na Igreja vem à pauta com mais força, vale lembrar este dado revelado pelo Censo 2010.

Pela primeira vez na história, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) pesquisou o número de casais homossexuais que dividem uma residência. O número já havia sido revelado: são cerca de 60 mil no País. O que o Censo 2010 ainda não havia mostrado e o instituto divulgou nesta quarta-feira é que quase metade destes casais têm uma religião. E logo uma que condena este tipo de comportamento.

Quarenta e sete por cento dos casais homossexuais que dividem o mesmo teto se declaram católicos - 20,4% não tem religião. "É um dado bastante surpreendente, quando a gente percebe que a maioria dos casais em união consensual declara não ter religião. Entre os homossexuais esta taxa é maior", declarou o pesquisador Leonardo Queiroz Athias, do IBGE.

É uma estatística que vai de encontro ao que costuma ocorrer nas uniões consensuais - quando o casal opta por "não oficializar" o casamento nem no civil nem no religioso -, que é como 99,6% dos homossexuais declaram a relação. Entre os casais em geral que mantêm este tipo de união, 59,9% afirmam não ter religião. Dos casais que optam pela união consensual, 37,5% são católicos.

O Censo 2010 percebeu que as uniões consensuais são mais frequentes entre pessoas até 39 anos de idade e têm crescido, enquanto os matrimônios têm diminuído. No Censo de 2000, 28,6% das uniões eram consensuais. Em 2010, este número passou para 36,4%. Já o casamento civil e religioso passou de 49,4% dos casos há 12 anos atrás para 42,9% no último levantamento do IBGE.

"Esses números têm a ver com os modos atuais. Hoje em dia a união consensual é mais aceita pela sociedade. Por outro lado, as pessoas também podem esperar mais tempo para casar. Primeiro estão procurando viver novas experiências, fazer uma série de coisas, viajar e trabalhar, por exemplo, e depois pensa em casar", destacou Athias.

Perfil das uniões entre pessoas do mesmo sexo
A distribuição por sexo das pessoas em uniões homossexuais mostrou que 53,8% delas são entre mulheres e 46,2% entre homens. Cerca de 25% das pessoas neste tipo de união declararam possuir curso superior completo. O Sudeste concentra 52,6% das uniões homoafetivas, e o Nordeste 20,1%. O Sul concentra 13% dos casais homossexuais, enquanto o Centro-Oeste tem 8,4% e o Norte, 5,9%.

Essa notícia foi publicada no Terra, aqui, e nos lembrou o excelente artigo "Homossexualidade e Contra-hegemonia no Catolicismo", do Pe. Luís Correa Lima, SJ (que já publicamos aqui), que faz uma reflexão importante sobre a autonomia com que uma significativa parte dos católicos tende a viver a sua fé e que leva a uma certa disparidade entre o discurso do Vaticano e as convicções dos fiéis:

"A opinião pública católica é crescentemente favorável às bandeiras LGBT. No Canadá, onde há dez províncias, a maior adesão ao casamento gay é na Província de Quebec, coincidentemente a que tem a maior população católica. Na Espanha, onde a população é majoritariamente católica, mais de dois terços é a favor desta união. No Brasil, uma pesquisa revelou que 42% da população é a favor do casamento gay. Entre os católicos brasileiros, a proporção sobe para 46%. Ou seja, quase metade deste segmento religioso (Religião, 2007, p. 4)." [Continue lendo aqui]

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Qual o Valor da Vida de Nossos Filhos e Filhas?

Junte-se às "Mães pela Igualdade" no Brasil, aqui

"A sociedade tratou dois meninos assassinados de modo desigual, mas a morte violenta os igualou."


Em 2006, no auge da comoção pública ocorrida em razão da morte do menino João Hélio, publiquei artigo de opinião no Congresso em Foco [aqui: "Há várias formas de matar uma criança"] em que questionava não apenas a exploração da dor pela mídia convencional, como também os discursos inflamados pela diminuição da maioridade penal, que mais uma vez surgiam ante um fato exaustivamente exposto nas TVs, jornais e rádios brasileiras.

Na mesma semana, um adolescente de 17 anos fora torturado, violado e morto, com requintes de crueldade na vizinha cidade de Anápolis, a segunda mais importante no estado de Goiás. Não foi publicada sequer uma linha nos jornais do Distrito Federal ou do país, e, mesmo em Goiás, apenas um pequeno jornal semanário (Jornal Opção) deu a notícia com pouco mais de 200 caracteres, quase num pé de página.

Qual a diferença entre João Hélio, o menino de seis anos, morto em razão de um assalto mal sucedido e o garoto sem nome, de 17 anos, torturado, violado e assassinado em Goiás? Por que os defensores da diminuição da maioridade penal, os paladinos da pena de morte, do movimento lei e ordem, nada falaram sobre o caso? O que motivou os editores de telejornais, jornais e rádios do país a sequer se preocuparem em dar a notícia? Por que não houve clamor popular, comoção pública, debates em torno da crescente violência que assola o país?
Tantas perguntas, uma única resposta. O que diferencia o garoto sem nome de João Hélio é que aquele causara rebuliço na família seis meses antes, por que revelara que era homossexual. E por que era homossexual, foi torturado, violado e friamente assassinado.
Retrato de uma sociedade adoecida em que a vida, a integridade física e emocional são valores relativos. Uma cultura que pune cruelmente todo aquele que não reza pela cartilha da maioria, que não realiza as expectativas identitárias, em especial e principalmente, que ousa desobedecer o código da heteronormatividade e das identidades de gênero binárias.
O que têm em comum João Hélio e o garoto sem nome? Eles têm mãe. Mas poderiam ter tantas outras coisas em comum, qualidades que jamais saberemos por que ambos foram vítimas da violência.
Ainda assim, para João Hélio, cuja identidade sexual e de gênero ainda não estava plenamente expressa, a sociedade bradou por justiça, os meios de comunicação inflaram o debate em torno da segurança pública, os políticos de plantão levantaram suas bandeiras de tolerância zero. Enquanto repousa anônimo o garoto torturado, violado e assassinado em Anápolis, e ninguém, exceto a própria mãe, clamou por justiça. A sociedade os tratou de modo desigual, mas a morte violenta os igualou.
É preciso que nossos filhos e filhas tenham direitos iguais. É necessário que a vida, a integridade física e emocional sejam valores absolutos em nossa sociedade. Respeitar e garantir os direitos civis de brasileiros e brasileiras sem qualquer distinção, inclusive a de orientação sexual, é garantir o estado democrático de direito.
- Maria Cláudia Cabral é advogada, blogueira e faz parte do movimento Mães pela Igualdade.
Publicado originalmente no site Congresso em Foco. Reproduzido via blog das Mães pela Igualdade.

Desejo: privilégio humano

Escultura: Alyson Shotz

O desejo é uma tensão em direção a um fim considerado fonte de satisfação. Trata-se, portanto, de uma aspiração, de uma inclinação em direção àquilo que não se possui. É uma inclinação algumas vezes consciente, outras inconsciente.

O desejo se distingue da necessidade fisiológica ou psicológica que o acompanha por estar plantado no centro da afetividade humana. Ele nos diz que somos incompletos, carentes, limitados e finitos. Um ser que de nada carecesse não desejaria nada. Seria um ser perfeito, um deus. Por isso a filosofia grega antiga tomava o desejo como característica de seres finitos e imperfeitos, que não são o Bem, mas podem desejá-lo; que não possuem a Beleza, mas podem desejá-la e procurá-la. Como diz Santo Agostinho: “O que é o desejo, senão o apetite de possuir o que ainda falta?“

Mas não se trata de possuir coisas, e sim de deixar-se atingir e convocar pela interpelação do outro. Esse apelo fora dos padrões da normalidade medíocre chega ao fundo do ego fechado em sua autocomplacência e abre-o ao reconhecimento da diferença.

Segundo o filósofo judeu Emmanuel Levinas, o desejo fere e fragmenta a interioridade humana, descobrindo-lhe o vazio de sua suficiência. E dali jorra no Eu uma fome que nada poderá satisfazer e nutrir, uma fome insaciável. Isso é o “desejo”.

É algo que transcende a satisfação e a insatisfação. Significa uma distância maior, uma não posse mais precisa que a posse, uma fome que se nutre não de pão, mas sim da fome mesma. Como diz Adélia Prado: “Não quero faca nem queijo. Quero a fome”.

O desejo metafísico, que vai além da physis (ou seja, do nível sensorial, puramente natural), situa-se nas antípodas da posse e da satisfação total. Ao invés, está sempre conectado à decepção da satisfação ou ainda à exasperação da não satisfação. É um desejo que quanto mais deseja, mais vê crescer em si sua capacidade de desejar. Seu dinamismo fundamental não é a necessidade que deve ser satisfeita, mas a abertura ao outro. Sob a força desse desejo, o eu contém então mais do que poderia normalmente conter, rompe o cárcere de sua subjetividade ego centrada e da palidez de uma identidade voltada para a repetição infindável e monótona do já conhecido.

O desejo que impulsiona para o outro não encontra sua fonte em necessidades insatisfeitas que o mesmo sujeito se encontra ávido por preencher, mas em um “mais”, em um “excesso” que só a infinitude pode atender. Anterior a todo conhecimento e a toda questão, o desejo é cavado no mais profundo do ser humano pela alteridade do outro humano e do totalmente Outro misterioso, que nós chamamos Deus. Porque somente o desejo, com sua sede nunca saciada, está apto a abrir-se ao Infinito que nada pode conter.

O desejo sussurra ao ouvido da pessoa humana, incessantemente, qual é sua condição: ser criado, humano, finito e limitado. Mas capaz de desejar o Ilimitado, o Infinito. O espaço aberto na subjetividade humana pelo desejo da transcendência e a abertura para a interioridade, para o Mistério, pode ser a força capaz de romper a materialidade do consumismo, a alienação que se nega a ver os conflitos que dividem o tecido social. Neste sentido, o desejo é condição de possibilidade para uma atitude crítica diante da sociedade de consumo e da exterioridade de sensações.

O consentimento ao desejo contradiz a lógica do mercado, altera as relações mercantilistas do consumo e permite sonhar em construir outro tipo de sociedade e cultura. A restauração da capacidade desejante do indivíduo e da sociedade vai na direção contrária à corrente da excitação constante das sensações; contra o predomínio de uma emocionalidade “líquida”, sem discernimento; contra a redução da pessoa humana a um mero consumidor passivo de produtos que lhe são impostos por tal tipo de sociedade.

Desejar é tomar posse dos próprios sentidos para aquilo que realmente foram feitos: ver, escutar, sentir, saborear, tocar. Escutar a beleza da música composta sob inspiração do artista. Mas também escutar os clamores que brotam da própria interioridade, assim como os clamores do próximo por justiça e eqüidade.

- Maria Clara Bingemer

Reproduzido via Amai-vos

sábado, 9 de junho de 2012

Deus entra pelos nossos sentidos...

Imagem daqui

Basta que me toques, Senhor!

Dizer que Deus entra pelos sentidos parece estranho e paradoxal. O Pe. Teilhard de Chardin (1881-1955) encontrava Deus no coração da matéria e acreditava que esta se orientava ontologicamente para o Espírito. Nosso melhor aprendizado e nossas melhores convicções entram experiencialmente e assim se consolidam.
O mesmo acontece com a fé em Jesus Cristo. Jesus não é uma teoria ou ideologia; Ele, como Ressuscitado, está vivo e pode ser cotidianamente experimentado. Deus entra pelos sentidos e O encontramos na vida!

O sinal decisivo de que alguém crê em Jesus está na vida que leva. Se somos sensíveis à dor do mundo é porque Deus entrou pelos nossos sentidos. O apóstolo João começa sua primeira carta dizendo: “... O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o quecontemplamos e o nossas mãos tocaram do Verbo da vida”... João repassa os sentidos, pois sabe que chegamos a Deus por eles. O que experimentamos nunca esquecemos!

Os discípulos amaram o Senhor e por isso aceitaram sua doutrina. Só acreditamos se amamos! O amor coloca em outro patamar os relacionamentos: quando fixamos o nosso olhar, vemos mais e escutamos melhor. Tenho pavor dos sentidos atrofiados: ver distraído, ouvir sem prestar atenção, falar sem nada revelar, tocar sem se comprometer!...

O “saborear internamente as coisas...” é já experiência do Ressuscitado!

Uma pergunta: Deus entra realmente pelos seus sentidos?...

- Pe. J. Ramón F. de la Cigoña SJ, em seu blog Terra Boa

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Nunca é demais googlar


Sim, a esta altura quase todo mundo já viu. Mas, como bem disse o Tony Goes em seu blog, e nunca é demais lembrar:

"Este é o caminho certo: mostrar que a causa do casamento civil igualitário também é apoiada por héteros. Temos amigos, parentes, conhecidos, muita gente que gosta da gente. Também tem muita gente que nem nos cohece, mas que tem a cabeça e o coração no lugar certo. Agora é torcer que outras empresas façam vídeos parecidos e que este movimento fique parecido com o "It Gets Better". E por falar em empresas, como é que a Parada Gay de São Paulo - nada menos que o 2o. evento que mais traz faturamento para a cidade - está com cada vez menos patrocinadores?"

Família, teatro do mundo

Imagem daqui

A libertação do ser humano – o sentido do cristianismo – não pode não libertar também a família; até mesmo de si mesma, se for preciso. E, então, a família pode realmente se tornar um Teatro do Mundo e do universal humano.

A opinião é do escritor italiano Claudio Magris, ex-senador da Itália, ex-professor das universidade de Turim e de Trieste, e prêmio Príncipe de Astúrias de Letras de 2004. O artigo foi publicado no jornal
Corriere della Sera, 03-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


As grandes religiões universais, e especialmente o cristianismo, não são coisa de family day. Cristo veio mudar a vida dos seres humanos e proclamar valores mais altos do que o imediato círculo dos afetos, ou, melhor, a chicotear duramente estes últimos quando regressivamente se opõem a um amor maior. Até mesmo o laço mais forte, o entre o filho e a mãe, é tratado bruscamente quando Maria quer interferir: "Mulher, que há entre mim e ti?", ele lhe diz.

Enquanto está falando para uma multidão, quando lhe vêm dizer que a sua mãe e os seus irmãos o estão procurando, Cristo responde: "Quem é minha mãe? E quem são os meus irmãos?", acrescentando que só é seu irmão quem faz a vontade do Pai.

Se há conflito entre a relação de parentesco e o mandamento, a escolha é clara: ele afirma que veio para separar, onde seja necessário, "o filho do pai, a filha da mãe". O seu próprio nascimento, além disso, escandaloso com relação às regras, certamente não se encaixa no modelo da ordem familiar.

Naturalmente, Cristo não pretende negar o amor entre e pelos esposos, os filhos, os irmãos, os pais. Ele quer potencializá-lo, libertá-lo da sua tão frequente degeneração egoísta, conservadora e redutora que empobrece aqueles laços universais humanos em um fechamento pávido e árido, barrando a porta para a vida e para os outros, entrincheirando-se em um pequeno mundo limpo e decente, mas indiferente à miséria e ao sofrimento, que talvez começam fora da porta barrada.

Há uma colorida expressão vêneta que retrata essa falsa e mesquinha harmonia familiar baseada na rejeição dos outros: "far casetta"."Eu tenho família" é a melhor desculpa para se esquivar perante um dever que nos chama a nos pôr em risco. A esse propósito, Noventa – grande poeta católico, um dos grandes poetas do século XX – respondia no seu dialeto vêneto a quem curva vilmente a cabeça ("son vigliaco" [sou velhaco]), alegando ter os pais idosos, a esposa ainda jovem e os filhos para manter: "Copé la mare, / Copé el pare, /La mugier zóvene / e i fioi — (…) No' saré più vigliachi" [matem o mar, matem o pai, a mulher jovem e os filhos (…) Não serão mais velhacos].

A família certamente é uma realidade histórica, embora de uma duração particular, e como tal está sujeita a transformações e a mutações, nunca tão intensa e confusamente como hoje, em um emaranhado de libertações ora justas, ora grosseiramente ideológicas e estúpidas, conformismos travestidos de transgressão ou de sagrados princípios, exibicionismos arrogantes, em um tumulto de tradições seculares, costumes, valores, formas de agregação familiar.

A família foi e dificilmente poderá deixar de ser uma célula primária do universal humano; o Teatro Mundial em que o indivíduo vem ao mundo, cujas vozes lhe chegaram desde quando ele ainda estava na primeira estação da sua viagem, no ventre da mãe; em que o indivíduo descobre o mundo, faz a experiência fundante do amor ou devastadora do desamor, aprende com os irmãos o jogo, a aventura, a luta, a ambivalência de afeto e rivalidade; em que o pai e a mãe lhe transmitem não só a vida, mas também o seu sentido. Não se equivocava Francesco Ferdinando, o herdeiro do trono de Habsburgo morto em Sarajevo, quando quis que, em seu túmulo, fossem inscritas apenas três datas: do nascimento, do casamento e da morte.

A família pode ser o encantador cenário da descoberta do mundo, como em Guerra e Paz, de Tolstoi, e pode ser tragédia e abjeção, ódio e violência, Caim e Abel, os Átridas e a estirpe de Édipo. Pode ser um lugar de opaca estranheza, de mesquinhos ressentimentos, de violência e de opressão; violência de pais ou de maridos chefes sobre filhos e sobre esposas, sórdida vingança feminina de sufocantes tiranias domésticas, incumbentes clãs parentais que transplantaram a tribo para a civitas e reabsorvem o indivíduo, como escrevia Kafka, na papa informe das origens.

A palavra família já é um Jano bifronte: indica o mundo que nos é mais caro e pode indicar o bestial laço mafioso. Gide podia dizer: "Famílias, quanto vos odeio". As novas formas de família radicalmente diferentes da tradicional, que se anunciam até se acenando com ênfase, podem trazer valores ou desvalores, mas certamente não estão protegidas das degenerações da convivência.

A libertação do ser humano – o sentido do cristianismo – não pode não libertar também a família; até mesmo de si mesma, se for preciso. E, então, a família pode realmente se tornar um Teatro do Mundo e do universal humano: quando, brincando com nossos próprios irmãos e amando-os, damos o primeiro e fundamental passo em direção a uma maior fraternidade, que sem a família não teríamos aprendido a sentir tão fortemente; quando os pais nos fazem entender concretamente o que significa sermos levados pela mão na selva do mundo, por uma mão que continua soerguendo mesmo quando não a aperta mais fisicamente.

Em uma família livre e aberta, o Eros também encontra a sua maior aventura, misteriosa e conturbadora; comer em paz o próprio pão com a mulher amada na juventude, como diz uma passagem bíblica muitas vezes citada por Saba, é uma experiência de grandes amantes. E os filhos, em um universo de relações libertadas do familismo (ansioso, autoritário, fraco, obsessivo, de acordo com os casos), tornam-se realmente a maior paixão que a vida nos faz conhecer.

A civilização grega nos deu Édipo e os Átridas, mas também Heitor, que, sem se preocupar com a própria morte, sobre os muros da Troia sitiada, brinca com o seu filho Astianax, e o seu maior desejo é que este cresça melhor e mais forte do que ele.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

"Somos todos iguais. Ou não?"


Safo foi uma pensadora, considerada por Platão a décima musa. Mas então por que ela não foi reconhecida como tal na Grécia Antiga? Mulher não tinha vez. Seu único papel social era de reprodutora e “cuidadora” do lar. Trocando em miúdos, um bibelô dos homens. Ela se rebela, cria uma escola só para mulheres, em Mitilene, capital da Ilha de Lesbos, com ensinamentos de poesia, dança e música. Tal foi o preconceito quanto ao talento e às atitudes vanguardistas de Safo que precisaram lhe incutir algum “defeito”. Claro, corruptora de mulheres! Já que vivia cercada delas. A força dessa “medalha” foi tamanha que até hoje se define como “lésbica” a mulher que se relaciona sexualmente com outra. E se, em 1476, Leonardo da Vinci tivesse sido condenado à fogueira no Tribunal de Florença por crimes sodomitas (nome dado a homens que mantinham relações com outros homens)? O que a Humanidade teria perdido de obras artísticas, científicas e culturais?

Apenas dois exemplos, aparentemente distantes no tempo, para ilustrar esta caminhada. Por que permanece acesa essa fogueira da inquisição até o século XXI? Obama reconheceu. Que se apague esse fogo! O fogo do preconceito, que fique claro, mas que a chama da liberdade, do amor e da pluralidade arda incessantemente! Por falar em pluralidade, ela tem duas outras companheiras também regidas pela Constituição Federal: a dignidade e a igualdade. Se somos iguais perante a lei, por que a união de pessoas do mesmo sexo deve ser diferente?

Não estamos tratando de religião, como a palavra casamento pode soar aos nossos ouvidos. Tratamos aqui de um contrato especial de direito de família. Simples assim: vamos nos casar? Vamos ao cartório selar esta comunhão. Mas, até hoje, mesmo com alguns avanços jurídicos, não é bem assim. A união estável tem profundas diferenças do casamento civil. Neste, existe mudança do estado civil para casado, a intenção primordial da formação de família e direitos de proteção do cônjuge em caso de morte ou separação. Na união estável, trata-se de uma decisão judicial com exigência de que o casal recorra à justiça para tal reconhecimento.

Fundamentalistas se baseiam na ideia da existência exclusiva da formação de casal somente entre homem e mulher para condenar a aprovação do casamento igualitário. Só para lembrar, o casamento homossexual foi proibido pela primeira vez apenas no ano de 342 d.C. por um decreto romano. Até então era permitido. Ora, a escravidão era permitida legalmente até que a Lei Áurea foi assinada. Ora, as mulheres não tinham direito a voto até 1932. Hoje, elas chegam ao topo do poder de grandes nações. E imaginar que a gente nem votava há exatos 80 anos parece um completo absurdo! O mundo muda, as famílias mudaram, e as leis têm obrigação social de acompanhar essa evolução.

Até os contos de fadas sofreram mudanças e atualizações. Chapeuzinho Vermelho se transformou em “A Garota da Capa Vermelha”, uma versão noir da clássica neta e mocinha. Rapunzel virou animação bem-humorada em “Enrolados”, e “A Bela e a Fera” passou por uma profunda repaginada para se atualizar aos desejos deste público moderno.

Fiz a minha parte. Compus um conto de fadas com direito a castelo, dragão, duelos e cavaleiros, permeados por um amor capaz de vencer todos os obstáculos. É a história de “A Imperatriz e a Princesa”. Canção que encerra “Eu Raio X”, meu último álbum, e que, espero, traga a todos a inclusão que questiono aqui: dignidade, pluralidade e igualdade para que sejamos TODOS “tão felizes para sempre”!

- Isabella Taviani é cantora
Publicado originalmente no jornal O Globo. Reproduzido via Conteúdo Livre

terça-feira, 5 de junho de 2012

Novos jeitos de amar

RETRATOS DA DIVERSIDADE: As três gerações da família Laborne, com enteados e filhos; Soraya Tofani, Ageeo Simões e os filhos dos casamentos anteriores; os recém-casados Rodrigo e Wanderson e Iracema, mãe de Wanderson; Paulo Barcala e o filho do segundo casamento, que tem a mesma idade do primeiro neto do publicitário; e Luiz Guilherme e Doralice, que optaram por não ter filhos

Modelo antigo da estrutura familiar divide cada vez mais espaço com situações diferentes: pais solteiros, casais unidos de maneira informal e casamentos entre pessoas do mesmo sexo. É a família mosaico, que dá um basta aos preconceitos.

Durante a festa de aniversário de 10 anos de Pedro Henrique, os amigos do Colégio Santo Antônio se reuniram para cantar o Parabéns pra você. Depois da música, veio o complemento constrangedor: “Com quem será que o Pedro vai casar/Vai depender se o Pedro vai quereeer…” E a canção não parou aí. Os colegas do menino insistiram na continuação da melodia: “ Eles vão casar e ter um monte de filhos/E daí então o Pedro vai se separaaar!” Na época, a brincadeira soou interminável para a mãe do garoto, a publicitária Soraya Malheiros. Ela sim, estava se separando do marido, com dois filhos para criar. Além de Pedro Henrique, havia João Paulo, de 7 anos.

Esse episódio ocorreu há cerca de 10 anos, quando as separações eram menos aceitas em Minas Gerais. De lá para cá, o termo desquite deixou de existir, sendo substituído por divórcio. Entre 2000 e 2010, o número de divórcios mais que dobrou no estado: passou de 1,6% da população para 3,3%, segundo dados do Censo 2010, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com o fim dos casamentos, entram em cena os segundos relacionamentos e, consequentemente, os frutos dessa nova união e a convivência com os enteados, filhos das relações anteriores. É preciso criar um glossário para ajudar a entender os novos arranjos familiares, que incluem irmãos emprestados, “namorido” (namorado que vive uma relação conjugal com a mãe) e “boadrasta” (nova mulher do pai).

Os novos arranjos familiares em Minas são muitos: pais solteiros, casais sem filhos por opção, uniões estáveis e até o primeiro casamento gay de papel passado, que ocorreu este ano em Manhuaçu, a 278 quilômetros de Belo Horizonte, na Zona da Mata. Wanderson Carlos de Moura, de 34 anos, e Rodrigo Diniz Rebonato, de 18, se casaram e um adotou o sobrenome do outro.

Ufa, é tanta confusão que parece mais simples permanecer amando à moda antiga. “Há uma tendência a idealizar a família perfeita e a atribuir as dificuldades naturais da vida à separação dos pais. Se o modelo antigo, autoritário e patriarcal, era mais fácil de seguir, o novo modelo permite fazer escolhas”, compara Giselle Groeninga, psicanalista, doutora em direito civil pela Universidade de São Paulo (USP) e vice-presidente da Sociedade Internacional de Direito de Família (ISFL). Segundo ela, nos moldes antigos as questões homoafetivas, escapadas fora do casamento e o adultério costumavam ser tratadas com hipocrisia, repressão e sentimento de culpa. “Nos casais de hoje, instituições como a família, o Estado e a Igreja passam a ser separadas entre si e cada uma delas se fortalece”, completa.

FAMÍLIA MARGARINA Não quer dizer que a tradicional família mineira deixou de ser a “família-margarina”, formada por mãe e pai, filho e filha, que, pelo menos nas propagandas, parecem felizes para sempre. Segundo o Censo, porém, o número de casados caiu 5% em Minas e o grupo de pessoas que se unem informalmente cresceu quase 40% entre 2000 e 2010. De acordo com IBGE, elas já são quase um quarto da população. “As mudanças têm sido aceitas sem alarde, dentro do espírito da mineiridade. Mas elas têm acontecido”, lembra o advogado João Batista de Oliveira Cândido, especialista em direito de família.

Numa ampla casa do Bairro Cidade Jardim formou-se uma perfeita “família mosaico”, termo usado por especialistas ao se referirem às configurações familiares do século 21. No mesmo ambiente convivem “os meus, os seus e os nossos filhos”, como se costuma dizer. “Por mim, não teria me separado nunca. Para o homem, é difícil tomar a iniciativa”, declara o oftalmologista Luiz Alberto Laborne Tavares, de 51 anos, que terminou o primeiro relacionamento em 1999, depois de nove anos de união e dos filhos Pedro Henrique, hoje com 20 anos, e Lucas, de 19. O “namorido” calcula que sejam necessários quatro anos para administrar a situação. Ele passou a morar com a então namorada, a “boadrasta” Carina Ferreira, de 32, que já era mãe de Caio, de 14. Juntos, os dois tiveram Isabel, de 4 anos, que ajudou a unir os três “irmãos emprestados”.

De início, a situação gerou conflitos com os pais de Luiz Alberto, o oftalmologista Ângelo Laborne Tavares, de 90, e a professora de ioga Maria Tereza, juntos há 64 anos. Os ajustes, porém, foram feitos. “O tempo faz o seu curso e nós com ele vamos”, filosofa o patriarca, que diz escrever poemas até hoje para sua “menina”. Ela sorri e dá as mãos ao “filhinho”: “Cheguei a ter preconceito em relação às separações, mas entendo que eles queiram renovar a vida. Eu tive a sorte de encontrar a pessoa certa de primeira. Nós nunca brigamos.”

Filhos se adaptam à diversidade
As múltiplas configurações da nova família – homoafetivas, mosaico, de mães ou pais solteiros – provocam alterações que vão além da legislação e da nomeclatura. Os novos papéis e lugares que seus membros ocupam nesse emaranhado de combinações afetivas acabam por transformar a identidade das gerações futuras. Na maioria das vezes, para melhor. É o que afirma a psicanalista Giselle Groeninga. Segundo ela, a identidade é formada pelo conjunto de exemplos que temos de pessoas afetivamente importantes, em geral mãe e pai, e pela aprovação que se tem dessas pessoas. São os pais, ou as pessoas que exercem essa função, que passam para a criança os valores sociais. Se eles estão inseridos numa relação familiar que tem como característica a diversidade, a tendência é termos crianças mais “flexíveis”.

“Se essas pessoas estão agindo de forma mais livre, por exemplo em relação ao papel e função de pai e de mãe, de homem e de mulher, a consequência será a formação de pessoas mais flexíveis e, espera-se, com maior capacidade de empatia e com menos preconceitos”, diz, ponderando que não se pode desconsiderar que há também um movimento de retrocesso, com famílias mais rígidas, inclusive pelo grau de confusão e angústia que a mudança nos valores tem trazido.

No caso de famílias reconstituídas, isso é, com irmãos vindos do primeiro casamento da madrasta ou padrasto, a formação da personalidade dos filhos também apresenta um padrão diferente. Para Giselle, essas famílias requerem das crianças um “trabalho mental” maior, já que a identidade e a afetividade não estão diretamente ligadas ao parentesco. “A identidade é formada pela genética, pela inserção em linhagens familiares e pelo que se denomina de aspecto socioafetivo, ou parentalidade socioafetiva. Fica mais fácil quando esses três aspectos se concentram nas mesmas pessoas. O importante é que se mantenham os vínculos com os pais e se agreguem novas possibilidades. Em família, a ideia é somar, respeitando-se as funções exercidas de cada um”, analisa.

Giselle diz que, apesar de se afirmar que ninguém é insubstituível, quando se fala de pessoas com alto grau de envolvimento afetivo, nas relações familiares todos são insubstituíveis. “As funções paterna, materna e filial podem ser exercidas por outros. É importante, no caso de outros exercerem tais funções, que se reconheça a contribuição dos originais e se valorize a possibilidade atual.”

Para Maria Berenice Dias, vice-presidente do IBDFam, é preciso admitir que os filhos podem ter mais de um pai e uma mãe. “Será que o padrasto que o acompanhou uma criança a vida toda, não é também pai? Tenho visto muito essa situação: “Eu gosto do meu pai e do meu padrasto e tenho que escolher quem vai ao meu casamento. Vou me sentir muito mal porque ele me deu tudo”, completa.

Sem carinhos em público
Em casa, Rodrigo, de 18 anos, até ajuda na faxina, mas Wanderson, de 34, acha injusta a divisão de tarefas. “Eu cozinho, lavo e passo a roupa, arrumo a cama. Mas fazer o quê?”, resigna-se o mais velho, sorridente. Dois meses depois do primeiro casamento civil entre homens em Minas Gerais, Wanderson Carlos de Moura Rebonato e Rodrigo Diniz Rebonato Moura vivem dificuldades e alegrias típicas de qualquer casal, mas ainda não trocam afagos em público — sequer andam de mãos dadas. “Ele tem vergonha, mas eu não. Abraço no meio da rua”, diz Rodrigo, que está trabalhando como apanhador de café. “Aí, eu tiro a mão dele. Prefiro não nos expor”, justifica Wanderson, bordador. Os pais de Wanderson tratam Rodrigo com carinho, mas, católicos, nunca esconderam a insatisfação com o casamento, ao qual não compareceram. “Nunca tive coragem de tocar nesse assunto com eles. diz Wanderson.

Livres para as aventuras
Mochileiros desde a juventude, Luiz Guilherme de Moura Mendes, de 52 anos, e Doralice, de 51, vão comemorar Bodas de Prata este ano com uma travessia da Serra do Caraça, em dezembro. A nova aventura do casal ficaria mais complicada se os dois não tivessem optado, desde o início do relacionamento, por não ter filhos. Eles investiram em viagens os gastos com mensalidades escolares, fraldas e cursos extras, que seriam inevitáveis caso tivessem tido bebês. “Acho bacana ter filhos, mas não é a minha praia”, explica Dora. O casl optou por alternativas mais radicais, como subir o vulcão Tungurahua, no Equador e percorrer de jipe a Ilha de Páscoa. Segundo o marido, os dois baixaram a guarda por volta da idade limite de Dora para engravidar, aos 34 anos, e pararam de evitar filhos. Como nada aconteceu naturalmente durante um ano, desligaram-se da questão.

Namoro com pai solteiro
Depois da separação, a publicitária Soraya Malheiros decidiu investir na carreira e nos filhos. Ela se tornou barista e abriu uma cafeteria na Savassi. O ex-marido tornou a entrar em um relacionamento no ano seguinte. Soraya, por sua vez, levou 13 anos para apresentar um namorado firme aos filhos. Pedro Henrique, de 20 anos e João Paulo, de 17. Soraya conheceu ao vivo Aggeo Simões, cantor, locutor e ator, com quem já havia conversado pela internet. “A Sosô estava tão bonita de vermelho da primeira vez, e na vez seguinte a gente ficou e agradou um do outro”, explica Aggeo, que cuida da filha Ava, de 8 anos, em regime de guarda compartilhada com a mãe. Ele alimenta o blog Manual do Pai Solteiro, que deve virar livro. “Já conhecia o trabalho dele no blog e percebia o quanto ele era fofinho ao compartilhar as experiências de ser pai sozinho, de fazer comidinhas para a filha”, derrete-se Soraya, com 8 meses de namoro.

Os meus filhos, o seu filho e a minha filha
“Na época, a separação foi sofrida, mas a relação com a ex-esposa transformou-se em amizade e respeito”, afirma o médico Luiz Alberto Laborne Tavares, casado pela segunda vez. Os filhos do primeiro casamento continuam morando com a mãe, mas Pedro Henrique, guitarrista e estudante de publicidade, montou um estúdio de música na clínica do pai. “No começo foi difícil, pois a gente se acostuma a morar junto com os pais. Mas vejo meu pai sempre”, diz o vestibulando Lucas, que se tornou amigo de Caio, filho emprestado do pai com a madrasta Carina, que é bancária. Com ela, o médico teve Isabel, de 4 anos, que se dá bem com os três irmãos mais velhos e com a coelhinha Jojô. Há 12 anos, Carina mantém união estável com o médico, em contrato registrado no papel, deixando claras as intenções de cada um. “É natural que existam diferenças de amor quando Luiz trata da nossa filha ou do meu filho, mas isso é o que menos pesa hoje”, compara Carina. Segundo ela, na hora de decidir as viagens, as escolas onde matricular e as compras de roupas o tratamento é igual para todos.

Laços cada vez mais fortalecidos
Para especialistas do setor, os laços da família nunca estiveram tão fortes, apesar de terem sido amarrados de um jeito diferente. Segundo dados do Censo, os mineiros não vivem sós. Quase a metade da população (48,3%) está envolvida em algum tipo de união, formal ou informal. “As pessoas se perguntam se as crianças filhas de casamentos gays ou de segundos ou terceiros casamentos vão sofrer preconceitos. É claro que vão, assim como sofriam antes os filhos de pais separados”, alerta o advogado Rodrigo da Cunha Pereira, presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFam), com sede em Belo Horizonte.

A partir da experiência de Minas, estão surgindo decisões importantes no cenário nacional do direito de família, como a noção dos relacionamentos ligados pelo afeto e não pelas questões econômicas, como ocorria no passado com as famílias patriarcais. Da nova definição de família, defendida pelo IBDfam, deriva o conceito de uniões estáveis homoafetivas que, sem trocadilhos, acabou “pegando” para definir os casais gays.

“Novas estruturas de família estão em curso. O que não quer dizer que a família está em decadência. Pelo contrário. Ela nunca teve tanta importância quanto agora”, alerta o advogado, autor da primeira ação de abandono afetivo com decisão favorável em primeira instância no país a um filho que se sentiu desprezado pelo pai biológico na infância. Infelizmente, o cliente de Cunha teve o pedido negado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em 2004. Só em 2012, um pai, do interior de São Paulo, foi condenado a pagar indenização de R$ 200 mil por danos morais por ter deixado de prestar cuidados e assistência à filha, segundo decisão do STJ.

Pai de Ava, de 9 anos, o locutor e cantor Aggeo Simões tem pouca chance de vir a ser processado pela filha. Autor do blog Manual do Pai Solteiro, ele faz parte do grupo de um homem em cada 10 mulheres brasileiras capazes de cuidar sozinhas das crianças, sem a necessidade da ajuda do cônjuge. Na realidade, desde que Ava tinha 18 meses, ele e a mulher, a artista plástica Júnia Melillo, concordaram em compartilhar a guarda da filha. Em relação a viver em duas casas ao mesmo tempo, Ava interrompe a entrevista para protestar: “Eu já implorei para os dois ficarem juntos, como namorados. É que, na maior parte das vezes, minha mochila está na casa do outro e eu não consigo fazer o para casa. A professora já avisou que, da próxima vez, quem não fizer os deveres vai perder o recreio”, desabafa a garota, revirando os olhos e antevendo um futuro sem folgas. “Fora isso, está tudo bem!”, completa.

(Publicado originalmente no Estado de Minas, em 03/06/12. Reproduzido via Conteúdo Livre)

Chore comigo


Chore comigo. Precisamos nos juntar e reverter o que disfarça os processos que conspiram contra a vida. Vivemos em um mundo alheio, frio, indiferente. Para não ficarmos cara a cara com a morte lenta do planeta, das famílias, das pessoas, criamos palavras, conceitos e lógicas; meros anteparos para nosso desdém. Quando convém somos piedosos, outras vezes, inclementes. Mas, sempre em busca de justificativas.

Chore comigo. Fazemos tudo para impedir que alardeiem, em cima dos telhados, uma verdade cruel: somos fugitivos. Fugimos, sim, de admitir a nossa indiferença. Procuramos dar um ar de intelectualidade ao nosso distanciamento. Como somos rigorosos em nossas análises, desde que não precisemos sujar colarinhos bem engomados e punhos abotoados. Discussões intermináveis camuflam nossa complacência. Raiva, muxoxo, zelo, zanga, tudo para preservar-nos nas zonas de conforto.

Chore comigo. Andam bombardeando as salas de diálogo. “Cala a boca que eu tenho a razão…”, é o que mais se ouve. Somos previsíveis em nossa intolerância; donos de uma razão vaidosa. E não conseguimos esconder os sintomas dessa tosca onipotência. Nosso monólogo é afetado, o discurso, rancoroso, e o ponto de vista, intolerante. Conversar virou um exercício penoso. Odiamos sem conhecer, desmerecemos sem ouvir. Cortamos, machucamos. E mal notamos a volta do bumerangue. Quantas feridas! Um mundo onde se retribui ódio com ódio, desprezo com desprezo, frieza com frieza, merece ser chamado de inferno.

Chore comigo. Até esgotarmos nosso paiol de autodefesa, nunca experimentaremos uma nesga de liberdade. Enquanto projetarmos no outro o motivo de nossa pequenez, precisaremos nos especializar em diminuir os demais. Icemos bandeiras brancas antes que se torne necessário contemplá-las a meio pau.

Chore comigo. Acolhamos amorosamente a falibilidade humana. Sejamos compreensivos com nossas inadequações. Lembremo-nos: cada um foi criado do pó. Baixemos a guarda. Deponhamos os escudos. Algumas de nossas feridas ainda não cicatrizaram. Celebremos as dores comuns de mãos dadas.

Chore comigo. Gritemos chega. Já não resta tempo para semear desesperança. Se não podemos conviver no mesmo espaço, cedamos. Quem dará um passo para trás? O outro merece respirar. Que nosso discurso se manifeste pelo entendimento que limpezas étnicas, propostas eugênicas e ambições totalitárias só produziram carnificinas. Assim como a humanidade acabou com a paralisia infantil, vamos acabar com valas comuns, salas de torturas, movimentos persecutórios. Homossexuais, ciganos, deficientes físicos, negros, pobres ou quaisquer outras minorias (pobres, minorias?) merecem viver com a mesma dignidade que todos.

Chore comigo. Parir outro mundo nunca será indolor. Não tenhamos nosso conforto por precioso. Encarnar a regra de ouro custa caro: “Faça com o outro o que você gostaria que fizessem com você”. Caminhar uma segunda milha ao lado de gente que discordamos requer grandeza. Querer salvar a vida do proscrito antes da sua exige verdadeiro amor. Transformar o substantivo abstrato amor no verbo transitivo amar diviniza.

“Bem aventurados os que choram, pois serão consolados” Mateus 5.4.

Soli Deo Gloria


- Ricardo Gondim, via PavaBlog

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Colégio é acusado de se omitir em caso de bullying

 

É isto que é inaceitável: que uma instituição de ensino compactue, de fato ou por conivência, com a agressão. E é tanto mais inaceitável que se trate de uma instituição católica, que deveria pautar todas as suas relações pelo respeito, pelo acolhimento incondicional e pelo amor irrestrito. Esses deveriam ser os valores transmitidos às crianças e jovens ali educados. E, no entanto, que mensagem se comunica com o silêncio ou a justificação da violência?

Está mais do que na hora de os cristãos assumirem uma posição firme, acima de tudo, contra toda e qualquer forma de violência.


No momento em que o País discute a possibilidade de criminalização do bullying, uma tradicional escola católica da cidade é acusada de omissão no caso de um garoto de 13 anos que conta ter sido agredido pelos colegas por ser bailarino. A mãe da vítima, que trabalhou na instituição por 18 anos, também acusa o colégio de assédio moral e demissão indevida. Os dois processos tramitam na Justiça, mas a escola rebate as alegações.

As primeiras ofensas começaram logo que Enzo Frizzo Paulino começou a fazer balé, aos 8 anos. “Alguns colegas sabiam que eu dançava. Começaram a me chamar de ‘veado’, ‘bicha’ e gay”, lembra o menino, que estudava no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, que tem mais de 70 anos e fica na Vila Regente Feijó, região de Água Rasa, na zona leste. Para acabar com as provocações, a família decidiu transferir o garoto para o turno da tarde. “Falei com a escola e disseram que resolveriam a situação”, conta a mãe do menino, Alba Mara Paulino.

Mas, na nova turma, a situação de Enzo piorou. “Eu escondia que era bailarino, morria de medo de ser descoberto. Mesmo assim, era chamado de gay e os garotos não me deixavam usar o banheiro masculino”, lembra. “Procurei a coordenadora, mas ela disse que, como ele era bailarino, deveria estar acostumado a ser chamado de ‘veado’”, conta Alba.
O garoto afirma que, quando os colegas da tarde descobriram que era bailarino, ele nunca mais teve paz. A mãe ainda não sabe como a notícia se espalhou. “Os alunos do período não sabiam e só os professores e funcionários sabiam”, lembra Alba. Por isso, para ela, a informação foi provavelmente repassada por um adulto. “Com certeza, a pessoa que contou não imaginou o impacto disso na vida do Enzo.”

O menino percebeu que seu segredo havia sido revelado em 2010, após retornar de um festival de dança em Joinville, em Santa Catarina, um dos mais importantes do País. Foi quando as agressões passaram a ser também físicas. “Eles me batiam e gritavam: ‘veado’, ‘veado’, ‘sua bicha’”, conta o garoto, cerrando um dos punhos e batendo três vezes contra a outra mão. “Eu me sentia a escória. E eu não sou gay.”

Enzo sofreu calado. Aguentou meses de surras e xingamentos sem contar nada à mãe. Até que um dia, Alba entrou no banheiro enquanto o filho estava no chuveiro e o viu machucado. “Foi quando ele me contou tudo”, desabafa a mãe. A professora afirma ter procurado a coordenação da escola mais de uma vez. “Disseram que iriam resolver e acabei não fazendo boletim de ocorrência. Eu mesma estudei na escola, de criança até o Ensino Médio, tinha uma relação com a instituição, e não achei que poderiam negligenciar ajuda ao meu filho.”

Hoje, ao lembrar do comportamento do filho, Alba se lamenta. “Eu me sinto culpada por não ter percebido antes”, diz ela, com os olhos cheios d’água. “Ele não contava. Mas começou a faltar, a ter problemas com as notas e a ficar doente”, relata. Enzo teve anorexia e ficou um ano afastado da dança. “Cheguei a pensar em desistir da dança para não sofrer mais”, diz o garoto.

O menino ficou fascinado pela dança após ver o filme Encantada, no cinema, com a mãe. “Deixamos a sessão e ele dizia que queria ser bailarino”, conta a professora. A mãe levou o garoto ao futebol, à natação e ao tae-kwon-do, mas Enzo só queria dançar. “Ele pediu para ir a uma academia de balé. Estava firme na decisão”, diz Alba. Hoje, em um novo colégio, voltou a dançar e não precisa mais esconder isso de ninguém. “Já não tenho medo de dizer que sou bailarino. Agora, eu tenho amigos”.

(Fonte: Estado de S. Paulo, conforme tuitado pelo @celsodossi)

domingo, 3 de junho de 2012

Casar homossexuais

- Sou contra o casamento gay.  - Por quê?
- Porque o casamento tradicional é entre um homem e uma mulher. É o que diz a Bíblia.
- Na verdade, o Rei Salomão tinha 700 esposas. E o casamento tradicional, de acordo com o Deuteronômio,
significa que o homem que estuprar uma mulher terá de casar com ela,
então é melhor você repensar seu argumento.
- Tenho nojo dos gays.   - Ah, agora sim.

A cada ano, mais e mais países têm aprovado o casamento entre homossexuais. No Brasil, o casamento civil ainda é sistematicamente confundido com o sacramento católico do matrimônio. Mas se para muitas religiões a homossexualidade ainda é pecado, para o Estado laico é o exercício do direito à livre orientação sexual e não pode ser pretexto para qualquer discriminação.

Por Túlio Vianna, para a Revista Fórum.


O divórcio só foi legalizado no Brasil em 1977. A depender de alguns religiosos da época, o casamento até hoje seria “até que a morte os separe”, pois “o que Deus uniu o homem não separa”. Os moralistas de plantão alegavam que o divórcio seria a degeneração da família e que, por costume, o casamento seria a “união indissolúvel entre o homem e a mulher”. Os filhos de casais separados eram invocados como as grandes vítimas da então nova lei mas, paradoxalmente, eram estigmatizados justamente por quem era contrário ao divórcio.

Passados 33 anos, o mundo não acabou, o Brasil não foi devastado pela ira divina e a emenda constitucional nº66 de julho de 2010 tornou possível o divórcio direto, sem a necessidade de uma prévia separação judicial. Ao contrário do que pregaram alguns profetas, o divórcio foi incorporado à legislação e ao cotidiano dos brasileiros sem maiores traumas.

A celeuma em relação ao casamento agora é outra: podem os homossexuais se casar? Os argumentos do debate continuam os mesmos: “a Bíblia não permite! Está lá no Levítico: 18-22!”, bradam os contrários; mas “o Estado é laico! Está lá na Constituição: 19-1!”, retrucam os defensores.

Do ponto de vista estritamente jurídico, o casamento civil é um contrato entre duas pessoas que deve ser firmado com base no princípio da autonomia da vontade. Se as partes são maiores e capazes, e há um efetivo consenso entre elas, o Direito deveria simplesmente respeitar suas vontades, sem impor qualquer tipo de limitação. Assim, não haveria qualquer óbice ao casamento de pessoas do mesmo sexo.

O casamento civil brasileiro, porém, desde sua criação, vem sendo reiteradamente confundido com o sacramento católico do matrimônio que lhe deu origem. Com a proclamação da República e o advento do Estado laico, uma das consequências imediatas foi a criação do casamento civil, pelo decreto 181/1890. Na prática, porém, o casamento civil emulava o matrimônio religioso e mantinha suas principais características: patriarcal, indissolúvel, monogâmico e heterossexual.

O Código Civil de 1916 manteve estas características, que só começaram a ser alteradas com o advento do Estatuto da Mulher Casada (Lei 4.121/62), quando a esposa deixou de ser relativamente incapaz, e da Lei do Divórcio (Lei 6.515/77), que pôs fim à indissolubilidade do casamento. A Constituição da República de 1988 deu feição bem mais moderna ao Direito de Família, assegurando a igualdade entre homens e mulheres (art.5º, I) e reconhecendo a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar (art.226, §3º). A discriminação por orientação sexual não foi expressamente mencionada no seu art.3º, IV, que proíbe o preconceito, mas foi abarcada pela vedação genérica a “quaisquer outras formas de discriminação”.

Os dogmas católicos da monogamia (art.1566, I) e da heterossexualidade (art.1514) foram mantidos pelo Código Civil de 2002 como características intrínsecas ao contrato de casamento civil, vedando assim os casamentos abertos e entre homossexuais. Estas restrições, na prática, não impedem os casamentos abertos, bastando aos interessados a aceitação do dever de fidelidade recíproca na cerimônia, para logo em seguida o descumprirem de comum acordo na vigência do casamento. O mesmo, porém, não se pode dizer dos casamentos homossexuais, que permanecem inviabilizados por uma inaceitável interferência religiosa no Estado laico.

Na impossibilidade de formalizarem sua união, os casais homossexuais passam a morar juntos, constituem famílias e seguem suas vidas, quase à revelia do Direito. Como em toda família, porém, separações ocorrem, pessoas morrem e questões jurídicas sobre este patrimônio constituído na vida em comum são levadas ao Judiciário.

A jurisprudência dos tribunais estaduais inicialmente solucionava estas questões, tratando a união como “sociedade de fato”, ou seja, como se os companheiros fossem sócios da micro-empresa “Lar Doce Lar”. Se um dos “sócios” morresse, o sobrevivente recebia a cota parte que lhe cabia na sociedade e a cota do falecido era deixada aos seus herdeiros. Atualmente, porém, muitos tribunais já dão sinais da aceitação da união estável homossexual, até para evitar situações absurdas como o companheiro falecido deixar sua herança aos seus irmãos, tios, sobrinhos ou primos que, em muitos casos, o hostilizavam por sua orientação sexual, em detrimento do companheiro sobrevivente que com ele trabalhou para acumular tal patrimônio e muitas vezes acabava por ficar na miséria.

A necessidade do reconhecimento jurídico das relações homossexuais, porém, vai muito além da questão da herança. Uma série de direitos exercidos quase que inconscientemente pelos casais heterossexuais é cotidianamente negada aos homossexuais: direito de adotar o sobrenome do companheiro, de somar renda para aprovar um financiamento ou alugar um imóvel, de inscrever-se como dependente do companheiro na Previdência, no imposto de renda e no plano de saúde, de gozar de licença na morte do companheiro ou quando este tiver filho, de realizar visita íntima ao companheiro preso, dentre muitos outros. Em suma, dá-se um tratamento jurídico de solteiro a um casal, cerceando-lhe direitos por mero preconceito moral e religioso.

Para tentar minimizar esta excrescência jurídica, tramita no STF, desde 2009, sob relatoria da ministra Ellen Gracie, a Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4.277-7 que busca o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo, como entidade familiar. Se provida, o poder judiciário, na prática estará suprindo em parte a omissão do legislativo em legislar sobre a união civil de homossexuais, reduzindo consideravelmente a discriminação jurídica hoje existente.

União estável, porém, não é casamento. Há diferenças jurídicas significativas que vão do uso do sobrenome, somente autorizado aos casados, até o tratamento dado à herança. Para além do direito, falta principalmente à união estável o simbolismo de uma cerimônia perante familiares e amigos reconhecendo a união do casal. Assim, mesmo que o STF admita a união estável homossexual, faz-se necessário que o legislativo aprove uma lei autorizando o casamento ou, ao menos, a união civil de homossexuais.

Em 1995, a então deputada federal Marta Suplicy (PT-SP) apresentou à Câmara dos Deputados o projeto de lei 1.151 propondo a regulamentação da união civil entre pessoas do mesmo sexo no Brasil. O projeto original foi modificado em 2001 por um substitutivo do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) e, desde então, aguarda a boa vontade dos deputados para votá-lo. Mais recentemente um novo projeto de lei (nº 4.914/2009) em sentido semelhante foi proposto pelo deputado federal José Genoino (PT-SP), e atualmente está sendo discutido nas comissões da Câmara.

No Brasil, até o momento, optou-se por projetos de leis que buscam regular a questão como união civil, e não como casamento. Esta união civil, que não deve ser confundida com a mera união estável, seria registrada em cartório e, na prática, geraria efeitos praticamente idênticos ao de um casamento civil. Foi a estratégia política encontrada pelo legislador para tentar minimizar a oposição à lei por parte dos setores conservadores da sociedade.

Este modelo da união civil de homossexuais foi adotado em alguns países europeus (Reino Unido, França, Alemanha etc), mas vem sendo bastante criticado por dar um tratamento jurídico desigual em função da orientação sexual. Muito mais democrático tem sido o reconhecimento por inúmeros países da igualdade jurídica entre uma união heterossexual e uma homossexual. Desde que a Holanda aprovou em 2001 o casamento homossexual, muitos outros países também sancionaram leis no mesmo sentido como Bélgica (2004), Espanha e Canadá (2005), África do Sul (2006), Noruega e Suécia (2009), Portugal e Argentina (2010).

Aqui, não raras vezes ainda se vê políticos de todos os espectros partidários valendo-se de um discurso escancaradamente religioso para rechaçar a aprovação do casamento civil de homossexuais, com base nas restrições do sacramento católico do matrimônio. Os mais cuidadosos procuram disfarçar sua fundamentação religiosa, recorrendo a argumentos do quilate da “tradição” e do “costume”, utilizados no passado para justificar a escravidão, a virgindade e o casamento indissolúvel por toda a vida.

Enquanto o exercício de direitos for negado por questões exclusivamente religiosas não seremos uma sociedade efetivamente democrática. Impressiona a quantidade de pessoas que lutam acirradamente para impedir que casais possam viver uma vida feliz juntos, porque esta relação contraria os dogmas da sua fé. Lutam para que o Direito impeça as pessoas de expressarem seu afeto, seu carinho, seu amor.

Já é hora de aprovar uma lei que permita o casamento dos homossexuais no Brasil. O Direito não pode servir de cão-de-guarda da intolerância religiosa alheia. Que os casais homossexuais também possam se casar e ser felizes para sempre, até que a morte – ou o divórcio – os separe.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Todos os homens podem se casar


“Homecoming” é o título do curta-metragem produzido a fim de apoiar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo na Inglaterra e no País de Gales.

De autoria do premiado cineasta Mike Buonaiuto, "Homecoming" retrata um soldado inglês que transforma o seu regresso ao país num pedido de casamento ao seu parceiro. Desde o seu lançamento, em abril último, já teve mais de 750 mil visualizações.

Em 2005 foi concedido aos casais constituídos por pessoas do mesmo sexo acesso à figura jurídica da união civil, mas ainda continua a ser negado o acesso ao casamento civil.

(Fonte: dezanove.pt)

terça-feira, 29 de maio de 2012

Hospitalidade: um dom para o outro e para si mesmo


Praticar a hospitalidade traz consigo um dom inesperado: descobrimos que, dando espaço ao outro na nossa casa e no nosso coração, a sua presença não nos subtrai espaço vital, mas amplia os nossos ambientes e os nossos horizontes, assim como a sua partida não deixa um vazio, mas dilata o nosso coração até permitir-lhe abraçar o mundo inteiro.

A reflexão é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Stampa, 25-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, reproduzido via IHU.


"Não esqueçais a hospitalidade: alguns, praticando-a, acolheram anjos sem sabê-lo". Essa exortação da Epístola aos Hebreus nos lembra que a acolhida autêntica cria um diálogo fecundo de mudanças e de enriquecimentos para o hóspede, assim como o anfitrião: do diálogo, não saímos como havíamos entrado, e o desafio do diálogo requer a disponibilidade para empreender esse caminho.

No diálogo, surgem visões inéditas do outro, ganha espaço o fim do preconceito, a descoberta do que se tem em comum e também o que falta a cada um dos interlocutores. Ali ocorre a contaminação, o deslocamento das fronteiras: aquele outro que eu situava em uma dimensão remota se revela muito mais próximo e parecido comigo do que eu pensava. A fronteira permanece, mas não é mais um lugar de conflito ou de maus entendidos, mas sim de pacificação e de encontro. A hospitalidade, que exigiu que se ultrapassasse a soleira de uma casa, agora se aprofunda e se torna encontro entre humanos.

Certamente, se não se espera nada do outro, o diálogo já nasce morto: a suficiência, o querer bastar a si mesmo é de fato negação do outro, quer ele seja considerado como objeto a ser possuído, quer nos recusemos a vê-lo e a levá-lo em consideração. Mas, se aceitarmos a presença do outro, ainda mais se estivermos disposto a acolhê-lo como "hóspede interior", reconhecendo os seus traços presentes em nós, então explode a centelha do diálogo autêntico: damos tempo ao outro, trocam-se palavras que se tornam dons recíprocos.

O diá-logos, de fato, é uma palavra que se deixa atravessar por uma palavra outra, é um entrelaçamento de linguagens, de sentidos, de culturas: as interrogações do outro se tornam as minhas, as suas dúvidas incomodam as minhas certezas, as suas convicções interpelam as minhas. Então, descobriremos que, no diálogo, chegamos a expressar pensamentos jamais pensados antes, com a fascinante percepção de senti-los ao mesmo tempo como inauditos, embora familiares a nós mesmos, acabando por descobrir que temos há muito tempo entre as nossas mãos realidades que estávamos convencidos de ignorar.

É no diálogo, nesse lugar privilegiado em que cada um continua sendo ele mesmo e, ao mesmo tempo, aceita o risco de se tornar "outro", que o hóspede se torna a revelação de um dom que vem de "outro lugar", a descoberta de um ponto de vista inédito sobre a própria existência, o florescimento com palavras e gestos da interioridade que nos habita.

E tudo isso a partir de um gesto muito simples e concreto: o dar de beber e de comer ao hóspede. Sabemos que, nos países mediterrânicos, um copo de água ou uma xícara de café são o gesto mais espontâneo, mais imediato de hospitalidade. Mas hoje, na nossa sociedade, a mesa ainda é o centro, o polo em torno do qual se organiza a casa para que seja acolhedora?

Desde a sua primeira aparição na evolução das civilizações, a mesa se manifestou como lugar feito não só para comer, mas também para comunicar: se o alimento não é "falado", nutre apenas agressividade, violência e opressão. A mesa em comum com o hóspede é o espaço em que o alimento é compartilhado, e o comer se torna "convívio", ocasião de comunhão vital: é à mesa, à mesa compartilhada, que o ser humano tem a oportunidade, todas as vezes renovada, de se libertar do seu ser "devorador" – do alimento e do outro – e de se tornar mais uma vez, a cada dia, uma pessoa de comunhão.

A mesa é, de fato, o lugar em torno do qual o ser humano começou a fazer amizade, a criar sociedade, a estipular alianças. É ato comunal por excelência. Comer também é o comportamento humano mais carregado de simbolismo. Comer juntos, oferecer a própria comida ao hóspede, significa fazer com que o outro entre em uma comunhão muito profunda conosco.

De fato, "nós comemos o que a nossa mãe nos ensinou a comer. E não só isso – nos lembra Leo Moulin –, mas tal comida nos agrada e continuará agradando por toda a vida, porque nós comemos com as nossas recordações (...) Ou, melhor, nós comemos as nossas lembranças, porque nos dão segurança, temperadas como são por aquele afeto e por aquela ritualidade que caracterizaram os nosso primeiros anos de vida".

Isso também vale para a cultura-mãe, para a cultura em que fomos criados, para a cozinha particular daquela região ou daquela cidade que nós oferecemos ao hóspede (ou que vemos ser oferecida a nós). E entendemos também, descobrindo o desgosto que pode nos provocar a comida que nos é oferecida quando somos hóspedes ou as resistências que o outro manifesta diante dos alimentos que nós lhe oferecemos quando o hospedamos, como estamos enraizados em uma história particular e como é longo e cansativo o caminho rumo ao encontro com o outro.

Então, da partilha da palavra no diálogo e do alimento em torno de uma mesa, nasce um conhecimento novo do hóspede: aquele que era estranho, de quem se ignorava a proveniência, de quem custávamos a compreender a linguagem, agora se tornou alguém familiar, parte daquele círculo de pessoas e de mundos que constitui o "nosso" mundo, feito de semelhanças e de alteridades, de costumes e de novidades, de tradições recebidas e de novos caminhos tomados.

E esse elementos "socializante" da hospitalidade não deveria ser esquecido. Quando um de nós acolhe um outro, de fato, nunca está só: no meu acolher o outro sempre está comigo a minha história, as pessoas que a atravessaram, os encontros que a determinaram, a cultura que a orientou. Da mesma forma, o hóspede acolhido também não é um indivíduo fechado em si mesmo, nunca chega sozinho: consigo, ele traz o seu passado, as pessoas e os fatos que o fizeram sofrer ou alegrias, as esperanças e as decepções, o futuro esperado o o desconhecido.

Sim, no face a face de duas pessoas individuais, a hospitalidade também continua sendo o lugar comunitário por excelência: são dois mundos que se encontram através do entrelaçamento de dois olhares e do dialogar de dois rostos.

A hospitalidade é um dom! Dom a quem é hospedado, dom a quem hospeda. Certamente, a hospitalidade é apenas uma etapa, não pode ser traduzida em uma situação definitiva, porque ela sempre se dirige a novos interlocutores temporários que se voltam para a soleira da casa ou da cidade. A condição do hóspede é a de quem não permanece, senão se tornaria um membro e perderia a sua própria qualidade de forasteiro, estrangeiro, outro, peregrino: a hospitalidade é um rito de passagem, o dom temporário de um espaço.

Praticar a hospitalidade, então, trará consigo um dom inesperado: quase inadvertidamente acabaremos descobrindo que, dando espaço ao outro na nossa casa e no nosso coração, a sua presença não nos subtrai espaço vital, mas amplia os nossos ambientes e os nossos horizontes, assim como a sua partida não deixará um vazio, mas irá dilatar o nosso coração até permitir-lhe abraçar o mundo inteiro.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

As vadias vão às ruas

Mais informações aqui

“Eu morreria feliz se eu visse um Brasil cheio, em seu tempo histórico, de marchas. De marcha dxs que não têm escola, marcha dxs reprovadxs, marcha dxs que querem amar e não podem, marcha dxs que se recusam a uma obediência servil, marcha dxs que se rebelam, marcha dxs que querem ser e estão proibidxs de ser. Eu acho que, afinal de contas, as marchas são andarilhagens históricas pelo mundo.”

- Paulo Freire
(Citado pela Vivi, que explica direitinho Por que ir à marcha das vadias. Não deixe de ler, aqui)

"Há anos mulheres são ensinadas a não serem estupradas, mas nossa sociedade não parece preocupada em ensinar os homens a não estuprarem. Mulheres que sofreram algum tipo de violência sexual não são vadias. Nenhuma mulher é estuprável. Nenhuma roupa é um convite para o estupro. (...)

Para as mulheres, a palavra 'vadia' não tem o mesmo significado que para os homens. Vadias e vagabundas são todas as mulheres que ousam ir contra as regras do moralismo vigente. Apropriar-se do termo 'vadia' e ressignificá-lo é uma das principais estratégias do movimento. Se não posso usar a roupa que quero sem ser julgada por isso, se a liberdade das mulheres não é plena, então somos todas vadias.

Muitas pessoas acham ofensivo participar de uma marcha com esse nome. Não querem associar-se ao termo. Tomar para si a palavra 'vadia', tantas vezes usada para machucar, é uma forma de empoderamento, por meio de uma reação questionadora. Porém, é preciso ter em mente que há diferentes tipos de desigualdades e violências. Por isso é interessante ver que várias marchas têm buscado a inclusão e a coletividade, além do debate em relação a gênero, raça e sexualidade."

- Bia Cardoso, no Amálgama. Não deixe de ler MESMO, aqui.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Gays, raça, classe e religião

Charge: Kevin Siers (dica do amigo Alexandre Melo Franco Bahia, via Facebook)

Na quarta-feira passada [retrasada (09/05)], quando Barack Obama garantiu mais uma vaga na história ao defender o casamento entre pessoas do mesmo sexo, Cory Booker, o popular prefeito negro de Newark, disparou pelo Twitter: vou dar entrevista, assim "que eu parar de dançar".

A importância do anúncio feito por Obama ainda é muito recente para ser compreendida, mas, que tal mandarmos o cinismo dar uma volta ali na esquina? Podemos, por um momento, deixar de lado o escrutínio do cálculo político que fez com que o presidente assumisse o risco de alienar eleitores-chave em novembro?

Imagine se um político racista conseguisse introduzir um plebiscito na Carolina do Sul, onde a bandeira confederada, símbolo da luta contra a abolição da escravatura, continua desfraldada na capital. O dito plebiscito perguntaria aos eleitores se a proibição das práticas eleitorais que impediam negros de votar e o fim da segregação em escolas públicas, conquistas do Ato de Direitos Civis de 1964, devem ser revogadas. Não tenho dúvidas de que ficaríamos chocados com o número de votos a favor da volta da segregação racial.

Esse plebiscito, felizmente, não vai acontecer e sugiro o exercício da imaginação apenas para argumentar que direitos civis não devem ser submetidos ao varejo nas urnas, especialmente num mês em que um partido nazista conquistou 20 assentos no parlamento do berço da democracia ocidental.

E, numa semana em que a Carolina do Norte aprovou uma emenda constitucional para impedir que o casamento gay seja legalizado entre suas fronteiras, tenho um recado para quem acha que os homossexuais americanos são elitistas brancos e antidemocráticos, refestelados em privilégio na Califórnia e em Nova York. Somente 34% dos eleitores compareceram às urnas para votar a odiosa emenda. A mobilização conservadora é muito mais intensa, o que, de acordo com o respeitado Pew Research Center, fez com que a maioria dos Estados americanos que lançaram plebiscitos locais tenha banido o casamento gay. Ou seja, quem não se opõe ao casamento gay tende a ficar em casa, revelam os números do Pew.

A "evolução de opinião" sobre o assunto, que Barack Obama alega, é refletida numa das mais incomuns evoluções estatísticas nos Estados Unidos. Em 1996, 65% da população geral se manifestava contra o casamento gay, 27% a favor. Uma nova pesquisa do Pew revela 47% a favor, 43% contra. O anúncio de quarta-feira acendeu os púlpitos das igrejas protestantes americanas. Sabemos que a Proposition 8, passada há quatro anos para banir o casamento gay na Califórnia, contou com quase 60% de apoio dos negros, mobilizados por seus pastores.

Mais de 95% dos negros americanos votaram em Obama em 2008 e continuaram a apoiar o presidente, apesar de constituir a minoria mais punida pelo crash de 2008. A mídia americana, predominantemente branca, voltou a sugerir que os negros são homofóbicos e vão ficar em casa em novembro. Aposto minha coleção de CDs do Paulinho da Viola que eles vão votar em massa em Barack Obama.

Sim, a cara da militância gay americana ainda é um homem branco de meia-idade e de classe média alta. Os líderes religiosos que demonizam a estabilidade de famílias lideradas por pessoas do mesmo sexo fariam por bem observar que 66% das crianças negras americanas são criadas por mães ou pais solteiros. Entre os brancos, esse número cai para 24%. Sim, são principalmente os brancos afluentes que insistem no burguês direito de se casar. Um negro que vive abaixo da linha da pobreza terá mais dificuldade de apresentar um companheiro à família e esta é uma fonte de distorção estatística. Mas, em vez de contemplar o fato com escárnio, podemos lembrar que Obama mudou de opinião sob pressão de Michelle e das filhas Sasha e Malia. As meninas frequentam colegas de escola que são criadas por gays e lésbicas e aproximaram o pai do absurdo da intolerância. Quanto mais as pessoas convivem com gays assumidos e ajustados, maior a tolerância.

Graças a um gesto simbólico do primeiro presidente negro americano, um gesto que não implica burocracia ou imposição legal, quantas famílias estarão, hoje à noite, fazendo as pazes?

- Lucia Guimarães
Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo, 14/05/12
Reproduzido via Conteúdo Livre

Leia também:
Obama no rastro de Lincoln:
"Os defensores do casamento homossexual como o último dos direitos civis acertam ao lembrar que a Carolina do Norte alterou a sua própria constituição em 1875, a fim de 'proibir os casamentos entre um branco e um negro, e entre um branco e um pessoa com descendentes de cor, até a terceira geração'. (...) Nos EUA, uma nação-igreja inclusiva como nenhuma outra, os presidentes têm uma função religiosa. Lincoln foi ferido no dia da Sexta-Feira Santa de 1865 e morreu na madrugada do dia de Páscoa, e logo tornou-se o alter Christus, morto para tirar o pecado da escravidão. Obama é um norte-americano filho da era de Martin Luther King, e não menos do que Lincoln."
Religiosos negros e latinos nos EUA apoiam o Presidente Obama em sua declaração sobre o casamento igualitário (em inglês, aqui)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Cardeal alemão pede igualdade para relacionamentos hetero e homossexuais


O cardeal de Berlim, Rainer Maria Woelki, disse numa importante conferência católica na Alemanha, o Katholikentag que os relacionamentos de pessoas do mesmo sexo devem ser tratados de forma igual aos dos casais heterossexuais.

A análise é de Francis DeBernardo, publicada no sítio da New Ways Ministry, 20-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.


Um artigo publicado no sítio The Local, uma agência de notícias em inglês da Alemanha, noticia:

"Ele disse a uma multidão na quinta-feira, 17, que a Igreja deveria ver, a longo prazo, as relações homossexuais fiéis assim como fazem com as heterossexuais. 'Quando dois homossexuais assumem a responsabilidade um pelo outro, se eles se relacionam uns com os outros de uma forma fiel e a longo prazo, então você tem que ver isso da mesma forma como as relações heterossexuais', disse Woelki a uma multidão estupefata, de acordo com uma notícia do jornal Tagesspiegel.

"Woekli reconheceu que a Igreja vê o relacionamento entre um homem e uma mulher como base para a criação, mas acrescentou que é hora de pensar mais sobre a atitude da Igreja com respeito às relações do mesmo sexo".

Falando na 98º Katholikentag, uma conferência que reuniu 60 mil católicos em Mannheim, Woelki se juntou a um crescente coro de vozes episcopais que estão clamando por uma mudança na recusa tradicionalmente absolutista da hierarquia a reconhecer a bondade moral das relações lésbicas e gays.

Em dezembro passado, o arcebispo Vincent Nichols, de Londres, ganhou as manchetes ao apoiar as uniões civis para casais de lésbicas e gays no Reino Unido. Naquele mesmo mês, o padre Frank Brennan, jesuíta estudioso de Direito na Austrália, também pediu o reconhecimento similar para os relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. Em janeiro, Dom Paolo Urso, bispo de Ragusa, Itália, também pediu o reconhecimento das uniões civis em seu país.

O mês de março de 2012 assistiu a uma explosão de questionamentos de prelados à proibição da hierarquia acerca da igualdade do casamento. No 7º Simpósio Nacional da New Ways Ministry, Dom Geoffrey Robinson, bispo australiano, pediu um total re-exame da ética sexual católica para permitir, dentre outras coisas, a aprovação moral dos relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. A diocese de Manchester, em New Hampshire, apoiou um projeto de lei que legaliza as uniões civis (embora como uma medida paliativa para evitar a igualdade do casamento).

Dom Richard Malone, bispo de Portland, Maine, anunciou que a diocese não assumiria um papel ativo na oposição do próximo referendo do Estado sobre a igualdade do casamento, como havia feito em 2009. Na Itália, o cardeal Carlo Maria Martini, de Milão, afirmou em seu livro Credere e Conoscere (Crer e conhecer), que "eu não compartilho as posições daqueles que, na Igreja, criticam as uniões civis".

Embora a oposição à igualdade do casamento por parte da hierarquia, especialmente nos EUA, ainda seja grande e forte, é significativo que essas recentes declarações estejam todas desenvolvendo um tema similar de ao menos algum reconhecimento do valor intrínseco das relações lésbicas e gays, assim como da necessidade de proteção civil a elas. Que essa tendência continue e cresça.

sábado, 19 de maio de 2012

História da homossexualidade




Como derrubar preconceitos históricos? Ao longo dos séculos, a homossexualidade já foi entendida de várias formas e, mesmo com a evolução em tantos campos, o assunto ainda gera polêmica, e até violência. Uma entrevista com Luis Correia Lima, padre jesuíta e historiador, concedida ao Canal Saúde, da Fiocruz, em 28/06/11 (postagem original aqui).

Leia também: 
Diversidade sexual e Igreja, um diálogo possível
Homossexualidade e Contra-hegemonia no Catolicismo
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