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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Comunidade: quando a correção é fraterna


Hoje, na Igreja, precisamos, mais do que nunca, de correção fraterna, e os pastores da Igreja, que corrigem a comunidade cristã, por sua vez, devem ser corrigidos pela comunidade com respeito e sem contestação, nem, muito menos, desobediência.

A reflexão é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal
Avvenire, dos bispos italianos, 20-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, reproduzido via IHU.


Estamos no tempo pascal, no qual a Igreja nos convida a proclamar a boa notícia por excelência: "Cristo ressuscitou, ressuscitou verdadeiramente". Imersos nessa alegria, podemos olhar para trás, para o caminho quaresmal recém-percorrido, para verificar se foi um caminho de conversão e de crescimento espiritual, ou se não demos um passo para voltar ao Senhor, ou mesmo se acabamos cedendo ainda mais aos ídolos mundanos que sempre nos tentam.

Ao fazer esse exame de consciência, não podemos esquecer que, no início da Quaresma, Bento XVI endereçou à Igreja uma mensagem voltada a fazê-la refletir sobre o fim do seguimento: o amor, a caridade. Por isso, o papa de Roma nos forneceu o rastro de uma busca, de uma reflexão, de um compromisso cotidiano a ser assumido, o que se refere à correção fraterna.

Contaminados como estamos por uma verdadeira doença que é a indiferença uns pelos outros, a falta de proximidade, já não sabemos mais que a correção fraterna é uma das atitudes cristãs mais decisivas para a salvação do indivíduo e para a própria comunidade cristã, a Igreja. Se não nos sentimos protetores, responsáveis pelo irmão, pela irmã, pelo outro (cf. Gn 4, 9: "Por acaso eu sou o guarda do meu irmão?"), então vivemos no próprio autismo, sem olhar para os outros, sem nos aproximarmos do outro, sem praticar o face a face.

Desse modo, nunca nasce a ocasião para a correção recíproca, e, de fato, encoraja-se o crescimento do mal, que sempre será mais disseminado enquanto nunca for julgado. Entre as obras de misericórdia que aprendemos na catequese, havia também "advertir os pecadores", expressão talvez pouco feliz, porque parece pressupor que o cristão não pecador deve advertir quem o seja. Também por isso, provavelmente, essa obra foi esquecida, e assim se perdeu a memória do fato de que a instância subentendida a essa expressão é, na verdade, a da correção fraterna, uma correção sempre recíproca.

A mensagem de Bento XVI para esta Quaresma não me parece ter recebido uma recepção igual à que foi reservada às anteriores, e isso também diz muito sobre as dificuldades que os cristãos já têm com relação à prática da correção fraterna. Assumindo um estilo mundano, às vezes, alguns cristãos oscilam entre a indiferença e uma intervenção imediata violenta, caracterizada por insultos e por palavras que visam a deslegitimar a outra parte.

Com relação a isso, o Papa Bento XVI chegou até a escrever que, infelizmente, hoje, na Igreja, existe um "morder-se e um devorar-se uns aos outros" (cf. Gal 5, 15) que é escandaloso e contradiz gravemente a comunhão eclesial (Carta aos Bispos da Igreja Católica do dia 10 de março de 2009).

Sim, no tecido da vida eclesial, isso parece ser gravemente contraditório com relação ao Evangelho, ao estilo de Jesus, a uma vontade de comunhão que não perde a ocasião de declarar publicamente em palavras, mas que na realidade se desmente de modo persistente com o comportamento cotidiano, com acusações infundadas, com palavras caluniosas.

Porém, a correção fraterna está no coração da vida eclesial, é até indicada como necessária e normalizada pelas palavras de Jesus contidas nos Evangelhos. Como, portanto, ela pode ser praticada?

Acima de tudo, "prestando atenção uns aos outros" (cf. Hb 10, 24, versículo que intitula a mensagem de Bento XVI). O cristão é, por natureza, um vigilante, alguém que presta atenção, que mantém o seu olhar fixo no Senhor (cf. Hb 12, 2). A partir desse exercício de olhar com atenção para o Senhor, tornamo-nos capazes de olhar para os irmãos, para as irmãs e para os eventos da história cotidiana fazendo um discernimento sobre eles, isto é, lendo-os na sua verdade profunda e tentando olhar o outro com um olhar que o próprio Cristo teria voltado para ele.

Só quem assumiu o olhar, os sentimentos, o pensamento de Jesus também pode ver o outro na verdade, pode descobrir o seu mal, a sua culpa que jamais coincide com o outro – e, portanto, pode julgá-la na sua objetiva gravidade. Mas eu o repito – isso deve ser feito olhando para quem cometeu o mal, um homem ou uma mulher que é muito mais do que o pecado cometido: o outro sempre continua sendo uma pessoa, e nenhuma ação malvada por ele cometida pode nos fazer esquecer isso!

Normalmente olhamos o outro e logo vemos um ladrão, um mentiroso, um delinquente, uma prostituta... acabando por identificá-lo com a ação cometida: mas o ser humano é sempre muito mais do que o seu agir eventualmente julgado como negativo.

Portanto, para corrigir o outro é preciso se despojar do preconceito, daquele pensamento que nos habita e nos induz a julgar uma pessoa sobretudo pelo fato de que ele repetiu algumas vezes o seu pecado. Não, precisamos nos esforçar para ver o outro como Jesus o veria. Então, diante de uma mulher adúltera, não teríamos pedras nas mãos para apedrejá-la, mas, como Jesus ensinou, nos perguntaríamos se temos o direito de condenar quem cometeu o pecado, nós que somos pecadores como ela: "Quem de vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra" (Jo 8, 7).

Se somos exercitados a "ter em nós os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo" (cf. Fl 2, 5), a "ter o pensamento de Cristo" (cf. 1 Cor 2, 16), então devemos e podemos praticar a exortação e a correção fraterna com sinceridade e parrésia, franqueza, sem dureza, sem nos colocarmos em posição de superioridade com relação ao outro. Cada um de nós é tentado, em seu próprio subjetivismo, a perder o sentido objetivo das coisas, a não saber mais avaliá-las a justa distância.

Precisamos, portanto, de outros que nos ajudem a voltar novamente à objetividade, que nos inspirem reservas, perguntas as quais devamos responder, se quisermos ser autênticos e permanecer na verdade. Sozinhos, isolados, sem a ajuda de outros e o confronto com eles, fazemos poucos avanços e caímos facilmente.

Corrigir – lembra o papa – "dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal". O próprio Jesus praticou muitas vezes a correção para aqueles que o escutavam ou o seguiam: desse modo, queria justamente exercitar a correção do pecador, e não dar-lhe a condenação ou a morte (cf. Ez 18, 23.32; 33, 11). Jesus usou palavras de reprovação, mas sempre finalizadas a dar a salvação. Ele o fez às vezes também com palavras fortes, de cólera, que relatam o seu pathos, isto é, comportando-se como verdadeiro herdeiro do pathos dos profetas, da sua paixão pelo ser humano e pela sua salvação, pela vida.

Não é por acaso que, no discurso de Jesus sobre a Igreja relatado no capítulo 18 do Evangelho segundo Mateus, se dê tanto espaço à correção fraterna. Nesse texto, registra-se uma indicação de tipo quase processual sobre o desenvolvimento da correção fraterna: "Se o seu irmão pecar, vá e mostre o erro dele, mas em particular, só entre vocês dois. Se ele der ouvidos, você terá ganho o seu irmão. Se ele não lhe der ouvidos, tome com você mais uma ou duas pessoas, para que 'toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas' (Dt 19, 15). Caso ele não dê ouvidos, comunique à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele der ouvidos, seja tratado como se fosse um pagão ou um cobrador de impostos" (Mt 18, 15-17).

A correção deve, portanto, ocorrer em três etapas: a correção pessoal, discreta "só entre vocês dois", para que o irmão se reveja e o seu pecado não seja conhecido por outros. Depois, se necessário, a correção feita em dois ou três, de modo que quem cometeu uma culpa seja induzido a se rever na presença de mais irmãos. Se nem isso for suficiente, como medida extrema, que se faça uso da correção no meio da assembleia, diante de todos. Mas, se essa forma de correção também não tiver sucesso, Jesus pede que se adote contra quem errou a atitude que ele mesmo viveu com relação aos pagãos e aos pecadores. Nos lábios de Jesus, isso equivale a dizer: "Vá encontrá-lo, hospede-se com ele, coma com ele e converta-o com o seu amor e a sua atenção, como eu fiz com Levi, o publicano (cf. Mc 2, 13-17 e par.) e com tantos pecadores que estão no meu seguimento".

Corrigir, advertir é necessário, mas está habilitado a fazê-lo quem nutre o amor pelo irmão: cada um de nós também é responsável pelo outro, quem quer que seja, mas sobretudo de quem é irmão na fé e vive "o mandamento novo" do amor recíproco (cf. Jo 13, 24).

Certamente, "na hora, qualquer correção parece não ser motivo de alegria, mas de tristeza" (Hb 12, 11), porque quem é repreendido se sente humilhado e conhecido no seu próprio pecado. Mas, depois, torna-se verdade que, da correção, podem nascer "frutos de paz e de justiça" (cf. ibid.), e, portanto, podemos nos sentir amados por quem nos corrige.

Na parênese apostólica do Novo Testamento, pede-se mais de uma vez que se pratique a correção fraterna (cf. (cf. Rm 15, 14; 2Cor 2, 6-8; Gal 6, 1; Ef 5, 11; Col 3, 16; 1Ts 5, 12.14; 2Ts 3, 15; Tt 3, 10-11), mas esses ensinamentos já manifestam como a correção é difícil e cansativa, mesmo para quem a faz; indicam que, para corrigir, é preciso humildade e amor sincero; que nunca devemos nos sentir estranhos ao pecado do outro, nunca julgá-lo ou se considerar superior a ele. Enfim, nunca devemos praticar a correção como um inspetor que realiza a sua tarefa friamente: a correção cristã, de fato, não uma vigilância de tipo empresarial!

Na história – sabemo-lo bem –, a correção fraterna foi atestada principalmente nos primeiros séculos cristãos, depois quase desapareceu; ou, melhor, foi relegada aos mosteiros ou delegada à práxis do sacramento da penitência administrado individualmente. Nos mosteiros, que levam uma vida cenobítica, a correção ocorre todas as manhãs durante o capítulo, ou seja, a assembleia diária dos irmãos. Aqui, aquele que preside corrige os erros e os pecados comunitários, mas às vezes também corrige um irmão individual. Mas quem preside, o abade ou o prior, também pode ser corrigido e advertido pelos outros irmãos.

A respeito disso, escrevia Basílio de Cesareia: "Quem preside a comunidade não deve ser o único a não se beneficiar do apoio fraterno da correção recíproca, ele que exerce a função mais pesada" (Regras difusas 27). E o autor da Didaqué não perguntava talvez: "Corrigi-vos reciprocamente, não na ira, mas na paz" (15, 3)?

Na sua mensagem, Bento XVI pede com força o exercício da caridade fraterna na Igreja, na vida eclesial. Aqui, a correção fraterna se torna ainda mais difícil; demonstra-o o fato de que ela é muito pouco realizada, como fica aparece na prevalência da desobediência, da revolta, da divisão dentro da Igreja. Também nesse caso, a história é mestra. No primeiro milênio, a práxis da correção fraterna era bem atestada: há inúmeros exemplos de correção fraterna eclesial entre as Igrejas orientais e a Igreja latina romana (pense-se apenas na de Basílio de Cesareia com relação ao Papa Dâmaso I), e muitas tensões foram resolvidas graças ao diálogo, à escuta recíproca e à correção. No segundo milênio, ao contrário, raros são os casos de correção fraterna praticada pelo simples fiel com relação à autoridade, mesmo a suprema.

Perguntemo-nos com franqueza: se a escuta fosse mais praticada, se fosse aceita a correção recíproca, teríamos sofrido o grande cisma do Ocidente, aquele em que Lutero, de fato, levou trouxe a divisão à Igreja? O grande rabino Tarfon, depois do Holocausto de 70 d.C., defendeu que o povo de Deus havia sofrido a humilhante catástrofe porque não tinha sabido praticar humildemente a correção fraterna...

Mas há algumas exceções, que vale a pena elencar brevemente. Clássica, conhecidíssima e de perene atualidade é a correção praticada pela abade de Claraval, Bernardo, com relação ao Papa Eugênio III, no seu De consideratione (1150 ca.). Bernardo chega até a lembrar ao papa audaciosamente que ele é o sucessor de Pedro, e não de Constantino, e se dirige a ele dizendo: "Mesmo que estejas vestido de púrpura e caminhes coberto de ouro, não há nenhuma razão para que tu, que és o herdeiro do Pastor, tenhas tédio do ministério pastoral e sintas vergonha do Evangelho (cf. Rom 1, 16). Mas, se te dedicares com decidida vontade à evangelização, terás um lugar glorioso entre os apóstolos. Evangelizar significa pastorear. Portanto, faze a evangelização e serás pastor" (IV, 3.6).

Cerca de um século antes, deve ser lembrado Pedro Damião; depois de Bernardo, é a vez de Mechthild de Magdeburgo, depois Catarina de Siena, mulher de fogo, que, ao redor do fim do século XIV, durante o cativeiro de Avignon, criticava o Papa Gregório XI por não estar na sua cátedra de Roma. Mais tarde, viriam Vincenzo Quirini e Paolo Giustiniani; no século XIX, não podemos nos esquecer do Pe. Antonio Rosmini, e, no século passado, Pe. Primo Mazzolari.

No exercício da correção da Igreja por parte das autoridades da própria Igreja, devem ser lembrados ao menos Guillaume Durand, o bispo francês dos inícios do século XIV, que parece ter sido o primeiro a ter utilizado a expressão "reforma (da Igreja) na cabeça e nos membros"; o Papa Adriano VI, que, nos inícios do século XVI, reconheceu corajosamente a decadência da Igreja romana, identificando a sua causa principal nos comportamentos e nas escolhas da corte romana; e, sobretudo, o Papa João Paulo II, que, por ocasião do Jubileu do ano 2000, confessou os pecados dos cristãos na história pedindo perdão a Deus mediante uma solene liturgia pública.

Finalmente, gostaria de salientar que, a propósito da correção, dois conceitos são inseparáveis, embora em uma tensão recíproca nada fácil de resolver: correção fraterna, justamente, e obediência. Para exercer a correção fraterna precisamos ser guiados e iluminados por alguém, por alguma coisa, e, para o cristão, essa luz que dá orientação pode ser apenas o Evangelho que é Jesus Cristo e Jesus Cristo que é o Evangelho. E assim surge o valor da obediência. Sem obediência ao Evangelho e sem escuta a quem recebeu do Senhor a tarefa de ser testemunha do Evangelho, o apóstolo e portanto os seus sucessores, reinam a anarquia e a anomia – diz ainda Basílio – e não pode haver nem reciprocidade (allélon) nem comunhão (koinonia).

Hoje, na Igreja, precisamos, mais do que nunca, de correção fraterna, e os pastores da Igreja, que corrigem a comunidade cristã, por sua vez, devem ser corrigidos pela comunidade com respeito e sem contestação, nem, muito menos, desobediência.

Bento XVI lembrou recentemente na homilia pronunciada durante a Missa Crismal: "Será a desobediência um caminho para renovar a Igreja? (…) Pode-se intuir na desobediência algo da configuração a Cristo?" (5 de abril de 2012).

Não é verdade que a obediência nada mais é do uma virtude: ao contrário, é a virtude cristã por excelência, porque "Cristo Jesus se tornou obediente até à morte, e morte de cruz" (Fl 2, 5.8).


terça-feira, 12 de junho de 2012

A graça da dúvida de si

Foto: Takeshi Suga


O papa e o Vaticano estão cada vez mais defendendo a ideia de uma Igreja remanescente – uma Igreja pequena e pura que se vê muitas vezes em oposição ao mundo ao seu redor. Parece como se as autoridades da Igreja não estão nada preocupadas com aqueles que deixam a Igreja. Qualquer outra organização tomaria medidas fortes para remediar a perda de um terço de seus membros.

A opinião é do teólogo norte-americano Charles E. Curran, professor da cátedra Elizabeth Scurlock de Ética Cristã daSouthern Methodist University. O artigo foi publicado no sítio do jornal National Catholic Reporter, 06-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


A condenação por parte da Congregação para a Doutrina da Fé ao premiado livro da Ir. Margaret Farley, das Irmãs da Misericórdia, Just Love: A Framework for Christian Sexual Ethics, não é nenhuma surpresa. A Congregação insiste que o livro "não pode ser usado como uma expressão válida da doutrina católica" porque discorda do magistério hierárquico sobre masturbação, atos homossexuais, uniões homossexuais, indissolubilidade do casamento, divórcio e segundo casamento.

Há uma longa lista de teólogos morais católicos cujas obras sobre ética sexual, em um veio semelhante, foram condenados ou censurados pela Congregação para a Doutrina da Fé ao longo dos últimos 40 anos. O Papa João Paulo II escreveu a sua encíclica Veritatis splendor, em 1993, por causa da discrepância entre o ensino oficial da Igreja sobre questões morais e o ensino de alguns teólogos morais, até mesmo nos seminários. Segundo o papa, a Igreja está "enfrentando o que certamente é uma crise genuína, que não se trata já de contestações parciais e ocasionais, mas de uma discussão global e sistemática do patrimônio moral".

Todos têm que reconhecer que há uma crise real como essa na Igreja hoje. Mas a crise não é apenas uma crise na teologia moral: ela envolve uma crise na Igreja como um todo e na nossa própria compreensão da Igreja Católica. De acordo com o respeitado Pew Forum on Religion & Public Life, uma em cada três pessoas que foram educadas como católicas romanas nos Estados Unidos já não é mais católica. A segunda maior "denominação" nos EUA é de ex-católicos. Uma em cada 10 pessoas nos EUA é ex-católica. Todos nós temos experiência pessoal daqueles que deixaram a Igreja por causa do ensino sobre questões sexuais. Questões relacionadas, incluindo o papel das mulheres na Igreja, o celibato para o clero e o fracasso das lideranças eclesiais em lidar com o escândalo dos abusos infantis e o seu encobrimento, também foram reconhecidas como razões pelas quais muitas pessoas abandonaram a Igreja Católica.

A reação de papas e bispos até teólogos morais revisionistas é apenas uma parte de uma realidade crescente em nossa Igreja hoje. Há uma ladainha de outras ações similares tomadas pelo Vaticano – as restrições impostas à Leadership Conference of Women Religious (LCWR); o controle sobre as atividades da Caritas Internationalis, a agência da Igreja dedicada à ajuda aos pobres; a reação muito negativa das associações de padres na Áustria e na Irlanda; a remoção de Dom William Morris, bispo de Toowoomba, na Austrália, por ter meramente incentivado a discussão sobre o celibato e o papel das mulheres; a nomeação apenas de clérigos muito seguros como bispos etc. E a lista continua.

O que está acontecendo aqui é que o papa e o Vaticano estão cada vez mais defendendo a ideia de uma Igreja remanescente – uma Igreja pequena e pura que se vê muitas vezes em oposição ao mundo ao seu redor. Parece como se as autoridades da Igreja não estão nada preocupadas com aqueles que deixam a Igreja. Qualquer outra organização tomaria medidas fortes para remediar a perda de um terço de seus membros. Mas a Igreja remanescente se vê como uma Igreja forte de fiéis verdadeiros e, portanto, não está preocupada com essas partidas.

Esse conceito de Igreja opõe-se à melhor compreensão da Igreja Católica. A palavra "católico", em sua própria definição, significa grande e universal. A Igreja abraça tanto santos e pecadores, ricos e pobres, homens e mulheres, e conservadores e liberais políticos. Sim, há limites para o que significa ser católico, mas a compreensão de "católico" com "c" minúsculo insiste na necessidade de ser o mais inclusivo possível. Muitos de nós ficaram profundamente impressionados com os gestos do Papa Bento XVI no início do seu papado, ao ir ao encontro em diálogo com Hans Küng e de Dom Bernard Fellay, chefe do grupo originalmente fundado pelo arcebispo Marcel Lefebvre. Infelizmente, hoje, o diálogo ainda está em andamento com Dom Fellay, mas não com Hans Küng.

O problema básico de tudo isso é a compreensão e o papel da autoridade na Igreja Católica. Essa questão é muito vasta e complicada para ser discutida aqui com detalhes, mas três pontos deveriam orientar qualquer consideração sobre a autoridade na Igreja.

Primeiro, a principal autoridade na Igreja é o Espírito Santo, que fala de diversas maneiras; e todos os outros na Igreja, incluindo os detentores de cargos, devem se esforçar para ouvir e discernir o chamado do Espírito.

Segundo, a Igreja precisa dar corpo à compreensão de Tomás de Aquino de que algo é mandado e ordenado porque é bom, e não o contrário. A autoridade não faz algo certo ou errado. A autoridade deve se conformar ao que é verdadeiro e bom.

Terceiro, o perigo para a autoridade na Igreja é alegar uma certeza muito grande para o seu ensino e propostas.Margaret Farley desenvolveu esse ponto em um ensaio muito significativo, Ethics, Ecclesiology, and the Grace of Self-Doubt [Ética, Eclesiologia, e a Graça da Dúvida de Si]. A pressão por certeza fecha muito facilmente a mente e às vezes também o coração. A graça da dúvida de si permite a humildade epistêmica, condição básica para o discernimento moral comunitário e individual.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

“Maturidade eclesial”, característica de uma Igreja em diálogo com a sociedade contemporânea

Imagem daqui

Em seu artigo intitulado "Maturidade eclesial", [o teólogo e sacerdote jesuíta Mario de França] Miranda faz referência à atual crise da Igreja, com as seguinte palavras: “nenhum de nós ignora que hoje a Igreja Católica atravessa uma crise, como, aliás, também outras instituições da sociedade. Embora sua história apresente outros momentos difíceis por ela vencidos, parece-nos que a atual crise se diferencia das anteriores, mesmo da crise do século XVI, pelos desafios inéditos que traz em seu bojo”.

Entretanto, para o teólogo, essa crise deve ser entendida a partir da própria missão da Igreja que deve se desenrolar no seio da sociedade. Em outras palavras, a Igreja não se constitui numa realidade fora da sociedade, mas numa perspectiva relacional. Segundo o autor, as “rápidas e sucessivas mudanças socioculturais, a sociedade pluralista e secularizada, a hegemonia do fator econômico na vida social e familiar, a emergência da subjetividade, a desilusão e a desconfiança diante da capacidade da razão humana, a proximidade das outras religiões, são alguns fatores que transformaram a nossa sociedade e nossas vidas e que inevitavelmente incidem na vida da própria Igreja, visto que sua existência só se justifica enquanto esteja voltada para a sociedade levando-lhe a mensagem e a realidade do Reino de Deus”.

Para que a missão evangelizadora e transformadora frutifique na sociedade, a Igreja deve conhecer bem os interlocutores, levando em conta “suas linguagens, suas deficiências, seus valores, suas preocupações, seus sonhos, seus sofrimentos e suas realizações”. Caso contrário, alerta Miranda, a Igreja “não conseguirá ser uma realidade pertinente e significativa para seus contemporâneos”.

Os desafios contemporâneos não impactam apenas na linguagem da proclamação da fé, mas envolvem também a realidade da Igreja enquanto instituição. Por isso a Igreja deve “mudar para poder ser Igreja, a saber, sinal salvífico que seja, de fato, captado como tal pela sociedade”. Trata-se de uma tarefa exigente, na medida em que as “transformações de mentalidades, de práticas, de hábitos que nos são familiares só se realizam lentamente, mesmo quando pressionadas pelo contexto vital em que nos encontramos”.

Diante do novo contexto de mundo e de Igreja, abrir-se para uma perspectiva de mudança demanda uma maturidade inédita. Isto é, a “atual realidade eclesial pede de nós uma maturidade inédita, uma atitude nova, um posicionamento original, condizentes com a hora presente, já que a história jamais se repete como bem sabemos”. Trata-se, em outras palavras, de uma maturidade que implica a Igreja como um todo. Daí o sentido da maturidade eclesial mencionada por Miranda.

[Leia o artigo "Maturidade Eclesial" na íntegra aqui]

- Luís Carlos Dalla Rosa, para o IHU

sábado, 19 de maio de 2012

Só a experiência direta e imediata do Evangelho pode revitalizar a Igreja

Imagem via Facebook

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 16, 15-20 que corresponde ao Domingo da Ascenção do Senhor, ciclo B do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Os evangelistas descrevem com diferentes linguagens a missão que Jesus confia aos seus seguidores. De acordo com Mateus, hão de “fazer discípulos” que aprendam a viver como Ele os ensinou. De acordo com Lucas, hão de ser “testemunhas” do que viveram junto Dele. Marcos resume tudo dizendo que hão de “proclamar o Evangelho a toda a criação”.

Quem se aproxima hoje de uma comunidade cristã não se encontra diretamente com o Evangelho. O que se percebe é o funcionamento de uma religião envelhecida, com graves sinais de crise. Não podem identificar com clareza no interior dessa religião a Boa Nova proveniente do impacto provocado por Jesus há vinte séculos.

Por outro lado, muitos cristãos não conhecem diretamente o Evangelho. Tudo o que sabem de Jesus e da sua mensagem é o que podem reconstruir de forma parcial e fragmentária escutando catequistas e pregadores. Vivem a sua religião privados do contato pessoal com o Evangelho.

Como poderão proclamá-lo se não o conhecem nas suas próprias comunidades? O Concílio Vaticano II recordou algo demasiado esquecido nestes momentos: “O Evangelho é, em todos os tempos, o princípio de toda a sua vida para a Igreja”. Chegou o momento de entender e configurar a comunidade cristã como um lugar onde o principal é acolher o Evangelho de Jesus.

Nada pode regenerar o tecido em crise das nossas comunidades como a força do Evangelho. Só a experiência direta e imediata do Evangelho pode revitalizar a Igreja. Dentro de alguns anos, quando a crise nos obrigue a centrar-nos apenas no essencial, veremos com clareza que nada é mais importante hoje para os cristãos do que nos reunir para ler, escutar e partilhar juntos os relatos evangélicos.

O principal é acreditar na força regeneradora do Evangelho. Os relatos evangélicos ensinam a viver a fé, não por obrigação mas por atração. Fazem viver a vida cristã, não como dever mas como irradiação e contágio. É possível introduzir já nas paróquias uma dinâmica nova. Reunidos em pequenos grupos, em contato com o Evangelho, iremos recuperar a nossa verdadeira identidade de seguidores de Jesus.

Temos de voltar ao Evangelho como novo começo. Já não serve qualquer programa ou estratégia pastoral. Dentro de uns anos, escutar juntos o Evangelho de Jesus não será uma atividade a mais entre outras, mas a matriz desde a qual começará a regeneração da fé cristã nas pequenas comunidades dispersas no meio de uma sociedade secularizada.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Discordar em nome da fé

Instalação: Lee Eunyeol

Quando a discordância nasce da escuta prolongada e atenta à Palavra de Deus e das alegrias e das angústias humanas, a fé ajuda a progredir, a se reformar. Nasce da exigência de amar a Deus e ao próximo, de uma preocupação de fidelidade ao que é irrenunciável e mais importante.

A opinião é do cientista político e leigo católico italiano Christian Albini, em nota publicada no blog Sperare per Tutti, 02-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Há espaço na Igreja Católica para a discordância, ou ela é uma realidade a ser condenada e rejeitada por ser incompatível com a autêntica fé?

Esse é um assunto que foi reproposto por Bento XVI na sua homilia da Missa Crismal da Quinta-Feira Santa, no rastro da qual muitos se puseram, incluindo Andrea Tornielli, em um artigo publicado no sítio Vatican Insider [disponível aqui em italiano].

O motivo dessa atenção à discordância católica é a duradoura ressonância, até mesmo internacional, que está tendo o Apelo à desobediência assinado por centenas de padres austríacos que pedem mudanças substanciais na pastoral da Igreja e pretendem implementá-los. Entre as suas reivindicações: a Eucaristia aos divorciados em segunda união, o direito de pregação dos leigos, a presença de moderadores nas paróquias sem clero...

A modalidade de manifestar opiniões e necessidades à hierarquia eclesial através de posicionamentos públicos não é nova. Há vários exemplos, muitos dos quais documentados pelo sítio Viandanti na seção Lettere alle chiese. Vale a pena conhecê-las para descobrir uma Igreja Católica muito mais plural.

Voltando agora ao artigo de Tornielli, o jornalista reconhece a existência de desconfortos profundos que não correspondem à imagem de uma Igreja sempre triunfante, que muitos querem propor a todo custo, beirando a formas de propaganda. É uma realidade que, em muitos ambientes católicos, não se quer admitir.

Encontro-me, no entanto, menos em sintonia quando o jornalista recorre a outras afirmações de Joseph Ratzinger, que remontam a quando ele ainda era arcebispo de Munique.

"O magistério eclesial protege a fé dos simples, daqueles que não escrevem livros, que não falam na televisão e não podem escrever editoriais nos jornais: essa é a sua tarefa democrática. Ele deve dar voz àqueles que não têm voz".

"Não são os doutos – dizia ele em uma homilia pronunciada em dezembro de 1979 – que determinam o que é verdade na fé batismal, mas sim a fé batismal que determina o que é válido nas interpretações doutas. Não são os intelectuais que medem os simples, mas sim os simples que medem os intelectuais. Não são as explicações intelectuais a medida da profissão de fé batismal, mas sim a profissão de fé batismal, na sua ingênua literalidade, que é a medida de toda a teologia. O batizado, aquele que está na fé do batismo, não precisa ser ensinado. Ele recebeu a verdade decisiva e a traz consigo com a própria fé...".

Tornielli retira daí, como conclusão, que o anúncio da Igreja Católica deve se concentrar no essencial da fé, ao qual foi dedicado justamente um ano pastoral, deixando que os leigos intervenham nas questões políticas e econômicas.

É uma posição que eu compartilho, mas, apresentada dessa forma, desvia a atenção daquilo que importa na questão da discordância. As palavras de Ratzinger põem uma dicotomia: de um lado, há os intelectuais, que se baseiam nos livros e nos seus raciocínios, e, de outro, há os simples, que contam apenas com a própria fé. O magistério garante estes últimos.

Trata-se de um raciocínio simples, mas também simplista, porque generaliza e estabelece a priori que toda discordância vem dos intelectuais e dos seus livros. Mas com base em que se diz isso? Por princípio? Seria preciso, ao contrário, entrar no mérito dos casos individuais e das questões individuais.

Concordo que há um risco de intelectualismo ao se lidar com problemas religiosos, mas isso não significa negar o exercício da razão crítica, que é um serviço à fé. Ele ajuda, por exemplo, a identificar superstições e preconceitos. Também estou convicto de que o novo pelo novo não é um valor, razão pela qual a posição mais correta não está necessariamente sempre do lado da mudança. Mas isso não significa enrijecer-se no imobilismo.

Quando a discordância nasce da escuta prolongada e atenta à Palavra de Deus e das alegrias e das angústias humanas, a fé ajuda a progredir, a se reformar. Nasce da exigência de amar a Deus e ao próximo, de uma preocupação de fidelidade ao que é irrenunciável e mais importante. Assim, discorda-se em nome da fé, e não contra a fé ou fora dela. É uma discordância que não tem nada a ver com ser intelectual. Não é uma discordância fácil, barata. Ela provém de um amadurecimento interior sofrido, mas sincero.

Tornam-se, então, indispensável a escuta e o diálogo como normalidade da vida eclesial. Quem são os simples? Aqueles que vivem o peso da condição do divórcio, por exemplo, não pertencem a essa categoria? Olhar para o essencial da fé não significa também ver as situações com um olhar de misericórdia, que é a primeira verdade, e discernir quando é o momento de não absolutizar práticas e situações que parecem consolidadas?

domingo, 6 de maio de 2012

Da missa tridentina à reforma litúrgica do Vaticano II (parte 2)

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Publicamos aqui a segunda e última parte da análise do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose (leia a primeira parte, publicada ontem à tarde, aqui), sobre a passagem da missa tridentina para a nova forma da missa, após o Concílio Vaticano II. O artigo foi publicado na Revista do Clero Italiano, n°. 3, de março de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


A missa tridentina – As primeiras reformas
Além da missa dos dias de semana e da missa dominical, gostaria também de lembrar uma outra missa muito solene, que era celebrada por ocasião de funerais ou missas de sufrágio, mas somente para pessoas ricas ou nobres. Sim, os ricos podiam pagar não só a missa "dita" pelo pároco, a ordinária, ao alcance das pessoas comuns, mas também a chamada "missa grande levítica".

Nessa ocasião, vinham de fora outros dois padres, que revestiam o papel levítico do diácono e do subdiácono: estes últimos vestiam a dalmática e assistiam o pároco durante a missa. Era uma missa que admirava pela solenidade (devida sobretudo à presença simultânea de três padres), pelo canto (executado pelo coro), pela presença de um catafalco altíssimo e ornado com inúmeras velas, diferente do dos pobres, montado especialmente para acolher o caixão, ou, no caso de missas em memória do falecido, para fingir que ali estava o caixão (até se incensava o catafalco vazio...).

Mas então, ninguém pensava que este era uma farsa ou que na liturgia era necessária a verdade, não a simulação. Nas cidades pequenas como a minha, a "missa grande levítica" era um evento raro de se ver, e o sentimento predominante era a maravilha pelo seu caráter solene, grandioso, espetacular.

Para mim, a missa de então era a única missa, e eu não tinha nenhum problema com relação à forma da sua celebração. Eu entendia o latim, tinha o messalino [pequeno missal popular] e era um cristão muito convicto. Não por acaso, aos 11 anos, contra a vontade do meu pai (a minha mãe havia morrido há três anos), eu quis ir para o seminário para me tornar padre, principalmente – dizia eu – para poder celebrar a missa.

Além do serviço cotidiano como coroinha no altar, era um exercício à liturgia e dava uma subjetividade cristã certamente nada fraca, mas convicta. Eu confesso que, de toda a celebração da missa, para além da consagração, para mim era importantíssima a meditação sobre a [oração da] coleta da missa do dia, em particular o domingo. A coleta da tradição latina, de fato, muitas vezes é uma "pérola", uma verdadeira síntese da oração cristã, um esboço para quem quer rezar segundo o coração da Igreja. Por isso, eu conhecia de cor muitas coletas, de modo que eu podia rezá-las em ocasiões diversas, sem recorrer à leitura do messalino.

Um evento muito significativo foi, depois, a reforma da Semana Santa desejada por por Pio XII no início dos anos 1950. Para mim que tinha dez anos se tratava de aprender novos ritos junto com o pároco: a introdução do lava-pés na Quinta-Feira Santa, a vigília pascal na noite entre sábado e o domingo apareciam como novidades que requeriam empenho e dedicação. Sim, porque até 1954 – perdoe-se e compreenda-se a expressão popular de então – "Jesus Cristo ressuscitava no sábado de manhã".

A liturgia pascal, de fato, ocorria por volta das 9h da manhã, em uma igreja obscurecida por cortinas, de modo a poder celebrar a luz da ressurreição. Na igreja, éramos muito poucos, menos do que em uma missa de semana em que participavam os parentes do falecido pelo qual se celebrava o sufrágio.

Por volta das 10h30, ouvia-se o som dos sinos, soltos na leitura do Gloria in excelsis Deo, depois de terem sido amarrados na Quinta-Feira Santa à noite, e as pessoas que ficavam em casa corriam para os córregos para se lavar o rosto.

Essa era, na época, a celebração da ressurreição de Jesus. Não foi fácil, portanto, aceitar essa primeira reforma litúrgica. Eu, o pároco, as freiras e alguns dos cristãos mais instruídos aprendíamos a compreender a grandeza do mistério das ressurreições. Para outros, ao invés, o comentário era: "Mudam até a nossa Páscoa!".

Uma reação não muito diferente daquela suscitada pela reforma litúrgica posterior, do Vaticano II, quando a exclamação era: "Mudam até a nossa missa!".

A missa pós-conciliar
Com Pio XII, a dinâmica da mudança já havia entrado na liturgia, e João XXIII, ele também, simplificaria alguns ritos e mudaria algumas fórmulas. Certamente, teria sido necessário explicar mais às pessoas o porquê da reforma, despertar nas pessoas um interesse pela "nova missa", iniciá-las à escuta das Sagradas Escrituras.

Foi feito muito pouco, mas posso dizer que, na minha cidadezinha, o pároco fez muito, todo o possível, eu acredito. Mas já haviam chegado os anos do boom econômico, as pessoas haviam mudado: o sábado e o domingo haviam se tornado ocasiões para ir ao mar ou – se dizia – para "dar uma volta". Era a televisão que dava lições no lugar dos padres. Os jovens andavam por aí para dançar...

Quanto a mim, tendo chegado a Turim para a universidade, ia sempre todos os dias à missa, mas não mais como coroinha. Aqui, lembro-me de missas ditas às pressas, tantas missas em diversos altares simultaneamente, ao menos na igreja mais perto do meu alojamento, o Santuário della Consolata.

Mas o Concílio já havia começado e estávamos cada vez mais convencidos de que, para chegar a uma reforma da vida do cristão e de toda a Igreja, era preciso dar vida a um caminho de reforma acima de tudo do ponto de vista litúrgico. Sentia-se a necessidade dela e ela também era esperada, nesse sentido, por parte das pessoas comuns.

Assim, pouco a pouco, chegavam "novidades". As novidades realmente existiam, mas – infelizmente – eram introduzidas aos trancos e barrancos, porque os presbíteros acabavam anunciando antes da missa: "A partir de hoje, na missa, muda-se isto... Esta parte da missa não é mais em latim, mas sim em italiano... Não se faz mais como se fazia, mas se faz de forma diferente...".

Essa modalidade, talvez, não era a mais adequada para fazer com que os cristãos comuns entendessem a intenção da reforma, e poucos presbíteros explicavam com paciência e competência as mudanças. Não houve revolta por parte das pessoas, mas, ao contrário, uma acolhida passiva. E a exclamação "Mudam até a nossa missa!" não tinha amargura, era quase uma piada, naquela hora em que a Itália do boom econômico estava mudando tudo. Porém, precisamente porque mudava a vida dos cristãos, também devia mudar a forma da liturgia.

Pouco a pouco, a reforma litúrgica mudou profundamente o modo de ir à missa. Podemos sintetizar essa mudança através de uma eloquente mudança de linguagem: "do tomar missa (ou assistir à missa)" para "participar da missa". Em primeiro lugar, todos ficaram agradecidos pela introdução da língua italiana, porque, finalmente, podiam compreender palavras que, até aquele momento, pareciam monopólio do presbítero e do coroinha.

O que o presbítero fazia ao altar não era mais obscuro, secreto, mágico para alguns, mas era algo compreensível e cada vez mais referido ao que Jesus fizera e dissera. Pense-se, depois, na maior riqueza de leituras na missa. Para dar só um exemplo, se, antes, no conjunto das missas dominicais e festivas, ouviam-se (ou, melhor, eram lidos em latim) cinco trechos do Antigo Testamento e dez do evangelho segundo Marcos, com o novo lecionário, os trechos do Antigo Testamento proclamados eram cerca de 240, e os de Marcos, quase 40.

As pessoas ouviam pela primeira vez páginas jamais ouvidas, das quais a pregação podia se tornar uma explicação e um comentário. Depois de um longo exílio, a palavra de Deus voltava ao coração do povo de Deus, e, acima de tudo, os evangelhos eram conhecidos quase na sua inteireza.

Além disso, começou-se a responder às palavras do padre. Teve-se verdadeiramente aquela "missa dialogada", como se dizia na hora do Concílio, tão desejada pelos párocos e pelos fiéis. Desapareceu o uso de conjugar a missa de semana com a missa "de morto": nessas liturgias, as leituras escriturísticas também eram variadas e abundantes.

Em suma, deve-se confessar – e por isso também é preciso agradecer ao Senhor – que se voltava verdadeiramente a uma comunidade, a uma assembleia celebrante, mesmo que as pessoas não tinham plena consciência disso.

Além disso, o presbítero, ao presidir a liturgia, aparecia mais claramente como sinal de Cristo para a assembleia e como sinal da assembleia para com Deus.

Não digo que não foi cansativo aceitar todas as mudanças introduzidas, mas a consciência de uma renovação necessária da liturgia me fez participar a partir de dentro dessa reforma, até por causa da minha amizade e assiduidade com os especialistas liturgistas que, em Turim, no centro litúrgico da Elle Di Ci de Leumann, trabalhavam para fazer uma contribuição de qualidade para toda a Igreja italiana.

A convicção e a determinação do cardeal Michele Pellegrino e a frequentação dos mosteiros beneditinos e trapistas franceses me ajudaram muito a acolher a reforma dentro da minha comunidade, que, desde 1968, já tinha feito da liturgia a “opus Dei” sobre a qual se podia construir a sua vida monástica.

A única tristeza, diante da qual eu senti toda a minha e a nossa impotência, foi a introdução de cantos e músicas cuja feiúra e banalidade, e cujo caráter ideológico muitas vezes deturpavam a liturgia. Compreendi que, nas paróquias, não se podia cantar o gregoriano (de fato, desapareciam os coros e eram introduzidas as bandas juvenis), mas se podia buscar, esperar e não ceder às novas modas musicais.

De nossa parte, enraizando-nos na liturgia monástica, fomos preservados dessa contaminação, e o nosso canto permaneceu em continuidade com a grande tradição latina, embora em língua italiana. Nenhuma alteração, mas sim um progresso, um crescimento da liturgia em si mesma.

Conclusão
Então, a missa mudou? Sim, mudou na sua forma, como sempre mudou nas diversas épocas da história da Igreja. Ao mesmo tempo, porém, a missa é a mesma em uma continuidade bem mais profunda do que a língua ou os gestos com os quais é executada.

Na verdade, para quem vive uma fé autenticamente cristã e eclesial, a liturgia da Palavra não mudou desde a da assembleia presidida por Esdras no retorno do exílio (cf. Ne 8), e a liturgia eucarística é sempre a mesma, desde o partir do pão da comunidade de Jerusalém na hora da Páscoa até hoje.

No meu coração, há, portanto, uma enorme gratidão ao Vaticano II e a Paulo VI, que atuaram pela reforma em fidelidade à tradição, à grande tradição cristã, mas não tenho sentimentos depressivos, muito menos negativos, lembrando a missa como era celebrada antes da reforma conciliar.

Há 40 anos, eu recolhia na reforma litúrgica principalmente as novidades. Hoje, reconheço sobretudo a continuidade, a tradição que se acresce e se renova para não morrer ou decair, mas que sempre sabe conservar a mesma missa, a mesma celebração da aliança entre Deus e o seu povo.

Ha 40 anos, a missa era, para mim, o sacrifício da cruz: hoje, ainda é o sacrifício da cruz, que tem como êxito a ressurreição, a vitória de Cristo sobre o mal e sobre a morte. Hoje, na missa, eu vivo com mais consciência o mistério pascal, renovo a aliança com o Senhor, ofereço a minha vida, o meu corpo em sacrifício (cf. Rm 12,1), oferece toda a criação com uma epiclese, invocação ao Espírito Santo, para que transfigure essa criação em reino dos céus.

E continuo convencido de que haverá outros desenvolvimentos, outros acréscimos e mudanças na liturgia, porque a liturgia, assim como a Igreja, é semper reformanda. Tudo isso, porém, em uma continuidade que tem como referência a grande tradição do Oriente e do Ocidente, e que completará o que faltar, corrigirá o que for necessário, enriquecerá o que parecer mísero.

sábado, 5 de maio de 2012

Da missa tridentina à reforma litúrgica do Vaticano II (parte 1)

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Com uma forte marca autobiográfica, o prior de Bose relata como viveu a missa nos anos anteriores à reforma litúrgica. Palavras densas de memória e ricas de sugestões, que transparecem todo o afeto para com uma forma litúrgica que foi alimento espiritual imprescindível na primeira parte da sua vida. E, na passagem para a nova forma da missa, posterior ao Vaticano II, os seus inegáveis enriquecimentos – em particular a língua e o lecionário – e alguns defeitos – no canto litúrgico. Na reforma, enfim, reside "a continuidade, a tradição que cresce e se renova para não morrer ou decair, mas que sempre sabe conservar a si mesma, a mesma aliança entre Deus e seu povo".

Publicamos aqui a primeira parte da análise do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose. O artigo foi publicado na Revista do Clero Italiano, n°. 3, de março de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU.


Introdução
Há muito tempo, eu sentia o dever de contar como eu vivi a missa por 20 anos, antes da reforma litúrgica desejada pelo Concílio Vaticano II. Eu sinto esse dever por diversas razões. Acima de tudo, porque em mim a recordação dessa missa permanece muito viva: dos meus seis aos 24 anos, ela foi, para mim, a missa cotidiana, uma missa em que eu "servia" como coroinha.

Essa missa era a principal fonte da minha vida espiritual, era a missa que me moldava todos os dias, era a liturgia de comunhão com o Senhor, na qual eu crescia e fazia discernimento sobre a minha vida e sobre a minha vocação.

Mas também há uma outra razão pela qual eu sinto esse dever de memória. Muitos dos que têm a minha idade ou são ainda mais velhos e, portanto, viveram como eu ou mais do que eu essa forma litúrgica, parecem não lembrar, não sabem mais falar a respeito, nem sabem lê-la: eu constatei isso mais de uma vez, ficando perturbado muitas vezes com tanto desmemoriamento...

Não se trata, porém, da transcrição de recordações pessoais, como se fossem minhas memórias, nem de nostalgia por parte de um senescente: é uma comparação entre duas formas de celebração, entre dois ritos capazes de celebrar o mistério de Cristo, mas um derivado do outro e gerado pelo mais antigo, na continuidade do crescimento da fé e da eloquência da fé que é a liturgia católica.

Ao escrever este testemunho, eu espero apenas ser verídico, honesto comigo mesmo dentro do possível, porque é verdade que a experiência da missa reformada pelo Concílio Vaticano II também me moldou, ou, melhor, muito mais, já que é a "minha" missa há mais de 40 anos, é a missa que eu vivo na minha comunidade, como monge que tenta ser cristão.

Espero não ferir ninguém e prestar um serviço àqueles que querem um testemunho sobre essa missa que hoje pode ser celebrada como rito extraordinário, concedido por Bento XVI àqueles que se sentem ligados e afeiçoados a essa forma pré-conciliar.

O leitor poderá, portanto, fazer uma comparação, poderá compreender ainda mais a continuidade entre os dois ritos e, ao mesmo tempo, discernir a "graça" que a reforma litúrgica contribuiu para a vida de toda a Igreja.

A missa tridentina
Comecemos dizendo alguma coisa sobre o tempo e sobre o espaço dessa liturgia. Nas cidades do interior, como a minha, a missa dos dias de semana era celebrada às 6h da manhã: um horário que ia ao encontro das necessidades das pessoas, em particular das mulheres, que, mais tarde, deviam trabalhar em casa.

Às 6h, eu estava na sacristia e ajudava o pároco a se vestir: ele, depois de tê-lo beijado, vestia o amito sobre as costas e ao redor do pescoço, depois vestia a alva, tomava o cíngulo e a estola que eu lhe estendia, depois vestia a casula, e eu lhe amarrava o manípulo.

Nesse ponto, o padre estava pronto e, depois de fazer uma reverência para a cruz colocada sobre a credência, nos aproximávamos à igreja, enquanto eu, na frente dele, portava o missal apoiado no peito, com a abertura junto ao coração. Quando passávamos pela porta, o sacristão dava um toque de sineta: e, então, estávamos na igreja.

Nos primeiros bancos, havia duas ou três irmãs, a governanta do padre, algumas senhoras idosas. Nos bancos do outro lado da igreja, estava uma família mais ou menos numerosa, aquela que havia "ordenado", ou seja, feito celebrar a missa para o seu querido falecido no aniversário ou no 30º dia da sua morte. No fundo da igreja, havia algumas mulheres e alguns homens que gostavam daquele lugar distante, fora dos bancos: com uma certa ironia, eram chamados de "aqueles da soleira".

No total, eram entre 10 e 15 pessoas, não mais. Porém, principalmente naquele hora, muitas vezes ainda no escuro, pelo menos eu e o meu pároco tínhamos a consciência de estar coram Domino por todos os cristãos da cidade e em comunhão com toda a Igreja.

Tendo chegado ao altar, depois da genuflexão, se subia até ele para levar até lá o cálice e a patena, cobertos pelo véu, e para colocar o missal sobre o suporte. Depois, se descia, e a missa tinha início. "Introibo ad altare Dei", dizia o padre em voz baixa, e eu respondia: "Ad Deum quilaetificat iuventutem meam".

Então, eu e o padre rezávamos o Salmo 41 (42). Era um salmo com o qual eu me identificava de modo particular, porque a minha vida era dura e marcada também pelo sofrimento. "Quare tristis incedo?" (Sl 41 [42], 2), eu dizia a Deus e esperava nele apenas para que alegrasse a minha juventude.

Seguia-se a confissão dos pecados. O padre a fazia primeiro: "Confiteor Deo omnipotenti", e eu o absolvia: "Misereatur tui omnipotens Deus et, dimissis peccatistuis, perducat te ad vitam aeternam. Amen". Depois, eu me confessava, e ele me absolvia ou, melhor, absolvia todos os presentes: mas eles não podiam ouvir, porque esse diálogo ocorria em voz baixa e parecia se referir apenas a nós dois, o padre e eu. Nós dois éramos os protagonistas.

Nesse sentido, também é preciso dizer que, quando um padre vinha de fora para dizer missa na minha cidade, ele chamava a mim, que morava na frente da igreja e, assim, podia satisfazer a obrigação, porque era proibido de celebrar a missa sozinho (segundo a norma do cânone 813 § 1 do Código de Direito Canônico de 1917: "Sacerdos missam ne celebretsine ministro qui eidem inserviat et respondeat").

O padre me explicava: "As pessoas não sabem o latim, portanto não podem entender. Às pessoas basta 'assistir à missa' e rezar como sabem, com o rosário ou com outras orações". Na verdade, nem sequer se ousaria pensar no conceito de "assembleia", muito menos considerar que as pessoas ("povo de Deus" era uma expressão inconveniente) entendida como assembleia era sujeito da celebração.

Os fiéis, de fato, eram pensados e tratados como "presentes ausentes". Nem mesmo as fidelíssimas freiras tinham um messalino [pequeno missal] para seguir a celebração, enquanto eu tinha orgulho de possuir e de poder usar o do Caronti [referência ao monge beneditino Emanuele Caronti (1882-1966)], que me foi presenteado no dia da primeira comunhão.

Para a minha geração, o pequeno missal ainda era um livro decisivo para a formação cristã. Aprendia-se a missa, as vésperas, o ano litúrgico com esse precioso livro que sempre estava sempre em cima do criado-mudo, também como fonte das orações da manhã e da noite, além das várias orações para as diversas necessidades e devoções dos fiéis.

Havia um pequeno missal para todas as idades: depois do Caronti, aos 12 anos me foi presentado o Lefebvre [referência ao monge beneditino Gaspar Lefebvre (1880-1966)] e depois, aos 15, o Feder [referência ao padre jesuíta G. Feder]. Ainda hoje, ao lado da minha cama, à espera de um pequeno missal latim-italiano posterior à reforma litúrgica, conservo o do Feder para a oração pessoal.

A missa tridentina - Consagração e comunhão
Naqueles anos, estava presente um movimento litúrgico muito reconhecido pelo meu pároco. Principalmente depois que Pio XII, na encíclica Mediator Dei (1947), falara das crianças como ministrantes, coroinhas, estas haviam se tornado uma presença e um serviço ao qual se prestava muita atenção.

Todas as semanas, havia duas horas de ensino litúrgico e de provas para aprender a como servir a missa e as outras liturgias: o pároco era muito exigente, e devia-se aprender a postura, o modo de caminhar, de manter as mãos, de fazer a genuflexão, de se inclinar...

Esse ensinamento e o exercício cotidiano me davam uma consciência profunda e uma forte convicção do serviço ao altar, quase como se a missa fosse coisa do padre e minha: nós dois éramos os protagonistas, porque, como coroinha, eu era, de fato, um concelebrante. Ainda mais que o que podia ser cantado pelas pessoas era irrelevante para a validade da missa: só o padre era celebrante, e o que importava era que ele e o coroinha seguissem o rito segundo as rubricas e validamente (riteet valide). Os cantos ou as eventuais respostas do povo eram decorativos, mas não necessários.

O coroinha de então tinha que ser um rubricista especialista, um atento conhecedor das regras e das normas litúrgicas, um rapaz consciente e valoroso do seu serviço ao altar. A sua presença e as suas respostas ao padre eram essenciais para a celebração: era uma espécie de clérigo virtual.

Também não devemos esquecer que esse serviço estava consentido apenas aos homens, enquanto as mulheres absolutamente não podiam entrar no presbitério, muito menos colaborar com o desenvolvimento da celebração. O coroinha era, portanto, educado no espírito litúrgico e à execução ordenada, elegante, séria das funções litúrgicas das quais era investido.

Quando o padre subia ao altar, ele o beijava e, depois, invocava a piedade do Senhor: "Kyrie eleison", dizia ele, e eu respondia. Cruzavam-se assim, entre mim e ele, as invocações de piedade. Depois, havia a oração da coleta do dia, sempre em latim, seguida pela leitura da epístola. Todas as manhãs, sendo a missa "de morto", a leitura da epístola era a mesma, 1Ts 4, 13-18, que iniciava com as palavras: "Fratres, nolumus vosignorare de dormientibus…", assim como a leitura posterior retirada do evangelho segundo João (Jo 11, 21-27).

Eu estudei e aprendi muito cedo o latim, ainda aos oito anos, graças a quem me educou de modo tão refinado, especialmente depois da morte da minha mãe, e assim pude seguir todas as palavras sussurradas pelo padre. Eu também ouvia, porém, por trás das costas, o burburinho das pessoas que recitavam o rosário. De vez em quando, o padre se virava para as pessoas dizendo: "Dominus vobiscum", mas eu só eu que respondia: "Et cum spiritu tuo".

No entanto, em um certo ponto, quando, depois do prefácio às vezes cantado, eu proclamava o Sanctus e tocava três toques de sineta, eis que o burburinho da oração das pessoas cessava, e todos, ajoelhados, olhavam para o padre que, no altar, inclinado sobre a hóstia e sobre o cálice, pronunciava em voz baixíssima as palavras da consagração. Todos sabiam, em uma total obediência à "disciplina do arcano", que aquele era o momento culminante da missa, um momento que infundia temor: era o "santíssimo" da missa, em que absolutamente era preciso calar e prestar atenção. Era o fascinosum et tremendum, que se impunha também para o povo rude do interior!

Todos os olhares estavam fixos na coluna inclinada do padre, à espera de que aparecessem, por cima da sua cabeça, elevados ao alto pelas suas mãos, a hóstia e depois o cálice. Aqui também a sineta ritmava os movimentos do padre que se ajoelhava depois das elevações. Um toque contínuo da sineta que eu fazia girar com arte indicava o fim da consagração, do momento mais alto, do ápice da missa.

Ver a hóstia e o cálice, para muitos, era o elemento decisivo da missa, a máxima comunhão possível com o Senhor, porque quase ninguém, depois, acedia à comunhão do corpo do Senhor. A comunhão sacramental, de fato, era praticada por pouquíssimos. Era necessário comungar ao menos uma vez por ano – recitava o preceito da Igreja –, e ninguém, à parte das freiras e eu, sentiam a necessidade de comungar cotidianamente.

Também devemos dizer que a comunhão não era feita durante a missa: no momento da comunhão, só o padre comungava, depois a missa acabava. Depois de entrar novamente na sacristia e de ter deposto a casula, o padre, em alva e estola, voltava ao sacrário do altar, o abria, e nós comungávamos, ajoelhados no parapeito. Depois, fechava-se o tabernáculo sussurrando: "O sacrumconvivium…".

Essa era a missa dos dias de semana e cotidiana, que durava entre 20 e 25 minutos, no centro da qual havia "o silêncio canônico", o santíssimo momento da consagração e da elevação, um tempo em que o celebrante se imergia, mais ou menos de acordo com a sua devoção, em uma ação temorosa, adorante, mistérica. E com ele eu também, que, de perto, apenas três degraus mais abaixo, escutava e, assim, podia acompanhar as suas palavras sussurradas.

A missa tridentina – A pregação
É verdade que as pessoas "assistiam" e que essa era a sua participação: o que importava era a devoção, o exercício dos afetos, a atenção à presença de Deus, o temor pelo que acontecia sobre o altar. Não era dada a palavra do Senhor: o Antigo Testamento, durante a semana, era lido pouquíssimas vezes, as leituras da epístola e do evangelho eram – como se disse – sempre as mesmas, em ainda em latim (mais em geral, nas missas não "de morto", as leituras bíblicas eram muito escassas: textos quase que unicamente do evangelho segundo Mateus e admoestações tiradas do apóstolo Paulo).

Eu também me lembro que o meu pároco, considerado um inovador na liturgia e às vezes por isso criticado pelo bispo, a partir de 1951, me fazia ler em italiano, do parapeito, as leituras que ele, simultaneamente, lia em voz baixa em latim no altar. Então, as pessoas faziam silêncio, ouviam, como na elevação: eram os únicos momentos em que se suspendiam as devoções realizadas paralelamente com o desdobramento da missa.

No domingo, ao invés, as missas eram três: às 6h para as mulheres, que depois tinham que ir para casa para preparar o almoço; às 8h para os meninos, à qual se seguia a hora de catecismo; às 11h, a "missa grande", principalmente para os homens e os jovens.

Nessa última missa, em particular, havia os cantos: o coro da cidade executava em gregoriano a Missa de angelis. No início e no fim, cantavam-se hinos que eu recordo com verdadeira tristeza, por serem composições feias, com palavras carregadas de sentimentalismo, às vezes contendo elementos dramáticos.

Mas as pessoas – deve-se reconhecer – consideravam-nos como seus e os cantavam com paixão. Na "missa grande", não faltava a pregação, adaptada para o auditório: no primeiro pós-guerra, vinha um "josefino" de Asti ou um frei passionista do santuário das Rocche e, para não tornar a missa muito longa, ele pregava durante o desdobramento do rito.

Ele só parava no momento do Sanctus, ele também se ajoelhava na direção do altar e retomava o sermão depois do toque de sineta que se seguia à consagração. Tratava-se de pregações, não de homilias: era a ocasião para lembrar e repassar durante o ano a ética cristã, os mandamentos de Deus, os preceitos da Igreja.

Nos anos 1950 e 1960 do século passado, a pregação era uma oportunidade para a defesa da Igreja, para a luta contra o ateísmo, o comunismo e o desaparecimento da rigorosa moral sexual, em uma sociedade que perdia os seus parâmetros e conhecia uma nova cultura, cada vez menos tradicional e cada vez mais embebida de individualismo e de liberdade.

Muitos homens, durante a pregação, ficavam do lado de fora, formando pequenos grupos, e eu tinha que sair para forçá-los a entrar antes do ofertório, advertindo-os que, caso contrário, para eles, a missa não seria válida. O pároco me disse: "Vamos, força! Compelle intrare, faça-os entrar (Lc 14, 23)". Aqueles que entravam, saíam de novo para o pátio da igreja depois do Pai Nosso, dizendo com alívio: "Acabou!", e se queixavam da pregação resmungando.

(Continua amanhã à tarde)

terça-feira, 1 de maio de 2012

As religiosas dos EUA e as tensões desde o Vaticano II

"As freiras católicas me ensinam o que significa perseverar no ministério 
sem o benefício do poder institucional. #OQueAsFreirasSignificamParaMim" (Tweet daqui)

É quase instintivamente que se chega, ao tentar explicar o que está acontecendo hoje na Igreja Católica, a metáforas do mundo natural – tempestades, terremotos, mudanças sísmicas – para chegar à magnitude dos eventos.

A análise é do jornalista norte-americano Tom Roberts, publicada no sítio do jornal National Catholic Reporter, 24-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.


Procuramos os termos que explicam o que estamos experimentando: fenômenos além dos distúrbios comuns aos quais aprendemos a resistir de uma época para a outra. Assim como os sismólogos ou os climatologistas começam a unir os padrões ao longo do tempo, a construir uma megaimagem do que está acontecendo, nós também o fazemos.

Outra peça do quebra-cabeça acabou de se encaixar para nós com a divulgação pelo Vaticano, na semana passada, da "Avaliação Doutrinal da Leadership Conference of Women Religious (LCWR)".

O terremoto de 5,8 graus que atingiu a Costa Leste em agosto foi insignificante para os padrões da Costa Oeste, mas foi sentido a centenas de quilômetros do seu epicentro na Virgínia. Os geólogos explicaram que a crosta da Terra nessa parte do mundo é mais densa e menos perturbada e fraturada do que nas zonas sísmicas habituais, permitindo que as ondas sísmicas viajem mais longe do que viajariam, digamos, em Los Angeles ou em San Francisco.

De forma semelhante, as ondas de choque que emanam desde o Concílio Vaticano II (1962-1965), um encontro diferente de todos os precedentes em termos de tom, propósito e linguagem, reverberaram por toda a crosta relativamente imperturbável das presunções e da cultura de liderança da Igreja institucional. A avaliação das religiosas é o mais recente dos tremores secundários. Esse Concílio, popularmente conhecido como Vaticano II, não anunciou anátemas; não condenou heresias, como ocorreu em outros; não discorreu sobre o dogma nem estabeleceu novas linhas para quem está dentro e quem está fora da comunidade.

Ao invés disso, dizendo a questão amplamente, ele pediu que todos nós fôssemos às raízes de quem nós somos como povo de Deus e descubramos o que isso significa no mundo contemporâneo. E, embora essa seja uma história muito mais complexa – na verdade, um universo de histórias – para que possamos fazer justiça no espaço deste ensaio, podemos saber algumas coisas sobre o que aconteceu desde que começamos a sentir os rumores por baixo da crosta eclesiástica.

Uma das realidades que moldam a notícia dessa semana é que os bispos e as religiosas tomaram caminhos muito diferentes na sequência do Concílio, e isso estabeleceu uma dinâmica infeliz. Kenneth Briggs explica a crescente tensão entre bispos e religiosas no livro Double Crossed: Uncovering the Catholic Church's Betrayal of American Nuns.

As irmãs dos Estados Unidos, afirma ele, foram amplamente ignoradas nos relatos históricos do desenvolvimento da Igreja e da nação por causa de sua "exclusão das posições de poder dentro da Igreja. Sua subjugação a uma ordem clerical masculina não apenas as manteve fora dos olhos do público, mas também, em última análise, esmagaram seus esforços para se remodelarem ousada e criativamente".

Muitos dos problemas experimentados pelas religiosas no último meio século, argumenta, derivam da "recusa da hierarquia de cumprir a promessa de renovação" implícita nos documentos conciliares.

Rearranjo da paisagem
Os rumores que começaram a perturbar a crosta da Igreja em meados dos anos 1960 elevaram-se até um gigante deslocamento no fim da década com o debate sobre a Humanae Vitae. Pode parecer impactantemente inadequado retomar essa velha disputa de novo e neste contexto. Mas ela foi importante e continua sendo relevante. A paisagem católica foi rearranjada de uma forma grande e única.

Os leigos, nesse caso, liderados pela sua própria experiência e por teólogos proeminentes, disseram "não". Eles disseram que não aceitavam a proibição da Igreja sobre o uso da contracepção artificial. E assim foi. Pouco mudou desde então. Essa decisão, informal mas generalizada, criou bons tremores. A Igreja se manteve firme, menos, talvez, do que uma gárgula, aqui e ali. Deus permaneceu nos céus, e a vida continuou, mas uma nova intuição-chave permeava as pessoas nos bancos das igrejas. O temor da danação eterna por desconsiderar um ensinamento que não fazia sentido começou a evaporar como razão para obedecer.

A estudiosa da religião Phyllis Tickle diz que o cristianismo mundial está passando por uma de suas turbulências a cada 500 anos, quando antigas "carapaças" se racham e incrustações de hábito, de prática e de crença se desprendem. Em cada um desses ciclos, diz ela, ficamos nos perguntando: "Onde está a autoridade?".

A controvérsia sobre o controle de natalidade forçou essa questão de uma forma abrupta e nova no mundo católico. Percebe-se que, assim como os EUA estão tentando descobrir, no pós-11 de setembro, como o poder funciona em um mundo mais encolhido, interconectado e rompido pela tecnologia do que nunca, assim também os bispos estão tentando descobrir como funciona a sua autoridade em uma Igreja cada vez mais fraturada, onde as armadilhas e as presunções de uma monarquia totalmente masculina têm pouca influência sobre o imaginário católico contemporâneo. Poder e autoridade não funcionam mais como antes.

* * *

Na Igreja, não existe desafio maior para o poder hierárquico e para a forma tradicional de fazer as coisas do que as religiosas. Seguindo o Concílio, as mulheres fizeram o que elas pensavam que o encontro havia mandado: elas cavaram profundamente em suas próprias histórias, reviram seus documentos fundadores, refletiram longamente sobre as vidas e os exemplos de seus fundadores e fundadoras. Muitas saíram desse período de intensa oração e exame com conclusões surpreendentes. Uma delas era que a sua missão devia ser mais do que uma mão de obra barata para a hierarquia.

Outra delas foi que, tendo redescoberto os seus "carismas" originais, elas viram o seu trabalho levá-las para além dos muros dos claustros e dos conventos, rumo ao mundo mais amplo, particularmente para as suas margens e entre os pobres.

Um resultado inevitável de toda a introspecção e meditação sobre suas vidas, suas histórias e suas missões foi uma nova descoberta de si mesmas como mulheres. De fato, Briggs fala delas como uma espécie de pré-movimento feminista. As religiosas estavam realizando tarefas normalmente reservadas aos homens muito antes que muitas outras mulheres na sociedade. Elas dirigiam escolas e hospitais e outras instituições. Elas eram, escreve ele, "líderes destacadas a cargo de grandes e complexas estruturas. Elas eram, em suma, os CEOs de instituições antes que as mulheres [em geral] fossem CEOs de instituições".

Milhares delas obtiveram graus acadêmicos nos anos 1950 e levaram os seus novos conhecimentos e habilidades para uma ampla gama de novas profissões, diz Briggs, que escreve que o "total de doutorados conferidos às irmãs mais do que dobrou" entre os anos 1950 e 1970.

Durante o longo arco de sua história nos EUA, é fato que as religiosas construíram a Igreja. Nós não teríamos o sistema escolar católico sem elas. Nós não teríamos um sistema hospitalar sem elas. Nós não teríamos hoje uma presença católica em muitos das piores partes das nossas cidades sem elas. Nós não teríamos uma pastoral para os desalojados, indesejados e feridos sem elas. Em muitos casos, nós não teríamos quaisquer ministérios ou programas de educação em nossas paróquias e dioceses sem elas. E, em algumas das regiões do país pobres em padres, não teríamos paróquias sem elas.

"O chão está se movendo"
Nós somos, ao mesmo tempo, católicos, e os bispos são uma parte importante da nossa história. Por isso, devemos questionar: quem gostaria de ser bispo na Igreja de hoje? O chão está se movendo abaixo de nós de uma forma sem precedentes. Os antigos símbolos do poder estão desaparecendo. A residência baronial do bispo em Boston foi vendida para pagar o escândalo dos abusos sexuais. A da Filadélfia está à venda. A autoridade dos bispos em todas as partes está comprometida, sua estatura moral diminuiu, enquanto o mundo continua ouvindo, através de depoimentos em julgamentos e de documentação publicada, como a cultura da liderança da Igreja Católica ignorou o horror que estava sendo cometido contra as crianças, a fim de proteger seus padres e a reputação da cultura clerical.

Para a maioria dos homens ordenados vivos hoje, às vezes deve parecer como se nada é como era, como se aquilo ao qual eles se inscreveram décadas atrás desapareceu.

E isso inclui a forma como as religiosas atuam hoje. Isso inclui a forma como as religiosas pensam hoje, o fato de que elas se engajariam na reimaginação de Deus nas múltiplas manifestações humanas que refletem a sua imagem. De que elas responderiam a perguntas sobre o lugar das mulheres na Igreja, a ordenação de mulheres, como a Igreja trata os homossexuais – na direção contrária de toda a boa ordem e a comunidade que os homens haviam construído.

* * *

A avaliação doutrinal de oito páginas – uma acusação formal, na verdade – põe em causa as vidas, as motivações, a espiritualidade, a fidelidade, a teologia e as formas de abordar a Igreja e o mundo dos membros da Leadership Conference of Women Religious, uma organização que representa mais de 80% das religiosas dos EUA.

O documento está apropriadamente ancorado em citações papais sobre a necessidade de que "pessoas consagradas" tenham a total "adesão da mente e do coração ao magistério dos bispos", assim como fizeram seus fundadores e fundadoras. Como é o caso frequentemente, aqueles que possuem um maior risco de colapso nas presunções e de surgimento de questões pintam a história da Igreja em linhas nítidas e claras. Mas a realidade de alguns desses fundadores e fundadoras é muito mais irregular e envolta por muito mais lutas com a instituição e com os que detinham o poder do que referem as admoestações papais contemporâneas à obediência e à lealdade.

Há uma consequência para o fato de as religiosas terem sido as construtoras da Igreja, aqueles que estavam em campo, as representantes da Igreja onde a dor está, onde as pessoas estão realmente vivendo, sendo cuidadas e morrendo. Elas são conhecidas, recebem confiança e inspiram uma admiração e uma lealdade que não serão abandonadas nesta época de provações.

Essa não deveria ser uma competição entre homens e mulheres. Não deveria ser um teste de quem é mais importante para a Igreja. Não deveria ser uma questão de ganhar ou perder. Mas os homens forçaram isso até esse ponto.

Apoios
Nos últimos dias, as religiosas foram abordadas por católicos nas liturgias dominicais em todo o país com uma simples pergunta: o que podemos fazer para ajudar? Uma irmã me disse que as religiosas de outros países enviaram mensagens de solidariedade, perguntando se não há nada que elas possam fazer.

Em uma paróquia na Costa Leste, uma simpática mensagem de apoio às irmãs, vinda do púlpito, provocou aplausos altos e demorados. Certamente, não foi uma experiência singular. Leigos em todas as partes estão buscando quaisquer formas para apoiar as religiosas. Abaixo-assinados estão circulando no éter e atraindo milhares de assinaturas.

Eu aposto que a maioria dos bispos realmente não querem essa disputa neste momento. Com tudo aquilo que precisa de conserto na Igreja hoje – e com a quantidade de "coisas quebradas" pelas qual as lideranças são responsáveis –, agora não é o momento para ficar lançando farpas sobre quaisquer outros grupos, e certamente não sobre as irmãs.

As perguntas que as religiosas estão fazendo, os temas que elas discutem, as opiniões que elas se atrevem a expressar publicamente poderiam estar em desacordo com o que os bispos emanam a partir de sua experiência vivida, assim como de sua formação. Se os bispos querem reconhecer os fatos, essas são as mesmas questões e preocupações que ocupam a comunidade em geral, e não vão desaparecer magicamente.

Evolução em revoluções
Xavier Le Pichon, geofísico francês, é conhecido por ter construído um modelo abrangente de tectônica de placas, mas também por ter extraído do seu conhecimento da atividade das placas terrestres profundas intuições sobre o comportamento humano e a dinâmica da comunidade humana. Em um artigo, ele escreve: "Como eu sabia da minha própria experiência científica, as fraquezas, as imperfeições, as falhas facilitam a evolução de um sistema. Um sistema que é muito perfeito também é muito rígido, porque não precisa evoluir. Isso é verdade na política, é verdade dentro de uma sociedade, dentro das famílias, dentro da natureza". Eu acho que pode-se inferir, sem esticar o ponto indevidamente, que isso também vale para a Igreja Católica e para a sua eclesiologia.

Um sistema perfeito, escreve ele, "é um sistema fechado que só pode evoluir mediante uma grande comoção. A evolução ocorre através de revoluções". Em um caso, é a quebra de rochas rígidas; em outro, se poderia extrapolar, é a lenta desintegração dos sistemas eclesiais que se tornaram muito rígidos ou que descobrem que a sua utilidade foi transposta pelo tempo, pelas circunstâncias e pelas novas intuições.

A avaliação vaticana, de fato, deu início a uma "grande comoção". De uma forma que nenhuma campanha de nova evangelização jamais poderia, a crítica contra as irmãs unificou os católicos para se reagruparem por uma boa causa como católicos, porque eles são católicos. Eles farão tudo o que puderem para proteger as religiosas. Os bispos devem estar prontos para o contra-ataque violento de cartas e abaixo-assinados.

A hierarquia dos EUA está mirando a sua raiva contra as irmãs, mas os tremores que estão movendo a terra debaixo de seus pés têm pouco a ver com as mulheres que servem os pobres e se atrevem a fazer perguntas inquietantes.

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Sobre o "magistério silencioso" dos cristãos cotidianos em ação, aqui
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Católicos dos EUA se mobilizam por suas religiosas

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Outra espiritualidade possível

Escultura: Karen Cusolito

Lindo, este artigo de Ricardo Gondim. Duro, mas belo e verdadeiro.

Como a cigarra que só deixou uma casca, chegou a hora de algumas instituições religiosas se verem mero registro histórico de boas intenções. E deixem suas suntuosas catedrais como recordação da religião imponente, guerreira, voluntariosa, que um dia foram.

Passou o tempo da religião especializada em doutrinar. Ficou para trás o sistema obcecado por pensamentos lineares; intransigente nas leituras literais; inflexível nos pressupostos. O projeto de incutir salvação como anuência acabou. Aprender o catecismo para ser considerado um discípulo mostrou-se incapaz de promover um bem social. A religião que privilegiou o individualismo se esvaziou. O bem coletivo nasce do diálogo, da abertura para o diferente, nunca de decorebas. Para ressurgir, o movimento, que se pretendia evangélico, deve abandonar sua casca dogmática e legalista – que teve pertinência, mas hoje exige a alma de muitos.

No desmonte desse esqueleto religioso, é preciso denunciar também o eleicionismo teológico. Nada mais patético do que considerar-se preferido entre bilhões. Saber-se eleito significa acreditar que em alguma época passada, numa eternidade remotíssima, Deus distinguiu alguns e preteriu a maioria. Indica afirmar que os benefícios divinos foram seletivamente distribuídos – sem que se saiba por quais critérios. Essa convicção só pode gerar uma segurança ilusória – que não só enche de empáfia, como ajuda a distanciar o punhado sortudo do drama que os demais sofrem. Vaidade espiritual vem daí.

Há de repensar-se a função do sacerdote. Não pode existir uma elite representante de Deus. Como aceitar que o acesso ao Divino seja complicado ao ponto de exigir burocratas? Peritos, especialistas em divindade, não passam de sicofantas – carreiristas, alpinistas amarrados ao sagrado.

Espiritualidade não se reduz à técnica; ela prescinde de traquejos. Um “Deus que funciona” não passa de um autômato. As relações com ele não dependem de se aprender o jeito de fazê-lo responder a estímulos corretos.
 O clericalismo, detentor dos mistérios da divindade, abriu a porteira do estrelismo. E religião que reforça vedetismo, robustece ego e desmerece a simplicidade, não é digna de ser chamada “seguimento de Jesus”. Na mensagem do Nazareno, benignidade triunfa sobre teoria e a busca da justiça se concretiza em ações transformadoras.

Longe da mentalidade gerencial, outra espiritualidade florescerá nas fissuras das estradas de terra. Ali, na poeira do dia a dia, virtude desprezará gestos ocasionais para grudar na pele de pessoas comuns.

O percurso que separa o cristianismo da cristoformidade parece longo e difícil. Todavia, não vai demorar os seguidores de Jesus aprenderem que: “Religião de verdade, que agrada a Deus, o Pai, é esta: cuidem dos necessitados e desamparados que sofrem e não entrem no esquema de corrupção do mundo”. [Tiago 1.27]

Soli Deo Gloria

- Ricardo Gondim
Reproduzido do site do autor

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Igreja Católica: uma renovação é possível?

Foto: Gavin Dunbar

A homilia de Bento XVI na Missa do Crisma da Quinta-Feira Santa poderia marcar uma passagem-chave do "segundo tempo" do seu pontificado. O fato novo é que ele citou explicitamente a Iniciativa dos Párocos Austríacos que assinaram um "Apelo à desobediência" para solicitar mudanças na Igreja Católica. O documento teve um grande impacto, causando adesões e iniciativas semelhantes em escala internacional.

Diante da contestação aberta, as reações mais frequentes da instituição eclesial são o silêncio, a deslegitimação de quem contesta e a condenação. Bento XVI não escolheu nenhuma dessas opções.

O fato de citar uma realidade desse tipo em uma ocasião liturgia tão solene é uma novidade que soa como um reconhecimento do seu porte.

O papa não considera a desobediência como um caminho a ser percorrido na Igreja, mas não deslegitimou os padres em questão, nem pronunciou condenações. Ele quis acreditar, ao invés, na sinceridade da sua solicitude pela Igreja. Ele pronunciou um claro "não" à ordenação feminina, mas sem esgotar o assunto, que continua aberto, do papel eclesial da mulher e da ministerialidade feminina (que é muito mais amplo). Ele também não se fechou para as outras questões levantadas pelo apelo.

Em suma, parece que ele se colocou em uma sincera atitude de diálogo, da sua posição de pastor da Igreja universal, como fez também o arcebispo de Viena, que se encontrou mais de uma vez com o porta-voz da iniciativa. Bento XVI não se pôs em nada na estrada da excomunhão, como alguns já invocaram.

De fato, ele reconheceu a renovação como dinâmica essencial da Igreja, afirmando também que, assim como a desobediência, o enrijecimento – que não quer nenhuma mudança – também não é um caminho a seguir. É uma mensagem clara contra o tradicionalismo radical que também foi retomado por um editorial do diretor do L'Osservatore Romano.

Há a possibilidade de abrir na Igreja Católica uma temporada de diálogo para a renovação eclesial? Isso irá depender da boa vontade das partes em causa. A bola passa agora para os padres austríacos e para os seus apoiadores. Eles deverão ter cuidado para não radicalizar a sua própria posição, mas também em não deixar que a sua iniciativa deslize para a insignificância.

Acredito que é importante que eles procurem uma coordenação com iniciativas análogas que surgiram em outros países, tentando se concentrar em dois ou três pontos fortes sobre os quais pode haver uma abertura real do Vaticano (como a questão da comunhão aos divorciados em segunda união) e que podem assumir um valor simbólico.

- Christian Albini, cientista político e leigo católico italiano
Nota publicada no blog Sperare per Tutti, 06-04-2012. Tradução: Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.

Leia também:
A quem é devida a obediência religiosa

sábado, 14 de abril de 2012

A quem é devida a obediência religiosa

Foto: nebulous 1

"A coragem também é mostrada pelo mameluco, a obediência é o ornamento do cristão". A frase, tirada da balada de Schiller A luta contra o dragão, é sintomática de um modo de pensar que dominou por muito tempo as altas esferas da Igreja Católica. O que não é ordenado ou, pelo menos, aprovado do alto não deve ocorrer.

Isso não favorece necessariamente atividades e responsabilidades pessoais dos católicos, mas lhes permite ver de vez em quando como se comportam os bispos em uma situação difícil e problemática. Nas relações com as ditaduras, como vimos, pastores "condescendentes" e os seus rebanhos estavam principalmente do lado seguro, enquanto aqueles que agiam obedecendo mais à sua consciência do que ao exemplo da sua hierarquia corriam o risco de perseguição, tortura e execução capital.

O Concílio Vaticano II – será celebrado no fim do ano o 50º aniversário da sua abertura – definiu a consciência na constituição pastoral Gaudium et Spes como "o núcleo mais secreto" e "o sacrário do homem" e, finalmente, como voz de Deus e lei à qual o homem deve obedecer. Segundo a doutrina católica, uma "consciência formada" deve se orientar naturalmente segundo o ensinamento da Igreja, mas isso não significa que o indivíduo não possa chegar a conclusões diferentes, se delas estiver honestamente convencido.

Isso certamente se torna crítico quando um grupo inteiro lança um "Apelo à desobediência", como ocorreu no ano passado na Áustria. Com a palavra-tabu "desobediência" conscientemente escolhida, os promotores da iniciativa assustaram não só a hierarquia local, mas também a central de Roma. Se outros apelos críticos, de grupos menores ou maiores de teólogos, foram mais facilmente ignorados – no máximo, se negava aos signatários o acesso a uma cátedra –, agora, com relação à "desobediência" austríaca, o Papa Bento XVI pessoalmente tomou posição. Justamente na Quinta-Feira Santa, em uma das celebrações mais importantes do ano, ele perguntou retoricamente na sua pregação: "Será a desobediência um caminho?".

Do ponto de vista do papa, ela certamente não é um caminho, principalmente não uma desobediência que deve ignorar "decisões definitivas do Magistério, como, por exemplo, na questão relativa à Ordenação das mulheres, a propósito da qual o beato Papa João Paulo II declarou de maneira irrevogável que a Igreja não recebeu, da parte do Senhor, qualquer autorização para o fazer".

Por outro lado, ele concede aos autores que é a "solicitude pela Igreja que os move, quando afirmam estar convencidos de que se deve enfrentar a lentidão das Instituições com meios drásticos para abrir novos caminhos, para colocar a Igreja à altura dos tempos de hoje".

Bento XVI ressaltou na sua rejeição à desobediência, expressa somente na forma de questões críticas, que, na história da época pós-conciliar, pode-se reconhecer "a dinâmica da verdadeira renovação" e chamou a atenção para o fato de que "para uma nova fecundidade, se requer o transbordar da alegria da fé, a radicalidade da obediência, a dinâmica da esperança e a força do amor".

A questão é se a "radicalidade da obediência" – além do mais uma obediência que manifestamente o papa requer não só para com Deus e para com a consciência, mas também para com as autoridades eclesiásticas – realmente forma um todo com as três colunas cristãs da fé, da esperança e da caridade. Bento XVI já dedicou encíclicas à esperança e à caridade. Resta saber se agora ele quer tematizar em um ensinamento por escrito, juntamente com a fé, o muitos pressupõem, também a obediência.

Surpreendeu o fato de o papa ter intervindo dessa forma a propósito da Iniciativa dos Párocos Austríacos, assim como o tom bastante moderado. Nenhuma menção a sanções contra os reformadores da Igreja por parte do bispo de Roma, que, em seu tempo como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, havia recebido o apelido de Panzerkardinal, mas sim uma advertência a eles, especialmente para mudar de opinião com relação a temas sobre os quais atualmente não se pode discutir, como a ordenação das mulheres (benévolos expoentes do clero da Áustria, como o bispo auxiliar emérito de Viena, Helmut Krätzl, já haviam aconselhado isso aos "desobedientes").

Na Áustria, no entanto, as palavras do papa foram recebidas não negativamente, mas sim como um encorajamento – tanto pelo presidente da Conferência Episcopal, o cardeal Christoph Schönborn, quanto pelo primeiro representante da Pfarrer-Initiative, Helmut Schüller, que se mostrou "agradavelmente surpreso".

A reação papal mostra, de todos os modos, que as exigências dos padres austríacos são levadas a sério no Vaticano. Não parece ser, de momento, uma ameaçadora ruptura, mas sim, certamente, um processo de diálogo longo e complicado. O fato de o papa ter abordado o tema torna mais alegre o som dos sinos da Páscoa. Para chegar a um verdadeiro evento de Pentecostes, em que conservadores e reformadores não só se entendam linguisticamente, mas cheguem a soluções amplamente compartilhadas, o caminho a ser percorrido, porém, ainda é muito longo.

- Reportagem de Heiner Boberski, publicada no sítio Wienerzeitung.at, 06-04-2012.
Tradução de Moisés Sbardelotto, aqui reproduzida via IHU.
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