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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Entendendo a fé (3)

Foto: i can read

Continuação do post de 27/10/11...

Ao confundirmos crença e fé, e, assim, perdermos a sua distinção, caímos na armadilha da lei, em meio às coisas que podemos definir, regulamentos que podemos impor, fórmulas específicas de credos, que justificam nossa rejeição aos outros. Mais do que qualquer outra religião, o Cristianismo caiu nas tentações do poder que a uniformidade das crenças cria.

A ortodoxia de culto da crença, o aprendizado exatamente correto das palavras, rituais, externalidades e fórmulas trai o Deus vivente por outro falso que nós mesmos construímos. A diferença precisa ser compreendida à luz da fé, até mesmo nas tradições religiosas. Todas as religiões possuem suas diferenças internas, que levam o nome de diálogo intrarreligioso. Os judeus dizem que caso você tenha três rabinos discutindo um aspecto da lei, você terminará com quatro opiniões diferentes. Sunitas e xiitas, mahayanas e theravadas, católicos e protestantes, todos sustentam convicções diferentes, dentro da mesma tradição de fé.

A crença pode ser heroica. Você pode se recusar a negar suas convicções, e poderá ficar feliz em ser queimado na pira, ou despojado de posição e status, por elas. Muitos crentes se motivaram pelas histórias desses mártires heroicos, que preferiram entregar suas vidas a negar suas convicções. Não deveríamos depreciar o heroísmo da convicção em face da opressão e da perseguição. Necessitamos força e integridade para resistir à força violenta que nos obrigaria a negar nossos princípios e convicções. Todavia, o reino espiritual não gira em torno do heroísmo. A mentalidade heroica do guerreiro, ou do mártir, se rende a um outro tipo de autoconsciência, uma vez que experienciemos a Deus como amor, em lugar de doador de fama ou glória eterna. Aquiles é admirável, mas não é um santo. Thomas More é um herói da liberdade religiosa e da integridade pessoal, mais do que um professor dos mistérios. A fé é mais do que a crença mais heroica. Ela não é apenas uma convicção sustentada apaixonadamente, por mais leal e de autossacrifício que seja essa convicção. A fé é mais do que um conceito, e mais do que um signo do leal pertencer a um grupo específico.

Trata-se do relacionamento com aquilo que acreditamos; com aquilo que acreditamos porque o experienciamos, e com aquilo que experienciamos porque somos simplesmente projetados para isso, e por isso. A fé nos mergulha na ontologia e, interminavelmente, revela toda a extensão dos mistérios do ser.

- D. Laurence Freeman, OSB
Reproduzido via site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil, com grifos nossos

In Laurence Freeman, FIRST SIGHT: The Experience of Faith (London: Continuum, 2011) pg.14-15).
Tradução de Roldano Giuntoli

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

"O amor é a maior força que existe, capaz de vencer qualquer dificuldade, mesmo quando a maior delas é seu próprio medo"

Foto: i can read

Percebemos que a ideia de conciliar nossas identidades de gays e católicos muitas vezes causa um certo estranhamento ou mesmo desconforto em algumas pessoas - e, nesse caso, não só os "fundamentalistas", mas também em muitos gays não-religiosos. Em vista disso, iniciamos há algumas semanas uma série de depoimentos aqui no blog, que serão publicados sempre às quintas-feiras, às 15h, de algumas das pessoas que frequentam as reuniões e atividades do Diversidade Católica e que se dispuseram a compartilhar, com os leitores do blog, um pouco de suas histórias e suas vivências como gays e católicos que são.

A série pode ser acessada através da tag "gay e cristão".

A cada um deles, sempre, nosso muito obrigado. :-)


Sempre acreditei na força dos testemunhos. Era a atividade que mais me comovia nos retiros que eu participava, fossem os retumbantes encontros de jovens, com suas músicas de louvores e exagerada disponibilidade, fossem os introspectos retiros de preparação para a crisma (desses últimos, aliás, eu fui socio contribuinte, não perdia um). Eram esses os momentos nos quais eu mais refletia sobre o meu pecado #1: o de gostar de coisas impuras.

Quem já foi numa igreja barroca sabe que normalmente o altar é escalonado e cada andar tem a imagem de um santo (que normalmente usa uma peruca com cabelo humano – isto é bizarro!). É como uma classificação bem dividida que começa por nós, fiéis, no chão. Depois o padre, no presbitério. Daí vem um anjo, um santo, uma Maria, Jesus e Deus. Isso tem um quê de hierarquia, uma distribuição de poderes bem denifida, assim como no "estava a velha em seu lugar", só que com personagens religiosas. Para mim a Igreja sempre foi exatamente assim: um grande coro de hierarquias encabeçado pelo Papa João de Deus, tão amado pela minha família, cujo retrato afetuoso encimava nossa mesa de jantar. Aliás, acima do papa estava Jesus, não andando ou vestindo suas roupas de época, mas pregado na cruz e olhando de ladinho aqui pra baixo, como quem quisesse dizer alguma coisa. E na minha cabeça, nessa escada estavam presentes também o meu anjo da guarda – o zeloso guardador – e meus antepassados que foram grandes personalidades lá na roça, onde se confiava em Deus e nada mais.

Eu não queria usar uma expressão chavão, pois gosto de ser exclusivo. Mas nada que eu invente daria conta de explicar melhor o fato de que "eu sempre soube". É uma m&%#@, mas é a verdade. As travas da Lapa sempre souberam, mas e daí?, são pecadores! Eu não... não sou igual a eles, devo rezar por eles e pedir forças a Deus para que consiga me livrar deste mal. Nunca acreditei em um inferno quente e péssimo, mas como ninguém prova nada, fica o dito pelo não dito e toda semana eu ia me confessar.

"Meu filho, Deus te ama. Peça forças a ele porque você é um jovem muito bom e vai conseguir se livrar disto."

"De novo né? Quer o que com isso? Hein? Vai conseguir ser pai de família assim?"

"Meu filho, não precisa vir aqui para confessar isso, eu já te falei."

"Ué, fazer o que, né, pecado mortal. Reza para Nossa Senhora te livrar do pecado".

É, nenhum dos mil padres com quem eu me confessava toda semana sabia de fato o que me dizer. Nenhum deles me convencia; aliás, essa enorme variedade de opiniões me deixava mais perdido. Mas Jesus de ladinho era quem mais me amedrontava, não pela relação de temor que eu tentava nutrir, a despeito da minha forte crença de que Deus me amava, mas porque eu nunca estive realmente a sós com ele. Jesus nunca veio falar sozinho comigo, sempre trouxe toda a galera da hierarquia, o papa, os padres e seu pessoal. E sempre quando eu tentava falar com ele, tinha que passar por esses interlocutores bizarros.

A minha vantagem era que eu nunca tinha me apaixonado por um menino. Toda a relação que eu tinha com homens era apenas sexual e isso me fazia acreditar que eu não era gay, mas apenas um cara que sentia tesão por outros caras. E até mesmo esses questionamentos acerca da relação entre a religião e minha sexualidade só aconteciam quando eu tinha alguma experiência sexual homoerótica; no meu dia-a-dia, eu me julgava super hétero e condenava abertamente o "homossexualismo". Dei inúmeras palestras nos grupos de jovens e nas aulas de crisma sobre esse assunto e não tinha medo de me posicionar contra. Não posso dizer que eu era hipócrita, pois no fundo eu realmente acreditava na opinião oficial da Santa Mãe Igreja – e, mesmo que eu sentisse o contrário, o errado era o meu sentir. Eu realmente sofria muito.

Tudo começou a mudar quando Jesus de ladinho saiu da sua cruz. Se desprendeu do madeiro no meu terceiro dia e veio falar pessoalmente comigo. Achei isso formidável, mas eu demorei muito a acreditar que era ele mesmo ali falando comigo, sem as opiniões dos mil padres, sem os antepassados, sem o João de Deus. Eu tinha me acostumado a só ouvir a voz de Jesus através dos outros e era como se ele tentasse falar comigo e imediatamente fosse cortado pelas vozes daquele séquito. Era muito difícil ouvir Jesus falar!

Conheci um menino, diferente de todos os outros, e por ele me apaixonei. Nossa relação durou cinco anos, e com ele aprendi que o amor é a maior força que existe e é capaz de vencer qualquer barreira, mesmo quando o maior obstáculo é você mesmo. O nosso amor venceu meu próprio preconceito, venceu minha própria opinião, me venceu.

Eu conheci um grupo de pessoas, diferente de todos os outros, e por ele me apaixonei. Hoje posso testemunhar porque vi com meus próprios olhos, senti com meu próprio coração, chorei minhas próprias lágrimas. Com esse grupo, que se chama Diversidade Católica, eu aprendi que o amor é a maior força que existe e é capaz de vencer qualquer dificuldade, mesmo quando a maior delas é seu próprio medo. O amor venceu meu rancor, venceu minha dúvida, venceu minha ideia de que encontrar Jesus é subir as escadinhas de um altar barroco.

Hoje eu não vou mais nos retiros de crisma, porque talvez eles tenham medo das pessoas serem o que realmente são. Descobri que os sentimentos não são impuros, nós aqui fora é que os tornamos assim. Ainda gosto de igrejas barrocas, mas as observo como uma marca histórica de um tempo em que se acreditava que Jesus precisava ser protegido do ser humano cruel e sujo e por isso foi elevado e cercado de um monte de santos, anjos e afins. Notícia: foi ele mesmo que escolheu ser um de nós, foi para isso que ele veio ao mundo! Não faz sentido apartá-lo da nossa realidade, deixem ele aqui no chão com a gente, é isso mesmo que ele quer!

(Se você não tem senso de humor, pule o próximo parágrafo e vá direto para "E eu conheci")

Em outras palavras, Jesus chegou para acabar com "estava a velha em seu lugar"! As travas da Lapa e os padres que me confessavam vão se encotrar no céu, juntamente com os santos barrocos que vão tirar suas perucas humanas e descobrir que podem ser felizes com seus próprios cabelos! O João de Deus – que já até morreu, tadinho – vai sair da mesa de jantar da minha família e desmontar aquele sorriso que já dura uns vinte anos, e Jesus de ladinho, ah! Esse sim, vai desentortar seu pescocinho, colocar suas roupitchas de época e virá abraçando todo mundo!

E eu conheci o Jesus, que hoje não fica mais de ladinho, e que é muito diferente da imagem que fazem dele por aí. Eu tenho absoluta certeza de que posso me afirmar filho de Deus pelo amor que ele tem por mim hoje, como eu sou. Foi o amor dele por mim que me deu forças para eu me amar e me aceitar como eu sou, pois se ele me ama como eu sou, eu não posso me amar de maneira diferente. Sim, eu sou gay e me amo como sou, pois Deus me ama como sou!

Beijos,

Pedro!

Tempo sem Advento?


Falar do “tempo” não é tão simples e óbvio; de fato, às vezes, até é um problema. Não é raro encontrar-nos em situações nas quais vivemos o tempo como um túnel, repetitivo, onde só há presente... Um pesadelo!

O tempo torna-se cada vez mais veloz, fugaz, estressante... “Kronos” continua a devorar com maior voragem o que cria. Diante disso, não há futuro auspicioso, nem esperança que sustente... Um tempo assim só é habitado por mim mesmo e não há lugar para o outro. É um “tempo sem advento”. Deus não consegue entrar em nossos “tempos apertados”!

Esta forma desabitada e estéril não é a única maneira de viver nosso tempo. Uma coisa é “viver no tempo” e outra, muito diferente, é “viver o tempo”, dando sentido e orientação à temporalidade. Viver o tempo intensamente, vivificá-lo, cuidá-lo e artisticamente orientá-lo para aquilo que desejamos! Este “tempo presente” é oportuno, precioso e não volta mais.

A tirania da agenda e a cobrança de resultados não é o único sentido do tempo e muito menos o mais importante. Há uma dimensão que sustenta, um nível do tempo mais profundo que sempre esteve aí esperando nossas buscas. É neste nível básico onde respiram nossos desejos, onde nossa esperança bebe, onde nossos sonhos criam raízes... É nele que podemos moldar a arte de viver.

É preciso parar e descer a esse nível do tempo para ir descobrir a presença que completa nosso ser, plenifica a existência e responde às nossas perguntas...

Dado evidente nestes tempos pós-modernos: o futuro que vamos construindo “carece de marcas de certeza” (Lefort), se atrofiou e vivemos “tempos sem futuro”. Ninguém pode prever o futuro com segurança! Não sabemos o que virá, pois tudo e a cada dia torna-se mais complexo e difuso. Por isso, vivemos um “presente esticado”! Mas, ao reduzir nossos sonhos e aspirações ao consumo, reduzimos nossa humanidade e nossa vida.

Precisamos voltar a ter um futuro onde ancorar; um futuro que valha a pena imaginar e que impulsiona as ações de nosso presente; uma esperança que nos dilate. Ir ao encontro do futuro significa reconhecer que Deus está trabalhando conosco e em nós. Ele vem ao nosso encontro a partir do futuro e fermenta nosso presente.

Caminhamos para o futuro atraídos por Aquele que plenifica nossa vida, já desde agora, com ingredientes vitais. Deus vem do futuro, como plenitude e totalidade; e dele temos saudade!

O futuro está dominado pela irrupção do Reino e está cheio do senhorio de Cristo. “Deus espera na fila” e descobrir sua vinda é atribuir-lhe seu lugar em nosso tempo; é viver o Advento, tempo da espera e da esperança, das buscas e dos silêncios... Tempo de “olhar” ao redor e descobrir que Deus continua vindo, sempre, por caminhos surpreendentes. Toda a nossa vida é Advento. Deus transforma o “kronos” em “Kairós”, tempo de salvação! De agora em diante, nada em nossas vidas é insignificante, nem rotineiro. Nada é banal e incomum para quem mergulhou no eterno.

O Advento é tempo de dispôr-se a algo grande. O que estamos esperando é imenso e fora do nosso tempo rotineiro. Intuímos que nossos olhos foram criados para uma visão mais profunda, mais humana, mais plena; desejamos ser um pouco mais lúcidos, mais sensíveis, muito mais corajosos para descobrir a profundidade e a riqueza de tudo o que acontece ao nosso redor e dentro de nós. No mais profundo de cada um há uma carência que nos faz bradar ao Eterno: “Vem, Senhor, nos salvar! Vem sem demora nos dar a paz!” E temos uma certeza: Ele vem!

Uma pergunta: Deus entra verdadeiramente em sua agenda, no seu tempo?

- Pe. A. Pallaoro SJ
Reproduzido via blog "Terra Boa", do Pe. J. Ramón F. de la Cigoña SJ, com grifos nossos

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Novo olhar sobre o universo


A visão que temos do mundo interfere em nossa visão de Deus, assim como o modo como entendemos Deus influi em nossa visão da vida e do mundo. Ao longo de 1.000 anos predominou, no Ocidente, a cosmovisão de Ptolomeu, que considerava a Terra centro do Universo. Isso favoreceu a hegemonia espiritual, cultural e econômica da Igreja, encarada pela fé como imagem da Jerusalém celestial.

Com o advento da Idade Moderna, graças à nova cosmovisão de Copérnico, logo completada por Galileu e Newton, constatou-se que a Terra é apenas um pequeno planeta. Qual mulata de escola de samba, dança em torno da própria cintura (24 horas, dia e noite) e do mestre-sala, o Sol (365 dias, um ano). O paradigma da fé deu lugar à razão, a religião à ciência, Deus ao ser humano. Passou-se da visão geocêntrica à heliocêntrica, da teocêntrica à antropocêntrica.

Agora, a modernidade cede lugar à pós-modernidade. Mais uma vez, a nossa visão do Universo sofre radicais mudanças. Newton cede lugar a Einstein, e o advento da astrofísica e da física quântica nos obrigam a encarar o Universo de modo diferente e, portanto, também a ideia de Deus.

Se na Idade Média Deus habitava “lá em cima” e, na Idade Moderna, “aqui embaixo”, dentro do coração humano, agora conhecemos melhor o que o apóstolo Paulo quis dizer ao afirmar: "Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dentre os poetas de vocês disseram: 'Somos da raça do próprio Deus'" (Atos dos Apóstolos 17, 27-28).

A física quântica, que penetra a intimidade do átomo e descreve a dança das partículas subatômicas, nos ensina que toda a matéria, em todo o Universo, não passa de energia condensada. No interior do átomo, a nossa lógica cartesiana não funciona, pois ali predomina o princípio da indeterminação, ou seja, não se pode prever com exatidão o movimento das partículas subatômicas. Essa imprevisibilidade só predomina em duas instâncias do Universo: no interior do átomo e na liberdade humana.

Em que a física quântica modifica nossa visão do Universo? Ela nos livra dos conceitos de Newton, de que o Universo é um grande relógio montado pelo divino Relojoeiro e cujo funcionamento pode ser bem conhecido estudando cada uma de suas peças. A física quântica ensina que não há o sujeito observador (o ser humano) frente ao objeto observado (o Universo). Tudo está intimamente interligado. O bater de asas de uma borboleta no Japão desencadeia uma tempestade na América do Sul... Nosso modo de examinar as partículas que se movem no interior do átomo interfere no percurso delas...

Tudo que existe coexiste, subsiste, pré-existe, e há uma inseparável interação entre o ser humano e a natureza. O que fazemos à Terra provoca uma reação da parte dela. Não estamos acima dela, somos parte e resultado dela; ela é Pacha Mama ou, como diziam os antigos gregos, Gaia, um ser vivo. Deveríamos manter com ela uma relação inteligente de sustentabilidade.

Esse novo paradigma científico nos permite contemplar o Universo com novos olhos. Nem tudo é Deus, mas Deus se revela em tudo. Nossa visão religiosa é agora panenteísta. Não confundir com panteísta. O panteísmo diz que todas as coisas são Deus. O panenteísmo, que Deus está em todas as coisas. “Nele vivemos, nos movemos e existimos”, como disse Paulo. E Jesus nos ensina que Deus é amor, essa energia que atrai todas as coisas, desde as moléculas que estruturam uma pedra às pessoas que comungam um projeto de vida.

Como dizia Teilhard de Chardin, no amor tudo converge, de átomos, moléculas e células que formam os tecidos e órgãos do nosso corpo às galáxias que se aglomeram múltiplas nesta nossa Casa Comum que chamamos, não de Pluriverso, mas de Universo.

- Frei Betto
Reproduzido via Amai-vos

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Investir na diferença

Foto daqui

Boa parte de nossa vida transcorre dentro de alguma organização: família, clube esportivo, associações, empresas, supermercados…

Uma empresa ou um hospital são instituições complexas, criadas e coordenadas em função de uma finalidade (ou várias), com estruturas e instrumentos adequados.

Ninguém costuma conceber uma familia ou uma associação esportiva como uma organização, já que não é fácil destacar a finalidade para a qual nascem nem os instrumentos com os quais funcionam.

Porém, deve-se recordar, coisa que inclusive muitos teóricos das organizações esquecem, que a vida social não está composta só por organizações. A outra metade do céu está ocupada pelas convenções, que são ações complexas não “criadas” por ninguém (como ocorre com uma empresa ou um colégio). Um exemplo típico de convenção seria o trânsito.

A nota dominante nas organizações é a cooperação. Em compensação, nas convenções a cooperação torna-se muito menos evidente e, quando ocorre, normalmente carece de intencionalidade. A intenção do que sai de casa de carro pela manhã não é a de cooperar com os demais automobilistas, mas sim chegar ao trabalho bem e o mais cedo possível. A cooperação, em certo sentido, é um fato objetivo. Poderíamos dizer que uma diferença importante entre as organizações (empresas) e essa grande convenção-instituição (não organização) que é o mercado, tem a ver precisamente com o binômio cooperação-competição.

Dizem que o mercado funciona bem quando há concorrência entre os indivíduos, enquanto a empresa for essencialmente cooperação. Dito de outra forma: a empresa, como organização, em suas relações internas, é cooperação; mas como indivíduo de mercado, em suas relações externas, é concorrência.

Na realidade esta visão, muito consolidada no nível teórico, tem suas falhas, tanto no que diz respeito à empresa-organização como ao mercado-convenção. Em primeiro lugar, porque a concorrência também é importante dentro das organizações. Certamente, se a concorrência prevalece sobre a cooperação, as organizações entram em crise, mas a concorrência também pode ser lida como cumpetere: procurar juntos. O mercado também não deve ser lido só como concorrência, já que a dinâmica do mercado também é, e eu diria que sobretudo, uma ação cooperativa conjunta.

Há outro aspecto que me parece especialmente perigoso na teoria e sobretudo na prática das organizações. Eu me refiro ao que poderíamos chamar “reducionismo” ou “isomorfismo” organizativo. Em que consiste? É a tendência a tratar todas as formas organizativas como realidades substancialmente iguais. É evidente que uma empresa comercial tem muitas coisas em comum com uma cooperativa ou com uma comunidade religiosa, mas uma boa teoria organizativa deve concentrar-se nas diferenças.

Os seres humanos e os chimpanzés compartilham 98% de seu DNA, mas o que mais conta é precisamente os 2% restantes. A cultura da globalização costuma levar consigo uma tendência radical a padronizar os instrumentos organizativos. Se não dermos importância aos 2% de diferença, não conseguiremos ver os elementos decisivos de qualquer organização, que se chamam cultura, identidade, valores, missão. Talvez a organização de uma cooperativa social seja apenas 2% diferente de uma empresa capitalista, mas se os diretores e assessores começarem a tratá-la como se fosse completamente igual, podem levá-la a um beco sem saída, apagando séculos de história, de liberdade e de civilização.

Em contrapartida, uma sociedade civil cresce adequadamente sempre que permita a existência de diferentes formas organizativas, respeitando a especificidade e a cultura de cada uma delas.

- Luigino Bruni
Reproduzido via Mirada Global, com grifos nossos.

Advento: saudades do futuro!

Foto: i can read

Advento é tempo de espera, vigilância, preparação e de chegada. Tempo litúrgico onde o suspiro da expectativa e da esperança não fica sem resposta. Advento é um brado de esperança.

A Vinda de Cristo é o grande evento que agita os corações, sacode as inteligências, inquieta as pessoas e move as estruturas... para uma espera e um encontro surpreendente. É a “mística da gravidez” que cria em nós uma atitude permanente de espera, fazendo-nos crer na força escondida da vida que continuamente está para nascer.

Quem vive o Advento não é prisioneiro da “cotidianidade”, pois mantém o olhar fixo no horizonte, para a revelação da glória de Deus. Se o presente é sem sol, ele está certo da aurora! É tempo de redescobrir quem somos, o que queremos e para onde vamos.

Deus quebrará seu silêncio, a noite escura será iluminada, a primavera substituirá o inverno e o cristão guarda em si o fogo do Espírito Santo, que o mantém sempre vivo, forte e aberto ao futuro. Como o sentinela situado estrategicamente em lugares altos e de amplos horizontes, recebemos a delicada missão de observar, vigiar, discernir e anunciar, para defender a vida do povo.

Mas não basta captar os sinais, devemos também interpretá-los, quando não são claramente perceptíveis, no horizonte longínquo. Outra missão do sentinela, além de olhar, discernir é anunciar o que vê. Esta atitude de permanente vigilância, de contínua conversão do olhar, é constitutiva da vocação cristã.

Como seguidores de Jesus, somos chamados a ser permanentemente, na Igreja e no mundo, sentinelas do Reino, capazes de discernir com lucidez e perspicácia as interpelações e os desafios que surgem no horizonte da história.

Vigiar é ousar renascer, vir-de-novo, recomeçar. Nessa vigilância vislumbramos o decisivo: vivência da ternura, reinvenção da vida, despertar de sonhos e a gratuidade amorosa.

O difícil é esperar. "Desespero é fácil, e uma grande tentação!” (Péguy).

Com essa espera de Deus, com essa esperança, o cristão pode dar sabor à sua vida. A esperança tem suas raízes na eternidade, mas ela se alimenta das pequenas coisas da terra.

O Advento revela segredos futuros, é o ponto final quando todos seremos acolhidos por Aquele que nos espera e nos quer “eternos”. Porque Ele é “terno” e disso temos saudades!

Uma pergunta: O que você “vislumbra” no seu horizonte pessoal, eclesial e social?

- Pe. A. Pallaoro sj
Reproduzido via blog "Terra Boa", do Pe. J. Ramón F. de la Cigoña sj, com grifos nossos

* * *

Celebramos hoje a festa de Nossa Senhora de Guadalupe padroeira da Cidade do México (1737), do México (1895) e da América Latina (1945). Sua origem está na aparição d e Nossa Senhora a um pobre índio da tribo Nahua, Juan Diego Cuauhtlatoatzin, em Tepeyac, noroeste da Cidade do México, em 1531.

Pelos relatos da época, uma "Senhora do Céu" apareceu a Juan Diego (canonizado pelo Papa João Paulo II em 2002), identificou-se como a mãe do verdadeiro Deus, fez crescer flores numa colina semi-desértica em pleno inverno, as quais o pobre indígena devia levar ao bispo, como prova de que efetivamente a Virgem havia aparecido e lhe pedir a construção de um templo naquele lugar. Como prova, Nossa Senhora deixou sua própria imagem impressa milagrosamente no manto do indígena, de péssima qualidade, feito a partir do cacto e que, pelas leis naturais, deveria se deteriorar em menos de 20 anos. E já se passaram mais de 400 séculos!

Em ampliações da face de Nossa Senhora, os seus olhos parecem refletir o que estava à sua frente naquele 1531: Juan Diego e o senhor bispo presentes. Oxalá estejamos sempre nas pupilas da Mãe de Jesus!

Mãe de todos os latino-americanos, rogai a Deus por nós!

- Pe. J. Ramón F. de la Cigoña
Reproduzido via blog "Terra Boa", do Pe. J. Ramón F. de la Cigoña sj

domingo, 11 de dezembro de 2011

Fiquemos alegres!


“O Espírito do Senhor está sobre nós, ele nos envia a proclamar o Evangelho com sua mensagem de Alegria, mas tem também as suas advertências, quando a salvação é posta a prova ou quando a felicidade é confiscada por uma minoria que se sente superior e dona da verdade a respeito de Deus e do mundo. O Espírito nos envia: endireitem o caminho do Senhor!”

A reflexão é de Raymond Gravel, sacerdote de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do 3º Domingo de Advento (11 de dezembro de 2011). A tradução é de Susana Rocca, aqui reproduzida via IHU, com grifos nossos.

Eis o texto.

Referências bíblicas:
1ª leitura: Is 61,1-2.10-11
2ª leitura: 1Tes 5,16-24
Evangelho: Jo 1,6-8.19-28

O terceiro domingo de Advento é o domingo da Alegria. Todas as leituras falam disso. Mas temos motivos para nos alegrar? Apesar dos caprichos e da precariedade de nossas vidas, nós cristãos temos a profunda convicção de que Cristo já está entre nós. É o João Batista, do evangelista João, quem nos repete: “Mas no meio de vocês existe alguém que vocês não conhecem” (Jo 1,26) [1].

Para o evangelista João, não há mais dúvida sobre o papel desempenhado por João Batista para a fé cristã, em relação ao papel de Jesus de Nazaré, que se tornou o Cristo e Senhor no momento da sua morte-ressurreição. É como se o conflito que existia no momento dos sinópticos entre os batistas e os cristãos tivesse terminado. Em Mateus, por exemplo, João Batista mandou perguntar a Jesus: “És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?” (Mt 11,3).

No Evangelho de João, esse tipo de dúvida é inconcebível. Não há mais rivalidade entre os seguidores de João Batista e os de Jesus. Aos sacerdotes e aos levitas de Jerusalém que perguntam a João Batista, “Quem é você?” (Jo 1,19), ele respondeu: “Eu não sou o Messias” (Jo 1,20). Eles continuaram: “Então, quem é você? Elias?” João disse: “Não sou”. Eles perguntaram: “Você é o Profeta (Moisés)?” Ele respondeu: “Não” (Jo 1,20).

Historicamente, é impossível que João Batista fosse capaz de fazer tais declarações sobre sua identidade e a de Jesus. Tudo é teológico e cristológico, de modo que podemos dizer com certeza que João Batista foi o primeiro cristão que não foi batizado. De fato, São João faz do Batista o modelo para todos os cristãos que, através do batismo, se tornam testemunhas de Cristo, profetas da Boa Nova da salvação e os servos da Palavra, do Verbo de Deus que é o Cristo da Páscoa: “Eu sou a voz que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías” (Jo 1,23). Santo Agostinho dizia: “É difícil distinguir as palavras da voz, portanto, se tomou o João Batista pelo Cristo. Tomou-se a voz pela palavra, mas a voz se fez conhecer, a fim de não ser obstáculo à palavra...”.

No Evangelho de São João, à resposta de João Batista sobre a sua identidade, os fariseus responderam: “Então, por que é que você batiza, se não é o Messias, nem Elias, nem o Profeta?” (João 1,25). E é aí que João Batista se transforma em testemunha, em missionário, em servo da Palavra: Ele indica a luz que é o Cristo, ele empresta sua voz ao Verbo, à Palavra de Deus que é o Cristo e inicia seu serviço, embora reconhecendo sua superioridade: “Eu não mereço nem sequer desamarrar a correia das sandálias dele” (Jo 1,27). Desamarrar a correia das sandálias de seu mestre era a função do discípulo. Um pouco mais tarde no Evangelho de São João, João Batista diz: “É preciso que ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30). O batismo de João Batista é um batismo de conversão que nos faz discípulos de Cristo. O batismo cristão é mais do que isso: pelo Espírito de Pentecostes, ele nos faz tornar o próprio Cristo, Cristos ressuscitados.

Não é à toa que neste terceiro domingo de Advento é chamado de Domingo da Alegria... Porque, quando entendemos bem o que acontece, como cristãos, isso nos faz necessariamente sentir alegria: a Alegria que é sempre, no evangelho, ligada à Páscoa, a Ressurreição, à Vida com “v” maiúsculo. Isso nos faz compreender o terceiro Isaías, na primeira leitura de hoje e o apóstolo Paulo, em sua primeira carta aos Tessalonicenses, temos na segunda leitura. Nós somos consagrados: “O Espírito do Senhor Javé está sobre mim, porque Javé me ungiu. Ele me enviou para dar a boa notícia aos pobres, para curar os corações feridos, para proclamar a libertação dos escravos e pôr em liberdade os prisioneiros” (Is 61,1). Somos convidados à Alegria, “Transbordo de alegria em Javé, e me regozijo com meu Deus, porque ele me vestiu com a salvação, cobriu-me com o manto da justiça, como o noivo que se enfeita com turbante, e a noiva que se adorna com joias” (Is 61,10). E São Paulo acrescenta: “Estejam sempre alegres” (1Tes 5,16).

Ao mesmo tempo, São Paulo nos interpela. Nós, os cristãos, temos a missão de libertar as pessoas, de aliviá-los, de cuidá-los, de lhes trazer esperança, “Não extingam o Espírito” (1Tes 5,19), “Não extingam o Espírito” (1Tes 5,20), “examinem tudo e fiquem com o que é bom (1Tes 5:21). Assim, através de nós, Deus pode fazer germinar a sua justiça (Is 61,11). Essas recomendações são para todos os cristãos que trabalham pela Justiça, pela promoção e pela dignidade humana, no nascimento da esperança, no nascimento de Cristo... hoje... Os cristãos devem ser os verdadeiros profetas. Segundo Isaías, o verdadeiro profeta é aquele que restaura a Justiça de Deus em favor dos pobres, dos pequenos, dos excluídos e dos feridos pela vida. De acordo com São João, o verdadeiro profeta é também aquele que é o mensageiro, o porta-voz de Deus, um testemunho da Luz. Falando de João Batista, escreve o evangelista João: “Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele” (Jo 1,7).

Hoje, em nossa igreja, que tipo de profeta precisamos? Num mundo cada vez mais secularizado, o profeta de hoje ainda pode revelar a presença de Deus e anunciar seu Reino de Justiça e verdade? Creio que sim! Mas, antes de tudo, é preciso reconhecer que ninguém é dono da verdade e que o Espírito Santo trabalha através dos homens e das mulheres do nosso tempo, e não somente através da hierarquia da Igreja. O que choca e distancia a maioria dos crentes de hoje é a apropriação da verdade por parte de alguns dirigentes que desprezam a modernidade e que excluem todas aquelas e todos aqueles que buscam atualizar a mensagem do Evangelho às realidades e às situações de nosso tempo.

O profeta de hoje, que quer anunciar o Cristo Libertador, deve lutar não só contra o integrismo secular que lhe impede de falar, mas também contra o integrismo religioso, que se recusa a aceitar que ele seja o porta-voz ou mensageiro da palavra do Cristo ressuscitado, até o ponto de excluí-lo da Igreja. Se fizermos uma leitura fundamentalista dos textos bíblicos, corremos o risco de fazer dizer aos autores bíblicos o oposto do que eles queriam dizer, e fazemos da Palavra de Deus uma carga a levar, em vez de uma palavra que libera... É também a prova de que nós não compreendemos o que é a Palavra de Deus.

Em seu último livro: Meu Deus... por quê?, o abade Pierre, 93 anos, um grande profeta do nosso tempo, critica a Igreja Católica sobre questões de atualidade: a sexualidade, a igualdade homem/mulher, a homossexualidade, a homoparentalidade, o casamento dos sacerdotes, etc... Ele faz uma dura crítica dos crentes que leem a Bíblia de forma literal e materialista. Muitas vezes, esses são encorajados pelos dirigentes da Igreja que fazem o mesmo. No entanto, o Pierre cita um Padre da Igreja, Santo Agostinho, que denunciava em seu tempo, no 4º século, o abuso de uma leitura literal e histórica das narrativas do Gênesis, sobre Adão e Eva e o pecado original. Santo Agostinho escreveu: “Existe uma coisa muito vergonhosa, algo pernicioso e extremamente perigoso, quando um não fiel ouve um cristão que fala como de coisas ao falar das Escrituras, quando ele anuncia loucuras a tal ponto que o infiel tem dificuldade para não rir. E quando ouve dizer que isso é tirado das Santas Escrituras, como ele pode confiar nas Sagradas Escrituras com respeito à ressurreição dos mortos, à esperança da vida eterna e ao reino dos céus?”.

Em outras palavras, o que quer dizer Santo Agostinho, é que se eu disser que Adão e Eva foram o primeiro homem e a primeira mulher da humanidade, historicamente e materialmente falando, ou também que o mundo foi criado em seis dias com terra e água (a teoria criacionista do ex-presidente norte-americano Bush)... se eu digo coisas tolas, dessa forma, dizendo que se trata da Bíblia, isso faz rir os não crentes, a Bíblia perde a sua credibilidade e eu também. Depois disso, como tornar-se credível quando se fala de coisas mais importantes como a ressurreição, a esperança da salvação, e a vida eterna? Alguns anos atrás, por ocasião do Natal, o Papa João Paulo II disse que o menino Jesus nunca tinha desobedecido a sua mãe... É exatamente isso que Santo Agostinho denunciou na sua época.

Para encerrar, é preciso estar atento aos sinais dos tempos. O teólogo Metzger escreveu: “Os profetas ainda são necessários! Nós estamos apenas nos tempos intermédios: entre esse Dia de Deus, quando a morte foi vencida pela Ressurreição, e esse Dia de Deus, que ainda está por vir, em que se manifestarão o novo céu e a nova terra... O Espírito do Senhor está sobre nós, ele nos envia a proclamar o Evangelho com sua mensagem de Alegria, mas tem também as suas advertências, quando a salvação é posta à prova ou quando a felicidade é confiscada por uma minoria que se sente superior e dona da verdade a respeito de Deus e do mundo. O Espírito nos envia: endireitem o caminho do Senhor!”

sábado, 10 de dezembro de 2011

Por uma cultura da vida nos perigos do tempo presente


Hoje, nos confrontamos com uma nova religião da morte. Uma vida não mais amada está pronta para matar e para ser morta.

A opinião é do teólogo alemão Jürgen Moltmann, em conferência apresentada durante a cerimônia de abertura do sétimo Fórum de Pequim, organizado entre os dias 5 e 7 de novembro de 2010 pela Universidade de Pequim.

Com a participação de mais de 350 estudiosos representantes de 50 países, o tema do fórum foi “Harmonia das civilizações e prosperidade para todos. Compromissos e responsabilidades para um mundo melhor”.

O artigo foi publicado no blog da Editora Queriniana, 17-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto, aqui reproduzido via IHU, com grifos nossos.


Conferência de abertura do Fórum de Pequim, China, novembro de 2010

A minha intervenção será sobre o que está me ocupando há muito tempo:
  • uma cultura da vida mais forte do que o terror da morte;
  • um amor à vida que supera as forças destrutivas presentes hoje no mundo.
E isso porque acredito firmemente que "onde há perigo é, cresce também aquilo que salva" [1].

Vou começar com alguns dos perigos do nosso tempo na primeira parte, às quais vou responder na segunda parte com as dimensões de um mundo vivível e a vitalidade do amor.

I. O terror hoje de uma morte universal

1. A vida humana atualmente está em perigo, e não só porque a nossa existência é mortal. De fato, sempre foi assim. Mas está em perigo porque ela já não é mais amada, afirmada e acolhida. O poeta francês Albert Camus, depois da Segunda Guerra Mundial, afirmava: "Este é o mistério da Europa: a vida não é mais amada". Aqueles que sofreram naquela guerra homicida sabe o que ele queria dizer. Uma vida não mais amada está pronta para matar e para ser morta.

Hoje, nos confrontamos com uma nova religião da morte. Não quero dizer com isso a religião do Islã, mas sim a ideologia do terror tão típica do século XXI: "Os seus jovens amam a vida", assim se expressou o mulá talibã Omar, no Afeganistão, "os nossos amam a morte". Depois do assassinato em massa de Madri, no dia 11 de marco de 2004, foram encontradas cartas com a mesma mensagem: "Vocês amam a vida; nós, a morte". Essa parece ser a ideologia do terrorista moderna dos assassinos suicidas. Lembro que ainda 60 anos atrás, na Europa, houve um evento semelhante: "Viva la muerte", gritou um velho general fascista durante a Guerra Civil. E não se pode dissuadir um assassino suicida: ele rompeu o temor da morte, não ama mais a vida e quer morrer junto a suas vítimas.

2. Além dessa superfície de terror, encontra-se um perigo maior. Os tratados de paz e pela não proliferação das armas entre as nações têm um pressuposto tácito: a vontade de sobrevivência, a vontade de viver de ambos os lados. Mas o que acontece se um parceiro não quer sobreviver, mas pretende morrer, e se, com essa morte, ele pode destruir, como um todo, esse mundo "ímpio" e "sem Deus"? O que acontece quando um país que possui armas nucleares está obcecado por essa "religião da morte" e se torna o agente suicida do extermínio coletivo do resto do mundo, só porque está empurrado contra um canto e renuncia a todas as formas de esperança? A dissuasão só funciona se todas as partes têm a vontade de viver e querem sobreviver.

A sedução de destruir este mundo, que é percebido como velho, ímpio ou ateu, pode crescer em um desejo de morte universal. Se queremos sacrificar nossa própria vida, que parece ser inútil e sem significado, podemos destruir este mundo hostil por inteiro. Essa "religião da morte" apocalíptica é o verdadeiro inimigo da vontade de viver, do amor pela vida e da afirmação do ser.

3. Além dos perigos que existem hoje para a vida comum das nações em nível político, existe uma ameaça constante de data mais antiga: a nuclear. A primeira bomba atômica sobre Hiroshima, em agosto de 1945, marcou o fim da Segunda Guerra Mundial e foi, ao mesmo tempo, o início do fim para todo o gênero humano, ou seja, a idade em que é possível, a qualquer momento, o fim da humanidade. Nenhum ser humano é capaz de sobreviver ao "inverno nuclear" que se seguiria a uma grande guerra atômica. Lembrem-se: o gênero humano esteve à beira de um evento semelhante há mais de 40 anos durante a Guerra Fria. E é verdade que o conflito aberto não é mais muito provável, já que tal confronto cessou em 1990. Vivemos em um tempo de relativa paz, mas ainda há tantas bombas atômicas e de hidrogênio armazenadas nos arsenais das grandes nações (e até mesmo das mais pequenas), capazes de autodestruir a humanidade. Sakharov chamou isso de "suicídio coletivo": "Quem atira primeiro morre por segundo" – essa foi, há mais de 40 anos, a chamada "destruição recíproca assegurada".

Muitas pessoas haviam se esquecido da ameaça atômica até que o presidente Obama despertou no ano passado, em Praga, o velho sonho de um "mundo sem bombas atômicas" e empreendeu novas negociações com a Rússia para o desarmamento. Então, de repente, muito de nós se deram conta novamente do destino que paira como uma nuvem escura sobre as nações. Insolitamente, tem-se a percepção explícita da presença da ameaça nuclear naquilo que os psicanalistas norte-americanos chamam de "entorpecimento nuclear". Reprimimos a ansiedade, procuramos esquecer essa ameaça e vivemos como se o perigo não existisse, embora ele corroa o nosso subconsciente, desgastando o nosso amor pela vida.

4. Diferentemente da ameaça nuclear, as mudanças climáticas não são apenas uma ameaça, mas já uma realidade que está surgindo em toda parte. As pessoas sabem disso porque todos podem vê-las, percebê-las e, às vezes, sentir o seu odor.

A destruição do meio ambiente que causamos por meio do sistema econômico global de hoje, indubitavelmente, danificará seriamente a sobrevivência da humanidade no século XXI. A sociedade industrial moderna desequilibrou o equilíbrio do organismo Terra e deu início à morte ecológica universal, a menos que se mude o modo em que as coisas se desenvolvem. Os cientistas mostraram que as emissões de dióxido de carbono e de gás metano destroem o nível de ozônio da atmosfera, enquanto o uso dos fertilizantes químicos e de uma multidão de pesticidas torna o solo estéril. Eles demonstraram que o clima global já está mudando agora, hoje, tanto que experimentamos um aumento de catástrofes "naturais", como secas e inundações, que não são naturais, mas sim causadas pela mão do homem. O gelo do Ártico e da Antártida derrete, e, nos próximos séculos – dizem-nos os cientistas –, cidades costeiras como Hamburgo, minha cidade, e regiões como Bangladesh e muitas ilhas dos mares do Sul serão inundadas. Tudo, em todas as formas de vida sobre a Terra, está ameaçado.

A crise ecológica é, em primeiro lugar, causada pela civilização científica e tecnológica ocidental. Isso é verdade.

Mas é um erro pensar que os problemas ambientais são problemas unicamente dos países industriais do Ocidente. Ao contrário, as catástrofes ecológicas estão agravando ainda mais os problemas econômicos e sociais já existentes nos países do Terceiro Mundo. Indira Gandhi tinha razão quando dizia que "a pobreza é a pior poluição".

Todos conhecemos essa realidade, mas parecemos paralisados. Não fazemos aquilo que sabemos que é necessário para impedir as piores consequências. Essa paralisia também pode ser definida de "aturdimento ecológico". Nada acelera uma catástrofe iminente como a paralisia do fazer.

Não sabemos se o gênero humano vai sobreviver ao destino que ele criou. E isso é bom. Porque, se soubéssemos que não sobreviveremos, não faríamos nada. Se soubéssemos que existem possibilidades, igualmente não faríamos nada. Só se o futuro for aberto a ambas as soluções, somos obrigados a fazer hoje o que é necessário para sobreviver amanhã. Como não somos capazes de saber se o gênero humano vai sobreviver, devemos agir hoje como se o futuro da vida dependesse de nós, e devemos, ao mesmo tempo, confiar que nós e os nossos filhos faremos a vida e a sobrevivência vencerem.

5. Mas deve haver uma raça humana ou somos só um acidente da natureza? Atualmente, mais de seis bilhões de seres humanos vivem na terra, e esse número deverá crescer rapidamente. Mas a Terra também poderia não ser habitada. Ela viveu sem seres humanos por milhões de anos e pode sobreviver talvez por milhões de anos depois que a raça humana desapareça. Tudo isso deixa o campo aberto para a pergunta última e mais crucial:

Nós, seres humanos, estamos sobre a terra só por acaso, ou faz parte da evolução da vida que os homens deviam vir? Se a natureza mostrasse um "forte princípio antrópico", poderíamos nos sentir "em casa no universo" (Stuart Kauffman). Se isso não pode ser provado, o universo não dá nenhuma resposta à questão existencial da humanidade. Nem as estrelas, nem os nossos genes nos dizem se um ser humano deve existir ou não. Mas como podemos amar a vida e afirmar o nosso existir humano se a humanidade é só um acidente da natureza e, como tal, supérfluo e irrelevante para o universo, talvez só um erro dela? Há um "dever ser", como nos diz Hans Jonas? Existe qualquer razão para amar a vida e afirmar o ser humano? Se não há respostas, toda cultura da vida é incerta em seus fundamentos e está construída sobre bases precárias.

II. Uma cultura da vida deve ser uma cultura de vida comum entre os humanos e o mundo natural

1. Podemos "viver com a bomba"? Acho que é possível crescer em sabedoria, mas como?

O sonho do presidente Obama de um "mundo sem armas nucleares" é justo, mas continua sendo um sonho. Jamais a humanidade será capaz de enfrentar aquilo que agora ela consegue fazer. Qualquer pessoa que tenha aprendido a fórmula da fissão atômica não a esquece jamais. Desde Hiroshima, em 1945, o gênero humano perdeu a sua "inocência atômica".

Mas o prazo atômico é também a primeira idade comum das nações. Todos os países se encontram no mesmo barco. Todos nós compartilhamos a mesma ameaça, cada um de nós pode se tornar uma vítima. Nessa nova situação, a humanidade deve se organizar como sujeito da sobrevivência comum. A criação das Nações Unidas em 1946 foi um primeiro passo. Os acordos de segurança internacionais vão garantir a paz e nos darão tempo para viver, e um dia, talvez, a unificação transnacional entre humanos manterá sob controle os meios de destruição nuclear. A ciência nos diz como adquirir poder sobre a natureza; a sabedoria nos ensina a controlar o nosso poder. O desenvolvimento da sabedoria pública e política é tão importante quanto o progresso científico.

A primeira lição a ser aprendida é esta: a dissuasão não assegura mais a paz. Só a justiça salva a paz entre as nações. Não há outro caminho para alcançar a paz no mundo se não houver ações e equilíbrios harmônicos entre os vários interesses. A paz não é a ausência da violência, mas sim a presença da justiça. A paz é um processo, não uma propriedade. Ela é um caminho comum de redução da violência e de construção da justiça nas relações sociais e globais do gênero humano.

A paz dentro das nossas nações é uma questão de justiça social. A alternativa à pobreza não é a propriedade. A alternativa à pobreza e à propriedade é a comunidade, e o espírito de comunidade é a solidariedade e a ajuda recíproca. Esse é, em síntese, o ensinamento moral das religiões mundiais.

2. O "respeito pela Vida"

Se, em um sistema de vida, que liga uma sociedade humana com o ambiente natural, se verifica uma crise – a morte da natureza –, tem-se também uma crise de todo o sistema vital. Aquela que hoje chamamos de "crise ecológica" não é simplesmente uma crise do nosso ambiente, mas é uma crise total do nosso sistema de vida e não pode ser resolvida apenas com os instrumentos tecnológicos. Ela pede uma mudança do sistema e uma mudança dos valores e das convicções-guia da nossa sociedade. As sociedades modernas industriais não estão mais em harmonia com os ciclos e os ritmos da terra como ocorria nas sociedades agrícolas pré-modernas. As sociedades da modernidade estão programadas sobre o progresso e a expansão dos projetos humanos. Reduzimos a natureza da terra a "nosso ambiente" e destruímos o espaço vital das outras formas de vida. Ano após ano, centenas delas morrem. Nada é mais destrutivo do que reduzir a natureza a ambiente do homem.

Precisamos de uma mudança do domínio moderno da natureza a um "respeito pela vida", como Albert Schweitzer e o Tao Te Ching nos ensinam. Isto é, respeito por cada forma única de vida e pela nossa vida comum no mundo humano e natural e pela grande comunidade de todos os seres vivos. Um biocentrismo pós-moderno substituirá o antropocentrismo ocidental e moderno. Naturalmente, não se pode voltar a uma orientação ao “kósmos” do mundo rural antigo e pré-moderno, mas podemos dar início a uma necessária transformação ecológica da sociedade industrial. Para isso, devemos – acho – mudar o nosso conceito de tempo. A concepção linear de progresso no consumo e no descarte da produção deve abrir caminho para uma concepção circular de tempo de "energia renovável" e de "economia da reciclagem". Só as circulações da vida podem dar estabilidade ao nosso mundo de progresso. Mas a economia da reciclagem ainda é a economia dos pobres.

A Carta Mundial para a Natureza, aprovada no dia 28 de outubro de 1982 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, vai neste sentido:
A humanidade faz parte da natureza [...] Toda forma de vida é única e merece ser respeitada, qualquer que seja a sua utilidade para o homem [2].
Nós fazemos "parte da natureza" e só podemos sobreviver, portanto, preservando a integridade da natureza.

3. A vida do amor em tempos de perigo

O ser humano não é apenas um dom da natureza, mas é também a tarefa do ser humano. Aceitar isso em tempos de terror requer uma grande coragem de viver. A vida deve ser afirmada contra o terror e a ameaça. Em palavras simples: a vida deve ser vivida; a vida amada, a vida comum no mundo humano e no natural é mais forte do que a ameaça da aniquilação universal. Vejo três fatores maiores dessa coragem de existir e da coragem de viver:

a) A vida humana deve ser afirmada, porque também pode ser negada. Como todos sabem, uma criança só pode crescer em uma atmosfera de confiança. Em uma atmosfera de rejeição, a criança desapareceria na alma e no corpo. Ela aprende a se aceitar quando é aceita. O que é verdade para ela vale para os seres humanos sempre: onde somos acolhidos, apreciados e afirmados, somos motivados a viver; onde percebemos um mundo hostil de desprezo e de rejeição, nos retiraremos em nós mesmos e ficamos na defensiva. Precisamos de uma forte afirmação de vida que possa enfrentar tais negações. Cada sim à vida é mais forte do que toda negação da vida, porque pode criar algo novo que os resíduos não podem fazer.

b) A vida humana é uma vida de participação e de partilha. Estamos vivos onde sentimos a simpatia dos outros e permanecemos vivos onde compartilhamos a nossa vida com outros. Na medida em que temos interesses, estamos vivos. É fácil fazer a contraprova: a indiferença leva à apatia. A apatia total é uma vida absolutamente não vivida; é a morte da alma antes da morte física.

c) A vida humana é viva se for busca da felicidade. A vida humana ganha em vitalidade com o seu lutar inato. A "busca da felicidade" é, desde os tempos da Declaração Americana de Independência, um direito humano essencial. Buscar a própria felicidade não é só um direito humano privado, mas é também um direito público. Falamos de "vida boa" ou de uma "vida significativa" e, com isso, queremos dizer uma vida que vive suas máximas potencialidades na vida pública de uma sociedade boa e harmoniosa, como nos disse Confúcio.

Quando levamos a sério essa "busca da felicidade", encontramos o infortúnio das massas pobres e começamos a sofrer com aqueles aos quais cabe esse destino. A compaixão com a qual tomamos parte na sua paixão pela vida é o reverso da busca da felicidade. Quanto mais nos tornamos capazes de felicidade na vida, mais somos capazes de sentir dor e compaixão. Essa é a grande dialética da vida humana.

Mas "onde há perigo, cresce também aquilo que salva". Como cresce a salvação? Tentei mostrar como o Ser pode levar consigo o não-ser e como a vida pode superar a morte mediante o amor e como as contradições mortais podem se transformar em diferenças produtivas e em formas superiores de vida e de comunidade, ou – como disse o professor Tu Weiming – "enquanto a harmonia reconhece o conflito e a contradição, busca transformar a tensão destrutiva em tensão criativa, de modo que uma relação estressante pode ser regenerada em uma síntese superior".

Lembro-me da famosa afirmação do filósofo alemão Friedrich Hegel, amigo de Hölderlin desde seus tempos de estudante na Universidade de Tübingen. Ele escreveu a primeira afirmação do pensamento dialético na sua Fenomenologia do Espírito de 1807:
[A vida do Espírito, ao contrário, não é] aquela que se enche de horror perante a morte e se preserva íntegra da decadência e da devastação, mas é aquela vida que suporta a morte e nela se mantém [3].
Uma vida humana plenamente amada e vivida supera as contradições do terror e da ameaça. Toda verdadeira espiritualidade religiosa revela o grande e divino Sim à vida, Sim à Terra e Sim ao futuro, apesar dos perigos.

Notas:
1 - Patmos, in F. Hölderlin, Poesie, Ed. Rizzoli, Milão, 2001, p.489.
2 - http://nadiadesantis.com/leggi-e-trattati/la-carta-mondiale-della-natura.html
3 - Bompiani, Milão 2000, 87 (Prefácio 27).

Viver com esperança

Chromatic typewriter: Tyree Callahan

No curso de sua pregação, João o Batista disse: "Depois de mim, vem o mais forte do que eu, de quem não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das sandálias. Eu vos tenho batizado com água. Ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo". (Mc 1,7-8)

Viver com esperança. Isto soa um pouco esvaziado a nós hoje, que estamos habituados à gratificação instantânea. Parece significar tanto estar reconciliado com a contínua falta de plenitude quanto viver em uma espécie de desespero silencioso - apenas esperando para chegar ao fim. Porém, isso não tem nada a ver com o que a "virtude" – a força – da esperança nutrida pela meditação.

Uma esperança desabrocha à medida que outras morrem. Esperanças são desejos velados ou fantasias que usamos como substitutos para a realidade ou como defesas contra decepções e sofrimentos. Muitas vezes precisamos tremer à beira do desespero e do desapego da vontade antes de descobrir o verdadeiro sentido da esperança. Antes, porém, de chegar a esse limiar, começamos nos agarrando a falsas esperanças. É em relação a elas que os Joãos Batistas de nossas vidas - aqueles que sozinhos dão consolo autêntico - não são arautos da desgraça, mas pregadores da realidade.

Mas no momento em que somos agraciados com o vazio, somos visitados pela esperança que nos ilumina sobre o significado do processo que estamos atravessando. Mesmo se não podemos ver a luz no fim do túnel nós sabemos, no entanto - com uma espécie de visão noturna - que estamos no caminho, e até mesmo o sentimento de fracasso ou de ter sido esquecido são parte do processo que vai florescer na luz do amor. Para aqueles que vivem na esperança (é disso que o aprendizado do Advento se trata), não há encerramento ou desligamento definitivo. Como o velho rabi disse: Deus não espera que sejamos sempre bem-sucedidos, mas não estamos autorizados a desistir. Isto não é só sabedoria humana sobre a necessidade de suportar. É uma revelação sobre a infinita simplicidade de Deus.

Com amor,

Laurence Freeman OSB
Mensagem do autor para a segunda semana deste Advento (veja trecho da mensagem para a primeira semana aqui)
Para saber mais, visite o site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil.

* * *

Caso se interesse pelo tema, leia também o belo texto "A esperança como atitude crítica", de Frei Betto, aqui.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

"Já sofri muito por ser o que sou. Chega: sou um filho amado de Deus"


Percebemos que a ideia de conciliar nossas identidades de gays e católicos muitas vezes causa um certo estranhamento ou mesmo desconforto em algumas pessoas - e, nesse caso, não só os "fundamentalistas", mas também em muitos gays não-religiosos. Em vista disso, iniciamos há algumas semanas uma série de depoimentos aqui no blog, que serão publicados sempre às quintas-feiras, às 15h, de algumas das pessoas que frequentam as reuniões e atividades do Diversidade Católica e que se dispuseram a compartilhar, com os leitores do blog, um pouco de suas histórias e suas vivências como gays e católicos que são.

O depoimento desta semana tem uma peculiaridade: foi enviado para nós não por um membro do grupo do Rio, mas por um amigo virtual, uma das pessoas que entraram em contato conosco interessadas em iniciar um grupo de católicos gays em Belo Horizonte e nos pediram ajuda para estruturá-lo. Os grifos são do autor.

A série pode ser acessada através da tag "gay e cristão".

A cada um deles, sempre, nosso muito obrigado. :-)


Eu “amei“ em toda a minha vida, até hoje, quatro pessoas. Duas do sexo masculino e duas do sexo feminino. Somente depois de uma longa caminhada, consegui descentrar o amor romântico a fim de buscar o amor real: uma mescla de amor Eros, amor Filia e amor Ágape, além de muito suor e lapidação no cotidiano de uma relação. Tornei-me uma pessoa melhor.

Sou intenso e faço a experiência de Deus da Meditação à Teologia da Libertação. A espiritualidade, o fato de gostar de gente, literatura, música, psicanálise e a paixão por viagens contrapuseram e ressignificaram intensos sofrimentos, perdas, abuso sexual e bullying na infância.

Somente aos 42 anos, encaro a minha orientação sexual não convencional como dom de Deus. Já sofri muito por ser o que sou. Chega: sou um filho amado de Deus: Ele me ama e ponto.

Existem sete bilhões de pessoas no planeta terra. Existem sete bilhões de singularidades. Portanto, existem sete bilhões de sexualidades, porque ninguém é igual a ninguém. Hetero, bi, homo, transexual... São balizamentos importantes, mas essas denominações não podem aprisionar a vastidão do mistério que pulsa em cada coração humano: buscamos sempre Deus no outro, nossa verdadeira sede é Dele e é essa a nossa maior e melhor realidade.

Uma amiga íntima, freira, falou-me um dia: “Marcos, Deus é amor, a pessoa humana é que é um mistério...” Pura sabedoria, verdade verdadeira. Assim...

Aos 07 anos, amei pela primeira vez: uma menina de minha sala, dois anos mais velha que eu. Ela era muito feia, mas eu adorava Gláucia: a menina mais charmosa que já conheci. Ela usava óculos fundo de garrafa, tinha uma pinta preta e grande no rosto e era zarolha. A sua vivacidade, jeito de falar, dançar e ser encantavam-me. E ela levava bombom de cereja para mim e batia nos meninos que me insultavam na escola. Eu andava com a foto dela na minha merendeira e cheguei ao ápice da paixão ao entregar meu ovo de páscoa inteiro para ela, que quase desmaiou de alegria. E eu de tristeza no dia em que, ao chegar à escola, sua carteira estava vazia. E vazia para sempre. A família mudou-se para outro país para aproveitar uma excelente oportunidade de trabalho para seu pai. Ah, que dor eu sofri!

Aos 13 anos, vivi um amor platônico, experiência que todo mundo deveria ter, porque além de ser uma delícia, prepara, delicadamente, o adolescente para o namoro real. Tiago era o nome dele. Ele tinha 16 anos e um dos adolescentes mais bonitos que conheci em minha vida. Ele era o “cara”: quase todas as meninas queriam namorá-lo. E ele namorou muitas garotas, mas, coetaneamente, por uns bons anos e todos os dias, ele quase furou com sua moto, o asfalto da rua onde morava. Eu ficava no jardim, meio que escondido por entre as árvores e o coração disparado. Seus olhos negros atravessaram todas as barreiras de censura e de preconceito existentes em mim e iluminaram meu ser por inteiro. Eu não precisava de mais nada, sentia-me “pleno”, podia morrer. É engraçado: ao rememorar essas cenas, não posso deixar de falar que jamais tive qualquer fantasia sexual genital com ele. O fato de ele existir e o fato de poder todas as manhãs, na escola, vê-lo e ser visto, de ser o seu amor proibido, enchia-me de um tipo de alegria que jamais senti novamente. Nunca comunicamo-nos por palavras. Elas, hoje penso, quebrariam o encanto. Somente sorrisos, olhares e as iniciais de nossos nomes, de maneira clandestina escritos nas árvores de nosso colégio. Ao mesmo tempo, eu era coroinha e amigo do padre do bairro: nós jogávamos peteca em dupla e ele era extremamente amigo: deu-me um belo presépio em um dos natais e ensinou-me que Jesus nasce no coração de todos nós em todos os momentos de nossas vidas. Sinto que Deus enviou-me Tiago e encheu-me de uma pureza de estado de alma, que a turbulência de minha fase posterior, dos 17 aos 21 anos, não conseguiu apagar. Nessa etapa de minha vida, afastei-me da Igreja e experimentei vários namoricos e relacionamentos sexuais - corri sério risco de vida ou de contrair AIDS – até dar-me conta de que não tinha coragem e maturidade de me entregar a ninguém. Eu precisei de mais dois anos para que a homofobia silenciosa e arrasadora começasse a ser transformada em fonte de amor. Eu precisei fazer psicanálise por uns bons anos e essa foi essencial no meu processo de amadurecimento humano. Quanta dor, quanta busca: tocar o dedo nas feridas, enfrentar o inconsciente, as sombras: nossas mestras companheiras, como nos ensinam os padres do deserto dos primeiros séculos de cristianismo: “O céu começa em você “ ensinou-me o passar dos anos e o monge beneditino Anselm Grün, autor do belo livro com esse nome.

Em uma segunda-feira ao meio-dia em ponto, aos 25 anos, conheci a paixão de minha vida: Marco Túlio e três anos de relacionamento que valeram por trinta. Túlio acabava de sair do seminário, onde viveu por muitos anos. Túlio: homem de inteligência viva e ousada, que açulou minha consciência crítica, opção preferencial pelos excluídos, cidadania, direitos humanos. Através dele pude “Beber do próprio poço” com Gustavo Gutierrez; ser atravessado pela obra de Theilhard de Chardin; saborear “Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos”, “Vida para além da morte”, “São Francisco de Assis: ternura e vigor” e tantos outros magníficos livros de Leonardo Boff; tive “Fome de beleza e de pão”, aprendi o “Catecismo Popular” e vivi o “Batismo de Sangue” de um de nossos maiores escritores e profetas modernos, que é Frei Betto. Através desse relacionamento, comecei a participar de pastorais sociais, acompanhei movimentos reivindicativos em portas de fábricas, conheci a realidade dos nossos irmãos das favelas, fiz retiros espirituais com prostitutas e a experiência do sexo como expressão do amor entre dois homens. Nós dormíamos entre livros de Adélia Prado, Clarice Lispector e discos de Maria Bethânia, Almir Sater, Renato Teixeira, Simon e Garfunkel. Nós tocávamos violão e ele tinha uma voz linda. Viajávamos. Fazíamos amor nas estradas desertas e o céu estrelado, íamos a cachoeiras pouco exploradas e festas simples de interior... Como abominar esse amor gerador de tantos frutos e poucos ramos secos? Quem ousa julgar e pisar no solo sagrado de uma relação bem diferente daquilo que o sociólogo polaco Zigmunt Bauman denomina de “amor líquido“ resultado de uma sociedade em que tudo é superficial, artificial, efêmero, “líquido” que se esvai ao se deparar com a concretude do mundo atual de valores distorcidos? Somente a ignorância e o medo, mãe e pai de todo preconceito podem sustentá-lo. E é por isso que precisamos dar testemunho de nossas vidas, buscas e direitos autênticos.

29 a 40 anos
Conheci a mãe de meu maior presente de Deus: meu filho. Uma mulher extraordinária em muitos aspectos, que cuidou de mim com devoção, em momentos delicados de minha vida. E confesso: Marco Túlio, apesar das inúmeras qualidades, jamais teria dado conta de sustentar as barras pelas quais tivemos que enfrentar juntos. Não pelo fato de ser homem, mas devido à sua personalidade imatura para os momentos mais difíceis de um relacionamento. Devido ao fato de eu saber claramente sobre a predominância de minha orientação homossexual, jamais imaginei namorar e me casar com uma mulher... Mas com o desenrolar da psicanálise, minha dimensão heterossexual bloqueada e maciçamente reprimida veio à tona e eu fiquei completamente envolvido por um desejo e por um amor que nunca imaginei que me habitasse. Apavorado e apaixonado, contei tudo para ela, que linda, delicada, sensível e paciente, acolheu-me totalmente. Simplesmente aceitou-me do jeito que sou. Eu não resisti e vivi o mais profundo relacionamento de minha vida: desejo, afinidade, cumplicidade, fidelidade e filho.

Porém, jamais deixei de ser homossexual e sempre, nos sonhos apareciam os desejos e na vida de vigília uma angústia muito forte, um peso excessivo, algo muito ruim que sempre compartilhei com ela. Até que, por fim, ela foi, mais uma vez, um anjo em minha vida ao pedir a separação. Ela com muito sofrimento e de maneira delicada apontou-me que o excesso de peso era o meu ressentimento inconsciente com minha posição subjetiva no mundo: minha posição no casamento convencional. Era verdade. Parte da verdade, pois sofri as piores dores de minha vida. Óbvio que ela também apresentou limitações que ajudaram a colocar fim ao casamento. Mas, cheguei a sentir que não viveria sem ela. Separamo-nos. Isso aconteceu no início de 2009 e por dois anos fiquei muito mal. As orações diárias, a bondade de Deus, o amor de minha família e amigos e o tempo devolveram-me a alegria de viver.

Hoje, aos 42 anos, sinto-me livre para amar novamente e acredito firmemente que será um homem o meu companheiro. Porém, o maior aprendizado que fiz após essas experiências de amor e de vida é, ao mesmo tempo, o meu núcleo gerador de confiança, serenidade e alegria: independentemente do amor que eu for viver, o meu e o nosso maior caso de amor precisa sempre ser com Deus. Jesus é o amado insubstituível. somente Ele é o “cara”. E esse caso de amor é, podemos falar com toda certeza, o que nos sustenta e nos fortalece para que possamos dar o melhor de nós, aconteça o que acontecer.

Experimente desde o raiar do dia, todos os dias, louvar, amar e servir à Trindade. E você vai sentir uma transformação profunda no seu ser e na sua vida.

Com carinho, a todos vocês.

- Marcos, novembro de 2011

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Para cuidar da preparação para o Natal


Os jesuítas do Centro de Espiritualidade Inaciana de Itaici elaboraram um material incrível de preparação para o Natal neste Advento, para quem quiser fazer uma reflexão diária neste período. O material está muito bem organizado em arquivos pdfs (versões completa, com toda a orientação acerca da oração inaciana, e resumida) que podem ser baixados e impressos. Caso se interessem, deem uma olhada aqui. Reproduzo abaixo o texto de apresentação do material.

Beijos carinhosos a tod@s! :-)

* * *

Mais uma vez estamos disponibilizando, através do site do CEI-Itaici, roteiros de oração para que os grupos e comunidades cristãs possam viver mais intensamente o Tempo do Advento e alargar suas vidas para caber o mistério do Natal.

Advento nos revela a presença da eternidade no coração do tempo. O Eterno continua vindo, pelos caminhos mais imprevisíveis, iluminando a dura rotina e a seqüência do cotidiano.

Advento é tempo de espera, de preparação e de chegada. Tempo forte carregado de sentido, que nos faz ter acesso àquilo que é mais humano em nós: o sentido da esperança, a travessia, o encontro com o novo... Tempo que nos arranca de nossas rotinas e modos fechados de viver.

A Vinda de Cristo é o grande evento que agita os corações, sacode as inteligências, inquieta as pessoas, move as estruturas... Toda a nossa vida se transforma na história de uma espera e de um encontro surpreendente.

Por isso, o Advento deveria ser um tempo para voltar-nos para o interior em meio à agitação, e olhar para dentro de nós mesmos. Aí, no nosso interior, há tanto de eterno. A eternidade dialoga com a gente, fala por dentro. Caminhamos para O Senhor que vem à medida que mais nos adentramos ao fundo de nós mesmos e da realidade. Advento nos convida a “contaminar-nos” da realidade; e isso nos humaniza.

Somos “seres de travessia”. O Advento nos convida a não perder de vista nosso horizonte, nossos objetivos, nosso propósito de investir a vida, gratuitamente, naquilo que vale a pena. Cada momento é o “hoje” de Deus; por isso o “fim” está sempre chegando.

O Esperado traz uma novidade que envolve e que se revela em cada rosto humano e em cada fragmento de tempo, deste tempo colocado em nossas mãos.

Contemplando o “hoje” de Deus, o coração se alarga até o assombro, os braços se abrem para a acolhida, os pés se movem para o encontro, os olhos se aquecem para o reconhecimento.

Vamos todos fazer este “caminho orante”, descendo em direção à nossa humanidade. Ali, nas grutas de nosso interior, uma Infância Divina nos espera... e nos enche de alegria.

Bom proveito.

Itaici, Indaiatuba, SP, Novembro de 2011.

''Eu ouvi os clamores da Natureza'', diz Deus

Foto: Nick Brandt

"Deus perdoa sempre; os homens, de vez em quando; mas a Natureza não perdoa nunca!", escreve Antonio Cechin, citando Santo Agostinho.

E Irmão Cechin pergunta: "Funcionará o Natal deste ano como o fecho de ouro de um ano em que vivemos melhor alfabetizados ecologicamente? Qual foi a eficiência da nossa Campanha da Fraternidade marca 2011 que termina?"

Segundo ele, "é uma avaliação a fazer sempre em final de ano, a fim de sermos dignos de qualquer Campanha que se preze. Inda mais a nossa devendo ser de fraternidade. Do contrário, teríamos que trocar o nome de Campanha por simples propaganda ou divulgação de um tema importante".

Antonio Cechin, irmão marista e miltante dos movimentos sociais, é autor do livro "Empoderamento Popular. Uma pedagogia de libertação". Porto Alegre: Estef, 2010.

Eis o artigo, aqui reproduzido via IHU.


Eis que o Natal vem aí!... E vem com força!... Com a força que Deus costuma dar ao evento que acontece ao longo de dois mil e onze anos, sem solução de continuidade.

Mas cadê os profetas?... Cadê os Isaías, Jeremias, Malaquias e tantos outros que anunciaram com grande antecedência, ao longo de todo o Antigo Testamento, a vinda do Deus Messias Salvador?...

Cadê hoje, o tonitruante João Batista, do Novo Testamento, Precursor que vinha logo aí, correndo na frente do cortejo real, gritando aos quatro ventos o nome do Justiceiro que, à semelhança de um foguista, estaria a caminho a fim de limpar a sua eira? Cortaria a árvore seca? Tocaria fogo em toda a planta que não desse frutos, a ponto de assustar a muitos que perguntavam: "E daí?... O que devemos fazer para escapar do flagelo iminente?" a que o Batista respondia: "Quem tem dois pães dê um a quem não tem; e quem tem duas túnicas faça o mesmo?"

Mas cadê mesmo os profetas de hoje? Aqueles que têm como Missão ler os sinais dos tempos para o povo, isto é, clarear os acontecimentos em sua significação mais profunda? Cadê os evangelizadores ou transmissores da Boa Nova?... Cadê os Catequistas da Libertação anunciando que o fim do cativeiro está a caminho, uma vez mais, por ocasião do Natal ano 2011, às portas?

Nos tempos que correm e que são os nossos, na falta de autênticos evangelizadores, o Deus-Amor, o Paizinho dos céus nos envia uma vez mais, o seu Filho muito amado. Em seu infinito amor O envia para um povo cada vez mais surdo e cego, sem olhos para ver e sem ouvidos para ouvir. Por isso mesmo, Ele já não fala mais do mesmo jeito que antigamente quando dizia "Eu ouvi os clamores do meu Povo". Em 2011, Ele fala com mais ênfase: "Meu Povo: Eu hoje estou ouvindo berros que são da Mãe Natureza!"

Não esqueçamos que o único Mestre Jesus de Nazaré, de uma feita, soltou a queixa: “se os profetas deixarem de gritar, as pedras falarão!” Pois não é que vivemos tempos de pedra? Já nos alertava o profeta da cidade de Hipona (norte da África) o bispo Agostinho. Ele vivia nos bons tempos chamados "dos Padres da Igreja", por terem sido fundadores de Comunidades ou Igrejas. Na qualidade de Bom Pastor, Agostinho dizia: "Deus perdoa sempre; os homens, de vez em quando; mas a Natureza não perdoa nunca!" É que, a respeito dos bons tempos de antigamente, aqueles de Agostinho, dos padres da Igreja, o escritor clássico português, padre Manuel Bernardes, contemporâneo do Concílio de Trento, em seu livro "A Nova Floresta" nos diz: "Antigamente os cálices eram de pau, mas os padres eram de ouro; hoje, os cálices são de ouro e os padres de pau!" Em tempos de pedra, não deveríamos preparar a chegança de Quem prometeu "trocar coração de pedra por coração de carne"?... Substituir ódios e guerras por amor e paz?...

Neste 2011 o Lite-motiv, isto é "o motivo condutor" da Igreja, no Brasil, é a Natureza. O lema que nos ilumina é a frase de São Paulo: "A Natureza geme em dores de parto enquanto espera a manifestação dos filhos de Deus".

Pois não é que domingo passado iniciou o ano litúrgico com o primeiro domingo do advento ou seja, a primeira das quatro semanas que preparam o Natal? Isso aqui em terra, porque da banda dos céus, o que nos veio, exatamente aqui, na região metropolitana, neste início de advento? Nada menos que um imenso toró, com uma ventania de velocidade superior a 100 quilômetros horários, destelhando centenas de casas, derrubando postes elétricos de cimento armado, pondo por terra árvores e muros, abalroando automóveis e provocando outros desastres similares. Até pouco tempo atrás, cataclismos desse tipo aconteciam como verdadeira raridade. Hoje desastres ditos naturais acontecem com sempre maior freqüência com nomes os mais diversos, tais como: tsunamis, tempestades, desmoronamentos, destelhamentos, demolições, vulcões, maremotos, e quejandos outros designativos.

É a Natureza saída das mãos de Deus que não suporta mais tanta agressão por parte dos "filhos de Deus" ingratos e que não tornam Deus manifesto de jeito nenhum. Ela, a Mãe Natureza não consegue mais suportar as agressões que recebe, de quem tem o dever de tratá-la com respeito e cuidados, como merece a obra de arte tecida pelo artista Criador.

Será que em algum lugar desta região metropolitana se estará lendo "o sinal dos tempos" tão claro como o berro que a natureza deu aqui, inteiramente perceptível para nossos olhos e nossos ouvidos, em nome do único Mestre Jesus de Nazaré?... Será que em alguma sala de aula de religião de alguma escola, ou em alguma catequese em âmbito paroquial, algum profeta, algum evangelista, algum catequista da libertação, ou em alguma homilia de missa dominical ter-se-á ligado o berro da natureza com o grande grito do Homem-Deus pregado no Calvário no instante da morte? Grito e berro naquele instante final de Vida do Mestre por excelência, se deram juntos, numa fusão homem-natureza. O primeiro, o Homem, fazendo parte integrante e inseparável da segunda, a Natureza.

Funcionará o Natal deste ano como o fecho de ouro de um ano em que vivemos melhor alfabetizados ecologicamente? Qual foi a eficiência da nossa Campanha da Fraternidade marca 2011 que termina? É uma avaliação a fazer sempre em final de ano, a fim de sermos dignos de qualquer Campanha que se preze. Inda mais a nossa devendo ser de fraternidade. Do contrário, teríamos que trocar o nome de Campanha por simples propaganda ou divulgação de um tema importante.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Nessa Mesa nos ensinais

Imagem postada pelo autor

Um assíduo seguidor no Twitter e amigo no Facebook, Marcelo Spitzner, publicou o texto abaixo em seu ótimo blog What about? e teve a gentileza de nos enviar o link. É para nós uma honra sermos citados por ele, e é com alegria que reproduzimos sua tão lúcida reflexão aqui.

Esse post se diferencia dos outros postados aqui por uma temática ainda não abordada, mas que é extremamente importante para mim, que ocupa boa parte das minhas reflexões cotidianas porque minha história foi profundamente marcada por uma vivência religiosa católica e, sobretudo, católica eucarística e litúrgica.

Geralmente aos domingos, costumo me dedicar a refletir sobre minha relação com Deus ou com a Espiritualidade. Não têm sido reflexões fáceis de serem feitas, pois desde que me decidi por não mais frequentar a Comunidade Católica e de assumir em relação a ela uma posição política de não aceitação de certas contradições com práticas evangélicas essencias (tais como o verdadeiro acolhimento, o amor fraterno, o perdão, a enfase na pregação do Kerygma muito mais do que o apontamento do dedo dos pecados e das contradições humanas, mas também em termos cidadãos a pouco boa vontade de se debruçar de maneira aberta a estudar e dialogar questões ligadas às minorias, às sexualidades, às legítimas escolhas e condições humanas, a questões ligadas ao casamento e à reprodução percebendo de maneira racional e inteligente, o que não afasta em nada da fé e da dogmática, o desenvolvimento cultural e social através dos tempos e da história.), meu sentimento, às vezes, é de angustia e exclusão. Algumas vezes, no entanto, a sensação de que algo poderia ser feito. Nessas vezes, penso que vivemos tempos dificeis em que as mentes e corações abertos para discutir, pensar, e assumir posições missionários num sentido mais inclusivo e libertador são vozes enfraquecidas e/ou ofuscadas em tempos de aparente ( ou real) retrocesso nos avanços conciliares sentidos nas décadas de 60, 70 e bem nos inícios dos 80.

Então, nesse domingo como nos outros, voltei-me para refletir no silêncio do meu quarto os passos da liturgia eucarística dominical; lembrei muito do refrão de um canto de comunhão, que, se não me engano, foi composta em tempos de Campanha da Fraternidade (campanha idealizada e iniciada por D. Hélder Câmara, bela e santa figura e sem o devido reconhecimento), para, no tempo quaresmal, levar a comunidade católica a se posicionar de maneira mais humana e fraterna frente às necessidades, tristezas e misérias do próximo (tempo de lembrar das palavras de Jesus na parábola do Bom Samaritano: Quem é o teu próximo?), e que diz o seguinte:

1. Ó Senhor, nós estamos aqui,/ junto à mesa da celebração,/ simplesmente atraídos por Vós,/ desejamos formar comunhão!
Igualdade, fraternidade,/ nesta mesa nos ensinais.

As lições que melhor educam, na Eucaristia é que nos dais! (bis)

2. Este encontro convosco, Senhor,/ incentiva a justiça e a paz;/ nos inquieta e convida a sentir/ os apelos que o pobre nos faz.

As questões que me ocorreram foram:

a) Que ideia temos e que ideia a comunidade cristã tem de igualdade? O que significa igualdade no contexto da mesa eucarística? Há pessoas mais iguais do que outras?

b) Na esteira da pergunta de Jesus, quem é o teu próximo?, pode-se perguntar: quem é o teu igual? quem é o diferente? O que contitui a igualdade e a diferença?

c) O que é fraternidade? Que fraternidade cabe e qual não cabe ao redor do pão e do vinho dado para salvação de todos?

d) A quem e por que interessa dividir as pessoas em relação a certas condutas? A quem e por que interessa deslocar certos conceitos e não outros? - Aqui me lembro de alguns textos do Blog da Lola: como esse em que ela aponta pra coisas que eram consideradas, assim como a homossexualidade, abominação e que para ninguém, hoje, são consideradas causas de abominação.

Acabei me sentindo realmente excluído da mesa da igualdade e da fraternidade e da Igreja daquele que disse ter vindo pra que todos tivessem vida e vida em abundância e que havia alertado aos fariseus e aos doutores da Lei que as prostitutas os precederiam no Reino.

No entanto, ainda tenho esperanças de que alternativas novas e evangélicas bem como pessoas proféticas se levantem para mudar essa realidade. Tenho uma amiga que, mesmo muito ortodoxa e conservadora, me confirma essa esperança pela sua disposição de amar e sua capacidade de reflexão. Nesses momentos sempre busco suas palavras, suas orações. Nesse domingo não foi diferente, mandei uma sms, sua resposta foi pronta e confortadora. Eu me senti o seu próximo.

Lembrei-me, também, de um padre e do pessoal do Diversidade Católica.

E, senti que posso pôr outra pergunta para mim mesmo: O que queres aprender dessa mesa? Como me colocar a responsabilidade de ajudar na reflexão? O que é possível fazer? E, por fim, para que serve em tempos cada vez mais secularizados, e em meio às minhas posições políticas e teóricas e minhas experiências afetivas, cotidianas voltar-me para essa realidade?

sábado, 3 de dezembro de 2011

Eclesiastes: o leve sussurro no grande silêncio de Deus


Qohelet, autor do Eclesiastes, é o testemunho de um Deus pobre que está perto de nós, não em virtude da sua onipotência, mas da sua "encarnação", e é nessa fraternidade que ele salva e se revela.

A análise é de Gianfranco Ravasi, cardeal presidente do Pontifício Conselho da Cultura, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 25-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo, aqui reproduzido via IHU, com grifos nossos.


Um pseudônimo hebraico, Qohelet, remete ao vocábulo qahal, "assembleia", em grego ekklesia, de onde o greco-latino Eclesiastes se tornou a titulação comum no Ocidente cristão de uma obra objeto de diversas decifrações ainda.

Interpretado como texto pessimista, cético, considerado expressão da ideologia da aurea mediocritas, influenciado pela filosofia grega do século III a.C., considerado um guia ascético de desapego e desprezo do mundo à parte da tradição cristã, ele foi, nas últimas décadas, reportado por alguns exegetas ao leito reconfortante do otimismo por causa de algumas passagens, sendo específico, sete (2, 24-25; 3, 12-13; 3, 22; 5 ,17; 8, 15; 9, 7-9; 11, 7-10), das quais surgiria um apelo ao sereno gozo das escassas alegrias que a vida reserva.

A essa interpretação também se aproximaria, paradoxalmente, o escritor francês Albert Camus, quando, no Mito de Sísifo, vê em Don Giovanni "um homem nutrido pelo Eclesiastes", "um louco que é um grande sábio", porque "esta vida o satisfaz" (...)

O tom dominante é o da inconsistência, emblematicamente encarnada no vocábulo caro a Qohelet, hebel/habel, que ressoa 38 vezes, às vezes na forma superlativa habel habalîm, o célebre vanitas vanitatum da versão latina da Vulgata: o termo alude à fumaça, ao vapor, ao sopro e, portanto, define a realidade como vazio, vacuidade, caducidade irreversível. (...)

A rachadura que revela a presença do hebel no ser e no existir se encontra também na inteligência humana. Qohelet é um sábio, um escriba, um intelectual (12, 9-10); despreza estupidez, em 85 vezes introduz as suas reflexões em primeira pessoa, consciente de uma originalidade do seu pensamento. Porém, o resultado final do conhecer é áspero: grande sabedoria é grande tormento, quem mais sabe mais sofre (1, 13-18).

"Até o filósofo que acredita guiar o mundo" – escreve um comentarista, Daniel Lys – "não guia mais do que o vento. O paradoxo da sabedoria é que a sabedoria suprema consiste em saber que a sabedoria é vento quando pretende ser suprema".

Não há, então, nenhuma diferença entre sabedoria e estupidez? Não, responde Qohelet, há uma diferença e é terrível: o sábio é atormentado, o ignorante é hilário na sua vulgaridade. Só o inteligente vê o vazio que corrói o ser e a morte que permeia todo ato que se realiza debaixo do sol. (...)

O Deus de Qohelet é um Deus absconditus: "A imensidão de Deus não tem, para Qohelet, nada de emocionante; maravilha em si, permanece pura impenetrabilidade" (Horst Seebass).

Os bons motivos que Deus – chamado 32 vezes de 40 de ha-'elohîm, isto é, "o Deus", de modo frio e distante – pode ter são para nós isentos de incidência, porque permanecem desconhecidos para nós. A sua obra contém dentro de si uma incompreensibilidade tal que extingue qualquer interrogação e torna vã não só a contestação, mas também qualquer tentativa de decifrar o seu sentido (veja-se sobretudo 4 ,17 - 5, 6).

Nesse ponto, surge uma interrogação: como podemos, depois de ter lido todas as páginas desse autor de temas muitas vezes desconcertantes e até provocadores, definir Qohelet como "palavra de Deus"? Ou ainda, como fez o cânone das Escrituras judaicas, e, portanto, a comunidades judaica e cristã, acolher em seu próprio interior um texto aparentemente "escandaloso"?

Certamente, a interpretação "ascética", que usou a obra como se fosse um apelo ao desapego das coisas, ajudou na inserção de Qohelet nas Escrituras, ou, pelo menos, serviu para amortecer a provocação como, além disso, aparece no epílogo do redator final que reduz o ensino Qohelet à dogmática sapiencial clássica (12, 13-14).

Os rabinos, para "justificar" Qohelet, também recorreram aos seus sete apelos ao gozo das alegrias lícitas, apelos distribuídos na obra, ou ao fato curioso e alegórico de que a primeira e a última palavra do livro (respectivamente: dibrê, "palavras", e ra', "perverso, mau") encontram-se na Torá, isto é, a Lei!

Na realidade, há um caminho para compreender como essa teologia tão nua e pobre possa, em seu bom direito, fazer parte e ser coerente com a "Revelação" bíblica. Para a Bíblia, a palavra divina se encarna e se expressa através da história e da existência. Ela, por isso, também adquire míseros revestimentos, pode se fazer pergunta, súplica (Salmos), até imprecações (Jó) e dúvida (em Qohelet). Quer-se, assim, afirmar que, na própria crise do homem e no silêncio de Deus, pode-se esconder uma palavra, uma presença, uma epifania secreta divina. O terreno humano da interrogação amarga, assim como o de Jó, pode ser misteriosamente fecundado por Deus.

A Revelação, portanto, pode passar por meio das escuridões de um homem como Qohelet, desencantado e em crise de sabedoria, já perto da fronteira do silêncio e da negação. O silêncio de Deus e da vida não é, para a Bíblia, necessariamente uma maldição, mas é uma paradoxal ocasião de encontro divino ao longo de estradas inéditas e surpreendentes. Qohelet é, portanto, o testemunho de um Deus pobre que está perto de nós, não em virtude da sua onipotência, mas da sua "encarnação", e é nessa fraternidade que ele salva e se revela.
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